LEÃO I – A ÚLTIMA CARTADA NO OCIDENTE

Leo I Louvre Ma1012 n2 by Marie-Lan Nguyen

(Busto do imperador Leão I, foto de Marie-Lan Nguyen)

 

Em 18 de janeiro de 474 D.C, falece, em Constantinopla, o Imperador Romano do Oriente, Leão I, após uma crise de uma doença cujos sintomas assemelhavam-se à disenteria.

De origem Trácia e nascido em 401 D.C, nesta província, ou, segundo outras fontes, na Diocese da Dácia Aureliana (compreendendo partes das atuais Bulgária e Sérvia), Leo Marcellus foi um militar que ascendeu até o posto de Tribuno dos Mattiari (regimento do exército romano cujos soldados eram especializados no uso da “mattea”, ou seja, maça), cargo em que ficou diretamente subordinado à Áspar, comandante em chefe do Exército Romano do Oriente e homem forte do Império.

Áspar era um prestigiado general de etnia alana que chefiava as tropas germânicas que, naquele momento, constituíam o esteio do exército oriental (cujo efetivo tradicionalmente romano havia sido virtualmente eliminado entre 363 e 378 D.C, na Pérsia e em Adrianópolis). Devido a isso, Áspar  havia sido o “padrinho” do então Imperador Romano do Oriente, Marciano, coroado em 450 D.C.

Marciano era também um soldado que progrediu sob o comando do generalíssimo Áspar e seu reinado caracterizou-se pelo fim do pagamento do subsídio anual aos Hunos de Átila, que, percebendo que Constantinopla era inexpugnável, se voltou contra o Império Romano do Ocidente, por reformas econômicas e pelo Concílio de Calcedônia, que tratou da ortodoxia cristã.

Marciano morreu subitamente em 27 de janeiro de 457 D.C., após uma crise de gangrena. Áspar precisava por um substituto no trono e pensou que a melhor alternativa era repetir a fórmula que adotara com Marciano: colocar no trono um subordinado de sua confiança.

Assim, em 07 de fevereiro de 457 D.C.,  Leo Marcellus (Leão) foi coroado imperador do Império Romano do Oriente, em Constantinopla.

Segundo as fontes, Leão I foi o primeiro imperador romano cuja coroação teve a participação do Patriarca de Constantinopla, ritual que depois se tornaria costumeiro na Europa Medieval.

Áspar pensava que Leão seria mais um imperador-fantoche, porém Leão tinha outros planos para o seu reinado… Paulatinamente, ele foi firmando a sua autoridade e, engenhosamente, aproximou-se de alguns militares de origem isáuria, inclusive o chefe isáurio Tarasicodissa, ou Tarasis Kodisa, que depois mudaria o seu nome para Zenão (ou Zeno).

Em 461 D.C, Leão recrutou os Isáurios para servirem na sua recém-formada Guarda Imperial, chamada de “Excubitores“, expressão que significava, os “Sentinelas” (literalmente, “os do lado de fora da cama”). Posteriormente, nos séculos VI e VII, valendo-se dos Excubitores, vários imperadores seriam elevados ao trono, e muitos Comes Excubitorii (Condes dos Excubitores) se tornariam imperadores bizantinos, tais como: Justino I, pai do grande imperador Justiniano I, Tibério II e Maurício.

Byzantine 6th century

(possível traje de um excubitor oriundo da Isáuria)

Os Isáurios eram um povo montanhês de índole guerreira que habitava a Província romana da Cilícia, na Ásia Menor (dentro do território da atual Turquia). Apesar da regiao ter sido conquistada pelos romanos no século I D.C, os Isáurios nunca chegaram a ser totalmente subjugados. Ao longo dos séculos, eles foram apenas parcialmente romanizados, mas adotaram o cristianismo ortodoxo (Niceno), fato que, naquele final do século V, fazia-lhes parecer mais aceitáveis para os cidadãos de Constantinopla do que os godos ou alanos (que professavam a heresia ariana), muito embora os Isaúrios ainda fossem considerados bárbaros por muitos romanos.

Em 466 D.C, Tarasis Kodisa (Zenão), oficial Isáurio dos Excubitores, acusou o filho do general Áspar de traição, o que azedou as relações entre este e o Imperador.

Leão I, em 467 D.C, recompensou Tarasis Kodisa dando-lhe em casamento a sua filha Ariadne, e também reforçando a aliança com o militar isáurio, que mudou seu nome Natal para o grego Zenão. Antes que o casamento completasse um ano, Ariadne deu a luz ao filho de Zenão, que recebeu o nome do avô, Leão. Zenão também foi nomeado para o importante posto de Magister Militum per Thracias.

Ao contrário de seu antecessor Marciano, Leão I demonstrou bastante interesse nos assuntos do Império Romano do Ocidente. Ele por duas vezes interveio na sucessão do trono ocidental, nomeando para ser imperador do Ocidente, em 467 D.C, Antêmio, que ocupara importantes cargos administrativos e militares e era membro de uma influente família da nobreza de Constantinopla, parente distante do próprio Constantino, o Grande, Mais tarde, em 473 D.C , Leão nomeou Júlio Nepos, Imperador do Ocidente.

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A primeira cartada de Leão I na sucessão ocidental, nomeando Antêmio foi brilhante.

O trono ficara vago com a morte de Líbio Severo, em 465 D.C, que foi mais um dos imperadores-fantoches que o general de origem Goda e Sueva, Ricimer, que mandava no Ocidente desde 456 D.C, tinha colocado no trono imperial , já que sua origem bárbara o impedia de assumir a coroa ele mesmo.

Leão nomeou Antêmio Imperador do Ocidente. Ele era, um experiente homem público de origem tão ilustre (seus antepassados eram parentes de Constantino, fundador do Império Romano do Oriente) que chegou até ser considerado um candidato potencial ao trono. Leão, assim, astutamente, enviou-o para a Itália, com um exército, para fazer valer os interesses de Constantinopla no Ocidente. Antêmio foi proclamado Imperador em 12 de abril de 467 D.C.

Com isso, Leão impediu que Geiserico, rei dos Vândalos, colocasse no trono ocidental o seu próprio fantoche, Olíbrio, valendo lembrar que os Vândalos haviam invadido e conquistado a rica província da África, em 439 D.C, e, partindo dessa base, saqueado Roma, em 455 D.C. No ano anterior, o último general capaz do Ocidente, Aécio, que passaria à História como “O Último dos Romanos”, fora assassinado, esfaqueado pessoalmente pelo Imperador Valentiniano III.

Aécio habilmente conseguira reunir um pequeno exército romano coligado com contingentes bárbaros “federados” (foederati), notadamente visigodos, francos, saxões e alanos. Porém, essa aliança baseava-se no prestigio de Aécio. Morto o Generalíssimo, as tropas e os aliados sumiram. Por isso, consta que um membro da corte, ao saber do assassinato de Aécio, teria dito a Valentiniano III: “Vossa Majestade cortou sua mão direita com a esquerda”…

Em 455 D.C, dois soldados bárbaros leais à Aécio vingaram a sua morte e assassinaram Valentiniano III. O vândalo Geiserico agora era o monarca mais poderoso do Ocidente e aproveitou a oportunidade para saquar Roma, sem qualquer oposição militar. Ele levou para Cartago quase tudo que havia de valor na Cidade Eterna, incluindo o candelabro de sete braços do Templo de Jerusalém, que havia sido capturado por Tito e, não menos importante, a viúva e as duas filhas de Valentiniano III, aproveitando-se para, alguns anos depois, casar seu filho, Hunerico, com Eudocia, a mais velha.

Os Vândalos agora eram a principal ameaça ao Império do Ocidente. Desde 439 D.C, eles controlavam a melhor parte da África, que havia se tornado a principal fornecedora de cereais para Roma (o Egito fazia parte do Império do Oriente) e, partindo de Cartago,invadido à Sicília, chegando até mesmo a atacar cidades na Grécia, domínios do trono oriental.

A perda da África fora um duro golpe sofrido pelo Império Romano do Ocidente. Os impostos africanos, seja em moeda ou em produtos agrícolas, constituíam grande parte da receita ocidental e a capacidade de Ravenna pagar os seus soldados foi drasticamente reduzida. Como o Exército Ocidental, naquele momento, era praticamente composto por tribos germânicas à serviço do Império, além das desmoralizadas e maltratadas guarnições de tropas fronteiriças (limitanei), o fato é que, sem dinheiro, O Império do Ocidente não tinha muito a oferecer às tropas, fossem elas romanas ou bárbaras, a não ser, para estas últimas, a sua condição de presa fácil para saques e pilhagens.

Quem dava as cartas no Ocidente era Ricímer. Quando o seu imperador-fantoche Líbio Severo morreu, Ricímer, acossado pela real possibilidade de Geiserico colocar a sua própria marionete, Olíbrio, no trono, foi obrigado a referir a sucessão ao legítimo Imperador do Oriente, Leão, que nomeou Antêmio. Para selar a aliança, Antêmio deu a Ricimer a mão da própria filha, Alípia, em casamento.

Para que qualquer arranjo no Ocidente desse certo, no entanto, era necessário eliminar a ameaça vândala.

Leão planejou uma gigantesca operação militar combinada visando a esmagar os Vândalos para sempre: 1.113 navios zarpariam de Constantinopla, transportando forças estimadas em 100 mil homens (há controvérsias sobre esse número), sob o comando de seu cunhado Basilisco, para atacar diretamente Cartago. Concomitantemente, o general Heráclio deveria zarpar do Egito com direção à Tripolitana, e dali, marchar por terra contra Cartago. Enquanto isso, o general Marcellinus atacaria a Sicília e, após derrotar os invasores Vândalos lá instalados, rumaria também para Cartago.

A operação tinha começado bem, pois Heráclio conseguiu desembarcar em Tripolitana e Marcellinus dominou os Vândalos na Sicília. Porém, o grande erro de Leão foi ter escolhido o seu incompetente cunhado Basilisco, irmão da Imperatriz Verina, como comandante da principal ponta do ataque. Basilisco após conseguir dispersar a frota vândala na Sicília, facilmente fundeou na Baía de Cartago, mas, ao invés de imediatamente atacar Geiserico, inexplicavelmente, ele aceitou um pedido de trégua de 5 dias pedido pelo rei bárbaro. Geiserico aproveitou o refresco para construir novos barcos e balsas incendiárias, Como normalmente a sorte não ajuda a incompetência, no final da trégua, fortes ventos lançaram as balsas vândalas em chamas contra a frota romana e metade dela foi incendiada. Basilisco teve que fugir com os remanescentes para a Sicília, visando se juntar a Marcellinus. Este porém, foi assassinado, suspeita-se, a mando de Ricimer. Heráclio, quando soube da derrota em Cartago, resolveu recuar de volta para o Egito. Foi esse o final desastroso da campanha que poderia ter salvo o Império do Ocidente.

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O custo para o Tesouro do Império do Oriente foi imenso: toda a reserva de 100 mil libras de ouro foi gasta no custeio da expedição. Para resumir, Constantinopla agora estava quebrada.

Logo se seguiu um motim das tropas estacionadas na Trácia que quase conseguiram matar o seu comandante Zenão. As suspeitas da instigação da revolta recaíram sobre Áspar. Os Vândalos também aproveitaram a sua vitória e resolveram atacar diversas cidades costeiras na Grécia, devastando-as.

Zenão, porém, conseguiu sobreviver e quando voltou, teve a alegria de conhecer o filho que Ariadne lhe havia dado. A criança recebeu o nome do avô, Leão, que, agradecido, nomeou Zenão como Cônsul para o ano de 469 D.C., além de ser nomeado “Magister Militum per Orientem

Áspar sentindo a sua posição cada vez mais ameaçada, tentou recompor sua posição persuadindo Leão a nomear seu filho mais novo, Patrício, como “César” (título que na época do Baixo Império correspondia ao de príncipe-herdeiro) e a casá-lo com a outra filha do Imperador, Leôncia. Porém o clero e a população de Constantinopla se opuseram veementemente às pretensões de Áspar (promovendo um tumulto no Hipódromo), tendo em vista que ele e o filho eram cristãos arianos. Áspar, inclusive, teve que prometer que se converteria ao credo niceno, antes que o casamento fosse realizado.

Contudo, após a nomeação de Patrício, mas antes do casamento, Leão I e Zenão armaram uma cilada e conseguiram, em 471 d.C., assassinar Áspar e seu filho nais velho, Ardabur, no interior do Palácio Imperial. Algumas fontes contam que Patrício também foi morto, e outras que ele foi ferido, mas conseguiu sobreviver. Os soldados godos estacionados em Constantinopla tentaram vingar a morte do chefe atacando o Palácio, mas foram derrotados pelos Excubitores.

Com a morte de Áspar, o Império do Oriente diminuiu bastante a sua dependência dos chefes militares de origem germânica, que logo deixaram de ter ingerência nos assuntos internos imperiais, muito embora os Godos continuassem ocupando partes da Trácia e da Macedônia, agora governados pelo seu recém-eleito rei, Teodorico. Leão concordou também em pagar cerca de 1000 quilos de ouro aos bárbaros. Porém, um grupo de Ostrogodos, que não eram governados por Teodorico, resolveu atacar o Império do Oriente, saqueando a Dácia e a Macedônia.

Governando um estado falido pelo custo assombroso da expedição contra os Vândalos, Leão foi obrigado a espremer os já exaustos contribuintes romanos até o talo para conseguir administrar o Império.

Leão I faleceu em 18 de janeiro de 474 D.C, aparentemente de disenteria, aos 73 anos de idade, sendo sucedido, por um breve período, pelo seu neto, Leão II, de apenas 7 anos. O menino, porém, morreria, morreria em 17 de novembro daquele mesmo ano, de uma doença desconhecida, dando combustível a rumores de que teria sido envenenado para que fosse sucedido por seu poderoso pai, Zenão.

O reinado de Leão acabou sendo marcado pelo desastre da expedição africana. Podemos, é certo, culpar o imperador pela escolha de seu incompetente cunhado como comandante. Mas devemos observar que, frente a seus colegas imperiais do século V, Leão merece reconhecimento por ter tomado uma iniciativa muito ousada que, se tivesse sido bem sucedida, teria uma boa probabilidade de permitir a existência de um Império Romano do Ocidente viável, compreendendo a Itália, o sul da Gália e a África, o que teria mudado a História Mundial. Nesse caso, sem dúvida, o nome de Leão deveria ser incluído entre os grandes imperadores romanos.

Devemos também dar crédito à sua iniciativa de criar os Excubitores e afastar os soldados germânicos de Constantinopla, o que contribuiu para a sobrevivência e posterior grandeza do Império Romano do Oriente, ou Bizantino.

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