CONSTÂNCIO III – O ÚLTIMO IMPERADOR-SOLDADO DO OCIDENTE

Em 8 de fevereiro de 421 D.C., o Comandante em Chefe do Exército do Império Romano do Ocidente, Flávio Constâncio, foi coroado Augusto pelo Imperador Honório, tornando-se, assim, ele também, Imperador Romano do Ocidente, com o nome de Flavius Constantius Augustus, que passou à História como Constâncio III.

 

 

Constantius_III-RIC_1325

(Solidus, moeda romana de Constâncio III, foto de http://www.cngcoins.com)

Flávio Constâncio foi um militar de carreira no Exército Romano, e, como tantos outros colegas seus que ingressaram na carreira militar na segunda metade do  século IV, ele nasceu nos Bálcãs, mais especificamente em Naissus (atual Nîs, na Sérvia), cidade natal do imperador Constantino, o Grande, em honra de quem provavelmente foi batizado. Constâncio III, provavelmente , era de origem Trácia e/ou Ilíria

 

Medijana_u_Nišu

(Ruínas do Palácio de Constantino, nos arredores de Naissus, foto de J tomic m )

Não se sabe a data do nascimento de Flávio Constâncio, mas as fontes nos contam que, durante o reinado do imperador romano do Ocidente, Honório,  ele alcançou o posto de Magister Militum (Marechal do Exército), por volta de 410 D.C ( ou talvez até um pouco antes disso), ocasião em que deveria possuir uma idade entre 40 e 50 anos,  aproximadamente. Portanto, Flávio Constâncio deve ter nascido na década de 350/360 D.C.,  em uma época na qual, provavelmente pela última vez, o Império do Ocidente conseguiu reunir um exército composto de um núcleo principal de romanos,  e não de bárbaros, até a desastrosa Batalha de Adrianópolis, em 378 D.C,  que foi vencida pelos Godos.

Desde o início do  longo, mas fraco, reinado de  Honório – que, tendo apenas 10 anos de idade,  havia assumido o trono do Ocidente após a morte de seu pai, Teodósio  –  o seu tutor, e homem-forte do governo,  foi o general de ascendência vândala (por parte de pai) Estilicão (Stilicho), o comandante-em-chefe do Exército Romano do Ocidente e maior responsável pela estratégia do governo da metade ocidental do Império, no período.

stilicho (1)

(um dos dois painéis de um díptico de marfim, representando o general Estilicão)

O maior desafio enfrentado por Estilicão foi a crescente ameaça dos Godos, que após serem assentados em terras romanas e apaziguados por Teodósio, voltaram a agir militarmente contra o Império. Porém, essa ameaça, para ser combatida com eficiência, necessitava da cooperação entre as metades ocidental e oriental do Império Romano, o que Estilicão, visto com suspeitas em Constantinopla, não logrou, tanto pela sua origem semibárbara, como pela suas reiteradas tentativas de intervenção nos assuntos da corte oriental.

O fato é que Estilicão falhara nas duas oportunidades que teve para liquidar os Godos, deixando –  intencionalmente ou não, ninguém pode afirmar – seu rei Alarico escapar.

Para piorar, depois que os Godos invadiram a Itália, Estilicão, sabedor da precariedade da situação militar ocidental, defendeu que as vultosas exigências que os Godos estavam fazendo para deixarem a península italiana fossem atendidas. Os adversários políticos de Estilicão no Senado, integrantes da tradicional nobreza romana,  aproveitaram para estimular um motim do Exército da Itália e Estilicão acabou sendo deposto e executado ordens de Honório, em 408 D.C.  Contudo, a execução de Estílicão teve como único resultado prático fazer desaparecer o exército, majoritariamente de mercenários bárbaros, que ele tinha reunido em razão do seu prestígio militar e político.

Depois de saquearem Roma, em 410 D.C, os Godos continuaram ao largo na Itália, levando, como refém, a irmã de Honório, a princesa Gala Placídia, sem, contudo, lograrem tomar a capital ocidental, Ravenna.  Observe-se que, nessa época, Constâncio já devia ser o Comandante-em-chefe do Exército do Ocidente.

A situação militar do Ocidente se deteriorava rapidamente, valendo lembrar que, em 406 D.C., os bárbaros Vândalos, Alanos e Suevos aproveitaram o congelamento do Reno para invadir a Gália em grande número. O fato de Ravenna não ter sido capaz de organizar nenhuma ação militar em resposta, levou o governador da Britânia, Flavius Claudius Constantinus (Constantino III) a se autoproclamar imperador romano, aproveitando para atravessar o Canal da Mancha e levando consigo todo o exército romano da Britânia, para entrar na Gália, em 407 D.C., bem como estabelecendo a sua capital na cidade de Arles, no ano seguinte.

Flávio Constantino, a seguir,  fez incursões na Hispânia e também conseguiu guarnecer  momentaneamente a fronteira da Gália.  Sem alternativas para combater o usurpador, Honório, ao receber os emissários enviados por Flávio Constantino,  em 409 D.C. reconheceu-o como “Augusto” e, portanto, seu colega imperial, a quem a História daria o nome de Constantino III.

 

Constantineiii

(Solidus de Constantino III, foto de Classical Numismatic Group)

Constantino III , por sua vez, teve que enfrentar uma rebelião do seu general Gerontius, que, na Hispânia, aclamou o usurpador Maximus como imperador. Agora, porém, seus limitados domínios estavam sob ataque por todos os lados: Gerontius, após derrotar as suas tropas em Vienne, sitiou o próprio Constantino III, em Arles,  uma nova onda de bárbaros cruzara o Reno, e a Britânia, agora indefesa, estava sob ataque dos Saxões.

Foi nesse quadro que Flávio Constâncio surgiu em cena como o Comandante em Chefe do Exército Romano do Ocidente e, liderando as tropas da Itália, em 411 D.C., ele entrou na Gália e derrotou Gerontius. Constantino III, todavia, não se beneficiou em nada da derrota de Gerontius, pois, agora, era Constâncio que lhe fazia o cerco em Arles. Constantino III acabou se rendendo e, por um momento, recebeu salvo-conduto para se retirar da cidade e se ordenar padre, mas, pouco depois, acabou sendo executado por ordens de Honório.

De volta à Itália, Flávio Constâncio colocou pressão militar sobre os Godos, que foram obrigados a deixar a Itália, talvez com o incentivo de algum ouro, e foram se instalar no sul da Gália, em 412 D.C. Em recompensa, Constâncio foi nomeado Cônsul para o ano de 413 D.C.

 

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

(Relevo em marfim, retratando Flávio Constâncio (Constâncio III), como Cônsul)

Na Gália, após uma breve trégua com Honório, que foi selada pelo casamento do rei visigodo Ataulfo com Gala Placídia (não contra a vontade dela), em 414 D.C.,  Flávio Constâncio, inteligentemente, submeteu a costa da Gália a um bloqueio naval, causando a ocorrência de fome entre os Godos, que foram obrigados a deixar a Gália e ir para a Espanha, onde Ataulfo foi assassinado por um desafeto, em 415 D.C.

Em função da estratégia de Constâncio, o sucessor de Ataulfo, Wallia, aceitou uma paz em termos mais favoráveis à Ravenna, assumindo o compromisso de, em troca de comida,  voltarem ao status de foederati, ou seja,  ficarem os bárbaros obrigados a prestar serviço militar ao Império  e de devolverem a princesa Gala Placídia à Ravenna.

Devido a isso, em 416 D.C., Flávio Constâncio foi novamente recompensado, agora com o título de “Patrício”, o qual, no Baixo Império Romano do Ocidente, significava algo parecido a “Grão-Vizir”,  isto é, uma espécie de misto entre primeiro-ministro e comandante supremo do Exército, e, sem dúvida, a pessoa mais importante depois do Imperador.

Em 1º de janeiro de 417 D.C, Flávio Constâncio e Gala Placídia se casaram, ela, agora, contra a sua própria vontade. Gala Placídia era irmã de Honório, filha de Teodósio, o Grande, e neta de Valentiniano I – o último realmente grande imperador do Ocidente. Assim, podemos afirmar que ela era, naquele momento, a mulher mais ilustre do Império Romano.

Também em 417 D.C. nasceu a primeira filha do casal, Grata Justa Honoria. Flávio Constâncio agora era, formalmente, um membro da família imperial, e da prestigiada Casa de Teodósio.  Além disso, ele foi, novamente, nomeado para um Consulado.

Por sua vez, em 2 de julho de 419 D.C., nasceu, em Ravena, capital do Império Romano do Ocidente, Flavius Placidius Valentinianus, filho de Flávio Constâncio e de Gala Placídia., que, futuramente se tornaria o imperador Valentiniano III.

imperial-family-valentinian-iii-justa-grata-honoria-galla-placidia

(Tradicionalmente, embora não haja evidências concretas, acredita-se que este medalhão de vidro pintado ostente os retratos de Gala Placídia e seus filhos Valentiniano III e Justa Honória)

Em 420 D.C, Constâncio foi  nomeado Cônsul pela terceira vez, juntamente com o imperador do Oriente, Teodósio II, no que parecia um testemunho de que sua pessoa, e, sobretudo, a sua política, deviam estar sendo aprovadas por Constantinopla.
Finalmente, em 8 de fevereiro de 421 D.C, veio o justo reconhecimento do papel crucial que  Flávio Constâncio vinha desempenhando no Ocidente: ele recebeu de Honório o título de “Augusto”, o que significa que ele reinaria junto com Honório, como co-imperador, passando à História como Constâncio III (dessa vez, porém, Constantinopla não reconheceu a nomeação).

Narra uma fonte que Constâncio III,  na época de sua aclamação, teria manifestado pesar pela perda de liberdade pessoal, entendendo que  aquilo era um dos fardos que o título de imperador acarretava.

Entretanto, Constâncio III somente reinaria por 7 meses, vindo a falecer de causas desconhecidas, em 2 de setembro daquele ano de 421. Ele, então,  já devia ter entre 50 e 60 anos, talvez até mais. Há um relato de que ele planejava uma expedição contra o Oriente para forçar o seu reconhecimento.

Gala Placídia e seu ainda bebê Valentiniano,  inclusive, tiveram que se asilar em Constantinopla, devido aos tumultos que se seguiram à morte de Constâncio III. Uma fonte alega que o motivo teria sido o repúdio da massa de Ravenna ao boato de que ela e seu irmão Honório  mantivessem uma suposta relação incestuosa. Vale citar, no entanto, que o historiador Edward Gibbon menciona que os soldados godos, nessa ocasião, ficaram do lado de Placídia.

Diante dessa informação de  que houve manifestações públicas contra a morte do imperador e hostilidade contra a imperatriz-viúva,  pode-se especular que Placídia tenha tido alguma participação na morte de seu marido Constâncio III (não se olvidando que era um casamento forçado), ou, pelo menos,  o povo pode ter pensado assim, já que a massa realmente poderia suspeitar de uma imperatriz que, antes do casamento com Constâncio III, tinha  primeiro sido esposa de um rei Godo…

Seja como for, a verdade é  que, naquele momento, o que Roma mais precisava  era de um imperardor-soldado, e de um com talento militar. Por isso, a morte de Constâncio III veio se somar a uma série de infortúnios que se abateram sobre o Império Romano do Ocidente, em um momento decisivo para a sua sobrevivência.