CLÁUDIO II GÓTICO

CLÁUDIO II GÓTICO

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(Busto de bronze do imperador Cláudio II Gótico, foto de Ronan.guilloux/gallery )

Marcus Aurelius Valerius Claudius (Cláudio II Gótico) nasceu em 10 de maio de 214 D.C , na região da Dardania, que fazia parte das províncias romanas da Ilíria e Moésia Superior.

Claudio era de origem humilde e o seu prenome denota que, provavelmente, ele foi um dos homens livres nascidos depois do Édito de Caracala, que estendeu a cidadania romana a todos os homens livres do Império Romano (Caracala se chamava Marco Aurélio Antonino Augusto). Acredita-se, assim, que a família de Cláudio seria de Ilírios recentemente absorvidos, e apenas parcialmente romanizados, que, como muitas outras famílias romanas do período, demonstrou o seu agradecimento dando o nome do benfeitor aos filhos.

De qualquer forma, como muitos dos seus conterrâneos Ilírios durante o século III, Cláudio alistou-se no Exército Romano e foi sendo promovido em virtude do seu desempenho. Consta que ele era dotado de tamanha força física que era capaz de arrancar os dentes não apenas de homens, mas também de bestas de carga, como cavalos e mulas, com apenas um soco.

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(O relevo deste sarcófago romano de meados do século III D.C, mostra romanos combatendo bárbaros, possivelmente Godos, tanto a aparência dos soldados como dos bárbaros é bem estilizada, porém o soldado retratado na fileira do meio no canto direito pode ser considerado uma reprodução fidedigna de um soldado da época em que Cláudio serviu ao Exército)

Durante o reinado do imperador Décio Trajano, também ele um natural da Ilíria (porém, este era um integrante da classe senatorial), Cláudio alcançou o posto de Tribuno Militar e, no reinado do imperador Valeriano, ele foi promovido para um importante comando militar em sua província nativa.

Contudo, Valeriano foi capturado pelos persas em 260 D.C. (E ele morreria no cativeiro). O trono, então, foi assumido por seu filho Galieno. Durante o reinado deste último, Cláudio foi nomeado “Hipparchus”, isto é,  comandante da cavalaria de elite dos Comitatenses, recém criada por Galieno.

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Em 268 D.C, o reinado de Galieno se encontrava acossado por várias ameaças externas e internas: Quase toda a Gália, a Espanha e a Bretanha eram controladas pelo usurpador Póstumo, e estas províncias tinham se tornado, na prática, independentes, sob a denominação de “Império Gaulês“. No leste, o rei de Palmira, Odenato, conseguiu derrotar os persas e restaurar a Síria para os romanos, mas tornou-se o governante de fato da região e virtualmente independente de Roma, com a tolerância de Galieno. Para piorar, nas regiões do Danúbio e do mar negro, pipocavam invasões de “Citas” (que era como os autores do período costumavam se referir aos Godos) e dos Hérulos.

Galieno lutou bravamente contra o Império Gaulês e os bárbaros, obtendo sucesso parcial. Ele conseguiu derrotar Póstumo e reconquistar parte da Gália até o Rio Ródano, mas, durante um sítio a uma cidade, o imperador foi ferido e teve que abandonar a campanha.

Após se recuperar, Galieno foi impedido de combater os Hérulos devido a um motim liderado pelo comandante de cavalaria Aureolus, em Milão.

Enquanto se preparava para combater Aureolus, em setembro de 268 D.C, Galieno foi morto por seus próprios homens, em uma conspiração até hoje obscura. Muito provavelmente, foram os comandantes mais importantes do Exército, como o general (e futuro imperador) Aureliano, o Prefeito Pretoriano Heracliano, o poderoso general Lúcio Aurélio Marciano, e, talvez, o próprio Cláudio, todos eles militares de origem ilíria, que decidiram que era hora de se livrar do desafortunado Galieno.

Alguns autores acreditam que Cláudio foi escolhido imperador pelo fato de ser admirado pelos soldados como um colega oriundo da tropa que dera provas de valentia e força. Outro motivo, seria a suposta percepção de que Cláudio, ao contrário de Aureliano, que era outro candidato em potencial,  seria menos rígido no que se refere à disciplina militar.

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(Antoninianus, moeda cunhada por Cláudio II, foto de Rasiel )

A  contestada História Augusta assevera que Cláudio não participou do complô contra Galieno e que foi este quem nomeou-o sucessor em seu leito de morte, mas muitos historiadores põem isto em dúvida, tal como Procópio, que escreveu sobre o período e menciona a participação de Claudio na trama. Acrescente-se, ainda, que a História Augusta notoriamente faz uma apologia da dinastia de Constantino, época em que a mesma foi escrita, e que Constantino alegava ser descendente de Cláudio, motivo pelo qual o seu autor tenderia a “dourar a pílula” dos relatos relativos a este último.

Não obstante, consta que Cláudio realmente mostrou uma índole branda ao pedir ao Senado que os familiares e partidários do odiado Galieno fossem poupados e, inclusive, ele mesmo solicitou ao Senado que o finado imperador fosse deificado. Após sua coroação, Cláudio passou a se chamar oficialmente Marcus Aurelius Valerius Claudius Augustus.

Em seguida, Cláudio sitiou Milão com o objetivo de capturar Aureolo, que se rendeu, mas foi executado pela traição a Galieno.

Porém, Cláudio teve que lidar com a muito mais ameaçadora invasão dos bárbaros Alamanos, que cruzaram os Alpes e entraram no norte da Itália.

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Na Batalha do Lago Benaco (atual Lago Garda), no final de 268 ou início de 269 D.C, os Alamanos foram derrotados, perecendo metade da força invasora no combate. Por essa vitória, Cláudio recebeu o título de “Germanicus Maximus”.

A cronologia dos eventos é incerta, mas mais ou menos na mesma época, Cláudio infligiu uma esmagadora derrota aos Godos, que haviam invadido o Império no reinado de Galieno. Parece que essa campanha foi iniciada por Galieno e não se sabe com certeza se foi Cláudio ou Galieno quem reinava durante a decisiva Batalha de Naissos (atual Nîs, na Sérvia), onde os romanos esmagaram os Godos.

De qualquer forma, Cláudio certamente eliminou os últimos remanescentes da invasão e derrotou uma grande invasão naval dos Godos e capturando muitos deles, que foram incorporados ao Exército.

Entendemos que foi realmente Cláudio quem derrotou os Godos em Naissos, pois ele passou à História com o cognome “Gótico“, sem que houvesse contestação pelos historiadores contemporâneos. Além do mais, dificilmente o vencedor de tão importante vitória seria assassinado semanas ou meses após tão retumbante sucesso, como vimos que ocorreu com Galieno.

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(Mapa das invasões dos Godos durante o final do reinado de Galieno e o reinado de Cláudio II, mapa da lavra de Dipa1965)

Essa vitória foi tão importante que somente um século depois os Godos voltariam a ameaçar para valer o Império Romano. O general Aureliano teve importante participação como comandante da cavalaria romana na batalha, onde foi destruído e capturado o “laager“, o círculo defensivo de carroças tradicionalmente usado como reduto pelos Godos, formação que, na futura Batalha de Adrianópolis, cem anos mais tarde, seria fundamental para a vitória dos bárbaros.

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Cláudio II Gótico então voltou sua atenção para o Império Gaulês e enviou o general Júlio Placidiano para o sul da Gália, onde conseguiu restaurar a Hispânia e o leste do vale do Ródano para o domínio romano.

Porém, em 269 D.C, a viúva de Odenato, a poderosa Zenóbia, rompeu com o Império Romano e atacou com sucesso a Síria e o Egito. Acredita-se que Cláudio chegou a mandar uma força para contra-atacar a invasão de Zenóbia , mas a expedição teria sido derrotada.

Sem condições de intervir mais decisivamente no Oriente, devido a uma nova invasão no Ocidente, agora dos Juthungi, na Rétia, e dos Vândalos, na Panônia, Cláudio, após partir para Sirmium, para enfrentar os últimos, contraiu uma peste, provavelmente varíola, doença que teria sido introduzida no território do Império pelos Godos, e morreu em janeiro de 270 D.C, aos 59 anos de idade, sendo sucedido por Aureliano.

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(Mapa do Império Romano no final do reinado de Cláudio II Gótico, imagem de historicair)

A carreira e reinado de Claudio Gótico são emblemáticos da era dos chamados imperadores-soldados, da segunda metade do século III D.C, todos oriundos dos povos ilírios de índole guerreira,  e que culminou com o reinado de Diocleciano, que, após reformas administrativas, fiscais e militares, conseguiu estabilizar a situação do Império, interna e externamente.

Os imperadores-soldados ilírios, notadamente Cláudio e Aureliano, foram cruciais para construir o terreno sobre o qual Diocleciano reestruturaria o Império Romano. Por isso, todos eles foram responsáveis por garantir a sobrevivência do Império Romano por mais 200 anos, após a crise do século III. Sem eles, a História da humanidade certamente seria muito diferente.

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