COSME E DAMIÃO – OS MÉDICOS ROMANOS QUE VIRARAM SANTOS

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Hoje, dia 27 de setembro de 2018, a Igreja Católica comemora o dia de São Cosme e São Damião.

Os gêmeos Cosme e Damião nasceram em Aegea (agora Ayas, no Golfo do Iskenderun, Cilícia, Ásia Menor), uma cidade portuária da Proví­ncia romana da Sí­ria, em meados do século III D.C.. Os seus nomes verdadeiros eram Acta e Passio. O pai deles, de nome desconhecido, foi martirizado durante a Grande Perseguição dos cristãos na era de Diocleciano e a mãe se chamava Teodata, ela também venerada como santa pelos ortodoxos. A famí­lia seria de origem árabe.

Cosme e Damião praticavam a medicina em Aegea e alcançaram nesta profissão uma grande reputação entre os locais. Eles não aceitavam nenhum pagamento por seus serviços e por isso  eram chamados de anargiras (em grego antigo: anargyroi – isto é, “avessos ao dinheiro”). Dessa forma, eles trouxeram muitos novos adeptos para a fé cristã.

Quando a perseguição decretada pelo imperador Diocleciano começou, o governador da Síria, Lísias mandou prender Cosme e Damião e ordenou-lhes que renegassem sua fé.

Não obstante os suplícios, os gêmeos se mantiveram constantes sob tortura e, segundo a tradição cristã, de forma milagrosa, eles não sofreram nenhum ferimento, seja por água, fogo, ar, e nem mesmo na cruz. Porém, os seus carrascos não desistiram e eles acabaram sendo decapitados por uma espada. Os demais irmãos deles, Antimo, Leôncio e Euprepio, também foram martirizados junto com eles.

A execução de Cosme e Damião ocorreu no dia 27 de setembro, provavelmente entre 287 e 303 D.C. (mais provavelmente nesse último ano).

Mais tarde, começaram a surgir relatos milagrosos sobre os gêmeos ligados às suas relíquias. Os restos mortais dos mártires estavam enterrados na cidade de Ciro, na Síria, por isso, o imperador Justiniano I (527-565 D.C.) suntuosamente restaurou esta cidade em honra dos mesmos, depois dele ter sido curado de uma doença perigosa, cura essa que foi atribuída à intercessão de Cosme e Damião.

Justiniano também reconstruiu e decorou a igreja dedicada aos gêmeos mártires em Constantinopla, que veio a se tornar um lugar famoso de peregrinação. E em Roma, o Papa Félix IV (526-530 D.C) converteu um antigo edifício romano, edificado pelo imperador Maxêncio em honra de seu filho Valerius Romulus, e que por isso era conhecido como “Templo de Rômulo”, em uma igreja em honra de São Cosme e São Damião.

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(“Templo de Rômulo”, atual Igreja de Santi Cosma e Damiano, em Roma, foto de Anthony M. )

Aliás, o culto a São Cosme e São Damião já havia se espalhado pelo Ocidente ainda durante o fim da Antiguidade, fato que muitos atribuem ao sincretismo religioso que os relacionou às figuras mitológicas de Castor e Pólux, que também eram gêmeos.

No Brasil, Cosme e Damião são considerados santos protetores das crianças, motivo pelo qual, no dia que foi consagrado a eles, os fiéis costumam presentear pelas ruas as crianças com sacos de doces e guloseimas.

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A BATALHA DE ZAMA – ROMA ESTÁ VINGADA

#Zama #BatalhadeZama

Estamos em 9 de outubro de 202 A. C.

Nas proximidades da cidade de Zama Regia, a aproximadamente 130 km ao sudoeste da antiga Cartago, e da moderna Túnis, os exércitos romanos e cartagineses esperam na planície as ordens dos seus comandantes, Públio Cornélio Cipião e Aníbal Barca.

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Os protagonistas acreditam que a batalha será o round final da Segunda Guerra Púnica, que já durava 16 anos, uma guerra que havia se iniciado com o ataque dos africanos à Sagunto, cidade ibérica aliada de Roma, e, ganhado proporções épicas quando o cartaginês Aníbal deixando a Espanha em uma marcha surpreendente, cruzou os Alpes e invadiu a Itália, ali derrotando, uma após uma, as legiões romanas enviadas contra ele.

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Prelúdio

Após a grande vitória de Aníbal na Batalha de Canas, no sul da Itália, em 216 A.C., em que, adotando uma tática magistral, o exército cartaginês destruiu quatro exércitos consulares, matando mais de 60 mil soldados romanos em apenas um dia, todos acreditavam que o cerco e captura de Roma seria uma questão de tempo. Aníbal , inclusive, esperava que as cidades italianas aliadas à Roma iriam passar para o seu lado.

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Porém, os aliados de Roma se mantiveram fiéis. Diante da situação desesperadora, o Senado nomeou um comandante, com poderes ditatoriais, o general Quinto Fábio Máximo, que retomou a sua estratégia de guerrilha e de terra arrasada, evitando confrontos diretos com o multinacional exército cartaginês, que além dos povos púnicos, de origem fenícia e berberes, incluía ibéricos, gauleses e mercenários gregos.

Fábio Máximo, devido a estratégia que adotou, ganhou o apelido de “Cuntator“, ou seja, “protelador” (ou “contemporizador”), com o qual ele passaria a História. E de fato, a “estratégia fabiana” funcionou bem. Aníbal perambulou à vontades durante quase 10 anos pela península italiana, mas o tempo trabalhava a favor dos romanos, já que, longe da pátria, o exército cartaginês ia diminuindo e se enfraquecendo. Até que, em 207 A.C., os cartagineses decidiram mandar para a Itália o seu importante exército que continuava na Espanha, sob o comando de Asdrúbal, irmão de Aníbal,  que também  marchou para cruzar os Alpes e juntar-se às forças do irmão ilustre, com o fim de ambos darem o golpe final em Roma.

Desta vez, contudo, os romanos estavam melhor preparados. Asdrúbal acreditava que ele iria enfrentar apenas um exército consular, no Rio Metauro, na Úmbria. Entretanto, os romanos, secretamente, enviaram  para  juntar-se a este mais um exército, iludindo Aníbal e Asdrúbal, sendo que este último exército conseguiu ficar escondido no acampamento do primeiro.

Assim, valendo-se dessa dessa oculta superioridade numérica, os romanos conseguiram derrotar a força expedicionária cartaginesa, na Batalha do Rio Metauro. A cabeça de Asdrúbal foi cortada e enviada para seu irmão, no sul.

Desse modo, Aníbal perdeu definitivamente a oportunidade de liquidar a campanha na Itália: Ele não receberia mais reforços, e, com os recursos humanos que ele dispunha, ele era incapaz de derrotar Roma, muito embora os romanos ainda não se atrevessem a atacá-lo diretamente.

Concomitante ao quadro acima descrito, os exércitos romanos na Espanha eram comandados por Públio Cornélio Cipião. Sentindo-se confiante com a situação favorável aos romanos na Península Ibérica, após a vitória na Batalha de Ilipa, em 206 A.C., o prestigiado Cipião resolveu voltar para Roma, onde ele conseguiu ser eleito Cônsul.

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Cipião, como primeira medida no mais importante cargo executivo da República, propôs a política de mudar o teatro de operações da Itália para a África, defendendo um ataque direto a Cartago. Assim, ao invés de arriscar uma incerta vitória contra o temido Aníbal na Itália, onde uma nova derrota teria consequências desastrosas, Cipião acreditava que um desembarque nas costas africanas obrigaria o próprio cartaginês a vir em socorro da pátria-mãe.

Todavia, o Senado Romano, influenciado por Fábio “Cuntator, opôs-se ao plano de Cipião, julgando-o muito arriscado. Porém, as sucessivas vitórias de Cipião na Espanha deram-lhe muito prestígio junto ao povo e o Senado, pressionado pela opinião pública, acabou autorizando a expedição idealizada por Cipião, porém negando que os soldados conscritos, recrutados para os exércitos consulares, fossem utilizados.

Assim, Cipião partiu, seguido, inicialmente, por apenas 7 mil voluntários, atraídos pelo seu prestígio, para a Sicília, onde ele ficou durante um ano treinando o seu exército para o confronto na África.

Em 203 A.C., com o seu novo exército pronto, Cipião desembarcou próximo à cidade de Útica, na moderna Tunísia, onde  ele prontamente derrotou um exército cartaginês de cerca de 30 mil homens enviado para repelir a invasão romana.

Essa derrota inicial dos cartagineses consagrou a eficácia da estratégia de Cipião, pois em função dela o Senado de Cartago chamou Aníbal de volta para a África e pediu a paz aos romanos. Observe-se que o próprio general cartaginês foi favorável à capitulação, até porque os termos do tratado proposto pelos romanos, dada a presente situação militar dos cartagineses, eram bem razoáveis: Cartago permaneceria com todos os seus territórios na África,  mas perderia suas colônias na Espanha, Sicília e Sardenha (que, de qualquer forma já estavam em mãos romanas), pagaria uma indenização e, finalmente, teria sua frota reduzida para apenas 40 galeras.

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Entretanto,  durante as tratativas; uma frota romana com suprimentos enviados para as tropas de Cipião acabou encalhando no golfo de Túnis e os cartagineses se apropriaram dos navios e da carga. Era, sem dúvida, uma óbvia violação da trégua, e, provavelmente, os cartagineses se sentiram encorajados  a fazer isso devido ao retorno de Aníbal, embora o grande general continuasse a favor do fim das hostilidades.

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Consequentemente, o Senado de Cartago votou pela rejeição do tratado e pela continuação da guerra. Obediente, Aníbal reuniu o máximo de tropas disponíveis e partiu para interceptar os romanos, sendo o primeiro a chegar nas planícies próximas à Zama, seguido pelos romanos…

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A batalha

Consta que os dois maiores generais que o mundo havia conhecido depois da morte de Alexandre, o Grande, encontraram-se antes da batalha para negociar. Aníbal propôs que o tratado anterior fosse restabelecido. Contudo, Cipião respondeu que, agora, somente a rendição incondicional seria aceita pelo Senado Romano. A paz, portanto, era impossível, e ambos os  generais se retiraram para seus acampamentos.

Os cartagineses tinham cerca de 36 mil soldados de infantaria, 4 mil cavaleiros e 80 elefantes, que deveriam ser os primeiros a atacar. Segundo as fontes, entre as tropas cartaginesas, havia 4 mil soldados macedônios que teriam sido cedidos pelo rei Filipe V, da Macedônia, monarca que já estava incomodado com o aumento do poder romano no Mediterrâneo.

Aníbal dispôs as suas tropas formadas em três linhas: as tropas de seu outro irmão Mago, retiradas da Itália, na primeira linha, as tropas domésticas alistadas para essa campanha, na segunda linha, e, na terceira, na retaguarda, os veteranos que vinham servindo com Aníbal desde a Itália. No flanco esquerdo, ficava a eficiente cavalaria númida e, no flanco direito, a cavalaria cartaginesa, menos experiente.

Já o exército romano tinha cerca de 29 mil homens e 6 mil cavaleiros, sendo a maioria deles númidas fornecidos pelo agora aliado rei Masinissa, que havia sido capturado por Cipião na Espanha e, tinha sido, pelos reconhecidos talentos diplomáticos do general romano, convencido a lutar contra Cartago. A forte cavalaria númida ficou na ala esquerda, e a cavalaria italiana na ala esquerda. Observe-se que os romanos sempre foram fracos em cavalaria, arma que vinha se mostrando muito importante nos combates anteriores,  e, portanto, o apoio de Masinissa era crucial.

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( A ordem de batalha em Zama, diagrama de Mohammad adil)

Preocupado com a ameaça representada pelos elefantes de Aníbal, Cipião, engenhosamente, dispôs as tradicionais três linhas das legiões em blocos espaçados (com exceção das primeiras, para que o estratagema não fosse percebido), como que criando avenidas por onde os elefantes passariam, e no meio das quais estes bichos poderiam ser atacados pelos lados. Para assustar os elefantes, Aníbal instruiu a cavalaria a soprar trombetas a plenos pulmões, fazendo um ruído ensurdecedor.

Quando a batalha começou, assim como previsto, parte dos elefantes se apavorou com o barulho e voltou em direção aos próprios cartagineses, criando confusão em suas linhas, e a outra parte passou pelos corredores sem causar danos de monta.

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Masinissa atacou a cavalaria númida cartaginesa, que já tinha sido desorganizada pela fuga dos elefantes, fugindo esta do campo de batalha. Por sua vez, Aníbal ordenou que a cavalaria cartaginesa remanescente desengajasse para atrair a cavalaria romana para fora do campo de batalha, com a intenção de impedir que esta fosse utilizada contra a sua infantaria.

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Cipião, então, ordenou que a infantaria romana avançasse. Como sempre, as linhas cartaginesas não conseguiam resistir muito tempo ao assalto dos legionários. Porém, ao contrário do que ocorrera na Batalha de Canas, os cartagineses agora não tinham mais o apoio da cavalaria para ajudar a montar a mesma armadilha usada naquela oportunidade: o falso recuo do centro da linha visando fazer os romanos serem cercados pelas tropas cartaginesas nos flancos da sua formação, e pela cavalaria cartaginesa na retaguarda. Aníbal, notando a situação difícil, ordenou que a sua segunda linha não permitisse o recuo da primeira, e a batalha recrudesceu com a massa de tropas envolvidas. Temendo ser flanqueado pelo número superior de tropas cartaginesas, Cipião ordenou que as legiões formassem agora uma só linha. Era uma manobra complicada que, em meio à confusão do campo de batalha, somente era possível devido ao excepcional treinamento e disciplina do legionário romano e ao excelente nível dos oficiais subalternos (centuriões graduados).

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Não obstante, a batalha restou indecisa até o momento que a cavalaria de Cipião retornou, após haver perseguido os inimigos, e atacou a infantaria cartaginesa pela retaguarda. Agora acossados pela frente e por trás, as linhas cartaginesas foram sendo desmanteladas e destruídas. No final, vinte e cinco mil soldados de Cartago foram mortos e o restante foi feito prisioneiro.

Epílogo

Aníbal conseguiu escapar com uma escolta de cavalaria para Hadrumeto, e dali ele alcançou Cartago, onde ele recomendou ao Senado que se rendessem aos romanos, o que acabou sendo aceito, apesar de muita oposição. Deve ter sido um momento devastador para aquele menino que, décadas antes, jurara ao seu pai, Amílcar Barca, perante um altar, que ele seria inimigo de Roma para sempre!

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Banido de Cartago, em 195 A.C., Aníbal foi asilar-se na corte de Antíoco III, rei da Selêucia e outro grande adversário de Roma. Quando Roma derrotou também esse reino, em 183 A.C., Aníbal fugiu para a Bitínia, onde, após o seu anfitrião, o rei Prúsias, ser intimado a a entregá-lo aos romanos, ele cometeu suicídio.

Públio Cornélio Cipião voltou para Roma onde ele celebrou um magnífico Triunfo e foi agraciado com o congnome “Africano“. Disputas políticas, entretanto, fariam com que o grande herói romano da Segunda Guerra Púnica fosse banido da vida pública, falecendo, coincidentemente, também em 183 A.C.

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Com a vitória, Roma tornou-se a potência suprema no Mediterrâneo ocidental,  governando a Península Itálica, a Sicília, a Sardenha, a Espanha e o sul da França. Assegurada a supremacia naquela vasta região, em poucos anos Roma seria capaz de derrotar, um a um, na Grécia, na Ásia e no Egito, os Estados helenísticos, herdeiros do vasto império de Alexandre, iniciando, por conseguinte, uma hegemonia política e cultural que duraria 500 anos, ou até 1500, se contarmos o período relativo ao Império Romano do Oriente,  centrado em Constantinopla.

VIRGÍLIO

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Em 21 de setembro de 19 A.C. morreu o grande poeta romano Virgílio, na cidade de Brundisium, na Itália, quando ele voltava de uma viagem à  Grécia, o poeta romano mais conhecido em todos os tempos.

A poesia de Virgílio, rica em temas rurais, pastoris e épicos, foi muito bem recebida pelo nascente regime inaugurado pelo imperador Augusto, pois o novo regime procurava exaltar os costumes tradicionais e as virtudes do camponês italiano, o que casava com a propaganda imperial. Por isso, Virgí­lio contou com o patrocí­nio de Caio Mecenas, rico amigo e partidário de Augusto, que, de tanto apoiar escritores, acabou virando o substantivo que significa “patrono das artes”.

As  grandes obras de Virgílio são as Bucólicas, as Geórgicas, e, a mais célebre de todas, a Eneida, um monumental poema épico que  trata da fundação mítica de Roma, cantando a ligação da lendária Tróia com os romanos. A Eneida integrava o currículo básico de formação de todos os romanos e citações do seu texto já foram encontrados em achados arqueológicos desde a África até a Inglaterra, inspirando poetas durante a Antiguidade, a Idade Média, o Renascimento e mesmo até hoje em dia. Dante Alighieri e Luís de Camões, para citar exemplos, foram profundamente influenciados por Virgílio, como podemos observar nas obras “A Divina Comédia” e “Os Lusíadas“.

Publius Vergilius Maro  (Públio Virgílio Marão ) nasceu em 15 de outubro de 70 A.C. (segundo a tradição), próximo à cidade de Mântua, a qual, fundada pelos Etruscos, foi depois controlada pelos Gauleses, até ser conquistada pelos Romanos, na época da Segunda Guerra Púnica.

Depois de aprender a ler e escrever, Virgílio foi estudar nas cidades de Cremona e Milão, que eram as principais cidades da província romana da Gália Cisalpina. Já chegada a mocidade, ele foi para Roma estudar Retórica, Medicina, Astronomia e, finalmente, filosofia. Em Roma, Virgílio estudou e aprendeu grego com o famoso gramático e poeta Parthenius de Niceia. Ele também conviveu e fez parte do círculo de poetas chamados de neotéricos, que procuravam se afastar dos cânones da poesia homérica clássica, e foi discípulo do poeta, historiador, intelectual  e estadista Gaius Asinius Pollio (Asínio Polião). Completando a sua formação, Virgílio foi para Nápoles, estudar com o filósofo epicurista Siro.

Foi no período que se seguiu à morte de Júlio César que Virgílio começou a sua carreira como poeta. Parece que as propriedades rurais de sua família em Mântua foram confiscadas na série de proscrições decretadas pelos sucessores de César, os Triúnviros Marco Antônio e Otaviano, e isso acabou inspirando em parte a sua primeira série de poesias com temas predominantemente pastorais, batizadas de Éclogas (ou Bucólicas), mas, onde, de modo diverso ao formato tradicional desse tipo de poesia, estabelecido pelo poeta grego Teócrito de Siracusa, Virgílio fez alusões ao assassinato de César, aos horrores da guerra civil e o nascimento de uma criança miraculosa, que viria dar fim à “Era de Ferro” (Écloga IV). Esse poema, séculos mais tarde, seria considerado por autores cristãos como tendo profetizado o nascimento de Jesus Cristo, como podemos ver no trecho abaixo (muito embora, os especialistas apontem que se trata de uma referência a Otaviano, o futuro imperador Augusto):

“Sicilianas Musas, nossos cantos, um tanto soergamos:

nem a todos deleitam os arbustos, os tamariscos franzinos,

se é aos bosques que cantamos,

que de um cônsul os bosques sejam dignos!

Eis que na verdade, do oráculo de Cumas vem chegando a derradeira idade:

Dos séculos a grande ordem de novo recomeça;

Eis que volta a Virgem; eis que de Saturno o reino já regressa,

e dos altos céus nova linhagem desce!

Mal nasça o menino com que já fenece

a férrea idade, e de polo a polo

se mostre a áurea estirpe, tu, casta Lucina, o favorece!

Já reina o teu Apolo!

Em teu consulado, ó Polião, e sob a tua guia,

principiará a glória desta nova era,

e dos grandes meses o transcurso, dia a dia.

Se de nosso crime algum vestígio houvera,

írrito será doravante,

e livre quedará do pavor eterno a esfera.

Dos deuses receberá vida o nascituro infante,

e aos deuses juntos os heróis verá;

ver-se-á a si a estes mesclado,

e o mundo regerá,

pela virtude paternal pacificado.

Depois das Éclogas, que foram publicadas por volta de 38 A.C., Virgílio ingressou no círculo de poetas patrocinado por Mecenas, com o objetivo de fazer propaganda das ideais políticos de  Otaviano e que também incluía outro grande poeta romano, Horácio.

Foi Mecenas quem insistiu para que Virgílio escrevesse a sua próxima obra, as Geórgicas, uma ode à vida rural da Itália, versando sobra as lavouras, a avicultura, estocagem e apicultura, com alguns versos laudatórios a Otaviano. A série foi terminada em 29 A.C., mas, segundo consta, antes disso, Mecenas e Virgílio costumavam declamar os poemas para o futuro Augusto.

A leitura de alguns versos da Écloga VI e das Geórgicas mostra que, durante a sua produção, Virgílio já estava elaborando as ideias para a sua próxima obra, que se chamaria Eneida.

Na Eneida, poema épico que é considerado a obra-prima de Virgílio, narra, em versos hexâmetros, a trajetória do mítico herói troiano Enéias, que foge de Troia após a Guerra narrada na Odisseia de Homero, levando o pai, Anquises, e o filho, Ascâneo, e, guiado pelos deuses, passa por Cartago, onde a rainha Dido se apaixona por ele, mas acaba por se suicidar devido a partida do herói, que ouvira dos deuses que ele iria fundar um grande cidade, e  termina por se estabelecer na Itália, onde ele se fixa no Lácio e se apaixona por Lavínia, a filha única do rei Latinus, que estava prometida para Turno. O romance causa uma guerra entre os Troianos e os outros povos italianos, que é vencida pelos primeiros, e termina com Enéias matando Turno.

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Na Eneida, Ascâneo, filho de Enéias, é chamado Iulus,  de quem a gens Julia alegava descender. Assim, explicitamente, o poema associava Augusto, sobrinho-neto e filho adotivo de Júlio César a Enéias e à própria deusa Vênus, que era mãe daquele herói mitológico.

A Eneida compreende doze livros,  e alguns deles foram recitados para Augusto e a família imperial pelo próprio Virgílio, em 23 A.C..

Em 21 de setembro de 19 A.C., quando voltava de uma viagem à Grécia, onde tinha contraído uma febre, Virgílio morreu, quando chegou no porto italiano de Brundisium (atual Brindisi).  Ele ainda não tinha finalizado a Eneida, que ainda carecia de alguns retoques. Inclusive, consta que, com essa finalidade, ele teria retornado à Itália a pedido de Augusto.

Consta que Virgí­lio, antes de morrer, teria determinado que os manuscritos da Eneida fossem queimados, não se sabendo o motivo, mas Augusto, quando soube dessa última vontade do poeta, proibiu a destruição do manuscrito e providenciou a sua publicação, que foi feita por um velho amigo do poeta, Varius.

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(Túmulo de Virgílio, em Nápoles)

 

DOMICIANO, UM BOM “MAU IMPERADOR”…

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PRÓLOGO

Em 18 de setembro de 96 D.C., em um suntuoso aposento da recém-completada Domus Flaviae, o grandioso complexo palaciano  que os imperadores da dinastia flaviana haviam construído na colina do Palatino, descortinava-se um sangrento cenário: dois cadáveres sem vida jaziam no chão, junto com duas adagas ensanguentadas, em uma poça de sangue, no meio da luxuosa mobília revirada. Eram os corpos do imperador romano Domiciano e do liberto Stephanus, que em vida fora o secretário pessoal de Flávia Domitila, a irmã do imperador.

HISTÓRICO FAMILIAR, NASCIMENTO E INFÂNCIA

Nascido em 24 de outubro de 51 D.C., Titus Flavius Domitianus (Domiciano) era o filho mais novo do general Tito Flávio Vespasiano (que se tornaria o imperador Vespasiano) e de Flávia Domitila, a Velha. Os Flávios eram uma família de origem sabina, proveniente da cidade de Reate, os quais, no final da República, ingressaram na classe dos Equestres (ou Cavaleiros), que era o segundo ní­vel hierárquico da nobreza romana.

Com efeito, o primeiro Flávio de que se tem notícia havia sido um mero centurião das tropas de Pompeu, na Batalha de Farsália, durante a guerra civil travada entre este e Júlio César, e que, depois deste conflito, estabeleceu-se como coletor de impostos. O filho dele, chamado Titus Flavius Sabinus, também foi coletor de impostos na Proví­ncia romana da Ásia e além de banqueiro.

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Já a família de Domitila, a Velha, a mãe de Vespasiano, havia se estabelecido na cidade de Sabratha, na colônia romana da África, durante o reinado do imperador Augusto, sendo que o pai dela era um simples secretário de um questor daquela proví­ncia.

Vespasiano, junto com seu irmão, Tito Flávio Sabino, tiveram sucesso no serviço público e no Exército Romano, durante os reinados dos imperadores Calígula e Cláudio.

Ressalte-se que Vespasiano, inclusive, conseguiu ingressar no círculo mais íntimo da corte de Cláudio, muito em função da sua união amorosa com a liberta Antônia Caenis, que era secretária pessoal da mãe de Cláudio, Antônia, a Jovem, e da sua amizade com o poderoso liberto Narcissus, que era um dos principais assessores imperiais, com status de ministro.

Assim, durante o reinado de Cláudio, graças a essas privilegiadas ligações,  Vespasiano conseguiu alcançar o cume da carreira das magistraturas romanas (Cursus Honorum), ao ser nomeado Cônsul, em 51 D.C, mesmo ano em que nasceu Domiciano, o seu filho caçula.

O primogênito de Vespasiano, Tito, nascido em 39 D.C. (doze anos antes de Domiciano), também se beneficiou da proximidade do pai com o palácio no reinado de Cláudio: ele teve o raro privilégio de ser educado junto com Britânico, o filho natural do referido imperador.

Tito e Domiciano também tinham uma irmã, chamada Flávia Domitila, a Jovem, também nascida em 39 D.C. (Curiosidade: a filha dela, que também se chamava Domitila, seria cristã e, muitos anos mais tarde, ela seria canonizada pela Igreja Católica como Santa Flávia Domitila e as chamadas Catacumbas de Domitila, em Roma, têm este nome porque as terras onde elas foram escavadas pertenceriam a ela, que as legou para a nascente comunidade cristã da Cidade, ainda no século I D.C).

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Apesar dos tempos de fartura e glória vividos pelo pai, as fontes narram que quando Domiciano nasceu, a sua família estava de fato na pobreza. O motivo mais provável para isso, ao que tudo indica, é o fato de que o seu pai Vespasiano teria caí­do em desgraça quando Agripina, a Jovem, a última esposa do imperador Cláudio, foi, pouco a pouco, dominando o velho e influenciável imperador e aproveitou-se disso para afastar os desafetos dela, sobretudo, aqueles que ela julgava que ameaçavam a ascensão de seu filho Nero ao trono. E entre os piores desafetos da nova imperatriz encontrava-se Narcissus, o amigo e protetor de Vespasiano.

Entretanto, enquanto Domiciano era ainda uma criança pequena, a sua mãe, Domitila, a Jovem, morreu. Vespasiano então resolveu assumir o romance com Antônia Caenis e os dois passaram a viver em “Contubérnio“,  uma forma de concubinato que era admitida pela lei romana.

Todavia, segundo as fontes, seja por apego à memória da mãe, seja por ciúme do pai, ou por outro motivo qualquer,  Domiciano não gostava de Antônia Caenis e o historiador Suetônio, inclusive, relata que, certa vez, quando a “madrasta” tentou saudá-lo com um beijo, Domiciano a impediu, e em vez de oferecer a face,  estendeu-lhe a mão…

Assim, quem parece ter cuidado mesmo do menino Domiciano foi Phyllis, a sua ama, que esteve próxima a ele  durante toda a sua vida (e mesmo depois, como  veremos mais tarde)…

JUVENTUDE E FORMAÇÃO

Finalmente, quando Nero, passados os primeiros anos do seu reinado,  conseguiu dar cabo de Agripina, em 59 D.C., Vespasiano, ainda um general respeitado, voltou a receber comandos importantes. Assim, em 60 ou 63 D.C, ele foi nomeado governador da África. Nesse período, Domiciano ficou aos cuidados de seu tio Sabino, enquanto seu irmão Tito, que já tinha idade militar, fazia carreira no Exército, servindo na Germânia e na Britânia.

Sabemos que Sabino não descurou da educação do sobrinho, pois Suetônio nos conta que, já adolescente, Domiciano estudou Retórica e Literatura, sendo capaz de declamar poetas importantes, como Homero e Virgílio, em público, e de manter uma elegante conversação em eventos sociais. Consta, além disso, que na juventude, Domiciano chegou a publicar poemas e até alguns escritos sobre Direito.

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Suetônio descreve Domiciano como sendo um jovem alto e de boa aparência, mas que, na idade madura, ficaria barrigudo e calvo. Como curiosidade, com relação a esse  último traço, consta que Domiciano  escreveu um “Tratado sobre Cuidados com os Cabelos“, que, infelizmente, não sobreviveu.

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Vespasiano foi nomeado pelo imperador Nero para comandar o grande exército que fora reunido para combater a Grande Revolta Judaica, em 66 D.C., ao qual se juntou, a seguir, Tito, que recebeu o comando da XV Legião.

Em 68 D.C., quando estourou a rebelião do governador Vindex, na Gália o fato que iniciou a cadeia de eventos que resultaria na deposição e no suicídio de Nero Tito foi enviado à Roma por Vespasiano para transmitir o reconhecimento das Legiões na Judéia ao novo imperador, Galba. Porém, antes de chegar à Roma, Tito recebeu a notícia de que Galba havia sido assassinado e de que, agora, Oto (Otão) era o novo imperador. Ele decidiu, então, retornar para a Judéia para ver o que o seu pai decidiria.

Entretanto, no conturbado ano de 69 D.C, que ficaria conhecido como o “Ano dos Quatro Imperadores“, Oto foi derrotado por Vitélio, que se tornou o novo imperador. Enquanto isso se desenrolava na Itália, Tito teve vital importância e participou diretamente das negociações que levaram Muciano, o Governador da Província da Síria, a jogar a cartada de reconhecer Vespasiano como imperador, desprezando o reconhecimento de Vitélio por Roma.

Assim, Vespasiano partiu para a capital para reclamar o trono e deixou sob o comando de Tito a campanha contra a Grande Revolta Judaica, que ficou com a tarefa de liderar a fase mais difí­cil da guerra: o cerco e captura de Jerusalém. Ao tomarem conhecimento da aclamação na Síria, as legiões do Danúbio, sob o comando de Antônio Primo, também escolheram apoiar Vespasiano e invadiram a Itália, derrotando as tropas de Vitélio na Batalha de Bedríaco, saqueando em seguida a cidade de Cremona.

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A ASCENSÃO DE VESPASIANO E O PAPEL DESEMPENHADO POR DOMICIANO

Enquanto isso, em Roma, Vitélio informou a Tito Flávio Sabino, o irmão de Vespasiano, que ocupava, fazia onze anos, o cargo de Prefeito Urbano de Roma, a, sua intenção de renunciar. Porém, os soldados de Vitélio e o populacho da cidade,  quando souberam disso, protestaram violentamente e cercaram Sabino e a sua famí­lia, incluindo o jovem Domiciano, os quais se refugiaram na colina do Capitólio, que chegou a ser incendiada pelos partidários de Vitélio no conflito. Domiciano conseguiu escapar dos perseguidores, mas Sabino foi capturado e executado.

Dois dias depois, as tropas de Antônio Primo tomaram Roma e depuseram Vitélio, que foi arrastado pelas ruas, torturado e morto. Em seguida, as tropas aclamaram Domiciano como “César“ (um tí­tulo que começava a adquirir o significado de “prí­ncipe-herdeiro”).

Em dezembro de 69 D.C., o Senado Romano reconheceu Vespasiano como imperador – embora ele ainda estivesse no Oriente. Assim, o seu correligionário Muciano, que havia chegado à Roma um dia depois da morte de Vitélio, imediatamente assumiu o comando das tropas leais a Vespasiano que tinham tomado a capital e passou a administrar o Império em nome do novo imperador, contando com a ajuda de Domiciano, que, então, tinha apenas 18 anos de idade e foi nomeado pelo Senado para o cargo de Pretor com poderes consulares, de acordo com o historiador Tácito.

Narram as fontes que o jovem Domiciano, mostrando  bastante audácia e uma indisfarçável ambição pelo poder,  logo nomeou várias pessoas para diversos cargos importantes, tais como governos de províncias, prefeituras e, até mesmo, para o consulado. Por esse motivo, segundo o historiador Dião Cássio, o sempre bem-humorado Vespasiano teria chegado a mandar uma carta contendo a seguinte mensagem para o filho:

“Obrigado, meu filho, por me permitir manter o meu cargo e por não ter me destronado“.

Ainda durante o Ano dos Quatro Imperadores, havia estourado na Gália uma grave revolta dos auxiliares batavos, liderada por Gaius Julius Civilis. Domiciano, embora não tivesse nenhuma experiência militar, tentou liderar a reação contra a rebelião, assumindo o comando de uma legião, mas acabou sendo dissuadido por Muciano.

Entretanto, Tito, o filho mais velho de Vespasiano, que conduzia com brilho a guerra contra os judeus, enquanto ainda estava no Oriente  foi, em 70 D.C, nomeado Cônsul junto com o pai. Em seguida, em 71 D.C, Tito recebeu o Poder Tribunício, no que era um claro sinal de que ele seria o herdeiro e sucessor do pai  e afastando qualquer pretensão que Domiciano pudesse ter).

Certamente, com essas medidas, o sábio Vespasiano quis evitar um dos principais fatores de instabilidade nos reinados dos seus antecessores da dinastia dos Júlios-Cláudios: a pouca clareza quanto à sucessão, pela existência de vários pretendentes dinásticos.

Tito também foi nomeado Prefeito da Guarda Pretoriana e, assim,  agindo como comandante da guarnição militar da capital e da Guarda de Honra do Imperador, ele foi implacável na vigilância e repressão a potenciais ameaças ao reinado do pai, tendo de fato executado sumariamente vários supostos conspiradores.

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(Triunfo de Tito, óleo de Sir LawrenceAlma-Tadema 1885, mostrando Vespasiano, seguido por  Tito e Domiciano, este de mãos dadas com Domícia Longina, que olha sugestivamente para Tito)

CARREIRA PÚBLICA E CASAMENTO

Durante o reinado de Vespasiano, Domiciano foi designado seis vezes  Cônsul Suffectus (um consulado honorário, menos importante do que o ordinário), mas manteve o tí­tulo de César, sendo nomeado sacerdote de vários cultos, além de receber o tí­tulo de “Príncipe da Juventude” (Princeps Juventutis). Mesmo assim,  Vespasiano sempre deixou evidente que a precedência era do irmão mais velho.

Contudo, a primazia dada a Tito não quer dizer que Domiciano estivesse sido excluído da sucessão dinástica: Vespasiano tentou casar Domiciano com Júlia Flávia, que era a filha única de Tito, e, portanto, sobrinha dele, quando esta era apenas uma criança, mas a iniciativa não teve sucesso porque, naquela época,  Domiciano já estava apaixonado por Domícia Longina, filha do famoso general Cneu Domí­cio Corbulão, que tinha se suicidado a mando de Nero por suspeita de haver participado de uma conspiração.

Domícia Longina era filha de Júnia Lépida, tataraneta do imperador Augusto e, portanto, junto com sua irmã, ela era uma das últimas descendentes da dinastia dos Júlios-Cláudios, que fundaram o Império Romano. Domícia era casada com o senador Lucius Aelius Lamia Plautius Aelianus, de quem  ela se divorciou para se casar com Domiciano, por volta de 70 D.C.

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Em 23 de junho de 79 D.C, Vespasiano morreu de causas naturais e Tito foi imediatamente aclamado como novo Imperador Romano, com a idade de 39 anos.

Tito não tinha herdeiros do sexo masculino e sua única filha, Júlia Flávia, tinha 14 anos de idade. Ele havia se divorciado, ainda durante o reinado de Nero, de sua esposa Márcia Furnilla.

Durante a Guerra Judaica, Tito se apaixonou pela rainha Berenice, filha de Herodes Agripa, que logo tornou-se sua amante e, depois  da guerra, ela foi viver com ele em Roma. Esta era uma união politicamente inviável para Tito, e qualquer filho advindo desta relação estaria obviamente excluí­do da linha sucessória do trono. Com efeito, devido à pressão da opinião pública, Tito teve que despachar Berenice de volta para o Oriente. Portanto, agora, naquele momento, Domiciano era, de fato, o herdeiro natural do trono imperial.

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Os autores antigos mencionam que a relação entre os irmãos Tito e Domiciano era, no mí­nimo, fria e distante. Isso provavelmente decorria da grande diferença de idade e do pouco contato que eles devem ter tido, já que, enquanto Domiciano crescia, Tito já tinha entrado no Exército, acompanhando Vespasiano em suas campanhas. Deve-se mencionar, todavia, que o historiador Flávio Josefo relata que, durante a Guerra Judaica, Tito comemorou o aniversário de Domiciano em uma cerimônia pública, em Cesaréia.

Em 80 D.C., nasceu o único filho de Domiciano e Domí­cia Longina, cujo nome, entretanto, não foi preservado.

Em 13 de setembro de 81 D.C, Tito morreu de uma febre súbita, após reinar por apenas dois anos. Consta que as suas últimas palavras teriam sido:

“Cometi somente um erro”.

O real significado da frase derradeira de Tito sempre suscitou muita discussão entre os historiadores. Para alguns, ele se referia ao fato de não ter executado o irmão Domiciano, cujo caráter já há tempos já dava mostras de ser tirânico, ou porque ele teria conspirado para derrubar Tito, mas não há qualquer evidência de nenhum desses fatos.  Alega-se, também, que Tito nunca reconheceu formalmente Domiciano como sucessor e herdeiro, mas vale notar que Domiciano já era o Cônsul designado para o ano de 80 D.C. e talvez as medidas destinadas a lidar com os efeitos da erupção do Vesúvio, ocorrida ainda em 79 D.C., e que consumiram muito do tempo do primeiro ano do reinado de Tito, tenham-no distraído da questão sucessória, ou então, ante à ausência de qualquer outro rival, a posição de Domiciano tenha parecido óbvia. No plano das fofocas, também argumentou-se que Tito poderia ter tido um caso com a cunhada, Domícia Longina.

ASCENSÃO AO TRONO E REINADO

Consta que no mesmo dia da morte do irmão, Domiciano correu para o quartel da Guarda Pretoriana, em Roma, onde ele foi aclamado imperador.

No dia seguinte, em 14 de setembro de 81 D.C., o Senado Romano reconheceu Domiciano, conferindo-lhe os títulos de Augusto, Pai da Pátria e Pontifex Maximus, além do Poder Tribuní­cio. Mais do que uma possí­vel demonstração de falta de apreço e de respeito pelo irmão falecido, a conduta de Domiciano de partir imediatamente para o quartel dos pretorianos, ao invés de velar o corpo de Tito, deve ser vista como uma cautela necessária, recomendada pelo histórico das sucessões imperiais.

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Desde os primeiros dias de seu reinado, Domiciano mostrou-se um governante interessado por todos os detalhes da administração pública, como poucas vezes se tinha visto na História de Roma: Ele publicou leis detalhadas sobre vários assuntos e seu estilo de governo pode ser descrito como “microgerenciamento“. Ele também comparecia em pessoa às audiências no Tribunal do Fórum Romano, que ele mesmo concedia aos que apelavam das decisões das Cortes.

Uma das primeiras medidas econômicas de Domiciano foi promover uma valorização do denário, aumentando o seu teor de prata em 12%. Embora , depois de 85 D.C., ele tenha sido obrigado a promover uma pequena desvalorização devido aos gastos com expedições militares e programas de reconstrução, ainda assim, a moeda ainda continuou mais valorizada do que durante o reinado de Vespasiano. Ele também deu especial atenção à taxação dos impostos, aprimorando a cobrança e aumentando as receitas do Estado.

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Graças a outra medida de Domiciano, pela primeira vez na História de Roma, foi possí­vel ter alguma previsão dos gastos e receitas futuras, estabelecendo-se uma espécie de orçamento público embrionário.

Devido ao grande incêndio no reinado de Nero, às devastações da guerra civil  causadas durante o Ano dos Quatro Imperadores e a um outro incêndio, ocorrido em 80 D.C., Domiciano determinou que se executasse um grande projeto de reconstrução dos monumentos destruí­dos, incluindo o vetusto Templo de Júpiter Optimus Maximus, no Capitólio, que foi coberto com um magní­fico telhado de bronze dourado. No total, cerca de 50 edifí­cios importantes seriam reconstruí­dos ou reparados, caracterizando um recorde entre os imperadores romanos.

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Mas novos edifí­cios também foram erguidos, como o Palácio de Domiciano, parte do complexo palaciano da Domus Flaviae, e o enorme Estádio de Domiciano, onde eram disputados os Jogos Agonais (Agone), e que cuja forma sobrevivente daria origem, na Idade Média, à atual Praça Navona (cujo nome vem de “Piazza in Agone“).

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Além de reformar a paisagem urbana de Roma, Domiciano, que se revelou um moralista, também pretendeu reformar os costumes romanos, os quais ele julgava degradados. Em 85 D.C., ele se autoproclamou “Censor Perpetuus“, ou seja, censor vitalí­cio, com a atribuição de supervisionar a moral e os bons costumes. Isso incluí­a velar pela observância dos rituais da religião tradicional de Roma, cuja ortodoxia e pureza ele pretendia restaurar. Assim, Domiciano proibiu a castração de meninos e o comércio de eunucos em todo o Império Romano.

Fontes relatam que Domiciano era particularmente hostil ao Judaí­smo e não é à toa que autores cristãos (religião que, para muitos romanos, aparentava ser apenas uma seita judaica), apontam aquele imperador como um dos grandes perseguidores do Cristianismo. Não há, contudo, nas fontes romanas, evidência de nenhuma perseguição oficial à religião cristã. Com relação aos Judeus, contudo,  é certo que eles foram alvo de um aumento nas taxas e impostos cobrados.

Domiciano também estabeleceu os Jogos Capitolinos, em homenagem a Minerva, a deusa da sabedoria, que ele considerava ser a sua divindade protetora, e a Júpiter.

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Uma medida que causou comoção na época (87 D.C.) foi a ressuscitação da arcaica punição às Virgens Vestais que quebrassem o voto de castidade – serem enterradas vivas – o que não ocorria havia séculos, mesmo ainda durante a República.

O imperador também renovou a Lex Iulia de Adulteriis Coercendis, que punia com exílio o adultério, e vários senadores foram processados por condutas consideradas imorais, incluindo homossexualismo.

Não obstante, Suetônio registra que, em 83 D.C., a imperatriz Domícia Longina teve um caso com um ator chamado Páris, que, por  causa disso, teria sido morto pelo próprio imperador em pessoa.

Como punição, Domícia Longina foi exilada. Neste mesmo ano, também morreria o único filho do casal. Talvez corroído pelo remorso, Domiciano chamou de volta Longina, e os dois voltaram a viver juntos. Ou quem sabe, talvez a morte do menino tenha sido a causa do exílio e o adultério não tenha ocorrido.

O detalhismo da polí­cia de costumes de Domiciano chegou ao nível de exigência de que os cidadãos romanos usassem togas nos espetáculos públicos, muito embora essa vestimenta tradicional estivesse em desuso, pois era cara para os pobres e desconfortável para todos usarem. A orientação autocrática e moralista do reinado também ficou patente no agravamento da punição aos que escrevessem textos considerados ofensivos ao Imperador e na proibição de sátiras e comédias com teor crítico, chegando à completa proibição da apresentação de Mimes, uma espécie de teatro de comédia vulgar e grosseira, onde frequentemente as figuras públicas eram satirizadas.

No entanto, a corrupção no serviço público foi duramente combatida, havendo muitos casos de punições a juízes acusados de receberem propinas, uma queixa recorrente.

Nas províncias, Domiciano também aprimorou a taxação e majorou impostos, mas, em contrapartida, ele criou o cargo de “Curator“ (Curador) para investigar casos de má administração nas cidades do Império. Domiciano também construiu várias estradas na Ásia Menor, Sardenha e Danúbio, e melhorou as instalações defensivas no Norte da África.

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No serviço público, Domiciano privilegiou a nomeação de cidadãos da classe dos Equestres, e até mesmo de libertos, para os cargos mais importantes, em detrimento da classe senatorial. Para alguns autores, as más experiências que Domiciano deve ter tido no Senado, durante os eventos que resultaram na morte de seu tio Sabino e também durante o reinado de Vespasiano e Tito, predispuseram o imperador contra os senadores.

Assim, o imperador, seguindo a tendência inaugurada por Cláudio, administrava o Império auxiliado por um conselho privado que frequentemente se reunia na Vila de Domiciano, na cidade de Alba, a cerca de 20 km de Roma (ou seja, para os padrões antigos, a no mí­nimo uma hora de viagem de Roma, a todo galope ou mais de duas, de carruagem). Esse conselho era composto por amigos (amicii), libertos do imperador e  altos funcionários, como os prefeitos urbano e da guarda pretoriana. Domiciano também manteve a política adotada pelo pai e de pelo irmão de reservar o exercí­cio dos consulados majoritariamente para o imperador, seus filhos e parentes.

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(Criptopórtico, ou passagem subterrânea, da Villa de Domiciano, em Alba)

Indubitavelmente,  todas as medidas citadas faziam parte de uma guinada para um principado absolutista e centralizador. E tudo isso se coadunava com uma ênfase na sacralização da figura do monarca. Não é a toa de que uma das maiores crí­ticas dos autores antigos é a mencionada predileção por parte de Domiciano do tratamento de “Dominus et Deos“ (“Senhor e Deus”), o qual, contudo, até onde se averiguou, jamais constou de documentos oficiais.

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(Estátua de bronze dourado de Domiciano, retratado como Hércules)

Como era de se esperar, essa forma de governar adotada por Domiciano em nada contribuiu para melhorar as relações do imperador com o Senado Romano. Os reinados de Tibério, Calí­gula e Nero, sem falar nos eventos que levaram ao assassinato de Júlio César, tinham já mostrado que os senadores viam a si mesmos como uma classe que tinha direito manifesto a prerrogativas, poderes, cargos e influência no Estado, cuja preterição gerava atritos entre o imperador e o Senado. Augusto havia entendido isso o suficiente para criar um sistema em que, ainda que de forma condescendente e não equânime, uma parcela do poder do Estado Romano era dividida entre o Imperador e o Senado, que continuou intitulado a governar certas Províncias, a poder ocupar as mais altas magistraturas e, não menos importante, a ser merecedor de tratamento deferente pelo Príncipe (“Princeps“ -tí­tulo que, sintomaticamente, tem em sua origem o significado de “primeiro senador”).

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Com efeito, em várias passagens dos livros de história podemos inferir que, para os senadores, tão importantes quanto o poder de fato eram a deferência e as honrarias…E a personalidade arredia de Domiciano tornou as relações com o trono mais difí­ceis…Ele, segundo as fontes, gostava de solidão, possivelmente um traço adquirido pelo afastamento de seus pais na infância.

Há uma anedota na qual se conta que, durante o tempo em que Domiciano passava trancado em seu gabinete, nos intervalos de trabalho, ele se distraí­a capturando moscas e traspassando-as com um fino estilete. Então, jocosamente, quando alguém chegava para despachar e perguntava se havia alguém com o Imperador, os porteiros respondiam:

Nem uma mosca…“

As fontes descrevem Domiciano como sendo frio, distante, arrogante e, por vezes, insolente e cruel. Esses traços, somados às medidas autocráticas, desgastaram as relações com o Senado e, certamente, não lhe granjearam amizades nesta assembleia. Vale notar que: medidas como a punição dos maus administradores e juízes, o afastamento de homossexuais do Senado, e a execução das Virgens Vestais que violavam a sua castidade, atingiam, precipuamente, os membros da elite senatorial. Entretanto, nos oito primeiros anos do reinado de Domiciano aparentemente não houve conspirações…

Enquanto isso, Domiciano dedicou muita atenção à polí­tica exterior e aos assuntos militares e ele aumentou o pagamento do soldo dos militares de 300 para 400 denários.

Em 82 D.C., as legiões sob o comando de Cneu Júlio Agrí­cola derrotaram as tribos no norte da Britânia, chegando até a costa oposta à Irlanda. Há quem sustente que os romanos chegaram até a fazer uma expedição na referida ilha. Posteriormente, no verão de 84 D.C., Agrí­cola derrotou os Caledônios,, os quais se refugiaram nas Terras Altas da atual Escócia (Highlands). Depois, em 85 D.C., apesar do sucesso desta campanha, Agrícola foi chamado de volta à Roma.

Segundo o historiador Tácito, que era genro de Agrí­cola e escreveu uma obra sobre a vida do sogro, o motivo do retorno foi o ciúme de Domiciano de que as conquistas de Agrí­cola ofuscassem o duvidoso triunfo que Domiciano tinha celebrado pela vitória contra a tribo germânica dos Catos, que tinham atacado a Gália.

Porém, mesmo que Domiciano tivesse a intenção de promover uma grande campanha contra os Catos, visando obter uma vitória completa, a mesma foi por água abaixo devido a invasão da Província da Moésia pelos Dácios, em 85 D.C. os quais chegaram a matar o governador romano da proví­ncia. 

A campanha contra os Dácios, que no início chegou a contar com a presença de Domiciano, terminou com a vitória parcial dos romanos, comandados por Cornélio Fusco, em 86 D.C. Porém, pouco tempo depois, os Dácios novamente voltaram a atacar os romanos, ocasião em que a Legião V, comandada por Fusco, foi destruída, morrendo seu comandante. Os Dácios, posteriormente, foram derrotados pelo general Tettius Julianus (Segunda Guerra Contra os Dácios), sem que, contudo, a capital dácia, Sarmizegetusa, fosse tomada.

Provavelmente devido à crescente pressão na fronteira do Danúbio, devido a guerra contra os Dácios e incursões dos Suevos e Sármatas, somada à agressão dos Catos, Domiciano foi obrigado a ordenar uma retirada total das tropas romanas na Caledônia, recuando a fronteira romana uns 120 km para o sul da ilha da Grã-Bretanha.

O fato é que o Exército Romano não podia mais se dar ao luxo de luxo de se comprometer em uma guerra em dois fronts, sendo que a relação custo-benefício de manter a Caledônia não justificava a manutenção daquele território.

E Domiciano, realmente,  deve ter avaliado que a situação estratégica no momento também não recomendava o comprometimento total do exército com uma campanha no Danúbio, pois, logo após a cessação dos combates contra os Dácios ele assinou com eles um tratado de paz no qual Roma concordava em pagar ao rei Decébalo um subsídio anual de oito milhões de sestércios, uma concessão  que foi muito criticada pelos autores antigos.

Desse modo, os Dácios somente seriam conquistados pelos romanos em 106 D.C., pelo imperador Trajano, em uma campanha que de fato  revelou-se durí­ssima.

CONSPIRAÇÃO CONTRA DOMICIANO

Como tantas vezes se veria na História do Império Romano, a combinação de insucessos militares com a impopularidade de um imperador entre os Senadores  teve como resultado uma conspiração para assassinar o monarca. Assim, no iní­cio do ano de 89 D.C., o general Lúcio Antônio Saturnino, um senador que comandava duas legiões na Germânia Superior, foi proclamado imperador pelas suas tropas, na cidade de Moguntiacum (atual Mainz, na Alemanha). Saturnino, muito provavelmente, fazia parte de um grupo de senadores insatisfeitos com o reinado de Domiciano. Ele esperava que o governador da Germânia Inferior, o também senador Aulus Lappius Maximus, se juntasse à rebelião, mas este comandante se manteve fiel ao imperador. Para piorar, os esperados reforços de tribos aliadas germânicas foram impedidos de cruzar o rio Reno devido a uma cheia. Assim, as tropas rebeldes acabaram sendo derrotadas pelos soldados leais ao imperador na Batalha de Castellum, e Saturnino foi executado. Note-se que a conduta de Aulus Lappius de queimar as cartas apreendida em poder de Saturnino é um forte indício de que havia outros senadores envolvidos na trama, em Roma.

Todavia, a revolta de Saturnino exacerbou os já existentes traços de paranoia que já estavam sendo notados em Domiciano. De fato, embora possa ter havido algumas execuções de senadores anteriores a 89 D.C, considera-se que o “reinado de terror“ atribuído a Domiciano efetivamente começou após à referida conspiração.

No ano seguinte, Domiciano dividiu o consulado com o veterano senador Marco Cocceio Nerva (o futuro imperador Nerva), um jurista que, mais de vinte anos antes, havia ajudado Nero a desbaratar a chamada Conspiração Pisoniana.

No chamado “reinado de terror“ de Domiciano, cerca de onze senadores foram executados, por motivos variados. Para se ter uma comparação, o imperador Cláudio executou 35 senadores durante o seu reinado, e, mesmo assim, ele  foi deificado pelo Senado após a sua morte. E o imperador Adriano, logo no primeiro ano de seu reinado, executou quatro, mas os historiadores não se referem a tais execuções como um período de “terror”..

A propósito, consta que Domiciano, certa vez,  teria dito:

“Os imperadores são a gente mais desafortunada, pois, quando eles descobrem uma conspiração, ninguém lhes dá crédito, a não ser que eles sejam assassinados…”.

Mas o motivo alegado para essas execuções dos senadores nem sempre foi o envolvimento deles com conspirações: No caso do primo de Domiciano, Tito Flávio Clemente, um ex-Cônsul, a acusação era de sacrilégio contra a religião romana. Os historiadores acreditam que Clemente se converteu ao Judaí­smo ou ao Cristianismo. Devido a essa acusação, a esposa dele, Flávia Domitila, que era sobrinha de Domiciano, foi banida para uma ilha remota. Essa Flávia Domitila, de quem já falamos acima, era filha da irmã de Domiciano e é mencionada na História Eclesiástica, do bispo cristão Eusébio de Cesaréia, escrita no século IV D.C., como sendo uma mártir cristã que morreu no exílio na ilha de PonzaI e filha da irmã do cônsul Flávio Clemente.

Curiosidade: Há quem associe Tito Flávio Clemente com o Papa Clemente,que depois passou a ser venerado como São Clemente pela Igreja Católica. De fato, uma inscrição teria sido encontrada, durante o Renascimento, nos subterrâneos da Basí­lica de São Clemente, em Roma, contendo a inscrição “T. Flavius Clemens, vir consularis“. Assim, 60 anos após a execução de Jesus Cristo e o início da pregação pelos seus apóstolos, a nascente religião já tinha, ao menos, alguns adeptos nas mais altas esferas da sociedade romana.

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(Entrada lateral da Basílica de São Clemente, em Roma)

ASSASSINATO DE DOMICIANO

Em 96 D.C., até os auxiliares mais próximos de Domiciano estavam apreensivos com o comportamento cada vez mais paranoico do imperador. E a insatisfação do Senado atingiu o limite e, assim,  tudo estava pronto para uma nova conspiração com o objetivo de libertar Roma daquele que eles consideravam ser um odiado tirano.

Com efeito, Domiciano tinha mandado executar seu camareiro, Epafrodito e o substituto deste, Partênio, prevendo que não demoraria muito para que ele sofresse o mesmo destino, contactou um liberto do imperador, Maximus e Stephanus, que era o secretário pessoal da imperatriz Flávia Domitila

Já premeditando a execução do assassinato, Stephanus tinha simulado um ferimento no braço dias antes, com o objetivo de poder esconder embaixo da atadura uma adaga. Para ter um motivo para ser recebido, Stephanus fez chegar ao imperador a informação de que ele tinha descoberto uma trama para assassinar Domiciano, e lhe traria as provas.

Assim, quando Stephanus foi admitido no quarto do imperador, ele aproveitou o momento em que Domiciano estava distraído, lendo o documento que provaria a suposta conspiração, e cravou a adaga na virilha dele. Mesmo ferido, Domiciano conseguiu escapar e apanhar uma adaga. Seguiu-se uma luta feroz, em que Stephanus e Domiciano rolaram pelo chão do aposento. Durante o combate, Stephanus foi ajudado por Maximus e por um colega do camareiro Partênio, Satur, que tinham lhe acompanhado ao quarto imperial. Após levar sete golpes de adaga, Domiciano faleceu, mas  não sem antes levar consigo o próprio Stephanus, que também havia sido golpeado pelo imperador. Domiciano tinha 44 anos de idade quando morreu.

EPÍLOGO

O Senado Romano imediatamente aclamou o  velho senador Marco Cocceio Nerva como imperador, que, por já ser bem idoso e não ter filhos, parecia o candidato mais capaz de ser aceito por todas as facções senatorias e, principalmente, pelo Exército. Aliás, é bem provável que esta solução já fosse apoiada pelos generais mais influentes, como Públio Élio Trajano

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O Senado também decretou que a memória de Domiciano devia ser banida (procedimento conhecido como “damnatio memoriae” e que implicava em apagar inscrições, destruir estátuas e qualquer referência oficial ao nome do imperador).

O cadáver de Domiciano foi levado embora do seu palácio e cremado por iniciativa de sua ex-babá Phyllis, que, tudo indica, nunca se afastou de Domiciano. As cinzas dele foram depositadas no Templo dos Flávios, na colina do Quirinal, em Roma.

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(O Templo dos Flávios, no Quirinal, foto de Cassius Ahenobarbus)

CONCLUSÃO

Os historiadores modernos tendem a favorecer uma revisão do reinado de Domiciano, que foi um governante aplicado e que adotou várias medidas racionais. A imagem negativa dele hoje é considerada por muitos como fruto da antipatia do Senado Romano, valendo observar que os historiadores que escreveram sobre Domiciano, tais como Suetônio, Tácito e Dião Cássio, ou eram todos senadores, como os dois últimos, ou auxiliares próximos à  dinastia que sucedeu Domiciano, como é o caso de Suetônio.

O texto desses historiadores da classe senatorial normalmente divide os imperadores romanos entre “Bons“ e “Maus“, sendo que, invariavelmente, os “Bons“ são aqueles que mantiveram boas relações com o Senador Romano. Já os ‘Maus” são aqueles que desrespeitaram as prerrogativas dos senadores ou perseguiram os seus integrantes. Com efeito, Tácito e Suetônio foram homens que começaram a sua carreira pública no reinado de Domiciano, mas que escreveram as histórias deles no reinado do sucessor de Nerva, Trajano. Assim, a nova dinastia tinha todo o interesse em se legitimar em contraste com uma imagem necessariamente negativa do reinado de Domiciano, e para isso, ela contou com a pena solícita dos historiadores da classe senatorial.

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A BATALHA DA FLORESTA DE TEUTOBURGO – FINAL

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O DESASTRE DE VARO – CLADES VARIANA – VARUSSLACHT

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A ARMADILHA

O plano que Arminius concebeu consistia em atrair Varo para uma região desconhecida dos romanos, mas que ficava dentro das terras de sua tribo. Como pretexto, ele escolheu o único motivo que faria o governador romano marchar com toda o seu exército para um território ainda não desbravado: um levante armado! E para enfraquecer um pouco as legiões de Varo, alguns chefes que ele reputava confiáveis pediriam ao governador que lhes enviasse destacamentos de soldados romanos para garantir a segurança nas suas aldeias. A data da emboscada, concluiu Arminius, teria que ser no final do outono, pois, certamente, os Romanos iriam querer resolver rapidamente a questão para que eles pudessem passar o inverno no conforto de Moguntiacum (Mogúncia), no Reno. Além do mais, dificilmente os Romanos teriam como mandar reforços depois que a neve caísse, sobretudo com os quartéis de verão no interior da Germânia destruídos, como os Germanos pretendiam fazer assim que eles derrotassem Varo

A escolha do local deve ter sido sugestão dos chefes queruscos. De fato, bem ali na terra deles, ficava, em um raio de centenas de quilômetros, a única rota de passagem em terreno seco e plano ligando o leste e o oeste da Germânia, entre as montanhas Wiehengebierge e o grande pântano que se extendia até o Mar do Norte. Em um determinado ponto, a largura da passagem era de apenas 100 metros, entre a montanha e pântano. Aquela era a realmente a melhor opção de trajeto, para alguém que não quisesse ficar com os pés encharcados ou andar em terreno montanhoso dentro da floresta…

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Quando o mês de setembro chegou, os chefes da conspiração resolveram oferecer um festim no quartel de Varo, uma fingida homenagem à iminente partida do governador, em que foram consumidos muito vinho e cerveja, esta oferecida pelos germânicos. Durante a festa, Segestes, que já vinha alertando Varo para não confiar em Arminius, e como chefe que ele era, já tinha ouvido rumores acerca da conspiração, levantou-se e acusou Arminius de traição, chegando inclusive a pedir ao governador que prendesse, não apenas os conspiradores, mas também ele mesmo, Segestes, com o propósito de que Varo pudesse melhor investigar quais eram os chefes leais e quais seriam inimigos de Roma.

Varo, que já tinha notado o ódio que Segestes nutria por Arminius, devido ao romance que este havia iniciado com sua filha Thusnelda, não deu muita importância. Provavelmente, ele mal conseguia entender o arremedo de latim que Segestes falava, e além do mais, o inconsciente de Varo não queria acreditar naquilo, pois tudo o que ele costumava ouvir dos chefes germânicos, até então, eram bajulações e elogios à sua administração,  coisa que ele julgava muito natural diante dos seus evidentes méritos…

No dia seguinte, Arminius chegou galopando rápido à frente de um esquadrão de cavalaria (turmae), trazendo a trepidante notícia de que os Bructeros tinham se revoltado próximo ao território dos Queruscos, os quais pediam a ajuda dos Romanos.

Alvoroçado com a notícia, Varo mandou reunir as três legiões e as seis coortes de auliares que estavam com ele e ordenou que todos marchariam para combater os rebeldes. Entre as ordens, estava a determinação de que Arminius e os chefes germânicos guiassem as legiões até o local da suposta revolta, através do caminho mais rápido.

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Em seguida, Arminius e os chefes queruscos pediram autorização a Varo para que eles deixassem a comitiva e fossem até as aldeias amigas para reunir forças para se aliarem às legiões na repressão à revolta,  sugerindo que batedores germânicos da confiança deles guiassem o exército até o local exato.

Entretanto, isso era apenas um disfarce. Na verdade, Arminius saiu e foi ao encontro do exército germânico combinado composto por guerreiros queruscos, catos, bructeros, chaucos, marsos e até de alguns Suábios,  que aguardava, no local combinado, a chegada das legiões de Varo. Concomitantemente, Arminius despachou mensageiros às aldeias onde estavam estacionados pequenos destacamentos de soldados romanos, a pedido dos chefes envolvidos na conspiração anti-romana. Quando a mensagem de Arminius chegou aos destinatários, todos os soldados romanos espalhados pelas aldeias foram imediatamente mortos.

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(Ilustração de Arminius feita pelo artista Gambargin, http://fav.me/dai0tmm)

Enquanto isso, marchando através de território que eles acreditavam ser amistoso, as legiões não prosseguiam em ordem de batalha, como seria de costume, mas em blocos separados. A longa coluna devia se estender por vários quilômetros de comprimento. Tudo indica que os Romanos acreditavam que estavam indo resolver um assunto fácil: um levante dos Bructeri, os quais tinham sido facilmente derrotados por Tibério e Saturnino, apenas quatro anos antes…Os soldados confiavam que, antes do final de outubro, eles estariam no conforto dos quartéis do Reno. Assim, misturados à tropa, iam mulheres, crianças, escravos domésticos e toda a sua bagagem, transportadas em carros de boi e mulas…

A BATALHA DA FLORESTA DE TEUTOBURGO – PRIMEIRO DIA

O historiador romano Dião Cássio, a partir daí, é que nos dá o relato mais detalhado dos acontecimentos:

Os Romanos foram guiados para uma trilha que passava por dentro da Floresta de Teutoburgo. Os soldados, inclusive, tinham que derrubar árvores e ir aplainando os caminhos para as carroças transitarem. Nesse momento, começou a chover muito forte. Foi então que grupos de guerreiros germânicos escondidos entre as árvores despejaram dardos contra a retaguarda da coluna, matando muitos soldados romanos que tentaram, sem sucesso, defender-se com os seus escudos, os quais, encharcados da água que caía, começaram a ficar muito pesados. Além disso, os Germanos começaram a derrubar algumas árvores para que os troncos caíssem em cima dos Romanos.  Agora, as tropas estavam dispersas ao longo do caminho, já bem escorregadio, que se encontrava atravancado pelas carroças e pela correria desesperada dos civis. Sem dúvida, estava muito difícil organizar uma formação de batalha naquele momento. Assim, cada grupo de soldados combatia em minoria contra um número muito maior de bárbaros. Em pouco tempo, vários legionários já estavam caídos na floresta, mortos ou feridos. Para piorar, as tropas auxiliares começaram a desertar e fugir para o meio da floresta.

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Apesar de tudo, os oficias romanos conseguiram achar um local mais ou menos adequado para fazer um acampamento fortificado com uma paliçada e passar à noite. Eles, com pesar, decidiram queimar as carroças e abandonar tudo o que não fosse necessário para o combate.

A BATALHA DA FLORESTA DE TEUTOBURGO – SEGUNDO E TERCEIRO DIAS

No dia seguinte, os Romanos conseguiram avançar de forma mais ou menos ordenada para o oeste, conseguindo chegar até campo aberto, porém sem deixar de sofrerem contínuas perdas em emboscadas. Talvez Varo e os oficiais romanos ainda acreditassem que, em algum momento, Arminius chegaria com os reforços prometidos e aliviaria a situação. Neste ponto, Dião Cássio conta que as tropas teriam entrado de novo em outro trecho da floresta.

Foi neste dia que os Romanos, segundo Dião Cássio, sofreram as suas perdas mais pesadas. O historiador narra que os soldados tiveram que formar suas linhas em um espaço estreito. A ênfase nesses dois elementos: pesadas perdas e a largura do terreno, apontam para a estreita passagem situada ao pé da colina Kalkriese, 20 km ao norte da atual cidade de Osnabrück, como sendo o ponto focal da Batalha.  Foi ali que os Romanos ficaram imprensados entre o pântano e a floresta.

De fato, durante dois mil anos, o local exato onde ocorreu a Batalha da Floresta de Teutoburgo sumiu da História e da memória dos europeus.

Até que, em 1987, um militar inglês – que nas horas vagas tinha  como hobby ser arqueólogo amador – descobriu uma grande quantidade de moedas romanas, sendo que nenhuma das moedas encontradas era posterior a 9 D.C. Avisadas, as autoridade começaram uma escavação científica., encontrando fragmentos de equipamento militar romano e ossos humanos e de animais, na maior parte das vezes, misturados em buracos cavados propositalmente para enterrá-los.

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Os arqueólogos alemães também descobriram, neste sítio, vestígios de um longo muro de turfa encimado por troncos, o qual se estendia em zigue-zague, com passagens em intervalos periódicos. Embaixo de um trecho que parecia ter cedido, eles encontraram um crânio humano, ao lado um suporte de plumagem característico de um elmo romano, e o esqueleto de uma mula. Os arqueólogos calcularam que foram necessárias apenas algumas semanas para construir esse muro, encimado por uma paliçada, que ficava ao pé da montanha. Escavando o terreno, eles verificaram que, ao longo dos séculos, o mesmo foi modificado pelas sucessivas gerações de agricultores, tendo ficado bem diferente do que ele era em 9 D.C. Com efeito, originalmente, o local era uma faixa de terreno seco arenoso de cem metros de largura delimitado, em um lado, pela colina Kalkriese, então, como hoje, coberta de árvores, mas, do outro lado, por um pântano, que foi sendo aterrado ao longo dos séculos.

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Ali foram encontrados 6 mil itens arqueológicos (moedas, pedaços de sandálias militares, pontas de lança, e de dardos de catapultas, arreios de cavalos e mulas, etc.) relacionados ao Exército Romano. E o maior agrupamento de achados fica justamente no trecho onde foram construídos o muro de turfa e a paliçada pelos germânicos.

O sítio arqueológico de Kalkriese é uma prova irrefutável de que Arminius e os Germânicos planejaram e executaram uma emboscada magistralmente sofisticada. E eles não apenas atraíram os Romanos para um terreno desfavorável, mas ainda prepararam com antecedência este terreno. E eles fizeram isso em apenas algumas semanas.

A maioria dos soldados da XVII, XVIII e XIX Legiões comandadas por Varo deve ter sido morta no trecho murado, tentando, inclusive, tomar de assalto um destes trechos, sem sucesso (essa, inclusive, foi a parte do muro que desabou sobre os soldados); mas alguns grupos devem ter conseguido prosseguir. A trilha dos achados arqueológicos demonstra que, ultrapassada a paliçada germânica, houve uma bifurcação no avanço dos romanos. Um grupo um pouco maior ainda avançou um pouco mais para o norte, e outro, menor, para o sul.

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A BATALHA DA FLORESTA DE TEUTOBURGO – ÚLTIMO DIA

De fato, Dião Cássio conta que, quando raiou o quarto dia, o que restava das legiões ainda estava avançando, quando voltou a cair uma tempestade de chuva e vento, impedindo novamente os Romanos de usarem seus escudos e seus arcos (pois as cordas feitas de tendão ficam frouxas quando molhadas). Para piorar, outros bandos de Germanos se sentiram encorajados a se juntar aos que atacavam os Romanos, que ficaram em ainda maior inferioridade numérica.

Estava tudo acabado: Públio Quintílio Varo, que já tinha sido ferido nos dias anteriores, vendo-se na iminência de ser capturado, mostrou a bravura que tradicionalmente era esperada de um general romano e, repetindo o que seu pai e seu avô já tinham feito antes, ele tirou a própria vida, jogando-se sobre a sua espada. Por sua vez o Legado (general) Numonius Vala tentou fugir com suas unidades de cavalaria, mas ele acabou sendo alcançado pelos cavaleiros de Arminius e morto. Os historiadores romanos condenaram este ato como covardia, mas diante da situação, talvez fosse a única alternativa. Dos dois Prefecti Castrorum (Prefeitos do Acampamento), que eram os terceiros em comando na legião), Lucius Eggius pereceu combatendo, mas o outro, Ceionnius, rendeu-se, apenas para morrer torturado pelos bárbaros.

O corpo de Varo, segundo o historiador romano Veléio Patérculo, foi parcialmente cremado e enterrado às pressas, provavelmente pelos seus servos domésticos, mas logo o mesmo seria descoberto, desenterrado (o historiador Floro também narra isso) e decapitado pelos Germanos. Depois, Arminius enviou a cabeça de Varo para o rei dos Marcomanos, Marobóduo (Marbod), no Danúbio, com o objetivo de incentivá-lo a se unir à aliança dos Queruscos e povos vizinhos contra o Império. Contudo, o prudente rei preferiu não tomar partido e, como gesto de boa vontade, enviou de volta a cabeça de Varo para Augusto, em Roma, onde mais tarde ela foi depositada, com honras, no mausoléu da família.

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Dois dos estandartes-águia das legiões foram capturados por Arminius. Porém a terceira águia, segundo, Floro, foi escondida por um soldado porta-estandarte (aquilifer) dentro das próprias vestes,  que com ela mergulhou no pântano.

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O grande historiador Tácito narra que Arminius insultou as águias e os estandartes, discursando para a multidão de guerreiros em cima de uma tribuna improvisada. Os tribunos e oficiais sobreviventes foram sacrificados vivos em altares e tiveram suas cabeças cortadas e penduradas em árvores. Por sua vez, alguns soldados seriam poupados, para serem escravos dos Germanos e deve ter sido algum deles que, anos mais tarde relatou essas cenas. Um pequeno punhado de soldados teve mais sorte e eles conseguiram chegar até as guarnições romanas no Reno.

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Logo após a Batalha da Floresta de Teutoburgo, todos os quartéis romanos até o Reno foram atacados pelos Germanos. Somente o forte de Aliso resistiu heroicamente e foi somente essa resistência que impediu os bárbaros de cruzarem o Reno e atacarem a Gália.

A nascente cidade romana de Waldgirmes, que mencionamos na primeira parte de nossa história, foi prontamente evacuada. Sabemos que ela não foi destruída pelos Germanos, pois não há traços de incêndio, nem esqueletos de vítimas. Na verdade, a cidade foi propositalmente desmantelada pelos Romanos, provavelmente logo que eles receberam a notícia da derrota, naquele mesmo ano de 9 D.C.

Quando a notícia do Desastre de Varo (Clades Variana, como a derrota seria batizada em latim) chegou à Roma, houve uma comoção geral e muitos acreditaram que logo os Germanos atravessariam os Alpes e invadiriam a Itália. O imperador Augusto ficou muito abalado. Segundo o historiador romano Suetônio, o velho imperador, meses após a derrota, repetidas vezes foi visto batendo a cabeça contra uma parede e clamando:

“QUINCTILIUS VARUS, LEGIONES REDE!” (Quintílio Varo, devolva-me minhas legiões!).

Foi de fato a pior derrota que Augusto sofrera em 50 anos à frente do governo de Roma. Ele havia planejado minuciosamente que o número de legiões do Exército Romano, após as guerras civis do Triunvirato, seria de 28…Agora, restavam 25, e os números das legiões massacradas na Batalha da Floresta de Teutoburgo nunca mais seriam utilizados de novo pelos supersticiosos romano: Realmente, jamais houve quaisquer outras Legiões XVII, XVIII e XIX. Viraram números malditos…

Muitos historiadores incluem a Batalha da Floresta Teutoburgo entre as dez batalhas mais decisivas da História. Eu concordo. Hoje, não há dúvidas de que Augusto tinha um projeto de anexação e “romanização” da Germânia, o qual estava em andamento. Se os Romanos tivessem ganho a Batalha ou, mais provável, se Varo tivesse dado ouvidos a Segestes e desarticulado a conspiração, em poucos anos teria havido a fundação de novas cidades e consolidação e aumento das já existentes, como Waldgirmes. Em algumas décadas, a Germânia até o rio Elba ficaria cada vez mais e mais parecida com a Gália. E a leitura das fontes que citamos demonstra que realmente havia uma facção da nobreza germânica que apoiava essa “romanização” (o maior exemplo é o próprio Segestes). Uma derrota de Arminius certamente teria reforçado e promovido esses nobres pró Roma. Isso, obviamente, não quer dizer que as outras tribos germânicas além do rio Elba, incluindo as que viviam na Escandinávia, futuramente não atacariam as fronteiras romanas, e nem que o Império do Ocidente não viesse mais tarde a entrar em colapso. Porém, muito provavelmente, a fronteira linguística e cultural da Europa latinizada e católica seria no rio Elba. Como  disse o historiador militar britãnico J.F.C. Fuller, ainda que com algum exagero:

“Sem Teutoburgo, não haveria Carlos Magno, não haveria Sacro Império Romano-Germânico, não haveria Guerra dos Trinta Anos, não haveria Napoleão, não haveria Alemanha e não haveria Hitler

O IMPÉRIO CONTRA-ATACA

Demorou cinco anos para o Império Romano preparar uma revanche. O general Germanicus Julius Caesar (Germânico), que era filho adotivo do sucessor de Augusto, o Imperador Tibério (que conduziu inúmeras campanhas bem sucedidas na Germânia) entrou na Germânia comandando 6 legiões. Ele travou vários combates muito sangrentos, matou muitos bárbaros, e até conseguiu recuperar uma das águias capturadas na Batalha da Floresta de Teutoburgo. Germânico engajou vitoriosamente Armínius em combate algumas vezes, mas nunca sem conseguir derrotá-lo definitivamente. Contudo,  Segestes, que tinha sido cercado pelas tribos leais à Arminius, pediu ajuda a Germânico, que prontamente veio em seu socorro e conseguiu derrotá-los, em  15 de maio de 15 D.C. Em agradecimento, Segestes entregou à Germânico a sua própria filha Thusnelda, que então era esposa de Arminius e estava grávida do filho do libertador da Germânia.

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(Estátua romana de mulher germânica cativa, apelidada de “Thusnelda”)

Logo depois, naquele mesmo ano, Germânico e suas legiões alcançaram o local da Batalha da Floresta de Teutoburgo, visitando o campo de batalha em Kalkriese. A sombria , macabra e brilhante descrição que o historiador Tácito faz dessa visita traz à minha mente uma cena parecida com a que assisti no filme “Apocalipse Now”, quando o louco Coronel Kurtz é encontrado no Laos:

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De acordo com Tácito, havia ossos descarnados espalhados por todo local e, das árvores, pendiam crânios dos soldados romanos sacrificados. Tácito conta que o próprio Germânico cuidou de enterrar, juntamente com os soldados, os ossos dos companheiros mortos. E isso é confirmado pelas escavações modernas em Kalkriese, pois foram achadas as mesmas covas que o general romano mandou cavar. Inclusive, na pressa em fazer o sepultamento, já que os romanos estavam em terreno inimigo, foram enterrados ossos humanos junto com os das mulas e cavalos mortos, o que, em circunstâncias normais, jamais ocorreria.

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(Foto real dos ossos encontrados em uma dos oito poços escavados pelos soldados de Germânico, em Kalkriese)

O vívido relato de Tácito e a cena do filme vieram imediatamente à minha mente quando estive em Kalkriese, no final de 2008 (http://www.kalkriese-varusschlacht.de/en/).

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Há no sítio uma reconstrução da paliçada germânica e um trecho de terreno que foi escavado e reconstituído para mostrar como eram os alagados. Há também estandartes fincados com rostos humanos para lembrar os soldados romanos caídos, e um museu com os achados, onde se destacam uma máscara cerimonial de cavalaria romana e uma reconstituição facial do crânio de um soldado romano encontrado. Além de um pedaço de armadura do tipo lorica segmentata, que é o mais antigo jamais encontrado. Com efeito, acreditava-se que esse tipo de armadura tinha sido introduzido no reinado de Tibério, Calígula ou Cláudio, mas, graças a descoberta de Kalkriese, sabe-se que deve ter sido no reinado de Augusto.

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EPÍLOGO

Thusnelda foi levada para Roma e lá deu à luz ao filho de Arminius, que foi chamado de Thumelicus. Consta que Arminius lamentou muito a captura de sua esposa e de seu filho. Não se sabe qual foi o destino de Thusnelda, mas Tácito afirma que Thumelicus foi educado em Ravena e, anos mais tarde, ele sofreu uma grande humilhação, que o historiador nos alerta que iria contar em outro capítulo (infelizmente, o livro contendo essa passagem anunciada se perdeu). Alguns acreditam que o termo usado pelo historiador poderia inferir que Thumelicus pode ter virado gladiador, pois essa era considerada uma das mais baixas condições sociais em Roma.

Em 16 D.C, Germânico travou um grande batalha contra a coalizão de tribos liderada por Arminius em pessoa. Os Romanos venceram de forma arrasadora e teriam matado cerca de 20 mil Germanos, porém Arminius conseguiu escapar. Nesta ocasião, Germânico conseguiu recuperar a segunda águia perdida em Teutoburgo. Já a terceira águia, que deve ter sido encontrada escondida no pântano pelos bárbaros logo após a batalha, somente seria recapturada em 41 D.C., no reinado do imperador Cláudio.

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(Cabeça de Germânico)

Em 21 D.C, Arminius foi assassinado por rivais de sua própria tribo que, supostamente, temiam que ele quisesse virar rei (curiosamente, esse foi o mesmo pretexto para o assassinato de Júlio César). E Tácito  nos recorda que, 100 anos depois da Batalha da Floresta de Teutoburgo, o nome dele ainda era cantado nas sagas dos Germanos.

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(Lápide do túmulo do 1º centurião da XVIII Legião, Marcus Caelius, a inscrição diz:  “Para Marcus Caelius, filho de Titus, do distrito Lemoniano de Bolonha, primeiro centurião da 18ª Legião, 53 anos de idade. Ele morreu na Guerra de Varo.  Podendo também conter os ossos dos seus libertos. O seu irmão, Publius Caelius, filho de Titus, do Distrito Lemoniano, ergueu essa lápide“. Tudo indica que Publius, o irmão do centurião TItus, estava na expedição de Germânico e conseguiu reconhecer e resgatar os ossos do irmão falecido em Teutoburgo, dando-lhes um enterro digno, junto com os libertos que o acompanhavam).

                                                                               FIM

A BATALHA DA FLORESTA DE TEUTOBURGO – 2ª PARTE

O DESASTRE DE VARO – CLADES VARIANA – VARUSSLACHT

# Teutorburgo #Varo #Varusslacht #CladesVariana

PÚBLIO QUINTÍLIO VARO

Públio Quintílio Varo pertencia a uma família da classe senatorial, que, no entanto, encontrava-se em uma situação decadente no século final da República. Mas, a má situação familiar logo viria a progredir, pois o avô materno de Varo casou-se, em segundas núpcias, com a irmã de Caio Otávio, o sobrinho-neto de Júlio César que, em alguns anos, tornaria-se o primeiro imperador de Roma, com o nome de Augusto.

Embora o pai de Varo, Sexto Quintílio Varo, tenha escolhido o lado errado na guerra civil entre os partidários de César e a facção do Senado responsável pelo seu assassinato (Optimates), o filho dele, isto é, o nosso personagem Públio Quintílio Varo, quando ainda era bem jovem, tornou-se partidário de Otávio e, paulatinamente, foi ingressando no circulo íntimo de colaboradores do imperador,  e  ele acabou conseguindo casar-se com Vipsânia Marcela Agripina, que era filha de Marco Vipsânio Agrípa, o melhor amigo e o braço-direito de Augusto, e de Claudia Marcella, que, por sua vez, era sobrinha do próprio imperador (ela era filha da irmã mais nova de Augusto, Otávia, a Jovem).

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Assim, não é de espantar, diante dessa estreita conexão familiar com a casa imperial, que a carreira política de Varo tenha decolado. De fato, entre 8 e 7 A.C, ele governou a província da África ( que corresponde a uma boa parte da atual Tunísia e um pequeno pedaço da atual Líbia). Em seguida, Augusto nomeou Varo para governar a rica província da Síria, onde ele ficou de 7 a 4 A.C.

No que se refere à administração de Varo na Síria é importante dois traços que certamente teriam influência sobre os eventos que futuramente iriam ocorrer na Germânia:

Com efeito, na Síria, a conduta de Varo foi caracterizada: a) pela elevada e impiedosa taxação e, b) pela extrema severidade contra qualquer dissidência nativa.

Com relação à ganância de Varo (apesar de, nas províncias romanas admitir-se que o governador ficasse com uma parte dos tributos), é bastante esclarecedor o relato do historiador romano Veleio Patérculo sobre o governo dele na Síria:

“Ele entrou pobre em uma província rica e saiu rico de uma província pobre.”

A província da Síria englobava o reino cliente da Judeia, o qual era governado pelo rei Herodes, o Grande, nomeado pelo Senado Romano, em 37 A.C. Quando  Herodes morreu, em 4 A.C., houve disputas pela sucessão e uma facção judaica hostilizou os romanos.

A brutal resposta de Varo foi queimar algumas cidades, como Emaús, e crucificar dois mil judeus, como narrou Flávio Josefo, em sua obra “Antiguidades Judaicas”.

Curiosidade: Tendo em vista que Varo era o governador da Síria, em 4 A.C. , e que o rei Herodes morreu neste memso ano, é extremamente provável que Jesus Cristo tenha nascido durante a administração dele, pois, segundo a narrativa dos Evangelhos de São Lucas e de São Mateus, Jesus nasceu enquanto Herodes ainda estava vivo. Ocorre que, muito embora o primeiro evangelista citado expressamente afirme que o nascimento de Jesus ocorreu na época do censo ordenado pelo governador da Síria, Quirino, tudo indica que isso deve ser fruto de uma confusão de Lucas, pois Publius Sulpícius Quirinius foi governador da Sìria a partir de 6 D.C, ou seja, dez anos após a morte de Herodes. Por isso, alguns estudiosos realmente acreditam que o referido evangelista teria confundido “Publius Quinctilius”, o nome e sobrenome da gens de Varo, com “Publius Quirinius”. Além do mais, se o nascimento de Jesus tivesse ocorrido em 6 D.C., isto colocaria o ano de sua morte em 39 D.C, isto é, três anos após Pôncio Pilatos ter deixado o governo da Judeia, o que é incompatível com a narrativa evangélica e com as fontes romanas, tais como Tácito, Suetônio e Josefo.

Feita essa observação, o fato é que, em 6 ou 7 D.C., Públio Quintílio Varo assumiu o governo da Gália, tendo também autoridade sobre a Germânia. E os textos sobreviventes dos historiadores romanos que nos contam sobre a conduta de Varo na administração dos assuntos germânicos denotam que ele continuou agindo da mesma forma como na Síria: voraz quanto aos tributos e severo em relação aos nativos…

Com efeito, os historiadores romanos Veléio Patérculo, Floro e Dião Cássio, em uníssono, relatam que Varo procedia com desprezo pelos Germanos, que, apenas recentemente tinham sido derrotados, mas não inteiramente subjugados, pelos Romanos.

E todos os historiadores citados chamam a atenção para o comportamento de Varo dar a entender que ele acreditava piamente que a Germânia ao Leste do Reno já era uma província romana, uma vez que ele passou a expedir decretos e enviar litores (que eram funcionários que agiam como uma espécie de oficial de justiça, com o poder de compelir os administrados a cumprirem as ordens dos magistrado, poder esse que era expresso por um feixe de varas, para açoitar os recalcitrantes, e um machado) para garantir o seu cumprimento.

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Em um ponto muito destacado por Patérculo, Floro e Dião Cássio, Varo também passou a reunir os Germanos em assembleias, onde os conflitos de interesses envolvendo os bárbaros seriam julgados por ele, na condição de autoridade judiciária máxima. Esse foi um fato que desagradou aos Germanos, já que, em muitos casos, de acordo com os costumes deles, as disputas entre homens eram resolvidas em combate, sendo que as penas estabelecidas pelas suas leis orais, eram, em geral, bem mais leves do que as penas romanas. por exemplo, um assassinato entre eles não era punido com a morte, mas sancionado como a  obrigação de pagar uma soma em dinheiro ou bens. Cabia à família da vítima, caso não ficasse satisfeita, , buscar a reparação desafiando o ofensor para uma luta.

Outro elemento de descontentamento, obviamente, foi a cobrança de tributos sobre as tribos germânicas. Se hoje os tributos nos são desagradáveis, o que dirá para um povo que, até então, vivia da agricultura ou pecuária de subsistência, e não em cidades, mas em aldeias? Não podemos afirmar que Varo foi o primeiro governador romano a cobrar tributos dos Germanos, mas, considerando o que foi dito sobre sua passagem pela Síria, é bem provável que ele o tenha feito de modo mais ávido e duro do que o seu predecessor Saturnino...

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Assim, a semente da revolta germânica pode não ter começado a germinar durante o governo de Varo, mas, com certeza, por ele foi regada e se desenvolveu, incentivada, ainda, pelo fato de Augusto ter sido obrigado a transferira algumas legiões para debelar a Grande Revolta Ilíria, deixando Varo com somente três legiões para policiar a Germânia…

Essa era a situação da Germânia, quando, em setembro de 9 D.C, Varo marchava com seu exército de três legiões  e mais 6 coortes de auxiliares (unidades militares contendo cerca de 500 homens), incluindo destacamentos de cavalaria, que deixaram o seu quartel próximo ao Rio Weser, nas vizinhanças do território da tribo germãnica dos Cheruscos.

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Era a rotina dos romanos na Germânia Maior passar o verão nos quartéis ao leste do Reno, que ficavam bem no interior desta “proto-província”. Porém, como nesta região era mais frio e, considerando que, na Antiguidade,  todas as operações militares normalmente cessavam no inverno, os romanos, quando da chegada desta estação, deslocavam-se para os quartéis situados às margens do Reno, provavelmente em Mogúncia (Mainz), local em que o clima era mais ameno, e a distância para a Itália, menor.

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As fontes citam que alguns chefes germânicos recentemente tinham pedido a Varo que pequenos destacamentos de soldados romanos fossem enviados para algumas aldeias, com o objetivo de prender ladrões e guardar rotas de comércio, e que o governador, acreditando na veracidade do motivo, autorizou o envio

Enquanto isso, integrado à comitiva de Varo, estava um jovem germânico, comandante militar de tropas auxiliares romanas, com cerca de 21 anos de idade, filho do chefe querusco Segimerus, ou Segimer (Nota: somente cidadãos romanos poderiam ser legionários, mas os romanos costumavam alistar soldados de vários povos estrangeiros como tropas auxiliares, normalmente empregadas como unidades especializadas, tais como cavaleiros, arqueiros fundibulários, etc.). Não se sabe o seu nome em sua língua nativa, mas ele era chamado de Arminius pelos romanos (e muitos acreditam que este seria uma forma latinizada do nome “Hermann”) e ele é o segundo protagonista do drama que começava a se desenrolar…

ARMINIUS

Nenhuma fonte romana afirma isso, mas é quase certo que Arminius deve ter sido um dos reféns queruscos entregues ao general Druso, por volta de 9 A.C (ver a primeira parte dessa nossa história). Arminius teria, então, cerca de doze anos de idade e deve ter sido entregue aos Romanos provavelmente junto com seu irmão, chamado Flavus, para garantir que os Queruscos mantivessem a paz.

Não se sabe em que parte do Império Romano Arminius cresceu, mas o certo é que ele recebeu a oportunidade de prestar serviço militar à Roma, destacando-se a ponto de ter recebido a cidadania romana, bem como a grande distinção de ser arrolado entre a classe dos Cavaleiros (Equestres/ Equites), ascendendo, assim, ao segundo nível da aristocracia romana, em uma posição social somente inferior aos senadores e suas famílias (a classe senatorial era o cume da nova nobreza imperial romana).

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Segundo Veléio Patérculo, antes de 9 D.C, Arminius participou de algumas campanhas militares, que podem muito bem ter sido aquelas promovidas por Tibério e Saturnino, das quais já falamos, depois de 4 D.C, pois, então, ele já teria idade suficiente para ser soldado, e também contra os rebeldes na Grande Revolta Ilíria, que durou de 6 a 9 D.C.

É provável, assim, que Arminius deve ter retornado à Germânia quando Varo já governava a região. Com certeza ele rapidamente conseguiu impressionar o general romano, a ponto de Dião Cássio registrar que Arminius era uma companhia frequente de Varo, chegando até ao ponto deles comerem juntos na mesma mesa.

Enquanto isso, só podemos especular como deve ter sido o reencontro de Armínius com seu pai….

Eles provavelmente não se viam desde que Segimerus entregara o filho aos Romanos, cerca de quinze anos antes. Talvez Arminius esperasse que o pai ficasse orgulhoso de ver como ele havia prosperado em Roma, apresentando-se vestido em trajes de oficial romano. Mas é bem possível que, naquele intervalo de tempo, Segimerus tenha sofrido muitos desaforos por parte de seus compatriotas, pois, ao ter entregado o próprio filho aos romanos, para garantir o tratado de paz, ele praticara um ato humilhante de acordo com os costumes germânicos.  É possível que os líderes rivais tenham se aproveitado disso para diminuir a posição de liderança do velho na tribo. E agora, além de ter entregue o filho como refém, este ainda virara um soldado romano!

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Arminius, garbosamente vestido com sua cota de malha coberta de fáleras (discos de prata com figuras gravadas que podem ser equiparadas as modernas medalhas), elmo emplumado e manto escarlate pode ter percebido no olhar do velho, ao invés do esperado orgulho paterno, a decepção , a vergonha e a tristeza que a surpresa causara; quem sabe, a pungente cena se passara na mesma cabana de madeira e teto de palha onde o próprio Arminius nascera, ele, filho de um antes respeitado chefe.

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Mas, sem dúvida, eles deviam ter muita coisa para conversar. Segimerus deve ter contado como as coisas tinham mudado em quinze anos. Como a orgulhosa tribo tinha sido várias vezes humilhada pelos pretores romanos e seus litores. Deve ter se queixado da obrigação de ter que pagar o pesado tributo, de ter que se inclinar perante a efígie de César Augusto, e até da vez em que eles, como era de costume, iam atacar os vizinhos que haviam roubado o gado, mas foram impedidos pelos tribunos, sendo obrigados a levar o caso ao pretor…

Segimerus pode ter mostrado a Arminius o lugar onde as cinzas de sua mãe haviam sido enterradas com seus pertences mais preciosos, o pântano de turfa onde tantas vezes eles jogaram as armas e os corpos dos inimigos vencidos e até o levou até o ponto onde se descortinava a floresta sagrada onde ficava o grande tronco de carvalho esculpido, Irminsul (talvez uma das explicações para o nome que ele dera ao filho), o lugar dos sacrifícios a Wodan, Zyo e Frea, deuses ancestrais dos germânicos.

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Com o passar dos dias, circulando pela aldeia, Arminius deve ter visto como os orgulhosos oficiais de Varo tratavam com dureza e desdém aos seus compatriotas: a aspereza das ordens gritadas em latim, a arrogância dos gestos autoritários…E assim o prazeroso sentimento inicial de ocupar uma posição privilegiada em algo grandioso deve ter começado a se esvair do peito de Arminius como o ar de um balão…

Após o seu retorno a Germânia, que deve ter  ocorrido provavelmente no início daquele fatídico ano de 9 D.C., Arminius conheceu a bela Thusnelda, filha do nobre Segestes, que era um outro respeitado chefe querusco. Porém, Thusnelda, segundo nos conta o historiador romano Tácito, foi prometida para outro jovem. Como era costume entre os Germanos, as famílias aguardavam a chegada da idade adulta dos noivos para celebrar o casamento e consumar a união. Podemos crer que, neste momento, Armínius, tenha se apaixonado pela linda compatriota, de olhos claros e longos cabelos louros como ele jamais havia visto em todo o tempo que ele passara em Roma, e, ignorando os costumes ancestrais, ele tenha passado a cortejar a moça.

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Segestes, embora fosse ainda um altivo chefe guerreiro, à altura das melhores tradições germânicas, era um partidário dos Romanos, como registram as fontes. Inclusive, Augusto, em reconhecimento a sua amizade, tornou-o cidadão romano!  É possível que Segestes, ainda criança, tenha ouvido as estórias sobre as campanhas de Júlio César na Gália, e da grande matança que ele tinha feito entre os Gauleses e os Germanos que lutaram contra a conquista daquela província. E, de fato, ele mesmo, Segestes, experimentara o poder das legiões de Druso. É bem provável que, depois, ele tenha viajado à Gália para comercia e testemunhado como esta província vinha se desenvolvendo e, sobretudo, como a nobreza gaulesa que havia colaborado com Roma tinha prosperado: Vale lembrar que o próprio César inclusive havia nomeado nobres gauleses para o Senado Romano!

Todavia, embora Segestes se mostrasse solícito com o governador Varo, ele não poderia tolerar a investida de Arminius sobre Thusnelda. Ele a prometera para outro nobre e a sua honra seria seriamente comprometida caso ela não se casasse com o escolhido. Por isso, Segestes, segundo narra Tácito, passou a detestar Arminius.

Arminius, por sua vez, que agora tinha em Thusnelda  outro poderoso imã que o atraía para a sua pátria natal, possivelmente começou a visitar, no início de 9 D.C, outras aldeias e a viajar pela região entre os rios Lippe e Weser, para cumprir várias missões, tais como supervisionar rotas, escoltar suprimentos, distribuir sentinelas, etc. Em poucos meses, ele deve ter conhecido e estabelecido laços com chefes de vários povos vizinhos, notadamente Catos, Queruscos, Bructeros, Chaucos, Marsos e até alguns Suábios. Em todos esses lugares, Arminius perceberia que, embora vivessem separados e vez por outra até guerreassem, falavam todos eles a mesma língua e tinham os mesmos costumes, e, mais importante,  eles compartilhavam o mesmo sentimento de insatisfação com os Romanos.

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Mas como eles poderiam resistir aos Romanos? Varo tinha três legiões e várias coortes, cerca de 20 mil soldados no total. As tribos daquela parte da Germânia, quando muito, depois de tantas derrotas nos últimos anos, conseguiriam no máximo reunir o mesmo número. Desse modo, para vencerem os romanos, que tinham melhores armas e eram imbatíveis em campo aberto, somente através de uma emboscada. Porém, as legiões não dormiam um dia sequer fora do quartel fortificado com paliçadas e torres armadas com as temíveis catapultas e balistas. Já os Germanos não tinham a menor expertise em fazer guerra de cerco.

Voltando ao quartel-general romano, Arminius deve ter percebido como Varo estava seguro e confiante da completa submissão das terras germânicas, naquele início de 9 D.C… A disciplina no quartel de verão parecia estar relaxada e muitas mulheres e até crianças  conviviam entre os soldados. Enquanto isso, Varo  passava o dia no pretório, sentado em sua cadeira curul, resolvendo as disputas legais, rodeado pelos chefes das tribos.

Em algum momento, a ideia deve ter surgido na mente de Arminius. Após servir por cinco anos no Exército Romano e participar de várias campanhas, ele conhecia bem as táticas dos Romanos, as suas forças, mas também as suas fraquezas. Se os romanos pudessem ser atraídos para um terreno desfavorável, onde os soldados não pudessem entrar em formação e as legiões não conseguissem cooperar entre si, elas poderiam ser vencidas. E ele, que já gozava da confiança do governador, dificilmente seria suspeito de ser um rebelde. Assim, Arminius se sentiu encorajado a contar seus planos para o pai, que apoiou entusiasticamente a ideia. Seria a chance de seu povo vingar a humilhação de 15 anos atrás, e, sobretudo, livrar-se dos litores e dos publicanos.

Eles teriam apenas algumas semanas para colocar um plano em prática, pois, no final do outono, Varo voltaria para o quartel de inverno do Reno, onde ele poderia ter o suporte das outras legiões que ficaram ali estacionadas e onde as tribos eram realmente amistosas.

Arminius e Segimerus devem ter começado a falar com os chefes queruscos que eram mais próximos ao velho nobre, encontrando apoio imediato. Depois, nos meses seguintes, eles devem ter encontrado os chefes de outras tribos, em festivais religiosos ou em “things” (assembleias de homens livres ) de várias tribos vizinhas, e a conspiração foi tomando forma…

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(Este desenho de um relevo da Coluna de Marco Aurélio, em Roma, retrata um “thing”, a assembleia de germânicos, no caso, de Marcomanos)

CONTINUA

A BATALHA DE ACTIUM – O ATO FINAL DA GUERRA CIVIL E O FIM DA REPÚBLICA

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BATALHA DE ACTIUM – ATO FINAL DA GUERRA CIVIL E O FIM DA REPÚBLICA

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Em 02 de setembro de 31 A.C.,  ao largo do promontório e da cidade homônima de Actium, próxima ao Golfo de Corinto, na Grécia, duas frotas romanas  preparavam-se para entrar em combate, não contra um inimigo estrangeiro ou piratas, como de hábito, mas uma contra a outra.

Nos seis anos anteriores, o Segundo Triunvirato – pacto político que  os dois homens mais poderosos da República, Otaviano e Marco Antônio, juntamente com Lépido, herdeiros políticos do poder do falecido Júlio César celebraram, após o assassinato do Ditador para dominar a República – só fazia se esgarçar, mesmo após a tentativa de união familiar simbolizada pelo casamento de Marco Antônio com a irmã de Otaviano. Todavia, o misto de romance e aliança política entre Marco Antônio e Cleópatra, mãe do único filho natural de César, constituíram, além de uma afronta pessoal ao filho adotivo de César, Otaviano, uma tremenda ameaça política, enfraquecendo a posição deste último como herdeiro reconhecido em testamento pelo Ditador.

As chamadas “Doações de Alexandria” de 34 A.C, onde Antônio e Cleópatra reconheciam Caesarion como o único filho legítimo de César, Rei do Egito e “Rei dos Reis”, além de selarem a ruptura definitiva entre Otaviano e Antônio, foram habilmente aproveitadas pelo primeiro para atacar a popularidade de Antônio, visto agora como hostil aos interesses da República Romana e submisso à vontade de uma rainha estrangeira. Apesar disso, um terço do Senado Romano continuou apoiando Marco Antônio.

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Após várias tentativas dos rivais atraírem o outro para um conflito terrestre, incluindo a teatral proposta de Antônio de enfrentar Otaviano em combate individual para decidir quem deteria o poder supremo, Otaviano acabou conseguindo obter do Senado uma declaração de guerra contra Cleópatra, o que indiretamente significava que Antônio agora era inimigo de Roma. Nesse meio tempo, ambos os contendores se prepararam, ficando claro que a estratégia que prevalecia nas forças de Antônio seria a de uma batalha naval, sob a instigação de Cleópatra, que vinha coletando uma grande frota. Muitos acreditam que o objetivo da rainha era proteger o Egito, pela destruição da frota romana em águas gregas.

Marco Vipsânio Agripa, o fiel amigo e comandante naval supremo de Otaviano, sabendo que sua frota, composta de navios leves do tipo “liburna”,  era mais vulnerável às condições de tempo, esperou o verão chegar para se deslocar para a Grécia, onde se encontravam as principais forças de Antônio. Mesmo assim, a chegada da frota pegou Antônio de surpresa, pois ele ainda estava recrutando remadores para seus navios. Desse modo, a iniciativa estava com Agripa, que conseguiu desembarcar tropas que travaram algumas escaramuças com as forças terrestres de Antônio, nas quais estas levaram a pior.

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A longa inatividade já havia deteriorado o moral das tropas de Antônio, e, ele mesmo, também parece ter sido afetado. Porém, quando a frota de Otaviano avançou em direção ao seu quartel-general e ameaçou cercá-lo completamente no Golfo de Corinto, cortando os seus suprimentos vindos do Egito, Antônio resolveu agir.

No dia 02 de setembro de 31 A.C., Marco Antônio ordenou que os navios zarpassem e se colocassem de costas para o promontório de Actium, ao pé do qual sete legiões suas estavam acampadas, e de onde eles podiam assistir às manobras. A sua frota era composta de 230 grandes galeras, a maioria delas com oito bancadas de remadores (octores) e providas de torres armadas com catapultas, sendo que a sua nau-capitânia era uma espetacular “decere” (dez bancos de remadores), assim como a de seus outros almirantes. Os seus enormes navios eram pesadamente couraçados e muito difíceis de afundar por abalroamento com esporão, como era a tática comum nas batalhas navais da época. Porém, o tempo em que ficaram ancorados à espera de ação favoreceu o aparecimento de doenças entre os marinheiros e, por isso, poucas tinham o número ideal de remadores.

Segundo os relatos dos autores antigos, o navio de Antônio zarpou com as velas abertas, o que não era comum em ordem de batalha, levantando a suspeita que, desde o início, a intenção dele era chegar ao mar aberto e, aproveitando-se do vento noroeste que soprava, fugir em direção à Alexandria (os navios de guerra romanos não conseguiam navegar de través). Ele formou seus três esquadrões em duas linhas, à frente dos navios mercantes que levavam o enorme tesouro egípcio, e com os navios que escoltavam Cleópatra atrás.

A frota de Otaviano aproximou-se em duas linhas. Ela compunha-se de cerca de cerca de 250 quinquerremes, navios menores, porém mais rápidos e manobráveis do que os da frota de Antônio, os quais,  além disso, estavam subtripulados. Otaviano esperou, pois se avançasse mais ele corria o risco de ver seus navios ficarem perto de mais da costa e serem atacados pelas forças inimigas em terra. Vale citar que Otaviano tinha a vantagem de ter ciência prévia dos planos de Antônio, pois um importante partidário deste, Quintus Dellius, havia desertado pouco antes e se juntado às forças de Otaviano. Dellius era um notório vira-casaca, que já havia desertado duas vezes quando integrava o exército dos assassinos de César contra os triúnviros.

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Ao meio-dia, Antônio deu ordem de avançar. A sua ala esquerda deu a impressão de querer empurrar à ala direita da frota de Otaviano para o norte e abrir um caminho em direção ao sul (bombordo), que poderia levar ao Egito; porém, Otaviano, parecendo estar ciente desse propósito, mandou os seus  navios manterem distância, atraindo mais o inimigo para o alto-mar.

Quando ambas as frotas ficaram mais próximas, começaram os disparos de artilharia e flechas. Agripa ordenou que os navios de sua segunda linha se estendessem mais para o norte e para o sul, visando cercar o inimigo em menor número, sendo que Antônio, ao perceber isso, tirou alguns navios do seu centro e esticou a sua linha, deixando no centro os navios mais pesados, que estavam resistindo bem, e dirigindo-se à direita (estibordo) e ao norte para combater o esquadrão comandado por Agripa. Isso, entretanto, acabou abrindo espaços no centro da sua formação.

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Foi então que, em um movimento inesperado, os navios comandados por Cleópatra, aproveitando um buraco no centro da linha da frota comandada por Antônio e o súbito vento que soprava favoravelmente, ultrapassaram as suas linhas à toda velocidade, e, deixando para trás o resto da frota, rumaram em direção ao Egito, levando consigo todo o tesouro.

Não se sabem os motivos pelos quais Cleópatra tomou essa decisão…Alguns acreditam que ela, inexperiente na guerra, interpretou equivocadamente o fato de Antônio ter deixado o centro e rumado para o norte. É possível que ela tenha perdido contato visual com o navio do companheiro e pensado que ele tinha sido afundado ou fugido.

O fato é que Antônio, quando viu os navios de Cleópatra se afastando, resolveu ele também fugir, embarcando em outro navio mais veloz e deixando o restante da sua frota lutando acéfala. exceto cerca de 60 navios que conseguiram acompanhar a fuga. Os combates duraram até a noite, mas toda a frota remanescente de Antônio foi destruída por Otaviano. Isso prova que a fuga foi um momento crucial da Batalha, pois, mesmo sem o seu comandante, a frota de Antônio continuou lutando e vendeu caro a derrota.

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Nominalmente, mesmo com a derrota naval na Batalha de Actium, Antônio e Cleópatra ainda comandavam um numeroso exército, mas o custo moral da derrota foi muito alto. Uma semana após a derrota, 19 de suas legiões e 12 mil cavaleiros renderam-se à Otaviano.

Ainda assim, levaria quase um ano até Otaviano chegar até o Egito. Nesse meio tempo, Cleópatra e Antônio, separadamente, enviaram propostas de rendição, tentando assegurar para si termos mais favoráveis. Otaviano ainda tentou negociar com Cleópatra, mas Antônio foi repelido.

Quando o exército de Otaviano alcançou o Egito, Antônio com as forças de que dispunha tentou oferecer combate, mas a desproporção era enorme. Derrotado, ele conseguiu fugir, mas, pensando que Cleópatra havia sido capturada, tentou se matar com a própria espada, à tradicional maneira romana, Ferido mortalmente, mas ainda vivo, pediu para ser levado ao mausoléu de Cleópatra, onde ela estava escondida, A cena do trágico reencontro dos dois amantes foi dramaticamente descrita por Plutarco (ver nosso post CLEÓPATRA – RAINHA DE REIS). Antônio faleceu nos braços e no colo de Cleópatra, em 1º de agosto de 30 A.C.

As tropas de Otaviano já estavam em Alexandria e foi já como virtual prisioneira que Cleópatra voltou para o palácio, onde obteve a permissão de organizar o funeral de Marco Antônio. Ela ainda tentaria negociar alguma saída honrosa para si e para os seus filhos (consta, inclusive, que ela teria mandado Caesarion para a Índia). Percebendo, porém, que tudo que Otaviano queria era mantê-la viva para abrilhantar a sua iminente parada triunfal em Roma, a Rainha do Egito, após várias tentativas, conseguiu se suicidar, segundo uma das fontes, pela picada de uma serpente no braço., em 12 de agosto de 30 A.C.

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Otaviano era agora o senhor de Roma e do Egito. Caesarion, o último faraó do Egito desapareceu da História naquele mesmo mês, executado a mando de Otaviano. Três anos mais tarde, este receberia do Senado Romano o título de Augusto e Princeps, inaugurando oficialmente o período do Império Romano e pondo fim à Roma Republicana.

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Marco Antônio acabou passando para a História como um personagem romântico e heroico, muito em função do romance dele com Cleópatra e o fim trágico de ambos. Apesar disso, ele parece ter sido também um tipo um tanto grosseiro e bronco, como apontado por Cícero e foi muito bem retratado na minissérie “Roma”. De fato, desconsiderando as razões do coração, a sua decisão de se unir à Cleópatra em Alexandria foi praticamente um suicídio político. A fonte de todo o poder residia nos exércitos italianos e isso já tinha ficado cabalmente demonstrado durante a Guerra Civil de César contra Pompeu e, novamente, nas guerras do 2º Triunvirato contra os assassinos de César apoiados pela facção dos Optimates (nobres).

Roman male portrait bust, so-called Marcus Antonius. Fine-grained yellowish marble. Flavian age (69—96 A.D.). Rome, Vatican Museums, Chiaramonti Museum.
Roman male portrait bust, so-called Marcus Antonius. Fine-grained yellowish marble. Flavian age (69—96 A.D.). Rome, Vatican Museums, Chiaramonti Museum.

CURIOSIDADE – Vitória na “Batalha dos Genes”

Ironicamente, seria a descendência de Marco Antônio, e não a de Otaviano, que herdaria o Império.  Com efeito, a sua filha Antônia, a Velha, seria avó do futuro Imperador Nero; e a sua outra filha, Antônia, a Jovem, seria mãe do futuro imperador Cláudio, avó do Imperador Calígula e bisavó do Imperador Nero.

Os três filhos que  Marco Antônio teve com Cleópatra foram poupados por Otaviano e criados por sua irma, Otávia, a ex-esposa de Antônio. Uma das meninas, Cleópatra Selene, casou-se com o rei Juba II da Numídia, e dentre seus inúmeros prováveis descendentes que se tornaram reis da cidade síria de Emesa, estaria a célebre rainha Zenóbia, de Palmira, que no século III D.C chegou a conquistar a Síria e o Egito e ameaçar a própria sobrevivência do Império. Depois de derrotada e levada para Roma, Zenóbia teria se casado com um senador romano e tido muitos descendentes.

Outra Antônia, filha de Marco Antônio com sua prima, chamada Antônia Hybrida, casou-se com Phytodorus, um magnata grego, e a filha de ambos, Phytodorida casou-se com o rei do Ponto e da Capadócia, obtendo o título de rainha. Vários descendentes de Phytodorida tornariam-se reis também do Bósforo, da Armênia e da Iberia. Assim, é bem possível que haja por aí milhares, senão milhões, de descendentes de Marco Antônio, que, derrotado nos campos político e militar, pode se considerar vencedor na batalha dos genes…