VITÉLIO – GRANDE APETITE, SOBRETUDO PELO PODER

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Em 2 de janeiro de 69 D.C, Aulus Vitelius (Vitélio) foi aclamado imperador pelas legiões estacionadas na província da Germânia Inferior.

Nascido em 24 de setembro de 15 D.C., Vitélio era filho de Lucius Vitelius e Sextilia. Seu avô, Publius Vitelius, teria sido agente financeiro do imperador Augusto e era membro da classe Equestre. Lucius Vitelius era amigo de Antônia, a Jovem, a influente mãe do imperador Cláudio e também era íntimo deste último. Ele foi nomeado para o importante posto de governador da Síria e, nesta função, foi o responsável por demitir Pôncio Pilatos do cargo de Procurador da Judéia. Além disso tudo, o pai de Vitélio também foi Cônsul por três vezes, em 34, 43 e 47 D.C.

De acordo como o relato do historiador romano Suetônio, Vitélio passou a sua mocidade na majestosa Villa Jovis de Tibério, em Capri, e teria sido uma das muitas crianças que teriam sido usadas como objetos da depravação sexual que marcou a velhice daquele imperador naquela ilha.

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Por volta do ano 40 D.C., Vitélio casou-se com Petronia, possivelmente filha do Cônsul do ano de 37 D.C., Caio Petrônio Pôncio Nigrino. Eles tiveram um filho, Aulo Vitélio Petroniano, que, de acordo com Suetônio, era cego de um olho. Ainda de acordo com esse historiador, o rapaz somente poderia herdar a fortuna da mãe caso fosse emancipado pelo pai. Vitélio teria emancipado o rapaz, mas, pouco tempo depois, morreu envenenado, segundo Vitélio após beber o veneno que aquele teria preparado para envenená-lo.

Anos mais tarde, Vitélio casou-se novamente, com Galeria Faudana, filha de um ex-Pretor, que lhe deu um casal de filhos, Aulo Vitélio Germânico, que era surdo-mudo, e Vitélia.

Graças à posição do pai, Vitélio, ocupou vários cargos no serviço público, culminando com sua indicação para o consulado de 48 D.C. Depois, aproximadamente por volta do ano de 61 D.C, já no reinado do imperador Nero, Vitélio foi nomeado Procônsul (Governador) da província da África.

Apesar dele não ter qualquer experiência ou aptidão militar, Vitélio, para a surpresa geral, foi nomeado pelo sucessor de Nero, o imperador Galba, como comandante das legiões da Germânia Inferior.

Segundo Suetônio, essa indicação teria sido conseguida através de Titus Vinius, principal conselheiro de Galba, de quem Vitélio ficara amigo em virtude do prosaico motivo de ambos torcerem pela facção dos Azuis, uma das quatro que dividiam os torcedores das corridas de quadrigas, no Circo Máximo, em Roma…

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Outro motivo da indicação de Vitélio para tão importante comando militar, ainda segundo Suetônio, foi o fato dele ser um notório glutão e bon-vivant, e, portanto, ser considerado como um político incapaz de ameaçar Galba

Porém, algo que o notório temperamento severo e inflexível de Galba não conseguiu perceber, é que as tropas da Germânia estavam muito descontentes pelo fato delas não terem recebido os donativos esperados quando da subida dele ao trono imperial, em recompensa por terem derrotado as legiões de Julius Vindex, cuja revolta desencadeara a sucessão de eventos que levou à derrubada de Nero.

Assim, as credenciais de Vitélio, tendo em vista o seu “pedigree” de filho de um senador que ocupara o consulado por 3 vezes e, ele mesmo, já ter sido Cônsul, não eram de se desprezar como pretendente ao trono,  e, quando ele chegou, em novembro de 68 D.C, à Germânia, aquelas tropas não pestanejaram em aclamá-lo como novo imperador.

O fato é que, ainda que ele não tivesse aderido voluntariamente à revolta, o comportamento de Vitélio não contribuiu nada para a disciplina das legiões. Suetônio conta que durante a marcha para assumir o comando na Germânia, Vitélio chegou até a beijar no rosto  os legionários que encontrava pelo caminho. Ao chegar, mandou soltar todos os soldados que estavam presos por qualquer motivo.

Após a aclamarem Vitélio imperador, as legiões do Reno, sob o comando dos generais Cecina e Valente, marcharam em direção à Roma. Quando elas estavam a 150 milhas da capital, os comandantes receberam a notícia de que Galba tinha sido assassinado, e que, agora, Marcus Salvius Otho (Otão) era o novo imperador. Não obstante, o exército de Vitélio resolveu continuar avançando, cruzando os Alpes em março de 69 D.C.

Embora as legiões do Danúbio tivessem se declarado a favor de Otão, o que tornava o somatório das tropas disponíveis favorável ao novo imperador, aquelas estavam bem mais distantes da Capital. Sabendo disso, Cecina e Valente ordenaram a construção de uma ponte sobre o Rio Pó e cruzaram para a outra margem, continuando a marcha para Roma.

Como resultado do rápido avanço de Cecina e Valente, o exército de Otão foi obrigado a dar combate às legiões de Vitélio, em uma situação de inferioridade numérica, sendo derrotado em Cremona, no dia 16 de abril de 69 D.C. Quando a derrota do exército imperial ficou evidente, Otão, como mandava o antigo costume romano, cometeu suicídio.

Vitélio, ao receber a notícia da vitória de suas tropas, partiu para a Roma comportando-se já como se fosse o novo imperador, e a sua viagem até a capital foi uma sucessão de banquetes comemorativos. Afinal, as tropas de Otão aclamaram Vitélio e tudo parecia indicar que a sucessão não seria contestada.

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Porém, o comportamento de Vitélio, ao mesmo tempo soberbo e desregrado, não granjeou simpatias entre o povo romano. Aliás, consta que, durante o seu breve reinado, ele, um notório glutão, costumava se banquetear quatro vezes por dia. Sintomaticamente, as estátuas de Vitélio que sobreviveram até os nossos dias são a de um homem bem obeso, apesar de, tradicionalmente, os escultores sempre tentarem melhorar a aparência dos poderosos representados em suas obras…

Sobre o imenso apetite de Vitélio, descreve Suetônio:

“Ele fazia suas refeições três, às vezes quatro vezes ao dia, café-da-manhã, almoço, jantar e um coquetel, e ele era prontamente capaz dar conta de tudo isso mediante o seu hábito de tomar eméticos (remédio para vomitar). Além disso, ele era convidado para cada uma dessas refeições várias vezes, por diferentes pessoas, no mesmo dia, e os ingredientes para cada uma delas nunca custavam menos do que quatrocentos mil sestércios!  A mais famosa de todas essas foi o jantar dado pelo seu irmão para celebrar a chegada do imperador à Roma, no qual, conta-se, que dois mil peixes, escolhidos entre os melhores, e sete mil aves, foram servidos. Ele mesmo eclipsou até mesmo isso na consagração de uma bandeja, que, devido ao seu enorme tamanho, ele chamou de “Escudo de Minerva, Defensora da Cidade”. Nessa bandeja, ele misturou fígados de lúcios (espécie de peixe), miolos de faisões e pavões, línguas de flamingos e esperma de lampréias, trazidos por seus capitães e navios de guerra de todas as partes do Império, da Pártia ao Estreito de Gibraltar.  Sendo, ademais, um homem de um apetite que era não apenas ilimitado, mas também inoportuno e indecente, ele não podia evitar, mesmo quando estava fazendo sacrifícios religiosos ou viajando, de surrupiar pedaços de carne ou de bolos em meio aos altares, praticamente do próprio fogo, e devorá-los no local, ou dos restaurantes ao longo da estrada, das viandas fumegantes ou até mesmo aquelas que tinham sobrado do dia anterior e estavam parcialmente consumidas.

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Todavia, em julho de 69 D.C., os exércitos do Oriente aclamaram como imperador o respeitado general Vespasiano, que comandava a campanha contra a Revolta dos Judeus. A situação de Vitélio piorou quando as legiões da Panônia, sob o comando de Antonius Primus, e da Ilíria, sob o comando de Cornelius Fuscus, declararam-se a favor de Vespasiano e marcharam para invadir a Itália. O efetivo destes dois exércitos rebeldes compreendia 5 legiões, metade das tropas leais a Vitélio.

Novamente, o encontro das tropas a favor e contra o imperador se deu em Cremona, em 24 de outubro de 69 D.C.,  terminando com a derrota do exército de Vitélio. Ele ainda mandou tropas para tentar guardar as passagens pelos Apeninos, mas essas também desertaram em favor de Vespasiano.

Desesperado, Vitélio tentou abdicar, com o objetivo de poupar a sua vida e a de sua família e propor um acordo com Vespasiano, mas os seus partidários o persuadiram a continuar no cargo. Em decorrência, o irmão de Vespasiano, o Prefeito Tito Flávio Sabino, que tinha tentado tomar o controle de Roma, foi repelido, e morto pelos guardas de Vitélio. Nesta refrega, o reverenciado Templo de Jupiter Optimus Maximus, na colina do Capitólio, onde Sabino tinha se refugiado, acabou incendiado.

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Dias depois, a vanguarda do exército de Antonius Primus chegou à Roma, sem encontrar nenhuma oposição. Os últimos soldados leais à Vitélio tinham desertado.

Estava tudo acabado, Vitélio ainda tentou se esconder no Palácio deserto, disfarçando-se com roupas humildes e colocando mobília para bloquear a porta do seu quarto, mas ele rapidamente foi descoberto pelos soldados do Danúbio, conduzido seminu, em meio aos insultos da plebe, torturado, nas Escadarias Gemônias, e morto, tendo o corpo arrastado até o rio Tibre, no dia 22 de dezembro de 69 D.C.

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Vitélio reinou por oito meses e morreu aos 54 anos de idade. O seu filho, Aulo Vitélio Germânico, foi assassinado no mesmo dia que o pai, mas a filha, Vitélia, sobreviveu e depois teve o auxílio de Vespasiano para arrumar um bom casamento.

 

DIOCLECIANO – O RECONSTRUTOR DO IMPÉRIO ROMANO

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(Cabeça de Diocleciano, foto de Giovanni Dall’Orto)

Origem

Em 22 de Dezembro de 244 D.C., nascia em Salona, na província romana da Dalmácia, próximo à atual cidade de Split, na Croácia, Gaius Aurelius Valerius Diocletianus (Diocleciano).

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(Ruínas romanas de Salona)

O nome verdadeiro de nascença de Diocleciano era Diocles Valerius e ele era filho de um humilde escriba de um senador chamado Anulinnus. Com efeito, acredita-se que o pai de Diocleciano era provavelmente um escravo liberto ou então filho de um liberto.

Embora não saibamos nada sobre a infância e juventude de Diocleciano, é certo que ele alistou-se no Exército Romano e, como muitos conterrâneos de origem ilíria, foi sendo promovido até as mais altas patentes.

Assim, quando a História começa a mencionar a carreira de Diocleciano, ele já ocupava o importante posto militar de Duque da Moésia (Dux Moesiae), no baixo Danúbio.

Ascensão

Em 282 D.C., Diocleciano foi promovido pelo imperador Caro ao prestigioso posto de Comandante dos “Protectores Domestici”, o corpo de cavalaria de elite que funcionava como uma espécie de Guarda Imperial. Nessa condição, Diocleciano acompanhou Caro na guerra contra a Pérsia.

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Aclamação

Após a morte de Caro no Oriente, em 283 D.C., segundo consta, ele fpo atingido por um raio enquanto travava a bem sucedida campanha contra os Persas, os seus filhos Carino e Numeriano, assumiram o trono, Sendo que o primeiro assumiu, informalmente, o governo da metade ocidental do Império, e o último, a do Oriente.

Porém, no decorrer do ano seguinte, Numeriano morreu, acometido de uma misteriosa inflamação nos olhos, quando voltava da Pérsia (algumas fontes levantem a suspeita de que ele foi assassinado pelo Prefeito Pretoriano, Lucius Flavius Aper (Áper).

Verdadeira ou não a participação de Áper na morte de Numeriano, o seu suposto crime não lhe trouxe o proveito esperado, pois, quando o exército imperial alcançou os subúrbios de Nicomédia (atual Izmir, na Turquia), um conselho de generais escolheu Diocleciano como sucessor, em 20 de novembro de 284 D.C.

Na na presença das tropas reunidas para a sua aclamação, Diocleciano imediatamente acusou Áper de ter assassinado Numeriano e, em  seguida, executou-o com a própria espada, na frente dos soldados estupefatos (há quem defenda que Diocleciano estava implicado na trama que assassinou o imperador e a morte de Áper teria sido na verdade uma “queima de arquivo”).

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Eliminando o rival

Ao assumir o seu primeiro consulado, Diocleciano escolheu como colega Lúcio Cesônio Basso, um experiente político de uma ilustre família romana, e, não como seria natural,  o outro imperador, Carino, o filho de Numeriano que reinava em Roma. Esse ato representava uma declaração de rompimento com Carino, prenunciando uma guerra civil.

Todavia, a disputa entre Carino e Diocleciano foi breve. Diocleciano avançou para o Oeste em direção à Itália e foi confrontado pelas forças de Carino na província da Moésia, no rio Margus, próximo a Viminacium, que ficava no território vizinho à atual Belgrado. No começo da batalha, Aristóbulo, o prefeito pretoriano de Carino desertou para o campo inimigo. Antecipando a derrota, os próprios soldados de Carino, mataram o seu imperador e aclamaram Diocleciano, em julho de 285 D.C.

Consolidando o poder

Contrariando o que se esperava de um imperador romano do século III D.C, o vitorioso Diocleciano não perseguiu os partidários de Carino, mantendo nos cargos muitos dos auxiliares deste, o que emulava, de certa forma a célebre clemência de Júlio César. Por sua vez, Aristóbulo foi mantido como Prefeito Pretoriano e Basso foi nomeado Prefeito Urbano de Roma.

Um dos primeiros atos de Diocleciano no trono foi escolher um colega para governar em conjunto com ele e o escolhido foi seu velho amigo e companheiro de armas, o general e conterrâneo de origem ilíria, Marcus Aurelius Valerius Maximianus (Maximiano). Embora os amigos compartilhassem a origem humilde, Maximiano, ao contrário de Diocleciano, era um homem muito mais áspero e implacável que este, que, no entanto, tinha sobre ele certa ascendência moral e intelectual. Em 1º de abril de 286 D.C., Maximiano foi elevado do posto de “César” para  o de “Augusto”, que correspondia ao de Imperador.

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(Cabeça de Maximiano)

Sintomaticamente, os dois Augustos se concederam os títulos de “Júpiter” (Diocleciano) e de “Hércules”(Maximiano). Não por acaso, os títulos e os atributos das divindades escolhidas visavam ilustrar o papel de ambos no Império Romano, onde Diocleciano aparecia como o sábio pai dos deuses e chefe do Olimpo e Maximiano como o guerreiro encarregado das tarefas militares”. Desse modo, embora juridicamente iguais, Diocleciano mantinha para si, na prática,  o status de “imperador sênior”.

Campanhas internas e externas

Diocleciano, desde logo o início do seu reinado, demonstrou uma certa rejeição à cidade de Roma. Muitos historiadores até acreditam que ele sequer chegou a visitar a velha capital quando de sua ascensão ao trono, ou, segundo outros, ele passou por lá tão brevemente que, em novembro de 285 D.C., ele já estava nos Bálcãs em campanha contra os Sármatas, os quais foram batidos, embora não esmagados.

Enquanto isso, Maximiano lidava com os bandos de fora-da-lei conhecidos como bagaudas, no norte da Gália. Submetidos estes, foi a vez dele combater a insurreição de seu subordinado Caráusio, o comandante da frota do Mar do Norte, que chegou a ser aclamado “Imperador da Britânia”. Porém, Caráusio estava firmemente estabelecido na Ilha e lá ele conseguiu resistir por sete anos, cunhando moedas em que ostentava o título de imperador e “irmão” de Diocleciano e Maximiano e louvava a concórdia (paz) entre eles.

Maximiano resolveu lutar contra os Alamanos, na fronteira do Reno, os quais ele combateu inicialmente sozinho, recebendo, posteriormente, a ajuda do colega Diocleciano. Essa campanha foi bem sucedida, e Diocleciano pode voltar sua atenção para o Oriente, onde os Persas criavam problemas crescentes.

Estabelecido em Nicomédia, as iniciativas de Diocleciano asseguraram a assinatura de um tratado de paz com os persas bastante favorável a Roma, que conseguiu instalar um rei-cliente no trono da Armênia. No Oriente, Diocleciano ainda combateu invasores árabes (sarracenos) na Palestina.

Na virada do ano de 290 D.C para 291 D.C, Diocleciano voltou para a Itália, onde encontrou com Maximiano em Milão, que tinha passado a ser a capital do Ocidente. 

Outras questões externas que ocupariam Diocleciano foram novos ataques dos Sármatas, um povo de origem iraniana, em 294 D.C., que foram derrotados de modo mais duradouro. O imperador decidiu reforçar a fronteira do Danúbio construindo uma cadeias de fortes abrangendo as cidades de Aquincum (atual Budapeste), Bononia (atual Vidin, na Bulgária), Ulcisia Vetera, Castra Florentium, Intercisa (atual Dunaújváros, na Hungria) e Onagrinum (atual, Begec, na Sérvia), que se tornaram parte de uma nova linha defensiva chamada de Ripa Sarmatica. Em 295 e 296 D.C., foi a vez de lutar contra o povo Carpi, que também foram derrotados.

A Tetrarquia

A vivência da eclosão de crises simultâneas em diferentes partes do Império certamente contribuiu para estimular Diocleciano a idealizar a medida mais revolucionária do seu reinado: a chamada Tetrarquia, em 293 D.C.

Em 1º de março de 293 D.C., Diocleciano resolveu nomear o general Flávio Constâncio “Cloro”, genro de Maximiano e Prefeito Pretoriano da Gália, e recentemente encarregado da campanha contra Caráusio, como “César“, o que caracterizava, na prática, o posto de imperador “júnior”, e  de herdeiro de Maximiano. Provavelmente, na mesma data ou um pouco depois, Diocleciano nomeou seu genro, o general Galério, marido de sua filha Valéria (Diocleciano não teve filhos homens), para o posto de César, passando a ser o seu herdeiro.

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(Escultura retratando “os Tetrarcas”, que foi trazida de Constantinopla para Veneza, no século XIII, onde foi colocada num dos cantos da Basílica de São Marcos)

Diocleciano considerava o Império Romano grande demais para ser governado por apenas um monarca, motivo pela qual instituiu a Tetrarquia, onde ele seria administrado por quatro governantes imperiais, sendo dois mais graduados, que teriam o título de “Augusto“, inicialmente com as respectivas capitais em Milão e Nicomédia, e dois, em plano um pouco inferior e subordinados a eles, nomeados “César“, instalados em Trier e Sirmium. A escolha dos “Césares”, pelos “Augustos”, visava assegurar uma sucessão tranquila e automática, teoricamente baseada no mérito, sendo que, quando o trono ficasse vago, o “César”, já previamente nomeado e experimentado na tarefa de governar, assumiria o posto vago de “Augusto” e, por sua vez,  este escolheria o novo “César”.

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(Embora a ilustração retrate Maxêncio, os trajes dele certamente são os mesmos que os tetrarcas deviam usar, incluindo o tradicional gorro ilírio,  costumeiramente utilizado pelos militares originários daquela região e que também foi retratado na escultura existente na Basílica de São Marcos).

Reformando o Império

Outra grande reforma administrativa promovida por Diocleciano foi a redivisão das cerca de 50 províncias romanas em 100 unidades menores, agrupadas em doze “Dioceses”, governadas por “Vigários”(Vicarii). Esses Vigários deixaram de ter funções militares, que foram transferidas para dezenas de “Duques” (Duces), mas retendo funções administrativas, judiciárias e fiscais. Dessa forma, Diocleciano tencionava diminuir a possibilidade de revoltas, tão frequentes durante o período imperial, dividindo e diminuindo o poder de que disporiam esses administradores.

Diocleciano também praticamente dobrou o número de funcionários públicos civis e também dobrou os efetivos do Exército Romano.

O consequente aumento da despesa pública gerado pelo aumento do tamanho do funcionalismo público e dos militares foi enfrentado com uma grande reforma no sistema tributário imperial. Após a realização de um abrangente e detalhado censo, foram estabelecidas duas unidades fiscais chamadas de “jugum” e de “caput”, a primeira levando em consideração uma determinada área de terra em função do tipo e da quantidade de produção agrícola que ela seria capaz de sustentar, num conceito um tanto parecido com o do módulo rural, e a segunda, o número de pessoas que neles viviam, podendo variar em função do sexo e idade. Em decorrência, os impostos passaram a serem calculados em função da quantidade de “jugera” e “capita” atribuídos a cada região ou cidade integrante do Império. E os impostos agora passavam a ser pagos não apenas em dinheiro, mas também em gêneros.

Para combater a crescente inflação, Diocleciano determinou duas medidas: uma reforma monetária, fixando três tipos de moeda: ouro (aureus), prata (argenteus) e cobre (follis), fixando os percentuais de metais nas ligas com  as quais elas seriam cunhadas.

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(Um “Antoniniano” de Diocleciano, moeda anterior a reforma monetária, foto de Sosius11)

Entretanto, como a inflação não cedia, Diocleciano baixou o seu célebre “Édito de Preços Máximos”, em 301 D.C., uma verdadeira lei de congelamento de preços, como aquelas tão conhecidas dos brasileiros em tempos não tão distantes e que, da mesma maneira que as leis brasileiras, não deu certo, gerando desabastecimento…

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(lápide contendo parte do Édito de Preços Máximos, de Diocleciano)

Uma outra medida de Diocleciano, e que, para muitos historiadores, teria influência duradoura na Europa Medieval, foi a lei que obrigava aos camponeses e seus descendentes a trabalharem permanentemente nas terras agrícolas, tornando compulsórias e hereditárias esta atividade, além de outras profissões, entre as quais as de soldados, padeiros e até mesmo a função de membros das câmaras municipais, política que muitos veem como uma das origens do sistema feudal.

Diocleciano procurou assegurar a estabilidade política do trono promovendo uma verdadeira sacralização da pessoa do imperador, o que ele fez não por vaidade, mas para impedir as reiteradas conspirações para derrubar os imperadores romanos, tão comuns ao longo da história imperial. Assim, o cerimonial da corte tornou-se altamente ritualístico, estabelecendo-se como dever de todos que chegassem à presença do imperador, prostrar-se no solo (“adoratio”), como se estivessem na presença de um deus. Do mesmo modo, somente o monarca poderia usar a cor púrpura. O título imperial de “Príncipe”, que tinha origem na expressão “primeiro senador”, foi substituído pelo de “Dominus” (Senhor).

O Conselho do Imperador (“Consilium”), que tradicionalmente tinha entre seus componentes algum senador ou figura pública, foi substituído pelo Consistório, um nome que denotava uma assembleia particular e privada.

A ênfase no culto ao imperador, decorrente da política acima citada, levou inevitavelmente à exigência de demonstrações públicas de devoção. Não surpreende, assim, que os Cristãos, que admitiam adorar apenas um Deus, tenham sido alvo de uma perseguição implacável por Diocleciano, decretada em 303 D.C, e que seria batizada pela Igreja Católica como “A Grande Perseguição”. Não obstante, não se pode afirmar que Diocleciano, pessoalmente, nutrisse ódio ou inimizade pelo Cristianismo.

As medidas de Diocleciano contra a fé cristã parecem decorrer mais de sua vontade de ser o restaurador da velha grandeza do Império Romano, que também incluía o fortalecimento da religião tradicional romana, do que a um ódio particular. Consta que o seu colega Galério é que era radicalmente avesso aos cristãos. Curiosamente, vale notar que, segundo algumas fontes, Valéria, filha de Diocleciano e esposa de Galério, era simpatizante do Cristianismo ou seria até mesmo cristã, o mesmo ocorrendo com sua mãe, Prisca.

Abdicação e aposentadoria

Em 20 de novembro de 303 D.C., Diocleciano finalmente visitou Roma para comemorar o vigésimo aniversário do seu reinado. Foi uma breve estadia, pois o imperador não gostou das maneiras pouco deferentes dos romanos. Um mês depois, ele viajou para Ravena, de onde partiu para uma campanha no Danúbio. Porém, a sua saúde começou a piorar e ele resolveu voltar para Nicomédia, onde ficou recluso no palácio, o que fez circular o boato de que ele havia morrido.

Em março de 305 D.C., Diocleciano reapareceu em público. Poucos dias depois, Galério chegou à Nicomédia. Em 1º de maio do mesmo ano, Diocleciano reuniu os generais do Exército e anunciou que ele estava doente e que precisava descansar. Em um gesto inédito na história do Império Romano, o imperador comunicou que iria abdicar em favor de um herdeiro mais capaz: Com base no sistema da Tetrarquia, Galério o sucederia como Augusto e Maximiano também abdicaria, fiel e obedientemente, do trono, sendo sucedido por Constâncio Cloro.

A grande surpresa, porém,  foi quando se anunciaram quem seriam os novos Césares…Com efeito, todos pensavam que Maxêncio, filho de Maximiano, e Constantino, filho de Constâncio Cloro, seriam os novos Césares. Porém, os escolhidos foram Maximino Daia, sobrinho de Galério, e Severo, este um velho amigo de Galério. A Tetrarquia, que mal começara, já nascia, assim, ameaçada em sua estabilidade pelo preterimento de dois candidatos naturais à sucessão. Tudo indica que isso decorreu da vontade de Galério, que era agora o verdadeiro homem-forte da Tetrarquia.

Diocleciano, após a abdicação, foi viver em seu espetacular palácio-fortaleza na cidade de Salona, em sua terra natal. Boa parte do palácio ainda existe e em seu vasto interior nasceu a atual cidade de Split, na Croácia. Diocleciano parece ter encontrado a verdadeira felicidade cuidando de suas hortas e jardins. Consta que, durante a guerra civil que logo eclodiu entre os seus sucessores e precipitou o fim da Tetrarquia, Diocleciano foi instado por populares a reassumir o trono, ao que ele teria respondido:

Se vocês pudessem mostrar ao imperador os repolhos que eu plantei com minhas próprias mãos, ele definitivamente jamais sugeriria que eu trocasse a paz e a felicidade deste lugar pelas tormentas de uma insaciável ambição”.

Morte

Diocleciano morreu em 03 de dezembro de 312 D.C., aos 67 anos de idade, em seu palácio em Split, sendo sepultado em um mausoléu octogonal que ele havia mandado construir no interior do mesmo.

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Legado

O principal feito de Diocleciano foi conseguir dar estabilidade ao Império após um século de crises, guerras civis, derrotas militares e tumultos. Fazia mais de cem anos que um imperador não conseguia reinar 20 anos. A média no período tinha sido de cerca de três anos de reinado para cada imperador em 100 anos. Para isso contribuiu, certamente, a sacralização da imagem do Imperador, oficialmente estabelecida como “Dominus et Deos” (Senhor e Deus). Por isso, o reinado de Diocleciano é considerado um marco que divide a História do Império Romano entre os períodos do “Principado” ( a partir de Augusto, o primeiro imperador) e do “Dominado” (a partir de Diocleciano).

O reinado de Diocleciano marca também o fim da chamada “Crise do Século III“, pondo fim a um período de grande anarquia, convulsões internas e enfraquecimento militar.

As linhas estabelecidas por Diocleciano, foram em grande parte mantidas por Constantino, que derrotou os demais contendores pelo espólio da Tetrarquia (sendo a mais notável exceção a política religiosa) e duraram até o final do Império do Ocidente, cerca de 200 anos mais tarde.

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