TITO, O IMPERADOR QUE SÓ TEVE TEMPO PARA SER AMADO

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Em 30 de dezembro de 39 D.C., nascia, em Roma, Titus Flavius Sabinus Vespasianus (Tito), filho mais velho de Tito Flávio Vespasiano (que vinte anos mais tarde se tornaria o imperador Vespasiano) e de Domitila, a Velha.

Os Flávios eram uma família de origem sabina (povo itálico vizinho dos romanos), proveniente da cidade de Reate, que, no final da República, ingressaram na classe dos Equestres (ou Cavaleiros), que era o segundo nível hierárquico da nobreza romana.

Com efeito, o bisavô paterno de Tito havia sido um mero centurião das tropas de Pompeu, que lutou na Batalha de Farsália, durante a guerra civil entre este e Júlio César, e, depois, coletor de impostos. Já o seu avô paterno, Titus Flavius Sabinus, também foi coletor de impostos na Província romana da Ásia e, depois, banqueiro.

Por sua vez,  família de Domitila, a Velha, mãe de Tito, havia se estabelecido na cidade de Sabratha, na colônia romana da África. durante o reinado de Augusto, sendo o avô materno de Tito um simples secretário de um questor daquela província (Nota: Domitila, a Velha é avó de Flávia Domitila, que foi canonizada pela Igreja Católica como Santa Flávia Domitila e era sobrinha de Tito. As chamadas Catacumbas de Domitila, em Roma, têm esse nome porque as terras pertenciam a ela, que as legou para a nascente comunidade cristã da Cidade, ainda no século I D.C).

Porém o pai de Tito, Vespasiano, e o irmão mais velho deste, Sabino, tiveram sucesso no serviço público e no Exército, durante os reinados de Calígula e Cláudio. Vespasiano, inclusive, conseguiu ingressar no círculo mais íntimo do imperador Cláudio, em função da sua relação amorosa com a influente liberta Antônia Caenis, que era secretária pessoal da mãe de Cláudio, Antônia, a Jovem, e da amizade com o liberto Narcissus, que era um dos principais ministros deste imperador.

Assim, durante o reinado de Cláudio, Vespasiano conseguiu atingir o cume da carreira pública das magistraturas romanas, ao ser nomeado Cônsul, em 51 D.C., também obtendo um importante comando militar na conquista da Britânia.

Por isso,  Tito teve o raro privilégio de ser educado junto com Britânico, o filho natural de Cláudio, e, obviamente, um natural pretendente ao trono, muito embora as maquinações da imperatriz Agripina, a Jovem persuadissem Cláudio a privilegiar o filho desta, Nero, que foi adotado como herdeiro pelo imperador.

Não obstante, anos mais tarde, quando ficou claro que ele seria o herdeiro de Vespasiano, o comportamento de Tito, durante a mocidade suscitaria alguns temores naqueles que chegaram a perceber muita semelhança entre ele e Nero, sobretudo no que tange aos prazeres mundanos…

Segundo o historiador Suetônio, o jovem Tito era bonito e forte, apesar dele ser baixo e barrigudo. Ele montava bem à cavalo e era bom no manejo das armas, notadamente o arco e a flecha (inclusive, durante o Cerco a Jerusalém, Tito teria oportunidade de demonstrar esta habilidade). Outro talento que chamou a atenção, embora fosse um tanto mais preocupante, era a sua extraordinária capacidade de imitar perfeitamente a caligrafia dos outros.

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Iniciando a sua carreira militar, entre os anos 57 e 63 D.C, Tito destacou-se como tribuno militar na Britânia e na Germânia.

De volta à Roma, em 63 D.C., Tito casou-se com Arrecina Tertulla, que era filha de um ex-Prefeito da Guarda Pretoriana. Porém, Arrecina  faleceu cedo, em 65 D.C., assim, o viúvo Tito em seguida desposou a nobre Marcia Furnilla, que pertencia a uma distinta família da classe senatorial romana ( apesar de, originalmente, no início da República, os Márcios serem uma gens plebeia, eles reivindicavam descender do lendário Rei de Roma Ancus Marcius).

Porém, o novo casamento  também teria vida curta, pois Tito achou por bem divorciar-se da espoas quando membros da família dela foram acusados de participar da Conspiração Pisoniana, liderada por Caio Calpúrnio Pisão contra o imperador Nero, que ocorreu naquele mesmo ano de 65 D.C.

Tito jamais se casaria de novo.

Pouco depois, Vespasiano, que era um general respeitado, no final do reinado de Nero foi nomeado para comandar as legiões que iriam combater a Grande Revolta Judaica, que estourara em 66 D.C.

Na Guerra contra os Judeus, Tito acompanhou Vespasiano até a Judéia, em 67 D.C., comandando a XV Legião.

Quando estourou a rebelião de Gaius Julius Vindex, na Gália, em 68 D.C., que iniciou a cadeia de eventos que resultaria na deposição e suicídio de Nero, Tito foi enviado à capital por Vespasiano para transmitir o reconhecimento das legiões na Judéia ao novo imperador, Galba. Porém, antes de chegar à Roma, Tito recebeu a notícia de que Galba havia sido assassinado e de que agora Otão era o novo imperador. ele decidiu, então, retornar para a Judéia para ver o que o pai decidiria diante do novo quadro.

Entretanto, já em 69 D.C., Otão foi derrotado por Vitélio, que, pouco antes,  havia sido aclamado pelas legiões da Germânia, e, com a vitória, foi aclamado como o novo Imperador.

Enquanto isso, Tito teve vital importância e participou diretamente das negociações que levaram Muciano, o Governador da Síria, a jogar a cartada de reconhecer Vespasiano como imperador, desprezando o reconhecimento de Vitélio, que, afinal, tinha menos prestígio que o primeiro.

Vespasiano, assim, partiu para Roma para reclamar o trono e deixou sob o comando de Tito a campanha contra a Grande Revolta Judaica.  Consequentemente, ficou sob a responsabilidade de Tito a fase mais difícil da guerra: o cerco e captura de Jerusalém. Em 70 D.C., Jerusalém, após um duro sítio, foi finalmente tomada e saqueada pelos romanos.

Segundo o abrangente relato do historiador Flávio Josefo, que era um líder rebelde judeu que foi capturado e aderiu aos romanos, Tito tinha a intenção de poupar da destruição o Grande Templo de Jerusalém, que teria sido acidentalmente incendiado durante o cerco. Porém, para muitos, essa parte do relato de Josefo não teria muita credibilidade, já o que houve de fato foi uma destruição sistemática do templo, sendo que o referido historiador seria muito propenso a incensar os Flávios, seus captores.

O Arco de Tito, em Roma, que foi erguido por seu irmão, Domiciano, após a morte de Tito, comemora a vitória contra a revolta judaica e ilustra em relevos o célebre candelabro de 7 braços (Menorah) sendo transportado na procissão triunfal de Tito em Roma.

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Foi durante a Guerra contra os Judeus que Tito envolveu-se com Berenice, uma bela princesa judia, dez anos mais velha do que ele,  e que era bisneta de Herodes, o Grande, e irmã de Herodes Agripa II, o rei-cliente de Roma que, entre outros territórios, governava a Galileia, situando-se entre seus domínios, a cidade de Cesareia (Nota: Foi em Cesareia, na presença de Berenice, de Herodes Agripa, e do procurador romano Festus, por volta de 59 D.C., que o apóstolo Saulo de Tarso (São Paulo), preso, defendeu sua causa e apelou para ser julgado em Roma (Atos, 26).

O Senado Romano reconheceu Vespasiano como novo Imperador, em 21 de dezembro de 69 D.C.  Em 70 D.C,, enquanto ainda estava no Oriente, Tito foi nomeado Consul junto com seu pai.

Em 71 D.C.Tito recebeu do pai o “Poder Tribunício”, que constituía uma declaração informal de que ele seria o herdeiro e sucessor de Vespasiano ( afastando, assim, qualquer pretensão de que seu ambicioso irmão mais novo, Domiciano, pudesse ter de herdar o trono antes dele). Certamente, o sábio Vespasiano quis evitar um dos principais fatores de instabilidade nos reinados dos seus antecessores da dinastia dos Júlios-Cláudios: a pouca clareza quanto à sucessão, pela existência de vários pretendentes dinásticos).

Tito também foi nomeado Prefeito da Guarda Pretoriana, um cargo de grande poder e que demonstrava a confiança que Vespasiano tinha no filho. E, de fato, agindo como comandante da guarnição militar da Capital e Guarda de Honra do Imperador, Tito foi implacável na vigilância e repressão a potenciais ameaças ao reinado do pai, tendo executado sumariamente vários supostos conspiradores.

Em 75 D.C., Tito trouxe sua amante Berenice para viver com ele no Palácio. Porém, a opinião pública romana, sempre suspeitosa contra a fé judaica, não recebeu bem esta união, talvez amedrontada com um possível paralelo com a união entre Cleópatra e Marco Antônio, que foi considerada prejudicial aos interesses do Estado. Tito teve que se curvar à vontade popular e mandou a princesa judia de volta para o Oriente.

Porém, em 23 de junho de 79 D.C., aos 69 anos de idade, Vespasiano morreu de causas naturais e Tito foi imediatamente aclamado como novo Imperador Romano, aos 38 anos.

Uma das primeiras medidas de Tito foi decretar o fim dos julgamentos por crimes de lesa-majestade (maiestas). Essa antiga lei romana, que originalmente visava processar os responsáveis por conspirações contra a segurança nacional, tinha se tornado, durante o principado, um pretexto para executar qualquer pessoa que desagradasse o trono, até mesmo por uma simples manifestação de desagrado contra os imperadores, inclusive os já falecidos.

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(Estátua de Tito, foto de Sailko)

As palavras de Tito, ao acabar com os processos por maiestas, foram preservadas, e valem ser transcritas:

“É impossível que eu seja insultado ou sofra qualquer tipo de abuso, pois eu nada fiz que mereça censura, e eu não me importo com relatos falsos. No que se refere aos imperadores que já morreram, eles podem se vingar sozinhos se alguém lhes fizer algum malefício, caso sejam eles mesmo semideuses e possuam algum poder…”

A declaração supracitada demonstra que Tito herdou muito da personalidade e das maneiras do pai, Vespasiano, que prezava pela simplicidade, afabilidade e senso de humor. Suetônio assim descreve o comportamento de Tito:

“Ele era muito gentil por natureza, e, considerando que, de acordo com um costume estabelecido por Tibério, todos os Césares que o seguiram recusavam-se em conferir favores concedidos pelos imperadores precedentes, a menos que eles próprios os concedessem aos mesmos indivíduos, Tito foi o primeiro a ratifica-los conjuntamente em um simples decreto, não admitindo que fossem requeridos pessoalmente a ele. Ademais, no caso de outros pedidos feitos a ele, a norma que ele adotou foi não deixar ninguém sair sem esperanças. Mesmo quando os seus secretários domésticos advertiam-no que ele estava prometendo mais do que podia cumprir, ele dizia que não estava certo que alguém fosse embora triste de uma audiência com o seu imperador. Em outra ocasião, lembrando-se, enquanto jantava, de que durante aquele dia ele não tinha atendido aos pedidos de ninguém, ele proferiu aquele memorável e louvável comentário: “Amigos, hoje foi um dia perdido

Decorridos cerca de dois meses do reinado de Tito, aconteceu uma das maiores tragédias que já se abateram sobre o Império Romano: a grande erupção do Vesúvio que soterrou Pompéia e Herculano, entre outras cidades.

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Nota: a data da erupção, tradicionalmente considerada como sendo 24 de agosto de 79 D.C., com base em cópias medievais da carta de Plínio, o Jovem, testemunha ocular do fato, descrevendo a erupção, tem sido reconsiderada em função dos achados arqueológicos. Além do estado dos restos de plantas e sementes  encontrados não corresponder a essa estação do ano (verão europeu), indicando mais o outono, recentemente, no final de 2018, nas escavações na chamada Região V da cidade de Pompéia, foi encontrado um grafite feito em carvão em uma parede, contendo a data “17 de outubro” (por ser em carvão, material que se apagaria em pouco tempo ao ar livre, acredita-se que essa inscrição foi feita poucos dias antes da erupção ).

A conduta de Tito após a catástrofe do Vesúvio foi digna de um grande estadista. Ele visitou pessoalmente a região afetada, criou um fundo para assistência às vítimas, tomou medidas para o reassentamento dos sobreviventes e organizou uma comissão do Senado para deliberar sobre medidas adicionais de auxílio.

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(Cabeça de Tito, proveniente de Utica, Museu Britânico, foto de Carole Raddato)

Entretanto, pouco tempo depois, na primavera de 80 D.C., estando o Império ainda traumatizado pela destruição na Itália, uma nova tragédia aconteceria: um novo incêndio de Roma. Novamente, Tito, que ainda estava na Campânia supervisionando as medidas de apoio à população afetada pela erupção do Vesúvio, foi incansável nas ações de assistência aos desabrigados.

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Para alguns dos supersticiosos romanos, e certamente para a maior parte dos judeus e cristãos, essas tragédias eram uma punição pela destruição do Templo de Jerusalém.

Mas o reinado de Tito não seria marcado pela tristeza. Em uma espécie de compensação do destino pelos desastres sucessivos, ficou a cargo de Tito terminar e inaugurar o magnífico e grandioso Amphitheatrum Flavium (Anfiteatro Flávio), que ficaria conhecido popularmente como “Colosseum” (Coliseu). O nome do Coliseu deriva do fato dele ficar ao lado da enorme estátua dourada de Nero (que, segundo os relatos, seria maior do que a moderna Estátua da Liberdade, em Nova York),  conhecida como “Colossus“. A construção do Coliseu foi iniciada por Vespasiano, em cujo reinado a maior parte do edifício foi construída, aproveitando as fundações e parte da estrutura do enorme palácio de Nero (“Domus Aurea“), que foi soterrado.

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(O autor no Coliseu, em 2000)

Foram 100 dias de jogos inaugurais e, portanto, feriados, para deleite da plebe romana., que assistiram a lutas de gladiadores e caçadas de animais (cerca de 9 mil animais teriam sido mortos durante o período desses jogos).

Tito também construiu e inaugurou, no mesmo período que o Coliseu (80-81 D.C.), as suas Termas ou Banhos de Tito) para o uso da população de Roma e que, assim como no caso do Coliseu,  aproveitaram a infraestrutura da Domus Aurea. Embora não fossem muito grandes, comparados com os complexos de banhos que os imperadores construiriam nos séculos posteriores, as Termas de Tito foram as terceiras termas públicas construídas em Roma, após as Termas de Agripa e as Termas de Nero. Segundo Suetônio, nas suas Termas, Tito costumava banhar-se junto com os demais frequentadores do povo.

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Na política externa, o único desafio enfrentado por Tito foi uma revolta das tribos da Britânia, que foi debelada pelo general Agrícola, que levou suas legiões em campanha até a Escócia.

Em 13 de setembro de 81 D.C., o imperador Tito morreu de uma febre súbita, quando visitava a terra natal de seus antepassados, em território sabino, aos 41 anos de idade. A suas últimas palavras teriam sido:

“Cometi senão um erro”.

O real significado da frase derradeira de Tito sempre suscitou muita discussão entre os historiadores. Para alguns, ele se referia ao fato de não ter executado o irmão Domiciano, cujo caráter já há tempos já dava mostras de ser tirânico e que, segundo alguns relatos, teria conspirado para derrubar Tito. Houve também quem acreditasse que o erro lamentado teria sido um romance adúltero que Tito teria mantido com a mulher do irmão, Domícia Longina.

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(Quadro ” O Triunfo de TIto“, de Sir Lawrence Alma-Tadema (1885). Na cena, Vespasiano é seguido por Domiciano, de mãos dadas com sua esposa Domícia Longina, que olha sugestivamente para Tito)

O reinado de Tito somente durou dois anos. Apesar das catástrofes ocorridas, o seu comportamento afável e generoso, a ausência de perseguições durante o seu governo, a sua procupação com a sorte das vítimas dos desastres e as obras públicas e espetáculos grandiosos, granjearam-lhe a estima do povo e dos historiadores, que lhe retrataram de maneira favorável.

Nas palavras de SuetônioTito foi:

“O querido e a delícia da raça humana”.

Tito é um daqueles exemplos em que a morte de uma celebridade jovem no auge da fama preserva a mitifica a sua boa imagem.

Ademais, o reinado do sucessor de Tito, Domiciano, mais autocrático e centralizador, desagradou boa parte dos senadores, que acabaram engendrando algumas conspirações para derrubá-lo. Após o assassinato de Domiciano, a história do reinado dele foi contada por historiadores ligados à classe senatorial, hostis a Domiciano, e os relatos dos mesmos tendem a classifica-lo como um “mau” imperador, cujo reinado intercala-se entre os reinados dos “bons” imperadores, Tito e Nerva.

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