A BATALHA DO RIO FRÍGIDO

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(Batalha do Rio Frígido, ilustração de Angus McBride)

Em 05 de setembro de 394 D.C, o exército do Imperador Romano do Oriente, Teodósio, o Grande,  após marchar pela província da Ilíria e atravessar os Alpes Julianos, chegou no Rio Frigidus (que separa o que hoje é a Eslovênia da Itália ). Quando o exército oriental chegou, já estavam acampadas no local as tropas do usurpador Eugênio, comandadas pelo general de origem franca, Arbogaste, o homem-forte do Império Romano do Ocidente, e padrinho da nomeação de Eugênio, com o objetivo de darem combate a Teodósio.

A cadeia de eventos que levou ao conflito começa em 383 D.C,com a morte do imperador Graciano, que foi assassinado em Lyon, após não conseguir debelar a revolta do general da Britânia, Magnus Maximus,

Valentiniano II, o jovem meio-irmão de Graciano, que  por este foi reconhecido como co-imperador por pressão dos generais francos, seria o próximo alvo de Maximus. assim, Teodósio, pressionado pelas circunstâncias, acabou concordando em reconhecer Maximus como novo imperador das províncias ocidentais que até então tinham sido governadas por Graciano, sob  a condição de que Maximus reconhecesse Valentiniano II como co-imperador no Ocidente. Continuaria a haver, portanto, dois imperadores no Ocidente.

Esse acerto durou até 387 D.C, quando Maximus resolveu invadir a Itália para derrubar Valentiniano II e, assim, assumir o controle total do Ocidente. Dessa vez, contudo, Teodósio resolveu intervir e, após reunir as suas tropas com as de Valentiniano II, as quais eram comandadas pelo general Arbogaste, e também valendo-se da ajuda dos seus aliados visigodos e mercenários hunos,  ambos conseguiram derrotar Maximus, na Batalha de Siscia, em 388 D.C.

Oficialmente, porém, o novo imperador único do Ocidente passara a ser Valentiniano II,  que tinha apenas 17 anos de idade. Porém, o poder de fato no Ocidente estava nas mãos do general Arbogaste, que ocupava o cargo de Comandante-em-chefe da Infantaria (Magister Peditum Praesentalis).

Ainda durante o reinado de Graciano, havia sido ordenada a retirada do ancestral altar da deusa Vitória da cúria do Senado, em Roma, sob protestos dos senadores pagãos, que ainda eram muito influentes na antiga capital do Império. Quando estes apelaram a Valentiniano II para que o altar fosse restaurado, Ambrósio, o poderoso bispo de Milão, que instigara aquela medida, convenceu o jovem imperador a negar o pedido senatorial.

A tensão entre o imperador e seu comandante-em-chefe aumentou quando Valentiniano II resolveu demitir Arbogaste do cargo de Marechal da Infantaria do Ocidente. Consta que ao receber do imperador a ordem escrita, Arbogaste, teria respondido: “Não foi você quem me deu o meu comando e tampouco é você quem pode tirá-lo de mim”, após o que ele jogou a carta no chão, dando as costas ao imperador perplexo, e  retirou-se do recinto!

Pouco tempo depois, Valentiniano II foi encontrado morto em seus aposentos imperiais, tendo as suspeitas recaído sobre Arbogaste, embora uma fonte relate que o imperador pode ter se suicidado, deprimido pela impossibilidade de confrontar o general.

O fato é que Arbogaste conseguiu fazer nomear o inexpressivo Eugênio, um funcionário palaciano que era professor de Retórica,  como Imperador do Ocidente pelo Senado Romano. Esta nomeação foi, inicialmente, tolerada por Teodósio. Não obstante, à míngua de um reconhecimento formal, Eugênio é considerado pelos historiadores como um usurpador.

Entretanto, Eugênio e Arbogaste aproximaram-se da influente facção pagã do Senado Romano,  que vinha patrocinando um renascimento do paganismo em Roma, autorizando, inclusive, a reabertura dos templos e a celebração de rituais pagãos em Roma, culminando com a restauração do Altar da Vitória na Cúria do Senado, o que enfureceu Ambrósio e também deixou Teodósio em uma posição politicamente difícil na ortodoxa Constantinopla. Esta, de fato,  seria a última tentativa de se restaurar a proeminência do paganismo no Império Romano.

Assim, em 393 D.C, Teodósio concedeu oficialmente ao seu filho, Honório o título de Augusto no Ocidente, isto é, reconhecendo-o como Imperador, o que significava, obviamente, o rompimento com Arbogaste e o seu imperador-fantoche, Eugênio.

A partir daí, o devoto Imperador Romano do Oriente decidiu acabar com o renascimento pagão e começou a se preparar para invadir o Ocidente e entrar na Itália para derrubar Eugênio e Arbogaste.  Teodósio iniciou os preparativos formando um exército, recrutando e reinando romanos, o que não ocorria desde a destruição do exército do Oriente pelos visigodos na Batalha de Adrianópolis, 15 anos antes.

Em 394 D.C., o novo exército romano do Oriente estava pronto e, sob o comando deo próprio Teodósio e do fiel general Estilicão, ele deixou Constantinopla rumo à fronteira do Oriente com o Ocidente, que ficava na Ilíria (o território ocidental começava no que hoje é a Sérvia).

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O rei Alarico recebeu ordens para que os seus visigodos, que viviam nas terras do Império do Oriente sob a condição de foederati (federados) juntassem-se à ofensiva.

O avanço pelas províncias limítrofes foi fácil, assim como a passagem pelos Alpes Julianos, pois Arbogaste decidiu esperar o ataque próximo à cidade de Aquileia, no norte da península.  Ao realizarem os preparativos para a batalha, ficou claro que o renascimento pagão era a mola inspiradora da campanha: Eugênio e Arbogaste ordenaram que uma estátua do deus Júpiter fosse colocado nos limites do acampamento, e que os estandartes das tropas ostentassem imagens de Hércules.

Assim que alcançou o Rio Frigidus, no dia 05 de setembro de 394 D.C., Teodósio viu as tropas ocidentais acampadas e mandou os visigodos atacarem. Entretanto, o terreno era desfavorável e metade dos soldados bárbaros morreu neste ataque ( totalizando cerca de 10 mil baixas). Muitos acreditam que Teodósio intencionalmente quis enfraquecer os visigodos, para diminuir a grande e duradoura ameaça que eles vinham representando ao Império, apesar deles,  momentaneamente,  estarem do seu lado.

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(Rio Vipava, na Eslovênia, chamado pelos romanos de rio Frigidus, foto de Johann Jaritz )

No dia seguinte, 06 de setembro de 394 D.C.,, Arbogaste, achando que o exército de Teodósio não se recuperaria do revés sofrido, mandou uns destacamentos atacarem o acampamento oriental, Porém, o que ele não esperava, é que o matreiro Teodósio subornou os soldados enviados para essa ataque, os quais acabaram se juntando ao exército oriental.

Em seguida, enquanto Teodósio deslocava o seu exército por uma passagem estreita, Arbogaste ordenou  um ataque de emboscada Porém, no exato momento em que os soldados dele iriam atacar, soprou com força de tempestade o característico vento daquela região, chamado até hoje de Bora, jogando grande quantidade de poeira nos olhos dos atacantes, atrapalhando-os de tal forma que eles foram desbaratados pelos soldados orientais.

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Assim, as tropas de Teodósio, com seus escudos decorados com o monograma chi-ro (XP), iniciais em grego de “Cristo” derrotaram o exército de Eugênio, com seus escudos com a imagem de Hércules, fato que os propagandistas cristãos fartariam-se de cantar em prosa e verso.

O próprio Eugênio foi capturado e implorou clemência. Porém, após ser exibido em várias cidades como troféu de guerra, ele foi decapitado. Já Arbogaste,  conseguiu fugir por alguns dias, vagando pelos Alpes, mas, desesperançado, ele acabou cometendo suicídio.

Como resultado da batalha, Teodósio passou a reinar sobre as duas metades do Império Romano, mas não por longo tempo, pois ele morreria no ano seguinte, de causas naturais, em 395 D.C, sendo sucedido por seu filho, Arcádio, no trono oriental. No trono do Ocidente, Teodósio, após a vitória no rio Frígido, instalou Honório, no lugar de Eugênio.

Alarico, convicto de que os godos eram os que mais tinham se sacrificado pela vitória de Teodósio na Batalha do Rio Frígido, após a morte deste imperador passou a exigir altas recompensas para si e para o seu povo, mas não obteve o reconhecimento pretendido. Ele seria duramente confrontado por Estilicão, que durante muito tempo foi o homem-forte do Império Romano, nos anos que se seguiram, mas, após a execução deste,  o rei visigodo acabou dando aos romanos um golpe terrível, quando liderou o Saque de Roma, em 410 D.C.

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