ANTÍNOO – O FAVORITO DE ADRIANO QUE VIROU DEUS

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Segundo as fontes, Antínoo (Antinous) nasceu no mês de novembro (no dia 27, dia do festival em sua honra, segundo uma inscrição),  provavelmente por volta do ano de 111 ou 112 D.C., na cidade de Claudiopolis (atual Bolu no noroeste da Turquia), na província romana da Bitínia. Embora a cidade fosse bem antiga e tivesse feito parte do Império Hitita, ela foi helenizada e reconstruída por colonos gregos vindos da cidade de Mantinea (antes da conquista romana, a cidade chamava-se Bithynium).

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(Lago Abant, em Bolu, foto de Azplanlos)

Em junho de 123 D.C., o imperador Adriano, então com 47 anos de idade, que se notabilizou por viajar por todo o Império Romano, chegou à cidade de Claudiopolis e, em algum momento de sua estadia, notou o ainda pré-adolescente Antínoo, atraído pela beleza do menino.

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Deixando Claudiopolis, Adriano continuou seu tour pelas províncias orientais do Império, mas deve ter providenciado para que Antínoo fosse enviado para Roma, provavelmente para ser educado no Paedagogium, a escola existente no Palácio de Domiciano, no monte Palatino, destinada à instrução dos pajens imperiais.

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(Ruínas do Peadagogium, no Palatino, em Roma)

Adriano voltou para Roma em setembro de 125 D.C., e, em algum momento nos anos seguintes, ele reencontrou Antínoo e ambos tornaram-se amantes. Três anos depois, quando Adriano partiu para nova viagem para a Grécia, Antínoo acompanhou-o, integrando a comitiva imperial.

Os historiadores concordam que Adriano tinha nítida inclinação homossexual e que o casamento dele com a imperatriz Sabina seria apenas por conveniências políticas e manutenção de uma imagem pública.

De qualquer forma, os costumes gregos estavam disseminados pela elite romana e o fato do imperador ter como amante um garoto inseria-se dentro da prática helênica da “pederastia“, onde se admitia que o mestre, mais velho (erastes), iniciasse sexualmente o discípulo (eromenos), aceitando-se que mantivessem relações sexuais até que o segundo saísse da puberdade e entrasse na idade adulta. Portanto, a opinião pública não deve ter dado muita importância ao relacionamento sexual entre o imperador e seu jovem pajem.

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(Busto da imperatriz Sabina, cujo casamento com Adriano foi notoriamente infeliz)

Consta que Adriano elogiava a inteligência de Antínoo. Ele escreveu poemas em homenagem ao amante, que infelizmente, não chegaram até os nossos dias. Por sua vez, não há nenhum indício de que Antínoo tenha se valido de sua privilegiada posição para obter algum ganho pessoal ou influência política.

Não se sabem muitos detalhes do relacionamento entre Adriano e Antínoo, mas é certo que as caçadas eram um dos divertimentos que eles faziam juntos, de acordo com o relato de um incidente, ocorrido em setembro de 130 D.C., durante uma viagem pelo norte da África, na Líbia, no qual os dois decidiram caçar um leão que estava atacando a população da região. Nessa caçada, Adriano teria salvo a vida de Antínoo e o incidente foi também imortalizado em um relevo circular (tondo), que sobreviveu até nossos dias, por ter sido posteriormente afixado no Arco de Constantino, em Roma (à esquerda, abaixo,  foto de Radomil).

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No decorrer dessa viagem pela África, Adriano e Antínoo chegaram ao Egito, por volta do início de outubro de 130 D.C., parando na  antiquíssima cidade sagrada de Heliopolis, de onde eles partiram para um cruzeiro pelo Nilo, navegando até a cidade de Hermopolis Magna. Nas proximidades da referida cidade, as fontes, sem entrar em detalhes, contam que Antínoo caiu no Nilo e morreu, ao que tudo indica, afogado, no dia em que se celebravam antigos festivais em homenagem ao deus egípcio Osíris.

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(Vista das ruínas de Hermopolis, foto de Roland Unger)

 

As principais fontes antigas assim relatam a  morte de Antínoo:

 

Dião Cássio

“Antinous era de Bithynium, uma cidade da Bitínia, a qual nós também chamamos Claudiopolis; ele foi um favorito do imperador e morreu no Egito, seja por ter caído no Nilo, como escreve Adriano, ou,  mais verdadeiro, por ter sido oferecido em sacrifício. Pois Adriano, como eu sempre afirmei, sempre se interessou por adivinhações e encantamentos de todo o tipo.  Então, Adriano homenageou Antinous – seja devido ao amor que sentia por ele, ou porque o jovem voluntariamente aceitou morrer (sendo necessário que uma vida fosse livremente oferecida para atingir os fins que Adriano tinha em vista) -com a construção de uma cidade no local onde ele sofreu o seu destino, dando-lhe o seu nome; e Adriano também ergueu estátuas, ou  imagens sagradas, dele, praticamente por todo o mundo. Finalmente, Adriano declarou que ele tinha avistado uma estrela que ele entendeu ser de Antinous, e alegremente emprestou seus ouvidos a estórias fictícas tecidas por seus adeptos no sentido de que a estrela havia nascido do espírito de Antinous e, assim, tinha aparecido pela primeira vez. No que se refere a isso, então, ele se tornou objeto de certo ridículo, e também porque, quando a sua irmã Paulina morreu, ele, na oportunidade, não fizera nenhuma homenagem.”

 

 

História Augusta

“Ele (Adriano) perdeu Antinous, seu favorito, durante uma viagem pelo Nilo, e por este jovem ele chorou como uma mulher. Com relação a este incidente, houve vários rumores:  alguns defendem que ele teria se entregado à morte por Adriano, e outros,  aquilo que a sua própria beleza, e a sensualidade de Adriano, sugerem…”

 

Aurelius Victor

“Outros defendem que este sacrifício de Antinous foi pio e religioso, pois, quando Adriano estava desejoso de prolongar a sua vida, e os feiticeiros demandaram que uma vítima voluntária fosse dedicada, diz-se que, após todos recusarem, Antinous ofereceu a si próprio”

 

Obviamente que não podemos excluir a hipótese de que a morte de Antínoo tenha sido acidental, segundo a versão dada pelo próprio Adriano, nem provar que os outros motivos alegados pelos autores antigos são inverídicos, muito embora tenham se registrado muitos episódios nos quais o o referido imperador mostrou-se explicitamente contrário à prática de sacrifícios humanos. Também não é impossível que, conforme a última passagem da História Augusta acima transcrita alude, a morte do rapaz tenha involuntariamente resultado de algum ato sexual, ou que a queda no rio tenha sido decorrente da embriaguez de ambos os amantes.

Entretanto, é fato que Antínoo estava no limiar de atingir a idade em que o seu relacionamento amoroso com Adriano (que estava com 54 anos de idade) tornaria-se extremamente embaraçoso para o imperador, pois o mesmo não mais poderia se dar sob o manto da pederastia.  O relacionamento sexual entre homens adultos livres não era admissível segundo a moral romana, e a chegada da maturidade sexual de Antínoo, que já estava com 18 ou 19 anos de idade, poderia expor o imperador à execração por parte da sociedade romana, especialmente na Itália, e, mais importante, a perda do seu prestígio entre os militares.

Desse modo, ainda que não se possa acusar Adriano, ou seus cortesãos, pelo assassinato de Antínoo, o fato é que a morte dele foi muito conveniente para o trono.

O que ninguém contesta é que Adriano ficou devastado com a morte de Antínoo e ordenou que homenagens inauditas fossem conferidas ao seu falecido amante.

Assim, ainda em outubro de 130 D.C., Adriano proclamou que Antínoo era um deus. A “deificação” já tinha se tornado comum para os imperadores falecidos e até algumas imperatrizes ou pessoas da família imperial já tinha sido tornados divinos, mas era a primeira vez que um simples pajem recebia essa distinção.

Adriano também fundou, no local onde Antínoo morreu, a cidade de Antinopolis, em 30 de outubro de 130 D.C..

O imperador também ordenou a construção de um santuário dedicado a Antínoo no interior de sua fabulosa Villa Adriana, em Tívoli, onde é provável que o falecido amante tenha sido enterrado (talvez depois de ser mumificado no Egito), conforme sugere o texto em hieróglifos no obelisco que  foi erguido ali e hoje encontra-se no Monte Pinciano, em Roma (vide https://followinghadrian.com/2016/10/02/the-obelisk-of-antinous/)

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A deificação de Antínoo foi seguida pela organização formal de seu culto, patrocinado pelo Estado, em diversas cidades, construindo-se templos e nomeando-se sacerdotes.

Embora, inicialmente, a criação e a adesão ao culto a Antínoo decorresse amplamente do patrocínio imperial e do desejo de adular Adriano (ou, igualmente, do temor em desagradá-lo), certamente a extraordinária beleza do rapaz, bem como as circunstâncias trágicas de sua morte e, principalmente, a similitude da forma e do lugar onde ele morreu com o mito de Osíris (que também morreu afogado no Nilo e depois foi ressuscitado pela mulher, Ísis), contribuíram para a popularização do novo deus, que no Egito, passou a ser associado a Osíris, recebendo o nome de Osirantinous.

Em algumas outras regiões, Antínoo foi considerado um herói mítico, como Hércules, um humano que superou a morte e pode transitar entre o mundo dos mortos e o dos vivos.

 

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(Antínoo retratado como Osíris, foto de DS)

Estátuas de Antínoo foram espalhadas por todo o Império Romano, aparentemente baseadas em modelos produzidos em Roma, por ordem de Adriano, uma vez que todas observam os mesmos padrões e contribuíram para popularizar o seu culto..

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Foram identificados até hoje 28 templos dedicados a Antínoo e encontrados vestígios de seu culto em pelos menos 70 cidades ao longo do Império Romano. No mundo grego, Antínoo também foi associado aos deuses Hermes e Dionísio. Os centros do culto eram as cidades de Antinopolis, Claudiopolis (local de nascimento de Antínoo) e Mantinea (De onde os seus ancestrais, fundadores de Claudiopolis, teriam vindo). Nessas cidades, também eram celebrados jogos em homenagem ao novo deus, o que ocorreu pelo menos até o início do século III, que também ocorriam em Atenas e Eleusis, tendo estes durado pelo menos até  267 D.C.

De fato, o culto a Antínoo perdurou por séculos após a morte de Adriano. Um papiro do final do século III preserva um poema em homenagem a Antínoo, mencionado a famosa caçada,, o Nilo, sua apoteose e a fundação da cidade em sua honra.

Os bispos e doutores da nascente Igreja também sentiram a necessidade de fazer invectivas contra o culto a Antínoo, No final do século II, Clemente de Alexandria escreveu:

“Outra nova divindade foi criada no Egito – e muito próxima aos Gregos também – que foi solenemente elevada pelo imperador à categoria de deus – o seu favorito cuja beleza era inigualável, Antinous. Ele consagrou Antinous da mesma maneira que Zeus consagrou Ganimedes. Pois a luxúria não é facilmente contida, quando não há medo, e mesmo agora o povo observa as noites sagradas de Antinous, que são realmente vergonhosas, como o amante que as passava junto com ele bem sabia. Por que, eu pergunto, vocês consideram um deus alguém que foi homenageado pela fornicação? Por que vocês ordenaram que ele fosse pranteado como um filho? Por que, igualmente, vocês narram as estórias da beleza dele? A beleza é algo vergonhoso quando manchada pelo ultraje. Não sejam tiranos da beleza, nem ultrajem aquele que está na flor de sua juventude. Guarde-a na pureza, para que permaneça bela. Tornem-se reis da beleza, não tiranos. Deixem-na livre. Quando vocês deixarem a imagem dela pura, então eu reconhecerei a vossa beleza. Então eu irei reverenciar a beleza, quando for o verdadeiro arquétipo das coisas belas. Agora nós temos uma tumba do amante, um templo e uma cidade de Antinous. (Exortação ao Gregos, 4.49.1-3)

O supracitado texto de Clemente de Alexandria também sugere que o culto de Antínoo poderia incluir alguma celebração orgiástica.

Por volta do ano 250 D.C., outro doutor da Igreja, Orígenes, em sua obra “Contra Celso”, refuta os argumentos do filósofo Celso contra  a fé cristã (que comparou, entre outros, Jesus Cristo a Antínoo). Nesse texto, Orígenes chega a reconhecer a existência de prodígios atribuídos a Antínoo, mas considera-os obra de um daimon (espírito) ou de mágicos.

Somente com o triunfo do Cristianismo, após a proibição das cerimônias públicas pagãs por Teodósio e a destruição de incontáveis templos, o culto a Antínoo desaparece da História, tendo o culto durado pelo menos uns duzentos e cinquenta anos.

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LEGADO

No século XIX, a revalorização do classicismo elegeu as estátuas de Antínoo como o último suspiro da arte clássica greco-romana e símbolo de beleza masculina. Ele também acabou inspirando vários escritores como Oscar Wilde, Fernando Pessoa e Marguerite Yourcenar.

Para saber mais: Lambert, Royston (1984). Beloved and God: The Story of Hadrian and Antinous. George Weidenfeld & Nicolson