MARCO AURÉLIO – O IMPERADOR-FILÓSOFO

Em 26 de abril de 121 D.C., nasceu, em Roma, Marcus Annius Verus (Marco Aurélio), filho de Marcus Annius Verus (III) e Domitia Lucilla, a Jovem.

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Por parte de pai, Marco Aurélio era integrante de uma distinta família da classe senatorial, originária da Hispânia, mais especificamente da cidade de Ucubi, próximo à Corduba (Córdoba), região que enriquecera graças à plantação de oliveiras e produção de azeite. O seu bisavô, também chamado Marcus Annius Verus (I), chegou até a ser Pretor e Senador. Mas a família ascendeu mesmo a partir da chegada de seu conterrâneo Adriano ao trono, em companhia de outras famílias aristocráticas daquela província, que, em sua grande maioria tinham parentesco, consanguíneo ou por afinidade, com o referido imperador e também com o seu antecessor, Trajano.

Acredita-se que a família de Marco Aurélio fosse um ramo da  originalmente plebeia gens Annia, de Setia (atual Sezze), no Lácio,  cidade fundada pelo povo itálico dos Volscos  e que se tornou colônia de Roma em 382 A.C. Os Ânios  devem ter chegado ao Senado no final do século III A.C. e, no século seguinte, alguns de seus membros conseguiram ser eleitos Cônsules, a mais alta magistratura da República Romana.

O avô de Marco Aurélio, igualmente de nome Marcus Annius Verus (II), foi nomeado Cônsul Suffectus (isto é, substituto ou extraordinário) para o ano de 97 D.C., ainda durante o reinado de Trajano. Annius Verus era amigo pessoal do imperador Adriano e, graças a isso, ele foi nomeado Prefeito de Roma e, por duaz vezes, Cônsul ordinário, nos anos de 121 e 126 D.C.

Já  a mãe de Marco Aurélio, Domitia Lucilla, era filha de Publius Domitius Calvisius Tullus Ruso e de Domitia Lucilla, a Velha, esta, por sua vez, filha adotiva de Lucius Catilius Severus, que foi Cônsul nos reinados de Trajano (110 D.C.) e Adriano (120 D.C.).

Domitia Lucilla era uma mulher riquíssima, que herdou de sua mãe um grande complexo de olarias e fábricas de tijolos nas cercanias de Roma, as quais forneceram boa parte dos tijolos para a construção de grandes monumentos tais como o Coliseu, o Mercado de Trajano e o Pantheon.

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(um dos tijolos da fábrica dos Domitii, como diz a estampa)

Marcus Annius Verus (III) e Domitia Lucilla, a Jovem também tiveram, por volta de 122 D.C, uma filha, que recebeu o nome de Annia Cornificia Faustina.

Quando Marco Aurélio tinha apenas três anos, o pai dele morreu e ele passou ao pátrio poder do seu avô, que passou a criá-lo. Não obstante, apesar de pouco ter convivido com o  pai, anos mais tarde, em sua obra “Meditações“, Marco Aurélio escreveria que, através das memórias e da reputação paterna, aprendeu com ele a ter “modéstia e hombridade”.

Igualmente, no que se refere à mãe, Domitia Lucilla, Marco Aurélio menciona que ela lhe ensinou a ter “devoção religiosa e simplicidade na dieta” e a “evitar as manias dos ricos”.

Efetivamente, Marco Aurélio nasceu em um ambiente de afluente riqueza, crescendo na elegante casa de seus pais, no Monte Célio, bairro aristocrático de Roma coalhado de mansões. Em seus escritos, ele se refere carinhosamente ao bairro como “Meu Célio”.

Caelian_Hill foto de Roundtheworld(Panorama do Monte Célio, em Roma)

Ao avô, Marco Aurélio também se mostra agradecido, por lhe ter ensinado  a ter “bom caráter e evitar o mau gênio”

Como bom jovem aristocrata romano, a educação básica de  Marco Aurélio, dos sete aos onze anos, ficou a cargo de tutores, sabendo-se que dois deles se chamavam Euphoric e Geminus.

Com doze anos, a educação de Marco Aurélio passou para dois grammatici, e ele também foi introduzido ao estudo de ciências e artes, sob a responsabilidade de Andros, um professor de geometria e música, e de Diognetus, um mestre de pintura e professor de filosofia. Este último teve grande influência sobre Marco Aurélio, ensinando-o a pensar filosoficamente, a não acreditar em superstições ou dar atenção exagerada aos esportes de luta. Influenciado pelas lições de Diognetus, que parece ter sido estoico, Marco Aurélio adotou, ainda adolescente, o costume de se vestir como um filósofo grego e até o de dormir no chão, para o desespero de sua mãe.

Deram continuidade à educação de Marco Aurélio os tutores Alexandre de Cotiaeum, Trosius Aper e Tuticius Proculus, os dois últimos, professores de latim. Vale citar que Alexandre era o maior especialista romano em Homero e, segundo o próprio Marco Aurélio, ele o ensinou a dar ênfase ao conteúdo sobre o estilo.

Com apenas seis anos de idade, Marco Aurélio foi incluído na Ordem Equestre, o segundo nível da nobreza romana, por ordem do imperador Adriano. Segundo as fontes, este imperador sempre simpatizou com Marco Aurélio, e assegurou ao menino a participação em vários postos prestigiosos para a juventude aristocrática romana, como o colégio de sacerdotes juvenis dos “Sálios”.

De fato, Adriano costumava chamar Marco Aurélio de “Verissimus“, em uma brincadeira com o nome do menino (que, então, ainda se chamava “Marcus Annius Verus), que” significa “muito verdadeiro” e “confiabilíssimo”.

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Depois de ficar um longo período afastado de Roma, viajando, Adriano retornou à Cidade em 135 D.C. Porém, no ano seguinte, ele ficou muito doente e, após uma crise de hemorragia, achando que ia morrer, consciente do fato que não tinha filhos, Adriano adotou como herdeiro Lucius Ceionus Commodus, que passou a se chamar Lucius Aelius Caesar.

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(Busto de Lucius Aelius Caesar, foto de Jastrow)

Naquele mesmo ano de 136 D.C., Marco Aurélio assumiu a “toga virilis“, veste que simbolizava a sua chegada à idade adulta. Como prova da estima e do favor que o rapaz gozava junto ao imperador, Adriano arranjou o casamento de Marco Aurélio com Ceionia Fabia, filha de Lucius Ceionus Commodus (Lucius Aelius Caesar), o herdeiro imperial.

Contudo, em 1º de janeiro de 138 D.C., Lucius Aelius Ceasar morreu subitamente de hemorragia (é bem possível que estivesse grassando alguma febre hemorrágica na região).

Necessitando de um novo herdeiro, Adriano, no dia 24 do mesmo mês, escolheu oficialmente Titus Aurelius Fulvus Boionius Arrius Antoninus (Antonino Pio) como seu sucessor, com a condição de que este, por sua vez, adotasse Marco Aurélio e Lúcio Vero (filho de Lucius Aelius Caesar), como seus herdeiros. Em virtude dessa adoção por Antonino, Marco Aurélio passou a se chamar Marcus Aelius Aurelius Verus.

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(Busto de Antonino Pio)

Note-se que Antonino era casado com Annia Galeria Faustina (Faustina, a Velha), tia de Marco Aurélio, que era sobrinha da imperatriz Vibia Sabina, esposa de Adriano.

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(Busto de Faustina, a Velha)

Em 10 de julho de 138 D.C., Adriano faleceu em Baiae, um balneário chique na costa da Campânia, após uma prolongada agonia. A sua sucessão foi tranquila e Antonino assumiu imediatamente o trono, mantendo os principais magistrados e auxiliares de Adriano nos cargos, e tranquilizando o Senado Romano de que os seus privilégios seriam respeitados.

A posição do jovem Marco Aurélio, que naquele momento tinha apenas 17 anos, foi reafirmada pelo fato da Antonino ter pedido que ele rompesse o compromisso com Ceionia Fabia e se comprometesse a casar-se com a filha dele, Annia Galeria Faustina Minor (Faustina, a Jovem), o que foi prontamente aceito.

Faustine_la_Jeune_01(Busto de Faustina, a Jovem)

 

No início do pacífico e estável reinado de Antonino Pio, Marco Aurélio continuou seu aprimoramento intelectual tornando-se aluno de Marco Cornélio Frontão, um famoso gramático, retórico e advogado, que se tornaria um de seus amigos mais íntimos e era considerado um dos maiores oradores romanos. A correspondência entre Marco Aurélio e Frontão foi preservada e é muito útil para demonstrar a evolução do pensamento do primeiro e o ambiente no círculo imperial.

Marco Aurélio também estudou com Herodes Ático, um influente e riquíssimo aristocrata ateniense, que também era um reconhecido filósofo sofista e foi convidado por Antonino para residir em Roma, com o propósito específico de ser professor dos herdeiros Marco Aurélio e Lúcio Vero. Outro importante integrante do círculo de professores de Marco Aurélio foi o filósofo grego Apolônio de Calcedônia, com quem ele se aprofundou no estudo do Estoicismo.

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(Busto de Herodes Ático)

O treinamento público de Marco Aurélio para suceder Antonino começou assim que este assumiu o trono. De fato, ainda com 18 anos de idade, o jovem herdeiro passou a participar das reuniões do Conselho Imperial. Em 140 D.C, Marco Aurélio, foi nomeado Cônsul pela primeira vez, e, novamente, em 145 D.C.

Neste mesmo ano, ele se casou com Faustina, a Jovem. Curiosamente, como Marco Aurélio era filho adotivo de Antonino, tratava-se, legalmente, de uma união incestuosa com a sua irmã. Assim, foi preciso que Antonino revogasse expressamente o seu pátrio poder sobre o noivo, para que o casamento pudesse se realizar.

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(O jovem Marco Aurélio, em uniforme de general)

Vale citar que o casamento de Marco Aurélio e Faustina, a Jovem seria um dos mais prolíficos, senão o mais fértil, dentre todos os casamentos imperiais da História de Roma. Eles teriam treze filhos, nascidos no decorrer de vinte e três anos! A primeira filha, Antonina Faustina, nasceu em  30 de novembro de 147 D.C. Contudo, a maioria dessa prole morreria na infância, de doenças variadas. Porém, em 31 de agosto de 161 D.C., durante os primeiros meses do futuro reinado de Antonino, nasceu Lucius Aurelius Commodus (Cômodo), que sucederia o pai no trono.

Embora Lúcio Vero também estivesse recebendo educação esmerada, tudo indica que Antonino considerava Marco Aurélio a opção preferencial para ser o sucessor dele, ou talvez, um “herdeiro-sênior”. Com efeito, em 146 D.C., Marco Aurélio recebeu o “Poder Tribunício” e o “Imperium Proconsular“, atributos que somente o Imperador podia deter.

Em 160 D.C., ficou claro que a saúde de Antonino Pio, aos 70 anos de idade, estava ruim. Naquele ano, Marco Aurélio e Lúcio Vero foram nomeados Cônsules.

No ano seguinte, em 07 de março de 161 D.C, em sua propriedade familiar situada em Lorium, na Etrúria, Antonino Pio convocou o Conselho Imperial e comunicou-lhes que entregava o Império e sua filha a Marco Aurélio. Horas depois, o imperador faleceu.

Novamente, a sucessão foi pacífica. Notavelmente, Marco Aurélio, ao receber todos os títulos, poderes e honrarias imperiais, solicitou ao Senado que Lúcio Vero, respeitando a vontade de Adriano, também deveria ser aclamado Imperador, o que foi obedecido.

Marco Aurélio manteve o costume de dar um donativo à Guarda Pretoriana, quando da ascensão de um novo imperador. Porém, a gratificação foi o dobro do que tinha sido dado em ocasiões anteriores, já que formalmente eram dois os príncipes que ascenderam ao trono.

Todavia, embora a Guarda tenha se mantido fiel durante o seu longo reinado, no futuro, a ganância dos Guardas em assegurar novos donativos seria causa de inúmeros assassinatos de imperadores. Assim, se por um lado podemos conjecturar  que Marco Aurélio tenha sido sábio em agradar a Guarda e assegurar a fidelidade dos soldados, por outro lado não é absurdo pensar que ele pode, impensadamente, ter estimulado futuras e reiteradas conspirações deles.

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(Busto de Lúcio Vero)

Logo no início do seu reinado, Marco Aurélio teve que desvalorizar o denário, reduzindo o percentual de prata na moeda. Não se sabe o motivo exato, mas é possível isso tenha sido causado pela necessidade de fazer frente aos crescentes gastos com campanhas militares.

Com efeito, desde o princípio, o reinado de Marco Aurélio seria afligido pela necessidade de travar guerras quase contínuas nas fronteiras, e, em pouco tempo, por uma terrível peste.

Os antigos acreditavam que os Deuses se divertiam com as agruras humanas e, depois de vinte anos de reinado calmo e pacífico de Antonino Pio, agora o Império Romano seria governado por um imperador adepto do Estoicismo, corrente filosófica que acreditava que a virtude era a única fonte de felicidade e que, por isso,  o homem-sábio deveria suportar as adversidades e tentar fazer aquilo que era o seu dever. E isso foi justamente o que Marco Aurélio nunca deixou de fazer enquanto imperador.

Ainda durante os últimos dias do reinado de Antonino Pio, o rei Vologeses IV, da Pártia, havia invadido a Armênia, que então era um reino-cliente de Roma, depondo o monarca e instalando no trono um aliado seu, Pacorus, no que constituía um evidente ato de hostilidade ao Império Romano. O governador da Síria, Severianus pensou que podia conter sozinho a ameaça e invadiu a Armênia, mas ele acabou sendo derrotado e morto pelo exército Parta, que dizimou a IX Legião Hispana. Naquela ocasião, Marco Aurélio já tinha assumido o trono.

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(Este grafito de um catafracto, um cavaleiro couraçado, o principal elemento das tropas do Império Parta, foi encontrado na cidade de Dura-Europos)

Diante da seriedade da ameaça, Marco Aurélio resolveu mandar seu colega Lúcio Vero em pessoa para assumir nominalmente o comando do Exército Romano na região, bem como dos reforços que foram enviados para a província ameaçada. Observe-se que, embora Lúcio Vero não tivesse qualquer experiência militar, a sua presença em Antióquia, que seria o quartel-general das operações, era uma afirmação imperial da importância da campanha.

Assim, Lúcio Vero, que, diga-se de passagem, durante a guerra pareceu mais preocupado em desfrutar os prazeres de Antióquia, estava assessorado pelos melhores generais de Roma, incluindo Avídio Cássio e Marco Cláudio Frontão.

Então, Marco Cláudio Frontão, comandando a  Legião I Minervia, em conjunto com a Legião V Macedonica, comandada por Públio Mátio Vero, conseguiu tomar a capital armênia, Artabata, em 163 D.C, e destronar Pacorus, reinstalando o aristocrata romano Gaius Julius Soahemus, um membro da elite senatorial romana, que tinha origem armênia e parta e também era membro da dinastia arsácida, no trono.

A capital da Armênia foi transferida, em 164 D.C., para a cidade de Kaine Polis, a apenas 50 km da fronteira romana. Em consequência, Lúcio Vero e Marco Aurélio foram saudados pelas tropas como Imperatores, o primeiro recebendo o título de “Armeniacus“.

Os Partas, enquanto isso, intervieram em Osroene, outro reino-cliente de Roma, na Alta Mesopotâmia, onde também instalaram outro aliado, mas o Exército Romano da Síria, reforçado por legiões do Danúbio, conseguiu igualmente expulsa-los, entre 164 D.C. e 165 D.C., capturando a capital de Osroene, a cidade de Edessa.

Os romanos começaram, em seguida, os preparativos para a invasão da Mesopotâmia, o coração do Império Parta.

Avançando pela Mesopotâmia, durante o ano de 165 D.C, os Romanos impuseram várias derrotas aos Partas, que recuaram para a estratégica cidade de Nisibis, que, no entanto, foi sitiada e capturada pelo Império Romano, na posse de quem ficaria durante várias décadas. Enquanto isso, a outra ala do Exército Romano, comandada por Avídio Cássio, infligiu outra derrota aos Partas na cidade de Dura-Europos.

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(Panorama da cidade de Dura-Europos, conquistada pelos Romanos)

No final do ano de 165 D.C., o exército de Avídio Cássio avançou pela Mesopotâmia e sitiou as cidades de Seleucia e Ctesifonte, a capital do Império Parta, que ficavam nas margens opostas do rio Tigre. Seleucia, cuja população era em grande parte de origem grega, abriu as portas para os Romanos, o que não os impediu de saqueá-la, para indignação de muitos contemporâneos . Já Ctesifonte foi tomada após um cerco, após o qual foi queimado o  palácio real dos Partas. Pela segunda vez, Lúcio Vero e Marco Aurélio foram saudados como Imperatores, e o primeiro recebeu o título de “Parthicus“.

A campanha prosseguiu e o exército romano invadiu a parte nordeste do Império Parta, com a invasão da Média e, por esse motivo, no ano seguinte, houve nova aclamação dos dois imperadores, tendo Lúcio Vero sido agraciado com o título de “Medicus“.

Todavia, a grande vitória obtida por Marco Aurélio Lúcio Vero no Oriente teria um imprevisível e terrível custo: As tropas romanas contraíram, segundo as fontes, na cidade de Seleucia, a chamada “Peste Antonina” (moléstia provavelmente originária da China e que hoje acredita-se ter sido uma epidemia de varíola ou de sarampo), trazendo a doença para o seio do Império Romano.

Em decorrência da Peste Antonina, que, acredita-se, tinha uma taxa de mortalidade de 25%, estima-se que 5 milhões de romanos morreram, sendo que, em alguns lugares, metade da população pereceu. E dentre os infectados estaria o próprio Lúcio Vero, que, no fim do ano de 168 D.C, teria contraído a doença, morrendo em 23 de janeiro de 169 D.C.

Mas outra campanha sangrenta, e muito mais prolongada, iniciou-se quando a guerra contra os Partas ainda não havia sequer se encerrado:

Já em 162 D.C., bárbaros germânicos das tribos dos Chauci e dos Catos tentaram invadir as províncias da Rétia e da Germânia Superior, sendo repelidos.

No final do ano de 166 D.C. e no início do ano seguinte, invasores Lombardos (lungobardi) cruzaram o Danúbio e invadiram a província da Panônia, mas também foram contidos por destacamentos da Legião I Adiutrix. Então, o governador da Panônia tentou negociar uma trégua com os representantes de onze tribos germânicas. Porém, naquele mesmo ano, os Vândalos, que faziam a sua primeira aparição na História Romana, e que ficariam célebres quase três séculos mais tarde, junto com os Iáziges, invadiram a província da Dácia e mataram o governador romano.

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A repentina pressão militar dos bárbaros germânicos nas fronteiras romanas, relativamente pacificadas, tinha como motivo uma onda migratória vinda do Báltico e da região do Vístula, quando os  belicosos Godos começaram a migrar para o sudeste da Europa, empurrando os povos daquela região em direção à fronteira romana do Reno/Danúbio.

O fato é que somente com o fim da campanha contra o Império Parta, Marco Aurélio e Lúcio Vero tiveram condições de organizar uma resposta compatível com a ameaça germânica, e, em 167 D.C, os romanos, com duas novas legiões formadas para a campanha, a Legião II Italica e a Legião III Italica, realizaram uma expedição punitiva na Panônia.

Entretanto, os bárbaros germânicos não paravam de chegar e, entre 167 e 168 D.C., um grande número de Marcomanos (literalmente, os “homens da fronteira”, na língua germânica), chefiados pelo líder Ballomar, acompanhados da tribo dos Quados, cruzaram o Danúbio, derrotaram um exército de 20 mil romanos em Carnuntum, e, rapidamente, chegaram ao norte da Itália, destruindo a cidade de Opitergium e sitiando a importante cidade de Aquileia.

Essa invasão foi um choque para os Romanos. Era a primeira vez, desde a incursão dos bárbaros Cimbros e Teutões, no final do século II A.C. (que, a muito custo, foram derrotados por Caio Mário,  em 101 A.C.), que a Itália era invadida por inimigos estrangeiros.

Nota: Os Marcomanos inicialmente viviam próximo à fronteira do Reno. Porém, com a expansão romana para a Gália e para a própria Germânia, a partir da época de Júlio César e, especialmente, depois da reação romana ao Desastre de Varo, no reinado de Tibério, aquele povo migrou para a região do Danúbio.  Então, no período dos Antoninos (Nerva – Marco Aurélio), começou a se verificar entre os Marcomanos, bem como em outros povos germânicos, o fenômeno da formação de confederações de tribos, com o consequente aumento do tamanho das forças militares e de sua efetividade contra as forças romanas.

Prosseguindo a narrativa, agora fazia-se necessária uma grande mobilização de tropas, que, contudo, seria dificultada pela falta de recrutas decorrente da Peste Antonina, que também grassava no exército, e a persistente necessidade de conter os Partas no Oriente.

Mas, enquanto pessoalmente liderava a resposta aos Marcomanos e Quados, junto com Lúcio Vero, Marco Aurélio teve que voltar para Roma para tratar do funeral do colega que, como vimos, morreu em janeiro de 169 D.C, provavelmente da Peste.

Já no outono de 169 D.C.,  Marco Aurélio, acompanhado de seu genro, Tibério Cláudio Pompeiano, retornou para a região do Danúbio para enfrentar os bárbaros Iáziges, uma tribo sármata, de origem iraniana, os quais haviam derrotado e matado o general Marco Cláudio Frontão, o herói da Guerra contra os Partas.

Entrementes, os Costoboci, um povo das montanhas dos Cárpatos, que viviam nas fronteiras da Dácia, também cruzaram a extensa fronteira do Danúbio e invadiram a província romana da Trácia, chegando até Eleusis, próximo a Atenas, onde destruíram o afamado templo dos Mistérios Eleusinos.

Assim, entre 170 e 171 D.C, todos os esforços de Marco Aurélio concentraram-se em expulsar os Marcomanos do território romano. Ele determinou a criação da Prefeitura da Itália e dos Alpes, com o objetivo de melhorar a defesa das passagens alpinas para a Itália e reforçou a frota fluvial do Danúbio. As tropas foram comandadas por Pompeiano e por Pertinace (que, muitos anos mais tarde seria imperador).

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Começaram então os preparativos para uma grande ofensiva contra os Marcomanos, que, inclusive, compreendeu a formação de alianças com outras tribos germânicas, como foi o caso dos Vândalos.

Em 172 D.C, os Romanos cruzaram o Danúbio e atacaram os Marcomanos em seu próprio território. No espaço de um ano os bárbaros foram subjugados e Marco Aurélio recebeu o titulo “Germanicus“.  Esta campanha está retratada nos relevos da famosa Coluna de Marco Aurélio. erguida em comemoração da vitória no Campo de Marte, em Roma.

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(Os soldados romanos cruzando o Danúbio sobre uma ponte de barcos, como retratado na Coluna de Marco Aurélio)

No ano de  173 D.C, o Exército Romano se voltou contra os Quados, que tinham apoiado os Marcomanos. Foi nesta campanha que ocorreu o chamado “milagre da chuva”, também retratado na Coluna de Marco Aurélio, ocasião em que as tropas romanas, cercadas pelos Quados em uma posição sem acesso à água, na época da seca, estavam passando muita sede, mas acabaram sendo salvas por uma súbita chuvarada.

O fato é que somente no final do ano seguinte os Quados seriam subjugados.

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(O “milagre da chuva”, retratado na Coluna de Marco Aurélio – a chuva aparece na forma de uma divindade antropomórfica)

Naquele mesmo ano de 173 D.C.,, Dídio Juliano, o comandante militar na Germânia que, bem mais tarde, também seria imperador, derrotou uma invasão dos Catos e Hermunduri na fronteira do Reno.

Ainda m 174 D.C, chegou a vez dos Iáziges experimentarem a vingança romana. Após uma campanha vitoriosa, os bárbaros assinaram um tratado de paz no ano seguinte, devolvendo os prisioneiros romanos e concordando em fornecer um contingente de oito mil cavaleiros para o Exército Romano, dos quais 5.500 foram assentados na Britânia. Por isso, Marco Aurélio recebeu o título de “Sarmaticus“(Nota: esse contingente de cavalaria sármata utilizava como estandarte uma cabeça de dragão estilizada, presa numa espécie de biruta de pano, chamada de “draconarius“. Segundo uma tese, esta seria a origem do sobrenome Pendragon, do lendário rei britânico Arthur, que muitos estudiosos defendem que teria sido na verdade um chefe militar romano que resistiu às invasões dos Anglos e Saxões, no século V D.C).

Aproveitando o sucesso da reação romana, parece que Marco Aurélio planejava instituir duas novas províncias romanas na região, que se chamariam “Marcomannia” e “Sarmatia“, após a derrota final dos bárbaros. E, de fato, ele vinha sendo bem sucedido na estratégia de isolar e derrotar as tribos uma a uma, não ostante tal estratégia demandasse mais tempo e consumisse mais recursos.

De qualquer modo, os planos de Marco Aurélio foram por água baixo quando chegou a notícia de que o general Avídio Cássio , comandante do  Exército Romano no Oriente havia se autodeclarado imperador , em maio de 175 D.C.

Avídio Cássio foi incentivado a tentar usurpar o trono quando ele recebeu a falsa notícia de que Marco Aurélio teria morrido de doença na campanha do Danúbio. Aliás, tudo indica que este boato foi aceito como verídico em boa parte do Império e Avídio Cássio, inicialmente,  recebeu o apoio das províncias orientais e do Egito. Há até uma versão de que Cássio teria sido incentivado a se rebelar pela própria imperatriz Faustina, que também havia acreditado no boato e temia pela sorte de seu filho Cômodo, que não havia completado 14 anos e portanto ainda não era legalmente adulto.

Marco Aurélio, que ao tomar ciência da rebelião estava acompanhado de Cômodo, a quem estava começando a introduzir nos assuntos de Estado, teve que abandonar a campanha contra os germânicos e rumar para o Leste.

Entretanto, a notícia de que o imperador estava vivo chegou primeiro às províncias orientais, e foi o próprio exército de Avídio Cássio que espontaneamente executou o seu comandante, com as tropas preferindo não embarcar em uma aventura incerta contra um imperador de tanto prestígio.

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(Cabeça de Cômodo adolescente)

O Imperador aproveitou a estadia no Oriente para visitar Atenas, onde ele e Cômodo se iniciaram nos Mistérios Eleusinos, Depois, Marco Aurélio visitou o Egito e voltou para Roma para celebrar seu muito merecido Triunfo, em 23 de dezembro de 176 D.C., na companhia do filho, ocasião em que, provavelmente, a Coluna de Marco Aurélio foi dedicada.

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Os problemas na fronteira do Danúbio, contudo, ainda não tinham sido completamente resolvidos e, em 177 D.CMarco Aurélio teve que retornar à região.

Ao contrário do que é retratado em filmes como “Gladiador” e “A Queda do Império Romano“, Marco Aurélio sempre pretendeu que Cômodo, o seu único filho homem sobrevivente, herdasse o trono. Ainda em 166 D.C., Cômodo havia recebido o titulo de “César’, que segundo os costumes imperiais significava algo próximo a “príncipe-herdeiro”. 

Em 177 D.C., para não restar nenhuma dúvida a quem quer que fosse, sobretudo após a rebelião de Avídio Cássio, Marco Aurélio deu a Cômodo o título de “Augusto”, tornando-o, de direito, Co-Imperador. Seria apenas a segunda vez, na História do Império Romano, que um filho natural sucederia ao pai, tendo sido Tito o primeiro.

Durante o ano de 178 D.C.,  o Exército Romano obteve diversas vitórias no Danúbio e o ano de 179 D.C. parece ter sido dedicado a uma grande preparação para uma ofensiva decisiva contra os bárbaros da região.

Infelizmente, em 17 de março de 180 D.C., aos 58 anos de idade, Marco Aurélio faleceu, provavelmente de causas naturais, ou de doença, na cidade de Vindobona (atual Viena, na Áustria). Ele passara os últimos 10 anos lutando contra os Marcomanos, Quados e outros bárbaros na fronteira do Danúbio.

Mesmo admitindo-se que tenha sido providenciado a Marco Aurélio todo o conforto a que um imperador romano fazia jus, ninguém discute que ter passado esse tempo todo afastado de Roma, na fria, inóspita e distante província da Panônia, foi uma prova de dedicação e amor ao dever impressionante para um homem cuja aptidão maior sempre tinha sido a filosofia e a literatura (Não é a toa que a representação mais famosa de Marco Aurélio, a sua soberba estátua equestre originalmente dourada, hoje guardada no Museu Capitolino, em Roma, mostre o imperador em trajes civis).

Não obstante, na Coluna de Marco Aurélio, o imperador é retratado recebendo a submissão de bárbaros derrotados ou observando suas cabeças decepadas.. Certamente, Marco Aurélio deve ter se valido dos ensinamentos estoicos para suportar cenas tão díspares do seu jeito afável de ser.

Para Marco Aurélio, antes de tudo vinha o dever.

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Foi durante o período em que ele liderou a Guerra contra os Marcomanos que Marco Aurélio escreveu, em grego, a sua obra mais famosa, as “Meditações“,  em 12 livros, enquanto residia em Aquincum (cidade romana fortificada, no perímetro urbano da atual Budapeste, Hungria) e Carnuntum, local de uma fortaleza romana, na atual Áustria. Esse clima é, de fato,  muito bem retratado nos filmes “Gladiador” e “A Queda do Império Romano“.

O nome da obra foi dado posteriormente, sendo que o melhor título, segundo o que se depreende do que Marco Aurélio escreveu nos seus cadernos, seria “Pensamentos para mim mesmo“.

A linha mestra que conduziu as Meditações, segundo o próprio Marco Aurélio, foi a ideia de que a pessoa “tem o poder de se despir de vários problemas superficiais localizados inteiramente na mente dela e de possuir um grande espaço para ela mesma abraçar em pensamento todo o Cosmos, de levar em consideração a eternidade, de pensar nas rápidas mudanças nas partes de cada coisa e de quão pouco tempo há do nascimento até a morte, e de como o vazio que existe antes do nascimento e depois da morte é igualmente infinito“.

Cássio Dião,  que, juntamente com a História Augusta e as cartas de Frontão, é a melhor fonte sobre o reinado de Marco Aurélio, ao terminar o seu texto sobre este imperador, escreveu:

Marcus não encontrou a boa sorte que ele merecia, pois ele  não era dotado de um físico vigoroso e se viu envolvido em um turbilhão de problemas durante praticamente todo o seu reinado. Mas, na parte que me toca, eu o admiro ainda mais por essa razão, já que, em meio a dificuldades incomuns e extraordinárias, ele conseguiu sobreviver e preservar o Império. Somente uma coisa o impediu de ser completamente feliz, nomeadamente, que, após cuidar e educar o seu filho da melhor forma possível, ele tenha se decepcionado tanto com ele. Esse assunto será nosso próximo tópico; pois agora nossa História desce de um reinado de ouro para um de ferro e ferrugem, como as coisas se tornariam para os Romanos daqueles dias.

Com efeito, das poucas críticas que os historiadores antigos e modernos fizeram a Marco Aurélio, encontra-se a escolha de Cômodo como sucessor. Porém eu entendo a crítica como injusta. Não há muitos indícios de que Cômodo, antes de assumir o trono, tenha dado demonstrações de que ele fosse incapaz para governar. Aos 18 anos, o mais provável é que Marco Aurélio esperasse que bons conselheiros e professores dessem ao rapaz a orientação necessária para ser um bom imperador e um bom homem, como tinha ocorrido com ele próprio, Marco Aurélio.

Escolher uma outra pessoa, como por exemplo, um general capaz como Tibério Cláudio Pompeiano, que, aliás, foi a maior inspiração para o personagem fictício Maximus Decimus Meridius, do filme “Gladiador”, no lugar de Cômodo, além de significar, na prática, condenar o próprio filho à morte, significaria, caso este não fosse executado pelo sucessor, uma perpétua fonte de potenciais guerras civis, enfraquecendo ainda mais o Império em um momento crucial.

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Infelizmente, Cômodo realmente mostrou-se não ser o governante talhado para a situação corrente do Império Romano. Com efeito, assim que o pai morreu, ele negociou uma paz com as tribos do Danúbio e voltou às pressas para Roma, onde ele celebrou um imerecido Triunfo, em outubro de 180 D.C. Cômodo negligenciaria os assuntos militares e a política externa durante todo o seu reinado e isso contribuiria, décadas mais tarde, para as catástrofes que se abateriam sobre o Império, no século III D.C.

A outra crítica foi feita pelos historiadores cristãos, que denunciaram as perseguições ocorridas no reinado de Marco Aurélio. Quanto a isso, não parece ter havido mudança na política seguida pelo Império com relação ao Cristianismo. O que pode ter havido é o aumento de processos e prisões em virtude do aumento do número de cristãos. O Estado Romano intervinha nessas questões muito por demanda dos cidadãos espalhados pelas cidades. A principal preocupação era a manutenção da ordem, que, de quando em quando era afetada pelos conflitos entre as autoridades locais e os cristãos, entre estes e outras religiões ou entre os próprios cristãos. Como normalmente não participavam dos cultos públicos ligados à Roma e ao Imperador, as autoridades romanas normalmente tomavam partido contra os cristãos. E no reinado de Marco Aurélio não foi diferente.

É instigante verificar que os problemas enfrentados por Marco Aurélio foram muito semelhantes aos que se abateriam sobre o Império Romano durante a “Crise do Século III”: guerra em dois fronts contra germanos e partas/persas. Há vários indícios de que ambos os antagonistas, ocidentais e orientais, tenham se tornado mais temíveis 50 anos depois: Godos, Alamanos, Saxões, etc., mais numerosos e militarmente capazes do que Marcomanos e Quados, o mesmo aplicando-se aos Persas Sassânidas, mais coesos, treinados e determinados que os Partas.

Fosse Marco Aurelio imperador no século III será que ele teria conseguido conter essa ameaça? É difícil concluir.

E se Cômodo tivesse seguido o exemplo do pai e tivesse concluído a campanha no Danúbio, será que isso teria contribuído para evitar ou atenuar a Crise do Século III? São questões que merecem nossa reflexão. É certo que as migrações germânicas estavam fora do alcance dos romanos e Marco Aurélio experimentou inicio dessa avalanche . Mas é certo que a chegada de novas tribos não devia obliterar as já estacionadas na fronteira e parece que com o tempo havia uma fusão ou absorção. Estar no controle da região e ter assimilado ou exterminado as tribos naquele momento poderia ter mudado a correlação de forças no futuro, quando os Godos chegaram. Haveria algumas décadas para um grau de romanização…

Seja como for, o retrato de Marco Aurélio que sobreviveu para a posteridade foi a de um genuíno imperador-filósofo, como preconizado por Platão, no livro VI da “República“.

 

 

 

 

 

AVE, GEORGIOS!

AVE, GEORGIOS!

Em 23 de abril de 303 D.C, um soldado romano chamado Georgios foi executado por ordens do Imperador Romano Diocleciano.

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Diocleciano havia ordenado que todos os soldados do Exército Romano oferecessem um sacrifício aos deuses do panteão tradicional de Roma e aqueles que se recusassem deveriam ser presos.

Georgios (Jorge), segundo a hagiografia e a tradição cristã seria filho de Gerontius, um oficial romano da ilustre família senatorial dos Anícios, e Pollycronia, uma súdita romana de Lydda, atual Lod, em Israel, então situada na província romana da Síria Palestina. Segundo outro relato, Gerontius seria natural da Capadócia. De qualquer modo, as fontes acordam que Jorge cresceu em Lydda e que sua família era cristã.

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(Mosaico romano descoberto em Lod, Israel)

Seguindo a carreira do pai, Jorge se alistou na guarda imperial, servindo na corte de Diocleciano em Nicomédia (atual Izmit, na Turquia), que havia sido elevada pelo imperador à condição de capital imperial, no recém-criado sistema da Tetrarquia.

Jorge acabou sendo promovido ao posto de Tribuno, posto que hoje seria equivalente ao de coronel. Quando Diocleciano publicou seu Édito exigindo que os soldados cristãos renunciassem ao cristianismo, Jorge anunciou publicamente, perante as tropas formadas na presença do Imperador, sua devoção a Jesus Cristo.

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O Imperador, que apreciava Jorge tentou convencê-lo de várias formas a obedecer o Decreto, até oferecendo-lhe terras, dinheiro e escravos, mas Jorge manteve-se irredutível.

Sentindo-se obrigado a reforçar a obediência ao seu Édito, Diocleciano ordenou que Jorge fosse torturado em uma roda de afiadas espadas. Após este suplício, Jorge foi decapitado em frente às muralhas de Nicomédia, em 23 de abril de 303 D.C. Seu corpo foi levado para Lydda e logo se tornou foco de devoção como relíquia de umt mártir cristão. Ainda segundo a tradição, a imperatriz Alexandra, esposa de Diocleciano, ao assistir o martírio de Diocleciano, converteu-se ao cristianismo, motivo pelo qual ela também foi executada e, posteriormente, canonizada.

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(Panorama de Izmit, a antiga Nicomédia, na Turquia)

A associação de São Jorge ao dragão parece ter sido recolhida e trazida à Europa pelos cruzados no Oriente Médio (algumas populações islamizadas inclusive mantiveram a veneração a São Jorge na região).

Segundo a lenda, na cidade de Sylene (que poderia ser Cirene, na Líbia ou, segundo alguns, seria a própria Lydda), um dragão ( originalmente um crocodilo) viveria na fonte de água potável dos habitantes, que eram obrigados a oferecer ao monstro uma ovelha para sacrifício, até que, na falta dos animais, eles foram forçados a oferecer uma virgem. A donzela orou pedindo proteção e São Jorge apareceu e matou o dragão, motivo pelo qual todos os habitantes se converteram ao cristianismo.

Jorge foi canonizado pelo Papa Gelásio I, em 494 D.C. Embora o santo fosse conhecido no Ocidente, a sua popularidade chegou ao ápice com o retorno à Europa dos cruzados, que atribuíram à intervenção de São Jorge várias vitórias obtidas na Terra Santa. Por influência deles, São Jorge acabou virando o santo patrono da Inglaterra, de Portugal, da Geórgia, da Romênia e de Malta. A imagem de São Jorge matando o dragão também compõe a Cota de Armas da Federação Russa.

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CARACALA – UM IMPERADOR PARA OS SOLDADOS

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Nascido a 4 de abril de 188 D.C, em Lugdunum, na província da Gália (atual Lyon), com o nome de Lucius Septimius BassianusCaracala era o filho mais velho do imperador Septímio Severo e da imperatriz Júlia Domna.

Severo foi o primeiro imperador romano que não descendia de uma família de origem italiana (ao menos por parte de pai,) pois a sua tinha origem púnica ou berbere, nativa da cidade de Leptis Magna, na atual Líbia. Porém, a família ascendera à classe Equestre, e dois primos de Severo já tinham ocupado o consulado durante o reinado do imperador Antonino Pio.

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(Septímio Severo, pai de Caracala)

Já a mãe de Caracala, a imperatriz Júlia Domna, uma mulher admirada por sua beleza e inteligência, era filha de Julius Bassianus, sumo-sacerdote do Templo do deus Elagábalo (El-Gabal), em Emesa (moderna Homs), na Síria, e membro da dinastia dos Sempseramidas, governantes daquela cidade, que era a capital de um reino-cliente de Roma, que depois foi anexada pelo Império.

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(Júlia Domna, mãe de Caracala)

Cinco anos após o nascimento de Caracala, em 193 D.C, seu pai Septímio Severo se tornaria imperador e reinaria até 211 D.C. Severo queria fazer crer que era filho ilegítimo do finado imperador Marco Aurélio e, por isso, além  de acrescentar o nome deste imperador ao seu, mudou o nome de Caracala para Marcus Aurelius Severus Antoninus Augustus, numa tentativa de legitimar a si e a sua prole como continuadores da bem-sucedida dinastia dos Antoninos, que terminara de fato com o assassinato do imperador Cômodo.

O apelido Caracala surgiu porque Lucius Septimius Bassianus gostava muito de usar um manto com capuz, de origem gaulesa, chamado de “Caracalla“.

Severo, desde cedo, demonstrou que não iria reviver o costume dos Antoninos, que fora interrompido com a nomeação de Cômodo por seu pai, Marco Aurélio, de se escolher, como herdeiro e sucessor do imperador, o homem público  mais apto, e não o próprio filho biológico.

Assim, em 196 D.C, Caracala foi nomeado “César” (título equivalente ao de príncipe-herdeiro) e, no ano seguinte, ele seria reconhecido como “Augusto“, tornando-se de direito co-imperador junto com seu pai, embora ele tivesse apenas 9 anos de idade.

Em 202 D.C, Severo concordou em casar Caracala com Plautila, filha do seu primo e conterrâneo, o poderoso Prefeito Pretoriano Plauciano.

Caracala odiava o sogro e a esposa e, após o seu casamento, recusou-se a ter qualquer relacionamento com Plautila. Na verdade, consta que Caracala teria chegado a prometer que, quando se tornasse imperador, daria cabo de ambos, o que pode ter levado Plauciano a conspirar contra Severo, ou, ao menos, esse foi o pretexto que Caracala usou para conseguir a queda e execução do sogro e o exílio de Plautila, em 205 D.C.

Parece que Severo pretendia ser sucedido, após a sua morte, conjuntamente por Caracala e por seu filho mais novo, Geta, que era um ano mais novo do que o irmão e foi nomeado César em 198 D.C e, posteriormente, Augusto em 209 D.C.

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(Uma das poucas imagens de Geta que sobreviveram à Damnatio Memoriae ordenada por Caracala)

Os dois irmãos destacavam-se pela dissolução dos costumes, promovendo orgias, e, igualmente, pelo ciúme e ódio que nutriam um pelo outro.

Segundo as fontes antigas, Severo, enquanto encontrava-se em campanha contra os Caledônios na Britânia, caiu gravemente enfermo, e, pressentindo que ia morrer, mandou chamar Caracala e Geta, para dar-lhes a notícia e um derradeiro conselho para o futuro reinado de ambos, que foi este:

Não briguem entre si, deem muito dinheiro aos soldados e desprezem todos os outros“.

No dia 4 de fevereiro de 211 D.C, em Eboracum (atual York), Severo morreu. No mesmo dia, Caracala e Geta foram aclamados imperadores pelas tropas. Ambos decidiram imediatamente interromper a campanha e voltar para Roma.

Porém, a animosidade entre os irmãos-imperadores era tanta que o Palácio teve que ser dividido em dois, e, mesmo assim, não satisfeitos, eles chegaram a cogitar seriamente em dividir o Império Romano em duas metades, cem anos antes de Constantino, que tomou a medida por motivos muito mais relevantes.

Não demorou muito para que Caracala colocasse em prática um plano para se livrar do irmão.  Assim, simulando um falso desejo de reconciliação, ele persuadiu Júlia Domna a convocar um encontro ente ele e Geta. Quando Geta chegou na ala do Palácio ocupada pela mãe,  um grupo de membros da Guarda Pretoriana fiéis a Caracala esfaquearam-no, e Geta morreu nos braços de Júlia Domna, em dezembro de 211 D.C.

Não satisfeito em mandar matar Geta, Caracala quis também eliminar qualquer referência histórica ao irmão, ordenando a sua “Damnatio Memoriae“. Em decorrência, a imagem de Geta deveria ser apagada de qualquer monumento público, o que efetivamente foi feito, como se pode ver em uma famosa pintura que chegou até os nossos dias,  proveniente do Egito, onde o retrato de Geta, ainda criança, junto da família imperial, foi apagado.

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(Painel de madeira pintada com os retratos de Septímio Severo, Júlia Domna e Caracala, ainda criança. A imagem de Geta foi apagada, em obediência à Damnatio Memoriae).

Caracala, que, logo no primeiro ano de reinado, decidira não obedecer o primeiro conselho do pai, matando o irmão, entretanto seguiria à risca o segundo conselho, aumentando em 50% o soldo dos legionários. Não satisfeito, o imperador foi além e passou a cortejar os soldados, marchando junto com eles, comendo com eles o mesmo rancho, e até mesmo moendo grãos para fazer a farinha para o rancho.

Também no início do seu reinado, Caracala ordenou a construção de um gigantesco complexo de banhos públicos, que ficariam conhecidos como as “Termas de Caracala” e seriam as maiores já construídas em Roma,  até a construção das Termas de Diocleciano, 90 anos mais tarde.

Em 213 D.C., Caracala teve que deixar Roma para ir combater os bárbaros Alamanos, que ameaçavam a fronteira da Raetia (província que fazia fronteira com a Germânia, compreendendo parte da atual Suíça e do estado alemão da Baviera, entre outras regiões). Os bárbaros foram contidos e Caracala aproveitou para reforçar as defesas do território romano dos Agri Decumates).

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(Reconstrução em maquete das Termas de Caracala)

Porém, os gastos com os soldados e com as Termas obrigariam Caracala a desvalorizar o denário e a aumentar os tributos, tornando a sua figura, que já era antipática por natureza, detestada pela maioria do povo, e,  sobretudo, pelo Senado, que também frequentemente era desrespeitado por ele. Portanto, podemos dizer que o terceiro conselho de Severo: “desprezar todos os outros‘”, também estava sendo obedecido por Caracala

A principal medida legal do reinado de Caracala foi a promulgação da “Constitutio Antoniniana“, em 212 D.C,  lei também conhecida como Édito de Caracala, concedendo a cidadania romana a todos os homens livres do Império Romano. Contudo, mais do que uma medida democrática ou inclusiva, o real objetivo de Caracala era aumentar a base tributária, já que alguns tributos somente incidiam sobre cidadãos romanos.

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(Papiro com o texto da Constitutio Antoniniana, que sobreviveu até os nossos dias)

Segundo Cássio Dio, para inspirar temor nos seus súditos, Caracala gostava que a propaganda imperial  divulgasse uma imagem dele como um governante temível e implacável , e, de fato, todos os retratos que sobreviveram dele mostram exatamente essa expressão.

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Caracala admirava muito Alexandre, o Grande e, tentando emular o seu ídolo, o imperador promoveu uma campanha contra os Partos. E a fascinação de Caracala com o rei da Macedônia foi tanta que ele chegou a criar uma unidade militar com o nome de Phalangiari, imitando as falanges macedônicas que tinham dado tantas vitórias a Alexandre.

Enquanto Caracala, ausente de Roma, conduzia a campanha contra os Partos, quem se tornou a virtual governante da Cidade foi sua mãe, Júlia Domna. Com ela, começaria uma tendência que caracterizaria a dinastia dos Severos: a predominância das mães dos imperadores como eminências pardas e governantes de fato do Império, o que se acentuou durante os reinados de Elagábalo e de Severo Alexandre.

Entretanto, no dia 8 de abril de 217 D.C, o Imperador Caracala mandou parar sua comitiva, que marchava da cidade de Edessa para dar andamento à guerra contra a Pártia.

A parada, que ocorreu próximo à cidade de Carras (atual Harran, no sul da Turquia), tinha um motivo bem prosaico: o imperador estava com vontade de urinar…

Caracala afastou-se da comitiva, seguido, apenas, de seu guarda-costas Julius Martialis, que, aparentemente, guardava a distância necessária à privacidade do imperador.

De repente, o líquido amarelo que escorria pelo chão em decorrência do alívio da necessidade fisiológica do imperador, começou a ficar vermelho…

Martialis tinha acabado de atravessar o corpo de Caracala com o seu gládio com um golpe mortal. Os outro guardas perceberam o crime e Martialis tentou fugir, mas foi abatido por uma flecha de um arqueiro. Acredito que esta ação foi uma queima de arquivo, já que o principal suspeito de ter sido o mandante do crime era o Prefeito da Guarda Pretoriana, Macrino, que acabou se tornando o sucessor de Caracala no trono.

Todavia, Macrino logo seria substituído pelo primo de Caracala, Elagábalo, em uma revolta urdida pela sua tia, Júlia Maesa, que se valeu da enorme riqueza e dos contatos dos Sempseramidas na Síria, uma das províncias mais ricas do Império, para subornar o poderoso exército romano naquela província.

Caracala é considerado um dos muitos “maus imperadores” romanos, não apenas para os historiadores antigos, mas também por Edward Gibbon e a maioria dos historiadores modernos. Após a sua morte, ele continuaria popular entre os soldados, os únicos romanos que ele se preocupou em agradar.