CÔMODO – O IMPERADOR GLADIADOR

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(Busto de Cômodo, foto de Sailko)

Em 31 de agosto de 161 D.C., na cidade de Lanuvium, nas cercanias de Roma, nasceu, com o nome de Lucius Aurelius Commodus, o imperador romano Cômodo, que era o décimo dos quatorze filhos que o imperador romano Marco Aurélio  teve com a imperatriz Faustina, a Jovem, e o único a alcançar a idade adulta.

(Marco Aurélio e Faustina, a Jovem, pais de Cômodo)

Cômodo também foi o primeiro imperador romano a nascer durante o reinado de seu pai natural, um fato que somente se repetiria em 337 D.C.

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(Cabeça  de Cômodo jovem)

Assim, Cômodo,  desde a sua tenra idade, foi criado para suceder Marco Aurélio, recebendo, com apenas cinco anos de idade, o título de “César” (título que, naquela fase do Império Romano, equivalia ao de “Príncipe-herdeiro”) e, em 177 D.C., ele seria nomeado “Augusto”, ou seja, co-imperador ,junto com seu pai. Essa foi uma decisão acelerada pela revolta do general Avídio Cássio, ocorrida em 175 D.C, que havia recebido a falsa notícia de que Marco Aurélio havia falecido, e resolveu usurpar o trono, mas acabou sendo assassinado pelos próprios centuriões quando se descobriu que o imperador estava vivo.

Não corresponde, portanto, à realidade o famoso enredo do filme “Gladiador”, no qual o velho imperador tencionava nomear o fictício general “Maximus Decimus Meridius” no lugar de Cômodo,  que, por este motivo, na referida trama assassina o pai.

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Em 178 D.C., Cômodo casou-se com Bruttia Crispina, uma riquíssima filha  e neta de ex-Cônsules.

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(Busto da imperatriz Crispina, foto de PierreSelim e outro)

Quando Marco Aurélio morreu, em 17 de março de 180 D.C., na cidade de Vindobona (atual Viena), no final de uma duríssima campanha contra as tribos germânicas dos Marcomanos e dos Quados, na fronteira do Danúbio, Cômodo foi aclamado Imperador Romano, com apenas 18 anos de idade, adotando o nome de Marcus Aurelius Commodus Antoninus Augustus. Antes dele, somente o imperador Tito tinha conseguido suceder o pai, Vespasiano, como imperador.

As principais fontes deste período são historiador romano Cassius Dio (Cássio Dião) e a coletânea de biografias de imperadores chamadas de “História Augusta“. Segundo Dião, Cômodo não era talhado para o cargo de imperador, tendo suas deficiências sido percebidas por Marco Aurélio, que, em consequência, procurou cercar o filho de bons conselheiros, escolhidos entre respeitados senadores.

Cômodo porém, contra o conselho deles, recém-empossado e louco para voltar à Roma, resolveu assinar um tratado de paz com os Marcomanos e Quados,  o qual foi considerado por muitos como prejudicial aos interesses romanos, tendo em vista as vitórias duramente conquistadas por Marco Aurélio no campo de batalha, enfraquecendo a posição dos bárbaros.

Uma das primeiras medidas  de Cômodo no governo foi promover uma grande desvalorização da moeda romana, o denário, em uma escala que não ocorria desde o reinado de Nero, mais de um século antes. Mas devemos admitir que isso talvez tenha sido necessário devido à longa e custosa guerra travada no Danúbio por seu pai.

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(Denário de Cômodo, foto Louisonze)

Todavia, o fato é que os círculos mais próximos do trono logo perceberam a inaptidão, preguiça e falta de decoro de Cômodo para o cargo de Imperador.

Assim, logo em 182 D.C., a própria Lucilla, irmã de Cômodo, envolveu-se em uma conspiração para assassinar o imperador, junto como o sobrinho de Marco Aurélio, Marcus Ummidius Quadratus Annianus, suposto amante de Lucilla. Parece que os conspiradores pretendiam proclamar imperador Tibério Cláudio Pompeiano, segundo marido de Lucilla (o seu primeiro marido foi Lúcio Vero, que tinha sido co-imperador jumto com Marco Aurélio, durante 8 anos, até morrer).

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(Estátua de Lucilla, irmã de Cômodo, caracterizada como a deusa Ceres, foto de AlexanderVanLoon)

Então, certo dia, quando Cômodo entrava em um teatro, um sobrinho de Pompeiano, chamado Quintianus saltou sobre o imperador brandindo uma adaga, enquanto gritava: “Veja o que o Senado vos mandou!”, mas ele foi prontamente dominado pelos guardas. Na repressão ao atentado, Quintianus e Ummidius Quadratus foram executados e Lucilla foi exilada em Capri, no que aparentemente era uma pena branda. Porém, naquele mesmo ano, ela seria assassinada por um centurião a mando do irmão. Pompeiano, que não teve participação na conspiração, foi poupado.

Logo no início do seu reinado, ficou claro que Cômodo não tinha a menor disposição de gastar seu tempo com os assuntos de Estado. Ele passava a maior parte do tempo em sua Villa em Lanuvium, treinando e lutando como um gladiador, ou em orgias.

Assim, os assuntos administrativos e estatais ficavam a cargo do Prefeito Pretoriano Tigidius Perennis e dos libertos e empregados domésticos do imperador, especialmente do camareiro (cubiculari) Saoteris, que, segundo uma fonte, seria também amante de Cômodo, e, após a execução deste, do liberto Cleander, que ocupou o posto do morto.

Segundo Cássio Dião:

Cômodo dedicava a maior parte da sua vida ao ócio, aos cavalos e aos combates de bestas selvagens e lutas entre homens. De fato, além de tudo isto que ele fazia em particular, ele frequentemente matou em público um grande número de homens e animais. Por exemplo, usando apenas as próprias mãos, ele eliminou cinco hipopótamos junto com dois elefantes em dois dias seguidos; e ele também matou rinocerontes e um camelo”.

Deve ser assinalado que, para os romanos, a profissão de gladiador era considerada degradante, e os gladiadores ocupavam o estrato social mais rasteiro. Portanto, enorme deve ter sido o escândalo na elite romana quando o próprio imperador exibiu-se em combates na arena.

Para piorar, as próprias fontes do período mencionam que as exibições de Cômodo eram arranjadas, nas quais os seus oponentes não tinham a menor chance, combatendo com armas de brinquedo (assim como as bestas selvagens eram amarradas), apenas para serem impiedosamente abatidos pelo imperador. As fontes concordam, não obstante, que Cômodo era um excelente arqueiro, capaz, entre outras proezas  de acertar de longe a cabeça de um avestruz correndo à toda velocidade.

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Foi nessa época que Cômodo, alegando ser a reencarnação viva de Hércules, apresentou-se publicamente e fez se representar como este herói mítico, sendo que muitas dessas estátuas sobreviveram até os nossos dias.

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(Cômodo retratado como Hércules, com as tradicionais clava e pele do Leão de Neméia)

Enquanto isso, Cleander, em troca de propinas, vendia todo tipo de favores, incluindo os mais altos cargos públicos, chegando, segundo Dião, a vender 25 vezes o cargo de Cônsul, a mais alta magistratura romana, em apenas um ano! (190 D.C.).

A desonestidade de Cleander levou-o a ser odiado pela plebe romana. Assim, ainda no ano de 190 D.C., ao ser hostilizado pela plateia que assistia às corridas no Circo Máximo, Cleander tentou mandar os pretorianos reprimirem a massa, mas os soldados acabaram sendo dispersados pela reação violenta do público, que os perseguiu até os portões do palácio imperial. Como resultado, Cômodo, intimidado pelo clamor popular, acabou ordenando a decapitação de Cleander.

Nas fronteiras, o problema mais sério enfrentado por Cômodo foi uma invasão da Britânia pelas tribos da Caledônia (parte da atual Escócia), em 184 D.C., onde foram necessárias três campanhas para derrotá-los.

Em 188 D.C., a imperatriz Bruttia Crispina foi acusada de adultério, uma acusação aparentemente falsa, e exilada para Capri.  O casal imperial não teve filhos. Ela morreria mais tarde, provavelmente em 191 D.C., aparentemente executada.

Depois de mais uma década de excessos e execuções, a classe dominante não aguentava mais o imperador que ocupava o trono, e a gota d’água, ou ao menos o pretexto para eles quererem se livrar de Cômodo, foi o seu desejo, manifestado em dezembro de 192 D.C., de aparecer, na inauguração do ano seguinte, vestido como gladiador no Senado, ocasião em que seriam celebrados jogos para comemorar o novo nome da cidade de Roma, que fora devastada por um grande incêndio, em 191 D.C., e tinha sido rebatizada com o nome de “Colônia Comodiana”…

Márcia, a companheira de Cômodo, que consta ter sido cristã e próxima ao bispo de Roma (o Papa Victor I), tentou dissuadi-lo desses projetos tresloucados, juntamente com Quinto Emílio Leto, o Prefeito Pretoriano, e o camareiro Ecletus,  as pessoas que, na prática, exerciam naquele momento a administração do Império. Porém, a iniciativa deles fez com que todos incorressem no desagrado do imperador.

Certo dia, no final de dezembro de 192 D.C., enquanto o imperador tomava banho, um escravo, que vinha sendo o favorito de Cômodo e que tinha o sugestivo nome de PhiloCommodus, achou um livreto em formato tablete contendo uma série de nomes de pessoas que deveriam ser executadas e entregou-o a Márcia. Quando esta leu o conteúdo do livreto, para seu espanto, o primeiro nome na lista era o dela…

Então,  Márcia convocou para um encontro Emílio Leto e Ecletus, que temerosos de serem também executados, engendraram o plano de assassinato de Cômodo.

No dia 31 de dezembro de 192 D.C, como de costume, após Cômodo tomar o seu banho, Márcia ofereceu-lhe uma bebida, que desta vez estava misturada com veneno. Porém, como Cômodo,  ao sentir os efeitos do envenenamento, começou a vomitar sem parar, os três conspiradores, temerosos de que ele dessa forma conseguisse sobreviver eliminando o veneno em seu corpo, imediatamente chamaram o atleta e lutador Narcissus e o subornaram para estrangular o imperador em seus aposentos, o que o assassino conseguiu fazer sem muita dificuldade.

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O Senado Romano decretou que as inscrições em homenagem a Cômodo fossem apagadas dos monumentos públicos (damnatio memoriae). Apesar disso, suas cinzas foram depositadas no Mausoléu de Adriano, em Roma. Não muito tempo depois, o imperador Septímio Severo, que pretendia ostentar uma conexão familiar com a prestigiosa dinastia dos Antoninos, revogou a damnatio memoriae de Cômodo e ordenou que o Senado o deificasse.

Logo após a morte de Cômodo,  o Prefeito Urbano de Roma, Publius Helvius Pertinax (Pertinace), foi levado para o Quartel da Guarda Pretoriana e aclamado imperador na manhã seguinte. Muito provavelmente, ele estava implicado na trama que resultou no assassinato de Cômodo. Com Pertinace, inicia-se, então, um período de instabilidade e luta pelo trono que passaria à História com o nome de “O Ano dos Cinco Imperadores“.

Com a morte de Cômodo, encerrou-se, de maneira triste, a chamada dinastia dos “Antoninos“, que havia sido iniciada com Nerva, em 96 D.C, e tinha inaugurado o período que ficaria conhecido como o “Século de Ouro” da História do Império Romano (que vai da ascensão de Nerva até a morte de Marco Aurélio, em 180 D.C.).

 

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DÍDIO JULIANO – UM LANCE MORTAL

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Didius Julianus

 

Em 1º de junho de 193 D.C., o imperador romano Dídio Juliano foi executado por um soldado no interior do próprio Palácio Imperial, cumprindo uma decisão do Senado que o havia sentenciado à morte.

Após o assassinato do imperador Cômodo, no último dia de 192 D.C., o ano de 193 D.C. tinha começado com um novo imperador, Pertinace, que apesar do início promissor, não conseguiu conter a insaciável Guarda Pretoriana e foi assassinado, em 28 de março, por um grupo de pretorianos, insatisfeitos por não terem recebido o donativo que havia sido prometido quando da ascensão do novo imperador ao trono. E, após este infame assassinato, aquele tumultuado ano ainda testemunharia mais quatro imperadores serem aclamados, motivo pelo qual ficaria conhecido como “O Ano dos Cinco Imperadores“.

Dídio Juliano nasceu em Mediolanum (atual Milão), em 30 de janeiro de 133 D.C, (uma outra fonte cita a data de 02 de fevereiro de 137 D.C). Ele era filho de Quintus Petronius Didius Severus e de Aemilia Clara, esta pertencente a uma família norte-africana, radicada em Hadrumetum (atual Sousse, na Tunísia), mas que descendia da nobreza romana.

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(Trecho das muralhas romanas de Mediolanum, atual Milão)

Já a família paterna de Dídio Juliano era uma das mais antigas de Mediolanum, cidade originalmente povoada por um povo celta, os Insubres. Em 194 A.C., após décadas de hostilidade, os Insubres se aliaram aos romanos, obtendo, em 89 A.C., a cidadania latina, e,  finalmente, em 49 A.C., a cidadania romana.

O avô paterno de Dídio Juliano, Quintus Petronius Severus, foi um general bem-sucedido, e a sua avó, Didia Jucunda pertencia à gens Didia, uma família plebéia de “novos homens”, sendo que um de seus antepassados alcançara o consulado em 89 A.C.

Pelo lado materno, Dídio Juliano era parente, talvez neto ou sobrinho, não se sabe ao certo, do famoso jurista Salvius Julianus, que compilou e codificou, durante o reinado do imperador Adriano, os Éditos dos Pretores (juízes) romanos (espécies de súmulas de jurisprudência e normas processuais), promulgados durante a República e que nunca haviam sido sistematizados.

Salvius Julianus também era nativo da região de Hadrumetum (vilarejo de Pupput) e é possível que a mãe de Dídio Juliano fosse sua filha ou sobrinha. Salvius também era membro do Conselho Privado do Imperador Adriano, uma posição que ele manteve no reinado do sucessor deste, Antonino Pio,  culminando a sua carreira com a nomeação para o cargo de Cônsul, no ano de 148 D.C.

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(Ruínas romanas de Pupput, na Tunísia, terra natal de Salvius Julianus)

A proximidade de Salvius Julianus com os imperadores Adriano e Antonino Pio provavelmente é a explicação para o fato de Dídio Juliano, após a morte de seu pai, haver sido criado na casa de Domitia Lucilla, mãe do imperador Marco Aurélio e cunhada da esposa de Antonino Pio.

Assim, Domitia Lucilla ajudou seu protegido Dídio Juliano a ser nomeado para o colégio de magistrados chamado Vigintivirati, que era o primeiro passo para uma carreira pública no Império Romano daquele período.

Por volta de 153 D.C, Dídio Juliano casou-se com Manlia Scatilla, integrante de uma ilustre família senatorial, que, naquele mesmo ano, deu à luz à única filha e descendente do marido, a qual eles deram o nome de Didia Clara.

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(Moeda com a efígie de Manlia Scatilla, esposa de Dídio Juliano, foto de Rasiel Suarez )

E, durante a dinastia dos Antoninos, Dídio Juliano continuou prosperando, ocupando, sucessivamente, os cargos de Questor, Edil e, em 162 D.C., de Pretor militar, sendo nomeado comandante da Legião XXII Primigenia, estacionada em Moguntiatum (atual Mainz, na Alemanha). Mais tarde, em 170 D.C.,  ele foi nomeado Prefeito da Gália Bélgica, servindo nessa qualidade por cinco anos, período no qual ele reprimiu uma invasão da tribo germânica dos Chauci.

Em reconhecimento dos seus serviços nas províncias, Dídio Juliano foi nomeado para a mais importante magistratura tradicional romana, o Consulado, no ano de 175 D.C., tendo como colega o futuro imperador Pertinace.

Posteriormente, Dídio Juliano, que por então havia se tornado um homem muito rico, foi Governador da Dalmácia e da Germânia Inferior, e, após voltar à Roma, ele foi designado Prefeito encarregado da distribuição de dinheiro aos pobres da Itália. Nesse cargo, ele foi acusado de estar associado a uma conspiração contra o imperador Cômodo, que já havia sucedido Marco Aurélio. Contudo, ele foi inocentado e voltou a ocupar cargos importantes, tais como os de governador da Bitínia e de Procônsul da África, sucedendo, neste último cargo, Pertinace.

 

Quando Cômodo foi morto, em um complô palaciano que envolveu a amante do imperador, seu camareiro e o Prefeito Pretoriano, Quintus Aemilius Laetus, que, certamente, devem ter sido apoiados por vários senadores, Pertinace foi levado para o quartel da Guarda Pretoriana e ali aclamado imperador.

Não obstante a forma com que ele chegou ao trono, Pertinace, desde o início, demostrou que pretendia restaurar os procedimentos de seriedade na administração que nortearam os reinados dos imperadores da dinastia dos Antoninos, até o fim do reinado de Marco Aurélio.

Porém, quando os pretorianos perceberam que eles não iriam receber a recompensa esperada pela nomeação de Pertinace ao trono, cerca de 200 guardas invadiram o Palácio, em 28 de março de 193 D.C., e mataram o recém-nomeado Pertinace, cujo reinado durou apenas 86 dias.

Em seguida ao assassinato de Pertinace, ocorreu um dos mais vergonhosos episódios da História de Roma: Os guardas pretorianos saíram pela cidade de Roma à procura de candidatos para quem eles pudessem vender o trono imperial.  Assim, um grupo de soldados levou para o Quartel o Prefeito Urbano Sulpiciano, sogro de Cômodo, com quem começaram a negociar o preço pela sua aclamação!

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(Relevo dos Pretorianos, séc. I D.C., Louvre. Acredita-se que os soldados retratados sejam guardas pretorianos, que usavam  tradicionais uniformes e equipamentos antigos da época republicana, da mesma forma que as guardas imperiais ou presidenciais fazem hoje em dia. Foto em Historien spécialiste du bassin minier du Nord-Pas-de-Calais JÄNNICK Jérémy / Wikimedia Commons & Louvre-Lens)

Enquanto isso ocorria, Dídio Juliano, que segundo o historiador Dião Cássio, era, ao mesmo tempo, ganancioso e desregrado, estava em um banquete e, encorajado pelos presentes, incluindo sua esposa e filha, resolveu ir ao Quartel da Guarda Pretoriana (Castra Pretoria) para testar a sua sorte.

Diga-se de passagem, que havia, de fato, alguns aspectos aptos a encorajar Dídio Juliano nessa ousada empreitada: Ele teve muita proximidade com a dinastia dos Antoninos, ocupou cargos importantes, inclusive o Consulado, e a sua trajetória política parecia que estava sempre seguindo diretamente os passos do finado imperador Pertinace (consta até que este, quando vivo,chegou a fazer brincadeiras neste sentido).

Segundo outra versão, Dídio Juliano foi até à Cúria do Senado Romano para tentar ser aclamado pelos seus pares, mas, achando o prédio fechado, ele acabou sendo levado por dois tribunos da Guarda Pretoriana até o Castra Pretoria.

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(Ruínas dos muros do Castra Pretoria, em Roma, no século XVIII, gravura de Giovanni Battista Piranesi)

Lá chegando,  Dídio Juliano, ainda do lado de fora dos muros, ao ouvir a negociação de Sulpiciano com os Guardas, começou a gritar, ainda do lado de fora dos muros, as suas ofertas. Ele também enfatizou aos militares que Sulpiciano, sendo sogro de Cômodo, poderia tentar responsabilizá-los pela morte daquele imperador.

Assim, Dídio Juliano foi admitido a entrar no Quartel e, logo, o triste espetáculo transformou-se em um verdadeiro leilão, que parecia que iria ser vencido por Sulpiciano, pelo valor de 20 mil sestércios para cada Pretoriano. Porém, Dídio Juliano subiu o lance e, oferecendo 25 mil sestércios, acabou sendo o vitorioso. O Senado, intimidado, reconheceu a aclamação, no mesmo dia 28 de março de 193 D.C.

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(Aureus de Dídio Juliano)

Contudo, a população nunca aceitou a forma como Dídio Juliano havia obtido o trono. Logo, o novo imperador passou a ser vaiado em público. Além disso, o fato é que Pertinace, apesar de reinar apenas 86 dias, havia sido um governante popular e respeitado.

Em pouco tempo, a insatisfação espalhou-se pelas províncias e  os generais Clódio Albino, Septímio Severo e Pescênio Niger foriam aclamados imperadores, cada um pelas respectivas legiões.

A única medida conhecida do governo de Dídio Juliano foi desvalorizar a moeda romana para o percentual de prata anterior ao reinado de Pertinace.

Quando Septímio Severo invadiu a Itália, ele ordenou que muitos dos seus soldados entrassem em Roma disfarçados. Além disso, a Guarda Pretoriana não era páreo para o experimentado exército da Ilíria. Quando percebeu-se que a derrota do imperador era só uma questão de tempo, o Senado condenou Dídio Juliano à morte e reconheceu Severo como imperador. Antes disso, a Guarda Pretoriana, com medo da punição aos seus crimes,já havia abandonado o imperador a quem tinha vendido o trono.

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(Cabeça de bronze de Septímio Severo)

Dídio Juliano, em 1º de junho de 193 D.C., foi abordado por um soldado que, em cumprimento à ordem emanada do Senado, executou-o no interior do próprio Palácio, em seus aposentos. Ele havia reinado por apenas 66 dias.

Senhor absoluto de Roma (mais tarde ele se livraria dos rivais Níger e Albino nas províncias), Septímio Severo ordenou a execução dos assassinos de Pertinace, fazendo com que o Senado “deificasse” o falecido e prestando, ele mesmo, várias honras à memória daquele infeliz imperador.

Severo poupou a esposa de Dídio Juliano, Manlia Scatilla, e a sua filha, Didia Clara (que, consta, era uma das mulheres mais lindas de Roma). Porém, ambas perderam os títulos de imperatrizes. Elas receberam autorização para sepultar o corpo do marido e pai no Mausoléu de Salvius Julianus, que ficava no marco das 50 milhas da Via Labicana, nos arredores de Roma.

 

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SÃO HERMIAS

 

Hérmias foi um soldado romano de Comana, no Ponto (atual Gumenek, na Turquia), que serviu durante o reinado do imperador Antonino Pio.

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(Escavações em Gumenek, antiga Comana Pôntica, foto http://www.yapi.com.tr/haberler/komanada-antik-kilise_123346.html)

Segundo a tradição católica, Hérmias, ao dar baixa em serviço no Exército Romano, confessou que era cristão, motivo pelo qual ele foi preso e levado à presença de Sebastião, o Proconsul daquela província. O governador ordenou que Hérmias demonstrasse a sua lealdade ao imperador e ao Estado praticando o ritual de costume (normalmente, queimar incenso em um altar perante a efígie do imperador), o que foi recusado por Hérmias. Sebastião então ordenou que o soldado fosse torturado, suplício no qual a sua mandíbula foi quebrada e sua pele arrancada de sua face. Depois, Hérmias foi atirado em uma fornalha e, mesmo assim, após três dias desses terríveis tormentos, ele teria sobrevivido ileso às chamas.

Sebastião resolveu então convocar um mago, chamado Marus, para que envenenasse Hérmias. Porém, antes de tomar o veneno, Hérmias abençoou o recipiente com o sinal da cruz e bebeu, sem que nada lhe acontecesse. Vendo isso, o próprio Marus teria reconhecido o poder de Jesus Cristo e ele mesmo se converteu à fé cristã, sendo imediatamente decapitado por isso.

Inconformado, Sebastião ordenou que Hérmias fosse submetido a novo suplício, onde os seus olhos teriam sido arrancados, e, depois, ele foi atirado em um caldeirão de óleo fervente. Ainda  vivo segundo o incrível relato, Hérmias depois foi crucificado por três dias, durante os quais ele continuou dando graças a Jesus Cristo.

Furioso, Sebastião, então,  decapitou Hérmias com sua própria espada,  matando-o em 31 de maio de 160 D.C.

A fantástica estória de Hérmias parece prenunciar a de muitos outros soldados romanos cristãos que virariam santos católicos, tais como São Sebastião e São Jorge.

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