Dos objetos romanos que chegaram até os nossos dias, um dos que mais me fascinam são as portas de bronze romanas: além de artisticamente belíssimas, elas transmitem majestade e solidez, conferindo um aspecto digno e solene aos edifícios que elas ainda guardam. E, provavelmente, embora pudessem ter sido originalmente douradas ou dotadas de ornamentos dourados, o fato é que o envelhecimento típico do bronze lhes cai muito bem. E também são tecnicamente muito bem feitas. De fato, até onde eu sei, as portas romanas que descreveremos neste artigo são as mais antigas ainda em funcionamento no Mundo (há portas mais antigas, como a que selava a tumba do faraó Tutankhamun, ou outras até mais antigas, de pedra, mas não podemos dizer que elas ainda sejam portas funcionais).
Sem mais delongas, vamos então às mais antigas portas romanas:
1- Portas da Cúria do Senado Romano (Curia Julia)
Estas portas guardavam a Cúria do Senado Romano, que começou a ser erguida pelo Ditador Júlio César em 44 A.C., no lugardaCuria Hostilia, incendiada nos tumultos que sucederam ao assassinato do político Clódio, em 52 A.C. Mas os trabalhos só foram concluído pelo herdeiro de César, Otaviano, em 29 A.C. Após a Queda do Império Romano do Ocidente, o edifício foi transformado em uma igreja, em 630 D.C, permanecendo nesta função até o governo de Benito Mussolini, em 1938, quando o templo foi desconsagrado, sendo todos os acréscimos posteriores ao período romano removidos, revelando o piso de mármore no padrão opus sectile original e as arquibancadas onde ficavam os bancos de madeira dos senadores. Assim, o prédio da Curia Julia, que sofreu várias restaurações ainda durante o Império Romano, sobrevive no Fórum Romano, sendo a mais importante delas a efetuada pelo Imperador Diocleciano, que resultou no prédio que atualmente podemos visitar hoje. Porém, as magníficas portas de bronze que o guarneciam, medindo imponentes 5,9 m de altura, foram colocadas entre 81 e 96 D.C, durante o reinado do imperador Domiciano. Elas permaneceram na Curia até 1660, quando foram retiradas e instaladas na Basílica Católica de São João de Latrão (San Giovanni Laterano), em Roma, onde se encontram até hoje, em perfeito funcionamento. Durante os trabalhos de restauração realizados no governo de Mussolini, foram instaladas reproduções fiéis das portas originais. Como a própria Basílica de San Giovanni Laterano, apesar de muito reformulada ao longo dos séculos, foi construída e consagrada no reinado do imperador Constantino, o Grande, em 324 D.C, sem dúvida as suas portas merecem o título de portas romanas mais antigas em funcionamento (e talvez do mundo). Finalmente, é fascinante pensar que por essas portas, sem sombra de dúvida passaram ao longo dos séculos vários imperadores e inúmeros senadores romanos.
As portas de bronze do Pantheon são as mais antigas que ainda permanecem no seu local original de instalação. O icônico edifício foi construído no reinado do imperador Adriano, e dedicado em 126 D.C., sendo provavelmente concebido pelo grande arquiteto Apolodoro de Damasco. A opinião prevalente é que essas portas são as originais da construção do prédio atual, embora alguns defendam que possam ser anteriores, até mesmo contemporâneas de um edifício anterior, de mesmo nome e no mesmo local, erguido por Marco Vipsânio Agripa, no governo do imperador Augusto (como gesto de modéstia, Adriano quis que a inscrição dedicatória em nome de Agripa fosse mantida no frontão do novo edifício). Mas há opiniões minoritárias alegando que essas portas seriam medievais ou até mesmo modernas. As portas medem 7,53 m de altura por 4,45 m de largura e cada porta pesa 8 toneladas e meia, totalizando 17 toneladas no total. Durante 241 anos a porta direita não abria, mas trabalhos de restauração no umbral e/ou na soleira, bem como nos pinos, realizados em 1998, restauraram a sua funcionalidade. Assim, ambas as portas, apesar do peso descomunal, podem ser abertas por apenas uma pessoa, graças à perfeição do mecanismo criado pelos Romanos.
Estas foram as primeiras portas romanas que eu vi pessoalmente, quando da primeira vez eu estive em Roma, no Fórum Romano e o seu formato sóbrio e vetusto e o verde marcante da pátina em seu bronze me fascinaram instantaneamente.
Segundo a teoria mais aceita, este templo foi dedicado a Valério Rômulo, filho do imperadorMaxêncio, que morreu ainda adolescente em 309 D.C., sendo divinizado por ordem de seu pai, sendo o único templo romano, além do acima referido Pantheon, que ainda tem as suas portas de bronze originais, inclusive com a fechadura, também autêntica, ainda funcionando perfeitamente! Em 527 D.C, o Templo de Rômulo, durante o reinado de Teodorico, o Grande, rei dos Ostrogodos, foi doado ao Papa, tornando-se, então, o vestíbulo da Basílica de São Cosme e São Damião, no Fórum Romano.
A Basílica de Santa Sabina é um local que eu recomendo muito a todo o viajante que quiser viver uma experiência diferente e mais imersiva na Roma Antiga. Ela fica no topo da colina do Aventino, uma zona residencial chique, desde os tempos do Império Romano, que não é um local tão frequentado por turistas. O templo católico foi construído em 432 D.C, durante o reinado do imperador Valentiniano III, no terreno onde ficava a casa da aristocrata romana Sabina, cristã martirizada em 126 D.C, e, ao contrário de muitas igrejas antigas romanas, não foi alvo de restaurações ou reconstruções em estilo renascentista ou barroco, ao contrário, Santa Sabina conserva a sua arquitetura original do estilo do Baixo Império Romano, da qual é um dos exemplos mais representativos. As portas da basílica são as únicas incluídas neste artigo que são feitas de madeira (cipreste). E, comprovadamente, mediante testes de dendrocronologia e de rádio-carbono realizados, essas portas são originais, datadas do século V D.C. ( vide https://journals.ub.uni-heidelberg.de/index.php/rihajournal/article/download/69927/version/60257/63277?inline=true#page=1&search=%22sabina%20santa%22.
Dezoito dos painéis decorativos esculpidos em relevo são também originais e trazem algumas das mais antigas representações do Novo Testamento, inclusive uma das primeiras reproduções conhecidas da cena da crucificação de Jesus Cristo.
Finalmente, ainda que não diga respeito ao nosso tema, o leitor que visitar Santa Sabina não pode deixar de conhecer o Giardino degli Aranci, um jardim que fica ao lado da igreja, com lindas e antigas laranjeiras que, na estação apropriada, ficam carregadas de laranjas exalando um cheiro delicioso. O jardim também oferece vistas magníficas do rio Tibre e de parte da cidade de Roma e, se tudo der certo e o ambiente estiver calmo, propiciará uma experiência inesquecível, sobretudo para quem se lembrar do famoso afresco daVilla de Lívia, em Prima Porta, retratando um jardim com laranjais.
O chamada “Portão Esplêndido” ou “Porta Bonita” é uma porta interna de bronze instalada na Igreja de Santa Sofia (Hagia Sophia), em Constantinopla (atual Istambul, na Turquia). A imponente igreja foi construída pelo imperador romano do Oriente Justiniano, no século VI D.C. Porém, a porta em questão foi removida de um templo pagão, que ficava na ilha de Cnido, na Grécia, provavelmente o Templo de Afrodite (embora não se possa afirmar com certeza) e trazidas para Santa Sofia pelo imperador bizantino Teófilo , provavelmente em 838 D.C, tendo em vista uma inscrição com esta data nela aposta. As portas, em duas folhas, nitidamente foram adaptadas para caberem no interior da igreja, provavelmente cortando-se alguma parte delas e davam acesso à nave principal da construção a partir de um vestíbulo no nártex, utilizado pelo imperador e seu círculo íntimo. Considerando o estilo e outras características, especialistas avaliam que as portas foram fabricadas por artesãos gregos, antes ou durante o período romano, por volta do século II A.C, o que as tornariam as mais antigas existentes.
Os arcos do triunfo são uma criação romana*, um monumento normalmente isolado (isto é, que não está ligado a outros edifícios ou inserido em uma muralha ou parede), e cujo elemento principal é a existência de uma passagem sob uma ou mais arcadas, atravessadas por uma estrada ou via (quando o arco do triunfo é em formato cúbico e apresenta um arco em cada um dos seus lados, é chamado de “Tetrápilo“, do grego Tetrapylon).
Assim, basicamente, os arcos do triunfo são estruturas retangulares ou quadradas, com um ou mais arcos em suas fachadas, decoradas com relevos e ostentando uma inscrição comemorativa no ático (parte superior de uma construção, que fica acima das cornijas, na frente do telhado, ocultando este) erguidos sobre caminhos que os atravessavam, e em cujo topo havia um grupo de estátuas. A criação dos arcos do triunfo decorre do antigo costume romano de realizar uma procissão triunfal (Triunfo) pelas ruas da cidade de Roma, por ocasião das vitórias militares obtidas contra seus inimigos, onde desfilavam o general vitorioso e suas tropas vitoriosas, acompanhadas do produto do saque e dos chefes inimigos eventualmente capturados. Essa procissão também tinha um caráter religioso.
Mais tarde, durante o Império, arcos do triunfo também foram erguidos para homenagear a pessoa do imperador, não necessariamente em função do sucesso em alguma guerra (vale citar que, a partir de Augusto, os Triunfos eram exclusivos dos imperadores). Durante a República, os arcos do triunfo não eram erguidos para serem permanentes, e geralmente, no início, eram feitos de madeira (e eram então chamados de “fornices”, plural de “fornix“). Os arcos em alvenaria, revestidos de mármore, que chegaram aos dias de hoje, são do período imperial.
A construção de arcos do triunfo espalhou-se por todo o Império e praticamente toda cidade que se prezasse construiu um. Após a Queda do Império Romano, a prática reviveu durante o período carolíngio e, principalmente, durante a Renascença. Depois disso, quase todos governantes que se propuseram a exaltar a sua própria grandeza ou a de seu país ergueram arcos do triunfo ao redor do mundo, sendo o mais famoso, o Arco do Triunfo de Paris, erguido por Napoleão, mas eles existem também, entre outros inúmeros lugares, como Moscou, Berlim, Londres, Nova York e até em Pyongyang, na Coréia do Norte.
*Nota: Os romanos não inventaram o arco e provavelmente o assimilaram da arquitetura etrusca, mas não há registro de algum povo que os tenha precedido ao construí-los do mesmo modo e com o mesmo propósito dos seus arcos triunfais.
Dito isso, sem mais delongas, vamos àqueles que eu considero os arcos do triunfo romanos sobreviventes mais bem preservados e/ou impressionantes (OBS: trata-se de uma seleção discricionária minha, e a posição na lista não indica primazia. Aceitamos outras sugestões nos comentários).
1- Arco de Tito, em Roma
Foto Jebulon, CC0, via Wikimedia Commons
Decidimos começar nossa relação pelos três arcos mais importantes sobreviventes na cidade de Roma, e destes, o Arco de Tito é o mais antigo.
O Arco de Tito foi erguido após a morte deste imperador, cujo reinado foi pelo seu irmão e sucessor, Domiciano, em 81 D.C, no Fórum Romano, para comemorar tanto a deificação do querido e finado Tito (que reinou por menos de dois anos e cuja morte foi muito pranteada pelo Senado e pelo povo), quanto a vitória que este obteve ao conquistar Jerusalém, ainda durante o reinado do pai de ambos, Vespasiano, na Guerra da Judéia, em 70 D.C.
Composto por um arco singelo, ladeado por quatro colunas coríntias, é uma construção elegante, com cerca de 15 m de altura e 13 metros de largura. Uma de suas características mais notáveis são os painéis de relevo nas paredes sob o arco, retratando a procissão triunfal com os despojos do Templo de Jerusalém, incluindo o célebre candelabro de sete braços (Menorá).
Este arco foi construído no Fórum Romano, quase na frente à Cúria do Senado, em 203 D.C, e dedicado à vitória do imperador Septímio Severo, e seus filhos, Caracala e Geta, na campanha contra os Partas.
O Arco de Septímio Severo tem cerca de 23 m de altura e 25 m de largura, e é composto de um arco central maior ladeado por dois arcos laterais menores, entremeados por quatro colunas em estilo compósito, e tem sua fachada, bem como as paredes interiores dos arcos, ricamente decoradas por relevos retratando a campanha, sendo que nos ‘tímpanos” (espaços triangulares entre a moldura quadrada onde o arco se insere e este) foram esculpidas vitórias aladas carregando trófeus de despojos dos inimigos. Infelizmente, os relevos externos encontram-se bastante erodidos pelo tempo e pelas intempéries.
Como curiosidade, nota-se que as efígies retratando Geta, o filho mais novo de Septímio Severo, foram intencionalmente apagadas em função da “damnatio memoriae” (condenação de uma pessoa a ter sua imagem excluída dos registros e monumentos públicos) decretada pelo Senado Romano por ordem de seu irmão e assassino, Caracala.
A inscrição dedicatória existente no ático deste arco diz:
“IMP · CAES · LVCIO · SEPTIMIO · M · FIL · SEVERO · PIO · PERTINACI · AVG · PATRI PATRIAE PARTHICO · ARABICO · ET PARTHICO · ADIABENICO · PONTIFIC · MAXIMO · TRIBUNIC · POTEST · XI · IMP · XI · COS · III · PROCOS · ET IMP · CAES · M · AVRELIO · L · FIL · ANTONINO · AVG · PIO · FELICI · TRIBUNIC · POTEST · VI · COS · PROCOS · (P · P · OPTIMIS · FORTISSIMISQVE · PRINCIPIBUS) OB · REM · PVBLICAM · RESTITVTAM · IMPERIVMQVE · POPVLI · ROMANI · PROPAGATVM · INSIGNIBVS · VIRTVTIBVS · EORVM · DOMI · FORISQVE · S · P · Q · R.“
(“Ao Imperador César Lúcio Septímio Severo Pio Pertinax Augusto Pártico Arábico Adiabênico, filho de Marco, Pais da Pátria, Pontífice Máximo, no décimo-primeiro ano do seu Poder Tribunício, no décimo-primeiro ano de seu governo, Cônsul por três vezes, e Procônsul, e ao Imperador César Marco Aurélio Antonino Augusto Pio Feliz, filho de Lúcio, no sexto ano de seu Poder Tribunício, Cônsul e Procônsul, Pais da Pátria, melhores e mais fortes Príncipes, por conta da restauração da República e extensão do Império do Povo Romano propagados pela sua insigne virtude, em casa e no exterior, o Senado e Povo Romano (dedicam este monumento”).
Foi dedicado em 25 de julho de 315 D.C para comemorar a vitória do imperador Constantino sobre seu rival Maxêncio, na Batalha da Ponte Mílvio, em 312 D.C., entre o Coliseu, o sopé da colina do Palatino e o Templo de Vênus e Roma. Segue o estilo arquitetônico do Arco de Septímio Severo, com um arco principal ladeado por dois arcos menores, só que entremeados por quatro colunas em estilo coríntio. Alguns estudiosos sugerem que este arco teria sido construído por Adriano ou Maxêncio, e remodelado após a vitória de Constantino, para homenageá-lo. Embora seja um dos mais imponentes (e bem preservados) arcos do triunfo que sobreviveram, na verdade o Arco de Constantino foi decorado com relevos e estátuas retiradas de monumentos mais antigos, erguidos pelos imperadores Trajano, Adriano e Marco Aurélio, tendo algumas cabeças sido retrabalhadas para representar Constantino. Um elemento notável que foi reutilizado neste Arco, que já referimos em nosso artigo sobre Antínoo é o “tondo” (painel circular) retratando uma caçada a um leão realizada por Adriano e seu amante, um episódio real no qual Adriano salvou a vida de Antínoo. Para muitos estudiosos, a necessidade de retirar peças de monumentos antigos seria uma prova do declínio da arte da escultura ocorrida no período do Império Romano Tardio, dentro de um quadro geral de decadência técnica e artística, o que para outros seria um tanto discutível, já que grandes obras arquitetônicas e artísticas foram produzidas nesta época, ainda que abandonando os canônes da arte clássica.
O Arco de Constantino tem cerca de 21m de altura e 26 de largura.
A inscrição dedicatória existente no ático deste arco, originalmente feita com letras de bronze, está escrita assim:
“IMP(eratori) · CAES(ari) · FL(avio) · CONSTANTINO · MAXIMO · P(io) · F(elici) · AVGVSTO · S(enatus) · P(opulus) · Q(ue) · R(omanus) · QVOD · INSTINCTV · DIVINITATIS · MENTIS · MAGNITVDINE · CVM · EXERCITV · SVO · TAM · DE · TYRANNO · QVAM · DE · OMNI · EIVS · FACTIONE · VNO · TEMPORE · IVSTIS · REMPVBLICAM · VLTVS · EST · ARMIS · ARCVM · TRIVMPHIS · INSIGNEM · DICAVIT”
(“Ao imperador César Flávio Constantino, o maior, pio e bendito Augusto, porque ele, inspirado pelo Divino, e pela grandeza de sua mente, livrou o Estado do tirano e de todos os seus seguidores ao mesmo tempo, com seu Exército e pela força justa das armas, o Senado e o Povo de Roma dedicaram este Arco, decorado com triunfos”).
Muitos estudiosos acreditam que a incomum alusão à inspiração de Constantino pelo “Divino” constituiu já uma alusão sutil â sua devoção ao Cristianismo, ou ao menos, um prenúncio da sua conversão (que somente seria oficializada com seu batismo no leito de morte, em 337 D.C). Outros consideram que a expressão utilizada é propositadamente ambígua, de modo a não desagradar tanto os cristãos como os pagãos. Vale lembrar que as fontes relatam que, antes da Batalha da Ponte Mílvio, Constantino teria tido uma visão ou um sonho no qual uma cruz de luz apareceu no céu, acompanhada da inscrição “In hoc signus vinces” (“Neste sinal, vencerás”).
Este arco, um dos mais bem preservados entre todos os arco romanos sobreviventes, foi construído entre 114 e 117 D.C., comemorando as vitórias do imperador Trajano contra os Dácios (provavelmente também adicionando-se posteriormente elementos relativos às suas vitórias contra os Partas), e tem 15,60 m de altura por 8,60 de largura. Podemos considerá-lo um tipo intermediário entre o Arco de Tito e o Arco de Septímio Severo, tendo apenas um grande arco central com a fachada coberta de relevos, dos quais os mais interessantes são os que retratam o imperador distribuindo pães para crianças pequenas nos ombros dos seus pais, uma alusão ao programa dos Alimenta, instituído por Trajano em favor da população pobre da Itália.
Consta de sua inscrição dedicatória o seguinte texto:
“IMP(peratori) CAESARI DIVI NERVAE FILIO NERVAE TRAIANO OPTIMO AUG(usto) GERMANICO DACICO PONTIF(ici) MAX(imo) TRIB(unicia) POTEST(ate) XVIII IMP(eratori) VII CO(n)S(uli) VI P(atri) P(atriae) FORTISSIMO PRINCIPI SENATUS P(opulus) Q(uo) R(omanus)”.
(“Ao Imperador César filho do Divino Nerva, Nerva Trajano, o melhor Augusto, Germânico Dácico, Pontífice Máximo, no décimo oitavo ano de seu Poder Tribunício, sete vezes aclamado imperador, seis vezes escolhido Cônsul, Seis Vezes aclamado Pai da Pátria, Princípe mais forte, o Senado e Povo de Roma (dedicam este monumento”).
Este é um arco dedicado não apenas a um imperador, mas a um integrante da família imperial, Germânico, o sobrinho-neto de Augusto, que, ao adotar seu enteado Tibério, obrigou este, por sua vez a adotar o primeiro como herdeiro. O arco também é dedicado a este imperador e ao filho deste, Druso, mas estas inscrições encontram-se bem erodidas.
O Arco de Germânico foi construído na cidade de Saintes, França, então conhecida como Mediolanum Santonum, na Província da Gália Aquitânia, entre os anos 18 e 19 D.C, por iniciativa e às custas de um provincial importante, Caius Julius Rufus, e, originalmente, ficava no término da estrada que ligava Saintes a Lugdunum (atual Lyon), às margens do rio Charente. Mede 15 m de altura por 15,9 m de largura e possui dois arcos do mesmo tamanho, lado a lado.
Há uma inscrição dedicatória do monumento e outra inscrição alusiva ao financiador do monumento:
GERMANICO [CAESA]R[I] TI(berii) AUG(usti) F(ilio) DIVI AUG(usti) NEP(oti) DIVI IULI PRONEP(oti) [AUGU]RI FLAM(ini) AUGUST(ali) CO(n)S(uli) II IMP(eratori) II
(“A Germânico César, filho de Tibério Augusto, neto do divino Augusto, bisneto do divino Júlio, áugure, sacerdote dos augustais, Duas vezes Cônsul, aclamado imperador duas vezes“).
C(aius) IVLI[us] C(aii) IVLI(i) OTUANEUNI F(ilius) RVFVS C(aii) IVLI(i) GEDOMONIS NEPOS, EPOTSOVIRIDI PRON(epos) [SACERDOS ROMAE ET AUG]USTI [AD A]RAM QU[A]E EST AD CONFLUENT[E]M, PRAEFECTUS [FAB]RUM, D(at).
“(Dado por Caius Julius Rufus, filho de Caius Julius Otuaneunus, neto de Caius Julius Gedemonius, bisneto de Epotsovirid(i)us, sacerdote do Culto de Roma e Augusto no altar de Confluens, prefeito dos trabalhos)”.
Esta é uma inscrição muito interessante porque nela podemos ver uma expressão do processo de romanização da Gália iniciado com a conquista por Júlio César. O bisavô, Epotosvirid, é mencionado com seu nome unicamente gaulês, já o seu filho, provavelmente o primeiro integrante da família a receber a cidadania romana, e seus netos, assumem prenomes romanos e o “nomen” da gensJúlia, em homenagem ao conquistador da Gália, como era comum no Mundo Romano, ainda acompanhados de um gentílico gaulês. Já o bisneto, o doador do monumento, Gaius Julius Rufus é apresentado com os seus três nomes na forma tradicional romana (tri nomina) completamente romanizados. Era característico da colonização romana manter as lideranças locais que aderiam aos conquistadores na condição de magistrados governantes das cidades, por isso, a família de Rufus provavelmente já devia ser da nobreza gaulesa mesmo da Conquista da Gália por César, o que, implicitamente, é orgulhosamente afirmado pela menção ao bisavô. Observe-se que “Confluentem” refere-se à Lugdunum (Lyon), que fica na confluência dos rios Ródano e Saône.
Escolhemos este arco (que na verdade é um arco funerário), porque ele é um dos raríssimos arcos sobreviventes dedicados não a um imperador ou membro da família imperial, mas a integrantes de uma família da elite, no caso, da cidade de Pola (atual Pula, na Croácia), que foi elevada ao status de colônia entre 45 e 46 A.C., durante a ditadura de Júlio César. Com efeito, as inscrições existentes no arco contam que ele foi erguido às expensas de Sálvia Póstuma Sérgia, provavelmente esposa (ou mãe) de Lúcio Sérgio Lépido, filho de Lúcio, que foi Edil (magistrado da cidade) e Tribuno Militar da LegiãoXXIX, e que deve ter falecido na Batalha de Actium, em 31 A.C. Poucos anos depois, o imperador Augusto, em 27 A.C., dissolveu a XXIX Legião, dentro do seu projeto de manter apenas 28 legiões compondo o Exército Romano. Portanto, estudiosos estimam que o arco deve datar aproximadamente do ano da dissolução da referida legião. Além dos dois, o Arco dos Sérgios também ostenta inscrições em memória de Lúcio Sérgio e Cneu Sérgio, filhos de Caio Sérgio, sendo o primeiro o pai de Lúcio Sérgio Lépido, e o segundo, tio deste. As inscrições e as marcas existentes no topo do ático implicam que deveria haver estátuas dos quatro indivíduos mencionados dominando o monumento.
Devemos observar que é um fato muito raro a dedicação de um arco do triunfo a alguém que não fosse imperador ou seu familiar, entretanto, no início do reinado de Augusto, sabe-se que houve a construção de arcos dedicados a heróis militares caídos, sendo apontada a existência de um arco erigido em homenagem a Nero Cláudio Druso, morto em campanha contra os bárbaros em 9 A.C, na Germânia (em função da queda do cavalo). Druso era enteado de Augusto e irmão do seu futuro sucessor, Tibério. Neste mesmo ano, o Senado decretou a construção de um arco honorário em sua homenagem (o qual não chegou até os nossos dias). E, de fato, há elementos decorativos no Arco dos Sérgios que denotam que se trata de um monumento a um herói caído em uma batalha vitoriosa. Mais informações sobre este arco podem ser obtidas neste ótimo artigo na revista Histria Archeol., no link https://hrcak.srce.hr/file/390387.
As inscrições existentes no arco são:
Salvia Postuma Sergi (uxor) de sua pecunia
L(ucius) Sergius C(ai) f(ilius), aed(ilis), (duo) vir (L). L(ucius) Sergius L(uci) f(ilius) Lepidus, aed(ilis), tr(ibunus) mil(itum) leg(ionis) XXIX (M).T
Cn(aeus) Sergius C(ai) f(ilius), aed(ilis), (duo)vir quinq(uennalis) (N).
Salvia Postuma Sergi (uxor)
(Salvia Postuma Sérgia, esposa, com seu (próprio) dinheiro; Lúcio Sérgio, filho de Caio, edis, duúnviros; Lúcio Sérgio Lépido, filho de Lúcio, edis, tribuno militar da XXIX Legião; Cneu Sérgio, filho de Caio, edis, duúnviros quinquenais; Salvia Postuma Sérgia, esposa)
Um exemplo de arco do tipo “tetrapylon“, isto é com quatro arcos, um em cada fachada da estrutura quadrada sobre duas passagens em ângulos retos, o Arco de Septímio Severo, com 16 m de altura, foi construído por este imperador (193-211 D.C) em Leptis Magna, sua cidade natal na Província da África, que foi especialmente agraciada por ele com a construção de diversas obras públicas grandiosas. Acredita-se que o arco deve ter sido inaugurado por ocasião da visita que o imperador fez à cidade, em 203 D.C. O monumento comemora a vitória obtida contra os Partas, o que se infere de alguns relevos retratando estes inimigos, mas também homenageia a própria família real. Somente em 1928 o Arco de Septímio Severo foi escavado, em ruínas e com parte de seus relevos dispersos pela cidade, sendo reconstituído com o auxílio dos arqueólogos. Praticamente toda a inscrição dedicatória deste arco se perdeu, remanescendo apenas as palavras “divo” (divino), certamente referente ao próprio imperador Severo, e “diva” (divina), provavelmente alusiva à imperatriz Júlia Domna, esposa dele.
Trata-se de um arco do triunfo bem modesto, comparado com os outros de nossa relação, mas muito significativo, pelo motivo que explicaremos abaixo.
O Arco de Augusto foi erguido por Marcus Julius Cottius um líder de várias tribos ou povoados celto-lígures situados nos Alpes Cócios (assim batizados em razão do nome dele), na região do Piemonte, na atual província de Turim, no começo do reinado do imperador Augusto, no final do século I A.C, provavelmente por volta do ano 12 A.C. O Arco mede 11,93 m de altura por 7,3 m de largura.
A inscrição dedicatória do monumento relata:
“IMP · CAESARI · AVGVSTO · DIVI · F · PONTIFICI · MAXVMO · TRIBVNIC · POTESTATE · XV · IMP · XIII · M · IVLIVS · REGIS · DONNI · F · COTTIVS · PRAEFECTVS · CEIVITATIVM · QVAE · SVBSCRIPTAE · SVNT · SEGOVIORVM · SEGVSINORVM · BELACORVM · CATVRIGVM · MEDVLLORVM · TEBAVIORVM · ADANATIVM · SAVINCATIVM · ECDINIORVM · VEAMINIORVM · VENISAMORVM · IEMERIORUM · VESVBIANIORVM · QVADIATIVM · ET · CEIVITATES · QVAE · SVB · EO · PRAEFECTO · FVERVNT“
Eu considero que esta inscrição é que torna o Arco de Augusto tão interessante, uma vez que ela demonstra como foi demorada e complexa a assimilação das tribos alpinas pelo Estado Romano. Sabemos quo rei Donnus,, pai de Marcus Julius Cottius, que dedicou este arco, fez um acordo com Júlio César, para permitir a passagem das tropas dele para a Gália. A inscrição contida no Arco de Augusto corrobora que Marcus Julius Cottius continuou sendo a autoridade na região, agora convertido em governador (Praefectus) romano. Inclusive, o filho dele, Gaius Julius Donnus II, e seu neto, Marcus Julius Cottius II foram seus sucessores (o cargo de governador romano não era hereditário), sendo que a região continuou a ser referida como “Reino dos Cócios” pelos historiadores romanos. E, para consagrar a surpreendente condição autônoma que esta região setentrional da atual Itália, tão próxima de Roma, conseguiu conservar, vale mencionar que, efetivamente, Marcus Julius Cotius II teve restaurado o título de rei, detido por seu mencionado bisavô, durante o reinado do imperador Cláudio.
É, junto com o Arco dos Sérgios, um raríssimo exemplar sobrevivente de um arco que comemora uma família privada. Os Gávios eram uma família proeminente de Verona, provavelmente conectados a gensGavia, de Roma, que originalmente era de origem plebéia. Em algum momento durante a metade do século I D.C, algum membro da família dos Gávios comissionou a construção do Arco que leva o nome deles, em Verona, ou a Municipalidade o construiu em honra de quatro membros da família cujos nomes foram insculpidos no monumento, afinal, esta obra de fato obedece os 3 atributos que um edifício deveria possuir, segundo Vitrúvio: firmitas (força), utilitas (utilidade) e venustas (beleza)…
O Arco dos Gávios foi construído sobre a Via Postumia, estrada romana que ligava Gênova a Aquileia, passando por Verona, do lado de fora das muralhas da cidade, e mede 12,69 m de altura por 10,96 de largura.
O que torna tão interessante este arco é o fato de ser o único em que consta o nome do seu arquiteto: Lucius Vitruvius Cerdo, liberto de Lucius. Outro Vitrúvio, o célebre arquiteto romano Marcus Vitruvius Pollio escreveu o único tratado de arquitetura sobrevivente da Antiguidade (De architectura), entre 30 e 20 A.C., e é uma possibilidade instigante que Lucius Vitruvius Cerdo possa ter sido um liberto da família do grande arquiteto, que aprendeu com eles o ofício.
O Arco dos Gávios ostenta as seguintes inscrições sobreviventes:
CURATORES L[ARUM] V[ERONENSIUM IN HONOREM …] GAVI CA… DECURIONUM DECRETO.
(“Curadores dos L[ares] de V[erona] em honra…Gávios Ca… (Por) Decreto dos Decuriões”).
Nos pedestais dos nichos existentes no Arco, que originalmente continha estátuas dos homenageados, constam os nomes de quatro membros da família dos Gávios, sendo ainda legíveis os nomes de Caius Gavio Strabo e Marcus Gavio Macrone, filhos de Caius Gavio, e de Gavia, filha de Marcus Gavio.
A outra inscrição, já mencionada, menciona o arquiteto do monumento:
O Arco Triunfal de Orange foi construído provavelmente por ordem do imperador Augusto na cidade romana de Arausio (Colonia Julia Firma Secundanorum Arausio), fundada em 35 A.C para acomodar veteranos da Legião II Sabina, no lugar de um antigo povoado gaulês. Esta Legião teria sido recrutada por Pompeu, o Grande ou por Júlio César, e após o assassinato deste, lutou ao lado do Segundo Triunvirato, terminando por aderir à causa do herdeiro escolhido por César, seu sobrinho-neto Otaviano, o futuro imperador Augusto, que rebatizou-a como Legião II Augusta. Acredita-se que o Arco tenha sido erguido em meados do reinado de Augusto (27 A.C-14 D.C), e, posteriomente, sofrido uma remodelação no reinado de seu sucessor Tibério, em 27 D.C., provavelmente por ter sido danificado, embora não saibamos a causa. O Arco mede 19,22m de altura por 19,57 de largura, e por baixo dele passa a Via Agrippa, construída por Marco Vipsânio Agripa, braço-direito de Augusto, ligando várias cidades romanas da Gália, entre 39 A.C e 13 A.C (as estimativas variam).
Este monumento é caracterizado por elaborados relevos, retratando cenas de batalhas entre romanos e celtas e entre romanos e germanos, e troféus de armas e armaduras bárbaras, muito bem detalhados, obtidos pelos romanos nestes combates, além de elementos alusivos à batalhas navais. Os elementos relativos aos germânicos teriam sido acrescentados para homenagear as vitórias obtidas por Germânico, filho adotivo de Tibério, na Germânia, que morreu em 19 D.C., e os navais seriam originais da construção do monumento e fariam referência à Batalha de Actium, da qual teriam participado os veteranos da Legião II Augusta.
Somente a inscrição dedicatória do reparo ou reconstrução feitos por Tibério sobreviveu, e a mesma diz:
TI • CAESAR • DIVI • AVGVSTI • F • DIVI • IVLI • NEPOTI • AVGVSTO • PONTIFICI • MAXIPOTESTATE • XXVIII • IMPERATORI • IIX • COS • IIII • RESTITVIT • R • P • COLONIAE (or RESTITVTORI • COLONIAE)
(A Tibério César, filho do Divino Augusto, neto do Divino Júlio, Augusto, Pontífice Máximo, exercendo o Poder Tribunício pela vigésima oitava vez, aclamado Imperador pela oitava vez, em seu quarto consulado, que o restaurou ao patrimônio da Colônia”)
Finalmente, devemos mencionar que o leiaute deste arco possivelmente inspirou o do Arco de Septímio Severo.
O Teatro, em sua acepção como uma manifestação cultural envolvendo declamações de texto, interpretação de papéis e canções, execução de músicas e, às vezes, de danças coreografadas, normalmente seguindo um roteiro, realizadas em um espaço determinado (cena ou palco), frequentemente tendo como pano de fundo imagens pintadas, objetos e esculturas relacionados com a história contada, e performado na presença de espectadores, foi inventado na Grécia Antiga (embora manifestações semelhantes tenham surgido em outras regiões, como a Índia e a China).
“Importante observar, no entanto que a palavra grega “Theatron” não se refere à atividade artística em si, mas sim ao local onde ela era apresentada. Assim, teatro, em grego, significa “lugar de ver”. Portanto, a palavra teatro refere-se, especificamente, ao local onde os espectadores se sentavam, em arquibancadas geralmente escavadas, em formato semicircular, em uma encosta mais alta em relação ao espaço circular onde os artistas encenavam as tragédias gregas (chamado de “orchestra“, ou “orquestra”). Normalmente, atrás da orquestra, ficava uma parede onde se colocavam murais e objetos que ajudavam a contextualizar a ação que os artistas interpretavam, e que recebia o nome de skené, ou “cena”, de onde deriva a palavra “cenário”. E a parede da cena também servia para que os artistas se trocassem atrás dela, escondidos dos olhares do público. Mais tarde, com o aumento da complexidade das peças, os teatros gregos também passaram a ter um muro separando a orquestra da cena, que era chamado de “paraskenia“, normalmente decorado com imagens em relevo. Isso criou um espaço elevado elevado exatamente atrás da orquestra, que recebeu o nome de “proskenium” (proscênio, com o significado literal de “em frente à cena”). Esses, então, eram os componentes básicos da arquitetura de um teatro grego. Vale observar que havia construções similares, porém menores e geralmente fechadas, destinadas a recitais de poesia e exibições de canto ou de instrumentos musicais, chamadas de odeons””Importante observar, no entanto que a palavra grega “Theatron” não se refere à atividade artística em si, mas sim ao local onde ela era apresentada. Assim, teatro, em grego, significa “lugar de ver”. Portanto, a palavra teatro refere-se, especificamente, ao local onde os espectadores se sentavam, em arquibancadas geralmente escavadas, em formato semicircular, em uma encosta mais alta em relação ao espaço circular onde os artistas encenavam as tragédias gregas (chamado de “orchestra“, ou “orquestra”). Normalmente, atrás da orquestra, ficava uma parede onde se colocavam murais e objetos que ajudavam a contextualizar a ação que os artistas interpretavam, e que recebia o nome de skené, ou “cena”, de onde deriva a palavra “cenário”. E a parede da cena também servia para que os artistas se trocassem atrás dela, escondidos dos olhares do público. Mais tarde, com o aumento da complexidade das peças, os teatros gregos também passaram a ter um muro separando a orquestra da cena, que era chamado de “paraskenia“, normalmente decorado com imagens em relevo. Isso criou um espaço elevado elevado exatamente atrás da orquestra, que recebeu o nome de “proskenium” (proscênio, com o significado literal de “em frente à cena”). Esses, então, eram os componentes básicos da arquitetura de um teatro grego.
Vale observar que os gregos também erguiam construções similares, porém menores e geralmente fechadas, destinadas a recitais de poesia e exibições de canto ou de instrumentos musicais, chamadas de “odeons” (do grego, “aeido”, ou seja, canto, de onde surgiu a palavra “ode”).
Os Romanos, ao entrarem em contato com a cultura grega, introduziram o teatro ainda durante os primeiros séculos da República. Lívio Andrônico, um dramaturgo nascido em Tarento, cidade da chamada “Magna Grécia!, no sul da Itália, foi o maior expoente do teatro romano, no século III A.C. Nessa época, Plauto também destacou-se como autor de comédias, tendo algumas peças dele sobrevivido até os nossos dias.. E, já no Império, o filósofo Sêneca, o Jovem, escreveu várias tragédia, que influenciaram até mesmo dramaturgos europeus, como Shakespeare e Racine. Porém, ainda durante o Império, a popularidade de tragédias e comédias elaboradas diminuiu, e o público preferia assistir mimes (comédias burlescas escrachadas).
Após os Romanos conquistarem a maior parte da Grécia, durante os séculos II e I A.C, vários artistas e dramaturgos foram trazidos para Roma. Inicialmente, os teatros romanos eram de madeira e, de acordo com a lei romana, eles destinavam-se a serem estruturas temporárias, mas com o enriquecimento da República, surgiu a necessidade de edifícios permanentes, que foram construídos seguindo o modelo grego, mas adaptado a peculiaridades romanas.
A ausência de colinas com a topografia adequada para abrigar as arquibancadas na cidade de Roma, somada à maestria dos romanos em erguerem construções sobre arcos e à tecnologia do concreto romano permitiram que os engenheiros romanos preferissem construir os teatros romanos sobre uma estrutura apoiada em arcadas.
As arquibancadas, isto é, o setor semicircular elevado onde o público sentava em degraus, era chamado pelos romanos de “cavea“. O fato desta ser construída sobre arcadas favorecia que a cena (em latim, scaenae frons) fosse mais alta que nos teatros gregos, e formasse um espaço fechado com a cavea, resultando que os teatros romanos podiam ser inteiramente contidos dentro de um muro exterior contínuo. E essas são as duas principais características que distinguem os teatros romanos dos gregos, muito embora os romanos, algumas vezes continuassem construindo, quando o terreno permitia, arquibancadas apoiadas em encostas. O muro que separava a orquestra do palco, frequentemente decorado com elaborados relevos, era chamado de “pulpitum“. Era comum que os espectadores sentados na cavea fossem protegidos do sol inclemente por uma estrutura retrátil que estendia uma cobertura de tecido ou lona (velarium), que também era utilizada nos anfiteatros. Outra característica encontrada nos teatros romanos, compartilhada com os anfiteatros, possibilitada pela sua estrutura construída em alvenaria, era que o acesso dos espectadores poderia se dar pelo interior da mesma, com a entrada e saída da cavea por meio de passagens e aberturas, chamadas de “vomitoria“.
Dito isso, sem mais delongas, vamos àqueles que eu considero os templos romanos sobreviventes mais bem preservados e/ou impressionantes (OBS: trata-se de uma seleção discricionária minha, e a posição na lista não indica primazia. Aceitamos outras sugestões nos comentários).
1- Teatro de Aspendos (Aspendos, Turquia)
Considerado por muitos o teatro romano em melhor estado de conservação, o Teatro de Aspendos foi construído durante o reinado do imperador romano Marco Aurélio (161-180 D.C), e a sua construção foi providenciada pelos irmãos Curtius Crispinus e Curtius Auspicatus, que provavelmente deviam ser magistrados integrantes do conselho municipal. O seu arquiteto foi Zenão. Infelizmente, não sabemos mais detalhes sobre os personagens citados. A capacidade do teatro é estimada entre 7 mil e 13 mil espectadores. Parte da cavea repousa sobre uma colina, seguindo o estilo grego, mas toda a construção está dentro de muros de alvenaria, como é característico dos teatros romanos. Sobreviveram alguns orificios onde ficavam os postes para o velarium.
Na minha opinião, o Teatro de Amã disputa com o de Aspendos e o de Bosra o título de teatro romano melhor conservado. Durante o período romano, a cidade tinha o nome de Philadelphia. Ele foi construído durante o reinado do Imperador Antonino Pio (138-161 D.C), em nome de quem foi dedicado. Estima-se sua capacidade em 6 mil lugares. Este teatro foi construído seguindo o modelo grego, e toda a sua cavea assenta-se sobre a colina.
O Teatro de Bosra foi construído no século II D.C, provavelmente durante o reinado do imperador Trajano (98-117 D.C). Aliás, durante o reinado dele, a cidade recebeu o nome de Nova Traiana Bostra. Com capacidade estimada de 17 mil espectadores, é um dos maiores teatros construídos durante o Império Romano. Durante o período islâmico, o teatro foi convertido em uma fortaleza, razão pela qual o seu muro externo foi integrado e envolvido por muralhas e torres. No entanto, o primeiro andar da sua scaenae frons (com três andares) preserva quase que totalmente a colunata decorativa. Infelizmente, consta que o teatro sofreu alguns danos durante a Guerra Civil da Síria, ainda em andamento.
O Teatro de Orange foi construído durante o reinado do imperador Augusto (27 A.C – 14 D.C) e era um dos primeiros teatros romanos a serem construídos na província da Gália, quando a cidade era uma colônia romana de nome Arausio. Estima-se que a sua capacidade variava entre 5.800 e 7.300 espectadores. Vale notar que, em um nicho central em sua cena, uma estátua de Augusto sobreviveu até os nossos dias. O muro externo à cena é construído com uma bela estrutura de alvenaria, fato que levou o rei Luís XIV a considerá-la “O muro mais belo do meu Reino”. Note-se que esse muro preserva as bases onde os postes do velarium eram encravados.
Este teatro foi construído pelo Cônsul Marco Vipsânio Agripa, o braço-direito do imperador Augusto, em Emerita Augusta (atual Mérida), a capital da província da Lusitânia, entre os anos 15 e 15 A.C., mas foi renovado algumas vezes ainda durante o Império Romano. Abrigava cerca de 6 mil espectadores. É um dos teatros romanos sobreviventes cuja scaenae frons está mais bem preservada, com seus dois andares decorados com colunas.
Outro teatro cuja cena frontal está muito bem preservada, incluindo o terceiro andar. o Teatro de Sabratha provavelmente foi construído no período que compreende o reinado dos imperadores Cômodo (180-192 D.C) e Septímio Severo (193-211 D.C), época em que a província romana da África Proconsular desfrutou de sua maior prosperidade. Quando intacto, hospedava cerca de 5 mil espectadores. O pulpitum é um dos mais ricamente ornamentados e bem preservados dos teatros antigos que sobreviveram.
A antiga cidade de Hierapolis é contígua a Pamukkale, destino turístico turco famoso pelos seus terraços de travertino, em intrincadas formações naturais que formam piscinas de águas termais. Acredita-se que o seu teatro romano tenha sido construído durante o reinado do imperador Adriano (117-138 D.C), e ganhado uma grande restauração no reinado do imperador Septímio Severo. Abrigava cerca de 15 mil espectadores. Uma curiosidade é o fato de ser um dos únicos que apresenta, no meio de sua cavea, um camarote imperial em formato semicircular. Há indícios de que foi adaptado, já no período do Baixo Império Romano, para ser palco de espetáculos de caçadas (venationes).
A antiga cidade de Gerasa passou a fazer parte do Império Romano como resultado das campanhas de Pompeu, o Grande, em 63 A.C, inicialmente como uma das dez cidades helenísticas integrantes da chamada Decapolis. Durante os séculos I e II D.C, Gerasa experimentou grande prosperidade, o que lhe possibilitou abrigar três teatros. Os mais notáveis são os assim denominados “Teatro Sul” e “Teatro Norte”. O Teatro Sul começou a ser construído durante o reinado do imperador Domiciano (81-96 D.C) a quem foi dedicado pelo governador Lappius Maximus. Tinha a capacidade de 4.700 lugares. O primeiro andar da sua scaenae frons está bem restaurado, mas resta apenas um pequeno trecho do segundo andar. Já o Teatro Norte data do período entre 135-140 D.C, sendo ampliado no reinado dos imperadores Lúcio Vero e Marco Aurélio (161-169 D.C), quando ele foi remodelado para funcionar como um odeon, com capacidade para 1.600 espectadores. Este odeon foi utilizado até o século VI D.C.
Escolhemos o Teatro de Termessos principalmente pela sua localização fantástica. Termessos foi fundada pelos Pisídios, um povo que habitava a região da Pisídia, na Ásia Menor. A cidade foi construída a mais de 1.000 metros de altitude, encravada no meio de picos integrantes das Montanhas Taurus. Alexandre, o Grande tentou conquistá-la, sem sucesso, mas ela acabou se integrando aos reinos helenísticos que sucederam o conquistador macedônio. Mais tarde, Termessos se tornou aliada de Roma, que, em reconhecimento, concedeu-lhe o status de cidade autônoma. O Teatro de Termessos, em sua forma atual, deve ter sido construído por volta do século II D.C, tendo uma capacidade de 4 mil espectadores, que, das arquibancadas, podem apreciar uma vista maravilhosa da planície da Panfília, centenas de metros abaixo.
A cidade búlgara de Plovdiv teve uma história conturbada, sendo destruída e reconstruída várias vezes. Durante a Antiguidade Clássica, Plovdiv chamava-se Philippopolis, uma vez que foi fundada pelo rei Filipe II, da Macedônia, pai de Alexandre, o Grande, no lugar de um assentamento trácio. Com a derrota da Macedônia pelos Romanos, na Terceira Guerra Macedônica, Philippopolis tornou-se a capital da Província Romana da Trácia. As ruínas soterradas do teatro somente foram descobertas na década de 1970, devido a um deslizamento de terra. Um cuidadoso trabalho arquitetônico usando a técnica da anastilose (na qual utilizam-se todos os elementos originais encontrados, suprindo-se as lacunas com reproduções modernas de partes idênticas às antigas), transformou o Teatro de Plovdiv em um dos mais bem preservados. Estima-se que tinha a capacidade de cerca de 7 mil lugares e que foi construído durante o reinado do imperador Domiciano.
Mesmo após a introdução dos espetáculos teatrais em Roma, os teatros construídos para a sua encenação eram estruturas provisórias de madeira, ainda que elas pudessem acomodar milhares de espectadores. Porém, a construção de teatros permanentes dentro do Pomério (limites sagrados da cidade de Roma) era proibida, refletindo a controvérsia que havia no seio das elites em relação à importação de costumes gregos.
Foi somente em 55 A.C que Pompeu, o Grande inaugurou o primeiro teatro permanente construído em Roma, e que seria o modelo para os demais teatros construídos pelos romanos por todo o Império. Sabe-se que as peças encenadas foram “Clitemnestra“, escrita pelo poeta Ácio, e “O Cavalo de Tróia“, atribuída a Lívio Andrônico. O renomado ator trágico Clódio Esopo, que estava aposentado, foi chamado para atuar na inauguração.
O Teatro de Pompeu prenunciou a prática adotada por seus sucessores imediatos no poder supremo de Roma, Júlio César e Augusto, bem como os imperadores subsequentes, de erguer e dedicar obras monumentais na Cidade de Roma à glória de seu próprio nome. E de fato, podemos considerar que, quando ele começou a ser construído, em 61 A.C, nenhum edifício da Urbe podia ser comparado a ele em tamanho e magnificência. No alto e no centro da cavea foi construído um templo dedicado a Vênus Victrix, o que, inclusive, permitiu a Pompeu contornar a proibição legal acima citada. E o teatro fazia parte de um vasto complexo, estando conectado a um enorme quadripórtico, abrigando entre suas colunas, salas para a exibição dos troféus e obras de arte que Pompeu amealhara no Oriente Grego, o qual rodeava uma praça quadrada adornada por jardins. Na outra extremidade do quadripórtico, ficava um edifício construído para abrigar assembleias e reuniões políticas, denominado Cúria de Pompeu. Aliás, poucos anos depois da sua inauguração, a Cúria Hostília, o prédio do Senado Romano no Fórum Romano, foi incendiado nos tumultos que se seguiram ao assassinato do político demagogo Clódio. Então, o Senado passou a se reunir na Cúria de Pompeu e foi exatamente ali que, no ano de 44 A.C, Júlio César foi assassinado por seus adversários no Senado Romano, falecendo aos pés da estátua do próprio Pompeu, a quem havia derrotado anos antes.
A capacidade do Teatro de Pompeu foi estimada, ainda na Antiguidade, em 22.800 espectadores. A cavea, cujos bancos eram revestidos de mármore, apoiava-se em uma estrutura de concreto. Ao longo dos séculos, o Teatro de Pompeu sofreu incêndios e foi restaurado várias vezes. Após às Guerras Góticas, em meados do século VI, a população de Roma caiu consideravelmente, e o edifício foi abandonado, tornando-se fonte de materiais de construção e sendo transformado em fortaleza. Ao fim da Idade Média, o Teatro já se encontrava coberto por vários edifícios, entretanto, parte da forma semicircular do teatro foi preservada pela Via de Grottapinta e um conjunto de prédios erguidos nesta rua. O artista Piranesi, em meados do século XVIII ainda conseguiu retratar em uma gravura o que restava do Teatro, sob os edifícios.
Modelo do Teatro de Pompeu e seu complexo, com o Templo de Vênus Victrix em primeiro plano e, no extremo do quadripórtico, a Cúria de Pompeu. Foto: A derivative work of a 3D model by Lasha Tskhondia – L.VII.C., CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons
Gravura de Piranesi com os vestígios do Teatro de Pompeu
O vencedor de Pompeu na Guerra Civil do Primeiro Triunvirato, Caio Júlio César, era um notório entusiasta da cultura grega e, por diversas vezes, usa citações de peças gregas em seu discurso. Uma de suas mais famosas frases : “A sorte está lançada“, na verdade foi retirada de uma comédia do autor grego Menandro, chamada “Arrhephoros“.
Por isso, não surpreende o fato de que César também planejou erguer um teatro em Roma. O Ditador inclusive chegou a escolher e mandar limpar o terreno onde seria construído o seu teatro, mas os Idos de Março de 44 A.C vieram e ele foi assassinado antes que pudesse executar o seu projeto.
Augusto, o herdeiro e sucessor de César, resolveu dar andamento à construção do teatro planejado por seu pai adotivo e, no ano de 17 A.C., as obras estavam suficientemente avançadas para que os Jogos Seculares fossem celebrados no teatro, que foi completado em 13 A.C. No ano seguinte, o teatro foi dedicado a Marco Cláudio Marcelo, sobrinho e, inicialmente, o herdeiro escolhido por Augusto, que, infelizmente, havia morrido de doença em 23 A.C., ficando conhecido como “Teatro de Marcelo”.
O Teatro de Marcelo, segundo uma fonte do século IV D.C, tinha capacidade para 17.580 espectadores, sendo o segundo maior de Roma. Deixou de ser utilizado no século IV D.C, e, ainda durante o Império Romano, teve parte de seus blocos de construção retirados para serem utilizados em outros edifícios. Durante a Idade Média, residências foram construídas dentro e acima de suas estruturas e ele foi convertido em uma fortaleza. Graças a isso, parte de sua fachada sobreviveu, podendo se observar dois andares de arcadas, sendo que no primeiro andar, os arcos são separados por colunas dóricas, e, no segundo, por colunas jônicas (e provavelmente o terceiro, desaparecido, tinha colunas coríntias, como ocorre no Coliseu, construído posteriormente).
O Teatro de Marcelo, em 1º plano, na Maquete de E. Gismondi, no Museu da Civilização Romana, Roma. Foto Alessandro57, Public domain, via Wikimedia Commons
Em 13 A.C, o terceiro teatro permanente da cidade de Roma foi inaugurado por Lúcio Cornélio Balbo, o Jovem, um político e general de origem púnica que havia sido partidário de Júlio César na juventude e que exerceu vários cargos importantes durante os primeiros anos do reinado de Augusto. Balbo escreveu um livro e uma peça teatral, e provavelmente era entusiasta de teatro, erguendo o edifício com recursos próprios. No dia da inauguração, as fontes relatam que o rio Tibre transbordou devido a uma enchente e Balbo teve que entrar no teatro de barco. O Teatro de Balbo foi construído próximo ao Teatro de Pompeu e podia abrigar cerca de 8 mil espectadores, sendo que o Teatro de Marcelo também não estava longe. Com isso, a área do Campo de Marte converteu-se em um verdadeiro “Theater District”. Em 1561, alguns restos do teatro ainda podiam ser vistos e foram retratados por Giovanni da Sangallo em uma gravura.
Teatro de Balbo, reconstrução na maquete de Roma de E. Gismondi.
Templo (em latim templum) originalmente era o espaço consagrado ao culto de uma divindade, compreendendo não apenas o edifício (aedes) onde (quase sempre, pois havia divindades que não tinham uma imagem, como Vesta) era guardada a estátua do deus cultuado, mas também o terreno circundante, ou recinto, onde, geralmente na frente, ficava um altar para sacrifícios e outras cerimônias religiosas (alternativamente, a palavra fanum era utilizada como sinônimo de templum). Portanto, os edifícios que hoje chamamos de templos eram denominados, na maior parte dos textos antigos, “aedes” (havendo também as variações sacellum, termo que era mais específico para denominar santuários menores, semelhantes ao que seria uma pequena capela atual, e delubrum, também com este sentido).
Inicialmente, as evidências indicam que os Romanos não construíam edificações para adorarem os seus deuses, que, inclusive, não eram antropomorfizados. Assim, os primeiros templos surgiram em Roma a partir do contato com os Etruscos, e, provavelmente, durante o período em que estes controlaram a cidade.
Então, naturalmente, os primeiros templos romanos imitaram o estilo etrusco. Este estilo de templo era construído sobre um alto pódio (somente podendo ser acessado mediante uma escadaria frontal com muitos degraus) e encimado por um grande frontão triangular colocado acima do lintel, sendo este sustentado por colunas apenas na frente do edifício (pronaos ou pronau), geralmente bem à frente do edifício, espaçadas, lisas e com capitéis simples que deram origem ao estilo chamado de “toscano” (palavra que, aliás, deriva de “etrusco”). Os Etruscos e, por sua influência, os Romanos, nesses tempos, usavam frequentemente tijolos para fazer as paredes, madeira nas colunas, no lintel e nos telhados, e, ainda, terracota, esta sobretudo nos capitéis das colunas, nas estátuas e outros ornamentos (então, não se utilizavam blocos de pedra ou de mármore, como os egípcios e gregos). Tudo pintado em cores bem vivas. O interior (cella) em muitos casos era dividido em três compartimentos, refletindo a trindade Tinia, Uni e Menrva (Júpiter, Juno e Minerva, para os Romanos). Vale citar que por sua vez, os templos etruscos, assim como os romanos, posteriormente, absorveram muito do estilo grego.
O templo romano mais importante durante toda a sua História, e provavelmente o primeiro de tamanho considerável a ser construído na cidade de Roma foi o Templo deJupiter Optimus Maximus, ou também, Templo de Júpiter Capitolino, situado na colina do Capitólio, que, tendo sido dedicado em 509 A.C, ano da instituição da República em Roma, foi destruído e reconstruído diversas vezes. A sua primeira versão era claramente de influência etrusca, e, inclusive, ele foi construído e decorado por trabalhadores e artistas etruscos, incluindo o grande escultor Vulca de Veios.
Mais tarde, os Romanos entraram em contato mais próximo com as cidades fundadas pelos gregos no Sul da Itália, começando a absorver diretamente a cultura grega, principalmente em sua fase helenística, o que se acentuou mais ainda com a conquista da própria Grécia, a partir do século II A.C, o que, obviamente, se refletiu na arquitetura, inclusive dos templos. Porém, apesar de passarem a construir os templos no estilo da arquitetura clássica grega, adotando os estilos de suas colunas e estatuária, e, agora, usando com mais frequência o mármore, sobretudo como revestimento, os Romanos mantiveram algumas características marcantes do estilo herdado dos Etruscos, notadamente a construção do templo sobre um pódio elevado, o acesso por uma escadaria frontal única e a presença da colunata apenas na parte frontal, com, no máximo, meias colunas decorativas nas paredes laterais (os templos gregos eram quase sempre perípteros, ou seja, inteiramente rodeados de colunas, enquanto que os romanos típicos eram prostilos – com colunas apenas na frente, ou pseudoperípteros, isto é, com colunas na frente e meias colunas ou falsas colunas na lateral. E, nos gregos, o acesso se dava por alguns poucos degraus que rodeavam todo o edifício).
Finalmente, sobre os templos romanos, é bom observar que eles eram construídos de acordo com as necessidades rituais das religiões pagãs: as cerimônias e os rituais públicos ocorriam na parte de fora do templo, normalmente em torno de um altar ou ara que ficava na frente do templo. Os fiéis participavam das cerimônias no recinto, mas não entravam em seu interior. No interior do templo propriamente dito ficavam apenas a estátua da divindade, no espaço delimitado pelas paredes (cella), podendo haver outras câmaras ou antecâmaras em que ficavam guardados objetos do culto e/ou oferendas (muitas delas de grande valor intrínseco, motivo pelo qual às vezes os templos funcionavam também como tesouro do Estado), e aos quais somente tinham acesso os sacerdotes. Nesses dias de cerimônias ou festivais públicos, costumava-se abrir as portas do templo e os fiéis então podiam espiar de fora as estátuas dos deuses.
Dito isso, sem mais delongas, vamos àqueles que eu considero os templos romanos sobreviventes mais bem preservados e/ou impressionantes (trata-se de uma seleção discricionária minha, aceitamos sugestões nos comentários):
1- Maison Carré (Nîmes, antiga Nemausus, França)
Provavelmente, após o Pantheon, é o templo romano em melhor estado de conservação que sobreviveu até os nossos dias (isto porque a decoração e o piso do seu interior não foram preservados). Este templo foi dedicado, entre 4 e 7 D.C., a Caio César e Lúcio César, netos e herdeiros adotivos do imperador Augusto que morreram muito jovens, e servia ao culto ao imperador. O prédio foi convertido em igreja na Idade Média, começando a ser restaurado a partir do século XVIII. É um templo hexastilo (seis colunas na fachada) e pseudoperíptero.
Foto do Autor (2003)O autor em frente à Maison Carré (2003)
2- Templo de Augusto e Lívia (Vienne, antiga Vienna, França)
Outra joia romana preservada na França, o Templo de Augusto e Lívia provavelmente foi construído no início do reinado de Augusto, o primeiro imperador, que começou oficialmente em 27 A.C. Há indícios construtivos que denotam que, por volta do ano 40 D.C, houve a necessidade de reconstruí-lo parcialmente, usando-se novos materiais, por algum incidente ignorado, talvez um incêndio ou terremoto. Assim como a Maison Carré, suas colunas são no estilo coríntio, porém ao contrário do primeiro, elas contornam a cella até mais da metade da lateral do edifício, ao invés das meias-colunas existentes no primeiro. Também foi convertido em Igreja, e, brevemente, após a Revolução Francesa, em “Templo da Razão”. Depois disso, foi usado como câmara de comércio e biblioteca, tendo sido restaurado a partir de 1852. É outro templo hexastilo. .
Disputa com o Templo de Hércules Vencedor o título de templo romano mais antigo relativamente intacto ainda de pé . Foi originalmente erguido entre os séculos IV E III A.C., mas a estrutura atual data de cerca de 100 A.C. Situa-se na área do antigo Forum Boarium, que era antigo mercado de gado da cidade de Roma. Foi convenientemente dedicado ao deus Portunus, o deus dos cadeados, das portas e porteiras, do gado e das pontes (por associação), já que o mercado de gado ficava adjacente ao porto fluvial (Portus Tiberunus) e à ponte de pedra (Pons Aemilius) mais antigos de Roma.
É um pequeno templo, elegante e austero, sendo o único da nossa relação adornado com quatro colunas no estilo jônico, e as paredes laterais com meias-colunas no mesmo estilo. No ano 872 de nossa era foi convertido em igreja católica, devendo sua preservação a este fato. Por isso, seu interior é decorado com valiosos afrescos retratando a vida da Virgem Maria, que foram preservados após a desconsagração do edifício.
Como curiosidade, vale mencionar que, até não muito tempo atrás, este templo era conhecido como “Templo da Fortuna Primigênia”, pelo fato, equivocadamente interpretado, de sua fachada ostentar a inscrição “…ORTUN…”.
Country: Italy
Site: Temple of Portunus
Caption: Exterior from angle
Image Date: April 5, 2014
Photographer: Lisa Ackerman/World Monuments Fund
Provenance: Site Visit
Original: email from Lisa AckermanCountry: Italy
Site: Temple of Portunus
Caption: Side facade
Image Date: September 29, 2011
Photographer: Studio Paolo Soriani/World Monuments Fund
Provenance: Site Visit
Original: Sharefile from Alessandra Peruzzetto
4- Templo de Hercules Victor (Roma, Itália)
Outro sobrevivente da Roma Republicana, este templo redondo circundado de colunas coríntias segue o modelo grego (tipo denominado tholos). O Templo de Hercules Victor (ou Hércules Vencedor) também fica no antigo Forum Boarium (atualmente Piazza della Bocca della Veritá), quase ao lado do Templo de Portunus. Isto não é uma mera coincidência, pois os Romanos acreditavam que havia sido neste local que os bois vermelhos do gigante Gerião, capturados por Hércules após completar o seu décimo trabalho, foram roubados por outro gigante, Cacus. Acredita-se que este templo tenha sido construído em 146 A.C, pelo cônsul Lucius Mummius Achaicus, que conquistou e saqueou a rica cidade grega de Corinto. Em assim sendo, ele seria o templo romano mais antigo sobrevivente em boas condições. Por ser redondo, durante muito tempo acreditou-se erroneamente que ele seria um templo dedicado a Vesta, a quem foi dedicado um templo igualmente circular e situado no Fórum Romano.
Outro exemplar muito bem preservado é o Templo de Augusto, na cidade croata de Pula, que, após ser destruída durante a Guerra Civil do Segundo Triunvirato contra os assassinos de César, e refundada por Augusto com o nome de Colonia Pietas Iulia Pola Pollentia Herculanea, em cujo reinado o templo foi erguido, provavelmente após 2 A.C, data em que o Senado Romano conferiu-lhe o título de Pai da Pátria, que se encontrava afixado em letras de bronze na arquitrave. Originalmente fazia parte de um conjunto de três templos. É mais um templo que deve a sua preservação ao fato de ter sido convertido em igreja cristã.
Este templo foi encontrado em 1882, durante a demolição de um castelo medieval na cidade catalã de Vic, que na época do Império Romano tinha o nome de Auso e também era chamada de Vicus Ausonae (Vicus significa povoado ou bairro urbano, em latim, cuja corruptela acabou virando o nome da cidade). No século XI, o templo, feito de arenito, foi coberto pela estrutura do castelo, que também aproveitou como material fragmentos de colunas, capitéis e outros elementos decorativos. Após a sua descoberta, cidadãos proeminentes de Vic resolveram restaurar o templo, aproveitando o fato de que as fundações, as paredes norte e oeste e a maior parte da arquitrave estavam intactos. A única coluna e o único capitel sobreviventes foram utilizados como modelo para a reconstrução dos demais e reincorporados à estrutura, e, assim, o templo foi reconstituído ao que devia ser o seu aspecto original. Devido ao fato de ser uma reconstrução, ainda que utilizando grande quantidade de elementos autênticos, relutamos um pouco em incluí-lo nesta relação, mas resolvemos mantê-lo, afinal, em maior ou menor grau, todos os templos romanos aqui mencionados sofreram algum tipo de intervenção restauradora. O seu estilo, e os elementos encontrados durante a pesquisa arqueológica, sugerem que o templo data do início do século II D.C. A construção do Templo de Vic é muito semelhante a do Capitólio de Dougga, que veremos a seguir.
Dougga originalmente era um povoado númida, que depois foi controlado pelos Cartagineses, até ser conquistada pelos romanos. Após ser elevada à condição de cidade com direitos iguais às das cidades italianas e colônias romanas gozando de maior autonomia, ela recebeu o nome de Municipium Septimium Aurelium Liberum Thugga. O Capitólio de Dougga é um templo originalmente dedicado à chamada Tríade Capitolina: Jupiter Optimus Maximus, Juno e Minerva, o trio de divindades protetoras de Roma que integrava o culto oficial do Estado Romano e que desde o início eram cultuados no Templo de Júpiter Capitolino, que tinha três cellae separadas para cada uma delas. Com a expansão romana, inúmeras cidades espalhadas pelo Império construíram, em seus centros cívicos, templos similares cultuando a Tríade, chamados de Capitolium (pl. Capitolia). Uma inscrição dedicatória aos imperadores Marco Aurélio e Lúcio Vero indica que o templo deve ter sido construído entre 166 e 167 D.C. Assim como no Templo de Vic, as paredes do Capitólio foram erguidas utilizando-se a técnica conhecida como opus africanus, comum nas províncias romanas do Norte da África e que parece ter origem na arquitetura cartaginesa. Juntamente com os Templos de Portunus e de Pula, é um exemplo de templo tetrastilo (quatro colunas na fachada).
8- Templo de Baco (Baalbek, antiga Heliopolis, Líbano)
O Templo de Baco fazia parte de um colossal complexo religioso que compreendia vários templos erguido na antiga cidade de Heliopolis, na província romana da Síria-Fenícia, depois Síria-Coele. O complexo foi construído pelos romanos a partir do final do século I A.C/Início do Século I D.C, em um lugar onde já existia há bastante tempo um centro de culto a divindades solares semitas, como Baal. Durante o Império, a cidade recebeu o nome de Colonia Julia Augusta Felix Heliopolitana. A construção central do complexo era o Templo de Júpiter (88m x 44m x 44m), que disputa com o Templo de Vênus e Roma, em Roma (110m x 53m x 31m), o título de maior templo religioso pagão já construído pelos Romanos, porém dele somente restaram o enorme pódio e algumas colunas de pé. Já o Templo de Baco (66m x 35m x 31m) era o segundo maior do complexo (e, ainda assim, era um dos maiores dentre todos os templos romanos) e o mais bem conservado, ao menos nas laterais e nos fundos. Ele começou a ser construído no reinado do imperador Antonino Pio e provavelmente ficou pronto no reinado do imperador Septímio Severo. O interior da cella é decorado com elaborados relevos e esculturas, possuindo vários nichos. É octastilo (fachada com oito colunas) e o único exemplo de templo períptero da nossa relação.
Incluímos o Capitólio de Brescia nesta relação pelo fato de, apesar de estruturalmente ele estar bem menos preservado do que os demais, não obstante ele contém elementos de valor artístico e histórico inestimáveis. O Capitólio de Brescia foi construído no reinado do imperador Vespasiano, em 73 D.C, no lugar de um edifício religioso mais antigo da época republicana que possuía a cella dividida em quatro partes. Segundo os estudiosos, este templo republicano foi construído entre 89 A.C e 75 A.C, época em que a cidade foi reconhecida como “Civitas” (Município com mais autonomia e direitos civis para os cidadãos). Quando o Capitólio foi construído aproveitando o templo anterior como fundação, a parte mais baixa das paredes e o piso original deste foram preservados, tornando-se o único exemplo de decoração interna de um templo dos tempos da República Romana que sobreviveu. E o Capitólio de Brescia, em si, também teve partes importantes da sua estrutura e da sua decoração que chegaram até os nossos dias pelo fato dele ter sido soterrado por um deslizamento do morro Cidneo, que ficava atrás do edifício, tendo somente sido redescoberto em 1823. Os elementos arquitetônicos encontrados foram remontados, e o Capitólio de Brescia, em seu estado atual, permite distinguir a concepção arquitetônica e paisagística que nortearam a sua construção, contendo três cellae (cultuando a Tríade Capitolina: Júpiter, Juno e Minerva), colocando-o em posição destacada, em uma parte elevada da cidade e tendo o morro atrás, como moldura. Sobreviveram, ainda boa parte do piso original em mármore policrômico, assentado na técnica conhecida como “opus sectile“, e alguns mosaicos decorativos. Finalmente, também foi encontrada na escavação uma espetacular estátua de bronze de uma Vitória Alada, que provavelmente ficava no topo do frontão. É um templo octastilo e prostilo.
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Decoração do templo republicano
Mosaico no pavimento do Capitólio
Pavimento do Capitólio
Estátua da Vitória, Brescia, foto Giovanni Dall’Orto., Attribution, via Wikimedia Commons
10- Templo de Rômulo (Roma, Itália)
Este templo difere de todos os outros que relacionamos pelo fato da sua arquitetura já refletir o estilo do Baixo Império Romano, usando concreto na cúpula de sua rotunda, mas ainda com elementos decorativos clássicos, como colunas e arquitraves, retiradas de prédios mais antigos, dispostas em um formato côncavo. Sem dúvida, é um tipo diferente de todos os outros templos aqui exibidos. No entanto, há controvérsias sobre a real identidade do edifício. O mais aceito é que seria um templo dedicado a Valério Rômulo, filho do imperador Maxêncio, que morreu ainda adolescente em 309 D.C., sendo divinizado por ordem de seu pai. Os elementos que suportam essa tese são o fato de que toda a área foi objeto de construções e renovações por iniciativa de Maxêncio, como os vizinhos Basílica de Maxêncio e Templo de Vênus e Roma. Sobretudo, no local foram encontradas moedas de Maxêncio, inclusive um exemplar com a efígie do rapaz e os dizeres “Divino Rômulo N V Filho do Imperador Maxêncio” no anverso, e, no reverso, uma representação de um edifício com um domo, portas de bronze, quatro colunas, com nichos contendo estátuas entre elas e encimado por uma águia, circundada pelos dizeres: “eterna memória“, um desenho que corresponde exatamente à aparência do Templo. Em outra interpretação, derivada de uma menção do historiador antigo Sexto Aurélio Victor, acredita-se que o edifício seria o “Templum Sacrae Urbis” ou “Urbis Fanum“, que, segundo o relato, teria sido construído por Maxêncio em celebração à deusa Roma. Finalmente, para outros estudiosos, o prédio ocupou o lugar do anterior Templo dos Penates, mas, com o incêndio e demolição deste, foi construído para ser apenas um vestíbulo de entrada monumental da Via Sacra para o Fórum da Paz. De qualquer modo, um fato que nos levou a escolher este templo é porque é o único templo romano (além do Pantheon) que ainda tem a sua porta de bronze original, e funcionando perfeitamente, inclusive com a fechadura original! E, juntamente com o Pantheon, o Templo de Rômulo é o único que continua sendo usado para a mesma finalidade para o qual foi construído: local de culto religioso – uma vez que ele foi convertido, em 527 D.C, em Igreja Católica, durante o reinado de Teodorico, o Grande, rei dos Ostrogodos, a quem a cidade de Roma estava submetida, e que doou o prédio ao Papa, tornando-se, então, o vestíbulo da Basílica de São Cosme e São Damião, no Fórum Romano (que aproveitou outro prédio romano já conectado ao templo, que dava para o Fórum da Paz).
Qualquer relação de templos romanos existentes não pode deixar de mencionar o Pantheon (Panteão, em português). Em termos arquitetônicos, poucos edifícios tiveram tanta influência no mundo quanto ele. Com efeito, é um prédio que foi copiado em vários lugares do planeta e até hoje detém o recorde de ter a maior cúpula (domo) de concreto não reforçado do mundo, com o mesmo diâmetro da rotunda (43,3 metros, ou 150 pés romanos). Aliás, o Pantheon é uma maravilha de engenharia e arquitetura por si só, tanto pelo uso criativo do concreto romano, como por suas proporções perfeitas, sem falar no tamanho do prédio em si e na sua sobrevivência a inúmeros terremotos em quase dois mil anos. A rotunda tem o mesmo diâmetro que a altura do óculo (a abertura no topo do domo por onde entra a luz) até o chão, e assim, se o hemisfério que constitui a cúpula fosse uma esfera perfeita, ela caberia exatamente dentro do espaço interior do Pantheon ou dentro de um cubo perfeito, quase como se fosse uma representação do globo terrestre e da esfera celeste. Internamente, a superfície do domo é recortada por 5 fileiras de 28 quadrados escavados, Esses espaços, chamados de caixotões têm a função prática de aliviar o peso da estrutura do domo, mas não se pode deixar de observar que parecem corresponder aos 28 dias que correspondem ao ciclo lunar. Além disso, 28 é um número em que a soma dos fatores é igual ao próprio número (1+2+4+7+14=28) o que, de acordo com o matemático Pitágoras, expressava a harmonia mística com o Cosmos. Não há registro da existência de um prédio igual ou semelhante ao Pantheon antes ou depois na Arquitetura Romana, com uma cella circular e um pórtico clássico (octastilo) e, portanto, ele é um exemplar único. Curiosamente, este pórtico e a altura de suas colunas e do frontão constituem a única discrepância na perfeição de suas medidas: Originalmente, as colunas teriam 50 pés romanos de altura (14,8 metros), porém, dificuldades logísticas impediram o transporte de colunas desse tamanho (da pedreira de onde de fato vieram as colunas, no Egito) e, mais provavelmente, a colocação das mesmas no local pretendido (talvez devido a limitações dos guindastes), então, os construtores tiveram que usar colunas de 39 pés de altura (o contorno do frontão com a altura originalmente projetada permaneceu na fachada, na parede onde está anexado o pórtico definitivo, mostrando como este é mais baixo do que o planejado. Outras duas características marcantes do Pantheon são o fato dele ser o templo romano com a decoração interior mais bem preservada (e somente algumas residências em Pompéia e Herculano se comparam a ele neste quesito) e de possuir a a porta de bronze romana mais antiga ainda em funcionamento no edifício original. Cada metade da porta, de 4,45 m de altura, pesa 8,5 toneladas, e, mesmo assim, o seu balanceamento é tão perfeito, que, ainda hoje, podem ser abertas por apenas uma pessoa. O Pantheon foi construído no reinado do imperador Adriano, entre 118 e 128 D.C., no lugar de um templo do mesmo nome, erguido por Marco Vipsânio Agripa, no reinado de Augusto, e muitos acreditam, embora não haja prova disto, que ele foi projetado pelo grande arquiteto Apolodoro de Damasco, que concebeu muitos dos grandes projetos de Trajano, o antecessor de Adriano (Embora o significado do seu nome em grego seja “de todos os deuses”, nenhuma fonte antiga afirma que ele fosse de fato um templo onde todos os deuses eram adorados). Contudo, em sinal de modéstia, Adriano manteve a inscrição “M. AGRIPPA, L F COS TERTIUM FECIT” (“Construído por Marco Agripa, filho de Lúcio, Cônsul pela 3ª vez”) no lintel. O Pantheon deve a sua preservação ao fato de ter sido convertido em uma igreja católica em 609 D.C., continuando sendo até hoje a Igreja de Santa Maria e dos Mártires. Mesmo assim, ao longo dos séculos, ele foi despojado do revestimento de mármore das paredes exteriores da cella e de suas telhas de bronze.
CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=389746Interior do Pantheon. O piso (com algumas substituições que mantiveram o padrão original), o revestimento das paredes do 1º estágio, as colunas e os nichos são originais romanos. Algumas das edículas ou capelas, foram alteradas durante a Renascença, tendo suas colunas substituídas, mas no geral mantiveram a originalidade. Já o revestimento das paredes do 2º estágio foram alteradas no século XVIII, mas no lado direito superior da foto pode ser visto um pequeno trecho que foi restaurado no século XX para o padrão original romano. Foto: Macrons, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons
Decidimos criar uma nova categoria no blog, sobre os mais significativos exemplares da Arte e da Arquitetura Romanas, e nessa categoria, inauguramos a série “Os 10+“, começando pelos Anfiteatros Romanos.
Anfiteatro é uma palavra grega que significa “teatro com dois lados” ou “teatro de ambos os lados”, já que, basicamente, um teatro é um semicírculo ou uma meia-lua, e um anfiteatro é um círculo perfeito, ou uma elipse. Apesar disso, todos os anfiteatros antigos que sobreviveram são romanos, e, até onde eu sei, não se conhece nenhum de origem grega, o que dá a entender que de fato eles sejam uma invenção romana.
Os anfiteatros estão diretamente relacionados com os jogos de gladiadores e suas variações, como os espetáculos de caçadas ou lutas contra animais (inclusive como forma de execução de condenados) ou entre as próprias feras (venationes), e até mesmo de batalhas navais (pelo menos a arena do Coliseu podia ser preenchida com água para esse fim).
Segundo o historiador romano Tito Lívio, as lutas de gladiadores seriam um costume iniciado pela tribo dos Campânios, que fazia parte do povo Osco, da região da Campânia. Já para os historiadores modernos, elas seriam um costume fúnebre etrusco. O anfiteatro mais antigo sobrevivente e provavelmente o primeiro a ser construído em pedra é o Anfiteatro de Pompéia. Considerando que Pompéia foi fundada pelos Oscos, e, posteriormente, dominada pelos Etruscos, qualquer que seja a verdadeira origem dos jogos, isto provavelmente explica o fato dela ter sido a primeira cidade que construiu um anfiteatro.
Sem mais delongas, vamos àqueles que eu considero os anfiteatros romanos sobreviventes mais bem preservados e/ou impressionantes:
1- Anfiteatro de Nîmes (antiga Nemausus, França)
O mais bem preservado do mundo, na minha opinião, sua capacidade original era de 20 mil espectadores, construído no início do reinado de Trajano (por volta de 100 D.C). Ainda é utilizado para uma série de espetáculos, incluindo touradas. Tive a oportunidade de visitá-lo em 2003 e recomendo a visita para todos.
2- Anfiteatro de El-Djem (antiga Thysdrus, Tunísia)
O Anfiteatro de El-Djem, que é claramente inspirado no Coliseu, dependendo das fontes, seria o terceiro maior do Império Romano e foi construído por volta de 238 D.C, talvez pelo governador da Província, Gordiano, pouco antes dele ser aclamado imperador. Mas, talvez o mais impressionante quanto a este anfiteatro é a comparação do seu tamanho com o da cidade onde foi construído. Sua capacidade estimada é de 35 mil espectadores, enquanto que El-Djem tem somente 21 mil habitantes. E sabemos que a cidade não era maior do que isso na época do Império Romano. Então, ele só devia ficar cheio em grandes eventos, que provavelmente atraíam aficionados de toda a Província da África e além.
O Anfiteatro de Verona é certamente o mais bem preservado da Itália, e que, assim como os Anfiteatros de Nîmes e de Arles, continua a ser utilizado para espetáculos. É um dos mais antigos existentes, datando de 30 D.C, sendo precedido pelo de Pompéia. Sua capacidade estimada na Antiguidade era de 30 mil lugares. Apesar de seu estado excepcional, ele perdeu o anel externo durante um terremoto no século XII, e por isso, perde para o de Nîmes neste quesito.
É o anfiteatro mais antigo existente, construído em 70 A.C., e é bem possível que ele seja o primeiro anfiteatro de pedra da História (anteriormente os anfiteatros romanos eram construídos de madeira). Como todos os anfiteatros romanos, tinha um setor separado para os cidadãos das classes superiores, mais próximo da arena. Como curiosidade, o historiador romano Tácito relata que, devido a uma briga entre os espectadores que se alastrou pelas ruas da cidade deixando vítimas fatais, envolvendo os moradores locais e os oriundos da cidade vizinha de Nuceria, o imperador Nero, como punição, proibiu durante dez anos a realização de jogos de gladiadores no Anfiteatro (Anais, XIV, 17). O relato é confirmado por um afresco encontrado em Pompéia, retratando exatamente este conflito, mas quando a erupção do Vesúvio ocorreu, em 79 D.C., esse prazo já tinha expirado e várias armas e armaduras de gladiadores foram encontrados nas escavações. Aliás, nessa pintura, é possível ver que o Anfiteatro de Pompéia, assim como o Coliseu e muitos outros de seus congêneres, possuía uma cobertura retrátil de algum tipo de tecido ou de lona, chamada de “velarium“. Sua capacidade estimada situa-se entre 12 e 20 mil lugares (ou seja, acomodaria toda a população provável da cidade). Foi palco de um célebre show da banda Pink Floyd.
5- Anfiteatro de Cápua (atual Santa Maria Capua Vetere), Itália
Este anfiteatro não está bem preservado, mas vale ser mencionado porque, além de ser o segundo maior do Império Romano, em capacidade, acredita-se que ele tenha servido de modelo para o maior e mais famoso anfiteatro de todos, o Coliseu. Além disso, alguns especialistas acreditam que ele seria mais antigo que o de Pompéia, pois teria sido construído em 100 A.C. Mas uma inscrição existente no anfiteatro parece indicar que ele foi construído quando Cápua já tinha o nome de Colonia Julia Felix Augusta Capua, o que só poderia ter ocorrido a partir de 27 A.C. De qualquer modo, mesmo antes disso, Cápua já era afamada como um centro de organização de jogos de gladiadores e escolas de treinamento. Inclusive, o mais famoso gladiador de todos os tempos, Spartacus, treinava e lutava em Cápua, na companhia de gladiadores de propriedade do lanista Lentulus Batiatus. Estima-se que tinha uma capacidade de 45 mil espectadores, embora haja quem calcule que coubessem 60 mil.
Outro anfiteatro que está bem preservado e ainda é utilizado para touradas e outros espetáculos. Construído em 90 D.C., após a Queda do Império Romano o anfiteatro foi utilizado como fortaleza, tendo-lhe sido incorporadas quatro torres medievais, três das quais ainda persistem, sendo este o motivo principal da sua sobrevivência. Tinha capacidade original para 20 mil espectadores.
Embora apenas um pequeno trecho das suas arquibancadas tenha sobrevivido, o Anfiteatro de Pula possui uma das fachadas mais bem preservadas, com a parede exterior completa, incluindo, desde a sua construção, uma característica incomum: quatro projeções externas em formato de torres. Foi construído no reinado do imperador Vespasiano, substituindo dois anfiteatros anteriores, o primeiro de madeira, datado do reinado de Augusto. Originalmente, ele tinha cerca de 22 mil lugares e hoje hospeda shows e concertos musicais.
8- Anfiteatro de Pozzuoli (antiga Puteoli, Itália)
É o terceiro maior anfiteatro da Itália, e, talvez, de todo o Império Romano (disputa esta posição com o de El-Djem, uma vez que as estimativas variam), abrigando talvez até 50 mil espectadores. Situava-se no entroncamento de estradas que levavam a Puteoli vindas de Cápua, Nápoles e Cumas, o que demonstra que a região da Campânia era mesmo um polo irradiador e atrativo de espetáculos de gladiadores. Foi construído no reinado do imperador Vespasiano (quando, tudo indica, houve uma febre de construção de anfiteatros, provavelmente estimulada pela construção do Coliseu, iniciada no reinado dele) e por isso recebeu o nome de Anfiteatro Flaviano. Ainda possui, em bom estado de conservação, os corredores subterrâneos e as aberturas por onde as gaiolas com os animais eram içadas até a arena. Segundo a tradição cristã, em 305 D.C,. os mártires cristãos São Próculo e São Januário foram condenados a serem executados neste anfiteatro, mas como os animais não os atacaram, eles acabaram sendo decapitados em uma localidade próxima.
9- Anfiteatro de Mérida (antiga Emerita Augusta, Espanha)
Não é o maior da Espanha (certamente o de Córdoba e o de Itálica eram maiores) e, em termos de preservação, equivale ao de Itálica, porém escolhemos o Anfiteatro de Mérida pelo fato dele ser datado de 8 A.C, e portanto, ele é um dos mais antigos e provavelmente um dos primeiros construídos pelos romanos fora da Itália. Sua capacidade era de 15 mil espectadores.
Escolhemos o Anfiteatro de Uthina pelo seu bom estado de conservação. É um bom exemplo dos inúmeros anfiteatros espalhados pelas províncias romanas do Norte da África, o que demonstra a sua prosperidade durante o Império. Como a maior parte dos anfiteatros africanos, o de Uthina foi parcialmente escavado no solo e os degraus apoiados na encosta da elevação existente no local. Tinha cerca de 16 mil lugares e foi construído no reinado do imperador Adriano.
A epítome de todas as arenas romanas, frequentemente os historiadores romanos referiam-se ao Coliseu apenas como: “O Anfiteatro” e, obviamente, os seus leitores saberiam imediatamente que eles estavam se referindo ao Anfiteatro Flavio, de Roma (acredita-se que este era o seu nome oficial, embora isto não conste de nenhuma inscrição ou texto antigo), pois a sua construção começou em 72 D.C, no início do reinado do imperador Vespasiano (Tito Flávio Vespasiano), ficando pronto em 80 D.C, no reinado de seu filho, Tito.
O autor, no Coliseu, no ano 2000.
O apelido “Coliseu”, do latim Colosseum, decorre, sim, de um objeto de tamanho monumental, mas não o do próprio anfiteatro, como muitos podem pensar, e sim de uma enorme estátua do imperador Nero, de mais de 30 metros de altura (ou seja, quase do tamanho do Cristo Redentor) ao lado da qual ele foi construído. Provavelmente, a plebe romana passou a dizer que ia assistir as lutas no “anfiteatro do Colosso” e o nome pegou.
Aliás, o local onde o Coliseu foi construído era ocupado antes pelo também colossal palácio construído por Nero, chamado de Domus Aurea. Inclusive, o enorme lago artificial que havia, margeado por colunatas e aposentos, e alimentado pelo aqueduto de Cláudio (Acqua Claudia), foi drenado, e a infraestrutura hidráulica aproveitada para possibilitar uma das características mais incríveis do Anfiteatro: a sua capacidade de sua arena ser enchida com água, transformando-o em uma “Naumaquia“, em que batalhas navais eram simuladas. A escolha do local certamente foi um gesto político de Vespasiano, em que ele devolvia ao povo a área que havia sido apropriada por Nero para o seu prazer pessoal, e os recursos vieram do saque à cidade e ao Templo de Jerusalém, ocorrido em 70 D.C.
A capacidade do Coliseu é estimada entre 55 mil e 70 mil espectadores, alguns falando em 80 mil lugares. As 80 entradas em arco (sendo quatro maiores: uma exclusiva para o imperador e outras três para senadores e outros figurões), as escadarias e os setores eram numerados, assim como em um estádio moderno. O acesso e a saída das arquibancadas se dava, como nos estádios modernos, por túneis e aberturas chamados de vomitórios (vomitoria), e estudos mostram que o Anfiteatro poderia ser esvaziado em poucos minutos, graças ao primoroso projeto arquitetônico. Finalmente, havia um elaborado sistema de cobertura retrátil, o velarium, tão complexo e de fato semelhante aos cabos e velas de um navio, que tinha que ser manejado pelos marinheiros da Frota Imperial de Misenum.
Foto Wikicomons, domínio público
O Coliseu espelhava a estratificação vertical da sociedade romana, pois os lugares eram acessíveis de acordo com a classe social dos espectadores: O Imperador tinha seu camarote exclusivo, os senadores ocupavam os bancos mais próximos da arena (inclusive há vestígios de inscrições contendo nomes individuais de alguns senadores, como se fossem lugares cativos), vindo depois os Equestres, os cidadãos romanos plebeus livres, esses divididos entre ricos e pobres, e, por último, mulheres e escravos.
A fachada do Coliseu, assim como boa parte de todo seu revestimento exterior e interior é de mármore travertino (100 mil m³!), mas a sua estrutura é também em parte feita do resistente concreto romano e de tijolos. Esta fachada é de grande rigor arquitetônico clássico, pois os três andares são decorados por arcos emoldurados por meias-colunas, sendo os capitéis do estilo dórico, no primeiro (onde estão as entradas), jônico, no segundo e coríntio no terceiro. Embaixo de cada um dos arcos do segundo e terceiro andares havia uma estátua, provavelmente de divindades.
Embaixo da arena, havia um imenso labirinto de corredores e de celas para feras, e onde também havia guindastes para içamento de jaulas, constituindo um espaço subterrâneo que era chamado de “Hipogeu” (palavra grega que tem exatamente este significado). Vale citar que o Hipogeu foi construído mais tarde, durante o reinado de Domiciano, e, com isso, o Coliseu não pôde mais ser inundado, perdendo a sua breve funcionalidade como Naumaquia.
Segundo o historiador Cássio Dião, nos jogos inaugurais do Coliseu, em 80 D.C, foram mortos 9 mil animais e um número desconhecido de gladiadores. As lutas de gladiadores foram proibidas pela primeira vez pelo Imperador Romano do Ocidente, o cristão Honório, em 399 D.C, mas há registros de que elas voltaram a ser travadas e, no Coliseu, somente cessaram de vez em 435 D.C. E mesmo após a Queda do Império Romano do Ocidente, em 476 D.C, espetáculos de caçadas e lutas de animas (venationes) continuaram a serem organizados ali pelo menos até 523 D.C.