DURA-EUROPOS – A POMPÉIA DO DESERTO

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(A Porta Palmirena, o principal portão de entrada de Dura-Europos, na Muralha Oeste da cidade)

Um dos sítios arqueológicos mais fascinantes do antigo Império Romano provavelmente nunca mais poderá ser visitado, pelo menos como era até bem pouco tempo atrás.

A cidade de Dura-Europos, na margem direita do Rio Eufrates, na atual Síria, situa-se próximo à fronteira oriental deste país com o Iraque, área que se encontra dentro da antiga Mesopotâmia. Mas, infelizmente, o lugar esteve no centro do território controlado pelo Estado Islâmico (ISIS ou DAESH), que durante três anos, sistematicamente pilhou e destruiu o sítio arqueológico.

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Ninguém sabe ainda o quanto foi saqueado e quais ou quantos tesouros podem ter desaparecido para sempre. Com base em imagens de satélite, estima-se que 70% do sítio arqueológico teria sido destruído pelos fundamentalistas (vide https://www.npr.org/sections/parallels/2015/03/10/392077801/via-satellite-tracking-the-plunder-of-middle-east-cultural-history).

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(Foto mostrando a extensão dos danos, com a cidade completamente escavada pelo ISIS, extraída do site da Universidade de Oxford,  satellite image © DigitalGlobe. Taken on 25/12/15)

Origem e período selêucida

 Dura-Europos foi fundada em 303 A.C. por Seleuco I Nicator, um general macedônio que, após a morte de Alexandre, o Grande, foi nomeado sátrapa (governador) da Babilônia. Após a guerra civil travada entre os generais que reivindicavam suceder o falecido rei (os chamados Diádocos), Seleuco autoproclamou-se rei da maior parte do território conquistado por Alexandre na Ásia, que incluía o que hoje é a Turquia, a Síria, o Iraque, o Irã, e partes do Afeganistão e do Paquistão, assim fundando o Império Selêucida.

A cidade foi construída segundo o modelo ortogonal das cidades helenísticas, seguindo a planta chamada de hipodâmica (porque idealizada pelo arquiteto grego e precursor do urbanismo, Hipódamo de Mileto).

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( Imagem do plano urbano de Dura-Europos )

O motivo principal da fundação de Dura-Europos foi estratégico, pois o local onde ela foi construída era o ponto de cruzamento fluvial da rota comercial leste-oeste que ligava as recém-fundadas cidades selêucidas de  Antióquia e Selêucia do Tigre, sendo também um ponto de passagem da rota norte-sul ao longo do rio Eufrates.  Ademais, o local era ideal para a construção de uma cidade fortificada: um promontório bem elevado em três lados, um deles dando para o rio, possibilitando que o único lado aberto fosse facilmente fechado por uma muralha (que seria construída décadas mais tarde). Por isso, a cidade ficou conhecida, na língua semítica dos habitantes nativos locais, como “Dura“, que  vem da palavra “duru” (fortaleza, em aramaico), embora o seu nome oficial grego fosse Europos, um nome provavelmente dado em homenagem à cidade de nascimento do seu fundador, Seleuco I, na Macedônia, que também se chamava Europos. (O nome composto “Dura-Europos”, pelo qual a cidade hoje é conhecida, só começou a ser empregado bem mais tarde).

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(Na foto acima é possível notar a posição privilegiada da cidade, dominando o rio Eufrates, somente sendo acessível pelo lado oposto ao rio, que foi  fechado pela muralha).

Com o colapso do Império Selêucida, sobretudo devido às seguidas derrotas sofridas contra a República Romana, Dura-Europos foi conquistada, em 113 A.C. pelo Império Parta, que em sua essência era uma coalizão de tribos iranianas chefiadas pela dinastia dos Arsácidas que recuperou a maior parte das terras do antigo Império Persa, conquistadas pela dinastia dos Aquemênidas.

Período Arsácida (Parta)

Em Dura-Europos, o período dos Arsácidas caracterizou-se por um certo compromisso d do Império com as elites de origem grega que governavam as cidades que pontilhavam a Anatólia e a Síria, inclusive as fundadas pelos Selêucidas, como foi o caso da cidade (Aliás, diga-se de passagem, o próprio Império Parta adquiriu apreciável grau de helenização). Por outro lado, estando a cidade inserida em uma região de fronteira entre o mundo helenístico e o mesopotâmico, de substrato étnico majoritariamente semita e babilônio, mas que estava sujeita a um império dominado por iranianos, não surpreende que, ao longo dos anos, a sua população fosse composta por vários grupos étnicos e que a sua cultura tivesse se tornado altamente sincrética.

No decorrer desse período, nota-se que a função estratégica militar de Dura-Europos perdeu importância. E, talvez por isso, durante o governo parta, a cidade virou uma espécie de centro administrativo e comercial da região próxima, prosperando bastante.

Entretanto, como resultado das campanhas do expansionista imperador romano Trajano, que declarou guerra ao Império Parta sob o pretexto de coibir a interferência dele na Armênia, e também,  provavelmente visando a glória militar e, ainda, eliminar o controle parta sobre o fluxo da Rota da Seda para o Império Romano, Dura-Europos foi conquistada pelos romanos, em 113 D.C.

Todavia, com a morte de Trajano, em 117 D.C., o seu sucessor, Adriano, resolveu abrir mão da recém-conquistada Província da Mesopotâmia, seguindo o seu pensamento estratégico de manter fronteiras melhor defensáveis, e a cidade, então, foi reocupada pelos Partas.

Com o passar dos anos, porém, no final do reinado do imperador romano Antonino Pio, o Império Parta, governado pelo rei Vologeso IV, voltou a intervir nos assuntos da Armênia. Assim, em 161 D.C., logo após a morte de Pio, que foi sucedido por Marco Aurélio Vologeso invadiu o referido reino-cliente de Roma, depondo o rei que era simpático aos romanos e instalando Pacorus, um parente, no trono. Isso marcou o início da Guerra Romano-parta de 161-166 D.C..

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(moeda parta com a efígie de Vologeso IV)

Em 165 D.C., após vários sucessos ao longo dos dois anos anteriores, os romanos capturaram Dura-Europos, comandados pelo grande general Avídio Cássio (Nota: Avídio era tataraneto de Júlia Lépida, que por sua vez, era tataraneta de Júlia, a Jovem, sendo ele, assim, descendente direto do imperador Augusto, pai da última). Em seguida, o Avídio Cássio logrou saquear e incendiar a capital parta, Ctesifonte.

Essa guerra terminou no ano seguinte, com a vitória romana, embora o exército romano tenha sido obrigado a voltar para o território romano em virtude da terrível epidemia que ficaria conhecida como Peste Antonina. Como resultado da vitória, a fronteira romana da Síria avançou mais quase 250 km na direção sul do rio Eufrates, parando em Dura-Europos.

Começava, assim, o período da dominação romana em Dura-Europos.

Período Romano

O Império Romano, como anteriormente procedera em relação a maior parte das cidades de cultura grega conquistadas, permitiu que os magistrados civis da cidade mantivessem certo grau de autonomia. Assim, a elite grega da cidade manteve o seu status, ainda que, agora, a autoridade sobre questões relativas à segurança e ordem pública provavelmente coubesse, em última instância, ao comandante militar romano.

Com a chegada do Exército Romano, Dura-Europos acrescentou novos elementos ao  fascinante  e variado cadinho étnico-cultural que habitava um perímetro tão pequeno. De fato, estima-se que a população da cidade, então, seria de aproximadamente cinco mil habitantes. Os indícios até agora encontrados apontam que, integrando as tropas romanas, ou acompanhando as mesmas, chegaram os judeus e os cristãos.

Com efeito, sendo uma cidade pequena, mesmo para os padrões da Antiguidade, é impressionante que, na época do período romano, fossem faladas oito línguas diferentes em Dura-Europos (grego, latim, pahlavi, persa médio, aramaico, safaitico, siríaco e palmireno), existindo na cidade dez santuários pagãos de divindades de diferentes povos (Artemis Nanaïa, Zeus Megistos Artemis Azzanathkona, Zeus Kyrios, Atargatis, Bel, Aphlad, Zeus Theos, Gad, Adonis e Mitra), além de uma sinagoga e de uma igreja cristã, conforme os vestígios arqueológicos revelaram,  todos aparentemente coexistindo em harmonia. A arquitetura e as obras de arte existentes na cidade também demonstram esse sincretismo, misturando elementos ocidentais e orientais. (cf.https://www.researchgate.net/publicatio/326929394_Dura_Europos_a_Greek_Town_of_the_Parthian_Empire_in_T_Kaizer_ed_Religion_Society_and_Culture_at_Dura-Europos_YCS_38_2016_Cambridge_University_Press_pp_16-29. e https://archive.archaeology.org/online/features/dura_europos/ )

No reinado do imperador Septímio Severo, que infligiu aos Partas nova derrota e dessa vez ainda mais esmagadora, os romanos estabeleceram uma guarnição militar permanente na cidade, destacando-se uma coorte de arqueiros originários da cidade síria de Palmira, a Cohors XX Palmyrenorum (cidade que, embora nominalmente fizesse parte do Império Romano, gozava de alto grau de autonomia) e também soldados da Cohors II Ulpia Equitata, e para isso foi necessário instalar, em 209 D.C., um quartel, ocupando alguns quarteirões do canto norte da cidade, que, transformados em distrito militar,  foram separados por um muro. Dentro dos muros do quartel, além das barracas dos soldados, a maioria utilizando residências convertidas, ficava o palácio do comandante (Dux Ripae). E com a presença dos soldados, a cidade ganhou também um pequeno anfiteatro.

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(Afresco do templo que ficava dentro do quartel da Cohors XX Palmyrenorum, em Dura-Europos, mostrando os soldados da unidade, capitaneados por seu comandante, Julius Terentius, participando de uma cerimônia religiosa).

Ainda, com a vitória de Severo na última guerra romano-pártica, a fronteira romano desceu mais 160 km na direção sul do Eufrates, abaixo de Dura-Europos, parando na cidade de Kifrin.

Severo,  com o objetivo de limitar o poder dos governadores da Síria, que em décadas passadas tinha sido a origem de vários pretendentes ao trono, resolveu dividir a província, destacando dela a nova província da Síria-Coele, da qual Dura-Europos passou a fazer parte.

Em 211 D.C., Septímio Severo concedeu a Dura-Europos o status de Colônia, o que conferia aos seus habitantes livres a cidadania romana e o acesso a vários privilégios, incluindo isenções de tributos.

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Uma fortaleza romana contra a Pérsia Sassânida

Apesar dos séculos de guerra e várias vitórias (e derrotas), contudo, não seriam os romanos quem dariam o golpe final no Império Parta…

Em 224 D.C., Ardashir (ou Artaxerxes), que havia substituído Papak como rei dos Persas (os quais então eram súditos dos Arsácidas), aproveitou-se dos conflitos internos entre os Partas e iniciou uma revolta contra os Arsácidas, incorporando ou recebendo a adesão de outros governantes vassalos, terminando por derrotar o último rei parta, Artabanes, na Batalha de Hormozdgan. Dois anos depois, em 226 D.C., Ardashir I foi coroado Rei dos Reis (Shahanshah em persa), em Ctesifonte, fundando o Império Sassânida (assim chamado porque Ardashir era neto de Sasan).

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(Relevo em Naqsh Rajab, Irã, mostrando Ardashir I recebendo o anel real do deus Ahura-Mazda, foto de Sahand Ace)

Um dos motivos para o sucesso dos Sassânidas foi a insatisfação dos nobres do Império Parta com as seguidas derrotas militares sofridas pelas Arsácidas contra o Império Romano, e eles aparentemente ansiavam pela volta dos tempos gloriosos do Império Persa da época dos Aquemênidas, quando foram governados pelos grandes reis Ciro e Dario.

A orientação nacionalista e o desejo de restaurar as fronteiras do antigo Império Persa obviamente só podia levar ao confronto com Roma e Ardashir I logo tomou a iniciativa, em 230 D.C.,  sitiando a estratégica cidade de Nísibis (Nusaybin), uma praça-forte que havia sido recapturada pelos romanos no século anterior.

Somente a muito custo o imperador Severo Alexandre conseguiu repelir a invasão de Ardashir I.  Embora, no final, os persas tenham sido contidos, o exército romano sofreu algumas derrotas e houve vários motins, onde as tropas mostraram  extraordinária falta de disciplina.

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(Busto do Imperador Severo Alexandre)

Para piorar a situação, em concomitância com a ressurgimento de um inimigo poderoso no Oriente, o Império Romano começava a enfrentar, no Ocidente, as invasões de tribos germânicas, que por sua vez demonstravam ser mais numerosas, belicosas e bem preparadas do que as suas antepassadas de mais de dois séculos atrás.

Por isso, muitos estudiosos consideram que um dos fatores mais decisivos para o declínio e queda do Império Romano do Ocidente foi o surgimento do Império Sassânida, que ao  infligir várias derrotas militares romanos, drenou tropas que poderiam ter sido empregadas na defesa da fronteira Reno-Danúbio,  facilitando, assim, a penetração dos bárbaros germânicos, acarretando, ainda, a necessidade de reorganização política do Império, sendo uma das causas principais da criação do Império Romano do Oriente.

Para lidar com o pesadelo estratégico da guerra em dois fronts foi necessário aumentar o número de soldados e manter duas cortes, uma no Ocidente e outra no Oriente, contribuindo para o aumento dos gastos públicos, o que por sua vez, impôs a realização de reformas fiscais a partir do reinado de Diocleciano, aumentando a tributação, com sérias consequências econômicas, políticas e sociais.

Os sucessores de Septímio Severo e de Caracala caracterizaram-se por serem manipulados pelas imperatrizes-mãe, que na verdade controlavam a burocracia palaciana e as finanças imperiais.

Severo Alexandre acabou sendo assassinado pelos soldados, após tentar negociar com os bárbaros germânicos, em 235 D.C. Ironicamente, a dinastia dos Severos, cujo fundador elegeu o prestígio e o bem-estar dos militares como prioridade absoluta, favoreceu o aumento da indisciplina e os dois últimos imperadores, Elagábalo e Severo Alexandre, reputados como fracos., foram assassinados pelas tropas. Assim, Roma agora entrava na chamada Crise do Século III.

O ressurgimento de um Império Persa poderoso foi uma péssima notícia para os habitantes de Dura-Europos. Afinal, a cidade fronteiriça estava obviamente na linha de frente de qualquer ataque persa. A guarnição da cidade teve que ser reforçada e os assuntos militares tornaram-se preponderantes.

Pelos nomes existentes em inscrições e papiros que foram descobertos nas suas ruínas, aparentemente houve no período um grande influxo de habitantes de origem síria, incluindo soldados provenientes de destacamentos (vexillationes) de legiões acantonadas na província. Tudo indica que o status político da elite de origem grega, que já vinha perdendo  proeminência e poder a partir da instalação de um comandante militar romano no interior da cidade,  diminuiu bastante e muitos dos seus membros podem até ter emigrado (cf. “The Palmyrenes of Dura-Europos: A Study of Religious Interaction in Roman Syria“, Lucinda Dirven, pág. 15)

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Dura-Europos agora, era praticamente mais um forte militar do que uma cidade. Sentindo a ameaça do renovado poder sassânida, a cidade passou por uma série de obras visando reforçar as suas defesas.

Entrementes, a morte de Severo Alexandre e o caos reinante no Império Romano incentivou Ardashir I a atacar novamente a Síria e a Mesopotâmia romanas. Ele sitiou e tomou as estratégicas cidades de Nísibis e Carras (Harran), em 238 D.C.

Em 242 D.C, Ardashir I foi sucedido por seu hábil e determinado filho, Sapor I (Shapur), que receberia o cognome do “O Grande”, e, fazia dois anos já vinha governando a Pérsia junto com o pai. Inicialmente, Sapor teve que subjugar  as tribos medas nas montanhas do Irã e os Kushan na fronteira oriental do Império Persa, e,, assim, os romanos, durante o reinado de Gordiano III , aproveitaram para invadir a Mesopotâmia sassânida e conseguiram retomar Nísibis e Carras, em 242 D.C.

Sapor I retornou para dar combate à invasão e os Persas derrotaram os romanos na Batalha de Misiche, próximo à atual Fallujah, no Iraque, em 244 D.C. Segundo as fontes persas e um relevo comemorativo que Sapor I mandou fazer em uma rocha no local, o imperador Gordiano III foi morto nessa batalha, embora o fato não seja mencionado nas fontes romanas. De qualquer forma, o imperador romano, se não morreu na batalha, foi assassinado  imediatamente depois, e sucedido pelo Prefeito Pretoriano, Filipe I, cognominado “o Árabe” (ele nasceu  na província romana da Arabia Petraea, na cidade de Philippopolis, atual Shabbah, a 90 km ao sul de Damasco).

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(Busto de Filipe, o Árabe)

Filipe, o Árabe não teve muitas alternativas senão assinar um tratado de paz com o Império Sassânida, o qual foi considerado humilhante pelos romanos, a fim de evitar a destruição ou captura do exército romano sobrevivente da Batalha de Misiche, fato que poderia colocar todo o Oriente romano em risco.

Mas na verdade, dadas as circunstâncias,  os termos da trégua não foram tão ruins. Os Persas colocaram um pretendente de sua confiança no trono da Armênia e receberam uma indenização de 500 mil denários de ouro. Os romanos mantiveram Nísibis, Carras e Dura-Europos.

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(Relevo persa em Naqsh-e Rostam, mostrando Filipe, o Árabe se ajoelhando perante Sapor I, que também captura Valeriano, o seu sucessor – este último fato ocorreu em 260 D.C.)

Não se sabe com exatidão o que sucedeu em Dura-Europos nesses anos, mas, apesar da cidade estar no centro do conflito Roma x Pérsia, a sua comunidade judaica, por exemplo, teve recursos suficientes para erguer uma nova sinagoga no lugar da antiga, muito mais suntuosa do que a anterior, no ano de 244 D.C.

Como é frequente no período entre 240 e 270 D.C., o auge da Crise do Século III, as fontes escritas romanas são esparsas e pouco confiáveis.

O caos em que se encontrava o Império Romano, sobretudo após a desastrosa derrota sofrida contra os Godos na Batalha de Abritus, em 251 D.C. que resultou na morte em combate do imperador Trajano Décio, muito provavelmente encorajou Sapor I a invadir novamente a Sìria e a Mesopotâmia romanas.

Em 253 D.C., segundo as inscrições nos relevos comemorativos que Sapor mandou fazer em Naqsh-i Rostam, os Persas derrotaram um grande exército romano com 60 mil soldados, na Batalha de Barbalissos, cidade às margens do rio Eufrates na província romana da Síria-Coele.

A vitória possibilitou os Persas sitiarem e tomarem várias cidades importantes (37 segundo o relevo de Naqsh-i-Rostam), incluindo a grande cidade de Antióquia, capital da Síria romana, que tinha cerca de 400 mil habitantes (Há, inclusive, entre os acadêmicos, uma corrente, com argumentos respeitáveis, que vê indícios de que, nessa ocasião, Dura-Europos foi uma das cidades capturadas, sendo, posteriormente, retomada pelos romanos, como por exemplo, a professora de Arqueologia  Jennifer Baird, da Univesidade de Londres (cf. https://www.academia.edu/656310/Dura_Deserta_The_Death_and_Afterlife_of_Dura-Europos)

Os Persas Sassânidas haviam herdado milênios de cultura e tradições das civilizações do Oriente Médio, eram disciplinados e bem mais determinados do que seus antecessores arsácidas. E, além disso, ele eram conhecedores das mais avançadas técnicas de cerco e das máquinas de assédio da Antiguidade.

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Indubitavelmente, a guarnição e os habitantes de Dura-Europos sabiam que a vez deles chegaria logo… (OBS: É possível, e há algumas evidências que parecem apoiar essa tese, que a população civil tenha sido deportada pelos persas, caso eles tenham tomado a cidade em 253 D.C., ou evacuada pelos romanos, em preparação para o cerco)

Cerco persa e abandono

Não há nenhum relato escrito sobre o cerco de Dura-Europos, mas o excepcional estado de preservação de todo o sítio arqueológico, permitiu aos estudiosos reconstruir com bastante precisão como ele ocorreu e o seu desfecho.

A guarnição romana certamente teve algum tempo para se preparar e antecipar o que os Persas fariam. Eles sabiam que a muralha oeste, que dava para o deserto aberto, seria o foco principal das investidas inimigas e que os persas usariam arietes para tentar abrir brecha por onde poderiam entrar. Assim, os soldados construíram  à frente da muralha de pedra uma cinta de tijolos de barro inclinada, que na base tinha 6 metros de profundidade, denominada de glacis.

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(Militares romanos da Cohors XX Palmyrenorum reproduzindo os uniformes retratados no mural do templo que decorava o templo. A suástica  para os romanos era um elemento decorativo, e talvez tivesse o objetivo de trazer boa sorte, não tendo nenhuma relação com a futura ideologia nazista)

Por sua vez, à parede do fundo da muralha, os romanos  ajuntaram um aterro que tinha o comprimento de 20 metros para trás e subia até 8 metros de altura. Esse aterro cobriu a  rua e a fileira de casas e edifícios adjacente à muralha oeste e tinha a finalidade de dar mais sustentação à muralha para resistir aos arietes e grandes pedras que fossem arremessadas contra ela. Foi graças a esse aterro que, quase 1700 anos mais tarde, seriam descobertas, praticamente intactas, a sinagoga e a igreja cristã primitiva da cidade.

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(Esquema mostrando os reforços à muralha feitos pelos romanos para resistir ao cerco persa, extraída dehttps://www.academia.edu/1448923/Death_in_the_dark_at_Dura-Europos_Did_the_Sassanids_use_chemical_warfare)

 

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(No foto podem  ser vistas algumas partes- não escavadas – do aterro feito pelos romanos)

O exército persa, estimado em 20 mil homens, chegou a Dura-Europos em 256 D.C., provavelmente no início da primavera, construindo um acampamento próximo à cidade. Era uma força que não ficava nada a dever aos romanos em termos de disciplina, equipamentos e e capacidade tática.  A tropa incluía, além da infantaria, a temível e vistosa cavalaria couraçada chamada pelos romanos de clibanários (clibanarii), grandes catapultas e sapadores especializados em cavar túneis.

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(Um relevo sassânida em Taq-i-bostan, no Irã, mostrando um clibanarius persa, foto de Zereshk )

Por sua vez,  sua vez, a guarnição romana certamente recebeu reforços, mas, em todo caso, o seu número deveria ser de 3 mil soldados, sendo, na estimativa mais larga, de 5 mil soldados .

Os romanos sabiam que, devido a superioridade numérica dos Persas, eles somente teriam chance de sobreviver se conseguissem resistir às tentativas dos inimigos de penetrar nas muralhas de Dura por tempo suficiente para que eles desistissem em face das perdas sofridas ou, então, até que o resto do exército romano, vindo de outras províncias,  chegasse em socorro. A resistência, assim, dependia da defesa e da solidez das muralhas, pois a cidade contava com fonte de água dentro dela e provisões tinham sido estocadas em antecipação.

Acredita-se, com base nos vestígios, que os persas devem ter feito algumas incursões exploratórias junto à muralha oeste, com suas 15 torres, principalmente onde ficava o portão principal de entrada da cidade (Porta Palmirena),  para testar a força dos defensores. Eles logo devem ter percebido que eram guarnecidas por muitas armas de arremesso do tipo balista, o temível escorpião ( scorpio ), como eram chamadas pelos romanos (vide fotos abaixo), que tinham o alcance de 400m e eram capazes de perfurar um escudo a mais de 100m de distância, além das flechas disparadas pelos experientes arqueiros da Cohors XX Palmyrenorum.

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( foto de MatthiasKabel)

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(Um scorpio, defendendo uma posição fortificada, retratada na Coluna de Trajano, em Roma – foto acima. OBS; Nas duas fotos aparecem a cheiroballistra uma variante do scorpio)

Os Persas, então, começaram a usar as suas catapultas, que atiravam enormes bolas de pedra, a fim de causar dano à muralha, matar os defensores que estavam nos muros e nas torres, além de causar o máximo de pânico na população civil.

Sobretudo, a barragem de artilharia facilitava dissimular o principal objetivo dos Persas: cavar túneis que chegassem até as fundações das muralhas, que, sem o apoio necessário, eles esperavam que ruíssem nos trechos escolhidos, permitindo um assalto direto pelas tropas sassânidas.

Os Persas começaram a cavar esses túneis a partir do cemitério de Dura-Europos, que, como em todas as cidades antigas, ficava do lado de fora das muralhas. Isso permitia que eles aproveitassem as tumbas já escavadas no solo rochoso sobre o qual se assentava a própria cidade. Dois dos locais que os Persas escolheram para fazer o trabalho de sapa foram as denominadas Torres 14 e 19 da Muralha Oeste de Dura-Europos.  A primeira fica ao sul, e a segunda, ao norte, da Porta Palmirena. Isso, provavelmente, tinha o propósito de fazer com que os defensores romanos se espalhassem mais, não ficando concentrados num só ponto de ataque.

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(Desenho reconstituindo a aparência interna da Porta Palmirena, de A. Henry Detweiler, 1937. Unpublished drawing, Yale University Art Gallery, Dura-Europos Archives).

A Batalha pela Torre 19

Com o objetivo de derrubar a Torre 19, os Persas  começaram a cavar um túnel a cerca de 40 metros dela. Em dado momento, quando o túnel chegou mais próximo, os defensores romanos certamente conseguiram ouvir, vindo do subsolo, o barulho das ferramentas persas escavando a rocha e, da mesma forma que nos relatos sobre vários outros cercos da Antiguidade, eles resolveram cavar uma contra-mina, isto é, o seu próprio túnel, visando interceptar o dos Persas e impedi-los de continuar a ação deles, seja matando os inimigos em combate corpo-a-corpo, seja fechando o túnel inimigo.

Porém, os Persas conseguiram chegar primeiro embaixo da base da Torre 19 e, retirando o trecho de  terra que estava acima de suas cabeças, começaram a minar as fundações de blocos de pedra da muralha, escorando com vigas de madeira.

Por sua vez, o túnel romano foi cavado através do aterro que os defensores tinham feito anteriormente para escorar a muralha e conseguir interceptar o túnel inimigo, embora ficando 3 metros acima dele.

O arqueólogo francês Robert du Mesnil du Buisson, que escavou o local entre as décadas de 20 e 30 do século XX, encontrou, no túnel escavado pelos Persas, 20 corpos de soldados romanos, identificados pelo seu característico equipamento, e o corpo de um soldado persa, identificado por seu elmo e cota de malha. além de outros materiais.

 

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(Restos mortais do soldado sassânida encontrado no túnel sob a Torre 19, ainda com a sua cota de malha).

Segundo a interpretação de Robert du Mesnil, os soldados romanos  conseguiram descer até o túnel persa e invadi-lo, entrando em combate com os Persas, mas acabaram repelidos para o seu próprio túnel, deixando apenas um inimigo morto. Porém, os soldados romanos que estavam do lado de fora devem ter pensado que um grande número de persas tinha conseguido  derrotar os seus colegas e estavam vindo invadir a cidade pelo próprio túnel romano, e, assim, teriam entrado em pânico e rapidamente fechado a sua entrada, deixando os seus camaradas trancados. Em seguida, os Persas atearam fogo às escoras de madeira em seu túnel, embaixo da fundação das muralhas, valendo-se de betume e cristais de enxofre, cujos vestígios foram encontrados no local, matando os soldados romanos asfixiados pela fumaça.

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Os vestígios mostram que por muito pouco o estratagema persa não deu certo.  Após as escoras serem incendiadas, a Torre 19 chegou a afundar,  descendo apenas um metro mas se estabilizou, provavelmente contida pelo aterro que os romanos, previdentemente, tinham construído atrás de toda a Muralha Oeste. Um trecho inteiro dela também  levemente cedeu, afundando um pouco verticalmente, mas sem, contudo desmoronar. Um piso interno da torre desabou, soterrando embaixo dele escudos romanos e uma armadura para cavalo.

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(Os efeitos do trabalho de minagem persa na região da Torre 19 ainda são clarametne visíveis, quase 1800 anos depois).

O ataque final

Com o insucesso da investida sobre a Torre 19, os Persas provavelmente resolveram se concentrar no trecho sul da Muralha, entre a Torre 14 e a Torre 15,  que ficava na quina sul da cidade, onde uma rampa de assédio estava sendo engenhosamente construída. Efetivamente, as escavações encontraram não um monte de terra, mas uma rampa sólida, com com muros laterais e pavimentada com tijolos de argila, por onde certamente subiria uma torre de cerco com rodas. A Torre 14 chegou a iniciar um colapso, mas a estrutura  também se manteve em pé, ainda que desconjuntada, igualmente contida pelo aterro de arrimo. Além disso, ao lado da rampa, os Persas escavaram um túnel largo o suficiente para permitir a passagem de quatro soldados lado-a-lado.  Houve também outras tentativas de invasão pela porta da cidade que dava para o rio Eufrates e intensos ataques dirigidos à Porta Palmirena, mas o mais provável é que o ataque final tenha se dado pela rampa, em um ataque conjunto com o avanço pelo túnel subterrâneo.

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(A Torre 14, vista de dentro,  que foi desconjuntada pela minagem persa, mas não colapsou totalmente)

Embora não se tenha certeza sobre o ponto exato por onde os Persas conseguiram penetrar,  o fato é que, após várias semanas, ou, mais provável, alguns meses de cerco, eles conseguiram invadir Dura-Europos. Escavações mais recentes demonstraram que houve luta dentro da cidade no reduto final romano: o quartel no norte da cidade, onde foram encontrados alguns restos mortais de soldados romanos nos alojamentos e uma boa quantidade de flechas de metal, voltadas para dentro da cidade, para serem disparadas pelos escorpiões.

Como já dissemos acima, não há relatos escritos do cerco a Dura-Europos, mas quem quiser ter uma boa idéia de como  se desenvolvia um cerco persa contra uma cidade romana na região, vale a pena ler o emocionante, mas bem fidedigno, relato que o historiador romano Amiano Marcelino fez do cerco à cidade de Amida, ocorrido em 359 D.C. Uma obra moderna que também faz uma excelente descrição do fim de Dura-Europos é o romance histórico Fogo no Leste,  integrante da série Guerreiros de Roma, do  historiador britânico Harry Sidebottom (no livro, a cidade é chamada de Arete).

O fim de Dura-Europos

Certamente os soldados romanos que não morreram na defesa de Dura-Europos foram  levados como prisioneiros pelos Sassânidas para trabalhar como cativos em seus domínios. A população civil, caso ainda estivesse vivendo algum particular em Dura-Europos quando do cerco, também foi deportada para a Pérsia ( OBS: se procedente a tese de que a cidade já havia sido uma primeira vez capturada pelos persas em 253 D.C., isso teria ocorrido, então, nesta oportunidade). Vale notar que a deportação de soldados romanos e da população capturada em batalhas e cercos era um costume arraigado entre os Persas, desde o tempo dos Aquemênidas,  tendo se verificado, por exemplo, em várias cidades da Síria e da Mesopotâmia romanas, e, portanto, em Dura-Europos isso não deve ter sido diferente.

Algumas inscrições persas parecem indicar que os sassânidas ficaram ainda, no mínimo por alguns meses, em Dura-Europos, mas não há dúvida de que a cidade foi abandonada, seja logo após a sua queda ou pouco tempo depois.

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(Inscrições em persa, na sinagoga de Dura-Europos)

Pouco mais de cem anos depois, em 352/363 D.C., Amiano Marcelino, servindo na campanha de Juliano contra a Pérsia, conta que este imperador passou por Dura-Europos e que ela, então, era uma cidade deserta.

A redescoberta de Dura-Europos

Dura-Europos foi visitada por uma expedição norte-americana, que, inclusive, fotografou a Porta Palmirena, em 1885.

Em termos arqueológicos, a cidade foi “redescoberta” poucos anos após o fim da 1ª Guerra Mundial, quando, em 30 de março de 1920,  um soldado britânico cavando uma trincheira encontrou paredes com pinturas murais no Templo de Bel. Como a Síria estava sob administração francesa, em mandato conferido pela Liga das Nações,  o arqueólogo belga Franz Cumont, com o patrocínio da Académie des Inscriptions et Belles-Lettres  de Paris iniciou as escavações científicas. Por sua vez, entre 1929 e 1937, a Universidade de Yale, junto com a Académie patrocinaram os trabalhos, sob a diração do prestigiado historiador russo,  Michael. I. Rostovtzeff, que publicou o livro Dura-Europos and Its Art. Os trabalhos arqueológicos foram interrompidos pelo advento da 2ª Guerra Mundial e somente seriam reiniciados em 1986, pela Missão Franco-Síria, que revelou vestígios que sugerem que houve um grande combate seguido de incêndio, na Porta Palmirena e outros que sugerem que a cidade foi ocupada pelos Sassânidas durante algum tempo após o sítio de 256 D.C. (cf. https://www.persee.fr/doc/crai_0065-0536_1994_num_138_2_15369?pageId=T1_398)

A “Pompéia do Deserto”

O fato da cidade nunca mais ter sido habitada, ao menos em caráter permanente, após a sua captura pelos Sassânidas, em 256 D.C. e, sobretudo,  vários edifícios terem sido deliberadamente sepultados pela construção do aterro junto à Muralha Oeste, foram responsáveis por uma grande quantidade de achados de valor incalculável, cuja enumeração e comentários pormenorizados fica um tanto difícil em um blog de divulgação como o nosso. As condições climáticas do sítio arqueológico, somadas as circunstâncias ligadas às obras defensivas feitas pelos romanos, à própria dinâmica dos combates travados e ao abandono final da cidade contribuíram muito para o excelente estado de preservação desses achados.

Entre os achados que consideramos mais notáveis, podemos mencionar:

1) A sinagoga

A sinagoga de Dura-Europos, em seu formato derradeiro, é uma das mais antigas já encontradas.  Ela foi remodelada em 244 D.C, expandindo um prédio mais antigo. O fato de ter sido intencionalmente soterrada pelo aterro defensivo construído pelos romano às vésperas do cerco de 256 D.C. ajudou a preservar boa parte da sua estrutura, disposição e decoração internas.  Em uma das paredes, por exemplo, há um nicho para a Torá, que fica na direção de Jerusalém. Os arqueólogos ficaram tão estupefactos com a riqueza e quantidade de suas pinturas murais, retratando várias passagens bíblicas, que, inicialmente, pensaram tratar-se de um templo pagão, devido ao fato da existência de uma proibição divina na Bíblia quanto a feitura de imagens de pessoas e animais. Observe-se que essas pinturas, alguns estudiosos acreditam, trazem indícios de que havia um modelo amplamente disseminado de imagens narrativas bíblicas, que teria sido copiado pelos artistas que fizeram os murais, e também de que esse modelo influenciou a  arte cristã primitiva. A sinagoga ficava bem próxima à igreja cristã da cidade, bem como de outros templos pagãos, o que parece indicar que havia uma convivência harmônia entre as diversas religiões em Dura. Por outro lado, a qualidade das pinturas e o tamanho do edifício é prova de que a comunidade judaica da cidade era bastante próspera e gozava de boas relações com a classe dominante de Dura. As pinturas e vários elementos arquitetônicos da sinagoga, incluindo os muito fragmentos do forro original do teto, foram remontados no Museu de Damasco e ainda estão em ótimo estado.

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2) A igreja cristã

Trata-se da igreja cristã mais antiga já encontrada. Ocupa uma casa particular, remodelada para servir como igreja, como era comum no início da cristandade. Fica próxima à sinagoga, tendo sido construída alguns anos antes da remodelação daquela, e também foi preservada graças ao mesmo aterro. É, contudo, bem menor e mais modesta do que a sua vizinha. No seu interior, ha um salão para a reunião dos fiéis e um acesso para uma pequena, que foi adaptada para servir como batistério, em um nicho parecido com o que foi feito para abrigar a Torá na sinagoga. Inclusive, estudiosos acreditam que a igreja pode ter sido decorada pelos mesmos artesãos que trabalharam na primeira. Entre as pinturas existentes na parede do batistério estão as mais antigas imagens retratando Jesus Cristo encontradas até hoje, uma sobre a cura do paralítico (vide foto abaixo, onde ele carrega o próprio catre, como narrado no evangelho) e o outra mostrando Cristo caminhando sobre as águas e amparando São Pedro que afundava (as pinturas hoje estão na Universidade de Yale, nos EUA). O fato da igreja estar colada à Torre 17 e bem próxima a uma casa de banho e da casa dos escribas romanos é um sinal de que os cristãos eram bem tolerados em Dura-Europos, a despeito dos relatos de escritores cristãos de perseguições no reinado do imperador Trajano Décio (249-251 D.C).

 

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3) O mitreu

O mitreu (santuário do deus Mitra) de Dura-Europos foi construído em 168 D.C., logo depois da conquista pelos soldados do exército romano, já que o deus era extremamente popular entre os militares. O santuário também foi preservado pela construção do aterro defensivo e foi remontado na Universidade de Yale.

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(Imagem de um soldado romano participando de um culto no Mithraeum (templo de Mitra), em Dura)

 

4) Equipamentos bélicos  e vestígios relacionados com o cerco persa e a batalha travada em Dura-Europos

As escavações no sítio arqueológico de Dura-Europos proporcionaram achados de valor incalculável no que se refere aos equipamentos e táticas militares utilizados pelos exércitos romano e persas.

Os trabalhos dos arqueólogos nas torres e muralhas da cidade renderam exemplos raríssimos e, até mesmo inéditos, de vestígios decorrentes de guerras de antiguidade que congelaram no tempo situações de combate enquanto elas estavam se desenrolando.

A situação mais dramática foi a já mencionada operação de minagem persa e contra-minagem romana na Torre 19 da Muralha Oeste.

Recentemente, o arqueólogo Simon James, da Universidade de Leicester,  publicou suas conclusões sobre os achados na Torre 19 e concluiu, de modo bem convincente, que os 20 soldados romanos  cujos restos foram encontrados no interior do túnel que eles mesmo cavaram para interceptar o túnel persa foram mortos em virtude de deliberada queima de cristais de enxofre e betume pelos inimigos, tratando-se de um episódio de guerra química, que, aliás, não era estranha aos antigos, sendo mencionada por fontes antigas gregas.

De acordo com James, os soldados romanos não foram mortos em combate corpo-a-corpo, e sim  asfixiados e envenenados por dióxido de enxofre, proveniente dos elementos  acima mencionados, queimados pelos persas em um braseiro, provavelmente com o uso de um fole (ou em função do efeito sucção causado pela abertura do túnel romano). Posteriormente, os corpos dos soldados romanos inconscientes ou já mortos foram propositalmente empilhados no fundo do túnel romano, para impedir a entrada de reforços romanos. Porém, na operação, o único soldado persa cujo corpo foi encontrado, provavelmente um oficial comandante, dada a qualidade da sua armadura e elmo, acabou também morrendo asfixiado (vide https://www.academia.edu/1448923/Death_in_the_dark_at_Dura-Europos_Did_the_Sassanids_use_chemical_warfare)

(Desenho ilustrando a “guerra química” empregada pelos persas contra os romanos nos túneis subterrâneos embaixo da Torre 19, extraído do artigo do Prof. Simon James)

Um acessório militar importante encontrado no mesmo túnel foi o elmo utilizado pelo oficial persa que provavelmente morreu acendendo o braseiro que sufocou os romanos. Segundo estudiosos, o desenho deste elmo provavelmente influenciou o design dos elmos romanos utilizados no final do século III até o final do império, e, consequentemente até mesmo, os elmos europeus medievais *Cf. artigo de Simon James em https://www.persee.fr/doc/syria_0039-7946_1986_num_63_1_6923)

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(O desenho reconstitui o elmo e proteção de cota de malha do soldado persa que morreu na Torre 19, extraído do artigo do Prof. Simon James, acima citado)

Ainda em relação aos persas sassânidas, os achados no sítio de Dura-Europos demonstram que, ao contrário de que as fontes romanas, suspeitas de parcialidade, relatavam, e alguns historiadores ocidentais acreditavam,  o exército persa detinha capacidade logística, especialização e táticas militares avançadas para manter um cerco a uma cidade tão fortificada como Dura.

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(Foto tirada nos anos 20 mostra projéteis para catapultas trazidas pelo persas ainda no local exato onde eles as empilharam para serem usadas no cerco a Dura. Provavelmente, a cidade caiu antes que o lote precisasse ser utilizado).

Do lado romano, as escavações em Dura-Europos também renderam objetos muito valiosos para os historiadores militares.

Talvez o  mais icônico desses artefatos seja o escudo romano encontrado embaixo de detritos de uma das torres da muralha oeste. Simplesmente, este é o único escudo retangular romano já encontrado, do célebre tipo retratado em tantos relevos existentes em monumentos romanos. Este achado permitiu compreender a técnica construtiva do escudo, entender melhor o seu emprego e determinar que o seu tipo ainda continuava em uso em meados do século III (vide foto abaixo).

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Também foram encontrados exemplares de escudos redondos, tradicionalmente associados às unidades de auxiliares (auxilia), muito embora hoje acredite-se que ambos  poderia ser empregados por legionários ou auxiliares, conforme a situação exigisse. Um desses escudos é particularmente interessante porque ostenta uma pintura mostrando um mapa, ainda que impreciso como representação geográfica, mostrando o nome de várias fortificações romanas ao longo do Mar Negro, onde, presumivelmente, o soldado a quem ele pertencia deve ter servido. Esse costume castrense, aliás, é mencionado pelo poeta romano Ovídio, em seu poema Metamorfoses. (vide primeira foto abaixo)

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Finalmente, foram achadas armaduras para cavalos romanas, utilizadas pelas tropas equestres chamadas de catafractos, encontradas na Torre 19. Uma delas estava em tão bom estado que chegou a ser colocada em um cavalo que estava na escavação, nos anos 30.

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5) Outros achados (tão ou mais) relevantes

Vários papiros bem conservados foram achados no que seriam os arquivos da Cohors XX Palmyrenorum abarcando um período de 50 anos de atividades da unidade em Dura-Europos. Os documentos são relativos a escalas de serviços dos soldados, inventários de suprimentos, licenças e autorizações para transferência de militares, listas de pagamentos, datas de pagamentos de soldos e de dispensas militares, além de um calendário das datas comemorativas próprias da unidade, bem como de feriados religiosos e aniversários dos imperadores, a serem celebrados com paradas.

Um  fragmento de pergaminho (nº 24) contendo uma Harmonia do Evangelho em grego, um texto buscando conciliar as narrativas dos 4 Evangelhos Canônicos sobre a vida de Jesus Cristo, que se estima datar do século III D.C (sendo portanto anterior a 256 D.C, data do cerco e abandono de Dura-Europos). Para alguns estudiosos, o fragmento seria uma cópia do Diatessaron escrito por Taciano cerca de 165/170 D.C, embora para outros trate-se de uma obra independente.

Outro pergaminho, escrito em hebraico, parece derivar do Didache (Didaque), uma espécie de catecismo escrito cristão primitivo (alguns estudiosos estimam que ele dataria do século I A.C.), originado da comunidade de judeus-cristãos da Síria ou até da própria Jerusalém, sendo que alguns trechos são muito semelhantes a bençãos judaicas sobre a comida e o vinho ( Birkot-ha-mazon,). O fragmento foi assim traduzido:

“Bendito seja o Senhor, Rei do Universo, que criou todas as coisas, deu de comer e beber a todas os filhos da carne com os quais eles serão saciados; mas concedeu a nós, seres humanos, participar do alimento das miríades do seu angélico corpo. Por tudo isso, nós devemos dar graças cantando nas reuniões do povo”.

Conclusão

 

Dura-europos é um dos sítios arqueológicos mais fascinantes do mundo. A cidade existiu durante 560 anos, mais do que qualquer cidade brasileira, por exemplo, e, apesar de ter tido uma população que não ultrapassou 5 mil habitantes, foi o lar de diversas etnias e religiões que, tudo indica, coabitaram em harmonia.

Há um vasto material  sobre as escavações arqueológicas realizadas na cidade que ainda aguarda publicação.

Dezoito séculos depois,  uma nova tragédia se abateu sobre Dura-Europos: a devastação feita pelo Estado Islâmico, que, na busca por artefatos antigos para  vender no mercado negro e, também, por fanatismo religioso, vem sistematicamente destruindo o sítio.

                                                               F I M

 

 

DISCIPLINA ROMANA: MAIS FORTE QUE O VESÚVIO !

ARQUEOLOGIA

Durante séculos, os arqueólogos que trabalharam nas escavações das cidades soterradas pela erupção do Vesúvio em 79 D.C notaram uma particularidade: Em Pompéia foram achados muitos restos humanos, sobretudo em cavidades formadas nos depósitos de detritos, que, preenchidas por resina, resultaram nos impressionantes figuras moldadas de pessoas e animais que os turistas ainda hoje podem ver quando visitam a cidade (Técnica inventada por Giuseppe Fiorelli, em 1864, vide foto abaixo).

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Contudo, na vizinha Herculano, quase nenhum vestígio das vítimas daquela catástrofe havia sido achado, sendo que, embora  sendo uma cidade bem menor do que Pompéia, Herculano tinha cerca de 5 mil habitantes.

A explicação mais aceita era a de que Herculano era uma espécie de balneário chique à beira-mar, e os seus ricos habitantes deviam ter conseguido fugir em massa da vila, usando até barcos particulares.

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Entretanto, em 1982, um arqueólogo fez uma impressionante descoberta: ao escavar as grandes arcadas dando entrada para as massivas galerias que eram utilizadas como garagem para barcos, de frente para a antiga praia em frente a Herculano, um trecho que tinha sido totalmente soterrado pelos detritos da erupção do vulcão, ele encontrou os esqueletos de cerca de trezentas pessoas.

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(Garagem dos barcos em Herculano, com os esqueletos das vítimas, foto de Norbert Nagel)

 

Quase todos os esqueletos estavam dentro das garagens, separados por sexo e idade (homens separados de mulheres).

E um achado, em especial, intrigou os arqueólogos: mais afastado das garagens, eles encontraram um esqueleto de um homem de cerca de 40 anos de idade e 1,70m de altura, que ainda portava um cinturão com uma espada (gládio) embainhada, colada ao lado direito de sua cintura. O corpo recebeu a identificação de indivíduo E26. (vide foto abaixo).

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O cenário e a posição em que o cadáver foi encontrado deixavam claro que o homem estava do lado de fora das garagens, na praia e voltado para a direção do mar, quando ele foi atingido pela massiva explosão piroplástica do Vesúvio, tendo o seu corpo sido instantaneamente calcinado.

Não havia nenhum barco dentro das garagens e alguém obviamente tinha organizado as pessoas para que, de maneira ordeira, separassem-se em grupos de homens e mulheres e crianças, que, infelizmente, também morreram imediatamente devido à nuvem de calor de cerca de 500 graus. A erupção foi relatada pelos historiadores antigos, destacando-se a descrição feita por Plínio, o Jovem, que presenciou a tragédia.

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Plínio narra que seu tio, Gaius Plinius Secundus,  (Plínio, o Velho) era comandante da frota imperial em Miseno, a 30 km de Pompéia e Herculano. Plínio, o Velho, quando presenciou a erupção do vulcão, começou a receber pedidos de ajuda de habitantes das cidades afetadas e montou uma operação de resgate usando os navios da esquadra. Ele mesmo chegou a desembarcar na cidade de Stabiae, para resgatar conhecidos seus, porém, devido aos ventos desfavoráveis, o navio não conseguiu regressar e ele acabou morrendo no local.

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CONCLUSÃO

Portando um gládio militar, com uma bainha e cinturão muito bem decorados, o homem caído na praia certamente era um militar, provavelmente um oficial, já que seu esqueleto também apresentava marcas típicas de quem costumava cavalgar. É até possível que ele fosse um dos integrantes da operação comandada por Plínio, o Velho.

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(Reprodução da espada e cinturão do indivíduo E26. A qualidade do material permite supor que se tratava ao menos de um centurião)

Nossa opinião é que o oficial E26 morreu enquanto esperava a volta da frota, que deve ter passado por Herculano em direção à Stabiae. Enquanto isso, ele deve ter organizado a retirada dos últimos habitantes de Herculano.

Não havia mais barcos e a frota era a única esperança deles saírem dali. Eles não sabiam o que era um erupção vulcânica e as garagens, muito bem construídas com paredes grossas, devem ter parecido ao E26 um lugar seguro para aguardar o socorro.

O fato é que E26 morreu em seu posto, no cumprimento do dever e não abandonou as pessoas que dependiam dele. Felizmente, tudo indica que a onda de calor chegou tão rápida e violentamente que as pessoas no local sequer tiveram tempo de perceber antes que seus cérebros praticamente vaporizassem e explodissem dentro dos crânios.

Por tudo isso, homenageamos o soldado E26 e todos militares, bombeiros e policiais que porventura morreram ou se arriscam para garantir a nossa segurança.

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HOJE É SEXTA-FEIRA!!! VOCÊ SABE O PORQUÊ?

#calendário #nundinae #domingo #dominicus #natalissolisinvictus #sãomartinhodedume

Todos nós que falamos português logo percebemos os dias úteis da semana em nossa língua têm um nome diferente do que em outras línguas derivadas do latim, faladas na Europa, que também se difundiram principalmente pelas Américas, África e Oceania.

Notamos também, que nas línguas germânicas, tal como o inglês, nenhum dos sete dias da semana é igual ao seu correspondente na língua portuguesa.

Não obstante, e especialmente nas línguas derivadas do latim, sábado e domingo, normalmente o 7º e o 1º dias da semana (sim, em alguns países não é assim), compartilham esse mesmo nome.

Por que somos diferentes?

Essa é uma longa história que começou muito antes dos romanos, os principais responsáveis por esse calendário que hoje usamos.

Inicialmente, a maior parte dos povos antigos não adotava uma divisão do calendário em semanas. Certamente, dentre as primeiras sociedades a fazê-lo estavam os povos do Oriente Médio, notadamente os babilônios. Esses povos usavam um calendário lunar, organizado em função das fases da lua, e eles tentavam sincronizá-las com as estações do ano, que por sua vez eram percebidas em função do movimento do sol, o que intuitivamente induz a uma divisão do ano em meses de 28 dias com quatro semanas de sete dias (eles também usavam, entretanto, calendários astronômicos mais sofisticados).

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(Sofisticado calendário astronômico babilônico)

Por sua vez, a astrologia, difundida entre os babilônios, ligava-se à observação das órbitas dos sete astros visíveis a olho nu, que são: o Sol, a Lua e os planetas Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.

Porém, os primeiros a adotarem a divisão do tempo em uma semana de sete dias (hebdomadário, de “hebdo”, isto é, “sete”) como algo inseparável da sua própria identidade foram os judeus. A narrativa bíblica da criação do mundo em sete dias, incluindo o descanso de Deus no sábado, efetivamente governava a vida dos hebreus.

Já os romanos, inicialmente, e ainda durante a República, dividiam os dias do mês em ciclos de oito dias, cada um correspondendo no calendário a uma letra de “A” a “H”, sendo estes contados de trás para frente a partir de marcos, seja do primeiro dia do mês (calendas), mas também dos Idos, que normalmente caíam no dia 15 no meio do mês, e das Nonas, que podiam cair no entre o quarto e o sétimo dia do mês, tudo dependendo do número de dias do mês, que podia ser de 30, 31 ou 28 dias.

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Reprodução del Calendario de Anzio (Fasti Antiates) del 84-55 a. C., exposto no Museo do Teatro romano de Caesaragusta. O original está en Roma, no Museu Nacional das Termas, e é anterior a la reforma de Julio César. Foto de Bauglir)

Esse ciclo era chamado de “nundinário”, nome que deriva do número 9, pois ele incluía o dia do qual a contagem do ciclo partia.

O calendário romano, como a descrição que fizemos acima torna fácil perceber, era muito complicado e impreciso astronomicamente, não acompanhava o movimento de translação da Terra e, com a passagem dos anos, ele divergia do verdadeiro início e fim das estações do ano.

Por conta disso, periodicamente, o calendário romano tinha que ser corrigido mediante a inclusão de meses “extraordinários”, o que ocorreu até Júlio César assumir o cargo de Ditador e resolver reformar o calendário, adotando um calendário-solar adaptado do egípcio, contendo doze meses e com a inclusão de um dia adicional a cada quatro anos, no mês de fevereiro.

(Calendário egípcio)
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The Roman most people think of instantly – Gaius Julius Caesar. Loads more on him at http://en.wikipedia.org/wiki/Julius_Caesar For more on the Museo della Civiltà Romana, have a look at http://en.museociviltaromana.it/ or http://en.wikipedia.org/wiki/Museum_of_Roman_Civilization

Poucos anos depois da adoção daquele que acabaria sendo chamado de “Calendário Juliano”, a arqueologia e o estudo das fontes mostra que os romanos começaram a adotar também uma semana de sete dias, de onde surgiu, inclusive, pela primeira vez, em latim, com essa acepção, a palavra “septimana”, devirada de “septimus” (sete), que obviamente é a raiz da nossa palavra “semana”.

Por volta do início do século I D.C., as fontes narram que havia uma grande colônia judaica em Roma (alguns estimam que ela remontava 5% da população da cidade, o que representaria 50 mil pessoas), bem como uma grande popularidade de astrólogos caldeus (Babilônia, mas provavelmente também associados a astrólogos egípcios), o que levou até alguns imperadores a expulsarem esses estrangeiros, sob a alegação de corromperem os costumes tradicionais dos romanos (cf. Suetônio e Tácito).

Assim, tudo indica que foram mesmo os judeus que influenciaram a adoção da semana de sete dias em Roma. Da mesma forma, os romanos, influenciados pela Astrologia de origem babilônica-egípcia, adotaram o costume de batizar os dias da semana com o nome dos astros visíveis, associados às divindades do panteão greco-romano, os quais já eram adotados pelos astrólogos helenísticos do Egito Ptolemaico. A primeira evidência arqueológica da adoção de ambos os costumes é uma inscrição (graffiti) encontrada em uma parede de um imóvel em Pompéia, que foi soterrada pelo Vesúvio em 79 D.C.

Assim, seguindo premissas da Astronomia e as características atribuídas a cada divindade:

1) O primeiro dia da semana estava associado ao astro mais importante no firmamento, o Sol (o graffitti de Pompéia fala em “dies Solis” – dia do Sol).

2) O segundo dia foi associado ao segundo astro mais importante, a Lua (dies Lunae ou Lunes dies).

3) O terceiro dia foi associado a Marte, planeta vermelho que remetia a sangue e a guerra ( dies Martis ou Martis dies).

4) O quarto dia, cujo movimento celeste era o mais rápido, foi associado a Mercúrio, o deus-mensageiro do panteão romano (dies Mercuriae ou Mercuriae dies).

5) O quinto dia passou a representar Júpiter (dies Iovis ou Jovis dies),

6) O sexto dia foi associado ao planeta mais brilhante e vistoso no céu, que naturalmente representava a deusa da beleza, Vênus (dies Venus ou Venus dies),

7) O sétimo dia oi associado com Saturno (dies Saturni ou Saturni dies).

Mas os romanos eram famosos pelo conservadorismo e tradicionalismo, e, assim, durante alguns séculos, o calendário nundinário continuou convivendo com o calendário hebdomadário, e, por sua vez, a nomenclatura antiga dos dias da semana, de “A” a “H”, conviveu simultaneamente com os dias batizados com nomes de planetas (zodiacal) que parece ter sido o sistema preferido pela população.

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(Fasti Vallenses, fragmento de calendário romano no Museu Nacional de  Nápoles, © Institute for the Study of the Ancient World / Guido Petruccioli, photographer)

Uma prova arqueológica disso é um famoso fragmento de mármore de um calendário público, hoje desaparecido, que ficava afixado nas paredes das Termas de Trajano, o qual utilizava tanto o sistema nundinário, com a letra do dia dentro do mês, como o sistema zodiacal com o nome do dia de acordo com o planeta (cf. “Rome in Late Antiquity”, Bertrand Lançon).

Ver a imagem de origem
Esse calendário encontrado nas Termas de Trajano mostra já uma fusão entre o calendário romano antigo e o zodiacal. Notem os sete deuses associados aos dias da semana (dois deles estão faltando na primeira imagem, sendo que o primeiro seria Saturno, o segundo Apolo, associado ao Sol, o terceiro  seria alguma divindade associada à Lua, o quarto é obviamente Marte, o quinto seria Mercurío, o sexto, Júpiter e a última, Vênus. Nesse calendário, o primeiro dia da semana é o sábado, assim como era para os Judeus. A segunda imagem é uma reconstituição).

Contudo, após o imperador Constantino I abraçar publicamente o Cristianismo, no início do século IV D.C, a semana de sete dias, que os cristãos seguiam, adaptando-a do Judaísmo, passou a ter a definitiva precedência.

Vale notar que, pelo menos desde a metade do século II D.C., os cristãos passaram a cultuar o “dies Solis”, como primeiro dia da semana, que era o dia em que eles acreditavam que Jesus Cristo ressuscitou, como “Dia do Senhor” (dies Dominicus). Além disso, segundo a Bíblia, o domingo era o primeiro dia da criação do Mundo, já que Deus havia descansado no sétimo dia, o sábado.

Um pouco antes da ascensão de Constantino, em 270 D.C., o Imperador Aureliano, um devoto do deus Mitra, havia instituído o culto ao Sol Invicto (Solis Invictus), associado àquela divindade, como a principal religião do Império Romano. Tudo isto contribuiu para que, em 31 de março de 321 D.C, Constantino editasse uma lei estabelecendo que o “dies Solis” deveria ser devotado ao descanso de todos.

Não obstante, o famoso Calendário de Filócalo, de 354 D.C, que chegou até os nossos dias, mostra um curioso sincretismo entre o calendário romano tradicional e o cristão. No referido calendário são assinaladas tanto datas importantes para os cristãos como datas de festivais pagãos. Embora este calendário em si ainda apresente o vetusto modelo nundinário, com os dias identificados pelas letras A a H, uma das suas páginas traz uma correlação do dia da semana com o planeta correspondente, com o nome dos deuses romanos (Pode ser consultado em http://www.tertullian.org/fathers/chronography_of_354_06_calendar.htm).

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Curiosamente, no Calendário de Filócalo, o primeiro dia da semana, de acordo com a tradição judaica, ainda é o sábado (Pode-se então, inferir que a adoção do domingo como o primeiro dia somente tornou-se praxe com a primazia do Cristianismo sobre as demais religiões, a partir do reinado do imperador Teodósio, o Grande). Entre as datas importantes assinaladas no calendário, está o feriado (feriae) do Natalis Solis Invictus (“Nascimento do Sol Invicto”), no dia 8 antes das calendas de Janeiro, que, de acordo com o sistema nundinário, correspondente ao dia 25 de dezembro (Parte 6 do Calendário).

A parte 12 do Calendário de Filócalo traz um anexo relacionando as datas comemorativas do nascimento dos mártires cristãos, apontando o mesmo dia 25 de dezembro com o do nascimento de Jesus Cristo em Belém, Judéia. Aliás, este é o primeiro documento que menciona o nascimento de Jesus nesta data, considerada improvável pelos especialistas (tendo em vista a própria narrativa bíblica) e que poderia ser decorrente da intenção de aproveitar um feriado religioso dos mais importantes para os romanos (Nascimento do Sol Invicto) para comemorar o nascimento de Jesus pelos cristãos.

Importante para a resposta à pergunta que fazemos em nosso artigo é o fato de que os calendários romanos (fasti) sempre previam inúmeros dias de feriados (“feriae”), ou seja, dias consagrados a um festival em honra de alguma divindade, embora não necessariamente feriados no sentido moderno (dias em que não se precisa trabalhar).

Quando o Cristianismo se tornou a religião oficial do Império, no final do século IV D.C, durante o reinado do imperador Teodósio I, muitos bispos começaram a se incomodar com o costume de nomear os dias da semana com nomes de deuses pagãos. Afinal, em uma concepção cristã, o tempo pertence a Deus, e, portanto, todos os dias são sagrados e, portanto, podem ser considerados “feriae”, quer dizer, dias consagrados a Deus.

Portanto, sendo para os romanos, sete os dias da semana, e sendo o “Dia dos Senhor” (dies Dominicus) o primeiro e o mais importante deles, uma decorrência lógica para os ciosos prelados católicos era que o segundo dia da semana fosse rebatizado como “secunda feriae” e assim sucessivamente: “tertia feriae”, “quarta feriae”, “quinta feriae” e “sexta feriae”. Mas, com relação ao sábado, este dia já tinha um nome profundamente enraizado na tradição cristã, e mencionado expressamente na Bíblia, herdada dos judeus, o qual continuou sendo observado pelas primeiras gerações de cristãos, motivo pelo qual ele foi preservado, inclusive no latim eclesiástico, como “sabbatum”.

Apesar do propósito religioso da Igreja ao adotar oficialmente a nova nomenclatura, pode-se concluir que esta não se popularizou o suficiente a ponto de substituir o costume popular dos súditos do Império: a grande prova é que praticamente todas as línguas européias derivadas do latim continuam a batizar os dias da semana com os nomes dos deuses associados a planetas, como por exemplo o italiano, o francês e o espanhol, respectivamente, como citado abaixo:

1) 2º dia da semana (Lunes dies): lunedi, lundi e lunes.

2) 3º dia da semana (Martes dies): martedi, mardi e martes.

3) 4º dia da semana (Mercuriae dies): mercoledi, mercredi e miércoles

4) 5º dia da semana (Jovis dies): giovedi, jeudi e jueves.

5) 6º dia da semana (Venus dies): venerdi, vendredi e viernes .

O nome do 7º dia da semana (sabattum), porém, como já vimos, ecoava a influência primitiva do judaísmo na adoção da semana de sete dias e já estava suficientemente arraigado na população romana e, por isso, sobreviveu em todas as línguas latinas (ex: sabato, samedi e sábado).

Para os povos de língua germânica, que também batizavam os planetas com os nomes dos seus deuses, em uma correlação análoga aos dos romanos entre as características da divindade e as do planeta em questão e que também, pelo contato com o Império Romano, passaram a adotar a dividir o calendário em semana de sete dias, foi ainda mais difícil aceitar a nomenclatura cristã, já que eles foram convertidos ao cristianismo, em geral, bem mais tarde do que os romanos (embora os invasores godos tenham se convertido no século IV, à confissão herética chamada de Arianismo, porque pregada pelo bispo Ário).

Com efeito, no caso dos Germanos, mesmo o sábado e o domingo mantiveram os seus nomes associados aos astros. E a designação do domingo como “Dia do Sol” (“Sunday”, “Sonntag”, “Zondag”, “Sondag”, etc.) nas línguas germânicas parece ter sido independente (não se olvidando, porém, que o latim e as línguas germâncias pertencem ao mesmo tronco linguístico, o indo-europeu) e anterior ao decreto de Constantino.

Com relação ao sábado, no inglês e em algumas línguas germânicas, curiosamente, e por algum motivo que ainda não foi suficientemente explicado, este dia manteve o nome dado pelos romanos pagãos no período clássico, associado ao deus Saturno (ex: saturday). No sul da Alemanha, contudo, que foi mais influenciado pelos romanos e pela Igreja Católica, também se adota a palavra alemã “samstag”, que deriva do sabbatum eclesiástico.

Mas, voltando a pergunta do nosso título: Por que os dias da semana para os portugueses têm nomes diferentes dos utilizados pelos seus vizinhos?

Quando o Império Romano do Ocidente caiu, em 476 D.C., as províncias romanas de cada região seguiram uma dinâmica própria. A Península Ibérica foi invadida por bárbaros germânicos Visigodos, Suevos, Alanos e Vândalos, sendo que os últimos logo migraram para o norte da África. Uma parte de Portugal e da Galícia ficou submetida aos Suevos, que estabeleceram sua capital na antiga cidade romana de Bracara Augusta, a moderna Braga. Os Suevos eram cristãos, mas adotavam a doutrina do Arianismo.

Em 569 D.C., Martinho de Dume foi nomeado Bispo de Braga. Ele era um nativo da Panônia, na atual Hungria, que peregrinou pela Terra Santa e havia estudado teologia e grego no Oriente, e, após a sua morte foi canonizado.Valendo-se de seu poder de persuasão e eloquência, São Martinho de Dume (também conhecido como São Martinho de Braga) conseguiu converter o rei suevo Teodomiro (ou Theodomar) ao Catolicismo niceno-trinitariano (na foto abaixo, iluminura medieval retratando São Martinho de Dume).

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São Martinho de Dume era um fervoroso adversário do paganismo e advogou que qualquer terminologia que fosse alusiva aos deuses pagãos deveria ser suprimida. Valendo-se de sua posição privilegiada de Bispo de Braga, o religioso conseguiu suprimir nas igrejas situadas sob a jurisdição da sé bracarense, e também fora delas, a utilização dos antigos nomes pagãos dos dias da semana, que foram substituídos pela nomenclatura eclesiástica em latim, que já mencionamos anteriormente (dominus dies, secunda feriae, tertiae feriae, etc.) . A palavra da língua portuguesa “feira” deriva diretamente do latim “feriae“e a população laica passou a se referir aos dias como “segunda-feira”, “terça-feira”, “quarta-feira”, etc.)

E, assim, caros leitores, foi graças a São Martinho de Dume, que, em português e galego, é por isso que hoje é sexta-feira!

AS INSÍGNIAS IMPERIAIS DO IMPERADOR MAXÊNCIO

Em 2006, arqueólogos italianos anunciaram uma notável descoberta em uma vala escavada em um pequeno templo na colina do Palatino, em Roma, onde, durante o período imperial romano, foram construídos as moradias dos imperadores romanos (em verdade, devido a este fato, “palácio” é uma palavra derivada do nome da colina do Palatino).

Vide o link da notícia: http://www.nbcnews.com/id/16031991/ns/technology_and_science-science/t/rare-insignia-constantines-foe-found/

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Foram encontrados, no interior dos restos de caixas de madeira, aparentemente envolvidas em fragmentos de seda, objetos parecidos com 3 lanças , 4 dardos, os quais aparentemente serviriam como base para algum objeto, 3 esferas coloridas de vidro e calcedônia, além de uma haste com aparência de ser um cetro, em cuja ponta havia uma flor estilizada segurando um globo verde-azulado (caracterizando uma representação bem acurada da forma e da cor verdadeira do globo terrestre).

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( A foto 1 mostra as lanças e a reprodução da sua aparência original. A foto 2 mostra a ponta do cetro com o globo de calcedônia)

Os arqueólogos estimaram que a camada onde os objetos foram encontrados remetia ao fim do século III D.C. e o início do século IV D.C., o que foi confirmado pela datação de carbono 14 dos restos de linho.

Concluiu-se. portanto, que efetivamente os objetos eram um cetro e lanças porta-estandarte imperiais, sendo que a data e o contexto em que os artefatos foram encontrados permitem também considerar que se tratam das insígnias imperiais do imperador romano Maxêncio, filho do imperador Maximiano, e que, após a abdicação do imperador Diocleciano e de seu pai, disputou o trono contra outros imperadores, culminando com a sua morte na Batalha da Ponte Mílvio, em Roma, conflito no qual ele foi derrotado por Constantino, o Grande, em 312 D.C.

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(Ponte Mílvio, em Roma, foto de Anthony Majanlahti )

Assim, as insígnias de Maxêncio deven ter sido escondidas por algum partidário fiel, para evitar que fossem capturadas por Constantino.

Moedas do período em questão mostram insígnias imperiais muito semelhantes as encontradas no Palatino, sendo estas os únicos itens da regalia imperial romana a chegarem até os nossos dias, motivo pela qual devem as mesmas serem admiradas com reverência, e quem quiser pode visitá-las no Museu Nacional Romano, no Palácio Massimo, em Roma, onde hoje elas se encontram expostas.

 

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(Relevo da Apoteose de Antonino e Faustina. A imperatriz segura um cetro parecido com o encontrado no Palatino – Römisch-Germanisches Zentralmuseum, Mainz)

 

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(Moeda cunhada por Maxêncio

 

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UM BANQUETE ROMANO

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O mosaico da foto acima, que hoje faz parte do acervo do museu do Chateau de Boudry (foto copiada do site “http://www.chateaudeboudry.ch”) é um dos mais extraordinários mosaicos romanos que sobreviveram. Ele data do século V D.C. e acredita-se que seja originário da Síria.

Trata-se, provavelmente, de uma das melhores representações de como era um banquete da elite romana. Nele podemos ver a disposição do triclinium, aposento equivalente à sala de jantar das grandes residências modernas. Este nome é devido aos três leitos dispostos em forma de “U”, onde os convivas  comiam reclinados. O aposento tem uma porta de madeira, que deve dar para a cozinha, e uma entrada maior, com cortinas, que deve dar para um peristilo, pátio rodeado de colunas com um agradável jardim, geralmente com fontes, no centro, como era padrão em uma domus romana.

O normal é que cada sofá ou dossel do triclinium acomodasse três pessoas, perfazendo um evento para nove pessoas, mas grandes triclinia  já foram encontrados em escavações, os quais, certamente, poderiam acomodar muito mais conjuntos de três leitos,  e portanto, os seus proprietários poderiam receber um grande número de convivas.

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No mosaico, os convivas são servidos de vinho pelos escravos, os quais, exceto o que está em primeiro plano, usam um corte de cabelo rapado com uma espécie de mecha ou chuca comprida). A comida é servida em três banquetas trípodas, do tipo das que já foram recuperadas em Pompéia e Herculano. Alguns comensais estão bem à vontade, dando a entender que já beberam bastante…

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Também na cena retratada, os serviçais estão preparando vinho quente (vin chaud), ainda hoje consumido no inverno na Europa, o que pode ser constatado pela imagem do escravo enchendo a jarra em uma espécie de samovar, bem no canto direito do mosaico. Mas pode ser também que o líquido seja água quente, pois sabemos que também se costumava adicioná-la ao vinho (porém, os romanos no verão também apreciavam o oposto: beber vinho misturado com neve trazida dos picos das montanhas).

O primeiro prato ou prato principal acaba de ser servido: frangos inteiros assados (e provavelmente estufados com os recheios mais surpreendentes, provavelmente bem picantes) e podemos ver que o convidado de cabelo e barba grisalha já se apressou em pegar uma coxa…

A cena mais chamativa do mosaico, entretanto, é o chão salpicado de restos do que devem ter sido pratos de entrada: Folhas de verduras, peixes, camarões, lulas, conchas de moluscos, etc. E, aproveitando a fartura dos restos no piso, um gato e um camundongo aproveitam para garantir a sua parte…

Esse tema do nosso mosaico de maneira nenhuma é original. Ele faz parte de um estilo comum no Mundo Helenístico, que foi apelidado de asarotos oikos (“chão não varrido”),  e do qual sobraram vários exemplos, como o da foto abaixo. Em nossa opinião, o propósito dessas representações era retratar a fartura das recepções dadas e lembrar aos observadores que o sucesso do banquete retratado no piso estava a se repetir novamente, como os comensais perceberiam ao olharem para o chão. Ou, quem sabe, o tema fosse uma forma bem-humorada de pedir que os convivas não fizessem tanta sujeira…

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Parece que a quantidade dos restos no chão e a presença dos camundongos de maneira nenhuma chocavam os romanos. Certamente, um anfitrião próspero teria que ter um time de escravos suficiente para deixar tudo limpo ao fim do banquete. Mas é possível que alguma obra literária antiga forneça mais alguma explicação para a recorrência do tema (era também comum que os mosaicos trouxessem temas de obras literárias famosas ou do cotidiano, tais como jogos de gladiadores, corridas, caçadas, etc.).

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Os encontros onde ocorriam os banquetes recebiam o nome genérico de convivium (palavra latina que originou a palavra convívio, em português, e com o mesmo sentido).

Os banquetes públicos eram chamados de epulum e costumavam ser oferecidos pelo Estado ou por políticos, normalmente para marcar alguma festividade religiosa ou celebrar vitórias. Júlio César, por exemplo, ficou célebre pela suntuosidade e grandiosidade dos banquetes públicos que ele patrocinou. A História, inclusive, registra que César ofereceu o primeiro banquete público em Roma no qual foram servidos quatro tipos de vinhos diferentes.

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Os banquetes privados eram oferecidos nas residências, normalmente jantares (Cena) onde o anfitrião se esmerava em impressionar os convidados com pratos exóticos e o serviço de mesa mais rico que ele pudesse adquirir. Nos arredores de Pompéia, foi encontrado o magnífico “Tesouro de Boscoreale” (nome da vila onde ele foi escavado), um serviço de mesa completo com baixelas e taças de prata ricamente decoradas.

Mas, mesmo nas mais longínquas regiões do antigo Império Romano, foram descobertos também serviços de mesa tão fabulosos quanto os de Boscoreale (como por exemplo, o “Tesouro de Middenhall”, na Inglaterra), que, na época do Baixo Império Romano, foram propositalmente enterrados pelos proprietários para que não fossem saqueados pelos bárbaros .

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Não menos espetaculares que os serviços de mesa de prata são os fabulosos  recipientes de vidro, produzidos com uma técnica requintada que faria inveja aos artesãos da atual Murano.

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Muito provavelmente, todo esse aparato era guardado para ser utilizado nos banquetes, pois, para as refeições cotidianas, os romanos costumavam usar as peças feitas de cerâmica do tipo “terra sigilata“, como, por exemplo, a taça do tipo scyphus abaixo.

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Note-se que o talher mais usado eram as colheres. Facas e garfos raramente são encontrados em escavações e parece que não eram comuns. Provavelmente. os alimentos ou porções eram servidos para serem consumidos com as mãos, sendo as colheres utilizadas apenas para alguns alimentos, como papas, pastas, cremes, ovos, ostras, sopas, molhos, etc.

Note-se que as mesas trípodas encontradas nas escavações e retratadas nos afrescos e mosaicos parecem pequenas para acomodar tantas travessas com comida. Provavelmente, os escravos ficavam levando as baixelas até os convivas, que pegavam o que queriam.

Ao contrário do que acontecia nos symposia gregos, nos banquetes romanos, as mulheres também eram comensais (no symposium, elas somente podiam participar como cantoras, músicas ou dançarinas, entretendo os convivas, ou, no máximo, como hetairas, que eram cortesãs algo similares às gueixas japonesas). Já as romanas participavam dos banquetes em igualdade com os homens, reclinando-se ao lado deles e conversando animadamente).

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Durante o banquete

As refeições romanos incluíam normalmente três pratos: a entrada (gustatio),  o prato principal (mensae primae) e a sobremesa (mensae secundae), que podiam conter várias opções de cardápio. Um anfitrião abastado certamente procuraria que os três impressionassem os convidados.

As entradas mais comuns consistiam em mariscos, ostras, mexilhões, pequenos aves e peixes, assados ou fritos, acompanhados de pão, queijo, folhas, frutas e sementes, tais como  nozes e castanhas.  Em qualquer caso, e também na mensae primae, os romanos adoravam temperar os pratos com o onipresente garum, um molho feito com miúdos de peixe salgados, deixados a fermentar, cujos principais centros de produção ficavam na península ibérica, especialmente no Algarve. A popularidade do garum pode ser comparada a do atual ketchup e, de fato, sabe-se que o ketchup, originalmente, era um molho feito das entranhas de peixe.

Depois vinham as saladas e os pratos de carne, normalmente aves, peixes ou moluscos, porco ou carne de caça. Os romanos não consumiam muita carne bovina, porque, além dos bois serem valiosos para o trabalho rural e o transporte, a conservação da sua carne era mais complicada (peixes eram fáceis de serem salgados no local em que eram pescados, mas a quantidade de sal necessária para salgar a carne bovina era maior e o sal era caro e nem sempre era abundante nas zonas de pecuária, mais distantes das cidades).

Uma carne muito apreciada era a de arganaz, uma espécie de roedor europeu parecida com o esquilo.

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Anfitriões abastados gostavam de impressionar os convidados com pratos exóticos, tanto pelo tipo de animal servido, como pela apresentação do prato.  Línguas de pavões, tetas de porca confeitadas recheadas com ouriços-do-mar salgados (aperitivos), papagaios assados, flamingo cozido com passas,  arganaz recheado com porco e pinhões, são pratos citados na literatura antiga.

Como curiosidade, transcrevemos duas receitas romanas extraídas de dois famosos compêndios da Antiguidade:

1 -Salada “Columella”: Coloque no moedor menta, arruda, coentro, salsinha, alho-poró fatiado, ou, caso não tenha, cebola, folhas de alface e de rúcula, tomilho verde, ou hortelã. E também poejo e queijo feta fresco. Amasse tudo junto, despeje vinagre condimentado e agite. Coloque a mistura em um prato e despeje azeite (Columella, Re Rustica, XII, LIX)

2 – Avestruz Cozido: Ingredientes: Pimenta, menta, cominho frito, semente de aipo, passas ou tâmaras, mel, vinagre, vinho passificado, garum, azeite. Coloque tudo na panela e cozinhe. Envolva com farinha de espelta, despeje sobre as peças de avestruz (já cozidas) em uma travessa com pitadas de pimenta. Se desejar cozinhar o avestruz no molho, adicione trigo selvagem (Apicius, De Re Coquinaria, 212).

Coquetel depois do jantar

Depois da sobremesa, um banquete que se pretendesse longo evoluiria para uma fase de degustação de vinhos, em variadas formas, chamada de comissatio (valendo observar que nos banquetes romanos, ao contrário dos symposia gregos, o vinho era servido já durante a refeição).

O vinho normalmente era misturado com água ao gosto do convidado, em sua própria taça, para o qual ele se valia de uma concha, chamada de simpulum. Isso era necessário porque o processo de fermentação utilizado pelos romanos resultava em um vinho de teor alcoólico muito elevado.

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Entre os tipos de vinhos mais consumidos estava o passum, um vinho doce de uvas passificadas, o muslum, que era uma mistura de vinho e mel, de origem cartaginesa, e o conditum, que era uma mistura de vinho, mel e especiarias,  envelhecida em recipientes. Segundo as recomendações, as mulheres somente deveriam consumir o passum. Uma outra forma de adoçar o vinho, relatada pelos autores antigos mas que para nós parece inacreditável, era adicionar suco de uva concentrado, aquecido em recipientes de chumbo, que adocicavam a mistura devido ao acetato presente no referido elemento.

Havia taças de vários tipos, as mais comuns sendo o scyphus e o cantharus,  de inspiração grega, que tinham duas asas para segurar.

Entretenimento

Um banquete romano suntuoso certamente terminaria com uma apresentação de músicos, flautistas, tocadores de lira e até mesmo um órgão hidráulico, que podiam acompanhar ou ser seguidos de dança, acrobacia, teatro e, em alguns casos mais extremos, uma luta de gladiadores ou exibição de feras.

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Talvez o banquete mais célebre da literatura latina seja o do fictício liberto Trimalquião, personagem da obra Satyricon, uma sátira escrita pelo autor romano Petrônio, durante o reinado de Nero, que retratava as extravagâncias de um ex-escravo novo rico.

Mito

Ao contrário da crença popular, provocar o vômito durante as refeições não era um costume romano. Na verdade, a História conta que o imperador Vitélio, um notório glutão, costumava tomar remédios para vomitar durante as refeições para que ele pudesse comer mais, mas a prática é relatada como um traço patológico de glutonaria do monarca em questão.

Na verdade, acredita-se que esse equivocado mito moderno seja derivado da palavra latina “vomitorium“, que era o nome dado aos portões de saída dos anfiteatros e estádios.

Finalizamos nosso artigo com a citação desse belíssimo texto do historiador francês Paul Veyne:

 

O muro é penhor de civilidade; o banquete é cerimônia de civilidade. Assim que se vê em suas terras, em seu caro retiro, Horácio convida uma amiga para jantar, sem dúvida uma liberta, cantora ou atriz conhecida. Pois o banquete, para todos os usos, é a circunstância em que o homem privado desfruta do que ele de fato é e o mostra veridicamente a seus pares. O banquete tinha tanta importância quanto a vida dos salões no século XVIII e mesmo quanto a corte no Ancien Regime. Os imperadores não tinham corte; viviam em seu “palácio” na colina do Palatino, à maneira dos nobres de Roma em suas mansões. Cercados de escravos e libertos (tanto que o palácio abrigava os diferentes serviços ministeriais); mas, caída a noite, jantavam com seus convidados, que eram senadores ou simples cidadãos cuja companhia apreciavam. Acabavam-se as honras “públicas” e o “governo” do patrimônio: à noite o homem privado desabrochava no banquete; até os pobres (hoi penêtes) — ou seja, nove décimos da população — tinham suas noites de festim. O homem privado esquecia tudo durante o banquete, menos sua eventual “profissão”; um indivíduo que fez voto de consagrar a vida à busca da sabedoria não festejava da mesma forma que o profano vulgo, e sim como filósofo.

O banquete constituía uma arte. A etiqueta parece ter sido menos elaborada e rigorosa que a nossa. Em compensação, jantava-se com clientes e amigos de toda posição, tanto que a ordem de precedência era rigorosamente observada na distribuição dos leitos ao redor da mesa onde ficavam os pratos. Não havia verdadeiro festim sem leito, mesmo entre os pobres: só se comia sentado nas refeições comuns (nas casas simples a mãe de família, de pé, servia o pai à mesa). A comida nos pareceria ora oriental, ora medieval. Contém muitos temperos e molhos complicados. A carne é fervida antes de cozinhar ou assar — tanto que perde o sangue — e adoçada. A gama dos sabores favoritos situa-se no agridoce. Para beber, poderíamos escolher entre um vinho com gosto de marsala e um resinado, como hoje em dia na Grécia, todos cortados com água. “Reforça a dose”, ordena a um escanção um poeta erótico de coração partido. Pois a melhor parte do jantar, a mais longa, é aquela em que se bebe; durante a primeira metade do jantar nada se faz senão comer sem beber; a segunda parte, em que se bebe sem comer, constitui o banquete propriamente dito (comissatio). É mais que um festim: uma pequena festa, onde cada qual deve manter seu personagem. Em sinal de festa, os convivas portam chapéus de flores ou “coroas” e usam perfume, quer dizer, estão untados de óleo perfumado (desconhecendo-se o álcool, o óleo era o solvente dos perfumes): os banquetes eram suntuosos e brilhantes, assim como as noites de amor. 

O banquete era muito mais que um banquete, e esperavam–se considerações gerais, temas elevados, recapitulações de atos pessoais; se o dono da casa tem um filósofo doméstico ou um preceptor dos filhos, ordena-lhe que tome a palavra; os interlúdios musicais (com danças e cantos), executados por profissionais contratados para a ocasião, podem dar mais vida à festa. O banquete constitui uma manifestação social equivalente ao prazer de beber — ou até maior — e por isso inspirou um gênero literário, o do “banquete”, em que os homens de cultura, filósofos ou eruditos (grammatici), abordam temas elevados. Quando a sala de festim oferece desse modo um espetáculo mais de salão que de refeitório, o ideal do banquete se realiza e a confusão com um festejo popular já não é possível. “Beber” designava então os prazeres da mundanidade, da cultura, e às vezes os encantos da amizade; pensadores e poetas também podiam filosofar sobre o vinho.

(Paul Veyne, História da Vida Privada, do Império Romano ao Ano Mil, 1990. p. 181-184, Ed. Companhia das Letras)

A APOSENTADORIA EM ROMA

A APOSENTADORIA EM ROMA

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É natural que o ser humano envelheça e a velhice diminui a disposição física e traz consigo doenças e incapacidades variadas.

A paleontologia mostra que já nossos ancestrais costumavam cuidar dos indivíduos idosos, provendo-lhes alimento e abrigo. Com efeito, foram encontrados fósseis de nossos primos evolutivos Neanderthais nos quais se constatou que aqueles indivíduos não tinham capacidade sequer de mastigar o alimento, condição esta adquirida vários anos antes da morte do espécime considerado, o que tornou evidente para os cientistas que os parentes mastigavam a comida para ele.

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Nas sociedades atuais, essa característica ancestral certamente é a causa primordial da maior parte dos sistemas de aposentadoria modernos, normalmente deslocando para o Estado, mediante contribuições arrecadas da coletividade, o dever de assegurar não apenas a subsistência, mas o acesso a um padrão mínimo de consumo, aos seres humanos que não podem mais trabalhar ou já trabalharam tempo demasiado. Em voga atualmente no Brasil, devido ao projeto de Reforma da Previdência, o tema, portanto, trata de um problema bem antigo.

Em Roma, podemos perceber que o direito social à aposentadoria legalmente surge, ainda em caráter embrionário, no início do período imperial, reconhecido à classe militar.

Com efeito, o imperador Augusto instituiu o “Aerarium Militari”, como uma fonte permanente de proventos para os veteranos do Exército Romano, mediante o pagamento de pensões (praemia) aos militares que encerravam o seu tempo de serviço. (Durante a República, o usual era distribuir terras aos veteranos e assentá-los em colônias, onde, obviamente, eles continuariam trabalhando para obter o seu sustento).

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Assim, após 20 anos de serviço, o soldado romano recebia uma pensão de 12.000 sestércios, equivalente a doze anos de pagamento, valor que permaneceu estável até o reinado de Caracala, ou seja, por mais de 200 anos, quando foi aumentado para 20.000 sestércios.

Augusto também capitalizou, utilizando recursos de seu patrimônio privado (fiscus), um fundo de pensão militar no valor de 170 milhões de sestércios, o qual também recebia contribuições de reinos aliados e de cidades do Império. Logo, porém, o imperador percebeu que aquele montante era insuficiente, e foi necessário destinar um percentual de 5% do imposto sobre herança, e de 1% do imposto sobre os bens vendidos em leilão, para financiar as aposentadorias dos soldados. O fundo era administrado por 3 Prefeitos (Prefecti Aerarii militaris).

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Além da previdência pública, havia em Roma um sistema de fundos mútuos privados para aposentadorias, instituídos por indivíduos e também por várias corporações profissionais, para pagamento de aposentadorias anuais (annua) a seus beneficiários, administrados por corretores ou financistas. O célebre jurista romano Cneu Domício Ânio Ulpiano (Ulpiano) atuou como gestor de um desses fundos e é considerado o criador da primeira tabela de cálculo atuarial em função dos anos de vida dos beneficiários.

Percebe-se, assim, que dois mil anos atrás, os romanos já tinham percebido que a previdência social é, ao mesmo tempo, uma questão que deve conjugar esforços públicos e privados.

UM ESCRITOR ROMANO ESCREVEU O PRIMEIRO LIVRO DE FICÇÃO CIENTÍFICA

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Luciano de Samosata, um escritor romano de origem síria e fala grega, escreveu o que podemos considerar a primeira novela de ficção científica, com o título de “A História Verdadeira”.

Luciano nasceu na cidade de Samosata; antiga capital do reino da Comagena, anexado pelos romanos em 72 D.C.  Pouco é conhecido sobre a sua vida,  mas ele deixou cerca de 80 obras literarias, a maioria sátiras sobre os costumes e a sociedade do seu tempo. Acredita-se que ele morreu por volta de 180 D.C., em Alexandria.

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No livro, escrito durante o reinado do imperador Marco Aurélio (161-180 D.C), Luciano narra uma expedição para além do estreito de Gibraltar, na qual o navio em que ele e seus amigos viajavam foi jogado ao espaço por um ciclone, levando-os, em uma viagem de sete dias, até a Lua!

Na inovadora obra, Luciano descreve as paisagens e os seres que viviam no satélite, inclusive uma raça somente de indivíduos do sexo masculino, cujas crias nasciam das próprias pernas deles. Esses habitantes da Lua encontravam-se em guerra contra uma raça que habitava o Sol, e o motivo do conflito foi a disputa pela colonização do planeta Vênus, então chamado de “Estrela Matinal”.

Luciano, após visitar também aqueles corpos celestes, descreve em detalhe as suas paisagens, numa visão  bem diferente da crença tradicional dos antigos; que os identificavam  como deuses…

 

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A TOCANTE CARTA DE UM LEGIONÁRIO ROMANO LONGE DE CASA À FAMÍLIA

Aurelius Polion era um legionário romano que servia na Legião II Auditrix, estacionada na província da Panônia. A família de Aurelius morava na cidade egípcia de Tebtunis  (atual Umm el-Baragat), que floresceu no período ptolomaico. Portanto, assim como muitos outros habitantes da cidade, Aurelius e seus familiares deviam ser de origem grega, ou então, egípcios helenizados.

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(Ruínas de Tebtunis, Egito. A cidade era um centro do culto ao deus-crocodilo Sobek)

O nome de Aurelius, bem como a unidade e o local onde esta estava estacionada, indicam que Aurélio ou seus pais devem ter recebido a cidadania romana no reinado de Caracala, que, em sua “Constitutio Antoniniana“, estendeu a cidadania romana a todos os habitantes livres do Império Romano.

Uma carta enviada por Aurelius à sua família, escrita em grego, foi encontrada, há 115 anos, em Tebtunis, mas ela somente foi traduzida em 2012, por Grant Adamson, doutorando da Rice University. Infelizmente, faltam alguns pedaços do papiro em que a referida missiva foi escrita, causando algumas lacunas no texto, que vamos traduzir do italiano (vide https://amantidellastoria.wordpress.com/2015/02/15/lincredibile-lettera-di-un-soldato-romano-alla-famiglia/), pedindo perdão antecipadamente por qualquer erro:

Aurelius Polion, soldado da Legião II Auditrix, ao seu irmão Heron, à sua irmã Ploutou, à sua mãe Seinouphis, a padeira e senhora (?) e a tantos parentes, saudações! Rezo dia e noite para que vocês gozem de boa saúde, e ofereço sempre a todos os deuses em vosso nome. Não paro de vos escrever, mas vocês não pensam em mim. Mas eu faço a minha parte vos escrevendo sempre e não deixando de estar próximo de vocês com a mente e com o coração. No entanto, vocês não me escrevem mais para me contarem acerca da vossa saúde e de como vocês estão.. Estou preocupado com vocês, porque, tendo recebido muitas cartas minhas, não me responderam mais, assim, não posso saber como vocês (…) enquanto estava na Panônia, eu vos mandei (uma carta), mas me trataram como a um estranho (…) Fui embora (…) e vocês estão felizes? (…) o Exército eu não (…) vocês (…) para o Exército, mas eu (…) deixei vocês. vos mandei cartas (…) tentarei conseguir uma permissão do comandante e e irei até ti a fim de que tu possas entender que eu sou teu irmão (… )Não pedi nada a vocês para o Exército, mas eu os decepcionei porque embora eu vos tenha escrito, nenhum de vocês (?) (…) teve consideração(…) Vejam, vosso (?). Próximo (…) sou teu irmão. Vocês, também, respondam-me (…) escrevam-me. Cada um de vocês, mandem-me o seu (…) para mim. Saúdem a meu pai Aphrodisios e meu (?) tio (?) Atesios (…) sua filha (…) seu marido e Orsinouphis e os filhos da irmã de sua mãe, Xenphon e Ouenophis, conhecido também como Protas (…) os Aurélios (…) a carta (…) para os filhos e para Seinouphis , a padeira (…) da (?) Aurelius (?)Polion, da Legião II Adiutrix (…) da(?) Pannonia Inferior (?) (…)entregue a Acutius(?) Leon(?), veterano da legião (…) Da parte de Aurelius Polion, soldado da legião II Adiutrix, a fim de que possa enviá-la para casa.

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Como podemos ver, o veterano Acutius Leon cumpriu fielmente o seu encargo e a carta foi entregue à família de Aurelius Polion, atravessando os milhares de quilômetros que separam a Panônia do Egito.

Nós, aqui do blog “Histórias de Roma”, gostaríamos de acreditar que Aurelius tenha se reconciliado com seus familiares e que tenha podido, um dia, reencontrar seus entes queridos.

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GETTY VILLA – UMA MANSÃO ROMANA NA CALIFÓRNIA

Há poucos dias visitei a Getty Villa, uma reconstrução perfeita da Villa dos Papiros, uma mansão romana, na verdade um casa de praia de luxo, em Herculano, que foi soterrada pela erupção do Vesúvio, em 79 D.C.

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A Villa dos Papiros foi redescoberta a partir de 1758, rendendo a maior coleção de esculturas romanas já encontrada em um simples lugar. Mas o motivo pelo qual ela se tornou famosa ainda no século XVIII foi o fato de mais de 1800 rolos carbonizados de papiros terem sido encontrados no biblioteca da propriedade. Vale observar que boa parte da Villa ainda não foi escavada, entre outros motivos, pelo fato de vários quarteirões de casas atualmente ocupadas terem sido construídas sobre os detritos da erupção que cobriram a vasta área do imóvel.

O bilionário americano John Paul Getty, um aficionado pelas obras de arte da antiguidade clássica, mandou reconstruir a Villa a partir de 1954, em um terreno próximo às praias de Santa Monica, que ele tinha  na elegante região de Pacific Palisades, na Califórnia, na área metropolitana de Los Angeles,  para hospedar a sua inestimável coleção de arte antiga. Nos anos 70, a Getty Villa foi aberta à visitação gratuita pelo público (porém, o estacionamento custa 15 dólares), e faz parte da instituição do Getty Museum.

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Um inventor italiano, ainda no século XVIII, inventou uma máquina para desenrolar parcialmente e fatiar os papiros, possibilitando a leitura de boa parte dos textos. Hoje, técnicas de escaneamento de imagens aumentaram ainda mais a capacidade de revelar o conteúdo dos papiros. A maior parte das obras pertence ao filósofo epicurista Philodemos (Filodemo).

Acredita-se que a casa pertenceu a Lúcio Calpúrnio Pisão Caesoninus, que era um rico senador e sogro de Júlio César. Pisão era patrono de Filodemo, que provavelmente morou na Villa e há até um estudioso que acredita que a casa teria pertencido ao próprio Filodemo, talvez como presente de Pisão.

Getty mandou acrescentar ao projeto da reconstrução, ambientes de outras ruínas antigas, como por exemplo, uma reprodução de uma fonte de uma casa de Pompéia. Houve uma cuidadosa reconstituição do paisagismo original da Villa dos Papiros em Herculano, baseada nos vestígios de plantas e sementes carbonizadas encontradas “!in situ” pelos arqueólogos.Também foram colocadas nos mesmos lugares onde se encontravam no imóvel original, reproduções das esculturas de mármore e bronze encontradas na casa em Herculano, que hoje se encontram no Museu Nacional de Nápoles.

Eu recomendo muito a visita à Getty Villa para todos os amantes da História de Roma e apreciadores da Antiguidade Clássica em geral, mas também como atração turística, pela beleza do lugar.

Veja o vídeo em https://youtu.be/ByRSRfCvpq0

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O ESPORTE NA ROMA ANTIGA

 

O ESPORTE NA ROMA ANTIGA

Durante os próximos 30 dias, a bola será o centro do mundo e muitos discutem a paternidade do futebol, havendo até uma tese de o jogo teria suas raízes em um antigo esporte romano.

 

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Mens Sana in Corpore Sano”. Quase todo mundo conhece essa expressão de origem romana que significa “Uma mente sã, em um corpo sadio” e imediatamente a identifica como uma exortação à necessidade de se cultivar, ao mesmo tempo, o intelecto e o físico. Trata-se, na verdade, de um verso do grande poeta romano Juvenal, que inclui a boa saúde física e mental como uma das bençãos que se deve pedir aos deuses, preferivelmente a uma vida longa, mas sem virtude.

Ao longo dos séculos, porém, a frase de Juvenal acabou adquirindo o caráter de lema romano pela prática de esportes. É com ela, portanto, que iniciamos nosso texto sobre a atividade esportiva em Roma.

Inicialmente, enquanto era apenas uma Cidade-Estado que se expandia pela Itália e pelo Mediterrâneo Ocidental, no período republicano, a prática de esporte em Roma era valorizada apenas como forma de treinamento militar para os jovens cidadãos. Havia um espaço na cidade, o Campo de Marte, onde eram feitas as manobras das legiões e onde os jovens podiam se exercitar no arco, na equitação e na esgrima, entre outras atividades. Porém, naquele tempo, o esporte por esporte não fazia parte da formação da criança e do jovem romano, ao contrário do que ocorria nas cidades-estado gregas.

O fato é que a elite romana, durante muito tempo e ainda no limiar do Império, julgava que exibir-se em público praticando qualquer atividade esportiva que não fosse ligada às artes militares era algo degradante e indigno de um patrício. Por outro lado, o grosso do exército era formado por pequenos agricultores livres, que, certamente, já praticavam bastante exercício físico na dura lida cotidiana do semeio, cultivo e colheita.

Assim, somente quando aumenta o contato direto dos romanos com a civilização grega, no sul da Itália e, sobretudo após a conquista de territórios na Grécia, no século II A.C, é que o esporte, em conjunto com outras manifestações culturais gregas, como o teatro, a filosofia, as artes,e a própria língua grega, passam a ter grande influência na elite romana (“a Grécia cativa cativou Roma”).

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A partir de então, os nobres, em suas villas (propriedades rurais de luxo), construíram espaços privados para a prática de ginástica e atletismo (gymnasia e palestrae). Note-se, porém, que, no início, os romanos viram com maus olhos o atletismo à moda grega, sobretudo porque os atletas se exercitavam e competiam completamente nus. Por isso, algumas leis tentaram proibir membros da aristocracia romana de competirem em público.

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Em 186 A.C., pela primeira vez, jogos públicos incluindo exibição de atletas são organizados pelo cônsul Marcus Fulvius Nobilior, em comemoração à sua vitória contra a Liga Etólia, na Grécia. Nobilior era um grande entusiasta da cultura grega, uma civilização em que os atletas profissionais eram admirados e, por isso, ele resolveu trazer a novidade para Roma.

As competições de atletismo compreendiam as seguintes modalidades: corrida, luta-livre (wrestling – hoje conhecida como luta greco-romana), pugilismo (boxe), pentatlo (que abrangia as modalidades de salto em distância, corrida, lançamento de disco, lançamento de dardo e luta-livre) e pancration (uma luta que pode ser comparada ao nosso “vale-tudo”, agora internacionalizada como MMA).

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Já no fim da República, as termas, ou banhos públicos, começam a proporcionar, além das piscinas e saunas, espaços adjacentes com palestras, ou seja, espaços abertos cercados por colunatas, destinados à prática de exercícios físicos. Nas termas, também havia piscinas específicas para a prática de natação (chamadas de natatio). Em seguida, muitas termas também passaram a dispor de espaços para jogos com bola, chamados de sphaerista, pois, além do atletismo e das lutas, os romanos importaram da Grécia uma série de jogos com bola (pila, em latim).

Entre os jogos com bola mais populares estava o Harpastum, cujo nome derivava do grego harpaston, que significa “capturar” ou “tomar”. Esse jogo também era chamado pelos romanos de “jogo com a bola pequena”. Essa bola pequena e dura, que não quicava, era chamada de harpasta (havia outros jogos com bolas maiores, parecidas com a do nosso futebol, que eram infladas e quicavam (ex: follis).

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O Harpastum, segundo o retórico e gramático Athenaeus, que escreveu sobre muitos costumes do mundo greco-romano no século II D.C, era o nome que os romanos davam ao jogo que os gregos também chamavam de Phaininda.

Não se sabe com exatidão qual eram as regras do Harpastum, mas todos os textos que foram preservados mencionando o jogo levam a crer que era muito parecido com o rúgbi. Era, com certeza, um jogo jogado com as mãos, em um campo grande, provavelmente de terra ou às vezes areia e de formato retangular, não muito menor do que um campo de futebol moderno, dividido ao meio por uma linha. Talvez houvesse versões do jogo, variando o número de jogadores de 5 a 12 em cada um dos dois times oponentes. As descrições mencionam um jogador recebendo a bola e fazendo passes para os companheiros de time, com os adversários tentando interceptar. A marcação era dura e os adversários eram jogados no chão. Porém, o objetivo era penetrar no campo adversário e capturar a bola, daí resultando, talvez, o nome que foi dado à pelota.

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Fizemos questão de escrever sobre o Harpastum , nesta semana da abertura da Copa do Mundo, porque há um teoria de que este jogo seria o ancestral do nosso futebol. Sabe-se que os soldados romanos praticavam muito o Harpastum, porque, além de envolver muito esforço físico, o jogo servia também como treinamento estratégico e tático. E as legiões romanas teriam levado o jogo para todos os cantos do império, inclusive a Britânia. Após a Queda do Império Romano, o Harpastum teria evoluído em diversas regiões que se tornariam os futuros países da Europa, e seria o provável ancestral do La Soule, um jogo com bola que surgiu na Normandia, França, e também do ancestral inglês do rugby e, a partir deste último, do football association, o nosso futebol.

Não obstante, os romanos certamente jogavam algum jogo que envolvia chutar uma bola, pois Cícero nos conta acerca de um curioso caso forense envolvendo a morte de um cliente que tinha ido cortar o cabelo em uma barbearia e ali foi morto por causa de uma bola chutada por crianças que jogavam na rua, sendo que a bola bateu na mão do barbeiro no exato momento em que este usava a navalha no pescoço da infeliz vítima!

Se os romanos não foram muito criativos na invenção de esportes, adotando quase todos os que conheciam de outros povos, no entanto, ninguém pode tirar-lhes os louros de terem inventado a indústria do esporte como entretenimento.

Desde os primórdios, havia em Roma jogos públicos para o entretenimento do povo romano (ludi). Esses jogos tinham um nítido propósito religioso, pois integravam festividades em homenagens às diversas divindades adoradas pelos romanos. Não se tratavam, assim,  propriamente, portanto, de competições esportivas, mas sim de exibições que buscavam o espetáculo e a diversão. Com efeito, pelo menos desde 366 A.C., o calendário romano incluía dias feriados chamados de ludi romani (jogos romanos), patrocinados pelo Estado.

Em Roma, o principal espaço para a realização dos ludi era o Circo Máximo, cuja pista existe até hoje. A principal modalidade esportiva praticada ali eram as corridas de bigas e quadrigas (carruagens puxadas por dois ou quatro cavalos), chamadas de Ludi Circensis. Se o leitor quiser ter uma ideia de como elas deviam ser, é só assistir ao filme “Ben-Hur”, em que provavelmente foi encenada a melhor reprodução cinematográfica de uma corrida de quadrigas. Júlio César reconstruiu o Circo Máximo, dotando-o de arquibancadas permanentes revestidas de mármore.

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Como o número de espectadores é o melhor termômetro para se medir qual esporte é o mais apreciado, sem dúvida esse título em Roma vai para as corridas de quadrigas, pois o Circo Máximo tinha capacidade para, pelo menos, 250 mil espectadores!

As corridas consistiam em 7 bigas ou quadrigas darem 7 voltas por toda a extensão da pista de 650 m de comprimento que circundava uma plataforma em forma de “U” bem alongado, chamada de “spina”, ganhando a que chegasse em primeiro. Havia na spina uma espécie de placar marcando o número de voltas e o número da quadriga que estava liderando, consistindo os marcadores  em esculturas de 7 ovos e de 7 golfinhos que eram giradas conforme a situação se desenvolvia.

Mosaico del circo MCGR 2285 by QuartierLatin1968 - Own work. Licensed under CC BY-SA 3.0 via Commons - httpscommons.wikimedia.orgwikiFileMosaico_del_circo_MCGR_2285.jpg#mediaFileMosaico_

Os romanos eram tão apaixonados pelas corridas de bigas que as equipes e respectivos apoiadores logo se dividiram em 4 facções: os Vermelhos, Brancos, Verdes e Azuis. Com o tempo, essas facções evoluíram para representarem não apenas as corridas, mas cultos religiosos, bairros da cidade e, finalmente, agrupamentos políticos. E essas facções perduraram não somente em Roma,  mas permaneceram em existência durante o Império Romano do Oriente, em Constantinopla, também chamado de Império Bizantino. A famosa revolta “Nika”, em 532 D.C, que tentou destronar o Imperador Justiniano, começou com um conflito urbano promovido pelas facções rivais dos Azuis e dos Verdes. Constantinopla, como muitas cidades romanas, também tinha o seu hipódromo, cujas ruínas podem ser vistas ainda hoje. Estima-se que a sua capacidade era de 80 mil lugares.

A história registra vários episódios de devoção ou fanatismo esportivo pelas corridas de bigas. Os escritores faziam questão de registrar as estatísticas esportivas. Consta que o auriga (condutor de carruagens) mais bem sucedido foi Gaius Appuleius Diocles que venceu 1.462 corridas de um total de 4.257 disputadas, ganhando um total de 35.863.120 sestércios, soma que, estima-se, equivaleria hoje a 15 bilhões de dólares, o que o tornaria o esportista mais bem pago de todos os tempos! Diocles aposentou-se com 42 anos, após 24 anos de carreira (conforme matéria publicada no jornal Daily Telegraph (vide https://www.telegraph.co.uk/news/newstopics/howaboutthat/7942699/Wealth-of-todays-sports-stars-is-no-match-for-the-fortunes-of-Romes-chariot-racers.html).

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Os ludi foram imediatamente utilizados pelos imperadores como forma de propaganda política e manipulação de massas. Desde o início do Principado, os espetáculos aumentavam em número e suntuosidade. As lutas de gladiadores, costume que os romanos adquiriram dos etruscos, utilizados em cerimônias fúnebres privadas, passaram a integrar os jogos públicos, oferecidos e custeados pelos cônsules e pelo próprio imperador. Não vamos tratar, aqui, dos detalhes relativos aos combates na arena, uma vez que, em nossa opinião, a prática não se enquadra como esportiva.

O uso dos jogos como ferramenta de controle das massas pelos imperadores romanos, em conjunto com a distribuição gratuita de alimentos (anonna), gerou a célebre expressão “Pão e Circo”,  também cunhada por Juvenal, por volta do ano 100 D.C. A sua análise foi tão profunda, que merece ser citada na íntegra :

Já por muito tempo, desde quando nós não vendíamos o nosso voto para apenas uma pessoa, o povo romano tem abdicado das nossas obrigações; pois ele, que, anteriormente, distribuía os comandos militares, os altos cargos públicos, as legiões, tudo, enfim; agora se auto-restringe e, ansiosamente, espera somente duas coisas: Pão e circo!” (Sátiras, X, 77-81).

Com a advertência de Juvenal, encerramos nosso artigo sobre o Esporte em Roma, esperando que tenham gostado.