CLÁUDIO II GÓTICO

CLÁUDIO II GÓTICO

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(Busto de bronze do imperador Cláudio II Gótico, foto de Ronan.guilloux/gallery )

Marcus Aurelius Valerius Claudius (Cláudio II Gótico) nasceu em 10 de maio de 214 D.C , na região da Dardania, que fazia parte das províncias romanas da Ilíria e Moésia Superior.

Claudio era de origem humilde e o seu prenome denota que, provavelmente, ele foi um dos homens livres nascidos depois do Édito de Caracala, que estendeu a cidadania romana a todos os homens livres do Império Romano (Caracala se chamava Marco Aurélio Antonino Augusto). Acredita-se, assim, que a família de Cláudio seria de Ilírios recentemente absorvidos, e apenas parcialmente romanizados, que, como muitas outras famílias romanas do período, demonstrou o seu agradecimento dando o nome do benfeitor aos filhos.

De qualquer forma, como muitos dos seus conterrâneos Ilírios durante o século III, Cláudio alistou-se no Exército Romano e foi sendo promovido em virtude do seu desempenho. Consta que ele era dotado de tamanha força física que era capaz de arrancar os dentes não apenas de homens, mas também de bestas de carga, como cavalos e mulas, com apenas um soco.

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(O relevo deste sarcófago romano de meados do século III D.C, mostra romanos combatendo bárbaros, possivelmente Godos, tanto a aparência dos soldados como dos bárbaros é bem estilizada, porém o soldado retratado na fileira do meio no canto direito pode ser considerado uma reprodução fidedigna de um soldado da época em que Cláudio serviu ao Exército)

Durante o reinado do imperador Décio Trajano, também ele um natural da Ilíria (porém, este era um integrante da classe senatorial), Cláudio alcançou o posto de Tribuno Militar e, no reinado do imperador Valeriano, ele foi promovido para um importante comando militar em sua província nativa.

Contudo, Valeriano foi capturado pelos persas em 260 D.C. (E ele morreria no cativeiro). O trono, então, foi assumido por seu filho Galieno. Durante o reinado deste último, Cláudio foi nomeado “Hipparchus”, isto é,  comandante da cavalaria de elite dos Comitatenses, recém criada por Galieno.

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Em 268 D.C, o reinado de Galieno se encontrava acossado por várias ameaças externas e internas: Quase toda a Gália, a Espanha e a Bretanha eram controladas pelo usurpador Póstumo, e estas províncias tinham se tornado, na prática, independentes, sob a denominação de “Império Gaulês“. No leste, o rei de Palmira, Odenato, conseguiu derrotar os persas e restaurar a Síria para os romanos, mas tornou-se o governante de fato da região e virtualmente independente de Roma, com a tolerância de Galieno. Para piorar, nas regiões do Danúbio e do mar negro, pipocavam invasões de “Citas” (que era como os autores do período costumavam se referir aos Godos) e dos Hérulos.

Galieno lutou bravamente contra o Império Gaulês e os bárbaros, obtendo sucesso parcial. Ele conseguiu derrotar Póstumo e reconquistar parte da Gália até o Rio Ródano, mas, durante um sítio a uma cidade, o imperador foi ferido e teve que abandonar a campanha.

Após se recuperar, Galieno foi impedido de combater os Hérulos devido a um motim liderado pelo comandante de cavalaria Aureolus, em Milão.

Enquanto se preparava para combater Aureolus, em setembro de 268 D.C, Galieno foi morto por seus próprios homens, em uma conspiração até hoje obscura. Muito provavelmente, foram os comandantes mais importantes do Exército, como o general (e futuro imperador) Aureliano, o Prefeito Pretoriano Heracliano, o poderoso general Lúcio Aurélio Marciano, e, talvez, o próprio Cláudio, todos eles militares de origem ilíria, que decidiram que era hora de se livrar do desafortunado Galieno.

Alguns autores acreditam que Cláudio foi escolhido imperador pelo fato de ser admirado pelos soldados como um colega oriundo da tropa que dera provas de valentia e força. Outro motivo, seria a suposta percepção de que Cláudio, ao contrário de Aureliano, que era outro candidato em potencial,  seria menos rígido no que se refere à disciplina militar.

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(Antoninianus, moeda cunhada por Cláudio II, foto de Rasiel )

A  contestada História Augusta assevera que Cláudio não participou do complô contra Galieno e que foi este quem nomeou-o sucessor em seu leito de morte, mas muitos historiadores põem isto em dúvida, tal como Procópio, que escreveu sobre o período e menciona a participação de Claudio na trama. Acrescente-se, ainda, que a História Augusta notoriamente faz uma apologia da dinastia de Constantino, época em que a mesma foi escrita, e que Constantino alegava ser descendente de Cláudio, motivo pelo qual o seu autor tenderia a “dourar a pílula” dos relatos relativos a este último.

Não obstante, consta que Cláudio realmente mostrou uma índole branda ao pedir ao Senado que os familiares e partidários do odiado Galieno fossem poupados e, inclusive, ele mesmo solicitou ao Senado que o finado imperador fosse deificado. Após sua coroação, Cláudio passou a se chamar oficialmente Marcus Aurelius Valerius Claudius Augustus.

Em seguida, Cláudio sitiou Milão com o objetivo de capturar Aureolo, que se rendeu, mas foi executado pela traição a Galieno.

Porém, Cláudio teve que lidar com a muito mais ameaçadora invasão dos bárbaros Alamanos, que cruzaram os Alpes e entraram no norte da Itália.

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Na Batalha do Lago Benaco (atual Lago Garda), no final de 268 ou início de 269 D.C, os Alamanos foram derrotados, perecendo metade da força invasora no combate. Por essa vitória, Cláudio recebeu o título de “Germanicus Maximus”.

A cronologia dos eventos é incerta, mas mais ou menos na mesma época, Cláudio infligiu uma esmagadora derrota aos Godos, que haviam invadido o Império no reinado de Galieno. Parece que essa campanha foi iniciada por Galieno e não se sabe com certeza se foi Cláudio ou Galieno quem reinava durante a decisiva Batalha de Naissos (atual Nîs, na Sérvia), onde os romanos esmagaram os Godos.

De qualquer forma, Cláudio certamente eliminou os últimos remanescentes da invasão e derrotou uma grande invasão naval dos Godos e capturando muitos deles, que foram incorporados ao Exército.

Entendemos que foi realmente Cláudio quem derrotou os Godos em Naissos, pois ele passou à História com o cognome “Gótico“, sem que houvesse contestação pelos historiadores contemporâneos. Além do mais, dificilmente o vencedor de tão importante vitória seria assassinado semanas ou meses após tão retumbante sucesso, como vimos que ocorreu com Galieno.

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(Mapa das invasões dos Godos durante o final do reinado de Galieno e o reinado de Cláudio II, mapa da lavra de Dipa1965)

Essa vitória foi tão importante que somente um século depois os Godos voltariam a ameaçar para valer o Império Romano. O general Aureliano teve importante participação como comandante da cavalaria romana na batalha, onde foi destruído e capturado o “laager“, o círculo defensivo de carroças tradicionalmente usado como reduto pelos Godos, formação que, na futura Batalha de Adrianópolis, cem anos mais tarde, seria fundamental para a vitória dos bárbaros.

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Cláudio II Gótico então voltou sua atenção para o Império Gaulês e enviou o general Júlio Placidiano para o sul da Gália, onde conseguiu restaurar a Hispânia e o leste do vale do Ródano para o domínio romano.

Porém, em 269 D.C, a viúva de Odenato, a poderosa Zenóbia, rompeu com o Império Romano e atacou com sucesso a Síria e o Egito. Acredita-se que Cláudio chegou a mandar uma força para contra-atacar a invasão de Zenóbia , mas a expedição teria sido derrotada.

Sem condições de intervir mais decisivamente no Oriente, devido a uma nova invasão no Ocidente, agora dos Juthungi, na Rétia, e dos Vândalos, na Panônia, Cláudio, após partir para Sirmium, para enfrentar os últimos, contraiu uma peste, provavelmente varíola, doença que teria sido introduzida no território do Império pelos Godos, e morreu em janeiro de 270 D.C, aos 59 anos de idade, sendo sucedido por Aureliano.

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(Mapa do Império Romano no final do reinado de Cláudio II Gótico, imagem de historicair)

A carreira e reinado de Claudio Gótico são emblemáticos da era dos chamados imperadores-soldados, da segunda metade do século III D.C, todos oriundos dos povos ilírios de índole guerreira,  e que culminou com o reinado de Diocleciano, que, após reformas administrativas, fiscais e militares, conseguiu estabilizar a situação do Império, interna e externamente.

Os imperadores-soldados ilírios, notadamente Cláudio e Aureliano, foram cruciais para construir o terreno sobre o qual Diocleciano reestruturaria o Império Romano. Por isso, todos eles foram responsáveis por garantir a sobrevivência do Império Romano por mais 200 anos, após a crise do século III. Sem eles, a História da humanidade certamente seria muito diferente.

MARCO AURÉLIO – O IMPERADOR-FILÓSOFO

Em 26 de abril de 121 D.C., nasceu, em Roma, Marcus Annius Verus (Marco Aurélio), filho de Marcus Annius Verus (III) e Domitia Lucilla, a Jovem.

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Por parte de pai, Marco Aurélio era integrante de uma distinta família da classe senatorial, originária da Hispânia, mais especificamente da cidade de Ucubi, próximo à Corduba (Córdoba), região que enriquecera graças à plantação de oliveiras e produção de azeite. O seu bisavô, também chamado Marcus Annius Verus (I), chegou até a ser Pretor e Senador. Mas a família ascendeu mesmo a partir da chegada de seu conterrâneo Adriano ao trono, em companhia de outras famílias aristocráticas daquela província, que, em sua grande maioria tinham parentesco, consanguíneo ou por afinidade, com o referido imperador e também com o seu antecessor, Trajano.

Acredita-se que a família de Marco Aurélio fosse um ramo da  originalmente plebeia gens Annia, de Setia (atual Sezze), no Lácio,  cidade fundada pelo povo itálico dos Volscos  e que se tornou colônia de Roma em 382 A.C. Os Ânios  devem ter chegado ao Senado no final do século III A.C. e, no século seguinte, alguns de seus membros conseguiram ser eleitos Cônsules, a mais alta magistratura da República Romana.

O avô de Marco Aurélio, igualmente de nome Marcus Annius Verus (II), foi nomeado Cônsul Suffectus (isto é, substituto ou extraordinário) para o ano de 97 D.C., ainda durante o reinado de Trajano. Annius Verus era amigo pessoal do imperador Adriano e, graças a isso, ele foi nomeado Prefeito de Roma e, por duaz vezes, Cônsul ordinário, nos anos de 121 e 126 D.C.

Já  a mãe de Marco Aurélio, Domitia Lucilla, era filha de Publius Domitius Calvisius Tullus Ruso e de Domitia Lucilla, a Velha, esta, por sua vez, filha adotiva de Lucius Catilius Severus, que foi Cônsul nos reinados de Trajano (110 D.C.) e Adriano (120 D.C.).

Domitia Lucilla era uma mulher riquíssima, que herdou de sua mãe um grande complexo de olarias e fábricas de tijolos nas cercanias de Roma, as quais forneceram boa parte dos tijolos para a construção de grandes monumentos tais como o Coliseu, o Mercado de Trajano e o Pantheon.

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(um dos tijolos da fábrica dos Domitii, como diz a estampa)

Marcus Annius Verus (III) e Domitia Lucilla, a Jovem também tiveram, por volta de 122 D.C, uma filha, que recebeu o nome de Annia Cornificia Faustina.

Quando Marco Aurélio tinha apenas três anos, o pai dele morreu e ele passou ao pátrio poder do seu avô, que passou a criá-lo. Não obstante, apesar de pouco ter convivido com o  pai, anos mais tarde, em sua obra “Meditações“, Marco Aurélio escreveria que, através das memórias e da reputação paterna, aprendeu com ele a ter “modéstia e hombridade”.

Igualmente, no que se refere à mãe, Domitia Lucilla, Marco Aurélio menciona que ela lhe ensinou a ter “devoção religiosa e simplicidade na dieta” e a “evitar as manias dos ricos”.

Efetivamente, Marco Aurélio nasceu em um ambiente de afluente riqueza, crescendo na elegante casa de seus pais, no Monte Célio, bairro aristocrático de Roma coalhado de mansões. Em seus escritos, ele se refere carinhosamente ao bairro como “Meu Célio”.

Caelian_Hill foto de Roundtheworld(Panorama do Monte Célio, em Roma)

Ao avô, Marco Aurélio também se mostra agradecido, por lhe ter ensinado  a ter “bom caráter e evitar o mau gênio”

Como bom jovem aristocrata romano, a educação básica de  Marco Aurélio, dos sete aos onze anos, ficou a cargo de tutores, sabendo-se que dois deles se chamavam Euphoric e Geminus.

Com doze anos, a educação de Marco Aurélio passou para dois grammatici, e ele também foi introduzido ao estudo de ciências e artes, sob a responsabilidade de Andros, um professor de geometria e música, e de Diognetus, um mestre de pintura e professor de filosofia. Este último teve grande influência sobre Marco Aurélio, ensinando-o a pensar filosoficamente, a não acreditar em superstições ou dar atenção exagerada aos esportes de luta. Influenciado pelas lições de Diognetus, que parece ter sido estoico, Marco Aurélio adotou, ainda adolescente, o costume de se vestir como um filósofo grego e até o de dormir no chão, para o desespero de sua mãe.

Deram continuidade à educação de Marco Aurélio os tutores Alexandre de Cotiaeum, Trosius Aper e Tuticius Proculus, os dois últimos, professores de latim. Vale citar que Alexandre era o maior especialista romano em Homero e, segundo o próprio Marco Aurélio, ele o ensinou a dar ênfase ao conteúdo sobre o estilo.

Com apenas seis anos de idade, Marco Aurélio foi incluído na Ordem Equestre, o segundo nível da nobreza romana, por ordem do imperador Adriano. Segundo as fontes, este imperador sempre simpatizou com Marco Aurélio, e assegurou ao menino a participação em vários postos prestigiosos para a juventude aristocrática romana, como o colégio de sacerdotes juvenis dos “Sálios”.

De fato, Adriano costumava chamar Marco Aurélio de “Verissimus“, em uma brincadeira com o nome do menino (que, então, ainda se chamava “Marcus Annius Verus), que” significa “muito verdadeiro” e “confiabilíssimo”.

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Depois de ficar um longo período afastado de Roma, viajando, Adriano retornou à Cidade em 135 D.C. Porém, no ano seguinte, ele ficou muito doente e, após uma crise de hemorragia, achando que ia morrer, consciente do fato que não tinha filhos, Adriano adotou como herdeiro Lucius Ceionus Commodus, que passou a se chamar Lucius Aelius Caesar.

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(Busto de Lucius Aelius Caesar, foto de Jastrow)

Naquele mesmo ano de 136 D.C., Marco Aurélio assumiu a “toga virilis“, veste que simbolizava a sua chegada à idade adulta. Como prova da estima e do favor que o rapaz gozava junto ao imperador, Adriano arranjou o casamento de Marco Aurélio com Ceionia Fabia, filha de Lucius Ceionus Commodus (Lucius Aelius Caesar), o herdeiro imperial.

Contudo, em 1º de janeiro de 138 D.C., Lucius Aelius Ceasar morreu subitamente de hemorragia (é bem possível que estivesse grassando alguma febre hemorrágica na região).

Necessitando de um novo herdeiro, Adriano, no dia 24 do mesmo mês, escolheu oficialmente Titus Aurelius Fulvus Boionius Arrius Antoninus (Antonino Pio) como seu sucessor, com a condição de que este, por sua vez, adotasse Marco Aurélio e Lúcio Vero (filho de Lucius Aelius Caesar), como seus herdeiros. Em virtude dessa adoção por Antonino, Marco Aurélio passou a se chamar Marcus Aelius Aurelius Verus.

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(Busto de Antonino Pio)

Note-se que Antonino era casado com Annia Galeria Faustina (Faustina, a Velha), tia de Marco Aurélio, que era sobrinha da imperatriz Vibia Sabina, esposa de Adriano.

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(Busto de Faustina, a Velha)

Em 10 de julho de 138 D.C., Adriano faleceu em Baiae, um balneário chique na costa da Campânia, após uma prolongada agonia. A sua sucessão foi tranquila e Antonino assumiu imediatamente o trono, mantendo os principais magistrados e auxiliares de Adriano nos cargos, e tranquilizando o Senado Romano de que os seus privilégios seriam respeitados.

A posição do jovem Marco Aurélio, que naquele momento tinha apenas 17 anos, foi reafirmada pelo fato da Antonino ter pedido que ele rompesse o compromisso com Ceionia Fabia e se comprometesse a casar-se com a filha dele, Annia Galeria Faustina Minor (Faustina, a Jovem), o que foi prontamente aceito.

Faustine_la_Jeune_01(Busto de Faustina, a Jovem)

 

No início do pacífico e estável reinado de Antonino Pio, Marco Aurélio continuou seu aprimoramento intelectual tornando-se aluno de Marco Cornélio Frontão, um famoso gramático, retórico e advogado, que se tornaria um de seus amigos mais íntimos e era considerado um dos maiores oradores romanos. A correspondência entre Marco Aurélio e Frontão foi preservada e é muito útil para demonstrar a evolução do pensamento do primeiro e o ambiente no círculo imperial.

Marco Aurélio também estudou com Herodes Ático, um influente e riquíssimo aristocrata ateniense, que também era um reconhecido filósofo sofista e foi convidado por Antonino para residir em Roma, com o propósito específico de ser professor dos herdeiros Marco Aurélio e Lúcio Vero. Outro importante integrante do círculo de professores de Marco Aurélio foi o filósofo grego Apolônio de Calcedônia, com quem ele se aprofundou no estudo do Estoicismo.

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(Busto de Herodes Ático)

O treinamento público de Marco Aurélio para suceder Antonino começou assim que este assumiu o trono. De fato, ainda com 18 anos de idade, o jovem herdeiro passou a participar das reuniões do Conselho Imperial. Em 140 D.C, Marco Aurélio, foi nomeado Cônsul pela primeira vez, e, novamente, em 145 D.C.

Neste mesmo ano, ele se casou com Faustina, a Jovem. Curiosamente, como Marco Aurélio era filho adotivo de Antonino, tratava-se, legalmente, de uma união incestuosa com a sua irmã. Assim, foi preciso que Antonino revogasse expressamente o seu pátrio poder sobre o noivo, para que o casamento pudesse se realizar.

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(O jovem Marco Aurélio, em uniforme de general)

Vale citar que o casamento de Marco Aurélio e Faustina, a Jovem seria um dos mais prolíficos, senão o mais fértil, dentre todos os casamentos imperiais da História de Roma. Eles teriam treze filhos, nascidos no decorrer de vinte e três anos! A primeira filha, Antonina Faustina, nasceu em  30 de novembro de 147 D.C. Contudo, a maioria dessa prole morreria na infância, de doenças variadas. Porém, em 31 de agosto de 161 D.C., durante os primeiros meses do futuro reinado de Antonino, nasceu Lucius Aurelius Commodus (Cômodo), que sucederia o pai no trono.

Embora Lúcio Vero também estivesse recebendo educação esmerada, tudo indica que Antonino considerava Marco Aurélio a opção preferencial para ser o sucessor dele, ou talvez, um “herdeiro-sênior”. Com efeito, em 146 D.C., Marco Aurélio recebeu o “Poder Tribunício” e o “Imperium Proconsular“, atributos que somente o Imperador podia deter.

Em 160 D.C., ficou claro que a saúde de Antonino Pio, aos 70 anos de idade, estava ruim. Naquele ano, Marco Aurélio e Lúcio Vero foram nomeados Cônsules.

No ano seguinte, em 07 de março de 161 D.C, em sua propriedade familiar situada em Lorium, na Etrúria, Antonino Pio convocou o Conselho Imperial e comunicou-lhes que entregava o Império e sua filha a Marco Aurélio. Horas depois, o imperador faleceu.

Novamente, a sucessão foi pacífica. Notavelmente, Marco Aurélio, ao receber todos os títulos, poderes e honrarias imperiais, solicitou ao Senado que Lúcio Vero, respeitando a vontade de Adriano, também deveria ser aclamado Imperador, o que foi obedecido.

Marco Aurélio manteve o costume de dar um donativo à Guarda Pretoriana, quando da ascensão de um novo imperador. Porém, a gratificação foi o dobro do que tinha sido dado em ocasiões anteriores, já que formalmente eram dois os príncipes que ascenderam ao trono.

Todavia, embora a Guarda tenha se mantido fiel durante o seu longo reinado, no futuro, a ganância dos Guardas em assegurar novos donativos seria causa de inúmeros assassinatos de imperadores. Assim, se por um lado podemos conjecturar  que Marco Aurélio tenha sido sábio em agradar a Guarda e assegurar a fidelidade dos soldados, por outro lado não é absurdo pensar que ele pode, impensadamente, ter estimulado futuras e reiteradas conspirações deles.

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(Busto de Lúcio Vero)

Logo no início do seu reinado, Marco Aurélio teve que desvalorizar o denário, reduzindo o percentual de prata na moeda. Não se sabe o motivo exato, mas é possível isso tenha sido causado pela necessidade de fazer frente aos crescentes gastos com campanhas militares.

Com efeito, desde o princípio, o reinado de Marco Aurélio seria afligido pela necessidade de travar guerras quase contínuas nas fronteiras, e, em pouco tempo, por uma terrível peste.

Os antigos acreditavam que os Deuses se divertiam com as agruras humanas e, depois de vinte anos de reinado calmo e pacífico de Antonino Pio, agora o Império Romano seria governado por um imperador adepto do Estoicismo, corrente filosófica que acreditava que a virtude era a única fonte de felicidade e que, por isso,  o homem-sábio deveria suportar as adversidades e tentar fazer aquilo que era o seu dever. E isso foi justamente o que Marco Aurélio nunca deixou de fazer enquanto imperador.

Ainda durante os últimos dias do reinado de Antonino Pio, o rei Vologeses IV, da Pártia, havia invadido a Armênia, que então era um reino-cliente de Roma, depondo o monarca e instalando no trono um aliado seu, Pacorus, no que constituía um evidente ato de hostilidade ao Império Romano. O governador da Síria, Severianus pensou que podia conter sozinho a ameaça e invadiu a Armênia, mas ele acabou sendo derrotado e morto pelo exército Parta, que dizimou a IX Legião Hispana. Naquela ocasião, Marco Aurélio já tinha assumido o trono.

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(Este grafito de um catafracto, um cavaleiro couraçado, o principal elemento das tropas do Império Parta, foi encontrado na cidade de Dura-Europos)

Diante da seriedade da ameaça, Marco Aurélio resolveu mandar seu colega Lúcio Vero em pessoa para assumir nominalmente o comando do Exército Romano na região, bem como dos reforços que foram enviados para a província ameaçada. Observe-se que, embora Lúcio Vero não tivesse qualquer experiência militar, a sua presença em Antióquia, que seria o quartel-general das operações, era uma afirmação imperial da importância da campanha.

Assim, Lúcio Vero, que, diga-se de passagem, durante a guerra pareceu mais preocupado em desfrutar os prazeres de Antióquia, estava assessorado pelos melhores generais de Roma, incluindo Avídio Cássio e Marco Cláudio Frontão.

Então, Marco Cláudio Frontão, comandando a  Legião I Minervia, em conjunto com a Legião V Macedonica, comandada por Públio Mátio Vero, conseguiu tomar a capital armênia, Artabata, em 163 D.C, e destronar Pacorus, reinstalando o aristocrata romano Gaius Julius Soahemus, um membro da elite senatorial romana, que tinha origem armênia e parta e também era membro da dinastia arsácida, no trono.

A capital da Armênia foi transferida, em 164 D.C., para a cidade de Kaine Polis, a apenas 50 km da fronteira romana. Em consequência, Lúcio Vero e Marco Aurélio foram saudados pelas tropas como Imperatores, o primeiro recebendo o título de “Armeniacus“.

Os Partas, enquanto isso, intervieram em Osroene, outro reino-cliente de Roma, na Alta Mesopotâmia, onde também instalaram outro aliado, mas o Exército Romano da Síria, reforçado por legiões do Danúbio, conseguiu igualmente expulsa-los, entre 164 D.C. e 165 D.C., capturando a capital de Osroene, a cidade de Edessa.

Os romanos começaram, em seguida, os preparativos para a invasão da Mesopotâmia, o coração do Império Parta.

Avançando pela Mesopotâmia, durante o ano de 165 D.C, os Romanos impuseram várias derrotas aos Partas, que recuaram para a estratégica cidade de Nisibis, que, no entanto, foi sitiada e capturada pelo Império Romano, na posse de quem ficaria durante várias décadas. Enquanto isso, a outra ala do Exército Romano, comandada por Avídio Cássio, infligiu outra derrota aos Partas na cidade de Dura-Europos.

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(Panorama da cidade de Dura-Europos, conquistada pelos Romanos)

No final do ano de 165 D.C., o exército de Avídio Cássio avançou pela Mesopotâmia e sitiou as cidades de Seleucia e Ctesifonte, a capital do Império Parta, que ficavam nas margens opostas do rio Tigre. Seleucia, cuja população era em grande parte de origem grega, abriu as portas para os Romanos, o que não os impediu de saqueá-la, para indignação de muitos contemporâneos . Já Ctesifonte foi tomada após um cerco, após o qual foi queimado o  palácio real dos Partas. Pela segunda vez, Lúcio Vero e Marco Aurélio foram saudados como Imperatores, e o primeiro recebeu o título de “Parthicus“.

A campanha prosseguiu e o exército romano invadiu a parte nordeste do Império Parta, com a invasão da Média e, por esse motivo, no ano seguinte, houve nova aclamação dos dois imperadores, tendo Lúcio Vero sido agraciado com o título de “Medicus“.

Todavia, a grande vitória obtida por Marco Aurélio Lúcio Vero no Oriente teria um imprevisível e terrível custo: As tropas romanas contraíram, segundo as fontes, na cidade de Seleucia, a chamada “Peste Antonina” (moléstia provavelmente originária da China e que hoje acredita-se ter sido uma epidemia de varíola ou de sarampo), trazendo a doença para o seio do Império Romano.

Em decorrência da Peste Antonina, que, acredita-se, tinha uma taxa de mortalidade de 25%, estima-se que 5 milhões de romanos morreram, sendo que, em alguns lugares, metade da população pereceu. E dentre os infectados estaria o próprio Lúcio Vero, que, no fim do ano de 168 D.C, teria contraído a doença, morrendo em 23 de janeiro de 169 D.C.

Mas outra campanha sangrenta, e muito mais prolongada, iniciou-se quando a guerra contra os Partas ainda não havia sequer se encerrado:

Já em 162 D.C., bárbaros germânicos das tribos dos Chauci e dos Catos tentaram invadir as províncias da Rétia e da Germânia Superior, sendo repelidos.

No final do ano de 166 D.C. e no início do ano seguinte, invasores Lombardos (lungobardi) cruzaram o Danúbio e invadiram a província da Panônia, mas também foram contidos por destacamentos da Legião I Adiutrix. Então, o governador da Panônia tentou negociar uma trégua com os representantes de onze tribos germânicas. Porém, naquele mesmo ano, os Vândalos, que faziam a sua primeira aparição na História Romana, e que ficariam célebres quase três séculos mais tarde, junto com os Iáziges, invadiram a província da Dácia e mataram o governador romano.

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A repentina pressão militar dos bárbaros germânicos nas fronteiras romanas, relativamente pacificadas, tinha como motivo uma onda migratória vinda do Báltico e da região do Vístula, quando os  belicosos Godos começaram a migrar para o sudeste da Europa, empurrando os povos daquela região em direção à fronteira romana do Reno/Danúbio.

O fato é que somente com o fim da campanha contra o Império Parta, Marco Aurélio e Lúcio Vero tiveram condições de organizar uma resposta compatível com a ameaça germânica, e, em 167 D.C, os romanos, com duas novas legiões formadas para a campanha, a Legião II Italica e a Legião III Italica, realizaram uma expedição punitiva na Panônia.

Entretanto, os bárbaros germânicos não paravam de chegar e, entre 167 e 168 D.C., um grande número de Marcomanos (literalmente, os “homens da fronteira”, na língua germânica), chefiados pelo líder Ballomar, acompanhados da tribo dos Quados, cruzaram o Danúbio, derrotaram um exército de 20 mil romanos em Carnuntum, e, rapidamente, chegaram ao norte da Itália, destruindo a cidade de Opitergium e sitiando a importante cidade de Aquileia.

Essa invasão foi um choque para os Romanos. Era a primeira vez, desde a incursão dos bárbaros Cimbros e Teutões, no final do século II A.C. (que, a muito custo, foram derrotados por Caio Mário,  em 101 A.C.), que a Itália era invadida por inimigos estrangeiros.

Nota: Os Marcomanos inicialmente viviam próximo à fronteira do Reno. Porém, com a expansão romana para a Gália e para a própria Germânia, a partir da época de Júlio César e, especialmente, depois da reação romana ao Desastre de Varo, no reinado de Tibério, aquele povo migrou para a região do Danúbio.  Então, no período dos Antoninos (Nerva – Marco Aurélio), começou a se verificar entre os Marcomanos, bem como em outros povos germânicos, o fenômeno da formação de confederações de tribos, com o consequente aumento do tamanho das forças militares e de sua efetividade contra as forças romanas.

Prosseguindo a narrativa, agora fazia-se necessária uma grande mobilização de tropas, que, contudo, seria dificultada pela falta de recrutas decorrente da Peste Antonina, que também grassava no exército, e a persistente necessidade de conter os Partas no Oriente.

Mas, enquanto pessoalmente liderava a resposta aos Marcomanos e Quados, junto com Lúcio Vero, Marco Aurélio teve que voltar para Roma para tratar do funeral do colega que, como vimos, morreu em janeiro de 169 D.C, provavelmente da Peste.

Já no outono de 169 D.C.,  Marco Aurélio, acompanhado de seu genro, Tibério Cláudio Pompeiano, retornou para a região do Danúbio para enfrentar os bárbaros Iáziges, uma tribo sármata, de origem iraniana, os quais haviam derrotado e matado o general Marco Cláudio Frontão, o herói da Guerra contra os Partas.

Entrementes, os Costoboci, um povo das montanhas dos Cárpatos, que viviam nas fronteiras da Dácia, também cruzaram a extensa fronteira do Danúbio e invadiram a província romana da Trácia, chegando até Eleusis, próximo a Atenas, onde destruíram o afamado templo dos Mistérios Eleusinos.

Assim, entre 170 e 171 D.C, todos os esforços de Marco Aurélio concentraram-se em expulsar os Marcomanos do território romano. Ele determinou a criação da Prefeitura da Itália e dos Alpes, com o objetivo de melhorar a defesa das passagens alpinas para a Itália e reforçou a frota fluvial do Danúbio. As tropas foram comandadas por Pompeiano e por Pertinace (que, muitos anos mais tarde seria imperador).

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Começaram então os preparativos para uma grande ofensiva contra os Marcomanos, que, inclusive, compreendeu a formação de alianças com outras tribos germânicas, como foi o caso dos Vândalos.

Em 172 D.C, os Romanos cruzaram o Danúbio e atacaram os Marcomanos em seu próprio território. No espaço de um ano os bárbaros foram subjugados e Marco Aurélio recebeu o titulo “Germanicus“.  Esta campanha está retratada nos relevos da famosa Coluna de Marco Aurélio. erguida em comemoração da vitória no Campo de Marte, em Roma.

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(Os soldados romanos cruzando o Danúbio sobre uma ponte de barcos, como retratado na Coluna de Marco Aurélio)

No ano de  173 D.C, o Exército Romano se voltou contra os Quados, que tinham apoiado os Marcomanos. Foi nesta campanha que ocorreu o chamado “milagre da chuva”, também retratado na Coluna de Marco Aurélio, ocasião em que as tropas romanas, cercadas pelos Quados em uma posição sem acesso à água, na época da seca, estavam passando muita sede, mas acabaram sendo salvas por uma súbita chuvarada.

O fato é que somente no final do ano seguinte os Quados seriam subjugados.

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(O “milagre da chuva”, retratado na Coluna de Marco Aurélio – a chuva aparece na forma de uma divindade antropomórfica)

Naquele mesmo ano de 173 D.C.,, Dídio Juliano, o comandante militar na Germânia que, bem mais tarde, também seria imperador, derrotou uma invasão dos Catos e Hermunduri na fronteira do Reno.

Ainda m 174 D.C, chegou a vez dos Iáziges experimentarem a vingança romana. Após uma campanha vitoriosa, os bárbaros assinaram um tratado de paz no ano seguinte, devolvendo os prisioneiros romanos e concordando em fornecer um contingente de oito mil cavaleiros para o Exército Romano, dos quais 5.500 foram assentados na Britânia. Por isso, Marco Aurélio recebeu o título de “Sarmaticus“(Nota: esse contingente de cavalaria sármata utilizava como estandarte uma cabeça de dragão estilizada, presa numa espécie de biruta de pano, chamada de “draconarius“. Segundo uma tese, esta seria a origem do sobrenome Pendragon, do lendário rei britânico Arthur, que muitos estudiosos defendem que teria sido na verdade um chefe militar romano que resistiu às invasões dos Anglos e Saxões, no século V D.C).

Aproveitando o sucesso da reação romana, parece que Marco Aurélio planejava instituir duas novas províncias romanas na região, que se chamariam “Marcomannia” e “Sarmatia“, após a derrota final dos bárbaros. E, de fato, ele vinha sendo bem sucedido na estratégia de isolar e derrotar as tribos uma a uma, não ostante tal estratégia demandasse mais tempo e consumisse mais recursos.

De qualquer modo, os planos de Marco Aurélio foram por água baixo quando chegou a notícia de que o general Avídio Cássio , comandante do  Exército Romano no Oriente havia se autodeclarado imperador , em maio de 175 D.C.

Avídio Cássio foi incentivado a tentar usurpar o trono quando ele recebeu a falsa notícia de que Marco Aurélio teria morrido de doença na campanha do Danúbio. Aliás, tudo indica que este boato foi aceito como verídico em boa parte do Império e Avídio Cássio, inicialmente,  recebeu o apoio das províncias orientais e do Egito. Há até uma versão de que Cássio teria sido incentivado a se rebelar pela própria imperatriz Faustina, que também havia acreditado no boato e temia pela sorte de seu filho Cômodo, que não havia completado 14 anos e portanto ainda não era legalmente adulto.

Marco Aurélio, que ao tomar ciência da rebelião estava acompanhado de Cômodo, a quem estava começando a introduzir nos assuntos de Estado, teve que abandonar a campanha contra os germânicos e rumar para o Leste.

Entretanto, a notícia de que o imperador estava vivo chegou primeiro às províncias orientais, e foi o próprio exército de Avídio Cássio que espontaneamente executou o seu comandante, com as tropas preferindo não embarcar em uma aventura incerta contra um imperador de tanto prestígio.

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(Cabeça de Cômodo adolescente)

O Imperador aproveitou a estadia no Oriente para visitar Atenas, onde ele e Cômodo se iniciaram nos Mistérios Eleusinos, Depois, Marco Aurélio visitou o Egito e voltou para Roma para celebrar seu muito merecido Triunfo, em 23 de dezembro de 176 D.C., na companhia do filho, ocasião em que, provavelmente, a Coluna de Marco Aurélio foi dedicada.

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Os problemas na fronteira do Danúbio, contudo, ainda não tinham sido completamente resolvidos e, em 177 D.CMarco Aurélio teve que retornar à região.

Ao contrário do que é retratado em filmes como “Gladiador” e “A Queda do Império Romano“, Marco Aurélio sempre pretendeu que Cômodo, o seu único filho homem sobrevivente, herdasse o trono. Ainda em 166 D.C., Cômodo havia recebido o titulo de “César’, que segundo os costumes imperiais significava algo próximo a “príncipe-herdeiro”. 

Em 177 D.C., para não restar nenhuma dúvida a quem quer que fosse, sobretudo após a rebelião de Avídio Cássio, Marco Aurélio deu a Cômodo o título de “Augusto”, tornando-o, de direito, Co-Imperador. Seria apenas a segunda vez, na História do Império Romano, que um filho natural sucederia ao pai, tendo sido Tito o primeiro.

Durante o ano de 178 D.C.,  o Exército Romano obteve diversas vitórias no Danúbio e o ano de 179 D.C. parece ter sido dedicado a uma grande preparação para uma ofensiva decisiva contra os bárbaros da região.

Infelizmente, em 17 de março de 180 D.C., aos 58 anos de idade, Marco Aurélio faleceu, provavelmente de causas naturais, ou de doença, na cidade de Vindobona (atual Viena, na Áustria). Ele passara os últimos 10 anos lutando contra os Marcomanos, Quados e outros bárbaros na fronteira do Danúbio.

Mesmo admitindo-se que tenha sido providenciado a Marco Aurélio todo o conforto a que um imperador romano fazia jus, ninguém discute que ter passado esse tempo todo afastado de Roma, na fria, inóspita e distante província da Panônia, foi uma prova de dedicação e amor ao dever impressionante para um homem cuja aptidão maior sempre tinha sido a filosofia e a literatura (Não é a toa que a representação mais famosa de Marco Aurélio, a sua soberba estátua equestre originalmente dourada, hoje guardada no Museu Capitolino, em Roma, mostre o imperador em trajes civis).

Não obstante, na Coluna de Marco Aurélio, o imperador é retratado recebendo a submissão de bárbaros derrotados ou observando suas cabeças decepadas.. Certamente, Marco Aurélio deve ter se valido dos ensinamentos estoicos para suportar cenas tão díspares do seu jeito afável de ser.

Para Marco Aurélio, antes de tudo vinha o dever.

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Foi durante o período em que ele liderou a Guerra contra os Marcomanos que Marco Aurélio escreveu, em grego, a sua obra mais famosa, as “Meditações“,  em 12 livros, enquanto residia em Aquincum (cidade romana fortificada, no perímetro urbano da atual Budapeste, Hungria) e Carnuntum, local de uma fortaleza romana, na atual Áustria. Esse clima é, de fato,  muito bem retratado nos filmes “Gladiador” e “A Queda do Império Romano“.

O nome da obra foi dado posteriormente, sendo que o melhor título, segundo o que se depreende do que Marco Aurélio escreveu nos seus cadernos, seria “Pensamentos para mim mesmo“.

A linha mestra que conduziu as Meditações, segundo o próprio Marco Aurélio, foi a ideia de que a pessoa “tem o poder de se despir de vários problemas superficiais localizados inteiramente na mente dela e de possuir um grande espaço para ela mesma abraçar em pensamento todo o Cosmos, de levar em consideração a eternidade, de pensar nas rápidas mudanças nas partes de cada coisa e de quão pouco tempo há do nascimento até a morte, e de como o vazio que existe antes do nascimento e depois da morte é igualmente infinito“.

Cássio Dião,  que, juntamente com a História Augusta e as cartas de Frontão, é a melhor fonte sobre o reinado de Marco Aurélio, ao terminar o seu texto sobre este imperador, escreveu:

Marcus não encontrou a boa sorte que ele merecia, pois ele  não era dotado de um físico vigoroso e se viu envolvido em um turbilhão de problemas durante praticamente todo o seu reinado. Mas, na parte que me toca, eu o admiro ainda mais por essa razão, já que, em meio a dificuldades incomuns e extraordinárias, ele conseguiu sobreviver e preservar o Império. Somente uma coisa o impediu de ser completamente feliz, nomeadamente, que, após cuidar e educar o seu filho da melhor forma possível, ele tenha se decepcionado tanto com ele. Esse assunto será nosso próximo tópico; pois agora nossa História desce de um reinado de ouro para um de ferro e ferrugem, como as coisas se tornariam para os Romanos daqueles dias.

Com efeito, das poucas críticas que os historiadores antigos e modernos fizeram a Marco Aurélio, encontra-se a escolha de Cômodo como sucessor. Porém eu entendo a crítica como injusta. Não há muitos indícios de que Cômodo, antes de assumir o trono, tenha dado demonstrações de que ele fosse incapaz para governar. Aos 18 anos, o mais provável é que Marco Aurélio esperasse que bons conselheiros e professores dessem ao rapaz a orientação necessária para ser um bom imperador e um bom homem, como tinha ocorrido com ele próprio, Marco Aurélio.

Escolher uma outra pessoa, como por exemplo, um general capaz como Tibério Cláudio Pompeiano, que, aliás, foi a maior inspiração para o personagem fictício Maximus Decimus Meridius, do filme “Gladiador”, no lugar de Cômodo, além de significar, na prática, condenar o próprio filho à morte, significaria, caso este não fosse executado pelo sucessor, uma perpétua fonte de potenciais guerras civis, enfraquecendo ainda mais o Império em um momento crucial.

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Infelizmente, Cômodo realmente mostrou-se não ser o governante talhado para a situação corrente do Império Romano. Com efeito, assim que o pai morreu, ele negociou uma paz com as tribos do Danúbio e voltou às pressas para Roma, onde ele celebrou um imerecido Triunfo, em outubro de 180 D.C. Cômodo negligenciaria os assuntos militares e a política externa durante todo o seu reinado e isso contribuiria, décadas mais tarde, para as catástrofes que se abateriam sobre o Império, no século III D.C.

A outra crítica foi feita pelos historiadores cristãos, que denunciaram as perseguições ocorridas no reinado de Marco Aurélio. Quanto a isso, não parece ter havido mudança na política seguida pelo Império com relação ao Cristianismo. O que pode ter havido é o aumento de processos e prisões em virtude do aumento do número de cristãos. O Estado Romano intervinha nessas questões muito por demanda dos cidadãos espalhados pelas cidades. A principal preocupação era a manutenção da ordem, que, de quando em quando era afetada pelos conflitos entre as autoridades locais e os cristãos, entre estes e outras religiões ou entre os próprios cristãos. Como normalmente não participavam dos cultos públicos ligados à Roma e ao Imperador, as autoridades romanas normalmente tomavam partido contra os cristãos. E no reinado de Marco Aurélio não foi diferente.

É instigante verificar que os problemas enfrentados por Marco Aurélio foram muito semelhantes aos que se abateriam sobre o Império Romano durante a “Crise do Século III”: guerra em dois fronts contra germanos e partas/persas. Há vários indícios de que ambos os antagonistas, ocidentais e orientais, tenham se tornado mais temíveis 50 anos depois: Godos, Alamanos, Saxões, etc., mais numerosos e militarmente capazes do que Marcomanos e Quados, o mesmo aplicando-se aos Persas Sassânidas, mais coesos, treinados e determinados que os Partas.

Fosse Marco Aurelio imperador no século III será que ele teria conseguido conter essa ameaça? É difícil concluir.

E se Cômodo tivesse seguido o exemplo do pai e tivesse concluído a campanha no Danúbio, será que isso teria contribuído para evitar ou atenuar a Crise do Século III? São questões que merecem nossa reflexão. É certo que as migrações germânicas estavam fora do alcance dos romanos e Marco Aurélio experimentou inicio dessa avalanche . Mas é certo que a chegada de novas tribos não devia obliterar as já estacionadas na fronteira e parece que com o tempo havia uma fusão ou absorção. Estar no controle da região e ter assimilado ou exterminado as tribos naquele momento poderia ter mudado a correlação de forças no futuro, quando os Godos chegaram. Haveria algumas décadas para um grau de romanização…

Seja como for, o retrato de Marco Aurélio que sobreviveu para a posteridade foi a de um genuíno imperador-filósofo, como preconizado por Platão, no livro VI da “República“.

 

 

 

 

 

CARACALA – UM IMPERADOR PARA OS SOLDADOS

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Nascido a 4 de abril de 188 D.C, em Lugdunum, na província da Gália (atual Lyon), com o nome de Lucius Septimius BassianusCaracala era o filho mais velho do imperador Septímio Severo e da imperatriz Júlia Domna.

Severo foi o primeiro imperador romano que não descendia de uma família de origem italiana (ao menos por parte de pai,) pois a sua tinha origem púnica ou berbere, nativa da cidade de Leptis Magna, na atual Líbia. Porém, a família ascendera à classe Equestre, e dois primos de Severo já tinham ocupado o consulado durante o reinado do imperador Antonino Pio.

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(Septímio Severo, pai de Caracala)

Já a mãe de Caracala, a imperatriz Júlia Domna, uma mulher admirada por sua beleza e inteligência, era filha de Julius Bassianus, sumo-sacerdote do Templo do deus Elagábalo (El-Gabal), em Emesa (moderna Homs), na Síria, e membro da dinastia dos Sempseramidas, governantes daquela cidade, que era a capital de um reino-cliente de Roma, que depois foi anexada pelo Império.

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(Júlia Domna, mãe de Caracala)

Cinco anos após o nascimento de Caracala, em 193 D.C, seu pai Septímio Severo se tornaria imperador e reinaria até 211 D.C. Severo queria fazer crer que era filho ilegítimo do finado imperador Marco Aurélio e, por isso, além  de acrescentar o nome deste imperador ao seu, mudou o nome de Caracala para Marcus Aurelius Severus Antoninus Augustus, numa tentativa de legitimar a si e a sua prole como continuadores da bem-sucedida dinastia dos Antoninos, que terminara de fato com o assassinato do imperador Cômodo.

O apelido Caracala surgiu porque Lucius Septimius Bassianus gostava muito de usar um manto com capuz, de origem gaulesa, chamado de “Caracalla“.

Severo, desde cedo, demonstrou que não iria reviver o costume dos Antoninos, que fora interrompido com a nomeação de Cômodo por seu pai, Marco Aurélio, de se escolher, como herdeiro e sucessor do imperador, o homem público  mais apto, e não o próprio filho biológico.

Assim, em 196 D.C, Caracala foi nomeado “César” (título equivalente ao de príncipe-herdeiro) e, no ano seguinte, ele seria reconhecido como “Augusto“, tornando-se de direito co-imperador junto com seu pai, embora ele tivesse apenas 9 anos de idade.

Em 202 D.C, Severo concordou em casar Caracala com Plautila, filha do seu primo e conterrâneo, o poderoso Prefeito Pretoriano Plauciano.

Caracala odiava o sogro e a esposa e, após o seu casamento, recusou-se a ter qualquer relacionamento com Plautila. Na verdade, consta que Caracala teria chegado a prometer que, quando se tornasse imperador, daria cabo de ambos, o que pode ter levado Plauciano a conspirar contra Severo, ou, ao menos, esse foi o pretexto que Caracala usou para conseguir a queda e execução do sogro e o exílio de Plautila, em 205 D.C.

Parece que Severo pretendia ser sucedido, após a sua morte, conjuntamente por Caracala e por seu filho mais novo, Geta, que era um ano mais novo do que o irmão e foi nomeado César em 198 D.C e, posteriormente, Augusto em 209 D.C.

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(Uma das poucas imagens de Geta que sobreviveram à Damnatio Memoriae ordenada por Caracala)

Os dois irmãos destacavam-se pela dissolução dos costumes, promovendo orgias, e, igualmente, pelo ciúme e ódio que nutriam um pelo outro.

Segundo as fontes antigas, Severo, enquanto encontrava-se em campanha contra os Caledônios na Britânia, caiu gravemente enfermo, e, pressentindo que ia morrer, mandou chamar Caracala e Geta, para dar-lhes a notícia e um derradeiro conselho para o futuro reinado de ambos, que foi este:

Não briguem entre si, deem muito dinheiro aos soldados e desprezem todos os outros“.

No dia 4 de fevereiro de 211 D.C, em Eboracum (atual York), Severo morreu. No mesmo dia, Caracala e Geta foram aclamados imperadores pelas tropas. Ambos decidiram imediatamente interromper a campanha e voltar para Roma.

Porém, a animosidade entre os irmãos-imperadores era tanta que o Palácio teve que ser dividido em dois, e, mesmo assim, não satisfeitos, eles chegaram a cogitar seriamente em dividir o Império Romano em duas metades, cem anos antes de Constantino, que tomou a medida por motivos muito mais relevantes.

Não demorou muito para que Caracala colocasse em prática um plano para se livrar do irmão.  Assim, simulando um falso desejo de reconciliação, ele persuadiu Júlia Domna a convocar um encontro ente ele e Geta. Quando Geta chegou na ala do Palácio ocupada pela mãe,  um grupo de membros da Guarda Pretoriana fiéis a Caracala esfaquearam-no, e Geta morreu nos braços de Júlia Domna, em dezembro de 211 D.C.

Não satisfeito em mandar matar Geta, Caracala quis também eliminar qualquer referência histórica ao irmão, ordenando a sua “Damnatio Memoriae“. Em decorrência, a imagem de Geta deveria ser apagada de qualquer monumento público, o que efetivamente foi feito, como se pode ver em uma famosa pintura que chegou até os nossos dias,  proveniente do Egito, onde o retrato de Geta, ainda criança, junto da família imperial, foi apagado.

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(Painel de madeira pintada com os retratos de Septímio Severo, Júlia Domna e Caracala, ainda criança. A imagem de Geta foi apagada, em obediência à Damnatio Memoriae).

Caracala, que, logo no primeiro ano de reinado, decidira não obedecer o primeiro conselho do pai, matando o irmão, entretanto seguiria à risca o segundo conselho, aumentando em 50% o soldo dos legionários. Não satisfeito, o imperador foi além e passou a cortejar os soldados, marchando junto com eles, comendo com eles o mesmo rancho, e até mesmo moendo grãos para fazer a farinha para o rancho.

Também no início do seu reinado, Caracala ordenou a construção de um gigantesco complexo de banhos públicos, que ficariam conhecidos como as “Termas de Caracala” e seriam as maiores já construídas em Roma,  até a construção das Termas de Diocleciano, 90 anos mais tarde.

Em 213 D.C., Caracala teve que deixar Roma para ir combater os bárbaros Alamanos, que ameaçavam a fronteira da Raetia (província que fazia fronteira com a Germânia, compreendendo parte da atual Suíça e do estado alemão da Baviera, entre outras regiões). Os bárbaros foram contidos e Caracala aproveitou para reforçar as defesas do território romano dos Agri Decumates).

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(Reconstrução em maquete das Termas de Caracala)

Porém, os gastos com os soldados e com as Termas obrigariam Caracala a desvalorizar o denário e a aumentar os tributos, tornando a sua figura, que já era antipática por natureza, detestada pela maioria do povo, e,  sobretudo, pelo Senado, que também frequentemente era desrespeitado por ele. Portanto, podemos dizer que o terceiro conselho de Severo: “desprezar todos os outros‘”, também estava sendo obedecido por Caracala

A principal medida legal do reinado de Caracala foi a promulgação da “Constitutio Antoniniana“, em 212 D.C,  lei também conhecida como Édito de Caracala, concedendo a cidadania romana a todos os homens livres do Império Romano. Contudo, mais do que uma medida democrática ou inclusiva, o real objetivo de Caracala era aumentar a base tributária, já que alguns tributos somente incidiam sobre cidadãos romanos.

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(Papiro com o texto da Constitutio Antoniniana, que sobreviveu até os nossos dias)

Segundo Cássio Dio, para inspirar temor nos seus súditos, Caracala gostava que a propaganda imperial  divulgasse uma imagem dele como um governante temível e implacável , e, de fato, todos os retratos que sobreviveram dele mostram exatamente essa expressão.

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Caracala admirava muito Alexandre, o Grande e, tentando emular o seu ídolo, o imperador promoveu uma campanha contra os Partos. E a fascinação de Caracala com o rei da Macedônia foi tanta que ele chegou a criar uma unidade militar com o nome de Phalangiari, imitando as falanges macedônicas que tinham dado tantas vitórias a Alexandre.

Enquanto Caracala, ausente de Roma, conduzia a campanha contra os Partos, quem se tornou a virtual governante da Cidade foi sua mãe, Júlia Domna. Com ela, começaria uma tendência que caracterizaria a dinastia dos Severos: a predominância das mães dos imperadores como eminências pardas e governantes de fato do Império, o que se acentuou durante os reinados de Elagábalo e de Severo Alexandre.

Entretanto, no dia 8 de abril de 217 D.C, o Imperador Caracala mandou parar sua comitiva, que marchava da cidade de Edessa para dar andamento à guerra contra a Pártia.

A parada, que ocorreu próximo à cidade de Carras (atual Harran, no sul da Turquia), tinha um motivo bem prosaico: o imperador estava com vontade de urinar…

Caracala afastou-se da comitiva, seguido, apenas, de seu guarda-costas Julius Martialis, que, aparentemente, guardava a distância necessária à privacidade do imperador.

De repente, o líquido amarelo que escorria pelo chão em decorrência do alívio da necessidade fisiológica do imperador, começou a ficar vermelho…

Martialis tinha acabado de atravessar o corpo de Caracala com o seu gládio com um golpe mortal. Os outro guardas perceberam o crime e Martialis tentou fugir, mas foi abatido por uma flecha de um arqueiro. Acredito que esta ação foi uma queima de arquivo, já que o principal suspeito de ter sido o mandante do crime era o Prefeito da Guarda Pretoriana, Macrino, que acabou se tornando o sucessor de Caracala no trono.

Todavia, Macrino logo seria substituído pelo primo de Caracala, Elagábalo, em uma revolta urdida pela sua tia, Júlia Maesa, que se valeu da enorme riqueza e dos contatos dos Sempseramidas na Síria, uma das províncias mais ricas do Império, para subornar o poderoso exército romano naquela província.

Caracala é considerado um dos muitos “maus imperadores” romanos, não apenas para os historiadores antigos, mas também por Edward Gibbon e a maioria dos historiadores modernos. Após a sua morte, ele continuaria popular entre os soldados, os únicos romanos que ele se preocupou em agradar.

PERTINACE E O ANO DOS CINCO IMPERADORES

Em 28 de março de 193 D.C, o Imperador Romano Pertinace devia estar ansioso para que o mês,  no qual já tinham ocorrido tantos acontecimentos funestos, acabasse logo. Mas, de repente, os pensamentos do imperador foram interrompidos pela gritaria dos servos do Palácio e pelo barulho de sandálias militares, o que só podia significar uma coisa…

Nascido em 1º de agosto de 126 D.C., na cidade de Alba Pompéia, no atual Piemonte, Publius Helvius Pertinax (Pertinace), segundo a História Augusta,  era filho de um escravo liberto da Ligúria, de nome Helvius Successus, que ganhava a vida como comerciante de madeira. O comércio não deve ter deixado Helvius rico, pois, segundo as fontes, seu filho Pertinace teve que trabalhar como “grammaticus” (professor que ensinava literatura e noções de oratória para crianças mais velhas e adolescentes).

Entretanto, sabendo-se que os historiadores que escreveram a História Augusta algumas vezes inventaram detalhes para enriquecer a biografia dos imperadores, esta narrativa deve ser vista com alguma cautela. Cássio Dião, um historiador mais respeitado, por exemplo,  apenas escreveu que o pai de Pertinace não era de origem nobre

Em algum momento de sua juventude, Pertinace deixou a profissão de professor e, com o patrocínio do ex-Cônsul (144 D.C) Lollianus Avitus, de quem seu pai devia ser cliente, entrou para o Exército, alcançando o posto de Prefeito de uma Coorte (unidade que compõe uma legião).

Sabe-se que Pertinace serviu na Síria, onde, inclusive, ele recebeu uma punição pela infração de usar o “cursus publicus” (sistema de estradas e postos de montaria) destinado ao governador daquela província sem autorização, tendo sido lhe aplicada a punição de que voltasse a pé de Antióquia até o local onde sua unidade estava estacionada!

Já segundo a versão de Cássio Dião,  o patrono de Pertinace no Exército teria sido Tibério Cláudio Pompeiano, general e genro do imperador Marco Aurélio. Vale observar que a versão da História Augusta, no que tange à carreira de Pertinace, é mais completa.

Não obstante, o fato é que, na vitoriosa guerra contra os Partas, que ocorreu entre 161 e 166 D.C, no reinado do Imperador Marco Aurélio, servindo sob o comando do co-imperador Lúcio Vero e de Pompeiano, Pertinace se destacou e foi galgando postos no Exército Romano.

Posteriormente, já na década de 170 D.C, Pertinace foi nomeado comandante da Legião XX Valeria Victrix, na Britânia e, depois disso, comandante da Flotilha do Reno e Procurador da Dácia,  cargo equivalente ao de governador.

Foi nessa época que Pertinace também entrou no Senado Romano, onde ele foi alvo de intrigas palacianas que o prejudicaram aos olhos da Corte, mas acabou sendo reabilitado devido à guerra que Marco Aurélio travava com os Marcomanos. E, em decorrência do seu bom desempenho nesta campanha, Pertinace foi nomeado Consul Suffectus em 175 D.C.

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Posteriormente, ainda no reinado de Marco Aurélio, Pertinace foi nomeado governador das províncias da Moésia Inferior, da Dácia e da Síria.  Eu acredito que o motivo de Pertinace ser estimado pelo letrado Marco Aurélio deveu-se não apenas aos talentos militares dele, mas também pela sua formação de professor.

Quando Cômodo tornou-se imperador, porém, Pertinace foi novamente alvo de intrigas, agora por parte do Prefeito da Guarda Pretoriana Tigidius Perennis, que tentou implicá-lo em uma conspiração contra o Imperado. Esse fato levou Pertinace, em 182 D.C, a deixar a vida pública, voltando para a Ligúria, onde o seu pai tinha adquirido uma loja de roupas, lá ficando por 3 anos.

Mais uma vez, contudo, Pertinace conseguiu voltar às boas graças com o monarca reinante e ele foi nomeado, de 185 a 187 D.C, Governador da Britânia. Nesta província, porém, Pertinace teve que enfrentar o motim de uma legião, quando um grupo de soldados atacou os seus guarda-costas e feriu o próprio Pertinace, que chegou a ser dado como morto.

Quando Pertinace conseguiu recuperar-se dos ferimentos, ele reuniu os soldados fiéis e puniu severamente os revoltosos, ganhando a fama de disciplinador implacável. Apesar disso, o clima de tensão com a tropa continuou e, em 187 D.C, Pertinace deixou a Britânia.

No ano seguinte, Pertinace foi nomeado Governador da África.

Já em 189 D.C, Pertinace foi escolhido para ser o Prefeito Urbano de Roma, um cargo muito importante e que o colocava em contato direto com o Imperador Cômodo. Naquele mesmo ano, ele foi nomeado Cônsul, tendo como colega de consulado o próprio imperador, o que era considerado uma grande honraria.

No início da década de 190, estava ficando claro para a elite romana que Cômodo estava perdendo a sanidade mental, pois juízo e compostura sempre lhe faltaram…

De fato, face aos repetidos desmandos de Cômodo, a expectativa era que alguém tomasse a iniciativa de montar uma trama para acabar com os desmandos do imperador.

Assim, segundo a História Augusta,  as pessoas que tomaram para si a tarefa de se livrar de Cômodo foram: o Prefeito Pretoriano Quintus Aemilius Laetus, Márcia, a amante do imperador, e o seu camareiro Eclectus. A urgência surgiu quando eles descobriram que figuravam em uma lista de pessoas a serem executadas a mando de Cômodo,

Assim, os conspiradores assassinaram Cômodo enquanto este tomava banho, em 31 de dezembro de 192 D.C. O nome de Pertinace não é mencionado expressamente na lista de conspiradores, porém, a ação que ele tomaria em seguida, é um indício de que dificilmente ele ignoraria esta trama, e, provavelmente, devia ser participante.

Com efeito, imediatamente após o assassinato de Cômodo, Pertinace se dirigiu ao acampamento da Guarda Pretoriana e prometeu uma doação aos soldados, sendo aclamado imperador. A aclamação dele foi aprovada entusiasticamente pelo Senado, que, tudo indica, também tinha tomado parte na trama.

Consequentemente, em 1º de janeiro de 193 D.C, e, até onde se sabe, pela primeira vez na Historia de Roma, o filho de um liberto se tornava imperador, com o nome de Publius Helvius Pertinax Augustus, aos 66 anos de idade (tornando-se, até então,  a pessoa mais velha a assumir o trono romano, com exceção de Galba).

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Pertinace adotou uma série de medidas populares a partir de sua coroação, revogando algumas leis tirânicas ou insensatas de Cômodo.

Todavia, quando Cômodo morreu, só havia um milhão de sestércios no Tesouro do Estado e Pertinax teve muita dificuldade para pagar o donativo prometido aos Pretorianos. Ele, inclusive, teve que vender várias propriedades e escravos de Cômodo para poder reunir o dinheiro.

Segundo o historiador Cássio Dião, ele mesmo um senador que foi contemporâneo de Pertinace no Senado Romano, o reinado de Pertinace havia começado de modo promissor, porém, ele, esquecendo-se de que seu poder dependia da precária boa-vontade dos Pretorianos, tentou revogar os imensos privilégios que Cômodo havia-lhes conferido durante o seu reinado…

Não obstante, Pertinace deve ter percebido que sua posição no trono não era muito segura, pois ele recusou que a sua esposa, Flávia Titiana, recebesse o título de Augusta e ainda mandou o seu filho ir morar com o avô, e não, como seria de se esperar, com ele, no Palácio.

Pertinace deve ter entendido que o reinado dele deveria seguir a “raison d’etre do principado de Nerva, que não tinha filhos e era idoso ( ele foi coroado com 65 anos), sendo visto por todos como um imperador transitório, originário do Senado, o que explica a sua tentativa de afastar a sua família da Corte. Seja como for, a medida foi sensata, pois essa providência permitiu que, mais tarde, eles fossem poupados.

Contudo, Pertinace nomeou seu sogro, o senador e ex-cônsul Tito Flávio Cláudio Sulpiciano, Prefeito Urbano do Roma.

Nota: Acredita-se que Sulpiciano possa ser filho de Tito Flávio Titianus e de Flávia Domitila. Nesse caso, o pai de Sulpiciano era filho de Tito Flávio Clemente, sobrinho do imperador Vespasiano e primo dos imperadores Tito e Domiciano, e a mãe de Sulpiciano seria neta de Vespasiano.  Vale citar, assim, que o avô  da esposa de Pertinace,  o qual foi executado sob acusação de ateísmo,  pode ter sido cristão e seria, na verdade,  o santo católico conhecido como São Clemente. E a sua mãe,Domitila, seria a Santa Domitila dos cristãos.

O fato é que quando março chegou, sendo este apenas o terceiro mês do reinado de Pertinace,  ele teve que enfrentar a primeira tentativa de golpe. Assim, quando ele  estava no porto de Óstia inspecionando o embarque de grãos para Roma, alguns Pretorianos procuraram o cônsul Quintus Sosius Falco, propondo-lhe o cargo de Imperador caso aceitasse participar de uma conspiração contra Pertinace. Segundo o plano, Falco, após a morte de Pertinace, seria levado ao quartel da Guarda Pretoriana e aclamado. Pertinace, porém, avisado a tempo por um escravo, voltou à Roma e fez um discurso no Senado denunciando a conspiração. Alguns senadores propuseram condenar Falco à morte e declará-lo inimigo público, porém o imperador disse: “Não permitam os céus que algum senador seja executado durante o meu reinado” e Falco foi perdoado. Na História Augusta, é relatada também a versão de que Falco ignoraria a trama dos Pretorianos, que teria sido feita à sua revelia.

De acordo com Cássio Dião, Pertinace, na referida sessão do Senado, teria irritado os Pretorianos quando disse aos senadores que ele havia lhes pago o mesmo donativo que Marco Aurélio tinha pago quando de sua ascensão ao trono. O motivo da indignação seria o fato de que, na verdade, Pertinace tinha dado aos Pretorianos 12 mil sestércios, em comparação com os 20 mil sestércios que os soldados receberam de Cômodo. Além disso, conta-se que Pertinace mandou executar alguns Pretorianos pelo golpe falho envolvendo Falco, o que também desagradou os soldados.

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Seja como for, essa alusão de Pertinace à questão dos donativos em seu discurso acerca da rebelião de Falco, e a reação zangada dos Pretorianos, mostram que eles deviam estar bem insatisfeitos com a recompensa que receberam por terem elevado Pertinace ao trono.

Assim, não deve ter sido surpresa, nem para as mentes mais ingênuas, quando, em 28 de março de 193 D.C, um bando calculado entre 200 e 300 Pretorianos se dirigiu ao Palácio. O Prefeito Pretoriano Laetus não interceptou os soldados e Pertinace, apesar de avisado da aproximação do grupo, decidiu ficar no Palácio, que já estava sendo invadido, sem que nenhum de seus guarda-costas oferecesse qualquer oposição.

Dizem as fontes que Pertinace ainda poderia ter fugido, mas ele preferiu ir em direção ao grupo e fazer-lhes um inflamado discurso reprovando a conduta deles , o que causou um grande efeito, levando a maioria dos soldados a baixarem os olhos.

Porém, um certo Tausius, um soldado de origem germânica, insatisfeito,  gritou com os seus camaradas e atirou uma lança no peito de Pertinace, que caiu e foi golpeado por vários outros soldados. Em seguida, a cabeça de Pertinace foi cortada e desfilada por Roma na ponta de uma lança.

Depois da morte de Pertinace, ocorreu um dos mais vergonhosos episódios da História de Roma: Os Pretorianos saíram pela cidade de Roma em busca de candidatos para quem pudessem vender o trono imperial.

Um grupo de Pretorianos levou para o Quartel da Guarda o Prefeito Urbano Sulpiciano, com quem começaram a negociar o preço. Logo em seguida, trazido por outro grupo, chegou o senador Dídio Juliano, que, ouvindo tudo, começou a fazer, ainda do lado de fora dos muros, as suas ofertas. O triste espetáculo transformou-se em um verdadeiro leilão, no qual Dídio Juliano acabou saindo vitorioso.

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Porém, nem o povo, nem o Senado aceitaram a forma abjeta com que Dídio Juliano havia obtido o trono e ele começou a ser vaiado em público, quando comparecia a jogos, cerimônias ou espetáculos. Em um desses eventos, o povo chegou a aclamar o governador da Síria, o general Pescênio Niger, imperador.

Logo, os generais Clódio Albino, Septímio Severo e Pescênio Niger seriam aclamados imperadores, cada um pelas respectivas legiões, e a Guarda Pretoriana, com medo da punição aos seus crimes, abandonou Dídio Juliano.

Quando Septímio Severo invadiu a Itália, o Senado condenou Dídio Juliano à morte e reconheceu-o como novo imperador. Dídio Juliano foi executado por um soldado, em 1º de junho de 193 D.C., antes mesmo de Severo entrar em Roma

Senhor absoluto de Roma (mais tarde ele se livraria dos rivais Niger e Albino nas províncias), Septímio Severo ordenou a execução dos assassinos de Pertinace e fez com que o Senado  “deificasse” o antecessor. Severo também decretou que as datas de nascimento e de ascensão de Pertinace ao trono fossem incluídas no calendário de festejos romanos (e elas ainda constavam do célebre calendário do ano de 354 D.C, de Filócalo), recuperou a cabeça e o corpo de Pertinace, que foram objeto de um funeral estatal, e, honra suprema, incorporou o nome de “Pertinax” ao seu próprio nome imperial.

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Pertinace, apesar de reinar por apenas 86 dias, havia sido um governante popular e respeitado.

Severo, inicialmente, resolveu compor com Clódio Albino e lhe deu o título de “César”, o que implicava em um reconhecimento do seu direito de herdar o trono.

CONCLUSÃO

Pertinace granjeou a fama de ter sido um bom imperador e que poderia ter restaurado os bons tempos da dinastia dos Antoninos. Parece que o Senado o escolheu com intuito parecido com  o que ensejou a nomeação de Nerva: um senador respeitado e de idade avançada para um reinado de transição,  que não instauraria uma dinastia, pois enquanto Nerva não tinha filhos, Pertinace tinha deixado claro que não associaria o seu filho ao governo.

O exemplo de Nerva foi bem sucedido porque ele soube (ou talvez, mais apropriadamente, não se opôs) escolher um general de prestígio no Exército, com boas conexões com a elite romana e uma boa base de apoio na sua própria província para sucedê-lo (Trajano).

Pertinace não parece ter tido tempo sequer de tratar de sua sucessão, e, de modo imprudente,  para dizer o mínimo, ignorou a precariedade da sua posição, já que de fato ele era um verdadeiro refém da Guarda Pretoriana. Esta,  por sua vez, era incapaz de impor, de modo duradouro, qualquer escolha às legiões das províncias. E o Senado também foi ingênuo em achar que poderia escolher alguém entre os seus pares que não tivesse o apoio do Exército.

Por tudo isso, o ano de 193 D.C ficaria conhecido como “O Ano dos Cinco Imperadores“.

ELE, CLÁUDIO, IMPERADOR

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Em 1º de agosto de 10 A.C., nasce, em Lugdunum, na Gália (atual Lyon),  Tiberius Claudius Nero Germanicus (Cláudio), filho de Nero Claudius Drusus (Druso), que era filho da imperatriz Lívia Drusila (Júlia Augusta), a esposa do primeiro imperador romano, Augusto, e de Antônia, a Jovem,  que era filha do casamento do triúnviro Marco Antônio com Otávia, a irmã de Augusto.

Assim, pela linha materna, Cláudio era parente de Júlio César, pois a sua mãe era neta de Júlia, a Jovem, irmã de César.

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O Pai de Cláudio, Druso,  devido às suas importantes vitórias contra os bárbaros germânicos, recebeu o cognome “Germanicus”, sendo também o irmão mais novo de Tibério, que sucederia Augusto no trono.

Antes de Cláudio nascer, Druso e Antônia já haviam concebido Germanicus Julius Caesar (Germânico), que também seria um célebre general e que cairia nas graças de Augusto (e também da plebe romana). Quando o velho imperador adotou Tibério como herdeiro, ele exigiu que este, por sua vez, adotasse Germânico, pois, além dele, Augusto não tinha mais outro parente consanguíneo do sexo masculino capaz de dar continuidade à linhagem dos Júlios.

Porém, ao contrário do seu irmão mais velho, Cláudio passaria a sua infância, adolescência e toda a juventude em completa obscuridade, expressamente por determinação de Augusto e de Lívia, com os quais ele viveu durante um bom tempo, e, depois deles, pela vontade de seu tio Tibério, ficando afastado das aparições públicas da família imperial e sem ter qualquer papel público, ainda que cerimonial, a desempenhar.

Os motivos do ostracismo a que Cláudio foi relegado no seio da família imperial, segundo os autores antigos, seriam os distúrbios físicos e mentais que ele apresentava desde menino, considerados por Augusto e Lívia como comprometedores da dignidade da dinastia dos Júlio-Cláudios. E a própria mãe de Cláudio, segundo  Suetônio, referia-se ao filho como sendo “um monstro“.

O diagnóstico da doença de Cláudio não é preciso nas fontes, mas elas mencionam o fato dele mancar, gaguejar, ser acometido por tremores e ter corrimentos no nariz. Por isso, alguns acreditam que Cláudio pode ter contraído poliomielite, ou, mais provável, dele ter sofrido algum tipo paralisia cerebral na infância. Alguns defendem, ainda, que a doença dele seria a Síndrome de Tourette, uma desordem neuropsiquiátrica que causa tiques nervosos.

No entanto, o próprio Augusto, em uma carta à Lívia, citada por Suetônio, observou que Cláudio era mais inteligente do que ele aparentava, tendo ficado impressionado com a sua boa declamação. Não obstante, Cláudio seria mantido afastado de qualquer cargo ou função oficial durante todo o reinado do tio, ao contrário do irmão dele, Germânico.

A sociedade romana, como a maior parte das civilizações da Antiguidade, não tinha muita compaixão pelos deficientes físicos, e a família entendia que os sintomas da enfermidade de Cláudio eram desvios de caráter e deveriam ser corrigidos pela disciplina e castigos.

O próprio Cláudio, na autobiografia que ele escreveria anos mais tarde, e que não chegou até os nossos dias, contou que a sua família contratou um bárbaro que era condutor de mulas para ser o seu tutor, com o objetivo de que este se valesse da mais férrea disciplina e castigos severos para tentar melhorar a sua condição.

Assim, até mesmo em sua cerimônia da assunção da toga virilis (que simbolizava a passagem da infância para a idade adulta para os rapazes romanos, normalmente aos 14 anos de idade), que era um evento público marcante para  os jovens da família imperial, Cláudio foi escondido dos olhares do público, pois ela ocorreu durante a noite, com ele sendo carregado oculto no interior de uma liteira.

Não tendo um papel público a desempenhar, ou por causa disso mesmo, Cláudio tomou interesse pelo estudo de História e pela Literatura. O grande historiador romano Tito Lívio foi contratado para ser seu professor e ele também foi aluno do filósofo estoico Atenodoro.

E tudo indica que Cláudio se tornou um leitor voraz. Ainda muito jovem ele estudaria obras históricas sobre vários povos e, segundo as fontes antigas, ele foi a última pessoa capaz de ler a escrita etrusca em Roma, que até hoje não foi completamente decifrada.

Começando ainda na juventude, ao longo da vida, Cláudio escreveria 43 livros sobre a História de Roma, a Thyrrenica, contendo 21 livros sobre a História dos Etruscos, a Carthagenica, contendo 8 livros sobre a História de Cartago, um livro sobre filologia e uma defesa das acusações de Asinio Polião contra Cicero, além da sua autobiografia em 8 volumes. Infelizmente, nenhuma delas sobreviveu, mas algumas foram citadas por autores antigos.

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(Tabula Cortonensis, contendo um texto em etrusco)

Outra obra que é mencionada é um tratado sobre jogos de dados. Segundo as fontes, Cláudio era fanático por este tipo de jogos, o que seria motivo de alfinetadas dos historiadores e objeto de muitas sátiras.

Cláudio também era interessado em linguística e escreveu um livro defendendo a introdução de três novas letras no latim, “A Claudian letter“, “” e “A Claudian letter“, duas delas equivalentes ao Y e ao W. Mais tarde, após se tornar imperador, ele, no exercício do cargo de Censor, determinou que essas letras fossem adotadas oficialmente, mas isso não perdurou por muito tempo (na foto abaixo, uma raríssima inscrição contendo uma delas).

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Quando Augusto morreu, em 19 de agosto de 14 D.C., Cláudio, que já tinha 23 anos de idade, sentiu-se confiante em pedir ao sucessor, o seu tio, Tibério, que lhe fosse permitido começar a trilhar o cursus honorum, a carreira pública das magistraturas. Contudo, Tibério preferiu dar apenas a Cláudio os ornamentos consulares, o que podemos considerar como uma mera consolação, já que isso significava na prática apenas uma condecoração honorífica, permanecendo Cláudio afastado de qualquer cargo ou função pública.

Eu creio que o motivo de Tibério continuar negando ao sobrinho qualquer papel público tinha a ver com o fato da família de Cláudio estar no centro das intrigas dinásticas dos Júlio-Cláudios referentes à posição de herdeiro de Tibério. Com efeito, o seu irmão, Germânico, era visto como potencial rival de Tibério ao trono. E sua irmã, Livilla, que, reportadamente, desprezava Cláudio, era esposa do filho de Tibério, Druso, o Jovem.

Não obstante, as fontes relatam que,  durante o reinado de Tibério, com o passar do tempo, o público passou a ter uma boa impressão de Cláudio, que começou a receber algum reconhecimento.

Por exemplo, a classe dos Equestres escolheu-o duas vezes para liderar uma delegação para apresentar uma petição ao imperador. O Senado votou que ele  seria um membro especial dos sacerdotes do culto a Augusto, e, sobretudo, os senadores pediram a Tibério que Cláudio pudesse participar das sessões do Senado, o que, entretanto foi negado.

Tudo isso mostra que a exclusão de Cláudio da carreira política decorria de decisão direta do trono, e não de alguma incapacidade dele ou do repúdio da população.

Em 19 D.C., Germânico morreu em Antioquia, em circunstâncias suspeitas. Historiadores antigos, como Tácito, dão crédito à tese de que ele foi envenenado a mando de Lívia e Tibério.

Na época em que Germânico morreu, já se notava o grande poder que o comandante da Guarda Pretoriana, Lúcio Élio Sejano exercia em Roma. Ele expandira a guarnição dos pretorianos, que foi centralizada em um grande quartel fortificado, adjunto às muralhas da cidade.

O poder de Sejano era tanto que Tibério, certa vez referiu-se a ele como “meu sócio-trabalhador“. E Sejano, de fato, tinha altas pretensões…

Em 20 D.C., Sejano  arranjou o casamento de sua filha, Junilla,  com o filho de Cláudio, Claudius Drusus, época em que as crianças tinham apenas quatro anos de idade. Porém, os planos de Sejano foram por água baixo, porque, poucos dias depois do arranjo, o menino morreu engasgado com uma pera.

Claudius Drusus era o filho mais velho de Cláudio com sua primeira esposa, Plautia Urgulanilla, filha de Marcus Plautius Silvanus, um grande amigo da imperatriz Lívia e que era de origem etrusca. É bem possível que daí tenha vindo o interesse de Cláudio pela civilização etrusca. Cláudio e Urgulanilla se casaram por volta do ano 9 D.C., quando ele tinha uns dezoito anos de idade.

O primeiro casamento de Cláudio já ficaria marcado pela suspeita de má conduta da esposa, algo que se repetiria nas suas uniões posteriores. Ele  se divorciou de Urgulanilla, que, cinco meses depois, deu a luz a uma filha, chamada de Cláudia. Suspeitava-se que a menina era filha do liberto Boter. Por isso, Cláudio repudiou também a criança e mandou depositá-la, nua, na soleira da porta da casa onde a ex-mulher fora morar.

Depois disso, Cláudio deve ter se sentido muito ameaçado quando Druso, o  Jovem, o filho e herdeiro oficial de Tibério, morreu,  em 14 de setembro de 23 D.C., de uma misteriosa enfermidade, fato que ocorreu pouco tempo após uma séria desavença dele com Sejano. Para alguns historiadores antigos, como Tácito e Dião CássioSejano foi o responsável pela morte de Druso por envenenamento, empresa na qual ele teria sido auxiliado pela esposa do falecido e irmã de Cláudio, Livilla, que teria sido seduzida pelo Prefeito Pretoriano e dele se tornara amante.

Em 25 D.C., Sejano pediu formalmente a Tibério permissão para se casar com Livilla, o que foi recusado pelo velho imperador, que, após exaltar os méritos do subordinado, ressaltou, suavemente, que ele, tendo nascido na classe Equestre, estava abaixo da posição social de Livilla, uma integrante da família imperial.

No ano seguinte, Tibério foi viver na ilha de Capri, em um auto-exílio voluntário que duraria onze anos, deixando, informalmente, o governo nas mãos de Sejano.

Em 28 D.C., Cláudio casou-se com  Aelia Petina, que era irmã de criação de Sejano, pois havia sido cirada pelo pai dele, Lucius Seius Strabo, um dos primeiros comandantes da Guarda Pretoriana, e antecessor do filho neste comando.

O casamento de Cláudio e Aelia Petina claramente deve ter sido por influência de Sejano. Um indício é o fato de que, assim que este foi demitido do cargo e executado por ordens de Tibério, em 31 D.C., Cláudio divorciou-se de sua segundo esposa, alegando motivos insignificantes. Mesmo assim, eles tiveram uma filha, Claudia Antonia, que seria criada pela mãe de Cláudio, Antônia, a Jovem.

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(Estátua de Cláudia Antònia, filha de Cláudio.

Antes da queda, contudo, Sejano, que controlava toda informação entre Roma e Capri e agia como virtual governante de Roma, começara a eliminar os seus desafetos e adversários políticos. E seu alvo preferencial foi Agripina, a Velha,  a esposa do falecido Germânico, irmão de Cláudio, que foi exilada em 30 D.C. Ela vinha acusando publicamente Tibério e Lívia de serem os mandantes da morte do esposo. O filho de AgripinaNero Julius Caesar Germanicus (não confundir com o futuro imperador Nero) também foi exilado e morreria no ano seguinte.

Porém, o filho homem mais novo de Agripina e sobrinho de Cláudio, Gaius Caesar, de 18 anos, que tinha o apelido de Calígula, foi viver com Tibério, em Capri.

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(Busto de Agripina, a Velha)

Anos mais tarde, Cláudio mencionaria, em uma ocasião, que, durante esses anos de intrigas palacianas e de terror pela eliminação dos seus parentes, ele costumava exagerar os seus problemas físicos e fingir ser um completo idiota, com o objetivo de parecer inofensivo a todos, tentando manter-se vivo.

Enquanto isso, após a queda de Sejano, como vimos, Cláudio divorciou-se da irmã de criação do Prefeito Pretoriano caído em desgraça e continuou vivendo na obscuridade até a morte de Tibério, com 77 anos de idade, em Capri, em 16 de março de 37 D.C..

Dois dias depois, Tibério foi oficialmente sucedido por Calígula, que era sobrinho de Cláudio.  E foi Calígula quem deu a Cláudio o primeiro cargo público que ele ocuparia na vida, o de Cônsul Suffectus, em 37 D.C, aos 46 anos de idade!

Apesar do cargo de Cônsul, a situação de Cláudio não melhorou muito. Calígula logo mostrou-se um monarca cruel e incontrolável, e o seu tio Cláudio era um dos alvos preferidos de suas pilhérias e deboches, inclusive algumas vezes perante o Senado Romano.

Em 38 D.C., Cláudio casou-se, pela terceira vez, com Valeria Messalina, integrante de uma ilustre família senatorial, e sua prima em 2º grau, pois ela era neta da irmã de sua mãe, Antônia, a Velha. No ano seguinte, Messalina deu a Cláudio mais uma filha, que recebeu o nome de Claudia Octavia.

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(Cabeça de Claudia Octavia, filha de Cláudio)

No entanto, o reinado de Calígula seria curto. Fartos de seus desmandos e desacatos, alguns senadores e membros da Guarda Pretoriana, estes liderados pelo tribuno Cássio Queréa, urdiram uma conspiração e assassinaram Calígula, durante uns jogos que eram celebrados no Palatino, em 24 de janeiro de 41 D.C.

A conspiração parece, à primeira vista, ter sido motivada primordialmente pelo desejo de alguns de se livrar de um governante ensandecido, que ameaçava os que estavam próximos do poder, e executada por pretorianos humilhados pelo imperador. Se o assassinato de Calígula fazia parte de um plano maior, de restaurar a República, nós não sabemos, mas as fontes relatam que, inicialmente, alguns senadores perceberam essa oportunidade.

Segundo os relatos das fontes, após o assassinato, os guarda-costas germânicos de Calígula entraram em um frenesi de violência e começaram a massacrar quem encontravam pela frente. Cláudio fugiu para o Palácio (ou para a sua casa, a narrativa varia).

Enquanto isso, os guardas pretorianos, também fora de controle, invadiram os aposentos imperiais para saqueá-los. Foi durante essa invasão que um dos guardas, que se chamava Gratus, notou alguém escondido atrás de uma cortina. Ao puxá-la,  ele encontrou Cláudio e arrancou-o do seu esconderijo, ocasião em que perceberam que aquele homem era o tio do imperador. Ato contínuo, os soldados aclamaram Cláudio,Princeps“, e o levaram até o quartel da Guarda Pretoriana.

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Dião Cássio e Flávio Josefo narram que Cláudio, sincera ou fingidamente, tentou recusar a púrpura imperial, mas acabou cedendo à pressão dos guardas para que ele assumisse o trono.  Eles também mencionam que chegou a haver alguns senadores, especialmente Sentius Saturninus (que fez no Senado um discurso neste sentido), e,  até mesmo, alguns pretorianos, que cogitaram de acabar com o Principado e restaurar a República Romana, tal como ela era nos tempos anteriores aos Césares.

E de fato, consta que o Senado, cogitando enfrentar os partidários de Cláudio, chegou a mobilizar na oportunidade os parcos recursos armados que a cidade de Roma dispunha.  Porém, essa força, composta por alguns soldados, vigiles (espécie de bombeiros), gladiadores e até escravos libertos dos senadores, logo debandou para o lado dos Pretorianos que apoiavam Cláudio.

Esse estado de indefinição entre a aclamação de Cláudio e a restauração da democracia, segundo Suetônio, durou dois dias, ao final dos quais o historiador narra  que teria ocorrido uma crucial intervenção de uma massa de populares gritando pela elevação de Cláudio, que também teria prometido quinze mil sestércios como donativo aos soldados que o aclamaram imperador.

Realmente, não há como ter certeza se Cláudio foi um mero espectador da conspiração que assassinou Calígula, ou se ele sabia e concordou com o plano. Não obstante, os guardas liderados por Lupus, seguindo ordens de Queréa, após finalizarem Calígula,  e, ao que parece não imediatamente, dirigiram-se até o Palácio e executaram a imperatriz Cesônia e a filha de Calígula , de apenas dois anos de idade, que teve a cabeça esmagada contra uma parede. Eu acredito que dificilmente os militares ousariam fazer isso se não tivessem a aprovação de alguém poderoso, talvez algum senador disposto a restaurar a República ou algum pretendente ao trono…

Aos cinquenta anos de idade, Cláudio foi oficialmente aclamado pelo Senado, com o nome de Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus e ele perdoou oficialmente todos os senadores e pretorianos que tinham conspirado para assassinar o seu antecessor, bem como aqueles que haviam se manifestado pelo fim do Principado. (considera-se que o seu reinado começou no dia da morte de Calígula, 24 de janeiro de 41 D.C., quando ele foi aclamado imperador pelos soldados que o encontraram no esconderijo).

Sintomaticamente, contudo, Queréa e Lupus foram imediatamente executados…

Nota: Cláudio, ao incorporar o nome “Caesar“, apesar de ele não ter sido adotado como herdeiro por Calígula (havia uma linha de adoção formal ligando respectivamente cada um dos imperadores romanos a Júlio César, desde Augusto até Calígula), iniciou a transformação do referido nome em um título imperial.

Poucas semanas depois da aclamação de Cláudio, Messalina deu à luz ao seu primeiro herdeiro, que se chamou Tibério Cláudio Germânico.

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A imperatriz (Messalina, com o filho Britânico em seu colo)

O nascimento do filho foi muito comemorado por Cláudio, que com orgulho passou a levar o bebê para exibi-lo em  cerimônias e espetáculos públicos. Moedas foram cunhadas para comemorar o nascimento, com a inscrição “esperança augusta” (spes augusta – vide foto abaixo).

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No ano seguinte, 42 D.C., ocorreu a única revolta séria contra o governo de Cláudio: uma rebelião liderada pelos senadores Lucius Arruntius Camillus Scribonianus, Governador da Dalmácia, e Lucius Annius Vinicianus, um participante do complô que assassinou Calígula, sendo que ambos chegaram a ser cogitados para suceder o finado imperador, durante o impasse que antecedeu a aclamação de Cláudio. Consta que ambos os líderes rebeldes informaram aos senadores em Roma que o motivo da revolta era devolver o poder ao Senado, mas depois de cinco dias, as tropas deles se recusaram a segui-los e eles acabaram cometendo suicídio.

Dião Cássio narra que Cláudio ficou tão assustado quando soube dessa rebelião que ele cogitou abdicar em favor de Camillus, mas acabou afinal recobrando a coragem e se preparou para enfrentar os rebeldes, o que, como visto, acabou não sendo necessário.

Aparentemente tentando trazer o Senado para o seu lado, Cláudio tentou, ao menos no início do reinado, prestigiar esta assembleia. Ele devolveu ao controle dos senadores as provínicias da Macedônia e da Acaia, que tinham sido retiradas da relação de províncias administradas pelo Senado pelo imperador Tibério (Nota: Augusto dividiu as províncias romanas em imperiais, cujo governador era apontado pelo imperador entre os integrantes da classe equestre, e senatoriais, cujo governador era apontado pelo Senado dentre os pares).

Outra exemplo disso, foi a postura que Cláudio adotou de se sentar entre os senadores, aguardando a sua vez de falar nos debates  (de certa forma, era uma retomada da acepção inicial do termo Princeps (Príncipe), que, originalmente era o senador mais velho que tinha a prerrogativa de falar primeiro, e fora adotada por Augusto para manter as aparências de que a República permanecia).

Não obstante, a forma como Cláudio ascendeu ao trono, elevado pelos soldados da Guarda Pretoriana, expôs escancaradamente o que já se percebia desde o início da crise que levou às guerras civis dos Triunviratos, cem anos antes: que a real fonte de poder residia nas forças militares, cabendo ao Senado apenas legitimar o nome que fosse escolhido pelas tropas.

Por isso, Cláudio, logo no início do reinado, saiu a procura de glórias militares que reforçassem a sua posição de líder militar, aumentando o seu prestígio junto às legiões, as quais, caso  lideradas por algum general de renome, poderiam muito bem abraçar a sua “candidatura” e facilmente derrotar os Pretorianos.

E, de fato, no plano militar, o reinado de Cláudio começou bem: O general Gabinius Secundus, comandante das legiões da Germânia Inferior moveu uma guerra bem sucedida contra a tribo germânica dos Chauci, hostil aos romanos desde os tempos em que aqueles bárbaros lutaram ao lado do líder germânico Arminius, na emboscada que resultou no Desastre de Varo, na Batalha de Teutoburgo, em 9 D.C., com a destruição de três legiões romanas e a captura dos seus estandartes-águia (aquila), símbolos que eram religiosamente cultuados pelos romanos e cuja perda em batalha era considerada uma grande humilhação.

Gabinius conseguiu derrotar os Chauci e recuperar a terceira águia das legiões de Varo, que estava em poder deles (As duas outras haviam sido recuperadas por Germânico, irmão de Cláudio, em 16 D.C.). Certamente, este deve ter sido um momento de exultação para Cláudio, não apenas por ter recebido o título de Imperator pela vitória de seu general, mas por ter, de certa forma, igualado o feito de seu falecido irmão, que foi tão admirado pelos romanos.

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(moeda mostrando um estandarte-águia no templo de Marte Vingador, talvez  uma das perdidas por Crasso em Carras contra os Partas, recuperada por Augusto)

Escolheu-se, em seguida,  a Britânia como o alvo de uma grande expedição. Esta ilha já havia, cem anos antes, sofrido a invasão de Júlio César, que, com apenas o objetivo de fazer propaganda pessoal, ficou ali alguns dias em campanha e retornou para o continente. Vale observar que aquele território era, notadamente,  um objetivo militar muito mais fácil que a Germânia ou a Pártia, adversários muito mais poderosos e aguerridos que, de vez em quando, infligiam pesadas derrotas aos exércitos romanos.

Assim, no verão de 43 D.C., quatro legiões desembarcaram na Britânia, comandadas pelo general Aulus Plautius, e avançaram pela maior parte da ilha.  O pretexto da invasão, como em muitas outras guerras travadas pelos Romanos, foi o pedido de auxílio de um rei cliente de Roma,  da tribo bretã dos Atrebates, de nome Verica, que havia sido expulso por adversários. O próprio Cláudio participou da campanha, ficando na Britânia por cerca de duas semanas, promovendo, no final, uma grande parada em Camulodunum (atual Colchester, na Inglaterra), onde começou a ser construído um grande templo dedicado ao seu “gênio”.

A Britânia foi anexada e permaneceria uma província romana até o início do século V. A vitória rendeu a Cláudio o título de Britannicus, que foi estendido a seu filho, que passou a se chamar Tiberius Claudius Caesar Britannicus. O menino passaria, então, a ser conhecido como “Britânico“.

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(Cabeça de bronze de uma estátua de Cládio encontrada no rio Alde, na Inglaterra)

Talvez , pelo motivo de Cláudio perceber que tinha poucos aliados no Senado, ou, ainda,  porque ele nunca tinha exercido algum cargo público, exceto o breve consulado extraordinário, ou também devido ao fato da sua pessoa ter sido imposta ao Senado pelos Pretorianos,  ou, finalmente, talvez  porque ele possa ter assim concluído dos seus estudos aprofundados sobre o governo de Júlio César, o período das guerras civis e sobre o reinado de Augusto, o principado de Cláudio notabilizou-se pela implantação de um corpo de funcionários do Palácio encarregado da administração de funções governamentais que, anteriormente, eram exercidas pelos magistrados tradicionais da República,  cargos ocupados primordialmente por senadores, magistraturas essas que foram em grande parte mantidas pelos seus antecessores no trono com suas funções executivas.

Já os funcionários palacianos eram diretamente indicados pelo imperador, sem mediação do Senado, e, quase sempre, ainda que extremamente preparados, eles eram escravos libertos que pertenciam ao próprio Imperador.

No reinado de Cláudio, esse secretariado foi dividido em escritórios que funcionavam como verdadeiros ministérios. Assim, o liberto Narcissus foi escolhido como Secretário da Correspondência Imperial (cargo importante, pois controlava toda a comunicação oficial do imperador, seja como emitente ou destinatário, redigindo e enviando despachos, comunicados ou correspondências e recebendo petições, denúncias, notícias de fatos,  etc.  O liberto Pallas* foi nomeado Secretário do Tesouro Imperial (fiscus) e o liberto Callistus, um  influente ex-escravo de Calígula que havia participado da conspiração para assassiná-lo, foi escolhido para ser Secretário de Justiça, responsável, inicialmente, pelos recursos das decisões dos tribunais que eram dirigidos ao imperador.

Podemos, então, considerar que, embora os seus antecessores já utilizassem os seus libertos como auxiliares, Cláudio foi o primeiro organizador sistemático da burocracia imperial, esboçando uma forma que perduraria por muitos séculos.

*Como curiosidade, mas também como uma mostra do prestígio que os funcionários libertos gozaram a partir do governo de Cláudio, observamos que o irmão de Pallas, Marcus Antonius Felix, foi nomeado para ser o Procurador da Judeia, um cargo formalmente reservado aos integrantes da classe Equestre. Foi esse Felix que procedeu ao julgamento do apóstolo Paulo, em Cesareia, sendo nominalmente citado em Atos, 24.

Não surpreende, assim, que Cláudio tenha sido visto com antipatia  pelos Senadores, que, além de deixarem de ter voz em setores importantes da administração pública, ainda tinham que tratar em pé de igualdade com ex-escravos, o que afetava o sabidamente delicado senso de dignidade da classe senatorial… E essa antipatia da classe senatorial de Roma por Cláudio transborda abundante nas narrativas do seu governo, feitas por historiadores oriundos do Senado, tais como TácitoDião Cássio, ou então equestres ligados aos senadores, como Suetônio. Além disso, como resultado do grande poder que eles agora detinham, todos esses secretários libertos tornaram-se imensamente ricos, rivalizando em fortuna com os próprios senadores…

Claramente, a tentativa de aproximação que ele tentou no início do governo falhou e, diante desse quadro, Cláudio  acabaria exilando ou mandando executar vários senadores, embora não se possa dizer que todos as citados tenham de fato conspirado para derrubá-lo – e alguns dos supostos conspiradores talvez nem tenham sido de fato executados por ordens dele. Não obstante, consta que, durante o seu reinado, Cláudio mandou executar 35 senadores e centenas de membros da classe Equestre.

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Por exemplo, em 46 D.C., o senador Lucius Asinius Gallus foi acusado de conspirar contra Cláudio e foi exilado, sendo que o imperador chegou até a ser elogiado pela moderação quanto à pena aplicada. Em 47 D.C., o senador de antiga origem gaulesa, Decimus Valerius Asiaticus, por sua vez, foi alvo de acusações vagas de traição (e também de cometer adultério com uma aristocrata) e ele foi julgado, nos aposentos do Palácio (in camera), em julgamento fechado, pelo imperador e seu conselho privado, e não perante um tribunal público, um procedimento que se tornou costumeiro durante o principado de Cláudio. Segundo uma fonte, o verdadeiro motivo desta inquisição foi a cobiça que a imperatriz Messalina nutria pelos belos Jardins de Lúculo, em Roma,  que pertenciam a Asiaticus, que acabou compelido a se suicidar. Outra fonte alude ao fato de Asiaticus possivelmente ter participado da conspiração contra Calígula e ter insinuado a pretensão de suceder o falecido imperador. De qualquer forma, existiu algum pretexto sério, verdadeiro ou fictício, para Cláudio não gostar de Asiaticus, já que o imperador, no ano seguinte, fez questão de se referir a ele como “um gaulês bandido e patife cujo nome eu não devo sequer mencionar neste discurso“, em uma sessão do Senado cujos debates foram preservados na Tábua de Lyon,  à qual mais tarde aludiremos.

Outro senador executado foi Gnaeus Pompeius Magnus, um descendente do Triúnviro Pompeu, o Grande, e que era casado com Claudia Antonia, a filha mais velha do próprio Cláudio, que teria participado de uma conspiração contra o imperador.

Muitas dessas perseguições são atribuídas às maquinações da imperatriz Messalina, acerca de quem há relatos de que ela se aproveitava de uma certa credulidade e ingenuidade que Cláudio repetidamente demonstrou ter em relação a todas as mulheres que ele teve em sua vida.

Aliás, a se acreditar nos relatos dos historiadores antigos, Messalina seria uma verdadeira ninfomaníaca, que não apenas teve inúmeros amantes enquanto esteve casada com Cláudio, mas, entre outras coisas, chegou até a participar de uma competição contra uma prostituta, em que a que tivesse mais parceiros sexuais na mesma noite ganharia (sendo que Messalina ganhou a aposta, com um total de 25 parceiros,  caso citado por Plínio, o Velho, em sua “História Natural”)…Ela teria, ainda, segundo o poeta Juvenal, trabalhado, enquanto imperatriz, em um bordel, sob o pseudônimo de “Loba”.

Os historiadores antigos afirmam que Cláudio desconhecia as infidelidades de Messalina, seja por ele se dedicar às questões administrativas e jurídicas do Império, seja por confiar demais na esposa, muito embora as fofocas sobre o assunto circulassem pela cidade de Roma, até o dia em que  seu liberto Narcissus lhe contou que Messalina, enquanto Cláudio estava em Óstia, organizou uma festa no Palácio, e, durante a mesma, ela teria se casado, em uma cerimônia, real ou encenada, com seu amante Gaius Silius, um belo jovem que tinha sido designado para ser Cônsul em 48 D.C.. Poderia até ser uma brincadeira infeliz, mas, para piorar, a versão que chegou a Cláudio é a de que o casamento fazia parte de um plano de Messalina e Silius para assassiná-lo.

Messalina acabou sendo executada em 48 D.C., apesar de constar que Cláudio, cujo coração já estava amolecendo em favor da esposa, não se resolvia a dar a ordem expressa, tendo a decisão fatal sido ordenada por Narcissus, à revelia do imperador.

Em 47 D.C., Cláudio assumiu o cargo de Censor,  que andava sendo relegado a uma certa insignificância, junto com Lucius Vitellius, um dos poucos amigos de sua infância, pois conviveram juntos na casa de sua mãe, Antônia, a Jovem, a volta de quem havia um círculo de nobres orientais, devido ao fato dela ter herdado do seu pai, Marco Antônio, as conexões políticas e numerosas propriedades no Oriente. Outra amizade desses tempos de juventude era o príncipe judeu conhecido como Herodes Agripa, que ajudou Cláudio durante o impasse da sucessão de Calígula.

Nota: Vitellius havia sido Cônsul e governador da Síria durante o final do reinado de Tibério. Foi ele, inclusive quem demitiu Pôncio Pilatos do cargo de Prefeito da Judeia. Durante o reinado de Cláudio, ele seria Cônsul outras duas vezes, um fato incomum para quem não fosse da família imperial, durante o Império Romano). Ele era pai do futuro imperador Vitélio.

Talvez como um agrado a Herodes Agripa, Cláudio deu ao amigo o título de Rei da Judeia, restaurado como reino-cliente de Roma, dando-lhe o governo do respectivo território, que tinha sido incorporado ao Império Romano (Herodes já governava a Galileia). Cláudio também reconheceu o direito de liberdade de culto dos Judeus no Império Romano. Um exemplo dessa política está registrado na “Carta aos Alexandrinos”, onde Cláudio ordena aos habitantes gregos de Alexandria que respeitem os direitos da grande colônia judaica que existia na cidade, fonte frequente de diversos conflitos étnicos e religiosos.

Porém, quando Herodes Agripa morreu, em 44 D.C., todo o seu reino foi reincorporado ao Império Romano.  Nessa mesmo período, outros reinos-clientes de Roma foram anexados formalmente, tais como a Trácia, Noricum, Panfília e a Lícia, que se tornaram províncias. A Mauritânia, cujo processo de anexação fora iniciado por Calígula, teve a anexação concluída sob Cláudio, em 44 D.C., cujas tropas derrotaram os últimos focos de resistência armada. Essas medidas estão de acordo com a tônica geral de seu reinado em direção à centralização de poder e expansão da burocracia imperial.

Seguindo a linha geral de seu governo, Cláudio utilizou o cargo de Censor para intervir na composição das classes senatorial e equestre, pois o Censor tinha o poder de verificar os requisitos para a inscrição dos cidadãos nas respectivas listas. Assim, Cláudio mandou excluir o nome de vários senadores e equestres cuja renda não mais atendia o requisito mínimo estipulado pela lei para integrar a classe.

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Constatando que havia muitos assentos vagos no Senado, devido a décadas de execuções e proscrições pelos imperadores que o antecederam, além da diminuição do número de famílias da classe senatorial, Cláudio, seguindo o exemplo de Júlio César, antepassado que ele muito admirava, e aproveitando o cargo de Censor, mandou arrolar novas famílias nas listas de patrícios e abriu o Senado para nobres e pessoas ilustres nascidas nas províncias, especialmente da Gália,  fato que ficou registrado na chamada Tábua de Lyon, que contém a interessante transcrição do discurso do imperador na sessão do Senado Romano, ocorrida em 48 D.C.,  na qual Cláudio propõe a admissão ao Senado de homens ilustres de origem gaulesa, habitantes da Gália Lugdunense (centrada em Lugdunum, atual Lyon, cidade natal do próprio Cláudio).

A Tábua de Lyon, em bronze, que foi encontrada em um vinhedo nos arredores de Lyon, provavelmente foi feita a mando desses mesmos senadores gauleses agradecidos, beneficiados pela aprovação da proposta de Cláudio. Além de confirmar o relato desse fato histórico, citado por Tácito, a Tábua de Lyon contém, tudo indica, a transcrição literal do discurso do imperador no Senado, inclusive transcrevendo as interrupções questionadoras de alguns senadores contrários à medida. E o discurso de Cláudio, cheio de digressões históricas e certo pedantismo, combina perfeitamente com a descrição de sua personalidade feita pelos historiadores antigos.

Tanto isso é verdade, que a sessão preservada na Tábua de Lyon, com notável fidelidade, transcreve até o apelo de um senador para que Cláudio fosse direto ao ponto! (vide:  https://sourcebooks.fordham.edu/ancient/48claudius.asp)

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( A Tábua de Lyon)

Neste mesmo ano de 48 D.C., realizou-se por ordens de Cláudio um grande Censo da população de todo Império Romano, que contou o número de 5.984.072 cidadãos romanos, ou seja, homens livres que gozavam do direito de cidadania romana, excluindo, portanto, mulheres, crianças, escravos e habitantes que não tinham cidadania. Isso aponta para uma população que se estima estivesse entre 50 e 70 milhões de habitantes.

Após a execução de Messalina,  os seus libertos, visando cada um a aumentar a sua influência sobre o imperador, se revezaram em apresentar candidatas a se tornarem a nova imperatriz, sendo que Lollia Paulina, que havia sido esposa de Calígula, e a ex-esposa de Cláudio, Aelia Petina, chegaram a ser cogitadas.

A pretendente cuja “candidatura” era defendida pelo secretário Pallas acabou sendo a escolhida: Agripina, A Jovem, que, sendo filha de Germânico, era nada menos do que a sobrinha do próprio Cláudio. Além disso, Agripina também era irmã do antecessor dele, Calígula.

Segundo as leis romanas, essa união era considerada incesto, mas, em tempos de Principado, obviamente que mudar a lei não foi difícil…

Há relatos de que Agripina teria seduzido o tio Cláudio, mas, provavelmente, o que pesou mesmo na sua escolha foram considerações políticas: Cláudio já estava com 58 anos de idade, sendo que seu, Britânico, tinha apenas sete. Caso Cláudio, que nunca havia sido uma pessoa  muito saudável, morresse, ou ficasse incapacitado, era grande o perigo de que a dinastia dos Júlio-Cláudios terminasse, pois Britânico ainda estava longe de despir a toga pretexta e tornar-se maior de idade, quando poderia assumir cargos públicos.

O Principado ainda estava nas primeiras décadas e, ainda que apenas no aspecto formal, o imperador era considerado o primeiro-magistrado. A transição legal e cultural para uma monarquia ainda não havia sido feita, e a sucessão de Calígula mostrara que ainda havia anseios republicanos no Senado…

Assim, Cláudio precisava de um arranjo que lhe permitisse garantir, na sua falta, a continuidade da dinastia no governo,  esperançosamente, até que seu filho estivesse apto a governar. Esta era, inclusive, uma situação pela qual Augusto já tinha passado (Com efeito, já idoso, e após o falecimento de vários herdeiros de sangue, sobrinhos e netos, tais como Marcelo, Lúcio e Caio César, ele havia sido obrigado a adotar Tibério, filho de sua esposa Lívia).

Em 1º de janeiro de 49 D.C., Cláudio e Agripina se casaram. No ano seguinte, em 25 de fevereiro de 50 D.C., Cláudio a adotou o filho dela, Lucius Domitius Ahenobarbus, que passou a se chamar “Nero Claudius Caesar Drusus Germanicus” (Nero).

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(Busto de Agripina, a Jovem)

Ainda em 50 D.C.., Agripina conseguiu que Cláudio persuadisse o Senado a dar-lhe o título de Augusta, honraria que somente Lívia Drusila, a esposa de augusto, havia recebido em vida, e, mesmo assim, somente após a morte do marido.

Todos logo perceberam o tamanho da influência de Agripina sobre Cláudio e, pouco a pouco, o nome dela começou  a aparecer em inscrições em monumentos, moedas e documentos. Consta que ela recebia embaixadores estrangeiros sentada em seu próprio tribunal e vestia um manto militar com bordados de ouro em cerimônias oficiais. O prestígio dela era tanto que o povoado em que ela nasceu, na Germânia, às margens do rio Reno, onde seu pai estava aquartelado, recebeu, em 50 D.C., o nome de Colonia Claudia Ara Agrippinensium, que é a atual cidade de Colônia, na Alemanha.

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(Reconstrução da Colonia Claudia Ara Agrippinensium – atual Colônia, no século I D.C.)

Em 51 D.C., Nero vestiu a toga virilis, alguns meses antes da idade costumeira, pouco antes de completar 14 anos. No mesmo ano ele recebeu o título de Princeps Iuventutis, um título que surgira no reinado de Augusto para honrar os jovens considerados como potenciais herdeiros do trono.

Para a surpresa geral, parecia que Nero estava tomando a preferência de Cláudio para ser o seu sucessor. E Agripina começou a eliminar todos que representassem uma ameaça à trajetória de seu filho rumo ao trono. Em 51 D.C, ela ordenou  a execução de Sosibius, o tutor de Britânico, que andava reclamando da preferência que vinha sendo dada ao filho de Agripina.

Em 9 de junho de 53 D.C, certamente com a intermediação de Agripina, Cláudio concordou com o casamento entre Nero e sua filha, Claudia Octavia.

Britânico agora já tinha doze anos e o motivo de Cláudio continuar tomando medidas que favoreciam a posição de seu enteado Nero como herdeiro preferido, em detrimento do próprio filho natural, continua sendo algo que intriga os historiadores.

Porém, a maioria das fontes narra que, nos meses que se seguiram, Cláudio, um tanto descuidadamente, começou a fazer comentários, aqui e ali, lamentando o fato dele ter casado com Agripina e adotado Nero.

Em meados de 54 D.C., faltava menos de um ano para Britânico atingir a idade em que poderia vestir a toga virilis e ser considerado adulto. Suetônio cita que Cláudio mencionou publicamente em algum evento a intenção de antecipar a cerimônia,  devido à altura de Britânico, chegando a dizer, na ocasião:

Para que o Povo de Roma finalmente possa ter um genuíno César“.

Era uma clara advertência de que ele não considerava mais Nero como sucessor. Agora, o ano  de 54 D.C. entrava em seus últimos meses e, pela primeira vez, em um discurso no Senado, Cláudio se referiu a Nero e Britânico como iguais em precedência.

Em 13 de outubro de 54 D.C., pela manhã, foi anunciado que Cláudio morreu, após um banquete. Nas fontes antigas há um quase consenso de que ele foi envenenado a mando de Agripina, ou até mesmo por ela pessoalmente. Agripina, teria se aproveitado do fato do onipresente  Narcissus, partidário de Britânico,  estar descansando em sua villa na Campânia, e contratou a célebre envenenadora Locusta, para preparar o veneno. o qual teria sido administrado em um prato de cogumelos, iguaria muito apreciada por Cláudio. Os detalhes variam. Segundo uma versão, Cláudio ao comer os cogumelos, acabou vomitando,  e uma segunda dose lhe foi administrada, agonizando durante um tempo, e, após ele ter morrido, o seu falecimento ainda foi escondido por um curto período de tempo,  durante o qual todos preparativos  necessários foram feitos para assegurar a sucessão em favor de Nero, inclusive a destruição do último testamento de Cláudio, no qual ele teria reconhecido Britânico como sucessor.

A aclamação de Nero foi tranquila: O Senado sabidamente odiava Cláudio e, ainda em 51 D.C., Agripina  havia indicado o nome de Sextus Afranius Burrus (Burro) para ser o novo Prefeito da Guarda Pretoriana, e com cuja lealdade ela pôde contar na hora da sucessão.

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(Relevo de Agripina coroando seu filho Nero. A cena não deixa margem a dúvidas…)

Nero fez a eulogia (oração  fúnebre) em honra de Cláudio, que depois foi “deificado” pelo Senado, isto é, após a sua morte, decretou-se que ele tinha sido elevado ao panteão dos deuses a serem cultuados pelos romanos (apotheosis).

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(Camafeu do século I, retratando a apoteose de Cláudio. Uma águia o leva até os céus)

A deificação, ou apoteose, de Cláudio, embora oficial, foi objeto de sátiras e pilhérias pelos integrantes da classe senatorial. Um deles, o filósofo e escritor Sêneca, o Jovem, escreveu uma célebre sátira chamada de “Apocolocyntosis” (literalmente, “aboborificação”, processo no qual Cláudio, na narrativa, tranformaria-se em uma abóbora após a morte), ridicularizando a apoteose do imperador. Na obra, a deificação dele é  julgada em um tribunal do deuses no Monte Olimpo, e o próprio imperador falecido Augusto discursa aos deuses enumerando os defeitos físicos, as idiossincrasias,  gafes, assassinatos de Cláudio, cuja sentença é ser enviado a penar nas profundezas do Hades, condenado pela eternidade a trabalhar como funcionário de um tribunal, e, ironicamente, sendo dado como escravo a um liberto…

O destino no Hades ao qual Cláudio foi condenado na Apocolocyntosis é claramente uma crítica mordaz a uma das atividades a que o imperador mais se dedicou durante o reinado: os processos judiciários (Ele, de fato, costumava comparecer quase que diariamente ao tribunal, julgando processos). Além disso, é uma crítica à preferência que ele deu aos libertos durante o seu governo.

Embora Cláudio fosse diligente e dedicado no exame da maior parte dos casos judiciais que lhe eram submetidos, ele, às vezes, costumava desprezar os princípios processuais estabelecidos no Direito Romano, proferindo sentenças sem ouvir a parte contrária, violando o princípio do contraditório, ou, como já apontamos, realizando sessões fechadas no palácio, o que era contrário ao princípio da publicidade dos julgamentos, muito caro aos Romanos.

Por exemplo, as fontes citam que Cláudio, certa vez, agiu como um verdadeiro rei Salomão, da Bíblia judaica, julgando um processo no qual uma mãe se negava a reconhecer o filho,  decretando que ela se casasse com o rapaz, para forçá-la a confessar a maternidade.

E a estupefação dos litigantes com essas bizarrices de Cláudio era tanta, que Suetônio narra, observando que o fato era de conhecimento geral, um caso em que um réu, falsamente acusado de conduta imprópria contra uma mulher, ao ver que Cláudio decidira, contrariamente à praxe processual romana, ouvir algumas prostitutas como testemunhas, exasperou-se e  atirou a tábua e o estilete de escrita em cima do imperador, conseguindo até ferir a bochecha de Cláudio!

Outra faceta de Cláudio era o amor que ele tinha pelos espetáculos públicos, especialmente os combates de gladiadores e contra feras. Durante seu reinado ele promovou várias exibições, culminando com um combate naval simulado, no qual Suetônio registrou que os combatentes saudaram Cláudio com a frase: “Ave,  Imperador, Aqueles que irão morrer te saúdam“. É a única vez que a História registra essa frase, que não sabemos se ela era padrão nos jogos de gladiadores ou se somente foi utilizada naquela ocasião (Cássio Dião também a menciona no mesmo episódio, mas a narrativa deve ter sido obtida na obra de Suetônio). A nota satírica, frequentemente presente nas estórias sobre Cláudio, marcando um tom depreciativo sobre a sua suposta estupidez, é que, àquela saudação, o imperador teria respondido: “Ou não!“, ao que os combatentes entenderam, induzidos a erro, que eles tinham sido perdoados e assim se recusaram, inicialmente, a lutar, para desespero do próprio Cláudio, preocupado com a reação dos espectadores frustrados.

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O amor pelos jogos de gladiadores e combates na arena parece combinar com uma outra faceta sombria da personalidade de Cláudio: a curiosidade excessiva, ou mesmo o prazer mórbido, que ele tinha de assistir pessoalmente as execuções de condenados, à tortura de testemunhas ou à morte dos gladiadores.

A política religiosa de Cláudio caracterizou-se pela tentativa de revitalizar as tradições e reviver aspectos antigos dos cultos romanos, como era de se esperar de um amante da história antiga e dos etruscos. Um episódio interessante que ocorreu em seu governo foi a expulsão dos judeus, narrada por Suetônio, que teria sido motivada por tumultos causados “por instigação de Chrestus“.

Muitos especialistas acreditam que essa passagem reflete a chegada dos primeiros pregadores cristãos a Roma, que entraram em conflito com a numerosa comunidade judaica lá instalada, ao pregarem o Evangelho. Obviamente que os romanos ainda não deviam distinguir os cristãos dos judeus ( e  note-se que essa divisão ainda não estava pacífica entre os próprios cristãos), e a expulsão não parece ter tido motivos religiosos, mas de manutenção da ordem pública. Não deve, contudo, ter sido uma expulsão em massa. Acredita-se que o episódio narrado por Suetônio é o mesmo que aparece em Atos, 18, 2., quando São Paulo encontra em Corinto um judeu chamado Aquila, que tinha sido expulso de Roma por Cláudio. Estima-se que essa expulsão narrada por Suetônio e em Atos tenha ocorrido por volta de 50 D.C.

Um campo onde Cláudio se destacou como imperador foi no das obras publicas, construindo várias de grande utilidade, como por exemplo dois importantes aquedutos: o Aqua Claudia, cuja construção havia sido iniciada por Caligula, e o  Anio Novus, completados em 52 D.C.. Cláudio financiou a construção de ambos com recursos oriundos do tesouro privado do imperador (fiscus).

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(A Porta Maggiore, era uma porta monumental no trajeto  da junção dos aquedutos da Aqua Claudia e da Aqua Novis, construída por Cláudio)

Fora de Roma, no reinado de Cláudio foram construídos um canal ligando o Reno ao mar, um canal ligando o rio Tibre a Portus, o porto marítimo que ele mandou construir ao norte de Óstia. Além de possibilitar o aumento do volume de transporte de grãos e outras mercadorias para Roma, essa obra útil reduziu as enchentes do rio Tibre.

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Ao menos como construtor de grandes obras de utilidade pública, o sempre crítico Suetônio fez justiça a Cláudio, reconhecendo:

“Suas obras públicas foram mais grandiosas e necessárias do que numerosas”.

Conclusão

Assim, o imperador Cláudio é uma figura ambígua para a História de Roma. Se formos considerar apenas a opinião dos Senadores, classe de onde saíram aqueles que registraram o seu reinado na História, ele teria sido um idiota que lhes foi imposto pela guarda pretoriana, e, durante o seu reinado, mostrou-se um governante  tirânico, porém medroso e manipulável pelas suas esposas e seus libertos. Porém, mesmos nesses textos críticos, transparece que Cláudio era um monarca dedicado ao ofício de governar e que ele tomou uma série de medidas úteis e sensatas.

A figura de Cláudio é muito bem retratada no best-sellerEu, Claudius, Imperador“, do escritor inglês Robert Graves, que foi escrito como se fosse a autobiografia perdida do imperador.

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CÔMODO – O IMPERADOR GLADIADOR

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(Busto de Cômodo, foto de Sailko)

Em 31 de agosto de 161 D.C., na cidade de Lanuvium, nas cercanias de Roma, nasceu, com o nome de Lucius Aurelius Commodus, o imperador romano Cômodo, que era o décimo dos quatorze filhos que o imperador romano Marco Aurélio  teve com a imperatriz Faustina, a Jovem, e o único a alcançar a idade adulta.

(Marco Aurélio e Faustina, a Jovem, pais de Cômodo)

Cômodo também foi o primeiro imperador romano a nascer durante o reinado de seu pai natural, um fato que somente se repetiria em 337 D.C.

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(Cabeça  de Cômodo jovem)

Assim, Cômodo,  desde a sua tenra idade, foi criado para suceder Marco Aurélio, recebendo, com apenas cinco anos de idade, o título de “César” (título que, naquela fase do Império Romano, equivalia ao de “Príncipe-herdeiro”) e, em 177 D.C., ele seria nomeado “Augusto”, ou seja, co-imperador ,junto com seu pai. Essa foi uma decisão acelerada pela revolta do general Avídio Cássio, ocorrida em 175 D.C, que havia recebido a falsa notícia de que Marco Aurélio havia falecido, e resolveu usurpar o trono, mas acabou sendo assassinado pelos próprios centuriões quando se descobriu que o imperador estava vivo.

Não corresponde, portanto, à realidade o famoso enredo do filme “Gladiador”, no qual o velho imperador tencionava nomear o fictício general “Maximus Decimus Meridius” no lugar de Cômodo,  que, por este motivo, na referida trama assassina o pai.

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Em 178 D.C., Cômodo casou-se com Bruttia Crispina, uma riquíssima filha  e neta de ex-Cônsules.

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(Busto da imperatriz Crispina, foto de PierreSelim e outro)

Quando Marco Aurélio morreu, em 17 de março de 180 D.C., na cidade de Vindobona (atual Viena), no final de uma duríssima campanha contra as tribos germânicas dos Marcomanos e dos Quados, na fronteira do Danúbio, Cômodo foi aclamado Imperador Romano, com apenas 18 anos de idade, adotando o nome de Marcus Aurelius Commodus Antoninus Augustus. Antes dele, somente o imperador Tito tinha conseguido suceder o pai, Vespasiano, como imperador.

As principais fontes deste período são historiador romano Cassius Dio (Cássio Dião) e a coletânea de biografias de imperadores chamadas de “História Augusta“. Segundo Dião, Cômodo não era talhado para o cargo de imperador, tendo suas deficiências sido percebidas por Marco Aurélio, que, em consequência, procurou cercar o filho de bons conselheiros, escolhidos entre respeitados senadores.

Cômodo porém, contra o conselho deles, recém-empossado e louco para voltar à Roma, resolveu assinar um tratado de paz com os Marcomanos e Quados,  o qual foi considerado por muitos como prejudicial aos interesses romanos, tendo em vista as vitórias duramente conquistadas por Marco Aurélio no campo de batalha, enfraquecendo a posição dos bárbaros.

Uma das primeiras medidas  de Cômodo no governo foi promover uma grande desvalorização da moeda romana, o denário, em uma escala que não ocorria desde o reinado de Nero, mais de um século antes. Mas devemos admitir que isso talvez tenha sido necessário devido à longa e custosa guerra travada no Danúbio por seu pai.

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(Denário de Cômodo, foto Louisonze)

Todavia, o fato é que os círculos mais próximos do trono logo perceberam a inaptidão, preguiça e falta de decoro de Cômodo para o cargo de Imperador.

Assim, logo em 182 D.C., a própria Lucilla, irmã de Cômodo, envolveu-se em uma conspiração para assassinar o imperador, junto como o sobrinho de Marco Aurélio, Marcus Ummidius Quadratus Annianus, suposto amante de Lucilla. Parece que os conspiradores pretendiam proclamar imperador Tibério Cláudio Pompeiano, segundo marido de Lucilla (o seu primeiro marido foi Lúcio Vero, que tinha sido co-imperador jumto com Marco Aurélio, durante 8 anos, até morrer).

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(Estátua de Lucilla, irmã de Cômodo, caracterizada como a deusa Ceres, foto de AlexanderVanLoon)

Então, certo dia, quando Cômodo entrava em um teatro, um sobrinho de Pompeiano, chamado Quintianus saltou sobre o imperador brandindo uma adaga, enquanto gritava: “Veja o que o Senado vos mandou!”, mas ele foi prontamente dominado pelos guardas. Na repressão ao atentado, Quintianus e Ummidius Quadratus foram executados e Lucilla foi exilada em Capri, no que aparentemente era uma pena branda. Porém, naquele mesmo ano, ela seria assassinada por um centurião a mando do irmão. Pompeiano, que não teve participação na conspiração, foi poupado.

Logo no início do seu reinado, ficou claro que Cômodo não tinha a menor disposição de gastar seu tempo com os assuntos de Estado. Ele passava a maior parte do tempo em sua Villa em Lanuvium, treinando e lutando como um gladiador, ou em orgias.

Assim, os assuntos administrativos e estatais ficavam a cargo do Prefeito Pretoriano Tigidius Perennis e dos libertos e empregados domésticos do imperador, especialmente do camareiro (cubiculari) Saoteris, que, segundo uma fonte, seria também amante de Cômodo, e, após a execução deste, do liberto Cleander, que ocupou o posto do morto.

Segundo Cássio Dião:

Cômodo dedicava a maior parte da sua vida ao ócio, aos cavalos e aos combates de bestas selvagens e lutas entre homens. De fato, além de tudo isto que ele fazia em particular, ele frequentemente matou em público um grande número de homens e animais. Por exemplo, usando apenas as próprias mãos, ele eliminou cinco hipopótamos junto com dois elefantes em dois dias seguidos; e ele também matou rinocerontes e um camelo”.

Deve ser assinalado que, para os romanos, a profissão de gladiador era considerada degradante, e os gladiadores ocupavam o estrato social mais rasteiro. Portanto, enorme deve ter sido o escândalo na elite romana quando o próprio imperador exibiu-se em combates na arena.

Para piorar, as próprias fontes do período mencionam que as exibições de Cômodo eram arranjadas, nas quais os seus oponentes não tinham a menor chance, combatendo com armas de brinquedo (assim como as bestas selvagens eram amarradas), apenas para serem impiedosamente abatidos pelo imperador. As fontes concordam, não obstante, que Cômodo era um excelente arqueiro, capaz, entre outras proezas  de acertar de longe a cabeça de um avestruz correndo à toda velocidade.

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Foi nessa época que Cômodo, alegando ser a reencarnação viva de Hércules, apresentou-se publicamente e fez se representar como este herói mítico, sendo que muitas dessas estátuas sobreviveram até os nossos dias.

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(Cômodo retratado como Hércules, com as tradicionais clava e pele do Leão de Neméia)

Enquanto isso, Cleander, em troca de propinas, vendia todo tipo de favores, incluindo os mais altos cargos públicos, chegando, segundo Dião, a vender 25 vezes o cargo de Cônsul, a mais alta magistratura romana, em apenas um ano! (190 D.C.).

A desonestidade de Cleander levou-o a ser odiado pela plebe romana. Assim, ainda no ano de 190 D.C., ao ser hostilizado pela plateia que assistia às corridas no Circo Máximo, Cleander tentou mandar os pretorianos reprimirem a massa, mas os soldados acabaram sendo dispersados pela reação violenta do público, que os perseguiu até os portões do palácio imperial. Como resultado, Cômodo, intimidado pelo clamor popular, acabou ordenando a decapitação de Cleander.

Nas fronteiras, o problema mais sério enfrentado por Cômodo foi uma invasão da Britânia pelas tribos da Caledônia (parte da atual Escócia), em 184 D.C., onde foram necessárias três campanhas para derrotá-los.

Em 188 D.C., a imperatriz Bruttia Crispina foi acusada de adultério, uma acusação aparentemente falsa, e exilada para Capri.  O casal imperial não teve filhos. Ela morreria mais tarde, provavelmente em 191 D.C., aparentemente executada.

Depois de mais uma década de excessos e execuções, a classe dominante não aguentava mais o imperador que ocupava o trono, e a gota d’água, ou ao menos o pretexto para eles quererem se livrar de Cômodo, foi o seu desejo, manifestado em dezembro de 192 D.C., de aparecer, na inauguração do ano seguinte, vestido como gladiador no Senado, ocasião em que seriam celebrados jogos para comemorar o novo nome da cidade de Roma, que fora devastada por um grande incêndio, em 191 D.C., e tinha sido rebatizada com o nome de “Colônia Comodiana”…

Márcia, a companheira de Cômodo, que consta ter sido cristã e próxima ao bispo de Roma (o Papa Victor I), tentou dissuadi-lo desses projetos tresloucados, juntamente com Quinto Emílio Leto, o Prefeito Pretoriano, e o camareiro Ecletus,  as pessoas que, na prática, exerciam naquele momento a administração do Império. Porém, a iniciativa deles fez com que todos incorressem no desagrado do imperador.

Certo dia, no final de dezembro de 192 D.C., enquanto o imperador tomava banho, um escravo, que vinha sendo o favorito de Cômodo e que tinha o sugestivo nome de PhiloCommodus, achou um livreto em formato tablete contendo uma série de nomes de pessoas que deveriam ser executadas e entregou-o a Márcia. Quando esta leu o conteúdo do livreto, para seu espanto, o primeiro nome na lista era o dela…

Então,  Márcia convocou para um encontro Emílio Leto e Ecletus, que temerosos de serem também executados, engendraram o plano de assassinato de Cômodo.

No dia 31 de dezembro de 192 D.C, como de costume, após Cômodo tomar o seu banho, Márcia ofereceu-lhe uma bebida, que desta vez estava misturada com veneno. Porém, como Cômodo,  ao sentir os efeitos do envenenamento, começou a vomitar sem parar, os três conspiradores, temerosos de que ele dessa forma conseguisse sobreviver eliminando o veneno em seu corpo, imediatamente chamaram o atleta e lutador Narcissus e o subornaram para estrangular o imperador em seus aposentos, o que o assassino conseguiu fazer sem muita dificuldade.

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O Senado Romano decretou que as inscrições em homenagem a Cômodo fossem apagadas dos monumentos públicos (damnatio memoriae). Apesar disso, suas cinzas foram depositadas no Mausoléu de Adriano, em Roma. Não muito tempo depois, o imperador Septímio Severo, que pretendia ostentar uma conexão familiar com a prestigiosa dinastia dos Antoninos, revogou a damnatio memoriae de Cômodo e ordenou que o Senado o deificasse.

Logo após a morte de Cômodo,  o Prefeito Urbano de Roma, Publius Helvius Pertinax (Pertinace), foi levado para o Quartel da Guarda Pretoriana e aclamado imperador na manhã seguinte. Muito provavelmente, ele estava implicado na trama que resultou no assassinato de Cômodo. Com Pertinace, inicia-se, então, um período de instabilidade e luta pelo trono que passaria à História com o nome de “O Ano dos Cinco Imperadores“.

Com a morte de Cômodo, encerrou-se, de maneira triste, a chamada dinastia dos “Antoninos“, que havia sido iniciada com Nerva, em 96 D.C, e tinha inaugurado o período que ficaria conhecido como o “Século de Ouro” da História do Império Romano (que vai da ascensão de Nerva até a morte de Marco Aurélio, em 180 D.C.).

 

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CALÍGULA – ENLOUQUECIDO PELO PODER

#Caligulla #Calígula

Em 24 de janeiro de 41 D.C (segundo Suetônio), após três dias de exibições dos Jogos Palatinos em homenagem ao divino Augusto, os quais estavam sendo realizados em um teatro montado no próprio palácio imperial ,o Imperador Romano Gaius Julius Caesar Germanicus Augustus Germanicus, a quem o povo chamava, carinhosamente, de Calígula, sentiu-se fatigado e foi incentivado por cortesãos a ir tomar um banho.

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(Busto de Calígula, Ny Carlsberg Glyptotek. foto de Louis le Grand)

 

Calígula resolveu deixar o teatro e ir para os seus aposentos através de uma passagem subterrânea coberta (criptopórtico), privativa para o imperador. Eram cerca de 15 horas da tarde e o imperador devia estar com fome, pois assistira todas as performances daquele dia sem se ausentar, à vista de todos e rodeado pela sua devotada guarda particular composta por guerreiros germânicos, que ficou no teatro para vigiar os espectadores.

No caminho, Calígula parou para inspecionar alguns jovens gregos, bailarinos de dança pírrica, que se preparavam para se apresentarem no evento, e tinham sido acomodados naquela passagem, De repente, um velho oficial da guarda pretoriana se aproximou do Imperador.

Era Cássio Queréa, um veterano e condecorado soldado que servira sob o comando do pai de Calígula, o adorado general Germânico, quando se distinguira pelos atos de bravura, 20 anos antes, nas campanhas na Germânia, razão pela qual conseguiu ingressar e progredir na Guarda Pretoriana, a guarnição militar de Roma e do Palácio Imperial.

Após ser sagrado imperador e passar a habitar no Palácio, Calígula escolheu Queréa para vítima frequente de suas zombarias e pilhérias:

Queréa, por exemplo, tinha o timbre de voz fino, Por isso, Calígula, quando aquele centurião estava em serviço de sentinela, ocasião em que devia perguntar ao Imperador qual seria a senha, este fornecia nomes embaraçosos, como “Vênus”, só para que Queréa , com seu peculiar timbre feminino, respondesse na frente dos outros, quando a senha fosse exigida. Outra brincadeira que deleitava ao Imperador era quando ele estendia a sua mão para que o veterano centurião beijasse o anel, ocasião em que Calígula, avançava e retirava o punho da boca de Queréa, aludindo a um gesto pornográfico, para a humilhação do velho soldado.

Entretido com os jovens gregos no criptopórtico, Calígula mal olhou para Queréa quando este, como de costume, perguntou-lhe qual seria a senha do dia. Consta que o Imperador respondeu: “Júpiter”. Queréa então gritou: “Assim seja. Toma!” e, já com seu gládio em punho, desfechou um tremendo golpe entre o ombro e pescoço de Calígula, que penetrou até o osso do peito, mas sem atravessá-lo.

 

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(Foto do criptopórtico escavado no Palatino. Há grande probabilidade de que este seja o local onde Calígula foi assassinado –  © Photo Ministero dei Beni e delle Attività Culturali)

 

Calígula ficou tão perplexo que sequer gritou ou esboçou qualquer reação, apenas se virou, para receber um novo golpe potente, que dessa vez praticamente arrancou, de uma só vez, a sua mandíbula inferior, que ficou pendendo presa apenas por um fiapo de músculo, deixando o seu rosto com o aspecto de uma máscara grotesca.

Somente então o Imperador começou a correr, para ser alcançado por outro conspirador, o tribuno Cornélio Sabino, que lhe acertou um golpe de espada no joelho, levando-o ao chão. A partir daí, Queréa, Sabino, o soldado Áquila e provavelmente outros conspiradores começaram a golpear Calígula, já moribundo, inclusive nos genitais. Ele levou 30 golpes, até morrer. Queréa e os cúmplices conseguiram fugir do Palácio, ironicamente, atravessando a casa de Germânico, o finado pai de Calígula, que tinha sido anexada ao Palácio.

O destacamento de guarda-costas pessoais de Calígula, composto de bárbaros germânicos, quando percebeu que o imperador tinha sido atacado, tomou-se de um frenesi de vingança e começou a matar todos que viam pela frente no Palácio, inclusive um senador. Cercaram o teatro e fizeram menção de massacrar todos os espectadores, até alguém informar que o Imperador estava morto, ocasião os seus líderes devem ter pensado que não havia mais o que fazer.

Queréa mandou um subordinado, Lupus, de volta ao Palácio, para matar Cesônia e a pequena filha de Calígula, que era ainda um bebê. Cesônia recebeu, resignadamente, um golpe no pescoço. Já a menina teve a cabeça esmagada contra uma parede. É difícil achar a explicação para esse crime brutal. Não havia chance de Cesônia assumir o governo e a criança obviamente não oferecia perigo, Pode-se até cogitar que: ou Cesônia saberia de algo que poderia arruinar Queréa, ou a esposa do finado Imperador participava ativamente das humilhações a que Caligula submetia Queréa.

Muitos, porém, acreditam que Queréa, aliado aos senadores que queria restaurar a República, visava eliminar  a descendência de Calígula, para que não houvesse sucessores, porém, para que isso fosse bem sucedido, eles teriam que eliminar outros integrantes da dinastia Júlio-Cláudia, como o jovem Nero, entre outros.

O fato é que, logo após o assassinato, um pretoriano chamado Gratus encontrou Cláudio, tio de Calígula e irmão do pai dele Germânico, escondido apavorado atrás de uma cortina do Palácio. Uma facção dos pretorianos saudou Cláudio, até então tido como imbecil, como novo imperador, e levou-o para o quartel da Guarda. Lá, ele foi reconhecido e aclamado como Príncipe pelo Senado.

Nascido em  31 de Agosto do ano 12 D.C., em Anzio, Itália, Gaius Julius Caesar Germanicus (Caio Júlio César Germânico), que se tornaria popularmente conhecido como o imperador romano Calígula, era filho de Germanicus Julius Caesar, cognominado “Germânico” e de Vipsânia Agripina, mais conhecida como Agripina, a “Velha”, para distingui-la de sua filha, do mesmo nome (Agripina, a “Jovem”, mãe do futuro imperador Nero).

(Bustos de Germânico e Agripina, a Velha, pais de Calígula)

 

Portanto, por parte de pai, Calígula era sobrinho-bisneto do Imperador Augusto, pois sua bisavó paterna era Otávia, irmã do primeiro imperador que se casou com o triúnviro Marco Antônio, união da qual nasceu Antônia, a Jovem, de cujo casamento com Nero Cláudio Druso nasceu Germânico. Ele também era bisneto de Lívia Drusila, a influente esposa de Augusto, avó de seu pai, pois Nero Cláudio Druso era o filho mais novo do primeiro casamento dela com Tibério Cláudio Nero, sendo que o caçula desta união era o imperador Tibério, irmão de Druso, tendo o primeiro sucedido Augusto como seu herdeiro e filho adotivo, e que também, portanto, era tio-avô de Calígula.

Pela linha materna, Calígula era bisneto de Augusto, pois sua mãe, Agripina, era filha de Marco Vipsânio Agripa, amigo e braço-direito daquele imperador e de Júlia, “a Velha”, a única filha e descendente do primeiro imperador de Roma.

Tal “pedigree” colocava Germânico, o pai de Calígula, como um não-desprezível pretendente à sucessão do próprio Augusto. Vale notar que todos herdeiros-presuntivos inicialmente favorecidos por Augusto eram seus parentes, tais como seu sobrinho, Marcelo, e seus netos Caio César e Lúcio César. Todos, porém, morreram antes do velho imperador, que, muito em função das maquinações de sua esposa Lívia, acabou adotando e nomeando como herdeiro o filho natural desta, o seu enteado Tibério.

Augusto, porém, certamente visando garantir alguma continuidade sanguínea entre si e os seus sucessores, ao adotar Tibério, exigiu que este, por sua vez, da mesma forma adotasse Germânico, como herdeiro.

O pai de Calígula tornou-se um grande general, muito querido pelo Exército e pelo povo. Ele se destacou em campanhas na Panônia e na Dalmácia.  Germânico e Agripina eram uma espécie de família romana modelo. Eles tiveram nove filhos juntos, seis dos quais atingiram a idade adulta, três meninos, sendo Calígula o mais jovem deles, e três meninas, sendo que a mais velha, Agripina, “a Jovem”, seria mãe do futuro imperador Nero.

Quando Augusto morreu, em 14 D.C., sendo sucedido por Tibério, Germânico recebeu um comando na Germânia, onde ele comandou uma campanha brilhante que conseguiu vingar a grande derrota sofrida por Varo, anos antes (foi por esse motivo que ele recebeu o seu apelido, pois dar ao general um cognome derivado dos inimigos vencidos era uma tradicional honraria romana).

Foi nesse período que Germânico demonstrou que sabia utilizar sua família como uma ferramenta de propaganda pessoal. Ele residia no acampamento militar, em território inimigo, com toda a sua família. Nessa época, ele costumava vestir o seu filho mais novo Caio, que tinha entre 3 e 4 anos, com um uniforme militar em miniatura. Entre os itens, estava uma pequena sandália ou bota militar, “caligae“, em latim. O diminutivo de “caligae” é “caligula” e o menino acabou recebendo da soldadesca esse apelido, que pode ser traduzido como “Botinha” (ou “Sandalinha“) , o qual pegou (e consta que o mesmo era abominado por Calígula, depois de se tornar adulto).

 

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As fontes narram que em certa ocasião, quando uma das legiões comandadas por Germânico se revoltou, a mera sugestão de que o comandante, temendo pela segurança de sua família, estava mandando o adorado “Botinha” para um lugar seguro, longe dos soldados, bastou para acabar espontaneamente com o motim.

Infelizmente, a imensa popularidade de Germânico foi a provável causa de sua morte. Consta que Lívia, a imperatriz-mãe viúva, muito provavelmente, e não para o desagrado de Tibério, urdiu uma série de intrigas visando afastar Germânico da linha sucessória, a quem percebia como uma ameaça a seu filho. As fontes do período apontam Lívia como a principal suspeita pela morte de Germânico, em 19 D.C., acometido de uma misteriosa doença que se assemelhava a um caso de envenenamento.

A postura questionadora da viúva de Germânico, Agripina, em relação à morte de seu marido, azedou as relações dela com Tibério e deu início a uma série de desconfiança e intriga entre ambos. Consta que, certa vez, Tibério, notando uma cara de desagrado em Agripina, teria recitado, em grego, para ela o seguinte verso de uma então famosa obra clássica:

Porque não és rainha, eu te fiz algum mal?

Em virtude dessa animosidade, e dos efeitos que isso causou na saúde de sua mãe, Calígula acabou indo morar sua bisavó, Lívia, a principal suspeita pelo assassinato de seu pai. Em 29 D.C, no mesmo ano em que Lívia morreu, Agripina foi presa e exilada para a remota ilha de Pandatária, acusada de traição junto com seus outros filhos Nero e Druso. Após sofrer vários maus-tratos e provações, Agripina morreu na ilha, em 33 D.C. Antes disso, os irmãos de Calígula também morreriam em função das acusações: Nero morreu de inanição, enquanto preso e Druso se suicidou. Em todos esses fatos esteve implicado o Prefeito Pretoriano Lúcio Élio Sejano, para alguns como instigador,ou ao menos como executor da vontade de Tibério.

Em 31 D.C, Calígula, que estava morando junto com sua avó Antônia, foi residir com Tibério, que, deixando os assuntos da administração nas mãos de Sejano, havia abandonado Roma e se mudado para Capri, desde o ano de 26 D.C. Não temos dúvidas de que a situação deve ter sido aterrorizante para Calígula, pois após morar com Lívia, a suposta algoz de seu pai, agora ele iria viver sob a tutela do filho desta, o responsável pelo sofrimento e morte de sua mãe e de seus irmãos. O que ele podia esperar para si senão o pior?

A julgar pelo relato de Suetônio, Calígula habilmente soube fingir ser inofensivo e servil a Tibério. Se os relatos do citado historiador forem verdadeiros, em Capri,  Calígula deve ter sofrido a influência maléfica dos inúmeros atos de perversão sexual e crueldade relatados na “Vida de Tibério“, livro integrante da coletânea de biografias conhecida como “Os doze Césares“, que teriam ocorrido na espetacular Villa Jovis de Tibério em Capri.

No entanto, em 33 D.C, Tibério deu a Calígula seu primeiro cargo público, o de Questor Honorário, e, dois anos mais tarde, Calígula foi nomeado herdeiro do Imperador, juntamente com seu primo e neto de Tibério, Tibério Gemellus.

Quando Tibério morreu, em 16 de março de 37 D.C, com a avançada idade de 78 anos, Calígula tornou-se o terceiro imperador romano. Suetônio levanta suspeitas sobre a culpa de Calígula na morte do tio, mas o mais provável é que Tibério tenha morrido de velhice.

A morte de Tibério foi recebida com júbilo pelo povo e pelo Senado. De fato, a austeridade de Tibério, que acumulou grande superávit no Tesouro, por ser avesso aos gastos públicos, especialmente para com os amados jogos e corridas tão amados pela plebe, tornou-o impopular, o que foi reforçado pela sua responsabilização, real ou presumida, pelas mortes dos queridos Germânico e Agripina.

Assim, a aprovação entusiasmada do Senado e do Povo de Roma acompanhou a ascensão de Calígula ao trono. Além de suceder um governante antipático, ele era o belo e jovem filho de um herói popular e membro de uma família muito célebre e muito estimada. Para comparar, o clima deve ter sido parecido com o que o Reino Unido atual experimentará quando o príncipe William tornar-se rei da Inglaterra, sucedendo ao pai Charles.

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(busto original  romano de Calígula, com cores restauradas, obtidas através de processo científico)

 

Em seus primeiros meses, o reinado de Calígula parecia promissor (aliás, a crônica do seu início pode ser considerada a narrativa-padrão do reinado de todos os “maus” imperadores romanos, tais como Nero, Domiciano e Cômodo). Ele entrou em Roma em 28 de março de 37 D.C, 12 dias após a morte de Tibério e se seguiram cerca de três meses de verdadeira adoração, em grande parte espontânea, por parte do povo.

Calígula correspondeu inicialmente aos anseios dos súditos: ele mandou pagar todos os legados de Tibério, individuais e coletivos e, mais importante, mandou destruir todos os documentos arquivados para dar subsídios aos numerosos processos de crime de alta-traição ou lesa-majestade, tão frequentes no reinado do antecessor. Ele também inaugurou o costume, que depois se mostraria funesto, de dar um grande donativo à Guarda Pretoriana em comemoração à ascensão de um novo imperador ao trono ( e que estimularia futuros motins dos soldados visando destronar o monarca reinante, para obter recompensas do substituto).

Passados poucos meses, porém, Calígula não titubeou em se livrar de seu primo Gemellus, o neto de Tibério que, com ele, havia recebido em testamento o Império. Na verdade, um dos primeiros atos de Calígula após a sua aclamação oficial havia sido conseguir do Senado a anulação do testamento de Tibério no que se refere à posição de co-herdeiro de Gemellus. Porém, antes que o ano terminasse, Gemellus foi executado sumariamente à mando de Calígula.

As fontes narram que, antes disso, Calígula, em outubro de 37 D.C, ficou seriamente doente e que foi somente após recuperar-se, que ele começou a praticar os reiterados atos de tirania, crueldade, devassidão e loucura pelos quais se tornaria célebre (Suetônio, contudo, aponta que ele já demonstrava má índole quando adolescente). Infelizmente, os textos não fornecem detalhes precisos sobre a doença, que possam dar alguma pista –  se foi uma doença infecciosa, congênita, física ou mental.

Um fato que parece incontestável acerca do reinado de Calígula é a rapidez com que a situação financeira do Império se deteriorou. Com efeito, são várias as afirmações de que Tibério deixou um gigantesco superávit no Tesouro do Estado, apontando-se até a soma precisa de 2,7 bilhões de sestércios, e, portanto é certo que o problema fiscal decorreu da política (ou falta de) determinada por Calígula. A desorganização econômica acarretou, ainda, episódios relatados de fome entre a população

Há, de fato, várias menções a gastos desmedidos ordenados por Calígula. Sabe-se, por exemplo, que ele ordenou a construção de uma ponte flutuante de mais de 4 km entre Baiae e Puteoli, apenas para contrariar uma profecia. Uma outra despesa enorme descrita por Suetônio foi a construção de dois enormes navios, para serem usados como templo e palácio. Esses barcos, que tinham mais de 70 metros de comprimento, foram recuperados no Lago Nemi, durante o governo de Mussolini na Itália, e colocados em um museu especialmente construído. Infelizmente, durante a 2ª Guerra, os barcos foram destruídos. De qualquer modo, a Arqueologia confirmou, mais uma vez, os relatos dos historiadores antigos.

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(Foto da escavação de um dos navios de Caligula, no Lago Nemi)

 

Não obstante, no front externo, Calígula reivindicou a realização de campanhas na Britânia e na Germânia, mas que teriam, sido, na verdade, apenas exercícios ou manobras militares. A decisão de anexar a Mauritânia, um reino-cliente de Roma, foi tomada no seu governo, mas há dúvidas se a execução desta decisão ocorreu quando ele ainda estava vivo ou se foi deixada para o sucessor.

Vamos deixar a narrativa dos inúmeros assassinatos, atos de perversão sexual e gestos tresloucados de Calígula para quem se interessar em ler Suetônio. Entre os últimos, está o desejo manifesto dele nomear seu cavalo Incitatus para o Senado Romano…O filme Calígula, de Bob Guccione, da Revista Penthouse, foi muito criticado por ser porno-erótico, mas não deixa de ser bem fiel ao relato de Suetônio (com a interpretação magistral de Malcolm Mcdowell no papel do imperador)…

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A personalidade cada vez mais instável de Calígula inviabilizou politicamente o seu governo. As fontes asseguram que ele efetivamente pensava ser um deus-vivo e exigia o culto que lhe achava devido. O judeu alexandrino Filão deixou um precioso relato da embaixada que fez à Roma, onde encontrou pessoalmente Calígula para tentar demovê-lo de instalar uma estátua dele no Templo de Jerusalém. Ele chega a descrever o imperador como muito agitado em alguns momentos, mas  lhe pareceu bem convincente a impressão de que o imperador acreditava que realmente era um ser divino.

Entre os autores antigos há certo consenso de que Calígula era louco, mas, hoje em dia, autores modernos lançam suspeitas sobre os relatos, atribuindo o tom negativo a uma certa antipatia e animosidade política dos escritores romanos, todos integrantes da classe senatorial, que se julgava preterida e perseguida pelos Césares.

Eu acredito que Calígula era insano mesmo, embora não possamos identificar com precisão que tipo de distúrbio psicológico ele sofria. É quase certo que as provações pelas quais passou na infância e adolescência, como, por exemplo, ter visto a mãe e os irmãos morrerem assassinados, o medo incessante de ser executado por Tibério ou por Sejano, tudo isso deve ter deixado marcas profundas e pode ter gerado transtornos de personalidade. Suetônio narra que Calígula conversava com as estátuas dos deuses, não conseguia dormir à noite e vagava como alma penada pelo Palácio. É bem possível, portanto, que sofresse de esquizofrenia paranóide.

Dessa forma, ao contrário de outros imperadores que se destacaram pelo comportamento tirânico e bizarro, como Nero, que reinou 14 anos, Domiciano, que reinou 15 anos, e Cômodo, que reinou 13 anos, Calígula, apesar do prestígio quase sacrossanto de sua linhagem entre o Povo e o Exército, foi assassinado antes de completar o quarto ano de seu reinado!

Quando Calígula manifestou a intenção de se mudar para Alexandria, onde poderia ser adorado como Deus, muitos romanos influentes perceberam que havia chegado a hora de se livrar do lunático imperador…

A elite política romana estava farta das insanidades de Calígula. Talvez ela até aguentasse as excentricidades e bizarrices se tais comportamentos não comprometessem a deferência e os privilégios aos quais os senadores se julgavam merecedores, mas esse definitivamente não era o caso, já que Calígula não titubeava em tratar os senadores como súditos e submeter-lhes a inúmeras humilhações.

Assim, quando os senadores perceberam que Calígula também não era benquisto por um bom número de seus próprios guarda-costas, uma conspiração para se livrar do perturbado imperador ganhou corpo e foi posta em prática no dia 24 de janeiro de 41 D.C.,  por elementos da Guarda Pretoriana, como relatamos no início do nosso texto.

Porém, se os conspiradores alguma vez de fato tiveram alguma esperança de restaurar a República, a realidade tratou de sepultar imediatamente suas aspirações, pois a própria Guarda apresentou ao Senado, o tio de Calígula, Cláudio, como sucessor, demonstrando que mais de setenta anos de governo de Augusto e seus sucessores tinham colocado a ideia de um regime de uma República governada pelo Senado definitivamente nos livros de História.

PROBO – IMPERADOR-SOLDADO DA ILÍRIA

Probus_Musei_Capitolini_MC493(Cabeça de Probo)

Em 19 de agosto de 232 D.C., nasceu, na cidade de Sirmium (atual Sremska Mitrovica, na Vojvodina, Sérvia), que, então, ficava na província romana da Panônia Inferior, Marcus Aurelius Probus (Probo), filho de um certo Dalmatius, que seria um simples jardineiro, ou hortelão .

Há uma versão alternativa, segundo a História Augusta, de que o pai de Probo, se chamava Maximus, um comandante que, após deixar o exército, foi morar no Egito com a família. Porém, é quase certo que aqui a História Augusta faz confusão com Tenagino Probus, que foi governador da Numídia e do Egito durante os reinados dos imperadores Cláudio Gótico e Aureliano. Note-se que as inscrições encontradas mencionando Tenagino Probus tornam cronologicamente improvável (embora não impossível), que este  tenha sido o pai de Marco Aurélio Probo (a quem, aliás, a História Augusta também atribui erroneamente alguns feitos de Tenagino Probus, que ocorreram nas referidas províncias).

De qualquer modo, sabe-se que a região da Ilíria, na segunda metade do século III D.C., era o esteio militar do Império Romano (efetivamente, dez imperadores romanos nasceram em Sirmium, quase todos eles militares de carreira). Assim, como tantos de seus compatriotas, Probo entrou no Exército Romano no início da década de 250 D.C.

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(Elmo romano do início do século IV, do tipo “Berkasovo”, assim chamado porque foi achado na cidade do mesmo nome, próxima a Sirmium)

Durante os reinados dos imperadores da dinastia dos Severos, tudo indica que o excesso de privilégios e benesses dados aos soldados comprometeu a disciplina do Exército, justamente quando o ressurgimento do poder persa no Oriente, sob a dinastia dos Sassânidas, começava a colocar Roma no desafio estratégico de enfrentar conflitos em três fronts, já que as fronteiras ocidentais dos rios Reno e Danúbio começavam a ser pressionadas pelo deslocamento de povos germânicos.

Foi de fato um período de frequentes rebeliões e assassinatos de imperadores, muitos, diga-se de passagem, incompetentes para enfrentar aqueles desafios, seguindo-se, assim, repetidas derrotas para os Persas e Germânicos, no período de 238/260 D.C, sendo as mais dignas de nota as catastróficas derrotas na Batalha de Abritus, em 251 D.C., para os Godos, com a morte do imperador Trajano Décio no campo de batalha, onde ocorreu a provável perda de todo o tesouro imperial, e a humilhante captura do imperador Valeriano pelos Persas, em 260 D.C.

Naghsh-e_rostam,_Irán,_2016-09-24,_DD_12.jpg(Relevo do Imperador Sapor I capturando Valeriano, na necrópole persa de Naqsh-e Rustam, foto de Diego Delso)

Enquanto isso, a Gália, o norte da Itália, a Ilíria, a Trácia e a Grécia, entre outras províncias, eram devastadas por invasões bárbaras. Foi nesse contexto dramático que os soldados provenientes da Ilíria foram recrutados e progrediram no Exército Romano, como foram os casos de Cláudio Gótico, Aureliano e Probo, todos eles Ilírios nativos de Sirmium (Obs: há uma certa dúvida quanto a Cláudio Gótico, que pode também ter nascido em Naissus, na Dardânia, mas com certeza ele era Ilírio).

Todos os três imperadores supracitados serviram durante o reinado do imperador Galieno, o filho e sucessor de Valeriano (260-268 D.C.), sendo que Cláudio Gótico chegou a comandante dos Comitatenses, a cavalaria de elite que Galieno criou (hipparchos).  Por sua vez, Probo, apesar de ser bem mais jovem que os outros dois, chegou a ser mencionado em cartas dos referidos imperadores como sendo responsável por várias façanhas militares, motivo pelo qual ele foi promovido a Tribuno, segundo a História Augusta, .

Gallienus_monochrome(Busto de Galieno)

Apesar dos esforços de Galieno, que venceu algumas batalhas contra os bárbaros, a caótica situação militar entre 251 e 260 D.C., acabou acarretando a secessão da província da Gália, que se autoproclamou “Império Gaulês”, e, posteriormente, a perda da província da Síria que passou a fazer parte do chamado “Império de Palmira”. Essas secessões foram, de fato, um acontecimento devastador, pois a Gália e a Síria eram, juntamente com o Egito, as duas províncias mais ricas do Império. Porém, ao contrário do que possa parecer, a separação das duas províncias ocorreu muito mais em função da incapacidade de Roma defendê-las dos bárbaros e dos Persas, do que devido a algum sentimento nacionalista anti-romano.

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A gravidade da situação, como não poderia deixar de ser, minou a reputação de Galieno, que acabou sendo assassinado, em 268 D.C., em mais uma conspiração perpetrada pela Guarda Pretoriana, mas muito provavelmente com a participação de Cláudio Gótico, que foi proclamado imperador, e de Aureliano, que foi nomeado Comandante da Cavalaria.  Havia chegado, portanto, a vez dos soldados ilírios governarem o Império. Se a História Augusta está correta,com a chegada dos seus compatriotas ao poder, Probo foi nomeado comandante de uma legião.

Cláudio Gótico obteve importante vitórias contra os Alamanos e esmagou os Godos, porém, em 270 D.C., ele morreu vítima da Peste que grassava no Império, sendo sucedido por Aureliano, que, sucessivamente,  conseguiu derrotar o Império Gaulês e Palmira e recuperar a Gália e a Síria, reunificando o Império Romano, motivo pelo qual recebeu do Senado o título de “Restaurador do Mundo(Restitutor Orbis).

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(Moeda romana. Aureliano “restitui” o mundo (orbis) à deusa Roma”)

Aureliano, apesar desses sucessos retumbantes, acabou sendo assassinado pelas próprias tropas em 275 D.C, segundo consta, pelo motivo dele ser muito severo com os soldados. Então, o Senado Romano, em um arranjo que talvez emulasse o que ocorreu com Nerva, quase dois séculos antes, escolheu, em 25 de setembro daquele ano, o velho senador Tácito, de 75 anos de idade, como novo imperador. Aliás, esta seria a última vez que o Senado elegeria um imperador romano por iniciativa própria.

Tácito (não confundir com o historiador homônimo), segundo consta, teria nomeado Probo, “governador do Oriente”. Em seguida, o imperador, apesar de sua já provecta idade, partiu para enfrentar, com sucesso, os mercenários hérulos que devastavam as províncias orientais, acompanhado de seu meio-irmão, Floriano,  todavia, quando enquanto retornava para lutar contra uma invasão dos Francos e Alamanos, Tácito contraiu uma febre e morreu, em junho de 276 D.C, (vale citar que, segundo a versão minoritária do historiador Zózimo, a morte de Tácito teria sido assassinato).

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(Busto de Tácito,  Photo © Roby 9 janvier 2005)

Quando a notícia da morte de Tácito circulou, as tropas de Probo o aclamaram imperador, o mesmo ocorrendo com Floriano, que foi reconhecido no Ocidente, mas não no Oriente, que apoiou Probo. Assim, os dois imperadores rumaram para decidir a sucessão em uma batalha, perto de Tarso, na atual Turquia. Floriano até tinha superioridade numérica, mas as suas tropas não estavam acostumadas ao calor que fazia na região. Probo, cautelosamente, evitou um engajamento e o relato é de que as tropas de Floriano, incomodadas com a sua aflitiva situação, assassinaram o seu imperador, em setembro de 276 D.C. O mais provável, contudo, é que as tropas, certamente compostas por muitos Ilírios, preferissem ser governadas por um compatriota, e oriundo, como eles, da caserna.

Com o seu trono agora inconteste, uma das primeiras medidas de Probo foi punir os assassinos de Aureliano e de Tácito que ainda estavam impunes.

probus 6nxAX9s9e57GSp38LM3c5gaRw4YE2b.jpgImediatamente após sua ascensão, Probo teve que se deslocar para o Ocidente para enfrentar uma invasão dos Godos na Ilíria, os quais derrotou, recebendo o titulo de Gothicus Maximus, em 277 D.C. Nessa altura, Probo já tinha sido reconhecido pelo Senado. Depois disso, Probo rumou para a Gália, onde, em 278 DC., ele obrigou os bárbaros Francos, Longiones e Alamanos a cruzarem de volta o Reno (feito pelo qual ganhou o título de Germanicus Maximus), capturando Semnon, chefe dos Longiones, e o filho deste, que foram poupados. Finalmente, Probo derrotou os Burgúndios, capturando um grande número deles, que foram incorporados ao exército romano.

Probo_-_Foto_Giovanni_Dall'Orto,_25_Giu_2011(Cabeça de uma estátua dourada de Probo, foto de Giovanni Dall’Orto)

Com a derrota dos bárbaros na fronteira renana, Probo adotou a estratégia de construir alguns fortes na margem oriental do rio, nos pontos em que o mesmo podia ser cruzado, além de depósitos de suprimentos.

Em seguida, Probo conseguiu pacificar a província da Récia e, após, ele voltou para a Ilíria, agora para reprimir uma invasão dos Vândalos, em 279 D.C. A persistência dessas invasões mostra que, provavelmente, nenhuma dessas vitórias foi conclusiva, ou, então, que tais incursões bárbaras não eram massivas. Não obstante, esses sucessos mostraram que o Império recuperara a capacidade de defender as fronteiras.

Com a estabilização da situação na Gália e no Danúbio, Probo adotou a benéfica política de utilizar o exército parar plantar vinhedos na Gália e na Panônia, o que era, sem dúvida uma medida inteligente, tendo em vista a devastação que essas províncias tinham sofrido nos últimos 20 anos, causando sua decadência econômica. Nas províncias mais despovoadas pelas seguidas invasões, Probo decidiu assentar algumas das tribos germânicas pacificadas, política que, entretanto, apresentava alguns riscos à segurança do império.

É interessante observar que, dentre os lugares nos quais Probo ordenou que fossem plantados os vinhedos, está a região do antigo Monte Alba, próximo à cidade natal de Probo, Sirmium, onde, segundo a História Augusta, o imperador plantou o primeiro vinhedo com as próprias mãos (essa região é conhecida atualmente como as montanhas Fruska-Gora, na região sérvia da Vojvodina, e ainda hoje é uma conceituada região vinícola!).

fruska-vino222.jpg(A região vinícola de Fuska-Gora, onde Probo ordenou o plantio de vinhedos)

Em 280 D.C., Probo enviou os seus generais para comandar uma campanha contra os Blemmyes, um reino tribal de populações da etnia Beja, que viviam na antiga Núbia, correspondendo à região onde hoje é o Sudão, e que vinham atacando a província romana do Egito.

Derrotados os Blemmyes, Probo, seguindo a política de recuperação econômica que adotara no Ocidente, determinou ao Exército a reconstrução de diques, de canais de irrigação e de pontes ao longo do Nilo, medidas que eram relevantes para estimular a produção agrícola de uma província que era a grande fonte de cereais para a Itália.

Lamentavelmente, a praga das rebeliões militares não deixava de assolar o Império e, entre 280 D.C. e 281 D.C., Probo teve que enfrentar as revoltas dos usurpadores Júlio Saturnino, na Síria, e de Próculo e Bonosus, em Lugdunum (atual Lyon) e Colônia, nas províncias da Gália e na Germânia, os quais se declararam co-imperadores. Logo Saturnino acabou sendo morto pelos seus próprios soldados. Já a revolta dos dois últimos citados é um tanto obscura, e tanto pode ter sido fruto de algum resquício do “Império Gaulês”; ou talvez fruto de alguma insatisfação mais generalizada, já que inscrições com o nome de Probo também foram apagadas na Hispânia, na mesma época. Vale citar que Próculo tinha ligações com os Francos. Por sua vez, Bonosus, consta, teria se revoltado por medo de ser punido pelo incêndio da flotilha romana do Reno, pelos bárbaros germanos. O fato é que ambas as rebeliões foram derrotadas, sendo Próculo executado após ser entregue a Probo pelos seus aliados Francos, para onde ele fugira após a chegada do exército do imperador. E Bonosus, se matou após perder o combate com as tropas imperiais. Probo, dando uma prova do seu temperamento moderado, poupou as famílias dos usurpadores.

Somente em 281 D.C., Probo conseguiu celebrar em Roma o seu merecido Triunfo pelas vitórias contra os bárbaros. Nessa estadia na capital, ele aproveitou para completar as imponentes muralhas iniciadas por seu antecessor Aureliano (e que por isso são chamadas de Muralhas Aurelianas, as quais ainda existem).

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Segundo a História Augusta, Probo tentou devolver alguns privilégios ao Senado Romano, como o de ser a instância máxima para julgar as apelações das decisões dos tribunais superiores, o de designar os Procônsules e os Legados dos Procônsules e o de conferir aos governadores as prerrogativas e os poderes dos Pretores. Isso é considerado duvidoso por alguns historiadores, mas, se for verdade, pode bem ser uma das causas da crescente insatisfação do Exército, que havia se tornado a principal instância de poder.

Em 282 D.C., Probo partiu para a sua cidade natal de Sirmium, que, segundo parece, iria servir como ponto de partida para uma futura campanha contra a Pérsia. Há o relato de que ele teria, mais uma vez, determinado aos soldados que trabalhassem em obras públicas para o benefício da província, fato que acabou causando uma rebelião. Acuado, Probo teve que se refugiar em uma fortificação chamada de “Torre de Ferro”, onde ele acabou sendo morto. Em outra versão, de acordo com o relato de Zózimo,  o qual muitos estudiosos acham mais crível, as tropas proclamaram imperador Marco Numério Caro (Caro), o Prefeito Pretoriano de Probo, ocasião em que o contingente enviado por Probo para reprimir o levante aderiu à revolta, e os próprios soldados remanescentes de Probo mataram o imperador, em setembro de 282 D.C.

CONCLUSÃO

Os combativos imperadores-ilírios Cláudio Gótico, Aureliano e Probo, no período entre 268 D.C e 282 D.C contribuíram decisivamente para conter as ameaças dos Germanos e dos Persas, nos fronts ocidental e oriental do Império Romano. Contudo, persistiram os graves problemas da instabilidade política e econômica e da insubordinação militar a comprometerem a sobrevivência do Império, problemas que seriam mais bem enfrentados pelos seus sucessores Ilírios, Diocleciano e Constantino.

ADRIANO – ANIMA VAGULA BLANDULA

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ADRIANO – ANIMA VAGULA BLANDULA

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NASCIMENTO, ORIGEM FAMILIAR, INFÂNCIA E JUVENTUDE

Em 24 de janeiro de 76 D.C, nascia Publius Aelius Hadrianus (Adriano),  em Roma, ou, segundo algumas fontes, em Itálica, cidade na província romana da Hispania Betica a 9 km da atual Sevilha, que foi fundada por Cipião, o Africano ainda durante a 2ª Guerra Púnica, que ali assentou colonos romanos de origem italiana, entre os quais provavelmente estava a família dos Élios.

O pai de Adriano, Publius Aelius Hadrianus Afer, era um senador romano e primo de Marcus Ulpius Trajanus, seu conterrâneo de Itálica que se tornaria, em 98 D.C, o imperador Trajano (o primeiro imperador nativo de uma província fora da Itália;  já a sua mãe, Domícia Paulina, também vinha de uma família da classe senatorial radicada na Espanha.

Quando Adriano tinha apenas 10 anos de idade, no ano de 86 D.C, os seus pais faleceram e ele ficou sob a tutela de Trajano e de Publius Acilius Attianus, um conterrâneo de seu pai. E aos 14 anos de idade, Adriano, que estava em Itálica, foi chamado para ir morar em Roma por Trajano. Na capital do Império, Adriano recebeu uma esmerada educação, em companhia de outros rapazes da alta aristocracia romana.

Consta que, ainda na infância, chamou a atenção o grande interesse de Adriano pela cultura grega, chegando ele a receber o apelido de “graeculus” (“greguinho”), não se olvidando que esse termo também era, entre os romanos, por vezes usado como uma forma jocosa de chamar alguém de efeminado ou “gay”.

Com cerca de 18 anos, Adriano entrou para o serviço militar na condição de tribuno, mas sem muito destaque. Ele serviu por cerca de três anos em legiões na Mésia, na Dácia e na Germânia.

INGRESSO NA FAMÍLIA IMPERIAL DE TRAJANO E INÍCIO DA CARREIRA PÚBLICA

Em 98 D.C, o imperador Nerva, que, ao assumir o trono, havia adotado Trajano como sucessor faleceu. Adriano, então ao receber a notícia, fez questão de ser o primeiro a comunicar o momentoso fato a Trajano, que estava em campanha, e cavalgando com velocidade espantosa para a época, conseguindo chegar na frente do emissário oficial, motivo pelo qual Trajano ficou muito grato e sua carreira começou a decolar.

Fortalecendo seus laços com a casa imperial, Adriano, em 100 D.C, casou-se com Víbia Sabina, que era filha de Matídia, sobrinha de Trajano, mas que tiha sido criada como se fosse filha do imperador, que, aliás, nunca teve filhos naturais. Este foi um casamento arranjado por Matídia e pela própria imperatriz Plotina, duas mulheres que sempre demonstraram um grande afeto por Adriano. E, com efeito, os estreitos laços emotivos entre Plotina e Adriano ainda favoreceriam muito o jovem no futuro…

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(Busto da Imperatriz Plotina, a protetora de Adriano)

Pouco depois do casamento, Adriano acompanhou Trajano na primeira grande empreitada militar deste imperador: A Primeira Guerra contra a Dácia (101-102 D.C). Contudo, no decorrer desta campanha, Adriano foi dispensado para assumir os cargos de Questor, em 101 D.C, e, posteriormente, de Tribuno da Plebe, em 105 D.C., seguindo os passos da tradicional carreira das magistraturas (cursus honorum) romana.

Na Segunda Guerra contra os Dácios (105-106 D.C), Adriano também integrou a comitiva de Trajano e recebeu o comando da I Legião Minervia. Novamente, Adriano deixou a campanha em seu desenrolar e foi para a Roma assumir o cargo de Pretor, em 106 D.C. Em seguida, ele foi nomeado governador da Panônia Inferior. Não obstanyr, Adriano recebeu menções honrosas do Imperador pelo seu desempenho na referida segunda campanha na Dácia. Posteriormente, em 108 D.C, Adriano foi nomeado cônsul suffectus (equivalente a cônsul substituto –  um posto somente inferior ao consulado ordinário. Um cônsul suffectus era designado para completar o período do consulado ordinário quando este ficava vago).

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(Relevo da Coluna de Trajano, em Roma, com cena da Guerra contra os Dácios)

Depois do consulado, Adriano integrou os colégios sacerdotais dos setêmviros e dos sodalis augustales, este último um prestigiado ofício religioso encarregado do culto a Augusto.

Nos anos seguintes, que parecem ter sido “sabáticos”, sabemos que Adriano viajou para a sua adorada Grécia, onde estudou com o filósofo estóico Epicteto, na Hélade, como mais um exemplo e reconhecimento do seu amor pela cultura grega, Adriano conseguiu ser eleito cidadão de Atenas e ocupou o cargo de Archon, uma magistratura ateniense, entre 112 e 113 D.C.

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(Arco de Adriano, em Atenas, foto de Carole Raddato)

Nesse ponto, parece estranho que a carreira pública de Adriano tenha ficado em segundo plano em relação à sua viagem existencial pela Grécia. Alguns acreditam que Trajano nunca tenha tido muito entusiasmo pela possibilidade de Adriano tornar-se seu sucessor. Se por um lado, a sucessão de cargos ocupados por ele  (bem como o seu casamento com Sabina) demonstra que Adriano era bem considerado e próximo ao Imperador, por outro é certo que ele ainda não recebera nenhuma distinção inegável para que fosse considerado um herdeiro escolhido, tal como, por exemplo, o Poder Tribunício, a adoção oficial ou, mesmo, a designação para sucessivos consulados ordinários. Poderia-se até cogitar que o fato de Adriano ter ficado tanto tempo em Atenas para se dedicar a estudos filosóficos, quando já tinha mais de 35 anos de idade e sem ocupar nenhum cargo de cúpula, equivaleria à nossa expressão: “ficar na geladeira”…

Porém,  eu entendo que não há dúvidas de que Adriano jamais deixou de gozar da confiança de Trajano, pois, quando, em 114 D.C. este embarcou em sua campanha contra a Pártia, ele integrou a comitiva imperial, e, no decorrer da guerra, foi nomeado governador da importantíssima província da Síria. Esse cargo tornava Adriano virtualmente o comandante militar do Exército Romano no Oriente, pois Trajano, gravemente doente, teve que deixar a campanha e partir para Roma, em 117 D.C.

ASCENSÃO AO TRONO

Assim, foi enquanto era governador da Síria que Adriano recebeu, em Antióquia, a notícia de que Trajano havia falecido, na viagem de retorno à Roma, em Selinos, na Cilícia, ainda na Ásia Menor, em 8 de agosto de 117 D.C, nomeando-lhe como sucessor.

As fontes antigas atribuem a investidura de Adriano à imperatriz Plotina, que, contando também como o auxílio de seu velho tutor Attianus, teriam mantido a morte de Trajano em segredo por alguns dias, aproveitando para forjar os documentos em que Trajano designava Adriano como o herdeiro que deveria sucedê-lo no trono do Império Romano. A História Augusta até menciona que Trajano pretendia nomear o famoso jurista Neratius Priscus como sucessor, mas isso é altamente improvável, até porque, posteriormente, Priscus ocupou importantes cargos durante o reinado de Adriano e foi encarregado de várias reformas legais. Mas, certamente, Priscus teria sido logo eliminado por Adriano, caso a escolha dele por Trajano como sucessor tivesse mesmo ocorrido.

O fato é que Adriano era o parente vivo mais próximo de Trajano e ocupava o importante governo da Síria, o que o colocaria, mesmo na ausência de testamento, como o comandante militar mais poderoso do Império naquele momento. Assim, ainda que Trajano não tenha expressamente designado Adriano como sucessor, essa condição era natural pelas circunstâncias, e não se pode condenar a “interpretação” que, supostamente, Plotina teria dado à vontade do marido falecido…

REINADO

Um dos primeiros atos de Adriano foi livrar-se de quatro senadores “oposicionistas”, que tinham sido cônsules. As fontes relatam que ele depois sempre se ressentiria dessa “mancha” na sua, em geral, reputação de monarca tolerante e ilustrado. A desagradável tarefa ficou a cargo de seu ex-tutor Attianus, que havia sido nomeado Prefeito Pretoriano, ainda por Trajano, em Roma. Adriano sempre colocaria a culpa desses assassinatos políticos em Attianus, alegando que ele mesmo de nada sabia, chegando até a removê-lo do cargo, mas essa alegação não se coaduna com com o fato de, logo após a essa “punição”, Adriano ter nomeado Attianus para o Senado Romano e lhe honrado com os ornamentos consulares…

Entrementes, logo ficou claro que Adriano promoveria uma guinada de 180° em relação à política exterior de Trajano.

Todas as conquistas no Oriente duramente obtidas por Trajano, mas onde já espoucavam revoltas, foram abandonadas, inclusive a província da Mesopotâmia, o que gerou certa insatisfação na opinião pública. Esse sentimento é compreensível, sobretudo porque o domínio romano na Mesopotâmia evocava de certo modo as conquistas de Alexandre, o Grande na Pérsia, mas provavelmente Adriano, quanto à retirada desta Província, estava correto, pois dificilmente os romanos conseguiriam mantê-la.

Adriano entendia que o Império devia fortalecer as fronteiras estabelecidas na época de Augusto, com exceção a rica Dácia, que além do mais estabelecia um colchão de segurança para a estratégica fronteira do Danúbio.

O Império, assim, embarcou na construção de uma rede de muralhas, torres fortificadas, quartéis e paliçadas visando assegurar essas fronteiras. O exemplo mais famoso desse programa são as Muralhas de Adriano, na Grã-Bretanha (construída entre 122 e 125 D.C).

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Não obstante, Adriano cuidou para que o Exército Romano fosse cuidadosamente mantido em estado de excelência, seja em equipamentos, disciplina e prontidão, tendo sido extensivamente empregado em projetos de construção e manobras militares constantes.m Com efeito, uma das grandes preocupações de Adriano era o evidente relaxamento da disciplina militar pelo excesso de confortos e luxos nos quartéis, situação que ele combateu.

Já na esfera social, Adriano expandiu o programa dos “Alimenta” (fornecimento gratuito de gêneros alimentícios aos cidadãos pobres de Roma).

O imperador externou que seu propósito era visitar todas as províncias do Império Romano, a fim de verificar pessoalmente as condições dos cidadãos romanos, conhecer os problemas das províncias e fiscalizar a administração regional. E com efeito, Adriano visitou a Gália e o Reno (120-121 D.C), a Bretanha (121-122 D.C), a Espanha (122 D.C), a Ásia (123 D.C), a Grécia (125 D.C), e, após voltar à Roma, a África (128 D.C), novamente a sua amada Grécia (Atenas, 128 D.C), a Cária, Cilícia, Capadócia e Sìria (129 D.C) e o Egito (130 D.C), voltando à Roma em 131 D.C. Essas viagens também demonstrariam a visão do Império Romano como uma comunidade de povos que compartilhavam a civilização helenística, ao invés de ser meramente um território conquistado pelos romanos e governado por Roma para os de origem italiana.

Foi muito provavelmente durante a estadia de Adriano na Bitínia que ele conheceu o belo adolescente Antinoos, ou Antinous,  que foi enviado para Roma para ser educado como pajem e que se tornaria seu notório amante.

Outra reforma importante implementada por Adriano foi a designação de integrantes da classe equestre para os cargos da burocracia imperial, assegurando-lhes, a partir daí, a promoção para os mais altos cargos da magistratura. Esse passo foi seguido pela profissionalização do Conselho do Imperador (Consilia Princeps), corpo consultivo que passaria a ser integrado por conselheiros pagos e não mais por libertos ou servos domésticos do Imperador.

No campo do Direito, Adriano foi o primeiro a editar um Código de Leis publicado para ser conhecido para todos os cidadãos. Esse Código, elaborado pelo célebre jurtsta Sálvio Juliano, chamado de Édito do Pretor (depois conhecido com Editum Perpetuum), marcou uma profunda alteração no sistema jurídico-legal romano, pois, até então, tradicionalmente, os juízes (pretores) publicavam seus éditos com a sua interpretação jurídica das leis e costumes romanos, que era considerada como uma fonte do Direito. Agora, todos os éditos anteriores ao Editum Perpetuum estavam sendo fixados no Código e, a partir daí, somente o Imperador poderia alterar a legislação mediante a expedição de decretos ou de leis ratificadas pelo Senado. Esta era uma mudança revolucionária: do sistema de direito de precedente judiciário e judge men’s law (direito dos juízes) para o direito codificado ou legislado, que, ainda hoje, marca a divisão entre os sistemas jurídicos existentes no mundo.

Adriano foi também um grande construtor, e os edifícios mais famosos em Roma construídos durante o seu reinado foram: o Templo de Vênus e Roma, o seu próprio Mausoléu ( que ainda existe, na forma do Castelo de Santo Ângelo), e o muito bem preservado Pantheon, no qual, pretendendo demonstrar humildade, Adriano manteve a inscrição ostentada na fachada do prédio antecessor, que havia sido destruído havia tempos, declarando que havia sido construído por Marcus Agrippa. Espetacular também foi a sua Villa, em Tìvoli, que constituía praticamente um grande parque temático sobre o mundo helenístico.

(Pantheon e Templo de Vênus e Roma – este reconstituído por Franck devedjian)

PERSONALIDADE

A personalidade de Adriano era certamente refinada, complexa e contraditória. Ele queria ser visto como, e, tudo indica, se esforçava mesmo para ser,  um monarca esclarecido, humano, tolerante, pio e dedicado ao serviço público, mas era excessivamente vaidoso, de temperamento colérico e emotivo.

Os seguintes casos preservados pelas fontes podem dar uma idéia:

Sabe-se que Adriano publicou leis visando melhorar a condição dos escravos. Contudo, consta que certa vez, irritado com um seu escravo doméstico, Adriano cravou o seu estilete de escrita no olho do infeliz escravo. Logo depois, tomado de remorso, Adriano pediu perdão ao escravo e, visando reparar essa violência, disse que o escravo poderia pedir qualquer coisa que quisesse, que ele, Adriano, lhe daria. Resposta do escravo: “Só quero o meu olho de volta“.

Outra vez, quando viajava, uma mulher abordou a comitiva e quis fazer um pedido, ao que Adriano respondeu: “Não tenho tempo para te ouvir“. A mulher então, ousadamente, replicou: “então, não seja imperador!“. Adriano, envergonhado, parou e ouviu o requerimento da mulher .

Cássio Dio descreve Adriano como sendo um homem agradável de encontrar e dotado de um certo charme. Segundo a História Augusta, ele tinha muito interesse em poesia e nas letras e era expert em aritmética, geometria e pintura. Adriano sabia tocar bem a flauta e cantar. Excedia-se ao satisfazer seus desejos e escreveu muitos versos aos objetos de suas paixões. Ele também sabia manejar diversas armas. Segundo esta mesma fonte, Adriano:

“na mesma pessoa, era austero e genial, solene e brincalhão, ativo e preguiçoso, sovina e generoso, dissimulado e direto, cruel e compassivo e, sempre, em todas as coisas, volúvel“.

Certamente, Adriano era muito vaidoso intelectualmente, o que deu margem a algumas estórias sobre a inveja que sentiria de outros homens admirados pelo talento. Consta que até que ele teria mandado matar o arquiteto Apolodoro de Damasco porque este debochara de seus desenhos e desdenhara das suas sugestões para o Pantheon e o Templo de Vênus e Roma. Mas alguns duvidam que essa narrativa seja verdadeira.

Sobre a vida afetiva de Adriano, parece que o casamento com a imperatriz Sabina era de fachada, Ela inclusive teria tido um relacionamento amoroso com o célebre historiador Suetônio. Em todo caso, o casamento não gerou filhos e ela morreu um pouco antes do imperador, em 136 ou 137 D.C.

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(Busto da imperatriz Víbia Sabina)

O relacionamento amoroso mais conhecido de Adriano é com o belo jovem bitínio Antínoo, natural da cidade de Claudiópolis, que ele deve ter conhecido em 123 D.C, durante a sua viagem pelas províncias da Ásia. O menino deveria ter, então, cerca de 13 anos e foi levado para Roma para ser educado. Sendo ele grande admirador da cultura grega, é provável que a relação íntima de Adriano com o rapaz tenha se desenvolvido como a relação entre as figuras do “eraster” e do “eromenos“, onde um homem adulto assume o papel de mentor educacional de um pupilo,  ocasião em que se admitia, na Grécia, o relacionamento sexual entre eles (pederastia). Considerando que a elite romana, no período, era fortemente influenciada pelo helenismo, provavelmente a relação entre Adriano e Antinoos, naquele momento, não foi considerada escandalosa, ao menos enquanto o rapaz era adolescente.

Antinous

Porém, em 130 D.C, durante a viagem de Adriano pelo Egito, quando eles navegavam pelo Nilo, a flotilha imperial parou na cidade de Hermópolis e durante essa parada, Antinoos afogou-se no rio. Consta que Adriano chorou copiosamente a perda do amante. Pouco depois, Adriano conseguiu que os gregos deificassem Antinoos e ordenou que uma cidade no Egito fosse construída no local da morte do amante, batizando-a de Antinoopolis.  Inúmeras estátuas do jovem foram espalhadas pelo Império (muitas ainda existem).

As fontes antigas divergem sobre a causa da morte de Antinoos. As versões variam entre suicídio, assassinato, sacrifício e acidente. Para alguns, o próprio rapaz, percebendo que em breve a relação terminaria devido á sua condição de homem adulto, já que a relação amorosa aberta entre homens adultos livres não era aceita pela sociedade romana, teria se matado. Esse também seria o motivo pelo qual ele poderia ter sido assassinado. Para outros, Antinoos teria sido voluntariamente sacrificado em algum misterioso ritual religioso ou vítima de um acidente. O fato é que as homenagens prestadas pelo imperador a Antinoo foram consideradas excessivas e expuseram Adriano ao ridículo, ao menos segundo nos conta a História Augusta.

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O conflito militar mais importante do reinado de Adriano foi a revolta judaica liderada por Simão Bar-kohba, entre 132 e 136 D.C, que foi implacavelmente reprimida, com a destruição de Jerusalém, a morte estimada de 580 mil judeus e a deportação de grande parte da população judaica , vendida como escrava, episódio chamado pelo povo hebreu de “A Grande Diáspora“. Sobre as ruínas de Jerusalém, Adriano ordenou a construção de uma nova cidade, batizando-a de Élia Capitolina.

MORTE

O final da vida de Adriano foi atormentado por uma grave doença que lhe causou muito sofrimento, ao ponto de seus assessores mais íntimos se preocuparem em evitar que ele tivesse qualquer instrumento potencialmente letal à sua disposição, por medo de que ele se matasse.

Adriano escolheu como sucessor Lucius Ceionus Commodus, em 136 D.C, um senador que era filho de um dos quatro consulares que ele havia executado no início do seu reinado. Porém, Lucius, que adotou o nome de Lucius Aelius Caesar, morreu no início de 138 D.C. Adriano, então, adotou Titus Aurelius Fulvus Boionius Arrius Antoninus (o futuro imperador Antonino Pio), que era casado com Faustina, uma sobrinha da imperatriz Sabina e filha de Marco Ânio Vero, grande amigo de Adriano e membro de uma família conterrânea da Hispânia, como novo herdeiro.

Segundo a História Augusta, em seu leito de morte, Adriano compôs o célebre poema Anima, Vagula, Blandula (Pequena alma terna e flutuante), uma belíssima peça lírica que ilustra a riqueza do espírito do moribundo Imperador:

“Pequena alma terna e flutuante,

hóspede e companheira de meu corpo,

vais descer a lugares pálidos, duros, nús,

onde renunciarás aos jogos de outrora.

Animula,_vagula,_blandula_(13307208213)(Lápide moderna em mármore com o poema de Adriano em latim, colocada no interior do seu Mausoléu, hoje Castello Sant’Angelo, em Roma. Foto: Carole Raddato)

Em 10 de julho de 138 D.C., o coração de Adriano parou de bater em sua villa no tradicional balneário de Baiae. Ele tinha 62 anos de idade e seu reinado durou  21 anos, um dos mais longos da História, então somente superado por seus predecessores Augusto e Tibério. Ele inicialmente foi sepultado em uma villa que havia pertencido a Cícero, e depois seus restos foram trasladados para Roma, onde foram cremados e depositados no seu magnífico Mausoléu de Adriano, juntamente com os de sua esposa Sabina e seu filho adotivo Lúcio Élio, pelo seu sucessor Antonino, que, por ter conseguido convencer o relutante Senado Romano a deificar Adriano, recebeu o cognome de “Pio”.

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F I M

NERO

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Nascimento e infância 

Em 15 de dezembro de 37 D.C., nasceu, em Anzio, Itália, Lucius Domitius Ahenobarbus (II), que passaria a História com o nome de Nero, filho de Gnaeus Domitius Ahenobarbus e de Agripina Minor (Agripina, a Jovem).

A gens dos Domícios (Domitii), que nos primórdios da República era plebeia, atingiu, ainda durante a fase de expansão de Roma pela península itálica, uma grande proeminência política, ocupando  a magistratura do Consulado e fornecendo ao Estado destacados generais.

Já no final do período republicano, o ramo da gens Domitia dos Ahenobarbus (literalmente,  os “barbas ruivas”) apoiou a facção senatorial dos Optimates (nobres) contra Júlio César. E, após o assassinato do Ditador, durante o Segundo Triunvirato, eles estiveram associados com o triúnviro Marco Antônio.

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(Busto colorizado de Nero, mostrando os cabelos e a barba ruiva, característica da família dos Ahenobarbus)

Apesar de ter apoiado Marco Antônio, a família acabaria ingressando no círculo familiar do grande rival dele na disputa pelo poder supremo – Otaviano (o futuro imperador Augusto), uma vez que o bisavô de Nero, que também se chamava Lucius Domitius Ahenobarbus (I), casou-se com  Antonia Major (Antônia, a Velha) que era filha de Antônio e Otávia,  a irmã de Otaviano.

Os laços com a dinastia imperial dos Júlios-Cláudios (nome que deriva do fato de Augusto, sobrinho-neto e herdeiro de Júlio César, ter adotado como sucessor o filho de sua terceira esposa, Lívia Drusila, Tibério Cláudio Nero) foram reforçados quando Gnaeus Domitius Ahenobarbus, o pai de Nero, casou-se com Agripina, a Jovem, que era irmã do futuro Imperador Calígula, em um casamento arranjado pelo próprio tio deste, o Imperador Tibério).

Agripina, a Jovem, por sua vez, era neta de Augusto (a mãe dela, Agripina, a Velha, era filha de Júlia, a filha única de Augusto com sua segunda esposa Escribônia). Portanto, Nero era descendente direto do primeiro imperador, por parte de mãe, e também era parente de Augusto, por parte de seu pai, Gnaeus Domitius Ahenobarbus.

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Todavia, a despeito de possuir tão ilustre ascendência, a princípio não parecia que o destino de Nero prometia muito. Com efeito, o seu pai, que tinha sido Cônsul em 32 D.C.,  foi acusado de traição, assassinato e adultério no final reinado de Tibério e ele somente se safou graças à morte do velho imperador, em 37 D.C., alguns meses antes do nascimento do próprio Nero. Todavia, Gnaeus Domitius Ahenobarbus acabaria morrendo poucos anos depois, de um edema, em janeiro de 40 ou 41 D.C.

O historiador romano Suetônio escreveu que Gnaeus Domitius Ahenobarbus era um homem cruel e desonesto. Talvez por isso, ao receber os cumprimentos dos amigos pelo nascimento de Nero, o historiador registra que ele teria dito:

“Nada que não seja abominável e uma desgraça pública pode nascer de Agripina e de mim”

A sorte de Agripina, a mãe de Nero, não foi melhor no período. Embora ela fosse irmã do novo imperador, Gaius Julius Caesar Germanicus, mais conhecido como Calígula, (ambos eram filhos de Germânico, o falecido sobrinho e herdeiro de Tibério, adorado pelo Exército e pelo povo e supostamente envenenado a mando de Lívia, viúva de Augusto e mãe de Tibério), este logo entrou em um processo de paranoia e loucura que o levou a suspeitar e perseguir de quase todos, inclusive os integrantes de seu círculo mais íntimo.

Assim, em 39 D.C., Agripina foi acusada de fazer parte de uma conspiração, fictícia ou verdadeira, contra o seu irmão, sendo condenada ao exílio nas ilhas Ponzianas, ao largo da Itália. Então, Calígula aproveitou esse pretexto para confiscar a herança do seu jovem sobrinho Nero.

Nero, portanto, no espaço de dois anos, sendo uma criança de tenra idade, além de ter sido afastado do convívio com a mãe, exilada, ainda teve a sua herança confiscada e também perdeu o pai. Assim, ele foi então morar com sua tia, Domícia Lépida, que era irmã de seu pai.

Reabilitação de Agripina e Nero

Todavia, a sorte de Agripina e Nero mudaria com o assassinato de Calígula pelo centurião Cássio Queréa, em 41 D.C., em uma conspiração engendrada pela Guarda Pretoriana. Logo após o tiranicídio, os guardas descobriram, escondido atrás de uma cortina, o tio da imperial vítima, Cláudio, até então tido como imbecil e incapaz de ocupar qualquer cargo público, e o aclamaram como novo Imperador.

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Cláudio era irmão de Germânico e, portanto, não surpreende que uma das primeiras medidas de Cláudio tenha sido chamar de volta do exílio a filha deste, Agripina, que era sua sobrinha. Assim reuniram-se, novamente, Nero e sua mãe. O novo imperador mandou também devolver ao seu sobrinho-neto, Nero, a herança confiscada por Calígula.

Ao contrário das expectativas, Cláudio mostrou-se um administrador competente das questões de Estado. Todavia, o mesmo não se pode dizer quanto à sua vida conjugal… Após dois casamentos fracassados, Cláudio casou-se com Valéria Messalina (filha de Domícia Lépida), esposa que se mostrou dominadora e notabilizou-se pela infidelidade e promiscuidade sexual, segundo os relatos antigos, que talvez sejam um tanto exagerados (ver Tácito, Suetônio, Plínio e Juvenal).

O fato importante é que Messalina deu a Cláudio, em 41 D.C., um filho, que recebeu o nome de Britânico, e a nova imperatriz imediatamente percebeu que o jovem Nero era uma ameaça às pretensões do seu filho natural ao trono. Consta, inclusive, que Messalina, certa vez, teria encomendado a morte de Nero a assassinos que chegaram a entrar no quarto do menino, e somente não completaram a tarefa porque se assustaram com o que eles pensaram ser uma cobra.

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(Messalina segurando Britânico, estátua no Museu do Louvre, foto de Ricardo André Frantz)

A grande popularidade de Agripina e Nero foi atestada quando, durante os concorridos Jogos Seculares, em 47 D.C., eles foram ovacionados pelo povo, que demonstrou por eles muito mais simpatia do que em relação a Messalina e Britânico, que também estavam presentes no evento.

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(Estátua de Nero criança, foto de Prioryman )

Se a conduta pretensamente escandalosa de Messalina foi ou não a causa da sua desgraça, o fato é que ela foi sentenciada à morte em 49 D.C., supostamente por ter se casado secretamente com um senador, Gaius Silius, no que seria uma conspiração para assassinar o seu marido e imperador. Há relatos de que, ainda assim, Cláudio teria relutado em ordenar a execução dela, que somente teria sido levada a cabo por iniciativa de seus auxiliares.

Agripina, imperatriz

Naquele mesmo ano de 49 D.C., Cláudio casaria com sua sobrinha, Agripina, a Jovem. Este pode muito bem ter sido um casamento político, já que nenhuma mulher, naquele momento, tinha linhagem mais ilustre. Há, contudo, quem acredite que Agripina, valendo-se da intimidade familiar que a condição de jovem e bonita sobrinha lhe propiciava, tenha astuciosamente seduzido o seu velho tio.

Em verdade, para os romanos, o casamento de Cláudio e Agripina tinha um caráter incestuoso, já que o casamento de tio e sobrinha era quase tão inaceitável como o de um pai com a filha.

Portanto, o custo político dessa união deve ter sido considerável e é possível que somente o fato de Cláudio ter sido seduzido explique ele ter descartado as consequências políticas negativas de mais esse escândalo em sua vida conjugal. O passado do velho imperador nos inclina para essa última hipótese, pois houve episódios anteriores nos quais ele parece ter sido emocionalmente manipulado por mulheres dominadoras…

Seja como for, o fato é que Agripina não titubeou em tratar de se tornar a pessoa mais poderosa na corte imperial, afastando aqueles que não lhe parecessem leais e, sobretudo, os concorrentes de seu filho Nero à sucessão de Cláudio.

Ainda em 49 D.C., a imperatriz Agripina recebeu o título de “Augusta“, sendo esta a primeira vez que esse título era conferido a uma mulher em vida (as suas duas antecessoras, Lívia e Antônia, o receberam como honra fúnebre). Neste mesmo ano, Cláudio batizou em sua homenagem uma cidade recém-fundada na Germânia, que recebeu o nome de Colonia Claudia Ara Agrippinensis ( a atual Colônia, na Alemanha – Agripina nasceu ali, quando o local ainda era um quartel militar comandado por seu pai, Germânico).  Vale citar que nunca, antes ou depois  na História de Roma, uma cidade romana foi batizada em homenagem a uma mulher.

Nero, herdeiro do trono

Em 50 D.C., Lucius Domitius Ahenobarbus (Nero) foi adotado por Cláudio, tornando-se oficialmente seu herdeiro, passando a se chamar Nero Claudius Caesar Drusus Germanicus. No ano seguinte, Nero, então com 14 anos, foi declarado maior de idade (assumindo a “toga virilis”), foi nomeado Proconsul e entrou para o Senado. A partir daí, ele começou a participar das cerimônias públicas junto com o Imperador, e até moedas foram cunhadas com a efígie de ambos.

Antecipando a necessidade futura de Nero contar com o apoio da Guarda Pretoriana para alcançar o trono, Agripina persuadiu Cláudio a nomear o militar Sextus Afranius Burrus (Burro) como único Prefeito Pretoriano (Comandante), no lugar de Lusius Geta e Rufius Crispinus.

Agripina supervisionava cuidadosamente a preparação de Nero para a futura ascensão ao trono imperial,  designando, por exemplo, o afamado filósofo estoico Sêneca, o Jovem para ser o tutor do rapaz. Ela também não poupou esforços para fazer o filho querido pelo populacho. Além disso tudo, Agripina manobrou para que Cláudia Otávia, a filha de Cláudio e irmã de Britânico, e Nero se casassem, em 9 de junho de 53 D.C.

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(Cláudia Otávia, primeira esposa de Nero)

A adoção de Nero por Cláudio é um episódio que suscita muita discussão entre os historiadores, já que Cláudio tinha um filho natural do sexo masculino, Britânico, que era apenas quatro anos mais novo do que Nero.  E não há nada que indique, fora, obviamente, esse fato, que Cláudio não nutrisse pelo rapaz o amor paternal.

Seja como for, as fontes relatam que, à medida que Britânico ia chegando à idade de assumir a “toga virilis”, Cláudio começou a dar seguidas demonstrações de afeto pelo filho natural. Segundo os historiadores Tácito, Suetônio e Cássio Dião, Cláudio somente estaria esperando a maioridade do filho natural para nomeá-lo como seu novo herdeiro, e ele teria declarado isso na presença de outros, sendo esse o fato que levou Agripina a tramar a sua morte.

Cláudio morreu em 13 de outubro de 54 D.C., aos 63 anos – uma idade avançada para a época – no que pareceu ser uma indisposição gástrica após ele ter comido um prato de cogumelos, o qual lhe ocasionou vômitos. As fontes antigas dão crédito a versão de que aqueles cogumelos, comida muito apreciada por Cláudio, teriam sido envenenados, por uma poção preparada pela famosa envenenadora Locusta, que tinha sido contratada por Agripina. O motivo para o assassinato era óbvio: impedir que Britânico fosse nomeado herdeiro pelo pai.

Imperador Nero – primeiros anos

 

 

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(Agripina, personificada como a deusa Ceres, coroa Nero. A mensagem devia ser evidente para todos)

No mesmo dia em que Cláudio morreu, Nero foi saudado imperador pela Guarda Pretoriana, e, em seguida, ele foi reconhecido como tal pelo Senado Romano. Nero não sabia, mas seria o último imperador da dinastia dos Júlios-Claúdios.

O reinado de Nero começou promissor. Ele tinha apenas 17 anos, mas era aconselhado pelo filósofo Sêneca (que, segundo Cássio Dião), redigiu seu primeiro discurso ao Senado), e por Burro, que foi mantido como Prefeito da Guarda Pretoriana, e, de fato, as suas primeiras medidas como imperador suscitaram aprovação geral.

Vale notar que, ainda durante o reinado de Cláudio, a administração dos assuntos de Estado começou a ser desempenhada cada vez mais pelos escravos libertos do Imperador que trabalhavam nas dependências do Palácio e que passaram a constituir o embrião de verdadeiros ministérios, no sentido administrativo moderno, assumindo tarefas que antes estavam a cargo dos antigos magistrados da República. Nero herdou esse sistema, e muitos libertos de Cláudio continuaram a exercer seus cargos no seu reinado, como por exemplo o liberto Marcus Antonius Pallas, que ocupava um cargo equivalente ao de Secretário do Tesouro, uma circunstância que assegurou certa continuidade administrativa.

Sêneca e Burro, sensatamente, procuraram assegurar que o imperador mantivesse boas relações com o Senado Romano, comparecendo às sessões desta assembleia e levando em consideração as recomendações dos senadores. Os dois preocuparam-se especificamente em abolir o costume implementado por Cláudio, de conduzir julgamentos em sessões privadas realizadas no próprio Palácio (“in camera”), o que era considerado contrário aos princípios jurídicos romanos tradicionais, que previam audiências públicas..

Foram promulgados decretos visando prevenir que os governadores extorquissem demasiadamente as províncias e também outros relativos à ordem pública e urbana. Nero também postulou, sem levar em consideração as despesas públicas, abolir vários tributos, sendo, entretanto, demovido desse propósito pelo Senado. Muitas das medidas de Nero, aliás, demonstravam um grande desejo dele aumentar a sua popularidade.

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Os dois conselheiros procuraram, ainda, diminuir a excessiva intervenção de Agripina nos assuntos do governo, e, com esse propósito, eles chegaram até a incentivar a paixão que Nero nutria pela liberta Acte, que virou amante do Imperador. Dessa forma, além de afastar Nero da influência da mãe, eles também visavam diminuir a inclinação ao desregramento sexual que já se percebia no jovem imperador, impulsos que o casamento com a imperatriz  Cláudia Otávia parecia incapaz de arrefecer.

Observe-se que Suetônio acusa diretamente Nero e Agripina de manterem uma relação incestuosa, mencionando até que isso costumava ocorrer quando os dois viajavam pelas ruas romanas em liteiras, um comportamento que seria denunciado pelas manchas suspeitas na toga do filho… Outros autores, de fato, também citam este costume que ambos tinham de andar na mesma liteira, mas muitos historiadores consideram que a obra de Suetônio, em muitas passagens, tende a reproduzir e aumentar boatos escandalosos, sem muita preocupação com a verdade histórica.

A tônica, porém, em todas as fontes, é de que Nero não nutria muito entusiasmo pelas tarefas governamentais, preferindo dedicar-se ao canto, ao teatro e às competições esportivas, sobretudo corridas de cavalos. Progressivamente, também, o poder absoluto lhe permitiu experimentar as mais variadas práticas sexuais.

Assim, a falta de aptidão para o cargo, a juventude e a onipotência uniram-se para empurrar Nero para uma ilimitada devassidão. Por outro lado, o avanço dos anos deu-lhe confiança para cada vez mais afirmar a sua vontade e ignorar os conselhos de Sêneca e Burro, ao passo que a repetida intromissão de Agripina em sua vida começou a lhe parecer insuportável, notadamente a oposição que a mãe externava em relação ao seu romance com Acte.

Morte de Britânico e Agripina. Nero governa por conta própria

Outro fator de discórdia entre mãe e filho, e talvez mais importante, foi o fato de Agripina, certa vez, ter insinuado que Britânico aproximava-se da maioridade, dando a entender a Nero que ela poderia apoiar o rapaz como sendo o legítimo herdeiro de Cláudio. Por isso, em 55 D.C., Nero demitiu o liberto Pallas, que tinha sido um fiel aliado de Agripina desde os tempos de Cláudio.

Ainda em 12 de fevereiro de 55 D.C., Britânico morreu, no dia exato em que ele completaria a maioridade. Segundo os autores antigos, ele foi envenenado a mando de Nero, que teria também recorrido aos serviços da envenenadora Locusta.

Mas a relação de Nero com a mãe azedou de vez quando, em 58 D.C., a nobre Popéia Sabina, a Jovem, tornou-se amante dele. Agripina, opondo-se ao romance, aproximou-se da imperatriz Cláudia Otávia, que, em oito anos de casamento com Nero, não tinha gerado filhos, muito em função do desinteresse do marido pela esposa.

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(Popéia Sabina, segunda esposa de Nero)

Popéia Sabina, que era casada com Marcus Salvius Otho (o futuro imperador Otão), grande amigo de Nero, em vingança à oposição de Agripina ao seu romance com o imperador, teria aconselhado Nero a assassinar a mãe,  segundo Tácito (Nota: Popéia seria natural de Pompéia, e a sua magnífica Villa, na cidade de Oplontis, foi soterrada pela erupção do Vesúvio e descoberta em excelente estado de conservação -vide fotos abaixo).

 

Os historiadores narram que Nero teria engendrado vários esquemas engenhosos para matar Agripina, que iam desde o naufrágio em um navio previamente sabotado para se desmanchar no mar, ao desabamento provocado do teto de um aposento que ela ocupava, todas sem sucesso. Finalmente, em 23 de março de 59 D.C., Nero conseguiu que a mãe morresse, embora não seja claro de que forma ela foi morta. Aparentemente, após sobreviver ao naufrágio, Nero enviou assassinos para matar a mãe. Segundo um relato, quando o executor ergueu a espada, Agripina teria dito, como se lamentasse ter parido o filho, apontando para o próprio ventre:

“Fira o meu útero!”

Afastada a influência, diga-se de passagem, raramente benigna, da mãe, Nero sentiu-se livre para fazer tudo o que lhe apetecesse. Ele entregou-se totalmente à sua paixão pelas artes, apresentando-se publicamente cantando e tocando a lira. Ocorre que os recitais dele eram intermináveis, e Tácito comenta que, em algumas ocasiões, mulheres chegaram a dar à luz e pessoas chegaram a falecer enquanto assistiam os longos espetáculos. Ficou famoso o caso do futuro imperador Vespasiano, que, apesar de ser um militar de prestígio, caiu em desgraça após dormir durante um recital de Nero.

É importante ressaltar que, segundo os padrões de conduta morais vigentes na aristocracia romana à época, um nobre apresentar-se publicamente como artista ou esportista era considerado degradante.

Em 62 D.C., Burro faleceu, e Sêneca foi obrigado a se afastar do governo devido a acusações de enriquecimento ilícito (que aparentemente eram verdadeiras), as quais vieram somar-se à suspeita, já existente, de que Sêneca teria mantido relações amorosas com Agripina.

Naquele mesmo ano de 62 D.C., Popéia ficou grávida de Nero, que finalmente decidiu divorciar-se de Cláudia Otávia, sob o pretexto de infertilidade da imperatriz. Assim, doze dias depois do divórcio, Nero casou-se com Popéia.

A infeliz Cláudia Otávia foi exilada na ilha de Pandatária, mas a opinião pública protestou e exigiu que Nero a trouxesse de volta à Roma. Logo em seguida, porém, ela morreria, tendo apenas cerca de 23 anos de idade, assassinada a mando do imperador, embora os executores tenham tentado fazer a morte dela parecer um suicídio.

Em 21 de janeiro de 63 D.C.Popéia deu à luz a uma menina que recebeu o nome de Cláudia Augusta e ela seria o único descendente que Nero teria na vida. Porém, a menina morreria com somente quatro meses de idade.

Conflitos nas fronteiras

Nos assuntos de política exterior, o principal desafio enfrentado pelo Império no reinado de Nero foi a disputa pela Armênia com a Pártia. O general Gnaeus Domitio Corbulo (Corbulão) obteve inicialmente sucesso militar, mas a campanha não foi concluída. Em 63 D.C., porém, o Império obteve um bom acordo com a Pártia, em que Roma teria a palavra final sobre a escolha do rei da Armênia, Foi um bom tratado e que garantiria a paz na região até 114 D.C.

Nero também teve que enfrentar a séria revolta da rainha dos Icenos, Boudica (Boadicéia), na Britânia, que foi derrotada pelo general Gaius Suetonius Paulinus (Suetônio Paulino), em 61 D.C.

 

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(Estátua da rainha Boudica, dos Icenos, em Londres)

O Grande Incêndio de Roma

Em julho de 64 D.C., ocorreu o Grande Incêndio de Roma, que durou seis dias e causou uma grande destruição.  Com efeito, dos 14 distritos de Roma, somente 4 foram poupados do fogo.

A responsabilidade de Nero pelo incêndio é muito debatida. Algumas fontes antigas citam boatos de que Nero teria mandado provocar o incêndio, visando sobretudo reconstruir a cidade de acordo com a sua vontade, e, especialmente,  para possibilitar a construção de sua espetacularmente enorme e suntuosa “Domus Aurea“, cujas ruínas ainda hoje impressionantes dão uma ideia do seu esplendor.

Consta que Nero, após o palácio ficar pronto, teria dito :

“Finalmente, agora eu posso morar como um ser humano” 

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(Domus Aurea, reconstituição)

 

Tácito e Cássio Dião também relatam, o primeiro expressamente como sendo um boato, que, enquanto Roma queimava, Nero teria subido no telhado do Palácio e cantado a ode grega “A Destruição de Tróia“.

 

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(Tela “O incêndio de Roma”, de Hubert Robert, (1785)

Porém, eu acredito que, provavelmente, essa tragédia foi apenas o mais catastrófico dos frequentes e periódicos incêndios que assolavam uma Roma que havia crescido demasiada e desordenadamente.

Diga-se de passagem, os posteriores decretos assinados por Nero relativos ao ordenamento urbano, especialmente visando evitar a repetição de incêndios, descritos por Tácito e Suetônio, são muito razoáveis, na verdade, excelentes até (eles dispõem sobre o espaço entre os prédios de apartamentos, do uso de materiais de construção resistentes ao fogo e da previsão de reservatórios de água, entre outras coisas).

Após o incêndio, Tácito relata que Nero abriu os jardins dos palácios para abrigar os flagelados pelo incêndio, em abrigos temporários. Vale a pena citar o seguinte trecho do historiador:

 

Nero, naquele momento, estava em Antium, e não retornou à Roma até o fogo aproximar-se de sua casa, que ele havia construído para conectar o palácio com os jardins de Mecenas. Não foi possível, entretanto, impedir o fogo de devorar o palácio, a casa e tudo em volta deles. Todavia, para aliviar o povo, que tinha sido expulso desabrigado, ele mandou que fossem abertos para eles o Campo de Marte e os edifícios públicos de Agripa, e até mesmo os seus próprios jardins, e ergueu estruturas temporárias para receber a multidão despossuída. Suprimentos de comida foram trazidos de Óstia e das cidades vizinhas, e o preço do grão foi reduzido para três sestércios. Essas ações, embora populares, não produziram nenhum resultado, uma vez que espalhou-se por todo lugar um rumor de que, enquanto a cidade estava em chamas, o imperador apresentou-se em um palco particular e cantou a destruição de Tróia, comparando os infortúnios presentes com as calamidades da antiguidade”. (Anais, XV, 39)

Um episódio notório, ainda relativo ao incêndio, foi o martírio da nascente comunidade cristã de Roma, que teria sido apontada oficialmente como bode expiatório pelo incêndio. Hoje, há opiniões de que esta perseguição não teria ocorrido, a despeito dela também fazer parte da tradição cristã. Há, no entanto, uma bem fundamentada tese de que o número 666, que seria o nome da besta do Apocalipse citado no Evangelho, seria o código alfanumérico relativo ao nome de Nero, de acordo com um antigo jogo comum na época romana, numa vinculação que o evangelista João poderia ter feito em função da referida perseguição.

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(Tela de Henryk Siemiradzki, retratando o martírio dos cristãos, que, segundo o relato de Tácito, foram utilizados como tochas humanas)

O fato é que as excentricidades e os crimes de Nero, somados à desconfiança pública de que o incêndio estava relacionada à construção da magnífica Domus Aurea, começaram a minar o reinado dele.

Some-se a isso a morte de Popéia, ocorrida em 65 D.C., tendo se espalhado o boato de que a morte dela fora causada após a imperatriz levar um pontapé de Nero na barriga, quando estava grávida, o que causou indignação no povo (curiosamente, a mesma acusação seria feita, milênios mais tarde, ao imperador D. Pedro I, e,  igualmente, ela contribuiu para agravar o clima que resultou na abdicação de nosso primeiro imperador)

A Conspiração Pisoniana

Ignorando todo esse quadro de insatisfação, Nero começou a retirar o que restava das prerrogativas do Senado. Isso deflagrou, também em 65 D.C., a denominada “Conspiração Pisoniana“, assim chamada porque liderada pelo respeitado senador Gaius Calpurnius Piso, e que visava derrubar o imperador. Porém, essa conspiração, que envolvia senadores e membros da guarda pretoriana, foi denunciada a tempo, e Nero mandou executar os participantes. Entre os punidos, estava o seu ex-tutor e conselheiro, o filósofo Sêneca, apesar de não haver certeza se ele estava mesmo envolvido.

Outro que teria sido executado na repressão à Conspiração foi o poeta Lucano. Mas a morte mais sentida pela aristocracia romana foi a do senador Públio Clódio Trásea Peto, um crítico contumaz do  reinado de Nero, que também foi obrigado a cometer suicídio, em 66 D.C., após ser condenado pelo Senado com base em acusações vagas em uma sessão  de julgamento na qual a Cúria foi cercada pelos Pretorianos.

Para poupar Sêneca, e a própria imagem do imperador, perante a opinião pública, do embaraço de uma execução, Nero ordenou que ele cometesse suicídio. O mesmo ocorreu com outro implicado no esquema, o escritor satírico Petrônio (A cena da morte de Petrônio, em uma banheira, com o sangue esvaindo-se das veias cortadas enquanto conversava rodeado dos  seus melhores amigos, está brilhantemente retratada no filme “Quo Vadis“).

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(O Suicídio de Sêneca, tela de Manuel Domínguez Sánchez (1871), no Museu do Prado)

Quem teve atuação implacável na repressão à referida conspiração foi Ofonius Tigellinus, o sucessor de Burro como Prefeito da Guarda Pretoriana, que era um amigo e parceiro de Nero no desfrute de corridas de carros e orgias,  e que fora nomeado para o cargo em 62 D.C.

O início do fim

Em 66 D.C., Nero casou-se com sua terceira esposa, Statilia Messalina (não confundir com a esposa de Cláudio).

 

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(Statilia Messalina, terceira esposa de Nero)

 

A Conspiração Pisoniana, não obstante tenha sido debelada, marcou o início da queda de Nero. Deve ter havido uma percepção geral entre as lideranças do Senado e do Exército de que o reinado dele não iria durar muito e que o caos se aproximava. As despesas com a reconstrução de Roma tinham exaurido o Tesouro do Estado e, em decorrência, a moeda teve que ser desvalorizada e os impostos aumentados.

Ainda em 66 D.C., estourou uma grande revolta na Judéia, No meio dessa grave crise, Nero resolveu fazer uma excursão triunfal pela Grécia, visitando os pontos turísticos mais célebres, apresentando-se como artista e participando dos Jogos Olímpicos de 67 D.C., como competidor. Para os gregos, a visita foi um sucesso, pois Nero chegou a proclamar a liberdade das cidades gregas, mas para a elite em Roma, ela deve ter sido percebida como mais uma prova da insanidade do Imperador.

Logo, outras rebeliões começariam a pipocar nas províncias…

Em 67 D.C., Nero enviou o respeitado general Titus Flavius Vespasianus (o futuro imperador Vespasiano) para combater a Grande Revolta Judaica. Nessa ocasião, suspeitando da lealdade do general Corbulão, o imperador o convocou-o à sua presença na Grécia, e ordenou que ele cometesse suicídio para não ser executado, sendo fiel e surpreendentemente obedecido.

Porém, em março de 68 D.C., o governador da importante província da Gália Lugdunense, Gaius Julius Vindex, revoltou-se contra os pesados tributos impostos à província. Em seguida, Vindex tentou, sem êxito, convencer o governador da Hispânia, Servius Sulpicius Galba (o futuro imperador Galba), a se juntar à rebelião. No decorrer da rebelião, em maio, as legiões da Germânia, sob o comando de Lucius Verginius Rufo, seguindo as ordens de Nero, derrotaram Vindex, na Batalha de Vesontio (atual Besançon), que, em razão disso, cometeu suicídio.

Todavia, as legiões vitoriosas imediatamente declararam-se em rebelião contra Nero, embora Rufo tenha permanecido leal ao imperador, recusando-se a aderir ao movimento. Parece que nesse momento, os soldados já começavam a farejar a oportunidade de, como em ocasiões anteriores, obterem polpudas recompensas caso um novo imperador assumisse o trono.

Enquanto isso, Nero, que havia voltado para Roma em janeiro de 68 D.C., recebeu a notícia de que, além das legiões de Vindex, as legiões da África também tinham se revoltado.

Galba, entretanto, aguardava cautelosamente o desenrolar dos acontecimentos, mas os seus partidários em Roma não ficaram imóveis. Assim, em algum momento entre maio e junho de 68 D.C., o outro Prefeito da Guarda Pretoriana, Ninfídio Sabino (consta que Tigellinus estaria doente naquele mometo), persuadiu os pretorianos em Roma a se declararem a favor de Galba. Para o azar de Nero, isso ocorreu antes da chegada da notícia da vitória de Rufo contra Vindex, o que daria ao imperador certa esperança de readquirir o controle da situação.

A morte de Nero

Em 9 de junho de 68 D.C., em uma villa suburbana, situada a apenas 6 km de Roma, chegou um mensageiro galopando à  toda velocidade. O cavaleiro desmontou e entrou no luxuoso átrio da propriedade, sendo recebido por Phaon, um  liberto do Imperador Nero que exercia o cargo de Secretário de Finanças imperial.

Acompanhado de outros três homens, Phaon ingressou na área privada da residência e, pouco tempo depois, ouviu-se um um grito desesperado, acompanhado da frase:

“Que grande artista o mundo irá perder!”

Um dos homens pergunta que notícia o mensageiro havia trazido e o outro respondeu que o Senado Romano havia declarado Nero  era um “Inimigo Público“.

Aquele era, sem dúvida, o ponto culminante da tensão que Nero vinha vivendo nas últimas semanas, desde que soube que Julius Vindex havia sido aclamado imperador pelas tropas dele, em março, e iniciara sua marcha para a Itália, e o Prefeito Pretoriano Ninfídio Sabino manifestara o seu apoio a Galba, deixando o imperador totalmente indefeso dentro da Capital.

Ao saber da adesão de Ninfídio Sabino ao general Galba, Nero chegou a deixar o Palácio e tentar fugir para o porto de Óstia, onde ele planejava embarcar em um navio da frota, que ele esperava que tivesse se mantido leal, e partir para as províncias do Oriente, onde ele tinha certeza de que ainda era muito popular e poderia organizar um contra-ataque.

Todavia, Nero, temeroso, concluiu que era grande a possibilidade dele  não conseguir chegar ao porto ileso, e, assim, deu meia-volta e voltou para o Palácio, onde ele até tentou dormir um pouco. O sono contudo, seria breve. Com efeito, durante a meia-noite, já na virada do dia 08 para o dia 09 de junho de 68 D.C., o Imperador acordou e, aterrorizado, constatou que não havia sequer um guarda na porta dos aposentos imperiais.

Nero percorreu, então, esbaforido, os corredores desertos do palácio, sem encontrar viva alma, gritando:

“Não terei eu amigos ou inimigos?

Até que, alertados pela gritaria,  finalmente acudiram os mais próximos e fiéis libertos de Nero: Epafrodito, Phaon, Neophytus e Esporo (Nota: Esporo (Sporus) era um garoto que se tornou favorito de Nero por ter uma notável semelhança com a falecida imperatriz Popéia Sabina. Segundo Suetônio, Nero mandou castrar Esporo e chegou até a casar com o rapaz, por volta de 67 D.C.).

Phaon, então, ofereceu a Nero a sua villa nos arredores de Roma,  para que o imperador se escondesse lá, pois ainda havia a esperança de que o Senado não reconhecesse os usurpadores, tendo em vista que outros comandantes ainda não haviam aderido à rebelião. A villa não era longe e o grupo deve ter chegado lá ainda antes do amanhecer.

Porém, no decorrer do dia 09 de junho, a referida chegada do mensageiro tirou todas as esperanças de Nero. Ele, então, implorou que um dos quatro fiéis libertos tirasse a própria vida primeiro, alegando que isso lhe daria coragem para fazer o mesmo, além de lhe ensinar o método, mas nenhum deles topou a proposta.

Então, enquanto o imperador relutava, ouviu-se o galopar de vários cavalos, e, premido pelo temor da chegada da tropa que estava vindo para lhe prender ou executar,  Nero ordenou que Epafrodito o ajudasse a se matar. Assim, Nero, com a ajuda de Epafrodito, enfiou uma faca na própria garganta.

nero a morte

Quando os cavaleiros entraram no aposento, Nero já havia perdido muito sangue. Um dos soldados tentou colocar um pano na garganta dele, à guisa de estancar o sangue,  e Nero ainda teve forças para balbuciar, dramático como ele sempre fora durante toda a vida:

“Tarde demais. Isso é que é fidelidade!” 

Nero morreu aos 30 anos de idade. O corpo dele foi cremado à maneira tradicional romana e as cinzas depositadas no Mausoléu dos Domícios,  então situado nos limites da cidade de Roma e onde hoje, ironicamente, fica um templo da arte, a Galeria Borghese.

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(Villa Borghese, que hospeda a Galeria Borghese e onde ficava o Mausoléu dos Domícios, lugar do sepultamento das cinzas de Nero)

As fontes relatam que, várias décadas depois de sua morte, pessoas do povo ainda adornavam a tumba de Nero com flores…

Conclusão

A ascensão e queda de Nero são expressões gritantes das contradições do sistema inaugurado por Augusto.

Com efeito, o Império nascera da incapacidade das instituições republicanas de moderar os conflitos de poder  e as disputas políticas envolvendo a manutenção dos privilégios da nobreza ( facção política dos “Optimates“) e a acomodação das vontades dos cidadãos plebeus livres, dentro de regras criadas para gerir uma Cidade-Estado, e, portanto, de levar em consideração a existência de um crescente proletariado não-proprietário em Roma, bem como os anseios de uma enorme população de colonos romanos e cidades aliadas não-romanas, que estavam espalhadas por um enorme território fora da Itália, e cujos interesses eram defendidos pela facção dos chamados “Populares“.

Essas crises degeneraram na resolução das disputas pela guerra entre generais-políticos filiados as referidas facções representadas no Senado, que recrutavam cidadãos entre o proletariado, os quais eram mais leais aos seus comandantes do que ao Estado. O conflito parecia ter se resolvido na concentração de poderes em torno do vencedor da guerra civil, o líder dos Populares, Caio Júlio César, que, contudo, foi assassinado antes de poder implementar uma nova constituição politica (se é que ele tinha mesmo essa intenção), uma tarefa esta que foi retomada por seu sucessor Augusto.

Como se fosse uma “marca de nascença” do principado, o assassinato de César sempre pairou sobre o regime imperial. César, alegadamente, foi morto por se acreditar que ele queria ser rei e os seus assassinos, integrantes dos Optimates, reivindicaram a restauração da República. Vencidos os Optimates por Augusto, herdeiro de César, ele, por sua vez, da mesma forma se apresentou como o “Restaurador da República“.

Desse modo, o Império por séculos seria assombrado pelo paradoxo de ser uma “Monarquia que não ousa dizer o seu nome“.

Contudo, a constituição não-escrita elaborada por Augusto padecia de duas graves contradições:

1) A ambiguidade de, formalmente, querer-se restaurar a República, concentrando as mais importante das antigas magistraturas republicanas nas mãos do “Princeps“, mas dividindo, ao menos na aparência, o governo do Estado com o Senado, sem contudo, jamais delimitar precisamente qual o papel e o poder desta assembleia. Isto se tornaria um grande fator de instabilidade.

A prática inaugurada por Augusto, e seguida em parte e confusamente por Tibério, de simular que o poder continuava com o Senado, sendo o poder de fato exercido no Palácio, propiciava que, quando personalidades imperiais menos afetas às aparências e deferências devidas ao Senado ocupassem o trono, eles fossem percebidas como tiranos, situação que deu margens a inúmeras conspirações, reais ou fictas.

2) A já aludida “marca de nascença” (assassinato de César), que expressava a prevalência da tradicional repulsa cultural romana à monarquia, impediu que Augusto estabelecesse uma regra clara quanto à sucessão imperial. Como o regime não podia e não devia ser considerado uma monarquia, jamais o princípio dinástico foi formalmente estabelecido. Embora o costume fosse que o imperador escolhesse o seu herdeiro, a existência de descendentes ou parentes próximos ameaçava a legitimidade do escolhido, sendo isso uma nova fonte de conspirações, e de temor da existência delas por parte do imperador.

A incerteza quanto ao critério sucessório também gerava instabilidade. Os imperadores Júlios-Cláudios costumavam nomear os parentes sanguíneos ou afins mais velhos como herdeiros formais ou presumidos, quando aqueles mais próximos ainda eram muito jovens. Mas, quando estes iam crescendo, os títulos e honrarias que caracterizavam a condição de herdeiro eram retirados dos primeiros e conferidas aos mais novos. O temor ou a insatisfação dos inicialmente escolhidos normalmente resultava na eliminação dos rivais mais novos ou na do próprio imperador. Tal fato ocorreu com Augusto, com Tibério e com Cláudio, e somente não ocorreu com Calígula devido ao seu reinado ter sido muito curto, e com Nero, porque ele não tinha herdeiros.

Somente a partir do reinado de Nerva começou a ser implantada uma regra consuetudinária, com bases filosóficas, de que o governante deveria adotar como sucessor o melhor homem público, ainda que este fosse seu parente, de quem se esperava que demonstrasse a sua competência.

A avaliação do reinado de Nero é controversa na visão dos historiadores. A visão tradicional, de louco e de monstro, hoje é temperada pela leitura crítica que se faz dos historiadores Tácito e Suetônio, tidos como membros da classe senatorial, nostálgica da República e antipática ao Principado, dando destaque às perseguições do monarca contra os senadores e enfatizando boatos ou, mesmo, fofocas, de teor escandaloso sobre os hábitos privados dos imperadores.

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Sintomaticamente, essas mesmas fontes relatam que, para uma boa parte da massa de cidadãos pobres e das províncias, a imagem de Nero era diferente. Como já observamos, Suetônio narra que, décadas após a morte de Nero, populares adornavam a sua tumba com flores e que, nas províncias,  chegou a surgiu uma lenda, ao estilo de Dom Sebastião de Portugal, de que Nero, um dia, iria retornar.

Essa também é a opinião de muitos historiadores, valendo transcrever as palavras da historiadora clássica Mary Beard (“SPQR”, pág. 398):

Vários historiadores modernos têm apresentado Nero, particularmente, mais como uma vítima da propaganda da dinastia Flaviana, que começa com Vespasiano, seu sucessor, do que como um piromaníaco assassino da própria mãe, a quem se atribui ter iniciado o grande incêndio de 64 D.C., não só para apreciar o espetáculo, mas também para limpar a área e poder construir seu novo palácio, a Casa Dourada (Domus Aurea). Mesmo Tácito admite, apontam os reabilitadores, que Nero foi o patrocinador de medidas de ajuda efetivas para os desabrigados após o incêndio; (…). Além disso, nos vinte anos após a morte e Nero, em 68 D.C., pelo menos três falsos Neros, com lira e tudo, apareceram nas regiões orientais do Império, reivindicando o poder e apresentando-se como o imperador em pessoa, ainda vivo, apesar de todas as notícias do seu suicídio. Foram todos rapidamente eliminados, mas o engodo sugere que, em algumas áreas do mundo romano, Nero era lembrado afetuosamente: Ninguém buscaria alcançar o poder fingindo ser um imperador odiado por todos.”

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