ELE, CLÁUDIO, IMPERADOR

Em 1º de agosto de 10 A.C., nasceu, em Lugdunum, na Gália (atual Lyon),  Tiberius Claudius Nero Germanicus (Cláudio), filho de Nero Claudius Drusus (Druso) e de Antônia, a Jovem, filha do casamento do triúnviro Marco Antônio com Otávia, a irmã de Augusto.

Assim, pela linha materna, Cláudio era parente de Júlio César, uma vez que a sua mãe era neta de Júlia, a Jovem, irmã de César e sobrinho-neto do imperador Augusto.

Por sua vez, pela linha paterna, Cláudio era neto da imperatriz Lívia Drusila (Júlia Augusta), a esposa do primeiro imperador romano, Augusto, pois seu pai era o segundo filho do primeiro casamento de Lívia com Tibério Cláudio Nero, de quem ela se separou já grávida do caçula para se casar com Otaviano, antes deste tornar-se imperador e passar a ser chamado de Augusto.

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O Pai de Cláudio, Druso, devido às suas importantes vitórias contra os bárbaros germânicos, recebeu o cognome “Germanicus”, e ele era também o irmão mais novo de Tibério, que seria o sucessor de Augusto no trono.

Antes de Cláudio nascer, Druso e Antônia já haviam concebido Germanicus Julius Caesar (Germânico), que se tornaria um célebre general e cairia nas graças de Augusto (e também da plebe romana). E quando o velho imperador adotou Tibério como herdeiro, ele exigiu que este, por sua vez, adotasse Germânico, pelo fato de que, tirando o rapaz, Augusto não tinha mais nenhum outro parente consanguíneo do sexo masculino capaz de dar continuidade à linhagem dos Júlios.

Porém, ao contrário do seu irmão mais velho, Cláudio passaria a sua infância, adolescência e toda a juventude em completa obscuridade, expressamente por determinação de Augusto e de Lívia, com os quais ele viveu durante um bom tempo, e, depois deles, pela vontade de seu tio Tibério, ficando, assim, afastado das aparições públicas da família imperial e sem ter qualquer papel público, ainda que cerimonial, a desempenhar.

Os motivos do ostracismo a que Cláudio foi relegado no seio da família imperial, segundo os autores antigos, seriam os distúrbios físicos e mentais que ele manifestava desde menino, considerados por Augusto e Lívia como comprometedores da dignidade da dinastia dos Júlio-Cláudios. E a própria mãe de Cláudio, segundo  Suetônio, referia-se ao filho como sendo “um monstro“.

O diagnóstico da doença de Cláudio não é preciso nas fontes, mas elas mencionam o fato dele mancar, gaguejar, ser acometido por tremores e ter corrimentos no nariz. Por isso, alguns acreditam que Cláudio pode ter contraído poliomielite, ou, o que parece mais provável, dele ter sofrido algum tipo de paralisia cerebral na infância. Alguns defendem, ainda, que a doença dele seria a Síndrome de Tourette, uma desordem neuropsiquiátrica que causa tiques nervosos.

No entanto, o próprio Augusto, em uma carta à Lívia, citada por Suetônio, certa vez observou que Cláudio era mais inteligente do que ele aparentava, tendo ficado impressionado com a sua boa declamação. Não obstante, Cláudio seria mantido afastado de qualquer cargo ou função oficial durante todo o reinado do tio, ao contrário do irmão dele, Germânico.

A sociedade romana, como a maior parte das civilizações da Antiguidade, não tinha muita compaixão pelos deficientes físicos, e a família entendia que os sintomas da enfermidade de Cláudio eram desvios de caráter e deveriam ser corrigidos pela disciplina e castigos.

O próprio Cláudio, na autobiografia que ele escreveria anos mais tarde, e que não chegou até os nossos dias, contou que a sua família contratou um bárbaro que era condutor de mulas para ser o seu tutor, com o objetivo de que este se valesse da mais férrea disciplina e castigos severos para tentar melhorar a sua condição.

Assim, até mesmo em sua cerimônia da assunção da toga virilis (que simbolizava a passagem da infância para a idade adulta para os rapazes romanos, normalmente aos 14 anos de idade), que era um evento público marcante para  os jovens da família imperial, Cláudio foi escondido dos olhares do público, pois ela ocorreu durante a noite, com ele sendo carregado oculto no interior de uma liteira.

Como não tinha um papel público a desempenhar, Cláudio então tomou interesse pelo estudo de História e pela Literatura. O grande historiador romano Tito Lívio foi contratado para ser seu professor e ele também foi aluno do filósofo estoico Atenodoro.

E tudo indica que Cláudio se tornou um leitor voraz. Ainda muito jovem ele estudaria obras históricas sobre vários povos e, segundo as fontes antigas, ele foi a última pessoa capaz de ler a língua escrita etrusca em Roma, idioma que até hoje não foi completamente decifrado.

Começando ainda na juventude, ao longo da vida, Cláudio escreveria 43 livros sobre a História de Roma, a Thyrrenica, contendo 21 livros sobre a História dos Etruscos, além da Carthagenica, uma História de Cartago contendo 8 livros, um livro sobre filologia e uma defesa das acusações de Asinio Polião contra Cicero, além da sua própria autobiografia em 8 volumes. Infelizmente, nenhuma destas obras sobreviveu, mas algumas foram citadas por autores antigos.

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(Tabula Cortonensis, contendo um texto em etrusco)

Outra obra que é mencionada pelas fontes é um tratado sobre jogos de dados. Segundo as fontes, Cláudio era fanático por este tipo de jogos, o que seria motivo de alfinetadas dos historiadores e objeto de muitas sátiras.

Cláudio também era interessado em linguística e escreveu um livro defendendo a introdução de três novas letras no latim, “A Claudian letter“, “” e “A Claudian letter“, duas delas equivalentes ao Y e ao W. Mais tarde, após se tornar imperador, ele, no exercício do cargo de Censor, determinou que essas letras fossem adotadas oficialmente, mas isso não perdurou por muito tempo (na foto abaixo, uma raríssima inscrição contendo uma delas).

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Quando Augusto morreu, em 19 de agosto de 14 D.C., Cláudio, que já tinha 23 anos de idade, sentiu-se confiante em pedir ao sucessor, o seu tio, Tibério, que lhe fosse permitido começar a trilhar o cursus honorum, a carreira pública das magistraturas. Contudo, Tibério preferiu dar apenas a Cláudio os ornamentos consulares, o que podemos considerar como uma mera consolação, já que isso significava na prática apenas uma condecoração honorífica, permanecendo Cláudio afastado de qualquer cargo ou função pública.

Eu creio que o motivo de Tibério continuar negando ao sobrinho qualquer papel público tinha a ver com o fato da família de Cláudio estar no centro das intrigas dinásticas dos Júlio-Cláudios referentes à posição de herdeiro de Tibério. Com efeito, o seu irmão, Germânico, era visto como potencial rival de Tibério ao trono. E sua irmã, Livilla, que, reportadamente, desprezava Cláudio, era esposa do filho de Tibério, Druso, o Jovem.

Não obstante, as fontes relatam que, durante o reinado de Tibério, com o passar do tempo, o público passou a ter uma boa impressão de Cláudio, que começou a receber algum reconhecimento.

Por exemplo, a classe dos Equestres escolheu-o duas vezes para liderar uma delegação para apresentar uma petição ao imperador. O Senado Romano também votou que  Cláudio fosse nomeado como membro especial dos sacerdotes do culto a Augusto, e, mais importante, os senadores pediram a Tibério que Cláudio pudesse participar das sessões do Senado, o que, entretanto foi negado.

Tudo isso mostra que a exclusão de Cláudio da carreira política decorria de decisão direta do trono, e não de alguma incapacidade física ou mental dele ou do repúdio por parte da população.

Em 19 D.C., Germânico morreu em Antioquia, em circunstâncias suspeitas. Historiadores antigos, como Tácito, dão crédito à tese de que ele foi envenenado a mando de Lívia e Tibério.

Na época em que Germânico morreu, já se notava o grande poder que o comandante da Guarda Pretoriana, Lúcio Élio Sejano exercia em Roma. Ele expandira a guarnição dos pretorianos, que foi centralizada em um grande quartel fortificado, adjunto às muralhas da cidade.

O poder de Sejano era tanto que Tibério, certa vez referiu-se a ele como “meu sócio-trabalhador“. E Sejano, de fato, tinha altas pretensões…

Em 20 D.C., Sejano  arranjou o casamento de sua filha, Junilla, com o filho de Cláudio, Claudius Drusus, ocasião em que as duas crianças tinham apenas quatro anos de idade. Porém, os planos de Sejano foram por água baixo, porque, poucos dias depois deste arranjo, o menino morreu engasgado com uma pera.

Claudius Drusus era o filho mais velho de Cláudio com sua primeira esposa, Plautia Urgulanilla, filha de Marcus Plautius Silvanus, um grande amigo da imperatriz Lívia e que era de origem etrusca. É bem possível que daí tenha vindo o interesse de Cláudio pela civilização etrusca. Cláudio e Urgulanilla se casaram por volta do ano 9 D.C., quando ele tinha dezoito anos de idade.

Contudo, o primeiro casamento de Cláudio já ficaria marcado pela suspeita de má conduta da esposa, algo que se repetiria nas suas uniões posteriores. Ele, assim, divorciou-se de Urgulanilla, que, cinco meses depois, deu a luz a uma filha, chamada de Cláudia. Suspeitava-se até que a menina fosse filha do liberto Boter. Por isso, Cláudio repudiou também a criança e mandou depositá-la, nua, na soleira da porta da casa onde a ex-mulher fora morar.

Passado esse escândalo, Cláudio deve ter se sentido muito ameaçado quando Druso, o Jovem, o filho e herdeiro oficial de Tibério, morreu, em 14 de setembro de 23 D.C., de uma misteriosa enfermidade, fato que ocorreu pouco tempo após uma séria desavença dele com Sejano. Para alguns historiadores antigos, como Tácito e Dião CássioSejano foi o responsável pela morte de Druso por envenenamento, empresa na qual ele teria sido auxiliado pela esposa do falecido e irmã de Cláudio, Livilla, que teria sido seduzida pelo Prefeito Pretoriano e dele se tornara amante.

Em 25 D.C., Sejano pediu formalmente a Tibério permissão para se casar com Livilla, o que foi recusado pelo velho imperador, que, após exaltar os méritos do subordinado, observou, candidamente, que Sejano, tendo nascido na classe Equestre, estava abaixo da posição social de Livilla, uma integrante da família imperial.

Mesmo assim, no ano seguinte, Tibério foi viver na ilha de Capri, em um auto-exílio voluntário que duraria onze anos, deixando, informalmente, o governo nas mãos de Sejano.

Em 28 D.C., Cláudio casou-se com  Aelia Petina, que era irmã de criação de Sejano, pois havia sido cirada pelo pai dele, Lucius Seius Strabo, um dos primeiros comandantes da Guarda Pretoriana, e antecessor do filho neste comando.

O casamento de Cláudio e Aelia Petina certamente deve ter sido por influência de Sejano. Um indício é o fato de que, assim que assim que este foi demitido do cargo e executado por ordens de Tibério, em 31 D.C., Cláudio imediatamente divorciou-se de sua segundo esposa, alegando motivos insignificantes. Mesmo assim, eles tiveram uma filha, Claudia Antonia, que seria criada pela mãe de Cláudio, Antônia, a Jovem.

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(Estátua de Cláudia Antònia, filha de Cláudio.

Antes da queda, contudo, Sejano, que controlava toda informação entre Roma e Capri e agia como virtual governante de Roma, começara a eliminar os seus desafetos e adversários políticos. E seu alvo preferencial foi Agripina, a Velha, a esposa do falecido Germânico, irmão de Cláudio, que foi exilada em 30 D.C. Ela vinha acusando publicamente Tibério e Lívia de serem os mandantes da morte do esposo. O filho de AgripinaNero Julius Caesar Germanicus (não confundir com o futuro imperador Nero) também foi exilado e morreria no ano seguinte.

Já o filho homem mais novo de Agripina e sobrinho de Cláudio, Gaius Caesar, de 18 anos, que tinha o apelido de Calígula, foi poupado, mas passou a morar com Tibério, em Capri.

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(Busto de Agripina, a Velha)

Anos mais tarde, Cláudio mencionaria, em uma ocasião, que, durante esses anos de intrigas palacianas e de terror pela eliminação dos seus parentes, ele costumava exagerar os seus problemas físicos e passou a fingir ser um completo idiota, com o objetivo de parecer inofensivo a todos, tentando manter-se vivo.

Enquanto isso, após a queda de Sejano, como vimos, Cláudio divorciou-se da irmã de criação do Prefeito Pretoriano caído em desgraça e continuou vivendo na obscuridade até a morte de Tibério, que faleceu com 77 anos de idade, em Capri, em 16 de março de 37 D.C..

Dois dias depois, Tibério foi oficialmente sucedido por Calígula, que era sobrinho de Cláudio. E foi Calígula quem deu a Cláudio o primeiro cargo público que ele ocuparia na vida, o de Cônsul Suffectus, em 37 D.C, com 46 anos de idade!

Apesar da nomeação para o cargo de Cônsul, a condição de Cláudio não melhorou muito, pois Calígula logo mostrou-se um monarca cruel e incontrolável, e o seu tio Cláudio era um dos alvos preferidos de suas pilhérias e deboches, inclusive infligidos algumas vezes perante o Senado Romano.

Em 38 D.C., Cláudio casou-se, pela terceira vez, com Valeria Messalina, integrante de uma ilustre família senatorial, e também sua prima em 2º grau, pois ela era neta da irmã de sua mãe, Antônia, a Velha. No ano seguinte, Messalina deu a Cláudio mais uma filha, que recebeu o nome de Claudia Octavia.

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(Cabeça de Claudia Octavia, filha de Cláudio)

No entanto, o reinado de Calígula seria curto. Fartos de seus desmandos e desacatos, alguns senadores e membros da Guarda Pretoriana, estes liderados pelo tribuno Cássio Queréa, urdiram uma conspiração e assassinaram Calígula, durante uns jogos que eram celebrados no Palatino, em 24 de janeiro de 41 D.C.

A conspiração parece, à primeira vista, ter sido motivada primordialmente pelo desejo de alguns de se livrar de um governante ensandecido, que ameaçava os que estavam próximos do poder, e executada por pretorianos humilhados pelo imperador. Se o assassinato de Calígula fazia parte de um plano maior, de restaurar a República, nós não sabemos, mas as fontes relatam que, inicialmente, alguns senadores perceberam essa oportunidade.

Segundo os relatos das fontes, após o assassinato, os guarda-costas germânicos de Calígula entraram em um frenesi de violência e começaram a massacrar quem encontravam pela frente. Cláudio fugiu para o Palácio (ou para a sua casa, a narrativa variam em função da fonte).

Enquanto isso, os guardas pretorianos, também fora de controle, invadiram os aposentos imperiais para saqueá-los. Foi durante essa invasão que um dos guardas, que se chamava Gratus, notou alguém escondido atrás de uma cortina. Ao puxá-la,  ele encontrou Cláudio e arrancou-o do seu esconderijo, ocasião em que perceberam que aquele homem era o tio do imperador. Ato contínuo, os soldados aclamaram Cláudio,Princeps“, e o levaram até o quartel da Guarda Pretoriana.

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Grato proclama Cláudio imperador. Tela de Sir Lawrence Alma-Tadema, 1871

Dião Cássio e Flávio Josefo narram que Cláudio, sincera ou fingidamente, tentou recusar a púrpura imperial, mas acabou cedendo à pressão dos guardas para que ele assumisse o trono. Eles também mencionam que chegou a haver alguns senadores, especialmente Sentius Saturninus (que fez no Senado um discurso neste sentido), e, até mesmo, alguns pretorianos, que cogitaram de acabar com o Principado e restaurar a República Romana, tal como ela era nos tempos anteriores aos Césares.

E de fato, consta que o Senado, cogitando enfrentar os partidários de Cláudio, chegou a mobilizar na oportunidade os parcos recursos armados que a cidade de Roma dispunha. Porém, este contingente, composto apenas por alguns soldados, vigiles (espécie de bombeiros), gladiadores e até escravos libertos dos senadores, logo debandou para o lado dos Pretorianos que apoiavam Cláudio.

Esse estado de indefinição entre a aclamação de Cláudio e a restauração da democracia, segundo Suetônio, durou dois dias, ao final dos quais o historiador narra  que teria ocorrido uma crucial intervenção de uma massa de populares gritando pela elevação de Cláudio, que também teria prometido quinze mil sestércios como donativo aos soldados que o aclamaram imperador.

Realmente, não há como ter certeza se Cláudio foi um mero espectador da conspiração que assassinou Calígula, ou se ele sabia e concordou com o plano. Não obstante, os guardas liderados por Lupus, seguindo ordens de Queréa, após finalizarem Calígula, e, ao que parece isto não teria ocorrido imediatamente, dirigiram-se até o Palácio e executaram a imperatriz Cesônia e a filha de Calígula , de apenas dois anos de idade, que teve a cabeça esmagada contra uma parede. Eu acredito que dificilmente os militares ousariam fazer isso se não tivessem a aprovação de alguém poderoso, talvez algum senador disposto a restaurar a República ou algum pretendente ao trono…

Aos cinquenta anos de idade, Cláudio foi oficialmente aclamado pelo Senado, com o nome de Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus e ele perdoou oficialmente todos os senadores e pretorianos que tinham conspirado para assassinar o seu antecessor, bem como aqueles que haviam se manifestado pelo fim do Principado. (considera-se que o seu reinado começou no dia da morte de Calígula, 24 de janeiro de 41 D.C., quando ele foi aclamado imperador pelos soldados que o encontraram no esconderijo).

Sintomaticamente, contudo, Queréa e Lupus foram imediatamente executados…

Nota: Cláudio, ao incorporar o nome “Caesar“, apesar de ele não ter sido adotado como herdeiro por Calígula (havia uma linha de adoção formal ligando respectivamente cada um dos imperadores romanos a Júlio César, desde Augusto até Calígula), iniciou a transformação do nome do antigo Ditador em um título imperial.

Poucas semanas depois da aclamação de Cláudio, Messalina deu à luz ao seu primeiro herdeiro, que se chamou Tibério Cláudio Germânico.

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A imperatriz (Messalina, com o filho Britânico em seu colo)

O nascimento do filho foi muito comemorado por Cláudio, que com orgulho passou a levar o bebê para exibi-lo em  cerimônias e espetáculos públicos. Moedas foram cunhadas para comemorar o nascimento, com a inscrição “esperança augusta” (spes augusta – vide foto abaixo).

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No ano seguinte, 42 D.C., ocorreu a única revolta séria contra o governo de Cláudio: uma rebelião liderada pelos senadores Lucius Arruntius Camillus Scribonianus, Governador da Dalmácia, e Lucius Annius Vinicianus, um participante do complô que assassinou Calígula, sendo que ambos chegaram a ser cogitados para suceder o finado imperador, durante o impasse que antecedeu a aclamação de Cláudio. Consta que ambos os líderes rebeldes informaram aos senadores em Roma que o motivo da revolta era devolver o poder ao Senado, mas depois de cinco dias, as tropas deles se recusaram a segui-los e eles acabaram cometendo suicídio.

Dião Cássio narra que Cláudio ficou tão assustado quando soube dessa rebelião que ele cogitou abdicar em favor de Camillus, mas acabou afinal recobrando a coragem e se preparou para enfrentar os rebeldes, o que, como visto, acabou não sendo necessário.

Aparentemente tentando trazer o Senado para o seu lado, Cláudio tentou, ao menos no início do reinado, prestigiar esta assembleia. Ele devolveu ao controle dos senadores as provínicias da Macedônia e da Acaia, que tinham sido retiradas da relação de províncias administradas pelo Senado pelo imperador Tibério (Nota: Augusto dividiu as províncias romanas em imperiais, cujo governador era apontado pelo imperador entre os integrantes da classe equestre, e senatoriais, cujo governador era apontado pelo Senado dentre os pares).

Outra exemplo disso, foi a postura que Cláudio adotou de se sentar entre os senadores, aguardando a sua vez de falar nos debates  (de certa forma, era uma retomada da acepção inicial do termo Princeps (Príncipe), que, originalmente era o senador mais velho que tinha a prerrogativa de falar primeiro, e fora adotada por Augusto para manter as aparências de que a República permanecia).

Não obstante, a forma como Cláudio ascendeu ao trono, elevado pelos soldados da Guarda Pretoriana, expôs escancaradamente o que já se percebia desde o início da crise que levou às guerras civis dos Triunviratos, cem anos antes: que a real fonte de poder residia nas forças militares, cabendo ao Senado apenas legitimar o nome que fosse escolhido pelas tropas.

Por isso, Cláudio, logo no início do reinado, saiu a procura de glórias militares que reforçassem a sua posição de líder militar, aumentando o seu prestígio junto às legiões, as quais, caso  lideradas por algum general de renome, poderiam muito bem abraçar a sua “candidatura” e facilmente derrotar os Pretorianos.

E, de fato, no plano militar, o reinado de Cláudio começou bem: O general Gabinius Secundus, comandante das legiões da Germânia Inferior moveu uma guerra bem sucedida contra a tribo germânica dos Chauci, hostil aos romanos desde os tempos em que aqueles bárbaros lutaram ao lado do líder germânico Arminius, na emboscada que resultou no Desastre de Varo, na Batalha de Teutoburgo, em 9 D.C., com a destruição de três legiões romanas e a captura dos seus estandartes-águia (aquila), símbolos que eram religiosamente cultuados pelos romanos e cuja perda em batalha era considerada uma grande humilhação.

Gabinius conseguiu derrotar os Chauci e recuperar a terceira águia das legiões de Varo, que estava em poder deles (As duas outras haviam sido recuperadas por Germânico, irmão de Cláudio, em 16 D.C.). Certamente, este deve ter sido um momento de exultação para Cláudio, não apenas por ter recebido o título de Imperator pela vitória de seu general, mas por ter, de certa forma, igualado o feito de seu falecido irmão, que foi tão admirado pelos romanos.

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(moeda mostrando um estandarte-águia no templo de Marte Vingador, talvez  uma das perdidas por Crasso em Carras contra os Partas, recuperada por Augusto)

Escolheu-se, em seguida, a Britânia como o alvo de uma grande expedição. Esta ilha já havia, quase cem anos antes, sofrido a invasão de Júlio César, que, com apenas o objetivo de fazer propaganda pessoal, ficou ali alguns dias em campanha e retornou para o continente. Vale observar que aquele território era, notadamente,  um objetivo militar muito mais fácil que a Germânia ou a Pártia, adversários muito mais poderosos e aguerridos que, de vez em quando, infligiam pesadas derrotas aos exércitos romanos.

Assim, no verão de 43 D.C., quatro legiões desembarcaram na Britânia, comandadas pelo general Aulus Plautius, e avançaram pela maior parte da ilha. O pretexto da invasão, como em muitas outras guerras travadas pelos Romanos, foi o pedido de auxílio de um rei cliente de Roma, da tribo bretã dos Atrebates, de nome Verica, que havia sido expulso por adversários. O próprio Cláudio participou da campanha, ficando na Britânia por cerca de duas semanas, promovendo, no final, uma grande parada em Camulodunum (atual Colchester, na Inglaterra), onde começou a ser construído um grande templo dedicado ao seu “gênio”.

A Britânia foi anexada e permaneceria uma província romana até o início do século V. A vitória rendeu a Cláudio o título de Britannicus, que foi estendido a seu filho, que passou a se chamar Tiberius Claudius Caesar Britannicus. O menino passaria, então, a ser conhecido como “Britânico“.

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(Cabeça de bronze de uma estátua de Cláudio encontrada no rio Alde, na Inglaterra)

Talvez , pelo motivo de Cláudio perceber que tinha poucos aliados no Senado, ou, ainda, porque ele nunca tinha exercido algum cargo público, exceto o breve consulado extraordinário, ou também devido ao fato da sua pessoa ter sido imposta ao Senado pelos Pretorianos, ou, finalmente, talvez  porque ele possa ter assim concluído dos seus estudos aprofundados sobre o governo de Júlio César, o período das guerras civis e sobre o reinado de Augusto, o principado de Cláudio notabilizou-se pela implantação de um corpo de funcionários do Palácio encarregado da administração de funções governamentais que, anteriormente, eram exercidas pelos magistrados tradicionais da República, cargos ocupados primordialmente por senadores, magistraturas essas que foram em grande parte mantidas pelos seus antecessores no trono com suas funções executivas.

Já os funcionários palacianos eram diretamente indicados pelo imperador, sem mediação do Senado, e, quase sempre, ainda que extremamente preparados, eles eram escravos libertos que pertenciam ao próprio Imperador.

No reinado de Cláudio, esse secretariado foi dividido em escritórios que funcionavam como verdadeiros ministérios. Assim, o liberto Narcissus foi escolhido como Secretário da Correspondência Imperial (cargo importante, pois controlava toda a comunicação oficial do imperador, seja como emitente ou destinatário, redigindo e enviando despachos, comunicados ou correspondências e recebendo petições, denúncias, notícias de fatos,  etc.  O liberto Pallas* foi nomeado Secretário do Tesouro Imperial (fiscus) e o liberto Callistus, um influente ex-escravo de Calígula que havia participado da conspiração para assassiná-lo, foi escolhido para ser Secretário de Justiça, responsável, inicialmente, pelos recursos das decisões dos tribunais que eram dirigidos ao imperador.

Podemos, então, considerar que, embora os seus antecessores já utilizassem os seus libertos como auxiliares, Cláudio foi o primeiro organizador sistemático da burocracia imperial, esboçando uma forma que perduraria por muitos séculos.

*Como curiosidade, mas também como uma mostra do prestígio que os funcionários libertos gozaram a partir do governo de Cláudio, observamos que o irmão de Pallas, Marcus Antonius Felix, foi nomeado para ser o Procurador da Judeia, um cargo formalmente reservado aos integrantes da classe Equestre. Foi este Felix que procedeu ao julgamento do apóstolo Paulo, em Cesareia, sendo nominalmente citado em Atos, 24.

Não surpreende, assim, que Cláudio tenha sido visto com antipatia  pelos Senadores, que, além de deixarem de ter voz em setores importantes da administração pública, ainda tinham que tratar em pé de igualdade com ex-escravos, o que afetava o sabidamente delicado senso de dignidade da classe senatorial… E essa antipatia da classe senatorial de Roma por Cláudio transborda abundante nas narrativas do seu governo, feitas por historiadores oriundos do Senado, tais como TácitoDião Cássio, ou então equestres ligados aos senadores, como Suetônio. Além disso, como resultado do grande poder que eles agora detinham, todos esses secretários libertos tornaram-se imensamente ricos, rivalizando em fortuna com os próprios senadores…

Claramente, a tentativa de aproximação que ele tentou no início do governo falhou e, diante desse quadro, Cláudio acabaria exilando ou mandando executar vários senadores, embora não se possa dizer que todos as citados tenham de fato conspirado para derrubá-lo – e alguns dos supostos conspiradores talvez nem tenham sido de fato executados por ordens dele. Não obstante, consta que, durante o seu reinado, Cláudio mandou executar 35 senadores e centenas de membros da classe Equestre.

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Por exemplo, em 46 D.C., o senador Lucius Asinius Gallus foi acusado de conspirar contra Cláudio e foi exilado, sendo que o imperador chegou até a ser elogiado pela moderação quanto à pena aplicada. Em 47 D.C., o senador de antiga origem gaulesa, Decimus Valerius Asiaticus, por sua vez, foi alvo de acusações vagas de traição (e também de cometer adultério com uma aristocrata) e ele foi julgado, nos aposentos do Palácio (in camera), em julgamento fechado, pelo imperador e seu conselho privado, e não perante um tribunal público, um procedimento que se tornou costumeiro durante o principado de Cláudio. Segundo uma fonte, o verdadeiro motivo desta inquisição foi a cobiça que a imperatriz Messalina nutria pelos belos Jardins de Lúculo, em Roma,  que pertenciam a Asiaticus, que acabou compelido a se suicidar. Outra fonte alude ao fato de Asiaticus possivelmente ter participado da conspiração contra Calígula e ter insinuado a pretensão de suceder o falecido imperador. De qualquer forma, existiu algum pretexto sério, verdadeiro ou fictício, para Cláudio não gostar de Asiaticus, já que o imperador, no ano seguinte, fez questão de se referir a ele como “um gaulês bandido e patife cujo nome eu não devo sequer mencionar neste discurso“, em uma sessão do Senado cujos debates foram preservados na Tábua de Lyon,  à qual mais tarde aludiremos.

Outro senador executado foi Gnaeus Pompeius Magnus, um descendente do Triúnviro Pompeu, o Grande, e que era casado com Claudia Antonia, a filha mais velha do próprio Cláudio, que teria participado de uma conspiração contra o imperador.

Muitas dessas perseguições são atribuídas às maquinações da imperatriz Messalina, acerca de quem há relatos de que ela se aproveitava de uma certa credulidade e ingenuidade que Cláudio repetidamente demonstrou ter em relação a todas as mulheres que ele teve em sua vida.

Aliás, a se acreditar nos relatos dos historiadores antigos, Messalina seria uma verdadeira ninfomaníaca, que não apenas teria tido inúmeros amantes enquanto esteve casada com Cláudio, mas, entre outras coisas, teria chegado até a participar de uma competição contra uma prostituta, em que aquela que tivesse mais parceiros sexuais na mesma noite ganharia (sendo que Messalina teria ganho a aposta, com um total de 25 parceiros, um caso citado por Plínio, o Velho, em sua “História Natural”)…Ela teria, ainda, segundo o poeta Juvenal, trabalhado, enquanto imperatriz, em um bordel, sob o pseudônimo de “Loba”.

Os historiadores antigos afirmam que Cláudio desconhecia as infidelidades de Messalina, seja por ele se dedicar às questões administrativas e jurídicas do Império, seja por confiar demais na esposa, muito embora as fofocas sobre o assunto circulassem pela cidade de Roma, até o dia em que  seu liberto Narcissus lhe contou que Messalina, enquanto Cláudio estava em Óstia, organizou uma festa no Palácio, e, durante a mesma, ela teria se casado, em uma cerimônia, real ou encenada, com seu amante Gaius Silius, um belo jovem que tinha sido designado para ser Cônsul em 48 D.C.. Poderia até ser uma brincadeira infeliz, mas, para piorar, a versão que chegou a Cláudio é a de que o casamento fazia parte de um plano de Messalina e Silius para assassiná-lo.

Messalina acabou sendo executada em 48 D.C., apesar de constar que Cláudio, cujo coração já estava amolecendo em favor da esposa, não se resolvia a dar a ordem expressa, tendo a decisão fatal sido ordenada por Narcissus, à revelia do imperador.

Em 47 D.C., Cláudio assumiu o cargo de Censor,  que andava sendo relegado a uma certa insignificância, junto com Lucius Vitellius, um dos poucos amigos de sua infância, pois conviveram juntos na casa de sua mãe, Antônia, a Jovem, a volta de quem havia um círculo de nobres orientais, devido ao fato dela ter herdado do seu pai, Marco Antônio, as conexões políticas e numerosas propriedades no Oriente. Outra amizade desses tempos de juventude era o príncipe judeu conhecido como Herodes Agripa, que ajudou Cláudio durante o impasse da sucessão de Calígula.

Nota: Vitellius havia sido Cônsul e governador da Síria durante o final do reinado de Tibério. Foi ele, inclusive quem demitiu Pôncio Pilatos do cargo de Prefeito da Judeia. Durante o reinado de Cláudio, ele seria Cônsul outras duas vezes, um fato incomum para quem não fosse da família imperial, durante o Império Romano). Ele era pai do futuro imperador Vitélio.

Talvez como um agrado a Herodes Agripa, Cláudio deu ao amigo o título de Rei da Judeia, restaurado como reino-cliente de Roma, dando-lhe o governo do respectivo território, que tinha sido incorporado ao Império Romano (Herodes já governava a Galileia). Cláudio também reconheceu o direito de liberdade de culto dos Judeus no Império Romano. Um exemplo dessa política está registrado na “Carta aos Alexandrinos”, onde Cláudio ordena aos habitantes gregos de Alexandria que respeitem os direitos da grande colônia judaica que existia na cidade, fonte frequente de diversos conflitos étnicos e religiosos.

Porém, quando Herodes Agripa morreu, em 44 D.C., todo o seu reino foi reincorporado ao Império Romano.  Nessa mesmo período, outros reinos-clientes de Roma foram anexados formalmente, tais como a Trácia, Noricum, Panfília e a Lícia, que se tornaram províncias. A Mauritânia, cujo processo de anexação fora iniciado por Calígula, teve a anexação concluída sob Cláudio, em 44 D.C., cujas tropas derrotaram os últimos focos de resistência armada. Essas medidas estão de acordo com a tônica geral de seu reinado em direção à centralização de poder e expansão da burocracia imperial.

Seguindo a linha geral de seu governo, Cláudio utilizou o cargo de Censor para intervir na composição das classes senatorial e equestre, pois o Censor tinha o poder de verificar os requisitos para a inscrição dos cidadãos nas respectivas listas. Assim, Cláudio mandou excluir o nome de vários senadores e equestres cuja renda não mais atendia o requisito mínimo estipulado pela lei para integrar a classe.

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Constatando que havia muitos assentos vagos no Senado, devido a décadas de execuções e proscrições pelos imperadores que o antecederam, além da diminuição do número de famílias da classe senatorial, Cláudio, seguindo o exemplo de Júlio César, antepassado que ele muito admirava, e aproveitando o cargo de Censor, mandou arrolar novas famílias nas listas de patrícios e abriu o Senado para nobres e pessoas ilustres nascidas nas províncias, especialmente da Gália,  fato que ficou registrado na chamada Tábua de Lyon, que contém a interessante transcrição do discurso do imperador na sessão do Senado Romano, ocorrida em 48 D.C.,  na qual Cláudio propõe a admissão ao Senado de homens ilustres de origem gaulesa, habitantes da Gália Lugdunense (centrada em Lugdunum, atual Lyon, cidade natal do próprio Cláudio).

A Tábua de Lyon, em bronze, que foi encontrada em um vinhedo nos arredores de Lyon, provavelmente foi feita a mando desses mesmos senadores gauleses agradecidos, beneficiados pela aprovação da proposta de Cláudio. Além de confirmar o relato desse fato histórico, citado por Tácito, a Tábua de Lyon contém, tudo indica, a transcrição literal do discurso do imperador no Senado, inclusive transcrevendo as interrupções questionadoras de alguns senadores contrários à medida. E o discurso de Cláudio, cheio de digressões históricas e certo pedantismo, combina perfeitamente com a descrição de sua personalidade feita pelos historiadores antigos.

Tanto isso é verdade, que a sessão preservada na Tábua de Lyon, com notável fidelidade, transcreve até o apelo de um senador para que Cláudio fosse direto ao ponto! (vide:  https://sourcebooks.fordham.edu/ancient/48claudius.asp)

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( A Tábua de Lyon)

Neste mesmo ano de 48 D.C., realizou-se por ordens de Cláudio um grande Censo da população de todo Império Romano, que contou o número de 5.984.072 cidadãos romanos, ou seja, homens livres que gozavam do direito de cidadania romana, excluindo, portanto, mulheres, crianças, escravos e habitantes que não tinham cidadania. Isso aponta para uma população que se estima estivesse entre 50 e 70 milhões de habitantes.

Após a execução de Messalina,  os seus libertos, visando cada um a aumentar a sua influência sobre o imperador, se revezaram em apresentar candidatas a se tornarem a nova imperatriz, sendo que Lollia Paulina, que havia sido esposa de Calígula, e a ex-esposa de Cláudio, Aelia Petina, chegaram a ser cogitadas.

A pretendente cuja “candidatura” era defendida pelo secretário Pallas acabou sendo a escolhida: Agripina, A Jovem, que, sendo filha de Germânico, era nada menos do que a sobrinha do próprio Cláudio. Além disso, Agripina também era irmã do antecessor dele, Calígula.

Segundo as leis romanas, essa união era considerada incesto, mas, em tempos de Principado, obviamente que mudar a lei não foi difícil…

Há relatos de que Agripina teria seduzido o tio Cláudio, mas, provavelmente, o que pesou mesmo na sua escolha foram considerações políticas: Cláudio já estava com 58 anos de idade, sendo que seu, Britânico, tinha apenas sete. Caso Cláudio, que nunca havia sido uma pessoa  muito saudável, morresse, ou ficasse incapacitado, era grande o perigo de que a dinastia dos Júlio-Cláudios terminasse, pois Britânico ainda estava longe de despir a toga pretexta e tornar-se maior de idade, quando poderia assumir cargos públicos.

O Principado ainda estava nas primeiras décadas e, ainda que apenas no aspecto formal, o imperador era considerado o primeiro-magistrado. A transição legal e cultural para uma monarquia ainda não havia sido feita, e a sucessão de Calígula mostrara que ainda havia anseios republicanos no Senado…

Assim, Cláudio precisava de um arranjo que lhe permitisse garantir, na sua falta, a continuidade da dinastia no governo,  esperançosamente, até que seu filho estivesse apto a governar. Esta era, inclusive, uma situação pela qual Augusto já tinha passado (Com efeito, já idoso, e após o falecimento de vários herdeiros de sangue, sobrinhos e netos, tais como Marcelo, Lúcio e Caio César, ele havia sido obrigado a adotar Tibério, filho de sua esposa Lívia).

Em 1º de janeiro de 49 D.C., Cláudio e Agripina se casaram. No ano seguinte, em 25 de fevereiro de 50 D.C., Cláudio a adotou o filho dela, Lucius Domitius Ahenobarbus, que passou a se chamar “Nero Claudius Caesar Drusus Germanicus” (Nero).

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(Busto de Agripina, a Jovem)

Ainda em 50 D.C.., Agripina conseguiu que Cláudio persuadisse o Senado a dar-lhe o título de Augusta, honraria que somente Lívia Drusila, a esposa de augusto, havia recebido em vida, e, mesmo assim, somente após a morte do marido.

Todos logo perceberam o tamanho da influência de Agripina sobre Cláudio e, pouco a pouco, o nome dela começou  a aparecer em inscrições em monumentos, moedas e documentos. Consta que ela recebia embaixadores estrangeiros sentada em seu próprio tribunal e vestia um manto militar com bordados de ouro em cerimônias oficiais. O prestígio dela era tanto que o povoado em que ela nasceu, na Germânia, às margens do rio Reno, onde seu pai estava aquartelado, recebeu, em 50 D.C., o nome de Colonia Claudia Ara Agrippinensium, que é a atual cidade de Colônia, na Alemanha.

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(Reconstrução da Colonia Claudia Ara Agrippinensium – atual Colônia, no século I D.C.)

Em 51 D.C., Nero vestiu a toga virilis, alguns meses antes da idade costumeira, pouco antes de completar 14 anos. No mesmo ano ele recebeu o título de Princeps Iuventutis, um título que surgira no reinado de Augusto para honrar os jovens considerados como potenciais herdeiros do trono.

Para a surpresa geral, parecia que Nero estava tomando a preferência de Cláudio para ser o seu sucessor. E Agripina começou a eliminar todos que representassem uma ameaça à trajetória de seu filho rumo ao trono. Em 51 D.C, ela ordenou  a execução de Sosibius, o tutor de Britânico, que andava reclamando da preferência que vinha sendo dada ao filho de Agripina.

Em 9 de junho de 53 D.C, certamente com a intermediação de Agripina, Cláudio concordou com o casamento entre Nero e sua filha, Claudia Octavia.

Britânico agora já tinha doze anos e o motivo de Cláudio continuar tomando medidas que favoreciam a posição de seu enteado Nero como herdeiro preferido, em detrimento do próprio filho natural, continua sendo algo que intriga os historiadores.

Porém, a maioria das fontes narra que, nos meses que se seguiram, Cláudio, um tanto descuidadamente, começou a fazer comentários, aqui e ali, lamentando o fato dele ter casado com Agripina e adotado Nero.

Em meados de 54 D.C., faltava menos de um ano para Britânico atingir a idade em que poderia vestir a toga virilis e ser considerado adulto. Suetônio cita que Cláudio mencionou publicamente em algum evento a intenção de antecipar a cerimônia,  devido à altura de Britânico, chegando a dizer, na ocasião:

Para que o Povo de Roma finalmente possa ter um genuíno César“.

Era uma clara advertência de que ele não considerava mais Nero como sucessor. Agora, o ano  de 54 D.C. entrava em seus últimos meses e, pela primeira vez, em um discurso no Senado, Cláudio se referiu a Nero e Britânico como iguais em precedência.

Em 13 de outubro de 54 D.C., pela manhã, foi anunciado que Cláudio morreu, após um banquete. Nas fontes antigas há um quase consenso de que ele foi envenenado a mando de Agripina, ou até mesmo por ela pessoalmente. Agripina, teria se aproveitado do fato do onipresente  Narcissus, partidário de Britânico,  estar descansando em sua villa na Campânia, e contratou a célebre envenenadora Locusta, para preparar o veneno, o qual teria sido administrado em um prato de cogumelos, iguaria muito apreciada por Cláudio. Os detalhes variam. Segundo uma versão, Cláudio ao comer os cogumelos, acabou vomitando, e uma segunda dose lhe foi administrada, agonizando durante um tempo, e, após ele ter morrido, o seu falecimento ainda foi escondido por um curto período de tempo, durante o qual todos preparativos necessários foram feitos para assegurar a sucessão em favor de Nero, inclusive a destruição do último testamento de Cláudio, no qual ele teria reconhecido Britânico como sucessor.

A aclamação de Nero foi tranquila: O Senado sabidamente odiava Cláudio e, ainda em 51 D.C., Agripina  havia indicado o nome de Sextus Afranius Burrus (Burro) para ser o novo Prefeito da Guarda Pretoriana, e com cuja lealdade ela pôde contar na hora da sucessão.

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(Relevo de Agripina coroando seu filho Nero. A cena não deixa margem a dúvidas…)

Nero fez a eulogia (oração fúnebre) em honra de Cláudio, que depois foi “deificado” pelo Senado, isto é, após a sua morte, decretou-se que ele tinha sido elevado ao panteão dos deuses a serem cultuados pelos romanos (apotheosis).

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(Camafeu do século I, retratando a apoteose de Cláudio. Uma águia o leva até os céus)

A deificação, ou apoteose, de Cláudio, embora oficial, foi objeto de sátiras e pilhérias pelos integrantes da classe senatorial. Um deles, o filósofo e escritor Sêneca, o Jovem, escreveu uma célebre sátira chamada de “Apocolocyntosis” (literalmente, “aboborificação”, processo no qual Cláudio, na narrativa, tranformaria-se em uma abóbora após a morte), ridicularizando a apoteose do imperador. Na obra, a deificação dele é  julgada em um tribunal do deuses no Monte Olimpo, e o próprio imperador falecido Augusto discursa aos deuses enumerando os defeitos físicos, as idiossincrasias, gafes, assassinatos de Cláudio, cuja sentença é ser enviado a penar nas profundezas do Hades, condenado pela eternidade a trabalhar como funcionário de um tribunal, e, ironicamente, sendo dado como escravo a um liberto…

O destino no Hades ao qual Cláudio foi condenado na Apocolocyntosis é claramente uma crítica mordaz a uma das atividades a que o imperador mais se dedicou durante o reinado: os processos judiciários (Ele, de fato, costumava comparecer quase que diariamente ao tribunal, julgando processos). Além disso, é uma crítica à preferência que ele deu aos libertos durante o seu governo.

Embora Cláudio fosse diligente e dedicado no exame da maior parte dos casos judiciais que lhe eram submetidos, ele, às vezes, costumava desprezar os princípios processuais estabelecidos no Direito Romano, proferindo sentenças sem ouvir a parte contrária, violando o princípio do contraditório, ou, como já apontamos, realizando sessões fechadas no palácio, o que era contrário ao princípio da publicidade dos julgamentos, muito caro aos Romanos.

Por exemplo, as fontes citam que Cláudio, certa vez, agiu como um verdadeiro rei Salomão, da Bíblia judaica, julgando um processo no qual uma mãe se negava a reconhecer o filho, decretando que ela se casasse com o rapaz, para forçá-la a confessar a maternidade.

E a estupefação dos litigantes com essas bizarrices de Cláudio era tanta, que Suetônio narra, observando que o fato era de conhecimento geral, um caso em que um réu, falsamente acusado de conduta imprópria contra uma mulher, ao ver que Cláudio decidira, contrariamente à praxe processual romana, ouvir algumas prostitutas como testemunhas, exasperou-se e  atirou a tábua e o estilete de escrita em cima do imperador, conseguindo até ferir a bochecha de Cláudio!

Outra faceta de Cláudio era o amor que ele tinha pelos espetáculos públicos, especialmente os combates de gladiadores e contra feras. Durante seu reinado ele promovou várias exibições, culminando com um combate naval simulado, no qual Suetônio registrou que os combatentes saudaram Cláudio com a frase: “Ave,  Imperador, Aqueles que irão morrer te saúdam“. É a única vez que a História registra essa frase, que não sabemos se ela era padrão nos jogos de gladiadores ou se somente foi utilizada naquela ocasião (Cássio Dião também a menciona no mesmo episódio, mas a narrativa deve ter sido obtida na obra de Suetônio). A nota satírica, frequentemente presente nas estórias sobre Cláudio, marcando um tom depreciativo sobre a sua suposta estupidez, é que, àquela saudação, o imperador teria respondido: “Ou não…!“, ao que os combatentes entenderam, induzidos a erro, que eles tinham sido perdoados e assim se recusaram, inicialmente, a lutar, para desespero do próprio Cláudio, preocupado com a reação dos espectadores frustrados.

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O amor pelos jogos de gladiadores e combates na arena parece combinar com uma outra faceta sombria da personalidade de Cláudio: a curiosidade excessiva, ou mesmo o prazer mórbido, que ele tinha de assistir pessoalmente as execuções de condenados, à tortura de testemunhas ou à morte dos gladiadores.

A política religiosa de Cláudio caracterizou-se pela tentativa de revitalizar as tradições e reviver aspectos antigos dos cultos romanos, como era de se esperar de um amante da história antiga e dos etruscos. Um episódio interessante que ocorreu em seu governo foi a expulsão dos judeus, narrada por Suetônio, que teria sido motivada por tumultos causados “por instigação de Chrestus“.

Muitos especialistas acreditam que essa passagem reflete a chegada dos primeiros pregadores cristãos a Roma, que entraram em conflito com a numerosa comunidade judaica lá instalada, ao pregarem o Evangelho. Obviamente que os romanos ainda não deviam distinguir os cristãos dos judeus ( e  note-se que essa divisão ainda não estava pacífica entre os próprios cristãos), e a expulsão não parece ter tido motivos religiosos, mas de manutenção da ordem pública. Não deve, contudo, ter sido uma expulsão em massa. Acredita-se que o episódio narrado por Suetônio é o mesmo que aparece em Atos, 18, 2., quando São Paulo encontra em Corinto um judeu chamado Aquila, que tinha sido expulso de Roma por Cláudio. Estima-se que essa expulsão narrada por Suetônio e em Atos tenha ocorrido por volta de 50 D.C.

Um campo onde Cláudio se destacou como imperador foi no das obras publicas, construindo várias de grande utilidade, como por exemplo dois importantes aquedutos: o Aqua Claudia, cuja construção havia sido iniciada por Caligula, e o Anio Novus, completados em 52 D.C.. Cláudio financiou a construção de ambos com recursos oriundos do tesouro privado do imperador (fiscus).

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(A Porta Maggiore, era uma porta monumental no trajeto  da junção dos aquedutos da Aqua Claudia e da Aqua Novis, construída por Cláudio)

Fora de Roma, no reinado de Cláudio foram construídos um canal ligando o Reno ao mar, um canal ligando o rio Tibre a Portus, o porto marítimo que ele mandou construir ao norte de Óstia. Além de possibilitar o aumento do volume de transporte de grãos e outras mercadorias para Roma, essa obra útil reduziu as enchentes do rio Tibre.

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Ao menos como construtor de grandes obras de utilidade pública, o sempre crítico Suetônio fez justiça a Cláudio, reconhecendo:

“Suas obras públicas foram mais grandiosas e necessárias do que numerosas”.

Conclusão

Assim, o imperador Cláudio é uma figura ambígua para a História de Roma. Se formos considerar apenas a opinião dos Senadores, classe de onde saíram aqueles que registraram o seu reinado na História, ele teria sido um idiota que lhes foi imposto pela guarda pretoriana, e, durante o seu reinado, mostrou-se um governante  tirânico, porém medroso e manipulável pelas suas esposas e seus libertos. Porém, mesmos nesses textos críticos, transparece que Cláudio era um monarca dedicado ao ofício de governar e que ele tomou uma série de medidas úteis e sensatas.

A figura de Cláudio é muito bem retratada no best-sellerEu, Claudius, Imperador“, do escritor inglês Robert Graves, que foi escrito como se fosse a autobiografia perdida do imperador.

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CONSTÂNCIO CLORO

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Em 31 de março de 250 D.C., na Dardânia, região da Província da Moésia,  nasceu Marco Flávio Valério Constâncio (Constâncio Cloro), filho de um certo Eutrópio, que, segundo a História Augusta, seria um “nobre” daquela região, e de Cláudia, que, supostamente, seria sobrinha do imperador romano Cláudio II Gótico (vale notar que a maior parte dos historiadores modernos acredita que esse suposto parentesco foi inventado pelo escritor da “História Augusta”, com o objetivo de melhorar o “pedigree” da dinastia constantiniana).

Observe-se que na Dardânia,  desde a sua conquista pelos romanos, em 73 A.C, foi estabelecido um acampamento de legionários que deu origem à cidade de Naissus (atual Nîs, na Sérvia) e a região tornou-se um dos principais centros de recrutamento de tropas para o exército romano no século III D.C.

Como outros conterrâneos seus da 2ª metade do século III D.C., Constâncio ingressou no exército e foi galgando postos. Neste progresso, ele recebeu a prestigiosa patente de “Protector Augusti Nostri”, dada a soldados de elite que se destacavam no serviço ao imperador, no reinado do imperador Aureliano, e depois foi promovido a Tribuno, após os Protectori Augusti Nostri se tornarem um corpo de elite do Exército Romano. Nesta condição, ele deve ter conhecido o futuro imperador Diocleciano, que mais tarde comandaria o referido corpo de elite, já no reinado do imperador Caro, em 282 D.C.

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(As tropas que serviam próximo ao Imperador durante a carreira de Constâncio Cloro deviam ter essa aparência)

Deve ter sido no Exército que Constâncio recebeu o apelido de Cloro (Chlorus), que em latim significa “pálido”, devido a sua pele excessivamente clara.

Como Protector Augusti Nostri, Constâncio Cloro participou da campanha de Aureliano contra o Império de Palmira, que tinha se formado a partir da secessão das províncias romanas da Síria, Arábia Pétrea e Egito, além de outras partes da Ásia Menor, entre 272 e 273 D.C, e era governado pela grande rainha Zenóbia.

Foi nessa campanha que Constâncio Cloro conheceu Helena, uma jovem bitínia, nativa da cidade de Drepanus, que trabalhava numa estalagem ao longo da estrada pela qual o exército marchava para dar combate aos rebeldes palmirenos.

Consta que Constâncio Cloro notou que a jovem usava um bracelete de prata idêntico ao que ele estava usando no momento, o que lhe teria dado a certeza de que ela era a sua alma-gêmea enviada por Deus.

Verdadeira ou não a história, o fato é que, finda a sua participação na campanha, Constâncio Cloro, levou Helena consigo para sua terra natal na Dardânia, onde, na cidade de Naissus, ela deu a luz ao seu primeiro filho, que recebeu o nome de Constantino (o futuro imperador Constantino I, o Grande), em 27 de fevereiro de 272 D.C. (considerado o ano mais provável).

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(Estátua de Helena. A obra é do período clássico, mas a cabeça foi alterada  por escultores durante o reinado de seu filho Constantino para retratá-la)

A Bitínia era uma das regiões onde o Cristianismo mais cedo se enraizara no Império. Por exemplo, o apóstolo Pedro já menciona a existência de uma comunidade cristã na Bitínia por volta do ano 60 D.C.. E, no início do século II D.C., Plínio,o Jovem, quando ocupou o cargo de governador da província, chegou a consultar, por meio de uma carta, o imperador Trajano acerca de como ele deveria proceder com os cristãos locais, os quais se encontravam não apenas nas cidades, mas espalhados pelos campos.

E de fato, jovem bitínia Helena se mostraria, anos mais tarde, uma das cristãs mais devotas. Podemos, assim, considerar, com um bom grau de probabilidade, que o filho de Constâncio, o menino Constantino, desde a mais tenra infância sofreu as influências da devoção de sua mãe (Como todos sabem, Constantino, depois de se tornar imperador, favoreceu muito o Cristianismo e a sua conversão mudou a História Mundial).

Até hoje se discute se Constâncio Cloro e Helena se casaram ou se eles viveram em concubinato. Sabemos que Maxêncio, o principal rival de Constantino, o acusaria de ser filho de uma prostituta, mas essa acusação pode  também ser vista como propaganda política negativa. Não obstante, sabe-se que, na Antiguidade, e mesmo na Idade Média, não era prática incomum que mulheres que trabalhassem em estalagens ou pensões tivessem também que dormir com os hóspedes…

Após a união com Helena, Constâncio continuou ascendendo na carreira militar e, no reinado do imperador Caro, ele foi nomeado “Praeses” (governador) da província da Dalmácia, entre 282 e 283 D.C. No mesmo período, Caro nomeou Diocleciano como Comandante dos Protectori Augusti Nostri, que, neste posto, acompanhou o imperador na invasão da Mesopotâmia, coração do império Sassânida.

Não há menção nas fontes se Constâncio participou da bem sucedida campanha de Caro contra os Persas, na qual este imperador acabaria falecendo, em 283 D.C., segundo consta atingido por um raio durante uma tempestade. Caro foi, então, sucedido pelos  seus filhos, Carino e Numeriano.

Porém, em novembro de 284 D.C., Numeriano morreu na Bitínia, em circunstâncias misteriosas, quando voltava para Roma, aparentemente devido a uma doença caracterizada por inflamação nos olhos.

Então, um conselho de generais escolheu Diocleciano como sucessor de Carino e ele foi aclamado imperador pelas tropas em Nicomédia. Assim, Diocleciano, desde o início, se apresentou como adversário de Carino, deslocando-se para dar combate ao rival, cujo exército  ele encontrou na Moésia, na Batalha do rio Margus ( local próximo à atual Belgrado, na Sérvia), em julho de 285 D.C., ocasião em que os principais generais de Carino se passaram para o lado de Diocleciano. Carino foi, em seguida, morto pelos seus próprios homens.

Alguns historiadores acreditam que, durante o avanço de Diocleciano pelos Bálcãs para engajar Carino, Constâncio também teria aderido ao seu velho conterrâneo e camarada dos Protectori Augusti Nostri.

Um dos primeiros atos de Diocleciano no trono foi escolher um colega para governar em conjunto com ele e o escolhido foi seu velho amigo e companheiro de armas, o general e conterrâneo de origem ilíria, Maximiano. Embora ambos compartilhassem a origem humilde, Maximiano, era muito mais áspero e implacável do que Diocleciano, que, no entanto, tinha sobre ele uma considerável ascendência moral e intelectual.  Assim, em 1º de abril de 286 D.C, Maximiano, foi elevado de “César” para “Augusto”.

Sintomaticamente, os dois Augustos se concederam os títulos de “Júpiter” (Diocleciano) e de “Hércules”(Maximiano), em uma espécie de alusão ao papel de ambos no Império, no qual Diocleciano figurava como o “sábio pai dos deuses e chefe do Olimpo” e Maximiano,  como o guerreiro encarregado das tarefas militares.

Entre 287 e 288D.C., Constâncio Cloro já era um dos principais auxiliares, senão o mais importante, de Maximiano, e, nesta condição, liderou a campanha contra os bárbaros Alamanos, chegando a cruzar o Reno para atacá-los, fato que sinalizou o reerguimento do poder romano na região, após vários anos de invasões e rebeliões durante a crise da segunda metade do século III D.C.

Provavelmente por volta de 288 D.C., Maximiano designou Constâncio Cloro para o cargo de Prefeito Pretoriano do Ocidente, cargo que havia sido reformulado dentro das extensas e fundamentais reformas administrativas e militares promovidas por Diocleciano, e que passava a ser uma espécie de Chefe de Gabinete e Chefe do Estado-Maior do Imperador.

Os laços entre o imperador Maximiano e seu subordinado Constâncio Cloro foram ainda mais reforçados com o casamento de Constâncio com Flávia Maximiana Teodora, a filha (ou para alguns, enteada) de Maximiano, união que, segundo um dos Panegíricos Latinos, teria ocorrido em 289 D.C. Assim, Constâncio teve que se divorciar (ou separar-se, caso proceda a versão de que a relação era de concubinato) de Helena, a mãe de seu primogênito, Constantino.

Ainda que motivado por razões políticas, o casamento de Constâncio Cloro com Teodora seria prolífico, gerando 6 filhos (3 homens), nenhum dos quais, contudo, chegaria a ocupar o trono.

Enquanto isso, Maximiano tinha que lidar com os camponeses fora-da-lei chamados de bagaudas, no norte da Gália. Submetida essa insurreição, Constâncio Cloro foi encarregado de combater a insurreição de Caráusio, o comandante da frota do Mar do Norte, a quem Maximiano havia condenado à morte, devido a uma acusação de peculato. Por este motivo, Caráusio, que estava firmemente estabelecido na Grã-Bretanha, e controlava, ainda, o noroeste da Gália, autoproclamou-se “Imperador da Britânia”.

Maximiano e Constâncio Cloro, se preparam para combater o usurpador Caráusio, mas as  fontes sugerem que houve algum incidente com a frota que eles estavam construindo para invadir a Britânia, por volta de 289 D.C., e, assim, Caráusio conseguiria resistir ainda por sete anos, cunhando moedas em que ostentava o título de Imperador e “irmão” de Diocleciano e Maximiano e nas quais louvava a suposta concórdia (paz) entre eles.

A experiência da eclosão de crises simultâneas em diferentes partes do Império Romano certamente contribuiu para inspirar Diocleciano a idealizar a medida mais revolucionária do seu reinado: a chamada Tetrarquia, em 293 D.C., caracterizada pela divisão administrativa do poder imperial,  que antes era centralizado na pessoa de um monarca que governava o Império a partir da cidade de Roma,  e agora seria repartido entre quatro governantes:  dois mais graduados, que teriam o título de “Augusto”, tendo as respectivas capitais em Milão e Nicomédia, e dois, em plano um pouco inferior e subordinados a eles, chamados de “Césares”, instalados em Augusta Treverorum (Trier) e Sirmium. A idéia é que quando os “Augustos” se retirassem ou morressem, fossem substituídos automaticamente pelos “Césares”.

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(Os Tetrarcas, escultura da época imperial, hoje na lateral da Catedral de São Marco, em Veneza)

Em 1º de março de 293 D.C, Diocleciano autorizou Maximiano a nomear Constâncio Cloro como “César” do Ocidente o que caracterizava a sua ascensão ao posto de imperador “júnior” e herdeiro de Maximiano.

Provavelmente naquela mesma data, ou pouco depois, Diocleciano nomeou seu genro, o general Galério, marido de sua filha Valéria (Diocleciano não teve filhos homens), para o posto de “César” do Oriente, e, portanto, seu herdeiro. Sendo o mais antigo dos Césares, Constâncio Cloro, formalmente, teria precedência sobre Galério, sendo o seu nome sempre mencionado na frente de seu colega nos documentos.

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(Cabeça de Galério)

Constâncio Cloro, em decorrência da sua nomeação,  foi obrigado a enviar seu filho Constantino, então um rapaz já no começo dos seus 20 anos, para ir viver na corte de Diocleciano, na cidade de Nicomédia, na Bitínia, acompanhado de sua mãe, Helena, que assim retornava à sua terra natal.

Embora Constantino tenha recebido a melhor educação clássica em Nicomédia (onde certamente teve contato com Lactâncio, professor de retórica latina na Corte, que, posteriormente, se tornaria um dos intelectuais cristãos mais influentes), e iniciado sua carreira serviço público e militar, considera-se que ele,  na verdade, era sobretudo um refém sob a custódia de Diocleciano, visando assegurar a lealdade de seu pai, Constâncio Cloro.

Enquanto isso, na Britânia, o usurpador Caráusio foi assassinado e substituído por seu lugar-tenente Alecto (Allectus), que era apoiado pelos Francos.

Constâncio Cloro teve muito trabalho para conter os Francos e lutar contra os Alamanos, que ameaçavam a fronteira do Reno. Ele ficou baseado em Trier, que, nesse período, começou a ser embelezada com monumentos dignos de uma capital imperial.

Quando Maximiano chegou para reforçar a defesa do Reno, Constâncio Cloro conseguiu expulsar Alecto do norte da Gália, e, com a ajuda de seu prefeito pretoriano, Asclepiodoto, reuniram duas frotas para a invasão da Grã-Bretanha. A frota comandada por Asclepiodoto desembarcou perto da atual Ilha de Wight e derrotou e executou o rebelde, enquanto Constâncio capturou e ocupou a capital da Britânia, Londinium (atual Londres). A entrada de Constâncio em Londres aparece em um medalhão de ouro que seu filho Constantino, mandou cunhar quando já era imperador, e que foi encontrado em Arras, na França).

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(Aureum mostrando Londinium se rendendo a Constâncio Cloro)

Derrotado Alecto, Constâncio Cloro dedicou-se a reorganizar a província da Britânia e e reparar suas fortificações, incluindo a famosa Muralha de Adriano. Em 298, D.C., contudo, ele já estava na Germânia lutando novamente contra os Alamanos, a quem conseguiu derrotar após ser cercado por eles na cidade de Vindonissa (na atual Suíça).

No ano de 303 D.C., Diocleciano decretou a repressão ao Cristianismo, que pelos cristãos seria chamada de “A Grande Perseguição”. Dos quatro tetrarcas, Constâncio Cloro seria o mais que foi mais brando na execução da política de Diocleciano,  limitando-se a demolir algumas igrejas. Talvez a moderação de Constâncio Cloro tivesse alguma influência de sua relacionamento com Helena, mas pode ser também que Lactâncio tenha tido a intenção de fazer média com o pai de Constantino, o futuro primeiro imperador cristão, abrandando o papel que ele desempenhou.

Porém, em 305 D.C, Diocleciano, doente e cansado aos 60 anos de idade, resolveu se aposentar, abdicando em favor de Galério. Foi a primeira vez, durante mais de três séculos de Império, que um Imperador voluntariamente abdicou do trono. Diocleciano foi viver em seu espetacular palácio-fortaleza na cidade de Salona, em sua terra natal ( a atual cidade de Split, na Croácia). Seguindo, naquela oportunidade, a política traçada por Diocleciano, Maximiano também abdicou voluntariamente em prol de Constâncio Cloro.

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(Palácio de Diocleciano em Split)

Em 1º de maio de 305 D.C., em uma cerimônia militar em Milão, Maximiano proclamou Constâncio Cloro o novo Imperador (Augusto), do Ocidente, que passou a se chamar Imperator Caesar Marcus Flavius Valerius Constantius Herculius Augustus .

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Porém, para a surpresa geral, Maximiano, quando foi anunciar o nome do novo “César” do Ocidente,entregou o seu manto púrpura para Severo, um velho amigo e colega de armas de Galério,  o Imperador Romano do Oriente.

Ocorre que todos pensavam que Maxêncio, filho de Maximiano, e Constantino, filho de Constâncio Cloro, naturalmente seriam os novos Césares…

Embora o sistema da Tetrarquia não exigisse o princípio dinástico, obviamente que os filhos dos Augustos eram os candidatos naturais. E, obviamente, a circunstância de um imperador ter herdeiros naturais adultos, já seguindo a carreira militar, preteridos em favor de outros só poderia ser um fator de instabilidade.

Constâncio Cloro e Constantino logo perceberam que não apenas as ambições, mas a própria vida do segundo estariam ameaçadas na corte de Galério, em Nicomédia. Por isso, Constâncio enviou um pedido formal ao colega Galério pedindo que o filho fosse liberado para lhe ajudar na campanha contra os Pictos, que estavam causando problemas no norte da Britânia.

Consta que Galério, quando recebeu a carta de Constâncio Cloro, estava participando de um banquete e, na presença de Constantino, deu o seu consentimento. Naquela mesma noite, Constantino abandonou o palácio a toda velocidade e partiu para encontrar o pai, antes que Galério mudasse de idéia. Assim, quando o imperador acordou, no dia seguinte, Constantino já estava a léguas de distância da corte.

Constantino se juntou ao pai na costa da Gália e ambos cruzaram o canal para comandar uma expedição militar contra os Pictos. Em 7 de janeiro de 306 D.C., Constâncio Cloro recebeu o título de “Britannicus Maximus“. após algumas vitórias contra os bárbaros.

Porém, antes que a campanha fosse completada, a saúde de Constâncio Cloro piorou e ele teve que se retirar para a cidade de Eburacum (York) para passar o inverno. Sentindo que ia morrer, Constâncio resolveu abandonar as regras da Tetrarquia, mandou reunir as tropas e recomendou o seu filho ao Exército como seu sucessor.

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(Restos da muralha romana de Eboracum, foto de Kaly99

Em 25 de julho de 306 D.C., Constâncio Cloro faleceu, em Eboracum. O primeiro a tomar a iniciativa de aclamar Constantino foi o chefe Alamano Chrocus, um bárbaro a serviço de Roma, que, à maneira dos Germanos, mandou seus homens erguerem Constantino de pé em cima de um escudo.

Galério, apesar de ter ficado enfurecido, premido pelas circunstâncias, reconheceu a aclamação de Constantino, mas conferindo-lhe o posto menor de “César“.

Para suceder o falecido Constâncio Cloro, Galério nomeou o seu velho amigo Severo, que afinal era o César do Ocidente, como Augusto, tornando-o, assim, oficialmente coimperador, ainda durante o verão daquele ano de 306 D.C.

Em uma inusitada consequência da importância do papel de Constâncio Cloro na História e de seus feitos militares na Britânia, a sua figura acabaria sendo também lembrada nas lendas galesas e seu nome mencionado pelos proto-historiadores ingleses medievais.

ADRIANO – ANIMA VAGULA BLANDULA

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NASCIMENTO, ORIGEM FAMILIAR, INFÂNCIA E JUVENTUDE

Em 24 de janeiro de 76 D.C, nascia Publius Aelius Hadrianus (Adriano),  em Roma, ou, segundo algumas fontes, em Itálica, cidade na província romana da Hispania Betica a 9 km da atual Sevilha, que foi fundada por Cipião, o Africano ainda durante a 2ª Guerra Púnica, que ali assentou colonos romanos de origem italiana, entre os quais provavelmente estava a família dos Élios.

O pai de Adriano, Publius Aelius Hadrianus Afer, era um senador romano e primo de Marcus Ulpius Trajanus, seu conterrâneo de Itálica que se tornaria, em 98 D.C, o imperador Trajano (o primeiro imperador nativo de uma província fora da Itália;  já a sua mãe, Domícia Paulina, também vinha de uma família da classe senatorial radicada na Espanha.

Quando Adriano tinha apenas 10 anos de idade, no ano de 86 D.C, os seus pais faleceram e ele ficou sob a tutela de Trajano e de Publius Acilius Attianus, um conterrâneo de seu pai. E aos 14 anos de idade, Adriano, que estava em Itálica, foi chamado para ir morar em Roma por Trajano. Na capital do Império, Adriano recebeu uma esmerada educação, em companhia de outros rapazes da alta aristocracia romana.

Consta que, ainda na infância, chamou a atenção o grande interesse de Adriano pela cultura grega, chegando ele a receber o apelido de”graeculus” (“greguinho”), não se olvidando que esse termo também era, entre os romanos, por vezes usado como uma forma jocosa de chamar alguém de efeminado ou “gay”.

Com cerca de 18 anos, Adriano entrou para o serviço militar na condição de tribuno, mas sem muito destaque. Ele serviu por cerca de três anos em legiões na Mésia, na Dácia e na Germânia.

INGRESSO NA FAMÍLIA IMPERIAL DE TRAJANO E INÍCIO DA CARREIRA PÚBLICA

Em 98 D.C, o imperador Nerva, que, ao assumir o trono, havia adotado Trajano como sucessor faleceu. Adriano, então ao receber a notícia, fez questão de ser o primeiro a comunicar o momentoso fato a Trajano, que estava em campanha, e cavalgando com velocidade espantosa para a época, conseguindo chegar na frente do emissário oficial, motivo pelo qual Trajano ficou muito grato e sua carreira começou a decolar.

Fortalecendo seus laços com a casa imperial, Adriano, em 100 D.C, casou-se com Víbia Sabina, que era filha de Matídia, sobrinha de Trajano, mas que tiha sido criada como se fosse filha do imperador, que, aliás, nunca teve filhos naturais. Este foi um casamento arranjado por Matídia e pela própria imperatriz Plotina, duas mulheres que sempre demonstraram um grande afeto por Adriano. E, com efeito, os estreitos laços emotivos entre Plotina e Adriano ainda favoreceriam muito o jovem no futuro…

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(Busto da Imperatriz Plotina, a protetora de Adriano)

Pouco depois do casamento, Adriano acompanhou Trajano na primeira grande empreitada militar deste imperador: A Primeira Guerra contra a Dácia (101-102 D.C). Contudo, no decorrer desta campanha, Adriano foi dispensado para assumir os cargos de Questor, em 101 D.C, e, posteriormente, de Tribuno da Plebe, em 105 D.C., seguindo os passos da tradicional carreira das magistraturas (cursus honorum) romana.

Na Segunda Guerra contra os Dácios (105-106 D.C), Adriano também integrou a comitiva de Trajano e recebeu o comando da I Legião Minervia. Novamente, Adriano deixou a campanha em seu desenrolar e foi para a Roma assumir o cargo de Pretor, em 106 D.C. Em seguida, ele foi nomeado governador da Panônia Inferior. Não obstante, Adriano recebeu menções honrosas do Imperador pelo seu desempenho na referida segunda campanha na Dácia. Posteriormente, em 108 D.C, Adriano foi nomeado cônsul suffectus (equivalente a cônsul substituto –  um posto somente inferior ao consulado ordinário. Um cônsul suffectus era designado para completar o período do consulado ordinário quando este ficava vago).

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(Relevo da Coluna de Trajano, em Roma, com cena da Guerra contra os Dácios)

Depois do consulado, Adriano integrou os colégios sacerdotais dos setêmviros e dos sodalis augustales, este último um prestigiado ofício religioso encarregado do culto a Augusto.

Nos anos seguintes, que parecem ter sido “sabáticos”, sabemos que Adriano viajou para a sua adorada Grécia, onde estudou com o filósofo estóico Epicteto, na Hélade, como mais um exemplo e reconhecimento do seu amor pela cultura grega, Adriano conseguiu ser eleito cidadão de Atenas e ocupou o cargo de Archon, uma magistratura ateniense, entre 112 e 113 D.C.

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(Arco de Adriano, em Atenas, foto de Carole Raddato)

Nesse ponto, parece estranho que a carreira pública de Adriano tenha ficado em segundo plano em relação à sua viagem existencial pela Grécia. Alguns acreditam que Trajano nunca tenha tido muito entusiasmo pela possibilidade de Adriano tornar-se seu sucessor. Se por um lado, a sucessão de cargos ocupados por ele  (bem como o seu casamento com Sabina) demonstra que Adriano era bem considerado e próximo ao Imperador, por outro é certo que ele ainda não recebera nenhuma distinção inegável para que fosse considerado um herdeiro escolhido, tal como, por exemplo, o Poder Tribunício, a adoção oficial ou, mesmo, a designação para sucessivos consulados ordinários. Poderia-se até cogitar que o fato de Adriano ter ficado tanto tempo em Atenas para se dedicar a estudos filosóficos, quando já tinha mais de 35 anos de idade e sem ocupar nenhum cargo de cúpula, equivaleria à nossa expressão: “ficar na geladeira”…

Porém,  eu entendo que não há dúvidas de que Adriano jamais deixou de gozar da confiança de Trajano, pois, quando, em 114 D.C. este embarcou em sua campanha contra a Pártia, ele integrou a comitiva imperial, e, no decorrer da guerra, foi nomeado governador da importantíssima província da Síria. Esse cargo tornava Adriano virtualmente o comandante militar do Exército Romano no Oriente, pois Trajano, gravemente doente, teve que deixar a campanha e partir para Roma, em 117 D.C.

ASCENSÃO AO TRONO

Assim, foi enquanto era governador da Síria que Adriano recebeu, em Antióquia, a notícia de que Trajano havia falecido, na viagem de retorno à Roma, em Selinos, na Cilícia, ainda na Ásia Menor, em 8 de agosto de 117 D.C, nomeando-lhe como sucessor.

As fontes antigas atribuem a investidura de Adriano à imperatriz Plotina, que, contando também como o auxílio de seu velho tutor Attianus, teriam mantido a morte de Trajano em segredo por alguns dias, aproveitando para forjar os documentos em que Trajano designava Adriano como o herdeiro que deveria sucedê-lo no trono do Império Romano. A História Augusta até menciona que Trajano pretendia nomear o famoso jurista Neratius Priscus como sucessor, mas isso é altamente improvável, até porque, posteriormente, Priscus ocupou importantes cargos durante o reinado de Adriano e foi encarregado de várias reformas legais. Mas, certamente, Priscus teria sido logo eliminado por Adriano, caso a escolha dele por Trajano como sucessor tivesse mesmo ocorrido.

O fato é que Adriano era o parente vivo mais próximo de Trajano e ocupava o importante governo da Síria, o que o colocaria, mesmo na ausência de testamento, como o comandante militar mais poderoso do Império naquele momento. Assim, ainda que Trajano não tenha expressamente designado Adriano como sucessor, essa condição era natural pelas circunstâncias, e não se pode condenar a “interpretação” que, supostamente, Plotina teria dado à vontade do marido falecido…

REINADO

Um dos primeiros atos de Adriano foi livrar-se de quatro importantes senadores, que tinham sido grandes colaboradores de Trajano. As fontes relatam que ele depois sempre se ressentiria dessa “mancha” na sua, em geral, reputação de monarca tolerante e ilustrado. A desagradável tarefa foi executada pelo seu ex-tutor Attianus, que havia sido nomeado Prefeito Pretoriano, ainda por Trajano, em Roma. Adriano sempre colocaria a culpa desses assassinatos políticos em Attianus, alegando que ele mesmo de nada sabia, chegando até a removê-lo do cargo, mas essa alegação não se coaduna com com o fato de, logo após a essa “punição”, Adriano ter nomeado Attianus para o Senado Romano e lhe honrado com os ornamentos consulares…

Entrementes, logo ficou claro que Adriano promoveria uma guinada de 180° em relação à política exterior de Trajano.

Todas as conquistas no Oriente duramente obtidas por Trajano, mas onde já espoucavam revoltas, foram abandonadas, inclusive a província da Mesopotâmia, o que gerou certa insatisfação na opinião pública. Esse sentimento é compreensível, sobretudo porque o domínio romano na Mesopotâmia evocava de certo modo as conquistas de Alexandre, o Grande na Pérsia, mas provavelmente esta decisão de Adriano foi correta, pois dificilmente os romanos conseguiriam mantê-la.

Adriano entendia que o Império devia fortalecer as fronteiras estabelecidas na época de Augusto, com exceção a rica Dácia, que também estabelecia um colchão de segurança para a estratégica fronteira do Danúbio.

O Império, assim, embarcou na construção de uma rede de muralhas, torres fortificadas, quartéis e paliçadas visando assegurar essas fronteiras. O exemplo mais famoso desse programa são as Muralhas de Adriano, na Grã-Bretanha (construída entre 122 e 125 D.C).

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Não obstante, Adriano cuidou para que o Exército Romano fosse cuidadosamente mantido em estado de excelência, seja em equipamentos, disciplina e prontidão, tendo sido extensivamente empregado em projetos de construção e manobras militares constantes.m Com efeito, uma das grandes preocupações de Adriano era o evidente relaxamento da disciplina militar pelo excesso de confortos e luxos nos quartéis, situação que ele combateu.

Já na esfera social, Adriano expandiu o programa dos “Alimenta” (fornecimento gratuito de gêneros alimentícios aos cidadãos pobres de Roma).

O imperador externou que seu propósito era visitar todas as províncias do Império Romano, a fim de verificar pessoalmente as condições dos cidadãos romanos, conhecer os problemas das províncias e fiscalizar a administração regional. E com efeito, Adriano visitou a Gália e o Reno (120-121 D.C), a Bretanha (121-122 D.C), a Espanha (122 D.C), a Ásia (123 D.C), a Grécia (125 D.C), e, após voltar à Roma, a África (128 D.C), novamente a sua amada Grécia (Atenas, 128 D.C), a Cária, Cilícia, Capadócia e Sìria (129 D.C) e o Egito (130 D.C), voltando à Roma em 131 D.C. Essas viagens também demonstrariam a visão do Império Romano como uma comunidade de povos que compartilhavam a civilização helenística, ao invés de ser meramente um território conquistado pelos romanos e governado por Roma para os de origem italiana.

Aliás,foi muito provavelmente durante a estadia de Adriano na Bitínia que ele conheceu o belo adolescente Antinoos, ou Antinous,  que foi enviado para Roma para ser educado como pajem e que se tornaria seu notório amante.

Outra reforma importante implementada por Adriano foi a designação de integrantes da classe equestre para os cargos da burocracia imperial (Seu antecessor, Trajano, dava preferência aos membros da classe senatorial), assegurando-lhes, a partir daí, a promoção para os mais altos cargos da magistratura. Esse passo foi seguido pela profissionalização do Conselho do Imperador (Consilia Princeps), corpo consultivo que passaria a ser integrado por conselheiros pagos e não mais por libertos ou servos domésticos do Imperador.

No campo do Direito, Adriano foi o primeiro a editar um Código de Leis publicado para ser conhecido para todos os cidadãos. Esse Código, elaborado pelo célebre jurtsta Sálvio Juliano, chamado de Édito do Pretor (depois conhecido com Editum Perpetuum), marcou uma profunda alteração no sistema jurídico-legal romano, pois, até então, tradicionalmente, os juízes (pretores) publicavam seus éditos com a sua interpretação jurídica das leis e costumes romanos, que era considerada como uma fonte do Direito. Agora, todos os éditos anteriores ao Editum Perpetuum estavam sendo fixados no Código e, a partir daí, somente o Imperador poderia alterar a legislação mediante a expedição de decretos ou de leis ratificadas pelo Senado. Esta era uma mudança revolucionária: do sistema de direito de precedente judiciário e judge men’s law (direito dos juízes) para o direito codificado ou legislado, que, ainda hoje, marca a divisão entre os sistemas jurídicos existentes no mundo.

Adriano foi também um grande construtor, e os edifícios mais famosos em Roma construídos durante o seu reinado foram: o Templo de Vênus e Roma, o seu próprio Mausoléu ( que ainda existe, na forma do Castelo de Santo Ângelo), e o muito bem preservado Pantheon, no qual, pretendendo demonstrar humildade, Adriano manteve a inscrição ostentada na fachada do prédio antecessor, que havia sido destruído havia tempos, declarando que havia sido construído por Marcus Agrippa. Espetacular também foi a sua Villa, em Tìvoli, que constituía praticamente um grande parque temático sobre o mundo helenístico.

(Pantheon e Templo de Vênus e Roma – este reconstituído por Franck devedjian)

PERSONALIDADE

A personalidade de Adriano era certamente refinada, complexa e contraditória. Ele queria ser visto como, e, tudo indica, se esforçava mesmo para ser,  um monarca esclarecido, humano, tolerante, pio e dedicado ao serviço público, mas era excessivamente vaidoso, de temperamento colérico e emotivo.

Os seguintes casos preservados pelas fontes podem dar uma idéia:

Sabe-se que Adriano publicou leis visando melhorar a condição dos escravos. Contudo, consta que certa vez, irritado com um seu escravo doméstico, Adriano cravou o seu estilete de escrita no olho do infeliz escravo. Logo depois, tomado de remorso, Adriano pediu perdão ao escravo e, visando reparar essa violência, disse que o escravo poderia pedir qualquer coisa que quisesse, que ele, Adriano, lhe daria. Resposta do escravo: “Só quero o meu olho de volta“.

Outra vez, quando viajava, uma mulher abordou a comitiva e quis fazer um pedido, ao que Adriano respondeu: “Não tenho tempo para te ouvir“. A mulher então, ousadamente, replicou: “então, não seja imperador!“. Adriano, envergonhado, parou e ouviu o requerimento da mulher .

Cássio Dião descreve Adriano como sendo um homem agradável de se encontrar e dotado de um certo charme. Segundo a História Augusta, ele tinha muito interesse em poesia e nas letras e era expert em aritmética, geometria e pintura. Adriano sabia tocar bem a flauta e cantar. Porém, ele excedia-se ao satisfazer seus desejos e escreveu muitos versos aos objetos de suas paixões. Adriano também sabia manejar diversas armas.

Ainda, segundo Cássio Dião, Adriano:

“na mesma pessoa, era austero e genial, solene e brincalhão, ativo e preguiçoso, sovina e generoso, dissimulado e direto, cruel e compassivo e, sempre, em todas as coisas, volúvel“.

Certamente, Adriano era muito vaidoso intelectualmente, o que deu margem a algumas estórias sobre a inveja que sentiria de outros homens admirados pelo talento. Consta que até que ele teria mandado matar o arquiteto Apolodoro de Damasco porque este debochara de seus desenhos e desdenhara das suas sugestões para o Pantheon e o Templo de Vênus e Roma. Mas alguns duvidam que essa narrativa seja verdadeira.

Sobre a vida afetiva de Adriano, parece que o casamento com a imperatriz Sabina era de fachada, Ela inclusive teria tido um relacionamento amoroso com o célebre historiador Suetônio. Em todo caso, o casamento imperial não gerou filhos e ela morreu um pouco antes do imperador, em 136 ou 137 D.C.

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(Busto da imperatriz Víbia Sabina)

O relacionamento amoroso mais conhecido de Adriano foi com o belo jovem bitínio Antínoo, natural da cidade de Claudiópolis, que ele deve ter conhecido em 123 D.C, durante a sua viagem pelas províncias da Ásia. O menino deveria ter, então, cerca de 13 anos e foi levado para Roma para ser educado. Sendo ele grande admirador da cultura grega, é provável que a relação íntima de Adriano com o rapaz tenha se desenvolvido como a relação entre as figuras do “eraster” e do “eromenos“, onde um homem adulto assume o papel de mentor educacional de um pupilo,  ocasião em que se admitia, na Grécia, o relacionamento sexual entre eles (pederastia). Considerando que a elite romana, no período, era fortemente influenciada pelo helenismo, provavelmente a relação entre Adriano e Antinoos, naquele momento, não foi considerada escandalosa, ao menos enquanto o rapaz era adolescente.

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Porém, em 130 D.C, durante a viagem de Adriano pelo Egito, quando eles navegavam pelo Nilo, a flotilha imperial parou na cidade de Hermópolis e durante essa parada, Antinoos afogou-se no rio. Consta que Adriano chorou copiosamente a perda do amante. Pouco depois, Adriano conseguiu que os gregos deificassem Antinoos e ordenou que uma cidade no Egito fosse construída no local da morte do amante, batizando-a de Antinoopolis.  Inúmeras estátuas do jovem foram espalhadas pelo Império (muitas ainda existem).

As fontes antigas divergem sobre a causa da morte de Antinoos. As versões variam entre suicídio, assassinato, sacrifício e acidente. Para alguns, o próprio rapaz, percebendo que em breve a relação terminaria devido á sua condição de homem adulto, já que a relação amorosa aberta entre homens adultos livres não era aceita pela sociedade romana, teria se matado. Esse também seria o motivo pelo qual ele poderia ter sido assassinado. Para outros, Antinoos teria sido voluntariamente sacrificado em algum misterioso ritual religioso ou vítima de um acidente. O fato é que as homenagens prestadas pelo imperador a Antinoo foram consideradas excessivas e expuseram Adriano ao ridículo, ao menos segundo nos conta a História Augusta.

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O conflito militar mais importante do reinado de Adriano foi a revolta judaica liderada por Simão Bar-kohba, entre 132 e 136 D.C, que foi implacavelmente reprimida, com a destruição de Jerusalém, a morte estimada de 580 mil judeus e a deportação de grande parte da população judaica , vendida como escrava, episódio chamado pelo povo hebreu de “A Grande Diáspora“. Sobre as ruínas de Jerusalém, Adriano ordenou a construção de uma nova cidade, batizando-a de Élia Capitolina.

MORTE

O final da vida de Adriano foi atormentado por uma grave doença que lhe causou muito sofrimento, ao ponto de seus assessores mais íntimos se preocuparem em evitar que ele tivesse qualquer instrumento potencialmente letal à sua disposição, por medo de que ele se matasse.

Adriano escolheu como sucessor Lucius Ceionus Commodus, em 136 D.C, um senador que era filho de um dos quatro consulares que ele havia executado no início do seu reinado. Porém, Lucius, que adotou o nome de Lucius Aelius Caesar, morreu no início de 138 D.C. Adriano, então, adotou Titus Aurelius Fulvus Boionius Arrius Antoninus (o futuro imperador Antonino Pio), que era casado com Faustina, uma sobrinha da imperatriz Sabina e filha de Marco Ânio Vero, grande amigo de Adriano e membro de uma família conterrânea da Hispânia, como novo herdeiro.

Segundo a História Augusta, em seu leito de morte, Adriano compôs o célebre poema Anima, Vagula, Blandula (Pequena alma terna e flutuante), uma belíssima peça lírica que ilustra a riqueza do espírito do moribundo Imperador:

“Pequena alma terna e flutuante,

hóspede e companheira de meu corpo,

vais descer a lugares pálidos, duros, nús,

onde renunciarás aos jogos de outrora.

Animula,_vagula,_blandula_(13307208213)(Lápide moderna em mármore com o poema de Adriano em latim, colocada no interior do seu Mausoléu, hoje Castello Sant’Angelo, em Roma. Foto: Carole Raddato)

Em 10 de julho de 138 D.C., o coração de Adriano parou de bater em sua villa no tradicional balneário de Baiae. Ele tinha 62 anos de idade e seu reinado durou  21 anos, um dos mais longos da História, então somente superado por seus predecessores Augusto e Tibério. Ele inicialmente foi sepultado em uma villa que havia pertencido a Cícero, e depois seus restos foram trasladados para Roma, onde foram cremados e depositados no seu magnífico Mausoléu de Adriano, juntamente com os de sua esposa Sabina e seu filho adotivo Lúcio Élio, pelo seu sucessor Antonino, que, por ter conseguido convencer o relutante Senado Romano a deificar Adriano, recebeu o cognome de “Pio”.

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F I M

AVITO – A ESPERANÇA DA GÁLIA ROMANA

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(Solidus do imperador Avito, foto de Numismatica Ars Classica NAC AG)

 

Em 9 de julho de 455 D.C, na cidade de Ugernum, na província romana da Gália Lugdunense, o senador galo-romano Marcus Maecilius Flavius Eparchius Avitus (Avito) foi aclamado imperador por uma assembleia de notáveis da aristocracia galo-romana.

Avito, que deve ter nascido por volta de 395 D.C, era membro de uma família ilustre da nobreza galo-romana, classe que, já a partir dos tempos de Júlio César, assimilou profundamente a cultura clássica romana. Vale notar que a Gália era a maior e mais produtiva província da metade ocidental do Império Romano. Apesar disso, o Senado Romano continuou a ser controlado pelas famílias tradicionais da nobreza italiana.

Além de Avito, que nasceu  na cidade de Clermont (atual Clermont-Ferrand), vários outros influentes aristocratas galo-romanos nasceram  na região gaulesa do Auvergne,  tais como o seu genro, o poeta, diplomata e político Sidônio Apolinário e, após a Queda do Império Romano do Ocidente, o historiador Gregório de Tours.

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(Panorama da atual Clermont-Ferrand)

Após a derrota na Batalha de Adrianópolis, em 378 D.C., para os invasores Godos, e o profundo enfraquecimento militar romano que se seguiu, a Gália, que já tinha sido a principal vítima das invasões germânicas durante a crise de meados do século III D.C, passou a ser o alvo principal da nova onda de incursões bárbaras, que culminou com a grande invasão dos Vândalos, Alanos e Suevos no inverno de 406 D.C, que atravessaram o Reno e, após devastar a referida província, alojaram-se na vizinha Hispânia. Para piorar, após o saque de Roma, em 410 D.C, os Godos também escolheram a rica Gália como presa.

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Consequentemente, o Imperador Honório, em 418 D.C, visando apaziguar a ameaça mais premente representada pelos Godos, acabou assinando com eles um tratado em que reconhecia aos bárbaros a condição de “foederati” (povo aliado governado por seus próprios chefes), concedendo-lhes o direito de se assentarem na Gália Aquitânia, em um arranjo que, ainda que precariamente, funcionou por algum tempo.

Observe-se que, ainda durante as invasões dos Alamanos, na chamada Crise do Século III D.C, a insegurança dos galo-romanos levou-os a apoiar os usurpadores Póstumo e Tétrico, que chegaram a governar durante alguns anos a Gália, a Hispânia e a Britânia como integrantes do chamado “Império Gálico” (ou “Império das Gálias“), que durou, no total, de 260 a 274 D.C.

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Com a recuperação econômica e militar do Império Romano, a partir do reinado de Diocleciano, a Prefeitura da Gália foi criada, na reestruturação administrativa do Império continuada por Constantino, e compreendia, além da Gália e dos territórios que tinham sido controlados pelo malfadado Império Gálico, a Germânia e parte da África, ficando subordinada ao Imperador do Ocidente.

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Em algum momento entre o final do século IV e o início do século V, provavelmente em função das demandas da aristocracia galo-romana, notadamente no que tange ao agravamento da segurança da fronteira, estabeleceu-se uma “Assembleia” da Gália (“Concilium Septem Provinciarum“),  com periodicidade anual, que era integrada pelos membros da aristocracia senatorial galo-romana. O Prefeito Pretoriano Julius Agricola, que, acredita-se, era parente, ou, até mesmo, o próprio pai de Avito, presidiu esta “Assembleia dos Gauleses“, em 418 D.C.

Sabe-se que Avito, como se esperava de um jovem de sua estirpe, estudou Direito Romano, tendo provavelmente destacando-se como advogado, pois, pouco antes de 421 D.C, ele foi enviado pelos seus compatriotas para apresentar uma petição ao general Flávio Constâncio (o futuro imperador Constâncio III) na Itália,  solicitando uma redução de impostos para a sua Província natal. Avito foi bem sucedido, obtendo a redução pedida (nota: Flávio Constâncio era o homem forte durante o reinado do Imperador do Ocidente, Honório, e pouco  tempo antes da viagem de Avito, o general tinha estado na Gália para negociar o Tratado com os Visigodos, onde havia obtido também a libertação de Galla Placidia, irmã do Imperador, que depois disso, casou-se com ele).

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(Moeda de Constâncio III)

Enquanto isso, após a súbita morte de Constâncio III, o poder passou a ser exercido pela Imperatriz Galla Placidia, em nome de seu filho Valentiniano III, ocasião em que o general Flávio Aécio alcançou o o posto de Comandante Militar da Gália.

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Por volta de 425 D.C., Avito foi para a cidade de Tolosa (atual Toulouse), então capital do Reino dos Visigodos na Aquitânia, tentar negociar a libertação de seu parente Theodorus junto ao rei Teodorico I. No tempo em que passou entre os Visigodos, Avito fez vários contatos, chegando até a frequentar o círculo mais íntimo da corte de Teodorico.

Alguns anos depois, ocorreu um novo grande revés para os romanos : a travessia dos Vândalos para a África do Norte, em 429 D.C. Após prolongada guerra, os bárbaros conseguiram conquistar a grande cidade romana de Cartago, em 439 D.C., e se apropriar da parte mais rica e próspera da Província da África. Isso representou uma perda considerável de receita para o Imperador do Ocidente, além da perspectiva da interrupção do vital suprimento de trigo para a cidade de Roma, e, certamente, o encarecimento daquele produto, já que, como bem observa J.Bury:

“o que antes era enviado como tributo, agora era produto de exportação”.

Aécio, a quem a História concederia o título de “O Último dos Romanos“, tornou-se, em 432 D.C., Comandante-em-chefe do Exército Romano do Ocidente e foi, entre 433 e 451 D.C., o homem mais poderoso do Império. Um fator importante para a ascensão de Aécio foi a rede de contatos que ele estabeleceu com os Hunos, após ter vivido entre eles como refém. Os Hunos naquele momento eram a força militar mais poderosa da Europa.

A estratégia militar seguida por Aécio visava proteger preferencialmente a Gália, a maior e mais rica província do Ocidente, já bem devastada pelas invasões bárbaras. Ele, de fato, conseguiu derrotar os Burgúndios e conter os chamados Bagaudas, na Gália (Acredita-se que os Bagaudas eram habitantes da própria província que, fartos de serem atacados pelos bárbaros e também do pagamento dos impostos, formaram bandos criminosos que controlavam áreas fora-da-lei).

Após uma série de derrotas e vitórias contra os Visigodos,  Aécio conseguiu firmar com eles um novo tratado delimitando a área que seria destinada aos Germânicos. Com efeito, sem ter tropas suficientes para subjugar todos os bárbaros, Aécio passou a se valer da tática de usar as tribos bárbaras que tivessem sido derrotadas ou apaziguadas e assentá-las  para conter as outras que fossem julgadas mais perigosas para Roma.

Sabemos que Avito exerceu diversos postos militares sob o comando de Aécio, culminando com sua nomeação para um importante cargo de comando, provavelmente o de “Magister Militum per Gallias”, em 437 D.C.

Avito, vale mencionar, teve participação decisiva na renegociação do Tratado de Amizade com os Visigodos  que Aécio pretendeu fazer. Em 439 D.C., já na condição de Prefeito Pretoriano da Gália, foi ele quem viajou a Toulouse para encontrar-se com Teodorico, Lá, ele conheceu o filho do rei, o futuro rei Teodorico II, e chegou a incentivar o jovem a estudar os poetas latinos.

Depois desse relevante serviço público, Avito retirou-se para a vida privada, retornando para sua grande propriedade de Avitacum, nas cercanias de Clermont. Muito provavelmente, em Avitacum, Avito deve ter gozado as delícias da vida de um aristocrata romano em sua adorada villa, que foi tão bem descrita por seu genro Sidônio Apolinário em suas cartas. Sidônio era casado com Papianilla, filha de Avito, que, inclusive, foi quem herdou a propriedade após a morte do pai. É muito conhecida a carta de Sidônio em que ele descreve para um amigo a enorme propriedade, enfatizando a excelência de suas termas privadas e as belezas do lago – vide: http://www.tertullian.org/fathers/sidonius_letters_02book2.ht)

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(Avitacum, a villa de Avito, tinha vista para o Lago Aydat, in Puy-de-Dome, próximo a Clermont)

Porém, em 451 D.C, uma ameaça ainda maior do que a dos Visigodos e das outras tribos germânicas pairou sobre a Gália: Átila, que tinha se tornado rei dos Hunos em 435 D.C, resolveu atacar o Império do Ocidente…O irresistível avanço da horda huna rapidamente tomou Metz, Reims, Mogúncia, Estrasburgo, Colônia, Worms e Trier, que foram impiedosamente saqueadas e incendiadas.

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Obrigado a sair do seu retiro dourado, Avito, valendo-se de seus contatos com Teodorico, colaborou na vital aliança entre os Romanos e os Visigodos, que incluiu também os Alanos, Francos e outros bárbaros, em menor escala. Na Batalha de Châlons, ainda em 451 D.C. as tropas combinadas dos aliados, lideradas por Aécio e Teodorico conseguiram derrotar os Hunos, que foram obrigados a se retirar. Teodorico, porém, foi morto durante a batalha e os Godos voltaram para a Aquitânia. Assim, Teodorico foi inicialmente sucedido por seu filho Torismundo, que era hostil aos romanos e pretendia quebrar o Tratado de Paz anteriormente assinado pelo pai.

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Átila, recuperado da derrota em Châlons, no ano seguinte invadiu a Itália, que foi devastada. Valentiniano III e a Corte se protegeram atrás dos pântanos de Ravenna. Aécio, sem tropas romanas suficientes para oferecer batalha campal, adotou uma estratégia de atrasar o avanço huno, evitando confrontos diretos. As fontes não dizem se as táticas de Aécio tiveram algum resultado, mas o fato é que, após receber uma delegação romana integrada pelo Papa Leão I, Átila resolveu dar meia-volta e abandonar a Itália. Muitos historiadores acreditam que essa decisão de Atila deveu-se a existência de uma grave epidemia de peste na Itália.

O prestígio de Aécio, porém, ficou abalado com a devastação causada pelos Hunos na Itália. Os senadores italianos ressentiam-se do fato de que a Gália tinha sido poupada, em função do sucesso da estratégia de Aécio no ano anterior.

Seguiram-se intrigas palacianas que incentivaram o Imperador Valentiniano III a tomar a iniciativa de, pessoalmente, matar o velho general. Porém, pouco depois da morte de Aécio,  seus antigos guarda-costas resolveram vingar a morte do chefe e, por sua vez, em 455 D.C, dois dele assassinaram Valentiniano III, segundo consta, instigados pelo ambicioso senador Petrônio Máximo.

Com a morte de Aécio, boa parte das forças recrutadas por ele, basicamente mercenários bárbaros, dispersaram-se. Os inimigos de Roma, que tinham aprendido a respeitar Aécio, tais como os Visigodos, Francos e Alamano,  sentiram-se estimulados a atacar o que restava do Império.

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Assim, foi provavelmente a falta de tropas para a defesa da Gália, e o renovado medo da ameaça bárbara, que fez o imperador Petrônio Máximo, o ambicioso sucessor de Valentiniano III, chamar Avito de volta à ativa, nomeando-lhe “Magister Militum Praesentalis” e enviá-lo em uma embaixada à Teodorico II, que  havia se tornado o rei visigodo após o assassinar o irmão Torismundo, tendo em vista a proximidade que Avito tinha com o novo rei.

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(Solidus de Petrônio Máximo)

Quando Avito estava na Corte de Teodorico II, em Toulouse, chegou a notícia de que Petrônio Máximo havia sido linchado, em 31 de maio de 455 D.C., por uma turba revoltada com sua tentativa de fugir de Roma, decorrente da invasão da Itália pelos Vândalos do rei Geiserico. O pretexto para a invasão era o fato de Eudocia, filha de Valentiniano III, que, desde a infância tinha sido prometida ao herdeiro do trono vândalo,  Hunerico,  tinha se casado com o filho de Petrônio.

O Saque de Roma pelos Vândalos durou de 02 a 16 de junho de 455 D.C. Eles levaram para Cartago tudo o que puderam, incluindo as telhas de bronze dourado do Templo de Júpiter Capitolino, e até mesmo o candelabro de ouro do Templo de Jerusalém, que, por sua vez, tinha sido levado para Roma pelo imperador Tito, quase 400 anos antes. Junto com os tesouros, os Vândalos levaram para Cartago a imperatriz Licínia Eudóxia, que tinha sido a viúva de Valentiniano III e, agora, era a de Petrônio Máximo e, obviamente, também a filha dela, Eudocia.

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Ao tomar conhecimento da morte de Petrônio Máximo, Teodorico II tomou a iniciativa de aclamar Avito como novo Imperador Romano, pois certamente, era do interesse dos Visigodos ter no trono um romano que sempre lhes parecera confiável e simpático.

Desse modo, foi graças ao apoio dos Visigodos que Avito foi aclamado Imperador Romano do Ocidente, em Ugernium (atual Beaucaire), localidade nas proximidades de Arelate (atual Arles), por uma assembleia de senadores galo-romanos e também pelos soldados presentes (provavelmente remanescentes das tropas de “limitanei” ou guarda fronteiriça da Gália), em 9 de julho de 455 D.C, valendo notar que uma fonte relata a presença de Teodorico II no evento. Também é interessante observar que,  segundo um relato, na cerimônia, Avito, além das insígnias imperiais e de uma coroa, ostentava um “torque“, que era uma espécie de colar de ouro, em formato trançado, que costumava ser usado pelos antigos gauleses e pelas tribos celtas em geral, o que, na opinião de muitos, denota um componente nativista, senão patriótico, na coroação de Avito como sendo um imperador nascido na Gália.

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(vista de Beaucaire, antiga Ugernum, onde Avito foi aclamado imperador)

Antes de chegar à Roma, em 21 de setembro de 455 D.C., ocasião em que estava acompanhado do genro Sidônio Apolinário, Avito foi oficialmente reconhecido pelo Senado Romano como Imperador,  o que, segundo uma fonte, ocorreu em 5 de agosto daquele ano. O fato de nenhum pretendente italiano ao trono ter surgido indica que, provavelmente, o Senado Romano entendia que ninguém possuía no momento melhores credenciais do que Avito para assumir a Púrpura Imperial.

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(solidus de Avito, foto de Classical Numismatic Group(

Certamente Avito, nos dois meses que decorreram entre a sua aclamação na Gália, e a sua entrada em Roma, deve ter recebido um reforço de tropas visigodas, que vieram se juntar a outras tropas que ele conseguiu reunir na Gália. No caminho, parece que Avito, aproveitando o fato de que ninguém controlava a região do Danúbio vizinha à Itália, devido ao recente falecimento de Átila e a derrota dos Hunos para seus antigos vassalos germânicos, conseguiu temporariamente restaurar algum grau de autoridade romana na região.

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Em Ravenna, Avito nomeou o Visigodo Remistus como “Magister Militum“, cargo anteriormente ocupado por Aécio e que desde a morte dele estava vago. Remistus foi o primeiro bárbaro sem qualquer gota de sangue romano a ser nomeado para o posto.

A primeira medida de Avito em Roma foi tentar obter o reconhecimento de seu imperial colega, o Imperador Romano do Oriente, Marciano. As fontes são dúbias sobre se Avito obteve ou não a chancela de Marciano. Um indício de que não houve um reconhecimento é o fato de que, em 456 D.C, Avito exerceu o consulado sozinho (Normalmente, o Imperador de cada metade do Império nomeava um Cônsul, do total de dois que, desde o inicio da República Romana, em 509 A.C, serviam a cada ano), sendo que, para o ano em questão, Marciano nomeou os dois Cônsules, Johannes e Varanes, demonstrando não reconhecer o consulado “sine collega” (sem colega) de Avito.

Era vital para a viabilidade do reinado de Avito, ainda, obter a simpatia do Senado Romano e das tropas italianas; porém, neste particular, muitos consideram que Avito cometeu um grave erro: Ele preferiu nomear para os cargos mais altos apenas os seus conterrâneos galo-romanos.  E ignorar o bairrismo da aristocracia italiana que, desde ainda os tempos de Júlio César, sempre demonstrou acreditar ter direito manifesto a ocupara os cargos mais importantes e sempre se julgou credora das maiores honrarias. Portanto, essa foi, no mínimo, uma decisão imprudente…

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(Os senadores nunca deixaram de ter influência,  e, no final do Império, quando o poder imperial se enfraqueceu, a classe senatorial até recuperou parte do protagonismo nos destinos do Império)

Com efeito, os senadores romanos da Itália podiam não ter, diretamente, nenhum poder militar, mas eram, como já demonstrou A.H.M. Jones, incomensuravelmente ricos, muito mais abastados do que os galo-romanos, ou que os seus colegas orientais, em Constantinopla, onde, aliás, eles continuavam a ter muitos contatos, quando não parentes. O Senado Romano tinha meios para aliciar generais ambiciosos e se aproveitar de quaisquer insatisfações com a política do Imperador e, assim, urdir conspirações para derrubar os monarcas que fossem seus desafetos.

Durante o reinado de Avito, o exército da Itália era controlado por dois generais: Majoriano, um romano de família originária da Ilíria, o tradicional esteio militar de Roma durante o Baixo Império Romano; e Ricimer, que era um guerreiro germânico de estirpe nobre, pois era filho de Rechila, rei dos Suevos, e neto de Wallia, que tinha sido rei dos Visigodos. Após a morte de Wallia, Ricimer teve que deixar a corte, e ele foi se asilar em Roma, onde passou a servir o exército e foi, ainda que parcialmente, “romanizado”.

Enquanto isso, na Lusitânia, os Suevos estavam fazendo incursões nas terras ainda controladas por Roma. Para lidar com essa agressão, Avitus acionou seu amigo Teodorico II, que, agindo nominalmente em nome do Imperador Romano do Ocidente, combateu os Suevos e  conseguiu matar o rei deles, Rechila, em Portocale (atual cidade do Porto).

Militarmente, porém, o problema mais grave era a ameaça dos Vândalos, que, desrespeitando o Tratado de 442 D.C, avançavam sobre o diminuído território romano que restava na África. Avito enviou uma embaixada ao rei Geiserico, advertindo para que este se mantivesse fiel ao Tratado, sob pena de sofrer retaliação militar, uma ameaça que, dificilmente , o imperador romano poderia fazer valer…

Os Vândalos, obviamente, não se intimidaram e, afrontando a advertência romana, ainda submeteram a Sicília a uma onda de ataques; porém, o general Ricimer obteve uma vitória naval próximo à Ilha da Córsega, estancando momentaneamente a agressão.

A QUEDA DE AVITO

A retaliação vândala ao ultimato de Avito provavelmente veio também na forma da interrupção do suprimento de grãos da África, já que, antes mesmo da vitória na Córsega, a população começou a protestar contra a ameaça premente da fome (note-se que, ainda naquele tempo, talvez mais de 100 mil habitantes de Roma dependiam, para comer, do suprimento de trigo gratuito provido pela instituição da “anonna).

Premido pelos protestos, Avito acabou tendo que dispensar seus soldados godos, além de seus aliados galo-romanos, para que estes não sobrecarregassem os já escassos estoques de alimentos. Mais importante, a situação acabou por exaurir completamente as já bem desfalcadas finanças do Estado.

Sem ter dinheiro para pagar as tropas godas pelos relevantes serviços prestados à sua causa, Avito resolveu mandar retirar muitas das várias estátuas de bronze que adornavam os logradouros públicos, as quais eram um dos orgulhos dos romanos, e as vendeu para negociantes de metais, visando obter os recursos necessários para fazer face às despesas mais prementes.

A população se revoltou com a situação e Majoriano e Ricimer, encorajados pela retirada dos Godos de Avito, apoiaram os protestos. Avito, percebendo o perigo que sua posição e a sua própria vida corriam, fugiu de Roma em direção à Arles, capital de sua fiel Gàlia, onde certamente julgava poder encontrar suporte e reagrupar suas forças. Nesse meio tempo, antes ou depois de Avito ter alcançado Arles, se é que ele conseguiu mesmo sair da Itália, Remistus, o seu Magister Militum, foi derrotado e morto em Ravenna, em 17 de setembro de 456 D.C.

Nesse ponto, as fontes variam: uma chega a relatar que Avito de fato conseguiu chegar à Arles, de onde ele até conseguiu enviar um pedido de ajuda a Teodorico II, e depois ele teria voltado para a Itália, onde ele foi cercado e derrotado nas cercanias de Piacenza. Porém, ao invés de ser executado, como era costumeiro,  Avito teria sido obrigado a se ordenar Bispo da cidade, em 17 de outubro de 456 D.C. (numa prática que, posteriormente, se tornaria comum nos conflitos subsequentes até durante a Idade Média). Segundo Gregório de Tours, após ser Avito ordenado Bispo de Piacenza, ao saber que o Senado tencionava mandar executá-lo, ele fez uma viagem até o túmulo de São Juliano, na cidade de Brioude, em sua nativa Auvergne, levando oferendas, mas acabou morrendo no caminho, terminando por ser enterrado aos pés do relicário do referido mártir cristão, na Basílica de Saint Julien, na referida cidade.

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Tudo indica que Avito tenha de fato sido forçado a abdicar em Piacenza por Majoriano e Ricimer, tendo ele sido poupado como um gesto de boa vontade para com a aristocracia galo-romana. Acredito que a informação de que Avito foi nomeado bispo da cidade é verdadeira, pois esse fato seria facilmente verificável  nos registros da Igreja, pelos contemporâneos das fontes que assim relataram.

Gregório de Tours é bem específico sobre o fato de Avito ter morrido no caminho para Brioude, onde, certamente, ele deveria ter muitos partidários, como em toda a Auvergne, e Gregório, inclusive, relata onde o finado imperador foi enterrado. Porém, ao invés de uma peregrinação ao túmulo de Saint Julien, como o famoso historiador da Gália do século VI escreveu, eu acredito que o mais provável é que o objetivo da viagem de Avito tenha sido se refugiar em sua terra natal e, provavelmente, buscar apoio para recuperar o trono, e a citada peregrinação seria apenas um pretexto.

Inclusive, Sidônio Apolinário relata a existência de uma conspiração na Gália, chamada de Marcellana, da qual pouco se sabe, mas que pode ter tido o intuito de restaurar Avito no trono. Porém, na viagem para a Auvergne, Avito deve ter sido alcançado pelas tropas de Majoriano, o sucessor de Avito no posto de Imperador, e de Ricimer, o novo “Magister Militum” e eminência parda do Império pelas próximas duas décadas. Em 457 D.C, em data desconhecida, Avito deve ter sido executado e sepultado no local mencionado por Gregório de Tours.

A Igreja original de Saint Julien em Brioude onde Avito teria sido enterrado não existe mais. O rei visigodo Eurico construiu um basílica no local, por volta de 480 D.C. Esta, por sua vez, foi substituída por uma bela catedral em estilo românico, entre 1060 e 1180 e que ainda existe, onde estão as relíquias de São Juliano. Não há notícia acerca do túmulo de Avito.

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CONCLUSÃO

Com o fim do reinado de Avito falhou a última estratégia coerente que o Império Romano do Ocidente tentou implementar: A aliança com os Visigodos poderia ter preservado, ainda que não integralmente, uma Gália romana, que, junto com a Itália, poderia ter constituído o núcleo de um Império Romano viável no Ocidente. É fato que faltou sensibilidade a Avito para seduzira aristocracia senatorial italiana para esse projeto e, para piorar as coisas, o favorecimento dos seus conterrâneos gauleses para a nomeação dos cargos teve o efeito contrário..

Mas, no final, o egoísmo e cegueira dos senadores italianos foram mais relevantes para a catástrofe. Eles sabotaram quase todos os bons comandantes do Exército do Ocidente, como Estílico e Aécio, não cooperaram com Constantinopla quando mais deviam tê-lo feito e, ao contrário de seus colegas galo-romanos, jamais se empenharam diretamente na defesa do Império.

No crepúsculo final do Império, foram os galo-romanos os últimos romanos a se renderem, protagonizando uma resistência heroica aos bárbaros. O filho de Avito, Eccidius Avitus combateu os novamente hostis Visigodos até o fim, chegando a, inclusive, levantar um cerco à Clermont comandando apenas 18 cavaleiros, por volta de 474 D.C.

Segundo Thomas Hodgkin, Avito

“foi a pedra fundamental de uma grande e importante combinação política, uma combinação que, tivesse ela durado, certamente teria mudado a face da Europa e poderia ter antecipado o Império de Carlos Magno, favorecendo uma nação mais nobre do que a dos Francos, e sem a interposição de três séculos de barbarismo”.

Em nosso próximo artigo, falaremos dos possíveis laços sanguíneos entre a atual nobreza europeia e os senadores galo-romanos, incluindo a família de Avito.

 

NERO

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Nascimento e infância 

Em 15 de dezembro de 37 D.C., nasceu, em Anzio, Itália, Lucius Domitius Ahenobarbus (II), que passaria a História com o nome de Nero, filho de Gnaeus Domitius Ahenobarbus e de Agripina Minor (Agripina, a Jovem).

A gens dos Domícios (Domitii), que nos primórdios da República era plebeia, atingiu, ainda durante a fase de expansão de Roma pela península itálica, uma grande proeminência política, ocupando  a magistratura do Consulado e fornecendo ao Estado destacados generais.

Já no final do período republicano, o ramo da gens Domitia dos Ahenobarbus (literalmente,  os “barbas ruivas”) apoiou a facção senatorial dos Optimates (nobres) contra Júlio César. E, após o assassinato do Ditador, durante o Segundo Triunvirato, eles estiveram associados com o triúnviro Marco Antônio.

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(Busto colorizado de Nero, mostrando os cabelos e a barba ruiva, característica da família dos Ahenobarbus)

Apesar de ter apoiado Marco Antônio, a família acabaria ingressando no círculo familiar do grande rival dele na disputa pelo poder supremo – Otaviano (o futuro imperador Augusto), uma vez que o bisavô de Nero, que também se chamava Lucius Domitius Ahenobarbus (I), casou-se com  Antonia Major (Antônia, a Velha) que era filha de Antônio e Otávia,  a irmã de Otaviano.

Os laços com a dinastia imperial dos Júlios-Cláudios (nome que deriva do fato de Augusto, sobrinho-neto e herdeiro de Júlio César, ter adotado como sucessor o filho de sua terceira esposa, Lívia Drusila, Tibério Cláudio Nero) foram reforçados quando Gnaeus Domitius Ahenobarbus, o pai de Nero, casou-se com Agripina, a Jovem, que era irmã do futuro Imperador Calígula, em um casamento arranjado pelo próprio tio deste, o Imperador Tibério).

Agripina, a Jovem, por sua vez, era neta de Augusto (a mãe dela, Agripina, a Velha, era filha de Júlia, a filha única de Augusto com sua segunda esposa Escribônia). Portanto, Nero era descendente direto do primeiro imperador, por parte de mãe, e também era parente de Augusto, por parte de seu pai, Gnaeus Domitius Ahenobarbus.

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Todavia, a despeito de possuir tão ilustre ascendência, a princípio não parecia que o destino de Nero prometia muito. Com efeito, o seu pai, que tinha sido Cônsul em 32 D.C.,  foi acusado de traição, assassinato e adultério no final reinado de Tibério e ele somente se safou graças à morte do velho imperador, em 37 D.C., alguns meses antes do nascimento do próprio Nero. Todavia, Gnaeus Domitius Ahenobarbus acabaria morrendo poucos anos depois, de um edema, em janeiro de 40 ou 41 D.C.

O historiador romano Suetônio escreveu que Gnaeus Domitius Ahenobarbus era um homem cruel e desonesto. Talvez por isso, ao receber os cumprimentos dos amigos pelo nascimento de Nero, o historiador registra que ele teria dito:

“Nada que não seja abominável e uma desgraça pública pode nascer de Agripina e de mim”

A sorte de Agripina, a mãe de Nero, não foi melhor no período. Embora ela fosse irmã do novo imperador, Gaius Julius Caesar Germanicus, mais conhecido como Calígula, (ambos eram filhos de Germânico, o falecido sobrinho e herdeiro de Tibério, adorado pelo povo e supostamente envenenado a mando de Lívia, viúva de Augusto e mãe de Tibério), este logo entrou em um processo de paranoia e loucura que o levou a suspeitar e perseguir de quase todos, inclusive os integrantes de seu círculo mais íntimo.

Assim, em 39 D.C., Agripina foi acusada de fazer parte de uma conspiração, fictícia ou verdadeira, contra o seu irmão, sendo condenada ao exílio nas ilhas Ponzianas, ao largo da Itália. Então, Calígula aproveitou esse pretexto para confiscar a herança do seu jovem sobrinho Nero.

Nero, portanto, no espaço de dois anos, quando ainda era uma criança de tenra idade, além de ter sido afastado do convívio com a mãe, exilada, teve a sua herança confiscada e também perdeu o pai. Ele foi então morar com sua tia, Domícia Lépida, que era irmã de seu pai.

Reabilitação de Agripina e Nero

Todavia, a sorte de Agripina e Nero mudaria com o assassinato de Calígula pelo centurião Cássio Queréa, em 41 D.C., em uma conspiração engendrada pela Guarda Pretoriana. Logo após o tiranicídio, os guardas descobriram, escondido atrás de uma cortina, o tio da imperial vítima, Cláudio, até então tido como imbecil e incapaz de ocupar qualquer cargo público, e o aclamaram como novo Imperador.

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Cláudio era irmão de Germânico e, portanto, não surpreende que uma das primeiras medidas de Cláudio tenha sido chamar de volta do exílio a filha deste, Agripina, que era sua sobrinha. Assim reuniram-se, novamente, Nero e sua mãe. O novo imperador mandou também devolver ao seu sobrinho-neto, Nero, a herança confiscada por Calígula.

Ao contrário das expectativas, Cláudio mostrou-se um administrador competente das questões de Estado. Todavia, o mesmo não se pode dizer quanto à sua vida conjugal… Após dois casamentos fracassados, Cláudio casou-se com Valéria Messalina (filha de Domícia Lépida), esposa que se mostrou dominadora e notabilizou-se pela infidelidade e promiscuidade sexual, segundo os relatos antigos, que talvez sejam um tanto exagerados (ver Tácito, Suetônio, Plínio e Juvenal).

O fato importante é que Messalina deu a Cláudio, em 41 D.C., um filho, que recebeu o nome de Britânico, e a nova imperatriz imediatamente percebeu que o jovem Nero era uma ameaça às pretensões do seu filho natural ao trono. Consta, inclusive, que Messalina, certa vez, teria encomendado a morte de Nero a assassinos que chegaram a entrar no quarto do menino, e somente não completaram a tarefa porque se assustaram com o que eles pensaram ser uma cobra.

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(Messalina segurando Britânico, estátua no Museu do Louvre, foto de Ricardo André Frantz)

A grande popularidade de Agripina e Nero foi atestada quando, durante os concorridos Jogos Seculares, em 47 D.C., eles foram ovacionados pelo povo, que demonstrou por eles muito mais simpatia do que em relação a Messalina e Britânico, que também estavam presentes no evento.

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(Estátua de Nero criança, foto de Prioryman )

Se a conduta pretensamente escandalosa de Messalina foi ou não a causa da sua desgraça, o fato é que ela foi sentenciada à morte em 49 D.C., supostamente por ter se casado secretamente com um senador, Gaius Silius, no que seria uma conspiração para assassinar o seu marido e imperador. Há relatos de que, ainda assim, Cláudio teria relutado em ordenar a execução dela, que somente teria sido levada a cabo por iniciativa de seus auxiliares.

Agripina, imperatriz

Naquele mesmo ano de 49 D.C., Cláudio casaria com sua sobrinha, Agripina, a Jovem. Este pode muito bem ter sido um casamento político, já que nenhuma mulher, naquele momento, tinha linhagem mais ilustre. Há, contudo, quem acredite que Agripina, valendo-se da intimidade familiar que a condição de jovem e bonita sobrinha lhe propiciava, tenha astuciosamente seduzido o seu velho tio.

Em verdade, para os romanos, o casamento de Cláudio e Agripina tinha um caráter incestuoso, já que o casamento de tio e sobrinha era quase tão inaceitável como o de um pai com a filha.

Portanto, o custo político dessa união deve ter sido considerável e é possível que somente o fato de Cláudio ter sido seduzido explique ele ter descartado as consequências políticas negativas de mais esse escândalo em sua vida conjugal. O passado do velho imperador nos inclina para essa última hipótese, pois houve episódios anteriores nos quais ele parece ter sido emocionalmente manipulado por mulheres dominadoras…

Seja como for, o fato é que Agripina não titubeou em tratar de se tornar a pessoa mais poderosa na corte imperial, afastando aqueles que não lhe parecessem leais e, sobretudo, os concorrentes de seu filho Nero à sucessão de Cláudio.

Ainda em 49 D.C., a imperatriz Agripina recebeu o título de “Augusta“, sendo esta a primeira vez que esse título era conferido a uma mulher em vida (as suas duas antecessoras, Lívia e Antônia, o receberam como honra fúnebre). Neste mesmo ano, Cláudio batizou em sua homenagem uma cidade recém-fundada na Germânia, que recebeu o nome de Colonia Claudia Ara Agrippinensis ( a atual Colônia, na Alemanha – Agripina nasceu ali, quando o local ainda era um quartel militar comandado por seu pai, Germânico).  Vale citar que nunca, antes ou depois  na História de Roma, uma cidade romana foi batizada em homenagem a uma mulher.

Nero, herdeiro do trono

Em 50 D.C., Lucius Domitius Ahenobarbus (Nero) foi adotado por Cláudio, tornando-se oficialmente seu herdeiro, passando a se chamar Nero Claudius Caesar Drusus Germanicus. No ano seguinte, Nero, então com 14 anos, foi declarado maior de idade (assumindo a “toga virilis”), foi nomeado Proconsul e entrou para o Senado. A partir daí, ele começou a participar das cerimônias públicas junto com o Imperador, e até moedas foram cunhadas com a efígie de ambos.

Antecipando a necessidade futura de Nero contar com o apoio da Guarda Pretoriana para alcançar o trono, Agripina persuadiu Cláudio a nomear o militar Sextus Afranius Burrus (Burro) como único Prefeito Pretoriano (Comandante), no lugar de Lusius Geta e Rufius Crispinus.

Agripina supervisionava cuidadosamente a preparação de Nero para a futura ascensão ao trono imperial,  designando, por exemplo, o afamado filósofo estoico Sêneca, o Jovem para ser o tutor do rapaz. Ela também não poupou esforços para fazer o filho querido pelo populacho. Além disso tudo, Agripina manobrou para que Cláudia Otávia, a filha de Cláudio e irmã de Britânico, e Nero se casassem, em 9 de junho de 53 D.C.

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(Cláudia Otávia, primeira esposa de Nero)

A adoção de Nero por Cláudio é um episódio que suscita muita discussão entre os historiadores, já que Cláudio tinha um filho natural do sexo masculino, Britânico, que era apenas quatro anos mais novo do que Nero.  E não há nada que indique, fora, obviamente, esse fato, que Cláudio não nutrisse pelo rapaz o amor paternal.

Seja como for, as fontes relatam que, à medida que Britânico ia chegando à idade de assumir a “toga virilis”, Cláudio começou a dar seguidas demonstrações de afeto pelo filho natural. Segundo os historiadores Tácito, Suetônio e Cássio Dião, Cláudio somente estaria esperando a maioridade do filho natural para nomeá-lo como seu novo herdeiro, e ele teria declarado isso na presença de outros, sendo esse o fato que levou Agripina a tramar a sua morte.

Cláudio morreu em 13 de outubro de 54 D.C., aos 63 anos – uma idade avançada para a época – no que pareceu ser uma indisposição gástrica após ele ter comido um prato de cogumelos, o qual lhe ocasionou vômitos. As fontes antigas dão crédito a versão de que aqueles cogumelos, comida muito apreciada por Cláudio, teriam sido envenenados, por uma poção preparada pela famosa envenenadora Locusta, que tinha sido contratada por Agripina. O motivo para o assassinato era óbvio: impedir que Britânico fosse nomeado herdeiro pelo pai.

Imperador Nero – primeiros anos

 

 

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(Agripina, personificada como a deusa Ceres, coroa Nero. A mensagem devia ser evidente para todos)

No mesmo dia em que Cláudio morreu, Nero foi saudado imperador pela Guarda Pretoriana, e, em seguida, ele foi reconhecido como tal pelo Senado Romano. Nero não sabia, mas seria o último imperador da dinastia dos Júlios-Claúdios.

O reinado de Nero começou promissor. Ele tinha apenas 17 anos, mas era aconselhado pelo filósofo Sêneca (que, segundo Cássio Dião), redigiu seu primeiro discurso ao Senado), e por Burro, que foi mantido como Prefeito da Guarda Pretoriana, e, de fato, as suas primeiras medidas como imperador suscitaram aprovação geral.

Vale notar que, ainda durante o reinado de Cláudio, a administração dos assuntos de Estado começou a ser desempenhada cada vez mais pelos escravos libertos do Imperador que trabalhavam nas dependências do Palácio e que passaram a constituir o embrião de verdadeiros ministérios, no sentido administrativo moderno, assumindo tarefas que antes estavam a cargo dos antigos magistrados da República. Nero herdou esse sistema, e muitos libertos de Cláudio continuaram a exercer seus cargos no seu reinado, como por exemplo o liberto Marcus Antonius Pallas, que ocupava um cargo equivalente ao de Secretário do Tesouro, uma circunstância que assegurou certa continuidade administrativa.

Sêneca e Burro, sensatamente, procuraram assegurar que o imperador mantivesse boas relações com o Senado Romano, comparecendo às sessões desta assembleia e levando em consideração as recomendações dos senadores. Os dois preocuparam-se especificamente em abolir o costume implementado por Cláudio, de conduzir julgamentos em sessões privadas realizadas no próprio Palácio (“in camera”), o que era considerado contrário aos princípios jurídicos romanos tradicionais, que previam audiências públicas..

Foram promulgados decretos visando prevenir que os governadores extorquissem demasiadamente as províncias e também outros relativos à ordem pública e urbana. Nero também postulou, sem levar em consideração as despesas públicas, abolir vários tributos, sendo, entretanto, demovido desse propósito pelo Senado. Muitas das medidas de Nero, aliás, demonstravam um grande desejo dele aumentar a sua popularidade.

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Os dois conselheiros procuraram, ainda, diminuir a excessiva intervenção de Agripina nos assuntos do governo, e, com esse propósito, eles chegaram até a incentivar a paixão que Nero nutria pela liberta Acte, que virou amante do Imperador. Dessa forma, além de afastar Nero da influência da mãe, eles também visavam diminuir a inclinação ao desregramento sexual que já se percebia no jovem imperador, impulsos que o casamento com a imperatriz  Cláudia Otávia parecia incapaz de arrefecer.

Observe-se que Suetônio acusa diretamente Nero e Agripina de manterem uma relação incestuosa, mencionando até que isso costumava ocorrer quando os dois viajavam pelas ruas romanas em liteiras, um comportamento que seria denunciado pelas manchas suspeitas na toga do filho… Outros autores, de fato, também citam este costume que ambos tinham de andar na mesma liteira, mas muitos historiadores consideram que a obra de Suetônio, em muitas passagens, tende a reproduzir e aumentar boatos escandalosos, sem muita preocupação com a verdade histórica.

A tônica, porém, em todas as fontes, é de que Nero não nutria muito entusiasmo pelas tarefas governamentais, preferindo dedicar-se ao canto, ao teatro e às competições esportivas, sobretudo corridas de cavalos. Progressivamente, também, o poder absoluto lhe permitiu experimentar as mais variadas práticas sexuais.

Assim, a falta de aptidão para o cargo, a juventude e a onipotência uniram-se para empurrar Nero para uma ilimitada devassidão. Por outro lado, o avanço dos anos deu-lhe confiança para cada vez mais afirmar a sua vontade e ignorar os conselhos de Sêneca e Burro, ao passo que a repetida intromissão de Agripina em sua vida começou a lhe parecer insuportável, notadamente a oposição que a mãe externava em relação ao seu romance com Acte.

Morte de Britânico e Agripina. Nero governa por conta própria

Outro fator de discórdia entre mãe e filho, e talvez mais importante, foi o fato de Agripina, certa vez, ter insinuado que Britânico aproximava-se da maioridade, dando a entender a Nero que ela poderia apoiar o rapaz como sendo o legítimo herdeiro de Cláudio. Por isso, em 55 D.C., Nero demitiu o liberto Pallas, que tinha sido um fiel aliado de Agripina desde os tempos de Cláudio.

Ainda em 12 de fevereiro de 55 D.C., Britânico morreu, no dia exato em que ele completaria a maioridade. Segundo os autores antigos, ele foi envenenado a mando de Nero, que teria também recorrido aos serviços da envenenadora Locusta.

Mas a relação de Nero com a mãe azedou de vez quando, em 58 D.C., a nobre Popéia Sabina, a Jovem, tornou-se amante dele. Agripina, opondo-se ao romance, aproximou-se da imperatriz Cláudia Otávia, que, em oito anos de casamento com Nero, não tinha gerado filhos, muito em função do desinteresse do marido pela esposa.

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(Popéia Sabina, segunda esposa de Nero)

Popéia Sabina, que era casada com Marcus Salvius Otho (o futuro imperador Otão), grande amigo de Nero, em vingança à oposição de Agripina ao seu romance com o imperador, teria aconselhado Nero a assassinar a mãe,  segundo Tácito (Nota: Popéia seria natural de Pompéia, e a sua magnífica Villa, na cidade de Oplontis, foi soterrada pela erupção do Vesúvio e descoberta em excelente estado de conservação -vide fotos abaixo).

 

Os historiadores narram que Nero teria engendrado vários esquemas engenhosos para matar Agripina, que iam desde o naufrágio em um navio previamente sabotado para se desmanchar no mar, ao desabamento provocado do teto de um aposento que ela ocupava, todas sem sucesso. Finalmente, em 23 de março de 59 D.C., Nero conseguiu que a mãe morresse, embora não seja claro de que forma ela foi morta. Aparentemente, após sobreviver ao naufrágio, Nero enviou assassinos para matar a mãe. Segundo um relato, quando o executor ergueu a espada, Agripina teria dito, como se lamentasse ter parido o filho, apontando para o próprio ventre:

“Fira o meu útero!”

Afastada a influência, diga-se de passagem, raramente benigna, da mãe, Nero sentiu-se livre para fazer tudo o que lhe apetecesse. Ele entregou-se totalmente à sua paixão pelas artes, apresentando-se publicamente cantando e tocando a lira. Ocorre que os recitais dele eram intermináveis, e Tácito comenta que, em algumas ocasiões, mulheres chegaram a dar à luz e pessoas chegaram a falecer enquanto assistiam os longos espetáculos. Ficou famoso o caso do futuro imperador Vespasiano, que, apesar de ser um militar de prestígio, caiu em desgraça após dormir durante um recital de Nero.

É importante ressaltar que, segundo os padrões de conduta morais vigentes na aristocracia romana à época, um nobre apresentar-se publicamente como artista ou esportista era considerado degradante.

Em 62 D.C., Burro faleceu, e Sêneca foi obrigado a se afastar do governo devido a acusações de enriquecimento ilícito (que aparentemente eram verdadeiras), as quais vieram somar-se à suspeita, já existente, de que Sêneca teria mantido relações amorosas com Agripina.

Naquele mesmo ano de 62 D.C., Popéia ficou grávida de Nero, que finalmente decidiu divorciar-se de Cláudia Otávia, sob o pretexto de infertilidade da imperatriz. Assim, doze dias depois do divórcio, Nero casou-se com Popéia.

A infeliz Cláudia Otávia foi exilada na ilha de Pandatária, mas a opinião pública protestou e exigiu que Nero a trouxesse de volta à Roma. Logo em seguida, porém, ela morreria, tendo apenas cerca de 23 anos de idade, assassinada a mando do imperador, embora os executores tenham tentado fazer a morte dela parecer um suicídio.

Em 21 de janeiro de 63 D.C.Popéia deu à luz a uma menina que recebeu o nome de Cláudia Augusta e ela seria o único descendente que Nero teria na vida. Porém, a menina morreria com somente quatro meses de idade.

Conflitos nas fronteiras

Nos assuntos de política exterior, o principal desafio enfrentado pelo Império no reinado de Nero foi a disputa pela Armênia com a Pártia. O general Gnaeus Domitio Corbulo (Corbulão) obteve inicialmente sucesso militar, mas a campanha não foi concluída. Em 63 D.C., porém, o Império obteve um bom acordo com a Pártia, em que Roma teria a palavra final sobre a escolha do rei da Armênia, Foi um bom tratado e que garantiria a paz na região até 114 D.C.

Nero também teve que enfrentar a séria revolta da rainha dos Icenos, Boudica (Boadicéia), na Britânia, que foi derrotada pelo general Gaius Suetonius Paulinus (Suetônio Paulino), em 61 D.C.

 

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(Estátua da rainha Boudica, dos Icenos, em Londres)

O Grande Incêndio de Roma

Em julho de 64 D.C., ocorreu o Grande Incêndio de Roma, que durou seis dias e causou uma grande destruição.  Com efeito, dos 14 distritos de Roma, somente 4 foram poupados do fogo.

A responsabilidade de Nero pelo incêndio é muito debatida. Algumas fontes antigas citam boatos de que Nero teria mandado provocar o incêndio, visando sobretudo reconstruir a cidade de acordo com a sua vontade, e, especialmente,  para possibilitar a construção de sua espetacularmente enorme e suntuosa “Domus Aurea“, cujas ruínas ainda hoje impressionantes dão uma ideia do seu esplendor.

Consta que Nero, após o palácio ficar pronto, teria dito :

“Finalmente, agora eu posso morar como um ser humano” 

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(Domus Aurea, reconstituição)

 

Tácito e Cássio Dião também relatam, o primeiro expressamente como sendo um boato, que, enquanto Roma queimava, Nero teria subido no telhado do Palácio e cantado a ode grega “A Destruição de Tróia“.

 

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(Tela “O incêndio de Roma”, de Hubert Robert, (1785)

Porém, eu acredito que, provavelmente, essa tragédia foi apenas o mais catastrófico dos frequentes e periódicos incêndios que assolavam uma Roma que havia crescido demasiada e desordenadamente.

Diga-se de passagem, os posteriores decretos assinados por Nero relativos ao ordenamento urbano, especialmente visando evitar a repetição de incêndios, descritos por Tácito e Suetônio, são muito razoáveis, na verdade, excelentes até (eles dispõem sobre o espaço entre os prédios de apartamentos, do uso de materiais de construção resistentes ao fogo e da previsão de reservatórios de água, entre outras coisas).

Após o incêndio, Tácito relata que Nero abriu os jardins dos palácios para abrigar os flagelados pelo incêndio, em abrigos temporários. Vale a pena citar o seguinte trecho do historiador:

 

Nero, naquele momento, estava em Antium, e não retornou à Roma até o fogo aproximar-se de sua casa, que ele havia construído para conectar o palácio com os jardins de Mecenas. Não foi possível, entretanto, impedir o fogo de devorar o palácio, a casa e tudo em volta deles. Todavia, para aliviar o povo, que tinha sido expulso desabrigado, ele mandou que fossem abertos para eles o Campo de Marte e os edifícios públicos de Agripa, e até mesmo os seus próprios jardins, e ergueu estruturas temporárias para receber a multidão despossuída. Suprimentos de comida foram trazidos de Óstia e das cidades vizinhas, e o preço do grão foi reduzido para três sestércios. Essas ações, embora populares, não produziram nenhum resultado, uma vez que espalhou-se por todo lugar um rumor de que, enquanto a cidade estava em chamas, o imperador apresentou-se em um palco particular e cantou a destruição de Tróia, comparando os infortúnios presentes com as calamidades da antiguidade”. (Anais, XV, 39)

Um episódio notório, ainda relativo ao incêndio, foi o martírio da nascente comunidade cristã de Roma, que teria sido apontada oficialmente como bode expiatório pelo incêndio. Hoje, há opiniões de que esta perseguição não teria ocorrido, a despeito dela também fazer parte da tradição cristã. Há, no entanto, uma bem fundamentada tese de que o número 666, que seria o nome da besta do Apocalipse citado no Evangelho, seria o código alfanumérico relativo ao nome de Nero, de acordo com um antigo jogo comum na época romana, numa vinculação que o evangelista João poderia ter feito em função da referida perseguição.

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(Tela de Henryk Siemiradzki, retratando o martírio dos cristãos, que, segundo o relato de Tácito, foram utilizados como tochas humanas)

O fato é que as excentricidades e os crimes de Nero, somados à desconfiança pública de que o incêndio estava relacionada à construção da magnífica Domus Aurea, começaram a minar o reinado dele.

Some-se a isso a morte de Popéia, ocorrida em 65 D.C., tendo se espalhado o boato de que a morte dela fora causada após a imperatriz levar um pontapé de Nero na barriga, quando estava grávida, o que causou indignação no povo (curiosamente, a mesma acusação seria feita, milênios mais tarde, ao imperador D. Pedro I, e,  igualmente, ela contribuiu para agravar o clima que resultou na abdicação de nosso primeiro imperador)

A Conspiração Pisoniana

Ignorando todo esse quadro de insatisfação, Nero começou a retirar o que restava das prerrogativas do Senado. Isso deflagrou, também em 65 D.C., a denominada “Conspiração Pisoniana“, assim chamada porque liderada pelo respeitado senador Gaius Calpurnius Piso, e que visava derrubar o imperador. Porém, essa conspiração, que envolvia senadores e membros da guarda pretoriana, foi denunciada a tempo, e Nero mandou executar os participantes. Entre os punidos, estava o seu ex-tutor e conselheiro, o filósofo Sêneca, apesar de não haver certeza se ele estava mesmo envolvido.

Outro que teria sido executado na repressão à Conspiração foi o poeta Lucano. Mas a morte mais sentida pela aristocracia romana foi a do senador Públio Clódio Trásea Peto, um crítico contumaz do  reinado de Nero, que também foi obrigado a cometer suicídio, em 66 D.C., após ser condenado pelo Senado com base em acusações vagas em uma sessão  de julgamento na qual a Cúria foi cercada pelos Pretorianos.

Para poupar Sêneca, e a própria imagem do imperador, perante a opinião pública, do embaraço de uma execução, Nero ordenou que ele cometesse suicídio. O mesmo ocorreu com outro implicado no esquema, o escritor satírico Petrônio (A cena da morte de Petrônio, em uma banheira, com o sangue esvaindo-se das veias cortadas enquanto conversava rodeado dos  seus melhores amigos, está brilhantemente retratada no filme “Quo Vadis“).

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(O Suicídio de Sêneca, tela de Manuel Domínguez Sánchez (1871), no Museu do Prado)

Quem teve atuação implacável na repressão à referida conspiração foi Ofonius Tigellinus, o sucessor de Burro como Prefeito da Guarda Pretoriana, que era um amigo e parceiro de Nero no desfrute de corridas de carros e orgias,  e que fora nomeado para o cargo em 62 D.C.

O início do fim

Em 66 D.C., Nero casou-se com sua terceira esposa, Statilia Messalina (não confundir com a esposa de Cláudio).

 

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(Statilia Messalina, terceira esposa de Nero)

 

A Conspiração Pisoniana, não obstante tenha sido debelada, marcou o início da queda de Nero. Deve ter havido uma percepção geral entre as lideranças do Senado e do Exército de que o reinado dele não iria durar muito e que o caos se aproximava. As despesas com a reconstrução de Roma tinham exaurido o Tesouro do Estado e, em decorrência, a moeda teve que ser desvalorizada e os impostos aumentados.

Ainda em 66 D.C., estourou uma grande revolta na Judéia, No meio dessa grave crise, Nero resolveu fazer uma excursão triunfal pela Grécia, visitando os pontos turísticos mais célebres, apresentando-se como artista e participando dos Jogos Olímpicos de 67 D.C., como competidor. Para os gregos, a visita foi um sucesso, pois Nero chegou a proclamar a liberdade das cidades gregas, mas para a elite em Roma, ela deve ter sido percebida como mais uma prova da insanidade do Imperador.

Logo, outras rebeliões começariam a pipocar nas províncias…

Em 67 D.C., Nero enviou o respeitado general Titus Flavius Vespasianus (o futuro imperador Vespasiano) para combater a Grande Revolta Judaica. Nessa ocasião, suspeitando da lealdade do general Corbulão, o imperador o convocou-o à sua presença na Grécia, e ordenou que ele cometesse suicídio para não ser executado, sendo fiel e surpreendentemente obedecido.

Porém, em março de 68 D.C., o governador da importante província da Gália Lugdunense, Gaius Julius Vindex, revoltou-se contra os pesados tributos impostos à província. Em seguida, Vindex tentou, sem êxito, convencer o governador da Hispânia, Servius Sulpicius Galba (o futuro imperador Galba), a se juntar à rebelião. No decorrer da rebelião, em maio, as legiões da Germânia, sob o comando de Lucius Verginius Rufo, seguindo as ordens de Nero, derrotaram Vindex, na Batalha de Vesontio (atual Besançon), que, em razão disso, cometeu suicídio.

Todavia, as legiões vitoriosas imediatamente declararam-se em rebelião contra Nero, embora Rufo tenha permanecido leal ao imperador, recusando-se a aderir ao movimento. Parece que nesse momento, os soldados já começavam a farejar a oportunidade de, como em ocasiões anteriores, obterem polpudas recompensas caso um novo imperador assumisse o trono.

Enquanto isso, Nero, que havia voltado para Roma em janeiro de 68 D.C., recebeu a notícia de que, além das legiões de Vindex, as legiões da África também tinham se revoltado.

Galba, entretanto, aguardava cautelosamente o desenrolar dos acontecimentos, mas os seus partidários em Roma não ficaram imóveis. Assim, em algum momento entre maio e junho de 68 D.C., o outro Prefeito da Guarda Pretoriana, Ninfídio Sabino (consta que Tigellinus estaria doente naquele mometo), persuadiu os pretorianos em Roma a se declararem a favor de Galba. Para o azar de Nero, isso ocorreu antes da chegada da notícia da vitória de Rufo contra Vindex, o que daria ao imperador certa esperança de readquirir o controle da situação.

A morte de Nero

Em 9 de junho de 68 D.C., em uma villa suburbana, situada a apenas 6 km de Roma, chegou um mensageiro galopando à  toda velocidade. O cavaleiro desmontou e entrou no luxuoso átrio da propriedade, sendo recebido por Phaon, um  liberto do Imperador Nero que exercia o cargo de Secretário de Finanças imperial.

Acompanhado de outros três homens, Phaon ingressou na área privada da residência e, pouco tempo depois, ouviu-se um um grito desesperado, acompanhado da frase:

“Que grande artista o mundo irá perder!”

Um dos homens pergunta que notícia o mensageiro havia trazido e o outro respondeu que o Senado Romano havia declarado Nero  era um “Inimigo Público“.

Aquele era, sem dúvida, o ponto culminante da tensão que Nero vinha vivendo nas últimas semanas, desde que soube que Julius Vindex havia sido aclamado imperador pelas tropas dele, em março, e iniciara sua marcha para a Itália, e o Prefeito Pretoriano Ninfídio Sabino manifestara o seu apoio a Galba, deixando o imperador totalmente indefeso dentro da Capital.

Ao saber da adesão de Ninfídio Sabino ao general Galba, Nero chegou a deixar o Palácio e tentar fugir para o porto de Óstia, onde ele planejava embarcar em um navio da frota, que ele esperava que tivesse se mantido leal, e partir para as províncias do Oriente, onde ele tinha certeza de que ainda era muito popular e poderia organizar um contra-ataque.

Todavia, Nero, temeroso, concluiu que era grande a possibilidade dele  não conseguir chegar ao porto ileso, e, assim, deu meia-volta e voltou para o Palácio, onde ele até tentou dormir um pouco. O sono contudo, seria breve. Com efeito, durante a meia-noite, já na virada do dia 08 para o dia 09 de junho de 68 D.C., o Imperador acordou e, aterrorizado, constatou que não havia sequer um guarda na porta dos aposentos imperiais.

Nero percorreu, então, esbaforido, os corredores desertos do palácio, sem encontrar viva alma, gritando:

“Não terei eu amigos ou inimigos?

Até que, alertados pela gritaria,  finalmente acudiram os mais próximos e fiéis libertos de Nero: Epafrodito, Phaon, Neophytus e Esporo (Nota: Esporo (Sporus) era um garoto que se tornou favorito de Nero por ter uma notável semelhança com a falecida imperatriz Popéia Sabina. Segundo Suetônio, Nero mandou castrar Esporo e chegou até a casar com o rapaz, por volta de 67 D.C.).

Phaon, então, ofereceu a Nero a sua villa nos arredores de Roma,  para que o imperador se escondesse lá, pois ainda havia a esperança de que o Senado não reconhecesse os usurpadores, tendo em vista que outros comandantes ainda não haviam aderido à rebelião. A villa não era longe e o grupo deve ter chegado lá ainda antes do amanhecer.

Porém, no decorrer do dia 09 de junho, a referida chegada do mensageiro tirou todas as esperanças de Nero. Ele, então, implorou que um dos quatro fiéis libertos tirasse a própria vida primeiro, alegando que isso lhe daria coragem para fazer o mesmo, além de lhe ensinar o método, mas nenhum deles topou a proposta.

Então, enquanto o imperador relutava, ouviu-se o galopar de vários cavalos, e, premido pelo temor da chegada da tropa que estava vindo para lhe prender ou executar,  Nero ordenou que Epafrodito o ajudasse a se matar. Assim, Nero, com a ajuda de Epafrodito, enfiou uma faca na própria garganta.

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Quando os cavaleiros entraram no aposento, Nero já havia perdido muito sangue. Um dos soldados tentou colocar um pano na garganta dele, à guisa de estancar o sangue,  e Nero ainda teve forças para balbuciar, dramático como ele sempre fora durante toda a vida:

“Tarde demais. Isso é que é fidelidade!” 

Nero morreu aos 30 anos de idade. O corpo dele foi cremado à maneira tradicional romana e as cinzas depositadas no Mausoléu dos Domícios,  então situado nos limites da cidade de Roma e onde hoje, ironicamente, fica um templo da arte, a Galeria Borghese.

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(Villa Borghese, que hospeda a Galeria Borghese e onde ficava o Mausoléu dos Domícios, lugar do sepultamento das cinzas de Nero)

As fontes relatam que, várias décadas depois de sua morte, pessoas do povo ainda adornavam a tumba de Nero com flores…

Conclusão

A ascensão e queda de Nero são expressões gritantes das contradições do sistema inaugurado por Augusto.

Com efeito, o Império nascera da incapacidade das instituições republicanas de moderar os conflitos de poder  e as disputas políticas envolvendo a manutenção dos privilégios da nobreza ( facção política dos “Optimates“) e a acomodação das vontades dos cidadãos plebeus livres, dentro de regras criadas para gerir uma Cidade-Estado, e, portanto, de levar em consideração a existência de um crescente proletariado não-proprietário em Roma, bem como os anseios de uma enorme população de colonos romanos e cidades aliadas não-romanas, que estavam espalhadas por um enorme território fora da Itália, e cujos interesses eram defendidos pela facção dos chamados “Populares“.

Essas crises degeneraram na resolução das disputas pela guerra entre generais-políticos filiados as referidas facções representadas no Senado, que recrutavam cidadãos entre o proletariado, os quais eram mais leais aos seus comandantes do que ao Estado. O conflito parecia ter se resolvido na concentração de poderes em torno do vencedor da guerra civil, o líder dos Populares, Caio Júlio César, que, contudo, foi assassinado antes de poder implementar uma nova constituição politica (se é que ele tinha mesmo essa intenção), uma tarefa esta que foi retomada por seu sucessor Augusto.

Como se fosse uma “marca de nascença” do principado, o assassinato de César sempre pairou sobre o regime imperial. César, alegadamente, foi morto por se acreditar que ele queria ser rei e os seus assassinos, integrantes dos Optimates, reivindicaram a restauração da República. Vencidos os Optimates por Augusto, herdeiro de César, ele, por sua vez, da mesma forma se apresentou como o “Restaurador da República“.

Desse modo, o Império por séculos seria assombrado pelo paradoxo de ser uma “Monarquia que não ousa dizer o seu nome“.

Contudo, a constituição não-escrita elaborada por Augusto padecia de duas graves contradições:

1) A ambiguidade de, formalmente, querer-se restaurar a República, concentrando as mais importante das antigas magistraturas republicanas nas mãos do “Princeps“, mas dividindo, ao menos na aparência, o governo do Estado com o Senado, sem contudo, jamais delimitar precisamente qual o papel e o poder desta assembleia. Isto se tornaria um grande fator de instabilidade.

A prática inaugurada por Augusto, e seguida em parte e confusamente por Tibério, de simular que o poder continuava com o Senado, sendo o poder de fato exercido no Palácio, propiciava que, quando personalidades imperiais menos afetas às aparências e deferências devidas ao Senado ocupassem o trono, eles fossem percebidas como tiranos, situação que deu margens a inúmeras conspirações, reais ou fictas.

2) A já aludida “marca de nascença” (assassinato de César), que expressava a prevalência da tradicional repulsa cultural romana à monarquia, impediu que Augusto estabelecesse uma regra clara quanto à sucessão imperial. Como o regime não podia e não devia ser considerado uma monarquia, jamais o princípio dinástico foi formalmente estabelecido. Embora o costume fosse que o imperador escolhesse o seu herdeiro, a existência de descendentes ou parentes próximos ameaçava a legitimidade do escolhido, sendo isso uma nova fonte de conspirações, e de temor da existência delas por parte do imperador.

A incerteza quanto ao critério sucessório também gerava instabilidade. Os imperadores Júlios-Cláudios costumavam nomear os parentes sanguíneos ou afins mais velhos como herdeiros formais ou presumidos, quando aqueles mais próximos ainda eram muito jovens. Mas, quando estes iam crescendo, os títulos e honrarias que caracterizavam a condição de herdeiro eram retirados dos primeiros e conferidas aos mais novos. O temor ou a insatisfação dos inicialmente escolhidos normalmente resultava na eliminação dos rivais mais novos ou na do próprio imperador. Tal fato ocorreu com Augusto, com Tibério e com Cláudio, e somente não ocorreu com Calígula devido ao seu reinado ter sido muito curto, e com Nero, porque ele não tinha herdeiros.

Somente a partir do reinado de Nerva começou a ser implantada uma regra consuetudinária, com bases filosóficas, de que o governante deveria adotar como sucessor o melhor homem público, ainda que este fosse seu parente, de quem se esperava que demonstrasse a sua competência.

A avaliação do reinado de Nero é controversa na visão dos historiadores. A visão tradicional, de louco e de monstro, hoje é temperada pela leitura crítica que se faz dos historiadores Tácito e Suetônio, tidos como membros da classe senatorial, nostálgica da República e antipática ao Principado, dando destaque às perseguições do monarca contra os senadores e enfatizando boatos ou, mesmo, fofocas, de teor escandaloso sobre os hábitos privados dos imperadores.

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Sintomaticamente, essas mesmas fontes relatam que, para uma boa parte da massa de cidadãos pobres e das províncias, a imagem de Nero era diferente. Como já observamos, Suetônio narra que, décadas após a morte de Nero, populares adornavam a sua tumba com flores e que, nas províncias,  chegou a surgiu uma lenda, ao estilo de Dom Sebastião de Portugal, de que Nero, um dia, iria retornar.

Essa também é a opinião de muitos historiadores, valendo transcrever as palavras da historiadora clássica Mary Beard (“SPQR”, pág. 398):

Vários historiadores modernos têm apresentado Nero, particularmente, mais como uma vítima da propaganda da dinastia Flaviana, que começa com Vespasiano, seu sucessor, do que como um piromaníaco assassino da própria mãe, a quem se atribui ter iniciado o grande incêndio de 64 D.C., não só para apreciar o espetáculo, mas também para limpar a área e poder construir seu novo palácio, a Casa Dourada (Domus Aurea). Mesmo Tácito admite, apontam os reabilitadores, que Nero foi o patrocinador de medidas de ajuda efetivas para os desabrigados após o incêndio; (…). Além disso, nos vinte anos após a morte e Nero, em 68 D.C., pelo menos três falsos Neros, com lira e tudo, apareceram nas regiões orientais do Império, reivindicando o poder e apresentando-se como o imperador em pessoa, ainda vivo, apesar de todas as notícias do seu suicídio. Foram todos rapidamente eliminados, mas o engodo sugere que, em algumas áreas do mundo romano, Nero era lembrado afetuosamente: Ninguém buscaria alcançar o poder fingindo ser um imperador odiado por todos.”

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DÍDIO JULIANO – UM LANCE MORTAL

Didius Julianus

 

Em 1º de junho de 193 D.C., o imperador romano Dídio Juliano foi executado por um soldado no interior do próprio Palácio Imperial, cumprindo uma decisão do Senado que o havia sentenciado à morte.

Após o assassinato do imperador Cômodo, no último dia de 192 D.C., o ano de 193 D.C. tinha começado com um novo imperador, Pertinace, que apesar do início promissor, não conseguiu conter a insaciável Guarda Pretoriana e foi assassinado, em 28 de março, por um grupo de pretorianos, insatisfeitos por não terem recebido o donativo que havia sido prometido quando da ascensão do novo imperador ao trono. E, após este infame assassinato, aquele tumultuado ano ainda testemunharia mais quatro imperadores serem aclamados, motivo pelo qual ficaria conhecido como “O Ano dos Cinco Imperadores“.

Dídio Juliano nasceu em Mediolanum (atual Milão), em 29 de janeiro de 133 D.C, (uma outra fonte cita a data de 02 de fevereiro de 137 D.C). Ele era filho de Quintus Petronius Didius Severus e de Aemilia Clara, esta pertencente a uma família norte-africana, radicada em Hadrumetum (atual Sousse, na Tunísia), mas que descendia da nobreza romana.

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(Trecho das muralhas romanas de Mediolanum, atual Milão)

Já a família paterna de Dídio Juliano era uma das mais antigas de Mediolanum, cidade originalmente povoada por um povo celta, os Insubres. Em 194 A.C., após décadas de hostilidade, os Insubres se aliaram aos romanos, obtendo, em 89 A.C., a cidadania latina, e,  finalmente, em 49 A.C., a cidadania romana.

O avô paterno de Dídio Juliano, Quintus Petronius Severus, foi um general bem-sucedido, e a sua avó, Didia Jucunda pertencia à gens Didia, uma família plebéia de “novos homens”, sendo que um de seus antepassados alcançara o consulado em 89 A.C.

Pelo lado materno, Dídio Juliano era parente, talvez neto ou sobrinho, não se sabe ao certo, do famoso jurista Salvius Julianus, que compilou e codificou, durante o reinado do imperador Adriano, os Éditos dos Pretores (juízes) romanos (espécies de súmulas de jurisprudência e normas processuais), promulgados durante a República e que nunca haviam sido sistematizados.

Salvius Julianus também era nativo da região de Hadrumetum (vilarejo de Pupput) e é possível que a mãe de Dídio Juliano fosse sua filha ou sobrinha. Salvius também era membro do Conselho Privado do Imperador Adriano, uma posição que ele manteve no reinado do sucessor deste, Antonino Pio,  culminando a sua carreira com a nomeação para o cargo de Cônsul, no ano de 148 D.C.

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(Ruínas romanas de Pupput, na Tunísia, terra natal de Salvius Julianus)

A proximidade de Salvius Julianus com os imperadores Adriano e Antonino Pio provavelmente é a explicação para o fato de Dídio Juliano, após a morte de seu pai, haver sido criado na casa de Domitia Lucilla, mãe do imperador Marco Aurélio e cunhada da esposa de Antonino Pio.

Assim, Domitia Lucilla ajudou seu protegido Dídio Juliano a ser nomeado para o colégio de magistrados chamado Vigintivirati, que era o primeiro passo para uma carreira pública no Império Romano daquele período.

Por volta de 153 D.C, Dídio Juliano casou-se com Manlia Scatilla, integrante de uma ilustre família senatorial, que, naquele mesmo ano, deu à luz à única filha e descendente do marido, a qual eles deram o nome de Didia Clara.

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(Moeda com a efígie de Manlia Scatilla, esposa de Dídio Juliano, foto de Rasiel Suarez )

E, durante a dinastia dos Antoninos, Dídio Juliano continuou prosperando, ocupando, sucessivamente, os cargos de Questor, Edil e, em 162 D.C., de Pretor militar, sendo nomeado comandante da Legião XXII Primigenia, estacionada em Moguntiatum (atual Mainz, na Alemanha). Mais tarde, em 170 D.C.,  ele foi nomeado Prefeito da Gália Bélgica, servindo nessa qualidade por cinco anos, período no qual ele reprimiu uma invasão da tribo germânica dos Chauci.

Em reconhecimento dos seus serviços nas províncias, Dídio Juliano foi nomeado para a mais importante magistratura tradicional romana, o Consulado, no ano de 175 D.C., tendo como colega o futuro imperador Pertinace.

Posteriormente, Dídio Juliano, que por então havia se tornado um homem muito rico, foi Governador da Dalmácia e da Germânia Inferior, e, após voltar à Roma, ele foi designado Prefeito encarregado da distribuição de dinheiro aos pobres da Itália. Nesse cargo, ele foi acusado de estar associado a uma conspiração contra o imperador Cômodo, que já havia sucedido Marco Aurélio. Contudo, ele foi inocentado e voltou a ocupar cargos importantes, tais como os de governador da Bitínia e de Procônsul da África, sucedendo, neste último cargo, Pertinace.

 

Quando Cômodo foi morto, em um complô palaciano que envolveu a amante do imperador, seu camareiro e o Prefeito Pretoriano, Quintus Aemilius Laetus, que, certamente, devem ter sido apoiados por vários senadores, Pertinace foi levado para o quartel da Guarda Pretoriana e ali aclamado imperador.

Não obstante a forma com que ele chegou ao trono, Pertinace, desde o início, demostrou que pretendia restaurar os procedimentos de seriedade na administração que nortearam os reinados dos imperadores da dinastia dos Antoninos, até o fim do reinado de Marco Aurélio.

Porém, quando os pretorianos perceberam que eles não iriam receber a recompensa esperada pela nomeação de Pertinace ao trono, cerca de 200 guardas invadiram o Palácio, em 28 de março de 193 D.C., e mataram o recém-nomeado Pertinace, cujo reinado durou apenas 86 dias.

Em seguida ao assassinato de Pertinace, ocorreu um dos mais vergonhosos episódios da História de Roma: Os guardas pretorianos saíram pela cidade de Roma à procura de candidatos para quem eles pudessem vender o trono imperial.  Assim, um grupo de soldados levou para o Quartel o Prefeito Urbano Sulpiciano, sogro de Cômodo, com quem começaram a negociar o preço pela sua aclamação!

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(Relevo dos Pretorianos, séc. I D.C., Louvre. Acredita-se que os soldados retratados sejam guardas pretorianos, que usavam  tradicionais uniformes e equipamentos antigos da época republicana, da mesma forma que as guardas imperiais ou presidenciais fazem hoje em dia. Foto em Historien spécialiste du bassin minier du Nord-Pas-de-Calais JÄNNICK Jérémy / Wikimedia Commons & Louvre-Lens)

Enquanto isso ocorria, Dídio Juliano, que segundo o historiador Dião Cássio, era, ao mesmo tempo, ganancioso e desregrado, estava em um banquete e, encorajado pelos presentes, incluindo sua esposa e filha, resolveu ir ao Quartel da Guarda Pretoriana (Castra Pretoria) para testar a sua sorte.

Diga-se de passagem, que havia, de fato, alguns aspectos aptos a encorajar Dídio Juliano nessa ousada empreitada: Ele teve muita proximidade com a dinastia dos Antoninos, ocupou cargos importantes, inclusive o Consulado, e a sua trajetória política parecia que estava sempre seguindo diretamente os passos do finado imperador Pertinace (consta até que este, quando vivo,chegou a fazer brincadeiras neste sentido).

Segundo outra versão, Dídio Juliano foi até à Cúria do Senado Romano para tentar ser aclamado pelos seus pares, mas, achando o prédio fechado, ele acabou sendo levado por dois tribunos da Guarda Pretoriana até o Castra Pretoria.

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(Ruínas dos muros do Castra Pretoria, em Roma, no século XVIII, gravura de Giovanni Battista Piranesi)

Lá chegando,  Dídio Juliano, ainda do lado de fora dos muros, ao ouvir a negociação de Sulpiciano com os Guardas, começou a gritar, ainda do lado de fora dos muros, as suas ofertas. Ele também enfatizou aos militares que Sulpiciano, sendo sogro de Cômodo, poderia tentar responsabilizá-los pela morte daquele imperador.

Assim, Dídio Juliano foi admitido a entrar no Quartel e, logo, o triste espetáculo transformou-se em um verdadeiro leilão, que parecia que iria ser vencido por Sulpiciano, pelo valor de 20 mil sestércios para cada Pretoriano. Porém, Dídio Juliano subiu o lance e, oferecendo 25 mil sestércios, acabou sendo o vitorioso. O Senado, intimidado, reconheceu a aclamação, no mesmo dia 28 de março de 193 D.C.

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(Aureus de Dídio Juliano)

Contudo, a população nunca aceitou a forma como Dídio Juliano havia obtido o trono. Logo, o novo imperador passou a ser vaiado em público. Além disso, o fato é que Pertinace, apesar de reinar apenas 86 dias, havia sido um governante popular e respeitado.

Em pouco tempo, a insatisfação espalhou-se pelas províncias e  os generais Clódio Albino, Septímio Severo e Pescênio Niger foriam aclamados imperadores, cada um pelas respectivas legiões.

A única medida conhecida do governo de Dídio Juliano foi desvalorizar a moeda romana para o percentual de prata anterior ao reinado de Pertinace.

Quando Septímio Severo invadiu a Itália, ele ordenou que muitos dos seus soldados entrassem em Roma disfarçados. Além disso, a Guarda Pretoriana não era páreo para o experimentado exército da Ilíria. Quando percebeu-se que a derrota do imperador era só uma questão de tempo, o Senado condenou Dídio Juliano à morte e reconheceu Severo como imperador. Antes disso, a Guarda Pretoriana, com medo da punição aos seus crimes,já havia abandonado o imperador a quem tinha vendido o trono.

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(Cabeça de bronze de Septímio Severo)

Dídio Juliano, em 1º de junho de 193 D.C., foi abordado por um soldado que, em cumprimento à ordem emanada do Senado, executou-o no interior do próprio Palácio, em seus aposentos. Ele havia reinado por apenas 66 dias.

Senhor absoluto de Roma (mais tarde ele se livraria dos rivais Níger e Albino nas províncias), Septímio Severo ordenou a execução dos assassinos de Pertinace, fazendo com que o Senado “deificasse” o falecido e prestando, ele mesmo, várias honras à memória daquele infeliz imperador.

Severo poupou a esposa de Dídio Juliano, Manlia Scatilla, e a sua filha, Didia Clara (que, consta, era uma das mulheres mais lindas de Roma). Porém, ambas perderam os títulos de imperatrizes. Elas receberam autorização para sepultar o corpo do marido e pai no Mausoléu de Salvius Julianus, que ficava no marco das 50 milhas da Via Labicana, nos arredores de Roma.

 

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ALEXANDRE, O ÚLTIMO SEVERO E A CRISE DO SÉCULO III

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Em 22 de março de 235 D.C., o imperador romano Severo Alexandre, encontrava-se na base militar romana de  Castrum Moguntiatium (que deu origem à moderna cidade alemã de Mainz, ou Mogúncia, seu nome em português) quando um motim dos soldados da Legião XII Primigenia estourou.

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As tropas recusaram-se a obedecer aos apelos do imperador para que combatessem as tropas lideradas pelo general Maximino Trácio, comandante da Legião IV Italica, as quais tinham aclamado Maximino imperador.

Reunidos no centro do Quartel, os soldados começaram a ficar muito agressivos, acusando Severo Alexandre de ser um covarde dominado pela mãe avarenta e comparando-o ao desprezível Elagábalo, seu primo e antecessor no trono.

Os amotinados, ato contínuo, demandaram que os demais soldados abandonassem “o tímido menininho amarrado à barra da saia da mãe“,  fazendo com que toda a soldadesca lhe desse as costas, deixando o imperador sozinho no praetorium.

Severo Alexandre, aterrorizado, correu para a tenda de sua mãe, a imperatriz Júlia Maméia (Julia Mammaea), que o acompanhava, como sempre, naquela campanha contra os bárbaros Alamanos.

Tinha sido Júlia Maméia quem havia aconselhado Alexandre a oferecer aos bárbaros uma boa soma em dinheiro para que eles desistissem de guerrear contra os Romanos.

E esse foi justamente o estopim da revolta das legiões , pois os soldados alegavam que isso era uma grande desonra para o Império Romano (talvez eles esperassem que o dinheiro fosse dado a eles como donativo pela vitória).

No interior da tenda da mãe, Severo Alexandre chorou e recriminou a mãe pelos seus infortúnios. Ele sabia que estava acabado. Por isso, quando um grupo de soldados seguiu o imperador e invadiu a tenda de Júlia Maméia, Alexandre, resignadamente, ofereceu o pescoço para que eles o executassem. Ele morreu aos 26 anos de idade e treze de reinado. Na mesma ocasião, os soldados também mataram Júlia.

Marcus Julius Gessius Bassianus Alexianus(Severo Alexandre) nasceu em 1º de outubro de 208 D.C, na cidade de Arca Caesarea , na província romana da Síria Fenícia (atual Arqa, no Líbano), filho de  Marcus Julius Gessius Marcianus e de Julia Avita Mammaea (Júlia Maméia).

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O pai de Severo Alexandre era um cidadão romano de origem síria que pertencia à classe Equestre, o segundo nível da nobreza romana e parece ter exercido alguns cargos públicos.

Em algum momento depois do ano 200 D.C., Marcus Julius Gessius Marcianus casou-se com Júlia Maméia, que era sobrinha da poderosa imperatriz Júlia Domna, casada com o imperador Septímio Severo. Durante o reinado do marido, Júlia Domna receberia o título de “Mãe dos Quartéis, do Senado e da Pátria“.

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(busto de Júlia Maméia)

Júlia Maméia e sua irmã, Júlia Soêmia, eram filhas de Júlia Maesa, irmã da imperatriz Júlia Domna, que por sua vez eram filhas de  Julius Bassianus, sumo-sacerdote do Templo do deus Elagábalo (El-Gabal), situado em Emesa (a moderna Homs), na Província da  Síria, e integrante da dinastia dos Sempseramidas, que havia séculos governavam a referida cidade, a qual, durante muito tempo, havia sido a próspera capital de um reino-cliente de Roma,  até a sua anexação pelo Império Romano.

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(Estátua de Júlia Soêmia)

Portanto, a família de Júlia Maméia era riquíssima e, quando o imperador Caracala, filho e sucessor de Septímio Severo morreu, assassinado por ordens de Macrino, sua mãe Júlia Maesa e sua irmã, Júlia Soêmia, valeram-se dessa fortuna e de seu poder e prestígio na importante província da Síria para fomentar a rebelião que em pouco tempo derrubou Macrino. 

As tropas da Síria aclamaram o jovem filho de Júlia Soêmia, Elagábalo, de apenas 15 anos de idade, como imperador, em 16 de maio de 218 D.C. Macrino seria derrotado em junho de 218 D.C. e, assim,  Elagábalo foi reconhecido imperador pelo Senado.

A mãe do novo imperador, Júlia Soêmia, e  a sua tia, Júlia Maesa, foram declaradas “Augustas”. Mais surpreendente, as duas seriam, um pouco mais tarde, as primeiras e únicas mulheres a serem admitidas no Senado Romano. E Júlia Maesa ainda receberia o título de “Mãe do Senado”.

O reinado de Elagábalo seria marcado pelos escândalos e pela repulsa que a sua condição de sumo-sacerdote de El-Gabal, a sua aparência andrógina e o seu comportamento desregrado provocaram não apenas na elite senatorial, mas nas próprias tropas.

Em algum momento, Júlia Maesa percebeu que a crescente rejeição a Elagábalo pela sociedade romana, e, sobretudo, pelos militares romanos, colocava em perigo a própria posição da família. Ela também percebeu que os reiterados excessos sexuais dele eram encorajados pelo fervor religioso que com que ele e sua filha, Júlia Soêmia, a mãe do imperador, se dedicavam ao culto a El-Gabal.

Júlia Maesa então aproximou-se de sua outra filha, Júlia Maméia, que também tinha um filho, Marcus Julius Gessius Bassianus Alexianus (Severo Alexandre), então com 13 anos de idade, primo do imperador.

A influente Júlia Maesa conseguiu persuadir Elagábalo a nomear o seu primo como seu herdeiro, dando-lhe o título de “César”, passando a adotar o nome de Caesar Marcus Aurelius Alexander, em 221 D.C, Severo Alexandre seria Cônsul junto com Elagábalo. As duas mulheres também devem ter sido as responsáveis por espalhar o boato de que Alexandre seria também filho ilegítimo de Caracala, o que lhe granjearia a simpatia dos soldados.

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(estátua de Júlia Maesa)

Contudo, percebendo o entusiasmo que a nomeação de  Severo Alexandre provocou nos soldados da Guarda Pretoriana, já muito incomodados com os seus excessos, Elagábalo resolveu anular sua decisão e revogar os títulos concedidos ao seu primo. Contudo, essa decisão fez o  público e as tropas se alvoraçarem temendo pela vida do menino.

Os Pretorianos demandaram a presença de Elagábalo e de Severo Alexandre no Castra Pretoria, devido aos rumores de que Alexandre pudesse ter sido assassinado. É possível até que o motim tenha sido instigado por Júlia Maesa e Júlia Maméia. Quando Elagábalo chegou, começou um tumulto que degenerou no assassinato dele e de sua mãe, Júlia Soêmia, que depois tiveram os corpos arrastados pelas ruas, em 11 de março de 222 D.C.

Em 13 de março de 222 D.C., Severo Alexandre foi aclamado oficialmente imperador romano, adotando o nome de Marcus Aurelius Severus Alexander Augustus, nome escolhido para enfatizar a conexão dinástica com Septímio Severo e Caracala.

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Como o  imperador Severo Alexandre tinha  apenas 13 anos de idade, quem de fato detinha as rédeas do poder era sua mãe, Júlia Maméia.

Júlia Maesa e Júlia Maméia tinham testemunhado a catástrofe que a coroação de um imperador muito jovem, completamente despreparado e de comportamento indecoroso, como foi o seu seu sobrinho Elagábalo, representava, não só ao Império, mas, sobretudo, à própria sobrevivência da dinastia dos Severos.

Assim, as duas mulheres, que, naquele momento, eram as governantes de fato do Império Romano procuraram cercar o jovem Severo Alexandre dos mais ilustres e respeitáveis conselheiros, como foi o caso dos juristas Ulpiano, que foi nomeado para o importante cargo de Prefeito Pretoriano, e Paulus, e  também do senador e, mais tarde, historiador, Cassius Dio (Dião Cássio). Vale citar que Júlia Maesa morreria logo em 224 D.C., portanto, foi Júlia Maméia quem teve ascendência preponderante sobre o filho.

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(Busto de Ulpiano)

Graças a esse Conselho de homens notáveis, os primeiros atos do governo de Severo Alexandre visavam a recuperação moral e econômica do governo romano, a melhoria das condições da plebe de Roma e implantar medidas em prol dos soldados.

Foram implementavas ações para diminuir os gastos da Corte, considerada excessivamente luxuosa e extravagante. Talvez daí tenha surgido a fama de avarenta que Júlia Maméia gozou até o fim da sua vida. Uma fonte chegou a narrar que ela teria determinado que os restos dos banquetes no Palácio fossem recolhidos e guardados para serem servidos em outra oportunidade…

O denário foi inicialmente desvalorizado, provavelmente para aumentar a circulação de moeda e ajudar a equilibrar o déficit do Tesouro, mas posteriormente, mediante o aumento do percentual de prata, a moeda foi revalorizada, o que demonstra que houve uma melhoria nas contas públicas. Isso inclusive permitiu que os impostos fossem diminuídos, o que sempre estimula a economia e satisfaz os contribuintes. Esse programa foi completado pela criação de um serviço para emprestar dinheiro a taxas de juros moderadas.

Durante o reinado de Severo Alexandre foi construído o  Acqua Alexandrina, o último dos grandes aquedutos que abasteciam a cidade de Roma, em 226 D.C.. As Termas de Nero, que se encontravam em péssimo estado, foram reconstruídas, passando o complexo a ser conhecido como “Banhos de Alexandre”.

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(Um trecho do aqueduto Acqua Alexandrina, foto de Chris 73)

Severo Alexandre também estabeleceu medidas para beneficiar os militares no que se refere aos direitos sucessórios e pecúlios.

Todavia, já no início do reinado, Severo Alexandre sofreu com o problema da crescente indisciplina dos soldados.

Em 223 D.C., os Pretorianos, insatisfeitos com as medidas do Prefeito Pretoriano Ulpiano, a quem eles eram subordinados, assassinaram o famoso jurista na presença do próprio imperador. Ulpiano se tornaria célebre nas faculdades de direito por ter estabelecido o que seriam os preceitos principais do Direito: “Viver honestamente, não causar mal a ninguém e dar a cada um o que é seu” (Juris praecepta sunt haec: honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique tribuere)

Aliás, no período da dinastia dos Severos, apesar dos imperadores seguirem estritamente o conselho do seu fundador, Septímio Severo, de “dar dinheiro aos soldados e desprezar todos os outros“, aumentaram muito os episódios de indisciplina e insubordinação, chegando a um ponto que qualquer medida que visasse enrijecer a disciplina ou reduzir os donativos e gratificações, como ocorreu no reinado de Severo Alexandre, desencadeava rebeliões e motins entre a tropa, cuja efetividade em combate, também, parece ter sido comprometida.

Apesar das questões relativas à disciplina dos militares, o reinado de Severo Alexandre vinha tendo relativo sucesso em relação aos reinados anteriores de Elagábalo e Caracala, melhorando a economia e obtendo estabilidade política.

Contudo, eventos externos que ocorreram no reinado de Severo Alexandre, e em relação aos quais ele não teve qualquer responsabilidade,  não só causariam problemas que levariam à sua derrubada, mas teriam graves consequências estratégicas, que, futuramente comprometeriam a própria sobrevivência do Império Romano…

O primeiro deles foi a ascensão de Ardashir I (Artaxerxes I), nobre persa da Casa de Sassan, em 227 D.C., derrotando a dinastia dos Arsácidas, que fazia séculos governava o Império dos Partas e instalando a dinastia dos Persas Sassânidas, criando o império do mesmo nome. Os Sassânidas eram nacionalistas e centralizadores e eram muito mais agressivos militarmente do que os seus antecessores. Ironicamente, o principal motivo para a ascensão dos Sassânidas foram as sucessivas invasões que os romanos promoveram na Mesopotâmia parta durante os reinados de Trajano, Septímio Severo e Caracala, saqueando a capital Ctesifonte.

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(Relevo no Irã, retratando Ardashir e o deus Ahura-Mazda)

Em 230 D.C., Ardashir I lançou um ataque contra o sistema defensivo romano na fronteira da Mesopotâmia, sitiando a estratégica fortaleza de Nusaybin (Nísibis), sem, contudo conseguir tomá-la. Em seguida, as tropas persas invadiram as províncias da Síria e da Capadócia.

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Os Romanos foram obrigados a reagir militarmente, e o imperador teve que atender aos reclamos dos governadores.

Para lidar com a agressão persa, Severo Alexandre mandou reunir um exército com soldados das legiões espalhadas pelo Império. O historiador Herodiano de Antióquia narra que a medida causou comoção no Império, provavelmente pelo fato de terem sido recrutados soldados em províncias onde há muito não se faziam conscrições, como, por exemplo, a Itália.

Herodiano relata que Alexandre e sua comitiva integravam a expedição militar, sendo que ao partir o imperador pôde ser visto chorando e repetidamente olhando para trás enquanto deixava Roma.

Chegando no teatro de operações, o imperador ainda tentou apelar para a diplomacia, enviando embaixadores à Ctesifonte. Os embaixadores não foram recebidos, mas Ardashir mandou sua própria embaixada aos Romanos, com as seguintes exigências, segundo o historiador bizantino João Zonaras:

O Grande Rei Artaxerxes ordena aos romanos que deixem a Síria e toda a Ásia adjacente à Europa e permitam ao Persas governar até o mar“.

Como o objetivo dos Sassânidas era, como se vê no referido ultimato, restaurar o Império Persa às fronteiras dos gloriosos tempos de Dario e Xerxes, o que implicaria na perda para os Romanos das importantes províncias da Síria, Ásia, Capadócia e Bitínia, entre outras, a paz obviamente era impossível.

Nessa ocasião, houve mais uma prova de que a disciplina militar do Exército Romano estava seriamente comprometida: Quando as tropas estavam se preparando para cruzar os rios Tigre e Eufrates, para invadir o território persa, vários motins explodiram entre os soldados, especialmente entre os soldados do Egito, e também na Síria, onde as tropas até tentaram proclamar imperador um certo Taurinus,  no verão de 232 D.C., porém esta rebelião foi rapidamente debelada.

Os comandantes militares romanos decidiram dividir o exército em três. O primeiro destacamento invadiria ao norte a Armênia para atacar os Medos, súditos dos Sassânidas. O segundo atacaria a Mesopotâmia na confluência dos rios Tigre e Eufrates e o terceiro, sob o comando direto do imperador, atacaria os Persas no centro. Porém, na Armênia, os romanos tiveram muita dificuldade no terreno montanhoso, mas conseguiram chegar ao território dos Medos, devastando-o. Algumas tropas persas tentaram impedir o avanço, mas o terreno desfavorável à cavalaria impediu-os de engajar os Romanos.

Quando Artaxerxes I soube do avanço do segundo destacamento pelo Tigre e Eufrates, atacou aquele exército com suas tropas principais. Os Romanos avançavam sem muita cautela, pois até então não tinham enfrentado qualquer resistência. Assim, eles foram fragorosamente derrotados pelos Persas.

Para piorar, Alexandre foi aconselhado por Júlia Maméia, que acompanhava a comitiva, a não invadir a Pérsia com o seu exército, contribuindo para que as tropas do segundo destacamento fossem cercadas pelos arqueiros montados persas e aniquiladas.

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Apesar do fracasso da expedição, os Romanos conseguiram infligir muitas baixas entre os Persas, e dois dos três segmentos da força expedicionária devem ter conseguido sobreviver, o que impediu os Persas de explorarem a vitória na Mesopotâmia.

De volta a Antióquia, Alexandre distribuiu grandes donativos para as tropas e informou ao Senado, em Roma, que ele tinha vencido os Persas. E ao chegar em Roma, em 233 D.C., o imperador ainda chegou a celebrar um Triunfo.

De fato, como nenhuma inscrição ou texto persa relata uma vitória na ocasião, Artaxerxes I deve der ficado decepcionado com o desfecho da guerra, sobretudo porque as fronteiras do Império Romano no Oriente permaneceram inalteradas.

Assim, o conflito pode ser considerado um empate e Artaxerxes I somente voltaria a atacar o território romano em 237 D.C, dois anos após a morte de Severo Alexandre.

O conflito entre o Império Romano e o Império Persa duraria, com alguns intervalos de paz e vitórias e derrotas para ambos os lados, até a vitória final dos Romanos na Batalha de Nínive, em 628 D.C., no reinado do imperador romano-bizantino Heraclius.

O segundo evento que assolaria o reinado de Severo Alexandre foi a aparição nas fronteiras romanas dos rios Reno e Danúbio, da poderosa confederação de tribos germânicas dos Alamanos, que atacaram as fortificações romanas na fronteira e devastaram as cidades das províncias fronteiriças, em 234 D.C., ameaçando a província da Ilíria e, consequentemente, a própria Itália.

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Os Germanos, desde o final do século II A.C., vinham mostrando serem capazes de infligir grandes derrotas aos Romanos em batalhas isoladas, porém, os seus sucessos tinham duração efêmera, pois eles estavam organizados em inúmeras tribos pequenas, que não costumavam colaborar entre si, quando não guerreavam umas contra as outras. E, material e taticamente, em geral, os Germanos eram bem inferiores aos Romanos.

Todavia, assim como nós mencionamos acima com relação aos Persas e o Império Parta, foram os próprios Romanos que contribuíram para mudar a correlação de forças entre os Germanos.

Com efeito, de modo crescente, a partir de meados do século I A.C., os Romanos vinham empregando como soldados auxiliares tribos inteiras de Germanos. Muitos desses Germanos passavam 20 anos servindo no Exército Romano. Ao final do período, muitos adquiriam a cidadania romana, mas, ao contrário da maioria de outros povos que também forneciam tropas aos Romanos, muitos deles voltavam para as suas terras na Germânia, trazendo armamentos e táticas do exército romano. Com o tempo, os Germanos, que já eram tradicionalmente um povo de índole guerreira, foram adquirindo o conhecimento das táticas romanas e reunindo um grande arsenal de armas romanas, aprendendo também técnicas para o seu fabrico.

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A partir do século II D.C, começou a se observar que os chefes militares germânicos, muitos, provavelmente, egressos do Exército Romano, foram dominando as tribos vizinhas, que começaram a se aglutinar em forma de confederações de tribos.

Os achados arqueológicos, notadamente os provenientes de enterros em pântanos de turfa, mostram que, na virada do século II para o século III D.C., os bandos de guerreiros germânicos já demonstravam um grau de especialização (cavalaria, infantaria e arqueiros) e dispunham de espadas, elmos, armaduras (ao menos os chefes) e lanças que não ficavam a dever a dos Romanos, ou até mesmo eram de fabricação romana. Por sua vez, a nobreza germânica consumia produtos de origem romana e entesourava moedas de ouro romanas. Parece, neste particular, que os Romanos incentivaram a formação de verdadeiros reinos-clientes entre os Germanos.

Feita essa pausa digressiva, com a invasão dos Alamanos, mais uma vez, Severo Alexandre foi obrigado a se deslocar para o front de batalha. As tropas, cuja disciplina, como vimos, era problemática, estavam reclamando, especialmente as oriundas das províncias atacadas, pelo fato de Severo Alexandre tê-las feito lutar a campanha na Pérsia,  o que, no entender deles, provavelmente deve ter facilitado o ataque dos bárbaros germânicos.

Em Mogúncia, base das operações contra os Alamanos, Severo Alexandre, novamente, foi aconselhado por sua mãe a tentar conter a ameaça militar com a diplomacia. Nesse particular, não havia nada de absurdo naquele conselho, pois, há muito tempo, os Romanos costumavam pagar dinheiro aos Germanos para que estes ficassem sossegados e não atacassem o Império.

Não obstante, os militares tinham se acostumado com anos de condescendência, fraqueza e de mão-aberta dos imperadores em relação às suas demandas, e a insatisfação deles ao que parece, foi agravada pelos vexames de Elagábalo e pela falta de aptidão militar de Severo Alexandre, que, para piorar, parece que não era mesmo muito generoso nos donativos, em decorrência da sua política de austeridade fiscal, a qual era atribuída à mãe do imperador.

Assim, quando eles souberam que Severo Alexandre, seguindo as instruções de Júlia Maméia, estava disposto a dar dinheiro aos bárbaros Alamanos, as legiões aclamaram imperador o comandante da Legião IV Italica, Gaius Julius Verus Maximinus (Maximino Trácio).

Maximino era um Trácio da Moesia que quando criança trabalhara como pastor, mas, após entrar no exército romano, foi galgando postos, destacando-se nas batalhas devido a sua incrível força física. Há relatos de que ele teria cerca de 2m 40cm de altura e, de fato, as suas estátuas apresentam caracteristicas físicas de acromegalia. Ironicamente, ele havia sido promovido a comandante pelo próprio Severo Alexandre.

Entretanto, Não podia ser maior o contraste entre a figura frágil do imperador e a virilidade castrense de Maximino, que parecia aos soldados muito mais adequada para comandar o Exército naqueles tempos belicosos.

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Assim, no dia  19 de março de 235 D.C, quando se avistou a coluna de poeira deslocada pelas legiões que aclamaram Maximino, que se aproximavam do quartel-general em Mogúncia, só restou a Severo Alexandre apelar, sem sucesso, à lealdade dos soldados da Legião XII Primigenia,  que logo matariam ele e sua mãe. Era o fim da dinastia dos Severos, que governava Roma, com o breve intervalo de Macrino, desde 193 D.C.

Após saberem da execução de Severo Alexandre e Júlia Maméia, a Guarda Pretoriana também aclamou Maximino imperador e o Senado, constrangido, confirmou o nome dele, apesar de considerá-lo pouco mais do que um camponês bárbaro.

Maximino, sem deixar a Germânia, partiu para enfrentar os Alamanos, os quais conseguiu derrotar, apesar do exército sofrer pesadas baixas, no território romano dos Agri Decumates.

O reinado de Maximino marcaria o início da chamada “Crise do Século III“, o período  de grande instabilidade verificado entre 235 e 284 D.C quando 30 imperadores ocuparam o trono em 49 anos, ou seja, uma média de apenas 18 meses de reinado por imperador. Nesse período, vários imperadores foram assassinados, dois mortos no campo de batalha e um deles capturado vivo pelos Persas. Para se ter uma comparação, entre os reinados de Augusto e de Severo Alexandre, foram 28 imperadores para um período de 266 anos, com uma média de 9 anos e seis meses para cada reinado…

No ano de 238 D.C., ano que Maximino foi assassinado, houve cinco imperadores diferentes no trono, motivo pelo qual ficaria conhecido como “O Ano dos Cinco Imperadores“. E, em um futuro próximo, durante um bom período, a Gália e a Síria ficariam independentes, fazendo parte dos chamados “Império Gaulês” e “Império de Palmira“.

O principal motivo de tudo isso foi a duradoura incapacidade de Roma lidar com pesadelo estratégico da guerra em dois fronts naquele período. Embora haja também causas econômicas (especialmente déficit público causado pelos gastos militares e déficit comercial com a China) e demográficas (diminuição da população notadamente por epidemias).

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(Mapa do Império dividido – Blank map of South Europe and North Africa.svg: historicair

Para terminar nossa narrativa, é interessante citar, com a devida cautela quanto à veracidade do relato, da frequentemente imprecisa História Augusta, e também do historiador cristão Eusébio, ambos os textos datando provavelmente do reinado do imperador Constantino, o Grande, as passagens abaixo, que afirmam que Severo Alexandre era simpático ao Cristianismo.

Segundo Eusébio, no período que passaram em Antióquia, Júlia Maméia, que era muito religiosa, mandou Severo Alexandre estudar com o afamado teólogo cristão Orígenes.

Já a História Augusta (Lampridius) relata que Severo Alexandre colocou em seu “lararium” (oratório doméstico) imagens do patriarca Abraão e de Jesus Cristo, entre outros místicos famosos, como Apolônio de Tiana.

Ainda segundo a História Augusta, Severo Alexandre chegou a pensar em erguer um Templo em honra a Cristo em Roma e teria mandado gravar no Palácio dos Césares “as famosas palavras de Cristo”:

Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem contigo.”

VALENTINIANO I – O ÚLTIMO GRANDE IMPERADOR

Em 26 de fevereiro de 364 D.C, Flavius Valentinianus (Valentiniano I) foi proclamado Augusto (Imperador) por uma assembléia da qual participaram os mais importantes ministros e governadores do Império Romano, reunidos em Nicéia, na Província Romana da Bitínia, na Ásia Menor.

(Solidus de Valentiniano I, foto de Siren-Com )

O motivo desse verdadeiro, embora incomum, conclave foi a morte repentina do imperador Joviano, ocorrida enquanto ele deslocava de Ancyra para Nicéia. Joviano tinha recentemente ascendido ao trono, imediatamente após a desastrosa campanha promovida pelo imperador Juliano, “o Apóstata”, contra a Pérsia Sassânida, a qual culminara com a derrota do exército romano e a morte do próprio Juliano em combate.

Para salvar a própria pele e conseguir retirar o remanescente do Exército Romano da Pérsia, Joviano teve que assinar com os Persas um humilhante tratado de paz, entregando aos inimigos as cinco províncias orientais que haviam sido conquistadas pelo imperador Diocleciano, quase um século antes, além das estratégicas cidades de Nísibis e Síngara, duas praças-fortes que pertenciam a Roma desde o reinado de Septímio Severo, ainda no início do século III D.C.

Contudo, com a morte inesperada de Joviano, que ainda se encontrava a caminho de Constantinopla para consolidar o seu poder, decidiu-se,  pela primeira vez na História de Roma, ao invés de se resolver a  sucessão pela forma mais usual – a vitória militar de um general contra os seus rivais – pela convocação de uma reunião dos mais importantes funcionários civis e militares do Império. Assim, após a análise de várias opções, os participantes escolheram Flávio Valentiniano, o comandante do regimento de infantaria de elite dos “Scuttarii“, uma tropa de elite que fazia parte do séquito pessoal do imperador.

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(Um scutarii deveria se parecer com este soldado do Baixo Império Romano, em 1º plano)

Valentiniano nasceu em 321 D.C, no sul da Província Romana da Panônia, na cidade de Cibalae (hoje Vinkovci, na atual Croácia), filho de um humilde camponês chamado Graciano (não confundir com o imperador homônimo, que era  filho de Valentiniano).

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(Atual cidade de Vinkovci, foto: Frane Lovošević, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons)

O pai de Valentiniano entrou para o Exército Romano e foi galgando postos até ingressar na unidade de elite dos “Protectores domestici“, que eram os guarda-costas do Imperador Constantino I. A partir daí, Graciano foi promovido a general e conseguiu ser nomeado Conde da África, local onde ele foi acusado de enriquecimento ilícito, sendo, por causa disso, afastado. Não obstante, algum tempo depois, Graciano foi reabilitado, chamado de volta e nomeado Conde da Britânia. Finalmente, depois de exercer esse cargo, Graciano retirou-se da vida pública e voltou para suas propriedades em sua terra natal, na Panônia.

Entretanto, o tempo das boas graças de Graciano duraria pouco, pois o Imperador Constâncio II, alegando que Graciano teria hospedado o usurpador Magnêncio quando este esteve na região da Panônia, mandou confiscar as terras dele.

Durante os anos de serviço do pai, Valentiniano entrou para o exército, provavelmente também como “Protector domesticus” e, do mesmo modo que seu pai, foi sendo paulatinamente promovido.

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No reinado de Constâncio II, os bárbaros Alamanos ameaçaram seriamente a Gália, e, aproveitando-se da guerra civil então travada entre o imperador e Magnêncio, cruzaram o Reno e atacaram várias cidades. Valentiniano, agora servindo como tribuno, sob as ordens do César (príncipe-herdeiro) Juliano, foi encarregado de interceptar um bando de Alamanos que havia atacado Lyon, em 355 D.C.

Todavia, para poder cumprir aquela missão com eficiência, Valentiniano dependia do auxílio de Barbatio, um general que estava envolvido em uma conspiração para prejudicar Juliano. E, naturalmente, o conspirador não tinha nenhuma intenção em ajudar Juliano…Assim, sem o apoio de Barbatio, as tropas comandadas por Valentiniano acabaram sendo derrotadas pelos Alamanos, com grandes perdas.

Valentiniano foi, injustamente, considerado responsável pelo fracasso e afastado do Exército, acabando por ter que ir viver em suas terras em Sirmium, cerca de 55 km da atual Belgrado. Nesse período, nasceu seu filho, que recebeu o nome do avô, Graciano (e que também, futuramente, se tornaria imperador).

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(Mapa da Prefeitura de Illyricum, mostrando a localização da cidade de Sirmium)

Para piorar a sua situação, quando Juliano tornou-se imperador, a carreira de Valentiniano correu sério risco, pois o novo monarca, que até então vinha ocultando o seu apreço pelas religiões pagãs tradicionais, rapidamente colocou em prática medidas para enfraquecer o Cristianismo e recolocar o paganismo em proeminência no Estado Romano. Valentiniano, entretanto, era um notório católico devoto,

Não surpreende,p ortanto, o fato que Valentiniano, após se recusar a assistir ou fazer um sacrifício em uma cerimônia pagã da qual estava obrigado a participar, tenha sido exilado, ou, em uma versão mais branda do caso, tenha sido designado para servir numa província distante, talvez o Egito ou a Armênia.

Foi somente quando Juliano, o último integrante da dinastia inaugurada por Constantino I, morreu, em mais uma campanha romana fracassada na Pérsia (363 D.C), e o novo imperador romano cristão Joviano assumiu, que a sorte voltou a sorrir para Valentiniano. Ele conseguiu ser nomeado comandante dos Scuttari e, consequentemente, agora chefiava uma das mais importantes unidades de elite da Guarda Imperial (Scholae Palatinae).

E foi nesse posto que, como vimos, Valentiniano I foi escolhido como novo Imperador Romano, com a idade de 43 anos, no conclave que citamos anteriormente.

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(“Il Colosso” de Barletta, estátua de bronze de um imperador romano, provavelmente trazida para a Itália pelos Cruzados proveniente do Saque de Constantinopla, e que se acredita retratar Valentiniano I). Foto: User:Marcok, CC BY-SA 2.5 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.5, via Wikimedia Commons

Porém, a situação do Império Romano naquele momento era nada menos do que dramática: No front militar, à derrota na Pérsia e à perda de territórios estratégicos, que colocavam pressão sobre as cruciais províncias da Síria e do Egito, no Oriente, somava-se a crescente ameaça das tribos germânicas no Reno e no Danúbio, no Ocidente, as quais, oportunisticamente, sempre aproveitavam qualquer insucesso militar romano para tentar incursões no território do Império, em busca de saques, ou, alternativamente, extorquir algum pagamento em troca de paz.

E o quadro político interno também não era animador. O breve reinado de Juliano contribuíra para aumentar a intolerância religiosa do Cristianismo triunfante. Começava, assim, a aumentar uma fenda entre a elite de Constantinopla, marcadamente cristã ortodoxa, e a elite tradicional romana pagã, ainda muito influente no Ocidente, sobretudo no Senado Romano.

Eram tempos conturbados,  que imploravam por um líder enérgico, resoluto e incansável, mas também consciencioso, e essas seriam justamente as características mais marcantes de Valentiniano I, em seu reinado.

Não obstante, logo em seguida à proclamação de Valentiniano I, o Exército Romano demandou que ele escolhesse um co-imperador. Tendo em vista que, desde Diocleciano, estabelecera-se um quase consenso de que o Império Romano era extenso e complexo demais para ser governado apenas por um imperador em Roma, e, ainda, a premência da situação militar no Ocidente e no Oriente, dificilmente este comportamento dos generais deve ser visto como uma rejeição à Valentiniano, e sim, mais como o requerimento por uma providência julgada indispensável.

Porém, eu também acredito que, provavelmente, essa reivindicação para que Valentiniano I escolhesse um colega deve ser entendida como uma pretensão daqueles que, em Constantinopla, temiam perder poder com uma reunificação administrativa do Império. O fato é que, um mês depois, Valentiniano I nomeou seu irmão, Valente, como Imperador Romano do Oriente.

Valens_medal,_375-78_AD(medalhão de ouro, de Valente, foto de Sandstein

Valente logo teve que lidar com a revolta de Procopius, um parente de Juliano,  a quaL, porém, foi rapidamente debelada. Depois, ele conduziu algumas campanhas no Danúbio contra os Visigodos, do rei Atanarico, obtendo uma paz em termos favoráveis aos romanos, inclusive parando de pagar o subsídio anual que o Império vinha pagando aos visigodos para não ser atacado.

Valentiniano foi dar combate aos Alamanos.que, em 365 D.C,  invadiram novamente a Gália. Ele estabeleceu-se em Augusta Treverorum (atual Trier, na Alemanha) para conduzir a guerra. De lá, Valentiniano comandou a formação de um grande exército para guerrear contra os referidos bárbaros.

O Autor em frente à chamada “Porta Nigra”, em Trier, antiga Augusta Treverorum, em 2009, onde alguns imperadores do Baixo Império Romano estabeleceram-se para lutar contra os Germanos. Era o portão principal das muralhas da cidade e já tinha mais de 200 anos quando Valentiniano o cruzou

Em 367 D.C, Valentiniano e seu exército cruzaram os rios Meno e Reno e invadiram o território inimigo, inicialmente quase sem encontrar resistência, queimando tudo que encontraram em seu caminho. Os Alamanos então resolveram lutar e travou-se a Batalha de Solicinium, provavelmente ocorrida onde hoje fica a cidade de Hechingem (no atual Estado alemão de Baden-Wurttemburg). Essa região tinha sido abandonada pelos romanos fazia cerca de um século antes e uma vez fez parte dos chamados “Agri Decumates” (campos que pagam o dízimo, um território anexado ainda no século I.

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(Provável lugar da Batalha de Solicinium. No reinado de Valentiniano I, os romanos ainda eram capazes de atacar os Germanos à leste do Reno)

A Batalha de Solicinium foi duríssima, com pesadas perdas romanas, mas os Alamanos foram derrotados. Foi a última vez que um imperador comandou um grande exército romano e conduziu com sucesso uma campanha além da margem direita do Reno.

Nesta campanha, Valentiniano fez-se acompanhar do filho Graciano, com apenas 8 anos de idade. Claramente, portanto, o imperador já demonstrava que o queria para sucessor, pois, naquele ano, o menino foi proclamado Augusto, ou seja, co-imperador.

Valentiniano, entrementes, ainda em 367 D.C, também teve que enfrentar uma grande rebelião na Britânia – um ataque combinado das tribos dos Pictos e Escotos, em conjunto com os invasores saxões que assolavam o litoral leste da Ilha (fato que já havia levado os próprios romanos a batizarem aquele trecho como “Costa Saxã“). Essa ameaça só foi derrotada com muito custo, após a chegada do Conde Teodósio, nomeado por Valentiniano para comandar as forças romanas.

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(Portus Adurni, atualmente Portchester Castle, no porto de Portsmouth, na costa oriental da Inglaterra, fortaleza integrante do sistema romano de fortificações da Saxon Shore (Costa Saxã), Foto: ale speeder, CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Commons

Valentiniano  também conduziu um grande programa de reparo e construção de fortificações ao longo da fronteira Reno/Danúbio, o que irritou os bárbaros germanos, dando-lhes o pretexto para novas agressões.

Outra importante iniciativa de Valentiniano foi recompor os efetivos do Exército Romano, não só preenchendo as lacunas decorrentes das recentes derrotas sofridas, mas até aumentando o seu número, procurando cumprir estritamente o recrutamento anual.

Aliás, um fato notável, que demonstra a dificuldade que constituía o recrutamento naquele período turbulento do Império, bem como a medida da determinação de Valentiniano em restaurar o poderio militar romano, foi a redução da altura mínima exigida para os recrutas: de 1,77m para 1,70m, aumentando, deste modo, a massa da população recrutável.

A maior fonte sobre o reinado de Valentiniano I é o historiador Amiano Marcelino, ele mesmo um ex-militar dos Protectores Domestici, e considerado por muitos como o autor romano que melhor escreveu sobre o Baixo Império Romano.

Segundo Amiano, o imperador Valentiniano

detestava as pessoas bem vestidas, cultas, ricas e bem-nascidas“, sendo ele mesmo “rústico, inculto e, frequentemente, violento“.

Realmente, diversas passagens atestam que Valentiniano era dado a acessos de fúria, sobretudo quando se deparava com erros ou irregularidades praticados pelos subordinados. Mas quanto ao ódio às pessoas cultas, ainda que a acusação de Amiano possa ser verdadeira, o fato é que essa alegada antipatia do imperador não se estendia à cultura em si, pois, consta que Valentiniano mandou abrir várias escolas pelo Império Romano.

Sendo ou não exagerada a observação de Amiano acerca do ódio de Valentiniano às classes altas romanas, o fato é que ele foi reconhecido por várias medidas em favor dos mais pobres e inclusive procurou proteger os humildes das arbitrariedades cometidas pelos poderosos.

Neste particular, uma de suas medidas mais meritórias foi instituir em todo o Império o cargo de “Defensor Civitatis“, cuja principal função era ser um advogado público, em prol dos plebeus contra as injustiças dos poderosos. Portanto, atrevemo-nos a dizer que Valentiniano pode ser considerado um dos patronos da moderna Defensoria Pública.

Coube a Valente  implementar essa política de Valentiniano no Oriente. As palavras dele acerca do cargo de Defensor foram preservadas no preâmbulo de um édito:

Nós propiciamos, mediante um útil projeto, que a inocente paz dos camponeses possa gozar do benefício de uma proteção especial, prevenindo que eles sejam prejudicados e molestados pelas artimanhas de uma disputa jurídica, mesmo quando lhes é devida uma reparação;  porque muitas vezes um advogado ganancioso é desidioso, o oficial que guarda as portas do tribunal é amolecido por grandes propinas, as atas do julgamento são vendidas pelos serventuários, e aqueles que administram a justiça cobram mais em taxas do que um litigante bem sucedido receberia da parte contrária“.

Ao contrário de seus predecessores cristãos da dinastia constantiniana, Valentiniano adotou uma postura tolerante com o paganismo e as heresias cristãs. Ele continuou permitindo, por exemplo, a prática de sacrifícios noturnos, a antiga prática de adivinhações pelos harúspices e os antigos mistérios pagãos.

A.H.M Jones cita as seguintes palavras, escritas a esse respeito pelo próprio Valentiniano, em uma carta:

Eu não considero que qualquer rito permitido por nossos ancestrais seja criminoso, As leis editadas por mim no início de meu reinado são testemunhas disso, motivo pelo qual a todos foi concedida a livre escolha de praticar qualquer religião que a sua vontade determinar“.

Uma política sábia que, infelizmente,  não seria seguida por seus sucessores, e que muitos ainda não seguem, mesmo em nossos dias…

Porém, em 374 D.C, chegou a notícia de que os Quados, o povo germânico que era um velho inimigo de Roma e habitava ao longo do Danúbio,  após aliarem-se aos bárbaros sármatas,  tinham derrotado duas legiões romanas. A causa principal do conflito foram as fortalezas romanas que, seguindo a política de Valentiniano, estavam sendo construídas em território bárbaro.

Valentiniano cruzou o Danúbio em Aquincum (localizada dentro da área da atual Budapeste) e devastou o território dos Quados, voltando para Savaria para passar o inverno.

No ano seguinte, Valentiniano recomeçou a campanha e dirigiu-se a Brigetio, também situada na atual Hungria. Lá, em 17 de novembro de 375 D.C, ele recebeu em audiência uma delegação dos Quados.

Durante a audiência, os Quados reclamaram que os romanos eram culpados da guerra, devido à construção dos fortes. Às condições estipuladas para o fim das hostilidades, que previam que eles deveriam fornecer recrutas para o Exército Romano, os Quados retrucaram que os grupos aliados que não estivessem presentes na audiência não estavam obrigadas a respeitá-las, sendo livres para atacar os romanos quando quisessem.

Furioso com a insolência dos embaixadores quados, Valentiniano I ergueu-se de sua cadeira e começou a gritar, censurando duramente os bárbaros. De repente, o rosto rubro do Imperador congelou-se em uma máscara terrível e a voz  tonitruante dele sumiu…Uma artéria no seu crânio acabara de arrebentar e ele tinha sofrido um derrame, tendo que ser retirado do recinto,  completamente imobilizado, falecendo pouco depois.

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Brigetio, atual Komárom/Szőny, na Hungria, não esqueceu que foi palco da morte de um grande imperador romano, como mostra essa placa moderna em homenagem a Valentiniano I

O filho de Valentiniano I, o jovem Graciano, de apenas 16 anos, foi aclamado imperador do Ocidente, permanecendo seu irmão, Valente, como monarca da parte oriental, em Constantinopla.

No ano seguinte, 376 D.C, chegaria ao Danúbio uma grande e perigosa migração dos Godos.

Essa era uma ameça tremenda, mas que poderia ser enfrentada por um líder capaz, e determinado. Infelizmente, nem Graciano e, menos ainda, Valente, mostrariam-se à altura do desafio.

Assim, em 378 D.C, os Godos derrotariam os romanos na Batalha de Adrianópolis e o Império Romano começaria a longa, mas inexorável, trajetória de sua derrocada. Talvez, se Valentiniano I não tivesse se enfurecido tanto com os Quados em Brigetio, e sobrevivido até Adrianópolis, podemos cogitar que ele não cometeria os erros de Valente. Certamente,  Valentiniano I não teria permitido aos Godos cruzarem o Danúbio, e ele teria jogado contra os bárbaros todo o poder combinado do Exército Romano.

Epílogo

Na cidade de Barletta, na Itália, existe uma enorme estátua de bronze, da época romana, datada do século IV D.C, retratando um imperador em tradicional traje romano de general, segurando um crucifixo. Ela é chamada de “Il Colosso“.

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Não se tem certeza absoluta de quem é o Imperador representado, mas o candidato considerado como o mais provável pelos especialistas é Valentiniano I. A expressão dura, fechada, resoluta e de ar implacável daquele rosto de bronze é um perfeito retrato da personalidade e dos tempos de Valentiniano I.

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FIM

Fontes:

1- “Quem foi Quem na Roma Antiga“, Diana Bowder, 1980, Ed. Círculo do Livro

2- “Declínio e Queda do Império Romano“, Edward Gibbon, 1980, Ed. Círculo do Livro

3- “The Later Roman Empire (AD 354-378)“, Ammianus Marcellinus, 1986, Penguin Books

4- “The Later Roman Empire 284-602, vol. 1“, A.H.M. Jones, The John Hopkins Universitary Press, 1986

ZENÃO I – O BÁRBARO QUE VIROU IMPERADOR

Em 9 de fevereiro de 474 D.C, em Constantinopla, Zenão I é coroado Imperador Romano do Oriente, juntamente com seu pequeno filho, Leão II.

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(Tremissis, moeda de ouro do imperador Zenão, foto Classical Numismatic Group)

Nascido em 425 D.C,  na cidade de Rusumblada (que depois seria rebatizada de Zenopolis), com o nome de Tarasicodissa, ou Tarasis Kodisa, Zenão I era chefe de uma tribo de Isáurios, um povo que, de vez em quando, era recrutado para lutar no exército do Império Romano do Oriente.

Assim, em 461 D.C, o imperador Leão I alistou os Isáurios para servirem na sua recém-formada guarda imperial, chamada de “Excubitores” – expressão que  tinha o significado de “sentinelas” ( literalmente, em latim, quer dizer “os do lado de fora da cama”).

Posteriormente, nos séculos VI e VII, os Excubitores seriam responsáveis por elevar vários imperadores ao trono, e, mais que isso, muitos Comes Excubitorii (Condes dos Exubitores) tornariam-se imperadores bizantinos, tais como Justino I,  o filho dele,  Justiniano I, Tibério II e Maurício.

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(Excubitores, em trajes de gala e de combate, protegendo o imperador)

A iniciativa de Leão de criar uma guarda composta por Isáurios visava diminuir a opressiva influência que os bárbaros germânicos, chefiados pelo  general bárbaro Áspar, exerciam desde o início do século V no governo oriental, pois, naquele momento, os germanos constituíam o esteio militar de Constantinopla.

Os Isáurios eram um povo de índole guerreira que habitava a Província romana da Cilícia, na Ásia Menor (dentro do território da atual Turquia). Apesar da região ter sido conquistada pelos romanos no século I D.C, os Isáurios nunca chegaram a ser totalmente subjugados. Em verdade, ao longo de  séculos de domínio nominal romano, eles foram apenas parcialmente romanizados, mas adotaram o cristianismo ortodoxo (Niceno), um fato que, naquele final do século V, os fazia bem mais aceitáveis para os cidadãos romanos do que os Godos ou Alanos ( os quais professavam a heresia ariana). Apesar disso, os Isáurios ainda eram considerados bárbaros pela maioria dos habitantes do Império.

(Mapa da Isáuria, Montanhas Atlas, que dominam a antiga região da Isáuria -foto de Zeynel Cebeci e o rio Göksu, na região – foto de Klaus-Peter Simon)

Em 466 D.C, marcando uma reviravolta no jogo do poder, Tarasis Kodisa, comandante isáurio dos Excubitores, acusou Ardabur, o filho mais velho do general Áspar de trair o império em favor dos velhos inimigos persas, o que contribuiu para piorar as relações entre Áspar e o Imperador.

Leão I, em 467 D.C, recompensou Tarasis Kodisa pelos seus bons serviços, dando-lhe em casamento a sua filha, a princesa Ariadne, e também reforçando a aliança com o militar isáurio, que, para se fazer mais aceitável para a Corte e para o povo, mudou seu nome para o de origem grega Zeno (ou Zenão). Antes que o casamento completasse um ano, Ariadne deu a luz ao filho de Zeno, que recebeu o mesmo nome do seu avô, o imperador Leão.

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(relevo de Ariadne, em marfim)

Enquanto isso, Áspar tentou recuperar sua posição na Corte persuadindo Leão a nomear seu filho mais novo, chamado Patrício, como “César” (título que na época do Baixo Império correspondia ao de príncipe-herdeiro) e a casá-lo com a outra filha do Imperador, Leôncia. Porém, o clero e a população de Constantinopla se opuseram veementemente às pretensões de Áspar, inclusive promovendo um grande tumulto no Hipódromo da capital, tendo em vista que o general bárbaro e o filho eram cristãos arianos. Assim, devido ao clamor público, Áspar, teve que se comprometer que ele se converteria ao credo niceno, antes que o casamento fosse realizado.

Contudo, após a  pretendida nomeação de Patrício, mas ainda antes do seu casamento, já em 471 D.C.., uma trama urdida por Leão I e Zenão conseguiu assassinar Áspar e seu filho mais velho, Ardabur, no interior do próprio Palácio Imperial. Algumas fontes informam que Patrício também foi morto,  e outras que, ferido, ele conseguiu sobreviver. Devido ao massacre, ocorrido em pleno Palácio, Leão foi apelidado de “O Açougueiro“…

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(Áspar, ostentando o traje e postura tradicional de Cônsul Romano, cargo que ele efetivamente ocupou, junto com seu filho Ardabur, retratado como Pretor – foto de Sailko)

Quando Leão morreu, em 18 de janeiro de 474 D.C,  sem conseguir gerar um filho varão, o  neto dele, e filho de Zenão, com o nome de Leão II, foi coroado imperador, com apenas 7 anos de idade. Porém,  ninguém tinha dúvida de que o homem-forte do Império era Zenão.

E, poucos dias mais tarde, também ninguém ficou surpreso, quando, não dando importância para as aparências, em 9 de fevereiro de 474 D.C, Zenão  foi nomeado Augusto, e, portanto, co-imperador,  junto com o filho.

O reinado de Leão II duraria apenas 10 meses, pois o menino contraiu uma enfermidade não-identificada e morreu em 17 de novembro de 474 D.C., deixando seu pai Zenão I como Imperador Romano de fato e de direito.

Quase dois anos depois, em 4 de setembo de 476 D.C, Rômulo Augústulo, o Imperador Romano do Ocidente, na verdade um mero fantoche do general bárbaro Orestes, foi deposto pelo chefe da tribo dos mercenários hérulos,  Odoacro.

Odoacro, ao invés de arranjar outro nobre romano para ser sua marionete, surpreendentemente resolveu se nomear ‘Rei da Itália” (Rex) e, valendo-se de um dócil Senado Romano ( que, aparentemente, detestava mais ainda Constantinopla do que os bárbaros) enviou as insígnias imperiais* do Imperador do Ocidente para o imperador Zenão, em Constantinopla.

O fato é que Zenão e a corte de Constantinopla, na verdade, entendiam que Rômulo Augústulo era um usurpador, pois Leão I tinha nomeado Júlio Nepos, que ainda estava vivo e controlava a região da Dalmácia, como Imperador do Ocidente.

Assim, Zenão aceitou as insígnias imperiais de volta, mas recomendou a Odoacro que reconhecesse a autoridade de Júlio Nepos. E, diga-se de passagem, o chefe bárbaro,  agindo de modo conciliador, até cunhou moedas em nome de Nepos, como imperador, porém sem jamais permitir o retorno dele à Itália.

Juridicamente, assim, Zenão agora era o único Imperador Romano, soberano das metades oriental e ocidental do Império Romano. Contudo, a realidade fática era outra:  em verdade, ele não era capaz de projetar poder sobre as províncias do Ocidente, já que a última província ocidental efetivamente governada por Ravena – a capital do Ocidente- era a Itália controlada por Odoacro, sendo a única exceção um enclave romano na Gália, governado pelo chefe militar romano Siágrio, que, no entanto,  em breve seria aniquilado pelos Francos.

Por tudo isso, a data de 476 D.C é considerada pela maioria dos estudiosos como a da Queda do Império Romano do Ocidente que, além disso, marca o início oficial da Idade Média.

Desde o inicio, o reinado de Zenão foi abalado por revoltas e conspirações para derrubá-lo, pois sua origem bárbara tornava-o impopular junto ao Senado e ao povo de Constantinopla.

Assim, em 475 D.C, durante a revolta de Basilisco, o incompetente, porém ambicioso cunhado de Leão I, Zenão até teve que fugir da capital,. Mas o Isáurio conseguiria derrotar todas as revoltas, inclusive a de Marciano, em 479 D.C, e a de Illus, em 484-489 D.C).

Porém, naquele momento, a principal ameaça ao Império vinha dos Godos estabelecidos nos Bálcãs. Mas, para sorte dos romano-bizantinos, os bárbaros estavam divididos e Zenão, valendo-se disso, atuou para fomentar ainda mais a discórdia entre eles.

Com efeito, Zenão conseguiu persuadir Odorico, o novo rei dos Ostrogodos, ramo dos Godos que permanecia nos Bálcãs, a invadirem a Itália, visando a destronar Odoacro.

E esta talvez tenha sido a maior contribuição de Zenão ao Império do Oriente, pois, com a saída de Teodorico e seus Ostrogodos, a ameaça germânica foi afastada do Oriente.

Zenão I morreu em 9 de abril de 491 D.C., e seu sucessor, Anastácio, teve o o apoio da Imperatriz-viúva Ariadne, que se casaria com ele logo depois. Longinus, irmão de Zenão I, que tinha pretensões a suceder o irmão falecido no trono, instigou uma revolta na Isáuria, a qual, contudo, não teve sucesso, e ele acabou sendo exilado da Corte, no sul do Egito.

Leão I, Zenão e Anastácio foram importantes para assegurar a sobrevivência do Império do Oriente, livrando-o das maiores ameaças externas e assegurando uma estabilidade e continuidade administrativa, inclusive devido a longa duração dos três reinados.

*Acredita-se que as insígnias imperiais fossem um conjunto de objetos utilizados pelo imperador ou que o acompanhavam nas cerimônias públicas, tais como uma tiara ou coroa, um cetro,  um esfera, um estandarte, possivelmente com uma águia e/ou o monograma chi-ro, o manto imperial púrpura e os seu broche.

(Objetos como o cetro de Maxêncio, encontrado há alguns anos no Palatino, em Roma, ou aqueles retratados no calendário de Filócalo, de 354 D.C., ou, ainda, na pintura de Septímio Severo, de cerca de 200 D.C., deviam estar entre os objetos enviados por Odoacro a Zenão I, quando o primeiro destronou Rômulo Augústulo, o último imperador romano do Ocidente)

SEPTÍMIO SEVERO – DÉSPOTA APLICADO

SEPTIMIO SEVERO – DÉSPOTA APLICADO

Em 4 de fevereiro de 211 D.C., morre, aos 65 anos de idade, em Eburacum (atual York, na Inglaterra), o imperador Lucius Septimius Severus Eusebes Pertinax Augustus, mais conhecido como Septímio, Sétimo ou Setímio Severo.

 

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Quando Severo morreu, na longínqua província da Britânia, ele estava no curso de uma operação contra os bárbaros Caledônios, que acossavam a província romana a partir do outro lado da Muralha de Adriano. Esta era mais uma campanha militar de um imperador que, em seus 18 anos de reinado, passara quase todo o tempo incansavelmente em guerra, contra vários inimigos externos, e também alguns internos.

Lucius Septimius Severus nasceu em 11 de abril do ano de 145 D.C, na cidade de Leptis Magna, na Província Romana da Tripolitania (atual Líbia), filho de Publius Septimius Geta e Fulvia Pia. O pai dele era integrante de uma família de ancestralidade púnica, ou seja, ligada aos fundadores de Cartago, que eram oriundos da Fenícia, mas que, provavelmente, tinha também algum sangue berbere, a população nativa da região.

O avô de Severo, também chamado Lucius Septimius, era da classe equestre, o segundo nível da nobreza romana. Já a esposa deste último, e avó paterna de Severo, Victoria, era filha de Marcus Vitorius Marcellus, que foi senador e consul suffectus,  em 105 D.C, e de Hosidia, filha de Gnaeus Hosidius Geta, que também foi general, senador e consul suffectus, no ano de 49 D.C.

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(vista de Leptis Magna, foto de SashaCoachman)

Por sua vez, a mãe de Severo, Fulvia Pia, era de uma antiga família plebéia que, ainda em meados do período republicano, ingressou na nobreza, exercendo, inclusive, vários consulados. Alguns Fúlvios provavelmente se mudaram para Leptis Magna quando a cidade foi reorganizada e recebeu políticas de incentivo por parte de Júlio César, quando este tornou-se Ditador.

Leptis Magna, originalmente fundada pelos Púnicos, ou Cartagineses, no século VII A.C, era uma cidade rica que governava um território fértil, extensamente cultivado. E, portanto, sendo uma das famílias mais ilustres da cidade, certamente os Severos deveriam ser também muito ricos.

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Consequentemente, o jovem Severo recebeu a melhor educação que a cidade de Leptis Magna poderia fornecer, tendo sido educado em latim e grego. Entretanto, sabemos que Severo também falava o idioma púnico local, que talvez fosse até a sua língua de infância, pois as fontes relatam que ele falava latim com forte sotaque púnico. Severo deve também com certeza ter aprendido Oratória, pois sabe-se que, em Leptis, ele fez o seu primeiro discurso público, aos 17 anos.

Depois disso, obviamente almejando horizontes maiores na vida do que os que a provinciana Leptis lhe permitia, Severo, por volta de 162 D.C, partiu para Roma, a Meca de todos os jovens bem-nascidos do Império.

E quando Severo chegou a Roma, ele foi recomendado por um parente ilustre ao imperador Marco Aurélio, que, em virtude disso, mandou arrolá-lo, já que era descendente de cônsules, como membro da ordem senatorial, o cume da nobreza romana.

Com isso, abriram-se para Severo as portas do “cursus honorum” – a carreira das magistraturas – e ele foi nomeado um dos “Vigintivir”,  membro de um colégio de 26 magistrados juniores, que cuidavam, entre outras coisas, de casos judiciais menores e também da manutenção de estradas, ruas ou prédios públicos. Posteriormente, Severo foi nomeado advocatus fiscus, uma espécie de procurador público imperial.

Contudo, sendo ainda muito jovem para ocupar cargos mais elevados e,  tendo em vista a chegada a Roma de uma epidemia de peste, Severo resolveu voltar para Leptis Magna.

Entretanto, durante o tempo em que esteve de volta em sua terra natal, Severo completou 25 anos, que era a idade requerida para o cargo de Questor, e, por sorte, a epidemia em Roma abrandou, permitindo que ele voltasse para Roma e assumisse, em 169 D.C, aquele prestigioso cargo.

Então, como Questor, Severo conseguiu, enfim, ingressar legalmente no Senado Romano.

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Vale ressaltar que muitos cargos haviam ficado vagos em função da virulência da referida Peste, que havia ceifado muitas vidas, o que permitiu que Severo progredisse ainda mais no serviço público. Assim, ele foi nomeado Questor pela segunda vez.

Porém, logo após esses progressos, Severo foi surpreendido pelo repentino falecimento de seu pai e ele foi obrigado a voltar para Leptis para resolver assuntos ligados à sucessão e ao inventário do falecido.

Resolvidas as questões sucessórias, Severo foi cumprir o resto do mandato de Questor na ilha da Sardenha, que estava temporariamente sob administração do Senado Romano.

Em seguida, Severo foi servir com seu parente Gaius Septimius Severus, que tinha sido apontado Proconsul da África, na qualidade de Legatus pro Praetor, ou seja, general.

Novamente de volta à Roma, em 174 D.C,  Severo foi escolhido, como candidato do próprio Imperador, Tribuno da Plebe.

Sem dúvida, Severo, até então, estava tendo uma carreira notavelmente promissora: Com efeito, apesar dos relatos dos historiadores de que ele era alvo de piadas em Roma por causa do seu forte sotaque púnico, restava claro que Severo estava sendo visto com simpatia pelos poderosos, e até pelo próprio Imperador, fato que não é de surpreender, pois, como relatamos no início, o seu pedigree genealógico era suficiente para competir com outros candidatos aos cargos mais importantes.

Severo era um homem forte, embora de baixa estatura, e de pele bem morena, como os naturais do Norte da África. E um dos traços mais marcantes da sua personalidade era ser muito supersticioso, acreditando em sonhos premonitórios e astrologia, que frequentemente lhe prediziam um futuro brilhante. Ele também sentia-se muito ligado à sua Leptis Magna natal e por isso, parece natural que, quando Severo resolveu se casar, aos 30 anos de idade, ele tenha escolhido uma esposa natural de Leptis, chamada Paccia Marciana, membro de uma família de origem púnica, como a sua.

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O casamento com Marciana durou dez anos e, se eles tiveram filhos (a História Augusta, considerada pouco confiável, relata duas meninas), os mesmos não sobreviveram até a idade adulta. Marciana morreu por volta de 186 D.C.

Ainda segundo a História Augusta, o sempre supersticioso e agora viúvo Severo, querendo casar-se novamente, recorreu à ajuda de astrólogos para encontrar uma nova esposa. Nessa busca, Severo, então, teria ouvido falar de uma mulher síria acerca de quem se falava da existência de uma previsão de que ela se casaria, um dia, com um rei…

Severo foi até a Província da Síria e encontrou a mulher em questão, Júlia Domna, que era, ela mesma, descendente da casa real dos Sempsiceramidas e Soêmios, reis-sacerdotes da cidade síria de Emesa (atual Homs, na Síria) que era habitada por um povo de origem semítica árabe-beduína que falava aramaico.

Além do incentivo da previsão astrológica, certamente Severo foi incentivado a casar-se com Júlia pelo fato de ser ela muito bonita. E, para completar, Emesa e os seus governantes sempsiceramidas eram riquíssimos…

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 Com a aprovação do pai de Júlia Domna, Julius Bassianus, sumo-sacerdote do Templo do deus El-Gabal (Elagabalus, ou Heliogábalo, em latim), em Emesa, Severo e Júlia casaram -se em 187 D.C, logo seguindo-se o nascimento dos filhos Lucius Septimius Bassianus (que ficaria conhecido como o futuro imperador Caracala), ocorrido em 188 D.C, quando Severo governava a Gália, e Publius Septimius Geta, em 189 D.C.,  já quando Severo era governador da Sicília.

Vale notar que, desde 180 D.C., o imperador era Cômodo, que sucedera o pai, Marco Aurélio, mas, pelo visto, o nome de Severo continuou a gozar de prestígio junto ao trono.

De fato, o casamento parece ter dado uma nova turbinada na carreira de Severo e, em 190 D.C, ele foi nomeado Cônsul, a mais alta magistratura romana, sob recomendação do imperador Cômodo. E, no ano seguinte, Cômodo nomeou Severo governador da importante província da Panônia, na fronteira do rio Danúbio, o que implicava no comando de várias experimentadas legiões do Exército.

Foi nessa privilegiada posição que Severo encontrava-se quando o imperador Cômodo, após anos de tirania e de vários excessos, foi assassinado em um complô palaciano, em 31 de dezembro de 192 D.C.

O ano de 193 D.C começou com um novo imperador, Pertinax (Pertinace). Porém, antes que o ano terminasse, os romanos ainda veriam mais outros quatro ocuparem o trono, motivo pelo qual aquele ano passaria à História como “O Ano dos Cinco Imperadores”…

Assim, o  ambicioso Pertinace, Prefeito Urbano de Roma, ao saber da morte de Cômodo, na qual talvez ele até estivesse implicado, correu para o Quartel da Guarda Pretoriana, prometendo um grande donativo aos soldados, caso o aclamassem imperador. Eles assim o fizeram e o Senado, exultante pelo fim da tirania de Cômodo, imediatamente reconheceu o pretendente como Imperador. Porém, depois de quatro meses de um reinado promissor, um outro grupo dos insaciáveis pretorianos, sequiosos de dinheiro, assassinou Pertinace , que teve a sua cabeça em um poste.

Em um dos episódios mais vergonhosos da História de Roma, os gananciosos Pretorianos abordaram na rua o rico senador Dídio Juliano e insistiram para que ele aceitasse ser aclamado imperador, obviamente em troca do pagamento de uma grande soma de dinheiro. Ato contínuo, os soldados levaram Dídio Juliano para o Quartel da Guarda Pretoriana, onde, para a surpresa do pretendente, lá já estava outro candidato à púrpura imperial, Flávio Sulpiciano. Na presença dos dois, os Pretorianos promoveram um infame leilão do trono, que, após vários lances, foi ganho por Juliano, que ofereceu a cada soldado a quantia de 25 mil sestércios.

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(Busto de Dídio Juliano)

 Aproveitando-se da debilidade do novo imperador, uma série de governadores de província, rebelaram-se, incluindo o próprio Severo, que foi aclamado imperador pelas próprias tropas, em 14 de abril de 193 D.C.

Antecipando-se aos seus rivais na sucessão, Severo, prometendo vingar a ignominiosa morte de Pertinax, marchou contra Roma, não sem antes assegurar-se de que um potencial rival, Clódio Albino (também ele um romano nascido na África, em Hadrumeto), o governador da Britânia, não reivindicasse o trono. Para obter a lealdade de Albino, Severo ofereceu-lhe o título de “César” (que equivalia, grosso modo, ao de príncipe-herdeiro), que foi aceito.

Entretanto, as legiões do Oriente  também aclamaram o seu comandante, Pescenius Niger (Pescênio Nigro), governador da Síria, imperador.

Antes de Severo chegar à Roma, contudo, boa parte do Senado já o estava apoiando. Assim, em 1º de junho, Dídio Juliano foi destituído pelo Senado e condenado à morte, após reinar por meros 66 dias. Esta sentença foi prontamente executada pelos próprios Pretorianos, aterrorizados com a aproximação das experimentadas legiões de Severo, as quais eles bem sabiam que não tinham a menor condição de enfrentar em batalha.

Desse modo, Severo entrou em Roma sem oposição, no dia 9 de junho de 193 D.C.

Cumprindo a sua promessa, Severo imediatamente puniu os pretorianos, mas de uma forma sorrateira: ele convidou a guarda pretoriana a um banquete no seu acampamento. Porém, quando os pretorianos chegaram, eles foram desarmados por uma força de soldados de Severo, que executaram os assassinos de Pertinace. Mais tarde, Severo substituiu os pretorianos por soldados originários da Panônia.

No Oriente,  Pescênio Nigro, governador da província da Síria, recusou aceitar Severo como imperador e ainda obteve o apoio da província do Egito. Severo marchou imediatamente para o leste e esmagou o indisciplinado exército de Nigro. A batalha decisiva aconteceu em Issos, na primavera de 194 D.C, e Nigro foi morto em Antióquia. A cabeça dele foi enviada à Severo, que estava instalado em Bizâncio.

Outra característica marcante de Severo era ser implacável com os inimigos, e isso se aplicava às províncias e cidades que haviam apoiado Nigro, que foram severamente punidas.

Em 195 D.C, Severo iniciou uma campanha contra o Império Parta e invadiu a Mesopotâmia, subjugando os árabes osroenes, adiabenes e cenitas, no que também era um acerto de contas pelo fato destes terem apoiado Nigro. Em um gesto simbólico de afirmação de sua origem púnica, Severo, nessa passagem pelo Oriente, mandou reformar com mármore o túmulo de Aníbal Barca, o grande general cartaginês e inimigo mortal de Roma, mas também o seu mais ilustre conterrâneo, que morreu exilado na Bitínia, no longínquo ano de 183 A.C.

Enquanto isso,  Clódio Albino, levando a sério o seu título de César,  começou a cunhar moedas como se fosse imperador, autointitulando -se Augusto.

Severo, que provavelmente sempre teve a intenção de se livrar do rival, deu a seu filho Lucius Septimius Bassianus, conhecido como Caracala ( um apelido dado pelo fato dele usar, costumeiramente, um manto de origem gaulesa, que tinha esse nome) o mesmo título de César, o que, na prática, significava a cassação do status de Albino, que, em seguida, foi declarado “Inimigo Público”.

Foi também 195 D.C que Severo proclamou que era filho do imperador Marco Aurélio, mudando o nome de seu filho Caracala para Marcus Aurelius Severus Antoninus Augustus, numa tentativa de se legitimar como continuador da bem-sucedida dinastia dos Antoninos, que terminara com o assassinato de Cômodo.

De fato, bem antes disso, Severo havia feito circular uma estória de que ele mesmo seria filho ilegítimo de Marco Aurélio, e era por esse motivo que ele fazia questão de se apresentar com corte de barba e cabelo idêntico ao utilizado por aquele finado imperador, sendo que os bustos de Severo mostram claramente essa semelhança (mas também devemos notar que barba e cabelo encaracolados eram a moda do período). Porém, esta pretensão de Severo nunca foi considerada  pela maioria dos historiadores antigos e modernos.

Em verdade, Severo e Albino, desde a revolta contra Dídio Juliano, provavelmente sempre estiveram tentando ganhar tempo até terem todas as condições de eliminarem um ao outro. Quando chegou a notícia de sua proscrição pelo Senado, em 196 D.C, Albino já estava preparado para invadir a Gália e, após derrotar o legado de Severo, Vinius Lupus, assumiu o controle da importante província, instalando-se em Lugdunum (Lyon).

Na inevitável guerra que se seguiu, Severo conseguiu derrotar Albino, na Batalha de Lugdunum, em 19 de fevereiro de 197 D.C. Foi uma batalha duríssima, segundo Dio Cassio, envolvendo 150 mil soldados de cada lado (número provavelmente exagerado). Severo ganhou o dia utilizando a sua cavalaria. Albino se matou ou foi capturado e executado, não se sabe ao certo. Porém, as fontes narram que Severo dispensou um tratamento cruel ao cadáver, que foi exposto nu e pisoteado pelo seu cavalo. A cabeça do rival foi decepada e enviada à Roma, como um alerta para futuros pretendentes. Por sua vez, a desafortunada Lyon, como punição pelo apoio a Albino, foi saqueada.

Entre 197 e 199 D.C, foram travadas com sucesso uma série de campanhas contra o Império Parta que derivaram no estabelecimento da nova província da Mesopotâmia.

Após a conquista de Ctesifonte, a capital dos Partas, em cujo cerco faleceram cerca de 100 000 pessoas, os romanos apoderaram-se dos tesouros inimigos.

Em seguimento à vitória, Severo dedicou os cinco anos posteriores a organizar a administração da nova província, cuja existência, entretanto, jamais seria pacífica e teria curta duração, fadada a ser retomada pelos persas sassânidas, que destronariam os partas arsácidas, fundando um novo império.

Não obstante, as vitórias de Severo na região asseguraram o controle das estratégicas cidades de Nísibis e Síngara e a supremacia regional de Roma até o ano de 251 D.C, ou seja, por quase 50 anos. Ficaria, como testemunho dessa campanha, o Arco do Triunfo de Setímio Severo, no Fórum Romano, ainda existente.

Com efeito, a preocupação com o Exército e as questões militares foram o cerne da política governamental de Severo.

Severo começou por extinguir a Guarda Pretoriana e dispensar, com desonra, os seus integrantes. Em substituição, ele formou uma guarda com 10 coortes (cerca de 10 mil homens), com seus veteranos da Panônia. Depois, o imperador ainda acantonou, nas cercanias de Roma, uma legião. Na prática, com essas últimas iniciativas, a Guarda acabou sendo reconstituída.

Depois, Severo decretou um aumento de um terço para o salário dos soldados, o qual passou de 300 para 400 denários e aumentou o número de legiões de 30 para 33, medidas que, entretanto, provocaram um grande déficit público, causando inflação e prejudicando a economia imperial..

Severo também ampliou a “Anona” militar, organizando-a oficialmente como uma instituição permanente de previdência social dos soldados.

O imperador reformou, ainda, o estatuto civil dos militares:

De fato, até o reinado de Cláudio, os soldados não podiam deixar os quartéis enquanto duravam os seus anos de serviço. Consequentemente, exigia-se que eles não tivessem família por um número determinado de anos, variando o tempo em função da unidade a que pertenciam: os Pretorianos durante 15 anos, os legionários durante 20 anos e os auxiliares durante 30 anos.

Cláudio reformara o sistema a fim de permitir aos soldados saírem do acampamento quando não estivessem de serviço, facilitando-lhes assim fundarem uma família; porém, ainda assim, até o reinado de Severo, eles não tinham direito a casar-se legalmente e reconhecer os seus filhos antes de concluir o seu tempo de serviço militar. Então, Severo autorizou que os militares oficializassem a sua vida conjugal.

Como consequência dessa política, aumentou-se o número de cidadãos romanos, pois, com o status de casamento legal, os filhos dos soldados com as mulheres não-romanas que habitavam as proximidades dos acampamentos podiam aspirar à cidadania romana. Desse modo, podemos entender a “Constitutio Antoniniana” – lei editada pelo filho de Severo, Caracala, estendendo a cidadania romana a todo homem livre nascido no Império – como uma continuação desta política de Severo.

Severo também estabeleceu novas honras militares, autorizando aos oficiais portar um anel de ouro, privilégio até então reservado aos cavaleiros.

Além dos assuntos militares, Severo também dedicou-se aos assuntos administrativos e civis.

Vale citar que Severo tinha como seu principal auxiliar o seu primo, Gaius Fulvius Plautianus, Prefeito Pretoriano, e era também assessorado por juristas célebres, como Ulpiano e Papiniano,

Na Síria, de onde era natural a sua esposa, Severo criou duas novas províncias, para facilitar a administração local e, não menos importante, diminuir o poder do seu respectivo governador, que comandava várias legiões, as quais foram divididas entre as duas novas unidades político-administrativas.

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Depois de concluir a campanha no Oriente,  Severo visitou o Egito, onde ele rendeu homenagem ao corpo de Alexandre o Grande, e, depois, ele navegou o rio Nilo até Tebas. Em seguida, ele dedicou-se aos assuntos de sua África natal, onde as tribos nativas dos Garamantes estavam causando problemas. Derrotados os inimigos, com a expansão do Limes Africanus, Severo pode estabelecer oficialmente a província da Numídia, separada da África, e, finalmente após esse périplo pelo Oriente e África, o imperador retornou  Roma, em 203 D.C.

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(Painel de madeira pintada, com as figuras de um Severo já grisalho, da imperatriz Júlia Domna e de seus filhos Caracala e Geta (rosto apagado). A pintura é proveniente do Egito e provavelmente foi pintada quando da viagem da família imperial pela Província, por volta do ano 200 D.C. Posteriormente, quando Caracala sucedeu ao pai e assassinou Geta, foi decretada a “damnatio memoriae” deste e, obedientemente, a imagem de Geta foi apagada dos monumentos públicos, bem como deste painel. É o único retrato pintado de um imperador e ele é valiosíssimo pois nos permite ver as cores das vestimentas e dos ornamentos imperiais, inclusive o cetro e a coroa, além da tez da pele e dos cabelos.)

 

Na capital do Império, Septímio Severo erigiu uma série de importantes construções: ele embelezou o lado sul do Palatino mediante a construção de uma monumental fonte chamada Septizódio, dedicada aos sete principais astros. Além disso, foi ampliado o palácio imperial, com a construção de uma nova ala (Domus Severiana), e ele também começou a construção dos banhos públicos que seriam conhecidos depois como Termas de Caracala, já que terminados no reinado de seu filho. Foram, ainda, restaurados muitos edifícios danificados pelos incêndios que decorreram no final do reinado de Cômodo, entre os que se encontravam: o Templo da Paz, o Teatro de Pompeu, o Pórtico de Otávia e o Arco de Nero.

(O Septizódio, cujas ruínas ainda podiam ser vistas no século XVI, e vista do Palatino, mostrando a Domus Severiana, na extrema direita – imagem de Cassius Ahenobarbus)

A cidade natal de Severo, Leptis Magna, também beneficiou-se amplamente em seu reinado, sendo embelezada com vários monumentos suntuosos: o Fórum de Severo, a Basílica de Severo, o Mercado e  grandes instalações portuárias.

(Arco, Anfiteatro, Mercado e Basílica de Leptis Magna, construídos durante o reinado de Severo. Fotos de SashaCoachman)

 Septímio Severo tomou, ainda, algumas  significativas medidas judiciárias e assistenciais: A Presidência dos tribunais de apelação foi transferida aos Prefeitos Pretorianos, função antes realizada pelo imperador,  e foi instituída a distribuição gratuita de azeite de oliva, que se unia à tradicional repartição de trigo para a plebe.

A fim de consolidar a sua sucessão, Severo casou o seu filho Caracala com Plautilla, filha do Prefeito Pretoriano Plautianus (Plauciano). Esse casamento arranjado, porém, foi o início da discórdia entre Severo e seu antigo amigo e parente.

De fato, Caracala odiava Plauciano, e, após o casamento, ele recusou-se a ter qualquer relacionamento com a esposa. Na verdade, consta que Caracala prometeu que, quando se tornasse imperador, daria cabo de ambos, esposa e sogro, o que pode ter levado Plauciano a conspirar contra Severo, ou, ao menos, este foi o pretexto que Caracala usou para conseguir a queda e execução do sogro. Plautiano foi acusado de traição por alguns centuriões em 205 D.C, subornados provavelmente por Caracala. Severo mandou executá-lo e Plautilla foi exilada na ilha de Lipari.

As relações de Severo com o Senado nunca foram boas, devido ao caráter marcadamente ditatorial do seu reinado. O imperador mandou executar dúzias de senadores sob variadas acusações de corrupção e conspiração, substituindo-os por homens fiéis ao trono.

Não obstante, entre a plebe romana, Septímio Severo gozava de popularidade, devido às medidas que ele tomou contra a corrupção generalizada que havia aumentado durante o reinado de Cômodo, e Severo ganhou a boa reputação de ter restabelecido a moralidade pública após os anos de decadência do governo anterior.

Contudo, o aumento vertiginoso das despesas militares, obrigou Severo a promover a maior desvalorização do denário desde o reinado de Nero, o que causaria uma grande inflação.

Nos anos finais do reinado de Severo, ocorreram muitos ataques das tribos caledônias que viviam além da Muralha de Adriano, que foram estimuladas pelo fato de Albino, quando da disputa com Severo pelo trono, haver zarpado para a Gália com praticamente todo o efetivo militar da Britânia.
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Em 207 D.C, o incansável Septímio Severo foi para a Britânia combater os Caledônios, levando consigo a esposa e os dois filhos, realizando várias campanhas no norte da Muralha de Adriano, que foi reforçada por ele. Todavia, esse esforço não foi suficiente para subjugar aquelas ferozes tribos, antepassadas dos escoceses.

As fontes narram que, preocupado com a instabilidade mental demonstrada por Caracala, Severo nomeou, em 209 D.C, seu filho mais novo, Geta, como “César”.

A campanha contra os Caledônios prosseguiu, com resistência maior do que se poderia supor, e a saúde do já sexagenário Severo não aguentou o tranco. Ele caiu gravemente enfermo, e, pressentindo que ia morrer, mandou chamar Caracala e Geta, para dar-lhes um último conselho, em seu leito leito de morte, o qual ficaria célebre:

Não briguem entre si, deem dinheiro aos soldados e desprezem todos os outros“.

No dia 4 de fevereiro de 211 D.C, em Eboracum(York), aos 65 anos de idade,  Setímio Severo morreu e Caracala e Geta foram aclamados imperadores pelas tropas. Ambos decidiram interromper imediatamente a campanha e voltar para Roma.

Nove meses depois, Caracala mataria seu irmão Geta,  que se refugiara nos braços da mãe de ambos no próprio palácio, para reinar sozinho. Portanto, Caracala somente seguiria fielmente o segundo e o terceiro conselhos de seu pai…

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(Busto de Caracala, o sucessor de seu pai Severo, cuja expressão corresponde ao seu caráter violento)

CONCLUSÃO

Septímio Severo é um imperador controverso e o seu reinado é um dos mais difíceis de avaliar:  por um lado, ninguém pode negar que ele foi um servidor público incansável e muito dedicado aos assuntos públicos, tarefa que jamais foi por ele deixada de lado em prol dos prazeres e lazeres que Roma oferecia. De fato, Severo expandiu as fronteiras do Império Romano, visitou inúmeras províncias, venceu guerras e construiu importantes monumentos.

Mas Severo falhou em fazer uma reforma administrativa e tributária capaz de sustentar o aumento no efetivo e no orçamento militar, sendo que o aumento dos soldos acentuou uma tendência que comprometeria as finanças públicas dos reinados que se seguiram. E, ironicamente, tantas benesses dadas aos soldados podem ter comprometido a disciplina militar, estimulando os vários episódios de insubordinação que seriam observados durante os reinados da dinastia inaugurada por ele.

Outra medida  que se considera negativa foi a proibição de que os senadores exercessem comandos militares. Essa vedação, que seria reforçada nos reinados seguintes, afastou a elite romana do serviço militar e acabou contribuindo para criar ou ampliar um estranhamento entre o Exército e o Senado, afastando completamente a aristocracia da carreira das armas, o que no futuro se revelaria nocivo.

E Severo falhou mais amplamente em seguir os quase cem anos de boa política sucessória dos Antoninos, dinastia que ele tinha a pretensão de fazer parte, ao escolher os incompetentes e despreparados Caracala e Geta como herdeiros, mas este, diga-se de passagem, foi um erro no qual o próprio “imperador-filósofo e déspota esclarecido” Marco Aurélio também incorreu.

Quanto às numerosas execuções de senadores e rivais, talvez Severo não tenha sido tão diferente da maior parte de seus antecessores e sucessores. O fato é que ser imperador romano, especialmente no século III, como logo seria constatado, era uma das profissões mais perigosas do mundo.