HISTÓRIAS DE ROMA

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A foto foi tirada no ano de 2003, em Pont du Gard, próximo à cidade francesa de Nîmes, no Sul da França. A Ponte-Aqueduto sobre o rio Gard é uma das obras-primas da engenharia romana. Eu fui um dos últimos a entrar neste sítio, naquele dia de final de outono. A pessoa que pode ser vista no cantinho superior da foto é minha esposa. Nós tivemos a oportunidade de andar praticamente sozinhos pelo sítio e de certa forma ter a mesma sensação de admiração e reverência que  teria um viajante medieval que percorresse aquele caminho e topasse com aquela construção magnífica, testemunho de uma  antiga e mais sofisticada civilização.

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ABRIL – O MUNDO SE ABRE

April

No antigo calendário romanoABRIL era o segundo mês do ano. Mas posteriormente, ainda durante a República, o mês passou a ocupar a  mesma posição no calendário que ocupa hoje. Porém, o trigésimo dia do mês de abril somente foi adicionado com a reforma do calendário determinada  pelo Ditador Caio Júlio César, que por isso recebeu o nome de “Calendário Juliano” e foi utilizado no Ocidente até o século XVI.

Abril, ou Aprilis, vem do latim “aperio”, aperire“, do verbo latino que signfica “abrir“. Nos  Fasti Praenestini, um antigo calendário romano que sobreviveu em fragmentos até os nossos dias, é mencionado que no mês de abril “abrem-se as flores, os frutos e   os animais e  os mares e as terras”.

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(Os “Fasti Praenestini, foto de Marie-Lan Nguyen)

Entre os muitos festivais romanos  ancestrais celebrados no mês de abril, destacam-se a Fordicidia, um festival de fertilidade agrícola e criação de animais domesticados, celebrado no dia 15, a Parilia, uma festa dos pastores, no dia 21, a Vinalia,  no dia 23, um dos dois festivais do vinho celebrados no ano (o outro era em agosto) e a Robigalia, no dia 25, uma festa para proteger as colheitas das pragas. Além destes, do dia 4 ao dia 9 eram celebrados os Ludi Megalenses, em homenagem à Grande Mãe Cibele, uma divindade importada de Pessinus, na Frígia.

Na segunda metade do mês, em data incerta, era celebrada a Cerealia, em homenagem à Ceres, a deusa da agricultura e das colheitas. E no dia 27 ( e depois, no dia 28, já no Calendário Juliano) era celebrada a Floralia, em homenagem à deusa Flora, a deusa das flores.

Uma importante data que passou a ser comemorada a partir do reinado do imperador Cláudio foi a fundação de Roma (Roma Condita), no dia 21 de abril.

Nas calendas de abril (dia 1º),  ocorreu um fato marcante na História de Roma: o imperador Maximiano foi nomeado Augusto, e, na prática, Imperador Romano do Ocidente, pelo imperador Diocleciano.

ANTONINO PIO – O IMPERADOR-MODELO

#antoninuspius #antonino

Em 7 de março de 161 D.C, na cidade de Lório, na Etrúria, Itália,  morreu o Imperador romano Antonino Pio.

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Nascido no ano de 19 de setembro de 86 D.C, próximo à antiga cidade latina de Lanúvio, na Itália, com o nome de Titus Aurelius Fulvus Boionus, Antonino era filho deTitus Aurelius Fulvius,  que seria cônsul em 89 D.C, sendo que o seu avô, que também tinha esse mesmo nome, havia sido cônsul em 85 D.C., tendo se destacado como general no início do governo de Vespasiano, ao derrotar os bárbaros roxolanos na fronteira do rio Danúbio.

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(Lanuvio, antiga Lanuvium, a 32 km a sudoeste de Roma, terra natal de Antonino Pio)

A família dos Aurélios Fúlvios era originária da Gália Narbonense,  sendo radicada na cidade de Nîmes (antiga Nemausum).

Por sua vez, a mãe de Antonino, Arria Fadilla, era filha de Gneaus Arrius Antoninus,  um senador que ocupou por duas vezes o consulado e que era muito amigo de Plínio, o Jovem, que o descreveu como ” um homem de caráter reto“. Os Árrios eram uma tradicional família da classe senatorial de Roma.

O pai de Antonino morreu em 89 D.C, motivo pelo qual ele foi criado pelo avô, de quem herdou o nome e as propriedades, passando a se chamar Titus Aurelius Fulvus Boionus Arrius Antoninus. A vultosa herança do avô materno, somada ao patrimônio herdado de seu pai, tornou Antonino um dos homens mais ricos do Império Romano.

Por volta de 110 D.C, Antonino casou-se com a belíssima Annia Galeria Faustina (Faustina, a Velha), filha de Marcus Annius Verus, o Velho, um conterrâneo (da Hispânia) e amigo chegado do futuro imperador Adriano, e que já tinha sido cônsul durante o reinado de Domiciano (e depois viria a ocupar o posto duas vezes durante o reinado de Adriano).

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(Faustina, a Velha)

O casamento com Faustina aproximou Antonino do circulo íntimo de Adriano. Assim, após exercer os cargos de questor e pretor, Antonino foi nomeado cônsul em 120 D.C. Depois, Adriano nomeou-o Procônsul da Itália e da África, em 134/135 D.C, cargos onde ele se destacou pela boa administração.

Sacramentando a confiança e a estima que Antonino gozava junto a Adriano, este, já enfermo, adotou-o como filho e herdeiro, em 25 de fevereiro de 138 D.C.,concedendo-lhe o poder tribunício e o império proconsular,  distinções que caracterizavam, segundo o costume imperial daquele tempo , o reconhecimento oficial dele como co-imperador.

A única condição imposta pelo imperador Adriano foi que Antonino, por sua vez, adotasse Marcus Annius Verus, o Jovem,  que era sobrinho de sua mulher Faustina ( e que se tornaria o futuro imperador Marco Aurélio), e Lucius Aelius Commodus (que reinaria junto com o primeiro com o nome de Lúcio Vero), filho de Lucius Aelius, quem, anteriomente, tinha sido adotado por Adriano, mas falecera devido a uma hemorragia.

Em 11 de julho de 138 D.C, um dia após a morte de Adriano, Antonino foi aclamado imperador pelo Senado Romano, em uma sucessão pacífica, seguindo a característica dos imperadores da dinastia que tinha sido iniciada por Nerva, em 96 D.C,  mas que acabaria por levar o seu nome (os Antoninos).

Uma das primeiras medidas de Antonino foi convencer o relutante Senado a “deificar” Adriano (Este, no final de seu reinado, havia se indisposto com aquela assembléia, executando alguns senadores acusados de conspiração). Essa devoção ao seu pai adotivo valeu a Antonino o cognome de “Pio”, conferido pelo Senado.

Diplomático e cortês, Antonino Pio, por sua vez, manteria boas relações com o Senado Romano durante todo o seu reinado. Com certeza, o fato de ser ele mesmo um membro de famílias que há muito tempo integravam a classe senatorial favoreceu a sua aceitação.

E o prolongado reinado de Antonino Pio ( o mais longo desde Augusto) foi marcado pela paz externa e interna (para os padrões romanos) e pela relativa prosperidade econômica.

De fato, os poucos conflitos externos foram breves e não muito sangrentos. A principal campanha foi na Britânia, resultando na construção da Muralha de Antonino, mais ao norte da Muralha de Adriano, em 142 D.C. Feita de turfa e protegendo uma fronteira mais curta, esse muro provavelmente foi resultado de um plano de Antonino de obter prestígio militar logo no início de seu reinado, já que o território conquistado parece não ter oferecido atrativos econômicos. Foram cunhadas moedas aludindo ao fato e  conferida uma “salutatio” ao Imperador. Contudo, oito anos após a sua construção,  a muralha foi abandonada e os romanos retornaram para a linha defensiva estabelecida pela Muralha de Adriano naquela Província.

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É preciso observar que, para alguns historiadores, a reiterada falta de interesse de Antonino pelas questões militares,  depois dessa inicial campanha britânica,  e que resultou em uma paz que daria  vinte anos de alívio aos inimigos de Roma, notadamente aos Germanos e Partas,  pode ter sido nociva ao Império Romano, conjecturando-se que eles se fortaleceram muito durante esse período.

Em 141 D.C, a sua amada imperatriz Faustina faleceu. Antonino mostrou o seu pesar e devoção pela esposa ordenando a construção de um templo no Fórum Romano, em honra de Faustina, que, a pedido dele,  havia sido deificada pelo Senado. Esse templo ainda existe (atual Igreja de San Lorenzo in Miranda) e, após a morte de Antonino, que também foi deificado, ele foi renomeado como “Templo de Antonino e Faustina“.

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Antonino também fundou, em memória de Faustina,  uma espécie de instituto de assistência para meninas pobres de família, chamado de “Meninas de Faustina“.

No campo jurídico, o reinado de Antonino foi marcado pela edição de várias leis em favor dos escravos, seja facilitando a alforria dos mesmos, seja prevendo penas para os proprietários que matassem os próprios escravos e estipulando a venda forçada para outro senhor, em caso de maus-tratos. A legislação de Antonino estabeleceu, ainda, a presunção legal de que, nos litígios envolvendo a liberdade, quando as provas fossem duvidosas,  o juiz deveria decidir a favor do escravo.

A situação da economia do império durante o reinado de Antonino foi próspera, mas ele foi obrigado, após os gastos com os festejos pelo 900º aniversário de Roma, a desvalorizar o denário de prata romano. Não obstante, quando ele morreu, Antonino deixou o Tesouro com uma impressionante reserva de 675 milhões de denários.

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Em 146 D.C, seu herdeiro Marco Aurélio casou-se com a única filha sobrevivente de Antonino, Faustina, a Jovem (seus outros três filhos com Faustina faleceram antes de sua ascensão ao trono).

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(Faustina, a Jovem, filha de Antonino Pio e esposa de Marco Aurélio)

A admiração de Marco Aurélio pelo sogro ficou preservada em sua obra  “Meditações”, que assim descreve as qualidades de Antonino Pio:

Gentileza e resolução inabaláveis nas sentenças proferidas após exame minucioso; renúncia às honras exteriores; amor ao trabalho e à perseverança; presteza para ouvir aqueles que têm algo a contribuir para o bem estar público; o desejo de recompensar cada homem de acordo com o seu mérito, com imparcialidade”; (…)”sua energia na defesa de tudo o que fosse feito com a razão, sua equanimidade constante, sua expressão serena, sua doçura, seu desdém pela glória, sua ambição de dominar todos os problemas“.

Em 5 de março de 161 D.C., Antonino Pio descansava em sua antiga propriedade familiar em Lorium, a 19 km de Roma, onde ele tinha sido educado quando criança, quando, após comer  uma porção de queijo, começou a vomitar. Dois dias depois, no dia 7, ele morreria, com a avançada idade de 74 anos. Consta que,  na noite do dia anterior,  o tribuno da Guarda Pretoriana pediu a Antonino a senha para a vigília daquela noite, tendo o moribundo imperador escolhido esta:

Equanimitas” (Equanimidade)

Mais do que a senha para uma noite, equanimidade retratou o espírito do reinado de Antonino Pio.

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(Ruínas da chamada Villa Romana delle Collonace, em Lorium. A villa de Antonio Pio ainda não foi descoberta pelos arqueólogos)

O ÉDITO DE TESSALÔNICA

Em 27 de fevereiro de 380 D.C, o imperador romano do Oriente, Teodósio I, promulgou, em conjunto com seus colegas da parte ocidental do Império, Graciano e Valentiniano II, o Decreto de Tessalônica, declarando o Credo Niceno-Trinitário como a única religião legítima do Império Romano e a única passível de ser considerada “católica” (universal), bem como determinando que cessasse todo apoio estatal às demais religiões politeístas.

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Embora décadas antes, o imperador Constantino I tenha favorecido muito a fé cristã e a Igreja Católica, que passou a receber propriedades, verbas e apoio do Estado Romano, é equivocada a ideia de que ele tenha tornado o Cristianismo a religião oficial do Império, pois o chamado Edito de Milão, de 313 D.C., formalmente apenas havia estabelecido a tolerância do Estado em relação a todas as religiões.

Obviamente,  em  uma sociedade que se caracterizava pela opressiva presença do Estado em todos os setores, como era Baixo Império Romano no século IV D.C., a preferência da Corte por uma religião específica e o seu fomento estatal, como ocorreu durante toda a dinastia constantiniana,  a partir do Édito de Milão, com a breve exceção do reinado de Juliano, o Apóstata, só poderia resultar num avanço muito grande dessa religião em detrimento de todas as outras, mais ainda quando essa religião gozava de uma estrutura hierarquizada paralela, que, inclusive, sobrevivera a séculos de clandestinidade.

Outra contribuição fundamental de Constantino I para o Cristianismo foi patrocinar o Concílio de Nicéia, em 325 D.C., o primeiro concílio ecumênico da Igreja, com o objetivo de homogeneizar e unificar o entendimento sobre diversas questões doutrinárias e onde foi chancelada a natureza divina de Cristo como Deus-Filho e sua relação com o Deus-Pai, resultando no chamado Credo Niceno, refutando-se versões alternativas da fé cristã, especialmente o “Arianismo” (assim chamado porque baseado nas doutrinas do bispo Ário), que pregava, a grosso modo, que Cristo tinha sido criado pelo Pai, e portanto, não teria sempre existido (eterno), sendo, por consequência, poderia-se dizer assim, “menos Deus” do que o Pai, do qual derivaria, resultando, por fim, que Ambos não seriam “um só e de mesma substância“.

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O Arianismo chegou a influenciar o imperador Constâncio II e também se espalhou entre os povos bárbaros, especialmente os germânicos Godos, Vândalos e Lombardos, que foram convertidos pelo missionário Ulfilas, um adepto de Ário.

Teodósio era um cristão ortodoxo niceno muito devoto, oriundo da Hispânia, onde o Credo Niceno, como de resto no Ocidente e na importante Igreja de Alexandria, dominava. Já o Arianismo prevalecia no Oriente.  Teodósio foi nomeado imperador do Ocidente pelo imperador Graciano, também ele um cristão ortodoxo niceno, após a morte do imperador do Ocidente, Valente, na Batalha de Adrianópolis, em 378 D.C, sendo que Valente foi um adepto do Arianismo.

Teodósio e Graciano, comungando do mesmo Credo, sentiram-se à vontade para favorecer a ortodoxia cristã do Concílio de Nicéia, e, consequentemente, no dia 27 de fevereiro de 380 D.C, eles promulgaram, juntamente com o colega de Teodósio no Ocidente, Valentiniano II (que tinha apenas 8 anos), o decreto imperial “Cunctos populos“, chamado de “Édito de Tessalônica, pelo fato de Teodósio se encontrar nessa cidade, quando de sua edição.

O texto, um tanto sombrio, diga-se de passagem, do Decreto é o seguinte:

É nossa vontade que todos os diversos povos que são súditos de nossa Clemência e Moderação devem continuar a professar aquela religião que foi transmitida aos Romanos pelo divino Apóstolo Pedro, como foi preservada pela tradição fiel, e que agora é professada pelo Pontífice Dâmaso e por Pedro, Bispo de Alexandria, um homem de santidade apostólica. De acordo com os ensinamentos apostólicos e a doutrina do Evangelho, que nós creiamos em uma só divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, em igual majestade e em uma Santíssima Trindade. Nós autorizamos que os que obedecerem a essa lei assumam o título de Cristãos Católicos; Porém, para os outros, uma vez que em nossa opinião, são loucos tolos, nós decretamos que recebam o nome ignominioso de heréticos, os quais não deverão ter a presunção de dar aos seus conventículos o nome de igrejas. Eles irão sofrer em primeiro lugar o castigo da condenação divina e, em segundo lugar, a punição que a nossa autoridade, de acordo com a vontade do Céu, decidir infligir.

Publicado em Tessalônica no terceiro dia das calendas de março, durante o quinto consulado de Graciano Augusto e o primeiro de Teodósio Augusto.”

É importante notar que Teodósio estava gravemente doente em Tessalônica, na Grécia, o que o levou inclusive, como era o costume dos cristãos naquele tempo, a se batizar (o batismo acontecia no leito de morte, já que todos os pecados eram perdoados, ficando mais fácil para o batizado entrar no Céu).

Arc_et_retonde_00274.JPG(Arco do Imperador Galério, em Tessalônica, Grécia, foto de G.Garitan )

Após a edição do Decreto “Cunctos populos“, Teodósio e Graciano lançaram-se em uma campanha de perseguição às heresias cristãs e a tomaram uma série de medidas visando proibir cerimônias e rituais pagãos. Em poucos anos, a crescente intolerância religiosa por parte do Cristianismo triunfante desaguou na destruição de importantes templos pagãos, como o Serapeum, em Alexandria, entre tumultos que degeneraram em massacres.

Alexandria_-_Pompey's_Pillar_-_view_of_ruins(Ruínas do Serapeum, em Alexandria. A imagem dá uma idéia da escala do templo. Foto Daniel Mayer )

Por tudo isso, considera-se o Édito de Tessalônica como o ato que reconheceu o Cristianismo como a religião oficial do Império Romano.

FIM

CALÍGULA – ENLOUQUECIDO PELO PODER

Em 24 de janeiro de 41 D.C (segundo Suetônio), após três dias de exibições dos Jogos Palatinos em homenagem ao divino Augusto, os quais estavam sendo realizados em um teatro montado no próprio palácio imperial, o Imperador Romano Gaius Julius Caesar Germanicus Augustus Germanicus, a quem o povo chamava, carinhosamente, de Calígula, sentiu-se fatigado e foi incentivado por cortesãos a ir tomar um banho.

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Busto de Calígula, Ny Carlsberg Glyptotek. foto de Louis le Grand

Calígula , então, resolveu deixar o teatro e ir para os seus aposentos através de uma passagem subterrânea coberta (criptopórtico), que ligava as referidas áreas e que era privativa para o imperador.

Eram cerca de 15 horas da tarde e o imperador devia estar com fome, pois assistira todas as performances daquele dia sem se ausentar, exibindo-se à vista de todos, rodeado pela sua devotada guarda particular, composta por guerreiros germânicos e que ficou no teatro para vigiar os espectadores.

No caminho, Calígula parou para inspecionar alguns jovens gregos, bailarinos da chamada “dança pírrica”, que se preparavam para se apresentarem no evento, e tinham sido acomodados naquela passagem.

De repente, um velho oficial da guarda pretoriana se aproximou do Imperador…

Era o centurião Cássio Queréa, um veterano e bastante condecorado soldado que inclusive servira sob o comando do pai de Calígula, o adorado general Germânico, 20 anos antes, durante as campanhas romanas na Germânia, ocasião em que Queréa distinguira-se pelos seus atos de bravura, razão pela qual ele conseguiu ingressar e progredir na Guarda Pretoriana, a guarnição militar de Roma e do Palácio Imperial.

Porém, após Calígula ser sagrado imperador e passar a habitar no Palácio, o jovem imperador escolheu Queréa para ser a vítima frequente de suas zombarias e pilhérias:

Neste particular, conta-se que, pelo fato de Queréa ter o timbre de voz fino, Calígula, quando o Centurião estava de sentinela – ocasião em que os escalados deviam, ao iniciar o serviço, perguntar ao Imperador qual seria a senha – escolhia nomes embaraçosos, tal como “Vênus“, só para que Queréa, com seu peculiar timbre feminino, respondesse na frente dos outros, quando a senha fosse exigida.

Uma outra brincadeira que deleitava ao Imperador era quando ele estendia a sua mão para que o veterano centurião beijasse o anel, ocasião em que Calígula, avançava e retirava o punho da boca de Queréa, aludindo a um gesto pornográfico de felação, humilhando o veterano soldado perante os colegas.

Então, naquele dia 24 de janeiro, entretido com os jovens gregos no criptopórtico, Calígula mal olhou para Queréa quando este, como de costume, perguntou-lhe qual seria a senha do dia. Consta que o Imperador respondeu:

“Júpiter”.

Queréa, então, imediantemente respondeu, gritando:

“Assim seja. Toma!”

E, já com o seu gládio em punho, Queréa desfechou um tremendo golpe entre o ombro e pescoço de Calígula, o qual penetrou até o osso do peito, mas sem atravessá-lo.

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Foto do criptopórtico escavado no Palatino. Há grande probabilidade de que este seja o local onde Calígula foi assassinado –  © Photo Ministero dei Beni e delle Attività Culturali

Calígula ficou tão perplexo com o ataque que ele sequer gritou ou esboçou qualquer reação, mas apenas se virou, para receber um novo golpe potente, que, desta vez, praticamente arrancou, de uma só vez, a sua mandíbula inferior, a qual ficou pendendo presa apenas por um fiapo de músculo, deixando o seu rosto com o aspecto de uma máscara grotesca.

Somente então o Imperador começou a correr, somente para ser alcançado por outro conspirador, o tribuno Cornélio Sabino, que lhe acertou um golpe de espada no joelho, levando-o ao chão. A partir daí, Queréa, Sabino, o soldado Áquila e provavelmente outros conspiradores começaram a golpear Calígula, já moribundo, inclusive nos genitais. Assim, ele levou 30 golpes, até morrer. Queréa e os cúmplices conseguiram fugir do Palácio, ironicamente, atravessando a casa de Germânico, o finado pai de Calígula, que tinha sido anexada ao Palácio.

O destacamento de guarda-costas pessoais de Calígula, que, como dito, era composto de bárbaros germânicos, quando percebeu que o imperador tinha sido atacado, tomou-se de um frenesi de vingança e começou a matar todos que viam pela frente no Palácio, inclusive um Senador. Eles logo cercaram o teatro e fizeram menção de massacrar todos os espectadores, até alguém informar que o Imperador estava morto, ocasião os seus líderes devem ter pensado que não havia mais nada o que fazer.

Não satisfeito, Queréa mandou um subordinado, chamado Lupus, de volta ao Palácio, para matar Cesônia e a pequena filha de Calígula, que era ainda apenas um bebê. Assim, Cesônia recebeu, resignadamente, um golpe no pescoço. Já a menina teve a cabeça esmagada contra uma parede.

É difícil achar a explicação para a brutal execução de ambos: Obviamente, não poderia haver pretensão alguma de se ocultar a autoria do assassinato do imperador, cometido à luz do dia e com testemunhas. E não havia a menor chance de Cesônia ou a filha assumirem o governo. Eu posso cogitar de dois motivos: Cesônia saberia de algo que poderia arruinar Queréa, ou, talvez até mesmo ela soubesse o nome de outros conspiradores mais ilustres; como também é possível que a esposa do finado Imperador participasse ativamente das humilhações a que Caligula submetia Queréa.

Muitos, porém, acreditam que Queréa pode ter sido cooptado por senadores que queriam restaurar a República, e por isso, visavam eliminar a descendência de Calígula, para que não houvesse sucessores, porém, para que tal propósito fosse bem sucedido, eles teriam que eliminar também outros integrantes da dinastia Júlio-Cláudia, como o jovem Nero, entre outros…

Com efeito, logo após o assassinato, enquanto o Palácio era vasculhado, um pretoriano chamado Gratus encontrou Cláudio, que era tio de Calígula e irmão do pai dele, Germânico, escondido apavorado atrás de uma cortina do Palácio. Uma facção dos pretorianos saudou Cláudio, que até então era tido como imbecil, como o novo imperador, e levou-o para o quartel da Guarda. Lá, ele foi reconhecido e aclamado como o novo Príncipe pelo Senado.

Um Novo Imperador 41 AD, tela de Sir Lawrence Alma-Tadema (1871), foto: Lawrence Alma-Tadema, Public domain, via Wikimedia Commons

Nascimento e caminho para o trono

Nascido em  31 de Agosto do ano 12 D.C., em Anzio, Itália, Gaius Julius Caesar Germanicus (Caio Júlio César Germânico), que se tornaria popularmente conhecido como o imperador romano Calígula, era filho de Germanicus Julius Caesar, cognominado “Germânico” e de Vipsânia Agripina (mais conhecida como Agripina, a “Velha”, para distingui-la de sua filha, do mesmo nome, Agripina, a “Jovem”, mãe do futuro imperador Nero).

Portanto, por parte de pai, Calígula era sobrinho-bisneto do Imperador Augusto, pois a sua bisavó paterna era Otávia, a irmã do primeiro imperador que se casou com o triúnviro Marco Antônio, em uma união da qual nasceu Antônia, a Jovem, de cujo casamento com Nero Cláudio Druso, por sua vez, nasceu Germânico. E Calígula também era bisneto de Lívia Drusila, a influente esposa de Augusto, avó de seu pai, pois Nero Cláudio Druso era o filho mais novo do primeiro casamento dela com Tibério Cláudio Nero, sendo que o caçula desta união foi o imperador Tibério, irmão de Druso, tendo o primeiro sucedido Augusto como seu herdeiro e filho adotivo, sendo aquele também, portanto, tio-avô de Calígula.

Já pela linha materna, Calígula era bisneto de Augusto, pois sua mãe, Agripina, era filha de Marco Vipsânio Agripa, o grande amigo e braço-direito do primeiro imperador, e de Júlia, “a Velha”, a única filha e descendente de Augusto.

Tal “pedigree” colocava Germânico, o pai de Calígula, como um não-desprezível pretendente à sucessão do próprio Augusto. Aliás, vale observar que todos herdeiros-presuntivos inicialmente favorecidos por Augusto eram seus parentes, tais como seu sobrinho, Marcelo, e seus netos Caio César e Lúcio César. Todos eles, porém, morreram antes do velho imperador, que, muito em função das maquinações de sua esposa Lívia, acabou adotando e nomeando como herdeiro o filho natural desta, o seu enteado Tibério.

Augusto, porém, certamente visando garantir alguma continuidade sanguínea entre si e os seus sucessores, ao adotar Tibério, exigiu que este, por sua vez, da mesma forma adotasse Germânico, como herdeiro.

Ocorre que o pai de Calígula tornou-se um grande general, muito querido pelo Exército e pelo povo. Ele se destacou em campanhas na Panônia e na Dalmácia. Aliás, Germânico e Agripina eram uma espécie de família romana modelo: Eles tiveram nove filhos juntos, seis dos quais atingiram a idade adulta, três meninos, sendo Calígula o mais jovem deles, e três meninas, sendo que a mais velha, Agripina, “a Jovem”, seria mãe do futuro imperador Nero.

Quando Augusto morreu, em 14 D.C., sendo sucedido por Tibério, o sobrinho deste, Germânico, recebeu do novo imperador um comando na Germânia, onde ele comandou uma campanha brilhante na qual conseguiu finalmente, em 16 D.C., vingar a grande derrota sofrida por Varo, sete anos antes (foi por esse motivo que ele recebeu o seu apelido, pois dar ao general um cognome derivado dos inimigos vencidos era uma tradicional honraria romana).

Foi durante esse período que Germânico demonstrou que sabia utilizar sua família como uma ferramenta de propaganda pessoal. Ele residia no acampamento militar, em território inimigo, com toda a sua família e costumava vestir o seu filho mais novo Caio, que tinha entre 3 e 4 anos, com um uniforme militar em miniatura.

E entre as peças de vestuário militar que o pequeno Caio usava, estava uma pequena sandália ou bota militar, “caligae“, em latim. O diminutivo de “caligae” é “caligula” e o menino acabou recebendo da soldadesca esse apelido, que pode ser traduzido como “Botinha” (ou “Sandalinha“), um apelido que “pegou” (e consta que o mesmo era abominado por Calígula, depois de se tornar adulto).

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Inclusive, as fontes narram que em certa ocasião, quando uma das legiões comandadas por Germânico se revoltou, a mera sugestão de que o comandante, temendo pela segurança de sua família, estava mandando o adorado “Botinha” para um lugar seguro, longe dos soldados, bastou para acabar espontaneamente com o motim.

Infelizmente, a imensa popularidade de Germânico seria, para muitos, a provável causa de sua morte…

Consta que Lívia, a imperatriz-mãe viúva, muito provavelmente, e não para o desagrado de Tibério, urdiu uma série de intrigas visando afastar Germânico da linha sucessória, a quem percebia como uma ameaça a seu filho. De fato, as fontes do período, como Tácito, apontam Lívia e Tibério como os principais suspeitos pela morte de Germânico, em 19 D.C., acometido de uma misteriosa doença que se assemelhava a um caso de envenenamento, ainda que não haja provas conclusivas disso.

A postura questionadora da mãe de Calígula e viúva de Germânico, Agripina, em relação à morte de seu marido, azedou as relações dela com Tibério e deu início a uma série de desconfiança e intriga entre ambos. Consta que, certa vez, Tibério, notando uma cara de desagrado em Agripina, teria recitado, em grego, para ela o seguinte verso de uma então famosa obra clássica:

Porque não és rainha, eu te fiz algum mal?

Assim, em virtude dessa animosidade, e dos efeitos que isso causou na saúde da sua mãe, Calígula acabou indo morar sua bisavó, Lívia, a principal suspeita pelo assassinato de seu pai.

Em 29 D.C, no mesmo ano em que Lívia morreu, Agripina foi presa e exilada para a remota ilha de Pandatária, acusada de traição junto com seus outros filhos Nero e Druso.

Após sofrer vários maus-tratos e provações, Agripina morreu na ilha, em 33 D.C. Antes disso, os irmãos de Calígula também morreriam em função das acusações: Nero (não confundir com o imperador de mesmo nome) morreu de inanição, enquanto preso e Druso se suicidou. Em todos esses fatos esteve implicado o Prefeito Pretoriano Lúcio Élio Sejano, para alguns como instigador, ou ao menos, como o executor da vontade de Tibério.

Então, em 31 D.C, Calígula, que estava morando junto com sua avó Antônia, foi residir com Tibério, que, deixando os assuntos da administração nas mãos de Sejano, havia abandonado Roma e se mudado para Capri, desde o ano de 26 D.C.

Não temos dúvidas de que a situação deve ter sido aterrorizante para Calígula, pois após morar com Lívia, a suposta algoz de seu pai, agora ele iria viver sob a tutela do filho desta, o imperador responsável pelo sofrimento e morte de sua mãe e de seus irmãos. O que ele podia esperar para si senão o pior?

A julgar pelo relato de Suetônio, em Capri, Calígula habilmente soube fingir ser inofensivo e servil a Tibério. Se os escandalosos relatos do citado historiador forem verdadeiros, na paradisíaca ilha,  Calígula deve ter sofrido a influência maléfica dos inúmeros atos de perversão sexual e crueldade relatados na “Vida de Tibério“, o livro integrante da coletânea de biografias conhecida como “Os doze Césares“, que teriam ocorrido na espetacular Villa Jovis de Tibério, situada em Capri.

No entanto, em 33 D.C, Tibério deu a Calígula seu primeiro cargo público, o de Questor Honorário, e, dois anos mais tarde, Calígula foi nomeado herdeiro do Imperador, juntamente com seu primo, e neto de Tibério, o menino Tibério Gemellus.

Quando Tibério morreu, em 16 de março de 37 D.C, com a avançada idade de 78 anos, Calígula tornou-se o terceiro imperador romano. Suetônio levanta suspeitas sobre a culpa de Calígula na morte do tio, mas o mais provável é que Tibério tenha morrido de velhice.

A morte de Tibério foi recebida com júbilo pelo povo e pelo Senado. De fato, a austeridade de Tibério, que havia acumulado um grande superávit no Tesouro, muito em função dele ser avesso aos gastos públicos, especialmente para com os jogos e corridas tão amados pela plebe, acabou tornando-o consideravelmente impopular, fato que foi reforçado pela sua responsabilização, real ou presumida, pelas mortes dos queridos Germânico e Agripina.

Calígula imperador

Assim, a aprovação entusiasmada do Senado e do Povo de Roma acompanhou a aclamação de Calígula como imperador: Além de suceder um governante antipático, ele era o belo e jovem filho de um herói popular e membro de uma família muito célebre e muito estimada. Para comparar, o clima deve ter sido parecido com o que o Reino Unido atual experimentará quando o príncipe William tornar-se rei da Inglaterra, sucedendo ao pai Charles.

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Reprodução de um busto original  romano de Calígula, com cores restauradas, obtidas através de processo científico

Parece que, em seus primeiros meses, o reinado de Calígula parecia promissor (aliás, a crônica do seu início pode ser considerada a narrativa-padrão do reinado de todos os “maus” imperadores romanos, tais como Nero, Domiciano e Cômodo). Ele entrou em Roma em 28 de março de 37 D.C, 12 dias após a morte de Tibério, seguindo-se cerca de três meses de verdadeira adoração, em grande parte espontânea, por parte do povo. De fato, inicialmente, Calígula correspondeu mesmo aos anseios dos súditos:

De fato, o novo imperador mandou pagar todos os legados previstos no testamento de Tibério, tanto individuais como coletivos e, mais importante, mandou destruir todos os documentos que estavam nos arquivos imperiais para dar subsídios aos numerosos processos de crime de alta-traição ou de lesa-majestade, que haviam sido tão frequentes no reinado do seu antecessor.

Calígula também inaugurou o costume, que depois se mostraria funesto, de dar um grande donativo à Guarda Pretoriana em comemoração à ascensão de um novo imperador ao trono (prática que estimularia futuros motins dos Guardas visando destronar o monarca reinante, para assim obter recompensas do substituto).

Passados poucos meses, porém, Calígula não titubeou em se livrar de seu primo Gemellus, o neto de Tibério que, com ele, havia recebido em testamento o Império. Na verdade, um dos primeiros atos de Calígula após a sua aclamação oficial havia sido conseguir do Senado a anulação do testamento de Tibério no que se refere à posição de co-herdeiro de Gemellus. Porém, antes que o ano terminasse, Gemellus seria executado sumariamente à mando de Calígula.

As fontes narram que, antes disso, Calígula, em outubro de 37 D.C, ficou seriamente doente, e que foi somente após recuperar-se desta enfermidade que ele começou a praticar os reiterados atos de tirania, crueldade, devassidão e loucura pelos quais tornaria célebre (Suetônio, contudo, aponta que Calígula já demonstrava sua má índole quando adolescente). Infelizmente, os textos antigos não fornecem detalhes precisos sobre a misteriosa doença dele que possam nos dar alguma pista da sua real natureza –  isto é, se tratava-se uma doença infecciosa, congênita, física ou mental.

Gastos exorbitantes e deterioração na situação econômica

Um fato que parece incontestável acerca do reinado de Calígula é a rapidez com que a situação financeira do Império se deteriorou. Com efeito, são várias as afirmações nas fontes de que Tibério havia deixado um gigantesco superávit no Tesouro do Estado, apontando-se até a soma precisa de 2,7 bilhões de sestércios, e, portanto, parece certo que o problema fiscal foi causado pela política (ou falta de) determinada por Calígula. A desorganização econômica acarretou, ainda, episódios, relatados pelas fontes, da ocorrência de fome entre a população, algo que não ocorria há tempos.

Com feito, ,as fontes mencionam vários gastos desmedidos ordenados por Calígula:

Relata-se, por exemplo, que ele ordenou a construção de uma ponte flutuante de mais de 4 km entre Baiae e Puteoli, apenas para contrariar uma profecia. Uma outra despesa enorme descrita por Suetônio foi a construção de dois enormes navios, para serem usados como templo e palácio. Esses barcos, que tinham mais de 70 metros de comprimento, foram recuperados no Lago Nemi, durante o governo de Mussolini na Itália, e colocados em um museu especialmente construído. Infelizmente, durante a 2ª Guerra, os barcos foram destruídos. Recentemente, vale citar, foi restituído a Itália um pedaço do magnífico pavimento de mosaico da referida embarcação, retirado em data incerta do fundo do Lago, e que foi parar em um apartamento em Manhattan, Nova York, EUA, transformado em uma mesa de centro! (vide https://olhardigital.com.br/2021/12/06/ciencia-e-espaco/como-um-mosaico-do-lendario-imperador-romano-caligula-virou-tampo-de-mesa-em-ny/

De qualquer modo, a Arqueologia confirmou, mais uma vez, os relatos dos historiadores antigos.

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(Foto da escavação de um dos navios de Caligula, no Lago Nemi)

Política Externa

Não obstante, no front externo, Calígula reivindicou a realização de campanhas na Britânia e na Germânia, mas estas teriam, sido, na verdade, na opinião dos historiadores, apenas exercícios ou manobras militares, ou pior, segundo as fontes romanas (cf. Suetônio), uma encenação ridícula. Mas talvez seja provável que essas opiniões tenham exageradas, uma vez que, recentemente, descobriu-se, nas escavações de um forte romano na Holanda, chamado de Velsen-2, indícios de que Calígula pode ter estado realmente nesta região durante o seu reinado, e de que a referida fortificação foi efetivamente construída para viabilizar a invasão da Britânia e conter as tribos germânicas da outra margem do Reno.

Ilustração do Forte Romano em Velsen, extraída da matéria do The Guardian, conforme o link no parágrafo seguinte. Foto de Graham Sumner

A descoberta do forte cf. em https://www.theguardian.com/world/2021/dec/26/roman-fort-built-by-caligula-discovered-velsen-near-amsterdam.

Já a decisão de anexar a Mauritânia, um reino-cliente de Roma, foi tomada durante o reinado de Calígula, mas há dúvidas se a execução desta decisão ocorreu quando ele ainda estava vivo ou se foi deixada para o sucessor, Cláudio, que, assim, teria, em seu reinado, na verdade, continuado iniciativas tomadas pelo antecessor.

Desmandos, perversões e crueldades

Vamos aqui deixar a narrativa detalhada dos inúmeros assassinatos, atos de perversão sexual e gestos tresloucados de Calígula para quem se interessar em ler Suetônio. Entre os últimos, podemos citar o desejo manifesto dele nomear seu cavalo Incitatus para o Senado Romano…

Aliás, o filme Calígula, de Bob Guccione, dono da Revista Penthouse, foi muito criticado por ser porno-erótico, mas a película não deixa de ser bem fiel ao relato de Suetônio (com a interpretação magistral de Malcolm Mcdowell no papel do imperador)…

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De qualquer forma, a personalidade cada vez mais instável de Calígula inviabilizou politicamente o seu governo. As fontes asseguram que ele efetivamente pensava ser um deus-vivo e exigia o culto que lhe achava devido. O judeu alexandrino Filão deixou um precioso relato da embaixada que ele fez à Roma, onde encontrou pessoalmente Calígula, com o objetivo de tentar demovê-lo do propósito de instalar uma estátua de si mesmo no interior do Templo de Jerusalém. Filão descreve em seu texto que percebeu que o imperador ficava muito agitado em alguns momentos, e ele saiu do encontro com a impressão de que Calígula acreditava que realmente era um ser divino.

Calígula era louco?

Entre os autores antigos há certo consenso de que Calígula era louco, mas, hoje em dia, muitos autores modernos lançam suspeitas sobre esses relatos, atribuindo o tom negativo a uma certa antipatia e animosidade política dos escritores romanos, todos integrantes da classe senatorial, que se julgava preterida e perseguida pelos Césares.

Porém, eu acredito que Calígula era insano mesmo, embora não possamos identificar com precisão que tipo de distúrbio psicológico ele sofria. É quase certo que as provações pelas quais passou na infância e adolescência, como, por exemplo, ter visto a mãe e os irmãos morrerem assassinados e o medo incessante de ser executado por Tibério ou por Sejano, tudo isto deve ter deixado marcas profundas em sua mente e pode ter gerado transtornos de personalidade. Por exemplo, Suetônio narra que Calígula conversava com as estátuas dos deuses, não conseguia dormir à noite e vagava como uma alma penada pelo Palácio. É bem possível, portanto, que ele sofresse de esquizofrenia paranóide.

Dessa forma, ao contrário de outros imperadores que se destacaram pelo comportamento tirânico e bizarro, como Nero, que reinou 14 anos, Domiciano, que reinou 15 anos, e Cômodo, que reinou 13 anos, Calígula, apesar do prestígio quase sacrossanto de sua linhagem entre o Povo e o Exército, foi assassinado antes de completar o quarto ano de seu reinado!

A conspiração

Quando Calígula manifestou a intenção de se mudar para Alexandria, onde poderia ser adorado como Deus, muitos romanos influentes perceberam que havia chegado a hora de se livrar do lunático imperador…

A elite política romana estava farta das insanidades de Calígula. Talvez ela até aguentasse as excentricidades e bizarrices se tais comportamentos não comprometessem a deferência e os privilégios aos quais os senadores se julgavam merecedores, mas esse definitivamente não era o caso, já que Calígula não titubeava em tratar os senadores como súditos e submetê-los a inúmeras humilhações.

Assim, somos da opinião de que quando os senadores perceberam que Calígula também não era benquisto por um bom número de seus próprios guarda-costas, a conspiração para se livrarem do perturbado imperador ganhou corpo, e foi posta em prática no dia 24 de janeiro de 41 D.C.,  por elementos da Guarda Pretoriana, como relatamos no início do nosso texto.

Contudo, se os conspiradores alguma vez de fato tiveram alguma esperança de restaurar a República, a realidade tratou de sepultar imediatamente suas aspirações, pois a própria Guarda apresentou ao Senado, o tio de Calígula, Cláudio, como sucessor, demonstrando que, após mais de setenta anos de governo de Augusto e de seus sucessores Júlio-Cláudios haviam colocado a ideia de um regime de uma República governada pelo Senado definitivamente nos livros de História.

FIM

GALBA E SEMPRÔNIO, O PRETORIANO FIEL

Em 15 de janeiro de 69 D.C,  em Roma, morreram o imperador romano Galba e o centurião da Guarda Pretoriana, Semprônio Denso.

Origens e Infância

Sérgio Sulpício Galba (Galba), nasceu em 24 de dezembro de 3 A.C., próximo à Terracina, uma cidade litorânea do Lácio, a 76 km de Roma, filho de Gaius Sulpicius Galba, que era corcunda e se destacou como advogado nos tribunais, e de Mummia Achaica, sendo ambos integrantes de famílias muito ilustres da aristocracia romana.

Porém, a mãe de Galba morreu pouco tempo depois do nascimento dele, e seu pai, viúvo, casou-se, então, com Livia Ocellina, que pode ter sido parente da imperatriz Lívia Drusila, que na época era a poderosa esposa do imperador Augusto. Este deve ter sido o principal motivo pelo qual Galba chegou a mudar o seu nome e passar a empregar o sobrenome Ocello, antes de sua elevação ao trono.

Ruínas do teatro romano em Terracina, foto Mænsard vokser, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Quando Galba ainda era apenas um menino, Suetônio conta que, durante uma audiência na qual as crianças da elite romana foram prestar uma homenagem a Augusto, o imperador beliscou carinhosamente a bochecha dele, e disse, em grego:

Tu também, criança, vais ter um bocadinho deste meu Poder”

Galba casou-se uma única vez, com Emília Lépida, também ela membro de uma ilustre família nobre e uma provável descendente do Triúnviro Marco Emílio Lépido. Porém, tanto ela como os filhos que o casal teve morreram quando Galba devia estar na casa dos quarenta anos de idade. Consta até que, ainda antes da esposa morrer, Galba foi ostensivamente cortejado por Agripina, a Jovem, mãe do futuro imperador Nero.

Carreira

Provavelmente, graças ao seu sobrenome ilustre e ao possível parentesco de sua madrasta e mãe adotiva com Lívia, durante o reinado do filho desta, e sucessor de Augusto, o imperador Tibério, Galba teve uma carreira pública de respeito, ocupando os cargos de Pretor, onde presidiu uma extravagante cerimônia na festilidade religiosa da Floralia, e de Cônsul, em 33 D.C. Efetivamente, Suetônio narra que Galba era muito devotado à imperatriz e que foi graças à influência de Lívia que ele obteve cargos tão importantes.

Inclusive, quando Lívia morreu, ela deixou em testamento, em legado a Galba, a fortuna de 5 milhões de sestércios. Porém, o imperador Tibério diminuiu esta disposição testamentária para somente 500 mil sestércios, e, segundo Suetônio, nem isto Galba recebeu. De qualquer maneira, Galba era riquíssimo, e segundo Plutarco, ele seria o homem mais rico que ocupou o trono até os dias do historiador, que escreveu provavelmente no início do século II D.C.

Galba foi também governador da província da Gália Aquitânia, ainda durante o reinado de Tibério.

A proximidade de Galba com a dinastia dos Júlio-Cláudios foi confirmada no reinado de Calígula, quando ele foi escolhido, em 39 D.C, para substituir o governador da Germânia Superior, Gnaeus Cornelius Lentulus Gaetulicus, que caíra em desgraça com Calígula.

A Germânia Superior era um dos comandos militares mais importantes do Império, e no comando das legiões da província, Galba notabilizou-se pela severidade e disciplina inflexível, constantemente ordenando manobras e exercícios, os quais, diga-se de passagem, contribuíram para a excelência das mesmas e eficiência no combate a algumas incursões dos Germanos.. Aliás, parece que este era um traço marcante da personalidade, pois Suetônio relata que ele era fo único em Roma que mantinha um antigo costume de ordenar os que os seus escravos domésticos e libertos diariamente entrassem em formação, uma vez ao amanhecer e outra ao anoitecer, para lhe desejar bom dia e boa noite.

Há até o relato de que Galba, quando Calígula visitou a província, acompanhou por 20 milhas, de escudo na mão, a carruagem do imperador.

Após o assassinato de Calígula, consta que Galba chegou a ser sondado para assumir o trono, mas, mantendo a sua fidelidade à dinastia Júlio-Cláudia, ele declinou, o que lhe valeu também a confiança do novo imperador, Cláudio, passando, assim, a integrar o círculo mais íntimo e o conselho deste monarca.

Em consequência, Galba foi designado governador da província da África, ocupando o cargo por dois anos, sendo especialmente escolhido para restaurar a ordem na província, que enfrentava uma revolta de nativos, provavelmente entre 44 e 46 D.C.. Novamente, no comando das legiões daquela província, são relatados atos de extrema severidade disciplinar por parte de Galba, quando, ao punir um soldado acusado vender parte da sua ração, Galba ordenou que o mesmo fosse impedido de receber comida, depois que as suas rações acabassem, morrendo de inanição.

De qualquer modo, os serviços de Galba na`África foram reconhecidos pela concessão dos ornamentos triunfais (no Império, somente o Imperador poderia celebrar Triunfos), uma grande honraria.

Após ele voltar da África, Suetônio relata que Galba retirou-se da vida pública até que, entre 59 e 60 D.C, já durante o reinado de Nero, sucessor de Cláudio, ele recebeu a oferta de governar a província da Hispânia Tarraconense, ficando neste cargo durante oito anos.

Caminho para o trono

Então, na primeira metade de 68 D.C, enquanto presidia julgamentos em Cargago Nova (atual Cartagena), Galba recebeu notícias de que na província da Gália Lugdunense, o governador Gaius Julius Vindex planejava uma conspiração para destronar Nero, mas consta que Galba, a princípio, manteve-se inerte. Mesmo assim, após deflagrada a revolta, VIndex enviou uma nova carta a Galba, instando-o a se tornar o “Libertador” de Roma e “Líder da Raça Humana“.

Embora Galba não tenha de pronto aceitado a oferta de Vindex, o mero fato dele ter sido procurado pelos revoltosos e não ter delatado a revolta levou Nero a ordenar a sua morte. Entretanto, os emissários enviados com a sua sentença de morte foram interceptados por homens de Galba e ele, então, premido pelas circunstâncias,e instado por Titus Vinius, capitão de sua guarda pessoal, Galba mandou reunir a soldadesca e declarou que assumia o título de “General do Povo e do Senado Romano” e que ele estava “à disposição do Senado para restaurar a liberdade“…

Nero, que aparentemente não tinha dado a devida importância à rebelião de VIndex, quando soube que Galba também tinha aderido à rebelião ficou preocupado, devido às credenciais aristocráticas do seu nome e a boa reputação de que o rival gozava. Consequentemente, Nero, que ainda mantinha algum controle da situação, conseguiu que o Senado declarasse GalbaInimigo Público” e ordenou que todas as suas propriedades fossem confiscadas.

Enquanto isso, a revolta de Vindex foi rapidamente derrotada pelas legiões da Germânia Superior, fiéis a Nero, sob o comando de Lucius Verginius Rufo, nos arredores da cidade de Vesontio (atual Besançon), tendo logo após o líder rebelde cometido suicídio.

Todavia, as legiões vitoriosas imediatamente declararam-se em rebelião contra Nero, embora Rufo tenha permanecido leal ao imperador, recusando-se a aderir ao movimento e a aceitar a sua aclamação como imperador pelos seus soldados, que, ao que parece, já começavam a farejar a possibilidade de obterem polpudas recompensas caso o seu comandante assumisse o trono (Nota: A postura de Rufo mostrou-se sábia. No ano seguinte, ele recusaria novamente apelos de soldados para assumior trono, após o assassinato do imperador Otão, e viveria uma vida pacífica em sua propriedade na Etrúria, até ser nomeado novamente Cônsul pelo imperador Nerva, em 97 D.C, mesmo ano em que ele morreria, com a avançada idade de 82 anos!)

Galba, entrementes, fez preparativos para enfrentar a retaliação de Nero, chegando a fortificar uma cidade, mas teve que lidar com uma tentativa de deserção de uma unidade de cavalaria, e quase sofreu um atentado. Ele, além disso, ficou muito preocupado quando chegou a notícia da derrota da rebelião de Vindex, chegando até a cogitar o suicídio.

No meio deste confuso e atribulado quadro, os partidários de Galba no Senado em Roma não ficaram imóveis, e procuraram aliados: Assim, em algum momento entre  o final demaio e o início de junho de 68 D.C., um dos Prefeitos da Guarda Pretoriana, Ninfídio Sabino (consta que o outro Prefeito, Ofonius Tigellinus, que era amigo de Nero, já percebendo a sua iminente ruína, afastou-se alegando uma suposta doença naquele momento), persuadiu os pretorianos, em Roma, de que os rumores de que Nero havia fugido para o Egito eram verdadeiros, induzindo-os a se declararem a favor de Galba.

Para o azar de Nero, a defecção dos Pretorianos ocorrera antes da chegada à Roma da notícia da vitória de Rufo contra Vindex, algo que daria ao imperador certa esperança de readquirir o controle da situação.

Sem a Guarda Pretoriana, o próprio palácio de Nero ficou desguarnecido, fato que ele, desesperado, descobriu quando acordou no meio da noite e não viu ninguém nos corredores desertos. Circulou, então, a notícia de que o Senado tinha declarado NeroInimigo Público“. Assim, o emotivo imperador, apavorado com a situação, após tentar fugir, cometeu suicídio,

Em 8 de junho de 68 D.C., aos 70 anos de idade, Galba foi reconhecido pelo Senado Romano como o novo imperador romano. Era o fim da dinastia dos Júlio-Cláudios, que fundara o Império, em 27 A.C, mas governava Roma há mais de um século, desde que Júlio César havia sido nomeado Ditador Perpétuo e, após o assassinato deste, Otávio Augusto venceu a Guerra Civil.

Busto de Galba no Museu de Antiguidades Gustavo III, em Estocolmo. Foto de Richard Mortel from Riyadh, Saudi Arabia 

Quando a noticia da morte de Nero chegou à cidade de Clunia, na Hispânia, para onde Galba havia se retirado, nova que lhe foi trazida pelo liberto Icelus Martianus, então ele sentiu-se seguro em partir para Roma.

Reinado

Cássio DIão conta que Galba começou a reinar de maneira moderada e, de modo geral, correta. Porém, a excessiva severidade e avareza, que parecem terem sido traços características de sua personalidade, e provavlmente agravados pela velhice (Galba seria um dos homens mais velhos a se tornar imperador em toda história romana), logo o fariam impopular e odiado.

Segundo Suetônio:

Ele condenou a morte homens distintos de ambas as ordens por suspeitas triviais sem julgamento. Ele raramente conferiu a cidadania romana, e os privilégios que deviam gozar os pais de três filhos para raramente um ou dois, e mesmo para estes, por um tempo fixo e limitado. Quando os jurados peticionaram que fosse adicionado uma sexta divisão aumentando o número deles, ele não apenas recusou, mas retirou deles os privilégios conferidos por Cláudio, de não serem convocados a servir nos tribunais durante o inverno e no começo do ano.

Também acreditava-se que ele tencionava limitar os cargos abertos aos senadores e cavaleiros a um período de dois anos, e dá-los somente aos que não os desejassem ou tivessem recusado.

Ele revogou todas as benesses e presentes dados por Nero, autorizando que apenas fosse retida a décima parte deles; e ele cobrou essas devoluções com o auxílio de 50 Equestres, estipulando que mesmo que os atores e atletas já tivessem vendido o que eles tinham recebido, o valor correspondente deveria ser debitado do pagamento, caso os beneficiados tivesem gasto o dinheiro e não pudessem devolver. Por outro lado, não houve nada que ele não tivesse permitido que os seus amigos e libertos vendessem por um preço ou agraciassem como favor: taxas e isenções, a punição de inocentes ou a impunidade de culpados. (…)

Tendo dessa maneira incorrido no ódio de quase todos os homens de todas as classes, ele foi especialmente odiado pelos soldados; porque, embora os oficiais deles tenham-lhes prometido uma recompensa maior do que a usual quando eles juraram fidelidade à Galba, em vez de honrar a promessa, ele declarou que “estava acostumado a recrutar soldados, não comprá-los”; e por conta disso, ele amargurou os soldados ao redor do Império.”(…)

Vida de Galba, em A Vida dos Césares, Suetônio, 15-16

Vale observar que, mesmo antes de Galba adentrar a cidade de Roma, um episódio sombrio prenunciou o seu jeito de ser, embora sua conduta não possa ser condenada em função das circunstãncias: ele foi abordado na estrada por algumas dezenas de marinheiros que tinham sido recrutados por Nero e demandavam o seu alistamento formal como uma unidade militar. Galba, então, disse que trataria do assunto mais tarde. Então, alguns homens começaram a reclamar de maneira mais enfática e alguns teriam at´desembainhado as espadas. Galba, assim, ordenou que a sua cavalaria atacasse os homens, que correram. Mesmo assim, todos foram passados a fio de espada.

Aureus de Galba. Foto Classical Numismatic Group, Inc. http://www.cngcoins.com, CC BY-SA 2.5 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.5, via Wikimedia Commons

Uma das primeiras medidas de Galba foi condenar a execução vários integrantes do círculo íntimo de Nero, tais como a feiticeira e envenenadora Locusta, após fazê-los desfilar acorrentados pelas ruas, e isso deve ter sido apreviado pela população. Mas outras figuras odiadas, como TIgellinus e o eunuco Haloto, que era suspeito de ter envenenado o imperador Cláudio,, o imperador Galba poupou, e, no caso do segundo, até nomeou-o para um cargo importante e lucrativo, talvez ligado à coleta de impostos, algo que se coaduna com a apontada avareza e sede de tributos que é imputada a este imperador.

Parece que a idade avançada de Galba acabou fazendo com que ele tivesse que confiar e deixar a maior parte da tarefa de governar nas mãos de três auxiliares de confiança: Titus Vinius, Cornelius Laco e o liberto Icelus Martianus. Eles demonstraram ter tanta influência sobre Galba que passaram a ser chamados, sarcasticamente, de “Os Três Pedagogos“…

O braço-direito de Galba no governo passou a ser TItus Vinius, que o imperador escolheu para ser seu colega de Consulado para o ano de 69 D.C. Dar tanto poder a VInius pode ter sido um gesto de gratidão, mas foi uma péssima escolha, pois Vinius era excessivamente ganancioso e desregrado. Aliás, Plutarco conta dois episódios acerca da vida pregressa de Vinius: o primeiro contando que, ainda no início de sua carreira militar, Vinius cometeu adultério com a esposa do comandante da sua unidade, fazendo-a entrar no quartel disfarçada de soldado e praticando o ato sexual em pleno quartel-general. Na segunda passagem, Plutarco conta que Vinius surrupiou uma taça de prata em um banquete no palácio de Calígula, motivo pelo qual este imperador, no banquete seguinte, ordenou Vinius fosse servido apenas com utensílios de cerâmica.

Segundo Plutarco, Vinius teria sido o maior responsável pelo fato de Tigellinus não ter sido punido, devido ao fato dele ter recebido suborno do amigo de Nero.

Cornelius Laco foi nomeado Prefeito da Guarda Pretoriana, e substituição a Tigellinus. A sua nomeação desagradou NInfídio Sabino, que, durante o tempo em que Galba ainda estava a caminho da Itália, exerceu grande poder em Roma e chegou a cogitar de assumir o trono ele mesmo, aspiração que, por sinal, a sua origem humilde obviamente tornava quase impossível naquele tempo. Sabendo desta realidade, Ninfídio tentou espalhar o boato de que ele seria filho ilegítimo do finado imperador Calígula, pelo fato de que sua mãe, que era dotada de beleza e filha de um liberto deste imperador, teria tido com o mesmo um relacionamento íntimo, quando ele ainda era muito jovem.

Não satisfeito, Ninfídio tentou incitar os Pretorianos a demandarem o afastamento de Vinius e Laco, mas os oficiais da Guarda, inicialmente fiéis ao seu Comandante, ficaram desconfiados e temerosos e, mudando de disposição, convocaram Ninfídio para o Quartel da Guarda Pretoriana. local onde, após discussões, os principais soldados decidiram manter-se leais ao imperador e, então, Ninfídio foi morto em uma tenda de um soldado onde ele foi buscar abrigo, sendo depois o seu corpo arrastado, ficando exposto aos que passavam pelos muros do Quartel.

Titus Vinius, foi o responsável pela indicação de seu amigo Vitélio para o importante comando militar das legiões da Germânia Inferior, apesar do segundo não ter a menor experiência militar. Vinius e Vitélio ficaram amigos em virtude do prosaico motivo de ambos torcerem pela facção dos Azuis, uma das quatro que dividiam os torcedores das corridas de quadrigas, no Circo Máximo, em Roma…

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A aceitação da indicação de Vitélio para tão importante comando militar, segundo Suetônio, deve-se ao fato dele ser um notório glutão e bon-vivant, e, portanto, ter sido considerado como uma pessoa incapaz de ameaçar Galba

Porém, algo que o notório temperamento severo e inflexível de Galba não conseguiu perceber, é que as tropas da Germânia estavam muito descontentes pelo fato delas não terem recebido os donativos esperados quando da subida dele ao trono imperial, em recompensa por eles terem derrotado as legiões de Julius Vindex, cuja revolta desencadeara a sucessão de eventos que levou à derrubada de Nero e, logicamente, a coroação do próprio Galba.

O fato é que as credenciais de Vitélio, tendo em vista o seu “pedigree” de filho de um senador que ocupara o consulado por 3 vezes e, ele mesmo, já ter sido Cônsul, não eram de se desprezar como pretendente ao trono, e, depois que ele chegou à Germânia, em novembro de 68 D.C, não muito tempo depois, em 1º de janeiro de 69 D.C., as legiões da província recusaram-se a jurar lealdade a Galba, naquela mesma data tradicional em que os Cônsules indicados assumiam o Consulado, configurando, assim, o estado de rebelião.

Busto de Vitélio

Julgando, não de modo todo incorreto, diga-se de passagem, que a principal causa da instabilidade de seu governo era o fato dele não ter filhos nem herdeiros, Galba adotou, em 10 de janeiro de 69 D.C, como filho e sucessor, o nobre Lúcio Calpúrnio Pisão Frugi Liciniano, na presença da Guarda Pretoriana reunida.

Entretanto, no ato público de adoção de Calpúrnio Pisão, o imperador, seguindo o seu jeito de encarar esse assunto, deixou de fazer a costumeira promessa de donativo às tropas.

A escolha desagradou outro nobre e partidário de Galba na rebelião contra Nero, Marco Sálvio Otão (Marcus Salvius Otho), que julgou-se preterido pelo imperador, uma vez que ele, Otão, quando governava a Lusitânia, havia sido o primeiro governador a declarar apoio a Galba durante a revolta, inclusive enviando dinheiro para apoiar o colega. Otão tinha sido um amigo íntimo do finado imperador Nero, com que chegou a “compartilhar” a própria esposa, Popéia, antes que ela se casasse com Nero.

Em poucos dias, Otão começou a subornar integrantes da Guarda Pretoriana para assassinar o imperador e Calpúrnio Pisão, mas muito mais crucial do que isso para o sucesso da conspiração seria a grande insatisfação contra Galba que grassava entre os Pretorianos.

Então, após realizar um sacrifício religioso, Galba recebeu a notícia de que Otão tinha tomado o controle do Quartel da Guarda Pretoriana. Na verdade, segundo o relato de Plutarco, Otão, após um presságio desfavorável revelado em um sacrifício presidido por Galba, que lhe apontava como causador da morte do imperador, deixou às pressas o Palácio, com medo de ser preso, mas foi recebido por 23 pretorianos, que o aclamaram como Imperador e, rodeando a sua liteira, o levaram até o Quartel, sendo que, no caminho, outros guardas foram se juntando à rebelião).

Alguns auxiliares aconselharam Galba a proceder imediatamente para o Quartel, onde ele poderia debelar a nascente rebelião com sua mera presença e prestígio (provavelmente um conselho mal-intencionado). Não confiando nas recomendações, Galba, vestindo uma couraça de tecido prensado do tipo “linothorax” preferiu juntar um grupo de soldados leais em torno de si e fortificar posições em determinados pontos de Roma.

Contudo, conspiradores ocultos que tinham acesso a Galba fizeram chegar a ele, bem como fizeram circular em Roma, a informação falsa de que Otão havia sido morto pelos Pretorianos no Quartel.

Sentindo-se, assim, confiante, Galba deixou o Palácio e foi com o pequeno contingente da sua guarda pessoal examinar de perto a situação.

Segundo, Suetônio, no caminho, Galba encontrou uma tropa de Pretorianos, da qual um guarda deu-lhe outra falsa notícia: Que Otão havia sido morto por ele, tendo o militar até exibido ao imperador o seu gládio manchado de sangue, ao que Galba, em seu tradicional modo imperativo, respondeu:

“Com a autoridade de quem?”

A liteira de Galba, então, foi avistada, enquanto cruzava o Fórum Romano, por cavaleiros da Guarda Pretoriana, que já estavam à caça do Imperador.

Segundo o detalhado relato de Plutarco, a liteira de Galba foi alcançada na altura da Basílica Emília, e o galope da cavalaria rebelde espantou os transeuntes, que, não obstante, correram para os prédios e monumentos próximos e ficaram observando o desfecho, como se fosse um espetáculo. Os pretorianos, então, lançaram os seus dardos contra a liteira, sem alcança-la (ou, segundo outra versão, atingindo, porém sem matar, o Imperador). Então, chegando mais perto, desmontaram e desembainharam a espada, aproximando-se cada vez mais.

Ruínas da Basílica Emília, no Fórum Romano, foto daryl_mitchell from Saskatoon, Saskatchewan, Canada, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

A Morte de Galba e o heroísmo de um Centurião

Ao estudar a História do Império Romano, ficamos pasmos com a quantidade de vezes em que imperadores foram assassinados pela Guarda Pretoriana, que, afinal, era uma unidade militar de elite que, em tese, deveria existir para proteger o soberano.

Entretanto, nem todos os Pretorianos eram venais e subornáveis, como mostra o exemplo do centurião Semprônio Denso.

De fato, os relatos dão conta de quando os pretorianos que faziam a escolta de Galba, quando viram o grupo armado dos colegas rebeldes, a maioria fugiu e a outra parte juntou-se aos atacantes.

Porém, o centurião Semprônio Denso manteve-se ao lado do imperador.

Plutarco conta que Semprônio levantou a sua vara de centurião, feita de videira e costumeiramente usada para castigar os soldados faltosos, ordenando que não tocassem o imperador. Não sendo isso suficiente para afastar os colegas renegados, o fiel centurião desembainhou a sua espada (ou, na versão de Tácito, um simples punhal) e enfrentou em combate homem-a-homem vários inimigos, até receber um golpe nas pernas, que o levou ao chão, onde ele foi morto.

A bravura de Semprônio permitiu que o seu herdeiro Calpúrnio Pisão Liciniano, que fazia parte do cortejo de Galba, conseguisse escapar do atentado e se refugiar no Templo de Vesta, onde contudo, ele foi posteriormente capturado e morto a mando de Otão, em um ato de desrespeito ao santuário sagrado. O mesmo destino que sofreram VInius e Laco.

O feito de Semprônio também foi registrado pelo historiador Cássio Dião, como sendo o único ato de bravura ocorrido naqueles dias,  e, por isso,  ao terminar de narrar em sua História o caso do infeliz centurião, ele fez questão de afirmar:

“É por isto que eu registrei o seu nome, pois ele é muito merecedor de ser mencionado”

Guardas Pretorianos no chamado Relevo de Cancelleria, foto Eleven Explorer, Public domain, via Wikimedia Commons

De acordo com Plutarco, no chamado Lacus Curtius, ainda no Fórum Romano, a liteira de Galba foi virada, o imperador rolou para o chão e ficou prostrado de armadura, sendo alcançado pelos soldados. Quando levou o primeiro golpe, Galba ofereceu o pescoço para seus algozes, dizendo:

“Faça isso, se for o melhor para o Povo Romano”

Já segundo Cássio Dião, as últimas palavras de Galba foram:

“Por que? Que mal eu fiz?”

Seja como for, após receber vários golpes, Galba foi morto, teve a sua cabeça cortada e levada até Otão, que chegou a dizer:

“Isto não quer dizer nada, meus caros soldados, mostrem-me a cabeça de Calpúrnio Pisão!”

Epílogo

O Senado, aterrorizado com a procissão de várias cabeças decepadas no interior da própria Cúria, no mesmo dia aclamou Otão como novo imperador romano. Porém, o seu reinado também seria curto, pois o exército de VItélio já se encontrava em marcha para a Itália, para derrotá-lo na Batalha de Cremona. Enquanto isso, no Oriente, o prestigiado general Vespasiano estava em vias de também dar a sua cartada pelo trono. Por isso, 69 D.C ficaria conhecido na História como “O Ano dos Quatro Imperadores“.

A cabeça de Galba foi levada em parada pelo acampamento da Guarda Pretoriana. Depois, um liberto de Patrobius Neronianus, o qual havia sido executado por ordens de Galba, comprou-a por 100 moedas de ouro e a jogou no local de execução do seu Patrono. Porém, pouco depois, o liberto Argivus reuniu todos os restos de Galba e sepultou-o em um mausoléu nos Jardins que o finado imperador tinha na Via Aureliana.

Conclusão

De acordo a opinião do historiador romano Tácito sobre Galba:

Ele pareceu grande demais para ser súdito enquanto foi súdito, e todos teriam concordado que ele estava à altura do cargo de Imperador, caso ele nunca o tivesse exercido”

Histórias, 1, 49

É um diagnóstico preciso e contundente sobre o imperador Galba, que não entendeu que o poder imperial repousava sobre um tripé que tinha que ser mantido em equilíbrio no que se refere às demandas de seus três pilares: o Povo, o Exército e o Senado.

Assim, de um Imperador Romano esperava-se que assistisse e entretesse o Povo, mantivesse bem pago, treinado e vitorioso o Exército, e fosse deferente e respeitoso com o Senado.

Galba não entreteve o Povo e nem pagou o Exército, então seu governo, restrito a apenas um pé, logo foi ao chão.

FIM

FONTES;

1- Quem foi Quem na Roma Antiga, Diana Bowder, Ed. Círculo do Livro, 1980

2- The Lives of the Twelve Caesars, by C. Suetonius Tranquillus

3- Roman History, by Cassius Dio

4-The Parallel Lives, by Plutarch

TITO, O IMPERADOR QUE SÓ TEVE TEMPO PARA SER AMADO

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Em 30 de dezembro de 39 D.C., nascia, em Roma, Titus Flavius Sabinus Vespasianus (Tito), filho mais velho de Tito Flávio Vespasiano (que trinta anos mais tarde se tornaria o imperador Vespasiano) e de Domitila, a Velha.

Os Flávios eram uma família de origem sabina (povo itálico vizinho dos romanos), proveniente da cidade de Reate, que, no final da República, ingressaram na classe dos Equestres (ou Cavaleiros), que era o segundo nível hierárquico da nobreza romana.

Com efeito, o bisavô paterno de Tito havia sido um mero centurião das tropas de Pompeu, que lutou na Batalha de Farsália, durante a guerra civil entre este e Júlio César, e, depois, coletor de impostos. Já o seu avô paterno, Titus Flavius Sabinus, também foi coletor de impostos na Província romana da Ásia e, depois, banqueiro.

Por sua vez,  família de Domitila, a Velha, mãe de Tito, havia se estabelecido na cidade de Sabratha, na colônia romana da África. durante o reinado de Augusto, sendo o avô materno de Tito um simples secretário de um questor daquela província (Nota: Domitila, a Velha é avó de Flávia Domitila, que foi canonizada pela Igreja Católica como Santa Flávia Domitila e era sobrinha de Tito. As chamadas Catacumbas de Domitila, em Roma, têm esse nome porque as terras pertenciam a ela, que as legou para a nascente comunidade cristã da Cidade, ainda no século I D.C).

Porém o pai de Tito, Vespasiano, e o irmão mais velho deste, Sabino, tiveram sucesso no serviço público e no Exército, durante os reinados de Calígula e Cláudio. Vespasiano, inclusive, conseguiu ingressar no círculo mais íntimo do imperador Cláudio, em função da sua relação amorosa com a influente liberta Antônia Caenis, que era secretária pessoal da mãe de Cláudio, Antônia, a Jovem, e da amizade com o liberto Narcissus, que era um dos principais ministros deste imperador.

Assim, durante o reinado de Cláudio, Vespasiano conseguiu atingir o cume da carreira pública das magistraturas romanas, ao ser nomeado Cônsul, em 51 D.C., também obtendo um importante comando militar na conquista da Britânia.

Por isso,  Tito teve o raro privilégio de ser educado junto com Britânico, o filho natural de Cláudio, e, obviamente, um natural pretendente ao trono, muito embora as maquinações da imperatriz Agripina, a Jovem persuadissem Cláudio a privilegiar o filho desta, Nero, que foi adotado como herdeiro pelo imperador.

Não obstante, vale observar que, anos mais tarde, quando ficou claro que ele seria o herdeiro de Vespasiano, o comportamento de Tito, durante a sua mocidade suscitaria alguns temores naqueles que chegaram a perceber muita semelhança entre ele e Nero, sobretudo no que tange aos prazeres mundanos…

Segundo o historiador Suetônio, o jovem Tito era bonito e forte, apesar dele ser baixo e barrigudo. Ele montava bem à cavalo e era bom no manejo das armas, notadamente o arco e a flecha (inclusive, durante o Cerco a Jerusalém, Tito teria oportunidade de demonstrar esta habilidade). Outro talento que chamou a atenção, embora fosse um tanto mais preocupante, era a sua extraordinária capacidade de imitar perfeitamente a caligrafia dos outros.

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Iniciando a sua carreira militar, entre os anos 57 e 63 D.C, Tito destacou-se como tribuno militar na Britânia e na Germânia.

De volta à Roma, em 63 D.C., Tito casou-se com Arrecina Tertulla, que era filha de um ex-Prefeito da Guarda Pretoriana. Porém, Arrecina  faleceria cedo, em 65 D.C., assim, o viúvo Tito em seguida desposou a nobre Marcia Furnilla, que pertencia a uma distinta família da classe senatorial romana (apesar de, originalmente, no início da República, os Márcios serem uma gens plebeia, eles reivindicavam descender do lendário Rei de Roma Ancus Marcius).

Ocorre que o novo casamento de Tito também teria vida curta, pois ele achou por bem divorciar-se da segunda esposa quando membros da família dela foram acusados de participar da Conspiração Pisoniana, liderada por Caio Calpúrnio Pisão contra o imperador Nero, que ocorreu naquele mesmo ano de 65 D.C.

Tito jamais se casaria de novo.

Pouco depois, Vespasiano, que era um general respeitado, no final do reinado de Nero foi nomeado para comandar as legiões que iriam combater a Grande Revolta Judaica, que estourara em 66 D.C.

Na Guerra contra os Judeus, Tito acompanhou Vespasiano até a Judéia, em 67 D.C., comandando a XV Legião.

Quando estourou a rebelião de Gaius Julius Vindex, na Gália, em 68 D.C., que iniciou a cadeia de eventos que resultaria na deposição e suicídio de Nero, Tito foi enviado à capital por Vespasiano para transmitir o reconhecimento das legiões na Judéia ao novo imperador, Galba. Porém, antes de chegar à Roma, Tito recebeu a notícia de que Galba havia sido assassinado e de que agora Otão era o novo imperador. Ele decidiu, então, retornar para a Judéia para ver o que o pai decidiria diante do novo quadro.

Entretanto, já em 69 D.C., Otão foi derrotado por Vitélio, que, pouco antes,  havia sido aclamado pelas legiões da Germânia, e, com a vitória, foi aclamado como o novo Imperador.

Enquanto isso, Tito teve vital importância e participou diretamente das negociações que levaram Muciano, o Governador da Síria, a jogar a cartada de reconhecer Vespasiano como imperador, desprezando o reconhecimento de Vitélio, que, afinal, tinha menos prestígio que o primeiro.

Vespasiano, assim, partiu para Roma para reclamar o trono e deixou sob o comando de Tito a campanha contra a Grande Revolta Judaica. Consequentemente, ficou sob a responsabilidade de Tito a fase mais difícil da guerra: o cerco e captura de Jerusalém. Em 70 D.C., Jerusalém, após um duro sítio, foi finalmente tomada e saqueada pelos romanos.

Segundo o abrangente relato do historiador Flávio Josefo, que era um líder rebelde judeu que foi capturado e aderiu aos romanos, Tito tinha a intenção de poupar da destruição o Grande Templo de Jerusalém, que teria sido acidentalmente incendiado durante o cerco. Porém, para muitos, essa parte do relato de Josefo não teria muita credibilidade, já o que houve de fato foi uma destruição sistemática do templo, sendo que o referido historiador seria muito propenso a incensar os Flávios, os seus captores e patronos.

O Arco de Tito, em Roma, que foi erguido por seu irmão, Domiciano, após a morte de Tito, comemora a vitória obtida por ele contra a revolta judaica e ilustra em relevos o célebre candelabro de 7 braços (Menorah) sendo transportado na procissão triunfal de Tito em Roma.

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Foi durante a Guerra contra os Judeus que Tito envolveu-se com Berenice, uma bela princesa judia, dez anos mais velha do que ele,  e que era bisneta de Herodes, o Grande, e irmã de Herodes Agripa II, o rei-cliente de Roma que, entre outros territórios, governava a Galileia, situando-se entre seus domínios, a cidade de Cesareia (Nota: Foi em Cesareia, na presença de Berenice, de Herodes Agripa, e do procurador romano Festus, por volta de 59 D.C., que o apóstolo Saulo de Tarso (São Paulo), preso, defendeu sua causa e apelou para ser julgado em Roma (Atos, 26).

O Senado Romano reconheceu Vespasiano como novo Imperador, em 21 de dezembro de 69 D.C.  Em 70 D.C,, enquanto ainda estava no Oriente, Tito foi nomeado Consul junto com seu pai.

Em 71 D.C.Tito recebeu do pai o “Poder Tribunício”, que constituía uma declaração informal de que ele seria o herdeiro e sucessor de Vespasiano (afastando, assim, qualquer pretensão de que seu ambicioso irmão mais novo, Domiciano, pudesse ter de herdar o trono antes dele). Certamente, o sábio Vespasiano quis evitar um dos principais fatores de instabilidade nos reinados dos seus antecessores da dinastia dos Júlios-Cláudios: a pouca clareza quanto à sucessão, pela existência de vários pretendentes dinásticos).

Tito também foi nomeado Prefeito da Guarda Pretoriana, um cargo de grande poder e que demonstrava a confiança que Vespasiano tinha no filho. E, de fato, agindo como comandante da guarnição militar da Capital e Guarda de Honra do Imperador, Tito foi implacável na vigilância e repressão a potenciais ameaças ao reinado do pai, tendo executado sumariamente vários supostos conspiradores.

Em 75 D.C., Tito trouxe sua amante Berenice para viver com ele no Palácio. Porém, a opinião pública romana, sempre suspeitosa contra princesas estrangeiras e não muita afeta à fé judaica, não recebeu bem esta união, talvez amedrontada com um possível paralelo com a união entre Cleópatra e Marco Antônio, que foi considerada prejudicial aos interesses do Estado. Tito, então, teve que se curvar à vontade popular e mandou a princesa judia de volta para o Oriente.

Porém, em 23 de junho de 79 D.C., aos 69 anos de idade, Vespasiano morreu de causas naturais e Tito foi imediatamente aclamado como novo Imperador Romano, aos 38 anos.

Uma das primeiras medidas de Tito foi decretar o fim dos julgamentos por crimes de lesa-majestade (maiestas). Essa antiga lei romana, que originalmente visava processar os responsáveis por conspirações contra a segurança nacional, tinha se tornado, durante o principado, um pretexto para executar qualquer pessoa que desagradasse o trono, até mesmo por uma simples manifestação de desagrado contra os imperadores, inclusive os já falecidos.

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(Estátua de Tito, foto de Sailko)

As palavras de Tito, ao acabar com os processos por maiestas, foram preservadas, e valem ser transcritas:

“É impossível que eu seja insultado ou sofra qualquer tipo de abuso, pois eu nada fiz que mereça censura, e eu não me importo com relatos falsos. No que se refere aos imperadores que já morreram, eles podem se vingar sozinhos se alguém lhes fizer algum malefício, caso sejam eles mesmo semideuses e possuam algum poder…”

A declaração supracitada demonstra que Tito herdou muito da personalidade e das maneiras do pai, Vespasiano, que prezava pela simplicidade, afabilidade e senso de humor. Suetônio assim descreve o comportamento de Tito:

“Ele era muito gentil por natureza, e, considerando que, de acordo com um costume estabelecido por Tibério, todos os Césares que o seguiram recusavam-se a reconhecer favores concedidos pelos imperadores precedentes, a menos que eles próprios os concedessem novamente aos mesmos indivíduos, Tito foi o primeiro a ratifica-los conjuntamente em um simples decreto, não admitindo que fossem requeridos pessoalmente a ele. Ademais, no caso de outros pedidos feitos a ele, a norma que ele adotou foi não deixar ninguém sair sem esperanças. Mesmo quando os seus secretários domésticos advertiam-no que ele estava prometendo mais do que podia cumprir, ele dizia que não estava certo que alguém fosse embora triste de uma audiência com o seu imperador. Em outra ocasião, lembrando-se, enquanto jantava, de que durante aquele dia ele não tinha atendido aos pedidos de ninguém, ele proferiu aquele memorável e louvável comentário: “Amigos, hoje foi um dia perdido

Decorridos cerca de dois meses do reinado de Tito, aconteceu uma das maiores tragédias que já se abateram sobre o Império Romano: a grande erupção do Vesúvio que soterrou Pompéia e Herculano, entre outras cidades.

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Nota: a data da erupção, tradicionalmente considerada como sendo 24 de agosto de 79 D.C., com base em cópias medievais da carta de Plínio, o Jovem, testemunha ocular do fato, descrevendo a erupção, tem sido reconsiderada em função dos achados arqueológicos. Além do estado dos restos de plantas e sementes  encontrados não corresponder a essa estação do ano (verão europeu), indicando mais o outono, recentemente, no final de 2018, nas escavações na chamada Região V da cidade de Pompéia, foi encontrado um grafite feito em carvão em uma parede, contendo a data “17 de outubro” (por ser em carvão, material que se apagaria em pouco tempo ao ar livre, acredita-se que essa inscrição foi feita poucos dias antes da erupção ).

A conduta de Tito após a catástrofe do Vesúvio foi digna de um grande estadista. Ele visitou pessoalmente a região afetada, criou um fundo para assistência às vítimas, tomou medidas para o reassentamento dos sobreviventes e organizou uma comissão do Senado para deliberar sobre medidas adicionais de auxílio.

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(Cabeça de Tito, proveniente de Utica, Museu Britânico, foto de Carole Raddato)

Entretanto, pouco tempo depois, na primavera de 80 D.C., estando o Império ainda traumatizado pela destruição na Itália, uma nova tragédia aconteceria: um novo incêndio de Roma. Novamente, Tito, que ainda estava na Campânia supervisionando as medidas de apoio à população afetada pela erupção do Vesúvio, foi incansável nas ações de assistência aos desabrigados.

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Para alguns dos supersticiosos romanos, e certamente para a maioria dos judeus e cristãos, essas tragédias for consideradas uma punição pela destruição do Templo de Jerusalém.

Mas o reinado de Tito não seria marcado apenas pelas tragédias. Em uma espécie de compensação do destino pelos desastres sucessivos, ficou a cargo de Tito terminar e inaugurar o magnífico e grandioso Amphitheatrum Flavium (Anfiteatro Flávio), que ficaria conhecido popularmente como “Colosseum” (Coliseu). O nome do Coliseu deriva do fato dele ficar ao lado da enorme estátua dourada de Nero (que, segundo os relatos, seria maior do que a moderna Estátua da Liberdade, em Nova York),  conhecida como “Colossus” (Colosso).

A construção do Coliseu foi iniciada por Vespasiano, em cujo reinado a maior parte do edifício foi construída, aproveitando as fundações e parte da estrutura do enorme palácio de Nero (“Domus Aurea“), que foi soterrado.

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(O autor no Coliseu, em 2000)

Foram 100 dias de jogos inaugurais e, portanto, feriados, para deleite da plebe romana, que assistiram a lutas de gladiadores e caçadas de animais (cerca de 9 mil animais teriam sido mortos durante o período desses jogos).

Tito também construiu e inaugurou, no mesmo período que o Coliseu (80-81 D.C.), as suas Termas ou Banhos de Tito) para o uso da população de Roma e que, assim como no caso do Coliseu,  aproveitaram a infraestrutura da Domus Aurea. Embora não fossem muito grandes, comparados com os complexos de banhos que os imperadores construiriam nos séculos posteriores, as Termas de Tito foram as terceiras termas públicas construídas em Roma, após as Termas de Agripa e as Termas de Nero. Segundo Suetônio, nas suas Termas, Tito costumava banhar-se junto com os demais frequentadores do povo.

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Na política externa, o único desafio enfrentado por Tito foi uma revolta das tribos da Britânia, que foi debelada pelo general Agrícola, que levou suas legiões em campanha até a Escócia.

Em 13 de setembro de 81 D.C., o imperador Tito morreu de uma febre súbita, quando visitava a terra natal de seus antepassados, em território sabino, aos 41 anos de idade. A suas últimas palavras teriam sido:

“Cometi senão um erro”.

O real significado da frase derradeira de Tito sempre suscitou muita discussão entre os historiadores. Para alguns, ele se referia ao fato de não ter executado o irmão Domiciano, cujo caráter já há tempos já dava mostras de ser tirânico e que, segundo alguns relatos, teria conspirado para derrubar Tito. Houve também quem acreditasse que o erro lamentado teria sido um romance adúltero que Tito teria mantido com a mulher do irmão, Domícia Longina.

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(Quadro “O Triunfo de TIto“, de Sir Lawrence Alma-Tadema (1885). Na cena, Vespasiano é seguido por Domiciano, de mãos dadas com sua esposa Domícia Longina, que olha sugestivamente para Tito)

O reinado de Tito somente durou dois anos. Apesar das catástrofes ocorridas, o seu comportamento afável e generoso, a ausência de perseguições durante o seu governo, a sua procupação com a sorte das vítimas dos desastres e as obras públicas e espetáculos grandiosos, granjearam-lhe a estima do povo e dos historiadores, que lhe retrataram de maneira favorável.

Nas palavras de SuetônioTito foi:

“O querido e a delícia da raça humana”.

CONCLUSÃO

Tito é um daqueles exemplos em que a morte de uma celebridade jovem no auge da fama preserva a mitifica a sua boa imagem.

Ademais, o reinado do sucessor de Tito, Domiciano, mais autocrático e centralizador, desagradou boa parte dos senadores, que acabaram engendrando algumas conspirações para derrubá-lo. Após o assassinato de Domiciano, a história do reinado dele foi contada por historiadores ligados à classe senatorial, hostis a Domiciano, e os relatos dos mesmos tendem a classifica-lo como um “mau” imperador, cujo reinado intercala-se entre os reinados dos “bons” imperadores, Tito e Nerva.

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PAPAI NOEL É ROMANO!

Ícone de São Nicolau, provavelmente bizantino, Public domain, via Wikimedia Commons

Em 15 de novembro de 270 D.C, na província romana da Lícia e Panfília, nasceu Nicolau (Nikolaos), filho de Epifânio (ou Téofano) e Joana (ou Nona), um casal de cristãos abastados da cidade de Patara, na atual província turca da Antalya. Tendo nascido livre e filho de romanos livres, Nicolau era também cidadão romano, de acordo com a lei promulgada pelo imperador Caracala, em 212 D.C .

Os pais de Nicolau morreram enquanto ele era ainda muito jovem e o menino foi criado por seu tio, também chamado Nicolau, que era o Bispo de Patara e logo fez o menino entrar na Igreja como coroinha, e, quando o sobrinho tornou-se adulto, ordenou-o padre.

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Portão da cidade de Patara, By Bjørn Christian Tørrissen – Own work by uploader, http://bjornfree.com/travel/galleries/, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=81819539

Ainda em Patara, Nicolau ficou conhecido pelos atos de caridade, como quando certa vez, sabedor que as 3 filhas de um homem que havia caído na miséria iriam se prostituir para poder sobreviver, ele atirou três bolsinhas contendo moedas de ouro pela janela da casa da família.

Foi durante a Grande Perseguição dos Cristãos, decretada em 303 D.C, pelo imperador Diocleciano, que Nicolau, como tantos outros prelados cristãos, foi preso e, segundo relatos, espancado na prisão. Ele deve ter ficado preso, contínua ou intermitentemente, pelo menos até o Édito de Tolerância baixado pelo imperador Galério, em 311 D.C, também conhecido como Édito de Sérdica, e que tornou o Cristianismo uma religião lícita (este decreto antecedeu o famoso Édito de Milão, publicado dois anos depois).

Cabeça do imperador Diocleciano

Entre os anos 312 e 315 D.C, Nicolau peregrinou pela Terra Santa e viveu em uma pequena comunidade de monges que viviam em cavernas em Beit Jala, nas montanhas do deserto próximo à Belém, onde, séculos mais tarde seria construída a igreja ortodoxa grega de São Nicolau, porém, em 317 D.C, Nicolau voltou para a sua província e foi consagrado bispo da cidade de Mira, atual Demre, na Turquia.

Na condição de bispo de Mira, Nicolau participou do fundamental Concílio de Nicéia, convocado pelo 1º imperador romano cristão, Constantino I, em 325 D.C, sendo listado como participante de número 151: “Nicolau de Mira da Lícia”. Nicolau foi, assim, um dos signatários do “Credo Niceno”, que até hoje é o cerne dogmático do cristianismo católico romano e ortodoxo.

Vários milagres foram atribuídos a Nicolau, sendo que muitos teriam ocorridos em navios, motivo pelo qual ele virou padroeiro de várias cidades portuárias e, inclusive, da Marinha da Grécia moderna.

Nicolau faleceu em 6 de dezembro de 343 D.C, com 73 anos de idade. Ele foi enterrado em Mira.

Sarcófago original de Nicolau na Igreja de São Nicolau, em Demre (Mira), Turquia. By The original uploader was Sjoehest at German Wikipedia. – Transferred from de.wikipedia to Commons., CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1422675

Durante as invasões turcas ao Império Bizantino, no século XI, a cristandade passou a implorar que as relíquias de São Nicolau fossem transferidas para um local mais seguro e os seus restos mortais quase completos foram transferidos para a cidade de Bari, na Itália, por piratas. Posteriormente, marinheiros venezianos levaram o restante dos ossos de Nicolau de Mira para Veneza. Exames forenses modernos confirmaram que ambos os restos pertencem ao mesmo esqueleto. Não obstante, alguns ossos ou fragmentos ósseos de São Nicolau foram sendo espalhados por várias igrejas da Europa.

Igreja de  San Nicolò al Lido , em Veneza, que guarda cerca de 500 fragmentos de ossos de São Nicolau. By Didier Descouens – Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=42306590

Em 2004 foi feita uma autópsia no esqueleto pelo professor de Patologista Forense da Universidade de Bari, Francesco Introna, e uma reconstrução facial do crânio pela perita antropologista facial Caroline Wilkinson, da Universidade de Manchester. Verificou-se que Nicolau sofreu uma fratura grave em vida no nariz, provavelmente devido aos maus tratos sofridos durante a Grande Perseguição. A sua altura foi estimada em 1,68 m. Posteriormente, em 2014, Wilkinson produziu uma nova versão da reconstrução facial do Santo. Tudo isto pode ser conferido no link https://www.stnicholascenter.org/who-is-st-nicholas/real-face

Mas como São Nicolau inspirou a figura do Papai Noel?

A tradição cristã registra que Nicolau, além de devotar especial cuidado para com as crianças, era conhecido pelo costume de dar secretamente presentes, colocados nos sapatos das pessoas que ele visitava. Atualmente, no Calendário Gregoriano seguido pela Igreja Católica Romana, o dia festivo de Nicolau é 6 de dezembro. Todavia, na Igreja Ortodoxa, que segue o Calendário Juliano o Dia de São Nicolau cai no dia 6 de janeiro, e, em sua homenagem, nos países ortodoxos nasceu o costume das pessoas se darem presentes, considerando que a data também coincidia com o dia de natal para os cristãos ortodoxos (atualmente é dia 7 de janeiro).

Atribuido a Antonino Giuffré o a Giovanni Antonio Marchese ,cópia do original de Antonello da Messina, c.1465, Public domain, via Wikimedia Commons

Entre as nações européias ocidentais cristãs que herdaram o culto a São Nicolau, ele passou a ser especialmente reverenciado durante a Idade Média na Holanda, como “SinterClaes“, forma que evoluiu para “Sinterklaas”, sendo representado com as roupas vermelhas comuns a um bispo católico. Inclusive, São Nicolau, ou Sinterklaas, passou a ser o santo padroeiro da Amsterdam.

Essa casa em Amsterdam, datada do século XVI traz um relevo do padroeiro da cidade,SInterClaesç By Aloxe – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=3138918

Quando os Holandeses estabeleceram sua primeira colônia na América do Norte, batizada de Nova Amsterdam, em 1624. Sinterklaas, ou seja, São Nicolau, igualmente foi escolhido como padroeiro da cidade, que, quarenta anos depois, seria conquistada pelos ingleses e rebatizada de “Nova York”. Assim, Sinterklaas acabou sendo transliterado no idioma inglês como “Santa Claus” e no século XIX começou a ser associado nos Estados Unidos a uma figura tradicional do folclore anglo-saxão medieval tardio e seiscentista associada ao Natal, o “Father Christmas”, que, em português, pode ser traduzido como “Papai Noel“.

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“Father Christmas”, ilustração de Josiah King no panfleto The Examination and Tryal of Old Father Christmas (1687). By Josiah King – Folger Shakespeare Library, Washington, D.C., Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=457834

Progressivamente, durante o século XIX, a figura de Santa Claus foi ganhando personalidade própria em relação a São Nicolau na majoritariamente protestante costa leste dos EUA, perdendo seu traje de bispo católico (como ele sempre foi retratado), embora mantendo a cor vermelha, ganhando suas feições e silhueta roliças, e incorporando-se à sua iconografia os trenós, as renas e outras características típicas do inverno nas latitudes mais extremas da Europa Setentrional.

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Azulejo de Sâo Nicolau que se acredita ter vindo de uma igreja em Constantinopla, datado do século X. Walters Art Museum, Public domain, via Wikimedia Commons

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Feliz Natal!

VESPASIANO – O BOA-PRAÇA DURÃO QUE CONSOLIDOU O IMPÉRIO

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I- Nascimento, família e juventude

Em 17 de novembro do ano 9 D.C, nasceu, na cidade de Falacrinae, a sudoeste de Roma (https://phys.org/news/2009-08-archaeologists-unearth-birthplace-roman-emperor.html), Titus Flavius Vespasianus (Vespasiano), integrante de uma família de origem sabina proveniente de Reate (atual Rieti), que, recentemente, havia ingressado na classe Equestre, que era o segundo nível hierárquico da nobreza romana.

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(Piso de uma villa romana que estudiosos acreditam ter pertencido à família dos Flávios, vide http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/8190955.stm)

Com efeito, Titus Flavius Petro, o avô de Vespasiano havia sido um simples centurião das tropas de Pompeu, em Farsália, durante a guerra civil entre este e Júlio César, que depois virou coletor de impostos. E o pai de Vespasiano, Titus Flavius Sabinus (I), também seria coletor de impostos (publicano), na Província romana da Ásia, e banqueiro. Segundo o historiador Suetônio, na primeira função, Titus Sabinus destacou-se pela retidão, um traço que era tão incomum entre os publicanos romanos, que os provinciais chegaram a erguer uma estátua em sua honra ostentando a inscrição:

A um coletor de impostos honesto“…

Acredita-se que, devido à ausência dos seus pais enquanto eles serviam na Ásia, Vespasiano deve ter sido educado pela avó, Tertulla, a quem ele ficou muito apegado e de quem se lembraria pelo resto da vida, mesmo depois de virar imperador.

Foi o irmão mais velho de Vespasiano, também chamado de Titus Flavius Sabinus  (II)(Sabino), quem realmente começou uma carreira militar e pública de sucesso, sendo nomeado Tribuno na Trácia e, depois, conseguindo eleger-se para os cargos públicos (magistraturas) de Questor, Edil e Pretor.

Vespasiano seguiu os passos do irmão, e até o precedeu no exército romano, sendo nomeado, antes dele, Tribuno, também na Trácia, voltando à Roma por volta do ano 30 D.C.

O primeiro cargo público de Vespasiano, ainda durante o reinado de Tibério, no entanto, foi servir como integrante dos Vigintiviratos, um colégio de vinte magistrados menores, encarregados, dentre outras coisas, da limpeza das ruas de Roma.

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No início do reinado de Calígula, Vespasiano ainda continuava servindo no Colégio dos Vigintiviratos. Em sua “Vida de Vespasiano“, Suetônio, inclusive, chega a mencionar que aquele imperador, certa vez, insatisfeito com o serviço de limpeza urbana da Cidade, mandou que os seus guardas jogassem lama na toga de Vespasiano,  um gesto, sem dúvida, humilhante, mas que poderia até ter terminado pior para Vespasiano, tendo em vista os crescentes episódios de insanidade de Calígula.

Depois disso, Vespasiano serviu como Questor na ilha de Creta, retornando para assumir o cargo de Edil em 38 D.C. Neste mesmo ano, ele se casou com Flávia Domitila, a Velha, nascida na cidade de Sabratha (na atual Líbia) filha de um simples secretário de um Questor, originário da cidade italiana de Ferentium, que servia na província da África.

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(Denário de prata com a efígie de Flávia Domitila, a Velha, cunhado após a sua morte e deificação)

II- Sucesso na carreira pública

Mas foi no reinado do sucessor de Calígula, o imperador Cláudio, que a carreira dos irmãos Flávios, sobretudo a de Vespasiano, decolou. Ele seria muito ajudado pelo fato de ser amante de Antonia Caenis, uma mulher muito inteligente que tinha sido escrava, e, depois de, alforriada, já na condição de liberta, virara secretária pessoal da influente Antônia, a Jovem, mãe de Cláudio (Antônia, a Jovem era filha de Marco Antônio e Otávia, irmã de Augusto). Vale citar que, antes de Vespasiano se casar com Domitila, ele e Antonia Caenis viviam em “contubernium“, uma espécie de concubinato admitido pela lei romana).

E foi muito provavelmente por injunção de Antonia Caenis que Vespasiano caiu nas graças de Narcissus, o poderoso liberto de Cláudio, que então ocupava o importante cargo de Secretário de Correspondência Imperial (Praepositus ab Epistulis) na Corte Imperial, e exercia forte influência sobre o imperador.

Assim, Vespasiano foi nomeado general da II Legião Augusta (Legatus Legionis II Augustae), sediada em Argentorarum ,na província da Germânia (a atual Estrasburgo) em preparação para a campanha militar mais importante do reinado de Cláudio: a Conquista da Grã-Bretanha. Nesta guerra, Vespasiano, servindo sob as ordens do comandante-geral Aulus Plautius, ficou responsável por subjugar a maior parte do sul da atual Inglaterra, bem como a Ilha de Wight.

Como recompensa pelas suas vitórias na Britânia, Vespasiano recebeu a honraria dos “ornamentos triunfais“, regalias destinadas aos generais vitoriosos durante o Império e que substituíram os Triunfos, que foram reservados apenas para os Imperadores.

Em 51 D.C, Vespasiano foi escolhido para o cargo de Cônsul, a mais alta magistratura da antiga República, sendo ainda o ápice da carreira política em Roma. Todavia, logo depois disso, a posição dele sofreria uma grande reviravolta, pois Narcissus, o seu protetor, havia conspirado contra Agripina, a Jovem, a poderosa e vingativa nova esposa (e sobrinha) de Cláudio, e seu filho, Lucius Domitius Ahenobarbus (o futuro imperador Nero), que havia sido adotado, em 50 D.C,  por Cláudio, em detrimento do seu próprio filho natural, Britânico, que era apoiado por Narcissus.

III- Ostracismo e reabilitação

Cláudio morreu em 54 D.C., provavelmente envenenado por Agripina e o filho, desta, Nero, assumiu como novo Imperador. A seguir, Narcissus e Britânico também foram, no espaço de alguns meses, assassinados.

Assim, prudentemente, Vespasiano passaria os próximos 12 anos na obscuridade.

Esse “retiro” de Vespasiano só terminaria em 63 D.C, quando ele, agora um veterano e respeitável Senador, foi indicado para ser Procônsul na província romana da África. Consta que ali, Vespasiano fez uma boa administração, marcada pela honestidade, numa época em que os governadores romanos só pensavam em espoliar as províncias e encherem a bolsa de dinheiro.

Não demorou muito para que o respeitável senador e general fosse admitido de volta na Corte Imperial, passando a integrar o círculo íntimo de Nero, chegando até a integrar a comitiva do imperador, quando da sua acalentada viagem à Grécia, em 66 D.C, ocasião em que Nero apresentou-se em competições artísticas e esportivas, no seu afã de seguir a trajetória de um herói grego.

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(O ator Peter Ustinov foi indicado ao Oscar de melhor ator em 1951 pela sua magistral interpretação de Nero, no filme Quo Vadis)

Contudo, um fato, que hoje para nós soaria cômico, quase acabou com a sorte de Vespasiano: Durante um dos intermináveis recitais de Nero, ele cochilou enquanto o imperador cantava (ou tocava a lira), deixando o vaidoso artista furioso. De acordo com Suetônio,  em punição pela afronta, Vespasiano foi excluído da Corte e teve que ir viver em uma cidade pequena, onde ele chegou a temer, justificadamente, pela própria vida.

Foi por volta dessa época que Vespasiano ficou viúvo, após a morte de sua esposa Flávia Domitila, a Velha, que havia lhe dado três filhos: Tito, Flávia Domitila, a Jovem e Domiciano. Ele nunca mais se casaria novamente, mas logo voltou a viver junto com Antonia Caenis, que, nas palavras dos historiadores antigos, “de esposa de Vespasiano só não tinha o nome“.

Domiciano, o  filho caçula de Vespasiano, porém, jamais aceitou a madastra.

Por sua vez,  Flavia Domitila, a Jovem casou-se com o grande general Quinto Petílio Cereal, mas ela morreria jovem, com pouco mais de vinte anos.  O casal teve uma filha, também chamada Flávia Domitila, que, de acordo com a tradição católica, é a Santa Flávia Domitila, que se converteu ao cristianismo e por isso foi banida de Roma, e que também teria sido a responsável pela doação à Igreja das terras onde seriam escavadas as chamadas Catacumbas de Domitila.

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(Pintura do “Bom Pastor” existente nas Catacumbas de Domitila)

Mas a aflição de Vespasiano duraria pouco, porque, naquele mesmo ano de 66 D.C, o estouro de uma séria revolta na sempre turbulenta Judéia obrigou Nero a se valer dos seus melhores generais.

Com efeito, começara a Grande Revolta Judaica, com o massacre de toda a guarnição romana de Jerusalém e a destruição da XII Legião Fulminata, que havia sido mandada da Síria para esmagar a rebelião, onde, inclusive esta unidade militar teve o seu icônico estandarte-águia capturado pelos revoltosos. Vespasiano, assim, recebeu de Nero o comando especial do formidável exército de 60 mil soldados que havia sido reunido para  para esmagar a rebelião e partiu para a província rebelde. Lá chegando, ele rapidamente conquistou a Galiléia, que era o celeiro da Judéia, e começou os preparativos para o cerco a Jerusalém.

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Durante o avanço pela Judéia, Vespasiano tomou a cidade de Jotapata, uma das praças-fortes judaicas, e capturou vivo um dos líderes da defesa da cidade, um judeu que, anos mais tarde, escreveria o relato dessa terrível guerra, e ficaria conhecido como o grande historiador Flávio Josefo. Durante o seu cativeiro, Josefo teria predito que Vespasiano se tornaria Imperador, o que o fez cair nas graças do general.

Enquanto isso, na distante Gália, o governador Gaius Julius Vindex e suas legiões revoltaram-se contra Nero, mas essa insurreição foi rapidamente derrotada pelas legiões da Germânia. Todavia, o governador da Hispânia, Servius Sulpicius Galba, que fora sondado por Vindex para aderir a revolta, não relatou de pronto a conspiração a Nero e, por isso, ele foi condenado pelo imperador à morte. Galba, que pertencia ao ilustre clã dos Sulpícios, então, emitiu uma declaração de que ele estava “à disposição do Senado para restaurar a liberdade“…

Estimulados, os partidários de Galba em Roma conseguiram a adesão do comandante da Guarda Pretoriana, Ninfídio Sabino, que se juntou à rebelião, e, em decorrência disso, os guardas do palácio de Nero debandaram. Circulou a notícia de que o Senado tinha declarado Nero como “Inimigo Público“. Assim, o emotivo imperador, desesperado com a situação, cometeu suicídio, em junho de 68 D.C. Galba foi aclamado o novo imperador. Este foi o fim da dinastia dos Júlio-Cláudios, que fundara o Império e o governava há praticamente um século.

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IV- Candidato à sucessão e o “Ano dos Quatro Imperadores”

O reinado de Galba, que já tinha 70 anos de idade, porém, não duraria muito. O seu comportamento extremamente severo desagradou muito aos soldados que o apoiavam, e esperavam polpudas recompensas, bem como a todos aqueles que tinham sido beneficiados durante o reinado anterior e, agora, sentiam-se espoliados.

Assim, passados apenas dois meses da ascensão de Galba, as descontentes legiões da Germânia proclamaram, no dia 2 de janeiro de 69 D.C., o seu comandante Aulus Vitelius (Vitélio), como Imperador. Enquanto isso, em Roma, o rico senador Marcus Salvius Otho (Otão), insatisfeito pelo fato dele não ter sido escolhido como o sucessor de Galba, subornou a Guarda Pretoriana, que, ainda em janeiro de 69 D.C., assassinou o imperador.

O Senado, que não podia confrontar a Guarda Pretoriana, imediatamente reconheceu Otão como o novo Imperador Romano.

Ocorre que Vitélio e suas experimentadas legiões da Germânia já estavam entrando na Itália e marcharam em direção à Roma, derrotando com facilidade as tropas reunidas por Otão, na Primeira Batalha de Bedríaco, após o que, este, resignadamente, cometeu suicídio, dois dias depois, em 16 de abril de 69 D.C.. O reinado dele durara apenas três meses.

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(Mapa do Império Romano no “Ano dos Quatro Imperadores”, imagem de Steerpike e Andrei nacu)

Enquanto tudo isso ocorria na Europa Ocidental, Vespasiano comandava a campanha contra os Judeus. Quando as notícias da morte de Nero chegaram à Judéia, Vespasiano prontamente declarou lealdade a Galba. Depois, ele chegou a fazer o mesmo quando soube da aclamação de Vitélio. Porém, o caos gerado pela rápida sucessão de deposições violentas e nomeações de imperadores acabou por gerar nos auxiliares de Vespasiano a convicção de que  ele tinha melhores qualidades e tropas suficientes para aspirar ao trono imperial.

Assim, Gaius Licinius Mucianus (Muciano), o Governador da Síria,  encontrou-se com Vespasiano na fronteira com a Judéia. Provavelmente, nesse encontro, eles decidiram que Vespasiano deveria tentar tomar o cetro imperial para si.

Então, no dia 1º de julho de 69 D.C., as legiões estacionadas em Alexandria, no Egito, instadas pelo Prefeito do Egito, Tiberius Julius Alexander, que era de origem judaica, aclamaram Vespasiano Imperador. Poucos dias depois, elas foram seguidas pelas legiões comandadas pelo próprio Vespasiano, em Cesaréia.

V- O caminho para o trono

Em seguida, os líderes arquitetaram um plano: Muciano se dirigiria para a Itália com um contingente de 20 mil soldados para atacar Vitélio, enquanto Vespasiano iria para o Egito, para ordenar um bloqueio aos vitais carregamentos de trigo egípcio que alimentavam a enorme metrópole de Roma, ação que provavelmente forçaria Vitélio à rendição. No comando das tropas que ficariam na Judéia, para dar prosseguimento à guerra contra a Revolta Judaica e manter o cerco à Jerusalém, Vespasiano deixou o seu filho Tito.

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Durante essa incursão no Egito, Suetônio conta uma história curiosa, a de que Vespasiano teria feito dois milagres, bem comparáveis aos das narrativas bíblicas: Segundo o historiador, enquanto estava em Alexandria, Vespasiano teria curado um cego e um aleijado, após os dois, avisados pelo deus Serápis, aproximarem-se dele e pedirem que ele os tocasse. Suetônio também narra a existência de uma profecia entre os Judeus, a de que um homem vindo da Judéia seria o senhor do mundo, concluindo Suetônio que a profecia dizia respeito ao próprio Vespasiano. Esse mesmo episódio, com pequenas diferenças, é relatado por Tácito e Dião Cássio.

Cogito que esses intrigantes relatos talvez já demonstrem a influência das narrativas cristãs nos autores romanos pagãos que escreveram as suas obras entre quarenta (Tácito) e cento e cinquenta anos (Cássio) após os fatos narrados.

Todavia, antes que o citado plano de Vespasiano começasse a ser executado, as legiões da Panônia se declararam em revolta a favor de Vespasiano e partiram por si próprias para invadir a Itália, com 30 mil homens. Vitélio tentou resistir, mas as suas forças foram derrotadas na Segunda Batalha de Bedríaco, em 24 outubro de 69 D.C.. Um outro exército foi enviado por Vitélio, logo em seguida, contudo, ao invés de combater os insurretos, uniu-se a eles. Vitélio, assustado, tentou  abdicar, sem sucesso, pois os seus assessores e soldados partidários o proibiram.

Apostando na luta, os soldados leais a Vitélio mataram Sabino, o irmão de Vespasiano, que então era o Prefeito Urbano de Roma e havia tentando tomar o controle da cidade. Porém, quando as tropas leais a Vespasiano começaram a entrar em Roma, Vitélio foi assassinado e o seu corpo, segundo Suetônio, foi jogado ao Tibre, ou, segundo Dião Cássio, ele foi decapitado e a sua cabeça desfilada nas ruas da Cidade.

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Vespasiano foi oficialmente reconhecido como imperador pelo Senado em 22 de dezembro de 69 D.C., in absentia, pela “Lex de imperio Vespasiani“. Ele tinha, então, 60 anos de idade. Todos os seus atos foram ratificados, e, portanto, a lei tinha o efeito retroativo de reconhecer a aclamação feitas pelas tropas em 1º de julho.

Terminava, assim,  o turbulento ano que ficaria conhecido como “O Ano dos Quatro Imperadores“. O novo imperador somente chegaria a Roma em outubro de 70 D.C. Nesse período, quem administrou o Império em seu nome foram Muciano e Domiciano, o  filho mais novo de Vespasiano.

Consta que, durante esses meses, Domiciano agiu com tanto voluntarismo e independência que, Vespasiano, com o seu peculiar senso de humor, teria enviado a ele uma carta na qual constava o seguinte cumprimento:

“Obrigado, meu filho, por me permitir manter o meu cargo e por ainda não ter me destronado”

VI- O reinado de Vespasiano

O reinado de Vespasiano começou com a questão premente de sufocar a perigosa Revolta dos Batavos, na região do Delta do rio Reno, no território da atual Holanda. Os Batavos eram um povo germânico que vinha sendo recrutado como tropas auxiliares do Exército Romano. O comandante desses regimentos, Gaius Julius Civilis, um príncipe batavo, insatisfeito com  a conduta dos seus superiores, havia se rebelado e foi preso, mas ele acabou sendo solto por Vitélio, o governador da província da Germânia que havia se rebelado contra Galba e precisava das tropas batavas para invadir a Itália.

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Os Batavos lutaram na Primeira Batalha de Bedríaco, mas quando eles voltaram para suas terras e foram novamente convocados, acabaram rebelando-se novamente. Então, encorajados após a notícia da morte de Vitélio, os Batavos chegaram a derrotar duas legiões, fazendo com a revolta se espalhasse por algumas tribos do norte da Gália,  onde Julius Sabinus, um nobre gaulês romanizado que se dizia descendente de Júlio César, declarou a independência da Gália, autonomeando-se imperador. Duas legiões romanas, a  I Germanica e a XVI Gallica, aderiram à revolta.

Essa rebelião de Sabinus, entretanto, foi facilmente derrotada pela tribo gaulesa romanizada dos Sequanos, aliada dos romanos. Como curiosidade, as fontes relatam a estória de que Sabinus, foragido, ficou nove anos escondido em uma câmara  que existia debaixo de um monumento, junto com a mulher, com quem ele chegou a ter dois filhos durante o tempo que ficou no esconderijo.

Para lidar com a Revolta dos Batavos, Vespasiano enviou o general Quintus Petilius Cerealis  no comando um exército de oito legiões. A aproximação deste poderoso exército foi o suficiente para dispersar boa parte dos que apoiavam Civilis e ele teve que recuar para o território dos Batavos. Ali ele chegou a empregar táticas de guerrilha, porém, quando Civilis soube que Jerusalém foi saqueada e a Revolta Judaica virtualmente derrotada, ele percebeu que em breve todo o peso do Exército Romano voltaria-se contra si e, então, ele decidiu render-se.

Os romanos exigiram que os Batavos cedessem mais tropas para o Exército Romano e destruíram Naviomagus (Nijmegen), a capital batava, no final de 70 D.C.

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(Busto de Vespasiano, detalhe, foto Shakko)

O reinado de Vespasiano foi um governo de reconstrução e de reconciliação, característica que foi muito beneficiada pelo seu caráter íntegro, pela sua índole moderada e pelo seu senso de justiça. De certa forma, a sua política marcou uma retomada das linhas estabelecidas por Augusto, onde o Príncipe deveria se pautar pela retidão, moralidade e espírito público, permitindo ao Senado ter algum papel na administração pública e, principalmente, receber alguma deferência do Imperador.

Essas intenções ficaram implícitas na “Lex de Imperio Vespasiani“, que alguns consideram a primeira tentativa de regular por escrito as relações entre o Imperador e o Senado, com base nos precedentes dos reinados anteriores, até Augusto. É interessante notar que, pelo que denota a sua redação, trata-se de um Senatus Consultum (Decreto do Senado) que foi submetido à sanção da Assembleia (ou Comício) das Centúrias (Comitia Centuriata), obedecendo uma formalidade dos tempos da República, ainda que com caráter meramente cerimonial.

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(Tábua de bronze contendo o texto da Lex de Imperio Vespasiani, achadas  em Roma por Cola de Rienzo em 1347. Hoje as tábuas estão nos Museus Capitolinos).

Após décadas de expurgos e perseguições pelos imperadores Júlio-Cláudios, a aristocracia senatorial romana, que fornecia a maior parte dos quadros do serviço público, havia sido dizimada. Por isso, Vespasiano, valendo-se do cargo de Censor, deu ênfase à recomposição dos quadros da nobreza, conferindo este status a plebeus capazes, de preferência nascidos na Itália.

Foi Vespasiano quem primeiro instituiu a contratação pelo Estado de professores, pagos pelo Erário, para ministrarem o ensino público às crianças romanas, estando entre os primeiros mestres a serem contratados, o grande retórico Quintiliano.

Vespasiano também restaurou as finanças estatais, estabelecendo uma série de novos tributos. Essa medida, que poderia ser tomada como antipática, foi de certo modo contrabalançada pelo estilo de vida frugal e modesto que o imperador adotava, e que bem poderia servir de exemplo aos governantes atuais…

Esse traço austero de Vespasiano, que lhe rendeu em algumas passagens dos historiadores da época a pecha de avaro, é ilustrada por uma historia contada por Dião Cássio:

Certa vez,  alguns cidadãos  ilustres tomaram a iniciativa de erguer uma estátua de Vespasiano que custaria um milhão de sestércios. Quando eles foram dar a notícia a Vespasiano, o imperador estendeu a sua mão aberta e disse-lhes:

“Deem-me o dinheiro! Aqui está o pedestal!”

A vitória contra a Revolta Judaica e o saque de Jerusalém, especialmente do Segundo Templo, que também funcionava como um verdadeiro tesouro  administrado pelo Sinédrio, rendeu um espólio valioso que foi utilizado por Vespasiano para construir várias obras públicas em Roma.

A mais famosa, evidentemente, é o grandioso Anfiteatro Flávio, que ficaria popularmente conhecido como  o  “Coliseu” (Colosseum), pelo fato de ficar ao lado da enorme estátua dourada do imperador Nero, que era chamada de “Colossus” (Colosso). A espetacular arena começou a ser construída sobre o terreno onde ficava a enorme “Domus Aurea“, o espetacular palácio de Nero, que serviu como fundação para uma parte da construção. Politicamente, isso foi um gesto muito hábil, pois devolvia ao povo da cidade uma área que Nero havia tornado privada.

A construção do Coliseu  foi iniciada por volta de 72 D.C., mas somente seria concluída em 80 D.C., já sob o reinado de Tito, que o inaugurou. A sua capacidade é estimada entre 55 mil e 80 mil espectadores. Milhares de cativos judeus, entre os 100  mil capturados e trazidos para Roma, trabalharam como escravos na construção do edifício.

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Um ano antes do Coliseu, e também com os recursos provenientes do Saque de Jerusalém, Vespasiano construiu o chamado Templo da Paz, que ficava próximo ao Fórum de Augusto. No Templo da Paz ficavam em exibição os tesouros mais relevantes saqueados do Templo de Jerusalém, como por exemplo o célebre candelabro de 7 braços (Menorah), de ouro puro. O templo era circundado por um grande pórtico que circundava uma área aberta com jardins e fileiras de espelhos d’água retangulares. Parece que a sua função era funcionar como uma área para passear, entre as estreitas e congestionadas ruas que ligavam os apinhados fóruns.

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(Foto superior; Maquete do Templo da Paz, de E. Gismondi, no Museu da Civilização Romana; foto inferior: Relevo no Arco de Tito, retratando a chegada em Roma dos despojos do Saque de Jerusalém)

Uma orientação pouco abordada nos livros sobre o seu reinado é a clara política adotada por Vespasiano de racionalização militar e ordenamento das fronteiras do Império Romano:

A importante fronteira com a Germânia Magna, seguia o curso do rio Reno e prosseguia pelo curso do rio Danúbio, formando uma perigosa reentrância ou saliência, como se fosse uma cunha encravada e que facilitava o deslocamento das tribos. Essa área, com tamanho comparável ao da atual Suíça, era conhecida como os “Agri Decumates” (campos que pagam o dízimo). Vespasiano ordenou a ocupação da região, que foi anexada ao Império Romano, e a construção de uma cadeia de fortes para defendê-la.

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Na Britânia,  o rei Venutius, da tribo celta dos Brigantes, que habitava o norte da atual Inglaterra, aproveitando a convulsão do Império Romano durante o “Ano dos Quatro Imperadores“, iniciou uma rebelião e depôs a sua ex-esposa, e rainha dos Brigantes, Cartimandua, que era aliada dos romanos.

Em 71 D.C., Vespasiano designou o general Quinto Petílio Cereal como novo governador da Britânia, e ele começou o processo de conquista dos Brigantes. Em 74 D.C., Cereal foi substituído por Sextus Julius Frontinus, que subjugou a tribo dos Silures, no sudeste do atual País de Gales. Em 77 D.C., o novo governador, Gnaeus Julius Agricola assumiu e, no ano seguinte, iniciou uma campanha que levaria as legiões romanas até a Caledônia, estabelecendo alguns fortes no Firth of Tay (firth é uma palavra inglesa que denomina estuários escavados que adentram profundamente uma massa de terra), em 79 D.C. que era uma fronteira mais facilmente defensável. Essa campanha comandada por Agricola prosseguiu até 84 D.C., bem depois da morte de Vespasiano, mas o plano geral parece ter sido delineado durante o reinado dele.

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Outra importante medida de Vespasiano no campo militar, certamente influenciada pelas já mencionadas rebeliões na Germânia e na Gália, foi a exigência de que os contingentes de tropas auxiliares recrutadas entre os povos estrangeiros não podiam servir na região de origem, devendo serem deslocadas para outros pontos do Império.

Os historiadores preservaram muitos relatos de episódios nos quais  Vespasiano demonstrou tolerância com opositores e respeito à posições divergentes dos senadores, mas em pelo menos duas oportunidades, os atritos acabaram degenerando em punições:  o primeiro caso foi o do senador Helvídio Prisco, um empedernido republicano que era hostil a Vespasiano, foi exilado, por volta de 75 D.C., e, posteriormente, assassinado, apesar de Vespasiano negar ter ordenado a execução dele. Posteriormente, no final do seu reinado, por volta de 78 D.C., o senador Éprio Marcelo e o general Aulus Caecina Alienus conspiraram contra o principado, aparentemente para evitar que Vespasiano fosse sucedido por Tito, e foram julgados culpados pelo Senado, sendo que o primeiro suicidou-se e o segundo foi executado por Tito.

Vespasiano tinha um grande senso de humor e as suas deliciosas tiradas ficaram célebres:

Ao filho Tito, que lhe repreendera por instituir um tributo sobre as latrinas públicas nas cidades (elas lucravam com a venda de urina para ser usada como alvejante nas lavanderias), algo que estaria abaixo da dignidade do Estado Romano, Vespasiano, então, deu a Tito uma moeda e mandou que o herdeiro a cheirasse e disse o que sentia: “Não cheira” (em latim, “non olet), respondeu o filho, ao que Vespasiano lhe respondeu que aquela moeda era fruto do  imposto questionado. Graças a esse episódio, o princípio tributário que prevê que qualquer tipo de renda, inclusive as oriundas de atos ilícitos, podem ser tributadas pelo Estado foi batizado de “non olet“). Aliás, a criação deste imposto mostraria-se tão marcante que, até hoje, Vespasiano, em italiano, quer dizer “penico” ou “urinol”.

Ao receber uma carta do rei dos Partos, dirigindo-se ao imperador romano dessa forma: “De Vologeso, Rei dos Reis, a Vespasiano“, que foi considerada por todos como uma afronta passível de retaliação. Vespasiano, todavia, achando graça no título grandiloquente do estrangeiro, ao responder a carta, simplesmente endereçou-a assim: “De Vespasiano a Vologeso, Rei dos Reis“.

VII – Morte de Vespasiano

Enquanto estava na Campânia, Vespasiano contraiu uma doença cujo sintoma principal era diarreia. Ele teve que voltar para Roma, mas logo partiu para a estação de águas minerais de  Aquae Cutiliae, onde passaria o verão, como era de seu costume, e que ficava em antigo território sabino, na sua região natal de Reate. Lá ele ainda tentou por algum tempo cumprir as obrigações do cargo de imperador, recebendo até embaixadas enquanto estava acamado, mas a crise de diarreia piorou.

Contudo, nem no leito de morte, o humor de Vespasiano se abateu. Quando ele sentiu que as suas forças se esvaíam, ele, fazendo graça com o costume romano de divinizar os imperadores que morriam , disse:

“Oh, penso que agora estou me tornando um Deus!”

No dia 24 de junho de 79 D.C., sentindo que o fim estava realmente  próximo, Vespasiano, com muito esforço tentou levantar-se, dizendo:

“Um imperador deve morrer de pé!”

E, assim, acabou falecendo nos braços dos que estavam ao seu redor, tentando ajudá-lo.

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(Ruínas da piscina dos Banhos de Vespasiano, 13 km de Rieti, antiga Reate)
VII- Conclusão

Vespasiano foi um governante consciencioso, justo e diligente. As suas numerosas boas medidas poderiam ser condensadas sob o lema “restauração do Império Romano às linhas traçadas por Augusto”. Podemos dizer, assim, que ele consolidou o Principado, cujo prestígio, bem como a confiança (ou, ainda, adesão) da elite naquele sistema de governo, estavam abalados pelos desmandos havidos no final dos reinados de Tibério, Calígula e Nero, pela extinção da dinastia fundadora (Júlio-Cláudios) e pela guerra civil travada durante o “Ano dos Quatro Imperadores“. A economia, sobretudo as finanças públicas, e as fronteiras foram organizadas com coerência e afinco. Por outro lado, ele conseguiu evitar as vicissitudes e ambiguidades que Augusto experimentou quanto à questão da sucessão, que ficou firmemente estabelecida pelo princípio dinástico, nas mãos de seus filhos, Tito, e, depois, Domiciano.

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OUTUBRO, O DÉCIMO

Repetindo o que já explicamos nos artigos anteriores sobre os meses do calendário, o primitivo calendário romano tinha dez meses e começava no mês de março.

Os quatro primeiros meses foram batizados em homenagem a divindades, e os outros seis eram chamados pelo número que correspondia à posição que ocupavam no calendário: Depois de Março, Abril, Maio e Junho, vinham Quintilis, Sextilis, Septembris, October (ou Octobres), Novembris e Decembris, respectivamente, o quinto, o sexto, o sétimo, o oitavo, o novo e o décimo mês do ano.

Detalhe do mosaico das estações e dos meses, do século III, encontrado em Albacete, no Museu Arqueológico Naciona da Espanha. Provavelmente, a imagem representa uma personificação do Outono ou do vento jogando as folhas secas, seguido pelo deus Marte. Foto: Carole Raddato from FRANKFURT, Germany, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

Devido a imprecisão desse calendário primitivo, os romanos passaram a adotar um calendário de doze meses, introduzindo-se os meses de janeiro (Ianuarius), que passou a ser o primeiro mês, e de fevereiro (Februarius). Essa reforma é atribuída ao rei Numa Pompílio, o mítico segundo Rei de Roma.

Assim, Octobres passou a ser o décimo mês do ano, mas, apesar disso, ele manteve o seu nome, com o qual o povo já estava acostumado e que foi preservado mesmo após a nova reforma instituída pelo Ditador Júlio César, implantando o Calendário Juliano, de 365 dias e doze meses. E também o seu número de dias foi mantido em 31.

Segundo as fontes antigas, o Senado Romano chegou a propor a Tibério rebatizar brevemente o mês de Outubro com o nome de Livius, em homenagem à mãe dele, Lívia Drusila, esposa de Augusto, nascida no referido mês, sugestão que foi recusada pelo imperador, que, sarcasticamente, replicou perguntando o que os senadores fariam quando mais de doze imperadores tivessem reinado ou se dois deles tiverem nascido no mesmo mês…

Página do Calendário de Filócalo, cópia medieval de calendário romano, mostrando a personificação do mês de outubro. Foto: Filocalus, Public domain, via Wikimedia Commons

Segundo os costumes e tradições dos Romanos, o mês de outubro marcava o fim do período anual destinado às campanhas militares e também o término dos trabalhos no campo. Por isso, o deus tutelar do mês era Marte.

A principal festividade religiosa que acontecia no mês de outubro na Roma Antiga eram os Jogos Capitolinos (Ludi Capitolini), instituídos em 387 A.C., para comemorar o fato dos Gauleses não terem conseguido capturar e incendiar a Colina do Capitólio no referido ano. Os Jogos eram celebrados em homenagem ao deus Júpiter Capitolino e começavam no dia 15 de outubro, tendo a duração de 16 dias. No início do período imperial, os Jogos Capitolinos tinham caído no esquecimento, mas foram revividos pelo imperador Domiciano, em 86 D.C, que os remodelou para serem uma espécie de olimpíada romana, sendo celebrados a cada quatro anos no Campo de Marte, compreendendo competições esportivas entre atletas, mas também concursos de poesia, oratória e outras performances artísticas.

Em honra do deus Marte, no dia 19 de outubro celebrava-se o Armilustrium, um festival no qual as armas dos soldados romanos eram ritualmente purificadas e guardadas para o reinício da temporada de campanhas, no ano seguinte. Antes disso, no dia 15 de outubro, ainda como devoção a Marte, era sacrificado o chamado “Cavalo de Outubro” (Equus October), também no Campo de Marte, após uma corrida de bigas. O cavalo vencedor, então, era morto com uma lança, e sua cabeça e rabo cortados. Essa era a única cerimônia religiosa romana em que se admitia o sacrifício de um equino, o que, para alguns, seria a reminiscência de algum antigo rito indo-europeu, ou, para outros, alguma alusão ao mítico Cavalo de Tróia, já que os romanos acreditavam serem descendentes dos Troianos. Mas, sem dúvida, o ritual tinha raízes profundas na cultura romana, uma vez que o mesmo consta assinalado no famoso Calendário de Filócalo, de 354 D.C, produzido já durante o reinado de imperadores cristãos.

Em outubro nasceram os imperadores romanos Domiciano e Alexandre Severo, os poetas, Lucrécio e Virgílio e o historiador Salústio e também ocorreram as Batalhas de Zama, Aráusio e Fílipos.

Fonte: TABLES OF THE ROMAN CALENDAR, EDWARD GRESWELL, IN FOUR VOLUMES,
VOLUME IV, OXFORD AT THE UNIVERSITY PRESS

POMPEU, O GRANDE

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(Excelente humanização de um dos muitos bustos de mármore de Pompeu)

 1 – Nascimento, juventude e início da carreira militar e política

Em 29 de setembro de 106 A.C, nasceu, em Piceno, na Itália, Gnaeus Pompeius (Pompeu), membro de uma família bem situada de proprietários rurais da Itália Central, uma gente que, apesar de estar totalmente integrada à República e gozar de cidadania plena há centenas de anos, ainda enfrentava algumas barreiras para ingressar no seio da elite romana.

Assim, o pai de Pompeu, Gnaeus Pompeius Strabo (Cneu Pompeu Estrabão), foi o primeiro de sua família a ascender ao Senado Romano, na condição de “homem novo” (novus homo, ou seja, um senador que não tinha antepassados senadores), chegando até o cargo de Cônsul, no ano de 89 A.C, graças aos seus feitos militares, especialmente durante a chamada “Guerra Social” (conflito que recebeu esse nome porque se tratava de uma insurreição dos povos italianos aliados, ou “socii“, em latim, de Roma, que queriam os mesmos direitos dos cidadãos romanos).

Quando Pompeu Estrabão morreu, em 87 A.C, vítima de uma epidemia, ele deixou ao seu jovem filho Pompeu, de apenas 20 anos de idade, a sua vasta fortuna e, talvez mais importante do que isso, uma numerosa clientela.

Então, o jovem Pompeu logo mostrou que também tinha grandes aspirações políticas quando, em 83 A.C, aproveitando-se da herança do pai, ele formou um pequeno exército e aliou-se a Lucius Cornelius Sulla (Sila), o poderoso general que atuava como defensor dos interesses da facção aristocrática do Senado Romano (“Optimates“), na acirrada disputa que esta travava contra os sucessores do falecido general Mário, que, por sua vez, durante vários anos vinha sendo o campeão da facção dos Populares, e que tinha se aproveitado da ausência de Sila da Itália (devido à guerra de Roma contra o rei Mitridates, na Ásia) para tomar novamente o poder (porém, Mário acabou morrendo pouco depois de assumir o seu sétimo e último consulado).

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(cabeça de Sila)

Tendo ajudado Sila a derrubar o governo dos Populares, em Roma, Pompeu  passou a gozar da simpatia deste, que, naquela oportunidade, foi nomeado “Ditador”. Sila, inclusive, ofereceu a Pompeu a mão da sua enteada, Emília Scaura. Este casamento, porém, seria breve, pois Emília, que já estava grávida de seu casamento anterior, acabou morrendo no parto, em 82 A.C.

Em seguida, Pompeu foi enviado para combater as forças dos partidários de Mário que haviam fugido para Sicília e para a África, campanha na qual ele ficou conhecido pela repressão brutal aos inimigos, que devido à isso deram-lhe o apelido de “açougueiro adolescente“…

De volta a Itália, Pompeu não recebeu, todavia, o Triunfo que ele esperava, pois a lei romana somente permitia tal honraria fosse concedida aos detentores do cargo de Pretores ou Cônsules. Não obstante, Sila ordenou que Pompeu deveria receber o cognome de “Magno” (Magnus, que em latim quer dizer, o Grande), em função das suas façanhas militares, apesar dele ter apenas 25 anos de idade. Não obstante, apesar do impedimento legal, Pompeu insistiu em realizar o triunfo que ele tanto ansiava, e, como Sila não o proibiu, a procissão triunfal acabou sendo realizada, em 81 A.C.

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Naquele mesmo ano de 81 A.C., Sila renunciou ao cargo de Ditador, restaurando o governo consula e concorrendo ao cargo de Cônsul nas eleições para o ano seguinte. Enquanto isso, Sila também patrocinou o novo casamento de Pompeu, agora com Múcia Tércia, que era víúva do filho do grande rival de Sila, Caio Mário, o Jovem, que se suicidou após ser derrotado quando Sila tomou Roma.

Para a eleição do consulado do ano de 79 A.C, Pompeu, contra a vontade de Sila, apoiou a candidatura de Marco Antônio Lépido (pai do futuro Triúnviro) que era integrante da facção dos Populares, e foi devido a esta desobediència que, quando Sila morreu, no ano seguinte, ele não mencionou Pompeu em seu testamento.

Porém, a morte de Sila não abrandou o conflito entre os Optimates e os Populares. Com efeito, em Roma, Lépido procurava revogar os atos de Sila contra a facção democrática, e ele até chegou a negar ao falecido Ditador um funeral público, sendo, todavia, impedido por Pompeu, que, apesar de não ocupar nenhum cargo público, continuava mantendo um exército particular, no qual baseava a sua influência nos assuntos do Estado. Usando esse trunfo, Pompeu conseguiu intimidar um exército aliado de Lépido, que tentava garantir a este um segundo consulado. Assim, Lépido foi obrigado a fugir para Sicília, onde acabou falecendo.

Enquanto isso, na Hispânia, um partidário dos Populares, o general Quinto Sertório, havia se rebelado, em 80 A.C., contra o governo de Sila, assumindo o governo daquela província como Procônsul. Sertório, cujo governo favorecia os chefes celtiberos e os cidadãos romanos nativos da Província, recebeu o apoio entusiasmado de várias tribos hispânicas, sobretudo do aguerrido povo dos Lusitanos. Essa rebelião política acabou se transformando também em uma guerra de guerrilha de cunho nativista e autonomista, na qual Sertório e os seus aliados derrotaram várias legiões romanas enviadas por Sila.

2 – Sucesso na Hispânia

Em 77 A.C., Pompeu conseguiu obter do Senado a missão de ir combater a rebelião de Sertório na Hispânia, juntando-se às forças de Quinto Cecílio Metelo Pio, que comandava as forças romanas nesta campanha há 3 anos. Juntos, Metelo Pio e Pompeu conduziram uma campanha extremamente difícil contra as forças de Sertório, alternando vitórias e derrotas. Contudo, em 72 A.C., Sertório foi assassinado em uma trama urdida por outro general rebelde, Perpena. Assim, boa parte das tropas celtiberas, incluindo os Lusitanos desistiram de lutar após a morte do admirado Sertório. Metelo Pio, então, resolveu deixar a cargo de Pompeu a tarefa de lidar com as forças remanescentes de Perpena, que foram derrotadas com facilidade por Pompeu, ainda em 72 A.C.

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Pompeu capturou e executou Perpena, mas ele foi muito criticado por ter queimado as cartas existentes no arquivo pessoal de Sertório. Acredita-se, por isso, que essa correspondência poderia guardar fatos comprometedores contra pessoas influentes em Roma…

O fato é que a luta contra Sertório deu grande prestígio popular a Pompeu, que levou a fama de haver vencido a guerra, apesar dele ter dividido o comando da parte mais difícil da campanha com Metelo Pio. Além disso, em 71 A.C., Pompeu aproveitou para aumentar a sua já vasta clientela na Hispânia e recompensou os seus soldados veteranos, dando-lhes terras na província.

3 – Aproveitando a vitória contra a Rebelião de Espártaco

De volta à Itália com seu exército,  a carreira de Pompeu seria novamente bafejada pela sorte: Os remanescentes da célebre rebelião de Espártaco (Terceira Guerra Servil), que havia sido derrotada pelo general Crasso, ainda vagavam pela Itália. Assim, Pompeu recebeu do Senado a missão de combatê-los e, sem muita dificuldade, ele derrotou os últimos 6 mil escravos rebeldes, recebendo, mais uma vez, a maior parte do crédito que, na verdade, deveria ter sido dado com mais propriedade aos seus antecessores.

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4 – Primeiro Consulado

A vitória na guerra contra Sertório deu a Pompeu, em 29 de dezembro de 71 A.C., o seu segundo Triunfo, igualmente contrário às leis da República, e pelo mesmo motivo anteriormente citado. Em seguida, numa uma prova cabal de que a República era, agora, mais um regime de fachada, onde o verdadeiro poder estava com os generais, Pompeu conseguiu ser eleito Cônsul para o ano de 70 A.C., apesar dele não ter percorrido a “Carreira das Magistraturas” (Cursus Honorum) e de ter apenas 35 anos de idade, não perfazendo, portanto, os requisitos legais. O seu colega de consulado seria Marco Licínio Crasso, o vencedor de Espártaco e que era o homem mais rico de Roma.

5 – Aproximação com a facção dos Populares

Em um sinal do tenso clima reinante, os dois homens fortes da República não dispensaram seus exércitos após o conflito. A bem da verdade, Pompeu e Crasso nunca digeririam bem a disputa sobre a quem cabiam os louros pela vitória na Guerra Servil. Não obstante, os dois concordaram em uma medida que certamente desagradou a facção dos Optimates: a restauração dos poderes e privilégios dos Tribunos da Plebe, os quais haviam sido revogados por Sila.

6 –  A Guerra Contra os Piratas

Após exercer o consulado, Pompeu manobrou para obter, em 67 A.C., com a duração de 3 anos, o importante comando da Guerra contra os Piratas, os quais, centrados na região da Cilícia, infestavam o Mediterrâneo, atacando e saqueando os navios comerciais romanos. Para isso,  ele contaria, entre outros, com o apoio de um jovem e promissor Senador, integrante dos Populares: Caio Júlio Cesar

A Guerra contra os Piratas seria uma campanha gigantesca, que envolveria cerca de 100 mil soldados e 250 navios de guerra, e que certamente representava uma grande oportunidade de fama e poder para os políticos ambiciosos…

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Muito mais do que em suas campanhas anteriores, Pompeu, na Guerra contra os Piratas, teve um desempenho brilhante e decisivo, derrotando os inimigos em apenas 3 meses. De fato, nesta guerra, Pompeu demonstrou um grande talento de estrategista, dividindo o Mediterrâneo em setores, cada um a cargo de um almirante, que ficava encarregado de patrulhar as respectivas águas, enquanto, por terra, Pompeu destruía, uma a uma, as bases dos piratas.

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7 – A Guerra contra Mitridates e os sucessos no Oriente

Com seu prestígio nas alturas devido á vitória contra os piratas, Pompeu recebeu, em 66 A.C., em substituição à Lúculo, e, novamente com o apoio do jovem Júlio César e, igualmente, do conservador Cícero, o comando da Terceira Guerra contra Mitridates, o rei do Ponto ( Nota: o Ponto era um reino originariamente surgido de uma satrapia, ou província, do Império Persa que se tornou helenizado e que, durante um quarto de século, vinha opondo-se fortemente à expansão romana pelo Mediterrâneo Oriental).

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(Mapa da campanha de Pompeu contra Mitridates)

No Oriente, Pompeu fez muito mais do que derrotar Mitridates, em 65 A.C., combatendo também os aliados deste na Armênia e até na atual República da Geórgia. Assim, com a vitória, além do Ponto, que foi unido à Bitínia, Pompeu anexou a Capadócia e a rica Síria, que se tornaram províncias romanas, apesar da relutância do Senado em autorizar isso. Pompeu também aproveitou-se das dissensões que grassavam no reino da Judéia para sitiar Jerusalém e invadir o Templo (respeitando, todavia, os objetos sagrados, que não foram saqueados) e, por último, ele atacou o reino dos Nabateus, em Petra. Concluindo sua jornada oriental, em 62 A.C., Pompeu transformou a Judeia em um estado-cliente, dependente da recém anexada Província da Síria.

Depois dessas façanhas militares, Pompeu passou a ser considerado no Oriente um personagem de uma estatura próxima a de Alexandre, o Grande. Já para os cidadãos romanos, que eram bem mais comedidos em colocar seus grandes homens no pedestal de heróis, Pompeu foi reconhecido por haver contribuído como poucos para aumentar o território e, sobretudo, a arrecadação da República Romana, incorporando como contribuintes as ricas cidades helenizadas da Anatólia e do Levante.

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(Em 62 A.C., após as campanhas de Pompeu, a República Romana anexa o Ponto e a Síria, alargando os seus domínios e a sua área de influência na Ásia)

8 – Triunfo em Roma e intrigas políticas

Assim, em seu trajeto de retorno vitorioso para Roma, Pompeu passou pela Grécia, onde ele foi homenageado como se fosse um verdadeiro rei. Neste momento, muitos acreditaram que ele tomaria o poder pela força ao voltar para Roma. Porém, contrariando todas as expectativas, Pompeu dispensou o seu exército antes de entrar na Cidade, como mandava a Lei Romana, para celebrar o seu terceiro Triunfo, no dia do seu aniversário, em 61 A.C., que, desta vez, foi a mais suntuosa e magnífica procissão triunfal jamais vista em Roma.

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(” Triunfo de Pompeu”, de Gabriel de Saint-Aubin Metropolitan Museum of Art)

Certamente, dispensar o exército e entrar em Roma como simples cidadão foi um gesto calculado de Pompeu para obter o apoio do Senado e do povo, demonstrando ser ele um cidadão cumpridor da lei e dos costumes tradicionais, imitando, deste modo, Sila, que, ao meu ver, parece ter sido o modelo no qual Pompeu baseava todo o seu projeto pessoal de ascensão ao poder…

Contudo, no Senado Romano, Pompeu não gozava nem da simpatia dos conservadores, ofendidos pelo apoio que ele havia dado à revogação das leis de Sila que restringiam o poder tribunício, e nem dos Populares, tendo em vista o seu histórico de lutas contra os mesmos. E Pompeu ficou ainda mais contrariado quando o Senado decidiu não recompensar os seus soldados veteranos com doações de lotes de terras públicas.

9 – Aliança com César e Crasso e o Primeiro Triunvirato

Enquanto isso, durante o afastamento de Pompeu de Roma para comandar as campanhas no Oriente, Júlio César ascendera como a grande liderança da facção dos Populares (César era sobrinho da mulher de Mário). Assim, quando César voltou à Roma, no ano 60 A.C., após governar a Hispânia, ele viu a oportunidade de conjugar a sua ambição política com as dos dois homens mais poderosos de Roma: Pompeu e Crasso, ambos insatisfeitos com os Optimates, que controlavam o Senado. Os três líderes então decidiram formar a aliança batizada de Primeiro Triunvirato.

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(Cabeças de César, Crasso e Pompeu)

A aliança política do Primeiro Triunvirato foi cimentada pelo casamento de Pompeu com Júlia, a filha única de César. Vale observar que, mesmo tratando-se de um casamento arranjado, e apesar da diferença de idade entre os noivos (Pompeu tinha 47 anos e Júlia, 24), não obstante, acredita-se que os esposos acabaram se afeiçoando e, anos mais tarde, Pompeu sofreria muito com a morte de Júlia, no parto de uma menina que também não sobreviveu.

César foi eleito Cônsul em 59 A.C., com o apoio de Pompeu, e o Triunvirato assumiu o poder de fato em Roma. Apesar da violenta oposição dos Optimates, liderados por Catão, o Jovem, e também do seu colega de consulado, Bíbulo, César, entre outras medidas defendidas pelos Populares, conseguiu aprovar uma legislação dando terras na Campânia para os veteranos de Pompeu. Na mesma toada, Clódio, um correligionário de César, conseguiu aprovar uma lei especial (Lex Clodia) determinando o exílio de Cícero, como pena pelo fato deste ter ordenado a execução dos envolvidos na Conspiração de Catilina sem julgamento. Essa lei também designou o adversário Catão para governar a distante Chipre, o que, na prática, também equivalia a um exílio, afastando-o do Senado.

Em seguida, os Triúnviros decidiram dividir o governo das províncias romanas entre si, e César escolheu controlar as Gálias Cisalpina e Narbonense, além da Ilíria, autonomeando-se Procônsul, com mandato de 5 anos, a partir de 58 A.C. Em breve, ficaria claro que o propósito de César na Gália era conseguir uma conquista militar que o igualasse em prestígio a Pompeu

10 – Crise do Primeiro Triunvirato

Todavia, as fontes relatam que os repetidos sucessos de César na Gália começaram a amargurar Pompeu, em Roma, pois eles ameaçavam ofuscar os seus próprios. Também por isso, Pompeu manobrou para trazer o influente Cícero de volta para Roma e, graças à revogação do exílio, os dois políticos se aproximaram.

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Busto de Cícero

Em 57 A.C., Pompeu recebeu poderes extraordinários do Senado para cuidar do abastecimento de cereais de Roma, onde a fome grassava, um encargo que o colocava em uma excepcional posição em relação aos outros dois colegas no que tange à capacidade de angariar as simpatias da Plebe.

Enquanto isso, as relações entre Crasso e Pompeu também iam mal e, diante de tudo isso, o Triunvirato começava a soçobrar…Os nobres conservadores Optimates logo perceberam este esgarçamento e, aproveitando as dissensões entre os Triúnviros, conseguiram eleger um dos seus integrantes como Cônsul para o ano de 56 A.C. Por sua vez, Cícero questionou a legalidade da nomeação de César para o governo da Gália.

Percebendo o risco ao Triunvirato e a sua própria vulnerabilidade política, César deixou o comando da campanha da Gália com seus lugares-tenentes e convocou Pompeu e Crasso para uma reunião em Lucca, cidade situada na fronteira da Itália com a Gália Cisalpina, em abril de 56 A.C. Nesse encontro, que passaria à História como a “Conferência de Lucca“, César, Pompeu e Crasso acertaram as suas diferenças, estabelecendo que os dois últimos seriam candidatos a Cônsul no ano seguinte, com o apoio de César. Assegurada a eleição, os novos cônsules promulgariam uma lei prorrogando o mandato do proconsulado de César na Gália por mais cinco anos, sendo que, após o término do consulado de Pompeu e Crasso, eles seriam designados procônsules, respectivamente, da Hispânia e da Síria, também pelo prazo de cinco anos.

O adversário de Crasso e Pompeu na eleição para o consulado de 55 A.C., Lúcio Domício Enobarbo, um fervoroso membro da facção dos Optimates, e que era casado com a irmã do líder deles, Catão, o Jovem, prometeu proibir a prática da compra de votos dos eleitores e revogar o comando de César na Gália.

Porém, no dia da eleição, Enobarbo foi expulso à força do Campo de Marte pelos partidários dos Triúnviros, incluindo mil soldados enviados por César, uma coação que garantiu a vitória de Crasso e Pompeu.

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Seguindo o combinado, os novos cônsules executaram os termos do acordo da Conferência de Lucca, através da “Lex Pompeia Licínia“, garantindo a recondução de César para a Gália e os proconsulados da Síria e da Hispânia para Crasso e Pompeu.

11 –  O fim do Primeiro Triunvirato e a reaproximação com os Optimates

O destino, porém, abalaria a recém obtida estabilidade do Primeiro Triunvirato: no ano de 54 A.C., Júlia, a filha de César e esposa de Pompeu, morreu no parto e, em 53 A.C., Crasso, também ele sedento de obter a glória militar contra os Partos, foi capturado e morto por estes, após a desastrosa Batalha de Carras, em uma das piores derrotas militares sofridas pelos romanos desde a Segunda Guerra Púnica, 150 anos antes…

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Logo ficou claro para os Optimates no Senado que César era uma ameaça muito maior do que Pompeu à supremacia que eles detinham no Estado Romano, e, assim, eles passaram a cortejar o último, que, na verdade, sempre havia ansiado pelo reconhecimento dos nobres.

Com efeito, reconciliado com os conservadores, Pompeu já não tinha se oposto à eleição de Lúcio Domício Enobarbo, ferrenho opositor de César, para cônsul, no ano de 54 A.C. Na verdade, o segundo até havia se tornado sogro do filho de Pompeu, que se casou com a filha de Enobarbo.

Sintomaticamente, Pompeu recusou a proposta de César para uma nova aliança matrimonial entre as famílias deles, na qual Otávia, a sobrinha-neta de César (e irmã do futuro imperador Otávio Augusto) lhe foi oferecida em casamento. Para reforçar ainda mais o seu  distanciamento de César, Pompeu, em completa oposição à proposta de renovação dos laços matrimoniais com a família do seu colega, casou-se, em 52 A.C., com Cornélia Metela, que era filha de Quinto Cecílio Metelo Cipião, um dos mais empedernidos membros da facção dos Optimates e, portanto, um inimigo figadal de César.

Ainda em 52 A.C, as lutas políticas na cidade de Roma degeneraram em anarquia, com repetidos motins nas ruas, culminando no assassinato do ex-Tribuno da Plebe e membro dos Populares, Clódio, e que resultaram inclusive no incêndio do edifício da Cúria do Senado, terminando por impedir a eleição dos cônsules naquele ano. Essa situação caótica obrigou o Senado à medida extrema de nomear Pompeu como único Cônsul para aquele ano. Assim empoderado, Pompeu prontamente agiu, convocando os seus soldados e, com eles, restaurou a ordem na Cidade.

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Evidenciando sua aproximação com os Optimates, Pompeu então nomeou o seu sogro Metelo Cipião como seu colega para o Consulado de 52 A.C.

Diante deste quadro, ainda que para os observadores externos Pompeu ainda resistisse a tomar a iniciativa do rompimento com César, qualquer um que tivesse o mínimo discernimento político perceberia que isso era apenas uma questão de tempo.

Na verdade, naquele momento, Pompeu e o Senado somente não tentaram tomar alguma medida mais efetiva contra César porque, ainda naquele ano de 52 A.C., estourou uma rebelião geral das tribos gaulesas, recém-conquistadas, um fato apto a colocar em risco à segurança da própria Roma.

Com efeito, unidos e liderados pelo chefe Vercingetórix, os gauleses tentaram um confronto definitivo na cidade fortificada de Alésia, onde, no entanto, eles foram definitivamente derrotados naquela que foi talvez a vitória militar mais brilhante de toda carreira de César.

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‘César depõe suas armas aos pés de Júlico César, pintura de Lionel Royer (1899), Public domain, via Wikimedia Commons

Terminada a luta na Gália, a facção dos Optimates no Senado tratou de tentar fazer o mesmo com o comando de César para aquela campanha. Tanto os senadores conservadores quanto César sabiam que, despido da condição de governador e sem cargo público, ele perderia a imunidade, não faltando pretextos para processá-lo e condená-lo, na mais branda das hipóteses, ao exílio.

O confronto entre César e os Optimates tornou-se, então, dramático, com várias manobras políticas visando substituir o primeiro, cassando-lhe a imunidade ou, pelo lado dos seus correligionários Populares, tentando prolongar-lhe o mandato ou elegê-lo para outra magistratura capaz de manter César fora do alcance das retaliações dos adversários.

Assim, em 50 A.C., enquanto ainda estava na Gália, César tentou, sem sucesso, concorrer ao cargo de Cônsul, sem, contudo, abandonar o Proconsulado da Gália e continuando naquela Província, o que era proibido por lei. César, porém, contava com o apoio do Tribuno da Plebe Caio Escribônio Curião, que, segundo alegou-se, teria sido subornado mediante o pagamento de suas dívidas por César. Curião vetava todos os projetos de lei que pretendiam substituir César na Gália ou revogar o seu mandato. Curião, inclusive, chegou a propor uma solução conciliatória entre os partidários de César e a facção dos Optimates: César renunciaria ao comando da Gália desde que: ele recebesse a permissão para concorrer às eleições para o Consulado de 49 A.C. e Pompeu também renunciasse ao seu comando militar. Essa proposta até encontrou simpatia do grupo de senadores moderados, mas o núcleo conservador do Senado, liderado pelo Cônsul Caio Cláudio Marcelo, se opôs ferozmente a ela e eles obstruíram a votação de qualquer proposta naquele sentido.

Com certeza, os senadores mais sensatos percebiam o risco iminente da guerra civil e, por isso, eles apoiavam uma solução de compromisso. Assim, quando, na Sessão do Senado do dia 1º de dezembro de 50 A.C., o Cônsul Cláudio Marcelo reapresentou a proposta de substituição de César na Gália, eles, que inicialmente haviam aprovado a remoção dele, acabaram aprovando, por 370 votos a favor e apenas 22 contra, a emenda substitutiva apresentada por Curião, que estabelecia que também o comando de Pompeu deveria ser encerrado. Porém, Marcelo recusou-se a aceitar o resultado da votação da emenda de Curião e, alegando que César havia cruzado os Alpes com 10 legiões para invadir a Itália, ele declarou dissolvida a Sessão, antes da aprovação do texto.

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12 – Rompimento com César

Em seguida, rompendo com a ordem institucional, Marcelo e alguns integrantes da facção conservadora partiram para a residência de Pompeu para tentar convencê-lo a assumir o comando de todas as tropas na Itália e fizesse o necessário para “salvar a República“. Pompeu, demonstrando alguma relutância, real ou fingida, concordou, ressalvando que ele faria isso

Curião, cujo mandato de Tribuno e a sua consequente inviolabilidade pessoal terminariam em poucos dias, decidiu fugir de Roma e ir ao encontro de César, que se encontrava em Ravena, fora dos limites da Itália Romana, acompanhado apenas da XIII Legião. Apesar de instado por Curião a marchar sobre Roma, César decidiu, entretanto, fazer uma nova proposta de acordo: Ele seria nomeado governador da Ilíria e manteria sob seu comando uma legião, até a eleição para o consulado de 49 A.C. Esta proposta foi, contudo, terminantemente recusada pelos Cônsules.

No dia 1º de janeiro de 49 A.C., César tentou a sua última cartada no Senado para manter a sua carreira política: Valendo-se do novo Tribuno da Plebe, Marco Antônio, que, da mesma forma que o outro Tribuno, Cássio Longino, era seu fiel colaborador, César enviou, através de Curião, uma carta ao Senado para ser lida em sessão, por Antônio. Contudo, quando Antônio começou a ler a carta, após o trecho em que César reiterava a disposição dele de somente deixar a Gália e desmobilizar o seu exército caso Pompeu fizesse o mesmo, ele foi interrompido aos gritos pelos senadores conservadores, e não conseguiu prosseguir. No decorrer desta tumultuada sessão, Metelo Cipião, o sogro de Pompeu, propôs que fosse fixada uma data para que César fosse demitido do comando na Gália e dispensasse suas tropas, após o que ele seria declarado “Inimigo Público“. A moção foi aprovada, e somente houve dois votos contrários: os de Curião e do senador Célio.

Muito provavelmente, a explicação para tamanha diferença entre esta votação e aquela ocorrida um mês antes era a maciça presença das tropas de Pompeu nas cercanias de Roma…

Não obstante, o Tribuno Marco Antônio vetou a moção de Metelo Cipião e apresentou uma nova proposta para que fosse incluído na lei que o comando de Pompeu também se encerraria na mesma data, sendo esta proposta conciliatória bem recebida. Porém, novamente, o cônsul Lúcio Cornélio Lêntulo, apoiado por Metelo Cipião, dissolveu a Sessão antes que o projeto de lei contendo as modificações de Antônio fosse aprovado.

Em 7 de janeiro de 49 A.C., o Senado Romano aprovou o “Senatus Consultum Ultimus” declarando a Lei Marcial e nomeando Pompeu como “Protetor de Roma“, equivalendo, na prática, ao cargo de Ditador. Como era esperado, essa lei também declarou o término do mandato de César na Gália, ordenando que ele entregasse o comando das tropas. Em seguida, os soldados de Pompeu ocuparam Roma. Pompeu, agora mais incisivo, expediu uma sugestiva nota dizendo que:

Marco Antônio e Cássio entenderam bem o recado e fugiram de Roma, indo ao encontro de César. Quando eles chegaram, César percebeu que não havia mais espaço para manobras políticas ou negociações. Ele teria agora que optar entre obedecer o Senatus Consultum Ultimus e arriscar a sorte como um cidadão comum exposto à sede de vingança dos inimigos, ou ignorar a mesma e tornar-se um rebelde e um fora-da-lei.

13 – Começa a Guerra Civil

No dia 10 de janeiro de 49 A.C., César, comandando apenas a XIII Legião, cruzou o riacho chamado Rubicão, que marcava a fronteira da Itália com a Gália Cisalpina. Ao entrar na Itália à testa de um exército, ele violara a lei romana e era, tecnicamente, autor de um crime de alta traição. Nas próprias palavras de César:

Começava a Guerra Civil.

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O Senado ficou chocado com a rapidez com que César conseguiu invadir a Itália e pela ousadia de tê-lo feito com apenas uma legião.

O fato é que, pouco antes Pompeu já havia recebido a autorização do Senado, agora inteiramente controlado pelos Optimates, para recrutar um exército de 130 mil homens na Itália, o qual eles achavam que estaria pronto quando César chegasse. Entretanto, ao contrário do esperado, ao invés de ser recebido como fora-da-lei pelos italianos, praticamente todas as cidades no caminho aclamavam César como um herói e o campeão da causa dos Plebeus.

Pompeu também imediatamente compreendeu que qualquer tropa que estivesse a sua disposição não seria páreo para os calejados legionários de César, que naquele momento eram provavelmente os melhores soldados do Mundo…

Para compensar, durante o avanço de César para Roma, Pompeu recebeu um alento: um dos mais importantes comandantes de César, o hábil general Labieno, desertou e uniu-se às forças de Pompeu.

Em função de sua iniciativa e do apoio popular, César tomou Roma sem precisar lutar, pois os senadores conservadores, apavorados, fugiram para as propriedades deles fora da Cidade, deixando boa parte do Tesouro do Estado à disposição dele.

E sobretudo porque Pompeu havia concluído que a melhor estratégia era fugir para a Campânia, onde as tropas senatoriais ainda estavam sendo recrutadas.

Nesse meio tempo, Lúcio Domício Enobarbo, que fora apontado pelo Senado como o sucessor de César para a Gália e recebera 4 mil homens para tentar impedir o avanço dele para Roma, foi detido enquanto tentava escapar da cidade de Corfinium, pelos próprios habitantes e entregue a César, que já vinha em sua perseguição. Os soldados que Enobarbo comandava aderiram a César, enfraquecendo, assim, a perspectiva de uma resistência senatorial na Itália.

14- Retirada estratégica para a Grécia

Pompeu decidiu, então, partir para a Grécia, onde, explorando o seu prestígio e sua vasta clientela existente na região, ele poderia reunir um grande exército. Além disso, ele ainda tinha sob seu comando uma considerável frota romana, ao contrário de César, cujos poucos navios disponíveis  tornavam difícil perseguir Pompeu, ainda mais agora que a chegada do inverno estava próxima, impedindo por alguns meses os transportes marítimos. Finalmente, Pompeu tinha mais chances de interceptar os carregamentos de cereais para Roma, onde a fome resultante seria responsabilidade de César, enfraquecendo-o perante a Plebe.

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Embora o plano supracitado não fosse uma estratégia ruim, o fato de Pompeu ter tido que abandonar a Itália, demostra o despreparo com que ele foi pego pela rápida ação de César. E isto apesar de terem sido Pompeu e os Optimates que deram o ultimato ao adversário, tendo um bom tempo para se prepararem…

Acompanharam Pompeu em sua retirada estratégica da Itália a maior parte da facção dos Optimates. Assim, ao contrário de César, que era o comandante supremo de suas forças, Pompeu, por diversas vezes, tinha que escutar e levar em consideração os palpites militares dos senadores mais proeminentes, muitos deles com pouca ou nenhuma experiência bélica.

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César, devido à impossibilidade de perseguir Pompeu até a Grécia, decidiu partir para enfrentar os exércitos do rival que se encontravam baseados na Hispânia. Isso motivou o famoso comentário de César:

Chegando em Ilerda, após mais uma impressionante marcha forçada, César cercou o exército de Pompeu, que se rendeu em 02 de julho de 49 A.C., De volta à Roma, César, em apenas 11 dias de estadia na capital, foi nomeado Ditador por um curto período e, após editar uma série de decretos implementando políticas de interesse dos Populares, conseguiu que Pompeu fosse declarado “fora-da-lei”.

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Em 28 de novembro de 49 A.C., após conseguir os navios necessários, César partiu de Brundisium e cruzou o mar Adriático em direção ao Épiro, na atual Albânia. Se o inverno era insatisfatório para transportar as tropas via marítima, era muito mais para as instáveis galeras de patrulha da frota de Pompeu, assim, a cartada de César inicialmente foi um sucesso e ele conseguiu desembarcar metade de suas forças.

Porém o comandante da frota de Pompeu, ancorada em Corfu, Marco Calpúrnio Bíbulo, que tinha sido pego de surpresa pelo desembarque repentino de César, agora  estava alerta e decidiu bloquear a costa do Épiro, impedindo a chegada de reforços e de provisões para César. E, para a animar o ânimo de Pompeu, o seu outro comandante, Lúcio Escribônio Libo,  conseguiu a capturar as ilhas que dominavam a entrada do porto de Brundisium.

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Agora parecia que a audácia de César o tinha levado longe demais. Pompeu tinha muito mais legiões do que ele no Épiro e agora, além da inferioridade numérica, o exército do rival não poderia mais receber suprimentos nem reforços.

Enquanto isso, Pompeu, estabelecido em Tessalonica, na Macedônia, montou um verdadeiro governo romano no exílio, rodeado por tantos senadores fugitivos, cerca de duzentos, que eles passaram a se reunir em sessão naquela cidade grega, como se estivessem no Senado, em Roma. Em Tessalonica, Pompeu recebeu Rufo, um general partidário seu a quem César havia capturado na Hispânia, que lhe foi enviado por César como um emissário levando uma  proposta de acordo de paz, onde ambos desmobilizariam seus exércitos e submeteriam seus pleitos ao Senado e ao Povo de Roma. Essa proposta de César foi motivada pela situação desfavorável em que ele se encontrava no Épiro.

Pompeu, diante das notícias, recusou a oferta e decidiu que era hora dele se mexer e marchar em Direção à Apolônia, na costa do Épiro. Porém, César chegou ali antes e o povo da cidade, surpreendentemente, o recebeu de braços abertos, e o governador romano da cidade, Straberius, que tinha sido apontado por Pompeu, teve que fugir.

15-  Vitória tática, mas derrota estratégica na Batalha de Dirráquio

Quando ficou sabendo da perda de Apolônia, Pompeu decidiu fazer uma marcha forçada para uma boa posição defensiva na cidade de Dirráquio (atual Durres, na Albânia, ou, ainda, Durazzo, em italiano), local que ele alcançou em 3 de dezembro de 49 A.C. Porém, essa marcha forçada não foi um bom prenúncio para os partidários de Pompeu. Nela ficou patente que o grande general já estava ficando velho, e que as tropas por ele recrutadas estavam despreparadas e desanimadas.

Agora, os exércitos estavam separados pelo rio Apsus, o de Pompeu acampado nas cercanias de Dirráquio, e o de César nos arredores de Apolônia. Entretanto, Pompeu, apesar do seu exército ser muito mais numeroso, dando uma demonstração de falta de combatividade, ou talvez por ele não confiar na capacidade do seu exército, ao invés de atacar César, ficou acampado por dois meses em atitude de espera…

Nesse meio tempo, César vinha requisitando aos seus correligionários em Roma o envio de reforços com urgência, e, para a sua felicidade, Marco Antônio, o seu braço-direito, conseguiu despistar o bloqueio naval de Libo, que havia perdido um pouco da eficiência depois da morte de Bíbulo, e desembarcou mais 4 legiões na cidade de Nympheum, em fevereiro de 48 A.C.

A notícia do desembarque de Antônio chegou, quase ao mesmo tempo, aos dois acampamentos. Pompeu decidiu, então, interceptar os recém-chegados reforços  antes que eles se unissem a César. Ele tinha a vantagem de não ter que cruzar o rio e na verdade começara a marcha um pouco antes. Assim, Pompeu escolheu um ponto para tentar emboscar as legiões de Antônio que avançavam. Antônio, porém, foi avisado por simpatizantes gregos da armadilha e decidiu permanecer acampado, protegido de um ataque pela paliçada, fosso e torres. Pompeu logo percebeu que, agora, ele corria o risco de ficar entre uma posição fortificada inimiga e o exército de César e ele, então, achou mais prudente voltar para Dirráquio, onde se entrincheirou de vez. Ele foi seguido por César, que também começou a construir uma cadeia de paliçadas, fossos e torres de fortificação, de modo que ambos os líderes foram tornando o campo de batalha de certa forma parecido com o que se veria, quase dois mil anos depois, na 1ª Guerra Mundial.

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Ter permitido a junção das reforços de Antônio às legiões de César com certeza foi uma derrota tática de Pompeu. Se antes, quando tinha superioridade de 3 para 1, ele não atacara César, agora seria muito mais difícil… A sua estratégia reduziu-se, então, a esperar que César ficasse sem suprimentos, já que ele poderia recebê-los da Grécia. César, por sua vez, como demonstram os trabalhos de fortificação que ordenou, também esperava proteger as únicas linhas que tinha de suprimentos por terra, no Épiro, província que estava longe de ser abundante em recursos, já bem exauridos pelos recentes combates, e, sobretudo, se proteger dos ataques do inimigo muito mais numeroso.

Curiosamente, à medida que o tempo foi passando, o trigo dos campos que se encontravam dentro do perímetro fortificado de César começou a crescer. Já Pompeu passou a ter problemas de escassez de água, e, assim,  invertendo-se a situação, ele é que passou a ficar na condição de sitiado. Essa situação em breve obrigaria Pompeu a ter que atacar para romper as linhas de César. Mas, nessa premência, Pompeu seria beneficiado por um golpe de sorte: Dois comandantes de cavalaria da tribo gaulesa dos Allobroges, que serviam como auxiliares no exército de César,  acusados de desviarem o soldo das suas tropas, desertaram e foram se unir a Pompeu. Os desertores contaram detalhes acerca das posições defensivas de César, sobretudo algumas posições no sul das linhas, que não tinham ficado prontas.

Vislumbrando uma boa oportunidade para a ação, Pompeu, em 10 de julho de 48 A.C., ordenou um ataque de seis legiões contra o ponto fraco, onde a paliçada de César chegava até o mar, inclusive utilizando tropas ligeiras desembarcando diretamente da água, naquele ponto. Com superioridade numérica esmagadora, as legiões de Pompeu conseguiram romper o perímetro defensivo, fazendo recuar a IX Legião Cesarista, com pesadas perdas. Contudo, César deslocou 4 mil homens para o ponto fraco, sob o comando de Marco Antônio e contra-atacou, fazendo as tropas de Pompeu se refugiarem em um pequeno forte que havia sido abandonado pelos soldados de César. Este resolveu desalojá-los de lá enviando 33 Cohortes de infantaria, apesar desse número ser metade do das legiões que estavam sendo atacadas.

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Ao contrário do que se esperava, as tropas de Pompeu resistiram tenazmente e ainda foram auxiliadas por um destacamento misto de cavalaria e infantaria que o experiente general enviou no calor da batalha para flanquear a retaguarda da ala direita dos soldados de César. Ameaçado pelo contra-ataque de Pompeu, César tentou organizar uma retirada ordenada mas os soldados dele entraram em pânico e correram para se proteger atrás dos muros de seu próprio acampamento. César perdeu mil homens no ataque fracassado.

Mais uma vez, contudo, Pompeu hesitou no momento crucial e deixou de ordenar um ataque generalizado ao exército de César, o qual teria grande probabilidade de lhe dar a vitória completa. Parece que ele, erroneamente, suspeitou que a retirada do rival era uma armadilha ou, então, que a parada já estava ganha, mas o fato é que ele acabou não fazendo nada, o que motivou o impiedoso comentário de César:

César, então, decidiu se retirar do campo da Batalha de Dirráquio e marchar para a Tessália, local para onde ele já tinha enviado umas legiões sob o comando de Cneu Domício Calvino para confrontar o resto do exército de Pompeu que ali era lideradas por Cipião Násica

Da mesma forma, seguindo a uma distância prudente o inimigo, Pompeu deixou o campo de batalha e seguiu para a Tessália. Embora cautelosamente ele achasse que ainda não chegara a hora de lutar uma batalha decisiva, Pompeu acabou sendo convencido pelo seu séquito de influentes senadores Optimates a perseguir César e seu exército para forçar uma batalha decisiva. E o cenário escolhido para isso foi a planície de Farsália (Pharsalos), onde os exércitos inimigos acamparam.

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Pompeu tinha entre cerca de 60 mil soldados e 45 mil soldados e César, entre 30 mil e 22 mil (as fontes variam). E o contingente de cavalaria à disposição de Pompeu era esmagadoramente superior: 7 mil contra mil. Os acampamentos dos dois exércitos ficavam distantes cerca de 9 km um do outro.

César, com certeza, não tivera sua confiança abalada pela derrota na Batalha de Dirráquio e ele deve, como em tantas vezes anteriores, ter conseguido motivar suas tropas. Por isso, todo dia ele mandava o exército entrar em formação de combate à vista do inimigo, tentando atrair Pompeu para o campo de batalha. Mas o máximo que Pompeu fazia era formar seu exército no topo da colina em que ele acampara, na improvável esperança de que César atacasse em um terreno que lhe era francamente desfavorável.

Enquanto isso, no quartel de Pompeu, os senadores exigiam que ele liquidasse logo o assunto. Após o desempenho razoável em Dirráquio, a confiança dos Optimates era tanta que eles chegaram até a fazer uma divisão prévia dos cargos no governo, que seria implementada quando do que eles julgavam ser o iminente retorno vitorioso deles à Roma.

16- Derrota na Batalha de Farsália

Assim, em 9 de agosto de 48 A.C., todo o exército de Pompeu desceu da colina e se colocou em ordem de batalha, disposto em três linhas com profundidade de dez homens cada. Novamente, porém, a iniciativa seria deixada ao adversário. O plano era esperar que César atacasse, já que se esperava que suas tropas ficariam cansadas pela marcha. E, desta vez, as linhas de César, comandadas por Marco Antônio e Domício Calvino avançaram, não sem antes pararem no meio do caminho para descansar e se reagrupar, até que elas se chocaram com o centro da primeira linha de Pompeu, que resistiu ao ataque.

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Então, ambos os exércitos ficaram se empurrando e tentando abrir espaços entre os caídos, sem sucesso, como era característico dos combates da Antiguidade. Entretanto, quando Labieno, obedecendo as ordens de Pompeu, lançou a sua cavalaria do flanco esquerdo, que superava a de César por 7×1, visando esmagar a a cavalaria inimiga, é que se percebeu que César, discretamente, havia formado uma quarta linha, por trás das 3 primeiras, que tinham sido formadas para serem mais finas dos que as de Pompeu (6 homens),  a qual composta com elementos da terceira linha (8 coortes) misturados com seus mil cavaleiros.

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Os cavaleiros de Pompeu, surpresos pelo tamanho da formação, que eles esperavam que fosse bem menor, quando se depararam com a quarta fileira de tropas de César, entraram em pânico e dispersaram-se, quando os legionários, ao invés de atirarem os seus dardos (pila), usaram-nos como lanças, apontadas para os cavalos.

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Em seguida, a quarta linha de infantaria de César aproveitou-se de que o flanco esquerdo de Pompeu estava desprotegido, após a fuga da cavalaria, e atacou aquele ponto, que, em pouco tempo, começou a perder a coesão, e  com o pânico espalhando-se entre os soldados.

Aproveitando o momento adequado, César lançou a sua terceira linha sobre a linha de frente do inimigo, que foi rompida. Assistindo seu exército ser envolvido, Pompeu decidiu voltar para o seu acampamento, deixando as tropas no campo de batalha, que, ao se verem sem o seu comandante supremo, começaram um debandada geral. Quando César conseguiu alcançar o acampamento inimigo, que, diga-se de passagem, foi galantemente defendido pelos auxiliares trácios, Pompeu já tinha fugido.

De acordo com os “Comentários sobre a Guerra Civil“, obra atribuída ao próprio César, ele perdeu apenas 30 centuriões e 200 legionários na Batalha de Farsália.

17 – Pompeu foge para o Egito

O objetivo de César agora era perseguir e capturar Pompeu para impedir que ele reunisse um novo exército. De fato, Pompeu tinha parado em Amfípolis e publicado um decreto conclamando todos os homens da província da Macedônia a se juntarem a sua causa. Porém, quando se César aproximava-se daquela cidade, ele resolveu fugir, embarcou em um navio e, no trajeto, apanhou sua esposa, Cornélia, e o seu filho, para se juntar aos remanescentes de sua frota. Contudo, em todo lugar que Pompeu atracava, ficava claro que ele ali não era bem-vindo.

Como o grande aliado de Pompeu na guerra contra César e os Populares, Catão, o Jovem, o líder intelectual dos Optimates, já tinha fugido para a África para tentar organizar a resistência aos inimigos, Pompeu foi aconselhado a fazer uma parada no Egito. Parecia, de fato, uma boa ideia, já que o pai do atual faraó Ptolomeu XIII tinha mantido com Pompeu uma relação de quase-clientela, a quem, inclusive, o faraó pagou uma grande soma em dinheiro para ser reconhecido por Roma.

Ptolomeu XIII, que ainda era um menino de cerca de 14 anos, no início parecia disposto a receber Pompeu, porém, ele foi alertado pelo eunuco Potheinus, por seu tutor, Teódoto de Chios, e por Achillas, o comandante do exército egípcio, de que, uma vez no Egito, Pompeu poderia tentar governar o país, já que muitos dos mercenários romanos que compunham o exército egípcio tinham servido sob as ordens de Pompeu. O jovem faraó foi também aconselhado que tudo indicava que César seria o vencedor da Guerra Civil e o melhor seria não desagradá-lo.

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18 – A triste morte de Pompeu

Assim, quando a pequena frota de Pompeu chegou próximo à cidade egípcia de Pelousium, local onde Ptolomeu XIII travava uma guerra pela sucessão com sua irmã Cleópatra VII, o general Achillas foi, juntamente com Septimius, que tinha sido um antigo oficial de Pompeu, ao encontro dele, em um barco de pesca, dando a entender que tinham vindo buscar o romano para desembarca-lo em terra.

Os acompanhantes de Pompeu, porém, quando viram o pequeno barco de pesca aproximar-se, ficaram desconfiados e o aconselharam de que eles não deviam se aproximar da outra embarcação. Achillas, então, gritou que o motivo deles estarem usando um barco tão pequeno era a pequena profundidade da água, apesar de alguns navios egípcios estarem próximos. Nesse momento, Cornélia teve um pressentimento de que o seu marido ia ser morto e lhe disse para não embarcar. Pompeu, todavia, ignorou o receio da esposa e embarcou.

À bordo do pesqueiro, Pompeu, achando a fisionomia de Septimius familiar, perguntou se ele tinha sido seu camarada de exército. Naquele instante, Septimius, sem nada responder, enfiou a espada dele em Pompeu, sendo que Achillas e um certo romano de nome Savius, que acompanhavam tudo, também aproveitaram para esfaquear Pompeu com as suas adagas.

Assistindo a tudo, horrorizados, os tripulantes do navio de Pompeu, aproveitando o vento favorável, fugiram. Enquanto isso, a cabeça de Pompeu foi cortada, e o corpo dele, jogado ao mar.

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Pompeu morreu em 28 de setembro de 48 A.C., um dia antes do seu aniversário, no qual ele completaria 60 anos de idade. Quando, apenas dois dias após, César chegou à Alexandria, em perseguição ao rival, Teódoto lhe presenteou com o anel-selo de Pompeu e um recipiente, do qual foi retirada a cabeça de Pompeu. As fontes contam que César chocado, chorou o trágico fim do rival e amaldiçoou Teódoto, que teve que fugir para não ser executado.

Os restos de Pompeu foram entregues a Cornélia e enterrados na Vila de Pompeu, em Alba, na Itália.

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19 – Conclusão

Pompeu acabou se tornando um personagem que goza de uma certa simpatia pelo público amante da História de Roma. Apesar de ter sido um homem muito ambicioso, ele preferiu, quando teve condições de tentar a conquista do poder absoluto, obter a chancela do Senado e respeitar a Constituição. Parece-nos que o fato dele não pertencer a uma família da nobreza tornou-o excessivamente sequioso da aprovação dos nobres, dos quais, embora ele tenha se afastado temporariamente, acabou se reaproximando.

Na verdade, mesmo que Pompeu tivesse ganho a Guerra Civil, a República já estava ferida de morte e provavelmente ele seguiria a trajetória de Sila, ou, caso a sua ambição falasse mais alto, a que o próprio César trilharia, após ter vencido a Guerra Civil. Em qualquer dos casos, acredito que os Populares acabariam encontrando um outro campeão, talvez os mesmos Marco Antônio e Otaviano.

A relação pessoal amistosa de Pompeu com César, durante a maior parte da carreira dele, parece ter sido genuína, e os relatos deixam transparecer que os dois grandes homens da República da época efetivamente admiravam-se e respeitavam-se mutuamente. O casamento de Pompeu e Júlia, embora tenha sido arranjado com finalidades políticas, acabou se transformando em uma união de verdadeiro amor conjugal, e tudo isso contribuiu para melhorar a imagem de Pompeu para a posteridade.

FIM

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