HISTÓRIAS DE ROMA

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Decidimos compartilhar nosso conhecimento adquirido na leitura de mais de duzentas obras sobre História Romana, além de viagens a cidades e sítios arqueológicos com vestígios da civilização romana, para proporcionar um espaço para que sejam postadas por todos notícias e ideias sobre este assunto que nos apaixona e que moldou a civilização ocidental. Por isso, criamos uma página no Facebook que já alcançou 4 mil seguidores ( a qual nós extinguimos e agora estamos recriando).

Nosso blog tem o propósito de contribuir para a informação e divulgação de assuntos relativos à Roma Antiga e para troca de ideias. Alertamos que o material aqui postado não deve ser usado para fins acadêmicos. Um blog jamais substituirá um curso superior de História.

A foto foi tirada no ano de 2003, em Pont du Gard, próximo à cidade francesa de Nîmes, no Sul da França. A Ponte-Aqueduto sobre o rio Gard é uma das obras-primas da engenharia romana. Eu fui um dos últimos a entrar neste sítio, naquele dia de final de outono. A pessoa que pode ser vista no cantinho superior da foto é minha esposa. Nós tivemos a oportunidade de andar praticamente sozinhos pelo sítio e de certa forma ter a mesma sensação de admiração e reverência que  teria um viajante medieval que percorresse aquele caminho e topasse com aquela construção magnífica, testemunho de uma  antiga e mais sofisticada civilização.

TRAJANO – O ÓTIMO IMPERADOR

“Felicior Augustus, melior Traianus” (“Mais feliz do que Augusto, melhor do que Trajano”)

“Tanto respeito tem sido tributado à memória dele, que, mesmo em nossos tempos, eles aclamam em voz alta aos imperadores: “Mais feliz do que Augusto, melhor do que Trajano!”

Eutropius, Breviarium

De acordo com o historiador romano Eutrópio, em sua época os senadores romanos aclamavam cada novo imperador com a seguinte saudação: “Felicior Augusto, Melior Traiano“, esperançosos de que o novo monarca tivesse um reinado mais feliz do que o de Augusto e reinasse melhor do que Trajano, não obstante este tivesse reinado 250 anos antes! Assim, dentre os cerca de cinquenta homens que, a partir de Augusto até o final do século IV, haviam assumido o título de imperador romano, Trajano, foi considerado por muitos, senão por toda a posteridade de seus súditos, como tendo sido o melhor deles.

Quais foram os motivos para tamanho reconhecimento?

1- Origem familiar

Marco Úlpio Trajano (Marcus Ulpius Traianus-II) nasceu na cidade de Itálica (no território da atual Santiponce, na vizinhança de Sevilha), que ficava na província romana da Hispania Baetica, no dia 18 de setembro de 53 D.C.. Ele era filho de Marcus Ulpius Traianus -I e de Marcia, que por sua vez era filha do senador romano Quintus Marcius Barea Sura, e cujo pai, Quintus Marcius Barea Soranus, tambem havia sido um senador romano e Consul Suffectus (substituto) no ano de 34 D.C.

A cidade de Itálica foi fundada em 206 A.C. pelo grande general e político romano Cipião, o Africano, ainda durante a Segunda Guerra Púnica, como uma colônia romana habitada por soldados auxiliares veteranos do referido conflito, originários da Itália, sendo essa a razão do nome escolhido.

Anfiteatro de Itálica, foto Tyk)

Em algum momento, não sabemos se quando da fundação da cidade ou posteriormente, romanos da gens Úlpia (Ulpii), originária da cidade italiana de Tuder (atual Todi), que fica na região da Úmbria, instalaram-se em Itálica. Considerando que Tuder foi conquistada pelos romanos em 217 A.C., é possível que os Úlpios tenham sido recrutados como soldados auxiliares pelos romanos na cidade e, nesta condição, eles estivessem entre os colonos italianos pioneiros de Itálica.

panorama da atual Todi

Posteriormente, os Ùlpios uniram-se a outra família radicada em Itálica, a gens Traii, ou, o que é mais provável, algum membro desta família foi adotado por um Úlpio, dando origem à família dos Úlpios Trajanos (Ulpii Traianii). Vale notar que há uma corrente de historiadores espanhóis que defendem que os antepassados de Trajano seriam descendentes do povo ibérico dos Turdetanos, que habitava a região e, portanto, o futuro imperador teria sido o primeiro cidadão romano de origem não-italiana (“estrangeira”) a assumir o trono do Império Romano, como, inclusive, afirma o historiador romano Dião Cássio (Livro LXVIII, 4, 1). Nessa linha, os Traii seriam uma família nativa da região, que foram romanizados após a fundação de Itálica. Aliás, segundo uma teoria, o membro da gens Traii que teria sido adotado por um Úlpio pode muito bem ter sido o próprio pai do imperador Trajano.

“Mas Nerva não considerava que os laços familiares estivessem acima da segurança do Estado, nem estava ele menos inclinado a adotar Trajano por ser este um espanhol, em vez de um italiano ou italiota, visto que nenhum estrangeiro previamente havia sido soberano romano.”

Cassius Dio, Livro LXVIII, 4,1

É bem provável que os antepassados de Trajano, pertencendo a famílias integrantes da elite de Itálica, fossem proprietários de vastas propriedades agrícolas, e que eles tenham enriquecido principalmente devido à plantação de oliveiras, produção e exportação de azeite, um produto pelo qual até hoje a região é conhecida. E é curioso observar que uma das explicações para a origem do nome “Traii” é que este seria derivado da palavra ibérica nativa “traha“, que dava nome a uma ferramenta agrícola utilizada para lavrar a terra (vide https://www.academia.edu/1082682/Las_ra%C3%ADces_b%C3%A9ticas_de_Trajano_los_Traii_de_la_It%C3%A1lica_turdetana_y_otras_novedades_sobre_su_familia_texto_

Seja como for, o primeiro Úlpio a alcançar uma posição de proeminência na História de Roma foi o pai de Trajano, Marcus Ulpius Traianus-I (Traianus Pater ou Trajano Pai). Nascido por volta de 25 D.C. (data estimada por Julian Benett, autor do livro “Trajan: Optimus Princeps, Ed. Routledge), em Itálica,e tendo uma irmã conhecida como Ulpia, o pai de Trajano comandou a Legião Romana X Fretensis durante a Grande Guerra Judaica, que durou de 66 a 70 D.C., servindo diretamente sob o comando geral do respeitado general Vespasiano, que em breve seria aclamado imperador romano, em 69 D.C. (A Décima Legião era provavelmente a legião mais afamada do exército romano, recrutada e comandada pelo próprio Júlio César). Vale notar que antes de deixar a Judéia para ir reclamar o trono do Império, Vespasiano chegou a instalar o seu quartel-general no acampamento conjunto da Legião X Fretensis e da Legião V Macedonica. O historiador romano de origem judaica, Flávio Josefo, inclusive narra, em sua obra A Guerra do Judeus, várias ações militares comandadas por Trajano Pai.

Cabeça de estátua de Marcus Ulpius Traianus Pater (Pai de Trajano)

Portanto, não temos dúvida que o desempenho de Marcus Ulpius Traianus-I deve ter impressionado o futuro imperador Vespasiano (que já devia conhecê-lo, já que as famílias eram próximas, como em breve veremos) que, em reconhecimento aos serviços por ele prestados na referida campanha, após assumir o trono imperial, nomeou Trajano Pai governador da província romana da Capadócia e, em seguida, ele receberia a grande honraria de ser nomeado Consul Suffectus, nos meses de setembro e outubro de 72 D.C.. Continuando sua trajetória bem-sucedida, Trajano Pai foi, sucessivamente, nomeado Governador da província romana da Síria, entre 73 e 74 D.C., Procônsul da Ásia, de 79 a 80 D.C., e governador da província de origem da sua família, a Hispania Baetica, em uma data não precisada. Sem dúvida, tratava-se de uma carreira pública brilhante, certamente turbinada pela antigos laços de camaradagem que havia entre ele e Vespasiano.

Busto de Vespasiano, foto de shakko, under CC BY-SA 3.0

Vale notar que o fato de Trajano Pai ter sido nomeado pelo imperador Nero comandante (Legatus Legionis) da X Legião Fretensis, que pode ser considerada uma unidade de elite, demonstra, no contexto da organização do Exército Romano implementada por Augusto, que ele já tinha se tornado senador e ocupado o cargo de Pretor. Assim, muito provavelmente, ele já deveria ser um militar experimentado. É, ainda, possível, como especula Julian Benett, que a carreira de Trajano Pai tenha sido favorecida por um conterrâneo espanhol que era muito influente no início do reinado de Nero: Lucius Annaeus Seneca (Sêneca, o Jovem), um nativo de Corduba, cidade igualmente situada na Hispania Baetica.

Por volta do ano 47 D.C., Marcus Ulpius Traianus -I casou-se com Márcia, que era integrante de uma família que pertencia a uma gens de prestígio, a qual, embora de origem ancestral plebeia, reivindicava ser descendente de Anco Márcio, um dos reis lendários de Roma. Como já vimos, Márcia era filha e neta de senadores, e sobrinha e neta de cônsules e, portanto, um casamento com um pretendente que não pertencesse à classe senatorial seria impensável. Portanto, é também provável, então, que o anterior casamento de sua irmã Ulpia com Publius Aelius Hadrianus Marullinus, ele também filho e neto de senadores romanos e membro de uma proeminente família também radicada em Itálica, tenha facilitado a união.

Por sua vez, Márcia, a futura mãe de Trajano, era irmã de Marcia Furnilla, que, em 63 D.C., casou-se com Tito Flávio Vespasiano (Tito), o filho mais velho de Vespasiano, que era muito amigo do pai dela, o senador Quintus Marcius Barea Sura. Mais tarde, o tio de Márcia, Quintus Marcius Barea Soranus, foi acusado de conspirar contra Nero e obrigado a suicidar-se, em 66 D.C. Em função disso, a família de Márcia caiu em desgraça, e Tito achou mais prudente divorciar -se de Marcia Furnilla, mas ficando, entretanto, com a guarda da filha que ambos tiveram em 64 D.C., que recebeu o nome de Julia Flavia.

Acredita-se que este busto retrate Marcia Furnilla, foto Carole Raddato 

Em agosto de 48 D.C., Marcus Ulpius Traianus -I e Márcia foram pais de uma menina, que recebeu o nome de Ulpia Marciana.

Cabeça de Ulpia Marciana

2- Infância e Juventude

E, em 18 de setembro de 53 D.C., nasceu a segunda cria do casal, o primeiro varão, que recebeu o mesmo nome do pai, Marcus Ulpius Traianus – II (Marco Úlpio Trajano, o futuro imperador Trajano). A criança nasceu em Itálica, lar ancestral dos Úlpios Trajanos, onde o patriarca devia passar parte do ano supervisionando as suas propriedades e recebendo a sua clientela.

Não sabemos detalhes da infância do menino Trajano. Ao vestir a toga virilis, por volta dos 14 anos, que marcava o início da idade adulta, certamente ele passou a se inteirar mais dos negócios do pai. E, quando ele atingiu a idade militar, já no início do reinado de Vespasiano, o seu pai estava prestes a assumir o cargo de governador da importante província da Síria, um posto que implicava no comando das numerosas legiões ali estacionadas. É, então, quase certo que Trajano deva ter iniciado sua carreira militar na Síria, na condição de tribuno, algo que sua posição como filho de um senador lhe permitia. E é bem possível que, na Síria, Trajano tenha presenciado de perto quando seu pai repeliu uma incursão dos Partos.

Todavia, as fontes antigas, tais como Cássio Dião e a Epitome De Caesaribus, atribuída a Sexto Aurélio Victor, dão conta que Trajano não teve uma educação esmerada, algo que, certamente, deve-se ao fato dele, desde muito jovem, ter se dedicado inteiramente à carreira militar, provavelmente passando a sua juventude no meio dos soldados, entre quartéis e acampamentos:

“Faltava-lhe educação, no sentido estrito da palavra, quando se tratava de oratória, mas ele tanto conhecia, como sabia empregar o seu conteúdo,”

Cassius Dio (Livro LXVIII 7, 4

Ele estimava grandemente pessoas muito francas ou homens muito eruditos, embora ele mesmo tivesse conhecimento teórico superficial e fosse moderadamente eloquente.”

Aurelius Victor, 149, 8

Fontes sobre Trajano

Nesse ponto de nossa biografia de Trajano é preciso dizer que as fontes históricas sobre o seu reinado, em comparação com a dos seus antecessores, são de certo modo bem esparsas. O relato mais completo sobrevivente é feito pelo historiador Cássio Dião (Cassius Dio ou, ainda, Dion Cássio) que escreveu um século depois do reinado de Trajano uma História de Roma até aos seus próprios dias, porém, o livro 68, que trata do referido imperador, é na verdade uma coletânea ou resumo (Epitome) produzida posteriormente nos tempos do Império Bizantino. Há ali, não obstante, algumas informações importantes sobre Trajano, tanto na sua biografia, como, em menor número, na do seu sucessor, Adriano. A “Epitome de Cesaribus“, atribuída a Sextus Aurelius Victor, é basicamente uma sinopse contendo ainda mais curtos resumos do reinado dos imperadores romanos e o capítulo 13, que trata de Trajano, tem somente 15 linhas, a mesma característica aplicando-se ao resumo do reinado dele contido no Breviarium, de Eutrópio. O historiador eclesiástico romano Eusébio de Cesaréia, em sua História da Igreja, também relata alguns fatos ocorridos no reinado de Trajano, notadamente acerca da Guerra de Kitos. Finalmente, o historiador romano-bizantino João Malalas, do século VI D.C., ainda que por vezes impreciso e não muito consistente, fornece informações sobre a campanha de Trajano contra os Partas. As cartas trocadas entre o Caio Plínio Segundo, mais conhecido como Plínio, o Jovem, que era amigo de Trajano, e o imperador, no período em que o primeiro serviu como governador da Bitínia, revelam informações de primeira mão e também pistas sobre algumas ações, motivações, preocupações de Trajano e o seu caráter como governante. De Plínio também nos chegou um revelador Panegírico, um discurso de saudação escrito no ano 100, que apesar do tom bajulador, traz informações valiosas sobre a percepção senatorial da conduta do imperador. Lúcio Flávio Arriano Xenofonte (ou Arriano de Nicomédia) escreveu uma História da Pártia (Parthica), que também aborda a campanha de Trajano contra os Partas, mas da qual somente sobrevivem poucos fragmentos, embora valiosos. Finalmente, há algumas informações sobre o reinado de Trajano nas Cartas de Marco Cornélio Frontão ao imperador Marco Aurélio e também nos Discursos de Dião Crisóstomo (ou Dião de Prusa). Não obstante, sobreviveram muitos monumentos, estátuas, moedas e inscrições, além de achados arqueológicos, que ajudam a preencher essas lacunas, como por exemplo, a Coluna de Trajano.

Desse modo, não sabemos muitos detalhes acerca da infância e do início da carreira militar de Trajano.

Por volta de 75 D.C., mais ou menos, Trajano casou-se com Pompeia Plotina, uma conterrânea nascida na província da Hispania. Provavelmente, este foi um casamento para atender os interesses locais de ambas as famílias. Plotina, não obstante, mostraria durante toda a sua vida, ser uma mulher muito culta, inteligente, austera e virtuosa. Entretanto, o casal jamais geraria um filho, talvez devido à orientação sexual de Trajano, que, segundo os relatos dos historiadores, sempre demostrou muita atração por rapazes, preferência que, juntamente com o vinho, parece ter sido seu único vício, segundo os autores antigos:

É claro que eu sei que ele devotava-se aos garotos e ao vinho, porém, se ele alguma vez tivesse praticado ou levado a cabo algum ato baixo ou maligno como resultado disso, ele teria incorrido em censura; do jeito que foi, entretanto, ele bebia todo vinho que queria, e permanecia sóbrio, e, em suas relações com rapazes, ele não fez mal a ninguém

Cassius Dio (Livro LXVIII 7, 4)

Em 78 D.C., Ulpia Marciana, a irmã de Trajano, ficou viúva, e foi morar com Trajano e Plotina, levando com ela sua filha, Salonina Matidia, que tinha dez anos de idade. Trajano se afeiçoou muito à sobrinha e passou a tratá-la como se fosse sua própria filha. Os tios devem ter arranjado o casamento precoce de Matidia com o senador de uma ilustre família de status consular, Lucius Vibius Sabinus, união da qual nasceria, em 83 D.C., uma menina, que recebeu o nome de Vibia Sabina. Pouco depois do nascimento da filha, porém, Sabinus faleceu. Matídia, agora viúva, ainda se casaria mais duas vezes, a última delas com Marcus Annius Verus-I, um rico senador de uma família também originária da Hispania Baetica. Desta última união, nasceriam, entre outros: Anna Galeria Faustina, que seria esposa do futuro imperador Antonino Pio, e Marcus Annius Verus-II, pai do futuro imperador Marco Aurélio.

Busto de Salonina Matídia, foto de Clio20

Em 81 D.C., Trajano foi designado para o cargo de Questor na cidade de Gortyn, que era a capital da província romana de Creta. Os Questores provinciais podiam ser, de acordo com a organização política do Império Romano da época, os auxiliares militares diretos do governador da província, ocupando a posição de segundo em comando das tropas ali estacionadas.

Cumprida a designação em Creta, Trajano voltou para a sua província natal e, em 86 D.C., ele assumiu o comando da VII Legião Gemina, uma unidade militar que havia sido recrutada pelo imperador Galba na própria Hispania, e cujo quartel-general (Castra Legionis), deu origem à atual cidade de Léon, nome que deriva do seu nome original – Legio (Legião, em latim). Certamente, Trajano, nessa época, já devia ser Senador, pois já atingira a idade mínima legal de 30 anos e tinha sido Questor, o que lhe permitiu ser escolhido para a prestigiosa assembleia.

Também em 86 D.C., ocorreu o falecimento de Publius Aelius Hadrianus Afer, primo de Trajano, que era viúvo. Hadrianus Afer era filho do senador Publius Aelius Hadrianus Marullinus, ele mesmo filho e neto de senadores, e de Ulpia, a irmã do pai de Trajano. Os Élios (Aelii) eram, como os Úlpios, uma rica família descendente dos colonos italianos que fundaram Itálica.

Hadrianus Afer deixou órfãos, em Itálica, um filho de dez anos de idade, de nome Publius Aelius Hadrianus (o futuro imperador Adriano) e uma menina de onze anos, chamada Aelia Domitia Paulina. As crianças ficaram sob a tutela do primo em segundo grau, Trajano, e de Publius Acilius Attianus, um outro cidadão de Itálica, provavelmente um amigo da família, sendo que os dois podem ter sido indicados pelo falecido pai delas em testamento.

3- Ascensão de Trajano

A primeira oportunidade que Trajano teve desempenhar um papel relevante na grande cena da história política de Roma ocorreu em 89 D.C., quando ele, no comando da VII Gemina ajudou a debelar uma revolta liderada por Lúcio Antônio Saturnino, governador da província da Germânia Superior, contra o imperador Domiciano.

Cabeça do imperador Domiciano

A Revolta de Saturnino, suspeita-se, estava ligada a uma conspiração senatorial maior, fruto de uma reação ao comportamento crescentemente despótico de Domiciano em face dos senadores, e a uma série de reveses militares, especialmente contra os Dácios.

Os Dácios eram um povo indo-ariano de origem Sármata, originalmente das estepes da europa oriental, que, por volta de 300 A.C, assentou-se no território hoje conhecido como Romênia. Após se tornarem agricultores, os Dácios passaram também a explorar as ricas minas de ouro, ferro e cobre que havia no seu território e, no século I A.C., eles fundaram um reino que, à exceção do Império Romano, tornou-se o único Estado organizado da Europa, e situado na sensível fronteira romana do Danúbio.

Em 85 D.C., provavelmente estimulados pelo fato de que o Exército Romano, recentemente saído de uma campanha inconclusiva contra os germânicos Catos, estava ocupado com operações no norte da Britânia (e também com a construção de uma linha de paliçada e fortificações, o Limes Germanicus, no território incorporado dos Agri Decumates, entre o Reno e o Danúbio Ocidental, encurtando a fronteira das recém-criadas províncias da Germânia Superior e Inferior), os Dácios invadiram a Província da Moésia, na região próxima ao Mar Negro, chegando a matar o governador romano da proví­ncia. 

A campanha contra os Dácios terminou com a vitória parcial dos romanos, comandados por Cornélio Fusco, em 86 D.C. Porém, pouco tempo depois, os Dácios novamente voltaram a atacar os romanos, ocasião em que a Legião V, comandada por Fusco, foi destruída, na Primeira Batalha de Tapae (Tapas), um desastre militar no qual o próprio Fusco perdeu a vida. Os Dácios, posteriormente, seriam derrotados pelo general Tettius Julianus (Segunda Guerra Contra os Dácios), sem que, contudo, a capital dácia, Sarmizegetusa, fosse tomada.

Inclusive, especula-se que devido à crescente pressão na fronteira do Danúbio, em função da guerra contra os Dácios e também a incursões dos Suevos e dos Sármatas, que se somavam à agressão dos Catos, Domiciano foi obrigado a ordenar uma retirada total das tropas romanas na Caledônia, onde os romanos enfrentavam forte resistência, recuando a fronteira romana uns 120 km para o sul da ilha da Grã-Bretanha, tanto por não poder contar com reforços como pelo fato de talvez ter sido necessário recorrer a destacamentos deslocados da Ilha.

Pressionado em vários fronts e, naquela altura da vida, não parecendo muito disposto a trocar os prazeres de Roma para se empenhar em duras campanhas militares, Domiciano, assinou com a Dácia um tratado de paz no qual Roma concordava em pagar ao rei Decébalo um subsídio anual de oito milhões de sestércios, uma concessão  que foi muito criticada pelos autores antigos.

Há, inclusive, indícios de que Trajano permaneceu na Germânia, após a Revolta de Saturnino ser debelada, para lidar com as tribos germânicas que tentaram se aproveitar da confusão reinante.

É bem provável que a recompensa pelos bons serviços prestados a Domiciano pela supressão da Revolta de Saturnino e pela contenção dos germânicos tenha sido a escolha de Trajano para ser o Cônsul Ordinário para o ano de 91 D.C., um cargo que normalmente significava o auge da carreira política para um cidadão romano. Foi, aliás, nessa época que Trajano trouxe para Roma o grande arquiteto Apolodoro de Damasco, que, durante o seu futuro reinado, e o de seu sucessor, Adriano, se notabilizaria por projetar grandes obras e monumentos na capital e por todo o Império.

O agravamento da paranoia de Domiciano, deflagrada pela Revolta de Saturnino, resultou em uma onda de perseguições e execuções, terminando por acarretar, em 18 de setembro de 96 D.C., o seu assassinato, em uma conspiração palaciana, executada por pessoas do círculo mais íntimo do imperador, que se sentiram ameaçadas, mas que, com toda a certeza, deve ter contado com o apoio de um grupo influente de senadores, possivelmente integrado secretamemte por alguns que exerciam comandos militares importantes…

Em um desfecho surpreendente- pela ausência prévia de pretendentes apoiados pela Guarda Pretoriana e/ou de generais aclamados pelas suas tropas nas províncias dirigindo-se à Roma para reclamar o trono, o Senado Romano escolheu o velho senador Marcus Cocceius Nerva (Nerva), um homem já sexagenário e sem filhos, como o novo Imperador Romano. Tratava-se obviamente, como até hoje é a opinião geral, de um “imperador-tampão”, em uma sintomática solução de compromisso: uma escolha que não significava a volta da supremacia política do Senado, algo que seria inaceitável para o exército, bem como para o populacho, e nem tampouco a perspectiva de um reinado duradouro ou o estabelecimento de uma nova dinastia, impossibilidade que aplacaria, ao menos por algum tempo, os senadores e generais mais ambiciosos.

Busto do Imperador Nerva

Porém, o assassinato de Domiciano irritou bastante os Guardas Pretorianos, que gostavam dele, deixando a corporação suscetível a insubordinações e revoltas.

Nessa época, Trajano ocupava o importante posto de Governador da Germânia Superior (não se tem certeza se ele foi nomeado ainda no reinado de Domiciano, ou pelo novo imperador, Nerva). Antes da Germânia, observe-se, parece que Trajano tinha sido governador da província da Panônia ou da Moesia).

4- Herdeiro do trono

Porém, em outubro de 97 D.C., estourou a nada surpreendente revolta da Guarda Pretoriana, liderada por seu comandante, Casperius Aelianus, exigindo a punição dos assassinos de Domiciano. Os Pretorianos chegaram a cercar o palácio imperial, praticamente colocando o imperador na situação de refém. Acossado e humilhado, Nerva teve que ceder, e dois implicados na conspiração contra Domiciano foram executados.

Foi, portanto, a fraqueza de sua posição que obrigou Nerva  a adotar como herdeiro e sucessor aquele que provavelmente era o general mais prestigiado do Exército Romano no momento: Marco Úlpio Trajano, comandante das legiões romanas na Germânia, como filho e sucessor. Segundo a narrativa consagrada, esta representou a escolha do homem mais capaz para a sucessão imperial, uma fórmula sucessória que seria a marca da dinastia dos Nerva-Antoninos. O ato de adoção ocorreu perante o Templo de Jupiter Optimus Maximus, na colina do Capitólio.

Consequentemente, Nerva, vendo a si mesmo mergulhado em tal situação de desonra, em virtude da sua velhice, subiu ao Capitólio, e disse em voz alta: “Que possa a a boa Fortuna escutar o Povo e o Senado de Roma e a mim mesmo: Eu, neste ato, adoto Marcus Ulpius Nerva Traianus!”

Cassius Dio (Livro LXVIII 3, 4

O fato é que não sabemos se Trajano pressionou Nerva a adotá-lo ou se esta foi uma decisão voluntária do imperador. Eu pessoalmente acredito que o círculo de senadores hispano-romanos, que havia muitos anos vinha mostrando ser muito influente, deve ter tido alguma participação nessa escolha. Outro ponto a favor de Trajano deve ter sido o fato dele não ser intimamente associado a Domiciano e de não ter participado ou apoiado as perseguições do falecido imperador; Com efeito, apesar de Trajano ter prosperado e experimentado sua grande ascensão na carreira pública durante o reinado daquele odiado imperador, a percepção que deve ter prevalecido entre seus colegas é que isso decorrera exclusivamente dos seus méritos militares.

Certamente abalado pela revolta dos pretorianos, em 1º de janeiro de 98 D.C., Nerva sofreu um derrame, em uma audiência privada. E em 27 de janeiro de 98 D.C, o alquebrado imperador faleceu, aos 65 ou 67 anos de idade, em sua casa situada nos Jardins de Salústio, em Roma, após uma prolongada febre, que surgiu depois do citado derrame. Trajano foi prontamente reconhecido pelo Senado como sucessor, o que não deve ter surpreendido ninguém, pois Nerva já lhe havia concedido o “Poder Tribunício“e o título de “Imperator” (significando na prática, o poder político supremo e o comando dos exércitos romanos), e portanto, Trajano era, na prática, um co-imperador. Ele adotou o título e o nome de Imperator Caesar Divi Nervae Filius Nerva Traianus Augustus (Imperador César, filho do Divino Nerva, Nerva Trajano Augusto).

5- Trajano imperador

O primeiro a levar a notícia da morte de Nerva à Trajano, que se encontrava em Colonia Agrippina (atual Colônia) na Germânia, foi o seu primo Adriano, que cavalgando com velocidade espantosa para a época, conseguiu chegar na frente do emissário oficial, motivo pelo qual Trajano ficou muito grato ao rapaz.

(Nota : Quando Adriano tinha 14 anos, e largou a toga praetexta, Trajano enviou-o à Roma, para se aprimorar nos estudos e iniciar sua carreira pública. Quando da adoção de Trajano por Nerva, Adriano já era tribuno militar. Vale ressaltar, outrossim, que uma fonte relata que Trajano, anteriormente, havia se indisposto com o seu tutelado, quando ele soube do estilo de vida extravagante e perdulário que Adriano estava levando em Roma).

Estátua de Trajano

Surpreendentemente, Trajano, após ser comunicado da morte de Nerva, na Germânia, não se deslocou imediatamente para Roma, preferindo assegurar a lealdade das legiões do Reno antes de se deslocar para a capital, o que somente ocorreria no ano seguinte. Ele, então, diplomaticamente enviou uma carta ao Senado, na qual prometia jamais executar ou cassar um senador.

Creio que Trajano aprendeu bem com os exemplos que ele mesmo presenciou no início de sua carreira militar, durante a crise da deposição e sucessão de Nero, que resultara no chamado “Ano dos Quatro Imperadores“: Galba, Otão e Vitélio de fato não tomaram os cuidados necessários e partiram direto para Roma enquanto ainda havia pretendentes rivais no comando de outras poderosas legiões, o apoio do Senado era incerto e sem que eles tivessem assegurado o controle, ou ao menos a simpatia, da Guarda Pretoriana.

Trajano seria mais prudente, e procurou certificar-se, antes de marchar para a capital do Império, da lealdade dos comandantes das principais legiões e dos Pretorianos.

Para tanto, o novo imperador contou com o apoio de um outro conterrâneo seu, Lucius Licinius Sura (Licínio Sura), natural de Tarraco, na Hispania Tarraconensis, Cônsul Suffectus em 93 D.C., e que era o Governador da província da Germânia Inferior, quando Nerva faleceu. Ele tornou-se um grande amigo de Trajano, embora não se possa precisar se amizade era anterior a esses fatos, e durante o reinado deste, receberia inauditas honrarias, tais como: ser designado Cônsul por mais duas vezes (em 102 e 107 D.C.), o que não era comum para quem não fosse da família imperial, ter o seu nome dado a um banho público na cidade de Roma e receber Trajano em sua casa, sem guardas, tendo o imperador, certa vez, se permitido até dormir, tomar banho e ser barbeado ali, para demonstrar sua inteira confiança no amigo. Mais tarde, segundo conta o historiador Sexto Aurélio Vítor, Trajano construiria no bairro do Aventino, termas em homenagem a Sura (ou, então, estabeleceria que esses banhos, que teriam sido construídos pelo próprio amigo, deveriam ser batizados em homenagem ao mesmo).

Outro aliado importante de Trajano foi Quintus Sosius Senecio (Sósio Senecião), um senador que também seguira uma carreira militar de sucesso e era o Governador da Província da Gallia Belgica. Certamente, o apoio dele deve ter sido muito valioso para Trajano, pois, já em 99 D.C., Sósio Senecião foi designado Cônsul Ordinário (e, novamente, em 107 D.C.).

Da mesma forma, Trajano contou com o apoio de Sextus Attius Suburanus, um experiente militar da classe equestre que ocupara vários postos militares importantes no Exército, desde o início do reinado de Vespasiano, e, formalmente, era subordinado a Sósio Senecião, exercendo o importante cargo de Procurador da Gallia Bélgica, sendo o responsável por controlar as finanças da referida província e das legiões do Reno.

Finalmente, podemos também citar Aulus Cornelius Palma Frontonianus (Cornélio Palma), mais um senador e comandante de legião, que pouco tempo depois seria o outro Cônsul Ordinário indicado por Trajano para o ano de 99 D.C., ano em que aquele também foi nomeado Governador da Hispania Tarraconensis e, posteriormente, Governador da Síria.

Desse modo, confiante em seu “dispositivo militar”, Trajano, ainda na Germânia, convocou o Prefeito Pretoriano  Casperius Aelianus e outros guardas pretorianos para comparecerem à sua presença, fazendo-os acreditar que tinha alguma missão ou recompensa para lhes dar. Todavia, a sua verdadeira intenção era livrar-se daqueles que, tendo já ameaçado o seu antecessor, não eram dignos de gozar da sua confiança, e de fato, após chegarem à Germânia, eles foram executados ou, em um desfecho menos provável, dispensados.

Eliminado o perigoso Casperius Aelianus, Trajano nomeou Sextus Attius Suburanus para substituí-lo como Prefeito Pretoriano, enviando-o imediatamente para Roma para assumir o comando da Guarda, onde com toda a certeza Suburanus deve ter escolhido oficiais fiéis ao novo imperador e defenestrado aqueles julgados não-confiáveis. Posteriomente, Suburanus foi recompensado pelos bons serviços, entrando para o Senado Romano e chegando a ser designado Consul Suffectus, em 101 D.C.

O chamado relevo de Cancelleria, retratando guardas pretorianos

De fato, Suburanus revelou-se tão competente e digno de confiança que, segundo o relato de Cássio Dião, quando Trajano entregou-lhe cerimonialmente a espada de Prefeito Pretoriano. ele a desembainhou e a passou às mãos de Suburanus, dizendo:

“Pegue essa espada para que, se eu reinar bem, você possa usá-lá a meu favor; mas, se eu reinar mal, use-a contra mim”

Cassius Dio (Livro LXVIII, 16, 1,2

O tempo decorrido entre a morte de Nerva e a entrada de Trajano em Roma foi superior a um ano, intervalo que ele aproveitou para inspecionar as fronteiras do Reno-Danúbio, supervisionar a construção do Limes Germanicus e avaliar a ameaça das tribos, enquanto seus homens de confiança “arrumavam a casa”, na capital e no Exército. Embora não se saiba de nenhuma grande vitória que tivesse, na ocasião, sido obtida por Trajano contra os Germanos, os seus feitos na província renderam-lhe o título de Germanicus, conferido pelos Senado. Então, ao partir para capital, Trajano deixou Adriano na Germânia, no posto de Tribuno Militar.

Ao chegar em Roma, em outubro de 99 D.C., várias ações de Trajano mostraram o seu tato político:

Ele, de início, pagou o donativo costumeiro à Plebe Romana, que os imperadores costumavam dar em razão da sua aclamação. Porém, de maneira surpreendente, o tradicional donativo que também se pagava aos soldados foi reduzido pela metade. Isso, a meu ver, é uma prova evidente da confiança que Trajano possuía de que ele possuía o controle do Exército.

Claramente, a nosso ver, o novo governante implantou, desde o início, uma ideologia de que o governo imperial deveria ser legitimado pela atenção ao interesse público, pelo respeito à lei, aos direitos dos cidadãos e aos costumes, e, não menos importante, pela escolha do governante mais capaz, uma política atribuída, ainda que um tanto eufemística e fantasiosamente, à Nerva, apontado como o fundador da dinastia, e que foi continuada por seu filho adotivo Trajano e, depois, pelos seus sucessores.

Tratava-se, obviamente, de uma forma de despotismo esclarecido, uma monarquia autocrática, mas que se prometia limitada pela lei, pela razão e pelo respeito a algumas das prerrogativas históricas da aristocracia romana, corporificada no Senado, a quem o regime reconhecia dever deferência. Como a realidade iria demonstrar, era um regime que dependia muito da personalidade do monarca: funcionou bem com Trajano, mas de forma oscilante com seu sucessor Adriano, recuperando-se com Antonino Pio e Marco Aurélio, para desmoronar de vez sob Cômodo….

Aureus de Trajano. No verso, as efígies de Nerva, o pai adotivo, e Traianus, o pai natural

Essa ideologia evidencia-se claramente do texto do Panegírico escrito por Plínio, o Jovem, saudando Trajano, no início do ano 100 D.C, quando o imperador iniciava o seu terceiro consulado. como bem definiu o grande historiador Ronald Syme:

“O discurso não é meramente um encômio de Trajano – é uma espécie de manifesto senatorial em favor da monarquia constitucional “

Ronald Syme, citado por Mark P. O. Morford, no artigo “Iubes Esse Liberos: Pliny’s Panegyricus and Liberty”, publicado no The American Journal of Philology, vol. 113, nº 4, 1992,  The Johns Hopkins University Press

No citado Panegírico, Plínio enfatiza a participação voluntária de Trajano na cerimônia da renuntiatio, uma formalidade dos tempos da República, no qual o resultado das eleições para as magistraturas da República Romana eram anunciados publicamente aos eleitores, e os eleitos faziam um juramento perante os Cônsules. Plínio elogia o fato de Trajano, quando da sua terceira eleição para o Consulado, ter seguido o procedimento costumeiro, que há muito não era observado pelos imperadores, comparecendo pessoalmente à cerimônia e fazendo o juramento de pé, perante o Cônsul em exercício, este sentado em sua cadeira curul, do mesmo modo que faria qualquer senador:

O Povo Romano vos contemplou no lugar solene da Eleição, onde vós pacientemente comparecestes a todas as cerimônias que nesta ocasião são costumeiras, e contentastes-vos em ser feito Cônsul seguindo os mesmos ritos tradicionais, como se fôsseis um de nós. Qual de vossos predecessores jamais condescenderia em fazer esta honra ao cargo, ou ao Povo?”

Plínio, o Jovem, “Panegírico”, 63, em https://quod.lib.umich.edu/e/eebo/A55147.0001.001/1:5?rgn=div1;view=fulltext

Outro texto que ilustra muito bem a acima descrita ideologia do principado é o Terceiro Discurso sobre a Realeza, do filósofo Dião Crisóstomo, também conhecido como Dião de Prusa, que havia sido banido por Domiciano e se tornou amigo de Trajano.

O fato é que toda suposta “Era de Ouro” tem que ser precedida de uma era anterior, obviamente feita de um elemento menos nobre, para ser comparada…As fontes romanas do período, marcadamente de pedigree senatorial, encontraram o antípoda de Trajano em seu predecessor Domiciano, cujo período passou a ser retratado como “reinado de terror”.

E o temperamento e os modos ao mesmo tempo sóbrios e afáveis de Trajano logo contribuíram para fazê-lo querido pelo povo e pela aristocracia romanas, sobretudo em contraste com o comportamento arrogante, frio e frequentemente misantropo de Domiciano:

A associação dele com o Povo foi marcada pela afabilidade, e a sua relação com o Senado pela dignidade, tanto que ele foi amado por todos e temido por ninguém, a não ser pelo inimigo. Ele se juntava aos outros nas caçadas e em banquetes, e também nos seus afazeres, planos e brincadeiras. Frequentemente, ele levava outros três em sua carruagem, e entrava nas casas dos cidadãos, muitas vezes até sem um guarda, e se divertia lá.

Cassius Dio (Livro LXVIII, 7, 3

A postura da imperatriz Plotina também contribuiu para enfatizar a nova atmosfera política, respirada e percebida por todos como mais fresca e saudável. Segundo Cassius Dio, ao entrar pela primeira vez no Palácio, na colina do Palatino, ela se virou para a multidão, e disse:

“Ao sair, desejo ser a mesma mulher do que quando entrei”

Cassius Dio (Livro LXVIII, 5, 4

Trajano deu nova ênfase à nomeação de senadores e equestres para cargos importantes, preferindo-os, quando possível, em contraste à crescente tendência dos imperadores das dinastias dos Júlio-Cláudios e dos Flávios de privilegiarem os seus próprios libertos para exercerem funções importantes para o governo.

Outra característica marcante do reinado de Trajano, e que seria muito apreciada pelos Senadores, foi o pouco número de consulados exercidos pelo Imperador e pela família imperial, em contraste com os seus antecessores, permitindo que muitos senadores se tornassem cônsules. E, de fato, embora este cargo tivesse se tornado, no Principado, meramente honorífico, ele era ainda muito cobiçado pela aristocracia senatorial.

Governante e politico sagaz, Trajano, contudo, jamais deixou de ser, em sua alma, um soldado, profissão que ele havia exercido desde os dezoito anos, sendo que, por mais de uma década, ele fora um general do Exército Romano. Assim, dentre as habilidades que ele devia dominar com maestria, estavam as de um comandante militar.

6- Primeira Guerra contra a Dácia

O tratado de paz firmado por Domiciano com Decébalo nunca foi bem digerido pela opinião pública romana. E Trajano, ao inspecionar a fronteira do Reno/Danúbio, certamente percebeu, de perto, a crescente ameaça que o Reino da Dácia representava. Segundo Cássio Dião:

Após passar algum tempo em Roma, ele fez uma campanha contra os Dácios; pois ele levou em consideração as ações passadas deles e estava incomodado com a quantidade de dinheiro que eles estavam recebendo anualmente, e ele também observou que o poder e o orgulho deles estavam aumentando”.

Cassius Dio (Livro LXVIII, 6, 1

Uma das maiores queixas do Império Romano era que Decébalo não só vinha dando abrigo a um grande número de desertores do Exército Romano, mas também os recrutava para seu exército, valendo-se do dinheiro que ele recebia dos próprios romanos em cumprimento ao tratado assinado com Domiciano. A grande riqueza natural da Dácia, dotada, entre outras coisas, de produtivas minas de ouro, também permitia a Decébalo contratar engenheiros e técnicos romanos, empregados para construir máquinas de assédio, muralhas e outros tipos de defesas. Claramente, Roma temia a competição do único estado organizado na Europa além do Império Romano. Por 150 anos, Roma vinha conseguindo conter com sucesso o Império Parta na Ásia, os Germânicos no Reno/Danúbio e os Celtas na Caledônia. Mas permitir o crescimento de um estado rival na Europa parecia uma ameaça grande demais.

A campanha começou a ser idealizada já em 100 D.C., pois Trajano recrutou duas novas legiões (havia então, 28 legiões no Exército Romano): a XXX Ulpia Victrix e a II Traiana ( OBS: algumas fontes apontam da data de 105 D.C., para esta última, correspondendo à 2ª fase da campanha contra os Dácios). Há, ainda, indícios de que outras duas legiões foram criadas por Trajano para essa campanha, e, posteriormente, extintas por Adriano, por volta de 120 D.C.

Assim, desde que Augusto, após firmar-se no cargo de imperador, após a Batalha de Actium, extinguira dezenas de legiões recrutadas durante as guerras civis, estabelecendo o número máximo de 28 Legiões, mais de um século antes, nunca antes o Exército Imperial havia sido tão numeroso.

Então, na primavera de 101 D.C., Trajano considerou que Roma estava preparada para o ataque.

Não há relatos escritos detalhados das batalhas dessa Guerra, mas Trajano nos legou uma crônica visualmente muito informativa, retratados nos relevos da coluna comemorativa que ele mandou construir em seu Fórum (vale a pena conferir todos os relevos aqui http://www.trajans-column.org/?page_id=107#PhotoSwipe1600480583249).

As imagens são bem realistas: o primeiro relevo mostra a fronteira romana com a Dácia, com sua paliçada e torres de vigia. Depois, a narrativa desenrola-se ao longo da coluna como um papiro: entre as centenas de cenas, podemos citar as pontes de embarcações utilizadas para atravessar o Danúbio, as armas, trajes e equipamentos dos romanos e dos Dácios e dos seus aliados sármatas, a frota fluvial romana, as atrocidades, como as cabeças decepadas dos guerreiros dácios vencidos e mulheres dácias torturando prisioneiros romanos, táticas legionárias como a “tartaruga”, os conselhos de guerra de Trajano, entre muitas outras; Enfim, a Coluna de Trajano é quase como se fosse uma história em quadrinhos sobre as duas guerras contra os Dácios.

Trajano teve que formar um grande exército para a invasão, somando às nove legiões do Danúbio, outras quatro legiões, duas transferidas de outras províncias e as duas recém-criadas para a campanha, já mencionadas. O ataque foi dividido em duas colunas, que, deixando o quartel-general em Viminacium, capital da província da Moesia Superior (Atual Stari Kostolac, na Sérvia, a leste de Belgrado) atravessaram o Danúbio marchando por uma espetacular ponte fluvial em cima de barcaças (muito semelhante às pontes de campanha que os exércitos modernos constroem), avançaram em direção ao centro da Dácia, queimando sitiando cidades e e queimando vilas no caminho. Seguindo as táticas do manual militar romano, no percurso, as tropas cortavam florestas, para abrir passagem e obter material para construir os seus acampamentos. Inclusive, boa parte dos relevos mostram os legionários cavando, cortando árvores e construindo fortificações, mostrando que o grande diferencial dos romanos não era tanto a bravura ou os armamentos mais sofisticados, mas sim, a disciplina, a engenharia e a logística.

Por volta de setembro de 101 A.C., os romanos inflingiram aos Dácios uma derrota na Segunda Batalha de Tapas (Tapae). Segundo Cássio Dião, apesar da vitória, esta foi uma batalha renhida e os romanos tiveram muitas baixas. Os guerreiros dácios destacavam-se por utilizar como armamento principal uma espécie de foice comprida, chamada falx, com a qual os soldados romanos não estavam familiarizados. Essa arma afiada causava terríveis ferimentos, especialmente nos braços desprotegidos dos legionários.

Relevo do Troféu de Trajano, em Adamclissi, mostrando um romano submetendo um dácio, armado com falx. O legionário já está usando uma manica laminata, que foi adotada para proteger os braços. Foto de CristianChirita

Decébalo enviou emissários para negociar e pediu um encontro com Trajano ou alguém de sua confiança. O imperador enviou o seu amigo Licínio Sura e Tiberius Claudius Livianus, que havia substituído Suburanus no comando da Guarda Pretoriana, para negociar, porém Decébalo não apareceu.

Trajano, ladeado por Licínio Sura e Claudius Livianus, detalhe da Coluna de Trajano, foto de ColdEel

Trajano, então, reiniciou os ataques contra os postos fortificados dácios que ficavam perigosamente nas montanhas do entorno de Tapae, que guardava a entrada para as chamadas “Portas de Ferro”, uma garganta profunda que constitui a única entrada pelo sul para a capital Dácia, Sarmizegetuza, e para o grande e fértil planalto da Transilvânia. Nessas operações, os romanos lograram capturar grande quantidade de armas, máquinas de guerra e até um estandarte romano que havia sido capturado pelos Dácios quando derrotaram Cornélio Fusco, na Primeira Batalha de Tapas, no reinado de Domiciano.

Todavia, devido à chegada do inverno, Trajano decidiu interromper as operações, retirando seu exército para, provavelmente, aguardar a retomada da campanha aquartelado em Viminacium, onde os romanos passaram a virada do ano de 101 para o ano 102 D.C.

Neste intervalo, Trajano mandou de volta à Roma o seu pupilo Adriano, onde este assumiu o posto de Questor e casou-se com Víbia Sabina, a jovem filha (18 anos) de Matídia, que, por sua vez, era a muito querida sobrinha-neta de Trajano, a quem o imperador tratava como se fosse sua própria filha.

Busto de Víbia Sabina, esposa de Adriano e futura imperatriz de Roma

Decébalo aproveitou a retirada estratégica dos romanos para, valendo-se do congelamento do rio Danúbio, no início de 102 D.C., atravessar o rio e fazer ataques na província da Moesia, junto com seus aliados Roxolanos, uma tribo sármata que se notabilizava pelo emprego da cavalaria couraçada, do tipo catafractos. Provavelmente, o objetivo de Decébalo era atrair os romanos para longe dos Portões de Ferro e da sua capital, Sarmizegetuza.

A cavalaria dos Roxolanos, como retratada na Coluna de Trajano. Vale notar como o escultor tentou reproduzir a descrição feita pelas fontes de que os cavaleiros e os cavalos sármatas eram inteiramente protegidos por armadura.

Mas o estratagema não foi bem sucedido. No início de 102 D.C., Trajano enviou uma força de cavalaria para lidar com os ataques diversionistas de Decébalo, e partiu, novamente em duas colunas, para o norte, em direção a Sarmizegetuza. Os romanos ganharam duas batalhas, a primeira, contra os Roxolanos, no local onde posteriormente Trajano fundaria a cidade de Nicopolis ad Istrum, no norte da atual Bulgária. O segundo enfrentamento, mais decisivo e também vencido pelos romanos. foi na Batalha de Adamclisi, já na região romena da Dobrudja (mais tarde, em 109 D.C., os romanos construiriam ali um grande monumento em homenagem aos 3 mil soldados mortos na batalha, o chamado “Tropaeum Traiani“).

Reconstrução do Tropaeum Traiani, na Romênia, foto de Bogdan Croitoru

Em seguida, uma força comandada por Manius Laberius Maximus (Labério Máximo), outro senador, que já fora Consul Suffectus sob Domiciano, em 89 D.C., tomou uma das fortalezas que guardavam a entrada para a capital dácia, logrando inclusive capturar uma irmã de Decébalo. Para piorar a situação dos Dácios, as duas colunas comandadas por Trajano e Labério Máximo finalmente se uniram, e às duas se juntaram também a altamente móvel cavalaria auxiliar moura, liderada por Lusius Quietus (Quieto), posicionando-se todos a apenas 30 km de Sarmizegetuza.

O experiente rei dácio percebeu o tamanho da ameaça que pairava sob sua cabeça e decidiu pedir a paz, concordando com todas as exigências romanas. Os Dácios teriam que entregar aos romanos todas as suas armas, máquinas de assédio e os especialistas que tinham construído essas máquinas, que provavelmente eram desertores romanos ou romanos a serviço dos Dácios, e todos os outros desertores romanos, além de demolir as fortalezas que guardavam Sarmizegetuza e abandonar o território romano que eles haviam invadido. Os Dácios comprometiam-se, ainda, a abster-se de dar abrigo a desertores romanos ou empregar qualquer romano em seu exército e a não se aliar com inimigos de Roma e não atacar povos aliados dos romanos. Especialmente, a questão da proibição do abrigo aos desertores ou a qualquer pessoa dotada de habilidades técnicas foi enfatizada: Como já dissemos, Roma não poderia tolerar a competição de outro Estado organizado em suas fronteiras na Europa.

Na cerimônia de assinatura do Tratado de Paz, Decébalo prostrou-se aos pés de Trajano, depondo suas armas em frente do Imperador, tornando-se formalmente um rei-cliente de Roma. Os Dácios também enviaram embaixadores ao Senado Romano, para este ratificasse o tratado.

Retornando para Roma, Trajano celebrou um Triunfo pelas ruas de Roma e foi agraciado com o título de “Dacicus“. Em reconhecimento aos relevantes serviços prestados, Labério Máximo foi designado Cônsul ordinário, em 103 D.C., em companhia do próprio Trajano. Por sua vez, Quieto, que era um príncipe berbere de nascimento e que recebera de Domiciano o status de Equestre, foi nomeado senador.

De volta à Roma, Trajano dedicou-se às outras tarefas que costumavam construir uma boa imagem de imperador. Ele proporcionou ao povo os adorados jogos de gladiadores no Coliseu, mas também liberou os espetáculos de pantomimas (ou mimes) nos teatros, que haviam sido proibidos pelas medidas de moralização de costumes características do reinado de Domiciano.

7-A administração da Justiça sob Trajano

Trajano também empenhou-se em presidir julgamentos nos tribunais, principalmente no Fórum de Augusto ou no Pórtico de Lívia.

Uma rara imagem de Trajano em trajes civis (Toga), mostra-o concedendo uma audiência a cidadãos, provavelmente comerciantes ou empresários., acompanhado de Adriano. Relevo do Arco de Trajano, em Benevento)

No aspecto legal, Trajano é reconhecido pelos estudiosos do direito romano como o responsável por fazer constar em lei dois princípios hoje considerados como básicos do Direito Penal (vide https://scholarship.richmond.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=2425&context=lawreview :

“Nenhum réu poderá ser julgado à revelia no processo penal”

“O réu tem o direito de conhecer e contraditar as testemunhas apresentadas contra si”

O segundo princípio citado surgiu como corolário da proibição instituída por Trajano de que alguém fosse processado com base em denúncias anônimas, um fato comum durante o reinado de Domiciano.

Essas passagens atribuindo expressamente tais normas a Trajano constam do Digesto publicado pelo imperador Justiniano, quase cinco séculos depois:

“Uma pessoa ausente não deve ser condenada em um processo criminal, o divino Trajano respondeu em uma consulta a Júlio Frontão. E ninguém deve ser condenado com base em meras suspeitas, o divino Trajano respondeu a Adsiduus Severus; pois é melhor absolver um culpado do que condenar um inocente”.

(Absentem in criminibus damnari non debere, divus Traianus Iulio Frontoni rescripsit. Sed nec de suspicionibus debere aliquem damnari, divus
Traianus Adsiduo Severo rescripsit; satius enim esse, impunitum relinqui
facinus nocentis, quam innocentem damnari)

DIG. 48.19.5pr;

8- Primeiras grandes obras públicas do reinado de Trajano:

  • Porto de Trajano

Ainda em 103 D.C., Trajano ordenou a construção de um enorme cais hexagonal, ligado por um canal ao porto construído pelo imperador Cláudio, visando a desafogar o porto da cidade de Óstia, a 4 km de distância. Com 39 hectares escavados na terra, o Porto de Trajano é ainda hoje uma obra impressionante (O mar recuou várias centenas de metros em 19 séculos, mas subsiste o cais que agora é uma lagoa artificial com seis lados).

Modelo do Porto de Trajano
  • Termas de Trajano

Posteriormente, em 104 D.C., Trajano iniciou as obras de construção do impressionante complexo de banhos públicos, livraria e ginásio que receberia o nome de Termas de Trajano, no Monte Ópio, construída em cima de parte das estruturas que tinham pertencido à Domus Aurea, o enorme palácio do imperador Nero. As Termas de Trajano, provavelmente planejadas por Apolodoro de Damasco, também ofuscavam às vizinhas Termas de Tito, que eram bem menores. O complexo ocupava uma área de mais de 110 mil metros quadrados e a obra somente seria inaugurada em julho de 109 D.C. Estas termas foram as maiores já construídas até então e tornaram-se o modelo para todas as que seriam construídas posteriormente em Roma.

Reconstrução das Termas de Trajano, na maquete da cidade de Roma no século IV feita por I. Gismondi, em exibição no Museu dela Civita Romana, Roma, EUR. Foto de Cassius Ahenobarbus

Foi por essa época (104 D.C.), que Trajano permitiu que Adriano designado para o cargo de Pretor.

9- Optimus Princeps

A partir de 105 D.C. (alguns falam em 103 D.C.) aparecem moedas romanas ostentando a efígie de Trajano acompanhada da palavra “optimus” e/ou “optimo principi” (“melhor dos príncipes”), alcunha que sabemos que ele recebeu por meio de um Senatus Consultum (espécie de decreto legislativo emanado pelo Senado Romano), segundo Cassius Dio (Cassius Dio), mais em função do seu caráter justo e moderado do que em razão de seus feitos militares. No entanto, no livro LXVIII da Epitome de Cassius Dio, consta que o título de Optimus foi conferido pelo Senado Romano após Trajano incorporar a Armênia ao Império Romano, o que somente ocorreu em 114 D.C. Segundo o referido autor, dentre todos os títulos que Trajano recebeu durante o seu reinado, a alcunha de Optimus era a que ele mais apreciava.

10- Segunda Guerra contra a Dácia

Após a paz, ou melhor seria dizer, trégua, com os Dácios, Trajano, que como general tinha, como uma de suas melhores qualidades, o talento para compreender as necessidades logísticas de uma campanha, ordenou a construção de uma espetacular ponte sobre o rio Danúbio, a fim de possibilitar o deslocamento de reforços e suprimentos para as legiões romanas acantonadas em território ocupado da Dácia e, provavelmente, já antevendo uma futura anexação daquele reino.

A Ponte de Trajano, construída entre 103 e 105 D.C., entre as atuais cidade de Drobeta-Tumu Severin (Romênia) e Kladovo (Sérvia) é seguramente uma das maiores obras de engenharia da Antiguidade.e, com mais de 1 km de comprimento (1135m) foi a ponte sobre arcos mais longa construída durante mil anos. A obra, que foi projetada por Apolodoro de Damasco, tinha 20 pilares de tijolos e concreto romano que suportavam arcos de madeira.

A Ponte de Trajano, reproduzida em um dos relevos da Coluna de Trajano
Reconstrução moderna de um trecho da Ponte de Trajano, na Romênia (“Trajan’s Bridge over the Danube, Romanian side” by Following Hadrian is licensed under CC BY-SA 2.0)

Em paralelo à construção da Ponte de Trajano, os engenheiros militares romanos escavaram uma passagem nas ravinas dos Portões de Ferro que ladeavam o Danúbio, no ponto em que o rio se estreita e as águas correm muito rápido. Essas passagens na verdade serviam como canais, pois o nível das águas era muito mais alto do que hoje em dia, devido à construção da represa de Djerdap, e possibilitavam a comunicação entre os barcos das frotas fluviais das províncias da Moésia e da Panônia.

Todos esses preparativos certamente impeliram Decébalo a transgredir o tratado de paz assinado com os romanos. Assim, segundo Cássio Dião, o rei dácio começou a restaurar as suas fortalezas, voltou a dar asilo e a empregar desertores romanos, a atacar os povos vizinhos que não o apoiassem, inclusive anexando parte do território dos Iáziges e a fazer alianças com outros povos supostamente hostis aos romanos.

O Senado Romano, seguindo a formalidade tradicional, declarou Decébalo inimigo de Roma, o que significava guerra. Trajano assumiu o comando das operações em pessoa e iniciou as operações militares na Dácia.

Visando ganhar tempo, Decébalo, mais uma vez, pediu uma trégua, porém negando-se a debandar o seu exército e continuando a convocar seus vizinhos para ajudar a Dácia.

Ainda de acordo com a narrativa de Cássio Dião, Decébalo chegou a executar um plano para assassinar Trajano, sendo que a tentativa foi frustrada quando os desertores romanos que o rei enviou tencionando que fossem recebidos em audiência pelo imperador foram presos por suspeita e, torturados, revelaram o plano.

Em seguida, Decébalo prendeu o general Gnaeus Pompeius Longinus, um respeitado senador e comandante de legiões romanas na Dácia, após atraí-lo para uma conferência onde o rei supostamente concordaria com as exigências romanas. A ideia era interrogar Longinus acerca dos planos de Trajano e usá-lo como refém para oer alguma concessão dos romanos. Porém, Longinus conseguiu enganar Decébalo, fazendo-o acreditar que ele, através de uma mensagem enviada por um liberto, conseguiria convencer Trajano a ceder. Porém, após Decébalo concordar em enviar o liberto a Trajano, Longinus tomou uma poção de veneno que o mesmo liberto havia lhe dado antes de partir e morreu. Quando alcançou os romanos, o liberto contou tudo a Trajano. O rei dácio, então, propôs a Trajano que, se o imperador lhe enviasse de volta o liberto que o havia traído, em troca, os Dácios devolveriam o corpo de Longinus e mais dez prisioneiros romanos vivos. Entretanto, o imperador, em mais um exemplo de seu caráter e humanidade, julgando que a preservação da vida do liberto, em reconhecimento às suas ações favoráveis a Roma, era mais importante para a dignidade do Império do que o enterro do ilustre Longinus, recusou a proposta.

Nota; As fontes não mencionam, mas as escavações arqueológicas demonstram que, enquanto Trajano ocupava-se da campanha contra a Dácia, as tribos do norte da Britânia, provavelmente aproveitando-se mais uma vez da diminuição do efetivo romano local, que deve ter cedido destacamentos para a Guerra contra Decébalo, lograram sucesso em queimar e destruir um importante forte romano na atual Newstead, na Escócia, além de cerca de 5 fortes menores, obrigando, ainda que não imediatamente, os romanos a retroceder, de maneira organizada, para uma linha mais defensável na altura da passagem do Tyne, mais estreita (Fonte: ”The Reach of Rome, a History of the Roman Imperial Frontier 1st – 5th Centuries AD“, Derek Williams, St. Martin’s Press)

O fato é que os preparativos feitos por Trajano para a Segunda Guerra contra a Dácia provaram-se fundamentais, pois a resistência dácia somente foi vencida graças aos contínuos reforços trazidos pelos romanos, que conseguiram reconquistar as fortalezas que protegiam Sarmizegetusa, que foi cercada.

Nesta campanha, Trajano foi acompanhado por Adriano, que foi designado comandante da Legião I Minervia.

Vendo a sua capital ameaçada pela sede e fome, e sentindo o grande risco de ser capturado pelos romanos, captura que certamente seria seguida pela sua exibição no triunfo de Trajano pelas ruas de Roma, Decébalo conseguiu escapar do cerco à sua capital e fugiu para as montanhas, mas, perseguido e acuado pela cavalaria romana, o rei terminou por cometer suicídio, cortando a própria garganta, em 106 D.C. O cavaleiro Tiberius Claudius Maximus, da Legião VII Claudia Pia Fidelis, por pouco não capturou Decébalo com vida e foi ele quem cortou a cabeça do rei dácio e entregou este cobiçado troféu a Trajano, feito que o soldado fez questão de registrar em sua estela funerária, erguida na cidade de Philippi, na Grécia. Trajano, em reconhecimento, promoveu o soldado ao posto de Decurião.

Este relevo da Coluna de Trajano retrata o momento em que Decébalo comete suicídio. O cavaleiro romano que se aproxima do rei agonizante é Tiberius Claudius Maximus

Para completar a desgraça dos Dácios, um certo Bicilis, um dos membros da corte de Decébalo, revelou aos romanos onde estava escondido o enorme tesouro do rei dácio, que havia mandado enterrar suas riquezas no leito do rio Sargetia, cujo curso ele havia mandado desviar enquanto alguns de seus súditos cavavam, os quais, para fins de manter o segredo, foram prontamente executados após a tarefa.

A capital Sarmizegetusa foi afinal tomada pelos romanos, em 106 D.C., e totalmente arrasada, tendo seus habitantes sido escravizados.

Ruínas de Sarmizegetusa, foto de
Cosmin Stefanescu
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Assim, segundo as estimativas, os romanos capturaram na Dácia a fabulosa quantidade de 165 toneladas de ouro e de 331 toneladas de prata, além de cerca de 100 mil escravos! (Para se ter um termo de comparação, em Serra Pelada, no estado brasileiro do Pará, que foi o maior garimpo de ouro registrado a céu aberto do mundo, o máximo de produção alcançado em um ano (1983) foi de 14 toneladas (vide https://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u62192.shtml ).

A última resistência dos Dácios foi vencida em Porolissum, local onde os romanos, em 106 D.C., construíram um quartel militar para 5 mil soldados auxiliares e que daria origem à cidade de mesmo nome, que se tornaria capital da província da Dacia Porolissenssis, criada pelo futuro imperador Adriano, em 124 D.C.

Dessa forma, a maior parte da Dácia, consequentemente, foi incorporada ao Império Romano, avançando-se a fronteira, no trecho que corresponde a atual fronteira entre a Bulgária e a Romênia, mais de 400 km quilômetros para o norte, além do curso do Rio Danúbio, curso de água que servia uma barreira natural aos invasores; porém a região da Transilvânia. que corresponde à maior e mais importante área conquistada pelos romanos, é um planalto rodeado em quase todos os lados pelas montanhas dos Cárpatos.

Portanto, desde que defendida por uma cadeia de fortes, torres e paliçadas, ocupadas por um número de tropas suficientes, a nova província foi uma excelente aquisição estratégica, sobretudo porque os custos necessários para pagar e manter os cerca de 30 mil soldados necessários para a sua defesa poderiam ser suficientemente cobertos pela produção das minas de ouro existentes na Dácia e, logo, a segurança, bem como o mercado consumidor, que as tropas romanas representavam incentivou que agricultores vindos predominantemente da Trácia se instalassem no fértil planalto.

Enfim, como bem avaliou o historiador britânico Derek Williams:

A Conquista da Dácia removeu um espinho encravado por meio século no flanco de Roma. Embora um saliente, ou fronteira em formato de bolsão projetado para fora, nunca seja o ideal, a obtenção da Dácia colocou a segurança da totalidade do território imperial, de Budapeste até o Mar Negro. em fundações sólidas. Foi uma proa de segurança projetada 250 milhas barbaricum (n.t; terras dominadas pelos bárbaros) adentro, com as tribos que antes flanqueavam os domínios romanos agora elas mesmas flanqueadas. Neste sentido estratégico, a nova província continuaria a ser um ativo valioso durante os 165 anos que Roma teve o poder para mantê-la. Em particular, o resultado da vitória de Trajano foram sessenta anos de paz praticamente ininterrupta neste quadrante do Império; uma paz que tornou a prosperidade do século II possível, porque este período começa e termina com uma conflagração no Médio Danúbio”.

“The Reach of Rome, an History of the Roman Imperial Frontier 1st-5th Centuries AD, St. Martin’s Press, pág. 62”
“File:Moesian-Dacian Limes.jpg” by rené ployer, marinus polak and ricarda schmidt is licensed under CC BY 4.0

11- Conquista do Reino dos Nabateus (Nabatéia)

De acordo com Cássio Dião, durante a fase final da Segunda Guerra contra os Dácios, o imperador Trajano determinou que o governador da Síria, o seu antigo correligionário Cornélio Palma, invadisse o Reino dos Nabateus, após a notícia da morte do rei Rabbel Soter II, que já era um rei-cliente de Roma.

Os Nabateus eram um povo semita, mais especificamente árabes, que enriqueceram monopolizando o comércio entre a Arábia propriamente dita (Arabia Felix) e os povos do Mediterrâneo oriental, feito por caravanas que transportavam principalmente incenso e mirra, através da Rota do Incenso, para a capital Petra, e também de especiarias com a Índia, por via marítima, em seu empório situado na cidade de Leuke Kome. Nesta última, os Nabateus consentiram, ainda na primeira metade do século I, que os romanos estabelecessem uma guarnição militar na cidade, chefiada por um centurião encarregado de coletar um imposto de importação de 25% sobre as mercadorias destinadas ao Império Romano.

O território do Reino da Nabatéia compreendia os territórios da moderna Jordânia e parte da faixa de Gaza e da Península do Sinai.

A conquista da Nabateia foi muito fácil, iniciada e concluída por Palma em 106 D.C., praticamente sem oposição relevante, se é que houve alguma, sendo rebatizada como a nova província da Arabia Petrae. Somente foi necessário o acantonamento de apenas uma legião no reino recém-conquistado, a Legião VI Ferrata, em Bosra, escolhida como a nova capital e rebatizada como Traiana Bostra.

Panorâmica da cidade de Petra, com um trecho do calçamento romano, foto “Petra” by ChrisYunker is licensed under CC BY 2.0

A Legião VI Ferrata ocupou-se a seguir, entre 111 e 114 D.C, da pavimentação da antiga Estrada do Rei, uma rota milenar que unia o porto de Aqaba à Bosra, com cerca de 400 km de extensão, que foi rebatizada como Via Nova Traiana e conectada a uma rede de estradas romanas que cortava a Síria e a Anatólia, unindo, assim, o Mar Vermelho ao Mar Negro.

Não há nenhum relato sobre as razões expressas que levaram Trajano a anexar a Nabateia, mas essa anexação de reinos-clientes no Oriente era uma tendência que vinha ocorrendo desde o início do século I e muito provavelmente decorria de uma visão estratégica de consolidar a fronteira oriental do Império Romano contra uma eventual ameaça do Império Parta e melhor proteger a vital província do Egito e a rica província da Síria, bem como, talvez, controlar diretamente o comércio com o Oriente mais distante.

Após derrotar os últimos focos de resistência dácia, Trajano dedicou-se a organizar a nova Província da Dácia, onde ele ordenou que o seu primeiro governador, Decimus Terentius Scaurianus, construísse a nova capital, Colonia Ulpia Traiana Augusta Dacica Sarmizegetusa, no local onde ficava o quartel da Legião V Macedonica, situado a 40 km da capital dácia original. Trajano também decretou, fugindo da sua política tradicional de privilegiar as relações com os senadores, que as ricas minas da província seriam administradas por um por Procurador pertencente à classe dos Equestres, diretamente subordinado ao imperador (procurator aurariarum).

Em 107 D.C., Trajano retornou à Roma trazendo consigo o imenso tesouro de Decébalo e cerca de quinhentos mil escravos. Ele celebrou a vitória com uma magnífica procissão triunfal e proporcionou cento e vinte e três dias de espetáculos ininterruptos no Coliseu e no Circo Máximo, em que, segundo Cássio Dião (Epítome do Livro LXVIII, 15, 1), lutaram dez mil gladiadores e cerca de onze mil feras foram mortas!

Adriano, que foi encarregado de organizar os festejos, foi, em seguida, designado governador da Panônia Inferior.

Pouco tempo depois desse memorável ano, morreu Lucius Licinius Sura, o grande amigo de Trajano, que havia sido honrado, em reconhecimento aos serviços prestados na Segunda Guerra contra a Dácia, com o privilégio incomum de exercer um terceiro consulado.

12- Continuação do grande programa de obras públicas:

  • Acqua Traiana (Aqueduto de Trajano)

Favorecido pelo grande aporte de metais preciosos obtido na Dácia, em 24 de junho de 109 D.C., Trajano inaugurou um grande aqueduto, que trazia água potável de fontes situadas a mais de 40 km a oeste da cidade de Roma, batizado de Acqua Traiana, e que foi inaugurado dois dias após as Termas de Trajano, o que demonstra que ambas as obras devem ter sido planejadas em conjunto (fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Aqua_Traiana). Além das Termas, sabe-se que o aqueduto abastecia a Naumaquia de Trajano, uma espécie de enorme anfiteatro-piscina, destinada a jogos de combates navais de gladiadores, que ficava na colina do Vaticano, e, não menos importante, um grande complexo de moinhos de grãos situado na colina do Janículo, possivelmente similar ao existente em Barbegal, na França.

Complexo de moinhos hidraulicos romanos em Barbegal, desenho da revista Scientific American, em http://www.waterhistory.org/histories/barbegal/
  • Via Traiana

Em 109 D.C., Trajano deu início à construção de uma expansão da célebre Via Appia, encurtando em um dia a viagem entre Benevento e Brindisi. Alguns anos mais tarde, foi construído um Arco comemorando a conclusão da estrada, em Benevento, que, como não é de se admirar, recebeu o nome de Via Traiana.

Arco de Trajano, em Benevento, foto de Decan 
  • O Fórum de Trajano

Provavelmente assim que a segunda campanha contra a Dácia foi concluída, Trajano começou a planejar a construção do gigantesco complexo arquitetônico que seria batizado de Fórum de Trajano, cujas obras iniciaram-se em 109 D.C., e também foram custeadas pelo imenso butim obtido na referida guerra.

O complexo, que pode ser considerado um Centro Cívico, era constituído por uma vasta praça, que constituía o Fórum propriamente dito, que levaria o seu nome, com 116 metros de comprimento x 95 metros de largura (maior do que um campo de futebol oficial), uma enorme Basílica, que seria batizada de Úlpia e uma Coluna Honorária, comemorativa das duas campanhas contra a Dácia, e duas Bibliotecas, edifícios aos quais, postumamente, Adriano adicionaria um Templo de culto a Trajano. Finalmente, também compunha o projeto um grande edifício semicircular de concreto adjunto a outros prédios e com uma rua interna, formando uma exedra, que acompanhavam o formato de uma das absides da Basílica, que por sua vez formavam o Mercado de Trajano.

Foto da reconstrução do Fórum de Trajano constante da maquete da cidade de Roma feita por I. Gismondi, existente no Museu da Civilização Romana, EUR)
“Roman Fora: reconstruction plan” by Penn State Libraries Pictures Collection is licensed under CC BY-NC 2.0

O complexo foi concebido por Apolodoro de Damasco, e sua construção exigiu a demolição de inúmeras casas, ruas e até o desmonte de uma parte da colina do Quirinal, com 38 metros de altura. Essa, propositadamente, é a mesma altura da Coluna Honorária completada em 113 D.C., contando em uma série de relevos esculpidos em volta da coluna de maneira helicoidal, como se fosse um rolo de papiro sendo desenrolado, a história das duas campanhas que resultaram na anexação da Dácia. O topo da Coluna de Trajano era encimado por uma estátua do Imperador. Já a base da Coluna era em formato de um grande cubo, onde em um dos lados ficava a porta de entrada para o interior da Coluna., e contendo a seguinte inscrição:

O Senado e Povo de Roma dedica isto ao Imperador César, filho do Divino Nerva, Nerva Trajano Augusto Germânico Dácico, Pontífice Máximo, em seu 17º ano no cargo de Tribuno, tendo sido aclamado 6 vezes Imperador, 6 vezes Cônsul, e Pai da Pátria, para demonstrar de quão grande altura era a colina e o lugar que foram removidos por tão grandes trabalhos “

A Coluna de Trajano ficava um tanto “ensanduichada” entre as entradas de dois prédios, em formatos de templos, sendo que um abrigava uma biblioteca de obras em latim e o outro um acervo de obras em grego. Como a maior parte dos relevos contando a história das Guerras contra a Dácia não poderiam ser vistos do chão, é provável que os mesmos pudessem ser observados dos andares de cima e do terraço das bibliotecas, permitindo aos observadores vislumbrar a narrativa visual completa.

Mas o prédio mais impressionante do complexo do Fórum de Trajano era mesmo a Basílica Úlpia, que media 117 metros de comprimento por 55 metros de largura e cujo teto ficava a uma altura de cerca de 30 metros.

Imagem de Julien Guadet, prix de Rome, Public domain, via Wikimedia Commons

Ornada com dezenas de colunas e revestimentos dos mármores mais preciosos, espólios da Guerra contra os Dácios e inúmeras estátuas e inscrições alusivos àquela campanha, a magnificência e suntuosidade da Basílica Úlpia, que era a maior edificação deste tipo em Roma (basílica, então, significava um edifício público retangular e coberto, para finalidades civis, geralmente judiciais, políticas ou comerciais, composto por uma nave central e duas ou mais naves laterais), pode ser apreciada na excelente reconstrução apresentada no vídeo abaixo:

  • O Mercado de Trajano

Além da Coluna de Trajano. o único componente do complexo do Fórum de Trajano que se manteve de pé até nossos dias foi o Mercado de Trajano. Inaugurado em 113 D.C., é, em si mesmo, um complexo erguido em vários níveis, sendo o principal um enorme edifício semicircular sustentado por várias arcadas, o qual acompanhava o formato exterior de uma exedra que por sua vez seguia o traçado de uma das absides da Basílica Úlpia. Havia, sobre este edifício, outros edifícios de vários andares, os quais abrigavam até apartamentos, e uma rua interna, chamada de “Via Biberatica“, aparentemente pelo fato de existirem várias lojas onde se vendia pimenta (pipera, em latim), ou, então, porque ali também ficavam tavernas onde se bebiam vinho e outras bebidas alcoólicas (nesta hipótese, o nome da rua decorreria do verbo latino “bibere” , que significa beber).

Muitos consideram que o Mercado de Trajano foi o primeiro “shopping-center” da História. Vale notar, todavia, que ali também funcionavam repartições públicas, sendo inclusive o local para a distribuição pública de víveres para os cidadãos romanos pobres, como era o caso dos alimenta, programa instituído por Trajano, do qual trataremos a seguir.

Mercado de Trajano, foto de Alessio Nastro Siniscalchi
Via Biberatica

13- Políticas Públicas de Trajano :

  • Os “Alimenta

Trajano adicionou à tradicional distribuição de trigo e gêneros alimentícios aos cidadãos romanos pobres da Cidade de Roma (Anonna), um programa de benefícios sociais chamado “Alimenta“, que era muito mais amplo e destinado às famílias italianas.

O programa consistia em sua essência no fornecimento de uma ajuda financeira aos pais de famílias pobres dos diversos distritos da Itália, que poderiam inscrever seus filhos, de qualquer sexo, fossem legítimos ou ilegítimos, para receberem os recursos para pagar pela alimentação e também pela educação da sua prole, ou, de outra forma, para que recebessem diretamente alimentos e ensino custeados pelo esquema. Os recursos necessários para a execução e manutenção do programa eram provenientes dos juros pagos pelos proprietários rurais do distrito em questão, que recebiam do governo imperial um empréstimo correspondente a 8% do valor das propriedades, devendo pagar 5% de juros anuais, sendo este pagamento direcionado para os Alimenta (vide a tese de Gavin Carroll O’ Brien,Trajan’s Imperial Alimenta: An analysis of the values attached to children in Roman society in the alimenta of Trajan“, Universidade de Leyden – https://studenttheses.universiteitleiden.nl/handle/1887/133450 ).

Uma carta de Plínio, o Jovem a seu amigo Caninius (Cartas, Livro VII, Carta 18) dá a entender que uma outra forma de contribuição para os Alimenta poderia ser a cessão de domínio de parte da propriedade ou de outro imóvel para o Estado, continuando o proprietário com o domínio útil da área, sobre a qual deveria pagar um aluguel ao Estado.

Certos trechos do Panegírico, escrito por Plínio, o Jovem, enfatizam que o objetivo primordial de Trajano ao instituir os Alimenta seria proporcionar os funcionários públicos e, principalmente, os soldados, dos quais o Império Romano necessitaria para manter-se poderoso:

Não! Vós ordenastes que as próprias crianças fossem arroladas entre as finalidades da Vossa real assistência, para que, em sendo educadas ao Vosso encargo, elas possam desde o berço reconhecer o seu Pai Adotivo. Vós pensastes, senão justa e razoavelmente, que aqueles que são criados para o Vosso serviço devem ser mantidos às Vossas expensas: Que eles devem ser sustentados por uma pensão até que sejam capazes de ganhar um salário e assim não serem mais agradecidas aos próprios pais por terem nascido do que a Vós por terem se tornado homens. É uma discreta generosidade, César, assumir o custo de criar essas florescentes esperanças de Roma. Não pode haver desembolso mais vantajoso, nenhum que irá mais eficazmente Vos comprar um nome imortal, que este que assim é estabelecido para o bem da Posteridade. Os ricos tem estímulos para ter filhos para gozarem os muitos privilégios que desta forma eles ganham, e para evitar aqueles inconvenientes que eles de outro modo experimentem; Os pobres não tem senão um incentivo que é a benção de gerar súditos para um Príncipe tão bom. Estas crianças, assim, nascem para o único propósito de serem usadas a serviço Dele. E se Ele delas não cuidar, alimentar e manter, Ele sabe que não fará outra coisa senão acelerar a queda do seu império e impulsionar a ruína da República. Porque um Príncipe que protege a sua nobreza com privilégios e proteção, enquanto deixa a República nua e indefesa, não propicia senão uma cabeça cambaleante, sem braços ou corpo para equilibrá-la ou suportá-la.”

Plínio, o Jovem, “Panegírico”, 50/51, em https://quod.lib.umich.edu/e/eebo/A55147.0001.001/1:5?rgn=div1;view=fulltext

Em outros trechos do Panegírico, infere-se que Trajano também organizou melhor a distribuição da Anonna em Roma, que antes obrigava os interessados em receber o benefício a terem que fazer requerimentos escritos à burocracia imperial, e, depois, em dia determinado, a multidão de beneficiários teria que comparecer a algum evento público em que se fazia a distribuição, a qual, aparentemente, ocorria na própria rua, em praças ou nos fóruns, algumas vezes na presença do próprio imperador, o que, provavelmente, devia causar muitos percalços e confusão.

Este relevo do Arco de Trajano, em Benevento, parece mostrar uma representação alegórica da distribuição de pão aos cidadão romanos pobres, carregando nos ombros seus filhos, provavelmente uma alusão aos Alimenta. Foto: Institute for the Study of the Ancient World from New York, United States of America, CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Commons

Sou da opinião que a construção do enorme Porto de Trajano, em Óstia, do grande complexo de moinhos em Roma, alimentado pela Acqua Traiana, e dos Mercados de Trajano, deviam estar relacionados à reestruturação da Anonna e à instituição dos Alimenta, tudo isso demonstrando a grande capacidade de planejamento estratégico de Trajano, indubitavelmente uma aplicação civil de seu invulgar conhecimento da logística militar.

Mas os Alimenta também podem ser considerados como um grande gesto político de Trajano: Sendo ele o primeiro imperador nascido fora da Itália (mais especificamente, de uma família provincial), a criação de um programa social exclusivo para os cidadãos da Península certamente foi recebida pela opinião pública como o reconhecimento da posição especial e privilegiada a que os Italianos tinham direito no Império que eles haviam criado.

  • Pão e Circo

Com efeito, dentre os imperadores romanos, Trajano foi um dos que melhor compreendeu que uma das chaves para um príncipe manter-se seguro no trono e assegurar um reinado estável e duradouro era providenciar a subsistência da plebe romana, mas, além disso, mantê-la entretida, como escreveu o percuciente professor, orador e advogado romano Marco Cornélio Frontão em uma de suas Cartas:

No restante, se Trajano deve ser considerado mais ilustre na guerra ou na paz da minha parte eu deixo de opinar, apenas pontuando que até Espártaco e Viriato detinham consideráveis habilidades militares, enquanto que nas artes da paz quase ninguém, se é que alguém conseguiu, tem igualado Trajano em relação à popularidade com o povo. (…). É baseado nos mais elevados princípios de sabedoria política que o Imperador não negligencia até mesmo os atores e outros artistas de palco, o Circo e o Anfiteatro, tendo ciência, como ele de fato tem, que o Povo Romano é conservado por duas coisas acima de todas: A Anona (o fornecimento gratuito de trigo) e os espetáculos; que o sucesso de um governo depende tanto das diversões, como de coisas mais sérias; negligenciar as sérias acarreta a maior perda, negligenciar as diversões, o maior descontentamento; Dar comida é um incentivo mais fraco do que os espetáculos: somente o proletariado arrolado na Anona é aplacado de maneira isolada e individualizada, enquanto que, pelos espetáculos, mantém-se todo o populacho de bom humor…”

Carta de Frontão Lúcio Vero, “Principia Historiae”, 17 , em “The Correspondence of Marcus Cornelius Fronto” , disponível em https://archive.org/details/correspondencem00frongoog/page/n230/mode/2up?view=theater

Assim, mesmo antes da implantação dos Alimenta, Trajano preocupou-se em proporcionar espetáculos suntuosos ao povo romano, como por exemplo os já mencionados jogos que duraram 123 dias e envolveram dez mil gladiadores e a morte de onze mil feras. Além da Naumaquia, também já mencionada, Trajano foi o responsável por reconstruir em Roma o vetusto Circo Máximo, que nos últimos séculos havia sofrido alguns incêndios, agora feito inteiramente em alvenaria e revestido de mármore, com a capacidade de abrigar um público estimado entre 150 mil e 250 mil espectadores!

Reconstrução do Circo Máximo por I. Gismondi, maquete existente no Museo della Civiltá Romana
  • Desvalorização do denário

Mesmo com o gigantesco afluxo de metais preciosos advindos da conquista da Dácia, Trajano decidiu, em 107 D.C., desvalorizar o denário de prata, reduzindo a sua pureza de 93,5% para 89%. Provavelmente, ele foi obrigado a isso para financiar os imensos gastos ocasionados não apenas pela campanha, mas sobretudo com o enorme programa de obras públicas (valendo notar que a maioria delas somente foi concluída após a desvalorização) e os Alimenta. De qualquer forma, o aumento da base monetária não se mostrou nocivo à economia romana, que experimentou um grande crescimento no período.

  • Os Correctores

Durante a formação do Império Romano, houve a incorporação várias Cidades-estados, tão ou mais antigas do que Roma, inicialmente na Itália, fundadas pelos próprios povos itálicos ou pelos gregos (a chamada Magna Grécia, que compreendia também a Sicília), e depois, principalmente no Mediterrâneo Oriental, compreendendo especialmente cidades de cultura grega, seja na própria Grécia e ilhas do Mar Egeu, como também cidades fundadas pelos gregos na Ásia Menor, sem falar nas cidades e territórios dominados por diversos impérios ou reinos conquistados pelos romanos (como o Império Cartaginês, Macedônia, Egito, etc), além de colônias fundadas pelos próprios romanos em todo orla do Mediterrâneo e além.

Não obstante, a autonomia político-administrativa das centenas de cidades existentes no Império Romano, bem como os direitos políticos dos seus cidadãos, variavam em função do contexto em que se deu a sua incorporação ao Império Romano, bem como, após a sua incorporação, podiam variar em função de diversos acontecimentos relevantes que modificavam a relação dessas cidades com o governo imperial.

No caso das cidades italianas e gregas, a esmagadora maioria incorporada ao “Imperium Romanum” (na sua acepção de território governado por Roma) ainda no tempo da República, houve inúmeros casos em que os conquistadores romanos reconheceram aos cidadãos o direito de manter as suas assembleias eleitas pelos cidadãos locais, preservando os seus respectivos direitos políticos e gozando de um grande grau de autonomia em seus assuntos internos.

Enquanto isso, a chamada Pax Romana, que o Império Romano experimentou após a incorporação de toda a orla do Mediterrâneo e o fim das guerras civis dos Dois Triunviratos, ocasionou uma grande prosperidade geral, notadamente na Itália e na Grécia.

Sobretudo na Grécia, onde havia mais cidades populosas e, em geral, mais riqueza acumulada, seja devido à maior antiguidade dos centros civilizados, seja pela possibilidade de um fluxo comercial maior e mais profícuo com outras civilizações tais como as iranianas, mesopotâmicas, índicas e até mesmo a chinesa, houve um grande enriquecimento das cidades e das suas classes dominantes.

Entretanto, historicamente, sempre houve uma grande rivalidade e competição entre as Cidades-Estado gregas, um traço que, enquanto elas ainda eram independentes e seus interesses estratégicos “nacionais” entravam em choque, resultou em muitas guerras, ou, de modo mais saudável, essa rivalidade era resolvida em provas esportivas, exibições musicais ou construção de obras artísticas e de embelezamento urbano.

A Biblioteca de Celso, em Èfeso, exemplo do tipo de edifício suntuoso que as cidades gregas se compraziam em construir, foto de Benh Lieu Song

Após a conquista romana, as cidades gregas não perderam essa cultura competitiva, como alguém poderia esperar, mas, ao contrário, elas continuaram a disputar acirradamente entre si pelo respectivo status dentro da mesma província e no Império Romano, status que podia se traduzir em favores imperiais, como, por exemplo, algum benefício fiscal ou outra vantagem, ou mais frequentemente, eram expressados por categorias ou títulos, muitas vezes apenas honoríficos. E uma das formas mais costumeiras que a classe dominante dessas cidades gregas utilizava para ganhar proeminência política e aumentar o status das suas cidades era mediante a construção de edifícios públicos grandiosos e suntuosos, tais como termas, basílicas, fontes e chafarizes, etc.

Reconstrução artística da cidade de Nicomédia, na Bitínia, uma das cidades que seria alvo da ação do Corrector Plínio, o Jovem (foto extraída de Limen Project – Izmit (Ancient Nicomedia), Turkey)

Como essas cidades ainda gozavam de uma certa autonomia política e os seus cidadãos mantiveram os seus direitos políticos de votar e ser votados, elegendo os seus governantes locais, mas que todavia, prestavam contas, de uma forma ou de outra, ao governador romano da Província, e, em última instância, ao Imperador, era comum que essas disputas políticas, que não poucas vezes degeneravam em tumultos violentos, ou até mesmo em revoltas, acabassem sendo levadas à Corte Imperial, em Roma, sobrecarregando as repartições públicas imperiais e o próprio monarca. Parece que um problema semelhante ocorria na Itália, posto que para essas duas províncias é que os Correctores seriam designados.

Do mesmo modo, a consequente insolvência dessas cidades, além de implicar na diminuição do montante dos tributos que deviam ser pagos ao Império, acabava obrigando Roma, em algum momento, a ter que enviar dinheiro para a manutenção de um serviço público ou construção considerada essencial, ou até mesmo para socorrer a população em apuros. Além disso, essa crescente onda de construções de edifícios públicos grandiosos, que se esperava fossem custeados pelos que, por direito, faziam parte dos conselhos municipais (os chamados “Curiais“), afastava desses conselhos a maior parte dos membros menos ricos da aristocracia local, que não tinham condições financeiras de comparecer com a parte que lhes caberia, algo que não era de interesse do Império Romano, que precisava dos “Curiais” para atender várias demandas fiscais e administrativas no território controlado pelas cidades.

O Ninfeu restaurado na cidade de Sagalassos, na Turquia, uma cidade pequena, mas que não economizou na construção de uma fonte pública suntuosa (“The restored Antonine Nymphaeum, erected ca. 160-180 AD, Sagalassos, Turkey” by Following Hadrian is licensed under CC BY-SA 2.0)

Para lidar com esse problema, e uma vez que o estatuto de “cidade livre” impunha algumas restrições ao poder dos governadores romanos, Trajano decidiu criar uma magistratura extraordinária que recebeu o nome de “Legatus Augusti pro praetore(missus) ad corrigendum (ordinandum)” – nome que normalmente acompanhado do local onde as funções seriam exercidas, sendo que no caso do primeiro a ser designado por Trajano, o título foi “Legatus Augusti pro praetore ad corrigendum statum civitatium liberarum“, ou seja, “Enviado de Augusto com poderes de pretor (este era o título oficial dos governadores das províncias imperiais) para regular as cidades livres“. (Nota: os governadores das províncias senatoriais tinham o título de “pro-cônsules“). Posteriormente, este cargo passou a ser conhecido genericamente como “Correctores” (um termo cuja melhor acepção seria “Corregedores”).

Durante o reinado de Trajano e dos seus sucessores Antoninos, o cargo de Corrector foi ocupado por membros da aristocracia senatorial que fizessem parte do circulo mais íntimo do imperador, e, portanto, isto fazia também parte da estratégia de Trajano de manter boas relações com o Senado.

Os Correctores eram designados em função de crises e lugares específicos, mas eles tinham um amplo poder (imperium) delegado pelo Imperador, nas esferas administrativa, política e jurídica locais. Na prática, eles podem ser considerados como um misto de interventores e auditores, e, como se extrai principalmente da correspondência imperial, adequavam-se a uma crescente tendência centralizadora, vigilante e autocrática do Principado, mas que também ao que parece emanava da personalidade do próprio Trajano.

As situações existentes nas cidades gregas que devem ter inspirado a decisão de Trajano podem ser vislumbradas:

1) No 38º Discurso feito aos cidadãos de Nicomédia, na Bitínia, no qual Dião Crisóstomo critica a rivalidade entre aquela cidade e a cidade vizinha de Nicéia, que se digladiavam, entre outras honrarias, pelo título de “metrópole” da região:

“Assim, pelos atos públicos deles (os governadores romanos), eles vos rotularam como um bando de idiotas, sim, eles vos tratam como crianças, pois nós sempre oferecemos às crianças as coisas mais triviais em lugar de coisas de grande valor, na ignorância delas do que é realmente valioso e no prazer que elas sentem pelo que é de menor importância, da satisfação pelo que é, meramente, coisa alguma. Assim, também no vosso caso, no lugar da Justiça, no lugar da liberdade das cidades da espoliação ou do confisco da propriedade privada dos seus habitantes, em lugar de que eles se abstenham de vos insultar, no lugar deles se absterem da violência embriagada, os vossos governadores vos dão títulos, e vos chamam “primeiros”, seja oralmente ou por escrito; feito isto, eles podem, doravante, impunemente tratá-los como se vós fosseis os últimos!

Em verdade, tais marcas de distinção, com as quais vós vos enfeitais, são objeto de total desprezo, não apenas aos olhos de todas as pessoas de discernimento, mas, especialmente, em Roma, onde elas despertam gargalhadas e, o que é mais humilhante, são chamadas de “fraquezas gregas!”.

Dio Chrysostom, “The Thirty-eighth Discourse: To the Nicomedians on Concord with the Nicaeans”, https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Dio_Chrysostom/Discourses/38*.html

2) No 48ª Discurso feito por Dião Crisóstomo aos seus concidadãos da cidade de Prusa, possivelmente pronunciado pouco tempo antes do envio do primeiro Corrector à Grécia, do qual destacamos o seguinte trecho:

“Vocês pensam que um mercado, teatro, ginásio ou colunata ou riqueza trazem alguma vantagem para homens que estão em discórdia? Não, não são essas coisas que fazem um cidade bela, mas sim autocontrole, amizade, confiança mútua. Porém, quando vocês criticam o Conselho, os líderes do governo, os magistrados devidamente eleitos, não estão vocês criticando a vocês mesmos? Porque, se os melhores homens entre vocês são baixos, o que alguém irá achar em relação aos demais? “Então nós vamos perder o que nos pertence?”, alguém contrapõe. Ninguém está sugerindo isso, pelo contrário, vocês podem ficar certos que em todas as nossas cidades há verbas públicas, e que algumas poucas pessoas estão em poder desses fundos, alguns por ignorância e alguns por outro motivo. e é preciso tomar medidas e tentar recuperar essas verbas, contudo não com ódio ou brigas”.

Dio Chrysostom, “The Forty-eighth Discourse: A Political Addres in Assembly”, https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Dio_Chrysostom/Discourses/48*.html#ref19

O mais famoso Corrector nomeado por Trajano foi o seu amigo e senador Gaius Plinius Caecilius Secundus, mais conhecido como Plínio, o Jovem, para intervir nas cidades livres da Província da Bitínia. Enquanto cumpria esta designação, Plínio, o Jovem trocou uma copiosa correspondência com o Imperador, que posteriormente foi compilada em uma coleção que, aliás, surpreende pela frequência com a qual o auxiliar consultava o monarca sobre quase qualquer questão, inclusive assuntos que hoje nos parecem questões burocráticas de pouca importância. Sobrelevam, entretanto, nas cartas, os assuntos relacionados aos gastos públicos excessivos das cidades gregas.

Plínio relata e pede orientação a Trajano acerca de como proceder em relação a aquedutos, teatros e banhos públicos inacabados, construção de ginásios e termas demasiado grandiosos para determinadas cidades, tais como Nicomédia, Prusa e Nicéia e, quase sempre, a resposta do imperador enfatiza a preocupação com as finanças municipais e a averiguação das responsabilidades pelo desperdício do dinheiro público e a punição dos desvios.

Em uma das cartas, entretanto, vemos que o Imperador estava também especialmente preocupado com os riscos potenciais que a criação de quaisquer associações de cidadãos em geral pudessem acarretar ao domínio romano, e aqui o tom do imperador nos soa mais sombrio, mostrando uma política imperial mais parecida com a de um estado policial:

Plínio a Trajano, Livro X, Carta 33:

“Enquanto eu estava visitando uma parte distante da província, um incêndio muito desolador deflagrou-se em Nicomédia e destruiu um número de casas particulares e dois edifícios públicos: o asilo e o Templo de Ísis, embora uma rua corresse entre eles. Permitiu-se que o fogo se espalhasse mais do que deveria, em primeiro l ugar, devido à violência do vento, e, em segundo lugar, devido á inação dos habitantes, (…). Além do mais, não há sequer uma única bomba de incêndio (sipho) ou balde no local, e nem um solitário equipamento para lidar com um surto de incêndio. Entretanto, estes serão providenciados de acordo com as ordens que eu já dei. Mas, Senhor, eu gostaria que vossa majestade considerasse se uma corporação de bombeiros, de cerca de 150 homens, deveria ser instituída. Eu cuidarei para ninguém que não seja um bombeiro genuíno deva ser admitido, e que a corporação não aja contrariamente ao estatuto que lhe for conferido; e não haveria dificuldade em vigiar um contingente tão pequeno.”

Trajano a Plínio, Livro X, Carta 34:

“Você concebeu a ideia de que uma corporação de bombeiros devia ser formado em Nicomédia, nos moldes de várias outras já existentes. Mas, deve ser lembrado, que a vossa província da Bitínia, e, especialmente, cidades-estado como Nicomédia, são presas de facções. Qualquer nome que nós possamos dar àqueles que formem uma associação, e qualquer que possa ser a razão desta associação, elas logo irão degenerar em sociedades secretas. É melhor política providenciar equipamentos para lidar com incêndios e encorajar os proprietários a fazer uso deles, e, se a ocasião requerer, convocar a multidão para que se junte a esta tarefa.

Em http://www.attalus.org/old/pliny10a.html
Teatro de Niceia, o mesmo mencionado por Plínio, o Jovem na Carta 39, a Trajano. Foto de Dosserman

Política em relação aos Cristãos

Nas célebres Cartas 96 e 97, Plínio consulta Trajano sobre como ele deveria proceder em relação aos processos instaurados contra os Cristãos. O Corrector demonstra uma certa perplexidade com a própria acusação em si, pedindo ao soberano orientação sobre a natureza do crime e a punição a ser aplicada aos que fossem seguidores do Cristianismo. Das perguntas de Plínio e da resposta do imperador infere-se que já estava estabelecido, provavelmente antes mesmo do reinado de Trajano, que o Cristianismo era uma religião ilegal. Entretanto, parece a percepção estatal mais aguda era a de que as condutas dos Cristãos eram perigosas para a ordem pública por envolverem a associação entre os fiéis e a realização de reuniões constantes (e aqui se lê Plínio citando um Decreto de Trajano que certamente decorreu dos mesmos motivos elencados para a proibição da criação da corporação de bombeiros em Nicomédia). Em segundo lugar, nota-se que o Cristianismo representava um risco às religiões tradicionais, mas, sobretudo, ao culto imperial. Neste último aspecto, a razão para que os Cristãos, “caso fossem denunciados e a culpa provada“, fossem punidos, mas não “perseguidos“, parece ter sido também a de preservar a ordem pública e a devoção ao imperador, evitando o descontentamento entre os fiéis das religiões tradicionais e preservando os negócios que dependiam delas (deviam ser a maior parte dos que delatavam os Cristãos e esperavam a sua punição) e, por fim, afirmando o caráter divino do Imperador (uma condição que era essencial na parte oriental do Império, mesmo desde o início do Principado):

Plínio a Trajano, Carta 96:

Meu senhor, tenho como costume fazer chegar a ti todas aquelas dúvidas que me acometem no cumprimento de meu cargo. Quem melhor, na verdade, para conduzir minhas hesitações por um bom caminho ou instruir-me em minha ignorância? Nunca participei em Roma de nenhum processo contra os cristãos. Desconheço, por isso, qual é o crime do qual os acusam, quais punições merecem, qual procedimento deve regular o inquérito e quais limites devem colocar-se a eles. [2] Assim, tive as mais sérias dúvidas sobre se devem estabelecer-se diferenças entre as idades dos réus ou se, pelo contrário, os mais jovens, por mais tenra que seja sua idade, em nada se diferenciam dos mais velhos; sobre se deve conceder-se a absolvição à retratação, ou pelo contrário, àquele que tenha sido cristão em nada lhe beneficia a renúncia; por fim, se o castigo é pelo mero nome de cristão, inclusive na ausência de quaisquer tipos de crimes, ou se o que se castiga são os crimes associados ao dito nome. Eis de que modo me comportei até o momento com aqueles que foram conduzidos diante de mim e acusados de ser cristãos.
[3] Perguntei diretamente a eles se são cristãos. Ao responder-me que sim, perguntei-lhes uma segunda e até uma terceira vez, advertindo-lhes que o reconhecimento de algo assim expressaria a morte. Aos que mantiveram sua declaração, ordenei que os executassem. A razão disso foi que não me cabia dúvida de que, qualquer que fosse a natureza do crime que confessavam, certamente este fanatismo e esta obstinação intransigente merecia a morte. [4] Houve outros que, apesar de mostrarem uma irracionalidade semelhante, sendo cidadãos romanos, os incluí nas listas daqueles que devem ser enviados ao julgamento em Roma. Em seguida, durante a instrução do processo, ao estender a outros a acusação, apresentou-se, como de costume, muitos casos particulares. [5] Por exemplo, apareceu fixado em um lugar público uma denúncia anônima contendo um grande número de nomes. Aos que negaram ser ou terem sido em algum momento cristãos, como invocaram aos deuses de acordo com a norma ditada por mim, fizeram uma oferenda de incenso e vinho diante de tua imagem, que com este propósito eu havia ordenado trazer junto às estátuas dos deuses, e também maldisseram o nome de Cristo, o que segundo se diz, não se pode forçar de modo algum aos que são verdadeiramente cristãos, a estes cri que devia deixá-los em liberdade. [6] Outros, cujos nomes foram revelados por um delator, reconheceram inicialmente ser cristãos, mas logo negaram, dizendo que, na verdade, haviam sido cristãos, mas que deixaram de sê-lo. Alguns firmam que faz três anos, outros dizem que faz muitos anos, inclusive alguns há mais de vinte anos. Todos estes também veneraram tua imagem e as estátuas dos deuses e maldisseram o nome de Cristo. [7] Houve entre eles quem assegurou, além disso, que toda a sua culpa, ou melhor, todo o seu erro consistiu tão somente em reunir-se regularmente em certo dia antes do nascer do sol, entoar alternadamente entre os presentes um hino em honra de Cristo, como se de um deus se tratasse, e comprometer-se mediante juramento a não perpetuar alguns tipos de crimes, como se comenta, a não cometer furto nem roubo com violência, nem adultério, a não faltar com a palavra dada e a não se negar a restituir um depósito quando chamados a pagar. Também manifestaram que, uma vez cumpridos esses ritos, tinham o costume de retirar-se e voltar a se reunir mais tarde para celebrar com comida, composta, ao contrário do que foi dito, de alimentos normais e inocentes, mas que já haviam deixado estas práticas desde que meu Édito, seguindo tuas ordens, proibiu a todos os tipos de associações. [8]
Por esta razão, considerei necessário investigar quanto há de verdade em tudo isso e, assim, submeti à tortura duas escravas as quais os cristãos denominam de ministras. Mas não encontrei nada além de uma tola e extravagante superstição. [9] Por tudo isso, adiando de momento a instrução da causa, apressei-me a consultar-te. Na verdade, pareceu-me que o assunto merecia uma consulta a ti, em especial pelo número dos acusados, pois muitas pessoas de todas as idades, de toda condição e tanto de um como de outro sexo já foram processadas, e ainda muitas outras serão. E o contágio desta superstição não se estendeu unicamente pelas cidades, mas que também se propagou pelos povos e campos. Acredito, contudo, que a enfermidade pode ser detida e curada.
[10] Certamente, é um fato comprovado que os templos, que já se encontravam praticamente abandonados, começaram a ser frequentados novamente, que as cerimônias sagradas, interrompidas durante um longo tempo, voltaram a ser celebradas, e que por toda parte se vende a carne das vítimas sacrificadas, para a qual até pouco tempo encontravam-se escassos compradores. Disto se deduz facilmente que grande quantidade de pessoas poderia ser afastada dessa superstição, se a elas fosse oferecida a absolvição no caso de retratação.”

Caio Plínio Segundo (Carta 97, tradução retirada de PROMETEUS – Ano 11 – Número 28 – Edição Especial – 2018 – E-ISSN: 2176-5960)

Resposta de Trajano a Plínio, Carta 97):

Meu caríssimo Segundo, seguiste o procedimento que devias ao analisar as causas dos processos daqueles que foram denunciados diante de ti como cristãos. Na verdade, não se pode estabelecer uma norma geral que imponha, por assim dizer, alguns critérios absolutamente rígidos. Os cristãos não devem ser perseguidos. Se forem denunciados e a culpa provada, devem ser castigados. No entanto, aquele que nega ser cristão e o demonstre de fato, isto é, venerando aos nossos deuses, embora se suspeite de ter sido cristão no passado, deve obter a absolvição por sua retratação. [2] Quanto às denúncias anônimas que podem aparecer fixadas em lugares públicos, não devem servir a nenhum tipo de acusação, pois é uma prática detestável e imprópria de nosso tempo.

Trajano (Carta 97, tradução retirada de PROMETEUS – Ano 11 – Número 28 – Edição Especial – 2018 – E-ISSN: 2176-5960)

Enfim, a correspondência entre Trajano e Plínio, o Jovem é uma fonte valiosa para se entender a política imperial do período para as províncias, bem como para revelar as preocupações que moviam as ações de Trajano. Porém, o estudioso do reinado de Trajano não deve se esquecer que o tom adotado por Plínio, o Jovem é quase sempre de adulação e, portanto, não nos permite penetrar no real caráter do reinado, seja para considerá-lo mais “republicano” ou menos tirânico e despótico do que o de algum dos seus maus-afamados antecessores, como Nero ou Domiciano.

14- Guerra contra os Partas

Durante sete anos, contados desde a conquista definitiva da Dácia e a anexação da Nabateia, em 106 D.C., Trajano dedicou-se apenas aos assuntos civis e administrativos. Tanto na política exterior como na interna, a tranquilidade reinava: entre as fontes, Cássio Dião, entretanto, relata que houve pelo menos uma conspiração, que resultou na punição de Gaius Calpurnius Piso Crassus Frugi Licinianus ao exílio. O Breviarium de Eutrópio também menciona a condenação de um único senador inominado, que foi aplicada pelo Senado, a qual, de acordo com o relato do autor, teria ocorrido sem o conhecimento do imperador.

Então, em 112 D.C., um incidente no exterior requereu a atenção de Trajano: o nobre Osroes (Chosroes ou Khosro) revoltou-se contra o imperador dos Partas, Pacorus II e assumiu o controle da metade ocidental do Império Parta (a metade oriental ficou sob o cetro de Vologeso III, filho de Pacorus II) . Em seguida, Osroes I interveio na vizinha Armênia, depondo o rei Axidares, filho de Pacorus II (ou, segundo outra versão, o deposto teria sido um certo Tiridates, que Osroes I substituiu por Axidares).

Moeda com a efígie de Osroes I, em  http://www.cngcoins.com

Ocorre que, desde 63 D.C., durante o reinado de Nero, os impérios romano e parta haviam celebrado o Tratado de Rhandeia, que pôs fim à chamada “Guerra da Sucessão Armênia” travada entre as duas potências referidas. Pelo tratado, que considera-se ter sido mais vantajoso para os Partas, o rei da Armênia deveria ser um príncipe integrante da dinastia parta dos Arsácidas, mas a sua nomeação e investidura ou coroação cabia ao imperador romano. A Armênia era estrategicamente importante para os Romanos porque funcionava como uma zona ou estado-tampão que protegia suas províncias da Ásia Menor, como a Bitínia, a Capadócia e o Ponto, bem como suas possessões no Mar Negro, de ameaças vindas do Irã e da Mesopotâmia, controladas pelo Império Parta. Os Romanos chegaram a invadir e controlar brevemente a Armênia, em 66 A.C. e em 34 A.C., mas o imperador Augusto preferiu negociar com os Partas um status de reino-cliente de Roma para a Armênia, com a prerrogativa do Império Romano de indicar um rei de sua confiança, ainda que Arsácida. Então, a partir desse período, a nobreza armênia dividiu-se em facções pró-Roma e pró-Partas e, então, o país, embora fosse étnica e culturalmente mais ligado aos povos iranianos, oscilou entre a esfera de influência de um e de outro Império.

Estátua de nobre parta, encontrada em Shami, Irã, datada entre 50 A.C. e 150 D.C., foto de  Arashk rp2 

Tratava-se, portanto, a ação de Osroes, de uma evidente violação do tratado, o que obrigava o Império Romano a dar uma resposta.

Façamos, agora, uma rápida pausa digressiva para explicar que o Império Parta era dominado pela tribo iraniana dos Parni, um dos vários povos iranianos que habitavam a região situada entre o atual Irã e o Afeganistão. Os Parni, liderados por Arsaces I, travaram uma longa guerra de independência ao final completamente bem sucedida, entre 247 e 129 A.C., contra o Império Selêucida, que por sua vez tinha sido fundado pelo general macedônio Seleuco I, em 323 A.C., após a morte de Alexandre, o Grande, rei da Macedônia que havia destruído o Império Persa (que era controlado por outra tribo iraniana, a dos Farsi e havia sido fundado pela dinastia persa dos Aquemênidas, cerca de 550 A.C.) e conquistado toda a região, até o norte da Índia.

Porém, ao contrário dos seus antecessores persas, o Império Parta tinha uma organização mais descentralizada e o imperador era praticamente um suserano de uma coleção de grandes províncias, quase feudos, muitos semi-independentes e frequentemente propensos a revoltas (sem falar nas frequentes disputas entre vários príncipes da dinastia Arsácida pelo trono).

Não obstante, o Império Parta mantinha, entretanto, um controle mais direto sobre a Mesopotâmia, que, embora fosse a parte mais rica e populosa do Império, e também a região onde ficava a capital, Ctesifonte, não era a terra natal dos Partas, que ainda habitavam em sua maior parte as terras situadas dentro do atual Irã, uma terra montanhosa, de onde ainda provinha a nobreza guerreira que compunha as unidades militares de elite – a cavalaria couraçada denominada de “catafractos“, e também a parte restante do exército, quase que inteiramente constituída por arqueiros montados. Vale observar também que, ao contrário dos seus sucessores persas da dinastia dos Sassânidas, o Império Parta era bem mais permeável a influências vindas do Ocidente, e no geral, os Arsácidas permitiam que as muitas cidades helenísticas existentes em seu território mantivessem a organização política e a identidade cultural de matriz grega.

John Tremelling, GFDL http://www.gnu.org/copyleft/fdl.html, via Wikimedia Commons
Catafracto em relevo em Nasq-i-Rustam, Irã. Foto: Zereshk, Public domain, via Wikimedia Commons, Public domain, via Wikimedia Commons

Retomando a nossa narrativa principal, em 113 D.C., Trajano partiu de Roma para o Oriente já com o propósito de retaliar o Império Parta pela violação do Tratado. Entretanto, é provável que o imperador romano deve ter mandado um ultimato aos persas, ou que a notícia da sua partida tenha corrido mais rápido, pois quando Trajano chegou a Atenas, segundo Cássio Dião, ele já encontrou ali os embaixadores partas, trazendo presentes e uma proposta de paz de Osroes I: O rei propunha que o trono da Armênia fosse dado a Parthamasiris, outro filho de Pacorus II, que ele já havia colocado no trono no lugar de Axidares e cuja aprovação ele agora pedia a Trajano, justificando que o motivo da deposição foi o fato deste último estar se mostrando insatisfatório tanto para os Partas quanto para os Romanos.

Contudo, Trajano rejeitou os presentes oferecidos por Osroes I e despachou de volta a embaixada dos Partas, respondendo apenas que “a amizade devia ser demonstrada pelos atos, e não pelas palavras“, junto com o aviso de que ele, Trajano, estava partindo para a Síria, e lá chegando, ele faria tudo aquilo “que fosse apropriado” em relação ao caso.

Trajano, assim, partiu para Antióquia, a capital da província da Síria, onde começaram os preparativos para a guerra contra os Partas. Estando ali pelo menos desde o início de 114 D.C., o imperador recebeu uma embaixada enviada pelo rei Abgar VII, do reino de Osroene, trazendo presentes, mas que, durante o seu reinado, vinha se esforçando para manter a neutralidade em relação aos Impérios Romano e Parta.

Como parte dos preparativos para a guerra, Trajano também reabilitou e convocou novamente o nobre berbere Lusius Quietus (Lúsio Quieto), cuja cavalaria moura tinha sido muito útil na Guerra contra a Dácia, mas que, após essa campanha, tinha sido expulso do Exército por má conduta.

Enquanto isso, partindo de Antióquia, Trajano fez uma viagem ao grande complexo religioso de Heliopolis (atual Baalbek) para visitar o oráculo situado no Templo de Júpiter e consultá-lo sobre a iminente campanha.

Assim, não temos dúvida de que quando Trajano partiu de Roma ele já tinha o propósito de fazer uma campanha militar contra o Império Parta, Na verdade, alguns trechos das cartas de Plínio até sugerem que a empreitada já estava sendo planejada desde 111 D.C. e estima-se, antes do início das hostilidades, que dez legiões estavam sendo concentradas na Síria.

Há, inclusive, indícios de que ao preparar uma campanha contra os Partas, Trajano pode ter retomado um projeto de seu antecessor Domiciano (o que, aliás, parece ter se verificado em muitos outros atos do seu governo), conforme pode ser visto em “A Political History of Parthia“, Neilson C. Debevoise, The University of Chicago Press, página 214, vide (https://oi.uchicago.edu/sites/oi.uchicago.edu/files/uploads/shared/docs/political_history_parthia.pdf).

Entretanto, até hoje especula-se quais seriam os verdadeiros motivos que levaram Trajano a essa audaciosa decisão, afinal os Partas se mostraram dispostos a negociar e os precedentes históricos demonstravam que muitas vezes a guerra contra esses adversários tinha sido desfavorável, quando não desastrosa, para o Exército Romano. Vale lembrar, entre outras, a derrota sofrida por Crasso, na Batalha de Carras, em 53 A.C, onde o triúnviro perdeu a vida e vinte mil romanos foram mortos ou capturados.

Com efeito, desde o reinado de Augusto que manter um equilíbrio de poder na Armênia vinha sendo considerado um objetivo estrategicamente satisfatório para o Império Romano. Desse modo, a razão que levou Trajano a invadir o Império Parta sempre provocou questionamentos entre os historiadores (e mesmo entre os seus contemporâneos, como veremos

Alguns historiadores modernos defendem que a grande meta de Trajano era que o Império Romano assumisse o total controle das rotas comerciais com a Índia, inclusive mediante a conquista do pequeno Reino de Characene ou Mesene, cuja capital, Charax, fundada por Alexandre, o Grande, era um importante porto fluvial que ficava próximo à foz do rio Tigre, no Golfo Pérsico, por onde passavam os navios que transportavam os produtos indianos, além de ser o ponto de partida das caravanas terrestres para Petra, que recém havia sido conquistada pelos romanos.

O problema com essa teoria é que não há evidência conclusiva de que os romanos estivessem de fato experimentando algum transtorno em seu comércio com a Índia que pudesse ser atribuído aos Partas, ou que a conquista de Charax eliminasse algum custo fiscal ou com intermediários que justificasse uma guerra e uma invasão por si mesmas muito custosas. Na verdade, as evidências são de que Charax, antes da invasão de Trajano e da sua Guerra Contra os Partas, apesar de ser um reino-vassalo dos Partas, era muito mais influenciada pela cultura helenística do que pela iraniana. Os achados arqueológicos, especialmente moedas, parecem sugerir que foi somente após a retirada dos romanos da Pártia que Charax passou decisivamente para a esfera de influência cultural e controle mais direto pelos Partas. Aliás, o referido reino somente seria anexado pelos sucessores dos Partas e dos Arsácidas – o Império da Pérsia Sassânida, em 221-222 D.C. (ver https://iranicaonline.org/articles/characene-and-charax-spasinou-in-pre-islamic-times)

Território controlado por Characene ou Mesene, imagem de NordNordWest –

Outro possível motivação de Trajano, a nosso ver bem mais provável, seria aproveitar uma boa oportunidade de eliminar definitivamente a ameaça militar Parta, tornando a fronteira leste do Império Romano mais protegida, já que o Império Parta naquele momento, encontrava-se internamente dividido pela disputa entre Osroes I, que governava a parte ocidental, e Vologeso III, que continuou controlando as províncias orientais.

Mas não podemos descartar a opinião dos autores antigos que concluíram que o maior propósito de Trajano era mesmo o de aumentar a sua glória e renome, emulando Alexandre, o Grande, que conquistara o Império Persa, um desejo que também parece ter inspirado os seus predecessores no governo romano, ainda sob a República- Crasso, Júlio César e Marco Antônio, como escreveu Cássio Dião:

Em seguida, ele fez uma campanha contra os Armênios e Partas sob o pretexto de que o rei armênio não tinha sido coroado por ele, mas pelo rei parta, embora a verdadeira razão fosse o seu desejo de ganhar renome”.

Cassius Dio (Livro LXVIII, 17, 1)

A mesma opinião foi esposada por Frontão em uma carta enviada ao seu pupilo e futuro imperador Lúcio Vero:

Para Trajano, como muitos julgam do restante de suas ambições, provavelmente a sua própria glória lhe era mais preciosa do que o sangue dos seus soldados, porque ele frequentemente enviou de volta os embaixadores do rei parta desapontados, quando eles suplicaram pela paz”.

Carta de Frontão a Lúcio Vero, “Principia Historiae”, 14 , em “The Correspondence of Marcus Cornelius Fronto” , disponível em https://archive.org/details/correspondencem00frongoog/page/n226/mode/2up?view=theater

Enfim, Trajano invadiu a Armênia, ainda nos primeiros meses de 114 D.C., à testa de um exército estimado entre 60 e 80 mil soldados, um dos maiores já reunidos pelos imperadores romanos, compostos das legiões veteranas da Guerra contra a Dácia, estacionadas na Panônia e das legiões, ou respectivos destacamentos retirados das mesmas (vexillationes), estacionadas no Egito, Judéia e Síria, entre as quais vale citar as Legiões IV Scythica, VI Ferrata, X Fretensis e XVI Flavia Firma, totalizando provavelmente dez legiões no total.

Em seu progresso pela Armênia, Trajano foi recebendo a submissão ou presentes de vários “sátrapas” (governadores) e nobres armênios e também de reis de regiões vizinhas, até mesmo do Mar Cáspio.

O rei Parthamasiris percebendo o tamanho da força e a situação estratégica débil de seus aliados Partas, imediatamente mostrou-se disposto a ceder à vontade dos romanos. Ele foi ao encontro de Trajano na cidade de Elegeia, próxima a atual Erzurum, na Turquia, onde, em um ritual de submissão, retirou a coroa (em verdade, um diadema) de sua cabeça e colocou-a sob os pés de Trajano, que estava sentado em um tribunal. As tropas enfileiradas saudaram Trajano com gritos de Imperator“, o que assustou Parthamasiris, que fez menção de tentar fugir. Às tentativas do rei armênio de entabular alguma condição, Trajano lhe respondeu que a Armênia agora pertencia à Roma e que teria um governador romano.

Segundo a versão de Cássio Dião, o imperador concedeu que Parthamasiris partisse para onde quisesse com sua comitiva, acompanhados de uma escolta de cavalaria romana, porém, de acordo com as palavras de Frontão, momentos depois, o rei armênio deposto foi assassinado enquanto ainda estava sob a custódia dos soldados romanos:

Não é fácil absolver Trajano do assassinato de um suplicante rei Parthamasiris. Porque, embora pelo fato de ter sido o primeiro a apelar para a violência este tenha feito a sua sorte cair sobre sua própria cabeça; na conflagração que se seguiu, ainda assim, teria sido melhor para o bom nome dos Romanos que um suplicante partisse ileso do que punido, mesmo que com justiça; pois em tais feitos, o motivo do ato fica oculta, mas o ato em si está diante dos olhos, e é bem melhor deixar passar uma injúria, e ter a opinião pública do seu lado, do que vingar outra e tê-la contra você”.

Carta de Frontão a Lúcio Vero, “Principia Historiae”, 14 , em “The Correspondence of Marcus Cornelius Fronto” , disponível em https://archive.org/details/correspondencem00frongoog/page/n226/mode/2up?view=theater

Uma coluna comandada por Quieto foi enviada contra o povo iraniano dos Mardi, ou Mardianos, que viviam a leste do Lago Van, derrotando-os completamente e uma guarnição romana foi estacionada na fornteira da Armênia com a Lazica, provavelmente para fechar completamente o cerco ao Reino da Armênia, que foi conquistado ainda em 114 D.C., levando o Senado Romano a conceder-lhe formalmente o título de Optimus Princeps e a cunhagem de moedas, ostentando a inscrição KOINON APMENIAC, dando a entender que a Armênia tinha sido incorporada ao Império como uma liga de cidades (koinon) e povos com certo grau de autonomia, nos mesmos moldes do que anteriormente ocorrera com outros reinos gregos. O seu primeiro governador foi Lucius Catilius Severus (Severo), um senador que já vinha ocupando cargos muitos importantes e havia comandado legiões como general, inclusive nesta campanha.

Moeda de Trajano ostentando a representação da Armênia sentada sobre as suas armas diante de um troféu, simbolizando a sua captura


Nesta fase do relato da campanha, Cássio Dião nos mostra como Trajano, mesmo já tendo completado 60 anos de idade, sentia-se com disposição de exercer o comando de um exército como general no campo de batalha, o que talvez tenha sido outro fator a motivá-lo a embarcar em uma campanha militar:

“Ele sempre marchava a pé com as fileiras do seu exército e cuidava da ordem e disposição das tropas durante toda a campanha, liderando-os às vezes em uma ordem de marcha, ora em outra, e atravessou todos os rios que eles atravessavam. Algumas vezes, ele até fez com que seus batedores circulassem falsas notícias para que os soldados ao mesmo tempo praticassem exercícios militares e se tornassem destemidos e prontos para quaisquer perigos.”

Cassius Dio (Livro LXVIII, 23, 1

Após a conquista da Armênia, onde deixou guarnições estacionadas em pontos-chave, por volta de julho de 114 D.C., Trajano dirigiu a campanha para o sul, com suas forças divididas em duas colunas, descendo as terras altas de onde fluíam os rios Tigre e Eufrates e adentrando a Mesopotâmia setentrional (nome que deriva do fato da região ficar no meio de dois rios).

Trajano, então, rumou para a importante cidade de Nísibis (atual Nusaybin, no Curdistão turco), que foi tomada, por volta de setembro de 114 D.C., juntamente com a cidade de Batnae (atual Suruç, também no Curdistão), embora as fontes não deem detalhes de como isso aconteceu, sendo que a segunda cidade, que fazia parte do Filarcado de Anthemusia, teria sido entregue sem luta, com a fuga do seu governante, Sporaces. A conquista destas cidades fez com que Trajano fosse aclamado Parthicus” pelas tropas, título que seria posteriormente confirmado pelo Senado Romano quando a notícia deste sucesso chegou à Roma. Assim como na Armênia, foram estacionadas guarnições nas referidas cidades e em pontos estratégicos ao longo do avanço das tropas romanas. Provavelmente, concluída esta fase, as operações devem ter sido suspensas com a chegada do inverno.

No início da primavera do ano de 115 D.C., a força invasora romana dirigiu-se, para Edessa (atual Sanliurfa, na Turquia), capital do Reino de Osroene, cujo rei Abgar VII, que até então vinha se esgueirando em responder às investidas diplomáticas de Trajano, acabou tendo que se submeter aos romanos, dada a magnitude da expedição militar. Antes de encontrar Trajano, contudo, Abgar enviou seu filho, Arbandes, como emissário. Segundo a narrativa de Cássio Dião, este foi um gesto inteligente do rei, ou, ao menos bem afortunado, uma vez que a bela aparência do rapaz teve bastante influência no espírito de Trajano, que aceitou as desculpas de Abgar. Nesta passagem, Cássio Dião, talvez intencionalmente querendo fazer um paralelo com o episódio do jovem Júlio César com o rei Nicomedes, da Bitínia (frequentemente utilizado pelos adversários políticos do Ditador como prova de sua suposta homossexualidade) menciona que, no banquete realizado para homenagear Trajano, o jovem Arbandes “entreteu” o imperador romano, dançando para ele no jantar.

” Entretanto, nesta ocasião, induzido em parte pela persuasão do seu filho Arbandes, que era bonito e estava na flor da idade e, consequentemente, tido em boa conta por Trajano, e, em parte, pelo seu medo da presença deste último, ele foi ao encontro de Trajano na estrada, apresentou suas desculpas e obteve perdão, porque ele tinha em seu filho um poderoso intercessor. Assim, ele tornou-se amigo de Trajano e o entreteve em um banquete; e, durante o jantar ele introduziu seu filho para executar uma ou outra dança bárbara.”

Cassius Dio (Livro LXVIII, 21, 2

Assim, Osroene tornou-se mais um reino-cliente de Roma, não obstante a existência de uma facção dos súditos que se opuseram a isso. Abgar, além disso, ofereceu aos romanos 250 catafractos, compreendendo cavaleiros e respectivos cavalos, além de um suprimento de 60 mil flechas (segundo os fragmentos 48 a 52 da Parthica, de Arriano, citados em A Political History of Parthia“, Neilson C. Debevoise, The University of ChicagoPress, página 227) .

Enquanto isso, Trajano recebeu uma embaixada de Manisarus, rei de Corduena, um reino-vassalo dos Partas, que estava em guerra contra Osroes I, chegando ocupar território do Império Parta na Mesopotâmia e até na Armênia, na qual ele informava ao imperador romano que pretendia retirar-se das terras que ele havia capturado. Na mesma ocasião, também foram recebidos emissários enviados por Mannus, que, segundo Cássio Dião, governava uma parte da Arábia vizinha à Edessa.

Ocorre que Mannus, anteriormente, havia enviado auxílio militar a Mebarsapes, sátrapa ou rei de Adiabena, um reino-cliente do Império Parta, cujos reis tinham se convertido ao judaísmo, no século I D.C., e que no momento vinha resistindo à invasão romana, já tendo tentado obstaculizar o avanço das legiões, inclusive mandando prender o centurião Sentius, um emissário que lhe havia sido enviado por Trajano e que foi aprisionado numa fortaleza chamada Adenystrae. Porém, Sentius conseguiu tomá-la com o auxílio dos outros prisioneiros e abriu as portas para o exército romano que invadia a Mesopotâmia.

O fato é que Trajano ignorou os apelos dos emissários e o avanço romano prosseguiu para ocupar o território controlado pelo Reino de Adiabena situado na margem ocidental do rio Tigre, onde as cidades de Singara e Libana foram ocupadas pelas tropas comandadas por Quieto.

Com a aproximação do inverno, Trajano decidiu, como era praxe nas guerras da Antiguidade, interromper a campanha e invernar em Antióquia. no final de 115 D.C. A conquista da Armênia e da Mesopotâmia (setentrional) foi comemorada com a emissão de moedas.

(Sestércio de Trajano, com a inscrição ARMENIA ET MESOPOTAMIA IN POTESTATEM P R REDACTAE no reverso (foto extraída de Leu Numismatik)

Enquanto Trajano passava o inverno em Antióquia ocorreu, em 13 de dezembro de 115 D.C., um terrível terremoto que durante alguns dias assolou boa parte da Síria, mas foi especialmente destrutivo na cidade, onde o número de mortos foi estimado em 260 mil (A data do terremoto é dada pelo historiador romano-bizantino João Malalas, cidadão de Antióquia). Cássio Dião narra o episódio em detalhes, contando que o imperador chegou a correr risco de morte e escapou com ferimentos leves. Já o Cônsul Marcus Pedo Vergilianus não teve tanta sorte e faleceu na catástrofe:

” Enquanto o imperador estava invernando em Antioquia, ocorreu um terremoto terrível; Muitas cidades sofreram danos, mas Antioquia foi a mais desgraçada de todas. Considerando que Trajano estava passando o inverno ali e muitos soldados e civis haviam se dirigido para lá em função de processos judiciais, embaixadas, negócios ou turismo, não houve nação que escapasse ilesa; e assim, em Antioquia o mundo inteiro que se encontrava sob o cetro de Roma sofreu a catástrofe. Tinha havido muitas trovoadas e ventos portentosos, mas ninguém poderia esperar que tantos males resultassem deles. Em primeiro lugar veio, de repente, um rugido ululante, e este foi seguido por um tremendo tremor. A terra toda foi erguida e prédios saltaram no ar; alguns foram lançados para cima apenas para desmoronarem e serem feitos em pedaços, enquanto outros foram jogados para lá e para cá como se fosse pelas ondas do mar e virados de cabeça para baixo, e as ruínas espalharam-se por uma grande extensão até mesmo em campo aberto. O barulho do choque de madeiras junto com telhas e pedras sendo trituradas e quebradas foi o mais apavorante; e levantou-se uma inconcebível quantidade de poeira de modo que era impossível alguém enxergar algo e falar ou escutar uma palavra. No que toca às pessoas, muitos, mesmo os que estavam fora das casas, foram atingidos, sendo erguidos e jogados de um lado para o outro violentamente e então chocando-se com o chão como se tivessem caído de um morro; alguns sendo mutilados e outros mortos. Em alguns casos, até mesmo árvores saltaram no ar, com raízes e tudo. Não foi possível contar o número dos que foram soterrados nas casas e morreram, porque multidões foram mortas pela força dos fragmentos que caíam, e um grande número morreu sufocado nas ruínas. Aqueles que jazeram com uma parte do corpo soterrado sob as pedras ou traves de madeira sofreram terrivelmente, pois não lhes era possível nem sobreviver, nem encontrar uma morte rápida.

Não obstante, mesmo muitos destes foram salvos, como era de se esperar em tão incontável multidão, porém nem todos ilesos. Muitas pernas e braços foram perdidos, alguns tiveram as cabeças fraturadas e outros ainda vomitaram sangue; Pedo, o Cônsul, foi um destes, e ele morreu na ocasião. (…)

Trajano conseguiu escapar através de uma janela do quarto onde ele estava. Algum ser, de altura maior que a humana, veio até ele e o conduziu adiante, de modo que ele escapou com apenas alguns ferimentos leves; e enquanto os tremores continuaram por vários dias, ele acampou ao ar livre no hipódromo. (…)”

Cassius Dio (Livro LXVIII, 24, 1-6 a 25, 1-5)

No início da primavera de 116 D.C., Trajano deu prosseguimento à campanha contra o Império Parta, novamente dividindo o exército em duas colunas, uma avançando ao longo do rio Eufrates e outra seguindo o curso do rio Tigre. Chama a atenção dos estudiosos que, até aquele momento, a oposição das forças partas houvesse sido mínima, para não dizer inexistente. A principal explicação para esse fato, que serve também para justificar a decisão de Trajano iniciar o próprio conflito, era o fato de que a guerra civil entre Osroes I e Vologeso III se intensificara. Reforçando essa impressão, as evidências numismáticas sugerem que o controle da casa da moeda (fundição) parta em Seleucia-Ctesifonte passou das mãos do segundo para o primeiro, naquele período (cf. “A Political History of Parthia“, Neilson C. Debevoise, The University of ChicagoPress, página 228).

Demonstrando todo o seu gênio logístico, quando dominou a região de Nísibis, que era circundada por florestas, Trajano havia ordenado a construção de uma frota de barcos aproveitando a oferta de madeira, recurso que sabia ser inexistente no restante da Mesopotâmia. Assim, quando o exército chegou às margens do rio Tigre, lá encontrou já montados os navios que Trajano havia mandado construir, os quais haviam sido transportados até lá desmontados em cima de carretas.

Ainda hoje a região de Nísibis é bem arborizada. Foto de Arab Salsa – Qamishli view at Arabic Wikipedia

As fontes sugerem que o propósito do transporte dos barcos era possibilitar que as tropas romanas cruzassem o rio Tigre, atravessando para a margem oriental, invadindo o distrito conhecido como Assíria e conquistassem a Adiabena propriamente dita. O ponto escolhido para a travessia foi o lado oposto às montanhas Gordyaean, e pela primeira vez, forças partas (ou de seus vassalos adiabenos), posicionadas na outra margem tentaram atacar os romanos com artilharia e flechas. Porém, os romanos, enquanto construíam uma ponte sobre barcos, usaram outros como escudo para proteger esse trabalho, uma parte trazendo arqueiros e infantaria pesada, enquanto que outros barcos fingiam se dirigir para prováveis pontos de desembarque. Assim, tanto a visão inesperada e incomum de inúmeros navios, bem como a tática de empregá-los para responder aos ataques inimigos e confundi-los quanto ao lugar onde seria estabelecida a cabeça-de-ponte, tiveram como resultado intimidar os Partas (ou Adiabenos), que, após observar a conclusão da ponte e a travessia do Exército Romano, retiraram-se sem oferecer mais combate.

Dessa forma, os romanos conquistaram o Reino de Adiabena, o qual foi transformado na província romana da Assíria.

Tudo indica que a referida frota de barcos do rio Tigre foi abandonada após a travessia do rio, pois a mesma não é mais mencionada nos relatos. Provavelmente, o motivo para essa decisão deve-se ao fato de que, então, como atualmente, a navegação no rio Tigre na primavera torna-se difícil devido ao volume que desce das nascentes com o degelo, e impossível no trecho das corredeiras Al-Fathah.

Enquanto isso, a outra coluna, comandada pessoalmente pelo próprio Trajano, saiu de Antioquia, provavelmente marchando pela estrada construída pelo próprio imperador, passando por Alepo, até as margens do rio Eufrates. O exército, então, desceu o rio Eufrates, também acompanhado por uma outra frota de barcos, sem enfrentar oposição digna de nota, passando pelas cidades de Phaliga e Dura-Europos (ver nosso artigo sobre a Pompéia do Deserto), cidade fundada pelos Selêucidas, onde foi erguido um arco triunfal pelos soldados da Legião III Cyrenaica, cujos vestígios ainda existem.

Trecho preservado da estrada romana que liga Antioquia a Alepo “Roman road, Aleppo” by luigig is licensed under CC BY 2.0

O avanço romano seguiu Eufrates abaixo, chegando até a cidade de Ozogardana, onde Trajano passou em revista as tropas, em um pódio ou tribunal cuja existência é relatada pelo historiador romano Amiano Marcelino, que, quase 250 anos depois, acompanhou pessoalmente e fez o relato da campanha do imperador romano Juliano (apelidado O Apóstata” contra a sucessora do Império Parta, a Pérsia Sassânida.

Se cronologicamente o relato de Cássio Dião estiver correto, Trajano avançou rapidamente pelo Eufrates, mais uma vez sem encontrar resistência, até a antiga cidade da Babilônia, que na época já contava com mais de dois mil anos de idade, embora, naquela época, ela estivesse praticamente abandonada (os seus habitantes haviam sido reassentados na cidade helenística de Selêucia no rio Tigre, por ordem de seu fundador, Seleuco I Nicator, o fundador do Império Selêucida). Nas cercanias da Babilônia, Trajano observou o asfalto que foi empregado na construção das muralhas da cidade, e também um local sagrado de onde emanavam, através de um buraco na terra, vindos do subterrâneo, gases sulfurosos.

Muralhas restauradas da Babilônia, “Processional Way” by D-Stanley is licensed under CC BY 2.0

Entretanto, como a Babilônia fica cerca de 40 km ao sul da altura do ponto do curso do rio mais próximo à Ctesifonte, a capital parta, que ficava nas margens do rio Tigre (que corre paralelo ao Eufrates), onde deveria estar Osroes I e seu exército, o mais provável é que essa visita tenha se dado após o ataque à referida cidade. Mas não é impossível que Trajano tenha passado um ou dois dias visitando a Babilônia, pois batedores poderiam ter lhe dito que a mesma estava quase desabitada e era segura, e ir até lá com destacamentos de cavalaria levaria apenas algumas horas, enquanto os trabalhos que mencionaremos a seguir eram efetuados.

Seguindo o relato de Cássio Dião, quando alcançou o trecho onde a distância entre o Tigre e o Eufrates é mais estreita (cerca de 30 km), Trajano pretendeu escavar um canal ligando os dois rios, a fim de navegar até Ctesifonte. Porém, a diferença de altura existente entre as duas áreas onde corre cada rio tornava a tarefa difícil e arriscada. Então, o imperador ordenou a construção de engenhos capazes de arrastar os barcos do Eufrates até o Tigre, onde os mesmos seriam necessários para cruzar este rio, uma vez que a capital parta ficava na margem oposta. Essa distância seria capaz de ser percorrida pelas legiões em um dia de marcha forçada. Já os barcos e as equipes de transporte, bem como as escoltas, devem ter levado mais tempo.

Ctesifonte ficava na margem oriental do Eufrates, praticamente em frente à cidade de Selêucia do Tigre, a antiga capital dos Selêucidas (dinastia de origem macedônica fundada por Seleuco I, Nicator, general de Alexandre, o Grande, que também fundou Selêucia, em 305 A.C.), que governaram a cidade até esta ser capturada pelos Partas, em 141 A.C. As evidências indicam, porém, que ao invés de instalarem a sua capital na cidade helenística conquistada, na margem ocidental do Tigre, os Partas preferiram, uns 20 anos mais tarde, transformar o acampamento militar que o seu exército havia erguido na margem oposta em uma nova capital, com palácios, mercados e habitações mais de acordo com o seu estilo de vida, permitindo que Selêucia continuasse como uma urbe helenizada.

Seleucia, na margem esquerda do Tigre, e Ctesifonte, na margem direita, imagem de Lencer 

As fontes não relatam a chegada de Trajano à Selêucia, e apenas o Breviarium de Eutrópio, menciona que a cidade foi tomada por Trajano, muito provavelmente sem luta.

Assim, Trajano não teve dificuldade em cruzar o Eufrates e, de maneira mais surpreendente, Ctesifonte foi também tomada sem oferecer resistência. Parece que Osroes I fugiu ante à aproximação dos romanos, deixando contudo à mercê dos invasores uma filha e o seu trono real dourado (cf. Historia Augusta, Vida de Adriano, 13, 8), sendo ambos capturados e, posteriormente, levados para Roma. Em Ctesifonte, Trajano foi novamente aclamado Imperator e teve o título Parthicus confirmdo quando a notícia chegou ao Senado, Foram cunhadas moedas com a inscrição: “Parthia capta“. Cássio Dião escreve, com uma conotação para mim um tanto jocosa, que o Senado também decretou que, dali em diante, Trajano poderia celebrar o Triunfo que ele desejasse contra qualquer nação estrangeira, em decorrência da quantidade de mensagens relatando vitórias sobre povos cujos nomes os senadores não conseguiam transcrever corretamente nos documentos…

Aureum de Trajano, com a inscrição “Párthia capta”, no verso

Seria razoável na situação em que se encontravam os romanos, a conclusão de que Trajano poderia reivindicar que a campanha era vitoriosa e dar a guerra por terminada, com a captura da capital do Império Parta, a fuga do seu rei e a conquista da sua província mais rica e populosa, a Mesopotâmia, sobre a qual o imperador imediatamente instituiu a cobrança de um imposto (cf. Historia Augusta, Vida de Adriano, 21,12). Todavia, Trajano, seja pelo suposto projeto de dominar toda a Mesopotâmia até o Golfo Pérsico e controlar diretamente o comércio com a Índia, ou seja pelo desejo da glória de se igualar a Alexandre, o Grande, após a chegada dos barcos decidiu continuar navegando o rio Tigre abaixo, em uma frota de cinquenta navios, incluindo a sua grande e luxuosa galera imperial.

Então, em um misto de expedição militar e viagem turística, Trajano entrou no território de Mesene (Reino de Characene), ocupando as cidades Apamea, e Charax-Spasinus, onde ele parece ter sido bem recebido pela população e ali recebeu a submissão do seu rei Athambelus, passando pela confluência dos rios Tigre e Eufrates.

Em seguida, rumando para a foz do sistema hídrico Tigre/Eufrates, no Golfo Pérsico, que se transforma no rio atualmente chamado de Shatt-el-Arab, Trajano e sua frota correram um sério perigo ocasionado por uma tempestade em conjunto com a maré contrária ao curso do rio, um um fenômeno do tipo “pororoca“, que, inclusive, até os dias de hoje é observado naquele rio, entre janeiro e junho.

Finalmente, provavelmente em meados de 116 D.C, Trajano chegou às margens do Golfo Pérsico, sendo ele o primeiro e único governante romano a alcançar este feito, chegando a observar os navios que dali partiam para a Índia, para onde, segundo Cássio Dião, ele teria navegado, não fosse a sua idade:

” Então ele chegou ao oceano propriamente dito, e quando ele conpreendeu onde estava e viu um navio velejando para a Índia, ele disse: “Eu certamente também teria rumado para as Índias, fosse eu ainda jovem”. Porque ele começou a pensar nos Hindus e estava curioso sobre os seus negócios, e ele considerou Alexandre um homem de sorte”.

Cassius Dio (Livro LXVIII, 29, 1-2)

Reconhecendo a impossibilidade de avançar em direção à Índia, Trajano começou o caminho de volta, provavelmente pelo Eufrates, com objetivo de parar na cidade da Babilônia (ou também é possível que ele tenha retornado pelo Tigre e desembarcado no ponto mais estreito entre os dois rios, fazendo o restante da jornada por terra). O imperador, não obstante, teria enviado mensageiros ao Senado informando que ele havia avançado mais longe do que o próprio Alexandre. De acordo com o relato de Cássio Dião, enquanto fazia este percurso, começaram a estourar levantes armados na maior parte das províncias recém-conquistadas, especificamente na Armênia e na Mesopotâmia.

Ainda ignorante das más notícias, Trajano, durante sua nova estadia na Babilônia, uma parada cujo objetivo parece ter sido sobretudo simbólico, aproveitou para fazer um sacrifício no aposento onde, em 11 de junho de 323 A.C., Alexandre, o Grande deu seu último suspiro, nas ruínas do palácio de Nabucodonosor II.

Cronologia da campanha

É possível até que o mencionado sacrifício tenha sido intencionalmente feito na data de aniversário da morte do célebre rei macedônio (Observação: Nossa cronologia dessa parte da expedição toma como ponto de partida a supracitada data do terremoto em Antióquia, obtida no sítio da Encyclopaedia Iranica e o período compreendido pelo fenômeno das marés no Shatt al-Arab e a data da morte de Trajano, mas advertimos que essa não é a cronologia seguida por muitos historiadores). Mas não podemos afirmar que isso tenha ocorrido na mesma data. É importante ressaltar que isso exigiria que a coluna comandada por Trajano tivesse levado quatro meses para fazer todo esse percurso, contados da saída de Antioquia. Então é possível que isso tenha ocorrido na metade de 116 D.C.

Temos, inclusive, um termo de comparação cronológica que é a campanha do imperador Juliano, em 363 D.C, cujo efetivo em termos numéricos era praticamente o mesmo e que seguiu um curso semelhante ao de Trajano e da qual temos um bom relato feito por Amiano Marcelino. Com efeito, sabe-se que a expedição de Juliano saiu de Antióquia em 05 de março de 363 D.C. e que em meados de maio do mesmo ano os romanos estavam sitiando as muralhas de Ctesifonte, que fica nas cercanias da moderna Bagdá. Pois bem, de Antióquia até Bagdá são cerca de 1050 km, e desta até Basra, que já fica no Shatt-al Arab, são pouco mais de 500 km. Então, ao menos teoricamente, parece-me perfeitamente possível que Trajano tenha conseguido estar na Babilônia lá pela metade do ano de 116 D.C. De fato, considerando que até aquele momento a oposição militar parta vinha sendo quase inexistente ,e que o trajeto em grande parte envolveu a navegação pelos rios, (cuja velocidade provável eu não tenho, contudo, conhecimento para afirmar), eu mantenho minha “timeline“.

Reação Parta

Seja como for, nos dias em que Trajano ficou na Babilônia, ele recebeu a péssima notícia de que as guarnições romanas estacionadas nos territórios inicialmente conquistados mais ao norte haviam sido massacradas ou fugido em função de revoltas simultâneas. Um irmão de Osroes I, chamado Meherdotes (ou Mitridates, um nome comum na realeza parta) conseguiu retomar um pedaço da Mesopotâmia, situada no Médio Eufrates, morrendo em seguida (ao cair de um cavalo) e sendo substituído por seu filho Sanatruces que aparentemente também controlava algum território na Armênia. Entre as cidades que se revoltaram com sucesso contra os Romanos estavam Selêucia do Tigre, Nísibis e Edessa.

Este pedaço de um friso em marfim, encontrado nas ruínas de um terraço em Éfeso, representa Trajano na campanha da Pártia “Trajan in Parthia, ivory frieze from the Terrace Houses, Ephesus Museum” by Following Hadrian is licensed under CC BY-SA 2.0

Trajano ordenou que os generais Lúsio Quieto e Appius Maximus Santra rumassem para o norte para sufocar a revolta em Nísibis e Edessa, enquanto que os generais Marcus Erucius Clarus e Tiberius Julius Alexander Julianus foram enviados para sitiar e tomar Selêucia do Tigre.

O sempre eficiente Quieto conseguiu capturar Nísibis, porém, um certo Arbaces (possivelmente o rei Abgar, cujo nome teria sido corrompido ou escrito errado em alguma cópia do manuscrito de Cássio Dião, vide (PDF) The Mysterious Arbaces | David Potter – Academia.edu ) conseguiu derrotar as legiões sob comando de Appius Maximus Santra, que acabou morto.

Não obstante, após a captura de Nísibis, Quieto conseguiu tomar Edessa, que foi saqueada e queimada. É possível que Nísibis tenha sido poupada por ter concordado em se render sem luta, ou, então, pelo fato de ocupar uma posição mais estratégica, não interessando aos romanos a sua destruição. Já Edessa pode muito bem ter sido punida pela oposição armada que acarretou a morte de Appius Maximus Santra.

Por sua vez, Selêucia foi capturada e, igualmente, queimada, enquanto que o próprio Trajano conseguiu entrar em Ctesifonte, a capital parta que, aparentemente, conseguiu ser mantida em mãos romanas pela sua guarnição, que compreensivelmente devia ser a mais reforçada. Aparentemente, até então as revoltas estavam ocorrendo em territórios controlados pelos antigos vassalos partas em Osroene, Adiabena e Armênia. Um dos motivos imediatos para a revolta podem ter sido as taxas impostas por Trajano incidentes sobre o transporte de cavalos e camelos pelos rios Tigre e Eufrates, providência que ele estava implementando quando estourou a rebelião ( vide Carta de Frontão a Lúcio Vero, “Principia Historiae“, em “The Correspondence of Marcus Cornelius Fronto“, pág. 215”).

Segundo o relato de João Malalas, para sorte dos romanos, no momento em que ganhava força a resistência parta à invasão do seu império, Parthamaspates, um príncipe parta que era filho de Osroes I, entrou em desavença com seu primo Sanatruces. Aproveitando rapidamente a oportunidade, Trajano enviou emissários a Parthamaspates oferecendo-lhe o trono da Pártia, caso ele se voltasse contra Sanatruces. O filho de Osroes I aceitou a proposta, comparecendo a uma conferência secreta noturna com o próprio imperador romano e, com os soldados de Parthamaspates recebendo o auxílio de tropas romanas, Sanatruces foi capturado e morto. ( vide “The Chronicle of John Malalas, A Translation” by Elizabeth Jeffreys, Michael Jeffreys and Roger Scott with Brian Croke, Jenny Ferber, Simon Franklin, Alan James, Douglas Kelly, Ann Moffatt, Ann Nixon, Melbourne, 1986, pág. 145, em https://en.calameo.com/read/000675905f2f4bf509d49)

Após, temendo que Ctesifonte também pudesse se revoltar, o que comprometeria ainda mais a segurança dos territórios conquistados e colocaria em risco a segurança do próprio exército romano invasor, Trajano, na presença da população da cidade, incluindo os Partas simpáticos à Roma e os Romanos que agora a habitavam, reunidos em frente a um palanque construído especialmente para a ocasião, coroou Parthamaspates, como Rei da Pártia, colocando o diadema na cabeça dele com as próprias mãos. A cena aparece nos sestércios cunhados na época, acompanhada da frase: ¨Rex Parthia Datus¨.

Sestércio de Trajano coroando Parthamaspastes, foto em https://www.vcoins.com/

Agora agindo claramente na defensiva, Trajano, quando soube que Vologeso, filho de Sanatruces, comandando um exército que se encontrava em ordem de batalha contra as tropas do governador da Armênia, Lucius Catilius Severus, havia proposto uma trégua, o imperador romano enviou ao chefe parta emissários informando que Roma abria mão de uma parte da Armênia, em troca da paz. Esta concessão de Trajano pode ser explicada pelo fato de que, caso Severo fosse derrotado, o exército de Vologeso, invadindo a Mesopotâmia, poderia apoiar a insurreição dos vassalos partas de origem árabe que também estourara na cidade de Hatra, e até mesmo, juntando-se a eles, impedir a retirada do exército romano da Pártia, o que tudo indica, era a intenção de Trajano.

Panorâmica das ruínas de Hatra, foto de Multi-National Corps Iraq Public Affairs. Infelizmente, as ruínas caíram em poder do Estado Islâmico (DAESH), que as vandalizou barbaramente

Hatra era a capital de um pequeno reino árabe situado na Mesopotâmia Superior, que fica 110 km ao sul da atual cidade iraquiana de Mosul, dedicada ao culto de Shamash, o deus-sol babilônico, A cidade era vassala do Império Parta e seu urbanismo, arquitetura e arte ostentavam forte influência cultural parta, embora houvesse sincretismo com as religiões grega, babilônica, canaanita e árabe. Os Partas dotaram a cidade de fortes muralhas, que, somadas ao fato do território circundante ser desértico, sem fontes de água potável ou madeira para construir máquinas de assédio, tornava qualquer sítio um desafio logístico.

A operação romana de cerco a Hatra foi comandada por Trajano em pessoa. Os Romanos conseguiram até abrir uma brecha nas muralhas e o imperador enviou a cavalaria para tentar invadir a cidade, mas o ataque foi repelido e os atacantes tiveram que se refugiar no acampamento. Trajano, inclusive, chegou a acompanhar pessoalmente uma arriscada incursão da cavalaria romana contra as muralhas de Hatra, que também foi reprimida e na qual ele quase foi atingido. Nas palavras de Cássio Dião:

“De fato, o próprio imperador por pouco não escapou de ser ferido enquanto ele cavalgava diante das muralhas, apesar do fato dele ter tirado seu traje imperial para evitar ser reconhecido; mas o inimigo, vendo a sua majestosa cabeça grisalha e o seu augusto semblante, suspeitou sua identidade, disparou flechas em sua direção e matou um cavaleiro que o escoltava.”

Cassius Dio (Livro LXVIII, 31, 3)
Estátua de um comandante militar da cidade de Hatra, foto de By Hanming Huang https://www.flickr.com/photos/29868194@N08/40405703243/ – This file has been extracted from another file: Military commander from the city of Hatra. National Museum of Iraq.jpg, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=89183132

Ainda segundo Dião, durante o cerco a Hatra, o exército romano foi atormentado pelo sol e calor, mas também por fortes chuvas, trovões e nuvens de moscas, as quais pousavam sobre toda a bebida e comida dos legionários (cf. Cassius Dio (Livro LXVIII, 31, 4). Este relato é consistente com o clima da região no início do outono, sendo que moscas e mosquitos ali são abundantes até hoje, sendo um dos picos de infestação verificados entre os meses de setembro e outubro.

A resistência dos sitiados e o tormento causado pelo clima e pelos insetos, de acordo com o relato de Dião, obrigaram Trajano a suspender o sítio a Hatra e ordenar a retirada do exército. E então, pouco depois de deixar as cercanias da cidade, o imperador adoeceu.

Para Frontão, que parece não ter nutrido muita simpatia por Trajano, em observação feita em uma carta ao seu antigo pupilo e então co-imperador (junto com Marco Aurélio), Lúcio Vero, ao discorrer sobre as guerras de Roma contra os Partas, qualifica a interrupção da campanha de Trajano contra esses velhos inimigos como tendo o objetivo de permitir que o imperador celebrasse o seu triunfo, resultando em nada menos do que uma difícil e encarniçada retirada forçada, na qual aparentemente Frontão inclui a morte de Appius Maximus Santra:

“Dentre o gênero humano, somente os Partas sustentaram o papel de inimigo dos romanos de uma maneira a ser jamais desprezada, como mostra apropriadamente, não apenas o desastre de Crasso e a fuga vergonhosa de Antônio, mas o massacre de um general com todo o seu exército sob o comando até mesmo de Trajano, o mais resoluto dos imperadores, e pela retirada, de modo algum ilesa ou sem baixas, deste imperador, enquanto ele retrocedia para celebrar seu triunfo.” (Carta de Frontão a Lúcio Vero, “Principia Historiae“, em “The Correspondence of Marcus Cornelius Fronto“, pág. 203)

A Guerra de Kitos

Apesar da sua moléstia ter aparecido após o fim do cerco, Trajano quase que certamente teria que interromper as operações contra Hatra mesmo que a sua saúde estivesse em perfeito estado: em primeiro lugar pela aproximação da chegada do inverno, e, mais importante, pelo fato de que, naqueles dias, chegara a notícia de que os judeus de Cirene (capital da Cirenaica, na atual Líbia), comandados por um certo Andreas (chamado em outra fonte de Lukuas), tinham deflagrado uma grande rebelião contra o governo romano e contra os habitantes gregos da região adeptos de religiões pagãs, revolta essa que rapidamente se alastrou para o Egito e para a ilha de Chipre (vide Cassius Dio (Livro LXVIII, 32, 1) .

Segundo o historiador cristão Eusébio de Cesaréia ( vide”História da Igreja“, livro IV, 2), esta revolta judaica começou no 18º ano do reinado de Trajano, ou seja, no ano de 115 D.C., quando o imperador estava em campanha no norte da Mesopotâmia, sendo que, no ano seguinte (116 D.C.), quando era governador do Egito um certo Lupus, os cidadãos romanos de língua grega, que haviam se refugiado em Alexandria dos ataques dos Judeus, contra-atacaram e, por sua vez massacraram os judeus alexandrinos. De acordo com Dião, duzentos e vinte mil pessoas foram mortas na região de Cirene e outras duzentas e quarenta mil pessoas morreram em Chipre, para onde a revolta se alastrou (sendo ali liderada por um judeu de nome Artemion), entre judeus e os seus adversários, sem contar as mortes em Alexandria, que certamente devem ter sido também muito numerosas.

Não se sabe com exatidão as causas da revolta judaica, nem se os movimentos em Cirene, Alexandria e Chipre foram planejados em comum. De fato, a História registra uma prolongada rivalidade entre os cidadãos gregos e os judeus em Alexandria, desde as primeiras décadas do Império Romano, não raras vezes degenerando em autênticos pogroms. Uma tese bem provável é que a insatisfação dos judeus com o Império Romano durante o reinado de Trajano tenha tido como causa mais remota o “fiscus judaicus“, um tributo imposto aos judeus após a Primeira Guerra contra os Judeus, a grande revolta ocorrida entre 66 e 73 D.C., debelada por Vespasiano e seu filho Tito, sendo que esse tributo foi expandido pelo imperador Domiciano, que reinou entre 81 e 96 D.C.

O fato é que a campanha de Trajano contra o Império Parta, que incluiu sitiar e conquistar cidades onde havia uma expressiva população judia, como é o caso de Nísibis, Edessa e Selêucia, bem como a taxação que o imperador impôs às caravanas que cruzavam o Tigre e o Eufrates, uma lucrativa atividade empreendida por muitos judeus, deve ter exacerbado ainda mais os ânimos da comunidade judaica. Assim, é bem provável que o levante dos Partas na Mesopotâmia tenha tido a participação entusiástica dos judeus habitantes dessas cidades.

Em reação à revolta, de acordo com Eusébio de Cesaréia, Trajano enviou o incansável Lúsio Quieto para atacar os judeus na Mesopotâmia, sendo responsável pela matança de milhares deles. Para reprimir a revolta no Egito e em Cyrene, foi enviado o comandante da Frota Imperial de Miseno (Classis Misenensis), Quintus Marcius Turbo, que com uma força naval transportando unidades de infantaria e cavalaria sufocou a rebelião.

Andreas/Lukuas fugiu e se refugiou na cidade de Lydda, na Judéia (atual Lod, em Israel), que parece ter sido o último bastião da revolta. A cidade foi, então, sitiada por Quieto, que conseguiu tomá-la e executar os revoltosos. Pouco antes disso, ou logo em seguida, Quieto foi nomeado governador da Judéia e lhe foi prometido o Consulado para o ano seguinte. Devido ao papel predominante que Lúsio Quieto desempenhou na repressão a esta revolta, o conflito ficou conhecido como “Guerra de Kitos“, sendo “Kitos“, uma corruptela do nome do general (latim: Quietus), como este devia ser falado pelos judeus de fala grega da região.

O relevo acima, da Coluna de Trajano, retrata a cavalaria moura comandada por Lúsio Quieto na Guerra contra os Dácios, que prestou outros tantos serviços inestimáveisao imperador Trajano (“File:Colonne trajane 1-50 rec.jpg” by User:Cassius Ahenobarbus is licensed under CC BY-SA 3.0)

Quando a revolta judaica foi sufocada, já em 117 D.C., Trajano ainda estava em Antióquia, para onde ele foi obrigado a partir, no final do ano anterior, devido a chegada do inverno e à deterioração do seu estado de saúde.

MORTE DE TRAJANO

Segundo Cássio Dião, enquanto invernava e procurava convalescer em Antióquia, no início de 117 D.C., Trajano estava planejando fazer uma nova expedição à Mesopotâmia para sufocara as revoltas e restabelecer o controle romano sobre a região.

Porém, o esforço físico que a campanha acarretou para o organismo do imperador de 64 anos de idade, além da possível gravidade de alguma doença contraída nos inóspitos confins da Mesopotâmia, provaram-se insuperáveis, a saúde dele piorou e, provavelmente, entre o final do mês de julho e o início de agosto de 117 D.C., Trajano resolveu partir de Antióquia com destino à Roma, deixando Adriano no comando do Exército na Síria. Cássio Dião cita que, nessa ocasião, Trajano apresentava algum problema circulatório, o que o teria levado até a suspeitar de possível envenenamento. Ainda segundo o citado historiador, logo após a partida, o imperador sofreu um derrame e ficou com uma parte do corpo paralisada, mostrando-se inchado ou com edemas generalizados.

Ao parar na cidade litorânea de Selinus, atual Gazipasa, na Turquia, uma parada que certamente deve ter sido motivada pelo agravamento do seu estado de saúde, Trajano faleceu, no dia 08 de agosto de 117 D.C. Esta cidade fica distante 550 km de Antioquia por rodovia moderna, mas a distância em linha reta e provável rota marítima é menor, então devem ter decorrido só uns poucos dias entre a partida de Antioquia e a chegada a Selinus, que em função do trágico evento, seria rebatizada como Traianopolis.

A morte de Trajano deve ter antecedido, mas pode também ter sido concomitante, ou até mesmo pode ter ocorrido em seguida a uma retirada geral das tropas romanas das posições ocupadas na Mesopotâmia e da Pártia. Dura-Europos, por exemplo, ao norte da Mesopotâmia, foi evacuada antes do outono de 117 D.C (segundo M. Rostovtzeff, citado em A Political History of Parthia“, Neilson C. Debevoise., pág. 238, nota 123). Esta retirada pode ter sido tanto em consequência, como pode ter sido a causa, de outro revés estratégico para os romanos: naquele mesmo ano, Parthamaspates, o aliado parta que Trajano havia colocado no trono da Pártia foi expulso do trono pelos súditos, para quem ele obviamente era inaceitável. De fato, com base em alguma evidência numismática, na ocasião, Osroes I prontamente reassumiu o controle de Ctesifonte (A Political History of Parthia“, Neilson C. Debevoise, pág. 239).

Acredita-se que esta efígie de bronze, que originalmente ficava nas termas de Ancyra (atual Ankara, na Turquia), seja uma efígie de Trajano, feita quando ele estava em Antióquia, e exibe um imperador envelhecido e possivelmente já com a saúde debilitada. Foto de Bjørn Christian Tørrissen – Own work by uploader, http://bjornfree.com/galleries.html

Sucessão de Trajano

Graças a pequena distância entre Selinus e Antioquia, a notícia da morte do imperador deve ter chegado rápido a Adriano e ao grande exército estacionado na capital da província da Síria.

Efetivamente, durante o seu longo reinado e até os dias que precederam a sua morte, Trajano não havia adotado oficialmente Adriano, que, como já mencionamos anteriormente, era seu primo em segundo grau e foi seu tutelado enquanto menor de idade, além de ser casado com sua sobrinha, que era considerada como uma filha pelo imperador.

Cássio Dião menciona a existência de relatos ou rumores de que a imperatriz Plotina, que estava acompanhando o marido em seu retorno para Roma, e que sempre havia sido amiga e protetora de Adriano, teria atuado para esconder a morte de Trajano por alguns dias, forjando o anúncio da adoção de Adriano por Trajano como tendo ocorrido ainda em vida. Nessa empreitada, segundo o relato, Plotina contou com a ajuda do Prefeito Pretoriano Publius Acilius Attianus, que era ninguém menos do que o antigo tutor de Adriano, durante a sua menoridade, juntamente com Trajano…Ainda de acordo com Cássio Dião, uma carta de Trajano foi então enviada ao Senado Romano comunicando a adoção de Adriano, porém a missiva estava assinada por Plotina. (Dião inclusive afirma que esta versão lhe foi contada por seu próprio pai, que era governador da província da Cilicia, quando Trajano morreu, vide Cassius Dio, Livro LXIX, 1, 3-4).

Já segundo a Historia Augusta, igualmente a adoção de Adriano teria sido forjada por Plotina nos dias que se sucederam a morte do marido, porém, de acordo com esta versão, a farsa teria consistido nela ter feito alguém se passar por Trajano em seu leito de morte e, imitando a voz trêmula do imperador moribundo, anunciado a adoção de Adriano.

Seja como for, o fato é que as tropas do Exército Romano na Síria aclamaram Adriano imperador imediatamente ao tomarem conhecimento da morte de Trajano, o que até motivou o envio de uma protocolar carta de Adriano ao Senado desculpando-se pelo fato da sua ascensão ao trono não haver sido previamente submetida à aprovação daquela assembleia, como era a formalidade costumeira. Vale notar que não se tratava apenas das legiões da Síria que aclamaram Adriano, mas de todo o exército combinado para a Guerra contra os Partas, reunindo efetivos de inúmeras legiões espalhadas pelo Império e portanto, não havia nenhuma outra força militar que pudesse se comparar ao contingente sob o controle do novo imperador.

Cabeça de Adriano, foto Bodrumlu55, CC BY-SA 4.0

A maioria dos historiadores desconsidera, tendo por fantasioso, o relato existente na História Augusta de que Trajano tencionava nomear o jurista Neratius Priscus como sucessor. Embora aparentemente Trajano não nutrisse grande afeto por Adriano, durante o seu reinado este exerceu diversas magistraturas e comandos militares importantes e também recebeu honrarias que denotavam confiança e proximidade com o imperador, ainda que, admita-se, nenhum deles chegando a ser inequivocamente um sinal de consagração como herdeiro do trono.

Portanto, ainda que possam ser verdadeiras as suspeitas relatadas nas fontes antigas, a “interpretação” que a imperatriz Plotina teria dado à vontade do finado marido, foi a mais lógica, senão verossimilhante.

Epílogo

Assim que Adriano assegurou o trono, houve um rápido e sangrento expurgo de alguns dos mais fiéis e valorosos colaboradores de Trajano: Lúsio Quieto, a quem Trajano havia prometido o consulado do ano de 118 D.C. em retribuição aos inestimáveis serviços nas últimas campanhas militares, foi imediatamente acusado de traição e afastado do comando e Manius Laberius Maximus, duas vezes cônsul e general veterano da campanha da Dácia, foi exilado para uma ilha. Além dos dois, caíram em desgraça: Cornélio Palma (Aulus Cornelius Palma Frontonianus), apoiador de primeira hora nos eventos que levaram Trajano ao trono, conquistador da Nabatéia e também duas vezes cônsul, Gaius Avidius Nigrinus, outro importante colaborador de Trajano, que era governador da Dácia e havia sido Cônsul Suffectus e, finalmente, Lucius Publilius Celsus, que era muito amigo de Trajano, tendo igualmente exercido duas vezes o consulado e que provavelmente havia se destacado militarmente, pois, ele foi, da mesma forma que Cornélio Palma e Sósio Senecião, honrado em vida por Trajano com uma estátua de bronze no Fórum.

Todos eles seriam executados em 118 D.C.

De acordo com a História Augusta, Cornélio Palma e Publilius Celsus eram inimigos de longa data de Adriano. Apesar disso, Adriano, tendo em vista a impopularidade que a execução de senadores e consulares tão ilustres lhe granjeou perante a opinião pública, afirmou expressamente que ele nunca ordenou a execução desses auxiliares de Trajano, atribuindo este ato a Attianus, o Prefeito Pretoriano, uma alegação que não soou muito convincente, pois este foi em seguida nomeado por Adriano para o Senado.

Cássio Dião alude como justificativa, para ele não muito crível, para as referidas execuções, à alegação de que Cornélio Palma e Publilius Celsus teriam conspirado para matar Adriano durante uma caçada. Já a História Augusta traz a versão de que a trama para assassinar Adriano em uma cerimônia religiosa ou sacrifício teria tido a participação de Avidius Nigrinus, Cornélio Palma, Lúsio Quieto e Publilius Celsus.

Mas o mais provável é que Adriano tenha feito um expurgo preventivo, seja porque desconfiava dos auxiliares mais próximos de Trajano, ou, sobretudo porque, ele estava em vias de promover uma guinada de 180º na política externa romana…

Com efeito, de acordo com o relato da História Augusta, assim que assumiu o trono, Adriano decidiu abrir mão de todas as conquistas de Trajano a oeste de Eufrates, reconhecendo na prática a independência da Pártia ao nomear Parthamaspates rei de Osroene, e Antióquia. Ele também teve que lidar com algumas revoltas e ataques que espoucaram na Mauritânia, atacada pelos mouros, na Britânia, no Danúbio, com incursões dos Sármatas, e na Líbia e na Palestina, onde os judeus haviam renovado a insurreição.

Há até quem procure explicações psicológicas para tamanha mudança na estratégia imperial promovida por Adriano, tais como a vaidade expressa na necessidade de competir com a fama do antecessor ilustre, ou algum complexo de rejeição pelo parente que nunca teria lhe demonstrado apreço, mas prevalece o entendimento de que a decisão de Adriano de por um freio ao expansionismo romano, devolver as províncias conquistadas no Oriente e adotar uma estratégia defensiva (da qual o Muro de Adriano seria o exemplo mais eloquente) foi uma medida racional, motivada pela compreensão da crescente incapacidade militar e demográfica do Império Romano em continuar se expandindo, sendo preferível manter as províncias mais defensáveis.

De qualquer modo, somente após tomar medidas contra as referidas rebeliões, e também depois de dispensar Quieto e exilar Laberius Maximus, Adriano deixou Antióquia e foi prestar as homenagens aos restos de Trajano, que estavam sob os cuidados de Plotina, Matídia e Attianus. O imperador Adriano, então, enviou as cinzas de Trajano para Roma, junto com uma carta em que recomendava ao Senado a deificação do seu antecessor.

O Senado espontaneamente decretou a deificação de Trajano e muitas outras honras além das que Adriano havia solicitado. As cinzas de Trajano foram depositadas em uma urna no interior da base da sua Coluna Honorária, no Fórum de Trajano, que narra em relevo as campanhas contra a Dácia.

Base da Coluna Honorária de Trajano, onde foi depositada a urna com suas cinzas. Foto de Gary Todd from Xinzheng, China, PDM-owner, via Wikimedia Commons

Conclusão

Trajano permanece como a epítome daqueles que a historiografia romana convencionou chamar de “Bons Imperadores“. E realmente, para os seus contemporâneos ele demonstrou possuir todas as virtudes que eram valorizadas não apenas pela classe senatorial, de onde proveio a maior parte dos historiadores romanos, mas também pelo populacho romano.

Assim, Trajano foi moderado e afável em suas relações com os súditos, respeitoso com o Senado, cujos integrantes foram nomeados para os mais altos cargos civis e militares, vitorioso nas guerras externas, construtor de grandes obras públicas, manteve ou aumentou a prosperidade econômica e prestou assistência aos cidadãos pobres.

Mesmo na Idade Média, mais de mil anos após a sua morte, Trajano foi mencionado como exemplo de virtude por autores com Tomás de Aquino e Dante Alighieri (fonte: wikipedia.en, verbete: Trajan).

Thomas Ihle, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons

Das conquistas militares de Trajano, a da Dácia teve influência até os nossos dias, tendo a atual Romênia, cujo território corresponde em boa parte a da antiga província incorporada pelo imperador, permanecido como um país de língua latina em meio a um mar de idiomas eslavos.

Porém a campanha contra o Império Parta é frequentemente avaliada sob viés negativo, como um gasto de energia infrutífero, contraproducente e fruto de vaidade desmedida. Trata-se de um entendimento compreensível em função dos resultados práticos e, sobretudo, das subsequentes medidas do sucessor de Trajano. Mas teria sido mesmo esta uma empreitada vã? Em outras palavras, a submissão do Império Parta, durante o reinado de Trajano, seria algo inviável ou além das capacidades do Império Romano no início do século II D.C.?

Em primeiro lugar, como objetivo estratégico de longo prazo, e não sendo descartável que o aumento de alguma pressão bárbara hostil no Danúbio já fosse perceptível pelos governantes romanos, eliminar ou controlar o Império Parta, ou, pelo menos, ao longo de algumas décadas, “romanizar” (ou “greco-romanizar”) mais a região teria tido um impacto estratégico muito positivo no futuro, e, também, econômico.

Alguma comparação com as campanhas de Alexandre, o Grande, ainda que em um contexto temporalmente distante cerca de 450 anos no passado, pode ser útil para análise.

Devemos ressaltar que o Império Parta dos Arsácidas era, sob muitos aspectos, um adversário mais difícil de derrotar que o decadente Império Persa dos Aquemênidas, em parte pelos defeitos do primeiro: Os Partas eram muito mais descentralizados, então a derrota de um exército ou a conquista da capital não resultavam na conquista inevitável do país.

Militarmente, os Aquemênidas, quando das guerras contra Alexandre, ainda não tinham como forças principais a cavalaria couraçada (Catafractos) e nem os arqueiros montados. Os Persas, no século IV A.C, estavam taticamente muito influenciados pelos próprios gregos, e adotavam como esteio militar, ou núcleo de seu exército, a infantaria de hoplitas, muitos deles sendo mercenários gregos e ainda, os obsoletos carros de batalha, além de arqueiros a pé. Os temíveis arqueiros à cavalo, que adotavam o famigerado “Tiro Parta“, não eram usados em quantidades dignas de nota.

Portanto, os Partas eram muito mais móveis e difíceis de engajar para os romanos do que os Persas de Dario III foram para os Macedônios. Por outro lado, Alexandre dispunha de um exército de 45 mil homens quando começou a enquanto estima-se que Trajano tenha invadido o Império Parta à testa de um exército de 60 mil homens. Indiscutivelmente, o total dos meios militares à disposição de Trajano era superior a qualquer material humano que Alexandre pudesse cogitar.

Mesmo assim, foi a persistência de Alexandre em continuar a perseguição ao exército de Dario III e dar combate a qualquer força militar persa que escapasse que permitiu a conquista do Império Persa pela Macedônia. E tanto a conquista do Império Persa como o do Império Parta, por um período razoável de tempo, não era possível sem que fosse controlada ou neutralizada a região da Média, que era de onde vinha a nobreza guerreira iraniana.

As terras altas e montanhosas da Média ao Norte e ao Leste dominam a Mesopotâmia mais baixa, ao Sul e ao Oeste. Portanto, caso Trajano tencionasse mesmo dominar o Império Parta, ele certamente não ignorava que uma segunda fase da campanha obrigatoriamente impunha a conquista ou o controle da Média.

Não temos como seria o desfecho da campanha se Trajano não tivesse sucumbido à doença. Cássio Dião relata expressamente que o imperador, enquanto tentava convalescer em Antióquia, tencionava uma nova expedição.

Trajano estava se preparando para fazer uma nova expedição à Mesopotâmia, porém, como sua doença começou a afligi-lo severamente, ele partiu, visando navegar até a Itália, deixando Publius Aelius Adriano com o Exército na Síria.

Cassius Dio (Livro LXVIII, 33, 1
Trajan by Colin Smith, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

Talvez, se Trajano fosse dez anos mais novo, o desfecho da Guerra contra os Partas, e, por decorrência, da própria História Mundial, teria sido diferente. Certamente, comparando com a guerra anterior contra a Dácia, o imperador possuiria a disposição e a saúde necessárias para conduzir uma campanha tão difícil e prolongada por vários anos.

FIM

FONTES:

a) Romanas

1- Cássio Dião, Cassius Dio, Roman History, Book LXVIII, https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Cassius_Dio/68*.html

2- Sexto Aurélio Vítor, Epitome De Caesaribus, A Booklet about the Style of Life and the Manners of the imperatores, sometimes attributed to Sextus Aurelius Victor, Translated by Thomas M. Banchich, Canisius College Translated Texts, Number 1, Canisius College. Buffalo, New York, 2018, 3rd edition, http://www.roman-emperors.org/epitome.htm

3- Plínio, o Jovem, “Panegírico”, PLINY’S Panegyrick. An address of thanks to a good prince presented in the panegyrick of Pliny, upon Trajan, the best of Roman Emperours, Kennett, White, 1660-1728. https://quod.lib.umich.edu/e/eebo/A55147.0001.001/1:5?rgn=div1;view=fulltext

4- Plínio, o Jovem, Cartas, Livro X, http://www.attalus.org/old/pliny10a.html (OBS: As Cartas 96 e 97 foram extraídas de PROMETEUS – Ano 11 – Número 28 – Edição Especial – 2018 – E-ISSN: 2176-5960)

5- Marco Cornélio Frontão, Carta de Frontão a Lúcio Vero, “Principia Historiae”, 17 , em “The Correspondence of Marcus Cornelius Fronto” , disponível em https://archive.org/details/correspondencem00frongoog/page/n230/mode/2up?view=theater

6- Dião Crisóstomo, Dio Chrysostom,The Thirty-eighth Discourse: To the Nicomedians on Concord with the Nicaeans“, https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Dio_Chrysostom/Discourses/38*.html e “The Forty-eighth Discourse: A Political Address in Assembly“, https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Dio_Chrysostom/Discourses/48*.html#ref19

7- Eutrópio, Sumário da História Romana, Abridgement of Roman History, translated, with notes, by the Rev. John Selby Watson, London: Henry G. Bohn, York Street, Convent Garden, 1853. disponível emhttps://www.forumromanum.org/literature/eutropius/trans8.html

8- Historia Augusta, Life of Hadrian, disponível em https://penelope.uchicago.edu/Thayer/L/Roman/Texts/Historia_Augusta/Hadrian/1*.html

9- João Malalas, “The Chronicle of John Malalas, A Translation” by Elizabeth Jeffreys, Michael Jeffreys and Roger Scott with Brian Croke, Jenny Ferber, Simon Franklin, Alan James, Douglas Kelly, Ann Moffatt, Ann Nixon, Melbourne, 1986, pág. 145, em https://en.calameo.com/read/000675905f2f4bf509d49)

10–Eusébio de Cesaréia, História da Igreja, Livro IV, 2, disponível em https://www.ccel.org/ccel/schaff/npnf201.iii.ix.ii.html

b) Modernas

1- Caesar’s Legion, The Epic Saga of Julius Caesar’s Elite Tenth Legion and the Armies of Rome, Stephen Dando-Collins, Wiley, 2002.

2- Quem foi Quem na Roma Antiga, Diana Bowder, Ed. Círculo do Livro, 1980

3- The Reach of Rome, an History of the Roman Imperial Frontier 1st-5th Centuries AD, Derek Williams, 1997, St. Martin’s Press

4- A Vida Cotidiana em Roma no Apogeu do Império, Jerôme Carcopino, Livros do Brasil, Lisboa,

5- Trajan’s Imperial Alimenta: An analysis of the values attached to children in Roman society in the alimenta of Trajan, Gavin Carroll O’ Brien, Universidade de Leyden. 2020. https://studenttheses.universiteitleiden.nl/handle/1887/133450

6- A Political History of Parthia, Neilson C. Debevoise, The University of Chicago Press, 1938 https://oi.uchicago.edu/sites/oi.uchicago.edu/files/uploads/shared/docs/political_history_parthia.pdf

Artigos:

1- Las raíces béticas de Trajano: los ‘Traii’ de la Itálica turdetana, y otras novedades sobre su família, Alicia M. Canto. https://www.academia.edu/1082682/Las_ra%C3%ADces_b%C3%A9ticas_de_Trajano_los_Traii_de_la_It%C3%A1lica_turdetana_y_otras_novedades_sobre_su_familia_texto_

2- Iubes Esse Liberos: Pliny’s Panegyricus and Liberty, Mark P. O. Morford, publicado no The American Journal of Philology vol. 113, nº 4, 1992,  The Johns Hopkins University Press.

3- The Government as Fiduciary: A Practical Demonstration From the Reign of Trajan, Robert G. Natelson, University of Richmond Law Review, vol 35, issue 2, 2001, disponível em https://scholarship.richmond.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=2425&context=lawreview

4- The Mysterious Arbaces, David Potter, disponível em https://www.academia.edu/389199/The_Mysterious_Arbaces

COSME E DAMIÃO – OS MÉDICOS ROMANOS QUE VIRARAM SANTOS

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#CosmeeDamião #SãoCosmeeSãoDamião

Hoje, dia 27 de setembro de 2018, a Igreja Católica comemora o dia de São Cosme e São Damião.

Os gêmeos Cosme e Damião nasceram em Aegea (agora Ayas, no Golfo do Iskenderun, Cilícia, Ásia Menor), uma cidade portuária da Proví­ncia romana da Sí­ria, em meados do século III D.C.. Os seus nomes verdadeiros eram Acta e Passio. O pai deles, de nome desconhecido, foi martirizado durante a Grande Perseguição dos cristãos na era de Diocleciano e a mãe se chamava Teodata, ela também venerada como santa pelos ortodoxos. A famí­lia seria de origem árabe.

Cosme e Damião praticavam a medicina em Aegea e alcançaram nesta profissão uma grande reputação entre os locais. Eles não aceitavam nenhum pagamento por seus serviços e por isso  eram chamados de anargiras (em grego antigo: anargyroi – isto é, “avessos ao dinheiro”). Dessa forma, eles trouxeram muitos novos adeptos para a fé cristã.

Quando a perseguição decretada pelo imperador Diocleciano começou, o governador da Síria, Lísias mandou prender Cosme e Damião e ordenou-lhes que renegassem sua fé.

Não obstante os suplícios, os gêmeos se mantiveram constantes sob tortura e, segundo a tradição cristã, de forma milagrosa, eles não sofreram nenhum ferimento, seja por água, fogo, ar, e nem mesmo na cruz. Porém, os seus carrascos não desistiram e eles acabaram sendo decapitados por uma espada. Os demais irmãos deles, Antimo, Leôncio e Euprepio, também foram martirizados junto com eles.

A execução de Cosme e Damião ocorreu no dia 27 de setembro, provavelmente entre 287 e 303 D.C. (mais provavelmente nesse último ano).

Mais tarde, começaram a surgir relatos milagrosos sobre os gêmeos ligados às suas relíquias. Os restos mortais dos mártires estavam enterrados na cidade de Ciro, na Síria, por isso, o imperador Justiniano I (527-565 D.C.) suntuosamente restaurou esta cidade em honra dos mesmos, depois dele ter sido curado de uma doença perigosa, cura essa que foi atribuída à intercessão de Cosme e Damião.

Justiniano também reconstruiu e decorou a igreja dedicada aos gêmeos mártires em Constantinopla, que veio a se tornar um lugar famoso de peregrinação. E em Roma, o Papa Félix IV (526-530 D.C) converteu um antigo edifício romano, edificado pelo imperador Maxêncio em honra de seu filho Valerius Romulus, e que por isso era conhecido como “Templo de Rômulo”, em uma igreja em honra de São Cosme e São Damião.

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(“Templo de Rômulo”, atual Igreja de Santi Cosma e Damiano, em Roma, foto de Anthony M. )

Aliás, o culto a São Cosme e São Damião já havia se espalhado pelo Ocidente ainda durante o fim da Antiguidade, fato que muitos atribuem ao sincretismo religioso que os relacionou às figuras mitológicas de Castor e Pólux, que também eram gêmeos.

No Brasil, Cosme e Damião são considerados santos protetores das crianças, motivo pelo qual, no dia que foi consagrado a eles, os fiéis costumam presentear pelas ruas as crianças com sacos de doces e guloseimas.

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CLÁUDIO II GÓTICO

CLÁUDIO II GÓTICO

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(Busto de bronze do imperador Cláudio II Gótico, foto de Ronan.guilloux/gallery )

Marcus Aurelius Valerius Claudius (Cláudio II Gótico) nasceu em 10 de maio de 214 D.C , na região da Dardania, que fazia parte das províncias romanas da Ilíria e Moésia Superior.

Claudio era de origem humilde e o seu prenome denota que, provavelmente, ele foi um dos homens livres nascidos depois do Édito de Caracala, que estendeu a cidadania romana a todos os homens livres do Império Romano (Caracala se chamava Marco Aurélio Antonino Augusto). Acredita-se, assim, que a família de Cláudio seria de Ilírios recentemente absorvidos, e apenas parcialmente romanizados, que, como muitas outras famílias romanas do período, demonstrou o seu agradecimento dando o nome do benfeitor aos filhos.

De qualquer forma, como muitos dos seus conterrâneos Ilírios durante o século III, Cláudio alistou-se no Exército Romano e foi sendo promovido em virtude do seu desempenho. Consta que ele era dotado de tamanha força física que era capaz de arrancar os dentes não apenas de homens, mas também de bestas de carga, como cavalos e mulas, com apenas um soco.

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(O relevo deste sarcófago romano de meados do século III D.C, mostra romanos combatendo bárbaros, possivelmente Godos, tanto a aparência dos soldados como dos bárbaros é bem estilizada, porém o soldado retratado na fileira do meio no canto direito pode ser considerado uma reprodução fidedigna de um soldado da época em que Cláudio serviu ao Exército)

Durante o reinado do imperador Décio Trajano, também ele um natural da Ilíria (porém, este era um integrante da classe senatorial), Cláudio alcançou o posto de Tribuno Militar e, no reinado do imperador Valeriano, ele foi promovido para um importante comando militar em sua província nativa.

Contudo, Valeriano foi capturado pelos persas em 260 D.C. (E ele morreria no cativeiro). O trono, então, foi assumido por seu filho Galieno. Durante o reinado deste último, Cláudio foi nomeado “Hipparchus”, isto é,  comandante da cavalaria de elite dos Comitatenses, recém criada por Galieno.

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Em 268 D.C, o reinado de Galieno se encontrava acossado por várias ameaças externas e internas: Quase toda a Gália, a Espanha e a Bretanha eram controladas pelo usurpador Póstumo, e estas províncias tinham se tornado, na prática, independentes, sob a denominação de “Império Gaulês“. No leste, o rei de Palmira, Odenato, conseguiu derrotar os persas e restaurar a Síria para os romanos, mas tornou-se o governante de fato da região e virtualmente independente de Roma, com a tolerância de Galieno. Para piorar, nas regiões do Danúbio e do mar negro, pipocavam invasões de “Citas” (que era como os autores do período costumavam se referir aos Godos) e dos Hérulos.

Galieno lutou bravamente contra o Império Gaulês e os bárbaros, obtendo sucesso parcial. Ele conseguiu derrotar Póstumo e reconquistar parte da Gália até o Rio Ródano, mas, durante um sítio a uma cidade, o imperador foi ferido e teve que abandonar a campanha.

Após se recuperar, Galieno foi impedido de combater os Hérulos devido a um motim liderado pelo comandante de cavalaria Aureolus, em Milão.

Enquanto se preparava para combater Aureolus, em setembro de 268 D.C, Galieno foi morto por seus próprios homens, em uma conspiração até hoje obscura. Muito provavelmente, foram os comandantes mais importantes do Exército, como o general (e futuro imperador) Aureliano, o Prefeito Pretoriano Heracliano, o poderoso general Lúcio Aurélio Marciano, e, talvez, o próprio Cláudio, todos eles militares de origem ilíria, que decidiram que era hora de se livrar do desafortunado Galieno.

Alguns autores acreditam que Cláudio foi escolhido imperador pelo fato de ser admirado pelos soldados como um colega oriundo da tropa que dera provas de valentia e força. Outro motivo, seria a suposta percepção de que Cláudio, ao contrário de Aureliano, que era outro candidato em potencial,  seria menos rígido no que se refere à disciplina militar.

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(Antoninianus, moeda cunhada por Cláudio II, foto de Rasiel )

A  contestada História Augusta assevera que Cláudio não participou do complô contra Galieno e que foi este quem nomeou-o sucessor em seu leito de morte, mas muitos historiadores põem isto em dúvida, tal como Procópio, que escreveu sobre o período e menciona a participação de Claudio na trama. Acrescente-se, ainda, que a História Augusta notoriamente faz uma apologia da dinastia de Constantino, época em que a mesma foi escrita, e que Constantino alegava ser descendente de Cláudio, motivo pelo qual o seu autor tenderia a “dourar a pílula” dos relatos relativos a este último.

Não obstante, consta que Cláudio realmente mostrou uma índole branda ao pedir ao Senado que os familiares e partidários do odiado Galieno fossem poupados e, inclusive, ele mesmo solicitou ao Senado que o finado imperador fosse deificado. Após sua coroação, Cláudio passou a se chamar oficialmente Marcus Aurelius Valerius Claudius Augustus.

Em seguida, Cláudio sitiou Milão com o objetivo de capturar Aureolo, que se rendeu, mas foi executado pela traição a Galieno.

Porém, Cláudio teve que lidar com a muito mais ameaçadora invasão dos bárbaros Alamanos, que cruzaram os Alpes e entraram no norte da Itália.

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Na Batalha do Lago Benaco (atual Lago Garda), no final de 268 ou início de 269 D.C, os Alamanos foram derrotados, perecendo metade da força invasora no combate. Por essa vitória, Cláudio recebeu o título de “Germanicus Maximus”.

A cronologia dos eventos é incerta, mas mais ou menos na mesma época, Cláudio infligiu uma esmagadora derrota aos Godos, que haviam invadido o Império no reinado de Galieno. Parece que essa campanha foi iniciada por Galieno e não se sabe com certeza se foi Cláudio ou Galieno quem reinava durante a decisiva Batalha de Naissos (atual Nîs, na Sérvia), onde os romanos esmagaram os Godos.

De qualquer forma, Cláudio certamente eliminou os últimos remanescentes da invasão e derrotou uma grande invasão naval dos Godos e capturando muitos deles, que foram incorporados ao Exército.

Entendemos que foi realmente Cláudio quem derrotou os Godos em Naissos, pois ele passou à História com o cognome “Gótico“, sem que houvesse contestação pelos historiadores contemporâneos. Além do mais, dificilmente o vencedor de tão importante vitória seria assassinado semanas ou meses após tão retumbante sucesso, como vimos que ocorreu com Galieno.

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(Mapa das invasões dos Godos durante o final do reinado de Galieno e o reinado de Cláudio II, mapa da lavra de Dipa1965)

Essa vitória foi tão importante que somente um século depois os Godos voltariam a ameaçar para valer o Império Romano. O general Aureliano teve importante participação como comandante da cavalaria romana na batalha, onde foi destruído e capturado o “laager“, o círculo defensivo de carroças tradicionalmente usado como reduto pelos Godos, formação que, na futura Batalha de Adrianópolis, cem anos mais tarde, seria fundamental para a vitória dos bárbaros.

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Cláudio II Gótico então voltou sua atenção para o Império Gaulês e enviou o general Júlio Placidiano para o sul da Gália, onde conseguiu restaurar a Hispânia e o leste do vale do Ródano para o domínio romano.

Porém, em 269 D.C, a viúva de Odenato, a poderosa Zenóbia, rompeu com o Império Romano e atacou com sucesso a Síria e o Egito. Acredita-se que Cláudio chegou a mandar uma força para contra-atacar a invasão de Zenóbia , mas a expedição teria sido derrotada.

Sem condições de intervir mais decisivamente no Oriente, devido a uma nova invasão no Ocidente, agora dos Juthungi, na Rétia, e dos Vândalos, na Panônia, Cláudio, após partir para Sirmium, para enfrentar os últimos, contraiu uma peste, provavelmente varíola, doença que teria sido introduzida no território do Império pelos Godos, e morreu em janeiro de 270 D.C, aos 59 anos de idade, sendo sucedido por Aureliano.

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(Mapa do Império Romano no final do reinado de Cláudio II Gótico, imagem de historicair)

A carreira e reinado de Claudio Gótico são emblemáticos da era dos chamados imperadores-soldados, da segunda metade do século III D.C, todos oriundos dos povos ilírios de índole guerreira,  e que culminou com o reinado de Diocleciano, que, após reformas administrativas, fiscais e militares, conseguiu estabilizar a situação do Império, interna e externamente.

Os imperadores-soldados ilírios, notadamente Cláudio e Aureliano, foram cruciais para construir o terreno sobre o qual Diocleciano reestruturaria o Império Romano. Por isso, todos eles foram responsáveis por garantir a sobrevivência do Império Romano por mais 200 anos, após a crise do século III. Sem eles, a História da humanidade certamente seria muito diferente.

MARCO AURÉLIO – O IMPERADOR-FILÓSOFO

Em 26 de abril de 121 D.C., nasceu, em Roma, Marcus Annius Verus (Marco Aurélio), filho de Marcus Annius Verus (III) e Domitia Lucilla, a Jovem.

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Por parte de pai, Marco Aurélio era integrante de uma distinta família da classe senatorial, originária da Hispânia, mais especificamente da cidade de Ucubi, próximo à Corduba (Córdoba), região que enriquecera graças à plantação de oliveiras e produção de azeite. O seu bisavô, também chamado Marcus Annius Verus (I), chegou até a ser Pretor e Senador. Mas a família ascendeu mesmo a partir da chegada de seu conterrâneo Adriano ao trono, em companhia de outras famílias aristocráticas daquela província, que, em sua grande maioria tinham parentesco, consanguíneo ou por afinidade, com o referido imperador e também com o seu antecessor, Trajano.

Acredita-se que a família de Marco Aurélio fosse um ramo da  originalmente plebeia gens Annia, de Setia (atual Sezze), no Lácio,  cidade fundada pelo povo itálico dos Volscos  e que se tornou colônia de Roma em 382 A.C. Os Ânios  devem ter chegado ao Senado no final do século III A.C. e, no século seguinte, alguns de seus membros conseguiram ser eleitos Cônsules, a mais alta magistratura da República Romana.

O avô de Marco Aurélio, igualmente de nome Marcus Annius Verus (II), foi nomeado Cônsul Suffectus (isto é, substituto ou extraordinário) para o ano de 97 D.C., ainda durante o reinado de Trajano. Annius Verus era amigo pessoal do imperador Adriano e, graças a isso, ele foi nomeado Prefeito de Roma e, por duaz vezes, Cônsul ordinário, nos anos de 121 e 126 D.C.

Já  a mãe de Marco Aurélio, Domitia Lucilla, era filha de Publius Domitius Calvisius Tullus Ruso e de Domitia Lucilla, a Velha, esta, por sua vez, filha adotiva de Lucius Catilius Severus, que foi Cônsul nos reinados de Trajano (110 D.C.) e Adriano (120 D.C.).

Domitia Lucilla era uma mulher riquíssima, que herdou de sua mãe um grande complexo de olarias e fábricas de tijolos nas cercanias de Roma, as quais forneceram boa parte dos tijolos para a construção de grandes monumentos tais como o Coliseu, o Mercado de Trajano e o Pantheon.

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(um dos tijolos da fábrica dos Domitii, como diz a estampa)

Marcus Annius Verus (III) e Domitia Lucilla, a Jovem também tiveram, por volta de 122 D.C, uma filha, que recebeu o nome de Annia Cornificia Faustina.

Quando Marco Aurélio tinha apenas três anos, o pai dele morreu e ele passou ao pátrio poder do seu avô, que passou a criá-lo. Não obstante, apesar de pouco ter convivido com o  pai, anos mais tarde, em sua obra “Meditações“, Marco Aurélio escreveria que, através das memórias e da reputação paterna, aprendeu com ele a ter “modéstia e hombridade”.

Igualmente, no que se refere à mãe, Domitia Lucilla, Marco Aurélio menciona que ela lhe ensinou a ter “devoção religiosa e simplicidade na dieta” e a “evitar as manias dos ricos”.

Efetivamente, Marco Aurélio nasceu em um ambiente de afluente riqueza, crescendo na elegante casa de seus pais, no Monte Célio, bairro aristocrático de Roma coalhado de mansões. Em seus escritos, ele se refere carinhosamente ao bairro como “Meu Célio”.

Caelian_Hill foto de Roundtheworld(Panorama do Monte Célio, em Roma)

Ao avô, Marco Aurélio também se mostra agradecido, por lhe ter ensinado  a ter “bom caráter e evitar o mau gênio”

Como bom jovem aristocrata romano, a educação básica de  Marco Aurélio, dos sete aos onze anos, ficou a cargo de tutores, sabendo-se que dois deles se chamavam Euphoric e Geminus.

Com doze anos, a educação de Marco Aurélio passou para dois grammatici, e ele também foi introduzido ao estudo de ciências e artes, sob a responsabilidade de Andros, um professor de geometria e música, e de Diognetus, um mestre de pintura e professor de filosofia. Este último teve grande influência sobre Marco Aurélio, ensinando-o a pensar filosoficamente, a não acreditar em superstições ou dar atenção exagerada aos esportes de luta. Influenciado pelas lições de Diognetus, que parece ter sido estoico, Marco Aurélio adotou, ainda adolescente, o costume de se vestir como um filósofo grego e até o de dormir no chão, para o desespero de sua mãe.

Deram continuidade à educação de Marco Aurélio os tutores Alexandre de Cotiaeum, Trosius Aper e Tuticius Proculus, os dois últimos, professores de latim. Vale citar que Alexandre era o maior especialista romano em Homero e, segundo o próprio Marco Aurélio, ele o ensinou a dar ênfase ao conteúdo sobre o estilo.

Com apenas seis anos de idade, Marco Aurélio foi incluído na Ordem Equestre, o segundo nível da nobreza romana, por ordem do imperador Adriano. Segundo as fontes, este imperador sempre simpatizou com Marco Aurélio, e assegurou ao menino a participação em vários postos prestigiosos para a juventude aristocrática romana, como o colégio de sacerdotes juvenis dos “Sálios”.

De fato, Adriano costumava chamar Marco Aurélio de “Verissimus“, em uma brincadeira com o nome do menino (que, então, ainda se chamava “Marcus Annius Verus), que” significa “muito verdadeiro” e “confiabilíssimo”.

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Depois de ficar um longo período afastado de Roma, viajando, Adriano retornou à Cidade em 135 D.C. Porém, no ano seguinte, ele ficou muito doente e, após uma crise de hemorragia, achando que ia morrer, consciente do fato que não tinha filhos, Adriano adotou como herdeiro Lucius Ceionus Commodus, que passou a se chamar Lucius Aelius Caesar.

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(Busto de Lucius Aelius Caesar, foto de Jastrow)

Naquele mesmo ano de 136 D.C., Marco Aurélio assumiu a “toga virilis“, veste que simbolizava a sua chegada à idade adulta. Como prova da estima e do favor que o rapaz gozava junto ao imperador, Adriano arranjou o casamento de Marco Aurélio com Ceionia Fabia, filha de Lucius Ceionus Commodus (Lucius Aelius Caesar), o herdeiro imperial.

Contudo, em 1º de janeiro de 138 D.C., Lucius Aelius Ceasar morreu subitamente de hemorragia (é bem possível que estivesse grassando alguma febre hemorrágica na região).

Necessitando de um novo herdeiro, Adriano, no dia 24 do mesmo mês, escolheu oficialmente Titus Aurelius Fulvus Boionius Arrius Antoninus (Antonino Pio) como seu sucessor, com a condição de que este, por sua vez, adotasse Marco Aurélio e Lúcio Vero (filho de Lucius Aelius Caesar), como seus herdeiros. Em virtude dessa adoção por Antonino, Marco Aurélio passou a se chamar Marcus Aelius Aurelius Verus.

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(Busto de Antonino Pio)

Note-se que Antonino era casado com Annia Galeria Faustina (Faustina, a Velha), tia de Marco Aurélio, que era sobrinha da imperatriz Vibia Sabina, esposa de Adriano.

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(Busto de Faustina, a Velha)

Em 10 de julho de 138 D.C., Adriano faleceu em Baiae, um balneário chique na costa da Campânia, após uma prolongada agonia. A sua sucessão foi tranquila e Antonino assumiu imediatamente o trono, mantendo os principais magistrados e auxiliares de Adriano nos cargos, e tranquilizando o Senado Romano de que os seus privilégios seriam respeitados.

A posição do jovem Marco Aurélio, que naquele momento tinha apenas 17 anos, foi reafirmada pelo fato da Antonino ter pedido que ele rompesse o compromisso com Ceionia Fabia e se comprometesse a casar-se com a filha dele, Annia Galeria Faustina Minor (Faustina, a Jovem), o que foi prontamente aceito.

Faustine_la_Jeune_01(Busto de Faustina, a Jovem)

 

No início do pacífico e estável reinado de Antonino Pio, Marco Aurélio continuou seu aprimoramento intelectual tornando-se aluno de Marco Cornélio Frontão, um famoso gramático, retórico e advogado, que se tornaria um de seus amigos mais íntimos e era considerado um dos maiores oradores romanos. A correspondência entre Marco Aurélio e Frontão foi preservada e é muito útil para demonstrar a evolução do pensamento do primeiro e o ambiente no círculo imperial.

Marco Aurélio também estudou com Herodes Ático, um influente e riquíssimo aristocrata ateniense, que também era um reconhecido filósofo sofista e foi convidado por Antonino para residir em Roma, com o propósito específico de ser professor dos herdeiros Marco Aurélio e Lúcio Vero. Outro importante integrante do círculo de professores de Marco Aurélio foi o filósofo grego Apolônio de Calcedônia, com quem ele se aprofundou no estudo do Estoicismo.

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(Busto de Herodes Ático)

O treinamento público de Marco Aurélio para suceder Antonino começou assim que este assumiu o trono. De fato, ainda com 18 anos de idade, o jovem herdeiro passou a participar das reuniões do Conselho Imperial. Em 140 D.C, Marco Aurélio, foi nomeado Cônsul pela primeira vez, e, novamente, em 145 D.C.

Neste mesmo ano, ele se casou com Faustina, a Jovem. Curiosamente, como Marco Aurélio era filho adotivo de Antonino, tratava-se, legalmente, de uma união incestuosa com a sua irmã. Assim, foi preciso que Antonino revogasse expressamente o seu pátrio poder sobre o noivo, para que o casamento pudesse se realizar.

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(O jovem Marco Aurélio, em uniforme de general)

Vale citar que o casamento de Marco Aurélio e Faustina, a Jovem seria um dos mais prolíficos, senão o mais fértil, dentre todos os casamentos imperiais da História de Roma. Eles teriam treze filhos, nascidos no decorrer de vinte e três anos! A primeira filha, Antonina Faustina, nasceu em  30 de novembro de 147 D.C. Contudo, a maioria dessa prole morreria na infância, de doenças variadas. Porém, em 31 de agosto de 161 D.C., durante os primeiros meses do futuro reinado de Antonino, nasceu Lucius Aurelius Commodus (Cômodo), que sucederia o pai no trono.

Embora Lúcio Vero também estivesse recebendo educação esmerada, tudo indica que Antonino considerava Marco Aurélio a opção preferencial para ser o sucessor dele, ou talvez, um “herdeiro-sênior”. Com efeito, em 146 D.C., Marco Aurélio recebeu o “Poder Tribunício” e o “Imperium Proconsular“, atributos que somente o Imperador podia deter.

Em 160 D.C., ficou claro que a saúde de Antonino Pio, aos 70 anos de idade, estava ruim. Naquele ano, Marco Aurélio e Lúcio Vero foram nomeados Cônsules.

No ano seguinte, em 07 de março de 161 D.C, em sua propriedade familiar situada em Lorium, na Etrúria, Antonino Pio convocou o Conselho Imperial e comunicou-lhes que entregava o Império e sua filha a Marco Aurélio. Horas depois, o imperador faleceu.

Novamente, a sucessão foi pacífica. Notavelmente, Marco Aurélio, ao receber todos os títulos, poderes e honrarias imperiais, solicitou ao Senado que Lúcio Vero, respeitando a vontade de Adriano, também deveria ser aclamado Imperador, o que foi obedecido.

Marco Aurélio manteve o costume de dar um donativo à Guarda Pretoriana, quando da ascensão de um novo imperador. Porém, a gratificação foi o dobro do que tinha sido dado em ocasiões anteriores, já que formalmente eram dois os príncipes que ascenderam ao trono.

Todavia, embora a Guarda tenha se mantido fiel durante o seu longo reinado, no futuro, a ganância dos Guardas em assegurar novos donativos seria causa de inúmeros assassinatos de imperadores. Assim, se por um lado podemos conjecturar  que Marco Aurélio tenha sido sábio em agradar a Guarda e assegurar a fidelidade dos soldados, por outro lado não é absurdo pensar que ele pode, impensadamente, ter estimulado futuras e reiteradas conspirações deles.

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(Busto de Lúcio Vero)

Logo no início do seu reinado, Marco Aurélio teve que desvalorizar o denário, reduzindo o percentual de prata na moeda. Não se sabe o motivo exato, mas é possível isso tenha sido causado pela necessidade de fazer frente aos crescentes gastos com campanhas militares.

Com efeito, desde o princípio, o reinado de Marco Aurélio seria afligido pela necessidade de travar guerras quase contínuas nas fronteiras, e, em pouco tempo, por uma terrível peste.

Os antigos acreditavam que os Deuses se divertiam com as agruras humanas e, depois de vinte anos de reinado calmo e pacífico de Antonino Pio, agora o Império Romano seria governado por um imperador adepto do Estoicismo, corrente filosófica que acreditava que a virtude era a única fonte de felicidade e que, por isso,  o homem-sábio deveria suportar as adversidades e tentar fazer aquilo que era o seu dever. E isso foi justamente o que Marco Aurélio nunca deixou de fazer enquanto imperador.

Ainda durante os últimos dias do reinado de Antonino Pio, o rei Vologeses IV, da Pártia, havia invadido a Armênia, que então era um reino-cliente de Roma, depondo o monarca e instalando no trono um aliado seu, Pacorus, no que constituía um evidente ato de hostilidade ao Império Romano. O governador da Síria, Severianus pensou que podia conter sozinho a ameaça e invadiu a Armênia, mas ele acabou sendo derrotado e morto pelo exército Parta, que dizimou a IX Legião Hispana. Naquela ocasião, Marco Aurélio já tinha assumido o trono.

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(Este grafito de um catafracto, um cavaleiro couraçado, o principal elemento das tropas do Império Parta, foi encontrado na cidade de Dura-Europos)

Diante da seriedade da ameaça, Marco Aurélio resolveu mandar seu colega Lúcio Vero em pessoa para assumir nominalmente o comando do Exército Romano na região, bem como dos reforços que foram enviados para a província ameaçada. Observe-se que, embora Lúcio Vero não tivesse qualquer experiência militar, a sua presença em Antióquia, que seria o quartel-general das operações, era uma afirmação imperial da importância da campanha.

Assim, Lúcio Vero, que, diga-se de passagem, durante a guerra pareceu mais preocupado em desfrutar os prazeres de Antióquia, estava assessorado pelos melhores generais de Roma, incluindo Avídio Cássio e Marco Cláudio Frontão.

Então, Marco Cláudio Frontão, comandando a  Legião I Minervia, em conjunto com a Legião V Macedonica, comandada por Públio Mátio Vero, conseguiu tomar a capital armênia, Artabata, em 163 D.C, e destronar Pacorus, reinstalando o aristocrata romano Gaius Julius Soahemus, um membro da elite senatorial romana, que tinha origem armênia e parta e também era membro da dinastia arsácida, no trono.

A capital da Armênia foi transferida, em 164 D.C., para a cidade de Kaine Polis, a apenas 50 km da fronteira romana. Em consequência, Lúcio Vero e Marco Aurélio foram saudados pelas tropas como Imperatores, o primeiro recebendo o título de “Armeniacus“.

Os Partas, enquanto isso, intervieram em Osroene, outro reino-cliente de Roma, na Alta Mesopotâmia, onde também instalaram outro aliado, mas o Exército Romano da Síria, reforçado por legiões do Danúbio, conseguiu igualmente expulsa-los, entre 164 D.C. e 165 D.C., capturando a capital de Osroene, a cidade de Edessa.

Os romanos começaram, em seguida, os preparativos para a invasão da Mesopotâmia, o coração do Império Parta.

Avançando pela Mesopotâmia, durante o ano de 165 D.C, os Romanos impuseram várias derrotas aos Partas, que recuaram para a estratégica cidade de Nisibis, que, no entanto, foi sitiada e capturada pelo Império Romano, na posse de quem ficaria durante várias décadas. Enquanto isso, a outra ala do Exército Romano, comandada por Avídio Cássio, infligiu outra derrota aos Partas na cidade de Dura-Europos.

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(Panorama da cidade de Dura-Europos, conquistada pelos Romanos)

No final do ano de 165 D.C., o exército de Avídio Cássio avançou pela Mesopotâmia e sitiou as cidades de Seleucia e Ctesifonte, a capital do Império Parta, que ficavam nas margens opostas do rio Tigre. Seleucia, cuja população era em grande parte de origem grega, abriu as portas para os Romanos, o que não os impediu de saqueá-la, para indignação de muitos contemporâneos . Já Ctesifonte foi tomada após um cerco, após o qual foi queimado o  palácio real dos Partas. Pela segunda vez, Lúcio Vero e Marco Aurélio foram saudados como Imperatores, e o primeiro recebeu o título de “Parthicus“.

A campanha prosseguiu e o exército romano invadiu a parte nordeste do Império Parta, com a invasão da Média e, por esse motivo, no ano seguinte, houve nova aclamação dos dois imperadores, tendo Lúcio Vero sido agraciado com o título de “Medicus“.

Todavia, a grande vitória obtida por Marco Aurélio Lúcio Vero no Oriente teria um imprevisível e terrível custo: As tropas romanas contraíram, segundo as fontes, na cidade de Seleucia, a chamada “Peste Antonina” (moléstia provavelmente originária da China e que hoje acredita-se ter sido uma epidemia de varíola ou de sarampo), trazendo a doença para o seio do Império Romano.

Em decorrência da Peste Antonina, que, acredita-se, tinha uma taxa de mortalidade de 25%, estima-se que 5 milhões de romanos morreram, sendo que, em alguns lugares, metade da população pereceu. E dentre os infectados estaria o próprio Lúcio Vero, que, no fim do ano de 168 D.C, teria contraído a doença, morrendo em 23 de janeiro de 169 D.C.

Mas outra campanha sangrenta, e muito mais prolongada, iniciou-se quando a guerra contra os Partas ainda não havia sequer se encerrado:

Já em 162 D.C., bárbaros germânicos das tribos dos Chauci e dos Catos tentaram invadir as províncias da Rétia e da Germânia Superior, sendo repelidos.

No final do ano de 166 D.C. e no início do ano seguinte, invasores Lombardos (lungobardi) cruzaram o Danúbio e invadiram a província da Panônia, mas também foram contidos por destacamentos da Legião I Adiutrix. Então, o governador da Panônia tentou negociar uma trégua com os representantes de onze tribos germânicas. Porém, naquele mesmo ano, os Vândalos, que faziam a sua primeira aparição na História Romana, e que ficariam célebres quase três séculos mais tarde, junto com os Iáziges, invadiram a província da Dácia e mataram o governador romano.

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A repentina pressão militar dos bárbaros germânicos nas fronteiras romanas, relativamente pacificadas, tinha como motivo uma onda migratória vinda do Báltico e da região do Vístula, quando os  belicosos Godos começaram a migrar para o sudeste da Europa, empurrando os povos daquela região em direção à fronteira romana do Reno/Danúbio.

O fato é que somente com o fim da campanha contra o Império Parta, Marco Aurélio e Lúcio Vero tiveram condições de organizar uma resposta compatível com a ameaça germânica, e, em 167 D.C, os romanos, com duas novas legiões formadas para a campanha, a Legião II Italica e a Legião III Italica, realizaram uma expedição punitiva na Panônia.

Entretanto, os bárbaros germânicos não paravam de chegar e, entre 167 e 168 D.C., um grande número de Marcomanos (literalmente, os “homens da fronteira”, na língua germânica), chefiados pelo líder Ballomar, acompanhados da tribo dos Quados, cruzaram o Danúbio, derrotaram um exército de 20 mil romanos em Carnuntum, e, rapidamente, chegaram ao norte da Itália, destruindo a cidade de Opitergium e sitiando a importante cidade de Aquileia.

Essa invasão foi um choque para os Romanos. Era a primeira vez, desde a incursão dos bárbaros Cimbros e Teutões, no final do século II A.C. (que, a muito custo, foram derrotados por Caio Mário,  em 101 A.C.), que a Itália era invadida por inimigos estrangeiros.

Nota: Os Marcomanos inicialmente viviam próximo à fronteira do Reno. Porém, com a expansão romana para a Gália e para a própria Germânia, a partir da época de Júlio César e, especialmente, depois da reação romana ao Desastre de Varo, no reinado de Tibério, aquele povo migrou para a região do Danúbio.  Então, no período dos Antoninos (Nerva – Marco Aurélio), começou a se verificar entre os Marcomanos, bem como em outros povos germânicos, o fenômeno da formação de confederações de tribos, com o consequente aumento do tamanho das forças militares e de sua efetividade contra as forças romanas.

Prosseguindo a narrativa, agora fazia-se necessária uma grande mobilização de tropas, que, contudo, seria dificultada pela falta de recrutas decorrente da Peste Antonina, que também grassava no exército, e a persistente necessidade de conter os Partas no Oriente.

Mas, enquanto pessoalmente liderava a resposta aos Marcomanos e Quados, junto com Lúcio Vero, Marco Aurélio teve que voltar para Roma para tratar do funeral do colega que, como vimos, morreu em janeiro de 169 D.C, provavelmente da Peste.

Já no outono de 169 D.C.,  Marco Aurélio, acompanhado de seu genro, Tibério Cláudio Pompeiano, retornou para a região do Danúbio para enfrentar os bárbaros Iáziges, uma tribo sármata, de origem iraniana, os quais haviam derrotado e matado o general Marco Cláudio Frontão, o herói da Guerra contra os Partas.

Entrementes, os Costoboci, um povo das montanhas dos Cárpatos, que viviam nas fronteiras da Dácia, também cruzaram a extensa fronteira do Danúbio e invadiram a província romana da Trácia, chegando até Eleusis, próximo a Atenas, onde destruíram o afamado templo dos Mistérios Eleusinos.

Assim, entre 170 e 171 D.C, todos os esforços de Marco Aurélio concentraram-se em expulsar os Marcomanos do território romano. Ele determinou a criação da Prefeitura da Itália e dos Alpes, com o objetivo de melhorar a defesa das passagens alpinas para a Itália e reforçou a frota fluvial do Danúbio. As tropas foram comandadas por Pompeiano e por Pertinace (que, muitos anos mais tarde seria imperador).

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Começaram então os preparativos para uma grande ofensiva contra os Marcomanos, que, inclusive, compreendeu a formação de alianças com outras tribos germânicas, como foi o caso dos Vândalos.

Em 172 D.C, os Romanos cruzaram o Danúbio e atacaram os Marcomanos em seu próprio território. No espaço de um ano os bárbaros foram subjugados e Marco Aurélio recebeu o titulo “Germanicus“.  Esta campanha está retratada nos relevos da famosa Coluna de Marco Aurélio. erguida em comemoração da vitória no Campo de Marte, em Roma.

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(Os soldados romanos cruzando o Danúbio sobre uma ponte de barcos, como retratado na Coluna de Marco Aurélio)

No ano de  173 D.C, o Exército Romano se voltou contra os Quados, que tinham apoiado os Marcomanos. Foi nesta campanha que ocorreu o chamado “milagre da chuva”, também retratado na Coluna de Marco Aurélio, ocasião em que as tropas romanas, cercadas pelos Quados em uma posição sem acesso à água, na época da seca, estavam passando muita sede, mas acabaram sendo salvas por uma súbita chuvarada.

O fato é que somente no final do ano seguinte os Quados seriam subjugados.

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(O “milagre da chuva”, retratado na Coluna de Marco Aurélio – a chuva aparece na forma de uma divindade antropomórfica)

Naquele mesmo ano de 173 D.C.,, Dídio Juliano, o comandante militar na Germânia que, bem mais tarde, também seria imperador, derrotou uma invasão dos Catos e Hermunduri na fronteira do Reno.

Ainda m 174 D.C, chegou a vez dos Iáziges experimentarem a vingança romana. Após uma campanha vitoriosa, os bárbaros assinaram um tratado de paz no ano seguinte, devolvendo os prisioneiros romanos e concordando em fornecer um contingente de oito mil cavaleiros para o Exército Romano, dos quais 5.500 foram assentados na Britânia. Por isso, Marco Aurélio recebeu o título de “Sarmaticus“(Nota: esse contingente de cavalaria sármata utilizava como estandarte uma cabeça de dragão estilizada, presa numa espécie de biruta de pano, chamada de “draconarius“. Segundo uma tese, esta seria a origem do sobrenome Pendragon, do lendário rei britânico Arthur, que muitos estudiosos defendem que teria sido na verdade um chefe militar romano que resistiu às invasões dos Anglos e Saxões, no século V D.C).

Aproveitando o sucesso da reação romana, parece que Marco Aurélio planejava instituir duas novas províncias romanas na região, que se chamariam “Marcomannia” e “Sarmatia“, após a derrota final dos bárbaros. E, de fato, ele vinha sendo bem sucedido na estratégia de isolar e derrotar as tribos uma a uma, não ostante tal estratégia demandasse mais tempo e consumisse mais recursos.

De qualquer modo, os planos de Marco Aurélio foram por água baixo quando chegou a notícia de que o general Avídio Cássio , comandante do  Exército Romano no Oriente havia se autodeclarado imperador , em maio de 175 D.C.

Avídio Cássio foi incentivado a tentar usurpar o trono quando ele recebeu a falsa notícia de que Marco Aurélio teria morrido de doença na campanha do Danúbio. Aliás, tudo indica que este boato foi aceito como verídico em boa parte do Império e Avídio Cássio, inicialmente,  recebeu o apoio das províncias orientais e do Egito. Há até uma versão de que Cássio teria sido incentivado a se rebelar pela própria imperatriz Faustina, que também havia acreditado no boato e temia pela sorte de seu filho Cômodo, que não havia completado 14 anos e portanto ainda não era legalmente adulto.

Marco Aurélio, que ao tomar ciência da rebelião estava acompanhado de Cômodo, a quem estava começando a introduzir nos assuntos de Estado, teve que abandonar a campanha contra os germânicos e rumar para o Leste.

Entretanto, a notícia de que o imperador estava vivo chegou primeiro às províncias orientais, e foi o próprio exército de Avídio Cássio que espontaneamente executou o seu comandante, com as tropas preferindo não embarcar em uma aventura incerta contra um imperador de tanto prestígio.

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(Cabeça de Cômodo adolescente)

O Imperador aproveitou a estadia no Oriente para visitar Atenas, onde ele e Cômodo se iniciaram nos Mistérios Eleusinos, Depois, Marco Aurélio visitou o Egito e voltou para Roma para celebrar seu muito merecido Triunfo, em 23 de dezembro de 176 D.C., na companhia do filho, ocasião em que, provavelmente, a Coluna de Marco Aurélio foi dedicada.

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Os problemas na fronteira do Danúbio, contudo, ainda não tinham sido completamente resolvidos e, em 177 D.CMarco Aurélio teve que retornar à região.

Ao contrário do que é retratado em filmes como “Gladiador” e “A Queda do Império Romano“, Marco Aurélio sempre pretendeu que Cômodo, o seu único filho homem sobrevivente, herdasse o trono. Ainda em 166 D.C., Cômodo havia recebido o titulo de “César’, que segundo os costumes imperiais significava algo próximo a “príncipe-herdeiro”. 

Em 177 D.C., para não restar nenhuma dúvida a quem quer que fosse, sobretudo após a rebelião de Avídio Cássio, Marco Aurélio deu a Cômodo o título de “Augusto”, tornando-o, de direito, Co-Imperador. Seria apenas a segunda vez, na História do Império Romano, que um filho natural sucederia ao pai, tendo sido Tito o primeiro.

Durante o ano de 178 D.C.,  o Exército Romano obteve diversas vitórias no Danúbio e o ano de 179 D.C. parece ter sido dedicado a uma grande preparação para uma ofensiva decisiva contra os bárbaros da região.

Infelizmente, em 17 de março de 180 D.C., aos 58 anos de idade, Marco Aurélio faleceu, provavelmente de causas naturais, ou de doença, na cidade de Vindobona (atual Viena, na Áustria). Ele passara os últimos 10 anos lutando contra os Marcomanos, Quados e outros bárbaros na fronteira do Danúbio.

Mesmo admitindo-se que tenha sido providenciado a Marco Aurélio todo o conforto a que um imperador romano fazia jus, ninguém discute que ter passado esse tempo todo afastado de Roma, na fria, inóspita e distante província da Panônia, foi uma prova de dedicação e amor ao dever impressionante para um homem cuja aptidão maior sempre tinha sido a filosofia e a literatura (Não é a toa que a representação mais famosa de Marco Aurélio, a sua soberba estátua equestre originalmente dourada, hoje guardada no Museu Capitolino, em Roma, mostre o imperador em trajes civis).

Não obstante, na Coluna de Marco Aurélio, o imperador é retratado recebendo a submissão de bárbaros derrotados ou observando suas cabeças decepadas.. Certamente, Marco Aurélio deve ter se valido dos ensinamentos estoicos para suportar cenas tão díspares do seu jeito afável de ser.

Para Marco Aurélio, antes de tudo vinha o dever.

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Foi durante o período em que ele liderou a Guerra contra os Marcomanos que Marco Aurélio escreveu, em grego, a sua obra mais famosa, as “Meditações“,  em 12 livros, enquanto residia em Aquincum (cidade romana fortificada, no perímetro urbano da atual Budapeste, Hungria) e Carnuntum, local de uma fortaleza romana, na atual Áustria. Esse clima é, de fato,  muito bem retratado nos filmes “Gladiador” e “A Queda do Império Romano“.

O nome da obra foi dado posteriormente, sendo que o melhor título, segundo o que se depreende do que Marco Aurélio escreveu nos seus cadernos, seria “Pensamentos para mim mesmo“.

A linha mestra que conduziu as Meditações, segundo o próprio Marco Aurélio, foi a ideia de que a pessoa “tem o poder de se despir de vários problemas superficiais localizados inteiramente na mente dela e de possuir um grande espaço para ela mesma abraçar em pensamento todo o Cosmos, de levar em consideração a eternidade, de pensar nas rápidas mudanças nas partes de cada coisa e de quão pouco tempo há do nascimento até a morte, e de como o vazio que existe antes do nascimento e depois da morte é igualmente infinito“.

Cássio Dião,  que, juntamente com a História Augusta e as cartas de Frontão, é a melhor fonte sobre o reinado de Marco Aurélio, ao terminar o seu texto sobre este imperador, escreveu:

Marcus não encontrou a boa sorte que ele merecia, pois ele  não era dotado de um físico vigoroso e se viu envolvido em um turbilhão de problemas durante praticamente todo o seu reinado. Mas, na parte que me toca, eu o admiro ainda mais por essa razão, já que, em meio a dificuldades incomuns e extraordinárias, ele conseguiu sobreviver e preservar o Império. Somente uma coisa o impediu de ser completamente feliz, nomeadamente, que, após cuidar e educar o seu filho da melhor forma possível, ele tenha se decepcionado tanto com ele. Esse assunto será nosso próximo tópico; pois agora nossa História desce de um reinado de ouro para um de ferro e ferrugem, como as coisas se tornariam para os Romanos daqueles dias.

Com efeito, das poucas críticas que os historiadores antigos e modernos fizeram a Marco Aurélio, encontra-se a escolha de Cômodo como sucessor. Porém eu entendo a crítica como injusta. Não há muitos indícios de que Cômodo, antes de assumir o trono, tenha dado demonstrações de que ele fosse incapaz para governar. Aos 18 anos, o mais provável é que Marco Aurélio esperasse que bons conselheiros e professores dessem ao rapaz a orientação necessária para ser um bom imperador e um bom homem, como tinha ocorrido com ele próprio, Marco Aurélio.

Escolher uma outra pessoa, como por exemplo, um general capaz como Tibério Cláudio Pompeiano, que, aliás, foi a maior inspiração para o personagem fictício Maximus Decimus Meridius, do filme “Gladiador”, no lugar de Cômodo, além de significar, na prática, condenar o próprio filho à morte, significaria, caso este não fosse executado pelo sucessor, uma perpétua fonte de potenciais guerras civis, enfraquecendo ainda mais o Império em um momento crucial.

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Infelizmente, Cômodo realmente mostrou-se não ser o governante talhado para a situação corrente do Império Romano. Com efeito, assim que o pai morreu, ele negociou uma paz com as tribos do Danúbio e voltou às pressas para Roma, onde ele celebrou um imerecido Triunfo, em outubro de 180 D.C. Cômodo negligenciaria os assuntos militares e a política externa durante todo o seu reinado e isso contribuiria, décadas mais tarde, para as catástrofes que se abateriam sobre o Império, no século III D.C.

A outra crítica foi feita pelos historiadores cristãos, que denunciaram as perseguições ocorridas no reinado de Marco Aurélio. Quanto a isso, não parece ter havido mudança na política seguida pelo Império com relação ao Cristianismo. O que pode ter havido é o aumento de processos e prisões em virtude do aumento do número de cristãos. O Estado Romano intervinha nessas questões muito por demanda dos cidadãos espalhados pelas cidades. A principal preocupação era a manutenção da ordem, que, de quando em quando era afetada pelos conflitos entre as autoridades locais e os cristãos, entre estes e outras religiões ou entre os próprios cristãos. Como normalmente não participavam dos cultos públicos ligados à Roma e ao Imperador, as autoridades romanas normalmente tomavam partido contra os cristãos. E no reinado de Marco Aurélio não foi diferente.

É instigante verificar que os problemas enfrentados por Marco Aurélio foram muito semelhantes aos que se abateriam sobre o Império Romano durante a “Crise do Século III”: guerra em dois fronts contra germanos e partas/persas. Há vários indícios de que ambos os antagonistas, ocidentais e orientais, tenham se tornado mais temíveis 50 anos depois: Godos, Alamanos, Saxões, etc., mais numerosos e militarmente capazes do que Marcomanos e Quados, o mesmo aplicando-se aos Persas Sassânidas, mais coesos, treinados e determinados que os Partas.

Fosse Marco Aurelio imperador no século III será que ele teria conseguido conter essa ameaça? É difícil concluir.

E se Cômodo tivesse seguido o exemplo do pai e tivesse concluído a campanha no Danúbio, será que isso teria contribuído para evitar ou atenuar a Crise do Século III? São questões que merecem nossa reflexão. É certo que as migrações germânicas estavam fora do alcance dos romanos e Marco Aurélio experimentou inicio dessa avalanche . Mas é certo que a chegada de novas tribos não devia obliterar as já estacionadas na fronteira e parece que com o tempo havia uma fusão ou absorção. Estar no controle da região e ter assimilado ou exterminado as tribos naquele momento poderia ter mudado a correlação de forças no futuro, quando os Godos chegaram. Haveria algumas décadas para um grau de romanização…

Seja como for, o retrato de Marco Aurélio que sobreviveu para a posteridade foi a de um genuíno imperador-filósofo, como preconizado por Platão, no livro VI da “República“.

 

 

 

 

 

AVE, GEORGIOS!

AVE, GEORGIOS!

Em 23 de abril de 303 D.C, um soldado romano chamado Georgios foi executado por ordens do Imperador Romano Diocleciano.

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Diocleciano havia ordenado que todos os soldados do Exército Romano oferecessem um sacrifício aos deuses do panteão tradicional de Roma e aqueles que se recusassem deveriam ser presos.

Georgios (Jorge), segundo a hagiografia e a tradição cristã seria filho de Gerontius, um oficial romano da ilustre família senatorial dos Anícios, e Pollycronia, uma súdita romana de Lydda, atual Lod, em Israel, então situada na província romana da Síria Palestina. Segundo outro relato, Gerontius seria natural da Capadócia. De qualquer modo, as fontes acordam que Jorge cresceu em Lydda e que sua família era cristã.

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(Mosaico romano descoberto em Lod, Israel)

Seguindo a carreira do pai, Jorge se alistou na guarda imperial, servindo na corte de Diocleciano em Nicomédia (atual Izmit, na Turquia), que havia sido elevada pelo imperador à condição de capital imperial, no recém-criado sistema da Tetrarquia.

Jorge acabou sendo promovido ao posto de Tribuno, posto que hoje seria equivalente ao de coronel. Quando Diocleciano publicou seu Édito exigindo que os soldados cristãos renunciassem ao cristianismo, Jorge anunciou publicamente, perante as tropas formadas na presença do Imperador, sua devoção a Jesus Cristo.

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O Imperador, que apreciava Jorge tentou convencê-lo de várias formas a obedecer o Decreto, até oferecendo-lhe terras, dinheiro e escravos, mas Jorge manteve-se irredutível.

Sentindo-se obrigado a reforçar a obediência ao seu Édito, Diocleciano ordenou que Jorge fosse torturado em uma roda de afiadas espadas. Após este suplício, Jorge foi decapitado em frente às muralhas de Nicomédia, em 23 de abril de 303 D.C. Seu corpo foi levado para Lydda e logo se tornou foco de devoção como relíquia de umt mártir cristão. Ainda segundo a tradição, a imperatriz Alexandra, esposa de Diocleciano, ao assistir o martírio de Diocleciano, converteu-se ao cristianismo, motivo pelo qual ela também foi executada e, posteriormente, canonizada.

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(Panorama de Izmit, a antiga Nicomédia, na Turquia)

A associação de São Jorge ao dragão parece ter sido recolhida e trazida à Europa pelos cruzados no Oriente Médio (algumas populações islamizadas inclusive mantiveram a veneração a São Jorge na região).

Segundo a lenda, na cidade de Sylene (que poderia ser Cirene, na Líbia ou, segundo alguns, seria a própria Lydda), um dragão ( originalmente um crocodilo) viveria na fonte de água potável dos habitantes, que eram obrigados a oferecer ao monstro uma ovelha para sacrifício, até que, na falta dos animais, eles foram forçados a oferecer uma virgem. A donzela orou pedindo proteção e São Jorge apareceu e matou o dragão, motivo pelo qual todos os habitantes se converteram ao cristianismo.

Jorge foi canonizado pelo Papa Gelásio I, em 494 D.C. Embora o santo fosse conhecido no Ocidente, a sua popularidade chegou ao ápice com o retorno à Europa dos cruzados, que atribuíram à intervenção de São Jorge várias vitórias obtidas na Terra Santa. Por influência deles, São Jorge acabou virando o santo patrono da Inglaterra, de Portugal, da Geórgia, da Romênia e de Malta. A imagem de São Jorge matando o dragão também compõe a Cota de Armas da Federação Russa.

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CARACALA – UM IMPERADOR PARA OS SOLDADOS

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Nascido a 4 de abril de 188 D.C, em Lugdunum, na província da Gália (atual Lyon), com o nome de Lucius Septimius BassianusCaracala era o filho mais velho do imperador Septímio Severo e da imperatriz Júlia Domna.

Severo foi o primeiro imperador romano que não descendia de uma família de origem italiana (ao menos por parte de pai,) pois a sua tinha origem púnica ou berbere, nativa da cidade de Leptis Magna, na atual Líbia. Porém, a família ascendera à classe Equestre, e dois primos de Severo já tinham ocupado o consulado durante o reinado do imperador Antonino Pio.

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(Septímio Severo, pai de Caracala)

Já a mãe de Caracala, a imperatriz Júlia Domna, uma mulher admirada por sua beleza e inteligência, era filha de Julius Bassianus, sumo-sacerdote do Templo do deus Elagábalo (El-Gabal), em Emesa (moderna Homs), na Síria, e membro da dinastia dos Sempseramidas, governantes daquela cidade, que era a capital de um reino-cliente de Roma, que depois foi anexada pelo Império.

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(Júlia Domna, mãe de Caracala)

Cinco anos após o nascimento de Caracala, em 193 D.C, seu pai Septímio Severo se tornaria imperador e reinaria até 211 D.C. Severo queria fazer crer que era filho ilegítimo do finado imperador Marco Aurélio e, por isso, além  de acrescentar o nome deste imperador ao seu, mudou o nome de Caracala para Marcus Aurelius Severus Antoninus Augustus, numa tentativa de legitimar a si e a sua prole como continuadores da bem-sucedida dinastia dos Antoninos, que terminara de fato com o assassinato do imperador Cômodo.

O apelido Caracala surgiu porque Lucius Septimius Bassianus gostava muito de usar um manto com capuz, de origem gaulesa, chamado de “Caracalla“.

Severo, desde cedo, demonstrou que não iria reviver o costume dos Antoninos, que fora interrompido com a nomeação de Cômodo por seu pai, Marco Aurélio, de se escolher, como herdeiro e sucessor do imperador, o homem público  mais apto, e não o próprio filho biológico.

Assim, em 196 D.C, Caracala foi nomeado “César” (título equivalente ao de príncipe-herdeiro) e, no ano seguinte, ele seria reconhecido como “Augusto“, tornando-se de direito co-imperador junto com seu pai, embora ele tivesse apenas 9 anos de idade.

Em 202 D.C, Severo concordou em casar Caracala com Plautila, filha do seu primo e conterrâneo, o poderoso Prefeito Pretoriano Plauciano.

Caracala odiava o sogro e a esposa e, após o seu casamento, recusou-se a ter qualquer relacionamento com Plautila. Na verdade, consta que Caracala teria chegado a prometer que, quando se tornasse imperador, daria cabo de ambos, o que pode ter levado Plauciano a conspirar contra Severo, ou, ao menos, esse foi o pretexto que Caracala usou para conseguir a queda e execução do sogro e o exílio de Plautila, em 205 D.C.

Parece que Severo pretendia ser sucedido, após a sua morte, conjuntamente por Caracala e por seu filho mais novo, Geta, que era um ano mais novo do que o irmão e foi nomeado César em 198 D.C e, posteriormente, Augusto em 209 D.C.

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(Uma das poucas imagens de Geta que sobreviveram à Damnatio Memoriae ordenada por Caracala)

Os dois irmãos destacavam-se pela dissolução dos costumes, promovendo orgias, e, igualmente, pelo ciúme e ódio que nutriam um pelo outro.

Segundo as fontes antigas, Severo, enquanto encontrava-se em campanha contra os Caledônios na Britânia, caiu gravemente enfermo, e, pressentindo que ia morrer, mandou chamar Caracala e Geta, para dar-lhes a notícia e um derradeiro conselho para o futuro reinado de ambos, que foi este:

Não briguem entre si, deem muito dinheiro aos soldados e desprezem todos os outros“.

No dia 4 de fevereiro de 211 D.C, em Eboracum (atual York), Severo morreu. No mesmo dia, Caracala e Geta foram aclamados imperadores pelas tropas. Ambos decidiram imediatamente interromper a campanha e voltar para Roma.

Porém, a animosidade entre os irmãos-imperadores era tanta que o Palácio teve que ser dividido em dois, e, mesmo assim, não satisfeitos, eles chegaram a cogitar seriamente em dividir o Império Romano em duas metades, cem anos antes de Constantino, que tomou a medida por motivos muito mais relevantes.

Não demorou muito para que Caracala colocasse em prática um plano para se livrar do irmão.  Assim, simulando um falso desejo de reconciliação, ele persuadiu Júlia Domna a convocar um encontro ente ele e Geta. Quando Geta chegou na ala do Palácio ocupada pela mãe,  um grupo de membros da Guarda Pretoriana fiéis a Caracala esfaquearam-no, e Geta morreu nos braços de Júlia Domna, em dezembro de 211 D.C.

Não satisfeito em mandar matar Geta, Caracala quis também eliminar qualquer referência histórica ao irmão, ordenando a sua “Damnatio Memoriae“. Em decorrência, a imagem de Geta deveria ser apagada de qualquer monumento público, o que efetivamente foi feito, como se pode ver em uma famosa pintura que chegou até os nossos dias,  proveniente do Egito, onde o retrato de Geta, ainda criança, junto da família imperial, foi apagado.

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(Painel de madeira pintada com os retratos de Septímio Severo, Júlia Domna e Caracala, ainda criança. A imagem de Geta foi apagada, em obediência à Damnatio Memoriae).

Caracala, que, logo no primeiro ano de reinado, decidira não obedecer o primeiro conselho do pai, matando o irmão, entretanto seguiria à risca o segundo conselho, aumentando em 50% o soldo dos legionários. Não satisfeito, o imperador foi além e passou a cortejar os soldados, marchando junto com eles, comendo com eles o mesmo rancho, e até mesmo moendo grãos para fazer a farinha para o rancho.

Também no início do seu reinado, Caracala ordenou a construção de um gigantesco complexo de banhos públicos, que ficariam conhecidos como as “Termas de Caracala” e seriam as maiores já construídas em Roma,  até a construção das Termas de Diocleciano, 90 anos mais tarde.

Em 213 D.C., Caracala teve que deixar Roma para ir combater os bárbaros Alamanos, que ameaçavam a fronteira da Raetia (província que fazia fronteira com a Germânia, compreendendo parte da atual Suíça e do estado alemão da Baviera, entre outras regiões). Os bárbaros foram contidos e Caracala aproveitou para reforçar as defesas do território romano dos Agri Decumates).

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(Reconstrução em maquete das Termas de Caracala)

Porém, os gastos com os soldados e com as Termas obrigariam Caracala a desvalorizar o denário e a aumentar os tributos, tornando a sua figura, que já era antipática por natureza, detestada pela maioria do povo, e,  sobretudo, pelo Senado, que também frequentemente era desrespeitado por ele. Portanto, podemos dizer que o terceiro conselho de Severo: “desprezar todos os outros‘”, também estava sendo obedecido por Caracala

A principal medida legal do reinado de Caracala foi a promulgação da “Constitutio Antoniniana“, em 212 D.C,  lei também conhecida como Édito de Caracala, concedendo a cidadania romana a todos os homens livres do Império Romano. Contudo, mais do que uma medida democrática ou inclusiva, o real objetivo de Caracala era aumentar a base tributária, já que alguns tributos somente incidiam sobre cidadãos romanos.

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(Papiro com o texto da Constitutio Antoniniana, que sobreviveu até os nossos dias)

Segundo Cássio Dio, para inspirar temor nos seus súditos, Caracala gostava que a propaganda imperial  divulgasse uma imagem dele como um governante temível e implacável , e, de fato, todos os retratos que sobreviveram dele mostram exatamente essa expressão.

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Caracala admirava muito Alexandre, o Grande e, tentando emular o seu ídolo, o imperador promoveu uma campanha contra os Partos. E a fascinação de Caracala com o rei da Macedônia foi tanta que ele chegou a criar uma unidade militar com o nome de Phalangiari, imitando as falanges macedônicas que tinham dado tantas vitórias a Alexandre.

Enquanto Caracala, ausente de Roma, conduzia a campanha contra os Partos, quem se tornou a virtual governante da Cidade foi sua mãe, Júlia Domna. Com ela, começaria uma tendência que caracterizaria a dinastia dos Severos: a predominância das mães dos imperadores como eminências pardas e governantes de fato do Império, o que se acentuou durante os reinados de Elagábalo e de Severo Alexandre.

Entretanto, no dia 8 de abril de 217 D.C, o Imperador Caracala mandou parar sua comitiva, que marchava da cidade de Edessa para dar andamento à guerra contra a Pártia.

A parada, que ocorreu próximo à cidade de Carras (atual Harran, no sul da Turquia), tinha um motivo bem prosaico: o imperador estava com vontade de urinar…

Caracala afastou-se da comitiva, seguido, apenas, de seu guarda-costas Julius Martialis, que, aparentemente, guardava a distância necessária à privacidade do imperador.

De repente, o líquido amarelo que escorria pelo chão em decorrência do alívio da necessidade fisiológica do imperador, começou a ficar vermelho…

Martialis tinha acabado de atravessar o corpo de Caracala com o seu gládio com um golpe mortal. Os outro guardas perceberam o crime e Martialis tentou fugir, mas foi abatido por uma flecha de um arqueiro. Acredito que esta ação foi uma queima de arquivo, já que o principal suspeito de ter sido o mandante do crime era o Prefeito da Guarda Pretoriana, Macrino, que acabou se tornando o sucessor de Caracala no trono.

Todavia, Macrino logo seria substituído pelo primo de Caracala, Elagábalo, em uma revolta urdida pela sua tia, Júlia Maesa, que se valeu da enorme riqueza e dos contatos dos Sempseramidas na Síria, uma das províncias mais ricas do Império, para subornar o poderoso exército romano naquela província.

Caracala é considerado um dos muitos “maus imperadores” romanos, não apenas para os historiadores antigos, mas também por Edward Gibbon e a maioria dos historiadores modernos. Após a sua morte, ele continuaria popular entre os soldados, os únicos romanos que ele se preocupou em agradar.

PERTINACE E O ANO DOS CINCO IMPERADORES

Em 28 de março de 193 D.C, o Imperador Romano Pertinace devia estar ansioso para que o mês,  no qual já tinham ocorrido tantos acontecimentos funestos, acabasse logo. Mas, de repente, os pensamentos do imperador foram interrompidos pela gritaria dos servos do Palácio e pelo barulho de sandálias militares, o que só podia significar uma coisa…

Nascido em 1º de agosto de 126 D.C., na cidade de Alba Pompéia, no atual Piemonte, Publius Helvius Pertinax (Pertinace), segundo a História Augusta,  era filho de um escravo liberto da Ligúria, de nome Helvius Successus, que ganhava a vida como comerciante de madeira. O comércio não deve ter deixado Helvius rico, pois, segundo as fontes, seu filho Pertinace teve que trabalhar como “grammaticus” (professor que ensinava literatura e noções de oratória para crianças mais velhas e adolescentes).

Entretanto, sabendo-se que os historiadores que escreveram a História Augusta algumas vezes inventaram detalhes para enriquecer a biografia dos imperadores, esta narrativa deve ser vista com alguma cautela. Cássio Dião, um historiador mais respeitado, por exemplo,  apenas escreveu que o pai de Pertinace não era de origem nobre

Em algum momento de sua juventude, Pertinace deixou a profissão de professor e, com o patrocínio do ex-Cônsul (144 D.C) Lollianus Avitus, de quem seu pai devia ser cliente, entrou para o Exército, alcançando o posto de Prefeito de uma Coorte (unidade que compõe uma legião).

Sabe-se que Pertinace serviu na Síria, onde, inclusive, ele recebeu uma punição pela infração de usar o “cursus publicus” (sistema de estradas e postos de montaria) destinado ao governador daquela província sem autorização, tendo sido lhe aplicada a punição de que voltasse a pé de Antióquia até o local onde sua unidade estava estacionada!

Já segundo a versão de Cássio Dião,  o patrono de Pertinace no Exército teria sido Tibério Cláudio Pompeiano, general e genro do imperador Marco Aurélio. Vale observar que a versão da História Augusta, no que tange à carreira de Pertinace, é mais completa.

Não obstante, o fato é que, na vitoriosa guerra contra os Partas, que ocorreu entre 161 e 166 D.C, no reinado do Imperador Marco Aurélio, servindo sob o comando do co-imperador Lúcio Vero e de Pompeiano, Pertinace se destacou e foi galgando postos no Exército Romano.

Posteriormente, já na década de 170 D.C, Pertinace foi nomeado comandante da Legião XX Valeria Victrix, na Britânia e, depois disso, comandante da Flotilha do Reno e Procurador da Dácia,  cargo equivalente ao de governador.

Foi nessa época que Pertinace também entrou no Senado Romano, onde ele foi alvo de intrigas palacianas que o prejudicaram aos olhos da Corte, mas acabou sendo reabilitado devido à guerra que Marco Aurélio travava com os Marcomanos. E, em decorrência do seu bom desempenho nesta campanha, Pertinace foi nomeado Consul Suffectus em 175 D.C.

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Posteriormente, ainda no reinado de Marco Aurélio, Pertinace foi nomeado governador das províncias da Moésia Inferior, da Dácia e da Síria.  Eu acredito que o motivo de Pertinace ser estimado pelo letrado Marco Aurélio deveu-se não apenas aos talentos militares dele, mas também pela sua formação de professor.

Quando Cômodo tornou-se imperador, porém, Pertinace foi novamente alvo de intrigas, agora por parte do Prefeito da Guarda Pretoriana Tigidius Perennis, que tentou implicá-lo em uma conspiração contra o Imperado. Esse fato levou Pertinace, em 182 D.C, a deixar a vida pública, voltando para a Ligúria, onde o seu pai tinha adquirido uma loja de roupas, lá ficando por 3 anos.

Mais uma vez, contudo, Pertinace conseguiu voltar às boas graças com o monarca reinante e ele foi nomeado, de 185 a 187 D.C, Governador da Britânia. Nesta província, porém, Pertinace teve que enfrentar o motim de uma legião, quando um grupo de soldados atacou os seus guarda-costas e feriu o próprio Pertinace, que chegou a ser dado como morto.

Quando Pertinace conseguiu recuperar-se dos ferimentos, ele reuniu os soldados fiéis e puniu severamente os revoltosos, ganhando a fama de disciplinador implacável. Apesar disso, o clima de tensão com a tropa continuou e, em 187 D.C, Pertinace deixou a Britânia.

No ano seguinte, Pertinace foi nomeado Governador da África.

Já em 189 D.C, Pertinace foi escolhido para ser o Prefeito Urbano de Roma, um cargo muito importante e que o colocava em contato direto com o Imperador Cômodo. Naquele mesmo ano, ele foi nomeado Cônsul, tendo como colega de consulado o próprio imperador, o que era considerado uma grande honraria.

No início da década de 190, estava ficando claro para a elite romana que Cômodo estava perdendo a sanidade mental, pois juízo e compostura sempre lhe faltaram…

De fato, face aos repetidos desmandos de Cômodo, a expectativa era que alguém tomasse a iniciativa de montar uma trama para acabar com os desmandos do imperador.

Assim, segundo a História Augusta,  as pessoas que tomaram para si a tarefa de se livrar de Cômodo foram: o Prefeito Pretoriano Quintus Aemilius Laetus, Márcia, a amante do imperador, e o seu camareiro Eclectus. A urgência surgiu quando eles descobriram que figuravam em uma lista de pessoas a serem executadas a mando de Cômodo,

Assim, os conspiradores assassinaram Cômodo enquanto este tomava banho, em 31 de dezembro de 192 D.C. O nome de Pertinace não é mencionado expressamente na lista de conspiradores, porém, a ação que ele tomaria em seguida, é um indício de que dificilmente ele ignoraria esta trama, e, provavelmente, devia ser participante.

Com efeito, imediatamente após o assassinato de Cômodo, Pertinace se dirigiu ao acampamento da Guarda Pretoriana e prometeu uma doação aos soldados, sendo aclamado imperador. A aclamação dele foi aprovada entusiasticamente pelo Senado, que, tudo indica, também tinha tomado parte na trama.

Consequentemente, em 1º de janeiro de 193 D.C, e, até onde se sabe, pela primeira vez na Historia de Roma, o filho de um liberto se tornava imperador, com o nome de Publius Helvius Pertinax Augustus, aos 66 anos de idade (tornando-se, até então,  a pessoa mais velha a assumir o trono romano, com exceção de Galba).

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Pertinace adotou uma série de medidas populares a partir de sua coroação, revogando algumas leis tirânicas ou insensatas de Cômodo.

Todavia, quando Cômodo morreu, só havia um milhão de sestércios no Tesouro do Estado e Pertinax teve muita dificuldade para pagar o donativo prometido aos Pretorianos. Ele, inclusive, teve que vender várias propriedades e escravos de Cômodo para poder reunir o dinheiro.

Segundo o historiador Cássio Dião, ele mesmo um senador que foi contemporâneo de Pertinace no Senado Romano, o reinado de Pertinace havia começado de modo promissor, porém, ele, esquecendo-se de que seu poder dependia da precária boa-vontade dos Pretorianos, tentou revogar os imensos privilégios que Cômodo havia-lhes conferido durante o seu reinado…

Não obstante, Pertinace deve ter percebido que sua posição no trono não era muito segura, pois ele recusou que a sua esposa, Flávia Titiana, recebesse o título de Augusta e ainda mandou o seu filho ir morar com o avô, e não, como seria de se esperar, com ele, no Palácio.

Pertinace deve ter entendido que o reinado dele deveria seguir a “raison d’etre do principado de Nerva, que não tinha filhos e era idoso ( ele foi coroado com 65 anos), sendo visto por todos como um imperador transitório, originário do Senado, o que explica a sua tentativa de afastar a sua família da Corte. Seja como for, a medida foi sensata, pois essa providência permitiu que, mais tarde, eles fossem poupados.

Contudo, Pertinace nomeou seu sogro, o senador e ex-cônsul Tito Flávio Cláudio Sulpiciano, Prefeito Urbano do Roma.

Nota: Acredita-se que Sulpiciano possa ser filho de Tito Flávio Titianus e de Flávia Domitila. Nesse caso, o pai de Sulpiciano era filho de Tito Flávio Clemente, sobrinho do imperador Vespasiano e primo dos imperadores Tito e Domiciano, e a mãe de Sulpiciano seria neta de Vespasiano.  Vale citar, assim, que o avô  da esposa de Pertinace,  o qual foi executado sob acusação de ateísmo,  pode ter sido cristão e seria, na verdade,  o santo católico conhecido como São Clemente. E a sua mãe,Domitila, seria a Santa Domitila dos cristãos.

O fato é que quando março chegou, sendo este apenas o terceiro mês do reinado de Pertinace,  ele teve que enfrentar a primeira tentativa de golpe. Assim, quando ele  estava no porto de Óstia inspecionando o embarque de grãos para Roma, alguns Pretorianos procuraram o cônsul Quintus Sosius Falco, propondo-lhe o cargo de Imperador caso aceitasse participar de uma conspiração contra Pertinace. Segundo o plano, Falco, após a morte de Pertinace, seria levado ao quartel da Guarda Pretoriana e aclamado. Pertinace, porém, avisado a tempo por um escravo, voltou à Roma e fez um discurso no Senado denunciando a conspiração. Alguns senadores propuseram condenar Falco à morte e declará-lo inimigo público, porém o imperador disse: “Não permitam os céus que algum senador seja executado durante o meu reinado” e Falco foi perdoado. Na História Augusta, é relatada também a versão de que Falco ignoraria a trama dos Pretorianos, que teria sido feita à sua revelia.

De acordo com Cássio Dião, Pertinace, na referida sessão do Senado, teria irritado os Pretorianos quando disse aos senadores que ele havia lhes pago o mesmo donativo que Marco Aurélio tinha pago quando de sua ascensão ao trono. O motivo da indignação seria o fato de que, na verdade, Pertinace tinha dado aos Pretorianos 12 mil sestércios, em comparação com os 20 mil sestércios que os soldados receberam de Cômodo. Além disso, conta-se que Pertinace mandou executar alguns Pretorianos pelo golpe falho envolvendo Falco, o que também desagradou os soldados.

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Seja como for, essa alusão de Pertinace à questão dos donativos em seu discurso acerca da rebelião de Falco, e a reação zangada dos Pretorianos, mostram que eles deviam estar bem insatisfeitos com a recompensa que receberam por terem elevado Pertinace ao trono.

Assim, não deve ter sido surpresa, nem para as mentes mais ingênuas, quando, em 28 de março de 193 D.C, um bando calculado entre 200 e 300 Pretorianos se dirigiu ao Palácio. O Prefeito Pretoriano Laetus não interceptou os soldados e Pertinace, apesar de avisado da aproximação do grupo, decidiu ficar no Palácio, que já estava sendo invadido, sem que nenhum de seus guarda-costas oferecesse qualquer oposição.

Dizem as fontes que Pertinace ainda poderia ter fugido, mas ele preferiu ir em direção ao grupo e fazer-lhes um inflamado discurso reprovando a conduta deles , o que causou um grande efeito, levando a maioria dos soldados a baixarem os olhos.

Porém, um certo Tausius, um soldado de origem germânica, insatisfeito,  gritou com os seus camaradas e atirou uma lança no peito de Pertinace, que caiu e foi golpeado por vários outros soldados. Em seguida, a cabeça de Pertinace foi cortada e desfilada por Roma na ponta de uma lança.

Depois da morte de Pertinace, ocorreu um dos mais vergonhosos episódios da História de Roma: Os Pretorianos saíram pela cidade de Roma em busca de candidatos para quem pudessem vender o trono imperial.

Um grupo de Pretorianos levou para o Quartel da Guarda o Prefeito Urbano Sulpiciano, com quem começaram a negociar o preço. Logo em seguida, trazido por outro grupo, chegou o senador Dídio Juliano, que, ouvindo tudo, começou a fazer, ainda do lado de fora dos muros, as suas ofertas. O triste espetáculo transformou-se em um verdadeiro leilão, no qual Dídio Juliano acabou saindo vitorioso.

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Porém, nem o povo, nem o Senado aceitaram a forma abjeta com que Dídio Juliano havia obtido o trono e ele começou a ser vaiado em público, quando comparecia a jogos, cerimônias ou espetáculos. Em um desses eventos, o povo chegou a aclamar o governador da Síria, o general Pescênio Niger, imperador.

Logo, os generais Clódio Albino, Septímio Severo e Pescênio Niger seriam aclamados imperadores, cada um pelas respectivas legiões, e a Guarda Pretoriana, com medo da punição aos seus crimes, abandonou Dídio Juliano.

Quando Septímio Severo invadiu a Itália, o Senado condenou Dídio Juliano à morte e reconheceu-o como novo imperador. Dídio Juliano foi executado por um soldado, em 1º de junho de 193 D.C., antes mesmo de Severo entrar em Roma

Senhor absoluto de Roma (mais tarde ele se livraria dos rivais Niger e Albino nas províncias), Septímio Severo ordenou a execução dos assassinos de Pertinace e fez com que o Senado  “deificasse” o antecessor. Severo também decretou que as datas de nascimento e de ascensão de Pertinace ao trono fossem incluídas no calendário de festejos romanos (e elas ainda constavam do célebre calendário do ano de 354 D.C, de Filócalo), recuperou a cabeça e o corpo de Pertinace, que foram objeto de um funeral estatal, e, honra suprema, incorporou o nome de “Pertinax” ao seu próprio nome imperial.

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Pertinace, apesar de reinar por apenas 86 dias, havia sido um governante popular e respeitado.

Severo, inicialmente, resolveu compor com Clódio Albino e lhe deu o título de “César”, o que implicava em um reconhecimento do seu direito de herdar o trono.

CONCLUSÃO

Pertinace granjeou a fama de ter sido um bom imperador e que poderia ter restaurado os bons tempos da dinastia dos Antoninos. Parece que o Senado o escolheu com intuito parecido com  o que ensejou a nomeação de Nerva: um senador respeitado e de idade avançada para um reinado de transição,  que não instauraria uma dinastia, pois enquanto Nerva não tinha filhos, Pertinace tinha deixado claro que não associaria o seu filho ao governo.

O exemplo de Nerva foi bem sucedido porque ele soube (ou talvez, mais apropriadamente, não se opôs) escolher um general de prestígio no Exército, com boas conexões com a elite romana e uma boa base de apoio na sua própria província para sucedê-lo (Trajano).

Pertinace não parece ter tido tempo sequer de tratar de sua sucessão, e, de modo imprudente,  para dizer o mínimo, ignorou a precariedade da sua posição, já que de fato ele era um verdadeiro refém da Guarda Pretoriana. Esta,  por sua vez, era incapaz de impor, de modo duradouro, qualquer escolha às legiões das províncias. E o Senado também foi ingênuo em achar que poderia escolher alguém entre os seus pares que não tivesse o apoio do Exército.

Por tudo isso, o ano de 193 D.C ficaria conhecido como “O Ano dos Cinco Imperadores“.

POR QUE ASSASSINARAM CÉSAR?

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Para os conspiradores que esfaquearam César no Senado, a resposta para essa pergunta seria muito simples: “Porque ele era um tirano que planejava tornar-se rei e acabar com a República”. Eles inclusive chegaram a alegar que agiram com base em uma antiga lei grega que não apenas autorizava, mas até exigia,  que qualquer um que tivesse a oportunidade deveria matar o tirano, não sendo, assim, o tiranicídio, um crime, mas, em verdade, um ato em defesa da Democracia.

O estudo da História de Roma, porém, demonstra que a morte violenta de César era uma questão muito mais complexa do que um tiranicídio…

Nosso artigo, escrito nos dias que precedem  o dia 15 de março – os Idos de março de acordo com o calendário romano – e o mais célebre de todos, o dia 15 de março de 44 A.C., quando o Ditador Caio Júlio César foi morto na Cúria do Teatro de Pompeu, em Roma, é tentar contextualizar o assassinato na História da República Romana.

ANTECEDENTES HISTÓRICOS

Desde a sua fundação, surge, em Roma, uma acirrada luta pelo poder,  opondo o restrito grupo de clãs familiares aristocráticos (gens), cujos integrantes foram inicialmente chamados de “patrícios” contra a maioria da população livre que não fazia parte daquele grupo, compreendendo pequenos proprietários de terras, comerciantes e proletários (pessoas que vendiam sua força de trabalho a empregadores), que constituíam a “Plebe”.  Os patrícios julgavam-se os responsáveis pela Fundação da Cidade, pela sua posterior libertação do domínio etrusco e pela expulsão dos reis, ou seja, eles consideravam-se os fundadores da “Respublica Romana“.

Essa distinção Patrício x Plebeu era sobretudo censitária: plebeu era todo aquele que não fora arrolado como patrício pelo Censor, o magistrado encarregado de fazer o censo, naturalmente um patrício.

E assim, a República Romana não tinha ainda 15 anos, quando, em 495 A.C, os plebeus, insatisfeitos com os privilégios dos patrícios, ameaçaram abandonar Roma e fundar outra cidade. Conflitos como esses se repetiriam várias vezes, e, ao final deles, os plebeus conseguiram expandir seus direitos e limitar as prerrogativas dos patrícios, como por exemplo, quando eles impuseram a obrigação de publicação escrita das leis,  ao obterem os direitos de elegerem magistrados com poder de veto (Tribunos da Plebe) e de serem eleitos para todas as magistraturas, e,  finalmente, isso após prolongada luta, conquistarem o reconhecimento da força legislativa das votações de suas assembleias (“Concilium Plebis“, isto é Conselho ou Concílio da Plebe), em 287 A.C.

Comitium_Kontext-601x338(O”Comitium” era o local no Fórum Romano, em frente à Cúria do Senado, onde se realizava o Concilium Plebis, a assembleia dos plebeus. Sua aparência em meados do período republicano devia ser a da reconstrução acima, que foi extraída de http://www.digitales-forum-romanum.de/gebaeude/comitium/?lang=en )

Durante o crescimento e a expansão de Roma pela Península Italiana e pelo Mediterrâneo, houve a incorporação de vários povos italianos e inúmeras cidades e a fundação de colônias, não só na Itália, mas, também no sul da França e na Espanha, assentando-se nas mesmas soldados veteranos e povoando-as com cidadãos romanos que para lá migravam em busca de oportunidades. Aumentou, também, em decorrência dessa expansão,  o influxo de produtos e riquezas para Roma, enriquecendo muitos plebeus.

Esse processo de criação de uma nova classe de plebeus ricos, levou, ao longo de dois séculos, a uma reformulação da classe dos patrícios: O influxo de plebeus “novos ricos” foi absorvido,  ou melhor poderíamos dizer, cooptado, pela antiga elite patrícia, passando todos a fazer parte de uma nova classe informal, porque não reconhecida então pela legislação romana, chamada de “Nobilitas” (nobreza),  a qual incluía os antigos patrícios e vários plebeus muito ricos.

A ascensão social do plebeu rico era possibilitada pela própria evolução democrática da República Romana, fruto da luta secular da Plebe. Com a conquista do direito de serem votados para ocupar quaisquer cargos, eles podiam percorrer integralmente e em ordem crescente todas as magistraturas (ou cargos públicos), carreira que recebia o nome de “Cursus Honorum“, até chegarem ao Senado Romano. O plebeu que conseguisse chegar ao cargo de Cônsul, automaticamente ingressava no Senado e passava a integrar a nobreza (apelidava-se, então, a esses senadores “sem pedigree”, de “Novus Homo” – um “homem novo”).

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Teoricamente, os plebeus, desde o século III A.C, haviam adquirido a proeminência política em Roma, já que somente eles poderiam eleger os Tribunos da Plebe,  os quais tinham o poder de vetar qualquer leis, inclusive as emanadas do Senado (Senatus Consultus) e qualquer ato dos demais magistrados e, também,  de intercederem em qualquer ato em favor dos plebeus (“intercessio“). Porém, os atos do Tribuno da Plebe, ao contrário, não podiam ser objeto de veto. Aos Tribunos da Plebe era conferida a sacrossantidade, significando não podendo serem presos e nem seus passos impedidos, nem seus atos obstaculizados. Para completar, eles podiam convocar um Conselho da Plebe, onde somente os plebeus tinham direito a voto, com o poder de promulgar leis (“plebiscita” ou plebiscito).

Não obstante, todo esse poder conferido aos Tribunos e Concílios da Plebe raramente era usado. Eram tempos em que Roma se achava em quase permanente estado de guerra, os magistrados no front de batalha e a administração e a política eram conduzidas, quase que exclusivamente, pelo Senado, ao qual todos reconheciam o patriotismo e a abnegação pela causa romana.Esse regime, teoricamente democrático, na prática começou a ser erodido pelo Senado Romano, dominado pela nobreza, da seguinte forma: os Senadores, uma vez ingressados naquele Corpo, eram vitalícios e invioláveis. Os demais magistrados, porém, exerciam um mandato temporário, normalmente de um ano. Assim, ao deixarem o cargo,  eles podiam ser processados. Essa vulnerabilidade, ao longo do tempo, acarretou que todos os magistrados evitassem agir em desacordo com o Senado, procurando sempre consultá-lo antes de qualquer ato importante, para se garantir contra eventuais questionamentos futuros.

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(A Cúria Júlia, onde se reunia o Senado Romano, foi erguida por Júlio César e reconstruída diversas vezes durante o Império Romano. O prédio atual data do reinado do imperador Diocleciano)

Considerando que as eleições para as magistraturas exigiam campanhas que eram  bem custosas para a esmagadora maioria dos plebeus, frequentemente os candidatos, inclusive para o cargo de Tribuno da Plebe, endividavam-se, ou, quando exerciam outros cargos públicos, desviavam recursos públicos para as suas campanhas, ficando passíveis de serem processados pelos inimigos ao término de seus mandatos.

O que acontecia, então, era que majoritariamente apenas plebeus ricos ou aristocratas supostamente simpáticos à causa da Plebe concorriam ao cargo de Tribuno da Plebe. As poderosas prerrogativas do cargo eram disputadas em concorridas eleições, onde homens ambiciosos despejavam dinheiro para comprar votos dos eleitores plebeus. Os candidatos também frequentemente recorriam a bandos armados, com o objetivo de intimidar os adversários pela violência.

Logo, o Senado percebeu que poderia controlar os comícios da plebe se controlasse os Tribunos, já que eram eles que convocavam e presidiam essa assembleia popular.  E, não poucas vezes, na História de Roma constata-se que houve Tribunos que,  na realidade, atuavam em favor dos interesses da elite, como se fossem verdadeiros “pelegos“.

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A aparente constituição democrática de Roma, assim, na prática, degenerara em uma disputa parecida com as que hoje vemos em nações do chamado “3º Mundo”, temperada por aspectos de uma guerra entre “famiglias” da Máfia Italiana,  cenário aliás muito bem retratado nos primeiros episódios da minissérie “Roma”.

Enquanto isso, a expansão de Roma exasperava as contradições políticas, econômicas e sociais internas. Era necessário dar participação política às elites das inúmeras cidades incorporadas ou fundadas não só na Itália, mas também no Sul da França, Espanha, Norte da África e na Grécia.

Mais importante, havia a questão da grande extensão de terras agriculturáveis anexadas ao “Ager publicus” e que eram cedidas para um grupo seleto de nobres senadores ou para ricos integrantes da classe equestre. Essas terras eram exploradas em sistema de latifúndios, cultivados em larga escala com o emprego da grande massa de escravos que resultava das vitórias militares. Tal fenômeno expulsava do campo o pequeno agricultor livre, outrora o esteio do poder militar romano, incapaz de competir com os latifúndios operados em grande escala comercial. Esses pequenos agricultores falidos migravam para a Cidade, à procura de trabalho, engrossando as fileiras do Proletariado. Assim, a fenda entre os aristocratas ricos e o resto não parava de aumentar…

Ademais, essa massa de proletários para sobreviver procurava a proteção de nobres poderosos, que assumiam o seu patrocínio, aumentando a sua clientela (sendo o Clientelismo uma instituição particularmente romana,  na qual se instituíam deveres entre Patrão e Cliente). Não demorou para que a aumentada clientela corrompesse o sistema eleitoral, sob a fórmula “distribua uma esmola e reclame um voto“.

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(Na imagem, clientes comparecem ao ritual conhecido como “salutatio”, o comparecimento matinal da clientela à residência do patrono para demonstrar consideração, aproveitando para pedir algum benefício ou oferecer seus préstimos)

O problema atingiu tal dimensão que provocou o surgimento, dentro da própria nobreza senatorial, de um grupo que defendia uma profunda reforma no sistema político e na estrutura socioeconômica romanos. O estreito contato com a cultura grega propiciado pela anexação das cidades fundadas pelos gregos no sul da Itália e, posteriormente, com a anexação da própria Grécia, permitiu a difusão das mais avançadas teorias políticas e filosóficas gregas no seio da elite romana.

Surgiu, consequentemente, na elite romana, uma corrente que percebia que o sistema político de Roma apodrecia, exemplificando o famoso conceito grego sobre os ciclos de degeneração das formas de organização política dos Estados: monarquia/tirania-aristocracia/oligarquia-democracia/demagogia.

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(O denário de prata mostra um eleitor romano depositando o voto na urna)

O primeiro político romano a seriamente propor e executar uma ação visando a reformar esse Sistema foi Tibério Semprônio Graco

Tibério Graco era um jovem político que trilhava a tradicional carreira das magistraturas mas que havia se decepcionado bastante com o Senado, pois este repudiara um tratado que ele havia negociado como Questor na Espanha.

Consta que no trajeto de volta da Espanha, Tibério Graco teria constatado o abandono das pequenas propriedades rurais na Etrúria, substituídas por grandes fazendas escravistas. Ele resolveu concorrer ao cargo de Tribuno da Plebe e ganhou a eleição, em 133 A.C.

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Para lidar com o problema, Tibério Graco propôs a “Lex Sempronia Agraria” – que pode ser considerada  a primeira lei de reforma agrária – prevendo a distribuição das terras devolutas, inicialmente aos soldados veteranos e, depois, ao proletariado romano. As terras que tivessem sido ilegalmente distribuídas aos ricos, em contrariedade à antiga Lex Licínia, que previa uma quantidade máxima de terra pública passível de ser cedida a particulares (mas que era largamente ignorada), deveriam também, segundo a Lex Sempronia, serem redistribuídas para os pobres, mediante o pagamento de uma indenização aos seus atuais possuidores, que, no entanto, ainda poderiam ficar com uma determinada fração delas.

A maioria conservadora do Senado se aglutinou e se opôs à Lex Sempronia, alegando que a medida abalava os fundamentos da República e fomentava a revolução social. Essa oposição cresceu,  sobretudo depois que  Tibério Graco, passando por cima do Senado, apelou ao Conselho da Plebe para aprovar a nova lei,  uma medida que,  apesar de estar de acordo com o Direito Romano, era incomum.

O Senado conseguiu convencer o outro Tribuno da Plebe, Otávio, a vetar a Lex Sempronia. Tibério Graco, entendendo que o veto de Otávio contrariava a própria finalidade do cargo de Tribuno – a de defender a Plebe contra a opressão dos nobres – submeteu  à questão ao Conselho da Plebe, pedindo que votasse pela deposição do colega. Após a votação ter começado, Otávio vetou o próprio ato que determinara a votação de seu afastamento. Graco, então, teria mandado retirar Otávio à força da assembléia e a votação prosseguiu, decidindo pelo seu afastamento.

Segundo outra versão, do historiador Apiano, quando a 18ª Tribo de Plebeus, de um total de 35, votou pela deposição do seu colega, Tibério Graco apenas cumpriu a decisão, removendo Otávio porque ele não era mais Tribuno. A diferença entre as versões é relevante, pois, como vimos, um Tribuno da Plebe era sacrossanto, e, portanto, a ação de Graco teria sido formalmente ilegal, caso a primeira delas seja a verdadeira.

O povo saudou Tibério Graco como um verdadeiro herói e, pressionado, o Senado autorizou a formação de uma comissão agrária para implementar a Lex Sempronia. Porém, desde o início, os senadores conservadores tentaram sabotar a execução da lei, liberando apenas uma pequena verba para a instalação dos trabalhos da comissão, alegando a insuficiência de fundos no Tesouro.

Entretanto, naquele mesmo ano de 133 A.C, o Rei Átalo III, de Pérgamo, aliado romano, morreu sem herdeiros, legando toda a sua vasta fortuna (e o próprio reino) à Roma.Tibério Graco viu nisso uma chance de executar seus planos e, invadindo a competência que o costume conferira ao Senado de deliberar sobre o orçamento e os assuntos estrangeiros, determinou que parte da herança de Átalo fosse usada para financiar a implementação de sua lei agrária, valendo-se dos seus poderes tribunícios.

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(Átalo III admirava os romanos e deixou o Reino de Pérgamo como herança para Roma)

O acirramento do confronto entre a maioria conservadora do Senado e Tibério Graco atingiu uma proporção incontornável. Ele foi acusado por Quinto Pompeu, um senador que era seu vizinho, o qual alegava que, nesta condição, soube que Graco havia recebido de presente de um certo Eudemus, de Pérgamo, um manto púrpura e uma coroa de ouro, devido ao fato de este pensar que Graco iria se tornar o Rei de Roma.

Aproximando-se o fim do seu mandato, aumentavam as evidências de que Tibério Graco seria processado pelo crime de violar a sacrossantidade de seu colega Otávio. Assim, Graco decidiu concorrer à reeleição, defendendo a popular plataforma de redução do tempo de serviço militar e de concessão da cidadania romana a povos aliados. Havia rumores de que um amigo seu havia sido envenenado e, por isso, temendo pela sua vida e de sua família, Graco apelou ao povo reunido em assembleia por proteção, e, de fato,  uma multidão passou a acampar em frente a sua casa com o objetivo de protegê-lo, o que lhe granjeou ainda mais simpatia popular.

Tibério Graco foi reeleito. Pouco antes do seu mandato encerrar, ele foi a um comício, apesar de advertido da existência de vários presságios desfavoráveis, estando o povo reunido no Capitólio. Lá ele recebeu a notícia de que os senadores planejavam mata-lo. Seus partidários armaram-se de porretes. Os senadores, já mal dispostos contra Tibério, interpretaram esse gesto como uma insurreição na qual seus partidários pretendiam coroá-lo rei, e exigiram que o cônsul enviasse as tropas para reprimi-la. Com a recusa deste, os próprios senadores, acompanhados de sua clientela, armaram-se de porretes e foram atacar o grupo de Tibério.

Na confrontação que se seguiu,,Tibério Graco e 300 de seus seguidores foram mortos a porretadas e pedradas e seus corpos jogados no Rio Tibre. Consta que o primeiro golpe contra a cabeça de Tibério Graco foi dado por seu novo colega, o Tribuno Publius Satyreius. Segundo Plutarco, esta foi a primeira vez que um conflito político entre cidadãos em Roma degenerou em um banho de sangue. Em seguida, vários partidários de Graco foram exilados, presos e até executados sem julgamento.

Temendo a reação do povo indignado, o Senado informou que iria implementar a Lex Sempronia, mas na prática, ele continuou impondo várias dificuldades para a sua execução.

As tensões e contradições políticas e sociais que Tibério Graco tentou solucionar não morreram com ele. Uma década mais tarde, seu irmão, Caio Graco tentou aprovar um programa ainda mais radical do que o de Tibério. Considerado então o melhor orador de Roma,  Caio foi eleito Tribuno da Plebe em 123 A.C. Em uma trajetória parecida a do seu falecido irmão, ele também acabou sendo falsamente acusado de crimes e morto em um conflito sangrento entre facções.

Eugene_Guillaume_-_the_Gracchi(Escultura “Os Gracos”, de Eugene_Guillaume)

Com a morte de Caio Graco, em 121 A.C, torna-se explícita a divisão da política e do Senado romanos em duas facções: a maioria conservadora aglutinou-se em um grupo que foi batizado de “Optimates” (literalmente, os “Muito Bons” ou “Ótimos”), que entendiam que a República deveria ser conduzida pelo Senado, mantendo-se as leis e costumes tradicionais (mos maiorum) em benefício dos cidadãos romanos tradicionais, sobretudo os Nobres; Por sua vez, aqueles que defendiam que o poder deveria emanar dosConcílios da Plebe, limitando o poder do Senado, que a cidadania deveria ser estendida aos povos aliados e que a maior parte dos recursos do Estado deveria ser empregada em benefício dos cidadãos mais pobres, foram chamados de “Populares“. Optimates e Populares não devem, entretanto, ser considerados partidos políticos no sentido moderno.

Death_of_Gaius_Gracchus(A morte de Caio Graco, pintada em 1792. Por François Topino-Lebrun )

A partir de então, a oposição entre Optimates e Populares, quase sempre degenerando em violência e guerra civil, marcaria a política romana até o fim da Guerra Civil do 2º Triunvirato e a ascensão de Augusto como primeiro imperador, em 27 A.C.

Quinze anos depois da morte de Caio Graco, a questão social, segundo Plutarco, havia piorado ainda mais e as reformas dos Gracos tinham sido abandonadas pelo Senado. Aumentava sem parar a massa de proletários expulsos de suas terras e cada vez mais o número de cidades e territórios controlados pelo Estado Romano, sem que os aliados tivessem qualquer participação política e gozassem dos inúmeros direitos conferidos aos cidadãos romanos.

Esse período é marcado pela ascensão de Gaius Marius (Caio Mário), um brilhante general sem estirpe que conseguiu ser eleito Cônsul, tornando-se um “Homem Novo” (Novus Homo). Mário era hostil ao Senado e  também é considerado um integrante da facção dos Populares.

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A principal reforma de Mário, fundamental na História de Roma, foi reorganização do Exército Romano. Até então, somente cidadãos livres que fossem proprietários de terras podiam ser recrutados como soldados, já que eles deveriam pagar o seu próprio uniforme e equipamento. Porém, o aumento demasiado dos latifúndios cultivados por escravos levou a uma grande diminuição do número de pequenos proprietários rurais (proletarização), prejudicando o recrutamento militar. Mário instituiu que o Estado deveria pagar um salário e fornecer armas e vestuário para os soldados, criando um exército permanente que recrutaria, basicamente, os proletários urbanos de Roma e das cidades italianas. Terminava, assim, a era da milícia de cidadãos e inaugurava-se a era do primeiro exército profissional moderno da História.

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( Um típico legionário romano após as Reformas de Mário. Os soldados ficariam conhecidos como “Mulas de Mário” por terem que carregar todo o seu equipamento)

Mário era casado com Júlia, irmã do pai de Caio Júlio César, e portanto, era tio deste. Ele seria cônsul por 7 vezes, entre 107 A.C. e 86 A.C., frequentemente entrando em atrito com a maioria conservadora do Senado Romano. Mário seguiu uma linha de atuação política que pode ser descrita como “populista”.

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(Denário de Mário. Difícil não associar a imagem do agricultor lavrando o solco com as políticas defendidas pelos Populares)

Os Optimates encontraram seu campeão na pessoa do ultraconservador e tradicionalista Lucius Cornelius Sulla (Lúcio Cornélio Sila), membro de uma antiga família patrícia, ele também um prestigiado general.

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O conflito entre Mário e Sila ecoava a disputa entre os Populares e os Optimates. No momento em que ambos disputaram importantes comandos militares, Mário, ilegalmente, ignorou a designação de Sila pelo Senado, levando este a se insurgir militarmente.

Após derrotar as forças de Mário em combate, Sila marchou contra a própria Roma e entrou, à testa de suas forças, no “Pomerium” (fronteiras sagradas da cidade de Roma), o que era expressamente proibido pela lei romana. Ele foi o primeiro general romano a ousar praticar esse fato, considerado como um grande sacrilégio. Sila perseguiu os partidários de Mário e revogou a maior parte dos seus atos. Mas Mário conseguiu escapar e se exilou na África.

Entretanto, Sila foi obrigado a deixar Roma e ir combater Mitridates, poderoso Rei do Ponto, na atual Turquia, que havia ordenado o massacre de milhares de civis romanos naquela região (as fontes relatam que 80 mil romanos foram mortos).

Aproveitando a situação, Mário voltou da África e conseguiu assumir de novo o governo, sendo eleito para o seu sétimo consulado. Mas,  sendo ele já velho e estando muito doente, Mário acabou morrendo no meio do primeiro mês de seu mandato, em 86 A.C., aos 70 anos de idade, deixando no poder seu colega de consulado, Cina, um correligionário político que apoiava a facção dos Populares. Deve-se observar que esta última volta ao poder de Mário também foi marcada pela perseguição sangrenta aos seus inimigos políticos.

Com a morte de Mário, Cina ficou no poder, ocupando sucessivos consulados até 84 A.C,. Nesse período, ele adotou medidas que faziam parte do ideário dos Populares, como por exemplo, a concessão de cidadania aos italianos, até ele ser morto pelas suas próprias tropas quando elas se preparavam para ir lutar contra Sila.

Neste mesmo ano de 84 A.C., Caio Júlio César casou-se com Cornélia, filha de Cina, o que demonstra a plena inserção do jovem sobrinho de Mário na facção dos Populares.

Quando Sila retornou à Itália e assumiu o governo, sendo nomeado Ditador, ele desencadeou uma grande perseguição aos simpatizantes de Mário e da facção dos Populares, chegando a executar 1.500 nobres e 9 mil pessoas no total, além de exilar outros tantos. E um dos que tiveram que fugir para preservar a vida foi o jovem Júlio César. Logo, familiares e conhecidos do rapaz apelaram a Sila para que ele fosse poupado. Porém, quando o Ditador exigiu que César se divorciasse de Cornélia,  aquele galantemente recusou-se. Sila, mesmo assim, vencido pela insistência dos pedidos, concordou em poupar o rapaz, não sem antes advertir aos senadores:

Há vários Mários em César“…

Como Ditador, as leis e decretos instituídos por Sila ordenaram a restauração dos privilégios do Senado e a restrição do poder legislativo dos Concílios e dos Tribunos da Plebe, que foram transformados praticamente em meros defensores públicos de indivíduos de condição humilde. Ele também regulamentou o Cursus Honorum e o número das magistraturas, aumentando em consequência o número de senadores de 300 para 600 membros, com a finalidade de cimentar a coesão da elite e proporcionar que o Senado pudesse executar mais funções administrativas. Por fim, ele também declarou MárioInimigo do Estado“, mandando banir quaisquer referências à sua memória (damnatio memoriae).

Surpreendentemente, acreditando ter restaurado o poder do Senado, Sila decidiu voluntariamente se retirar da vida pública e voltar para suas propriedades, em 81 A.C, falecendo, provavelmente de cirrose ou úlcera gástrica, em 78 A.C.

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Mesmo que essa não fosse a intenção deles, na prática, Mário e Sila implodiram as fundações da República Romana, pois as ações de ambos demonstraram que as assembleias políticas, tanto a dos plebeus (Concílios), quanto a dos nobres (Senado), não tinham mais o poder de solucionar e arbitrar os conflitos de interesses entre os grupos políticos e as classes sociais.

Agora, o palco estava montado para um tipo diferente de espetáculo e para  que os atores pudessem atuar nos papéis principais,  não bastava que eles tivessem talento político, mas, além disso,  deveriam também ser bons generais…

De fato, após Mário e Sila,  seria aos generais ambiciosos que as duas facções políticas do Senado iriam recorrer, e as disputas políticas  agora seriam resolvidas no campo de batalha.

Mário de fato criara as condições para isso, ao conceber um exército de soldados profissionais recrutado entre proletários desempregados que deviam seu emprego e sua lealdade ao Cônsul que os recrutara. E fora Sila o primeiro a se valer de um exército como esse para entrar em Roma à força com o objetivo de derrubar o governo, realmente criando o precedente, e também inaugurando o costume de recompensar regiamente os seus veteranos com as terras confiscadas dos adversários políticos proscritos.

Um desses generais ambiciosos foi Gnaeus Pompeius (Cneu Pompeu). O Senado, sem dispor de meios militares, já tinha se valido do jovem e talentoso general para derrotar as forças contrárias a Sila , na Sicília e na África, e depois as de Lépido, que pretendia restaurar o poder dos Tribunos e realizar outras reformas de interesse dos Populares.

Pompey the Great. Marble. Beginning of the 1st century A.D. Inv. No. 733. Copenhagen, New Carlsberg Glyptotek.(Cabeça de mármore de Pompeu, o Grande)

Em um indício de que a ordem tradicional estava com os dias contados, o Senado, quebrando todos os precedentes, concedeu a Pompeu a honra de celebrar dois triunfos, apesar de ele  sequer ser um magistrado e, em 70 A.C, ignorando todas as normas, ele foi nomeado Cônsul, embora não fosse um senador.

Ironicamente, Pompeu conseguiu compelir o Senado a fazer isso aliando-se com ninguém menos do que os Populares, os quais, até então, ele havia perseguido. Para obter o apoio deles, Pompeu comprometeu-se a revogar os decretos de Sila que retiraram os poderes dos Tribunos da Plebe e dos Concílios.

Foi nessa época que Caio Júlio César entrou oficialmente na política, e a sua adesão à causa dos Populares ficou explícita quando, em 69 A.C, ele, no funeral de sua tia Júlia, a viúva de Mário, pronunciou um discurso fúnebre, onde exaltou a memória de seu tio Mário, discursando a frente de uma imagem do grande general falecido, coisa que não era vista em Roma desde o governo de Sila,  por força da damnatio memoriae.

E foi, de fato, como integrante da facção dos Populares que César seguiu a carreira política, em um período de acirramento da oposição entre eles e os Optimates. O astuto César, contudo, também procurou mostrar-se palatável para os conservadores, como ilustra o fato dele, tendo recém ficado viúvo de Cornélia, ter se casado com Pompéia, que era neta de ninguém menos do que Sila, o inimigo figadal dos Populares, sendo que o casamento ocorreu em 67 A.C.

Contudo, para ganhar eleições e atingir os cargos mais altos, César, como todos os demais políticos romanos, precisava de muito dinheiro, e ele já tinha se endividado bastante para se eleger para o cargo de Questor. Portanto, de muita utilidade tornou-se a sua recente amizade com o aristocrata Marco Licínio Crasso, um dos homens mais ricos de Roma, que disputava a primazia política com Pompeu ( eles tinham sido colegas de consulado, em 70 A.C.). Note-se que Crasso também apoiara, como Cônsul, a restauração dos poderes dos Tribunos da Plebe, apoio este que o afastou da facção dos Optimates, aproximando-o dos Populares.

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(Cabeça de mármore de Crasso, foto de Gautier Poupeau )

Com o apoio financeiro de Crasso, César conseguiu se eleger para o cargo de Edil, em 65 A.C. Os Edis eram magistrados encarregados de vários serviços urbanos em Roma, incluindo a promoção de jogos públicos, e César aproveitou este cargo para agradar a Plebe promovendo espetáculos suntuosos, o que obviamente tornou-o muito popular. Começava, assim, a nascer a política do “Pão e Circo” (“Panem et Circensis“)…

Depois de exercer a edilidade, César gastou rios de dinheiro na eleição para o prestigioso posto de “Pontifex Maximus“, o chefe dos cultos oficiais do Estado e, apesar dele não ser o favorito, César venceu o certame, em 63 A.C.

Então, a política em Roma tinha-se tornado altamente violenta e corrupta, e a República em frangalhos convidava os homens ambiciosos a tentarem a sorte na disputa pelo poder supremo, o que, obviamente, encontrava obstáculo no tradicionalismo da elite senatorial. Para ocupar os cargos mais importantes, contudo, os sequiosos de poder ainda precisavam de votos.

O aristocrata Lúcio Sérgio Catilina foi um desses políticos que, através da demagogia e dos subornos, atraía uma grande clientela e seguidores. Como ele não conseguira ser Cônsul, por ter sido barrado por Marco Túlio Cícero (ele também um “Novus Homo“), Catilina uniu-se à facção dos Populares e passou a defender uma nova lei agrária ampliando a Lex Sempronia .

Cicero_(1st-cent._BC)_-_Palazzo_Nuovo_-_Musei_Capitolini_-_Rome_2016(Busto de Cícero, nos Museus Capitolinos, foto de José Luiz Bernardes Ribeiro)

Contudo, não obtendo sucesso nas eleições de 63 A.C, apesar de apoiado por Crasso e César, Catilina arquitetou uma conspiração visando suprimir o próprio Senado Romano, em uma trama que foi descoberta e denunciada publicamente por Cícero em sessão do Senado, em suas famosas “Catilinárias“. Desse modo, Catilina foi facilmente derrotado e morto pelas tropas legalistas.

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César, embora fosse aliado de Catilina, não teve participação na conspiração, chegando até a informar Cícero da trama, Não obstante,  César defendeu, nos debates no Senado, que os conspiradores presos não deviam ser executados, como queriam Cícero e o senador ultraconservador Catão, uma vez que a lei não previa nem a pena de morte, nem que a instância para o julgamento pelo Senado, para aquele tipo de caso. Mesmo assim,  os conspiradores foram executados, por ordem ou instigação de Cícero, alegando-se motivos de “Segurança do Estado“.

Apesar da conspiração de Catilina ter colocado em risco a sua carreira política, César conseguiu se eleger para o cargo de Pretor, em 62 A.C. E, segundo a lei romana, após cumprir este mandato, ele fazia jus a ser indicado para governar uma das províncias romanas, no seu caso, a Hispânia, como Propretor. Os costumes romanos admitiam que o governador ficasse com uma parte dos tributos arrecadados dos súditos provinciais, sem falar do produto do que fosse saqueado das tribos ainda rebeldes, desde que não houvesse muitos exageros no processo. Assim, após assumir o governo da província, César, após derrotar várias tribos celtiberas, aproveitou esta oportunidade para conseguir o dinheiro necessário para pagar a sua legião de credores em Roma.

Entrementes, naquele ano, após uma prolongada e vitoriosa campanha militar no Oriente, Pompeu voltou à Roma, e, para a surpresa geral de todos, ele entrou na Cidade como um simples cidadão e sem exército. Provavelmente, foi um gesto politicamente calculado para obter o apoio do Senado e do povo, demonstrando ser ele, Pompeu, um cidadão cumpridor da lei e dos costumes tradicionais.

Contudo, Pompeu não gozava nem da simpatia dos conservadores, devido à revogação das leis de Sila que restringiam o poder tribunício, nem dos Populares, dado o seu histórico de lutas contra os mesmos. Assim,  o Senado decidiu não recompensar os soldados veteranos de Pompeu com terras, deixando-o muito contrariado.

Assim, quando César voltou à Roma, no ano 60 A.C, ele viu a oportunidade de conjugar sua ambição com as dos dois homens mais poderosos de Roma: Pompeu e Crasso, pois ambos estavam insatisfeitos com os Optimates que controlavam o Senado. Eles, então, formaram a aliança política que ficou conhecida como o “Primeiro Triunvirato”.

A aliança política foi cimentada pelo casamento de Pompeu com Júlia, filha única de César. Vale ressaltar que, mesmo se tratando de um casamento arranjado, e apesar da diferença de idade entre os noivos (ele tinha 47 anos e ela, 24), os esposos acabariam se apaixonando, e,  anos mais tarde, Pompeu sofreria muito com a morte prematura de Júlia, no parto de uma menina que também não sobreviveu).

Com a eleição de César para Cônsul, em 59 A.C. o Triunvirato assumiu o poder de fato em Roma. Apesar da violenta oposição dos Optimates, liderados por Catão, o Jovem, e do seu colega de consulado, Bíbulo, também integrante da facção, César conseguiu aprovar uma legislação dando terras na Campânia para os veteranos de Pompeu. Ele também conseguiu perdoar um terço das dívidas de impostos dos agricultores. Por sua vez, o seu correligionário Clódio conseguiu aprovar uma lei especial determinando o exílio de Cícero, como punição pela execução dos conspiradores de Catilina sem julgamento. Essa mesma lei também designou o adversário Catão para governar a distante Chipre, o que equivalia, na prática, a um exílio, afastando-o do Senado. Contudo, muitas dessas iniciativas de César foram executadas em desacordo com a lei romana, algo que o deixaria vulnerável à retaliação dos adversários, em tempos futuros.

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(O chamado “Busto de Tusculum” é considerado pelos especialistas o único busto existente que foi produzido durante a vida de César)

Os Triúnviros também decidiram dividir o governo das províncias romanas entre si e, então, César escolheu controlar as Gálias Cisalpina e Narbonense, além da Ilíria, autonomeando-se Procônsul, com mandato de 5 anos, a partir de 58 A.C.

A escolha da Gália tinha um motivo: César constatara que lhe faltavam as glórias militares de Pompeu , que já havia derrotado Sertório, na Espanha, a rebelião do gladiador Espártaco (junto com Crasso), na Itália, os piratas do Mediterrâneo e o rei Mitridates, anexando o Reino do Ponto à Roma, entre outras vitórias, as quais lhe valeram o apelido de Magno, ou “o Grande” e, ainda, em menor escala, os louros de Crasso.

Assumir o governo da Gália permitiu a César arquitetar o plano que lhe colocaria no mesmo plano dos seus colegas: A anexação da Gália Transalpina, povoada pelos temidos gauleses, que, séculos atrás, em 390 A.C, tinham até saqueado e incendiado Roma. O pretexto foi a necessidade de fazer um ataque preventivo, devido ao fato de tribos aliadas dos romanos terem sido atacadas por gauleses e germânicos que, supostamente, pretendiam migrar para a Gália Cisalpina, ou seja, a parte da Itália que fica ao sul dos Alpes.

Em nove anos de guerra, César derrotou completamente os gauleses e anexou toda a Gália. Para alguns, essa teria sido a maior contribuição de César à História, pois, sem isso, não existiria a França e, consequentemente, a Europa e sua civilização seriam completamente diferentes.

A vitória na Gália deu a César não somente uma aura de herói nacional e de general brilhante, mas também o exército mais disciplinado e bem treinado de Roma, além de muito dinheiro proveniente dos saques, afinal os gauleses eram um povo muito próspero.

Mas, enquanto César lutava na Gália, ele certamente mantinha um olho nos assuntos domésticos…

Com efeito, em Roma, o cimento que mantinha unido o Triunvirato começava a amolecer…Pompeu, aparentemente se ressentia do brilho das conquistas militares de César, as quais ameaçavam ofuscar as suas próprias. Talvez por isso, ele manobrou para trazer Cícero de volta à Roma e os dois acabaram se aproximando.

Em 57 A.C., Pompeu recebeu poderes extraordinários do Senado para cuidar do abastecimento de cereais de Roma, o que o colocava em uma excepcional posição em relação aos outros dois colegas, no que tange a capacidade de angariar as simpatias da Plebe. Já as relações entre Crasso e Pompeu, que nunca tinham sido boas, também iam de mal a pior.

Os nobres conservadores aproveitaram as dissensões entre os Triúnviros e conseguiram eleger um dos seus integrantes como Cônsul para o ano de 56 A.C. Por sua vez, Cícero questionou a legalidade da nomeação de César para o governo da Gália.

Percebendo o risco ao Triunvirato e a si mesmo, César deixou o comando da campanha da Gália com seus lugares-tenentes e convocou Pompeu e Crasso para uma reunião em Lucca, cidade romana na fronteira da Itália com a Gália Cisalpina, em abril de 56 A.C.

Nesse encontro, que passaria à História como a “Conferência de Lucca“, César, Pompeu e Crasso resolveram as suas diferenças, estabelecendo que os dois últimos seriam candidatos a Cônsul no ano seguinte, com o apoio de César. Assegurada a eleição, os novos cônsules promulgariam uma lei prorrogando o mandato do proconsulado de César na Gália por mais 5 anos, sendo que, após o término do consulado de Pompeu e Crasso, eles seriam designados procônsules, respectivamente da Hispânia e da Síria, também pelo prazo de 5 anos.

O adversário de Crasso e Pompeu na eleição para o consulado de 55 A.C, era Lúcio Domício Enobarbo, um fervoroso membro da facção dos Optimates, casado com a irmã do líder Catão, o Jovem. Ele prometeu proibir a prática de compra de votos dos eleitores e revogar o comando de César na Gália. Porém, no dia da eleição, ele foi expulso à força do Campo de Marte pelos partidários dos Triúnviros, com o reforço de mil soldados enviados por César, uma ação que garantiu a vitória de Crasso e Pompeu.

Os novos cônsules executaram os termos do acordo da Conferência de Lucca, através da “Lex Pompeia Licinia“, garantindo a recondução de César para a Gália e o proconsulado da Síria e da Hispânia para Crasso e Pompeu, respectivamente.

O destino, porém, abalaria a recém-obtida estabilidade do 1º Triunvirato: no ano de 54 A.C, Júlia, a filha de César e esposa de Pompeu, morreria no parto e, em 53 A.C, Crasso, também ele sedento de obter a glória militar contra os Partos, seria capturado e morto por estes, após a desastrosa Batalha de Carras, no que foi a pior derrota militar sofrida pelos romanos desde a 2ª Guerra Púnica, 150 anos antes…

O Triunvirato estava, assim acabado, antes de tudo, matematicamente, pela simples eliminação de Crasso. Agora, só restavam César e Pompeu. E não havia também mais a doce Júlia, a quem  o seu pai e o seu esposo eram muito devotados e a quem eles deviam muito a existência de uma relação cordial entre ambos.

Enquanto isso, desde 55 A.C, em campanha na Gália, César realizava algumas das maiores façanhas militares que Roma já vira. Ele havia derrotado um enorme horda de tribos germânicas, os Usipetes e Tencteris, e, na fuga, os sobreviventes derrotados, inclusive mulheres e crianças, totalizando cerca de meio milhão de bárbaros, foram aniquilados, a maioria, acredita-se, afogados, após tentarem cruzar a confluência entre os rios Reno e Mosela. Depois, César mandou construir uma espetacular ponte de madeira sobre o largo Reno e cruzou, pela primeira vez na História de Roma, aquele largo rio, marchando, também de forma inédita, por dezoito dias na margem oriental. Ainda naquele ano, César cruzou o Canal da Mancha e invadiu, também pela primeira vez na História, a Britânia, ficando lá também por  18 dias. E ele ainda voltaria àquela Ilha no ano seguinte.

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Pompeu, apesar de ser governador da Hispânia, permanecera todo esse tempo em Roma, recebendo as notícias das façanhas de César e sendo assediado pelos partidários da nobreza conservadora no Senado, sobretudo após a morte de Crasso, em 53 A.C. Ele certamente não se opôs que o ferrenho opositor de César, Lúcio Domício Enobarbo conseguisse se eleger Cônsul no ano anterior.

Mais sintomaticamente ainda, Pompeu recusou a proposta de César para que ambos celebrassem uma nova aliança matrimonial, na qual Otávia, sobrinha-neta de César (e irmã do futuro imperador Otávio Augusto) lhe foi oferecida em casamento. Para reforçar ainda mais o distanciamento, Pompeu, expressando sua evidente oposição à proposta de renovação da aliança política com o seu colega, casou-se, em 52 A.C., com Cornélia Metela, filha de Quinto Cecílio Metelo Cipião, que era um dos mais empedernidos membros da facção dos Optimates e, portanto, um inimigo figadal de César.

Em 52 A.C, as lutas políticas na cidade de Roma degeneraram em anarquia, com repetidos motins nas ruas, culminando no assassinato do ex-Tribuno da Plebe e membro dos Populares, Clódio,  violências que resultaram inclusive no incêndio do edifício da Cúria do Senado e impediram a eleição dos cônsules naquele ano (Clódio, a bem da verdade, era um dos políticos que mais se valeram do uso político da violência das verdadeiras gangues de rua em que os “collegia”- corporações de ofício de Roma, haviam se tornado).

A situação caótica em Roma obrigou o Senado à medida extrema de nomear Pompeu como único Cônsul para aquele ano. Imediatamente, Pompeu convocou seus soldados e restaurou a ordem na Cidade. Evidenciando ainda mais a sua aproximação com os Optimates, Pompeu nomeou seu sogro Metelo Cipião como seu colega para o Consulado de 52 A.C.

Embora Pompeu ainda resistisse a tomar a iniciativa do rompimento com César, qualquer um que tivesse o mínimo discernimento político perceberia que isso era apenas uma questão de tempo. Na verdade, o motivo pelo qual Pompeu e o Senado somente ainda não haviam tomado nenhuma medida mais efetiva contra César era porque, ainda naquele ano de 52 A.C, estourara uma rebelião geral das tribos gaulesas, recém-conquistadas. Unidos e liderados por Vercingetórix, os gauleses preparavam-se para um confronto definitivo contra as legiões romanas na cidade fortificada de Alésia.

Alesia_8.jpg(Reconstrução das fortificações construídas por César em torno de Alésia, foto de Christophe.Finot )

Contudo, em um mês, César não apenas sitiou Alésia, defendida por 80 mil guerreiros, como ainda derrotou a força gaulesa de 100 mil homens que tentava furar a praça sitiada, que, por sua vez,  tinham cercado os romanos. Foi indubitavelmente uma vitória espetacular que levou o prestígio de César às alturas. Apesar da única fonte sobre a campanha ser os próprios “Comentários” de César, estes são geralmente aceitos como verídicos e acurados, sendo respaldados pelas escavações arqueológicas.

Finalmente, portanto, no final de 51 A.C, após quase 10 anos de luta, César havia submetido a Gália até o Reno, equivalendo à maior parte do território da atual França.

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Terminada a luta na Gália, a facção dos Optimates no Senado imediatamente tratou de tentar decretar o o fim do comando de César para aquela campanha. E tanto os senadores conservadores quanto o próprio César sabiam que, despido ele da condição de governador e sem cargo público, César perderia a sua imunidade, sendo muitos os pretextos para processá-lo e condená-lo, na mais suave das hipóteses, ao exílio.

map 1280px-Europe_-50.png(Terminada a conquista da Gália, o mapa mostra o território da República Romana, em amarelo. Mapa de Cristiano64 / Coldeel)

Com efeito, a iminente perda da imunidade tornava-se aflitiva para César. Assim, em 50 A.C, enquanto ainda na Gália, ele tentou, sem sucesso, concorrer ao cargo de Cônsul, mas sem, contudo, abandonar o Proconsulado da Gália e continuando a comandar seus exércitos na Província, o que era proibido por lei.

César, não obstante as manobras dos Optimates, contava com o apoio do Tribuno da Plebe Caio Escribônio Curião, que, segundo alegava-se, teria sido subornado  por ele mediante o pagamento de suas dívidas por César e, de fato, Curião vetava todos os projetos de lei que pretendiam substituir César na Gália ou terminar o seu mandato.

Curião inclusive propôs uma solução conciliatória entre os partidários de César e a facção dos Optimates: César renunciaria ao comando da Gália, desde que ele recebesse permissão para concorrer às eleições para o Consulado de 49 A.C., com a condição de que Pompeu também renunciasse ao seu comando militar. Essa proposta até encontrou alguma simpatia no grupo de senadores moderados, mas o núcleo conservador do Senado, liderado pelo Cônsul Caio Cláudio Marcelo, se opôs ferozmente a ela e obstruiu a votação de qualquer proposta no mesmo sentido.

Com certeza, os senadores mais sensatos perceberam o risco iminente de uma guerra civil e apoiavam uma solução de compromisso. Assim, quando, na Sessão do Senado do dia 1º de dezembro de 50 A.C., o Cônsul Cláudio Marcelo reapresentou a proposta de substituição de César na Gália, eles, que inicialmente haviam aprovado a remoção, acabaram aprovando, por 370 votos a favor e apenas 22 contra, a emenda substitutiva apresentada por Curião, a qual estabelecia que também o comando de Pompeu deveria ser encerrado.

Marcelo, porém, recusou-se a aceitar o resultado da votação da emenda de Curião e, alegando falsamente que César havia cruzado os Alpes com 10 legiões para invadir a Itália, declarou dissolvida a Sessão, antes da aprovação do texto. Em seguida, rompendo com a ordem institucional, Marcelo e alguns integrantes da facção conservadora partiram para a residência de Pompeu para tentar convencê-lo a assumir o comando de todas as tropas na Itália, implorando que o velho general fizesse o que fosse necessário para “salvar a República”. Pompeu concordou, mas ressalvando que ele faria isso, “a não ser que fosse encontrado um caminho melhor”.

Curião, cujo mandato de Tribuno e consequente inviolabilidade terminariam em poucos dias, prudentemente decidiu fugir de Roma e ir ao encontro de César, que se encontrava em Ravena, fora dos limites da Itália Romana, acompanhado apenas da XIII Legião. Apesar de instado por Curião a marchar sobre Roma, César decidiu fazer uma nova proposta de acordo: Ele seria nomeado governador da Ilíria e manteria sob seu comando apenas uma legião, até a eleição para o consulado de 49 A.C. No entanto, essa proposta foi terminantemente recusada pelos Cônsules.

No dia 1º de janeiro de 49 A.C., César tentou sua última cartada no Senado para manter a sua carreira política: Valendo-se do novo Tribuno da Plebe, Marco Antônio, que, da mesma forma que o seu colega, Longino, eram fiéis colaboradores de César, ele enviou, por Curião, uma carta ao Senado para ser lida em sessão por Antônio. Todavia, quando Antônio começou a ler a carta, após o trecho em que César reiterava a disposição de somente deixar a Gália e desmobilizar o seu exército caso Pompeu fizesse o mesmo, ele foi interrompido aos gritos pelos senadores conservadores, e não conseguiu continuar.

Roman male portrait bust, so-called Marcus Antonius. Fine-grained yellowish marble. Flavian age (69—96 A.D.). Rome, Vatican Museums, Chiaramonti Museum.(Busto de Marco Antônio)

Metelo Cipião, o sogro de Pompeu, propôs que fosse fixada uma data para que César fosse demitido do comando na Gália e dispensasse suas tropas, após o que ele seria considerado “Inimigo Público“. A moção foi aprovada, e os únicos votos contrários foram de Curião e do senador Célio. Muito provavelmente, a explicação para a diferença entre esta votação e aquela ocorrida um mês antes foi a maciça presença de tropas de Pompeu nas cercanias de Roma…

Mas o Tribuno Marco Antônio vetou a moção e apresentou nova proposta para que fosse incluído na lei que o comando de Pompeu também se encerraria na mesma data, sendo essa idéia  novamente bem recebida. Porém, novamente, o cônsul Lúcio Cornélio Lêntulo, apoiado por Metelo, dissolveu a Sessão antes que a lei com as modificações propostas  por Antônio fosse aprovada.

Em 7 de janeiro de 49 A.C, o Senado Romano aprovou o “Senatus Consultum Ultimus” declarando Lei Marcial e nomeando Pompeu como “Protetor de Roma“, isto é, na prática, um Ditador. Como era esperado, essa lei também declarou o término do mandato de César na Gália, ordenando que o mesmo entregasse o comando das suas tropas.

Em seguida, os soldados de Pompeu ocuparam Roma e Pompeu expediu uma nota dizendo que “não poderia garantir a segurança dos Tribunos“…

Marco Antônio e Cássio entenderam bem o recado e fugiram de Roma, indo ao encontro de César. Quando lá chegaram, César percebeu que não havia mais espaço para manobras políticas ou negociações. Ele teria que optar entre obedecer o Senatus Consultum Ultimus, e arriscar a sorte como um cidadão comum exposto à sede de vingança dos inimigos, ou tornar-se um rebelde e um fora-da-lei.

Na verdade, como frequentemente acontece nas guerras, revoluções ou golpes de Estado, as partes rivais sempre alegam um bom pretexto para legitimar a sua ação. O fato é que a fuga dos Tribunos da Plebe, ou, como é mais correto, a expulsão deles de Roma, violando a sua sacrossantidade legal, deu a César um bom pretexto para ele para começar a Guerra Civil.

Rimini088(Coluna de César, em Rimini, erigida para marcar o local onde César discursou para as suas tropas exortando-as a entrarem com ele na Itália. Foto de Georges Jansoone (JoJan)

No dia 10 de janeiro de 49 A.C. (data estimada), César, comandando apenas a XIII Legião, cruzou um riacho chamado Rubicão, que marcava a fronteira da Itália com a Gália Cisalpina. Ao entrar na Itália, ele violou a lei romana e era, tecnicamente, autor de um crime de alta traição. Em suas próprias palavras:

A sorte está lançada!” (alea iacta est).

Começava a Guerra Civil!

Menander_and_New_Comedy_Masks_-_Princeton_Art_Museum.jpg(Relevo do autor grego Menandro, com máscaras de teatro de Comédia. César era grande apreciador da obra de Menandro e a frase “A sorte está lançada”, ou, mais precisametne, “os dados estão lançados’, foi uma citação de uma das peças dele  – Deipnosophistes, livro XIII)

GUERRA CIVIL

Durante a confrontação política que antecedeu a travessia do Rubicão por César, os Optimates cometeram alguns graves erros de avaliação:

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Por exemplo, eles superestimaram a capacidade militar de Pompeu na Itália: Embora Pompeu tenha retido sob seu controle, irregularmente, duas legiões recrutadas por César no sul da Península, elas não eram páreo para a experimentada XIII Legião que lutara com ele na Gália.

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Da mesma forma, os Optimates também levaram em conta a seu favor o fato de que  Pompeu comandaria, teoricamente, todas as forças romanas na Hispânia, África, Egito, Grécia e Oriente, em número bem superior às 8 legiões que César tinha na Gália,

E os Optimates também confiavam  no histórico dos muitos sucessos militares de Pompeu.

Por último, os Optimates acreditavam que, pelo fato de César ter violado a proibição da lei romana de entrar na Itália com um exército,  a maior parte da população da Itália ficaria contra ele, que, ao menos formalmente, tinha se tornado um criminoso.

Mas eles não poderiam estar mais errados….

As legiões da Gália, calejadas por dez anos de guerra cruenta contra os gauleses, naquele momento eram, provavelmente, os melhores soldados do Mundo Antigo; Pompeu era um renomado general, mas estava ficando velho e não comandava uma legião, quanto mais uma campanha, havia vários anos; Ademais, ao contrário do que os Optimates esperavam, no trajeto do norte da Itália em direção a Roma, César foi aclamado triunfalmente em diversas cidades, cujas  respectivas guarnições acabavam por juntar-se ao seu exército.

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Entretanto, nem tudo ia bem para César, pois, durante o avanço sobre Roma, o seu ajudante em mais de 10 anos de luta, o hábil general Labieno, desertou e uniu-se às forças de Pompeu. Não se sabe o motivo exato da defecção de Labieno, sendo que as explicações mais plausíveis são que ele seria um legalista que via a insurreição de César como criminosa ante as leis da República ou, então, o fato de ele estar decepcionado por não ter recebido maiores recompensas por seus serviços, como por exemplo, um consulado, ficando, ainda,  talvez enciumado pela predileção que César demonstrava em relação a Marco Antônio.

Pompeu, mesmo assim, concluiu que a sua melhor estratégia era fugir para a Grécia, onde ele poderia reunir um grande exército e, já que controlava a frota romana, interceptar os carregamentos de cereais para Roma, causando ali uma fome cuja responsabilidade seria atribuída a César, enfraquecendo-o perante a Plebe.

Embora esse não fosse um plano ruim, o simples fato de ele ter que abandonar a Itália, demostra o despreparo com que Pompeu foi pego pela rápida ação de César. E isto apesar de terem sido Pompeu e os Optimates que deram o ultimato ao adversário, motivo pelo qual seria de se esperar que eles, ao menos deveriam estar de antemão preparados.

A maior parte da facção dos Optimates acompanhou Pompeu em sua retirada estratégica da Itália . Portanto, ao contrário de César, que era o indiscutível comandante supremo de suas forças, Pompeu, por diversas vezes, tinha que escutar e levar em consideração os palpites militares dos senadores mais proeminentes, muitos deles sem qualquer experiência bélica…

Não é nosso propósito, todavia, aqui narrar pormenorizadamente os eventos da Guerra Civil, mas apenas traçar um quadro explicativo dos eventos que degeneraram no desfecho sangrento dos Idos de março de 44 A.C.

Senhor da Itália, César, ainda desejoso de respeitar as formalidades legais, convocou os senadores que tinham permanecido em Roma para um encontro, realizado em 1º de abril de 49 A.C, mas muito poucos apareceram. Consta que, ofendido com as ausências dos senadores, César teria dito:

Convidei-os para se reunirem a mim na tarefa de governar Roma. Porém, se a timidez faz com que recuem diante da tarefa, não os incomodarei mais. Governarei sozinho“.

Logo depois, porém, César conseguiu convencer (ou compelir) o Senado a autorizar o uso de um fundo de reserva para construir uma frota. Todavia, em uma demonstração de que seus oponentes ainda tinham poder na Cidade, a medida foi vetada pelo Tribuno Lúcio Cecílio Metelo. Não obstante, César ignorou o veto, entrou em Roma e, ameaçando executar Metelo, lançou mão dos recursos, manu militari.

César, então, partiu para enfrentar o exército de Pompeu na Hispânia.  Este, porém, naquele momento encontrava-se na Grécia, reunindo outro exército. Por isso, César assinalou:

Parto para a Espanha para enfrentar um exército sem general e logo seguirei para enfrentar um general sem exército.”

Em Ilerda, na Espanha, César cercou o exército de Pompeu, que se rendeu em 02 de julho de 49 A.C. A partir desta vitória, César principiou um comportamento em relação aos inimigos vencidos que ele repetiria muitas outras vezes durante a Guerra Civil e que se tornaria uma de suas marcas registradas causando admiração em muitos escritores antigos: a “Clementia” de César (clemência), poupando e anistiando os adversários. Com efeito, em Ilerda,  César concedeu aos inimigos derrotados que não quiseram se juntar ao seu exército, a opção de retornarem para casa como civis.

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Esse era um comportamento tão incomum na antiguidade que o próprio exército de César, pela primeira vez desde que ele se tornara um general, amotinou-se. O motivo da revolta era que os seus soldados esperavam saquear os pertences dos vencidos. O motim, contudo, foi reprimido sem muito custo.

Voltando a Roma, César, em apenas 11 dias de estadia na capital, foi nomeado Ditador por um curto período, o que lhe permitiu convocar a eleição para o consulado de 48 A.C, para o qual ele, naturalmente, se candidatou. Ele aproveitou também para colocar seus correligionários em todos os cargos importantes e, além disso, promulgou várias leis, entre elas uma dispondo sobre o pagamento de dívidas, permitindo que fossem dados bens em pagamento, dado o grande número de romanos endividados em função das turbulências políticas. Finalmente, César também restituiu os direitos civis aos cassados durante o governo de Sila e conseguiu que Pompeu fosse declarado fora-da-lei.

De volta à campanha de César na Guerra Civil, seguiram-se o quase-desastre em Dirráquio e a surpreendente vitória em Farsália, em 09 de agosto de 48 A.C., na qual César lutou em desvantagem numérica de 1 x 3 e onde muitos Optimates foram capturados, apesar de Pompeu ter conseguido fugir para o Egito, onde acreditava que iria ser acolhido pelo faraó Ptolomeu XIII, supostamente seu aliado.

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Porém, o jovem faraó, aconselhado a cair nas boas graças do vencedor, mandou prender Pompeu e decapitá-lo, enviando a cabeça dele para César. Quando ele, perseguindo o adversário, chegou em Alexandria, a História registra que César, ao receber, chocado, a cabeça de Pompeu, chegou a chorar, penalizado com o destino do seu ex-genro. E, em verdade, parece mesmo que nunca chegara a haver inimizade pessoal entre os dois grandes homens de Roma.

Julius Caesar Aghast at Soldier Holding Pompey's Head

Em Farsália, César pode exercer novamente a política de clemência para os adversários. Antes da luta, ele distribuiu aos seus oficiais uma lista dos partidários de Pompeu que deveriam ser poupados. Entre os nomes, estava o de Marco Júnio Bruto, um senador da facção dos Optimates e filho da amante de César, Servília Caepionis, que era irmã de Catão, o Jovem, o senador que pode ser considerado o verdadeiro ideólogo dos Optimates no Senado.

Seguiu-se o envolvimento de César na disputa pelo trono do Egito e o romance com Cleópatra VII, que resultaria no nascimento de seu único filho homem, chamado de Ptolomeu XV Filópator Filómetor César e que foi apelidado de “Cesarion“.

TRIUNFO E PODER ABSOLUTO

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Morto Pompeu, o seu único rival pelo poder supremo, César celebrou os seus Triunfos com uma magnificência jamais vista em Roma. Nos festejos pela vitória na Gália, que tinham sido adiados pela Guerra Civil, vinha, no final da procissão triunfal, Vercingetórix acorrentado (o altivo chefe gaulês seria executado após a cerimônia, como era o costume romano). Houve, ainda, uma batalha naval simulada em um lago artificial e 400 leões foram soltos em um Circo, para serem mortos por quem se dispusesse a pagar uma taxa. E em seu novo Fórum construído perto do antigo, César, presença de Cleópatra e Cesarion, desvendou uma bela estátua de ouro de sua amante e rainha do Egito, ao lado do Templo de Vênus Genitrix,  a deusa que a gens Júlia reivindicava como sendo sua ancestral.

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(Denário de prata de 48 A.C.,  com a imagem de Vercingetórix acorrentado, é a única imagem do líder gaulês capturado e executado após o Triunfo de César, em Roma)

Provavelmente esses festejos foram a maior exibição de propaganda política em toda a História de Roma. Mas os Optimates ainda não tinham sido completamente derrotados… Na África, um exército de 40 mil soldados liderado pelos velhos inimigos Catão, o Jovem e Metelo Cipião, e pelo inimigo recente, Labieno, aos quais se juntaram os filhos de Pompeu, contando com a ajuda do rei Juba, da Numídia, ainda constituía uma ameaça respeitável.

César, após as celebrações de seu triunfo, partiu de Roma e sitiou a cidade de Tapsos, na atual Tunísia. Os Optimates foram forçados a aceitar a batalha campal e o exército de César mais uma vez venceu, em 06 de abril de 46 A.C. Os Númidas fugiram e os 10 mil soldados inimigos que quiseram se render foram mortos pelos soldados de César. Esse massacre não era compatível com a política de clemência que ele vinha adotando desde o início da Guerra Civil. A explicação, segundo Plutarco, é que César, durante a Batalha de Tapsos, perdeu os sentidos devido a um ataque, supostamente epilético, e o desfecho sangrento teria acontecido à sua revelia.

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Catão, o Jovem e Metelo Cipião conseguiram fugir de Tapsos. O primeiro, que não era militar e não participara da batalha, se refugiou em Útica, mas acabou cometendo suicídio ao saber do resultado da luta. Consta que César, ao ser informado da morte de Catão, disse:

“Eu lamento a sua morte, Catão, assim como você teria lamentado se eu tivesse poupado a sua vida”.

Cipião também cometeu suicídio, após ser interceptado pela frota de César, quando tentava chegar com um navio até a Espanha, onde esperavam obter auxílio dos numerosos veteranos de Pompeu que viviam naquela Província.

Vale observar que, especialmente Catão, o Jovem, ao tirar a própria vida, tornou-se um símbolo para os Optimates de uma vida virtuosa e de sacrifício em prol da República. Posteriormente, já durante o Império, o nome dele seria sempre evocado como exemplo pelos senadores insatisfeitos como o Principado e por aqueles que , no futuro, conspirariam contra o despotismo dos imperadores.

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(Busto de bronze de Catão, o Jovem, achado na cidade romana de Volubilis, no Marrocos)

Após essa vitória, César foi nomeado Ditador da República Romana por 10 anos, algo inédito. Ele também foi eleito Cônsul para o ano de 46 A.C. (o que se repetiria nos dois anos seguintes).

O último bastião da resistência dos Optimates era agora a Espanha, onde os filhos de Pompeu, Cneu Pompeu e Sexto  Pompeu, valendo-se do grande número de soldados veteranos do falecido general assentados naquela província, conseguiram reunir um grande exército (incluindo duas legiões que tinham desertado do exército de César). Com isso, eles tomaram toda a Espanha, forçando as legiões leais a César a se refugiarem na cidade de Oculbo. De lá, os sitiados pediram ajuda a César.

César, cuja qualidade mais impressionante como general talvez fosse a velocidade com que conseguia que suas tropas se deslocassem, marchou os 2.400 km que separavam Roma de Oculbo em menos de 1 mês, e, com essa aparição súbita, conseguiu levantar o sítio.

Em 17 de março de 45 A.C, na planície de Munda, após uma feroz batalha que durou 8 horas, o exército de César saiu vencedor. Ele assim definiria a Batalha de Munda, segundo suas próprias palavras:

Inúmeras vezes, eu lutei pela vitória; em Munda, eu lutei pela minha vida !

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Trinta mil soldados inimigos foram mortos na batalha, incluindo o general Labieno. Um dos filhos de Pompeu, Cneu, foi capturado um mês após e morto. Já Sexto, sem exército, somente seria morto por Marco Antônio dez anos mais tarde.

César agora era o senhor absoluto de Roma, para onde voltou para implementar seus projetos de governo, que tinham sido interrompidos pela necessidade de combater os últimos focos de resistência senatorial em Tapsos e Munda.

Inicialmente, derrotados os inimigos, é preciso reconhecer que César, ao contrário de Mário e Sila – que tinham sido os únicos que haviam chegado perto de deter tamanha parcela de poder na República e que se aproveitaram disso para eliminar os desafetos – perdoou seus inimigos e permitiu que eles participassem da administração pública e retornassem ao Senado, sendo os exemplos mais ressonantes, os adversários Cícero, Cássio, Marco e Décimo Bruto.

E o que César tencionava fazer com tanto poder?

César nunca escreveu, ou foi registrado para a posteridade, quais eram os seus planos para a República: se pretendia aboli-la ou meramente reformá-la. Ele também não teve tempo, se é que esse era mesmo o seu propósito, de estabelecer para si uma nova posição como monarca de Roma. Somente podemos inferir, das medidas que tomou após alcançar o poder absoluto, algumas linhas gerais:

Uma diretiva inequívoca de seus planos é dada pelo aumento do número de Senadores e renovação da composição do Senado Romano (que havia sido muito desfalcado pelos anos de guerra civil). César aumentou o número de senadores para 900 e nomeou senadores oriundos de províncias fora da Itália, especialmente gauleses. Esse propósito é corroborado pela permissão de que legionários fossem recrutados nas províncias. De fato, César criou legiões compostas por gauleses, espanhóis e súditos do Oriente. Para isso, a cidadania romana e latina foi concedida amplamente na Sicília, na Gália, na Hispânia e até na Criméia.

Tudo isso constitui um indício de que o plano de César era criar um Império Romano universal e mais inclusivo, e não apenas manter uma dominação de Roma e das cidades italianas sobre colônias ao longo do Mediterrânea, em uma dominação etnicamente latina sobre súditos de outras raças. Nisso, talvez César até evocasse os desígnios de Alexandre, o Grande, um herói por ele admirado desde a juventude,  e cujos atos, inclusive os seus casamentos, manifestavam o propósito do rei macedônio de criar um império mundial que unisse  os gregos e outros povos orientais, como os persas e os hindus.

Podemos cogitar que César não tencionava restaurar a velha ordem republicana. Provavelmente, o Senado não seria mais a instância máxima de poder, funcionando como um conselho consultivo e, em seu governo, não apenas os Optimates, mas também os Populares, não encontrariam lugar, pois, já no início de sua Ditadura, os Concílios da Plebe atuavam apenas para referendar as leis promulgadas pelo Ditador, sem maior debate ou discussão. Nessa linha, César havia abolido os “collegia“, as associações corporativas que participavam politicamente das eleições, e que tinham se transformado em milícias violentas utilizadas para influir nos pleitos.

Vale citar como exemplo o fato de César ter sido o primeiro romano a exercer, concomitantemente, diversas magistraturas republicanas, que podem ter sido formalmente mantidas, mas cuja concentração nas mãos de um único homem era um fato inédito e que constitui mais um indício de que se tratava de uma nova ordem.

Assim, César, além de Ditador pelo longo prazo de dez anos (e em 44 A.C, ele seria nomeado “Ditador Perpétuo“) era, respectivamente: Cônsul e Pontífice Máximo (Chefe da religião) e, além disso, em mais uma inovação, mesmo sem ser Tribuno da Plebe, ele recebia, anualmente, o “Poder Tribunício“, ou seja, detinha todos os poderes inerentes a essa magistratura, inclusive o poder de votar todos os atos administrativos ou legislativos, bem como a “sacrossantidade” daqueles magistrados. Essa fórmula, diga-se de passagem,  seria mantida por Augusto e todos os imperadores que o sucederam. Devemos, contudo, observar que, de certa maneira, a menção expressa ao Poder Tribunício não deixava de ser um reconhecimento de que o Poder emanava do Povo.

O virtual fim da República também foi evidenciado pelas leis que deram a César:

a) o novo cargo de “Prefectus Morum“, encampando as atribuições dos Censores. Com esse poder, César podia nomear ou expulsar do Senado quem ele julgasse que obedecesse, ou não, os costumes morais romanos;

b) o direito de nomear os governadores das províncias para um mandato com prazo fixo, e de recomendar ao povo, para referendo, a metade dos magistrados em Roma;

c) o direito de declarar guerra e de celebrar a paz;

d) o direito de votar em primeiro lugar no Senado (assumindo, na prática, o lugar do “Princeps Senatus“, distinção conferida ao Senador mais antigo ou eminente e que seria a inspiração para Augusto batizar a posição ocupada pelo Imperador, dando o nome pelo qual o novo regime por ele inaugurado seria conhecido: “Principado“);

e) o direito perpétuo de comandar o Exército (“Imperium“, atributo do “Imperator“, ou comandante,  e que, futuramente, também acabaria batizando o governante do novo regime que seria inaugurado por Augusto);

f) o direito de dispor dos fundos públicos; e

g) o direito de promulgar Éditos,  que deveriam ser confirmados sem discussão pelo Senado.

Entretanto, devemos anotar que alguns historiadores não têm certeza de que César pretendesse que as reformas supracitadas fossem permanentes, considerando o fato de que ele, antes de morrer, planejava uma grande campanha militar contra a Pártia. Assim,  talvez essas reformas se destinassem apenas a assegurar a estabilidade do governo, enquanto ele estivesse ausente na planejada guerra.

César também reorganizou a estrutura dos governos municipais das cidades italianas e parece que ele tencionava uniformizar os diferentes sistemas de governo por elas adotados. Considerando que ele fundou diversas cidades, inclusive refundando as destruídas Cartago e Corinto, é possível supor que César compreendia que a força do Estado Romano repousava nas cidades e talvez ele até imaginasse o futuro império como uma confederação de cidades autônomas unidas sobre a autoridade de um governo central. Notavelmente, nas renascidas Cartago e Corinto, César determinou que fossem prestigiadas as populações nativas.

O Ditador César promoveu a reforma de várias leis penais, aumentando a punição para crimes violentos. Ele também instituiu um sistema uniforme de taxas alfandegárias e promulgou uma lei proibindo a exibição de luxo excessivo em público, uma preocupação recorrente dos governos desde quando o enriquecimento da aristocracia romana após as Guerras Púnicas atingiu níveis astronômicos. César também iniciou um vasto programa de obras públicas, visando aproveitar a numerosa mão de obra ociosa do proletariado romano, que aumentou muito após a desmobilização das legiões que se verificou com o fim da Guerra Civil.

O poder absoluto de César e a aura de semi-divindade que ele assumira perante boa parte dos olhos da opinião pública acarretaram que lhe fossem concedido um sem número de honrarias inauditas, como por exemplo: O 5º mês do calendário romano, “Quintilis“, foi rebatizado de “Julius” (Julho), em sua homenagem. Aliás, a reforma do antiquado e astronomicamente impreciso calendário romano, pelo muito mais acurado “Calendário Juliano“, foi uma das grandes contribuições de César para a Civilização Ocidental. E, pela primeira vez na História de Roma, a efígie de um governante foi cunhada nas moedas, a dele. Finalmente, muitos templos e estátuas foram erguidos em sua homenagem.

Surpreendentemente, César, apesar do pouco tempo decorrido desde a derrota militar da facção aristocrática do Senado, em Munda. mantinha seus exércitos fora da Itália e, na cidade de Roma,  ele era protegido apenas por uma pequena guarda pessoal. E mesmo este destacamento foi afastado pouco antes de março de 44 A.C.

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(Busto de César, retratado em seus últimos anos)

OS IDOS DE MARÇO – O ASSASSINATO DE CÉSAR

Nos meses anteriores ao assassinato de César, as fontes antigas narram um certo descontentamento com o seu comportamento soberbo e arrogante, ao menos por parte da elite governante. Suetônio narra que surgiram rumores acerca de conspirações para derrubá-lo e que tais informações tinham chegado anteriormente aos ouvidos de César, que se limitou apenas a advertir publicamente que ele  tinha ciência das mesmas.

A conspiração que resultou no assassinato de César, como não é de surpreender, em vista de tudo que narramos desde a primeira parte de nosso artigo, nasceu no seio dos remanescentes da facção dos Optimates no Senado Romano. O número de conspiradores, nas fontes antigas, varia entre 60 e 90 senadores. Os líderes da conspiração eram Caio Cássio Longino, Marco Júnio Bruto e Décimo Bruto.

Marco Júnio Bruto era filho do pai do mesmo nome e, supostamente, ele era descendente direto do fundador da República Romana, Lúcio Júnio Bruto, que expulsara o último rei de Roma e se tornaria o 1º Cônsul da República. Bruto era filho de Servília Caepionis, que também era meia-irmã de Caio Cássio Longino e que , desde longa época, era notória amante de ninguém menos do que  Júlio César. Alguns suspeitavam até que Bruto pudesse ser filho ilegítimo de César, mas isto é altamente improvável, pois ele tinha apenas 15 anos quando Bruto nasceu. Além disso, Bruto era genro do finado Catão, o Jovem, que se suicidara em Útica após uma vida de lutas contra César. A presença de Bruto entre os líderes da conspiração conferia legitimidade ideológica e histórica ao movimento.

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Bruto sempre foi um integrante da facção dos Optimates no Senado Romano e acompanhou Pompeu na Guerra Civil. Poupado por ordens expressas de César na Batalha de Farsália, Bruto, em seguida, foi admitido no círculo mais íntimo do Ditador e nomeado por ele Governador da Gália, em 46 A.C.

O historiador Nicolau de Damasco, uma das fontes antigas que escreveu em época mais próxima aos Idos de Março de 44 A.C, narra que o círculo de conspiradores foi crescendo, atraindo pessoas que tinham sido prejudicadas pela guerra civil com a perda de seu patrimônio ou de sua posição social, bem como antigos aliados de César que se sentiam preteridos em favor de inimigos perdoados, e, não menos importante, aqueles idealistas que achavam que César estava destruindo a República ou, ainda,  pessoas incomodadas com a idolatria a César.

Não há dúvida de que a Guerra Civil havia deixado feridas abertas na aristocracia romana. Temos um exemplo parecido com o que ocorreu após a Guerra Civil Americana (1861-1865). Aliás, o assassino de Abraham Lincoln, John Wilkes Booth, assumidamente reivindicou ter se inspirado em Bruto e, de fato, após atirar em Lincoln, ele repetiu a frase célebre atribuída a Bruto na cena do assassinato de César, em meio às punhaladas:

Sic semper tiranus!” (Sempre assim com os tiranos!).

A aristocracia senatorial romana era um clube fechado de umas centenas de famílias que se consideravam fundadoras da República, as únicas com direito a exercer o governo, em benefício não só da nação, mas também em seu próprio proveito e, não menos importante, julgavam-se merecedoras de especiais deferência e privilégios. Não é a toa que a carreira política do homem de Estado romano era chamada de “Cursus Honorum“… O direito a essas “honras” era inerente ao papel do aristocrata na sociedade romana. Em muitos aspectos, e não apenas o semântico, em Roma, “Respublica“, na prática, assumia um significado mais parecido com “Cosa Nostra“…

Como vimos no início de nosso estudo, essa aristocracia já havia reagido com violência à perspectiva de perda de seus poderes e privilégios,  inclusive assassinando os líderes da facção dos Populares que ameaçaram a sua posição privilegiada, como ocorreu com Tibério e Caio Graco.

Indiscutivelmente, a nomeação de César como Ditador Perpétuo, em 15 de fevereiro de 44 A.C deve ter desencadeado a conspiração para assassinar César.  E, neste mesmo mês, ocorreu o episódio que muitos historiadores consideram que forneceu o pretexto para o assassinato do Ditador – a acusação de que César pretendia ser coroado Rei.

Com efeito, foi na festa religiosa da Lupercalia que Marco Antônio, um dos celebrantes, completamente nu, colocou, por três vezes, um diadema de ouro sobre a cabeça de César,  e sendo, por três vezes, repelido pelo Ditador. É bem possível que esse ato de Marco Antônio tenha sido encenado de comum acordo para demonstrar que César não tencionava ser coroado rei. Há quem acredite, por outro lado,  que aquela encenação foi um ardil para sondar o sentimento popular,  um teste para verificar se a massa reprovaria o gesto. O  fato é que alguns na multidão realmente aclamaram César como rei, o que deve ter aterrorizado os Optimates.

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Diante disso, a decisão de executar a conspiração de matar César dependia apenas de se decidir sobre o dia, o local e o modo. Os conspiradores logo concordaram que, considerando que César comparecia ao Senado sem escolta, lá seria o local mais fácil de executar o Ditador, além de  poderem  facilmente ocultar os punhais sob suas togas, traje obrigatório para o comparecimento às sessões.

No dia 15 de março de 44 A.C, César acordou e ficou em dúvida se deveria ir ao Senado. Sua esposa Calpúrnia tinha tido um pesadelo em que aparecia uma poça de sangue e implorou para que César ficasse em casa. César. que não era nada supersticioso, decidiu ir. O adivinho Surinna também teria lhe advertido para ter cuidado com os Idos de  Março, mas César fez pouco caso. E, já na rua, em direção ao Senado, ele chegou a receber um rolo de papiro em que alguém delatava a conspiração, porém, guardou o manuscrito sem ler.

A reunião do Senado ocorreria em um recinto existente no Odeon do magnífico teatro construído por Pompeu, chamado de “Cúria de Pompeu”, já que a Cúria tradicional do Senao tinha sido danificada nos tumultos da guerra civil e estava em reparos.

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 (A Cúria de Pompeu, local onde César foi assassinado, é o edifício em forma de templo no meio do semicírculo do Teatro.Computer generated image of the Theatre of Pompey by the model maker, Lasha Tskhondia – L.VII.C)

No caminho para a Cúria de Pompeu, César estava acompanhado de Marco Antônio, mas os conspiradores, sabendo que ele era um sujeito parrudo e com experiência militar, acharam que ele poderia dificultar o assalto a César, e, assim, conseguiram distraí-lo a pretexto de um assunto e separá-lo do Ditador. César entrou sozinho na Cúria.

Os conspiradores esperaram César se sentar e se aproximaram, fingindo apresentar alguns requerimentos, até que o senador Cimber, em um sinal previamente combinado, arrancou a túnica do pescoço do Ditador, que, chocado, reclamou:

“Por quê? Isto é uma violência!”

Então o Senador Casca desferiu o primeiro golpe, mas, devido ao seu nervosismo, este apenas pegou de raspão no pescoço de César, que se virou e segurou a mão de Casca, dizendo:

Casca, seu vilão, o que estás fazendo?

Aterrorizado, Casca gritou, em grego :

Adelphi, boethei !” (“Irmãos, ajuda!”)

Nesse momento, vários conspiradores atenderam ao apelo de Casca, desferindo sucessivos golpes de adaga em César. Segundo Suetônio, quando César percebeu que Bruto estava entre os que o atacavam, ele falou, em grego:

Kai su, teknon?” (“Tu também, criança?”)

Segundo os relatos, César tentou se evadir dos seus atacantes como um leão ferido, mas, quando percebeu que estava perdendo forças, ele deixou-se cair e apenas cobriu a sua cabeça, tentando morrer com alguma aparência de dignidade (durante toda a sua vida, César sempre fora preocupado com sua imagem).

Bruto, em seguida, tentou fazer a sua proclamação, mas todos os senadores, aterrorizados, fugiram da Cúria.

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Foram contadas 23 feridas de punhaladas em César. De acordo com Suetônio, na opinião de um médico, que, pode-se dizer, autopsiou César, apenas uma delas, no peito, tinha sido fatal.

O corpo de César, ironicamente, ficou caído aos pés da estátua de seu maior rival, Pompeu, e jazeu ensanguentado por três horas no chão frio da Cúria, até ser recolhido por seus escravos.

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Bruto e os demais conspiradores se auto-intitulariam “Os Libertadores“. Eles tentaram imediatamente alguma conciliação com os Populares, oferecendo a preservação de todos os atos de César como Ditador e o direito a um funeral público.

Porém, na cerimônia pública de cremação, no Fórum Romano, um discurso de Antônio inflamou a massa e uma turba saiu à caça de qualquer um que fosse suspeito de participação na conspiração contra César.

Os “Libertadores” tencionavam restaurar a República, mas em três anos, todos eles seriam mortos, e o resultado da ação deles foi apenas causar outra Guerra Civil, primeiro para vingar César e depois para decidir quem seria o seu sucessor. É mais ou menos como se alguém tivesse tentado fazer recuar os ponteiros do relógio da História, mas apenas conseguisse segurá-los por 14 anos (até a vitória de Otaviano, o futuro Augusto, em Actium, em 31 A.C.)

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(Denário cunhado pelos “Libertadores” ostentando os punhais usados para assassinar César, o tradicional capacete associado no Mundo Antigo aos que lutam pela Liberdade e a inscrição abreviada “Idos de Março)

A República já havia morrido antes de César lutar e vencer a Guerra Civil e obter o poder supremo, porém seu sucessor Augusto, seria mais astuto em preservar algumas aparências republicanas e conceder algumas deferências à classe senatorial.

(Templo do Divino Júlio, construído no exato local onde o corpo de César foi cremado, no Fórum Romano. A 2ª foto mostra o estado atual da ruína, com os restos do altar. Normalmente, mesmo nos dias atuais,  sempre há flores colocadas  nas ruínas do altar).

Como brilhantemente constatou Cícero, nos meses que se seguiram ao assassinato:

Matamos o Rei, mas o Reino continua entre nós“.

FIM

SÃO BENTO DE NÚRSIA – ORA E TRABALHA

 

#SãoBento #SaintBenedictus

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Consta que Benedictus (Bento) nasceu em 02 de março de 480 D.C,  em Nursia, atual Norcia, cidade situada na região da Úmbria, na Itália.

são bento Fra_Angelico_031-001.jpg(Detalhe do São Bento de Núrsia, de Fra Angelico)

Segundo a tradição católica, Bento seria filho de Anicius Eupropius e de Claudia Abondantia e nasceu em Nursia  junto com sua irmã gêmea Scholastica (Escolástica), quem futuramente, também viria a ser canonizada.

Norcia-panorama.jpg(Panorama da atual Norcia, na Itália)

Caso verdadeira a filiação de Bento, ele seria membro de uma das mais ilustres famílias da nobreza senatorial do Baixo Império Romano, os Anícios, e uma das primeiras a abraçarem o Cristianismo, ainda nos tempos de Constantino, o Grande.

 

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(Relevo em marfim de  Anicius Faustus Albinus Basilius, o último Cônsul do Império Romano, no ano de 521 D.C, talvez um parente distante de São Bento de Núrsia)

Durante sua juventude, Bento foi enviado para Roma para estudar retórica e filosofia, como era comum entre integrantes da aristocracia italiana. Ainda segundo a tradição, em Roma, Bento se escandalizou com a decadência moral da Cidade Eterna, que naqueles tempos, era, na prática, governada pelo Senado Romano, desde a Queda do Império Romano, em 476 D.C,  ocorrida com a deposição do último imperador romano, Rômulo Augústulo, pelo chefe bárbaro Odoacro, que se autoproclamou “Rei da Itália”.

Abandonando a corrupta Roma, por volta do ano 500, Bento foi para o vilarejo de Enfide (atual Affile, em Subiaco, na região do Lácio), onde, ajudado por um monge chamado Romanus, foi viver em uma caverna como eremita, uma opção de vida religiosa muito frequente no final do Império Romano. Durante os três anos que passou como eremita, Bento passou a ser referência espiritual para os pastores e habitantes daquela região, sendo que em Affile teria ocorrido o primeiro milagre  a ele atribuído.

Affile-veduta-da-Arcinazzo(Vista da atual Affile, a antiga Enfide, onde teria ocorrido o primeiro milagre de São Bento)

Quando o abade do vizinho monastério de Vicovaro morreu, a comunidade cristã procurou Bento e pediu que ele ocupasse o posto vago. Contudo, como abade, Bento tentou implantar uma estrita disciplina, o que desagradou os monges daquele monastério, que, segundo consta, tentaram até envenená-lo, sem sucesso. Após algumas maquinações do invejoso padre Florentius, Bento  foi forçado a deixar o Monastério, mas, após a sua saída, ele fundou doze outros mosteiros nas vizinhanças de Subiaco.

Em 530 D.C, Bento fundou o grande Monastério de Monte Cassino (que apesar de destruído pelo bombardeio aliado durante a 2ª Guerra Mundial, foi inteiramente reconstruído).

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Foi em Monte Cassino que Bento, aproveitando uma regra anterior, redige a “Regula Monasteriorum“, que ficaria célebre como a “Regra de São Bento“, contendo 73 artigos, os quais regulavam a vida espiritual e terrena dos monges, além de estipularem normas de como administrar um monastério com eficiência,  dispondo até sobre a divisão do tempo diário para os monges: oito horas de descanso, oito horas de oração e oito horas de trabalhos diversos. A regra de ouro, como ficaria conhecida, é “Ora et labora” (reze e trabalhe).

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(Cópia mais antiga da Regula Monasteriorum, de São Bento, datada do início do século VIII D.C.)

 

São Bento morreu em  21  de março  de 543 D.C, em Monte Cassino (há uma versão de que foi no ano de 547 D.C). Tempos depois, Escolástica também seria enterrada no mesmo Monastério que o irmão.

Embora já houvesse vários monastérios nos territórios ocidentais do Império Romano, São Bento é considerado o fundador do Monasticismo Ocidental. O Mosteiro de Monte Cassino, com suas diversas atividades laborativas e o seu “Scriptorium” (sala onde eram produzidos os livros canônicos, e também copiados os textos da literatura latina e grega), bem como a Regra de São Bento, influenciaram os monastérios posteriores da chamada “Ordem Beneditina“, que deve o seu nome a São Bento, e todos teriam capital influência na difusão do Cristianismo pelo Mundo, e, não menos importante, na preservação do conhecimento da Antiguidade Clássica, permitindo que a herança greco-romana fosse transmitida até os nossos dias.

scriptorium gregory(Relevo de marfim do século X, mostrando o que parecem ser monges produzindo ou copiando livros em um Scriptorium – Vienna, Kunsthistorisches Museum).

Aqui vão algumas citações dos ensinamentos de São Bento:

1- O primeiro degrau da humildade é a pronta obediência;

2- O dorminhoco adora se desculpar; 

3- Cuide em ser gentil, a fim de que, ao remover a ferrugem, não se quebre  todo o instrumento;

4- A oração deve ser curta e pura, a não ser que sua duração seja prolongada por inspiração da Graça Divina;

5- Aquele que não para de falar, não consegue evitar de pecar; 

6- O ócio é o inimigo da alma;

7- Está de fato escrito que o vinho de jeito algum é uma bebida para monges, mas, considerando que não se consegue persuadir disto os monges de hoje, pelo menos os deixem beber moderadamente, e não até se saciarem, pois “o vinho faz até o sábio se perder” (Eclesiastes, 19:2);

8- Deixem que todos os hóspedes que chegarem sejam recebidos como se fossem Cristo, pois Ele dirá “Eu vim como hóspede e vocês receberam-Me” (Mateus, 25:35).

No calendário da Igreja Católica, atualmente o dia 11 de julho é o dia de São Bento de Núrsia

TERMINÁLIA

TERMINÁLIA

#terminalia

No dia 23 de fevereiro, o último dia do ano no calendário romano primitivo, celebrava-se o festival em honra do deus Terminus (Término),  a divindade que zelava pelas fronteiras e pelos limites das propriedades particulares e, naturalmente, pela harmonia entre os vizinhos.

Ao contrário da maior parte dos deuses do panteão romano, Término  não era representado por estátuas antropofórmicas, e sim pelos marcos de pedras que marcavam os limites dos terrenos.

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Essas pedras eram ungidas solenemente e adornadas com coroas de flores e encravadas em um buraco, o qual também tinha sido consagrado com o sangue de um animal sacrificado, e onde se colocavam vinho e outras oferendas.

Todo dia de fevereiro, os vizinhos cujas propriedades eram delimitadas por Término encontravam-se e sacrificavam um porco ou um cordeiro, cujo sangue salpicava o marco.

Em Roma, a Terminália, que era como se chamava o festival público em homenagem a Término, ocorria no sexto marco da estrada para Laurentum, cidade próxima à Òstia, que nos primórdios da fundação da Cidade, marcava o seu limite.