SANTO AGOSTINHO

#santoagostinho #agostinhodehipona

No dia 13 de novembro de 354 D.C., nasceu, na cidade de Taghaste (atual Souk Ahras, na Argélia), na província romana da Numídia, Aurelius Augustinus, filho de um pequeno proprietário rural e de sua esposa Mônica, cristã fervorosa e mãe possessiva (que, posteriormente, assim como o próprio filho, seria canonizada como Santa Mônica).

 

Agostinho Souk_Ahras_olivier_augustin
(Os locais acreditam que essa oliveira, na atual Souk Ahras foi plantada por Santo Agostinho)

Augustinus, que ficaria conhecido como Santo Agostinho, seria o principal filósofo cristão durante o Império Romano, e a influência do seu pensamento moldaria não só a doutrina da Igreja Católica até os nossos dias, mas a própria civilização ocidental.

Agostinho estudou em Cartago, o maior centro urbano do Norte da África (sem contar o Egito). Financiado a duras penas pelo pai, o jovem cursou retórica, visando obter um cargo público. Mas, embora ele se aprofundasse nos autores latinos, sobretudo Cí­cero (ele foi muito influenciado pela obra “Hortensius“, que não sobreviveu até os nossos dias), Agostinho detestava estudar a língua grega,  a qual não conseguiu aprender, e isso prejudicou consideravelmente o seu desempenho acadêmico.

agostinho life-of-st-augustine-of-hippo-3-728.jpg

E Agostinho também se negava a ler a Bí­blia, apesar de muita insistência da mãe. Tudo isso, somado às suas travessuras de jovem, suas dúvidas, paixões e ansiedades, e também a sua contí­nua aventura intelectual, é narrado magistralmente, de forma autobiográfica, em suas “Confissões“.

Após a morte do pai, Agostinho voltou para Thagaste,  com o encargo de, agora na condição de chefe da famí­lia, administrar a propriedade paterna. Mas, em vez disso,  ele resolveu abrir uma escola.

Enfim, depois de resolvidas as questões sucessórias,  Agostinho voltou para Cartago para assumir um cargo de professor de retórica. Durante esse tempo, ele leu a obra de Aristóteles, traduzida para o latim.

Agostinho منظر_عام_لمدينة_سوق_أهراسAgostinho.jpg(Vista atual de Souk Ahras, antiga Tagaste, foto de Omaislam)

Por volta dessa época, Agostinho aderiu ao pensamento do sábio persa Mani, que afirmava ser o universo governado pelo conflito entre dois princí­pios: a Luz ( o Bem) e a Escuridão (o Mal), doutrina que ficaria conhecida como Maniqueí­smo.

Em 384 D.C., sentindo-se limitado pela estreiteza da vida intelectual na província, Agostinho, contra a vontade da mãe, que fez de tudo para demovê-lo, decidiu ir para Roma. Porém, naquele tempo, as melhores oportunidades para  jovens ambiciosos estavam em Milão, que era a capital do Império Romano do Ocidente e onde ficava a corte imperial.  Ali, Agostinho conseguiu um cargo de professor de retórica.

No entanto, agora, Agostinho estava imerso em indagações intelectuais e à procura de um sentido para as questões existenciais.  Ele flertou por algum tempo com o Ceticismo platônico, até conhecer o Neoplatonismo, através dos discí­pulos de Plotino, cuja doutrina era, então, popular entre os católicos em Milão, porque lhes parecia conferir uma base argumentativa racional para a fé cristã.

Agostinho tinha se aproximado dos católicos após conhecer (Santo) Ambrósio, o célebre bispo da cidade, uma pessoa que lhe causaria forte impressão e que já era idolatrado pela sua mãe.

Não obstante, Agostinho não escondeu o entusiasmo que ele teve ao ler a filosofia de Plotino, um filósofo de origem greco-egí­pcia, cujo cerne era a prática da ascensão da alma ao Uno – o princí­pio único, eterno, indivisí­vel, imutável e transcendente que era a fonte de todas as coisas – pela contemplação interior. Do Uno a realidade fluiria constantemente, como a água de uma fonte, e as  suas principais emanações eram o Intelecto e a Alma. Consta que as últimas palavras de Plotino antes de morrer foram:

estou tentando devolver o Divino que há em mim para o Divino que há em Tudo“.

Coincidentemente, o Uno de Plotino era bem parecido com o Deus Cristão descrito no Novo Testamento…

Até que um dia, em agosto de 386 D.C., segundo ele contou, em um momento de grande angústia pessoal, para a qual certamente contribui o fato dele ter sido obrigado a se separar da mulher que ele amara desde a juventude na África, que lhe dera um filho, Adeodato, e com a qual ele vivera em concubinato), Agostinho ouviu uma voz infantil repetindo como um mantra as palavras:

tolle, lege, telle lege” (“pega e lê, pega e lê”).

Ao levantar e ver um livro caído aberto, Agostinho o pega e lê o texto da Carta de São Paulo aos Romanos:

Andemos honestamente como de dia, não em orgias e bebedices, não em impudicí­cias e dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não vos preocupeis com a carne para não excitardes as suas cobiças”).

Livre da angústia e com o rosto iluminado, Agostinho foi contar a novidade à sua mãe. Eu não tenho dúvidas que este deve ter sido o dia mais feliz da existência de Mônica: Após 32 anos de continuados esforços maternos, Agostinho tinha se convertido ao Cristianismo! Logo em seguida, Agostinho pediu demissão do cargo de professor e saiu de Milão para um retiro na fazenda do amigo Verecundo, junto com a mãe, o filho e seus grandes amigos Nebrí­dio e Alí­pio.

Na páscoa de 387 D.C., O bispo Ambrósio batizou Agostinho e Adeodato, como era costume entre os cristãos. Meses depois, Mônica, finalmente realizada por ter atingido o seu maior objetivo, a conversão do filho, faleceria em Óstia.

Agostinho decidiu voltar para Thagaste, vender as terras que herdara do pai e fundar uma comunidade religiosa, para viver em recolhimento e em estudos teológicos na casa em que nascera.

Entretanto, a já famosa trajetória de Agostinho como religioso não lhe permitiria viver muito tempo em retiro e ele acabou sendo eleito assistente do Bispo de Hippo Regius (Hipona), cidade que ficava na atual Argélia. Quatro anos depois, em 395 D.C., Agostinho foi consagrado Bispo de Hipona, cargo que ele ocuparia pelos próximos 35 anos, até o fim de sua vida.

Hippone.jpg

(Ruínas de Hippo Regius (Hipona), foto de Oris)

A função de bispo, no final do Império Romano, combinava a atuação pastoral, com atribuições administrativas, notadamente a gestão do crescente patrimônio das sés católicas, e também assistenciais e judiciárias, as quais vinham sendo atribuí­das à Igreja Católica desde o reinado de Constantino I, o primeiro imperador cristão (Não é a toa que, até hoje, o organograma da Igreja Católica reproduz, em boa parte, a divisão do Baixo Império Romano, com as suas dioceses). Para Agostinho, porém, essas tarefas constituíam um fardo pesado, que competia com a sua atividade intelectual intensa e a produção literária. Não obstante, Agostinho foi um assíduo pregador no púlpito – sobreviveram, até os dias de hoje, cerca de 500 homilias ou sermões que ele ministrou em Hipona.

Foi como Bispo de Hipona que Agostinho escreveu as suas maiores obras: , De Trinitate, Contra os Acadêmicos, Solilóquios, Do Livre-Arbítrio, De Magistro, Confissões, Espírito e Letra, A Cidade de Deus e Retratações.

agostinho st-augustine1

Antes de Agostinho, o Cristianismo era uma religião revelada pela vida e pelos ensinamentos legados por Jesus Cristo, considerado pelos seus seguidores o Messias previsto pela Bíblia Judaica, que, contudo se apresentara e por eles fora percebido, não como o santo rei de Israel, mas como o filho do deus único, Jeová, adorado pelos hebreus. Agostinho, porém, pode ser considerado o fundador de uma filosofia cristã – um termo que ele mesmo criou – ou  senão, ele dotou o Cristianismo de uma coerência lógica que pela primeira vez foi sistematizada em bases racionais que poderiam inserir-se na especulação filosófica greco-romana. Isso podia não dizer nada para o homem simples do campo, mas foi muito importante para  atrair membros da elite romana.

Entre as contribuições filosóficas de Agostinho ao Cristianismo, está o conceito de Beatitude, entendida como o estado de felicidade plena, somente encontrável em Deus. Agostinho tentou conciliar a fé e a razão, sendo a fé a forma de se atingir a verdade eterna, a qual, não sendo demonstrável pela razão, somente através da fé podemos demonstrar, a nós e aos outros, a certeza de acreditar:

“intellige ut credas, crede ut intelligas” (É preciso compreender para crer, e crer para compreender“).

Contra os céticos, Agostinho afirmou que a percepção através dos sentidos não era falsa ou imperfeita (motivo pelo qual aqueles acreditavam que não era possível conhecer de forma absoluta ou indiscutível, sendo todo o conhecimento imperfeito e passível apenas de afirmar uma verdade provável). Para o Bispo de Hipona, a sensação sempre é verdadeira, o erro pode estar no juízo que se extrai das sensações. Assim, a sensação é absoluta. Ninguém pode dizer que o sujeito não sentiu, a sensação é uma verdade interna ao sujeito. Na obra “Cidade de Deus“, Agostinho antecipou o pensamento de Descartes:

“Se eu me engano, eu sou, pois aquele que não é não pode ser enganado”.

O pensamento, assim, era uma realidade em si mesma e uma prova da existência – não só do homem, mas de Deus.

Não obstante, a inefável natureza divina não poderia ser compreendida pelo homem, transcendendo ao pensamento, como bem exemplifica a resposta de Jeová a Moisés: “Eu sou o que sou” (IHVH), assemelhando-se, assim, em sua imutabilidade, inamovibilidade, indivisibilidade e eternidade, ao Uno de Plotino.

Para Agostinho, Deus é perfeito e toda a criação é perfeita, pois tudo o que existe foi criado por Deus. O mal, portanto, somente pode consistir no oposto do bem, ou seja, no “não-ser“. Onde houver mal, não há Deus. O pecado, portanto, é o afastar-se de Deus e decorre do livre-arbítrio com que Ele dotou o Homem, à Sua imagem e semelhança.

Nessa linha, Agostinho também elaborou sobre o insondável mistério da multiplicidade das 3 pessoas na unidade da Santíssima Trindade, iguais e consubstanciais, sendo o Pai, a essência divina; o Filho, o Verbo e a Razão, através da qual Deus se manifesta; e o Espírito Santo, de onde flui o amor que tudo criou:

“Onde existe o Amor existe a Trindade: Um que ama, Um que é amado e uma Fonte de Amor”.

Na concepção de Agostinho, a criação do universo coincide com a criação do tempo, antecipando Einstein, ao demonstrar que tempo e espaço são uma mesma dimensão. Para o religioso, tudo no universo foi criado simultaneamente, de uma só vez, e não em 6 dias, como escrito na Bíblia, que para ele não deve para ele ser entendida em sentido literal. Da mesma forma, o conceito de Agostinho sobre o Pecado Original, a Graça e Predestinação influenciaram a Teologia desde o século V D.C. até o presente.

A concepção de Agostinho sobre o Pecado Original, por exemplo, influenciou posteriormente o Protestantismo. Ele o via como resultado da influência de Satã sobre os os sentidos e carne (“a semente do mal“), afetando a inteligência e o livre-arbítrio do homem, decorrente da concupiscência e libido.

Para rebater a acusação dos pagãos de que o Saque de Roma, ocorrido em 24 de agosto de 410 D.C, devia-se ao abandono pelos romanos dos deuses pagãos e à corrupção das virtudes romanas pelo Cristianismo, Agostinho escreveu a obra Civitas Dei (“A Cidade de Deus”), onde, desenvolvendo todos as suas ideias, ele elabora a história da Humanidade como sendo a da “Cidade dos Homens”, terrena e fadada à destruição pelos pecadores, que eram continuamente castigados através dos tempos, e da “Cidade de Deus”, a ser erguida pelos cristãos.

Porém, em 430 D.C, chegara a vez de Hipona ser destruída pelos bárbaros Vândalos, que cruzaram o Estreito de Gibraltar e invadiram a rica África romana, até então poupada dos saques e da destruição das incursões germânicas. Em 28 de agosto de 430 D.C., durante o primeiro cerco vândalo, Santo Agostinho morreu, aos 75 anos de idade.

Augustine_Lateran

(Afresco do século VI da Basílica de Laterano, em Roma, a mais antiga representação de Agostinho)

CONCLUSÃO

Santo Agostinho foi um dos intelectuais romanos mais importantes e influentes, cujas obras repercutiram até o século XX e certamente ecoarão muito além. O seu pensamento constitui uma ligação do mundo helenístico greco-romano, que agonizava, com a civilização cristã-ocidental que, da reciclagem das cinzas do primeiro, se desenvolveria na Idade Média. A sua obra demonstra também a força do Cristianismo em atrair não só os excluídos materiais da civilização greco-romana, mas também os exilados espirituais da elite greco-romana, para quem a velho modo de vida pagão não oferecia mais respostas às inquietações existenciais.

CAPROTINIA

Lawrence_Alma-Tadema_-_The_vintage_festival_-_Google_Art_Project.jpg

(O Festival da Colheita, tela de Sir Lawrence Alma-Tadema, 1871)

Dia 7 de julho, os romanos comemoravam as Nonas Caprotinas, ou também Caprotinia, também chamadas, ainda, de Nonas dos Figos Selvagens, que era o festival em honra de Juno Caprotina, a divindade protetora das mulheres escravas.

giunone-caprotina3

(Estátua de Juno Caprotina)

Segundo a lenda, uma virgem romana chamada Philotis, que tinha sido capturada pelos gauleses, ou, segundo outra versão, por uma tribo latina adversária dos romanos, subiu em uma figueira selvagem (Caprificus) existente no acampamento inimigo e acendeu uma tocha, assinalando para os romanos o local onde eles deveriam atacar os adversários.

Durante o festival da Caprotinia, do qual só participavam mulheres, as escravas deveriam correr se batendo com os próprios punhos ou com pedaços de pau, e depois banquetearem-se sob uma figueira.

TEODORA – DE DANÇARINA A IMPERATRIZ

Em 28 de junho de 548 D.C., morreu, em Constantinopla, a imperatriz Teodora Augusta, esposa do imperador romano do Oriente Justiniano I (Segundo uma fonte, ela tinha  48 anos, enquanto que outra fonte menciona que ela faleceu com 51 anos de idade). A causa da morte foi uma enfermidade que os especialistas modernos identificam como câncer de mama, com base nos relatos antigos).

 

theodora_milano_rgzm

 

Nascimento, infância e juventude

 

Nascida por volta do ano 500 D.C., provavelmente na ilha de Chipre (embora outras fontes mencionem a Síria e a Paflagônia como o local de nascimento),  Teodora, era a segunda das três filhas de Acacius, um adestrador de ursos que trabalhava para a facção dos Verdes no Hipódromo de Constantinopla, onde os animais participavam dos espetáculos encenados nos intervalos entre as corridas de quadrigas, para distrair o público.

 

Hippodrome-of-Constantinople.jpg(Reconstituição do Hipódromo de Constantinopla)

 

Nota: As  chamadas “facções” do Hipódromo: os Verdes, os Azuis, os Vermelhos e os Brancos, haviam surgido no Circo Máximo em Roma e, inicialmente, elas constituíam, ao mesmo tempo, uma espécie de equipe e torcida organizada nas corridas de quadrigas de cavalos que ali eram disputadas. Com o passar do tempo, essas facções passaram a adquirir também caráter político e, até mesmo, a participar de disputas teológicas e, por fim, acabaram sendo transplantadas de Roma para Constantinopla, onde os Verdes e os Azuis absorveram as outras duas facções).

 

charioteergreen3charioteerblue3RCC02charioteerwhite3

 

Porém, quando Teodora tinha apenas quatro anos, o seu pai, Acacius,  faleceu, e a mãe dela, que era atriz e dançarina (o nome dela não é mencionado), precisou casar-se com outro homem, esperando que este herdasse o posto do seu falecido marido junto aos Verdes.

No entanto, os Verdes escolheram outra pessoa, e a mãe de Teodora, desesperada com a perspectiva da família cair na miséria, ordenou que ela e as irmãs, enfeitadas com guirlandas, fossem ao Hipódromo apresentar-se pessoalmente aos chefes das demais facções, diante dos camarotes que eles ocupavam à beira da pista. Diante dessa cena, o representante da facção dos Azuis, que também estavam precisando de um tratador de animais, ficou com pena das meninas, e resolveu contratar o padrasto de Teodora. Em gratidão, Teodora se manteria fiel e devotada aos Azuis pelo resto da vida.

Ainda assim, desde criança, Teodora teve que trabalhar, junto com a sua irmã mais velha, chamada Comito, no Hipódromo, onde ela se apresentava em números artísticos.

Já adolescente, Teodora notabilizou-se pela performance interpretando “Leda e o Cisne“, uma peça burlesca baseada no célebre mito grego, em que Zeus, transformado em um cisne, seduz e faz amor com a rainha Leda, de Esparta. Em uma das cenas da peça, Teodora apresentava-se praticamente nua e deitada, com grãos de cevada espalhados nas suas virilhas, os quais eram apanhados com o bico por um cisne, em evidente alusão erótica a um objeto fálico.

 

 

Leda-Swan-Pompeii

(Afresco recentemente descoberto na Região V de Pompéia, retratando o mito de Leda e o Cisne)

 

Aos 14 anos, Teodora deu à luz a uma menina e foi aproximadamente nessa época que ela fez amizade com Antonina, a filha de um condutor de quadrigas de corrida que competia no Hipódromo e de uma dançarina dos espetáculos teatrais. Essa amizade perduraria por toda a vida das duas, e Antonina, mais tarde, casaria-se com Belisário, o célebre general de Justiniano I.

A maior parte dessas estórias é contada pelo historiador Procópio, em sua obra “A História Secreta”, onde ele afirma que, em adição às performances artísticas no Hipódromo, Teodora também exerceria a prostituição em um bordel.

Procópio chegou, ainda, a escrever, sobre a suposta luxúria desenfreada de Teodora, que certa vez ela teria reclamado que Deus deveria ter feito mais orifícios em seu corpo, “porque somente três não seriam suficientes para satisfazê-la“…

Sabe-se que, de fato, durante o Império Romano, mesmo que no período tardio, não era incomum que a profissão de atriz estivesse ligada á prostituição. Mas os relatos mais exagerados de Procópio sobre Teodora são vistos como suspeitos pelos historiadores: Eles contradizem o que ele próprio escrevera em livros anteriores e, em uma passagem da “História Secreta“, o historiador chega a afirmar que Teodora e Justiniano seriam demônios de verdade.

Enquanto ela ainda trabalhava como atriz e/ou prostituta, Teodora conheceu, em Constantinopla, um certo Hecebolus, que tinha sido nomeado governador do distrito de Pentapolis, supostamente na Líbia, tornando-se amante dele.

Então, com apenas 16 anos de idade, Teodora teria partido, acompanhando Hecebolus, para a África (eu acredito que há uma incorreção aí, pois a reconquista de Justiniano da África para o Império Romano somente ocorreu em 533 D.C., quando Teodora já era imperatriz. Por isso, talvez a Pentapolis mencionada não seja na Líbia, já que vários outros agrupamentos de cinco cidades do mundo helenístico recebiam esse nome). Vale notar que havia, desde 409 D.C.,  uma lei romana em vigor que previa que os atores e atrizes não poderiam mudar-se da cidade onde trabalhavam. Portanto, é provável que Hecebolus deva ter “mexido alguns pauzinhos” para que Teodora pudesse lhe acompanhar…

Entretanto, Procópio narra que Hecebolus logo desinteressou-se de Teodora, chegando até a maltratá-la. Por esse motivo, Teodora deixou-o e foi viver em uma comunidade de religiosos ascetas no deserto próximo à Alexandria, onde ela converteu-se ao credo Monofisita (o Monofisismo é uma doutrina que prega que Jesus Cristo tem apenas uma natureza: a divina), talvez provavelmente por influência do Patriarca de Alexandria, Timóteo III.

Posteriormente, Teodora foi viver em Antioquia, na Síria, onde ela ficou muito amiga de uma  certa  Macedonia, que também era atriz e dançarina na facção dos Azuis. Conta-se que Macedonia também atuava como informante de Flavius Petrus Sabbatius Iustinianus (o futuro imperador Justiniano), sobrinho e filho adotivo do comandante da tropa militar de elite dos ExcubitoresJustino, que procurava saber tudo acerca da posição dos nobres e militares que poderiam apoiar a ascensão de seu pai adotivo ao trono, uma vez que o imperador Anastácio I Dicoro, que já era octogenário, não tinha filhos.

 

Encontro com Justiniano e casamento

 

Aparentemente, foi Macedonia quem  apresentou Teodora a Justiniano, talvez como uma pessoa que lhe pudesse ser útil.  Um traço comum entre os dois era que Justiniano, como Teodora, era partidário da facção dos Azuis. O fato é que, em 522 D.C., aos 21 anos, Teodora retornou à Constantinopla, onde, renegando o passado de atriz, passou a trabalhar como fiadeira de lã, em uma casa próxima ao Palácio Imperial. Nessa época, Justino I já tinha sucedido Anastácio e se tornado imperador, e Justiniano era seu herdeiro e braço-direito.

Não temos muitos detalhes de quando e como o romance entre Teodora e Justiniano começou, mas o certo é que Justiniano tinha encontrado a mulher de sua vida. Todavia, haviadois obstáculos para que os dois contraíssem matrimônio legalmente: a lei que proibia que os integrantes da classe senatorial – a nobreza do império romano – casassem com atrizes, e a oposição da imperatriz Eufêmia, tia de Justiniano, ao casamento do sobrinho com uma mulher de baixa condição social como Teodora (não obstante, ela mesmo, Eufêmia, tivesse nascido bárbara e escrava, e dormido com o seu amo, antes dela casar -se com Justino).

Ocorre que, por volta de 524 D.C, a imperatriz Eufêmia morreu. Pouco tempo depois, o imperador Justino I revogou a lei  proibindo o casamento de nobres com atrizes. Assim, cerca de 525 D.C.,  Justiniano e Teodora puderam casar-se perante o Patriarca Epifânio, em Constantinopla, na primitiva igreja da Santa Sofia.

 

Teodora imperatriz

 

Em 1º de agosto de 527 D.C., Justino I morreu e Justiniano I foi coroado imperador ao lado de Teodora, que recebeu o título de “Augusta” (imperatriz).

 

JUSTINIEN

(Reconstituição das feições de Justiniano I, com base em mosaicos e efígies)

 

Os primeiros anos do reinado de Justiniano foram ocupados por duas questões principais:

No plano externo, o conflito com o Império Persa foi marcado por sucessos e reveses. Após a morte do Xá Kavadh, Justiniano assinou, em 532 D.C., o chamado “Tratado da Eterna Paz” com a Pérsia o que lhe asseguraria as condições para as suas campanhas no Ocidente.

E, em casa,  Justiniano iniciou seu reinado colocando em prática o seu imenso projeto de reforma e codificação do Direito romano, que seria coroado pela edição do  Corpus Juris Civilis, nomeando uma comissão composta pelos mais notáveis juristas do Império.

 

th

 

O Corpus Juris Civilis e a provável influência de Teodora em favor dos direitos das mulheres

 

Os estudiosos acreditam que Teodora teve considerável influência em alguns dispositivos do Corpus Juris Civilis que ampliavam os direitos das mulheres, notadamente  nos artigos que protegiam as prostitutas, bem como nos que puniam aqueles que forçassem as mulheres a se prostituírem contra a vontade. Foram, ainda, aumentadas as penas para os estupradores e, finalmente, também previu-se que as mulheres presas, caso não houvesse guardas do sexo feminino, deveriam ficar custodiadas em um convento de freiras.

Em outros artigos, o Código de Justiniano também previu que as mulheres viúvas poderiam ficar com a guarda de seus filhos ou netos. Por sua vez, a prática de exposição de recém-nascidos, fruto de gravidez  não desejada os quais, costumeiramente eram abandonados nas cidades romanas e frequentemente eram do sexo feminino, foi proibida.

Por fim, outra normas instituíram que o costumeiro dote que a família da noiva tinha que dar ao noivo deveria ser restituído à viúva, após a morte do marido, e que o marido necessitava do consentimento da esposa para contrair dívidas de grande valor ( o que pode estar na origem de várias leis semelhantes, tratando do consentimento da esposa para compra e venda de imóveis, que sobreviveram até os nossos dias).

Teodora também apresentava-se como protetora dos desvalidos e há uma grande inscrição na Igreja de São Sérgio e São Baco, em Constantinopla com o seguinte trecho:

“Teodora coroada por Deus cuja mente está adornada com piedade e cujo trabalho incessante repousa em incansáveis esforços para cuidar dos despossuídos”

Istanb97
(Igreja de São Sérgio e São Baco, construída pelo imperador Justiniano I)

Entre outras ações de Teodora em proteção das mulheres figuram o fechamento de bordéis na capital e o envio das prostitutas para morarem em um convento chamado de Metanoia (Arrependimento).

Por tudo isso, é muito difícil não relacionar essas ações com a própria vida pregressa de Teodora, que deve ter presenciado, senão experimentado na própria carne, as vicissitudes a que estavam sujeitas as prostitutas em Constantinopla, bem como a aflição que a sua própria mãe passou quando perdeu o marido.

 

Iniciativas religiosas

 

Um exemplo da independência com que Teodora agia foi  na questão religiosa: Embora Justiniano fosse adepto do credo do Concílio de Calcedônia, Teodora fundou um monastério Miafisita (uma doutrina parecida com o Monofisismo) em Sycae, uma localidade em frente à Constantinopla e abrigou no próprio Palácio bispos Miafisitas que estavam sendo perseguidos pelos defensores da ortodoxia cristã.

A proteção que Teodora daria ao Miafisismo durante toda a sua vida lhe renderia a crítica de que ela comprometeu a unidade religiosa do Império Romano.

De qualquer forma, Justiniano foi muito influenciado por Teodora, afinal ambos eram interessados nas questões teológicas e conversavam muito sobre esse tema. Assim, no final da sua vida, Justiniano aproximou-se do Monofisismo e tentou conciliar os credos em torno de pontos comuns, visando manter a unidade, embora, como frequentemente acontece, ele tenha acabado por desagradar a todos os envolvidos. Mesmo assim, atendendo aos pedidos de Teodora, após a morte da esposa, Justiniano manteve a proteção aos bispos miafisitas.

Durante a futura campanha de Justiniano na Itália, que culminou com a reconquista da península pelo Império Romano, Teodora conseguiu, em 537 D.C., por meio do general Belisário,  a deposição do Papa Silverius, em Roma, colocando em seu lugar Vigilius, que era Apokrisiarios, em Constantinopla (representante papal junto ao imperador), um prelado que ela tinha compelido a apoiar a causa dos Monofisistas. Ao sentar no trono papal, contudo, o Papa Vigilius não agiu como Teodora esperava e manteve-se fiel ao credo de Calcedônia, que era dominante entre a população italiana.

 

A Revolta Nika

 

Em 13 de janeiro de 532 D.C., estourou um grande tumulto no Hipódromo de Constantinopla. As queixas imediatas da multidão reunida no Hipódromo diziam respeito à prisão de líderes das facções dos Azuis e dos Verdes, por assassinatos cometidos em uma corrida anterior.

Justiniano já tinha comutado as sentenças de morte proferidas contra os acusados pelos assassinatos para penas de prisão, mas isso não satisfez a massa.

É de fato bem provável que houvesse motivos mais profundos para a revolta da turba, já que ambas as facções atuavam como um misto de agremiação política e torcida organizada ligadas a interesses de grupos políticos e eclesiásticos. De fato, entre as reivindicações dos manifestantes, estavam a demissão do influente Prefeito Pretoriano João, o Capadócio, responsável pela cobrança de tributos que desagradaram a plebe e também por coordenar as reformas legais compiladas no Corpus Juris Civilis. E no decorrer da rebelião, os revoltosos chegariam a aclamar o nobre Hypatius, sobrinho do falecido imperador Anastácio I Dicoro, como imperador.

Assim, naquele dia 13 de janeiro, quando Justiniano apareceu no camarote imperial (o  chamado “Khatisma“, no qual o imperador podia assistir as corridas e ser visto pelo público), a multidão começou a insultar o imperador aos gritos. Então, ao começar o páreo de número 22 do programa, os costumeiros gritos de “Azuis” ou de “Brancos” foram substituídos pelo canto de “Nika!“, que quer dizer, em grego, “Vitória!”. Em seguida, a grande massa de espectadores deixou seus assentos e tentou invadir o Palácio, deixando os guardas e os burocratas imperiais estupefactos.

 

kathisma Istambul_cokol1RB.JPG

(O imperador (Teodósio II), no Kathisma, o camarote imperial no Hipódromo de Constantinopla)

 

A “Revolta Nika“, como o episódio ficou conhecido, durou cinco dias, no decorrer dos quais Justiniano e Teodora  ficaram sitiados no Palácio. Certa dia, durante uma reunião, o pânico tomou conta do Imperador e de seus ministros, e eles começaram a considerar fugir nos navios que estavam ancorados no cais particular do Palácio. Nesse momento, segundo Procópio (“Guerras”, 1.24.33-37), Teodora levantou-se e fez o seguinte discurso:

“Meus senhores, a ocasião presente é muito grave para me permitir seguir a convenção de que uma mulher não deve falar em uma reunião de homens. Aqueles cujos interesses estão ameaçados pelo perigo extremo, somente devem pensar no curso de ação mais inteligente, e não em convenções. Na minha opinião, fugir não é o caminho correto, mesmo que isso nos deixe em segurança. É impossível que alguém que tenha nascido, não morra, mas, para quem quer que tenha reinado, é intolerável tornar-se um fugitivo. Que eu nunca seja despojada deste manto púrpura, e que eu nunca veja o dia em que eu não seja chamada de Imperatriz! Se tu desejas, meu Senhor, salvar-se, não há dificuldade: nós somos ricos, lá está o mar, e ali estão os navios…No entanto, reflita por um momento se, uma vez que tenhas escapado para um lugar seguro, tu não trocarias alegremente esta segurança pela morte? Quanto a mim, eu concordo como o adágio que diz que a púrpura real é a mais nobre das mortalhas!”

teodora th

(Reconstituição da imagem de Teodora em trajes de imperatriz com base no mosaico de San Vitale)

O discurso inspirador de Teodora reacendeu o espírito de luta de Justiniano e ele decidiu agir. O eunuco Narses, que posteriormente se notabilizaria como general na Itália, foi enviado para subornar os líderes da facção dos Azuis, os quais abandonaram a revolta. Em seguida, Justiniano enviou a sua guarda pessoal, comandada pelo leal general Belisário contra os integrantes da facção dos Verdes, que permaneciam rebelados no  Hipódromo.

A repressão foi brutal e estima-se que 30 mil pessoas tenham sido massacradas no Hipódromo e adjacências.

CONSTANTINOPLE_4.jpg

(O Hipódromo, colado ao complexo do Palácio Imperial, incluindo o porto particular do imperador)

A Revolta Nika provocou um grande incêndio e causou uma grande destruição em Constantinopla, e, entre os prédios afetados, estava a Igreja de Hagia Sophia, fundada por Constantino, o Grande, cuja reconstrução foi encomendada por Justiniano aos arquitetos Antêmio de Trales e Isidoro de Mileto para se tornar em breve o edifício religioso mais impressionante até então construído no Império Romano.

Hagia_Sophia_Mars_2013

(A atual Catedral de Santa Sofia, em Constantinopla, erguida por Justiniano I após a Revolta Nika para substituir a anterior que foi queimada por um incêndio)

 

Após a Revolta Nika, o papel de Teodora como virtual co-governante do Império não podia mais ser colocado em dúvida.

Por exemplo, consta que, debelada a revolta,  Justiniano chegou a cogitar em poupar  Hypatius e Pompeius, os sobrinhos de Anastácio I Dicoro, mas Teodora interveio, alegando o risco que isso representaria para o governo, e demandou a punição de ambos, que foram, então, executados.

Teodora também mostrou apetite para as maquinações e intrigas típicas da corte imperial, premiando aliados e perseguindo desafetos: O eunuco Narses era seu protegido, e, com o seu apoio ele se tornaria, decorrido algum tempo, o general mais importante do exército romano. A impertatriz também apoiava o Prefeito Pretoriano Pedro Barsymes.

João, o Capadócio, que tinha sido o antecessor de Barsymes, e gozava de bastante prestígio junto a Justiniano, mas que mostrava pouca deferência para com Teodora,  foi o principal alvo das maquinações da Imperatriz, que,  valendo-se da ajuda de sua velha amiga Antonina, tramou a queda do ministro.

Na trama supracitada, Antonina  enviou a João, o Capadócio a falsa informação de que o marido dela, o general Belisário, estava planejando derrubar o Imperador.  Assim, ela conseguiu atrair João para um encontro em um palácio na cidade de Calcedônia, onde Narses e Marcellus, o comandante da guarda imperial dos Excubitores, estavam escondidos para ouvir a conversa. Os dois tinham ordem de matar o ministro assim que este falasse qualquer coisa que pudesse sugerir sua adesão a traição. Porém, João conseguiu escapar deles e abrigar-se em uma igreja.

Quando o fato chegou ao conhecimento de Justiniano, este, ao contrário do que seria de se esperar, não mandou executar João, mas ordenou que o mesmo fosse exilado para Cyzicus, uma cidade na Anatólia não muito longe de Constantinopla, por volta de 540 D.C.

Em Cyzicus, João, o Capadócio foi obrigado a se ordenar padre. Porém,  quando o bispo da cidade foi assassinado, ele foi implicado na trama e, desta vez, exilado para a distante cidade de Antinoe, antiga Antinoopolis, no Egito.

Evidenciando novamente a enorme influência de Teodora sobre Justiniano é fato que, somente após a morte dela, em 548 D.C., o exílio de  João, o Capadócio foi suspenso pelo imperador, que o chamou de volta à Constantinopla.

Últimos anos e morte de Teodora

Em 547 D.C., foi concluída a Basílica de San Vitale, em Ravenna, antiga capital do Império Romano do Ocidente, que foi reconquistada, juntamente com toda a península italiana, por Justiniano, nas guerras contra o Reino Ostrogodo da Itália, a partir de 535 D.C. (esta guerra teria indas e vindas, e somente acabaria em 554 D.C., com a derrota completa dos Ostrogodos).

San_Vitale_Ravenna

(Basílica de San Vitale, em Ravenna, foto de Madaki)

 

O interior da Basílica de San Vitale (esta igreja não é uma basílica em termos arquitetônicos, pois tem uma planta octogonal) foi adornado com alguns dos mais fabulosos mosaicos produzidos pela arte romano-bizantina, os quais foram concluídos em 547 D.C.

Nas duas paredes laterais da apse da Basílica de San Vitale há dois mosaicos excepcionais, um em cada lado:  O do lado direito ostenta a imagem do imperador Justiniano, vestido com seu manto púrpura e coroa, ladeado pelos seus mais importantes auxiliares, além do bispo Maximiano, que inaugurou a igreja.

1280px-Meister_von_San_Vitale_in_Ravenna_003

E o mosaico do lado esquerdo da apse ostenta a imagem da imperatriz Teodora, igualmente vestida com seu manto púrpura, coroada e adornada de ricas jóias, ladeada por suas damas e seus eunucos mais chegados.

1920px-Mosaic_of_Theodora_-_Basilica_San_Vitale_(Ravenna,_Italy).jpg

Caso ainda persista alguma dúvida de que Teodora dividia o status de governante do Império com Justiniano, basta a mera contemplação dos dois painéis de mosaicos da Basílica de San Vitale para se ter a certeza de que ambos reinaram em pé de igualdade.

Provavelmente, quando da conclusão da Basílica de San Vitale, Teodora já devia estar sofrendo da doença que acabaria causando a sua morte, um ano depois. As fontes usam o termo grego que é traduzido por “câncer”, mas podem também se referir a um tumor ou úlcera que supurava.  A teoria mais aceita é de que se tratava de um câncer de mama.

No dia 28 de junho de 548 D.C., Teodora morreu no Palácio Imperial, em Constantinopla, aos 48 anos de idade (ou aos 51, de acordo com outras fontes). Consta que no velório dela, o imperador Justiniano chorou copiosamente em público a perda da sua esposa, companheira e sócia de uma vida inteira.

Teodora foi sepultada na Igreja dos Santos Apóstolos, que sempre foi o tradicional local de descanso da maior parte dos imperadores romano-bizantinos, desde Constantino I, o Grande,  e era mais uma das igrejas que ela e Justiniano tinham reconstruído na capital. A igreja foi destruída em 1456 pelos turcos,  três anos após a Queda de Constantinopla.

Istanbul_-_Museo_archeologico_-_Sarcofagi_imperiali_bizantini_-_Foto_G._Dall'Orto_28-5-2006_2

(Sarcófagos de pórfiro de Imperadores Romanos do Oriente, que ficavam na igreja dos Santos Apóstolos e atualmente estão no exterior do Museu Arqueológico de Istambul)

 

A união de Teodora e Justiniano não gerou filhos e certamente ela muito desejou dar um herdeiro ao esposo. Segundo Procópio (História Secreta), quando Sabas, o Santificado (São Sabas), um venerado eremita e arquimandrita da Palestina, que tinha fama de fazer milagres, esteve em Constantinopla, em 531 D.C., Teodora, apesar do religioso ser um tenaz oponente do Monofisismo, pediu a Sabas que ele rezasse para que ela engravidasse. Entretanto, o velho eremita se recusou, respondendo que qualquer filho que Teodora desse à luz seria uma grande calamidade para o Império.

 

Conclusão

 

Teodora certamente foi uma das mulheres mais poderosas da História Romana. E,  diferentemente de outras detentoras de poder de fato, como Lívia Drusila, Agripina ou Júlia Domna, ela não foi uma eminência parda ou exercia o seu poder na alcova, mas também tinha a sua posição soberana reconhecida oficialmente: ela tinha o seu próprio selo imperial, sua própria corte e corpo de funcionários privativos. Em documentos oficiais, Justiniano chegou a referir-se a Teodora como “minha sócia nas minhas deliberações“. Contrastando, ainda, com as referidas imperatrizes, bem como outras célebres mulheres poderosas do Mundo Helenístico, Teodora não nasceu na realeza nem tinha origem nobre, tendo, ao revés, vindo dos estratos mais baixos da sociedade.

 

F I M

 

 

JUNHO – MÊS DE VESTA E DA VESTALIA

No primitivo calendário romano, que tinha dez meses no total e começava em março, junho era o quarto mês do ano. Depois, com a introdução dos meses de janeiro e fevereiro, por volta do século II A.C., o mês passou a ocupar a sexta posição no calendário, que mantém até hoje.

Sousse_mosaic_calendar_June

Desde os primórdios de Roma até quase o fim do período republicano, o mês de junho tinha 29 dias, até a reforma do calendário romano instituída pelo Ditador Caio Júlio César. A partir de então, com a adoção do chamado Calendário Juliano,  que começou a vigorar em 1º de janeiro de 45 A.C., o mês passou a ter 30 dias.

Segundo o poeta romano Ovídio,  que as menciona em seu famoso poema  “Fasti“, sobre o calendário romano, haveria  três explicações para a origem do nome Junho, ou Iunius,  em latim: Segundo a primeira delas, o nome seria uma homenagem a deusa Juno, a esposa de Júpiter e deusa protetora do Estado Romano, bem como das mulheres, do parto e do casamento. De acordo com a segunda tese contida nos versos, o nome do mês decorreria da deusa Juventus, ou Juventude, que no poema afirma que o junho é o mês dos jovens (iuniores) em contraposição ao mês anterior, maio, que é dedicado aos velhos (maiores). E Ovídio ainda cita no poema uma terceira alternativa para o nome junho: uma homenagem a Marco Junius Brutus, o fundador da República Romana e que fez o primeiro sacrifício a Deusa Carna (Dea Carna), em 1º de junho, embora esta útlima explicação seja improvável.

juno S03_06_01_020_image_2539

Importantes datas cerimoniais romanas aconteciam em junho.

Nas calendas de junho (primeiro dia do mês, segundo o método romano de contagem dos dias dos meses), ocorria o já mencionado Festival de Carna, chamado de “Calendas do Feijão (ou favas)” (Kalendae fabariae). Carna era uma divindade que Ovídio associou à Carda, a deusa das dobradiças das portas (Os romanos davam tanta importãncia religiosa às portas das casas e aos portões dos celeiros que havia três divindades específicas  para os seus componentes: um para o umbral, um para a porta propriamente dita e outra para as dobradiças…).

Nas Calendas do Feijão que se incluía entre os dias “nefastos” (ou seja, um feriado em que não podia ocorrer nenhum tipo de sessão pública, seja audiência judiciária, reunião política ou assembléia), era oferecido à deusa Carna um prato de feijões (ou favas) cozidos e fritos em banha de porco.

VESTA E A VESTALIA

Entre os dias 7  (ante dies VII idus junias) e 15 de junho (ante dies XVII Kalendas Iulias ou, antes do Calendário Juliano, ante dies XVI Kalendas Quinctilis), ocorria a Vestalia, que  era a nundina (período  de 9 dias que no calendário romano tradicional tinha a mesma função da atual semana)  de festejos e cerimônias em honra `deusa Vesta, uma das divindades mais antigas e tradicionais do Panteão romano, tão ancestral que inicialmente não era personalizada e  nem antropoformizada, de acordo com o regular padrão evolutivo  da religiosidade humana. Mais tarde, e  com a crescente influência da cultura grega em Roma, Vesta foi incluída entre os doze “Deuses Consentes“, como filha de Saturno e Ops, e irmã de Júpiters, Netuno, Plutão, Juno e Ceres.

Vesta era uma divindade originalmente ligada ao lar e à família, e o lugar mais importante da casa romana ancestral era a lareira (focus), que protegia os moradores do frio e permitia cozinhar os alimentos, e de onde se originou não só a nossa palavra “fogo”, mas também a palavra “foco” (ponto central). Proximo à lareira, na casa romana, ficava um armário ou dispensa, chamado de “penus“. Os romanos acreditavam que esses armários eram guardados por espíritos, que recebiam o nome de “Penates” que ajudavam outros espíritos que cuidavam da totalidade do lar (os “Lares“), e eram cultuados em um altar próprio dentro da casa, chamado de lararium ( e que, curiosamente, deram origem a nossa palavra “lareira”, pois ambas as divindades tornaram-se,  desde tempos ancestrais,  associadas).

Vale mencionar que, segundo uma lenda, já no início do período monárquico de Roma, o rei Sérvio Túlio seria filho de um desses “Lares”, que,  transformado em pênis “(phallus), escondeu-se entre os carvões da lareira da casa do rei Tarquínio e teve relações sexuais com Ocresia, escrava (serva) da rainha Tanaquil.

Acredito, com base na filologia linguística, que Vesta pode ser uma das divindades ancestrais de um hipotético panteão proto indo-europeu, e portanto, muito anterior à fundação de Roma. De fato, segundo o filólogo francês Georges Dumézil , o nome da deusa Vesta deriva da  raiz da língua proto-indoeuropeia *h₁eu-,  através do derivativo *h₁eu-s- ou *h₁w-es-, que evoluiu  para os radicais  εὕειν heuein,, em grego,,  ustio, no latim e no védico osathi  todos com o significado de queima, sendo que o vocábulo latino está presente em Vesta.  Na língua gaulesa, havia a palabra visc, que significa “fogo”.

Havia  também uma divindade similar à Vesta entre os gregos, chamada Hestia, que, segundo Cícero, teria originado o nome Vesta.

Segundo a tradição, quando Roma foi fundada, Vesta já era cultuada na cidade de Lavinium, no Lácio, que segundo a lenda teria sido fundada pelo próprio Enéias, herói troiano mítico que, fugindo da queda de Tróia, teria trazido com ele para a Itália o culto aos Penates, entre os quais se incluía Vesta (conforme mencionado por Virgílio na Eneida, II, 293) e por Macrobius, na Saturnalia, III, 4). Posteriormente, Ascânio  que seria filho de Enéias e Lavínia (em nome de quem Enéias batizou Lavinium), filha do rei Latinus, fundou a cidade de Alba Longa, levando para lá o culto a Vesta.

Séculos após a fundação de Alba Longa, segundo as narrativas em boa parte míticas preservadas pelo historiador Tito Lívio, depois da morte do rei albano, Proca, o  seu filho mais velho, Numitor, que seria o seu sucessor,  foi deposto pelo irmão mais novo, Amulius, que mandou matar os sobrinhos do sexo masculino. Já a filha de Numitor, Rhea Silvia, foi poupada pelo tio e nomeada Virgem Vestal, que era o nome e condição das sacerdotisas que cuidavam do culto a Vesta.

Porém, ainda segunda a lenda da fundação de Roma, Rhea Silvia foi estuprada pelo deus Marte, engravidou dele e deu à luz aos gêmeos Rômulo e Remo, que, tendo a sua morte ordenada por Amulius, foram abandonados nas margens do rio Tibre, sendo salvos e alimentados por um lôba. Mais tarde, os irmãos cresceram, e, após matar Amulius e  instalar Numitor no trono de Alba Longa, deixaram esta cidade e saíram para fundar a cidade de Roma. o que seria feito por Rômulo, após matar o irmão, em 21 de abril de 753 A.C.

Segundo Macrobius, os primeiros magistrados  de Roma, ao serem empossados, deviam ir até Lavinium e fazer um sacrifício a Vesta.

Por sua vez, de acordo com Dioníso de Helicarnasso (Antiguidades Romanas, II, 66), o segundo rei de Roma, Numa Pompílio (tradicionalmente, ele teria reinado de 715 A.C. a 673 A.C), o primeiro monarca romano que se dedicou a organizar e consolidar a religião romana, decidiu estabelecer um altar a Vesta na Cidade, comum para todo o povo, situado entre as colinas do Capitólio e de Palatino, ou seja, na área que se tornaria o  Fórum Romano. Este altar ou Templo de Vesta, tinha de fato o propósito de ser o  “focus” comum de toda Roma e do povo romano, e, por isso Cícero se referia a ele como “focum urbis” e “focum publicus“.

Sendo Vesta uma divindade ligada ao lar, nada mais natural que, na sociedade patriarcal latina, as mulheres fossem as principais responsáveis pelo seu culto. E, em sendo verdadeiras as lendas, mesmo antes da fundação de Roma, já existiam sacerdotisas encarregadas do culto a Vesta, das quais se exigia serem virgens, como mostra a fábula de Rhea Silvia.

Entretanto, a criação do Colégio das Virgens Vestais, em Roma, é atribuída, igualmente, ao rei Numa Pompílio. Foi providenciada uma habitação custeada pelo Estado (Casa das Vestais), que também deveria sustentar as sacerdotisas, que  eram escolhidas pelo próprio rei, na condição de chefe da religião romana, talvez, inicialmente entre as suas próprias filhas ( atribuição que, depois, no período republicano, passou a ser do Pontifex Maximus, cargo que, mais tarde, já durante o Império, passou a ser privativo do Imperador).

A principal tarefa das Virgens Vestais era cuidar para que o fogo sagrado de Vesta, mantido no interior do seu respectivo Templo, jamais se apagasse, e os romanos acreditavam que quando isso acontecia, grandes tragédias se abatiam sobre a cidade e sobre o Estado.

Chief_Vestal

(Estátua de uma Virgem Vestal, encontrada na Casa das Vestais, em Roma)

Acredita-se que a exigência da virgindade como condição inerente às Vestais estava ligada à pureza que os romanos atribuíam ao fogo sagrado de Vesta e à própria deusa, que, naturalmente também era virgem. Assim, dentro dessa concepção romana, para garantir que as encarregadas de velar pelo fogo sagrado não conspurcassem a pureza do mesmo, somente meninas entre seis e dez anos de idade poderiam ser escolhidas para serem Virgens Vestais e, obviamente, elas deveriam permanecer virgens e celibatárias enquanto estivessem a serviço do deus, sendo que a Vestal que violasse o dever de castidade com a perda da virgindade era punida com a terrível pena de ser enterrada viva.

Ainda ligado ao desejo de assegurar  pureza ou perfeição, as escolhidas não podiam ser filhas de pais divorciados, de libertos ou escravos, ou daqueles que tivessem profissões consideradas inferiores ou degradantes. E também não podiam ter defeitos físicos ou problemas mentais.

Essa extrema preocupação com a pureza do fogo de Vesta era tal que,  de acordo com u Plutarco  (Vidas Paralelas”, “Vida de Numa”, IX, 6–7), caso a chama guardada no seu templo se extinguisse por algum motivo, ela não poderia ser acesa por outro fogo iniciado diretamente pela mão do homem, mas somente por meio de espelhos especiais, amplificando a fonte impoluta vinda do próprio sol:

E, se por alguma eventualidade ele (o fogo sagrado) se apague, como em Atenas durante a tirania de Ariston, como contam que a lâmpada sagrada foi apagada, e em Delfos, quando o templo foi incendiado pelos Persas, e como, durante as Guerras contra Mitridates e as Guerras Civis Romanas, o altar foi demolido e o fogo extinto, então eles afirmam que ele não deverá ser aceso novamente com outro fogo, mas sim criado fresco e novo, pelo acendimento de uma chama pura e não poluída vinda dos raios do Sol. E isso eles geralmente conseguem por meio de espelhos metálicos, a concavidade dos quais é feita seguindo os lados de um triângulo isósceles retangular e que convergem da sua circunferência até um único ponto no centro. Quando, por conseguinte, aqueles são colocados contra o Sol, de modo que os raios dele, enquanto eles incidem sobre eles de todos os lados, são coletados e concentrados no centro, o próprio ar é ali rarefeito, e substâncias muito leves e secas ali colocadas rapidamente inflamam-se – os raios solares adquirindo a forma e a substância do fogo“.

Observe-se que não há consenso, mesmo entre os autores antigos, de que essa forma de acender o fogo fosse a única ou mesmo que ela fosse a utilizada no Templo de Vesta. Outros relatos referem-se ao uso do método ancestral de esfregar um pedaço de madeira em outro. Portanto, parte do treinamento das Virgens Vestais era destinado a aprender as técnicas de acender e manter o fogo sagrado. E, de fato, todo dia 1º de março – primeiro dia do ano do primitivo calendário romano – o fogo deveria ser renovado.

A escolha das “noviças” que se tornariam Virgens Vestais, feita pelo rei ou pelo Pontífice Máximo, era compulsória, ou seja, em caso de recusa, eles tinham o poder de capturar a virgem escolhida e levá-la para a Casa das Vestais, mas raramente isso se mostrou necessário.

Como reconhecimento do fardo pessoal que a condição de Virgem Vestal acarretava às escolhidas, o período de sacerdócio obrigatório era de trinta anos, após o que a mulher poderia voltar à vida normal, casando e tendo filhos. Não obstante, inúmeras Vestais optavam por continuar servindo como tal pelo resto de suas vidas, muitas certamente incentivadas pelos privilégios legais que lhes eram concedidos, como ter os seus próprios litores, que lhes abriam caminhos pelas ruas, e de se sentarem em lugares de honra nas cerimônias e espetáculos públicos (e muitas também por devoção religiosa).

La_maison_des_Vestales_(Forum_Romain)_(5982799742)

(Ruínas da Casa das Vestais, no fórum romano.)

Os relatos preservaram o nome das primeiras 4 virgens vestais encarregadas de velar pelo fogo sagrado de Vesta no Templo: Gegânia, Verênia, Canuleia e Tarpeia. Posteriormente, o número de quatro virgens (parece que inicialmente eram duas às quais o próprio Numa Pompílio acresceu mais duas) foi aumentado para seis, durante o reinado de Sérvio Túlio.

O Templo de Vesta

Ao contrário dos outros templos etruscos ou romanos, que eram quadrados ou retangulares, o Templo de Vesta era redondo. Para muitos estudiosos, a explicação para isso é que o formato do templo imitava o desenho das habitações primitivas dos latinos, que era circular, como demonstram, inclusive, os achados arqueológicos no Palatino, onde foram encontrados os buracos em que foram fincados os postes de madeira das cabanas, dispostos em círculo (tugurium romuli).

Como as cabanas primitivas, o templo tinha uma abertura circular no teto, para permitir que a fumaça do fogo sagrado, que ficava queimando no centro, saísse e a luz solar entrasse. Além do fogo, que provavelmente ficava em uma espécie de dispositivo à guisa de braseiro no chão, e não em uma lâmpada suspensa, havia  no interior do templo um armário fechado (penus Vestae) e umas estátuas ou efígies, uma delas o célebre Palladium, uma estátua de madeira da deusa Pallas Athena, que teria sido trazida de Tróia para a Itália pelo próprio Enéias.

Pompeii_-_Casa_del_Menandro_-_Menelaos

(Afresco da Casa de Menandro, em Pompéia, retratando a cena em que Ajax arrasta Cassandra que se agarra ao Palladium)

Não obstante, passagens no poema de Ovídio, no livro de Plutarco, sobre a vida de Numa Pompílio e. ainda, passagens de Dionísio de Helicarnasso, associam Vesta, bem como o fogo que a representa, ou no qual ela mesma consiste, à própria Terra, ou ao menos, ao fogo que existe no interior do planeta (uma associação que não chega a surpreender vinda de um povo que vivia em uma península onde o vulcanismo era bem presente e visível, sobretudo no sul) e, assim, o formato do templo evocaria a do próprio planeta.

Temple_of_Vesta_3D

Por sua vez, segundo Plutarco (“Vidas Paralelas“, “Vida de Numa“, VIII, 6-7), o Templo de Vesta foi construído por Numa Pompílio em forma circular para simbolizar o Universo, de acordo com a doutrina dos filósofos pitagóricos (não obstante o historiador reconheça uma disparidade cronológica entre os períodos em que Numa e Pitágoras viveram):

“Além disso, conta-se que Numa construiu o Templo de Vesta, onde o fogo perpétuo era guardado, em forma circular, imitando não a forma da Terra, acreditando-se que Vesta seja a Terra, mas de todo Universo, no centro do qual os Pitagóricos colocam o elemento do fogo, e o chamam focus (Vesta?) ou ponto cardeal. E eles sustentam que a Terra não é imóvel, e nem se situa no centro do espaço circundante, mas que se move em círculo em torno do fogo central, não sendo ela nem o mais importante e nem mesmo um dos componentes principais do Universo. Este é o conceito, segundo nos foi contado, que também Platão, em sua velhice, tinha da Terra, nomeadamente, que ela está situada em um espaço secundário, e que a posição central e mais importante está reservada para outro corpo superior e mais nobre.”

Temple_of_Vesta_(Rome)

(Ruínas do Templo de Vesta, no Fórum Romano, foto de Wknight94 )

É muito interessante, portanto, vendo essa simbologia contida no seu Templo, como uma divindade primitiva e animista como Vesta era passível de elaboração filosófica em seu culto: Substitua-se Vesta e seu fogo pelo Sol ou mesmo pela singularidade nua que originou o “big-bang“, tendo em vista a teoria da Física de que toda a matéria e energia que nos move aqui na Terra são deles provenientes, que, mesmo nos dias atuais, o seu culto pode  perfeitamente ser passível de ressignificação.

Vestalia

O festival em honra a deusa Vesta – a Vestalia – começava no dia 9 de junho, com a abertura do penus Vestae, o armário e despensa do templo, evocando os que existiam em toda residência romana, e que, no caso dela ficava fechado o ano inteiro. Neste dia, as mães de família podiam vir ao templo descalças trazendo oferendas de comidas

Ainda no dia 9 de junho, um burro, animal consagrado à Vesta, era coroado com guirlandas de flores e colares contendo pedaços dos pães salgados que eram preparados pelas Virgens Vestais. Por isso, esse dia também era consagrado aos padeiros.

Para alguns, a presença do burro seria uma evidência de que o culto de Vesta teria origem nas populações mediterrâneas mais antigas, antes  da chegada dos indo-europeus à Itália (porque nas culturas indoeuropeias o cavalo é o animal mais importantes), mas não podemos esquecer que se a divindade Vesta tiver mesmo vindo da Anatólia para a Itália, como dizem as lendas, poderia ter sido trazida por povos indo-europeus que se assentaram originalmente no Levante, como é o caso dos Luvianos, povo indo-europeu que vivia  na esfera de influência dos hititas e parece ter habitado a cidade de Willusa, que alguns estudiosos acreditam ser a Tróia mencionada na Ilíada de Homero. E nessa região, o burro já estava presente, inclusive sendo ela próxima a região onde a criação de burros estava mais desenvolvida no período que se estima que a Guerra de Tróia teria ocorrido – a Mesopotâmia. De qualquer forma, o burro já era conhecido dos gregos desde o segundo milênio A.C.

O dia 15 de junho era o último dia da Vestalia, ocasião em que as Virgens Vestais deveriam proceder à limpeza do penus Vestae e do recinto do templo, procedimento de purificação chamado de stercoratio. A sujeira era levada em procissão para ser jogada no rio Tibre. Feito isso, o penus Vestae e o sancta sanctorum do Templo – o recinto interior mais sagrado, onde ficavam o fogo, o armário e o Palladium, eram cerimonialmente fechados.

OUTRAS FESTIVIDADES EM JUNHO

Uma data importante, e que parece  de significado mais universal do que o culto à  Vesta, embora não estivesse totalmente divorciado deste, era o dia 24 de junho – o Dies Lampadarum, que marcava o solstício de verão no hemisfério norte, ou seja,  dia em que o sol atingia o seu ponto máximo no firmamento e a sua luz tinha o máximo de duração (o dia mais longo e a noite mais curta do ano).  Tradicionalmente, o solstício de verão nas sociedades agrícolas setentrionais marca o período da colheita, e por isso a limpeza do armário, ou penus de Vesta, era tão relevante, significando a limpeza da despensa da casa para receber os frutos da nova colheita.

Por isso, a maior parte das representações iconográficas romanas do mês de junho, inclusive a do célebre Calendário de Filócalo, de 354 D.C.,  apresentava um homem ou divindade carregando uma tocha, próximo a um cesto de frutas ou cereais. (vide foto abaixo)

Chronography_of_354_Mensis_Iunius

Fontes:

1- “On the worship of Vesta, and the Holy Fire, in  Ancient Rome, with an account of the Vestal Virgins” ,  The Classical Journal, disponível em PDF, na internet)

2- “Gods and Miths of the Romans”, Mary Barnett, ed. Grange Books.

3- Bibiliotea dos Grandes Mitos e Lendas Universais, Roma, Stewart Perowne, Ed.Verbo

4- Wikipédia, verbetes Vestalia e Temple of Vesta

 

MAIO

May

(Um romano faz uma oferenda a Mercúrio nesse painel de mosaico de El Djem, foto de Ad Meskens )

No antigo calendário romanoMAIO  era o terceiro mês do ano, que tinha dez meses no total. Mas posteriormente, ainda durante a República, o mês passou a ocupar a  mesma posição no calendário que ocupa hoje. O mês, desde os tempos do calendário arcaico, sempre teve 31 dias.

Na versão mais difundida entre os próprios romanos, o nome Maio, ou Maius, seria decorrente da deusa Maia, uma divindade feminina da terra, que era associada ao deus Vulcano e que era a mãe do deus Mercúrio, que por sua vez era o pai dos deuses Lares, cultuados no mês de maio.

Lare_Musei_Capitolini_MC2174

Assim, nas calendas de maio (primeiro dia do mês),  uma porca grávida era sacrificada à deusa Maia pelo Flamen Volcanalis (sacerdote de Vulcano).

Fasti_Praenestini_Massimo_n1 (1)

(Os “Fasti Praenestini, foto de Marie-Lan Nguyen)

Entre os muitos festivais romanos  ancestrais celebrados no mês de maio, destacam-se a continuação da Floralia , cujos festejos iniciavam-se em 28 de abril, e o Idus Maiae, um festival em honra a Mercúrio e Maia, comemorado pelos comerciantes no dia 15.

Logo após a trágica morte do adorado general Germânico, sobrinho de Tibério e pai de Calígula, a data do seu aniversário, 24 de maio de 15 A.C., foi incluída no calendário uma oração à deusa Vesta em homenagem ao ilustre falecido, data que ainda era celebrada 250 anos depois do seu nascimento.

No final do século III D.C  foi incluído no calendário oficial romano a celebração do dia do aniversário do imperador Cláudio II Gótico, que nasceu em dia 10 de maio do ano de 210 D.C.

AVE, GEORGIOS!

AVE, GEORGIOS!

Em 23 de abril de 303 D.C, um soldado romano chamado Georgios teria sido executado por ordens do Imperador Romano Diocleciano.

Diocleziano_(284-305_d.C.)_-_Foto_G._Dall'Orto_28-5-2006
(Cabeça de Diocleciano, foto de Daniel Ventura )
Diocleciano havia ordenado que todos os soldados do Exército Romano oferecessem um sacrifício aos deuses do panteão tradicional de Roma, e aqueles que se recusassem deveriam ser presos.

Georgios (Jorge), segundo a hagiografia e a tradição cristã seria filho de Gerontius, um oficial romano da ilustre família senatorial dos Anícios, e Pollycronia, uma súdita romana de Lydda, atual Lod, em Israel, então situada na província romana da Síria Palestina. Segundo outro relato, Gerontius seria natural da Capadócia. De qualquer modo, as fontes acordam que Jorge cresceu em Lydda e que sua família era cristã.

Lod 1280px-Flickr_-_Government_Press_Office_(GPO)_-_Archeologists
(Mosaico romano encontrado em Lod, antiga Lydda, em Israel)

Seguindo a carreira do pai, Jorge se alistou na guarda imperial, servindo na corte de Diocleciano em Nicomédia, que havia sido elevada pelo imperador à condição de capital imperial, no recém-criado sistema da Tetrarquia.

Jorge acabou sendo promovido ao posto de Tribuno. Quando Diocleciano publicou seu Édito exigindo que os soldados cristãos renunciassem ao cristianismo, Jorge anunciou publicamente, perante as tropas formadas na presença do Imperador, sua devoção a Jesus Cristo.

sao jorge Icon8

O Imperador, que apreciava Jorge e seu falecido pai Gerontius, tentou convencer Jorge a abandonar sua fé oferecendo terras, dinheiro e escravos, mas ele se manteve irredutível.

Nicomedia 54_big
(Panorama de Izmit, antiga Nicomédia, na Turquia)

Sem alternativas e obrigado a manter a obediência ao seu Edito, Diocleciano ordenou que Jorge fosse torturado em uma roda de afiadas espadas. Após o suplício, Jorge foi decapitado em frente às muralhas de Nicomédia, em 23 de abril de 303 D.C. O corpo dele foi levado para Lydda e logo se tornou foco de devoção como relíquia de um mártir cristão. Ainda segundo a tradição, a imperatriz Alexandra, esposa de Diocleciano, ao assistir o martírio de Jorge, converteu-se ao cristianismo, motivo pelo qual também foi executada e, posteriormente, canonizada.

A posterior associação de São Jorge ao dragão parece ter sido recolhida e trazida à Europa pelos cruzados no Oriente Médio (algumas populações islamizadas mantiveram a veneração à São Jorge na região). Segundo a lenda, na cidade de Sylene (que poderia ser Cirene, na Líbia ou, segundo alguns, seria a própria Lydda), um dragão (ou, provavelmente, um crocodilo) viveria na fonte de água potável dos habitantes, que eram obrigados a oferecer ao monstro uma ovelha para sacrifício, até que, na falta dos animais, eles foram forçados a oferecer uma virgem. A donzela orou pedindo proteção e São Jorge apareceu e matou o dragão, motivo pelo qual todos os habitantes se converteram ao cristianismo.

 

St. George and the Dragon
 

Jorge foi canonizado pelo Papa Gelásio I, em 494 D.C. Embora o santo fosse conhecido no Ocidente, sua popularidade chegou ao ápice com o retorno dos cruzados, que atribuíram à intervenção de São Jorge várias vitórias na Terra Santa. São Jorge acabou virando o santo patrono da Inglaterra, de Portugal, da Geórgia, da Romênia e de Malta. A imagem de São Jorge matando o dragão também compõe a Cota de Armas da Federação Russa.

 

Coat_of_Arms_of_the_Russian_Federation.svg

 

DURA-EUROPOS – A POMPÉIA DO DESERTO

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

(A Porta Palmirena, o principal portão de entrada de Dura-Europos, na Muralha Oeste da cidade)

Um dos sítios arqueológicos mais fascinantes do antigo Império Romano provavelmente nunca mais poderá ser visitado, pelo menos como era até bem pouco tempo atrás.

A cidade de Dura-Europos, na margem direita do Rio Eufrates, na atual Síria, situa-se próximo à fronteira oriental deste país com o Iraque, área que se encontra dentro da antiga Mesopotâmia. Mas, infelizmente, o lugar esteve no centro do território controlado pelo Estado Islâmico (ISIS ou DAESH), que durante três anos, sistematicamente pilhou e destruiu o sítio arqueológico.

Map-of-eastern-Mediterranean-sites-mentioned-in-the-text

Ninguém sabe ainda o quanto foi saqueado e quais ou quantos tesouros podem ter desaparecido para sempre. Com base em imagens de satélite, estima-se que 70% do sítio arqueológico teria sido destruído pelos fundamentalistas (vide https://www.npr.org/sections/parallels/2015/03/10/392077801/via-satellite-tracking-the-plunder-of-middle-east-cultural-history).

Dura-Europos-Syria

(Foto mostrando a extensão dos danos, com a cidade completamente escavada pelo ISIS, extraída do site da Universidade de Oxford,  satellite image © DigitalGlobe. Taken on 25/12/15)

Origem e período selêucida

 Dura-Europos foi fundada em 303 A.C. por Seleuco I Nicator, um general macedônio que, após a morte de Alexandre, o Grande, foi nomeado sátrapa (governador) da Babilônia. Após a guerra civil travada entre os generais que reivindicavam suceder o falecido rei (os chamados Diádocos), Seleuco autoproclamou-se rei da maior parte do território conquistado por Alexandre na Ásia, que incluía o que hoje é a Turquia, a Síria, o Iraque, o Irã, e partes do Afeganistão e do Paquistão, assim fundando o Império Selêucida.

A cidade foi construída segundo o modelo ortogonal das cidades helenísticas, seguindo a planta chamada de hipodâmica (porque idealizada pelo arquiteto grego e precursor do urbanismo, Hipódamo de Mileto).

dura europos 978-1-4419-0465-2_4_Part_Fig1-1122_HTML

( Imagem do plano urbano de Dura-Europos )

O motivo principal da fundação de Dura-Europos foi estratégico, pois o local onde ela foi construída era o ponto de cruzamento fluvial da rota comercial leste-oeste que ligava as recém-fundadas cidades selêucidas de  Antióquia e Selêucia do Tigre, sendo também um ponto de passagem da rota norte-sul ao longo do rio Eufrates.  Ademais, o local era ideal para a construção de uma cidade fortificada: um promontório bem elevado em três lados, um deles dando para o rio, possibilitando que o único lado aberto fosse facilmente fechado por uma muralha (que seria construída décadas mais tarde). Por isso, a cidade ficou conhecida, na língua semítica dos habitantes nativos locais, como “Dura“, que  vem da palavra “duru” (fortaleza, em aramaico), embora o seu nome oficial grego fosse Europos, um nome provavelmente dado em homenagem à cidade de nascimento do seu fundador, Seleuco I, na Macedônia, que também se chamava Europos. (O nome composto “Dura-Europos”, pelo qual a cidade hoje é conhecida, só começou a ser empregado bem mais tarde).

actu_web_Site_EuroposoDoura

(Na foto acima é possível notar a posição privilegiada da cidade, dominando o rio Eufrates, somente sendo acessível pelo lado oposto ao rio, que foi  fechado pela muralha).

Com o colapso do Império Selêucida, sobretudo devido às seguidas derrotas sofridas contra a República Romana, Dura-Europos foi conquistada, em 113 A.C. pelo Império Parta, que em sua essência era uma coalizão de tribos iranianas chefiadas pela dinastia dos Arsácidas que recuperou a maior parte das terras do antigo Império Persa, conquistadas pela dinastia dos Aquemênidas.

Período Arsácida (Parta)

Em Dura-Europos, o período dos Arsácidas caracterizou-se por um certo compromisso d do Império com as elites de origem grega que governavam as cidades que pontilhavam a Anatólia e a Síria, inclusive as fundadas pelos Selêucidas, como foi o caso da cidade (Aliás, diga-se de passagem, o próprio Império Parta adquiriu apreciável grau de helenização). Por outro lado, estando a cidade inserida em uma região de fronteira entre o mundo helenístico e o mesopotâmico, de substrato étnico majoritariamente semita e babilônio, mas que estava sujeita a um império dominado por iranianos, não surpreende que, ao longo dos anos, a sua população fosse composta por vários grupos étnicos e que a sua cultura tivesse se tornado altamente sincrética.

No decorrer desse período, nota-se que a função estratégica militar de Dura-Europos perdeu importância. E, talvez por isso, durante o governo parta, a cidade virou uma espécie de centro administrativo e comercial da região próxima, prosperando bastante.

Entretanto, como resultado das campanhas do expansionista imperador romano Trajano, que declarou guerra ao Império Parta sob o pretexto de coibir a interferência dele na Armênia, e também,  provavelmente visando a glória militar e, ainda, eliminar o controle parta sobre o fluxo da Rota da Seda para o Império Romano, Dura-Europos foi conquistada pelos romanos, em 113 D.C.

Todavia, com a morte de Trajano, em 117 D.C., o seu sucessor, Adriano, resolveu abrir mão da recém-conquistada Província da Mesopotâmia, seguindo o seu pensamento estratégico de manter fronteiras melhor defensáveis, e a cidade, então, foi reocupada pelos Partas.

Com o passar dos anos, porém, no final do reinado do imperador romano Antonino Pio, o Império Parta, governado pelo rei Vologeso IV, voltou a intervir nos assuntos da Armênia. Assim, em 161 D.C., logo após a morte de Pio, que foi sucedido por Marco Aurélio Vologeso invadiu o referido reino-cliente de Roma, depondo o rei que era simpático aos romanos e instalando Pacorus, um parente, no trono. Isso marcou o início da Guerra Romano-parta de 161-166 D.C..

220px-Coin_of_Vologases_IV_(cropped),_Seleucia_mint
(moeda parta com a efígie de Vologeso IV)

Em 165 D.C., após vários sucessos ao longo dos dois anos anteriores, os romanos capturaram Dura-Europos, comandados pelo grande general Avídio Cássio (Nota: Avídio era tataraneto de Júlia Lépida, que por sua vez, era tataraneta de Júlia, a Jovem, sendo ele, assim, descendente direto do imperador Augusto, pai da última). Em seguida, o Avídio Cássio logrou saquear e incendiar a capital parta, Ctesifonte.

Essa guerra terminou no ano seguinte, com a vitória romana, embora o exército romano tenha sido obrigado a voltar para o território romano em virtude da terrível epidemia que ficaria conhecida como Peste Antonina. Como resultado da vitória, a fronteira romana da Síria avançou mais quase 250 km na direção sul do rio Eufrates, parando em Dura-Europos.

Começava, assim, o período da dominação romana em Dura-Europos.

Período Romano

O Império Romano, como anteriormente procedera em relação a maior parte das cidades de cultura grega conquistadas, permitiu que os magistrados civis da cidade mantivessem certo grau de autonomia. Assim, a elite grega da cidade manteve o seu status, ainda que, agora, a autoridade sobre questões relativas à segurança e ordem pública provavelmente coubesse, em última instância, ao comandante militar romano.

Com a chegada do Exército Romano, Dura-Europos acrescentou novos elementos ao  fascinante  e variado cadinho étnico-cultural que habitava um perímetro tão pequeno. De fato, estima-se que a população da cidade, então, seria de aproximadamente cinco mil habitantes. Os indícios até agora encontrados apontam que, integrando as tropas romanas, ou acompanhando as mesmas, chegaram os judeus e os cristãos.

Com efeito, sendo uma cidade pequena, mesmo para os padrões da Antiguidade, é impressionante que, na época do período romano, fossem faladas oito línguas diferentes em Dura-Europos (grego, latim, pahlavi, persa médio, aramaico, safaitico, siríaco e palmireno), existindo na cidade dez santuários pagãos de divindades de diferentes povos (Artemis Nanaïa, Zeus Megistos Artemis Azzanathkona, Zeus Kyrios, Atargatis, Bel, Aphlad, Zeus Theos, Gad, Adonis e Mitra), além de uma sinagoga e de uma igreja cristã, conforme os vestígios arqueológicos revelaram,  todos aparentemente coexistindo em harmonia. A arquitetura e as obras de arte existentes na cidade também demonstram esse sincretismo, misturando elementos ocidentais e orientais. (cf.https://www.researchgate.net/publicatio/326929394_Dura_Europos_a_Greek_Town_of_the_Parthian_Empire_in_T_Kaizer_ed_Religion_Society_and_Culture_at_Dura-Europos_YCS_38_2016_Cambridge_University_Press_pp_16-29. e https://archive.archaeology.org/online/features/dura_europos/ )

No reinado do imperador Septímio Severo, que infligiu aos Partas nova derrota e dessa vez ainda mais esmagadora, os romanos estabeleceram uma guarnição militar permanente na cidade, destacando-se uma coorte de arqueiros originários da cidade síria de Palmira, a Cohors XX Palmyrenorum (cidade que, embora nominalmente fizesse parte do Império Romano, gozava de alto grau de autonomia) e também soldados da Cohors II Ulpia Equitata, e para isso foi necessário instalar, em 209 D.C., um quartel, ocupando alguns quarteirões do canto norte da cidade, que, transformados em distrito militar,  foram separados por um muro. Dentro dos muros do quartel, além das barracas dos soldados, a maioria utilizando residências convertidas, ficava o palácio do comandante (Dux Ripae). E com a presença dos soldados, a cidade ganhou também um pequeno anfiteatro.

SacrificeWholeSm

(Afresco do templo que ficava dentro do quartel da Cohors XX Palmyrenorum, em Dura-Europos, mostrando os soldados da unidade, capitaneados por seu comandante, Julius Terentius, participando de uma cerimônia religiosa).

Ainda, com a vitória de Severo na última guerra romano-pártica, a fronteira romano desceu mais 160 km na direção sul do Eufrates, abaixo de Dura-Europos, parando na cidade de Kifrin.

Severo,  com o objetivo de limitar o poder dos governadores da Síria, que em décadas passadas tinha sido a origem de vários pretendentes ao trono, resolveu dividir a província, destacando dela a nova província da Síria-Coele, da qual Dura-Europos passou a fazer parte.

Em 211 D.C., Septímio Severo concedeu a Dura-Europos o status de Colônia, o que conferia aos seus habitantes livres a cidadania romana e o acesso a vários privilégios, incluindo isenções de tributos.

Septimius_Severus_busto-Musei_Capitolini

Uma fortaleza romana contra a Pérsia Sassânida

Apesar dos séculos de guerra e várias vitórias (e derrotas), contudo, não seriam os romanos quem dariam o golpe final no Império Parta…

Em 224 D.C., Ardashir (ou Artaxerxes), que havia substituído Papak como rei dos Persas (os quais então eram súditos dos Arsácidas), aproveitou-se dos conflitos internos entre os Partas e iniciou uma revolta contra os Arsácidas, incorporando ou recebendo a adesão de outros governantes vassalos, terminando por derrotar o último rei parta, Artabanes, na Batalha de Hormozdgan. Dois anos depois, em 226 D.C., Ardashir I foi coroado Rei dos Reis (Shahanshah em persa), em Ctesifonte, fundando o Império Sassânida (assim chamado porque Ardashir era neto de Sasan).

1280px-Ardeshir_Babakan_and_Ahuramazda_Photo_From_Sahand_Ace

(Relevo em Naqsh Rajab, Irã, mostrando Ardashir I recebendo o anel real do deus Ahura-Mazda, foto de Sahand Ace)

Um dos motivos para o sucesso dos Sassânidas foi a insatisfação dos nobres do Império Parta com as seguidas derrotas militares sofridas pelas Arsácidas contra o Império Romano, e eles aparentemente ansiavam pela volta dos tempos gloriosos do Império Persa da época dos Aquemênidas, quando foram governados pelos grandes reis Ciro e Dario.

A orientação nacionalista e o desejo de restaurar as fronteiras do antigo Império Persa obviamente só podia levar ao confronto com Roma e Ardashir I logo tomou a iniciativa, em 230 D.C.,  sitiando a estratégica cidade de Nísibis (Nusaybin), uma praça-forte que havia sido recapturada pelos romanos no século anterior.

Somente a muito custo o imperador Severo Alexandre conseguiu repelir a invasão de Ardashir I.  Embora, no final, os persas tenham sido contidos, o exército romano sofreu algumas derrotas e houve vários motins, onde as tropas mostraram  extraordinária falta de disciplina.

Severus-PIC-2-70b3863

(Busto do Imperador Severo Alexandre)

Para piorar a situação, em concomitância com a ressurgimento de um inimigo poderoso no Oriente, o Império Romano começava a enfrentar, no Ocidente, as invasões de tribos germânicas, que por sua vez demonstravam ser mais numerosas, belicosas e bem preparadas do que as suas antepassadas de mais de dois séculos atrás.

Por isso, muitos estudiosos consideram que um dos fatores mais decisivos para o declínio e queda do Império Romano do Ocidente foi o surgimento do Império Sassânida, que ao  infligir várias derrotas militares romanos, drenou tropas que poderiam ter sido empregadas na defesa da fronteira Reno-Danúbio,  facilitando, assim, a penetração dos bárbaros germânicos, acarretando, ainda, a necessidade de reorganização política do Império, sendo uma das causas principais da criação do Império Romano do Oriente.

Para lidar com o pesadelo estratégico da guerra em dois fronts foi necessário aumentar o número de soldados e manter duas cortes, uma no Ocidente e outra no Oriente, contribuindo para o aumento dos gastos públicos, o que por sua vez, impôs a realização de reformas fiscais a partir do reinado de Diocleciano, aumentando a tributação, com sérias consequências econômicas, políticas e sociais.

Os sucessores de Septímio Severo e de Caracala caracterizaram-se por serem manipulados pelas imperatrizes-mãe, que na verdade controlavam a burocracia palaciana e as finanças imperiais.

Severo Alexandre acabou sendo assassinado pelos soldados, após tentar negociar com os bárbaros germânicos, em 235 D.C. Ironicamente, a dinastia dos Severos, cujo fundador elegeu o prestígio e o bem-estar dos militares como prioridade absoluta, favoreceu o aumento da indisciplina e os dois últimos imperadores, Elagábalo e Severo Alexandre, reputados como fracos., foram assassinados pelas tropas. Assim, Roma agora entrava na chamada Crise do Século III.

O ressurgimento de um Império Persa poderoso foi uma péssima notícia para os habitantes de Dura-Europos. Afinal, a cidade fronteiriça estava obviamente na linha de frente de qualquer ataque persa. A guarnição da cidade teve que ser reforçada e os assuntos militares tornaram-se preponderantes.

Pelos nomes existentes em inscrições e papiros que foram descobertos nas suas ruínas, aparentemente houve no período um grande influxo de habitantes de origem síria, incluindo soldados provenientes de destacamentos (vexillationes) de legiões acantonadas na província. Tudo indica que o status político da elite de origem grega, que já vinha perdendo  proeminência e poder a partir da instalação de um comandante militar romano no interior da cidade,  diminuiu bastante e muitos dos seus membros podem até ter emigrado (cf. “The Palmyrenes of Dura-Europos: A Study of Religious Interaction in Roman Syria“, Lucinda Dirven, pág. 15)

dura-europos-siria

 

Dura-Europos agora, era praticamente mais um forte militar do que uma cidade. Sentindo a ameaça do renovado poder sassânida, a cidade passou por uma série de obras visando reforçar as suas defesas.

Entrementes, a morte de Severo Alexandre e o caos reinante no Império Romano incentivou Ardashir I a atacar novamente a Síria e a Mesopotâmia romanas. Ele sitiou e tomou as estratégicas cidades de Nísibis e Carras (Harran), em 238 D.C.

Em 242 D.C, Ardashir I foi sucedido por seu hábil e determinado filho, Sapor I (Shapur), que receberia o cognome do “O Grande”, e, fazia dois anos já vinha governando a Pérsia junto com o pai. Inicialmente, Sapor teve que subjugar  as tribos medas nas montanhas do Irã e os Kushan na fronteira oriental do Império Persa, e,, assim, os romanos, durante o reinado de Gordiano III , aproveitaram para invadir a Mesopotâmia sassânida e conseguiram retomar Nísibis e Carras, em 242 D.C.

Sapor I retornou para dar combate à invasão e os Persas derrotaram os romanos na Batalha de Misiche, próximo à atual Fallujah, no Iraque, em 244 D.C. Segundo as fontes persas e um relevo comemorativo que Sapor I mandou fazer em uma rocha no local, o imperador Gordiano III foi morto nessa batalha, embora o fato não seja mencionado nas fontes romanas. De qualquer forma, o imperador romano, se não morreu na batalha, foi assassinado  imediatamente depois, e sucedido pelo Prefeito Pretoriano, Filipe I, cognominado “o Árabe” (ele nasceu  na província romana da Arabia Petraea, na cidade de Philippopolis, atual Shabbah, a 90 km ao sul de Damasco).

Philippus_Arabicus
(Busto de Filipe, o Árabe)

Filipe, o Árabe não teve muitas alternativas senão assinar um tratado de paz com o Império Sassânida, o qual foi considerado humilhante pelos romanos, a fim de evitar a destruição ou captura do exército romano sobrevivente da Batalha de Misiche, fato que poderia colocar todo o Oriente romano em risco.

Mas na verdade, dadas as circunstâncias,  os termos da trégua não foram tão ruins. Os Persas colocaram um pretendente de sua confiança no trono da Armênia e receberam uma indenização de 500 mil denários de ouro. Os romanos mantiveram Nísibis, Carras e Dura-Europos.

800px-Relief_of_Shapur_I_capturing_Valerian

(Relevo persa em Naqsh-e Rostam, mostrando Filipe, o Árabe se ajoelhando perante Sapor I, que também captura Valeriano, o seu sucessor – este último fato ocorreu em 260 D.C.)

Não se sabe com exatidão o que sucedeu em Dura-Europos nesses anos, mas, apesar da cidade estar no centro do conflito Roma x Pérsia, a sua comunidade judaica, por exemplo, teve recursos suficientes para erguer uma nova sinagoga no lugar da antiga, muito mais suntuosa do que a anterior, no ano de 244 D.C.

Como é frequente no período entre 240 e 270 D.C., o auge da Crise do Século III, as fontes escritas romanas são esparsas e pouco confiáveis.

O caos em que se encontrava o Império Romano, sobretudo após a desastrosa derrota sofrida contra os Godos na Batalha de Abritus, em 251 D.C. que resultou na morte em combate do imperador Trajano Décio, muito provavelmente encorajou Sapor I a invadir novamente a Sìria e a Mesopotâmia romanas.

Em 253 D.C., segundo as inscrições nos relevos comemorativos que Sapor mandou fazer em Naqsh-i Rostam, os Persas derrotaram um grande exército romano com 60 mil soldados, na Batalha de Barbalissos, cidade às margens do rio Eufrates na província romana da Síria-Coele.

A vitória possibilitou os Persas sitiarem e tomarem várias cidades importantes (37 segundo o relevo de Naqsh-i-Rostam), incluindo a grande cidade de Antióquia, capital da Síria romana, que tinha cerca de 400 mil habitantes (Há, inclusive, entre os acadêmicos, uma corrente, com argumentos respeitáveis, que vê indícios de que, nessa ocasião, Dura-Europos foi uma das cidades capturadas, sendo, posteriormente, retomada pelos romanos, como por exemplo, a professora de Arqueologia  Jennifer Baird, da Univesidade de Londres (cf. https://www.academia.edu/656310/Dura_Deserta_The_Death_and_Afterlife_of_Dura-Europos)

Os Persas Sassânidas haviam herdado milênios de cultura e tradições das civilizações do Oriente Médio, eram disciplinados e bem mais determinados do que seus antecessores arsácidas. E, além disso, ele eram conhecedores das mais avançadas técnicas de cerco e das máquinas de assédio da Antiguidade.

Ancient_Sasanid_Cataphract_Uther_Oxford_2003_06_2(1)

cata_1

Indubitavelmente, a guarnição e os habitantes de Dura-Europos sabiam que a vez deles chegaria logo… (OBS: É possível, e há algumas evidências que parecem apoiar essa tese, que a população civil tenha sido deportada pelos persas, caso eles tenham tomado a cidade em 253 D.C., ou evacuada pelos romanos, em preparação para o cerco)

Cerco persa e abandono

Não há nenhum relato escrito sobre o cerco de Dura-Europos, mas o excepcional estado de preservação de todo o sítio arqueológico, permitiu aos estudiosos reconstruir com bastante precisão como ele ocorreu e o seu desfecho.

A guarnição romana certamente teve algum tempo para se preparar e antecipar o que os Persas fariam. Eles sabiam que a muralha oeste, que dava para o deserto aberto, seria o foco principal das investidas inimigas e que os persas usariam arietes para tentar abrir brecha por onde poderiam entrar. Assim, os soldados construíram  à frente da muralha de pedra uma cinta de tijolos de barro inclinada, que na base tinha 6 metros de profundidade, denominada de glacis.

auxiliares-romanos-mitad-siglo-iii

(Militares romanos da Cohors XX Palmyrenorum reproduzindo os uniformes retratados no mural do templo que decorava o templo. A suástica  para os romanos era um elemento decorativo, e talvez tivesse o objetivo de trazer boa sorte, não tendo nenhuma relação com a futura ideologia nazista)

Por sua vez, à parede do fundo da muralha, os romanos  ajuntaram um aterro que tinha o comprimento de 20 metros para trás e subia até 8 metros de altura. Esse aterro cobriu a  rua e a fileira de casas e edifícios adjacente à muralha oeste e tinha a finalidade de dar mais sustentação à muralha para resistir aos arietes e grandes pedras que fossem arremessadas contra ela. Foi graças a esse aterro que, quase 1700 anos mais tarde, seriam descobertas, praticamente intactas, a sinagoga e a igreja cristã primitiva da cidade.

2-259a28e139

(Esquema mostrando os reforços à muralha feitos pelos romanos para resistir ao cerco persa, extraída dehttps://www.academia.edu/1448923/Death_in_the_dark_at_Dura-Europos_Did_the_Sassanids_use_chemical_warfare)

 

4mkde2009_452

(No foto podem  ser vistas algumas partes- não escavadas – do aterro feito pelos romanos)

O exército persa, estimado em 20 mil homens, chegou a Dura-Europos em 256 D.C., provavelmente no início da primavera, construindo um acampamento próximo à cidade. Era uma força que não ficava nada a dever aos romanos em termos de disciplina, equipamentos e e capacidade tática.  A tropa incluía, além da infantaria, a temível e vistosa cavalaria couraçada chamada pelos romanos de clibanários (clibanarii), grandes catapultas e sapadores especializados em cavar túneis.

Knight-Iran

(Um relevo sassânida em Taq-i-bostan, no Irã, mostrando um clibanarius persa, foto de Zereshk )

Por sua vez,  sua vez, a guarnição romana certamente recebeu reforços, mas, em todo caso, o seu número deveria ser de 3 mil soldados, sendo, na estimativa mais larga, de 5 mil soldados .

Os romanos sabiam que, devido a superioridade numérica dos Persas, eles somente teriam chance de sobreviver se conseguissem resistir às tentativas dos inimigos de penetrar nas muralhas de Dura por tempo suficiente para que eles desistissem em face das perdas sofridas ou, então, até que o resto do exército romano, vindo de outras províncias,  chegasse em socorro. A resistência, assim, dependia da defesa e da solidez das muralhas, pois a cidade contava com fonte de água dentro dela e provisões tinham sido estocadas em antecipação.

Acredita-se, com base nos vestígios, que os persas devem ter feito algumas incursões exploratórias junto à muralha oeste, com suas 15 torres, principalmente onde ficava o portão principal de entrada da cidade (Porta Palmirena),  para testar a força dos defensores. Eles logo devem ter percebido que eram guarnecidas por muitas armas de arremesso do tipo balista, o temível escorpião ( scorpio ), como eram chamadas pelos romanos (vide fotos abaixo), que tinham o alcance de 400m e eram capazes de perfurar um escudo a mais de 100m de distância, além das flechas disparadas pelos experientes arqueiros da Cohors XX Palmyrenorum.

1280px-Balliste_fireing

( foto de MatthiasKabel)

scorpio 047_Conrad_Cichorius,_Die_Reliefs_der_Traianssäule,_Tafel_XLVII_(Ausschnitt_02)

(Um scorpio, defendendo uma posição fortificada, retratada na Coluna de Trajano, em Roma – foto acima. OBS; Nas duas fotos aparecem a cheiroballistra uma variante do scorpio)

Os Persas, então, começaram a usar as suas catapultas, que atiravam enormes bolas de pedra, a fim de causar dano à muralha, matar os defensores que estavam nos muros e nas torres, além de causar o máximo de pânico na população civil.

Sobretudo, a barragem de artilharia facilitava dissimular o principal objetivo dos Persas: cavar túneis que chegassem até as fundações das muralhas, que, sem o apoio necessário, eles esperavam que ruíssem nos trechos escolhidos, permitindo um assalto direto pelas tropas sassânidas.

Os Persas começaram a cavar esses túneis a partir do cemitério de Dura-Europos, que, como em todas as cidades antigas, ficava do lado de fora das muralhas. Isso permitia que eles aproveitassem as tumbas já escavadas no solo rochoso sobre o qual se assentava a própria cidade. Dois dos locais que os Persas escolheram para fazer o trabalho de sapa foram as denominadas Torres 14 e 19 da Muralha Oeste de Dura-Europos.  A primeira fica ao sul, e a segunda, ao norte, da Porta Palmirena. Isso, provavelmente, tinha o propósito de fazer com que os defensores romanos se espalhassem mais, não ficando concentrados num só ponto de ataque.

dura syria_0039-7946_1992_num_69_1_T1_0131_0000_2

(Desenho reconstituindo a aparência interna da Porta Palmirena, de A. Henry Detweiler, 1937. Unpublished drawing, Yale University Art Gallery, Dura-Europos Archives).

A Batalha pela Torre 19

Com o objetivo de derrubar a Torre 19, os Persas  começaram a cavar um túnel a cerca de 40 metros dela. Em dado momento, quando o túnel chegou mais próximo, os defensores romanos certamente conseguiram ouvir, vindo do subsolo, o barulho das ferramentas persas escavando a rocha e, da mesma forma que nos relatos sobre vários outros cercos da Antiguidade, eles resolveram cavar uma contra-mina, isto é, o seu próprio túnel, visando interceptar o dos Persas e impedi-los de continuar a ação deles, seja matando os inimigos em combate corpo-a-corpo, seja fechando o túnel inimigo.

Porém, os Persas conseguiram chegar primeiro embaixo da base da Torre 19 e, retirando o trecho de  terra que estava acima de suas cabeças, começaram a minar as fundações de blocos de pedra da muralha, escorando com vigas de madeira.

Por sua vez, o túnel romano foi cavado através do aterro que os defensores tinham feito anteriormente para escorar a muralha e conseguir interceptar o túnel inimigo, embora ficando 3 metros acima dele.

O arqueólogo francês Robert du Mesnil du Buisson, que escavou o local entre as décadas de 20 e 30 do século XX, encontrou, no túnel escavado pelos Persas, 20 corpos de soldados romanos, identificados pelo seu característico equipamento, e o corpo de um soldado persa, identificado por seu elmo e cota de malha. além de outros materiais.

 

dura-g908b-01

(Restos mortais do soldado sassânida encontrado no túnel sob a Torre 19, ainda com a sua cota de malha).

Segundo a interpretação de Robert du Mesnil, os soldados romanos  conseguiram descer até o túnel persa e invadi-lo, entrando em combate com os Persas, mas acabaram repelidos para o seu próprio túnel, deixando apenas um inimigo morto. Porém, os soldados romanos que estavam do lado de fora devem ter pensado que um grande número de persas tinha conseguido  derrotar os seus colegas e estavam vindo invadir a cidade pelo próprio túnel romano, e, assim, teriam entrado em pânico e rapidamente fechado a sua entrada, deixando os seus camaradas trancados. Em seguida, os Persas atearam fogo às escoras de madeira em seu túnel, embaixo da fundação das muralhas, valendo-se de betume e cristais de enxofre, cujos vestígios foram encontrados no local, matando os soldados romanos asfixiados pela fumaça.

Dura James_Fig18_large

Os vestígios mostram que por muito pouco o estratagema persa não deu certo.  Após as escoras serem incendiadas, a Torre 19 chegou a afundar,  descendo apenas um metro mas se estabilizou, provavelmente contida pelo aterro que os romanos, previdentemente, tinham construído atrás de toda a Muralha Oeste. Um trecho inteiro dela também  levemente cedeu, afundando um pouco verticalmente, mas sem, contudo desmoronar. Um piso interno da torre desabou, soterrando embaixo dele escudos romanos e uma armadura para cavalo.

Dura-tower-19-mine-damage-s

(Os efeitos do trabalho de minagem persa na região da Torre 19 ainda são clarametne visíveis, quase 1800 anos depois).

O ataque final

Com o insucesso da investida sobre a Torre 19, os Persas provavelmente resolveram se concentrar no trecho sul da Muralha, entre a Torre 14 e a Torre 15,  que ficava na quina sul da cidade, onde uma rampa de assédio estava sendo engenhosamente construída. Efetivamente, as escavações encontraram não um monte de terra, mas uma rampa sólida, com com muros laterais e pavimentada com tijolos de argila, por onde certamente subiria uma torre de cerco com rodas. A Torre 14 chegou a iniciar um colapso, mas a estrutura  também se manteve em pé, ainda que desconjuntada, igualmente contida pelo aterro de arrimo. Além disso, ao lado da rampa, os Persas escavaram um túnel largo o suficiente para permitir a passagem de quatro soldados lado-a-lado.  Houve também outras tentativas de invasão pela porta da cidade que dava para o rio Eufrates e intensos ataques dirigidos à Porta Palmirena, mas o mais provável é que o ataque final tenha se dado pela rampa, em um ataque conjunto com o avanço pelo túnel subterrâneo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAo

(A Torre 14, vista de dentro,  que foi desconjuntada pela minagem persa, mas não colapsou totalmente)

Embora não se tenha certeza sobre o ponto exato por onde os Persas conseguiram penetrar,  o fato é que, após várias semanas, ou, mais provável, alguns meses de cerco, eles conseguiram invadir Dura-Europos. Escavações mais recentes demonstraram que houve luta dentro da cidade no reduto final romano: o quartel no norte da cidade, onde foram encontrados alguns restos mortais de soldados romanos nos alojamentos e uma boa quantidade de flechas de metal, voltadas para dentro da cidade, para serem disparadas pelos escorpiões.

Como já dissemos acima, não há relatos escritos do cerco a Dura-Europos, mas quem quiser ter uma boa idéia de como  se desenvolvia um cerco persa contra uma cidade romana na região, vale a pena ler o emocionante, mas bem fidedigno, relato que o historiador romano Amiano Marcelino fez do cerco à cidade de Amida, ocorrido em 359 D.C. Uma obra moderna que também faz uma excelente descrição do fim de Dura-Europos é o romance histórico Fogo no Leste,  integrante da série Guerreiros de Roma, do  historiador britânico Harry Sidebottom (no livro, a cidade é chamada de Arete).

O fim de Dura-Europos

Certamente os soldados romanos que não morreram na defesa de Dura-Europos foram  levados como prisioneiros pelos Sassânidas para trabalhar como cativos em seus domínios. A população civil, caso ainda estivesse vivendo algum particular em Dura-Europos quando do cerco, também foi deportada para a Pérsia ( OBS: se procedente a tese de que a cidade já havia sido uma primeira vez capturada pelos persas em 253 D.C., isso teria ocorrido, então, nesta oportunidade). Vale notar que a deportação de soldados romanos e da população capturada em batalhas e cercos era um costume arraigado entre os Persas, desde o tempo dos Aquemênidas,  tendo se verificado, por exemplo, em várias cidades da Síria e da Mesopotâmia romanas, e, portanto, em Dura-Europos isso não deve ter sido diferente.

Algumas inscrições persas parecem indicar que os sassânidas ficaram ainda, no mínimo por alguns meses, em Dura-Europos, mas não há dúvida de que a cidade foi abandonada, seja logo após a sua queda ou pouco tempo depois.

dura AYALE_DURAIG_10311818510

(Inscrições em persa, na sinagoga de Dura-Europos)

Pouco mais de cem anos depois, em 352/363 D.C., Amiano Marcelino, servindo na campanha de Juliano contra a Pérsia, conta que este imperador passou por Dura-Europos e que ela, então, era uma cidade deserta.

A redescoberta de Dura-Europos

Dura-Europos foi visitada por uma expedição norte-americana, que, inclusive, fotografou a Porta Palmirena, em 1885.

Em termos arqueológicos, a cidade foi “redescoberta” poucos anos após o fim da 1ª Guerra Mundial, quando, em 30 de março de 1920,  um soldado britânico cavando uma trincheira encontrou paredes com pinturas murais no Templo de Bel. Como a Síria estava sob administração francesa, em mandato conferido pela Liga das Nações,  o arqueólogo belga Franz Cumont, com o patrocínio da Académie des Inscriptions et Belles-Lettres  de Paris iniciou as escavações científicas. Por sua vez, entre 1929 e 1937, a Universidade de Yale, junto com a Académie patrocinaram os trabalhos, sob a diração do prestigiado historiador russo,  Michael. I. Rostovtzeff, que publicou o livro Dura-Europos and Its Art. Os trabalhos arqueológicos foram interrompidos pelo advento da 2ª Guerra Mundial e somente seriam reiniciados em 1986, pela Missão Franco-Síria, que revelou vestígios que sugerem que houve um grande combate seguido de incêndio, na Porta Palmirena e outros que sugerem que a cidade foi ocupada pelos Sassânidas durante algum tempo após o sítio de 256 D.C. (cf. https://www.persee.fr/doc/crai_0065-0536_1994_num_138_2_15369?pageId=T1_398)

A “Pompéia do Deserto”

O fato da cidade nunca mais ter sido habitada, ao menos em caráter permanente, após a sua captura pelos Sassânidas, em 256 D.C. e, sobretudo,  vários edifícios terem sido deliberadamente sepultados pela construção do aterro junto à Muralha Oeste, foram responsáveis por uma grande quantidade de achados de valor incalculável, cuja enumeração e comentários pormenorizados fica um tanto difícil em um blog de divulgação como o nosso. As condições climáticas do sítio arqueológico, somadas as circunstâncias ligadas às obras defensivas feitas pelos romanos, à própria dinâmica dos combates travados e ao abandono final da cidade contribuíram muito para o excelente estado de preservação desses achados.

Entre os achados que consideramos mais notáveis, podemos mencionar:

1) A sinagoga

A sinagoga de Dura-Europos, em seu formato derradeiro, é uma das mais antigas já encontradas.  Ela foi remodelada em 244 D.C, expandindo um prédio mais antigo. O fato de ter sido intencionalmente soterrada pelo aterro defensivo construído pelos romano às vésperas do cerco de 256 D.C. ajudou a preservar boa parte da sua estrutura, disposição e decoração internas.  Em uma das paredes, por exemplo, há um nicho para a Torá, que fica na direção de Jerusalém. Os arqueólogos ficaram tão estupefactos com a riqueza e quantidade de suas pinturas murais, retratando várias passagens bíblicas, que, inicialmente, pensaram tratar-se de um templo pagão, devido ao fato da existência de uma proibição divina na Bíblia quanto a feitura de imagens de pessoas e animais. Observe-se que essas pinturas, alguns estudiosos acreditam, trazem indícios de que havia um modelo amplamente disseminado de imagens narrativas bíblicas, que teria sido copiado pelos artistas que fizeram os murais, e também de que esse modelo influenciou a  arte cristã primitiva. A sinagoga ficava bem próxima à igreja cristã da cidade, bem como de outros templos pagãos, o que parece indicar que havia uma convivência harmônia entre as diversas religiões em Dura. Por outro lado, a qualidade das pinturas e o tamanho do edifício é prova de que a comunidade judaica da cidade era bastante próspera e gozava de boas relações com a classe dominante de Dura. As pinturas e vários elementos arquitetônicos da sinagoga, incluindo os muito fragmentos do forro original do teto, foram remontados no Museu de Damasco e ainda estão em ótimo estado.

synagogue_of_dura_europos1317671518929

sina

1280px-Herod's_Temple

 

2) A igreja cristã

Trata-se da igreja cristã mais antiga já encontrada. Ocupa uma casa particular, remodelada para servir como igreja, como era comum no início da cristandade. Fica próxima à sinagoga, tendo sido construída alguns anos antes da remodelação daquela, e também foi preservada graças ao mesmo aterro. É, contudo, bem menor e mais modesta do que a sua vizinha. No seu interior, ha um salão para a reunião dos fiéis e um acesso para uma pequena, que foi adaptada para servir como batistério, em um nicho parecido com o que foi feito para abrigar a Torá na sinagoga. Inclusive, estudiosos acreditam que a igreja pode ter sido decorada pelos mesmos artesãos que trabalharam na primeira. Entre as pinturas existentes na parede do batistério estão as mais antigas imagens retratando Jesus Cristo encontradas até hoje, uma sobre a cura do paralítico (vide foto abaixo, onde ele carrega o próprio catre, como narrado no evangelho) e o outra mostrando Cristo caminhando sobre as águas e amparando São Pedro que afundava (as pinturas hoje estão na Universidade de Yale, nos EUA). O fato da igreja estar colada à Torre 17 e bem próxima a uma casa de banho e da casa dos escribas romanos é um sinal de que os cristãos eram bem tolerados em Dura-Europos, a despeito dos relatos de escritores cristãos de perseguições no reinado do imperador Trajano Décio (249-251 D.C).

 

S6-OhguQGZ4r6uef7rvjUw

 

dura1-thumb-500x357-10859

 

DuraChurchChristMiracleParalyticCx

3) O mitreu

O mitreu (santuário do deus Mitra) de Dura-Europos foi construído em 168 D.C., logo depois da conquista pelos soldados do exército romano, já que o deus era extremamente popular entre os militares. O santuário também foi preservado pela construção do aterro defensivo e foi remontado na Universidade de Yale.

ds-69

dura mitraeum EGtxCJoVAAA9LXV

(Imagem de um soldado romano participando de um culto no Mithraeum (templo de Mitra), em Dura)

 

4) Equipamentos bélicos  e vestígios relacionados com o cerco persa e a batalha travada em Dura-Europos

As escavações no sítio arqueológico de Dura-Europos proporcionaram achados de valor incalculável no que se refere aos equipamentos e táticas militares utilizados pelos exércitos romano e persas.

Os trabalhos dos arqueólogos nas torres e muralhas da cidade renderam exemplos raríssimos e, até mesmo inéditos, de vestígios decorrentes de guerras de antiguidade que congelaram no tempo situações de combate enquanto elas estavam se desenrolando.

A situação mais dramática foi a já mencionada operação de minagem persa e contra-minagem romana na Torre 19 da Muralha Oeste.

Recentemente, o arqueólogo Simon James, da Universidade de Leicester,  publicou suas conclusões sobre os achados na Torre 19 e concluiu, de modo bem convincente, que os 20 soldados romanos  cujos restos foram encontrados no interior do túnel que eles mesmo cavaram para interceptar o túnel persa foram mortos em virtude de deliberada queima de cristais de enxofre e betume pelos inimigos, tratando-se de um episódio de guerra química, que, aliás, não era estranha aos antigos, sendo mencionada por fontes antigas gregas.

De acordo com James, os soldados romanos não foram mortos em combate corpo-a-corpo, e sim  asfixiados e envenenados por dióxido de enxofre, proveniente dos elementos  acima mencionados, queimados pelos persas em um braseiro, provavelmente com o uso de um fole (ou em função do efeito sucção causado pela abertura do túnel romano). Posteriormente, os corpos dos soldados romanos inconscientes ou já mortos foram propositalmente empilhados no fundo do túnel romano, para impedir a entrada de reforços romanos. Porém, na operação, o único soldado persa cujo corpo foi encontrado, provavelmente um oficial comandante, dada a qualidade da sua armadura e elmo, acabou também morrendo asfixiado (vide https://www.academia.edu/1448923/Death_in_the_dark_at_Dura-Europos_Did_the_Sassanids_use_chemical_warfare)

(Desenho ilustrando a “guerra química” empregada pelos persas contra os romanos nos túneis subterrâneos embaixo da Torre 19, extraído do artigo do Prof. Simon James)

Um acessório militar importante encontrado no mesmo túnel foi o elmo utilizado pelo oficial persa que provavelmente morreu acendendo o braseiro que sufocou os romanos. Segundo estudiosos, o desenho deste elmo provavelmente influenciou o design dos elmos romanos utilizados no final do século III até o final do império, e, consequentemente até mesmo, os elmos europeus medievais *Cf. artigo de Simon James em https://www.persee.fr/doc/syria_0039-7946_1986_num_63_1_6923)

 Sasanian_Helmet

(O desenho reconstitui o elmo e proteção de cota de malha do soldado persa que morreu na Torre 19, extraído do artigo do Prof. Simon James, acima citado)

Ainda em relação aos persas sassânidas, os achados no sítio de Dura-Europos demonstram que, ao contrário de que as fontes romanas, suspeitas de parcialidade, relatavam, e alguns historiadores ocidentais acreditavam,  o exército persa detinha capacidade logística, especialização e táticas militares avançadas para manter um cerco a uma cidade tão fortificada como Dura.

dura-b85-01

(Foto tirada nos anos 20 mostra projéteis para catapultas trazidas pelo persas ainda no local exato onde eles as empilharam para serem usadas no cerco a Dura. Provavelmente, a cidade caiu antes que o lote precisasse ser utilizado).

Do lado romano, as escavações em Dura-Europos também renderam objetos muito valiosos para os historiadores militares.

Talvez o  mais icônico desses artefatos seja o escudo romano encontrado embaixo de detritos de uma das torres da muralha oeste. Simplesmente, este é o único escudo retangular romano já encontrado, do célebre tipo retratado em tantos relevos existentes em monumentos romanos. Este achado permitiu compreender a técnica construtiva do escudo, entender melhor o seu emprego e determinar que o seu tipo ainda continuava em uso em meados do século III (vide foto abaixo).

1933.480, 005959

Também foram encontrados exemplares de escudos redondos, tradicionalmente associados às unidades de auxiliares (auxilia), muito embora hoje acredite-se que ambos  poderia ser empregados por legionários ou auxiliares, conforme a situação exigisse. Um desses escudos é particularmente interessante porque ostenta uma pintura mostrando um mapa, ainda que impreciso como representação geográfica, mostrando o nome de várias fortificações romanas ao longo do Mar Negro, onde, presumivelmente, o soldado a quem ele pertencia deve ter servido. Esse costume castrense, aliás, é mencionado pelo poeta romano Ovídio, em seu poema Metamorfoses. (vide primeira foto abaixo)

doura-europosmap_orig

ovalromanshield2

 

Finalmente, foram achadas armaduras para cavalos romanas, utilizadas pelas tropas equestres chamadas de catafractos, encontradas na Torre 19. Uma delas estava em tão bom estado que chegou a ser colocada em um cavalo que estava na escavação, nos anos 30.

dura-fvii27-01

5) Outros achados (tão ou mais) relevantes

Vários papiros bem conservados foram achados no que seriam os arquivos da Cohors XX Palmyrenorum abarcando um período de 50 anos de atividades da unidade em Dura-Europos. Os documentos são relativos a escalas de serviços dos soldados, inventários de suprimentos, licenças e autorizações para transferência de militares, listas de pagamentos, datas de pagamentos de soldos e de dispensas militares, além de um calendário das datas comemorativas próprias da unidade, bem como de feriados religiosos e aniversários dos imperadores, a serem celebrados com paradas.

Um  fragmento de pergaminho (nº 24) contendo uma Harmonia do Evangelho em grego, um texto buscando conciliar as narrativas dos 4 Evangelhos Canônicos sobre a vida de Jesus Cristo, que se estima datar do século III D.C (sendo portanto anterior a 256 D.C, data do cerco e abandono de Dura-Europos). Para alguns estudiosos, o fragmento seria uma cópia do Diatessaron escrito por Taciano cerca de 165/170 D.C, embora para outros trate-se de uma obra independente.

Outro pergaminho, escrito em hebraico, parece derivar do Didache (Didaque), uma espécie de catecismo escrito cristão primitivo (alguns estudiosos estimam que ele dataria do século I A.C.), originado da comunidade de judeus-cristãos da Síria ou até da própria Jerusalém, sendo que alguns trechos são muito semelhantes a bençãos judaicas sobre a comida e o vinho ( Birkot-ha-mazon,). O fragmento foi assim traduzido:

“Bendito seja o Senhor, Rei do Universo, que criou todas as coisas, deu de comer e beber a todas os filhos da carne com os quais eles serão saciados; mas concedeu a nós, seres humanos, participar do alimento das miríades do seu angélico corpo. Por tudo isso, nós devemos dar graças cantando nas reuniões do povo”.

Conclusão

 

Dura-europos é um dos sítios arqueológicos mais fascinantes do mundo. A cidade existiu durante 560 anos, mais do que qualquer cidade brasileira, por exemplo, e, apesar de ter tido uma população que não ultrapassou 5 mil habitantes, foi o lar de diversas etnias e religiões que, tudo indica, coabitaram em harmonia.

Há um vasto material  sobre as escavações arqueológicas realizadas na cidade que ainda aguarda publicação.

Dezoito séculos depois,  uma nova tragédia se abateu sobre Dura-Europos: a devastação feita pelo Estado Islâmico, que, na busca por artefatos antigos para  vender no mercado negro e, também, por fanatismo religioso, vem sistematicamente destruindo o sítio.

                                                               F I M

 

 

ANTÍNOO – O FAVORITO DE ADRIANO QUE VIROU DEUS

1024px-Antinous_Ecouen_Louvre_Ma1082_n3

 

Segundo as fontes, Antínoo (Antinous) nasceu no mês de novembro (no dia 27, dia do festival em sua honra, segundo uma inscrição),  provavelmente por volta do ano de 111 ou 112 D.C., na cidade de Claudiopolis (atual Bolu no noroeste da Turquia), na província romana da Bitínia. Embora a cidade fosse bem antiga e tivesse feito parte do Império Hitita, ela foi helenizada e reconstruída por colonos gregos vindos da cidade de Mantinea (antes da conquista romana, a cidade chamava-se Bithynium).

1280px-Lake_abant

(Lago Abant, em Bolu, foto de Azplanlos)

Em junho de 123 D.C., o imperador Adriano, então com 47 anos de idade, que se notabilizou por viajar por todo o Império Romano, chegou à cidade de Claudiopolis e, em algum momento de sua estadia, notou o ainda pré-adolescente Antínoo, atraído pela beleza do menino.

Hadrian_Musei_Capitolini_MC817_cropped

Deixando Claudiopolis, Adriano continuou seu tour pelas províncias orientais do Império, mas deve ter providenciado para que Antínoo fosse enviado para Roma, provavelmente para ser educado no Paedagogium, a escola existente no Palácio de Domiciano, no monte Palatino, destinada à instrução dos pajens imperiais.

1280px-RomaPalatinoPedagogiumDaAlto.JPG

(Ruínas do Peadagogium, no Palatino, em Roma)

Adriano voltou para Roma em setembro de 125 D.C., e, em algum momento nos anos seguintes, ele reencontrou Antínoo e ambos tornaram-se amantes. Três anos depois, quando Adriano partiu para nova viagem para a Grécia, Antínoo acompanhou-o, integrando a comitiva imperial.

Os historiadores concordam que Adriano tinha nítida inclinação homossexual e que o casamento dele com a imperatriz Sabina seria apenas por conveniências políticas e manutenção de uma imagem pública.

De qualquer forma, os costumes gregos estavam disseminados pela elite romana e o fato do imperador ter como amante um garoto inseria-se dentro da prática helênica da “pederastia“, onde se admitia que o mestre, mais velho (erastes), iniciasse sexualmente o discípulo (eromenos), aceitando-se que mantivessem relações sexuais até que o segundo saísse da puberdade e entrasse na idade adulta. Portanto, a opinião pública não deve ter dado muita importância ao relacionamento sexual entre o imperador e seu jovem pajem.

Vibia_Sabina_(M._Prado)_01

(Busto da imperatriz Sabina, cujo casamento com Adriano foi notoriamente infeliz)

Consta que Adriano elogiava a inteligência de Antínoo. Ele escreveu poemas em homenagem ao amante, que infelizmente, não chegaram até os nossos dias. Por sua vez, não há nenhum indício de que Antínoo tenha se valido de sua privilegiada posição para obter algum ganho pessoal ou influência política.

Não se sabem muitos detalhes do relacionamento entre Adriano e Antínoo, mas é certo que as caçadas eram um dos divertimentos que eles faziam juntos, de acordo com o relato de um incidente, ocorrido em setembro de 130 D.C., durante uma viagem pelo norte da África, na Líbia, no qual os dois decidiram caçar um leão que estava atacando a população da região. Nessa caçada, Adriano teria salvo a vida de Antínoo e o incidente foi também imortalizado em um relevo circular (tondo), que sobreviveu até nossos dias, por ter sido posteriormente afixado no Arco de Constantino, em Roma (à esquerda, abaixo,  foto de Radomil).

tondo Luk_Konstantyna_6DSCF0032

No decorrer dessa viagem pela África, Adriano e Antínoo chegaram ao Egito, por volta do início de outubro de 130 D.C., parando na  antiquíssima cidade sagrada de Heliopolis, de onde eles partiram para um cruzeiro pelo Nilo, navegando até a cidade de Hermopolis Magna. Nas proximidades da referida cidade, as fontes, sem entrar em detalhes, contam que Antínoo caiu no Nilo e morreu, ao que tudo indica, afogado, no dia em que se celebravam antigos festivais em homenagem ao deus egípcio Osíris.

AshmuneinBasilica

(Vista das ruínas de Hermopolis, foto de Roland Unger)

 

As principais fontes antigas assim relatam a  morte de Antínoo:

 

Dião Cássio

“Antinous era de Bithynium, uma cidade da Bitínia, a qual nós também chamamos Claudiopolis; ele foi um favorito do imperador e morreu no Egito, seja por ter caído no Nilo, como escreve Adriano, ou,  mais verdadeiro, por ter sido oferecido em sacrifício. Pois Adriano, como eu sempre afirmei, sempre se interessou por adivinhações e encantamentos de todo o tipo.  Então, Adriano homenageou Antinous – seja devido ao amor que sentia por ele, ou porque o jovem voluntariamente aceitou morrer (sendo necessário que uma vida fosse livremente oferecida para atingir os fins que Adriano tinha em vista) -com a construção de uma cidade no local onde ele sofreu o seu destino, dando-lhe o seu nome; e Adriano também ergueu estátuas, ou  imagens sagradas, dele, praticamente por todo o mundo. Finalmente, Adriano declarou que ele tinha avistado uma estrela que ele entendeu ser de Antinous, e alegremente emprestou seus ouvidos a estórias fictícas tecidas por seus adeptos no sentido de que a estrela havia nascido do espírito de Antinous e, assim, tinha aparecido pela primeira vez. No que se refere a isso, então, ele se tornou objeto de certo ridículo, e também porque, quando a sua irmã Paulina morreu, ele, na oportunidade, não fizera nenhuma homenagem.”

 

 

História Augusta

“Ele (Adriano) perdeu Antinous, seu favorito, durante uma viagem pelo Nilo, e por este jovem ele chorou como uma mulher. Com relação a este incidente, houve vários rumores:  alguns defendem que ele teria se entregado à morte por Adriano, e outros,  aquilo que a sua própria beleza, e a sensualidade de Adriano, sugerem…”

 

Aurelius Victor

“Outros defendem que este sacrifício de Antinous foi pio e religioso, pois, quando Adriano estava desejoso de prolongar a sua vida, e os feiticeiros demandaram que uma vítima voluntária fosse dedicada, diz-se que, após todos recusarem, Antinous ofereceu a si próprio”

 

Obviamente que não podemos excluir a hipótese de que a morte de Antínoo tenha sido acidental, segundo a versão dada pelo próprio Adriano, nem provar que os outros motivos alegados pelos autores antigos são inverídicos, muito embora tenham se registrado muitos episódios nos quais o o referido imperador mostrou-se explicitamente contrário à prática de sacrifícios humanos. Também não é impossível que, conforme a última passagem da História Augusta acima transcrita alude, a morte do rapaz tenha involuntariamente resultado de algum ato sexual, ou que a queda no rio tenha sido decorrente da embriaguez de ambos os amantes.

Entretanto, é fato que Antínoo estava no limiar de atingir a idade em que o seu relacionamento amoroso com Adriano (que estava com 54 anos de idade) tornaria-se extremamente embaraçoso para o imperador, pois o mesmo não mais poderia se dar sob o manto da pederastia.  O relacionamento sexual entre homens adultos livres não era admissível segundo a moral romana, e a chegada da maturidade sexual de Antínoo, que já estava com 18 ou 19 anos de idade, poderia expor o imperador à execração por parte da sociedade romana, especialmente na Itália, e, mais importante, a perda do seu prestígio entre os militares.

Desse modo, ainda que não se possa acusar Adriano, ou seus cortesãos, pelo assassinato de Antínoo, o fato é que a morte dele foi muito conveniente para o trono.

O que ninguém contesta é que Adriano ficou devastado com a morte de Antínoo e ordenou que homenagens inauditas fossem conferidas ao seu falecido amante.

Assim, ainda em outubro de 130 D.C., Adriano proclamou que Antínoo era um deus. A “deificação” já tinha se tornado comum para os imperadores falecidos e até algumas imperatrizes ou pessoas da família imperial já tinha sido tornados divinos, mas era a primeira vez que um simples pajem recebia essa distinção.

Adriano também fundou, no local onde Antínoo morreu, a cidade de Antinopolis, em 30 de outubro de 130 D.C..

O imperador também ordenou a construção de um santuário dedicado a Antínoo no interior de sua fabulosa Villa Adriana, em Tívoli, onde é provável que o falecido amante tenha sido enterrado (talvez depois de ser mumificado no Egito), conforme sugere o texto em hieróglifos no obelisco que  foi erguido ali e hoje encontra-se no Monte Pinciano, em Roma (vide https://followinghadrian.com/2016/10/02/the-obelisk-of-antinous/)

800px-Antinous_obelisk_Rome

 

A deificação de Antínoo foi seguida pela organização formal de seu culto, patrocinado pelo Estado, em diversas cidades, construindo-se templos e nomeando-se sacerdotes.

Embora, inicialmente, a criação e a adesão ao culto a Antínoo decorresse amplamente do patrocínio imperial e do desejo de adular Adriano (ou, igualmente, do temor em desagradá-lo), certamente a extraordinária beleza do rapaz, bem como as circunstâncias trágicas de sua morte e, principalmente, a similitude da forma e do lugar onde ele morreu com o mito de Osíris (que também morreu afogado no Nilo e depois foi ressuscitado pela mulher, Ísis), contribuíram para a popularização do novo deus, que no Egito, passou a ser associado a Osíris, recebendo o nome de Osirantinous.

Em algumas outras regiões, Antínoo foi considerado um herói mítico, como Hércules, um humano que superou a morte e pode transitar entre o mundo dos mortos e o dos vivos.

 

Antinous-osiris

(Antínoo retratado como Osíris, foto de DS)

Estátuas de Antínoo foram espalhadas por todo o Império Romano, aparentemente baseadas em modelos produzidos em Roma, por ordem de Adriano, uma vez que todas observam os mesmos padrões e contribuíram para popularizar o seu culto..

800px-Antinous_Pio-Clementino_Inv256_n3.jpg

Foram identificados até hoje 28 templos dedicados a Antínoo e encontrados vestígios de seu culto em pelos menos 70 cidades ao longo do Império Romano. No mundo grego, Antínoo também foi associado aos deuses Hermes e Dionísio. Os centros do culto eram as cidades de Antinopolis, Claudiopolis (local de nascimento de Antínoo) e Mantinea (De onde os seus ancestrais, fundadores de Claudiopolis, teriam vindo). Nessas cidades, também eram celebrados jogos em homenagem ao novo deus, o que ocorreu pelo menos até o início do século III, que também ocorriam em Atenas e Eleusis, tendo estes durado pelo menos até  267 D.C.

De fato, o culto a Antínoo perdurou por séculos após a morte de Adriano. Um papiro do final do século III preserva um poema em homenagem a Antínoo, mencionado a famosa caçada,, o Nilo, sua apoteose e a fundação da cidade em sua honra.

Os bispos e doutores da nascente Igreja também sentiram a necessidade de fazer invectivas contra o culto a Antínoo, No final do século II, Clemente de Alexandria escreveu:

“Outra nova divindade foi criada no Egito – e muito próxima aos Gregos também – que foi solenemente elevada pelo imperador à categoria de deus – o seu favorito cuja beleza era inigualável, Antinous. Ele consagrou Antinous da mesma maneira que Zeus consagrou Ganimedes. Pois a luxúria não é facilmente contida, quando não há medo, e mesmo agora o povo observa as noites sagradas de Antinous, que são realmente vergonhosas, como o amante que as passava junto com ele bem sabia. Por que, eu pergunto, vocês consideram um deus alguém que foi homenageado pela fornicação? Por que vocês ordenaram que ele fosse pranteado como um filho? Por que, igualmente, vocês narram as estórias da beleza dele? A beleza é algo vergonhoso quando manchada pelo ultraje. Não sejam tiranos da beleza, nem ultrajem aquele que está na flor de sua juventude. Guarde-a na pureza, para que permaneça bela. Tornem-se reis da beleza, não tiranos. Deixem-na livre. Quando vocês deixarem a imagem dela pura, então eu reconhecerei a vossa beleza. Então eu irei reverenciar a beleza, quando for o verdadeiro arquétipo das coisas belas. Agora nós temos uma tumba do amante, um templo e uma cidade de Antinous. (Exortação ao Gregos, 4.49.1-3)

O supracitado texto de Clemente de Alexandria também sugere que o culto de Antínoo poderia incluir alguma celebração orgiástica.

Por volta do ano 250 D.C., outro doutor da Igreja, Orígenes, em sua obra “Contra Celso”, refuta os argumentos do filósofo Celso contra  a fé cristã (que comparou, entre outros, Jesus Cristo a Antínoo). Nesse texto, Orígenes chega a reconhecer a existência de prodígios atribuídos a Antínoo, mas considera-os obra de um daimon (espírito) ou de mágicos.

Somente com o triunfo do Cristianismo, após a proibição das cerimônias públicas pagãs por Teodósio e a destruição de incontáveis templos, o culto a Antínoo desaparece da História, tendo o culto durado pelo menos uns duzentos e cinquenta anos.

ADriano 1280px-Hadrian_and_Antinous_bust_British_Museum

LEGADO

No século XIX, a revalorização do classicismo elegeu as estátuas de Antínoo como o último suspiro da arte clássica greco-romana e símbolo de beleza masculina. Ele também acabou inspirando vários escritores como Oscar Wilde, Fernando Pessoa e Marguerite Yourcenar.

Para saber mais: Lambert, Royston (1984). Beloved and God: The Story of Hadrian and Antinous. George Weidenfeld & Nicolson

 

SÃO MAURÍCIO E A LEGIÃO TEBANA

Siga as atualizações do blog no twitter@aulusmetelus

800px-Mathis_Gothart_Grünewald_011

(São Maurício, tela de Matthias Grünewald, século XVI).

Em 22 de setembro de 286 D.C., segundo a hagiografia cristã de São Maurício, uma legião romana inteira teria sido martirizada por ordens do Imperador Maximiniano, na cidade de Agaunum (atual cidade de Saint-Maurice, na Suiça).

Os fatos, que já faziam parte da tradição oral da comunidade cristã, foram mencionados pela primeira vez por escrito em um carta do bispo Euquério, bispo de Lyon, escrita por volta do ano 450 D.C. Segundo a estória narrada na carta,  Maurício era o comandante da Legião Tebana, era originária da cidade de Tebas, ou da província de Thebaida, ambas no Egito, de onde se originou o nome de “Legião Tebana”, e foi transferida para a Gália.

Chegando na cidade de Agaunum, para combater uma revolta dos chamados bagaudas, como eram denominados numerosos bandos de revoltosos e foras-da-lei que chegaram a dominar uma parte da Gália, os soldados da Legião Tebana, que tinham se convertido ao cristianismo ainda no Egito, recusaram-se a fazer os sacrifícios ao imperador e aos deuses romanos antes do combate.

Enfurecido, Maximiano ordenou que a já arcaica punição da dizimação ou “decimatio” fosse aplicada à Legião Tebana (a pena da dizimação consistia em punir uma unidade militar que tivesse demonstrado covardia ou traição pela reunião dos soldados em grupos de dez homens, dos quais um seria escolhido para ser executado).

Porém, mesmo após a primeira rodada de aplicação da decimatio, os soldados cristãos permaneceram firmes em sua fé, e,  depois de várias rodadas de execuções, toda a Legião Tebana, o que totalizaria cerca de cinco mil homens (ou talvez mil, pois nesta época estavam em curso profundas mudanças no Exército Romano),  teria sido morta.

Apesar da conotação mítico-religiosa da fantástica do relato, Muitos historiadores acreditam que essa impressionante estória pode ter um fundo de verdade.

Efetivamente, houve uma legião romana que se chamava I Maximiana Thebanorum,  a qual foi formada pelo imperador Diocleciano cerca de dez anos após a data em que se teria dado o aludido martírio. Apesar da pequena imprecisão cronológica,  o fato é que na época em que a unidade foi criada, Maximiano ainda era co-imperador junto com Diocleciano e ele realmente estava comandando o exército no Reno, o que é compatível com o local mencionado na narrativa hagiológica.

Maximien_Hercule_-_Inv_34_b_(cropped)

(Imperador Maximiano)

Inclusive segundo o historiador galo-romano Gregório de Tours, que escreveu no final do século VI D.C., existia na cidade de Colônia uma igreja erguida em torno da cova onde os restos de cinquenta mártires da Legião Tebana foram jogados após o seu martírio.

A transferência de uma legião inteira do Egito para a Gália é improvável, mas a retirada de destacamentos (vexillationes) de várias legiões para campanhas era uma prática comum.

Assim, seria mais condizente com a prática romana, constatada em vários episódios anteriores,  que uma “Coorte” (Cohors), uma unidade militar com cerca de quinhentos homens, tenha sido enviada para a Gália. Se isso for verdade, considerando o relato de Gregório de Tours, que fala em cinquenta mártires, é razoável que a pena da dizimação tenha sido aplicada a uma coorte da Legião Tebana, perfazendo um décimo do seu efetivo.

Maurício, além de outros oficiais martirizados, tais como Cândido e Exupério, passaram a ser venerados como santos pela Igreja Católica. Maurício, inclusive, segundo a hagiografia, seria originário de Tebas, cidade egípcia próxima a Assuã, já quase na fronteira com o Sudão, onde começa da fato a  África Subsaariana, que antigamente era conhecida como “África Negra” . Por isso, São Maurício é representado, ao menos desde a Idade Média, como um homem negro vestido com armadura militar.

saint maurice 006

 (Estátua de São Maurício, século XIII, Catedral de Magdeburgo , foto de Chris 73)

PORTUNALIA

PORTUNALIA

No dia 17 de agosto, o décimo-sexto dia antes das calendas de setembro, os romanos comemoravam a Portunalia, o festival em honra do deus Portunus, a divindade que, originalmente velava pelas criações de gado e pelas chaves, portas e portos.

Forum-Boarium-Architecture-Art-History-Roman-Rome2

(Considera-se que a divindade retratada no canto superior esquerdo do relevo acima, existente no Arco de Trajano, em Benevento, seja uma personificação de Portunus)

Acredita-se que Portunus originalmente protegia os estábulos e as cercas de gado, mas o deus acabou sendo associado com os portões dos mesmos e, mais tarde, com os portos, seja em função da raiz de ambas as palavras, ou talvez porque os portos, de certo modo, seriam as “portas” de entrada para o Mar.

No dia da Portunalia, chaves eram jogadas em uma fogueira para obter boa sorte. O Templo de Portunus ainda existe no local onde ficava o Forum Boarium, na cidade de Roma, e ele é o templo romano mais bem conservado depois do Pantheon, sendo datado dentre o final do século II A.C e início do século I A.C, sendo, também, é um dos dois templos intactos da Roma Republicana sobreviventes na cidade.  A sua arquitetura classicamente sóbria e singela, com um frontão contendo 4 colunas jônicas, é um bom exemplo de templo de estilo itálico, erguido sobre um pódio, com escadaria frontal.

Roma-tempio_di_portunus.jpg

(Templo de Portunus, foto em https://www.flickr.com/photo_zoom.gne?id=9008801)

Até o século XX, o Templo de Portunus era conhecido, erroneamente, como “Templo da Fortuna Viril”, pois a inscrição incompleta que se podia ler na sua fachada era “…ORTUN…”. Porém, a localização do templo no Forum Boarium (antigo mercado romano de gado), em localização contígua ao rio Tibre e posicionada de frente para o antigo cais e para as barcaças que chegavam subindo o rio, vindas dos portos de Óstia e Portus, torna muito mais plausível a sua associação com Portunus.

forum20boarium