PETRÔNIO MÁXIMO – IMPERADOR DO OCIDENTE POR 11 SEMANAS, OS ANÍCIOS e AÉCIO – O ÚLTIMO DOS ROMANOS

 

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Flavius Anicius Petronius Maximus (Petrônio Máximo) nasceu por volta de 395 D.C. e provavelmente ele era filho de Anicius Probinus, Cônsul para o ano de 395 D.C. e Procônsul da África no ano seguinte, e neto de Sextus Claudius Petronius Probus, que foi Prefeito da Ilíria, Prefeito da Gália, Prefeito da Itália e Cônsul no ano de 371 D.C.

Os Anícios (Anicii) eram uma família rica, poderosa e muito influente da tradicional classe senatorial italiana, e os seus integrantes ocuparam vários cargos públicos importantes a partir do século IV D.C.

A influência dos Anícios perdurou, inclusive, após a Queda do Império Romano do Ocidente, em 476 D.C., pois eles continuaram ocupando várias magistraturas durante o reinado dos Ostrogodos, na Itália. O filósofo Boécio (Anicius Manlius Severinus Boethius), por exemplo, foi  senador e cônsul em 510 D.C. (o senado romano continuou a funcionar durante o reino Ostrogodo na Itália), antes de ser executado por ordens do rei germânico.

Em 523 D.C., Flavius Anicius Maximus celebrou a sua nomeação para o consulado celebrando os últimos jogos a serem realizados no Coliseu de Roma, envolvendo caçadas e lutas contra animais (venationes).

Inclusive, depois da reconquista da Itália pelo imperador romano do Oriente, Justiniano I, um dos membros da família, Anicius Faustus Albinus Basilius, foi o último romano a ocupar o cargo de Cônsul, em 541 D.C., ao lado do referido imperador, após o que o cargo foi incorporado como título exclusivo dos imperadores romanos do Oriente (vide painel de marfim abaixo com a imagem do Cônsul Anicius Albinus Basilius, ladeado pela personificação da cidade de Roma).

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Mais de um século depois da Queda do Império Romano do Ocidente, Gregório, o Grande, canonizado como São Gregório, cujo nome de nascença era Anicius Gregorius , foi Papa da Igreja Católica, de 590 a 604 D.C.

Um dos motivos para a ascensão dos Anícios, a partir do reinado do imperador Teodósio, o Grande, é o fato de que eles eram cristãos, dentro de um Senado Romano ainda marcadamente pagão.

E Petrônio Máximo também seguiu uma carreira pública de sucesso, tendo ocupado sucessivamente os cargos de Pretor, em 411 D.C, de Tribuno, em 415 D.C, de Conde das Riquezas Sagradas (Comes Sacrae Largitionem, cargo equivalente ao de Secretário do Tesouro Imperial), de 416 a 419 D.C, e nos dois anos seguintes, ele foi Prefeito Urbano de Roma. Depois disso, Petrônio foi Prefeito Pretoriano da Itália, por duas vezes, em 435 e 439/441 D.C., culminando a sua carreira com dois consulados, em 433 e 443 D.C.

Assim, a maior parte da carreira de Petrônio desenvolveu-se durante o reinado do Imperador do Ocidente Valentiniano III, que se caracterizou por um paulatino desmembramento do Império Romano, decorrente de uma série de invasões bárbaras. Com efeito, durante esse período, os Vândalos, Suevos e Alanos se instalaram na Espanha e os Visigodos no sul da Gália. Além disso, o noroeste da Gália encontrava-se virtualmente independente, controlado por bandoleiros chamados de bagaudas. Para piorar, os Vândalos deixaram a Espanha e invadiram a rica província da África, que na época era a principal fonte de suprimento de grãos para Roma.

O Exército do Império do Ocidente, durante o reinado de Honório, antecessor de Valentiniano III, praticamente havia desaparecido, e o Imperador dependia de tropas bárbaras, cujos chefes cada vez mais ansiavam o cargo de Comandante Supremo (Magister Utriusque Militiae), visando ter acesso aos ainda vastos recursos do Império.

Roma, apesar de tudo, durante esse período (400 a 450 D.C.), ainda conseguia desdobrar algum poder militar, nas ocasiões em que o exército era comandado por um general de prestígio e de orientação patriótica, como no caso do marechal, meio-romano e meio-vândalo, Estilicão, que foi o Comandante do Exército do Ocidente durante o reinado do imperador Honório. Esses generais, enquanto o tesouro não se exauriu completamente, frequentemente conseguiam reunir tropas bárbaras que serviam ao Império como “federados” (foederati) e as empregavam no interesse de Roma.

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Estilicão (retratado no relevo de marfim acima), contudo, não conseguiu sobreviver à comoção que foi o saque de Roma pelos Godos comandados pelo rei Alarico. Outro fator que contribuiu para a queda de Estilicão foram as intrigas entre as cortes de Honório, em Ravena, e de seu irmão Arcádio, em Constantinopla.

Quando Honório morreu, em 423 D.C., o governo do Império do Ocidente ficou, durante algum tempo, nas mãos da Imperatriz Gala Placídia, filha de Teodósio, o Grande e irmã do falecido imperador, apoiada pelo Imperador do Oriente, Teodósio II, em Constantinopla (como o filho de Placídia, Valentiniano III, tinha apenas 6 anos, ela governou como regente de fato o Império Romano do Ocidente).

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(Alguns acreditam que este medalhão de vidro pintado retrate Gala Placídia, ladeada por Valentiniano III e Honória, mas provavelmente o objeto é mais antigo, do século III).

Vale notar que Gala Placídia foi levada como refém por Alarico, quando do saque de Roma e, depois que o rei bárbaro morreu, naquele mesmo ano (410 D.C.), ela teve que se casar, aparentemente não contra a sua vontade, com Ataulfo, o cunhado e sucessor de Alarico. Gala Placídia somente seria “restituída” ao Império Romano após a morte do marido, em 415 D.C.

Durante o reinado de Valentiniano III, um outro militar da estatura de Estilicão assumiu o comando do que restava do Exército, o general Flávio Aécio, um romano nascido na região do Danúbio.

Flávio Aécio, quando criança, foi entregue como refém aos godos e, por estes, aos hunos, durante a juventude, mas, valendo-se do seu talento de persuasão e de suas habilidades diplomáticas, Aécio conseguiu fazer contatos e ter boas relações com os hunos, que eram os bárbaros mais temidos naqueles tempos.  Efetivamente, durante toda a sua carreira, Aécio se valeria dessa amizade com os hunos, que, em diversas ocasiões, lhe forneceriam as tropas que o Império do Ocidente tanto precisava para fazer frente aos visigodos, suevos, francos, burgúndios e outros bárbaros que, já instalados na Gália e Espanha, ou em reides partindo dos rios Reno e Danúbio, ameaçavam a própria Itália.

Aécio, que alcançara o posto de Comandante militar da Gália, teve que combater Bonifácio, um rival pelo comando supremo do Exército que tinha a predileção de Gala Placídia, e, apesar de ter sido derrotado na Batalha de Rimini, em 432 D.C, conseguiu fugir e chegar aos seus amigos hunos, enquanto que Bonifácio morreu em decorrência dos ferimentos sofridos na luta. Os hunos forneceram a Aécio novas tropas, com as quais ele não teve dificuldade em “convencer” Gala Placídia a nomeá-lo “Magister Utriusque Militae” e Conde (“Comes“).

Infelizmente, os vândalos aproveitaram-se indiretamente desse conflito e invadiram a África, província que era vital como fonte de fornecimento de grãos para o Império do Ocidente (o Egito estava sob a jurisdição de Constantinopla), e onde os senadores romanos possuíam imensas propriedades.

A estratégia seguida por Aécio para lidar com essas ameaças é considerada pelos historiadores militares como inteligente e adequada para a delicadíssima situação em que o Império do Ocidente se encontrava: De fato, Flávio Aécio sempre procurou proteger preferencialmente a Gália, a maior e mais rica província do Ocidente, já bem devastada pelas invasões bárbaras. Ele conseguiu derrotar os burgúndios e conter os bagaudas, na Gália e, após uma sucessão de derrotas e vitórias contra os visigodos, firmar com eles um tratado delimitando a área que seria destinada aos bárbaros. Sem ter tropas suficientes para subjugar todos os bárbaros, Aécio passou a se valer da tática de usar as tribos bárbaras recém-derrotadas e assentadas em áreas selecionadas do Império para conter as outras que fossem julgadas mais perigosas para Roma.

Em decorrência desses sucessos militares, Aécio foi a pessoa mais poderosa do Império do Ocidente entre 433 e 450 D.C.

Porém, em 451 D.C., Átila, que tinha se tornado rei dos Hunos em 435 D.C., resolveu atacar o Império do Ocidente, alegando um pretexto surpreendente: a irmã de Valentiniano III, Honória, que havia sido presa por ter engravidado de um camareiro, conseguiu enviar a Átila um pedido de socorro, junto com um anel, razão pela qual o rei bárbaro considerou que a princesa romana era sua noiva, dando-lhe o direito de exigir o seu dote: Metade do Império do Ocidente!

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Deve ter sido muito embaraçoso para Aécio junto à corte imperial e ao Senado o fato de que seus amigos hunos agora tinham se voltado contra o Império. O irresistível avanço da horda huna, acrescida por várias tribos germânicas súditas de Átila, rapidamente tomou Metz, Reims, Mogúncia, Estrasburgo, Colônia, Worms e Trier que foram tomadas, saqueadas e incendiadas.

Aécio, porém, conseguiu formar uma aliança com os visigodos, francos e alanos, que se uniram a um pequeno contingente de tropas romanas tradicionais. Quando os aliados  aproximaram-se de Orleans, que estava sendo sitiada pelos hunos, Átila teve que abandonar o cerco às muralhas e rumou para o campo aberto em Châlons, na Champanha. Ali, travou-se uma sangrenta batalha onde os visigodos e alanos aguentaram a maior parte da carga dos guerreiros hunos. Os romanos colaboraram ocupando uma importante elevação no terreno. Em posição desfavorável, Átila acabou ordenando uma retirada, sem que houvesse uma perseguição por parte dos aliados romanos. Foi certamente o auge da carreira de Aécio. Muitos historiadores consideram, para outros com algum exagero, que a Batalha de Châlons foi uma das batalhas mais importantes da História e o historiador romano-bizantino Procópio chamou Aécio de “O Último dos Romanos“. É, todavia, difícil chegar a uma conclusão sobre a importância crucial desta batalha, pois Átila morreria dois anos depois e o seu império esfumaçou-se tão rápido como surgira.

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Contudo, também o prestígio político de Aécio não duraria muito. No ano seguinte à Batalha de Châlons, Átila e os seus Hunos invadiriam a Itália. No avanço da horda, a grande cidade de Aquiléia foi varrida do mapa. Valentiniano III, protegido pelos pântanos de Ravenna, foi obrigado a assistir impotente enquanto os hunos dirigiam-se para Roma. Contudo, por razões até hoje misteriosas, mas provavelmente devido à peste que se alastrava pela Península, Átila, após receber uma embaixada do Papa Leão, resolveu se retirar e, no ano seguinte, ele morreria sufocado pelo próprio sangue, após a festa do seu casamento com uma nova esposa, aparentemente devido a uma hemorragia nasal.

Após Chalons, Aécio ainda conseguiu casar o seu filho Gaudentius com a princesa Eudóxia, filha de Valentiniano III, passando, assim, a ser oficialmente membro da família imperial e ainda por tabela colocando Gaudentius como um sério candidato à sucessão do trono. Isso certamente despertou muitos ciúmes no círculo da elite italiana, especialmente em Petrônio Máximo, que naquele momento era o senador mais poderoso e com mais distinções em cargos públicos.

Segundo o historiador romano-bizantino do século VII, João de Antióquia, Petrônio Máximo foi o maior responsável pelas intrigas contra Aécio junto a Valentiniano III, instigando o imperador contra o general. Assim, Petrônio aliou-se ao secretário doméstico do imperador (“Primicerius Sacri Cubiculi“), um eunuco chamado Heraclius, que também era inimigo de Aécio, e os dois conseguiram persuadir Valentiniano III que Aécio planejava matá-lo.

Em seguida, Petrônio e Heraclius sugeriram que Valentiniano convocasse o general para um encontro no Palácio, nos aposentos imperiais, provavelmente uma forma de afastar Aécio de seus guarda-costas hunos, sem despertar a suspeita deles.

Em 21 de setembro de 454 D.C., Aécio compareceu ao encontro e, enquanto apresentava um relatório, ele foi acusado pelo imperador Valentiniano III de traição. Ao tentar se explicar, Aécio foi subitamente atacado por Valentiniano III e Heraclius e acabou sendo morto por um golpe de espada desferido pelo próprio imperador. Não deve ter sido uma luta muito difícil, uma vez que Valentiniano tinha 34 anos e era dado a se exercitar, enquanto que Aécio já tinha a avançada idade, para a época, de 63 anos.

Dias depois, ao comentar que tinha agido corretamente ao matar Aécio, Valentiniano III ouviu de um cortesão:

“Se ele merecia morrer, eu não sei, mas o que eu sei é que Vossa Majestade cortou vossa mão direita com a esquerda”…

Ainda segundo João de Antióquia, Petrônio Máximo tentou convencer Valentiniano III a nomeá-lo para o cargo de Aécio, mas foi convencido por Heraclius a não fazê-lo. Furioso com a recusa, consta que Petrônio conseguiu convencer dois guarda-costas bárbaros de Aécio, chamados Optelas e Thraustelas, a vingarem-se da morte do seu amado chefe, prometendo ainda uma recompensa pela morte de Valentiniano III.

Assim, no dia 16 de março de 455 D.C, os dois bárbaros mataram o imperador e apoderaram-se do seu manto e do diadema imperial, que foi entregue a Petrônio Máximo, que, com o apoio do Senado, imediatamente tomou o controle do Palácio Imperial e forçou Licí­nia Eudóxia, a viúva de Valentiniano III,  casar-se com ele, o que lhe ajudou a reivindicar com sucesso a condição de Imperador Romano do Ocidente, em 17 de março de 455 D.C.

O reinado de Petrônio Máximo, contudo, duraria pouco…As tropas que se mantinham fiéis graças ao prestígio de Aécio desapareceram e, na prática, não existia mais nada na Itália que pudesse ser chamado de exército romano. Geiserico, segundo algumas fontes, atendendo a um pedido da imperatriz-viúva, aproveitou para invadir a Itália e dirigiu-se para Roma, onde instalou-se o pânico.

Quando Petrônio Máximo soube do funesto fato, e encontrando o Palácio deserto, tentou fugir, mas foi ele acabou sendo descoberto e foi capturado por uma multidão furiosa que o linchou e o apedrejou, atirando seu corpo mutilado ao Tibre (segundo uma outra versão, ele teria sido morto por um soldado de nome Ursus). Era o dia 31 de maio de 455 D.C.

CÉSAR – O HOMEM

CÉSAR – O HOMEM

(Comemoração do aniversário de Júlio César – 13//07/100 A.C.)

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(Humanização d busto de Tusculum, considerado o único existente que foi feito durante a vida de César. Para mim, o artista conseguiu reproduzir uma expressão carismática e um olhar que eu julgo que pode ser bem fiel ao do estadista)

O nosso propósito neste texto discorrer sobre a vida pessoal de César, com base nas fontes históricas e achados arqueológicos que chegaram até nós, porém deixando um pouco de lado os acontecimentos políticos e militares, a não ser quando eles revelem algo sobre o homem Caio Júlio César, tais como: os seus atributos físicos, a sua saúde, a sua personalidade, a sua família, seus gostos, enfim, tudo o que, hoje, como sempre, faz alguém conhecer melhor uma PESSOA. Não se trata, portanto, de um texto sobre a trajetória política dele, embora esta, obviamente, seja diretamente uma consequência de tudo isso.

1- Antecedentes familiares

Consta, para a maior parte dos historiadores, que Caio Júlio César nasceu em 13 de julho do ano 100 A.C., em Roma ( embora haja alguma discordância quanto ao ano e o dia – alguns sustentam que ele pode ter nascido no dia 12 e propõem anos alternativos: 102 ou 103 A.C).

A família de César era uma das que faziam parte da “GensJúlia (“Gens”, ou “gente”, é um termo aproximado a “clã”, devendo ser entendido como um grupo de famílias romanas que era ou se julgava descendente de um ancestral ilustre em comum).

Os Júlios reivindicavam ser descendentes de “Iulus” (também chamado de Ascâneo), filho de Enéias, herói troiano da Guerra de Tróia, e Creusa, filha do rei de Tróia, Príamo.

Segundo a mitologia, Enéias, por sua vez, seria filho de Anquises e da própria deusa Vênus, com quem Anquises teve um caso amoroso.

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(Estátua romana da deusa Vênus)

Conta a lenda que, após a queda de Tróia, Enéas, carregando seu seu pai Anquises, veio para a Itália, sendo os doisrecebidos por Latinus, rei dos primeiros Latinos. Já na Península, Enéas casou-se com Lavínia, filha de Latinus, fundando a cidade de Lavinium, em honra dela, que deu à luz a Ascâneo.

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(Enéas carregando Anquises, estátua romana)

Posteriormente, Ascâneo/Iulus fundou a cidade de Alba Longa, da qual ele foi o primeiro rei, um povoado considerado como sendo o berço ancestral da Gens Júlia. No século VII A.C., o rei de Roma, Tullus Hostilius, destruiu Alba Longa, porém removendo a sua população para a própria Roma, dobrando o número de habitantes e arrolando, entre os patrícios romanos, as principais famílias albanas, entre as quais a dos Júlios.

Os Júlios foram muito importantes no início da República Romana (que se inicia em 509 A.C.), tendo obtido seis consulados entre 489 e 379 A.C.. Em 352 A.C., Gaius Julius Iulus foi nomeado Ditador,  que era um cargo temporário somente concedido por motivos emergenciais.

A gens Júlia, como acontecia com as demais, multiplicou-se em várias famílias que foram adquirindo a sua identidade, marcada por um cognomen. Em algum momento, uma dessas famílias integrantes da gens Júlia recebeu o cognome de “Caesar” (pronuncia-se, “ káisar ”, em latim – ou “César ”, em português.

Segundo Plínio, o Velho, o nome Caesar deriva da palavra latina “caedere”, que significa “cortar“, indicando o procedimento cirúrgico de cortar o ventre da mulher grávida para se dar luz a uma criança,  o qual chegou até nós com o nome de “cesariana”. Assim, o primeiro “César”, séculos antes de seu descendente mais famoso, teria nascido de uma cesariana.

Porém, a “História Augusta” aponta outras três teorias para o nome César: (a) o originador do nome da família seria cabeludo (“caesaris”); (b) ou ele teria “olhos cinzentos” (“oculis caesiis”); ou, então, (c) o nome derivaria da palavra de suposta origem berbere “caesai”, que significa “elefante“, devido ao fato de um integrante da família ter matado um elefante em batalha. Pode ser que esta última seja a explicação mais acertada, pois o primeiro ancestral conhecido da família foi Sextus Julius Caesar (I), que lutou durante a Segunda Guerra Púnica contra Aníbal (que invadira a Itália levando elefantes) e foi eleito Pretor em 208 A.C.. Além disso, seu descendente, Caio Júlio César cunhou vários denários de prata com a imagem de um elefante, talvez evocando a história familiar que ele próprio ouvira sobre a origem do seu nome.

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No período que antecedeu as Guerras Púnicas, os Júlios tinham perdido um pouco da importância, pois, desde a mencionada Ditadura de Gaius Julius Iulus, em 352 A.C., não ocupavam nenhuma magistratura importante, até que Lucius Julius Libo ocupou o consulado, em 267 A.C. obtendo um triunfo contra o povo italiota meridional dos Salentinos.

Provavelmente ajudados pelo prestígio pessoal que Sextus Julius Caesar (I) obteve na guerra contra Cartago (2ª Guerra Púnica), seu filho, Lucius Julius Caesar, obteve o cargo de Pretor, em 183 A.C., e seu outro filho, Sextus Julius Caesar (II), foi eleito Cônsul para o ano de 157 A.C., o posto mais importante até então ocupado pela família dos “Júlios Césares”. Acredita-se, ainda, que houve um terceiro irmão, que além de também senador, era historiador, chamado Gaius Julius Caesar (I) e que seria o bisavô do nosso Caio Júlio César.

O período que sucede esse consulado de Sextus Julius Caesar (II) assiste Roma dominar a Grécia e derrotar definitivamente Cartago. O afluxo de riquezas acelerou as contradições do sistema político romano e a desigualdade entre patrícios e plebeus. A tentativa de reforma empreendida pelos Tribunos da Plebe, Tibério e Caio Graco, foi combatida através da violência pelos nobres, que se aglutinam na facção dos Optimates, os quais, assassinando os dois irmãos, entre 132 e 121 A.C., conseguiram, momentaneamente, obstaculizar os partidários da primazia política pelos Comícios da Plebe, que se reuniram no Senado na facção dos Populares.

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Nesse quadro, que dura uns 50 anos, os “Júlios Césares” novamente perderam posição política, exceto pelo exercício de um cargo de pretor urbano por Sextus Julius Caesar (III), filho do Sextus acima citado, em 123 A.C..

Foi uma época em que a massa de proletários expulsos de suas terras aumentava em decorrência dos latifúndios que utilizavam a mão de obra escrava, acompanhada pelo cada vez maior número de cidades e territórios controlados pela República Romana, sem que, contudo, os aliados italianos, que forneciam uma boa parte do contingente militar, tivessem qualquer participação política, além dos mesmos não poderem gozar de inúmeros direitos conferidos aos cidadãos romanos.

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Esse período é marcado pela ascensão de Caio Mário, um brilhante general, que, sem pertencer a nenhuma família nobre, devido aos seus feitos militares conseguiu ser eleito Cônsul pela primeira vez, em 107 A.C., tornando-se, assim, um “homem novo ” (novus homo). Mário era hostil ao Senado e é considerado um integrante da facção dos Populares.

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A principal reforma de Mário, fundamental na História de Roma, foi a reorganização do Exército Romano. Até então, somente cidadãos livres proprietários de terras podiam ser recrutados como soldados, porém,  Mário instituiu que o Estado deveria pagar um salário e fornecer armas e vestuário para os soldados, criando um exército permanente que recrutaria, basicamente, os proletários urbanos de Roma e das cidades italianas.

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Em 113 A.C., quando Mário era Pretor e após exercer o cargo de governador na província da Hispânia, ele se casou com Júlia, que era filha de um Gaius Julius Caesar (II), que havia ocupado um cargo de Pretor, e de Márcia, filha do Pretor Quintus Marcius Rex, que, em 144 A.C., havia sido encarregado da obra do aqueduto que posteriormente levou o seu nome, a Acqua Marcia. Júlia tinha como irmãos, Gaius Julius Caesar (III) e Sextus Julius Caesar (III). Acredita-se que o casamento de Mário com uma integrante de uma das famílias mais ilustres da nobreza, ainda que, naquele momento, pouco poderosa, deve ter facilitado a sua ascensão política.

2- Nasce Caio Júlio César

Em 100 A.C., Mário foi eleito para o seu sexto consulado, o quinto seguido, um fato sem precedentes na História de Roma. Naquele mesmo ano de 100 A.C., no dia 13 de julho, nascia, em uma casa (domus), no bairro popular da Suburra (Subura), em Roma, o primeiro filho homem de seu cunhado Gaius Julius Caesar (III), o irmão mais velho de sua esposa Júlia.

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O recém-nascido era filho de Gaius Julius Caesar (III) com Aurelia Cotta, filha de Lucius Aurelius Cotta, Cônsul no ano de 119 A.C., e cujo avô paterno também havia sido Cônsul, em 144 A.C. Eles deram ao menino o mesmo nome do pai, Caio Júlio César (Gaius Julius Caesar), que foi o terceiro filho do casal, que já tinha então duas filhas, ambas chamadas Julia, que, para distinguir uma da outra, eram chamadas de Julia Major e Julia Minor.

Nos primeiros anos da infância de Júlio César, o Senado Romano havia conseguido confrontar um pouco o poder de Mário, mas a eclosão da chamada “Guerra Social”, uma revolta dos aliados italianos de Roma (socii) contra as leis que lhes impediam de ter cidadania romana plena, obrigou os senadores a recorrerem novamente a Mário, dando-lhe o comando da campanha contra os rebeldes, sendo que esta guerra durou de 91 a 88 A.C.

Assim, não surpreende que os “Júlios Césares”, que agora eram parentes do homem mais poderoso da República, prosperassem no período que vai de 103 A.C. a 90 A.C. Sextus Julius Caesar (III), tio do menino César e cunhado de Mário, foi Pretor, em 94 A.C., e Cônsul no ano seguinte. Depois disso, exerceu, ainda o cargo de Procônsul. Gaius Julius Caesar (III), pai de César e cunhado de Mário, foi também Questor, Pretor em 92 A.C. e Procônsul da Ásia.

A facção dos Optimates encontrou o seu campeão na figura de Lucius Cornelius Sulla (Lúcio Cornélio Sila), um general ultraconservador e tradicionalista general que também havia se destacado na Guerra Social. Os Optimates conseguiram eleger Sila Cônsul, no ano de 88 A.C.

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O conflito entre Mário e Sila espelhava a disputa entre os Populares e os Optimates. E, quando ambos disputaram o importante comando da Campanha contra Mitridates, Rei do Ponto, na atual Turquia, Mário, ilegalmente, ignorou a designação de Sila pelo Senado, levando o rival a se insurgir, e logo as forças militares de ambos entraram em conflito.

Após derrotar as forças de Mário em combate, Sila marchou contra a própria Roma e entrou, à testa de suas forças, no “pomerium” (fronteiras sagradas da cidade), conduta que era expressamente proibida pela lei romana. Em seguida, Sila perseguiu os partidários de Mário e revogou a maior parte dos seus atos. Mário conseguiu escapar e se exilou na África.

Porém, Sila foi obrigado a deixar Roma e ir combater a Mitridates que havia massacrado milhares de civis romanos no Ponto.

Aproveitando a situação, Mário voltou da África e, apoiado por seus veteranos, conseguiu assumir de novo o governo, sendo eleito para o seu sétimo consulado. Mas, já velho e doente, ele morreu no meio do 1º mês de seu mandato, em 86 A.C., deixando no poder seu colega de consulado, Cina, um correligionário que apoiava a facção dos Populares. A última volta ao poder de Mário foi marcada pela perseguição sangrenta aos seus inimigos políticos.

Com a morte de Mário, Cina ficou no poder, ocupando sucessivos consulados, até 84 A.C.. Neste período, ele adotou medidas que faziam parte do ideário dos Populares, como a concessão de cidadania aos italianos, até ser morto pelas suas próprias tropa, quando eles se preparavam para ir lutar contra Sila.

Curiosamente, a divisão política do Senado Romano em duas facções não poupou sequer a família dos Júlios Césares, pois sabemos que Lucius Julius Caesar e seu irmão, Gaius Julius Caesar Strabo Vopiscus, apoiaram Sila (Sulla), motivo pelo qual eles seriam mortos pelos partidários de Mário, em 87 A.C. Sabemos que a irmã dos dois, também chamada Júlia, foi a primeira esposa de Sila, de cerca de 110 A.C. até a morte dela, em 104 A.C., o que provavelmente explica a divisão no meio da família

3- Infância/Educação do jovem César

Essa era a posição social e política de sua família quando Caio Júlio César nasceu, no dia 12 ou 13 de julho do ano 100 A.C., na casa de seu pai, no bairro romano da Suburra, em um imóvel que, segundo nos descreve Suetônio, era modesto.

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(A casa dos pais de César na Suburra era modesta, segundo Suetônio. Talvez fosse um antigo exemplo de  primitiva domus itálica, imagem por Tobias Langhammer )

A Suburra era um bairro habitado por pessoas de baixa classe social, que viviam em ínsulas ( Insulae – prédios multi-familiares de cômodos alugados), algumas das quais talvez pertencessem à própria família de César. A região era também conhecida em Roma como zona de prostituição, onde se instalaram vários lupanares, ou bordéis, muitos, quem sabe, talvez também explorados, direta ou indiretamente, pelos próprios “Júlios Césares”, já que as escavações em Pompéia mostram que muitas domus aristocráticas tinham lojas (tabernae) voltadas para a rua, as quais eram alugadas para a exploração de vários negócios, incluindo, comprovadamente, casas de prostituição.

Certamente, em sua modesta casa na Suburra, o pai de César deveria, frequentemente pela manhã, receber dezenas de clientes, cidadãos pobres que viam lhe pedir favores e prestar reverência. Assim, desde o início, o menino César deve ter tido contato com humildes plebeus que constituíam o eleitorado da facção popular, à qual, a partir da união familiar com Mário, estavam intimamente ligados.

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Quando César nasceu, seu pai, Gaius Julius Caesar (III), e sua mãe, Aurélia Cotta já eram pais, como já dito, de duas meninas, ambas chamadas de Júlia, sendo a mais velha, apelidada de Major (“A Maior” ou “A Velha”), para diferenciá-la da mais nova, apelidada de Minor (“A Menor” ou “A Jovem”), que nasceu um ano antes de César, em 101 A.C.

Júlia, a Jovem casou-se, por volta de 86 A.C, com Marcus Attius Balbus, primo de Cneu Pompeu, então um jovem partidário de Sila. Júlia teve com Attius Balbus três filhas, sendo que a segunda, Attia Balba Secunda, em 63 A.C deu à luz a Gaius Otavius, fruto de seu casamento com o Questor do mesmo nome. Assim, Gaius Otavius, filho de Attia, era sobrinho-neto de Júlio César, o qual, décadas mais tarde, em seu testamento, adotaria o rapaz e o nomearia herdeiro, ocasião em que este passaria a se chamar Caio Júlio César Otaviano, e, mais tarde, receberia o título de Augusto, o primeiro imperador romano.

Segundo sabemos, e nos confirma Tácito, era costume das famílias romanas deixar os cuidados com a criança e a educação infantil dos filhos a cargo da mãe e o grande historiador cita, como um dos melhores exemplos dos benefícios dessa prática, a criação de César por Aurélia. Ainda segundo Tácito (que nesta passagem pretende criticar as famílias da sua época, o final do século I D.C, quando os filhos da nobreza eram desde o nascimento cuidados somente por escravas e tutores), César, como os demais “filhos-família” de seu tempo, estudava em casa, supervisionado e dirigido pela mãe, que determinava não apenas os estudos e ocupações da criança, mas também suas brincadeiras e jogos, O normal é que esse papel preponderante da mãe durasse até os oito anos de vida, quando a tarefa passava para o pai.

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É bem possível que Aurélia tenha cuidado quase que sozinha da educação do filho, pois os relatos apontam que o pai de César deve ter ficado fora por um tempo considerável, principalmente após ele ter sido nomeado Procônsul na Ásia.

Assim, provavelmente foi Aurélia que contratou o grande gramático e professor de retórica, Marcus Antonius Gnipho (Gnifo) para ser tutor do menino César. Gnifo era um gaulês que foi abandonado pelos pais no nascimento e, depois de ganhar a liberdade, estudou em Alexandria, tendo grande conhecimento de latim e grego. Após trabalhar na casa de César, Gnifo fundou uma famosa escola que, posteriormente, como prova da excelência do tutor, chegou a ser frequentada pelo maior orador romano, Cícero, quando este foi Pretor, em 66 A.C. (época em que César então já tinha mais de 30 anos).

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Sabemos, devido a Suetônio, que o ensino esmerado que César recebeu de Gnifo fez nascer no primeiro, já na adolescência, o amor pelas letras. César teria, ainda menino, composto um texto chamado de “Louvores a Hércules”, uma tragédia com o título de “Édipo” e uma “Coleção de Apotegmas” (Aforismos).

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César também escreveu alguns poemas, mas, de acordo com a observação sarcástica de Tácito, felizmente eles não chegaram a ser lidos por muitos.

Não descurando do famoso ditado romano, “mens sana in corpore sano”, César também se empenhava nas atividades físicas. Ele aprendeu a montar e se tornou, desde menino, um grande cavaleiro. Tudo indica que, de fato, ele provavelmente deve ter sido muito incentivado a se exercitar. Com efeito, sabemos que César, mesmo em sua maturidade, era um grande nadador, capaz de verdadeiras proezas, como, por exemplo, constatamos que ocorreu ao ser cercado em Alexandria, quando ele pulou na água e nadou com apenas uma das mãos, segurando em outra papiros valiosos. Portanto, essa prática deve ter começado já em sua infância ou adolescência, quando César também começou a aprender a manejar as armas romanas mais usadas, nas quais ele era muito hábil, segundo Suetônio e Plutarco.

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4- Adolescência e juventude/Aparência, saúde e costumes de César

Quando Mário voltou para o seu último consulado, seu sobrinho César tinha entre 14 e 15 anos de idade e estava entrando na idade de abandonar a sua “toga praetexta” para vestir a “toga virilis”, cerimônia que marcava para os meninos romanos o fim da infância e o início da idade adulta (não existia, por assim dizer, adolescência na antiguidade; isso, aliás é uma criação contemporânea, a partir do segundo quarto do século XX). Quem decidia tal momento era o pai da criança (pater familiae), que, segundo o costume, podia retardar a referida cerimônia até os 16 anos.

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Não sabemos a data exata em que César vestiu a “toga virilis” e virou adulto, e nem sequer sabemos se isto foi por vontade do seu pai, uma vez que, em 85 A.C., Gaius Julius Caesar (III) morreu subitamente, em Roma, quando se abaixava para calçar suas sandálias.

Curiosamente, Plínio, o Velho, que é quem nos conta como o pai de César morreu, escreveu também que um outro “César”, ex-pretor (muito provavelmente o avô de Júlio César), morreu exatamente da mesma forma, em Pisa.

Como depois veremos, é muito provável que ambos sofressem de uma doença hereditária, talvez um aneurisma ou tumor cerebral, o que explicaria os vários episódios de ataques e desmaios de César que foram considerados, pelos autores antigos, como uma manifestação de epilepsia.

Aos 16 anos, já adulto e órfão de pai, César tornou-se, assim, formalmente, não apenas o chefe da sua família nuclear, constituída dele, da mãe Aurélia e das irmãs, e de todo o patrimônio herdado do pai como primogênito, mas também de toda a família dos “Júlio Césares”, já que seu tio, Sextus Julius Caesar (III) também já havia anteriormente morrido de doença, quando comandava o cerco à cidade de Asculum, em 89 A.C.

No ano seguinte, 84 A.C., sendo Lúcio Cornélio Cina ainda Cônsul, e, portanto, estando os integrantes da facção dos Populares no poder, César foi nomeado “flamen dialis”, ou seja, um dos quinze sacerdotes de Júpiter, que era uma posição de muito prestígio para os jovens.

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(Relevo romano mostrando uma procissão dos flamen dialis, com o seu característico chapéu, chamado apex)

Naquele mesmo ano, conta Suetônio, César rompeu seu compromisso com Cossutia, uma jovem da classe equestre que lhe tinha sido arranjada por seu pai ainda na infância e que era de família muito rica. Não se tem certeza se o casamento de César com Cossutia chegou realmente a se consumar, ou se apenas houve o rompimento de uma promessa de casamento celebrada por seu pai.

Não obstante, essa menção de Suetônio à união ou compromisso de César com Cossutia é muito relevante para confirmar um fato: Quando César nasceu, e durante a sua infância, a situação financeira do seu pai devia ser mesmo muito ruim, pois sendo César neto e bisneto de Cônsules e pertencendo a uma das famílias mais tradicionais da nobreza romana, o casamento dele com uma integrante da classe equestre representava uma diminuição do prestígio de seu pai, o que somente pode ser explicado pela necessidade do dinheiro que adviria do dote da rica Cossutia

Não deve haver todavia, muitas dúvidas sobre o motivo do fim da ligação de César com Cossutia: Ele decidiu se casar com Cornélia, filha do Cônsul de Roma, Lúcio Cornélio Cina, o chefe da facção dos Populares, da qual os “Júlio Césares” eram integrantes. Assim, claramente, César demonstrava ter ambições muito maiores do que as preocupações financeiras do seu pai…

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Mas o futuro do jovem César, que parecia radiante e promissor, ficou completamente nublado quando, como já vimos, o Cônsul Cina, seu sogro, mais ou menos na mesma época de seu casamento com Cornélia, em 84 A.C., foi morto em um motim do exército que ele reuniu para ir para a Ilíria para interceptar Sila, que havia obtido uma trégua com Mitridates.

Quando soube da morte de Cina, após estabilizar a situação no Oriente, Sila partiu para a Itália, conseguindo derrotar o exército dos partidários de Cina e dos Populares na Batalha de Porta Collina, em novembro de 82 A.C. Sila, imediatamente, assumiu o governo, sendo nomeado Ditador, e desencadeou uma grande perseguição aos simpatizantes de Mário e aos Populares, chegando a executar 1.500 nobres e 9 mil pessoas no total, além de exilar outros tantos.

Um dos que tiveram que fugir para preservar a vida, apesar de ser apenas um rapaz de 17 anos,  foi o próprio Júlio César. Nesse momento, Aurélia, a mãe de César, cuja família era ligada às Virgens Vestais, sacerdotisas da deusa Vesta, conseguiu que elas, em caravana, a acompanhassem para apelar a Sila que poupasse a vida do filho. Sila, enfim, cansado de ouvir as súplicas de tantas mulheres ilustres, desistiu de mandar matar o jovem. Porém, tendo em vista que César era casado com a filha de seu grande inimigo Cina, o implacável Ditador exigiu que César se divorciasse de Cornélia.

Para a surpresa geral, inclusive dos autores antigos, César recusou a exigência de Sila e decidiu continuar casado com Cornélia. Furioso, Sila demitiu César do posto de sacerdote de Júpiter (flamen dialis), decretou a perda da herança paterna de César e a perda do dote de Cornélia. Consta que, dessa vez a muito custo, Sila foi novamente demovido da idéia de executar César, sem deixar, entretanto, de fazer a famosa advertência aos que advogavam pela vida do rapaz:

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Em outra alusão à César, consta que Sila costuma também advertir os senadores para que eles “desconfiassem do rapaz mal cingido”, devido ao gosto que César de usar um cinto frouxo na cintura.

Esse episódio evidencia uma das facetas da personalidade de César: a sua extrema preocupação com a sua aparência,  ainda desde bem jovem, o que mostrava ser ele muito vaidoso.

Com efeito, César, em seu tempo, pode ser comparado ao que, no século XIX, chamava-se de “dândi”: um jovem aristocrata ou burguês sofisticado, que gostava de se vestir com roupas caras, perfumar-se e enfeitar-se com penteados, tudo de forma um tanto extravagante, um rapaz que hoje também poderia ser classificado como um “It boy”.

Suetônio nos transmitiu a seguinte descrição de César:

Afirma-se que César era alto, de pele clara, com membros bem proporcionados, rosto algo redondo, olhos negros de olhar penetrante, e tinha boa resistência física, ainda que, no final de sua vida, ele tenha sido acometido por desmaios repentinos e pesadelos noturnos que lhe perturbavam o sono. Experimentou também duas vezes ataques de epilepsia, enquanto desempenhava suas funções públicas. Dava muita importância ao cuidado do seu corpo e não satisfeito em ter o cabelo cortado e ser barbeado com frequência, ainda se fazia depilar, mesmo sendo criticado, e não suportava pacientemente a calvície, que, mais de uma vez, o deixou exposto a gozações de seus inimigos. Por este motivo, ele penteava para frente o cabelo ralo da parte posterior; e por isso, de tantas honrarias que lhe foram concedidas pelo Senado, nenhuma lhe agradou mais do que a de usar constantemente uma coroa de louros. Preocupava-se também com a sua roupa; ele usava uma túnica laticlava guarnecida de mangas, que lhe chegavam até as mãos, e colocava sempre sobre esse traje um cinto bem frouxo. Sobre esse costume, Sila costumava dizer, dirigindo-se aos nobres: “Desconfiem desse rapaz tão mal cingido.”

Cícero, mais tarde, também, implicaria com a vaidade de César, como se viu em um discurso no Senado, que assim foi preservado:

Quando eu considero essa cabeleira tão bem penteada e tão esquisitamente cheia de adereços, e o vejo coçar a cabeça, apenas com a ponta de um dedo, eu imagino o contrário, que tal homem jamais poderia ter imaginado um infeliz empreendimento como o de querer destruir toda a República Romana”.

A descrição que Plutarco faz de César prende-se mais à descrição de algumas características físicas, saúde, dieta e preocupação com a forma física:

“Ele era magro, de pele macia e clara; era sujeito a dores de cabeça e, às vezes, era atacado de epilepsia, que contraíra, pela primeira vez, conta-se, em Córdoba, cidade da Espanha; mas ele não usou a sua saúde frágil como desculpa para uma vida preguiçosa, mas, ao contrário, usou o serviço militar como um remédio para ela, uma vez que, mediante longas caminhadas, dieta sóbria, frequente sono ao relento e aguentando o cansaço, ele lutou contra a sua enfermidade e tornou o seu corpo resistente aos ataques dela”.

Não existem imagens sobreviventes de César na infância ou juventude. Dos bustos que restaram, quase todos foram produzidos após a sua morte, quando ele já tinha mais de 50 anos.

Os especialistas de fato acham que o único retrato produzido em vida foi o chamado Retrato de Túsculo, um busto de mármore, que seria cópia de um original em bronze, achado nesta cidade italiana e que se acredita ter sido produzido por volta de 45 A.C. ( E, possivelmente, uma cabeça de estátua encontrada em 2007, no Rio Ródano, na França).

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( O Retrato de Túsculo, considerado o único busto existente de César feito em vida)

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(Os especialistas concordam que as efígies de César nas moedas cunhadas durante o seu governo devem ser as imagens mais fiéis à sua verdadeira aparência)
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(Esta cabeça foi descoberta no fundo do Rio Ródano, em 2007, e, segundo uma tese, é um retrato de César, feito ainda durante a vida do Ditador)

Com relação à saúde de César, tanto Suetônio quanto Plutarco afirmam que os ataques de desmaios dos quais ele sofria, tradicionalmente descritos como epiléticos, apareceram na idade madura, provavelmente a partir dos 50 anos de idade, ou seja, nos últimos anos da vida de César, como diz Suetônio. Segundo Plutarco, os primeiros desmaios teriam aparecido durante o cerco à Córdoba. Esta cidade, quando mencionada na vida de César, aparece relacionada à Batalha de Munda, em 45 A.C., na guerra civil contra os partidários de Pompeu e do Senado (época em que César tinha cerca de 55 anos de idade), muito embora o próprio Plutarco relate um episódio ocorrido na Batalha de Thapsus, um ano antes.

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De qualquer modo, esses relatos parecem afastar que a causa seja uma epilepsia congênita ou adquirida na juventude, ou, ainda, alguma doença infecciosa. Caso se tratassem mesmo de ataques epiléticos, então eles  possivelmente teriam sido causados por traumas, tumores ou condições extremas enfrentadas durante a idade madura de César.

Não devemos ignorar que o pai e o avô de César faleceram subitamente na idade madura enquanto calçavam suas sandálias, algo que requer um certo esforço e posição que, sem dúvida, podem contribuir para um derrame ou AVC, decorrentes de uma predisposição hereditária a ter aneurismas cerebrais, que pode ter sido transmitida a César.

Seja como for, vários autores antigos comentam que César tinha um intelecto privilegiado, valendo citar as menções feitas por Cícero, em sua oração Filípicas, contra Marco Antônio, e, especialmente, a afirmação de Plínio, o Velho, que, ao tratar da memória do ser humano, em seu tratado “História Natural”, citou César como exemplo extraordinário de capacidade da mente:

O exemplo mais impressionante de vigor mental inato eu considero ser do Ditador César; e eu não estou cogitando de valor ou resolução, mas de vigor nativo e rapidez alada como se estivesse propelida pelo fogo. Conta-se que ele costumava escrever ou ler, ditar ou ouvir simultaneamente, e ditar de uma vez, quatro cartas para os seus secretários acerca de assuntos importantes – ou, se não estivesse ocupado com outras coisas, sete cartas de uma vez”.

De fato, a memória excepcional de César lhe seria muito útil na sua carreira política e militar. Por exemplo, ele, em várias ocasiões, costumava se lembrar imediatamente do nome dos eleitores mais humildes e de simples soldados que havia brevemente conhecido décadas antes, e estes, obviamente, ficavam lisonjeados com o fato.

Sobretudo, o seu raciocínio rápido fazia com que César não vacilasse em decidir e executar imediatamente um plano para qualquer circunstância espinhosa que se apresentasse, como ocorreu centenas de vezes durante a sua carreira, notadamente na Guerra das Gálias e na Guerra Civil, antecipando-se sempre a seus inimigos, que, quase sempre, eram pegos de surpresa pelas suas ações.

A frugalidade da dieta de César também chamou a atenção de vários historiadores antigos, como é o caso de Veleio Patérculo, que narrou que:

César comia muito pouco e sempre comidas triviais. Gostava de pão recheado, de pescados pequenos, queijos feitos à mão e de figos frescos, da espécie que dá frutos duas vezes por ano; que ele beliscava antes da hora tradicional das refeições, em qualquer hora e lugar, segundo as necessidades do seu estômago”.

Veleio Patérculo narra, ainda, que César uma vez escreveu: Comi na carruagem pão e passas” e, em outra carta: “Ao voltar do palácio de Numa para minha casa, comi em uma liteira uma onça de pão (cerca de 30 g) e algumas passas.

Em outra carta, dirigida a um certo Tibério, César escreveu:

Não existe judeu que respeite com maior rigor o jejum do que eu observei hoje: até a primeira hora da noite não comi senão duas porções no banho, antes que me perfumassem”.

Patérculo conta, ainda, que César somente comia de acordo com o seu apetite: às vezes jantando sozinho, antes ou depois de seus convidados, permanecendo durante os banquetes sem provar nada.

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Quanto à bebida, César também era moderado. De fato, sobre isso, Suetônio escreveu:

“Que ele bebia pouquíssimo vinho, nem mesmo os seus inimigos contestam: Há o dito de Marco Catão de queCésar foi o único homem que tentou derrubar a República enquanto estava sóbrio”.

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Após a retaliação de Sila, as fontes narram que César achou mais prudente fugir de Roma, valendo-se de um disfarce, e tendo que subornar o líder dos soldados de Sila, chamado Cornélio, pela quantia considerável de 2 talentos, não precisando se eram de ouro ou prata. Nesta fuga, Suetônio conta que César chegou a ser acometido de uma “febre quartã”, termo que na antiguidade se referia a uma febre que durava quatro dias. Provavelmente, isso foi apenas um resfriado ou virose, facilitados pelo estado de stress e pelo cansaço decorrente de uma súbita viagem desconfortável (há, contudo, quem defenda que essa febre era efeito de malária e que essa doença mais tarde explicaria os ataques, supostamente epiléticos, de César).

Plutarco narra que após fugir de Roma, César ficou escondido no antigo território dos Sabinos, não muito longe de Roma.

5- Auto-exílio e início da carreira militar

César, então achou mais prudente afastar-se para valer de Roma e procurar alguma colocação nas colônias, já que, ao menos formalmente, ele havia sido perdoado por Sila das Proscrições de 82 A.C. Talvez, na minha opinião, o suborno de 2 talentos,  anteriormente referido como tendo sido feito por César ao líder dos soldados de Sila, Cornélio, para permitir que ele fugisse de Roma, refira-se, na verdade, ao valor pago por César para não ser incluído na lista dos proscritos, já que sabemos que a execução das Proscrições de 82 A.C. ficou a cargo do liberto de Sila, Lucius Cornelius Chrisogonus…(Nota: um talento de ouro equivale a cerca de 70 libras de ouro, e hoje isso valeria mais de 1 milhão de dólares; já um talento de prata valeria hoje cerca de 22 mil dólares – assim, dois talentos de ouro, ou mesmo, de prata, parece ser uma soma muito grande para  subornar um simples líder de um bando de soldados para ele fazer vista grossa para um fugitivo, porém, não para se obter um favor legal do braço direito de um Ditador…)

Isso explicaria como foi possível que César, pouco depois de sua saída de Roma, conseguisse se alistar nas tropas sob o comando do Pró-Pretor romano para a Província da Ásia, Marcus Minucius Thermus, que, logicamente, não se arriscaria a alistar um fugitivo desafeto de Sila

Servindo sob o comando de Thermus, César se destacou no cerco à cidade grega de Mitilene, que havia se rebelado contra Roma. Nesse cerco, ocorrido em 81 A.C., César, que então tinha, apenas, entre 18 e 19 anos de idade, destacou-se nas operações de assalto às muralhas da cidade sitiada, quando chegou a salvar a vida de um colega, razão pela qual ele foi condecorado com a prestigiosa “Coroa Cívica”, honraria concedida àqueles que salvassem a vida de um cidadão romano em batalha.

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Logo depois, no ano seguinte, Thermus encarregou o seu jovem comandado, César, de ser o emissário que levaria ao rei aliado Nicomedes IV, da Bitínia, um pedido para que este monarca contribuísse com navios e recursos para a Guerra Contra os Piratas que infestavam a região.

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O rei Nicomedes tinha sido obrigado a se asilar em Roma, em 88 A.C., durante a guerra que lhe moveu o rei Mitridates VI, grande inimigo de Roma. Após Mitridates pedir a trégua aos romanos, Nicomedes voltou para assumir o seu reino na Bitínia, em 84 A.C.

6- Sexualidade de César

As fontes não contam se, no período que passou em Roma, Nicomedes chegou a conhecer o jovem César, mas isso não seria impossível, já que César assumiu o posto de sacerdote de Júpiter em 84 A.C., e ambos podem ter se conhecido em alguma cerimônia pública, da qual ambos participaram.

Nicomedes era famoso por ter inclinação sexual por jovens rapazes, dos quais ele se fazia rodear em sua corte na cidade de Nicomédia.

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As fontes contam que César ficou um tempo considerável na Bitínia, talvez mais do que fosse esperado, e foi admitido no círculo mais íntimo da Corte de Nicomedes. E, certa vez, em um banquete no Palácio, segundo os autores antigos, César teria aparecido publicamente como parte da “entourage” de jovens rapazes que rodeavam a mesa real, servindo o rei como copeiros.

Quando, posteriormente, o fato se tornou conhecido em Roma, César foi muito criticado por esse fato, e, pelo resto da vida, jamais se livraria das insinuações, ironias e acusações diretas de seus inimigos políticos, e até de piadas do povo em geral, de que ele tivesse sido um dos amantes de Nicomedes. O tom dos ataques e pilhérias era sempre depreciativo, pois, naqueles tempos, considerava-se humilhante para o homem livre romano praticar sexo com outro homem na condição de sujeito passivo da relação sexual.

Tirando esse episódio, que seus antagonistas políticos fizeram questão de perpetuar para a posteridade (Cícero, especialmente,  que era famoso pela língua ferina, comprazia-se em relembrar o episódio em discursos no Senado), todos os demais relatos da vida sexual de César o mostram como sendo um contumaz mulherengo (womanizer), daquele tipo que não podia ver “um rabo de saia”.

Suetônio, historiador romano que por vezes mais parece um colunista de revista de fofocas, relaciona várias amantes de César, além de suas esposas legítimas Cornélia, Pompéia e Calpúrnia, nas três passagens abaixo:

Que César era desenfreado e extravagante em seus casos amorosos é a opinião geral, e ele seduziu muitas mulheres ilustres, entre elas Postumia, esposa de Servius Sulpicius, Lollia, esposa de Aulus Gabinius, Tertulla, esposa de Marcus Crassus, e até mesmo a esposa de Pompeu, Mucia. (…) Mas, acima de todas, César amou Servília, a mãe de Marcus Brutus, para quem, em seu sexto Consulado, ele comprou uma pérola no valor de seis milhões de sestércios. Durante a Guerra Civil também, junto com outros presentes, ele adquiriu alguns ótimos imóveis em um leilão público pelo preço estipulado e, quando alguns expressaram surpresa pelo pequeno valor pago, Cícero espirituosamente comentou: “é um negócio ainda melhor do que você pensa, pois é ainda uma terça parte menor do que isso…” e de fato acreditava-se que Servília estaria prostituindo a sua própria filha, Tertia, para César”.

(…)

“E que ele não se abstinha de casos amorosos nas províncias é evidenciado em particular por esse coro, que também era cantado pelos soldados em seu Triunfo da Gália: “ Homens de Roma, aqui vem um adúltero careca, mantenham suas esposas trancadas!; Você gastou na Gália em namoros, as bolsas de ouro que em Roma pegou emprestadas! ”.

(…)

“Ele também teve casos com rainhas, incluindo Eunoe, a Moura, esposa de Bogudes, para quem ele deu vários presentes esplêndidos, como escreve Naso; mas acima de todas com Cléopatra, com quem ele frequentemente festejava até o amanhecer e com quem ele teria ido, através do Egito, na sua barcaça real até a Etiópia, se os seus soldados não tivessem se recusado a segui-lo. No final, ele a chamou para Roma e não deixou-a ir até que ele a enchesse de honras e ricos presentes, e ele permitiu que ela desse o nome dele à criança que ela concebeu. De fato, de acordo com certos autores gregos, esta criança parecia muito com César, fisicamente e no jeito de andar. Marco Antônio declarou ao Senado que César tinha realmente reconhecido o menino e que Gaius Matius, Gaius Oppius e outros amigos de César sabiam disso”.

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É verdade que Marco Antônio, após a morte de César, quando disputou a primazia política em Roma com Otaviano, o sobrinho-neto e filho adotivo nomeado pelo Ditador como sucessor em seu testamento, acusou o rival de prestar favores sexuais ao tio, enquanto ainda adolescente. Esta acusação certamente tinha o objetivo de desmoralizar Otaviano, pois, de acordo com a moral da época helenística, paulatinamente adotada pelas classes altas romanas, o adulto mais velho (“erastes”), que no caso seria César, assumia a condição de ativo em um relacionamento com um adolescente (“eromenos”) não tinha a sua masculinidade comprometida.

Tudo indica, porém, que esse ataque de Antônio não tinha nenhum fundamento, tendo o mero intuito de difamar Otaviano, pois esta acusação só foi feito muito tempo depois da morte de César, e não encontrou respaldo em nenhuma outra fonte que não fosse o próprio Antônio. O mesmo pode ser dito no que se refere ao alegado reconhecimento de Cesarion.

Desse modo, pensamos que a inclinação de César era heterossexual, sendo que o episódio com Nicomedes IV na Bitínia pode ter alguma dessas  três  explicações:

a) uma aleivosia inventada pelos seus políticos rivais Optimates, já que desde a juventude, César identificava-se com a facção dos Populares, com o objetivo de desmoralizar o jovem político, que, ademais, era conhecido pelo excesso de vaidade no vestir, o que poderia ter lhe granjeado a fama, de acordo com os preconceitos de todas as épocas, de afeminado, mentira que, ainda, obteve credibilidade devido ao fato de Nicomedes ser notório pederasta; b) César, efetivamente, chegou a ter relações sexuais com o rei, para obter dele algum favor, seja a cessão da frota de Nicomedes, ou alguma vantagem financeira, sem que ele tivesse, de fato, inclinações homossexuais; ou c) César seria, efetivamente, bissexual (neste último caso, procederia o famoso comentário de seu inimigo político Gaio Escribônio Curião, de que César seria “o marido de todas as mulheres e a mulher de todos os maridos”).

7- Morte de Sila e cativeiro em Pharmacusa

Na Ásia, César, agora, estava servindo sob as ordens de Publius Servilius Isauricus, um correligionário de Sila, que havia sido apontado como cônsul no ano anterior e, em 78 A.C., estava comandando a Guerra Contra os Piratas, os quais infestavam a costa da Cilícia, na qualidade de Procônsul.

Enquanto servia na Cilícia, ocorreu um episódio que contribuiu para a fama de César como homem de temperamento inquebrantável: O barco que o levava foi interceptado por piratas, próximo à ilha de Pharmacusa ((atual Farmakonisi, um território grego na costa da Turquia) e ele foi feito refém.

César, durante o cativeiro, mostrou-se altivo e zombeteiro, chegando a exigir que os piratas elevassem o preço do seu resgate de 20 para 50 talentos de prata, para que o mesmo estivesse de acordo com a importância da sua pessoa, e, ainda, prometendo crucificá-los depois que eles o libertassem. E, de fato, assim que foi libertado, após 38 dias de cativeiro, com o pagamento do resgate, César, valendo-se de recursos próprios, armou uma pequena frota, perseguiu, capturou e, cumprindo a sua promessa, crucificou os piratas. Porém, como sinal de sua compaixão, que mais tarde se tornaria célebre, César ordenou que eles fossem degolados, antes de serem colocados na cruz, para que não sofressem as agruras daquela terrível forma de execução.

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Não sabemos quanto tempo durou essa perseguição aos piratas, que, penso eu, pode ter ocorrido como parte da campanha de Servilius Isauricus e não, exclusivamente, da sua iniciativa individual, como contam Plutarco, Suetônio e Veleio Patérculo.

Durante a sua ditadura, Sila decretou a restauração dos privilégios do Senado e a restrição do poder legislativo dos Comícios e dos Tribunos da Plebe, que foram transformados praticamente em defensores públicos dos indivíduos de condição humilde. Ele também regulamentou o cursus honorum e o número das magistraturas, aumentando em consequência o número de senadores de 300 para 600, com a finalidade de cimentar a coesão da elite e proporcionar que o Senado pudesse executar mais funções. Ele também declarou Mário, “Inimigo do Estado“, e mandou banir quaisquer referências à sua memória.

Todavia, para a surpresa geral, acreditando ter restaurado o poder do Senado, Sila decidiu voluntariamente se retirar da vida pública e voltar para suas propriedades em 81 A.C., falecendo, provavelmente de cirrose ou úlcera gástrica, em 78 A.C.

Quando Sila morreu, César ainda estava na Cilícia, e, com a morte do Ditador e algoz da facção dos Populares, ele sentiu-se seguro para voltar à Roma. Segundo Suetônio, o retorno de César também foi estimulado pelo fato do cônsul para o ano de 78 A.C., Marco Emílio Lépido (pai do Triúnviro de mesmo nome), após a morte de Sila, ter tomado uma série de medidas revertendo as leis do Ditador, bem como adotando outras em favor da causa dos Populares.

Aliás, a cronologia desses eventos é confusa, entre Suetônio e Plutarco. De acordo com a “Vida de César”, de Suetônio, César retornou a Roma e tornou-se acusador público, como  uma espécie de promotor, destacando-se na acusação ao político Dolabela, partindo, depois, para Rodes para estudar, sendo, então, capturado pelos piratas. Já Plutarco adota a narrativa mais próxima a que fazemos neste texto, colocando a chegada de César à Roma posteriormente à sua captura pelos piratas da Cilícia, sendo que, antes de voltar à Cidade, ele foi estudar em Rodes.

Entretanto, a narrativa de Suetônio é mais plausível geograficamente, já que uma rota marítima de Roma para Rodes, beirando a costa, que é como os antigos costumavam navegar, passaria antes por Pharmacusa, onde o navio de César foi interceptado. Os textos contam que os barcos utilizados pelos piratas eram pequenos e, portanto, o grupo que capturou César não devia ser muito grande. Logo, não é impossível que a versão de Suetônio seja a correta, colocando o episódio no contexto da viagem particular de César para Rodes, após sua volta para Roma e atuação como acusador de Dolabela. Em qualquer caso, estaria ao alcance de César, após a sua soltura, armar alguns barcos e liderar uma pequena expedição particular para capturar e punir os piratas.

8- Término de sua formação em Rodes, volta à Roma e atuação como “Promotor Público”

Feita essa pequena digressão, nos parece mais plausível que a atuação de César na acusação contra Dolabela, a qual lhe granjeou fama pela eloquência apurada, tenha ocorrido após o aprofundado estudo da arte da retórica em Rodes, onde aprimorou suas habilidades de oratória e argumentação para uso nos tribunais romanos.

Em Rodes, César foi estudar com Apolônio Molon, um célebre retórico que também foi professor daquele que é considerado o maior orador romano de todos os tempos, Marco Túlio Cícero (Cícero era seis anos mais velho do que César e ambos parecem ter, algumas vezes, compartilhado os mesmos mestres, como Gnifo eApolônio).

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Concluídos os seus estudos, César finalmente regressou à Roma, atendendo ao insistente chamado dos amigos, que estavam estimulados pela morte de Sila e a consequente melhoria das perspectivas políticas para os partidários dos Populares.

Seus dons e a sua recém-adquirida formação conduziram naturalmente César para o exercício do cargo de acusador público. Não havia, entre os romanos, a figura do Promotor Público, como funcionário do Estado encarregado da acusação. Assim, eram advogados privados especializados que exerciam a tarefa de acusar as pessoas suspeitas de crimes perante o tribunal. Essa era uma função que dava muito prestígio popular, já que os julgamentos contra pessoas importantes eram públicos, realizados no Fórum Romano, os quais atraíam multidões para assisti-los.

César resolveu fazer, por volta do ano 77 A.C., a acusação pública de Gnaeus Cornelius Dolabella (Dolabela), um partidário de Sila que havia sido Cônsul, em 81 A.C., que, durante o seu governo como Procônsul da Macedônia, entre 80 A.C. e 78 A.C., foi acusado de extorsão contra os provinciais e de malversação de fundos.

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Dolabela acabou sendo absolvido, mas o libelo acusatório de César foi aclamado como uma brilhante peça de oratória. Outras cidades gregas resolveram contratar César para acusar outros governantes romanos corruptos e, pouco a pouco, César foi ficando famoso entre o público romano, pela eloquência e pela sua empostação de voz, de tom agudo, bem como o seu gestual elaborado nos tribunais.

Cícero, ao discorrer sobre os oradores romanos, disse não ver nenhum para quem César tivesse que abrir mão do troféu de melhor orador, afirmando que “o estilo dele era ao mesmo tempo elegante e transparente, grandioso e, de certo modo, nobre”. E Cícero, que foi considerado o maior orador romano também escreveu assim, sobre César, em uma carta a Cornélio Nepos:

“Agora, que orador você classificaria à frente dele, daqueles que não devotaram sua vida a outra atividade? Quem tem epigramas mais inteligentes ou frequentes? Quem é mais descritivo, ou mais seletivo em sua fala?”

9- Ingresso na política e vida familiar: o César pai e esposo e o seu Estilo de Vida

Agora César já tinha se tornado conhecido pelo povo de Roma, não só pela brilhante oratória, mas também pelo estilo de vida glamuroso, evidenciado pelas roupas elegantes e, sobretudo, pelo jeito afetuoso de tratar os possíveis eleitores e, não menos ainda, pela generosidade nos presentes e banquetes que ele frequentemente oferecia. Assim, ele resolveu concorrer, e foi eleito, para o seu primeiro cargo público, o de Tribuno Militar. Esse cargo, após as reformas militares de Mário, representava o primeiro passo na carreira das magistraturas da República Romana (cursus honorum), sendo elegíveis jovens da nobreza romana.

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Por volta de 76 A.C., Cornélia, a jovem esposa de César, que tinha apenas 21 anos, deu à luz a primeira filha, que seria a sua única descendente oficialmente reconhecidauma menina que recebeu o nome de Júlia.

A menina cresceria e, futuramente, se tornaria uma mulher linda e, tudo indica, de personalidade encantadora, e muito devotada ao pai. Ela não hesitaria em se casar, em 59 A.C., quando tinha apenas 17 anos, com Pompeu, então 30 anos mais velho, em obediência às conveniências políticas do pai. Porém, apesar disso, as fontes relatam que esta foi uma união bem-sucedida, e que ambos se amavam. As delícias de um casamento feliz teriam até afastado Pompeu da política.

Quando Júlia morreu, devido a complicações no parto de seu primeiro filho (ou filha, não se tem certeza), o viúvo, Pompeu, e o pai  ela, César, publicamente deram demonstrações de sua tristeza. (Nota: É possível que, antes de se casar com Pompeu, Júlia estivesse prometida a Marco Júnio Bruto (que passou a usar o nome de Quintus Servilius Caepio, após ser adotado por seu tio, de mesmo nome) e quem, ironicamente, seria, muitos anos mais tarde, o líder da conspiração que assassinaria o pai dela).

Após o nascimento de Júlia, César, no exercício do cargo de Tribuno, teria, por volta de 73 A.C, segundo Veléio Patérculo, diligenciado para que fosse votada a Lex Plautia, uma lei que visava anistiar os romanos que tinham sido exilados por Sila (outros autores mencionam que isso teria ocorrido mais tarde).

Em 69 A.C., ano em que vários eventos significativos em sua vida ocorreriam, César concorreu e venceu a eleição para o importante cargo de Questor, que era um cargo com atribuições judiciárias e militares. Nessa eleição, ficou evidenciado que ele não costumava medir gastos para cair nas boas graças dos eleitores.

Eleito César Questor, em 69 A.C., em seguida,  morreram naquele mesmo ano, praticamente ao mesmo tempo, a sua esposa Cornélia e a sua tia Júlia, viúva do Ditador Mário, o grande campeão da causa dos Populares e a quem a sua família devia o retorno aos altos escalões da política romana.

César aproveitou a oportunidade para fazer do velório público das duas mulheres um ato político combinado com uma manifestação de veneração pela esposa, esta um fato pouco comum em uma sociedade patriarcal e machista como a romana.

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A procissão e os discursos que acompanharam o funeral ocorreram nos “Rostra” – o célebre palanque público situado no coração do Fórum Romano, adornado com os esporões dos navios inimigos capturados em batalha (“rostrum”).

Apesar de Mário haver sido declarado “Inimigo Público” por seu inimigo e sucessor, Sila, estando proibida qualquer alusão pública à sua memória, César mandou que a efígie de cera do marido de sua falecida tia integrasse a procissão fúnebre dela. Era, evidentemente, uma declaração política de apoio à causa dos Populares, o que muito irritou os Optimates (facção aristocrática do Senado), mas, talvez,  tão desafiadora quanto isso tenha sido a apologia que ele fez à própria família. Suetônio preservou uma parte do discurso laudatório de César à sua tia Júlia:

“A família de minha tia Júlia descende, por parte de mãe, dos reis e, por parte de pai, é aparentada com os deuses imortais; pois os Márcios recuam até Anco Márcio (rei mítico de Roma), e os Júlios, dos quais nossa família é um ramo, até Vênus. Nosso sangue, consequentemente, tem ao mesmo tempo a santidade dos reis, cujo poder é supremo entre os mortais, e o direito à reverência que se prende aos deuses, que reinam sobre os próprios reis”.

A multidão que acompanhou o cortejo aplaudiu entusiasticamente o discurso, e recebeu com simpatia a oração e as preces do viúvo César pela falecida Cornélia, apesar de não ser costume fazer discursos fúnebres em homenagem a mulheres jovens, sendo que, segundo as fontes, César foi a primeira pessoa importante a fazer isso, o que lhe granjeou a fama de homem sensível e de bom coração.

Assumindo as funções de Questor, César, ainda no ano de 69 A.C., acompanhou Gaius Anstitius Vetus à Hispânia, Província para a qual este havia sido nomeado Pró-pretor.

Voltando para Roma, ainda viúvo, César, por volta do ano 67 A.C., casou-se pela segunda vez, escolhendo como sua nova esposa, Pompéia, filha de Quintus Pompeius Rufus e de Cornélia Sila, filha mais velha do finado Ditador Sila. Vale notar que o pai de Pompéia havia sido morto pelos partidários de Mário, em um tumulto, no ano de 88 A.C.

Não há como negar que o casamento de César com a neta de Sila foi também um ato político que visava a uma conciliação com os Optimates e melhorar a aceitação do jovem César, que era um herdeiro político presuntivo de Mário, pela facção dos aristocratas.

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Se o casamento efetivamente rendeu algum resultado político proveitoso para César é difícil saber. O fato é que, em 65 A.C. ele conseguiu ser eleito, sucessivamente, Curador da Via Ápia e Edil Curul, dois cargos importantes que lhe permitiram administrar verbas públicas, realizar obras e, no caso do último, oferecer espetáculos ao povo.

Como Curador da Via Ápia (“curator”), César mandou fazer vários reparos e embelezamentos nesta importante estrada, pagando-os de seu próprio bolso.

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Já no exercício da edilidade, César manteve a consistência de sua adesão à causa dos Populares e determinou a restauração ou reconstrução dos monumentos erguidos em homenagem ao seu tio Mário.

No entanto, o que realmente chamou a atenção e agradou à plebe foi a magnificência dos espetáculos que César bancou como Edil. Plutarco nos conta que ele custeou 320 pares de gladiadores, além de apresentações de teatro, procissões e banquetes públicos, superando todos os seus antecessores, caindo assim nas graças do povo.

De fato, Cássio Dio conta que, durante a edilidade de César, ele apresentou os Jogos Romanos (“Ludi Romani”) e os Jogos Megalenses em uma escala suntuosa. As lutas de gladiadores provavelmente foram oferecidas  por ele em homenagem à memória do falecido pai (esse era um costume etrusco que foi herdado pelos romanos – as lutas, ou jogos funerais, faziam parte das homenagens aos falecidos).

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Plínio, o Velho,  de fato, relata que César, quando Edil, nos jogos funerais que ofereceu em honra do pai, foi a primeira pessoa a apresentar todo o aparato dos gladiadores em prata, sendo também a primeira vez que criminosos enfrentaram animas selvagens, também adornados com prata, na arena, sendo que, mais de um século depois, esta prática continuava a ser imitada até mesmo nas cidades das províncias.

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Toda essa “generosidade” de César, no entanto, começava a agravar um problema inevitável para quem não nascera no seio das famílias mais ricas de Roma…Dívidas!

Com efeito, para poder fazer tudo isto o que ele fazia, em escala poucas vezes vista anteriormente, com o propósito de obter prestígio popular, César teve que pegar dinheiro emprestado. E os cargos públicos exercidos na cidade de Roma, não permitiam, como ocorria nas Províncias, que os seus ocupantes extorquissem o dinheiro dos provinciais via tributos, ficando com uma parte deles para si, renda com a qual contavam para pagar as liberalidades que tinham feito para obter o cargo.  E, mais importante, a acirrada política da Cidade Eterna fazia com que os adversários aproveitassem qualquer irregularidade para processar sem piedade o oponente apanhado em alguma malversação.

Aliás, segundo Plutarco, antes mesmo que César exercesse qualquer cargo público, os débitos dele já alcançavam a estratosférica soma de 1.300 talentos!

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E, para isso, certamente, concorria o estilo de vida glamuroso que César fazia questão de cultivar. Parece-nos que César fazia isso não porque ele não conseguisse viver sem conforto (embora ele apreciasse as coisas belas), mas, sobretudo,  como parte da imagem pública de “superstar” que ele fazia questão de ostentar.

Por exemplo, sabemos que, segundo Suetônio, César, quando ele ainda era  pobre (para os padrões dos grandes de Roma), e endividado, após construir e decorar a casa de campo dele (ou villa), às margens do Lago de Nemi, mandou demolir tudo de uma vez porque ele não gostou de como ela havia ficado depois de pronta.  E, ainda de acordo com o historiador citado, César, quando em campanha, levava em sua bagagem pisos de mármore e de mosaico para forrar seus aposentos!

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Suetônio também conta que César era um colecionador de pedras preciosas, gravuras, estátuas e pinturas de artistas antigos,  sendo, assim, podemos dizer, um apreciador de Arte e de antiguidades. Segundo o historiador, até os escravos dele eram escolhidos entre aqueles de melhor aparência e treinamento.

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Obviamente que o apreço de César pelas coisas belas e valiosas aumentou junto com a sua ascensão aos cargos mais altos da República.

Como exemplo, consta, segundo Plínio, o Velho, que César, quando já era Ditador, comprou duas pinturas, “Medéia” e “Ajax”, do pintor Timomachus, por 80 talentos, para colocá-las no Templo de Vênus Genitrix, que ele construiu para honrar a divindade de quem a sua família reivindicava descendência.

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E também que, para os seus banquetes triunfais, César comprou 6 mil peixes da rara espécie Murena. Para esses mesmos banquetes, ele mandou colocar, em cada mesa, uma ânfora dos afamados vinhos Falérnio, Quiano, Lésbio e Mamertino, sendo esta considerada a primeira vez em Roma que quatro tipos diferentes de vinho foram servidos na mesma refeição!

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César também era perfeccionista e detalhista no que se refere as regras de etiqueta então vigentes na sociedade romana, preocupando-se sempre se os eventos que patrocinava atendiam os ditames da arte de bem receber.

10 – Pontifex Maximus e César, o bom filho.

Com a popularidade em alta após o exercício da edilidade, César decidiu concorrer, em 63 A.C, ao posto de Pontifex Maximus (Sumo Pontífice), que era o chefe da religião romana, e, além disso, verificava a legalidade dos casamentos, adoções, enterros e funerais, sucessão testamentária, regulava o calendário e também supervisionava a moralidade pública. Era um cargo tão importante que foi um dos últimos a serem franqueados aos plebeus, sendo, até 254 A.C., exclusivo dos patrícios.

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Consta que, no dia da eleição, segundo Plutarco,  a mãe de César, Aurélia Cota, em lágrimas, acompanhou-o até a porta da casa onde eles moravam na Subura, ocasião em que César, despedindo-se,  beijou a mãe, dizendo-lhe:

“Mãe, hoje tu verás o teu filho Pontífice Máximo… ou um exilado”.

Para a surpresa de muitos, César, apesar de ser bem mais jovem e ilustre do que os dois outros concorrentes, ganhou a eleição, onde também gastou muito dinheiro, razão pela qual disse a frase dramática com a qual se despediu da mãe no dia do pleito (se ele perdesse, teria que se exilar para escapar dos credores). Um dos derrotados era Quinto Lutácio Catulo, chamado de “Capitolino”, porque ele havia cuidado da restauração do Templo de Júpiter Optimus Maximus na colina do Capitólio. Este era um velho partidário de Sila e inimigo dos Populares. Já o principal contribuinte para a campanha de César ao Pontificado foi Marco Licínio Crasso, então o homem mais rico de Roma.

No aspecto privado desse episódio, podemos constatar que César, aos 37 anos, ainda morava junto com Aurélia. Essa cena do dia da eleição para Sumo Pontífice é mais uma das que demonstram a forte ligação entre César e sua mãe. Já vimos, por exemplo, como ela ousadamente fez a defesa do filho junto ao Ditador Sila.

Aurélia Cota morreria, ironicamente, em 31 de julho de 54 A.C (mês do nascimento de César e que, posteriormente, recebeu esse nome em homenagem ao filho dela), na casa em que ambos moravam. Ela então deveria ter cerca de 65 anos de idade.

Assumindo o cargo de Pontífice Máximo, César mudou-se para a Domus Publica, uma habitação destinada aos Sumos Pontífices, que era um venerável ex-palácio dos reis de Roma e que teria sido construído pelo rei Numa Pompílio. A Domus Publica ficava entre a Casa das Virgens Vestais e a Via Sacra, no Fórum Romano.

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(Ruínas da Domus Publica, no Fórum Romano)

Aurélia, após César se casar com Pompéia, foi com eles morar na Domus Publica na Régia e, como sempre havia feito, continuou administrando ali a casa do filho.

A afeição e os laços estreitos que César tinha com a mãe, mesmo depois de já ter uma longa carreira de homem público, também eram manifestados com os parentes e amigos em geral. Com efeito, César, segundo Cássio Dio:

“César possuía uma forte afeição por todos os seus parentes, exceto os mais ímpios. Por isso, ele não ignorou nenhum deles nas suas vicissitudes, nem invejou aqueles que gozavam de boa fortuna, e sim, ajudou a estes a aumentarem as posses que eles já tinham, e deu para os outros o que lhes faltava, dando a alguns deles dinheiro, algumas terras, alguns cargos e alguns sacerdócios. Novamente, a sua conduta em relação aos seus amigos e outros aliados foi notável. Ele jamais escarneceu deles ou insultou-os, mas sempre foi cortês com todos.

Suetônio, igualmente, escreveu sobre isso:

“Ele tratava seus amigos com invariável gentileza e consideração. Quando Gaius Oppius acompanhou-o em uma viagem através de uma região selvagem e florestada, e ficou subitamente doente, César lhe deu o único abrigo que havia”.

O fato acima também foi relatado por Plutarco, que especifica que ele ocorreu durante uma tempestade, sendo que César deixou Oppius dormir dentro de uma pobre cabana, onde somente cabia uma pessoa, enquanto ele e o resto de sua comitiva foram dormir ao relento. Segundo Plutarco, naquela ocasião, César disse aos amigos:

As honrarias devem ser concedidas aos mais fortes, mas o que é de necessidade, aos mais fracos

Em dezembro de 62 A.C, ocorreu o famoso episódio dos ritos da Bona Dea (a Boa Deusa), celebrados na casa do Pontifex Maximus, organizados pelas Virgens Vestais e pelas anfitriãs, Pompéia, a esposa de César, e Aurélia Cota, sua mãe.

Somente mulheres podiam participar da celebração (na verdade, sequer o nome da deusa poderia ser pronunciado por homens, daí o eufemismo “Boa Deusa”), porém o senador Públio Clódio Pulcher, um partidário dos Populares que tinha fama de devasso, conseguiu entrar na casa de César, disfarçando-se de mulher, supostamente com a intenção de seduzir Pompéia.

Clódio foi descoberto e o escândalo público que se seguiu foi tão grande que César viu-se obrigado a se divorciar de Pompéia, apesar de aparentemente a esposa não ter culpa de nada. Os Optimates, adversários políticos de César e dos Populares, não perderam a oportunidade de aproveitar ao máximo o fato, e um processo criminal por “incestum” foi instaurado contra Clódio. Pompéia e Aurélia, inclusive, prestaram depoimento como testemunhas. César tentou defender seu correligionário político, ao mesmo tempo alegando que nada tinha ocorrido. Quando os adversários lhe perguntaram porque motivo então ele tinha se divorciado de Pompéia, César disse a célebre frase: “A mulher de César tem que estar acima de qualquer suspeita”, que acabou sendo imortalizada como:

“À mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta”.

Terminamos aqui esse texto sobre Júlio César. Depois do cargo de Pontífice Máximo e o grande impulso que o exercício dessa função deu em sua carreira política, César foi para a província da Hispânia como governador (Procônsul), o que além de lhe dar a experiência de comando militar, lhe permitiria obter os recursos para saldar suas vultosas dívidas. Mas aí ele já tinha quase quarenta anos de idade e todos os aspectos de sua personalidade já estavam delineados.

TRAJANO DÉCIO E A BATALHA DE ABRITUS

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(Busto de Trajano Décio, foto de José Luiz Bernardes Ribeiro)

Gaius Messius Quintus Decius (Trajano Décio) nasceu por volta do ano 200 D.C., ou talvez um pouco antes disso, na cidadezinha romana de Budalia (atual Martinci, na Sérvia), que ficava próxima à importante cidade de Sirmium, a capital da província romana da Panônia Inferior. Assim, considerando que, na segunda metade do século III D.C, muitos imperadores romanos nasceram em Sirmium e na região da Ilíria, alguns historiadores consideram que Décio teria sido o primeiro da longa lista de imperadores-soldados ilírios.

Contudo, a carreira de Décio aponta para uma origem senatorial provincial, e, provavelmente, a sua família era proveniente da aristocracia italiana que se mudou para a região para governar a província da Panônia, onde eles tornaram-se grandes proprietários de terras.

Em verdade, inscrições em monumentos apontam para alguns importantes funcionários de sobrenome “Messius” durante o século II D.C, embora não possamos afirmar com certeza que se tratem de antepassados de Décio.

Por volta de 227 D.C., Décio casou-se com Annia Cupressenia Herennia Etruscilla, que era integrante de uma ilustre família senatorial de antiga origem etrusca (como o seu cognome sugere), e que, tudo indica, tinha mais prestígio do que a família dos Messius, uma vez que o filho do casal, nascido em 227 D.C., recebeu o nome de Quintus Herennius Etruscus Messius Decius (Herênio Etrusco).

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(Moeda com a efígie de Herennia Etruscilla, foto de Rasiel)

Em 232 D.C., Décio foi nomeado Cônsul Suffectus, distinção que, dificilmente, teve relação com a carreira militar, tendo em vista a  idade que ele devia ter, de pouco mais de trinta anos.. Ele já deveria ser, então, Senador. Portanto, este é mais um indício de que a sua carreira não seguiu o curso que mais tarde todos imperadores ilírios percorreriam (de patentes no Exército para cargos de prestígio na administração imperial), desenvolvendo-se, ainda, no âmbito da tradicional política romana, onde os membros da classe senatorial eram nomeados para postos de comando no exército.

Posteriormente, Décio ocupou os cargos de governador das províncias da Moésia, da Germania Inferior e da Hispania Tarraconense. Essas indicações, ressaltamos, coadunam-se com uma carreira senatorial, dentro da divisão administrativa ainda em vigor iniciada por Augusto, como é o caso de outro cargo que Décio exerceu, o de Prefeito Urbano de Roma, no reinado do imperador Filipe, o Árabe (244-249 D.C.).

Décio, durante o reinado de Filipe, o Árabe, ganhou a confiança do imperador ao ser o único senador que, durante uma sessão do Senado, tentou convencê-lo a não abdicar em virtude de uma rebelião nas províncias da Moésia e da Panônia, liderada por Marinus Pacatianus, concomitante com uma outra revolta na Síria. Pacatianus chegou até a cunhar moedas como imperador, sendo por isso classificado como “usurpador” pelos historiadores).

Como resultado desse apoio, Décio, segundo consta, contra a sua própria vontade, segundo o relato do historiador Zózimo, foi designado por Filipe, o Árabe  para assumir o comando das legiões das províncias rebeldes no Danúbio em 248 D.C. Para essa designação certamente contribuiu o fato de Décio ser radicado na Panônia, onde ele devia ter muita influência e contatos. Assim, é bem possível que Décio, ao contrário do relato preservado por Zózimo,  tenha manobrado nesse sentido.

Uma das causas da revolta na Panônia foi o fato da disciplina das legiões do Danúbio estar em mau estado, em decorrência das frequentes incursões dos bárbaros chamados de “Carpi”.

Todavia, quando Décio chegou ao Danúbio, acompanhado do filho Herênio, as tropas já tinham assassinado Pacatianus,. O novo comandante causou boa impressão nas tropas, tanto por ser originário da região, como pelos cargos que até então ocupara e pelo seu “pedigree” senatorial.

Imediatamente, os soldados revoltosos perceberam que Décio era um nome bem plausível de ser aceito como imperador pelo Senado, sendo que, caso a insurreição fosse bem sucedida, a expectativa deles era a de receber gordos donativos).

Desse modo, as legiões da Panônia aclamaram Décio Imperador, vestindo-o com um manto púrpura.

Décio, inicialmente, hesitou , porém Filipe, o Árabe, assim que soube da aclamação, marchou com seu exército para confrontar a nova rebelião, em junho de 249 D.C..

Os exércitos rivais encontraram-se no norte da Itália, talvez nas cercanias de Verona, em setembro de 249 D.C., e as tropas lideradas por Décio, embora em menor número, levaram a melhor.

Filipe, o Árabe foi morto durante os combates, provavelmente por seus próprios soldados. A Guarda Pretoriana, em Roma, quando soube do resultado da batalha, assassinou o filho e herdeiro de Filipe, que então era apenas um menino.

As fontes do período são esparsas, mas podemos inferir que a ascensão de Décio foi bem vista pelo Senado Romano. Ele adotou o nome de Caesar Gaius Messius Quintus Trajanus Decius Augustus (ele ficaria conhecido como Trajano Décio), referendado pelo Senado.

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Certamente a adoção do nome “Trajano” soava como uma declaração de princípios, pois Marco Úlpio Trajano havia sido um imperador bem sucedido, tanto nos empreendimentos militares, como nas relações amistosas e respeitosas para com o Senado Roman (motivo pelo qual esta assembleia agraciou-o com o título de “Optimus Princeps”).

A política traçada por Trajano Décio visou restaurar as tradições e instituições do “Século de Ouro” do Império, o século II D.C, durante a dinastia dos Nerva-Antoninos, a qual o finado Trajano pertencia.

De fato, Décio e os seus contemporâneos eram romanos que tinham crescido e iniciado suas carreiras nos reinados dos sucessores de Septímio Severo, onde se verificou uma grande orientalização da política e da religião romana, sendo que até mesmo um deles, Heliogábalo (ou Elagábalo) foi sumo-sacerdote de um deus sírio, cujo culto ele chegou a trasladar para Roma.

Portanto, era natural que esses homens atribuíssem a crise do Império ao abandono da religião e do modo de vida tradicional romanos.

Assim, Trajano Décio promulgou um Édito, cujo teor literal, é o seguinte:

Todos os habitantes do Império estão obrigados a propiciar um sacrifício perante os magistrados de sua comunidade pela “segurança do Império”, em um dia determinado. Após fazerem o sacrifício, eles obterão um certificado (libellus) registrando o fato que eles obedeceram esta ordem. Isto é, o certificado atestará a lealdade do propiciante aos deuses ancestrais, o consumo da comida e da bebida sacrificiais, além dos nomes dos oficiais que supervisionarem o sacrifício”.

Embora a lei não fosse dirigida a nenhuma religião em particular, os fiéis do Cristianismo sentiram-se os mais atingidos pela medida, e os autores cristãos posteriores registrariam o decreto de Décio como uma das várias perseguições que os imperadores moveram contra sua fé.

Na verdade, a medida em questão era mais um exemplo de um programa conservador de governo, como se constata de outra medida de Décio, que foi a recriação do cargo de Censor, que, durante a República era uma das mais importantes magistraturas, encarregada não apenas de recensear os cidadãos, mas de catalogá-los de acordo com a sua ancestralidade, estirpe e classe social, inscrevendo-os nas listas de cidadãos de acordo com a sua dignidade, do que resultava a elegibilidade para os diversos cargos e funções públicas.

Além disso, os Censores eram responsáveis por fiscalizar os costumes e a moralidade públicas. Provavelmente, a reinstituição da Censura era uma tentativa de reorganizar a nobreza romana no interesse do Estado. Porém, a medida não seria implementada, pois o primeiro escolhido, o futuro imperador Valeriano, declinou, e logo a situação militar atraíria a atenção total de Décio.

Em outra manifestação da sua política de restauração dos tempos de glória, Trajano Décio iniciou a construção de suas Termas, ou Banhos de Décio, no bairro romano do Aventino, além do Pórtico de Décio e da restauração do Coliseu. Vale citar que antes disso fazia 20 anos que a cidade de Roma não via uma obra de vulto.

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A revolta de Jotapiano, na Síria, iniciada durante o reinado de Filipe, o Árabe, foi rapidamente debelada pelos próprios soldados revoltosos, bem no início do reinado de Décio.

Infelizmente, durante o reinado de Décio, grassou uma nova epidemia da Peste Antoniniana, que surgira durante o reinado de Marco Aurélio, ceifando milhares de vidas em Roma.

Porém, o grande problema que Décio enfrentaria seria a primeira incursão dos Godos em território romano, cruzando o rio Danúbio.

Em 250 D.C., os Godos, liderados pelo seu rei, Cniva, liderando uma provável coalizão de tribos bárbaras  (as fontes falam em “Citas”, mas estudos demonstram que se tratavam majoritariamente de Godos, além de, provavelmente, Vândalos e outros povos), atacaram as províncias da Moésia e da Trácia, aproveitando que Décio estava ocupado combatendo os Carpi, os quais ele acabou expulsando da Dácia.

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Ainda durante o ano de 250 D.C., os Godos sitiaram as cidades de Marcianópolis (atual Devnya, na Bulgária), de Novae (de onde eles foram repelidos pelo governador e futuro imperador, Treboniano Galo), e de Nicópolis, no Danúbio (no norte da atual Bulgária). Porém,  a chegada do grande exército comandado por Décio obrigou os bárbaros a fugirem para o sul e eles foram perseguidos até a cidade de Augusta Traiana (Beroe, atual Stara Zagora, na Bulgária). Neste local, os Godos conseguiram atacar com sucesso o acampamento romano, dispersando o exército.

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(Anfiteatro de Augusta Traiana, atual Stara Zagora, foto de Benutzer:DALIBRI)

Em maio de 251 D.C., durante essa campanha, Décio conferiu a Herênio Etrusco o título de Augusto, nomeando-o, assim, co-imperador.

Após derrotar os romanos na Batalha de Beroe, Cniva comandou os bárbaros na tomada e no saque da importante cidade de Philipopolis, na Trácia (atual Plodviv, na Bulgária), também em  251 D.C..

Esse desastre, inclusive, incentivou o governador da Trácia, Titus Julius Priscus, a autoproclama-se “imperador, sob a “proteção” dos Godos”, mas o Senado  Romano imediatamente declarou-o como “Inimigo Público” e Priscus foi morto pelos próprios soldados.

Enquanto isso, Décio e Herênio conseguiram reagrupar o Exército e alcançaram Cniva nas cercanias de Philipopolis, onde houve um combate que terminou com a trágica morte de Herênio, que foi atingido por uma flecha, em junho de 251 D.C.

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(Moeda de Herennius, foto de Gfawkes05 )

 

Nesse trágico episódio, Décio, após ser informado da morte do filho, tentando mostrar determinação para os seus comandados, disse a célebre frase:

“Que ninguém lamente. A morte de somente um soldado não é uma grande perda para o Império!”

Cniva e os Godos decidiram se retirar do território romano e voltar para a sua base territorial ( que ficava provavelmente entre a Polônia e a Ucrânia), levando o produto do saque e vários prisioneiros ilustres (para os quais certamente eles  pediriam um alto resgate).

Todavia, Décio resolveu perseguir os bárbaros e derrotá-los antes que deixassem o Império.

 

A BATALHA DE ABRITUS

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(Mapa das invasões bárbaras combatidas por Décio, de Dipa1965 )

Décio perseguiu os Godos até 100 km ao norte de Nicópolis, quando os mesmos já estavam aproximando-se da fronteira do Império Romano.

Informando da aproximação do exército romano, próximo à cidade romana de Abritus (situada nas cercanias da moderna Razgrad, na Bulgária), Cniva, que conhecia bem aquele terreno, dividiu as suas forças em três linhas, colocando a última atrás de um pântano.

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(Achados arqueológicos sugerem que a Batalha de Abritus teria ocorrido no local que hoje é esse campo. Foto extraída da página https://brewminate.com/roman-goth-battle-of-abritus-251-ce-battlefield-identified-near-bulgarias-dryanovets/)

Em 1º de julho de 251 D.C. (data mencionada por algumas fontes), Trajano Décio conseguiu repelir as primeiras linhas do exército bárbaro, mas ao entrar no pântano, ele foi emboscado pelos Godos de Cniva que, fazendo jorrar lanças e flechas sobre os legionários, massacraram os romanos. O corpo do imperador, que morreu combatendo bravamente até o fim, jamais seria encontrado. Anos depois, um altar em honra de Trajano Décio seria erguido no local de sua morte.

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(Alguns acreditam que esse relevo, que faz parte do sarcófago Ludovisi, exposto no Palazzo Altemps, em Roma, retrate Trajano Décio e Herênio em luta contra os Godos).

Segundo o historiador Zózimo, no epísódio os Godos teriam tido algum auxílio do governador da Moésia, Treboniano Galo, mas o relato não parece crível, pois os as tropas sobreviventes da catástrofe de Abritus aclamaram Treboniano imperador (o que dificilmente se enquadraria no código de conduta dos soldados romanos de qualquer época) e Treboniano reconheceu como coimperador Hostiliano, o filho sobrevivente de Trajano Décio, que tinha cerca de 20 anos de idade e havia ficado em Roma, onde tinha sido nomeado ‘César” por Décio (título equivalente a príncipe-herdeiro). Treboniano também manteve o status de imperatriz de Herennia Etruscilla, a viúva de Décio.

Contudo, ainda naquele sombrio ano de 251 D.C., Hostiliano faleceria em virtude da epidemia de peste, em novembro.

CONSEQUÊNCIAS

A Batalha de Abritus foi um dos maiores desastres militares da História de Roma. Apesar disso, ela  é quase desconhecida do público e sequer aparece nas listas das batalha romanas mais importantes, como é o caso das Batalhas de Canas, Teutoburgo ou Adrianópolis. Entretanto, foi a primeira vez que um imperador romano morreu em combate (tecnicamente, Herênio, que tinha sido nomeado Augusto por Décio, foi o primeiro), o que abateu o moral romano e turbinou o dos bárbaros.

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Outra consequência desastrosa para o Império, que estudos recentes parecem demonstrar, foi o fato de que Trajano Décio muito provavelmente levava com ele todo o tesouro do Estado Romano, que foi  inteiramente capturado pelos bárbaros!

Segundo o arqueólogo e numismata polonês Aleksander Bursche, a grande quantidade de achados de moedas de ouro (aurei) novas, cunhadas por Décio e seus antecessores imediatos, com características de nunca terem entrado em circulação e terem sido cortadas e perfuradas cerimonialmente (com a destruição do retrato do imperador inimigo), procedimento que era costume dos bárbaros germânicos para com os despojos ganhos em batalha e encontradas na Polônia e na Ucrânia, em regiões nas quais a arqueologia identificou vestígios das culturas associadas com os Godos no século III D.C, tudo isso aponta para um grande butim que pode ser estimado em várias toneladas de ouro.

(acessível no link https://www.academia.edu/1321300/The_Battle_of_Abrittus_the_Imperial_Treasury_and_Aurei_in_Barbaricum_Numismatic_Chronicle_173_2013_s._151-170

 

Para Bursche, a perda de tamanha quantidade de ouro seria a causa direta da deterioração da qualidade do “aureus”, nos reinados dos sucessores de Décio, inclusive seu filho Hostiliano, que, embora estivesse em Roma, não cunhou nenhuma moeda de ouro, como seria tradicionalmente esperado quando da ascensão de um imperador, muito provavelmente pela falta de ouro no Tesouro Imperial. E. ainda de acordo com Bursche, os “aurei” cunhados por Treboniano Galo, Valeriano e Galieno apresentavam um percentual de ouro muito menor do que o  das moedas cunhadas por Décio.

Portanto, a derrota na Batalha de Abritus e a morte de Décio foi um fator fundamental no aprofundamento da chamada Crise do Século III do Império Romano, iniciada após a dinastia dos Severos.

CONCLUSÃO

Trajano Décio parece ter sido um imperador patriota e bem-intencionado. Podemos criticar, com o distanciamento de quase dois milênios, as suas medidas como sendo ingênuas ou inócuas, tais como o decreto impondo o sacrifício obrigatório aos deuses ancestrais ou a recriação da Censura, mas essas eram tentativas sinceras de interpretar as causas e procurar soluções para a decadência do Império em contraste com as glórias do passado. De fato, não se pode acusar Décio de omissão ou absenteísmo no exercício do governo, e mesmo a decisão taticamente equivocada de perseguir os Godos até a fronteira, seja para manter o prestígio romano, seja para vingar a morte do filho, diz mais favoravelmente sobre a nobreza do seu caráter do que sobre a sua eventual incompetência.

Com efeito, os bustos de Décio que sobreviveram ostentam a representação de um homem preocupado e angustiado e eles são a melhor imagem da crise romana do século III D.C.

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