ALEXANDRE, O ÚLTIMO SEVERO E A CRISE DO SÉCULO III

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Em 22 de março de 235 D.C., o imperador romano Severo Alexandre, encontrava-se na base militar romana de  Castrum Moguntiatium (que deu origem à moderna cidade alemã de Mainz, ou Mogúncia, seu nome em português) quando um motim dos soldados da Legião XII Primigenia estourou.

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As tropas recusaram-se a obedecer aos apelos do imperador para que combatessem as tropas lideradas pelo general Maximino Trácio, comandante da Legião IV Italica, as quais tinham aclamado Maximino imperador.

Reunidos no centro do Quartel, os soldados começaram a ficar muito agressivos, acusando Severo Alexandre de ser um covarde dominado pela mãe avarenta e comparando-o ao desprezível Elagábalo, seu primo e antecessor no trono.

Os amotinados, ato contínuo, demandaram que os demais soldados abandonassem “o tímido menininho amarrado à barra da saia da mãe“,  fazendo com que toda a soldadesca lhe desse as costas, deixando o imperador sozinho no praetorium.

Severo Alexandre, aterrorizado, correu para a tenda de sua mãe, a imperatriz Júlia Maméia (Julia Mammaea), que o acompanhava, como sempre, naquela campanha contra os bárbaros Alamanos.

Tinha sido Júlia Maméia quem havia aconselhado Alexandre a oferecer aos bárbaros uma boa soma em dinheiro para que eles desistissem de guerrear contra os Romanos.

E esse foi justamente o estopim da revolta das legiões , pois os soldados alegavam que isso era uma grande desonra para o Império Romano (talvez eles esperassem que o dinheiro fosse dado a eles como donativo pela vitória).

No interior da tenda da mãe, Severo Alexandre chorou e recriminou a mãe pelos seus infortúnios. Ele sabia que estava acabado. Por isso, quando um grupo de soldados seguiu o imperador e invadiu a tenda de Júlia Maméia, Alexandre, resignadamente, ofereceu o pescoço para que eles o executassem. Ele morreu aos 26 anos de idade e treze de reinado. Na mesma ocasião, os soldados também mataram Júlia.

Marcus Julius Gessius Bassianus Alexianus(Severo Alexandre) nasceu em 1º de outubro de 208 D.C, na cidade de Arca Caesarea , na província romana da Síria Fenícia (atual Arqa, no Líbano), filho de  Marcus Julius Gessius Marcianus e de Julia Avita Mammaea (Júlia Maméia).

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O pai de Severo Alexandre era um cidadão romano de origem síria que pertencia à classe Equestre, o segundo nível da nobreza romana e parece ter exercido alguns cargos públicos.

Em algum momento depois do ano 200 D.C., Marcus Julius Gessius Marcianus casou-se com Júlia Maméia, que era sobrinha da poderosa imperatriz Júlia Domna, casada com o imperador Septímio Severo. Durante o reinado do marido, Júlia Domna receberia o título de “Mãe dos Quartéis, do Senado e da Pátria“.

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(busto de Júlia Maméia)

Júlia Maméia e sua irmã, Júlia Soêmia, eram filhas de Júlia Maesa, irmã da imperatriz Júlia Domna, que por sua vez eram filhas de  Julius Bassianus, sumo-sacerdote do Templo do deus Elagábalo (El-Gabal), situado em Emesa (a moderna Homs), na Província da  Síria, e integrante da dinastia dos Sempseramidas, que havia séculos governavam a referida cidade, a qual, durante muito tempo, havia sido a próspera capital de um reino-cliente de Roma,  até a sua anexação pelo Império Romano.

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(Estátua de Júlia Soêmia)

Portanto, a família de Júlia Maméia era riquíssima e, quando o imperador Caracala, filho e sucessor de Septímio Severo morreu, assassinado por ordens de Macrino, sua mãe Júlia Maesa e sua irmã, Júlia Soêmia, valeram-se dessa fortuna e de seu poder e prestígio na importante província da Síria para fomentar a rebelião que em pouco tempo derrubou Macrino. 

As tropas da Síria aclamaram o jovem filho de Júlia Soêmia, Elagábalo, de apenas 15 anos de idade, como imperador, em 16 de maio de 218 D.C. Macrino seria derrotado em junho de 218 D.C. e, assim,  Elagábalo foi reconhecido imperador pelo Senado.

A mãe do novo imperador, Júlia Soêmia, e  a sua tia, Júlia Maesa, foram declaradas “Augustas”. Mais surpreendente, as duas seriam, um pouco mais tarde, as primeiras e únicas mulheres a serem admitidas no Senado Romano. E Júlia Maesa ainda receberia o título de “Mãe do Senado”.

O reinado de Elagábalo seria marcado pelos escândalos e pela repulsa que a sua condição de sumo-sacerdote de El-Gabal, a sua aparência andrógina e o seu comportamento desregrado provocaram não apenas na elite senatorial, mas nas próprias tropas.

Em algum momento, Júlia Maesa percebeu que a crescente rejeição a Elagábalo pela sociedade romana, e, sobretudo, pelos militares romanos, colocava em perigo a própria posição da família. Ela também percebeu que os reiterados excessos sexuais dele eram encorajados pelo fervor religioso que com que ele e sua filha, Júlia Soêmia, a mãe do imperador, se dedicavam ao culto a El-Gabal.

Júlia Maesa então aproximou-se de sua outra filha, Júlia Maméia, que também tinha um filho, Marcus Julius Gessius Bassianus Alexianus (Severo Alexandre), então com 13 anos de idade, primo do imperador.

A influente Júlia Maesa conseguiu persuadir Elagábalo a nomear o seu primo como seu herdeiro, dando-lhe o título de “César”, passando a adotar o nome de Caesar Marcus Aurelius Alexander, em 221 D.C, Severo Alexandre seria Cônsul junto com Elagábalo. As duas mulheres também devem ter sido as responsáveis por espalhar o boato de que Alexandre seria também filho ilegítimo de Caracala, o que lhe granjearia a simpatia dos soldados.

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(estátua de Júlia Maesa)

Contudo, percebendo o entusiasmo que a nomeação de  Severo Alexandre provocou nos soldados da Guarda Pretoriana, já muito incomodados com os seus excessos, Elagábalo resolveu anular sua decisão e revogar os títulos concedidos ao seu primo. Contudo, essa decisão fez o  público e as tropas se alvoraçarem temendo pela vida do menino.

Os Pretorianos demandaram a presença de Elagábalo e de Severo Alexandre no Castra Pretoria, devido aos rumores de que Alexandre pudesse ter sido assassinado. É possível até que o motim tenha sido instigado por Júlia Maesa e Júlia Maméia. Quando Elagábalo chegou, começou um tumulto que degenerou no assassinato dele e de sua mãe, Júlia Soêmia, que depois tiveram os corpos arrastados pelas ruas, em 11 de março de 222 D.C.

Em 13 de março de 222 D.C., Severo Alexandre foi aclamado oficialmente imperador romano, adotando o nome de Marcus Aurelius Severus Alexander Augustus, nome escolhido para enfatizar a conexão dinástica com Septímio Severo e Caracala.

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Como o  imperador Severo Alexandre tinha  apenas 13 anos de idade, quem de fato detinha as rédeas do poder era sua mãe, Júlia Maméia.

Júlia Maesa e Júlia Maméia tinham testemunhado a catástrofe que a coroação de um imperador muito jovem, completamente despreparado e de comportamento indecoroso, como foi o seu seu sobrinho Elagábalo, representava, não só ao Império, mas, sobretudo, à própria sobrevivência da dinastia dos Severos.

Assim, as duas mulheres, que, naquele momento, eram as governantes de fato do Império Romano procuraram cercar o jovem Severo Alexandre dos mais ilustres e respeitáveis conselheiros, como foi o caso dos juristas Ulpiano, que foi nomeado para o importante cargo de Prefeito Pretoriano, e Paulus, e  também do senador e, mais tarde, historiador, Cassius Dio (Dião Cássio). Vale citar que Júlia Maesa morreria logo em 224 D.C., portanto, foi Júlia Maméia quem teve ascendência preponderante sobre o filho.

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(Busto de Ulpiano)

Graças a esse Conselho de homens notáveis, os primeiros atos do governo de Severo Alexandre visavam a recuperação moral e econômica do governo romano, a melhoria das condições da plebe de Roma e implantar medidas em prol dos soldados.

Foram implementavas ações para diminuir os gastos da Corte, considerada excessivamente luxuosa e extravagante. Talvez daí tenha surgido a fama de avarenta que Júlia Maméia gozou até o fim da sua vida. Uma fonte chegou a narrar que ela teria determinado que os restos dos banquetes no Palácio fossem recolhidos e guardados para serem servidos em outra oportunidade…

O denário foi inicialmente desvalorizado, provavelmente para aumentar a circulação de moeda e ajudar a equilibrar o déficit do Tesouro, mas posteriormente, mediante o aumento do percentual de prata, a moeda foi revalorizada, o que demonstra que houve uma melhoria nas contas públicas. Isso inclusive permitiu que os impostos fossem diminuídos, o que sempre estimula a economia e satisfaz os contribuintes. Esse programa foi completado pela criação de um serviço para emprestar dinheiro a taxas de juros moderadas.

Durante o reinado de Severo Alexandre foi construído o  Acqua Alexandrina, o último dos grandes aquedutos que abasteciam a cidade de Roma, em 226 D.C.. As Termas de Nero, que se encontravam em péssimo estado, foram reconstruídas, passando o complexo a ser conhecido como “Banhos de Alexandre”.

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(Um trecho do aqueduto Acqua Alexandrina, foto de Chris 73)

Severo Alexandre também estabeleceu medidas para beneficiar os militares no que se refere aos direitos sucessórios e pecúlios.

Todavia, já no início do reinado, Severo Alexandre sofreu com o problema da crescente indisciplina dos soldados.

Em 223 D.C., os Pretorianos, insatisfeitos com as medidas do Prefeito Pretoriano Ulpiano, a quem eles eram subordinados, assassinaram o famoso jurista na presença do próprio imperador. Ulpiano se tornaria célebre nas faculdades de direito por ter estabelecido o que seriam os preceitos principais do Direito: “Viver honestamente, não causar mal a ninguém e dar a cada um o que é seu” (Juris praecepta sunt haec: honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique tribuere)

Aliás, no período da dinastia dos Severos, apesar dos imperadores seguirem estritamente o conselho do seu fundador, Septímio Severo, de “dar dinheiro aos soldados e desprezar todos os outros“, aumentaram muito os episódios de indisciplina e insubordinação, chegando a um ponto que qualquer medida que visasse enrijecer a disciplina ou reduzir os donativos e gratificações, como ocorreu no reinado de Severo Alexandre, desencadeava rebeliões e motins entre a tropa, cuja efetividade em combate, também, parece ter sido comprometida.

Apesar das questões relativas à disciplina dos militares, o reinado de Severo Alexandre vinha tendo relativo sucesso em relação aos reinados anteriores de Elagábalo e Caracala, melhorando a economia e obtendo estabilidade política.

Contudo, eventos externos que ocorreram no reinado de Severo Alexandre, e em relação aos quais ele não teve qualquer responsabilidade,  não só causariam problemas que levariam à sua derrubada, mas teriam graves consequências estratégicas, que, futuramente comprometeriam a própria sobrevivência do Império Romano…

O primeiro deles foi a ascensão de Ardashir I (Artaxerxes I), nobre persa da Casa de Sassan, em 227 D.C., derrotando a dinastia dos Arsácidas, que fazia séculos governava o Império dos Partas e instalando a dinastia dos Persas Sassânidas, criando o império do mesmo nome. Os Sassânidas eram nacionalistas e centralizadores e eram muito mais agressivos militarmente do que os seus antecessores. Ironicamente, o principal motivo para a ascensão dos Sassânidas foram as sucessivas invasões que os romanos promoveram na Mesopotâmia parta durante os reinados de Trajano, Septímio Severo e Caracala, saqueando a capital Ctesifonte.

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(Relevo no Irã, retratando Ardashir e o deus Ahura-Mazda)

Em 230 D.C., Ardashir I lançou um ataque contra o sistema defensivo romano na fronteira da Mesopotâmia, sitiando a estratégica fortaleza de Nusaybin (Nísibis), sem, contudo conseguir tomá-la. Em seguida, as tropas persas invadiram as províncias da Síria e da Capadócia.

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Os Romanos foram obrigados a reagir militarmente, e o imperador teve que atender aos reclamos dos governadores.

Para lidar com a agressão persa, Severo Alexandre mandou reunir um exército com soldados das legiões espalhadas pelo Império. O historiador Herodiano de Antióquia narra que a medida causou comoção no Império, provavelmente pelo fato de terem sido recrutados soldados em províncias onde há muito não se faziam conscrições, como, por exemplo, a Itália.

Herodiano relata que Alexandre e sua comitiva integravam a expedição militar, sendo que ao partir o imperador pôde ser visto chorando e repetidamente olhando para trás enquanto deixava Roma.

Chegando no teatro de operações, o imperador ainda tentou apelar para a diplomacia, enviando embaixadores à Ctesifonte. Os embaixadores não foram recebidos, mas Ardashir mandou sua própria embaixada aos Romanos, com as seguintes exigências, segundo o historiador bizantino João Zonaras:

O Grande Rei Artaxerxes ordena aos romanos que deixem a Síria e toda a Ásia adjacente à Europa e permitam ao Persas governar até o mar“.

Como o objetivo dos Sassânidas era, como se vê no referido ultimato, restaurar o Império Persa às fronteiras dos gloriosos tempos de Dario e Xerxes, o que implicaria na perda para os Romanos das importantes províncias da Síria, Ásia, Capadócia e Bitínia, entre outras, a paz obviamente era impossível.

Nessa ocasião, houve mais uma prova de que a disciplina militar do Exército Romano estava seriamente comprometida: Quando as tropas estavam se preparando para cruzar os rios Tigre e Eufrates, para invadir o território persa, vários motins explodiram entre os soldados, especialmente entre os soldados do Egito, e também na Síria, onde as tropas até tentaram proclamar imperador um certo Taurinus,  no verão de 232 D.C., porém esta rebelião foi rapidamente debelada.

Os comandantes militares romanos decidiram dividir o exército em três. O primeiro destacamento invadiria ao norte a Armênia para atacar os Medos, súditos dos Sassânidas. O segundo atacaria a Mesopotâmia na confluência dos rios Tigre e Eufrates e o terceiro, sob o comando direto do imperador, atacaria os Persas no centro. Porém, na Armênia, os romanos tiveram muita dificuldade no terreno montanhoso, mas conseguiram chegar ao território dos Medos, devastando-o. Algumas tropas persas tentaram impedir o avanço, mas o terreno desfavorável à cavalaria impediu-os de engajar os Romanos.

Quando Artaxerxes I soube do avanço do segundo destacamento pelo Tigre e Eufrates, atacou aquele exército com suas tropas principais. Os Romanos avançavam sem muita cautela, pois até então não tinham enfrentado qualquer resistência. Assim, eles foram fragorosamente derrotados pelos Persas.

Para piorar, Alexandre foi aconselhado por Júlia Maméia, que acompanhava a comitiva, a não invadir a Pérsia com o seu exército, contribuindo para que as tropas do segundo destacamento fossem cercadas pelos arqueiros montados persas e aniquiladas.

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Apesar do fracasso da expedição, os Romanos conseguiram infligir muitas baixas entre os Persas, e dois dos três segmentos da força expedicionária devem ter conseguido sobreviver, o que impediu os Persas de explorarem a vitória na Mesopotâmia.

De volta a Antióquia, Alexandre distribuiu grandes donativos para as tropas e informou ao Senado, em Roma, que ele tinha vencido os Persas. E ao chegar em Roma, em 233 D.C., o imperador ainda chegou a celebrar um Triunfo.

De fato, como nenhuma inscrição ou texto persa relata uma vitória na ocasião, Artaxerxes I deve der ficado decepcionado com o desfecho da guerra, sobretudo porque as fronteiras do Império Romano no Oriente permaneceram inalteradas.

Assim, o conflito pode ser considerado um empate e Artaxerxes I somente voltaria a atacar o território romano em 237 D.C, dois anos após a morte de Severo Alexandre.

O conflito entre o Império Romano e o Império Persa duraria, com alguns intervalos de paz e vitórias e derrotas para ambos os lados, até a vitória final dos Romanos na Batalha de Nínive, em 628 D.C., no reinado do imperador romano-bizantino Heraclius.

O segundo evento que assolaria o reinado de Severo Alexandre foi a aparição nas fronteiras romanas dos rios Reno e Danúbio, da poderosa confederação de tribos germânicas dos Alamanos, que atacaram as fortificações romanas na fronteira e devastaram as cidades das províncias fronteiriças, em 234 D.C., ameaçando a província da Ilíria e, consequentemente, a própria Itália.

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Os Germanos, desde o final do século II A.C., vinham mostrando serem capazes de infligir grandes derrotas aos Romanos em batalhas isoladas, porém, os seus sucessos tinham duração efêmera, pois eles estavam organizados em inúmeras tribos pequenas, que não costumavam colaborar entre si, quando não guerreavam umas contra as outras. E, material e taticamente, em geral, os Germanos eram bem inferiores aos Romanos.

Todavia, assim como nós mencionamos acima com relação aos Persas e o Império Parta, foram os próprios Romanos que contribuíram para mudar a correlação de forças entre os Germanos.

Com efeito, de modo crescente, a partir de meados do século I A.C., os Romanos vinham empregando como soldados auxiliares tribos inteiras de Germanos. Muitos desses Germanos passavam 20 anos servindo no Exército Romano. Ao final do período, muitos adquiriam a cidadania romana, mas, ao contrário da maioria de outros povos que também forneciam tropas aos Romanos, muitos deles voltavam para as suas terras na Germânia, trazendo armamentos e táticas do exército romano. Com o tempo, os Germanos, que já eram tradicionalmente um povo de índole guerreira, foram adquirindo o conhecimento das táticas romanas e reunindo um grande arsenal de armas romanas, aprendendo também técnicas para o seu fabrico.

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A partir do século II D.C, começou a se observar que os chefes militares germânicos, muitos, provavelmente, egressos do Exército Romano, foram dominando as tribos vizinhas, que começaram a se aglutinar em forma de confederações de tribos.

Os achados arqueológicos, notadamente os provenientes de enterros em pântanos de turfa, mostram que, na virada do século II para o século III D.C., os bandos de guerreiros germânicos já demonstravam um grau de especialização (cavalaria, infantaria e arqueiros) e dispunham de espadas, elmos, armaduras (ao menos os chefes) e lanças que não ficavam a dever a dos Romanos, ou até mesmo eram de fabricação romana. Por sua vez, a nobreza germânica consumia produtos de origem romana e entesourava moedas de ouro romanas. Parece, neste particular, que os Romanos incentivaram a formação de verdadeiros reinos-clientes entre os Germanos.

Feita essa pausa digressiva, com a invasão dos Alamanos, mais uma vez, Severo Alexandre foi obrigado a se deslocar para o front de batalha. As tropas, cuja disciplina, como vimos, era problemática, estavam reclamando, especialmente as oriundas das províncias atacadas, pelo fato de Severo Alexandre tê-las feito lutar a campanha na Pérsia,  o que, no entender deles, provavelmente deve ter facilitado o ataque dos bárbaros germânicos.

Em Mogúncia, base das operações contra os Alamanos, Severo Alexandre, novamente, foi aconselhado por sua mãe a tentar conter a ameaça militar com a diplomacia. Nesse particular, não havia nada de absurdo naquele conselho, pois, há muito tempo, os Romanos costumavam pagar dinheiro aos Germanos para que estes ficassem sossegados e não atacassem o Império.

Não obstante, os militares tinham se acostumado com anos de condescendência, fraqueza e de mão-aberta dos imperadores em relação às suas demandas, e a insatisfação deles ao que parece, foi agravada pelos vexames de Elagábalo e pela falta de aptidão militar de Severo Alexandre, que, para piorar, parece que não era mesmo muito generoso nos donativos, em decorrência da sua política de austeridade fiscal, a qual era atribuída à mãe do imperador.

Assim, quando eles souberam que Severo Alexandre, seguindo as instruções de Júlia Maméia, estava disposto a dar dinheiro aos bárbaros Alamanos, as legiões aclamaram imperador o comandante da Legião IV Italica, Gaius Julius Verus Maximinus (Maximino Trácio).

Maximino era um Trácio da Moesia que quando criança trabalhara como pastor, mas, após entrar no exército romano, foi galgando postos, destacando-se nas batalhas devido a sua incrível força física. Há relatos de que ele teria cerca de 2m 40cm de altura e, de fato, as suas estátuas apresentam caracteristicas físicas de acromegalia. Ironicamente, ele havia sido promovido a comandante pelo próprio Severo Alexandre.

Entretanto, Não podia ser maior o contraste entre a figura frágil do imperador e a virilidade castrense de Maximino, que parecia aos soldados muito mais adequada para comandar o Exército naqueles tempos belicosos.

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Assim, no dia  19 de março de 235 D.C, quando se avistou a coluna de poeira deslocada pelas legiões que aclamaram Maximino, que se aproximavam do quartel-general em Mogúncia, só restou a Severo Alexandre apelar, sem sucesso, à lealdade dos soldados da Legião XII Primigenia,  que logo matariam ele e sua mãe. Era o fim da dinastia dos Severos, que governava Roma, com o breve intervalo de Macrino, desde 193 D.C.

Após saberem da execução de Severo Alexandre e Júlia Maméia, a Guarda Pretoriana também aclamou Maximino imperador e o Senado, constrangido, confirmou o nome dele, apesar de considerá-lo pouco mais do que um camponês bárbaro.

Maximino, sem deixar a Germânia, partiu para enfrentar os Alamanos, os quais conseguiu derrotar, apesar do exército sofrer pesadas baixas, no território romano dos Agri Decumates.

O reinado de Maximino marcaria o início da chamada “Crise do Século III“, o período  de grande instabilidade verificado entre 235 e 284 D.C quando 30 imperadores ocuparam o trono em 49 anos, ou seja, uma média de apenas 18 meses de reinado por imperador. Nesse período, vários imperadores foram assassinados, dois mortos no campo de batalha e um deles capturado vivo pelos Persas. Para se ter uma comparação, entre os reinados de Augusto e de Severo Alexandre, foram 28 imperadores para um período de 266 anos, com uma média de 9 anos e seis meses para cada reinado…

No ano de 238 D.C., ano que Maximino foi assassinado, houve cinco imperadores diferentes no trono, motivo pelo qual ficaria conhecido como “O Ano dos Cinco Imperadores“. E, em um futuro próximo, durante um bom período, a Gália e a Síria ficariam independentes, fazendo parte dos chamados “Império Gaulês” e “Império de Palmira“.

O principal motivo de tudo isso foi a duradoura incapacidade de Roma lidar com pesadelo estratégico da guerra em dois fronts naquele período. Embora haja também causas econômicas (especialmente déficit público causado pelos gastos militares e déficit comercial com a China) e demográficas (diminuição da população notadamente por epidemias).

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(Mapa do Império dividido – Blank map of South Europe and North Africa.svg: historicair

Para terminar nossa narrativa, é interessante citar, com a devida cautela quanto à veracidade do relato, da frequentemente imprecisa História Augusta, e também do historiador cristão Eusébio, ambos os textos datando provavelmente do reinado do imperador Constantino, o Grande, as passagens abaixo, que afirmam que Severo Alexandre era simpático ao Cristianismo.

Segundo Eusébio, no período que passaram em Antióquia, Júlia Maméia, que era muito religiosa, mandou Severo Alexandre estudar com o afamado teólogo cristão Orígenes.

Já a História Augusta (Lampridius) relata que Severo Alexandre colocou em seu “lararium” (oratório doméstico) imagens do patriarca Abraão e de Jesus Cristo, entre outros místicos famosos, como Apolônio de Tiana.

Ainda segundo a História Augusta, Severo Alexandre chegou a pensar em erguer um Templo em honra a Cristo em Roma e teria mandado gravar no Palácio dos Césares “as famosas palavras de Cristo”:

Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem contigo.”

POR QUE ASSASSINARAM CÉSAR?

Para os conspiradores que esfaquearam César no Senado, a resposta para essa pergunta seria muito simples: “Porque ele era um tirano que planejava tornar-se rei e acabar com a República”. Eles inclusive chegaram a alegar que agiram com base em uma antiga lei grega que não apenas autorizava, mas até exigia,  que qualquer um que tivesse a oportunidade deveria matar o tirano, não sendo, assim, o tiranicídio, um crime, mas, em verdade, um ato em defesa da Democracia.

O estudo da História de Roma, porém, demonstra que a morte violenta de César era uma questão muito mais complexa do que um tiranicídio…

Nosso artigo, escrito nos dias que precedem  o dia 15 de março – os Idos de março de acordo com o calendário romano – e o mais célebre de todos, o dia 15 de março de 44 A.C., quando o Ditador Caio Júlio César foi morto na Cúria do Teatro de Pompeu, em Roma, é tentar contextualizar o assassinato na História da República Romana.

ANTECEDENTES HISTÓRICOS

Desde a sua fundação, surge, em Roma, uma acirrada luta pelo poder,  opondo o restrito grupo de clãs familiares aristocráticos (gens), cujos integrantes foram inicialmente chamados de “patrícios” contra a maioria da população livre que não fazia parte daquele grupo, compreendendo pequenos proprietários de terras, comerciantes e proletários (pessoas que vendiam sua força de trabalho a empregadores), que constituíam a “Plebe”.  Os patrícios julgavam-se os responsáveis pela Fundação da Cidade, pela sua posterior libertação do domínio etrusco e pela expulsão dos reis, ou seja, eles consideravam-se os fundadores da “Respublica Romana“.

Essa distinção Patrício x Plebeu era sobretudo censitária: plebeu era todo aquele que não fora arrolado como patrício pelo Censor, o magistrado encarregado de fazer o censo, naturalmente um patrício.

E assim, a República Romana não tinha ainda 15 anos, quando, em 495 A.C, os plebeus, insatisfeitos com os privilégios dos patrícios, ameaçaram abandonar Roma e fundar outra cidade. Conflitos como esses se repetiriam várias vezes, e, ao final deles, os plebeus conseguiram expandir seus direitos e limitar as prerrogativas dos patrícios, como por exemplo, quando eles impuseram a obrigação de publicação escrita das leis,  ao obterem os direitos de elegerem magistrados com poder de veto (Tribunos da Plebe) e de serem eleitos para todas as magistraturas, e,  finalmente, isso após prolongada luta, conquistarem o reconhecimento da força legislativa das votações de suas assembleias (“Concilium Plebis“, isto é Conselho ou Concílio da Plebe), em 287 A.C.

Comitium_Kontext-601x338(O”Comitium” era o local no Fórum Romano, em frente à Cúria do Senado, onde se realizava o Concilium Plebis, a assembleia dos plebeus. Sua aparência em meados do período republicano devia ser a da reconstrução acima, que foi extraída de http://www.digitales-forum-romanum.de/gebaeude/comitium/?lang=en )

Durante o crescimento e a expansão de Roma pela Península Italiana e pelo Mediterrâneo, houve a incorporação de vários povos italianos e inúmeras cidades e a fundação de colônias, não só na Itália, mas, também no sul da França e na Espanha, assentando-se nas mesmas soldados veteranos e povoando-as com cidadãos romanos que para lá migravam em busca de oportunidades. Aumentou, também, em decorrência dessa expansão,  o influxo de produtos e riquezas para Roma, enriquecendo muitos plebeus.

Esse processo de criação de uma nova classe de plebeus ricos, levou, ao longo de dois séculos, a uma reformulação da classe dos patrícios: O influxo de plebeus “novos ricos” foi absorvido,  ou melhor poderíamos dizer, cooptado, pela antiga elite patrícia, passando todos a fazer parte de uma nova classe informal, porque não reconhecida então pela legislação romana, chamada de “Nobilitas” (nobreza),  a qual incluía os antigos patrícios e vários plebeus muito ricos.

A ascensão social do plebeu rico era possibilitada pela própria evolução democrática da República Romana, fruto da luta secular da Plebe. Com a conquista do direito de serem votados para ocupar quaisquer cargos, eles podiam percorrer integralmente e em ordem crescente todas as magistraturas (ou cargos públicos), carreira que recebia o nome de “Cursus Honorum“, até chegarem ao Senado Romano. O plebeu que conseguisse chegar ao cargo de Cônsul, automaticamente ingressava no Senado e passava a integrar a nobreza (apelidava-se, então, a esses senadores “sem pedigree”, de “Novus Homo” – um “homem novo”).

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Teoricamente, os plebeus, desde o século III A.C, haviam adquirido a proeminência política em Roma, já que somente eles poderiam eleger os Tribunos da Plebe,  os quais tinham o poder de vetar qualquer leis, inclusive as emanadas do Senado (Senatus Consultus) e qualquer ato dos demais magistrados e, também,  de intercederem em qualquer ato em favor dos plebeus (“intercessio“). Porém, os atos do Tribuno da Plebe, ao contrário, não podiam ser objeto de veto. Aos Tribunos da Plebe era conferida a sacrossantidade, significando não podendo serem presos e nem seus passos impedidos, nem seus atos obstaculizados. Para completar, eles podiam convocar um Conselho da Plebe, onde somente os plebeus tinham direito a voto, com o poder de promulgar leis (“plebiscita” ou plebiscito).

Não obstante, todo esse poder conferido aos Tribunos e Concílios da Plebe raramente era usado. Eram tempos em que Roma se achava em quase permanente estado de guerra, os magistrados no front de batalha e a administração e a política eram conduzidas, quase que exclusivamente, pelo Senado, ao qual todos reconheciam o patriotismo e a abnegação pela causa romana.Esse regime, teoricamente democrático, na prática começou a ser erodido pelo Senado Romano, dominado pela nobreza, da seguinte forma: os Senadores, uma vez ingressados naquele Corpo, eram vitalícios e invioláveis. Os demais magistrados, porém, exerciam um mandato temporário, normalmente de um ano. Assim, ao deixarem o cargo,  eles podiam ser processados. Essa vulnerabilidade, ao longo do tempo, acarretou que todos os magistrados evitassem agir em desacordo com o Senado, procurando sempre consultá-lo antes de qualquer ato importante, para se garantir contra eventuais questionamentos futuros.

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(A Cúria Júlia, onde se reunia o Senado Romano, foi erguida por Júlio César e reconstruída diversas vezes durante o Império Romano. O prédio atual data do reinado do imperador Diocleciano)

Considerando que as eleições para as magistraturas exigiam campanhas que eram  bem custosas para a esmagadora maioria dos plebeus, frequentemente os candidatos, inclusive para o cargo de Tribuno da Plebe, endividavam-se, ou, quando exerciam outros cargos públicos, desviavam recursos públicos para as suas campanhas, ficando passíveis de serem processados pelos inimigos ao término de seus mandatos.

O que acontecia, então, era que majoritariamente apenas plebeus ricos ou aristocratas supostamente simpáticos à causa da Plebe concorriam ao cargo de Tribuno da Plebe. As poderosas prerrogativas do cargo eram disputadas em concorridas eleições, onde homens ambiciosos despejavam dinheiro para comprar votos dos eleitores plebeus. Os candidatos também frequentemente recorriam a bandos armados, com o objetivo de intimidar os adversários pela violência.

Logo, o Senado percebeu que poderia controlar os comícios da plebe se controlasse os Tribunos, já que eram eles que convocavam e presidiam essa assembleia popular.  E, não poucas vezes, na História de Roma constata-se que houve Tribunos que,  na realidade, atuavam em favor dos interesses da elite, como se fossem verdadeiros “pelegos“.

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A aparente constituição democrática de Roma, assim, na prática, degenerara em uma disputa parecida com as que hoje vemos em nações do chamado “3º Mundo”, temperada por aspectos de uma guerra entre “famiglias” da Máfia Italiana,  cenário aliás muito bem retratado nos primeiros episódios da minissérie “Roma”.

Enquanto isso, a expansão de Roma exasperava as contradições políticas, econômicas e sociais internas. Era necessário dar participação política às elites das inúmeras cidades incorporadas ou fundadas não só na Itália, mas também no Sul da França, Espanha, Norte da África e na Grécia.

Mais importante, havia a questão da grande extensão de terras agriculturáveis anexadas ao “Ager publicus” e que eram cedidas para um grupo seleto de nobres senadores ou para ricos integrantes da classe equestre. Essas terras eram exploradas em sistema de latifúndios, cultivados em larga escala com o emprego da grande massa de escravos que resultava das vitórias militares. Tal fenômeno expulsava do campo o pequeno agricultor livre, outrora o esteio do poder militar romano, incapaz de competir com os latifúndios operados em grande escala comercial. Esses pequenos agricultores falidos migravam para a Cidade, à procura de trabalho, engrossando as fileiras do Proletariado. Assim, a fenda entre os aristocratas ricos e o resto não parava de aumentar…

Ademais, essa massa de proletários para sobreviver procurava a proteção de nobres poderosos, que assumiam o seu patrocínio, aumentando a sua clientela (sendo o Clientelismo uma instituição particularmente romana,  na qual se instituíam deveres entre Patrão e Cliente). Não demorou para que a aumentada clientela corrompesse o sistema eleitoral, sob a fórmula “distribua uma esmola e reclame um voto“.

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(Na imagem, clientes comparecem ao ritual conhecido como “salutatio”, o comparecimento matinal da clientela à residência do patrono para demonstrar consideração, aproveitando para pedir algum benefício ou oferecer seus préstimos)

O problema atingiu tal dimensão que provocou o surgimento, dentro da própria nobreza senatorial, de um grupo que defendia uma profunda reforma no sistema político e na estrutura socioeconômica romanos. O estreito contato com a cultura grega propiciado pela anexação das cidades fundadas pelos gregos no sul da Itália e, posteriormente, com a anexação da própria Grécia, permitiu a difusão das mais avançadas teorias políticas e filosóficas gregas no seio da elite romana.

Surgiu, consequentemente, na elite romana, uma corrente que percebia que o sistema político de Roma apodrecia, exemplificando o famoso conceito grego sobre os ciclos de degeneração das formas de organização política dos Estados: monarquia/tirania-aristocracia/oligarquia-democracia/demagogia.

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(O denário de prata mostra um eleitor romano depositando o voto na urna)

O primeiro político romano a seriamente propor e executar uma ação visando a reformar esse Sistema foi Tibério Semprônio Graco

Tibério Graco era um jovem político que trilhava a tradicional carreira das magistraturas mas que havia se decepcionado bastante com o Senado, pois este repudiara um tratado que ele havia negociado como Questor na Espanha.

Consta que no trajeto de volta da Espanha, Tibério Graco teria constatado o abandono das pequenas propriedades rurais na Etrúria, substituídas por grandes fazendas escravistas. Ele resolveu concorrer ao cargo de Tribuno da Plebe e ganhou a eleição, em 133 A.C.

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Para lidar com o problema, Tibério Graco propôs a “Lex Sempronia Agraria” – que pode ser considerada  a primeira lei de reforma agrária – prevendo a distribuição das terras devolutas, inicialmente aos soldados veteranos e, depois, ao proletariado romano. As terras que tivessem sido ilegalmente distribuídas aos ricos, em contrariedade à antiga Lex Licínia, que previa uma quantidade máxima de terra pública passível de ser cedida a particulares (mas que era largamente ignorada), deveriam também, segundo a Lex Sempronia, serem redistribuídas para os pobres, mediante o pagamento de uma indenização aos seus atuais possuidores, que, no entanto, ainda poderiam ficar com uma determinada fração delas.

A maioria conservadora do Senado se aglutinou e se opôs à Lex Sempronia, alegando que a medida abalava os fundamentos da República e fomentava a revolução social. Essa oposição cresceu,  sobretudo depois que  Tibério Graco, passando por cima do Senado, apelou ao Conselho da Plebe para aprovar a nova lei,  uma medida que,  apesar de estar de acordo com o Direito Romano, era incomum.

O Senado conseguiu convencer o outro Tribuno da Plebe, Otávio, a vetar a Lex Sempronia. Tibério Graco, entendendo que o veto de Otávio contrariava a própria finalidade do cargo de Tribuno – a de defender a Plebe contra a opressão dos nobres – submeteu  à questão ao Conselho da Plebe, pedindo que votasse pela deposição do colega. Após a votação ter começado, Otávio vetou o próprio ato que determinara a votação de seu afastamento. Graco, então, teria mandado retirar Otávio à força da assembléia e a votação prosseguiu, decidindo pelo seu afastamento.

Segundo outra versão, do historiador Apiano, quando a 18ª Tribo de Plebeus, de um total de 35, votou pela deposição do seu colega, Tibério Graco apenas cumpriu a decisão, removendo Otávio porque ele não era mais Tribuno. A diferença entre as versões é relevante, pois, como vimos, um Tribuno da Plebe era sacrossanto, e, portanto, a ação de Graco teria sido formalmente ilegal, caso a primeira delas seja a verdadeira.

O povo saudou Tibério Graco como um verdadeiro herói e, pressionado, o Senado autorizou a formação de uma comissão agrária para implementar a Lex Sempronia. Porém, desde o início, os senadores conservadores tentaram sabotar a execução da lei, liberando apenas uma pequena verba para a instalação dos trabalhos da comissão, alegando a insuficiência de fundos no Tesouro.

Entretanto, naquele mesmo ano de 133 A.C, o Rei Átalo III, de Pérgamo, aliado romano, morreu sem herdeiros, legando toda a sua vasta fortuna (e o próprio reino) à Roma.Tibério Graco viu nisso uma chance de executar seus planos e, invadindo a competência que o costume conferira ao Senado de deliberar sobre o orçamento e os assuntos estrangeiros, determinou que parte da herança de Átalo fosse usada para financiar a implementação de sua lei agrária, valendo-se dos seus poderes tribunícios.

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(Átalo III admirava os romanos e deixou o Reino de Pérgamo como herança para Roma)

O acirramento do confronto entre a maioria conservadora do Senado e Tibério Graco atingiu uma proporção incontornável. Ele foi acusado por Quinto Pompeu, um senador que era seu vizinho, o qual alegava que, nesta condição, soube que Graco havia recebido de presente de um certo Eudemus, de Pérgamo, um manto púrpura e uma coroa de ouro, devido ao fato de este pensar que Graco iria se tornar o Rei de Roma.

Aproximando-se o fim do seu mandato, aumentavam as evidências de que Tibério Graco seria processado pelo crime de violar a sacrossantidade de seu colega Otávio. Assim, Graco decidiu concorrer à reeleição, defendendo a popular plataforma de redução do tempo de serviço militar e de concessão da cidadania romana a povos aliados. Havia rumores de que um amigo seu havia sido envenenado e, por isso, temendo pela sua vida e de sua família, Graco apelou ao povo reunido em assembleia por proteção, e, de fato,  uma multidão passou a acampar em frente a sua casa com o objetivo de protegê-lo, o que lhe granjeou ainda mais simpatia popular.

Tibério Graco foi reeleito. Pouco antes do seu mandato encerrar, ele foi a um comício, apesar de advertido da existência de vários presságios desfavoráveis, estando o povo reunido no Capitólio. Lá ele recebeu a notícia de que os senadores planejavam mata-lo. Seus partidários armaram-se de porretes. Os senadores, já mal dispostos contra Tibério, interpretaram esse gesto como uma insurreição na qual seus partidários pretendiam coroá-lo rei, e exigiram que o cônsul enviasse as tropas para reprimi-la. Com a recusa deste, os próprios senadores, acompanhados de sua clientela, armaram-se de porretes e foram atacar o grupo de Tibério.

Na confrontação que se seguiu,,Tibério Graco e 300 de seus seguidores foram mortos a porretadas e pedradas e seus corpos jogados no Rio Tibre. Consta que o primeiro golpe contra a cabeça de Tibério Graco foi dado por seu novo colega, o Tribuno Publius Satyreius. Segundo Plutarco, esta foi a primeira vez que um conflito político entre cidadãos em Roma degenerou em um banho de sangue. Em seguida, vários partidários de Graco foram exilados, presos e até executados sem julgamento.

Temendo a reação do povo indignado, o Senado informou que iria implementar a Lex Sempronia, mas na prática, ele continuou impondo várias dificuldades para a sua execução.

As tensões e contradições políticas e sociais que Tibério Graco tentou solucionar não morreram com ele. Uma década mais tarde, seu irmão, Caio Graco tentou aprovar um programa ainda mais radical do que o de Tibério. Considerado então o melhor orador de Roma,  Caio foi eleito Tribuno da Plebe em 123 A.C. Em uma trajetória parecida a do seu falecido irmão, ele também acabou sendo falsamente acusado de crimes e morto em um conflito sangrento entre facções.

Eugene_Guillaume_-_the_Gracchi(Escultura “Os Gracos”, de Eugene_Guillaume)

Com a morte de Caio Graco, em 121 A.C, torna-se explícita a divisão da política e do Senado romanos em duas facções: a maioria conservadora aglutinou-se em um grupo que foi batizado de “Optimates” (literalmente, os “Muito Bons” ou “Ótimos”), que entendiam que a República deveria ser conduzida pelo Senado, mantendo-se as leis e costumes tradicionais (mos maiorum) em benefício dos cidadãos romanos tradicionais, sobretudo os Nobres; Por sua vez, aqueles que defendiam que o poder deveria emanar dosConcílios da Plebe, limitando o poder do Senado, que a cidadania deveria ser estendida aos povos aliados e que a maior parte dos recursos do Estado deveria ser empregada em benefício dos cidadãos mais pobres, foram chamados de “Populares“. Optimates e Populares não devem, entretanto, ser considerados partidos políticos no sentido moderno.

Death_of_Gaius_Gracchus(A morte de Caio Graco, pintada em 1792. Por François Topino-Lebrun )

A partir de então, a oposição entre Optimates e Populares, quase sempre degenerando em violência e guerra civil, marcaria a política romana até o fim da Guerra Civil do 2º Triunvirato e a ascensão de Augusto como primeiro imperador, em 27 A.C.

Quinze anos depois da morte de Caio Graco, a questão social, segundo Plutarco, havia piorado ainda mais e as reformas dos Gracos tinham sido abandonadas pelo Senado. Aumentava sem parar a massa de proletários expulsos de suas terras e cada vez mais o número de cidades e territórios controlados pelo Estado Romano, sem que os aliados tivessem qualquer participação política e gozassem dos inúmeros direitos conferidos aos cidadãos romanos.

Esse período é marcado pela ascensão de Gaius Marius (Caio Mário), um brilhante general sem estirpe que conseguiu ser eleito Cônsul, tornando-se um “Homem Novo” (Novus Homo). Mário era hostil ao Senado e  também é considerado um integrante da facção dos Populares.

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A principal reforma de Mário, fundamental na História de Roma, foi reorganização do Exército Romano. Até então, somente cidadãos livres que fossem proprietários de terras podiam ser recrutados como soldados, já que eles deveriam pagar o seu próprio uniforme e equipamento. Porém, o aumento demasiado dos latifúndios cultivados por escravos levou a uma grande diminuição do número de pequenos proprietários rurais (proletarização), prejudicando o recrutamento militar. Mário instituiu que o Estado deveria pagar um salário e fornecer armas e vestuário para os soldados, criando um exército permanente que recrutaria, basicamente, os proletários urbanos de Roma e das cidades italianas. Terminava, assim, a era da milícia de cidadãos e inaugurava-se a era do primeiro exército profissional moderno da História.

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( Um típico legionário romano após as Reformas de Mário. Os soldados ficariam conhecidos como “Mulas de Mário” por terem que carregar todo o seu equipamento)

Mário era casado com Júlia, irmã do pai de Caio Júlio César, e portanto, era tio deste. Ele seria cônsul por 7 vezes, entre 107 A.C. e 86 A.C., frequentemente entrando em atrito com a maioria conservadora do Senado Romano. Mário seguiu uma linha de atuação política que pode ser descrita como “populista”.

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(Denário de Mário. Difícil não associar a imagem do agricultor lavrando o solco com as políticas defendidas pelos Populares)

Os Optimates encontraram seu campeão na pessoa do ultraconservador e tradicionalista Lucius Cornelius Sulla (Lúcio Cornélio Sila), membro de uma antiga família patrícia, ele também um prestigiado general.

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O conflito entre Mário e Sila ecoava a disputa entre os Populares e os Optimates. No momento em que ambos disputaram importantes comandos militares, Mário, ilegalmente, ignorou a designação de Sila pelo Senado, levando este a se insurgir militarmente.

Após derrotar as forças de Mário em combate, Sila marchou contra a própria Roma e entrou, à testa de suas forças, no “Pomerium” (fronteiras sagradas da cidade de Roma), o que era expressamente proibido pela lei romana. Ele foi o primeiro general romano a ousar praticar esse fato, considerado como um grande sacrilégio. Sila perseguiu os partidários de Mário e revogou a maior parte dos seus atos. Mas Mário conseguiu escapar e se exilou na África.

Entretanto, Sila foi obrigado a deixar Roma e ir combater Mitridates, poderoso Rei do Ponto, na atual Turquia, que havia ordenado o massacre de milhares de civis romanos naquela região (as fontes relatam que 80 mil romanos foram mortos).

Aproveitando a situação, Mário voltou da África e conseguiu assumir de novo o governo, sendo eleito para o seu sétimo consulado. Mas,  sendo ele já velho e estando muito doente, Mário acabou morrendo no meio do primeiro mês de seu mandato, em 86 A.C., aos 70 anos de idade, deixando no poder seu colega de consulado, Cina, um correligionário político que apoiava a facção dos Populares. Deve-se observar que esta última volta ao poder de Mário também foi marcada pela perseguição sangrenta aos seus inimigos políticos.

Com a morte de Mário, Cina ficou no poder, ocupando sucessivos consulados até 84 A.C,. Nesse período, ele adotou medidas que faziam parte do ideário dos Populares, como por exemplo, a concessão de cidadania aos italianos, até ele ser morto pelas suas próprias tropas quando elas se preparavam para ir lutar contra Sila.

Neste mesmo ano de 84 A.C., Caio Júlio César casou-se com Cornélia, filha de Cina, o que demonstra a plena inserção do jovem sobrinho de Mário na facção dos Populares.

Quando Sila retornou à Itália e assumiu o governo, sendo nomeado Ditador, ele desencadeou uma grande perseguição aos simpatizantes de Mário e da facção dos Populares, chegando a executar 1.500 nobres e 9 mil pessoas no total, além de exilar outros tantos. E um dos que tiveram que fugir para preservar a vida foi o jovem Júlio César. Logo, familiares e conhecidos do rapaz apelaram a Sila para que ele fosse poupado. Porém, quando o Ditador exigiu que César se divorciasse de Cornélia,  aquele galantemente recusou-se. Sila, mesmo assim, vencido pela insistência dos pedidos, concordou em poupar o rapaz, não sem antes advertir aos senadores:

Há vários Mários em César“…

Como Ditador, as leis e decretos instituídos por Sila ordenaram a restauração dos privilégios do Senado e a restrição do poder legislativo dos Concílios e dos Tribunos da Plebe, que foram transformados praticamente em meros defensores públicos de indivíduos de condição humilde. Ele também regulamentou o Cursus Honorum e o número das magistraturas, aumentando em consequência o número de senadores de 300 para 600 membros, com a finalidade de cimentar a coesão da elite e proporcionar que o Senado pudesse executar mais funções administrativas. Por fim, ele também declarou MárioInimigo do Estado“, mandando banir quaisquer referências à sua memória (damnatio memoriae).

Surpreendentemente, acreditando ter restaurado o poder do Senado, Sila decidiu voluntariamente se retirar da vida pública e voltar para suas propriedades, em 81 A.C, falecendo, provavelmente de cirrose ou úlcera gástrica, em 78 A.C.

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Mesmo que essa não fosse a intenção deles, na prática, Mário e Sila implodiram as fundações da República Romana, pois as ações de ambos demonstraram que as assembleias políticas, tanto a dos plebeus (Concílios), quanto a dos nobres (Senado), não tinham mais o poder de solucionar e arbitrar os conflitos de interesses entre os grupos políticos e as classes sociais.

Agora, o palco estava montado para um tipo diferente de espetáculo e para  que os atores pudessem atuar nos papéis principais,  não bastava que eles tivessem talento político, mas, além disso,  deveriam também ser bons generais…

De fato, após Mário e Sila,  seria aos generais ambiciosos que as duas facções políticas do Senado iriam recorrer, e as disputas políticas  agora seriam resolvidas no campo de batalha.

Mário de fato criara as condições para isso, ao conceber um exército de soldados profissionais recrutado entre proletários desempregados que deviam seu emprego e sua lealdade ao Cônsul que os recrutara. E fora Sila o primeiro a se valer de um exército como esse para entrar em Roma à força com o objetivo de derrubar o governo, realmente criando o precedente, e também inaugurando o costume de recompensar regiamente os seus veteranos com as terras confiscadas dos adversários políticos proscritos.

Um desses generais ambiciosos foi Gnaeus Pompeius (Cneu Pompeu). O Senado, sem dispor de meios militares, já tinha se valido do jovem e talentoso general para derrotar as forças contrárias a Sila , na Sicília e na África, e depois as de Lépido, que pretendia restaurar o poder dos Tribunos e realizar outras reformas de interesse dos Populares.

Pompey the Great. Marble. Beginning of the 1st century A.D. Inv. No. 733. Copenhagen, New Carlsberg Glyptotek.(Cabeça de mármore de Pompeu, o Grande)

Em um indício de que a ordem tradicional estava com os dias contados, o Senado, quebrando todos os precedentes, concedeu a Pompeu a honra de celebrar dois triunfos, apesar de ele  sequer ser um magistrado e, em 70 A.C, ignorando todas as normas, ele foi nomeado Cônsul, embora não fosse um senador.

Ironicamente, Pompeu conseguiu compelir o Senado a fazer isso aliando-se com ninguém menos do que os Populares, os quais, até então, ele havia perseguido. Para obter o apoio deles, Pompeu comprometeu-se a revogar os decretos de Sila que retiraram os poderes dos Tribunos da Plebe e dos Concílios.

Foi nessa época que Caio Júlio César entrou oficialmente na política, e a sua adesão à causa dos Populares ficou explícita quando, em 69 A.C, ele, no funeral de sua tia Júlia, a viúva de Mário, pronunciou um discurso fúnebre, onde exaltou a memória de seu tio Mário, discursando a frente de uma imagem do grande general falecido, coisa que não era vista em Roma desde o governo de Sila,  por força da damnatio memoriae.

E foi, de fato, como integrante da facção dos Populares que César seguiu a carreira política, em um período de acirramento da oposição entre eles e os Optimates. O astuto César, contudo, também procurou mostrar-se palatável para os conservadores, como ilustra o fato dele, tendo recém ficado viúvo de Cornélia, ter se casado com Pompéia, que era neta de ninguém menos do que Sila, o inimigo figadal dos Populares, sendo que o casamento ocorreu em 67 A.C.

Contudo, para ganhar eleições e atingir os cargos mais altos, César, como todos os demais políticos romanos, precisava de muito dinheiro, e ele já tinha se endividado bastante para se eleger para o cargo de Questor. Portanto, de muita utilidade tornou-se a sua recente amizade com o aristocrata Marco Licínio Crasso, um dos homens mais ricos de Roma, que disputava a primazia política com Pompeu ( eles tinham sido colegas de consulado, em 70 A.C.). Note-se que Crasso também apoiara, como Cônsul, a restauração dos poderes dos Tribunos da Plebe, apoio este que o afastou da facção dos Optimates, aproximando-o dos Populares.

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(Cabeça de mármore de Crasso, foto de Gautier Poupeau )

Com o apoio financeiro de Crasso, César conseguiu se eleger para o cargo de Edil, em 65 A.C. Os Edis eram magistrados encarregados de vários serviços urbanos em Roma, incluindo a promoção de jogos públicos, e César aproveitou este cargo para agradar a Plebe promovendo espetáculos suntuosos, o que obviamente tornou-o muito popular. Começava, assim, a nascer a política do “Pão e Circo” (“Panem et Circensis“)…

Depois de exercer a edilidade, César gastou rios de dinheiro na eleição para o prestigioso posto de “Pontifex Maximus“, o chefe dos cultos oficiais do Estado e, apesar dele não ser o favorito, César venceu o certame, em 63 A.C.

Então, a política em Roma tinha-se tornado altamente violenta e corrupta, e a República em frangalhos convidava os homens ambiciosos a tentarem a sorte na disputa pelo poder supremo, o que, obviamente, encontrava obstáculo no tradicionalismo da elite senatorial. Para ocupar os cargos mais importantes, contudo, os sequiosos de poder ainda precisavam de votos.

O aristocrata Lúcio Sérgio Catilina foi um desses políticos que, através da demagogia e dos subornos, atraía uma grande clientela e seguidores. Como ele não conseguira ser Cônsul, por ter sido barrado por Marco Túlio Cícero (ele também um “Novus Homo“), Catilina uniu-se à facção dos Populares e passou a defender uma nova lei agrária ampliando a Lex Sempronia .

Cicero_(1st-cent._BC)_-_Palazzo_Nuovo_-_Musei_Capitolini_-_Rome_2016(Busto de Cícero, nos Museus Capitolinos, foto de José Luiz Bernardes Ribeiro)

Contudo, não obtendo sucesso nas eleições de 63 A.C, apesar de apoiado por Crasso e César, Catilina arquitetou uma conspiração visando suprimir o próprio Senado Romano, em uma trama que foi descoberta e denunciada publicamente por Cícero em sessão do Senado, em suas famosas “Catilinárias“. Desse modo, Catilina foi facilmente derrotado e morto pelas tropas legalistas.

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César, embora fosse aliado de Catilina, não teve participação na conspiração, chegando até a informar Cícero da trama, Não obstante,  César defendeu, nos debates no Senado, que os conspiradores presos não deviam ser executados, como queriam Cícero e o senador ultraconservador Catão, uma vez que a lei não previa nem a pena de morte, nem que a instância para o julgamento pelo Senado, para aquele tipo de caso. Mesmo assim,  os conspiradores foram executados, por ordem ou instigação de Cícero, alegando-se motivos de “Segurança do Estado“.

Apesar da conspiração de Catilina ter colocado em risco a sua carreira política, César conseguiu se eleger para o cargo de Pretor, em 62 A.C. E, segundo a lei romana, após cumprir este mandato, ele fazia jus a ser indicado para governar uma das províncias romanas, no seu caso, a Hispânia, como Propretor. Os costumes romanos admitiam que o governador ficasse com uma parte dos tributos arrecadados dos súditos provinciais, sem falar do produto do que fosse saqueado das tribos ainda rebeldes, desde que não houvesse muitos exageros no processo. Assim, após assumir o governo da província, César, após derrotar várias tribos celtiberas, aproveitou esta oportunidade para conseguir o dinheiro necessário para pagar a sua legião de credores em Roma.

Entrementes, naquele ano, após uma prolongada e vitoriosa campanha militar no Oriente, Pompeu voltou à Roma, e, para a surpresa geral de todos, ele entrou na Cidade como um simples cidadão e sem exército. Provavelmente, foi um gesto politicamente calculado para obter o apoio do Senado e do povo, demonstrando ser ele, Pompeu, um cidadão cumpridor da lei e dos costumes tradicionais.

Contudo, Pompeu não gozava nem da simpatia dos conservadores, devido à revogação das leis de Sila que restringiam o poder tribunício, nem dos Populares, dado o seu histórico de lutas contra os mesmos. Assim,  o Senado decidiu não recompensar os soldados veteranos de Pompeu com terras, deixando-o muito contrariado.

Assim, quando César voltou à Roma, no ano 60 A.C, ele viu a oportunidade de conjugar sua ambição com as dos dois homens mais poderosos de Roma: Pompeu e Crasso, pois ambos estavam insatisfeitos com os Optimates que controlavam o Senado. Eles, então, formaram a aliança política que ficou conhecida como o “Primeiro Triunvirato”.

A aliança política foi cimentada pelo casamento de Pompeu com Júlia, filha única de César. Vale ressaltar que, mesmo se tratando de um casamento arranjado, e apesar da diferença de idade entre os noivos (ele tinha 47 anos e ela, 24), os esposos acabariam se apaixonando, e,  anos mais tarde, Pompeu sofreria muito com a morte prematura de Júlia, no parto de uma menina que também não sobreviveu).

Com a eleição de César para Cônsul, em 59 A.C. o Triunvirato assumiu o poder de fato em Roma. Apesar da violenta oposição dos Optimates, liderados por Catão, o Jovem, e do seu colega de consulado, Bíbulo, também integrante da facção, César conseguiu aprovar uma legislação dando terras na Campânia para os veteranos de Pompeu. Ele também conseguiu perdoar um terço das dívidas de impostos dos agricultores. Por sua vez, o seu correligionário Clódio conseguiu aprovar uma lei especial determinando o exílio de Cícero, como punição pela execução dos conspiradores de Catilina sem julgamento. Essa mesma lei também designou o adversário Catão para governar a distante Chipre, o que equivalia, na prática, a um exílio, afastando-o do Senado. Contudo, muitas dessas iniciativas de César foram executadas em desacordo com a lei romana, algo que o deixaria vulnerável à retaliação dos adversários, em tempos futuros.

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(O chamado “Busto de Tusculum” é considerado pelos especialistas o único busto existente que foi produzido durante a vida de César)

Os Triúnviros também decidiram dividir o governo das províncias romanas entre si e, então, César escolheu controlar as Gálias Cisalpina e Narbonense, além da Ilíria, autonomeando-se Procônsul, com mandato de 5 anos, a partir de 58 A.C.

A escolha da Gália tinha um motivo: César constatara que lhe faltavam as glórias militares de Pompeu , que já havia derrotado Sertório, na Espanha, a rebelião do gladiador Espártaco (junto com Crasso), na Itália, os piratas do Mediterrâneo e o rei Mitridates, anexando o Reino do Ponto à Roma, entre outras vitórias, as quais lhe valeram o apelido de Magno, ou “o Grande” e, ainda, em menor escala, os louros de Crasso.

Assumir o governo da Gália permitiu a César arquitetar o plano que lhe colocaria no mesmo plano dos seus colegas: A anexação da Gália Transalpina, povoada pelos temidos gauleses, que, séculos atrás, em 390 A.C, tinham até saqueado e incendiado Roma. O pretexto foi a necessidade de fazer um ataque preventivo, devido ao fato de tribos aliadas dos romanos terem sido atacadas por gauleses e germânicos que, supostamente, pretendiam migrar para a Gália Cisalpina, ou seja, a parte da Itália que fica ao sul dos Alpes.

Em nove anos de guerra, César derrotou completamente os gauleses e anexou toda a Gália. Para alguns, essa teria sido a maior contribuição de César à História, pois, sem isso, não existiria a França e, consequentemente, a Europa e sua civilização seriam completamente diferentes.

A vitória na Gália deu a César não somente uma aura de herói nacional e de general brilhante, mas também o exército mais disciplinado e bem treinado de Roma, além de muito dinheiro proveniente dos saques, afinal os gauleses eram um povo muito próspero.

Mas, enquanto César lutava na Gália, ele certamente mantinha um olho nos assuntos domésticos…

Com efeito, em Roma, o cimento que mantinha unido o Triunvirato começava a amolecer…Pompeu, aparentemente se ressentia do brilho das conquistas militares de César, as quais ameaçavam ofuscar as suas próprias. Talvez por isso, ele manobrou para trazer Cícero de volta à Roma e os dois acabaram se aproximando.

Em 57 A.C., Pompeu recebeu poderes extraordinários do Senado para cuidar do abastecimento de cereais de Roma, o que o colocava em uma excepcional posição em relação aos outros dois colegas, no que tange a capacidade de angariar as simpatias da Plebe. Já as relações entre Crasso e Pompeu, que nunca tinham sido boas, também iam de mal a pior.

Os nobres conservadores aproveitaram as dissensões entre os Triúnviros e conseguiram eleger um dos seus integrantes como Cônsul para o ano de 56 A.C. Por sua vez, Cícero questionou a legalidade da nomeação de César para o governo da Gália.

Percebendo o risco ao Triunvirato e a si mesmo, César deixou o comando da campanha da Gália com seus lugares-tenentes e convocou Pompeu e Crasso para uma reunião em Lucca, cidade romana na fronteira da Itália com a Gália Cisalpina, em abril de 56 A.C.

Nesse encontro, que passaria à História como a “Conferência de Lucca“, César, Pompeu e Crasso resolveram as suas diferenças, estabelecendo que os dois últimos seriam candidatos a Cônsul no ano seguinte, com o apoio de César. Assegurada a eleição, os novos cônsules promulgariam uma lei prorrogando o mandato do proconsulado de César na Gália por mais 5 anos, sendo que, após o término do consulado de Pompeu e Crasso, eles seriam designados procônsules, respectivamente da Hispânia e da Síria, também pelo prazo de 5 anos.

O adversário de Crasso e Pompeu na eleição para o consulado de 55 A.C, era Lúcio Domício Enobarbo, um fervoroso membro da facção dos Optimates, casado com a irmã do líder Catão, o Jovem. Ele prometeu proibir a prática de compra de votos dos eleitores e revogar o comando de César na Gália. Porém, no dia da eleição, ele foi expulso à força do Campo de Marte pelos partidários dos Triúnviros, com o reforço de mil soldados enviados por César, uma ação que garantiu a vitória de Crasso e Pompeu.

Os novos cônsules executaram os termos do acordo da Conferência de Lucca, através da “Lex Pompeia Licinia“, garantindo a recondução de César para a Gália e o proconsulado da Síria e da Hispânia para Crasso e Pompeu, respectivamente.

O destino, porém, abalaria a recém-obtida estabilidade do 1º Triunvirato: no ano de 54 A.C, Júlia, a filha de César e esposa de Pompeu, morreria no parto e, em 53 A.C, Crasso, também ele sedento de obter a glória militar contra os Partos, seria capturado e morto por estes, após a desastrosa Batalha de Carras, no que foi a pior derrota militar sofrida pelos romanos desde a 2ª Guerra Púnica, 150 anos antes…

O Triunvirato estava, assim acabado, antes de tudo, matematicamente, pela simples eliminação de Crasso. Agora, só restavam César e Pompeu. E não havia também mais a doce Júlia, a quem  o seu pai e o seu esposo eram muito devotados e a quem eles deviam muito a existência de uma relação cordial entre ambos.

Enquanto isso, desde 55 A.C, em campanha na Gália, César realizava algumas das maiores façanhas militares que Roma já vira. Ele havia derrotado um enorme horda de tribos germânicas, os Usipetes e Tencteris, e, na fuga, os sobreviventes derrotados, inclusive mulheres e crianças, totalizando cerca de meio milhão de bárbaros, foram aniquilados, a maioria, acredita-se, afogados, após tentarem cruzar a confluência entre os rios Reno e Mosela. Depois, César mandou construir uma espetacular ponte de madeira sobre o largo Reno e cruzou, pela primeira vez na História de Roma, aquele largo rio, marchando, também de forma inédita, por dezoito dias na margem oriental. Ainda naquele ano, César cruzou o Canal da Mancha e invadiu, também pela primeira vez na História, a Britânia, ficando lá também por  18 dias. E ele ainda voltaria àquela Ilha no ano seguinte.

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Pompeu, apesar de ser governador da Hispânia, permanecera todo esse tempo em Roma, recebendo as notícias das façanhas de César e sendo assediado pelos partidários da nobreza conservadora no Senado, sobretudo após a morte de Crasso, em 53 A.C. Ele certamente não se opôs que o ferrenho opositor de César, Lúcio Domício Enobarbo conseguisse se eleger Cônsul no ano anterior.

Mais sintomaticamente ainda, Pompeu recusou a proposta de César para que ambos celebrassem uma nova aliança matrimonial, na qual Otávia, sobrinha-neta de César (e irmã do futuro imperador Otávio Augusto) lhe foi oferecida em casamento. Para reforçar ainda mais o distanciamento, Pompeu, expressando sua evidente oposição à proposta de renovação da aliança política com o seu colega, casou-se, em 52 A.C., com Cornélia Metela, filha de Quinto Cecílio Metelo Cipião, que era um dos mais empedernidos membros da facção dos Optimates e, portanto, um inimigo figadal de César.

Em 52 A.C, as lutas políticas na cidade de Roma degeneraram em anarquia, com repetidos motins nas ruas, culminando no assassinato do ex-Tribuno da Plebe e membro dos Populares, Clódio,  violências que resultaram inclusive no incêndio do edifício da Cúria do Senado e impediram a eleição dos cônsules naquele ano (Clódio, a bem da verdade, era um dos políticos que mais se valeram do uso político da violência das verdadeiras gangues de rua em que os “collegia”- corporações de ofício de Roma, haviam se tornado).

A situação caótica em Roma obrigou o Senado à medida extrema de nomear Pompeu como único Cônsul para aquele ano. Imediatamente, Pompeu convocou seus soldados e restaurou a ordem na Cidade. Evidenciando ainda mais a sua aproximação com os Optimates, Pompeu nomeou seu sogro Metelo Cipião como seu colega para o Consulado de 52 A.C.

Embora Pompeu ainda resistisse a tomar a iniciativa do rompimento com César, qualquer um que tivesse o mínimo discernimento político perceberia que isso era apenas uma questão de tempo. Na verdade, o motivo pelo qual Pompeu e o Senado somente ainda não haviam tomado nenhuma medida mais efetiva contra César era porque, ainda naquele ano de 52 A.C, estourara uma rebelião geral das tribos gaulesas, recém-conquistadas. Unidos e liderados por Vercingetórix, os gauleses preparavam-se para um confronto definitivo contra as legiões romanas na cidade fortificada de Alésia.

Alesia_8.jpg(Reconstrução das fortificações construídas por César em torno de Alésia, foto de Christophe.Finot )

Contudo, em um mês, César não apenas sitiou Alésia, defendida por 80 mil guerreiros, como ainda derrotou a força gaulesa de 100 mil homens que tentava furar a praça sitiada, que, por sua vez,  tinham cercado os romanos. Foi indubitavelmente uma vitória espetacular que levou o prestígio de César às alturas. Apesar da única fonte sobre a campanha ser os próprios “Comentários” de César, estes são geralmente aceitos como verídicos e acurados, sendo respaldados pelas escavações arqueológicas.

Finalmente, portanto, no final de 51 A.C, após quase 10 anos de luta, César havia submetido a Gália até o Reno, equivalendo à maior parte do território da atual França.

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Terminada a luta na Gália, a facção dos Optimates no Senado imediatamente tratou de tentar decretar o o fim do comando de César para aquela campanha. E tanto os senadores conservadores quanto o próprio César sabiam que, despido ele da condição de governador e sem cargo público, César perderia a sua imunidade, sendo muitos os pretextos para processá-lo e condená-lo, na mais suave das hipóteses, ao exílio.

map 1280px-Europe_-50.png(Terminada a conquista da Gália, o mapa mostra o território da República Romana, em amarelo. Mapa de Cristiano64 / Coldeel)

Com efeito, a iminente perda da imunidade tornava-se aflitiva para César. Assim, em 50 A.C, enquanto ainda na Gália, ele tentou, sem sucesso, concorrer ao cargo de Cônsul, mas sem, contudo, abandonar o Proconsulado da Gália e continuando a comandar seus exércitos na Província, o que era proibido por lei.

César, não obstante as manobras dos Optimates, contava com o apoio do Tribuno da Plebe Caio Escribônio Curião, que, segundo alegava-se, teria sido subornado  por ele mediante o pagamento de suas dívidas por César e, de fato, Curião vetava todos os projetos de lei que pretendiam substituir César na Gália ou terminar o seu mandato.

Curião inclusive propôs uma solução conciliatória entre os partidários de César e a facção dos Optimates: César renunciaria ao comando da Gália, desde que ele recebesse permissão para concorrer às eleições para o Consulado de 49 A.C., com a condição de que Pompeu também renunciasse ao seu comando militar. Essa proposta até encontrou alguma simpatia no grupo de senadores moderados, mas o núcleo conservador do Senado, liderado pelo Cônsul Caio Cláudio Marcelo, se opôs ferozmente a ela e obstruiu a votação de qualquer proposta no mesmo sentido.

Com certeza, os senadores mais sensatos perceberam o risco iminente de uma guerra civil e apoiavam uma solução de compromisso. Assim, quando, na Sessão do Senado do dia 1º de dezembro de 50 A.C., o Cônsul Cláudio Marcelo reapresentou a proposta de substituição de César na Gália, eles, que inicialmente haviam aprovado a remoção, acabaram aprovando, por 370 votos a favor e apenas 22 contra, a emenda substitutiva apresentada por Curião, a qual estabelecia que também o comando de Pompeu deveria ser encerrado.

Marcelo, porém, recusou-se a aceitar o resultado da votação da emenda de Curião e, alegando falsamente que César havia cruzado os Alpes com 10 legiões para invadir a Itália, declarou dissolvida a Sessão, antes da aprovação do texto. Em seguida, rompendo com a ordem institucional, Marcelo e alguns integrantes da facção conservadora partiram para a residência de Pompeu para tentar convencê-lo a assumir o comando de todas as tropas na Itália, implorando que o velho general fizesse o que fosse necessário para “salvar a República”. Pompeu concordou, mas ressalvando que ele faria isso, “a não ser que fosse encontrado um caminho melhor”.

Curião, cujo mandato de Tribuno e consequente inviolabilidade terminariam em poucos dias, prudentemente decidiu fugir de Roma e ir ao encontro de César, que se encontrava em Ravena, fora dos limites da Itália Romana, acompanhado apenas da XIII Legião. Apesar de instado por Curião a marchar sobre Roma, César decidiu fazer uma nova proposta de acordo: Ele seria nomeado governador da Ilíria e manteria sob seu comando apenas uma legião, até a eleição para o consulado de 49 A.C. No entanto, essa proposta foi terminantemente recusada pelos Cônsules.

No dia 1º de janeiro de 49 A.C., César tentou sua última cartada no Senado para manter a sua carreira política: Valendo-se do novo Tribuno da Plebe, Marco Antônio, que, da mesma forma que o seu colega, Longino, eram fiéis colaboradores de César, ele enviou, por Curião, uma carta ao Senado para ser lida em sessão por Antônio. Todavia, quando Antônio começou a ler a carta, após o trecho em que César reiterava a disposição de somente deixar a Gália e desmobilizar o seu exército caso Pompeu fizesse o mesmo, ele foi interrompido aos gritos pelos senadores conservadores, e não conseguiu continuar.

Roman male portrait bust, so-called Marcus Antonius. Fine-grained yellowish marble. Flavian age (69—96 A.D.). Rome, Vatican Museums, Chiaramonti Museum.(Busto de Marco Antônio)

Metelo Cipião, o sogro de Pompeu, propôs que fosse fixada uma data para que César fosse demitido do comando na Gália e dispensasse suas tropas, após o que ele seria considerado “Inimigo Público“. A moção foi aprovada, e os únicos votos contrários foram de Curião e do senador Célio. Muito provavelmente, a explicação para a diferença entre esta votação e aquela ocorrida um mês antes foi a maciça presença de tropas de Pompeu nas cercanias de Roma…

Mas o Tribuno Marco Antônio vetou a moção e apresentou nova proposta para que fosse incluído na lei que o comando de Pompeu também se encerraria na mesma data, sendo essa idéia  novamente bem recebida. Porém, novamente, o cônsul Lúcio Cornélio Lêntulo, apoiado por Metelo, dissolveu a Sessão antes que a lei com as modificações propostas  por Antônio fosse aprovada.

Em 7 de janeiro de 49 A.C, o Senado Romano aprovou o “Senatus Consultum Ultimus” declarando Lei Marcial e nomeando Pompeu como “Protetor de Roma“, isto é, na prática, um Ditador. Como era esperado, essa lei também declarou o término do mandato de César na Gália, ordenando que o mesmo entregasse o comando das suas tropas.

Em seguida, os soldados de Pompeu ocuparam Roma e Pompeu expediu uma nota dizendo que “não poderia garantir a segurança dos Tribunos“…

Marco Antônio e Cássio entenderam bem o recado e fugiram de Roma, indo ao encontro de César. Quando lá chegaram, César percebeu que não havia mais espaço para manobras políticas ou negociações. Ele teria que optar entre obedecer o Senatus Consultum Ultimus, e arriscar a sorte como um cidadão comum exposto à sede de vingança dos inimigos, ou tornar-se um rebelde e um fora-da-lei.

Na verdade, como frequentemente acontece nas guerras, revoluções ou golpes de Estado, as partes rivais sempre alegam um bom pretexto para legitimar a sua ação. O fato é que a fuga dos Tribunos da Plebe, ou, como é mais correto, a expulsão deles de Roma, violando a sua sacrossantidade legal, deu a César um bom pretexto para ele para começar a Guerra Civil.

Rimini088(Coluna de César, em Rimini, erigida para marcar o local onde César discursou para as suas tropas exortando-as a entrarem com ele na Itália. Foto de Georges Jansoone (JoJan)

No dia 10 de janeiro de 49 A.C. (data estimada), César, comandando apenas a XIII Legião, cruzou um riacho chamado Rubicão, que marcava a fronteira da Itália com a Gália Cisalpina. Ao entrar na Itália, ele violou a lei romana e era, tecnicamente, autor de um crime de alta traição. Em suas próprias palavras:

A sorte está lançada!” (alea iacta est).

Começava a Guerra Civil!

Menander_and_New_Comedy_Masks_-_Princeton_Art_Museum.jpg(Relevo do autor grego Menandro, com máscaras de teatro de Comédia. César era grande apreciador da obra de Menandro e a frase “A sorte está lançada”, ou, mais precisametne, “os dados estão lançados’, foi uma citação de uma das peças dele  – Deipnosophistes, livro XIII)

GUERRA CIVIL

Durante a confrontação política que antecedeu a travessia do Rubicão por César, os Optimates cometeram alguns graves erros de avaliação:

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Por exemplo, eles superestimaram a capacidade militar de Pompeu na Itália: Embora Pompeu tenha retido sob seu controle, irregularmente, duas legiões recrutadas por César no sul da Península, elas não eram páreo para a experimentada XIII Legião que lutara com ele na Gália.

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Da mesma forma, os Optimates também levaram em conta a seu favor o fato de que  Pompeu comandaria, teoricamente, todas as forças romanas na Hispânia, África, Egito, Grécia e Oriente, em número bem superior às 8 legiões que César tinha na Gália,

E os Optimates também confiavam  no histórico dos muitos sucessos militares de Pompeu.

Por último, os Optimates acreditavam que, pelo fato de César ter violado a proibição da lei romana de entrar na Itália com um exército,  a maior parte da população da Itália ficaria contra ele, que, ao menos formalmente, tinha se tornado um criminoso.

Mas eles não poderiam estar mais errados….

As legiões da Gália, calejadas por dez anos de guerra cruenta contra os gauleses, naquele momento eram, provavelmente, os melhores soldados do Mundo Antigo; Pompeu era um renomado general, mas estava ficando velho e não comandava uma legião, quanto mais uma campanha, havia vários anos; Ademais, ao contrário do que os Optimates esperavam, no trajeto do norte da Itália em direção a Roma, César foi aclamado triunfalmente em diversas cidades, cujas  respectivas guarnições acabavam por juntar-se ao seu exército.

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Entretanto, nem tudo ia bem para César, pois, durante o avanço sobre Roma, o seu ajudante em mais de 10 anos de luta, o hábil general Labieno, desertou e uniu-se às forças de Pompeu. Não se sabe o motivo exato da defecção de Labieno, sendo que as explicações mais plausíveis são que ele seria um legalista que via a insurreição de César como criminosa ante as leis da República ou, então, o fato de ele estar decepcionado por não ter recebido maiores recompensas por seus serviços, como por exemplo, um consulado, ficando, ainda,  talvez enciumado pela predileção que César demonstrava em relação a Marco Antônio.

Pompeu, mesmo assim, concluiu que a sua melhor estratégia era fugir para a Grécia, onde ele poderia reunir um grande exército e, já que controlava a frota romana, interceptar os carregamentos de cereais para Roma, causando ali uma fome cuja responsabilidade seria atribuída a César, enfraquecendo-o perante a Plebe.

Embora esse não fosse um plano ruim, o simples fato de ele ter que abandonar a Itália, demostra o despreparo com que Pompeu foi pego pela rápida ação de César. E isto apesar de terem sido Pompeu e os Optimates que deram o ultimato ao adversário, motivo pelo qual seria de se esperar que eles, ao menos deveriam estar de antemão preparados.

A maior parte da facção dos Optimates acompanhou Pompeu em sua retirada estratégica da Itália . Portanto, ao contrário de César, que era o indiscutível comandante supremo de suas forças, Pompeu, por diversas vezes, tinha que escutar e levar em consideração os palpites militares dos senadores mais proeminentes, muitos deles sem qualquer experiência bélica…

Não é nosso propósito, todavia, aqui narrar pormenorizadamente os eventos da Guerra Civil, mas apenas traçar um quadro explicativo dos eventos que degeneraram no desfecho sangrento dos Idos de março de 44 A.C.

Senhor da Itália, César, ainda desejoso de respeitar as formalidades legais, convocou os senadores que tinham permanecido em Roma para um encontro, realizado em 1º de abril de 49 A.C, mas muito poucos apareceram. Consta que, ofendido com as ausências dos senadores, César teria dito:

Convidei-os para se reunirem a mim na tarefa de governar Roma. Porém, se a timidez faz com que recuem diante da tarefa, não os incomodarei mais. Governarei sozinho“.

Logo depois, porém, César conseguiu convencer (ou compelir) o Senado a autorizar o uso de um fundo de reserva para construir uma frota. Todavia, em uma demonstração de que seus oponentes ainda tinham poder na Cidade, a medida foi vetada pelo Tribuno Lúcio Cecílio Metelo. Não obstante, César ignorou o veto, entrou em Roma e, ameaçando executar Metelo, lançou mão dos recursos, manu militari.

César, então, partiu para enfrentar o exército de Pompeu na Hispânia.  Este, porém, naquele momento encontrava-se na Grécia, reunindo outro exército. Por isso, César assinalou:

Parto para a Espanha para enfrentar um exército sem general e logo seguirei para enfrentar um general sem exército.”

Em Ilerda, na Espanha, César cercou o exército de Pompeu, que se rendeu em 02 de julho de 49 A.C. A partir desta vitória, César principiou um comportamento em relação aos inimigos vencidos que ele repetiria muitas outras vezes durante a Guerra Civil e que se tornaria uma de suas marcas registradas causando admiração em muitos escritores antigos: a “Clementia” de César (clemência), poupando e anistiando os adversários. Com efeito, em Ilerda,  César concedeu aos inimigos derrotados que não quiseram se juntar ao seu exército, a opção de retornarem para casa como civis.

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Esse era um comportamento tão incomum na antiguidade que o próprio exército de César, pela primeira vez desde que ele se tornara um general, amotinou-se. O motivo da revolta era que os seus soldados esperavam saquear os pertences dos vencidos. O motim, contudo, foi reprimido sem muito custo.

Voltando a Roma, César, em apenas 11 dias de estadia na capital, foi nomeado Ditador por um curto período, o que lhe permitiu convocar a eleição para o consulado de 48 A.C, para o qual ele, naturalmente, se candidatou. Ele aproveitou também para colocar seus correligionários em todos os cargos importantes e, além disso, promulgou várias leis, entre elas uma dispondo sobre o pagamento de dívidas, permitindo que fossem dados bens em pagamento, dado o grande número de romanos endividados em função das turbulências políticas. Finalmente, César também restituiu os direitos civis aos cassados durante o governo de Sila e conseguiu que Pompeu fosse declarado fora-da-lei.

De volta à campanha de César na Guerra Civil, seguiram-se o quase-desastre em Dirráquio e a surpreendente vitória em Farsália, em 09 de agosto de 48 A.C., na qual César lutou em desvantagem numérica de 1 x 3 e onde muitos Optimates foram capturados, apesar de Pompeu ter conseguido fugir para o Egito, onde acreditava que iria ser acolhido pelo faraó Ptolomeu XIII, supostamente seu aliado.

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Porém, o jovem faraó, aconselhado a cair nas boas graças do vencedor, mandou prender Pompeu e decapitá-lo, enviando a cabeça dele para César. Quando ele, perseguindo o adversário, chegou em Alexandria, a História registra que César, ao receber, chocado, a cabeça de Pompeu, chegou a chorar, penalizado com o destino do seu ex-genro. E, em verdade, parece mesmo que nunca chegara a haver inimizade pessoal entre os dois grandes homens de Roma.

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Em Farsália, César pode exercer novamente a política de clemência para os adversários. Antes da luta, ele distribuiu aos seus oficiais uma lista dos partidários de Pompeu que deveriam ser poupados. Entre os nomes, estava o de Marco Júnio Bruto, um senador da facção dos Optimates e filho da amante de César, Servília Caepionis, que era irmã de Catão, o Jovem, o senador que pode ser considerado o verdadeiro ideólogo dos Optimates no Senado.

Seguiu-se o envolvimento de César na disputa pelo trono do Egito e o romance com Cleópatra VII, que resultaria no nascimento de seu único filho homem, chamado de Ptolomeu XV Filópator Filómetor César e que foi apelidado de “Cesarion“.

TRIUNFO E PODER ABSOLUTO

#César #Caesar #idosdemarço

Morto Pompeu, o seu único rival pelo poder supremo, César celebrou os seus Triunfos com uma magnificência jamais vista em Roma. Nos festejos pela vitória na Gália, que tinham sido adiados pela Guerra Civil, vinha, no final da procissão triunfal, Vercingetórix acorrentado (o altivo chefe gaulês seria executado após a cerimônia, como era o costume romano). Houve, ainda, uma batalha naval simulada em um lago artificial e 400 leões foram soltos em um Circo, para serem mortos por quem se dispusesse a pagar uma taxa. E em seu novo Fórum construído perto do antigo, César, presença de Cleópatra e Cesarion, desvendou uma bela estátua de ouro de sua amante e rainha do Egito, ao lado do Templo de Vênus Genitrix,  a deusa que a gens Júlia reivindicava como sendo sua ancestral.

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(Denário de prata de 48 A.C.,  com a imagem de Vercingetórix acorrentado, é a única imagem do líder gaulês capturado e executado após o Triunfo de César, em Roma)

Provavelmente esses festejos foram a maior exibição de propaganda política em toda a História de Roma. Mas os Optimates ainda não tinham sido completamente derrotados… Na África, um exército de 40 mil soldados liderado pelos velhos inimigos Catão, o Jovem e Metelo Cipião, e pelo inimigo recente, Labieno, aos quais se juntaram os filhos de Pompeu, contando com a ajuda do rei Juba, da Numídia, ainda constituía uma ameaça respeitável.

César, após as celebrações de seu triunfo, partiu de Roma e sitiou a cidade de Tapsos, na atual Tunísia. Os Optimates foram forçados a aceitar a batalha campal e o exército de César mais uma vez venceu, em 06 de abril de 46 A.C. Os Númidas fugiram e os 10 mil soldados inimigos que quiseram se render foram mortos pelos soldados de César. Esse massacre não era compatível com a política de clemência que ele vinha adotando desde o início da Guerra Civil. A explicação, segundo Plutarco, é que César, durante a Batalha de Tapsos, perdeu os sentidos devido a um ataque, supostamente epilético, e o desfecho sangrento teria acontecido à sua revelia.

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Catão, o Jovem e Metelo Cipião conseguiram fugir de Tapsos. O primeiro, que não era militar e não participara da batalha, se refugiou em Útica, mas acabou cometendo suicídio ao saber do resultado da luta. Consta que César, ao ser informado da morte de Catão, disse:

“Eu lamento a sua morte, Catão, assim como você teria lamentado se eu tivesse poupado a sua vida”.

Cipião também cometeu suicídio, após ser interceptado pela frota de César, quando tentava chegar com um navio até a Espanha, onde esperavam obter auxílio dos numerosos veteranos de Pompeu que viviam naquela Província.

Vale observar que, especialmente Catão, o Jovem, ao tirar a própria vida, tornou-se um símbolo para os Optimates de uma vida virtuosa e de sacrifício em prol da República. Posteriormente, já durante o Império, o nome dele seria sempre evocado como exemplo pelos senadores insatisfeitos como o Principado e por aqueles que , no futuro, conspirariam contra o despotismo dos imperadores.

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(Busto de bronze de Catão, o Jovem, achado na cidade romana de Volubilis, no Marrocos)

Após essa vitória, César foi nomeado Ditador da República Romana por 10 anos, algo inédito. Ele também foi eleito Cônsul para o ano de 46 A.C. (o que se repetiria nos dois anos seguintes).

O último bastião da resistência dos Optimates era agora a Espanha, onde os filhos de Pompeu, Cneu Pompeu e Sexto  Pompeu, valendo-se do grande número de soldados veteranos do falecido general assentados naquela província, conseguiram reunir um grande exército (incluindo duas legiões que tinham desertado do exército de César). Com isso, eles tomaram toda a Espanha, forçando as legiões leais a César a se refugiarem na cidade de Oculbo. De lá, os sitiados pediram ajuda a César.

César, cuja qualidade mais impressionante como general talvez fosse a velocidade com que conseguia que suas tropas se deslocassem, marchou os 2.400 km que separavam Roma de Oculbo em menos de 1 mês, e, com essa aparição súbita, conseguiu levantar o sítio.

Em 17 de março de 45 A.C, na planície de Munda, após uma feroz batalha que durou 8 horas, o exército de César saiu vencedor. Ele assim definiria a Batalha de Munda, segundo suas próprias palavras:

Inúmeras vezes, eu lutei pela vitória; em Munda, eu lutei pela minha vida !

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Trinta mil soldados inimigos foram mortos na batalha, incluindo o general Labieno. Um dos filhos de Pompeu, Cneu, foi capturado um mês após e morto. Já Sexto, sem exército, somente seria morto por Marco Antônio dez anos mais tarde.

César agora era o senhor absoluto de Roma, para onde voltou para implementar seus projetos de governo, que tinham sido interrompidos pela necessidade de combater os últimos focos de resistência senatorial em Tapsos e Munda.

Inicialmente, derrotados os inimigos, é preciso reconhecer que César, ao contrário de Mário e Sila – que tinham sido os únicos que haviam chegado perto de deter tamanha parcela de poder na República e que se aproveitaram disso para eliminar os desafetos – perdoou seus inimigos e permitiu que eles participassem da administração pública e retornassem ao Senado, sendo os exemplos mais ressonantes, os adversários Cícero, Cássio, Marco e Décimo Bruto.

E o que César tencionava fazer com tanto poder?

César nunca escreveu, ou foi registrado para a posteridade, quais eram os seus planos para a República: se pretendia aboli-la ou meramente reformá-la. Ele também não teve tempo, se é que esse era mesmo o seu propósito, de estabelecer para si uma nova posição como monarca de Roma. Somente podemos inferir, das medidas que tomou após alcançar o poder absoluto, algumas linhas gerais:

Uma diretiva inequívoca de seus planos é dada pelo aumento do número de Senadores e renovação da composição do Senado Romano (que havia sido muito desfalcado pelos anos de guerra civil). César aumentou o número de senadores para 900 e nomeou senadores oriundos de províncias fora da Itália, especialmente gauleses. Esse propósito é corroborado pela permissão de que legionários fossem recrutados nas províncias. De fato, César criou legiões compostas por gauleses, espanhóis e súditos do Oriente. Para isso, a cidadania romana e latina foi concedida amplamente na Sicília, na Gália, na Hispânia e até na Criméia.

Tudo isso constitui um indício de que o plano de César era criar um Império Romano universal e mais inclusivo, e não apenas manter uma dominação de Roma e das cidades italianas sobre colônias ao longo do Mediterrânea, em uma dominação etnicamente latina sobre súditos de outras raças. Nisso, talvez César até evocasse os desígnios de Alexandre, o Grande, um herói por ele admirado desde a juventude,  e cujos atos, inclusive os seus casamentos, manifestavam o propósito do rei macedônio de criar um império mundial que unisse  os gregos e outros povos orientais, como os persas e os hindus.

Podemos cogitar que César não tencionava restaurar a velha ordem republicana. Provavelmente, o Senado não seria mais a instância máxima de poder, funcionando como um conselho consultivo e, em seu governo, não apenas os Optimates, mas também os Populares, não encontrariam lugar, pois, já no início de sua Ditadura, os Concílios da Plebe atuavam apenas para referendar as leis promulgadas pelo Ditador, sem maior debate ou discussão. Nessa linha, César havia abolido os “collegia“, as associações corporativas que participavam politicamente das eleições, e que tinham se transformado em milícias violentas utilizadas para influir nos pleitos.

Vale citar como exemplo o fato de César ter sido o primeiro romano a exercer, concomitantemente, diversas magistraturas republicanas, que podem ter sido formalmente mantidas, mas cuja concentração nas mãos de um único homem era um fato inédito e que constitui mais um indício de que se tratava de uma nova ordem.

Assim, César, além de Ditador pelo longo prazo de dez anos (e em 44 A.C, ele seria nomeado “Ditador Perpétuo“) era, respectivamente: Cônsul e Pontífice Máximo (Chefe da religião) e, além disso, em mais uma inovação, mesmo sem ser Tribuno da Plebe, ele recebia, anualmente, o “Poder Tribunício“, ou seja, detinha todos os poderes inerentes a essa magistratura, inclusive o poder de votar todos os atos administrativos ou legislativos, bem como a “sacrossantidade” daqueles magistrados. Essa fórmula, diga-se de passagem,  seria mantida por Augusto e todos os imperadores que o sucederam. Devemos, contudo, observar que, de certa maneira, a menção expressa ao Poder Tribunício não deixava de ser um reconhecimento de que o Poder emanava do Povo.

O virtual fim da República também foi evidenciado pelas leis que deram a César:

a) o novo cargo de “Prefectus Morum“, encampando as atribuições dos Censores. Com esse poder, César podia nomear ou expulsar do Senado quem ele julgasse que obedecesse, ou não, os costumes morais romanos;

b) o direito de nomear os governadores das províncias para um mandato com prazo fixo, e de recomendar ao povo, para referendo, a metade dos magistrados em Roma;

c) o direito de declarar guerra e de celebrar a paz;

d) o direito de votar em primeiro lugar no Senado (assumindo, na prática, o lugar do “Princeps Senatus“, distinção conferida ao Senador mais antigo ou eminente e que seria a inspiração para Augusto batizar a posição ocupada pelo Imperador, dando o nome pelo qual o novo regime por ele inaugurado seria conhecido: “Principado“);

e) o direito perpétuo de comandar o Exército (“Imperium“, atributo do “Imperator“, ou comandante,  e que, futuramente, também acabaria batizando o governante do novo regime que seria inaugurado por Augusto);

f) o direito de dispor dos fundos públicos; e

g) o direito de promulgar Éditos,  que deveriam ser confirmados sem discussão pelo Senado.

Entretanto, devemos anotar que alguns historiadores não têm certeza de que César pretendesse que as reformas supracitadas fossem permanentes, considerando o fato de que ele, antes de morrer, planejava uma grande campanha militar contra a Pártia. Assim,  talvez essas reformas se destinassem apenas a assegurar a estabilidade do governo, enquanto ele estivesse ausente na planejada guerra.

César também reorganizou a estrutura dos governos municipais das cidades italianas e parece que ele tencionava uniformizar os diferentes sistemas de governo por elas adotados. Considerando que ele fundou diversas cidades, inclusive refundando as destruídas Cartago e Corinto, é possível supor que César compreendia que a força do Estado Romano repousava nas cidades e talvez ele até imaginasse o futuro império como uma confederação de cidades autônomas unidas sobre a autoridade de um governo central. Notavelmente, nas renascidas Cartago e Corinto, César determinou que fossem prestigiadas as populações nativas.

O Ditador César promoveu a reforma de várias leis penais, aumentando a punição para crimes violentos. Ele também instituiu um sistema uniforme de taxas alfandegárias e promulgou uma lei proibindo a exibição de luxo excessivo em público, uma preocupação recorrente dos governos desde quando o enriquecimento da aristocracia romana após as Guerras Púnicas atingiu níveis astronômicos. César também iniciou um vasto programa de obras públicas, visando aproveitar a numerosa mão de obra ociosa do proletariado romano, que aumentou muito após a desmobilização das legiões que se verificou com o fim da Guerra Civil.

O poder absoluto de César e a aura de semi-divindade que ele assumira perante boa parte dos olhos da opinião pública acarretaram que lhe fossem concedido um sem número de honrarias inauditas, como por exemplo: O 5º mês do calendário romano, “Quintilis“, foi rebatizado de “Julius” (Julho), em sua homenagem. Aliás, a reforma do antiquado e astronomicamente impreciso calendário romano, pelo muito mais acurado “Calendário Juliano“, foi uma das grandes contribuições de César para a Civilização Ocidental. E, pela primeira vez na História de Roma, a efígie de um governante foi cunhada nas moedas, a dele. Finalmente, muitos templos e estátuas foram erguidos em sua homenagem.

Surpreendentemente, César, apesar do pouco tempo decorrido desde a derrota militar da facção aristocrática do Senado, em Munda. mantinha seus exércitos fora da Itália e, na cidade de Roma,  ele era protegido apenas por uma pequena guarda pessoal. E mesmo este destacamento foi afastado pouco antes de março de 44 A.C.

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(Busto de César, retratado em seus últimos anos)

OS IDOS DE MARÇO – O ASSASSINATO DE CÉSAR

Nos meses anteriores ao assassinato de César, as fontes antigas narram um certo descontentamento com o seu comportamento soberbo e arrogante, ao menos por parte da elite governante. Suetônio narra que surgiram rumores acerca de conspirações para derrubá-lo e que tais informações tinham chegado anteriormente aos ouvidos de César, que se limitou apenas a advertir publicamente que ele  tinha ciência das mesmas.

A conspiração que resultou no assassinato de César, como não é de surpreender, em vista de tudo que narramos desde a primeira parte de nosso artigo, nasceu no seio dos remanescentes da facção dos Optimates no Senado Romano. O número de conspiradores, nas fontes antigas, varia entre 60 e 90 senadores. Os líderes da conspiração eram Caio Cássio Longino, Marco Júnio Bruto e Décimo Bruto.

Marco Júnio Bruto era filho do pai do mesmo nome e, supostamente, ele era descendente direto do fundador da República Romana, Lúcio Júnio Bruto, que expulsara o último rei de Roma e se tornaria o 1º Cônsul da República. Bruto era filho de Servília Caepionis, que também era meia-irmã de Caio Cássio Longino e que , desde longa época, era notória amante de ninguém menos do que  Júlio César. Alguns suspeitavam até que Bruto pudesse ser filho ilegítimo de César, mas isto é altamente improvável, pois ele tinha apenas 15 anos quando Bruto nasceu. Além disso, Bruto era genro do finado Catão, o Jovem, que se suicidara em Útica após uma vida de lutas contra César. A presença de Bruto entre os líderes da conspiração conferia legitimidade ideológica e histórica ao movimento.

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Bruto sempre foi um integrante da facção dos Optimates no Senado Romano e acompanhou Pompeu na Guerra Civil. Poupado por ordens expressas de César na Batalha de Farsália, Bruto, em seguida, foi admitido no círculo mais íntimo do Ditador e nomeado por ele Governador da Gália, em 46 A.C.

O historiador Nicolau de Damasco, uma das fontes antigas que escreveu em época mais próxima aos Idos de Março de 44 A.C, narra que o círculo de conspiradores foi crescendo, atraindo pessoas que tinham sido prejudicadas pela guerra civil com a perda de seu patrimônio ou de sua posição social, bem como antigos aliados de César que se sentiam preteridos em favor de inimigos perdoados, e, não menos importante, aqueles idealistas que achavam que César estava destruindo a República ou, ainda,  pessoas incomodadas com a idolatria a César.

Não há dúvida de que a Guerra Civil havia deixado feridas abertas na aristocracia romana. Temos um exemplo parecido com o que ocorreu após a Guerra Civil Americana (1861-1865). Aliás, o assassino de Abraham Lincoln, John Wilkes Booth, assumidamente reivindicou ter se inspirado em Bruto e, de fato, após atirar em Lincoln, ele repetiu a frase célebre atribuída a Bruto na cena do assassinato de César, em meio às punhaladas:

Sic semper tiranus!” (Sempre assim com os tiranos!).

A aristocracia senatorial romana era um clube fechado de umas centenas de famílias que se consideravam fundadoras da República, as únicas com direito a exercer o governo, em benefício não só da nação, mas também em seu próprio proveito e, não menos importante, julgavam-se merecedoras de especiais deferência e privilégios. Não é a toa que a carreira política do homem de Estado romano era chamada de “Cursus Honorum“… O direito a essas “honras” era inerente ao papel do aristocrata na sociedade romana. Em muitos aspectos, e não apenas o semântico, em Roma, “Respublica“, na prática, assumia um significado mais parecido com “Cosa Nostra“…

Como vimos no início de nosso estudo, essa aristocracia já havia reagido com violência à perspectiva de perda de seus poderes e privilégios,  inclusive assassinando os líderes da facção dos Populares que ameaçaram a sua posição privilegiada, como ocorreu com Tibério e Caio Graco.

Indiscutivelmente, a nomeação de César como Ditador Perpétuo, em 15 de fevereiro de 44 A.C deve ter desencadeado a conspiração para assassinar César.  E, neste mesmo mês, ocorreu o episódio que muitos historiadores consideram que forneceu o pretexto para o assassinato do Ditador – a acusação de que César pretendia ser coroado Rei.

Com efeito, foi na festa religiosa da Lupercalia que Marco Antônio, um dos celebrantes, completamente nu, colocou, por três vezes, um diadema de ouro sobre a cabeça de César,  e sendo, por três vezes, repelido pelo Ditador. É bem possível que esse ato de Marco Antônio tenha sido encenado de comum acordo para demonstrar que César não tencionava ser coroado rei. Há quem acredite, por outro lado,  que aquela encenação foi um ardil para sondar o sentimento popular,  um teste para verificar se a massa reprovaria o gesto. O  fato é que alguns na multidão realmente aclamaram César como rei, o que deve ter aterrorizado os Optimates.

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Diante disso, a decisão de executar a conspiração de matar César dependia apenas de se decidir sobre o dia, o local e o modo. Os conspiradores logo concordaram que, considerando que César comparecia ao Senado sem escolta, lá seria o local mais fácil de executar o Ditador, além de  poderem  facilmente ocultar os punhais sob suas togas, traje obrigatório para o comparecimento às sessões.

No dia 15 de março de 44 A.C, César acordou e ficou em dúvida se deveria ir ao Senado. Sua esposa Calpúrnia tinha tido um pesadelo em que aparecia uma poça de sangue e implorou para que César ficasse em casa. César. que não era nada supersticioso, decidiu ir. O adivinho Surinna também teria lhe advertido para ter cuidado com os Idos de  Março, mas César fez pouco caso. E, já na rua, em direção ao Senado, ele chegou a receber um rolo de papiro em que alguém delatava a conspiração, porém, guardou o manuscrito sem ler.

A reunião do Senado ocorreria em um recinto existente no Odeon do magnífico teatro construído por Pompeu, chamado de “Cúria de Pompeu”, já que a Cúria tradicional do Senao tinha sido danificada nos tumultos da guerra civil e estava em reparos.

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 (A Cúria de Pompeu, local onde César foi assassinado, é o edifício em forma de templo no meio do semicírculo do Teatro.Computer generated image of the Theatre of Pompey by the model maker, Lasha Tskhondia – L.VII.C)

No caminho para a Cúria de Pompeu, César estava acompanhado de Marco Antônio, mas os conspiradores, sabendo que ele era um sujeito parrudo e com experiência militar, acharam que ele poderia dificultar o assalto a César, e, assim, conseguiram distraí-lo a pretexto de um assunto e separá-lo do Ditador. César entrou sozinho na Cúria.

Os conspiradores esperaram César se sentar e se aproximaram, fingindo apresentar alguns requerimentos, até que o senador Cimber, em um sinal previamente combinado, arrancou a túnica do pescoço do Ditador, que, chocado, reclamou:

“Por quê? Isto é uma violência!”

Então o Senador Casca desferiu o primeiro golpe, mas, devido ao seu nervosismo, este apenas pegou de raspão no pescoço de César, que se virou e segurou a mão de Casca, dizendo:

Casca, seu vilão, o que estás fazendo?

Aterrorizado, Casca gritou, em grego :

Adelphi, boethei !” (“Irmãos, ajuda!”)

Nesse momento, vários conspiradores atenderam ao apelo de Casca, desferindo sucessivos golpes de adaga em César. Segundo Suetônio, quando César percebeu que Bruto estava entre os que o atacavam, ele falou, em grego:

Kai su, teknon?” (“Tu também, criança?”)

Segundo os relatos, César tentou se evadir dos seus atacantes como um leão ferido, mas, quando percebeu que estava perdendo forças, ele deixou-se cair e apenas cobriu a sua cabeça, tentando morrer com alguma aparência de dignidade (durante toda a sua vida, César sempre fora preocupado com sua imagem).

Bruto, em seguida, tentou fazer a sua proclamação, mas todos os senadores, aterrorizados, fugiram da Cúria.

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Foram contadas 23 feridas de punhaladas em César. De acordo com Suetônio, na opinião de um médico, que, pode-se dizer, autopsiou César, apenas uma delas, no peito, tinha sido fatal.

O corpo de César, ironicamente, ficou caído aos pés da estátua de seu maior rival, Pompeu, e jazeu ensanguentado por três horas no chão frio da Cúria, até ser recolhido por seus escravos.

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Bruto e os demais conspiradores se auto-intitulariam “Os Libertadores“. Eles tentaram imediatamente alguma conciliação com os Populares, oferecendo a preservação de todos os atos de César como Ditador e o direito a um funeral público.

Porém, na cerimônia pública de cremação, no Fórum Romano, um discurso de Antônio inflamou a massa e uma turba saiu à caça de qualquer um que fosse suspeito de participação na conspiração contra César.

Os “Libertadores” tencionavam restaurar a República, mas em três anos, todos eles seriam mortos, e o resultado da ação deles foi apenas causar outra Guerra Civil, primeiro para vingar César e depois para decidir quem seria o seu sucessor. É mais ou menos como se alguém tivesse tentado fazer recuar os ponteiros do relógio da História, mas apenas conseguisse segurá-los por 14 anos (até a vitória de Otaviano, o futuro Augusto, em Actium, em 31 A.C.)

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(Denário cunhado pelos “Libertadores” ostentando os punhais usados para assassinar César, o tradicional capacete associado no Mundo Antigo aos que lutam pela Liberdade e a inscrição abreviada “Idos de Março)

A República já havia morrido antes de César lutar e vencer a Guerra Civil e obter o poder supremo, porém seu sucessor Augusto, seria mais astuto em preservar algumas aparências republicanas e conceder algumas deferências à classe senatorial.

(Templo do Divino Júlio, construído no exato local onde o corpo de César foi cremado, no Fórum Romano. A 2ª foto mostra o estado atual da ruína, com os restos do altar. Normalmente, mesmo nos dias atuais,  sempre há flores colocadas  nas ruínas do altar).

Como brilhantemente constatou Cícero, nos meses que se seguiram ao assassinato:

Matamos o Rei, mas o Reino continua entre nós“.

FIM

VALENTINIANO I – O ÚLTIMO GRANDE IMPERADOR

Em 26 de fevereiro de 364 D.C, Flavius Valentinianus (Valentiniano I) foi proclamado Augusto (Imperador) por uma assembléia da qual participaram os mais importantes ministros e governadores do Império Romano, reunidos em Nicéia, na Província Romana da Bitínia, na Ásia Menor.

(Solidus de Valentiniano I, foto de Siren-Com )

O motivo desse verdadeiro, embora incomum, conclave foi a morte repentina do imperador Joviano, ocorrida enquanto ele deslocava de Ancyra para Nicéia. Joviano tinha recentemente ascendido ao trono, imediatamente após a desastrosa campanha promovida pelo imperador Juliano, “o Apóstata”, contra a Pérsia Sassânida, a qual culminara com a derrota do exército romano e a morte do próprio Juliano em combate.

Para salvar a própria pele e conseguir retirar o remanescente do Exército Romano da Pérsia, Joviano teve que assinar com os Persas um humilhante tratado de paz, entregando aos inimigos as cinco províncias orientais que haviam sido conquistadas pelo imperador Diocleciano, quase um século antes, além das estratégicas cidades de Nísibis e Síngara, duas praças-fortes que pertenciam a Roma desde o reinado de Septímio Severo, ainda no início do século III D.C.

Contudo, com a morte inesperada de Joviano, que ainda se encontrava a caminho de Constantinopla para consolidar o seu poder, decidiu-se,  pela primeira vez na História de Roma, ao invés de se resolver a  sucessão pela forma mais usual – a vitória militar de um general contra os seus rivais – pela convocação de uma reunião dos mais importantes funcionários civis e militares do Império. Assim, após a análise de várias opções, os participantes escolheram Flávio Valentiniano, o comandante do regimento de infantaria de elite dos “Scuttarii“, uma tropa de elite que fazia parte do séquito pessoal do imperador.

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(Um scutarii deveria se parecer com este soldado do Baixo Império Romano, em 1º plano)

Valentiniano nasceu em 321 D.C, no sul da Província Romana da Panônia, na cidade de Cibalae (hoje Vinkovci, na atual Croácia), filho de um humilde camponês chamado Graciano (não confundir com o imperador homônimo, que era  filho de Valentiniano).

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(Atual cidade de Vinkovci, foto: Frane Lovošević, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons)

O pai de Valentiniano entrou para o Exército Romano e foi galgando postos até ingressar na unidade de elite dos “Protectores domestici“, que eram os guarda-costas do Imperador Constantino I. A partir daí, Graciano foi promovido a general e conseguiu ser nomeado Conde da África, local onde ele foi acusado de enriquecimento ilícito, sendo, por causa disso, afastado. Não obstante, algum tempo depois, Graciano foi reabilitado, chamado de volta e nomeado Conde da Britânia. Finalmente, depois de exercer esse cargo, Graciano retirou-se da vida pública e voltou para suas propriedades em sua terra natal, na Panônia.

Entretanto, o tempo das boas graças de Graciano duraria pouco, pois o Imperador Constâncio II, alegando que Graciano teria hospedado o usurpador Magnêncio quando este esteve na região da Panônia, mandou confiscar as terras dele.

Durante os anos de serviço do pai, Valentiniano entrou para o exército, provavelmente também como “Protector domesticus” e, do mesmo modo que seu pai, foi sendo paulatinamente promovido.

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No reinado de Constâncio II, os bárbaros Alamanos ameaçaram seriamente a Gália, e, aproveitando-se da guerra civil então travada entre o imperador e Magnêncio, cruzaram o Reno e atacaram várias cidades. Valentiniano, agora servindo como tribuno, sob as ordens do César (príncipe-herdeiro) Juliano, foi encarregado de interceptar um bando de Alamanos que havia atacado Lyon, em 355 D.C.

Todavia, para poder cumprir aquela missão com eficiência, Valentiniano dependia do auxílio de Barbatio, um general que estava envolvido em uma conspiração para prejudicar Juliano. E, naturalmente, o conspirador não tinha nenhuma intenção em ajudar Juliano…Assim, sem o apoio de Barbatio, as tropas comandadas por Valentiniano acabaram sendo derrotadas pelos Alamanos, com grandes perdas.

Valentiniano foi, injustamente, considerado responsável pelo fracasso e afastado do Exército, acabando por ter que ir viver em suas terras em Sirmium, cerca de 55 km da atual Belgrado. Nesse período, nasceu seu filho, que recebeu o nome do avô, Graciano (e que também, futuramente, se tornaria imperador).

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(Mapa da Prefeitura de Illyricum, mostrando a localização da cidade de Sirmium)

Para piorar a sua situação, quando Juliano tornou-se imperador, a carreira de Valentiniano correu sério risco, pois o novo monarca, que até então vinha ocultando o seu apreço pelas religiões pagãs tradicionais, rapidamente colocou em prática medidas para enfraquecer o Cristianismo e recolocar o paganismo em proeminência no Estado Romano. Valentiniano, entretanto, era um notório católico devoto,

Não surpreende,p ortanto, o fato que Valentiniano, após se recusar a assistir ou fazer um sacrifício em uma cerimônia pagã da qual estava obrigado a participar, tenha sido exilado, ou, em uma versão mais branda do caso, tenha sido designado para servir numa província distante, talvez o Egito ou a Armênia.

Foi somente quando Juliano, o último integrante da dinastia inaugurada por Constantino I, morreu, em mais uma campanha romana fracassada na Pérsia (363 D.C), e o novo imperador romano cristão Joviano assumiu, que a sorte voltou a sorrir para Valentiniano. Ele conseguiu ser nomeado comandante dos Scuttari e, consequentemente, agora chefiava uma das mais importantes unidades de elite da Guarda Imperial (Scholae Palatinae).

E foi nesse posto que, como vimos, Valentiniano I foi escolhido como novo Imperador Romano, com a idade de 43 anos, no conclave que citamos anteriormente.

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(“Il Colosso” de Barletta, estátua de bronze de um imperador romano, provavelmente trazida para a Itália pelos Cruzados proveniente do Saque de Constantinopla, e que se acredita retratar Valentiniano I). Foto: User:Marcok, CC BY-SA 2.5 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.5, via Wikimedia Commons

Porém, a situação do Império Romano naquele momento era nada menos do que dramática: No front militar, à derrota na Pérsia e à perda de territórios estratégicos, que colocavam pressão sobre as cruciais províncias da Síria e do Egito, no Oriente, somava-se a crescente ameaça das tribos germânicas no Reno e no Danúbio, no Ocidente, as quais, oportunisticamente, sempre aproveitavam qualquer insucesso militar romano para tentar incursões no território do Império, em busca de saques, ou, alternativamente, extorquir algum pagamento em troca de paz.

E o quadro político interno também não era animador. O breve reinado de Juliano contribuíra para aumentar a intolerância religiosa do Cristianismo triunfante. Começava, assim, a aumentar uma fenda entre a elite de Constantinopla, marcadamente cristã ortodoxa, e a elite tradicional romana pagã, ainda muito influente no Ocidente, sobretudo no Senado Romano.

Eram tempos conturbados,  que imploravam por um líder enérgico, resoluto e incansável, mas também consciencioso, e essas seriam justamente as características mais marcantes de Valentiniano I, em seu reinado.

Não obstante, logo em seguida à proclamação de Valentiniano I, o Exército Romano demandou que ele escolhesse um co-imperador. Tendo em vista que, desde Diocleciano, estabelecera-se um quase consenso de que o Império Romano era extenso e complexo demais para ser governado apenas por um imperador em Roma, e, ainda, a premência da situação militar no Ocidente e no Oriente, dificilmente este comportamento dos generais deve ser visto como uma rejeição à Valentiniano, e sim, mais como o requerimento por uma providência julgada indispensável.

Porém, eu também acredito que, provavelmente, essa reivindicação para que Valentiniano I escolhesse um colega deve ser entendida como uma pretensão daqueles que, em Constantinopla, temiam perder poder com uma reunificação administrativa do Império. O fato é que, um mês depois, Valentiniano I nomeou seu irmão, Valente, como Imperador Romano do Oriente.

Valens_medal,_375-78_AD(medalhão de ouro, de Valente, foto de Sandstein

Valente logo teve que lidar com a revolta de Procopius, um parente de Juliano,  a quaL, porém, foi rapidamente debelada. Depois, ele conduziu algumas campanhas no Danúbio contra os Visigodos, do rei Atanarico, obtendo uma paz em termos favoráveis aos romanos, inclusive parando de pagar o subsídio anual que o Império vinha pagando aos visigodos para não ser atacado.

Valentiniano foi dar combate aos Alamanos.que, em 365 D.C,  invadiram novamente a Gália. Ele estabeleceu-se em Augusta Treverorum (atual Trier, na Alemanha) para conduzir a guerra. De lá, Valentiniano comandou a formação de um grande exército para guerrear contra os referidos bárbaros.

O Autor em frente à chamada “Porta Nigra”, em Trier, antiga Augusta Treverorum, em 2009, onde alguns imperadores do Baixo Império Romano estabeleceram-se para lutar contra os Germanos. Era o portão principal das muralhas da cidade e já tinha mais de 200 anos quando Valentiniano o cruzou

Em 367 D.C, Valentiniano e seu exército cruzaram os rios Meno e Reno e invadiram o território inimigo, inicialmente quase sem encontrar resistência, queimando tudo que encontraram em seu caminho. Os Alamanos então resolveram lutar e travou-se a Batalha de Solicinium, provavelmente ocorrida onde hoje fica a cidade de Hechingem (no atual Estado alemão de Baden-Wurttemburg). Essa região tinha sido abandonada pelos romanos fazia cerca de um século antes e uma vez fez parte dos chamados “Agri Decumates” (campos que pagam o dízimo, um território anexado ainda no século I.

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(Provável lugar da Batalha de Solicinium. No reinado de Valentiniano I, os romanos ainda eram capazes de atacar os Germanos à leste do Reno)

A Batalha de Solicinium foi duríssima, com pesadas perdas romanas, mas os Alamanos foram derrotados. Foi a última vez que um imperador comandou um grande exército romano e conduziu com sucesso uma campanha além da margem direita do Reno.

Nesta campanha, Valentiniano fez-se acompanhar do filho Graciano, com apenas 8 anos de idade. Claramente, portanto, o imperador já demonstrava que o queria para sucessor, pois, naquele ano, o menino foi proclamado Augusto, ou seja, co-imperador.

Valentiniano, entrementes, ainda em 367 D.C, também teve que enfrentar uma grande rebelião na Britânia – um ataque combinado das tribos dos Pictos e Escotos, em conjunto com os invasores saxões que assolavam o litoral leste da Ilha (fato que já havia levado os próprios romanos a batizarem aquele trecho como “Costa Saxã“). Essa ameaça só foi derrotada com muito custo, após a chegada do Conde Teodósio, nomeado por Valentiniano para comandar as forças romanas.

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(Portus Adurni, atualmente Portchester Castle, no porto de Portsmouth, na costa oriental da Inglaterra, fortaleza integrante do sistema romano de fortificações da Saxon Shore (Costa Saxã), Foto: ale speeder, CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Commons

Valentiniano  também conduziu um grande programa de reparo e construção de fortificações ao longo da fronteira Reno/Danúbio, o que irritou os bárbaros germanos, dando-lhes o pretexto para novas agressões.

Outra importante iniciativa de Valentiniano foi recompor os efetivos do Exército Romano, não só preenchendo as lacunas decorrentes das recentes derrotas sofridas, mas até aumentando o seu número, procurando cumprir estritamente o recrutamento anual.

Aliás, um fato notável, que demonstra a dificuldade que constituía o recrutamento naquele período turbulento do Império, bem como a medida da determinação de Valentiniano em restaurar o poderio militar romano, foi a redução da altura mínima exigida para os recrutas: de 1,77m para 1,70m, aumentando, deste modo, a massa da população recrutável.

A maior fonte sobre o reinado de Valentiniano I é o historiador Amiano Marcelino, ele mesmo um ex-militar dos Protectores Domestici, e considerado por muitos como o autor romano que melhor escreveu sobre o Baixo Império Romano.

Segundo Amiano, o imperador Valentiniano

detestava as pessoas bem vestidas, cultas, ricas e bem-nascidas“, sendo ele mesmo “rústico, inculto e, frequentemente, violento“.

Realmente, diversas passagens atestam que Valentiniano era dado a acessos de fúria, sobretudo quando se deparava com erros ou irregularidades praticados pelos subordinados. Mas quanto ao ódio às pessoas cultas, ainda que a acusação de Amiano possa ser verdadeira, o fato é que essa alegada antipatia do imperador não se estendia à cultura em si, pois, consta que Valentiniano mandou abrir várias escolas pelo Império Romano.

Sendo ou não exagerada a observação de Amiano acerca do ódio de Valentiniano às classes altas romanas, o fato é que ele foi reconhecido por várias medidas em favor dos mais pobres e inclusive procurou proteger os humildes das arbitrariedades cometidas pelos poderosos.

Neste particular, uma de suas medidas mais meritórias foi instituir em todo o Império o cargo de “Defensor Civitatis“, cuja principal função era ser um advogado público, em prol dos plebeus contra as injustiças dos poderosos. Portanto, atrevemo-nos a dizer que Valentiniano pode ser considerado um dos patronos da moderna Defensoria Pública.

Coube a Valente  implementar essa política de Valentiniano no Oriente. As palavras dele acerca do cargo de Defensor foram preservadas no preâmbulo de um édito:

Nós propiciamos, mediante um útil projeto, que a inocente paz dos camponeses possa gozar do benefício de uma proteção especial, prevenindo que eles sejam prejudicados e molestados pelas artimanhas de uma disputa jurídica, mesmo quando lhes é devida uma reparação;  porque muitas vezes um advogado ganancioso é desidioso, o oficial que guarda as portas do tribunal é amolecido por grandes propinas, as atas do julgamento são vendidas pelos serventuários, e aqueles que administram a justiça cobram mais em taxas do que um litigante bem sucedido receberia da parte contrária“.

Ao contrário de seus predecessores cristãos da dinastia constantiniana, Valentiniano adotou uma postura tolerante com o paganismo e as heresias cristãs. Ele continuou permitindo, por exemplo, a prática de sacrifícios noturnos, a antiga prática de adivinhações pelos harúspices e os antigos mistérios pagãos.

A.H.M Jones cita as seguintes palavras, escritas a esse respeito pelo próprio Valentiniano, em uma carta:

Eu não considero que qualquer rito permitido por nossos ancestrais seja criminoso, As leis editadas por mim no início de meu reinado são testemunhas disso, motivo pelo qual a todos foi concedida a livre escolha de praticar qualquer religião que a sua vontade determinar“.

Uma política sábia que, infelizmente,  não seria seguida por seus sucessores, e que muitos ainda não seguem, mesmo em nossos dias…

Porém, em 374 D.C, chegou a notícia de que os Quados, o povo germânico que era um velho inimigo de Roma e habitava ao longo do Danúbio,  após aliarem-se aos bárbaros sármatas,  tinham derrotado duas legiões romanas. A causa principal do conflito foram as fortalezas romanas que, seguindo a política de Valentiniano, estavam sendo construídas em território bárbaro.

Valentiniano cruzou o Danúbio em Aquincum (localizada dentro da área da atual Budapeste) e devastou o território dos Quados, voltando para Savaria para passar o inverno.

No ano seguinte, Valentiniano recomeçou a campanha e dirigiu-se a Brigetio, também situada na atual Hungria. Lá, em 17 de novembro de 375 D.C, ele recebeu em audiência uma delegação dos Quados.

Durante a audiência, os Quados reclamaram que os romanos eram culpados da guerra, devido à construção dos fortes. Às condições estipuladas para o fim das hostilidades, que previam que eles deveriam fornecer recrutas para o Exército Romano, os Quados retrucaram que os grupos aliados que não estivessem presentes na audiência não estavam obrigadas a respeitá-las, sendo livres para atacar os romanos quando quisessem.

Furioso com a insolência dos embaixadores quados, Valentiniano I ergueu-se de sua cadeira e começou a gritar, censurando duramente os bárbaros. De repente, o rosto rubro do Imperador congelou-se em uma máscara terrível e a voz  tonitruante dele sumiu…Uma artéria no seu crânio acabara de arrebentar e ele tinha sofrido um derrame, tendo que ser retirado do recinto,  completamente imobilizado, falecendo pouco depois.

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Brigetio, atual Komárom/Szőny, na Hungria, não esqueceu que foi palco da morte de um grande imperador romano, como mostra essa placa moderna em homenagem a Valentiniano I

O filho de Valentiniano I, o jovem Graciano, de apenas 16 anos, foi aclamado imperador do Ocidente, permanecendo seu irmão, Valente, como monarca da parte oriental, em Constantinopla.

No ano seguinte, 376 D.C, chegaria ao Danúbio uma grande e perigosa migração dos Godos.

Essa era uma ameça tremenda, mas que poderia ser enfrentada por um líder capaz, e determinado. Infelizmente, nem Graciano e, menos ainda, Valente, mostrariam-se à altura do desafio.

Assim, em 378 D.C, os Godos derrotariam os romanos na Batalha de Adrianópolis e o Império Romano começaria a longa, mas inexorável, trajetória de sua derrocada. Talvez, se Valentiniano I não tivesse se enfurecido tanto com os Quados em Brigetio, e sobrevivido até Adrianópolis, podemos cogitar que ele não cometeria os erros de Valente. Certamente,  Valentiniano I não teria permitido aos Godos cruzarem o Danúbio, e ele teria jogado contra os bárbaros todo o poder combinado do Exército Romano.

Epílogo

Na cidade de Barletta, na Itália, existe uma enorme estátua de bronze, da época romana, datada do século IV D.C, retratando um imperador em tradicional traje romano de general, segurando um crucifixo. Ela é chamada de “Il Colosso“.

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Não se tem certeza absoluta de quem é o Imperador representado, mas o candidato considerado como o mais provável pelos especialistas é Valentiniano I. A expressão dura, fechada, resoluta e de ar implacável daquele rosto de bronze é um perfeito retrato da personalidade e dos tempos de Valentiniano I.

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FIM

Fontes:

1- “Quem foi Quem na Roma Antiga“, Diana Bowder, 1980, Ed. Círculo do Livro

2- “Declínio e Queda do Império Romano“, Edward Gibbon, 1980, Ed. Círculo do Livro

3- “The Later Roman Empire (AD 354-378)“, Ammianus Marcellinus, 1986, Penguin Books

4- “The Later Roman Empire 284-602, vol. 1“, A.H.M. Jones, The John Hopkins Universitary Press, 1986

ZENÃO I – O BÁRBARO QUE VIROU IMPERADOR

Em 9 de fevereiro de 474 D.C, em Constantinopla, Zenão I é coroado Imperador Romano do Oriente, juntamente com seu pequeno filho, Leão II.

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(Tremissis, moeda de ouro do imperador Zenão, foto Classical Numismatic Group)

Nascido em 425 D.C,  na cidade de Rusumblada (que depois seria rebatizada de Zenopolis), com o nome de Tarasicodissa, ou Tarasis Kodisa, Zenão I era chefe de uma tribo de Isáurios, um povo que, de vez em quando, era recrutado para lutar no exército do Império Romano do Oriente.

Assim, em 461 D.C, o imperador Leão I alistou os Isáurios para servirem na sua recém-formada guarda imperial, chamada de “Excubitores” – expressão que  tinha o significado de “sentinelas” ( literalmente, em latim, quer dizer “os do lado de fora da cama”).

Posteriormente, nos séculos VI e VII, os Excubitores seriam responsáveis por elevar vários imperadores ao trono, e, mais que isso, muitos Comes Excubitorii (Condes dos Exubitores) tornariam-se imperadores bizantinos, tais como Justino I,  o filho dele,  Justiniano I, Tibério II e Maurício.

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(Excubitores, em trajes de gala e de combate, protegendo o imperador)

A iniciativa de Leão de criar uma guarda composta por Isáurios visava diminuir a opressiva influência que os bárbaros germânicos, chefiados pelo  general bárbaro Áspar, exerciam desde o início do século V no governo oriental, pois, naquele momento, os germanos constituíam o esteio militar de Constantinopla.

Os Isáurios eram um povo de índole guerreira que habitava a Província romana da Cilícia, na Ásia Menor (dentro do território da atual Turquia). Apesar da região ter sido conquistada pelos romanos no século I D.C, os Isáurios nunca chegaram a ser totalmente subjugados. Em verdade, ao longo de  séculos de domínio nominal romano, eles foram apenas parcialmente romanizados, mas adotaram o cristianismo ortodoxo (Niceno), um fato que, naquele final do século V, os fazia bem mais aceitáveis para os cidadãos romanos do que os Godos ou Alanos ( os quais professavam a heresia ariana). Apesar disso, os Isáurios ainda eram considerados bárbaros pela maioria dos habitantes do Império.

(Mapa da Isáuria, Montanhas Atlas, que dominam a antiga região da Isáuria -foto de Zeynel Cebeci e o rio Göksu, na região – foto de Klaus-Peter Simon)

Em 466 D.C, marcando uma reviravolta no jogo do poder, Tarasis Kodisa, comandante isáurio dos Excubitores, acusou Ardabur, o filho mais velho do general Áspar de trair o império em favor dos velhos inimigos persas, o que contribuiu para piorar as relações entre Áspar e o Imperador.

Leão I, em 467 D.C, recompensou Tarasis Kodisa pelos seus bons serviços, dando-lhe em casamento a sua filha, a princesa Ariadne, e também reforçando a aliança com o militar isáurio, que, para se fazer mais aceitável para a Corte e para o povo, mudou seu nome para o de origem grega Zeno (ou Zenão). Antes que o casamento completasse um ano, Ariadne deu a luz ao filho de Zeno, que recebeu o mesmo nome do seu avô, o imperador Leão.

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(relevo de Ariadne, em marfim)

Enquanto isso, Áspar tentou recuperar sua posição na Corte persuadindo Leão a nomear seu filho mais novo, chamado Patrício, como “César” (título que na época do Baixo Império correspondia ao de príncipe-herdeiro) e a casá-lo com a outra filha do Imperador, Leôncia. Porém, o clero e a população de Constantinopla se opuseram veementemente às pretensões de Áspar, inclusive promovendo um grande tumulto no Hipódromo da capital, tendo em vista que o general bárbaro e o filho eram cristãos arianos. Assim, devido ao clamor público, Áspar, teve que se comprometer que ele se converteria ao credo niceno, antes que o casamento fosse realizado.

Contudo, após a  pretendida nomeação de Patrício, mas ainda antes do seu casamento, já em 471 D.C.., uma trama urdida por Leão I e Zenão conseguiu assassinar Áspar e seu filho mais velho, Ardabur, no interior do próprio Palácio Imperial. Algumas fontes informam que Patrício também foi morto,  e outras que, ferido, ele conseguiu sobreviver. Devido ao massacre, ocorrido em pleno Palácio, Leão foi apelidado de “O Açougueiro“…

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(Áspar, ostentando o traje e postura tradicional de Cônsul Romano, cargo que ele efetivamente ocupou, junto com seu filho Ardabur, retratado como Pretor – foto de Sailko)

Quando Leão morreu, em 18 de janeiro de 474 D.C,  sem conseguir gerar um filho varão, o  neto dele, e filho de Zenão, com o nome de Leão II, foi coroado imperador, com apenas 7 anos de idade. Porém,  ninguém tinha dúvida de que o homem-forte do Império era Zenão.

E, poucos dias mais tarde, também ninguém ficou surpreso, quando, não dando importância para as aparências, em 9 de fevereiro de 474 D.C, Zenão  foi nomeado Augusto, e, portanto, co-imperador,  junto com o filho.

O reinado de Leão II duraria apenas 10 meses, pois o menino contraiu uma enfermidade não-identificada e morreu em 17 de novembro de 474 D.C., deixando seu pai Zenão I como Imperador Romano de fato e de direito.

Quase dois anos depois, em 4 de setembo de 476 D.C, Rômulo Augústulo, o Imperador Romano do Ocidente, na verdade um mero fantoche do general bárbaro Orestes, foi deposto pelo chefe da tribo dos mercenários hérulos,  Odoacro.

Odoacro, ao invés de arranjar outro nobre romano para ser sua marionete, surpreendentemente resolveu se nomear ‘Rei da Itália” (Rex) e, valendo-se de um dócil Senado Romano ( que, aparentemente, detestava mais ainda Constantinopla do que os bárbaros) enviou as insígnias imperiais* do Imperador do Ocidente para o imperador Zenão, em Constantinopla.

O fato é que Zenão e a corte de Constantinopla, na verdade, entendiam que Rômulo Augústulo era um usurpador, pois Leão I tinha nomeado Júlio Nepos, que ainda estava vivo e controlava a região da Dalmácia, como Imperador do Ocidente.

Assim, Zenão aceitou as insígnias imperiais de volta, mas recomendou a Odoacro que reconhecesse a autoridade de Júlio Nepos. E, diga-se de passagem, o chefe bárbaro,  agindo de modo conciliador, até cunhou moedas em nome de Nepos, como imperador, porém sem jamais permitir o retorno dele à Itália.

Juridicamente, assim, Zenão agora era o único Imperador Romano, soberano das metades oriental e ocidental do Império Romano. Contudo, a realidade fática era outra:  em verdade, ele não era capaz de projetar poder sobre as províncias do Ocidente, já que a última província ocidental efetivamente governada por Ravena – a capital do Ocidente- era a Itália controlada por Odoacro, sendo a única exceção um enclave romano na Gália, governado pelo chefe militar romano Siágrio, que, no entanto,  em breve seria aniquilado pelos Francos.

Por tudo isso, a data de 476 D.C é considerada pela maioria dos estudiosos como a da Queda do Império Romano do Ocidente que, além disso, marca o início oficial da Idade Média.

Desde o inicio, o reinado de Zenão foi abalado por revoltas e conspirações para derrubá-lo, pois sua origem bárbara tornava-o impopular junto ao Senado e ao povo de Constantinopla.

Assim, em 475 D.C, durante a revolta de Basilisco, o incompetente, porém ambicioso cunhado de Leão I, Zenão até teve que fugir da capital,. Mas o Isáurio conseguiria derrotar todas as revoltas, inclusive a de Marciano, em 479 D.C, e a de Illus, em 484-489 D.C).

Porém, naquele momento, a principal ameaça ao Império vinha dos Godos estabelecidos nos Bálcãs. Mas, para sorte dos romano-bizantinos, os bárbaros estavam divididos e Zenão, valendo-se disso, atuou para fomentar ainda mais a discórdia entre eles.

Com efeito, Zenão conseguiu persuadir Odorico, o novo rei dos Ostrogodos, ramo dos Godos que permanecia nos Bálcãs, a invadirem a Itália, visando a destronar Odoacro.

E esta talvez tenha sido a maior contribuição de Zenão ao Império do Oriente, pois, com a saída de Teodorico e seus Ostrogodos, a ameaça germânica foi afastada do Oriente.

Zenão I morreu em 9 de abril de 491 D.C., e seu sucessor, Anastácio, teve o o apoio da Imperatriz-viúva Ariadne, que se casaria com ele logo depois. Longinus, irmão de Zenão I, que tinha pretensões a suceder o irmão falecido no trono, instigou uma revolta na Isáuria, a qual, contudo, não teve sucesso, e ele acabou sendo exilado da Corte, no sul do Egito.

Leão I, Zenão e Anastácio foram importantes para assegurar a sobrevivência do Império do Oriente, livrando-o das maiores ameaças externas e assegurando uma estabilidade e continuidade administrativa, inclusive devido a longa duração dos três reinados.

*Acredita-se que as insígnias imperiais fossem um conjunto de objetos utilizados pelo imperador ou que o acompanhavam nas cerimônias públicas, tais como uma tiara ou coroa, um cetro,  um esfera, um estandarte, possivelmente com uma águia e/ou o monograma chi-ro, o manto imperial púrpura e os seu broche.

(Objetos como o cetro de Maxêncio, encontrado há alguns anos no Palatino, em Roma, ou aqueles retratados no calendário de Filócalo, de 354 D.C., ou, ainda, na pintura de Septímio Severo, de cerca de 200 D.C., deviam estar entre os objetos enviados por Odoacro a Zenão I, quando o primeiro destronou Rômulo Augústulo, o último imperador romano do Ocidente)

SEPTÍMIO SEVERO – DÉSPOTA APLICADO

SEPTIMIO SEVERO – DÉSPOTA APLICADO

Em 4 de fevereiro de 211 D.C., morre, aos 65 anos de idade, em Eburacum (atual York, na Inglaterra), o imperador Lucius Septimius Severus Eusebes Pertinax Augustus, mais conhecido como Septímio, Sétimo ou Setímio Severo.

 

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Quando Severo morreu, na longínqua província da Britânia, ele estava no curso de uma operação contra os bárbaros Caledônios, que acossavam a província romana a partir do outro lado da Muralha de Adriano. Esta era mais uma campanha militar de um imperador que, em seus 18 anos de reinado, passara quase todo o tempo incansavelmente em guerra, contra vários inimigos externos, e também alguns internos.

Lucius Septimius Severus nasceu em 11 de abril do ano de 145 D.C, na cidade de Leptis Magna, na Província Romana da Tripolitania (atual Líbia), filho de Publius Septimius Geta e Fulvia Pia. O pai dele era integrante de uma família de ancestralidade púnica, ou seja, ligada aos fundadores de Cartago, que eram oriundos da Fenícia, mas que, provavelmente, tinha também algum sangue berbere, a população nativa da região.

O avô de Severo, também chamado Lucius Septimius, era da classe equestre, o segundo nível da nobreza romana. Já a esposa deste último, e avó paterna de Severo, Victoria, era filha de Marcus Vitorius Marcellus, que foi senador e consul suffectus,  em 105 D.C, e de Hosidia, filha de Gnaeus Hosidius Geta, que também foi general, senador e consul suffectus, no ano de 49 D.C.

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(vista de Leptis Magna, foto de SashaCoachman)

Por sua vez, a mãe de Severo, Fulvia Pia, era de uma antiga família plebéia que, ainda em meados do período republicano, ingressou na nobreza, exercendo, inclusive, vários consulados. Alguns Fúlvios provavelmente se mudaram para Leptis Magna quando a cidade foi reorganizada e recebeu políticas de incentivo por parte de Júlio César, quando este tornou-se Ditador.

Leptis Magna, originalmente fundada pelos Púnicos, ou Cartagineses, no século VII A.C, era uma cidade rica que governava um território fértil, extensamente cultivado. E, portanto, sendo uma das famílias mais ilustres da cidade, certamente os Severos deveriam ser também muito ricos.

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Consequentemente, o jovem Severo recebeu a melhor educação que a cidade de Leptis Magna poderia fornecer, tendo sido educado em latim e grego. Entretanto, sabemos que Severo também falava o idioma púnico local, que talvez fosse até a sua língua de infância, pois as fontes relatam que ele falava latim com forte sotaque púnico. Severo deve também com certeza ter aprendido Oratória, pois sabe-se que, em Leptis, ele fez o seu primeiro discurso público, aos 17 anos.

Depois disso, obviamente almejando horizontes maiores na vida do que os que a provinciana Leptis lhe permitia, Severo, por volta de 162 D.C, partiu para Roma, a Meca de todos os jovens bem-nascidos do Império.

E quando Severo chegou a Roma, ele foi recomendado por um parente ilustre ao imperador Marco Aurélio, que, em virtude disso, mandou arrolá-lo, já que era descendente de cônsules, como membro da ordem senatorial, o cume da nobreza romana.

Com isso, abriram-se para Severo as portas do “cursus honorum” – a carreira das magistraturas – e ele foi nomeado um dos “Vigintivir”,  membro de um colégio de 26 magistrados juniores, que cuidavam, entre outras coisas, de casos judiciais menores e também da manutenção de estradas, ruas ou prédios públicos. Posteriormente, Severo foi nomeado advocatus fiscus, uma espécie de procurador público imperial.

Contudo, sendo ainda muito jovem para ocupar cargos mais elevados e,  tendo em vista a chegada a Roma de uma epidemia de peste, Severo resolveu voltar para Leptis Magna.

Entretanto, durante o tempo em que esteve de volta em sua terra natal, Severo completou 25 anos, que era a idade requerida para o cargo de Questor, e, por sorte, a epidemia em Roma abrandou, permitindo que ele voltasse para Roma e assumisse, em 169 D.C, aquele prestigioso cargo.

Então, como Questor, Severo conseguiu, enfim, ingressar legalmente no Senado Romano.

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Vale ressaltar que muitos cargos haviam ficado vagos em função da virulência da referida Peste, que havia ceifado muitas vidas, o que permitiu que Severo progredisse ainda mais no serviço público. Assim, ele foi nomeado Questor pela segunda vez.

Porém, logo após esses progressos, Severo foi surpreendido pelo repentino falecimento de seu pai e ele foi obrigado a voltar para Leptis para resolver assuntos ligados à sucessão e ao inventário do falecido.

Resolvidas as questões sucessórias, Severo foi cumprir o resto do mandato de Questor na ilha da Sardenha, que estava temporariamente sob administração do Senado Romano.

Em seguida, Severo foi servir com seu parente Gaius Septimius Severus, que tinha sido apontado Proconsul da África, na qualidade de Legatus pro Praetor, ou seja, general.

Novamente de volta à Roma, em 174 D.C,  Severo foi escolhido, como candidato do próprio Imperador, Tribuno da Plebe.

Sem dúvida, Severo, até então, estava tendo uma carreira notavelmente promissora: Com efeito, apesar dos relatos dos historiadores de que ele era alvo de piadas em Roma por causa do seu forte sotaque púnico, restava claro que Severo estava sendo visto com simpatia pelos poderosos, e até pelo próprio Imperador, fato que não é de surpreender, pois, como relatamos no início, o seu pedigree genealógico era suficiente para competir com outros candidatos aos cargos mais importantes.

Severo era um homem forte, embora de baixa estatura, e de pele bem morena, como os naturais do Norte da África. E um dos traços mais marcantes da sua personalidade era ser muito supersticioso, acreditando em sonhos premonitórios e astrologia, que frequentemente lhe prediziam um futuro brilhante. Ele também sentia-se muito ligado à sua Leptis Magna natal e por isso, parece natural que, quando Severo resolveu se casar, aos 30 anos de idade, ele tenha escolhido uma esposa natural de Leptis, chamada Paccia Marciana, membro de uma família de origem púnica, como a sua.

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O casamento com Marciana durou dez anos e, se eles tiveram filhos (a História Augusta, considerada pouco confiável, relata duas meninas), os mesmos não sobreviveram até a idade adulta. Marciana morreu por volta de 186 D.C.

Ainda segundo a História Augusta, o sempre supersticioso e agora viúvo Severo, querendo casar-se novamente, recorreu à ajuda de astrólogos para encontrar uma nova esposa. Nessa busca, Severo, então, teria ouvido falar de uma mulher síria acerca de quem se falava da existência de uma previsão de que ela se casaria, um dia, com um rei…

Severo foi até a Província da Síria e encontrou a mulher em questão, Júlia Domna, que era, ela mesma, descendente da casa real dos Sempsiceramidas e Soêmios, reis-sacerdotes da cidade síria de Emesa (atual Homs, na Síria) que era habitada por um povo de origem semítica árabe-beduína que falava aramaico.

Além do incentivo da previsão astrológica, certamente Severo foi incentivado a casar-se com Júlia pelo fato de ser ela muito bonita. E, para completar, Emesa e os seus governantes sempsiceramidas eram riquíssimos…

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 Com a aprovação do pai de Júlia Domna, Julius Bassianus, sumo-sacerdote do Templo do deus El-Gabal (Elagabalus, ou Heliogábalo, em latim), em Emesa, Severo e Júlia casaram -se em 187 D.C, logo seguindo-se o nascimento dos filhos Lucius Septimius Bassianus (que ficaria conhecido como o futuro imperador Caracala), ocorrido em 188 D.C, quando Severo governava a Gália, e Publius Septimius Geta, em 189 D.C.,  já quando Severo era governador da Sicília.

Vale notar que, desde 180 D.C., o imperador era Cômodo, que sucedera o pai, Marco Aurélio, mas, pelo visto, o nome de Severo continuou a gozar de prestígio junto ao trono.

De fato, o casamento parece ter dado uma nova turbinada na carreira de Severo e, em 190 D.C, ele foi nomeado Cônsul, a mais alta magistratura romana, sob recomendação do imperador Cômodo. E, no ano seguinte, Cômodo nomeou Severo governador da importante província da Panônia, na fronteira do rio Danúbio, o que implicava no comando de várias experimentadas legiões do Exército.

Foi nessa privilegiada posição que Severo encontrava-se quando o imperador Cômodo, após anos de tirania e de vários excessos, foi assassinado em um complô palaciano, em 31 de dezembro de 192 D.C.

O ano de 193 D.C começou com um novo imperador, Pertinax (Pertinace). Porém, antes que o ano terminasse, os romanos ainda veriam mais outros quatro ocuparem o trono, motivo pelo qual aquele ano passaria à História como “O Ano dos Cinco Imperadores”…

Assim, o  ambicioso Pertinace, Prefeito Urbano de Roma, ao saber da morte de Cômodo, na qual talvez ele até estivesse implicado, correu para o Quartel da Guarda Pretoriana, prometendo um grande donativo aos soldados, caso o aclamassem imperador. Eles assim o fizeram e o Senado, exultante pelo fim da tirania de Cômodo, imediatamente reconheceu o pretendente como Imperador. Porém, depois de quatro meses de um reinado promissor, um outro grupo dos insaciáveis pretorianos, sequiosos de dinheiro, assassinou Pertinace , que teve a sua cabeça em um poste.

Em um dos episódios mais vergonhosos da História de Roma, os gananciosos Pretorianos abordaram na rua o rico senador Dídio Juliano e insistiram para que ele aceitasse ser aclamado imperador, obviamente em troca do pagamento de uma grande soma de dinheiro. Ato contínuo, os soldados levaram Dídio Juliano para o Quartel da Guarda Pretoriana, onde, para a surpresa do pretendente, lá já estava outro candidato à púrpura imperial, Flávio Sulpiciano. Na presença dos dois, os Pretorianos promoveram um infame leilão do trono, que, após vários lances, foi ganho por Juliano, que ofereceu a cada soldado a quantia de 25 mil sestércios.

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(Busto de Dídio Juliano)

 Aproveitando-se da debilidade do novo imperador, uma série de governadores de província, rebelaram-se, incluindo o próprio Severo, que foi aclamado imperador pelas próprias tropas, em 14 de abril de 193 D.C.

Antecipando-se aos seus rivais na sucessão, Severo, prometendo vingar a ignominiosa morte de Pertinax, marchou contra Roma, não sem antes assegurar-se de que um potencial rival, Clódio Albino (também ele um romano nascido na África, em Hadrumeto), o governador da Britânia, não reivindicasse o trono. Para obter a lealdade de Albino, Severo ofereceu-lhe o título de “César” (que equivalia, grosso modo, ao de príncipe-herdeiro), que foi aceito.

Entretanto, as legiões do Oriente  também aclamaram o seu comandante, Pescenius Niger (Pescênio Nigro), governador da Síria, imperador.

Antes de Severo chegar à Roma, contudo, boa parte do Senado já o estava apoiando. Assim, em 1º de junho, Dídio Juliano foi destituído pelo Senado e condenado à morte, após reinar por meros 66 dias. Esta sentença foi prontamente executada pelos próprios Pretorianos, aterrorizados com a aproximação das experimentadas legiões de Severo, as quais eles bem sabiam que não tinham a menor condição de enfrentar em batalha.

Desse modo, Severo entrou em Roma sem oposição, no dia 9 de junho de 193 D.C.

Cumprindo a sua promessa, Severo imediatamente puniu os pretorianos, mas de uma forma sorrateira: ele convidou a guarda pretoriana a um banquete no seu acampamento. Porém, quando os pretorianos chegaram, eles foram desarmados por uma força de soldados de Severo, que executaram os assassinos de Pertinace. Mais tarde, Severo substituiu os pretorianos por soldados originários da Panônia.

No Oriente,  Pescênio Nigro, governador da província da Síria, recusou aceitar Severo como imperador e ainda obteve o apoio da província do Egito. Severo marchou imediatamente para o leste e esmagou o indisciplinado exército de Nigro. A batalha decisiva aconteceu em Issos, na primavera de 194 D.C, e Nigro foi morto em Antióquia. A cabeça dele foi enviada à Severo, que estava instalado em Bizâncio.

Outra característica marcante de Severo era ser implacável com os inimigos, e isso se aplicava às províncias e cidades que haviam apoiado Nigro, que foram severamente punidas.

Em 195 D.C, Severo iniciou uma campanha contra o Império Parta e invadiu a Mesopotâmia, subjugando os árabes osroenes, adiabenes e cenitas, no que também era um acerto de contas pelo fato destes terem apoiado Nigro. Em um gesto simbólico de afirmação de sua origem púnica, Severo, nessa passagem pelo Oriente, mandou reformar com mármore o túmulo de Aníbal Barca, o grande general cartaginês e inimigo mortal de Roma, mas também o seu mais ilustre conterrâneo, que morreu exilado na Bitínia, no longínquo ano de 183 A.C.

Enquanto isso,  Clódio Albino, levando a sério o seu título de César,  começou a cunhar moedas como se fosse imperador, autointitulando -se Augusto.

Severo, que provavelmente sempre teve a intenção de se livrar do rival, deu a seu filho Lucius Septimius Bassianus, conhecido como Caracala ( um apelido dado pelo fato dele usar, costumeiramente, um manto de origem gaulesa, que tinha esse nome) o mesmo título de César, o que, na prática, significava a cassação do status de Albino, que, em seguida, foi declarado “Inimigo Público”.

Foi também 195 D.C que Severo proclamou que era filho do imperador Marco Aurélio, mudando o nome de seu filho Caracala para Marcus Aurelius Severus Antoninus Augustus, numa tentativa de se legitimar como continuador da bem-sucedida dinastia dos Antoninos, que terminara com o assassinato de Cômodo.

De fato, bem antes disso, Severo havia feito circular uma estória de que ele mesmo seria filho ilegítimo de Marco Aurélio, e era por esse motivo que ele fazia questão de se apresentar com corte de barba e cabelo idêntico ao utilizado por aquele finado imperador, sendo que os bustos de Severo mostram claramente essa semelhança (mas também devemos notar que barba e cabelo encaracolados eram a moda do período). Porém, esta pretensão de Severo nunca foi considerada  pela maioria dos historiadores antigos e modernos.

Em verdade, Severo e Albino, desde a revolta contra Dídio Juliano, provavelmente sempre estiveram tentando ganhar tempo até terem todas as condições de eliminarem um ao outro. Quando chegou a notícia de sua proscrição pelo Senado, em 196 D.C, Albino já estava preparado para invadir a Gália e, após derrotar o legado de Severo, Vinius Lupus, assumiu o controle da importante província, instalando-se em Lugdunum (Lyon).

Na inevitável guerra que se seguiu, Severo conseguiu derrotar Albino, na Batalha de Lugdunum, em 19 de fevereiro de 197 D.C. Foi uma batalha duríssima, segundo Dio Cassio, envolvendo 150 mil soldados de cada lado (número provavelmente exagerado). Severo ganhou o dia utilizando a sua cavalaria. Albino se matou ou foi capturado e executado, não se sabe ao certo. Porém, as fontes narram que Severo dispensou um tratamento cruel ao cadáver, que foi exposto nu e pisoteado pelo seu cavalo. A cabeça do rival foi decepada e enviada à Roma, como um alerta para futuros pretendentes. Por sua vez, a desafortunada Lyon, como punição pelo apoio a Albino, foi saqueada.

Entre 197 e 199 D.C, foram travadas com sucesso uma série de campanhas contra o Império Parta que derivaram no estabelecimento da nova província da Mesopotâmia.

Após a conquista de Ctesifonte, a capital dos Partas, em cujo cerco faleceram cerca de 100 000 pessoas, os romanos apoderaram-se dos tesouros inimigos.

Em seguimento à vitória, Severo dedicou os cinco anos posteriores a organizar a administração da nova província, cuja existência, entretanto, jamais seria pacífica e teria curta duração, fadada a ser retomada pelos persas sassânidas, que destronariam os partas arsácidas, fundando um novo império.

Não obstante, as vitórias de Severo na região asseguraram o controle das estratégicas cidades de Nísibis e Síngara e a supremacia regional de Roma até o ano de 251 D.C, ou seja, por quase 50 anos. Ficaria, como testemunho dessa campanha, o Arco do Triunfo de Setímio Severo, no Fórum Romano, ainda existente.

Com efeito, a preocupação com o Exército e as questões militares foram o cerne da política governamental de Severo.

Severo começou por extinguir a Guarda Pretoriana e dispensar, com desonra, os seus integrantes. Em substituição, ele formou uma guarda com 10 coortes (cerca de 10 mil homens), com seus veteranos da Panônia. Depois, o imperador ainda acantonou, nas cercanias de Roma, uma legião. Na prática, com essas últimas iniciativas, a Guarda acabou sendo reconstituída.

Depois, Severo decretou um aumento de um terço para o salário dos soldados, o qual passou de 300 para 400 denários e aumentou o número de legiões de 30 para 33, medidas que, entretanto, provocaram um grande déficit público, causando inflação e prejudicando a economia imperial..

Severo também ampliou a “Anona” militar, organizando-a oficialmente como uma instituição permanente de previdência social dos soldados.

O imperador reformou, ainda, o estatuto civil dos militares:

De fato, até o reinado de Cláudio, os soldados não podiam deixar os quartéis enquanto duravam os seus anos de serviço. Consequentemente, exigia-se que eles não tivessem família por um número determinado de anos, variando o tempo em função da unidade a que pertenciam: os Pretorianos durante 15 anos, os legionários durante 20 anos e os auxiliares durante 30 anos.

Cláudio reformara o sistema a fim de permitir aos soldados saírem do acampamento quando não estivessem de serviço, facilitando-lhes assim fundarem uma família; porém, ainda assim, até o reinado de Severo, eles não tinham direito a casar-se legalmente e reconhecer os seus filhos antes de concluir o seu tempo de serviço militar. Então, Severo autorizou que os militares oficializassem a sua vida conjugal.

Como consequência dessa política, aumentou-se o número de cidadãos romanos, pois, com o status de casamento legal, os filhos dos soldados com as mulheres não-romanas que habitavam as proximidades dos acampamentos podiam aspirar à cidadania romana. Desse modo, podemos entender a “Constitutio Antoniniana” – lei editada pelo filho de Severo, Caracala, estendendo a cidadania romana a todo homem livre nascido no Império – como uma continuação desta política de Severo.

Severo também estabeleceu novas honras militares, autorizando aos oficiais portar um anel de ouro, privilégio até então reservado aos cavaleiros.

Além dos assuntos militares, Severo também dedicou-se aos assuntos administrativos e civis.

Vale citar que Severo tinha como seu principal auxiliar o seu primo, Gaius Fulvius Plautianus, Prefeito Pretoriano, e era também assessorado por juristas célebres, como Ulpiano e Papiniano,

Na Síria, de onde era natural a sua esposa, Severo criou duas novas províncias, para facilitar a administração local e, não menos importante, diminuir o poder do seu respectivo governador, que comandava várias legiões, as quais foram divididas entre as duas novas unidades político-administrativas.

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Depois de concluir a campanha no Oriente,  Severo visitou o Egito, onde ele rendeu homenagem ao corpo de Alexandre o Grande, e, depois, ele navegou o rio Nilo até Tebas. Em seguida, ele dedicou-se aos assuntos de sua África natal, onde as tribos nativas dos Garamantes estavam causando problemas. Derrotados os inimigos, com a expansão do Limes Africanus, Severo pode estabelecer oficialmente a província da Numídia, separada da África, e, finalmente após esse périplo pelo Oriente e África, o imperador retornou  Roma, em 203 D.C.

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(Painel de madeira pintada, com as figuras de um Severo já grisalho, da imperatriz Júlia Domna e de seus filhos Caracala e Geta (rosto apagado). A pintura é proveniente do Egito e provavelmente foi pintada quando da viagem da família imperial pela Província, por volta do ano 200 D.C. Posteriormente, quando Caracala sucedeu ao pai e assassinou Geta, foi decretada a “damnatio memoriae” deste e, obedientemente, a imagem de Geta foi apagada dos monumentos públicos, bem como deste painel. É o único retrato pintado de um imperador e ele é valiosíssimo pois nos permite ver as cores das vestimentas e dos ornamentos imperiais, inclusive o cetro e a coroa, além da tez da pele e dos cabelos.)

 

Na capital do Império, Septímio Severo erigiu uma série de importantes construções: ele embelezou o lado sul do Palatino mediante a construção de uma monumental fonte chamada Septizódio, dedicada aos sete principais astros. Além disso, foi ampliado o palácio imperial, com a construção de uma nova ala (Domus Severiana), e ele também começou a construção dos banhos públicos que seriam conhecidos depois como Termas de Caracala, já que terminados no reinado de seu filho. Foram, ainda, restaurados muitos edifícios danificados pelos incêndios que decorreram no final do reinado de Cômodo, entre os que se encontravam: o Templo da Paz, o Teatro de Pompeu, o Pórtico de Otávia e o Arco de Nero.

(O Septizódio, cujas ruínas ainda podiam ser vistas no século XVI, e vista do Palatino, mostrando a Domus Severiana, na extrema direita – imagem de Cassius Ahenobarbus)

A cidade natal de Severo, Leptis Magna, também beneficiou-se amplamente em seu reinado, sendo embelezada com vários monumentos suntuosos: o Fórum de Severo, a Basílica de Severo, o Mercado e  grandes instalações portuárias.

(Arco, Anfiteatro, Mercado e Basílica de Leptis Magna, construídos durante o reinado de Severo. Fotos de SashaCoachman)

 Septímio Severo tomou, ainda, algumas  significativas medidas judiciárias e assistenciais: A Presidência dos tribunais de apelação foi transferida aos Prefeitos Pretorianos, função antes realizada pelo imperador,  e foi instituída a distribuição gratuita de azeite de oliva, que se unia à tradicional repartição de trigo para a plebe.

A fim de consolidar a sua sucessão, Severo casou o seu filho Caracala com Plautilla, filha do Prefeito Pretoriano Plautianus (Plauciano). Esse casamento arranjado, porém, foi o início da discórdia entre Severo e seu antigo amigo e parente.

De fato, Caracala odiava Plauciano, e, após o casamento, ele recusou-se a ter qualquer relacionamento com a esposa. Na verdade, consta que Caracala prometeu que, quando se tornasse imperador, daria cabo de ambos, esposa e sogro, o que pode ter levado Plauciano a conspirar contra Severo, ou, ao menos, este foi o pretexto que Caracala usou para conseguir a queda e execução do sogro. Plautiano foi acusado de traição por alguns centuriões em 205 D.C, subornados provavelmente por Caracala. Severo mandou executá-lo e Plautilla foi exilada na ilha de Lipari.

As relações de Severo com o Senado nunca foram boas, devido ao caráter marcadamente ditatorial do seu reinado. O imperador mandou executar dúzias de senadores sob variadas acusações de corrupção e conspiração, substituindo-os por homens fiéis ao trono.

Não obstante, entre a plebe romana, Septímio Severo gozava de popularidade, devido às medidas que ele tomou contra a corrupção generalizada que havia aumentado durante o reinado de Cômodo, e Severo ganhou a boa reputação de ter restabelecido a moralidade pública após os anos de decadência do governo anterior.

Contudo, o aumento vertiginoso das despesas militares, obrigou Severo a promover a maior desvalorização do denário desde o reinado de Nero, o que causaria uma grande inflação.

Nos anos finais do reinado de Severo, ocorreram muitos ataques das tribos caledônias que viviam além da Muralha de Adriano, que foram estimuladas pelo fato de Albino, quando da disputa com Severo pelo trono, haver zarpado para a Gália com praticamente todo o efetivo militar da Britânia.
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Em 207 D.C, o incansável Septímio Severo foi para a Britânia combater os Caledônios, levando consigo a esposa e os dois filhos, realizando várias campanhas no norte da Muralha de Adriano, que foi reforçada por ele. Todavia, esse esforço não foi suficiente para subjugar aquelas ferozes tribos, antepassadas dos escoceses.

As fontes narram que, preocupado com a instabilidade mental demonstrada por Caracala, Severo nomeou, em 209 D.C, seu filho mais novo, Geta, como “César”.

A campanha contra os Caledônios prosseguiu, com resistência maior do que se poderia supor, e a saúde do já sexagenário Severo não aguentou o tranco. Ele caiu gravemente enfermo, e, pressentindo que ia morrer, mandou chamar Caracala e Geta, para dar-lhes um último conselho, em seu leito leito de morte, o qual ficaria célebre:

Não briguem entre si, deem dinheiro aos soldados e desprezem todos os outros“.

No dia 4 de fevereiro de 211 D.C, em Eboracum(York), aos 65 anos de idade,  Setímio Severo morreu e Caracala e Geta foram aclamados imperadores pelas tropas. Ambos decidiram interromper imediatamente a campanha e voltar para Roma.

Nove meses depois, Caracala mataria seu irmão Geta,  que se refugiara nos braços da mãe de ambos no próprio palácio, para reinar sozinho. Portanto, Caracala somente seguiria fielmente o segundo e o terceiro conselhos de seu pai…

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(Busto de Caracala, o sucessor de seu pai Severo, cuja expressão corresponde ao seu caráter violento)

CONCLUSÃO

Septímio Severo é um imperador controverso e o seu reinado é um dos mais difíceis de avaliar:  por um lado, ninguém pode negar que ele foi um servidor público incansável e muito dedicado aos assuntos públicos, tarefa que jamais foi por ele deixada de lado em prol dos prazeres e lazeres que Roma oferecia. De fato, Severo expandiu as fronteiras do Império Romano, visitou inúmeras províncias, venceu guerras e construiu importantes monumentos.

Mas Severo falhou em fazer uma reforma administrativa e tributária capaz de sustentar o aumento no efetivo e no orçamento militar, sendo que o aumento dos soldos acentuou uma tendência que comprometeria as finanças públicas dos reinados que se seguiram. E, ironicamente, tantas benesses dadas aos soldados podem ter comprometido a disciplina militar, estimulando os vários episódios de insubordinação que seriam observados durante os reinados da dinastia inaugurada por ele.

Outra medida  que se considera negativa foi a proibição de que os senadores exercessem comandos militares. Essa vedação, que seria reforçada nos reinados seguintes, afastou a elite romana do serviço militar e acabou contribuindo para criar ou ampliar um estranhamento entre o Exército e o Senado, afastando completamente a aristocracia da carreira das armas, o que no futuro se revelaria nocivo.

E Severo falhou mais amplamente em seguir os quase cem anos de boa política sucessória dos Antoninos, dinastia que ele tinha a pretensão de fazer parte, ao escolher os incompetentes e despreparados Caracala e Geta como herdeiros, mas este, diga-se de passagem, foi um erro no qual o próprio “imperador-filósofo e déspota esclarecido” Marco Aurélio também incorreu.

Quanto às numerosas execuções de senadores e rivais, talvez Severo não tenha sido tão diferente da maior parte de seus antecessores e sucessores. O fato é que ser imperador romano, especialmente no século III, como logo seria constatado, era uma das profissões mais perigosas do mundo.

TRAJANO – O ÓTIMO IMPERADOR

“Felicior Augustus, melior Traianus” (“Mais feliz do que Augusto, melhor do que Trajano”)

“Tanto respeito tem sido tributado à memória dele, que, mesmo em nossos tempos, eles aclamam em voz alta aos imperadores: “Mais feliz do que Augusto, melhor do que Trajano!”

Eutropius, Breviarium

De acordo com o historiador romano Eutrópio, em sua época os senadores romanos aclamavam cada novo imperador com a seguinte saudação: “Felicior Augusto, Melior Traiano“, esperançosos de que o novo monarca tivesse um reinado mais feliz do que o de Augusto e reinasse melhor do que Trajano, não obstante este tivesse reinado 250 anos antes! Assim, dentre os cerca de cinquenta homens que, a partir de Augusto até o final do século IV, haviam assumido o título de imperador romano, Trajano, foi considerado por muitos, senão por toda a posteridade de seus súditos, como tendo sido o melhor deles.

Quais foram os motivos para tamanho reconhecimento?

1- Origem familiar

Marco Úlpio Trajano (Marcus Ulpius Traianus-II) nasceu na cidade de Itálica (no território da atual Santiponce, na vizinhança de Sevilha), que ficava na província romana da Hispania Baetica, no dia 18 de setembro de 53 D.C.. Ele era filho de Marcus Ulpius Traianus -I e de Marcia, que por sua vez era filha do senador romano Quintus Marcius Barea Sura, e cujo pai, Quintus Marcius Barea Soranus, tambem havia sido um senador romano e Consul Suffectus (substituto) no ano de 34 D.C.

A cidade de Itálica foi fundada em 206 A.C. pelo grande general e político romano Cipião, o Africano, ainda durante a Segunda Guerra Púnica, como uma colônia romana habitada por soldados auxiliares veteranos do referido conflito, originários da Itália, sendo essa a razão do nome escolhido.

Anfiteatro de Itálica, foto Tyk)

Em algum momento, não sabemos se quando da fundação da cidade ou posteriormente, romanos da gens Úlpia (Ulpii), originária da cidade italiana de Tuder (atual Todi), que fica na região da Úmbria, instalaram-se em Itálica. Considerando que Tuder foi conquistada pelos romanos em 217 A.C., é possível que os Úlpios tenham sido recrutados como soldados auxiliares pelos romanos na cidade e, nesta condição, eles estivessem entre os colonos italianos pioneiros de Itálica.

panorama da atual Todi

Posteriormente, os Ùlpios uniram-se a outra família radicada em Itálica, a gens Traii, ou, o que é mais provável, algum membro desta família foi adotado por um Úlpio, dando origem à família dos Úlpios Trajanos (Ulpii Traianii). Vale notar que há uma corrente de historiadores espanhóis que defendem que os antepassados de Trajano seriam descendentes do povo ibérico dos Turdetanos, que habitava a região e, portanto, o futuro imperador teria sido o primeiro cidadão romano de origem não-italiana (“estrangeira”) a assumir o trono do Império Romano, como, inclusive, afirma o historiador romano Dião Cássio (Livro LXVIII, 4, 1). Nessa linha, os Traii seriam uma família nativa da região, que foram romanizados após a fundação de Itálica. Aliás, segundo uma teoria, o membro da gens Traii que teria sido adotado por um Úlpio pode muito bem ter sido o próprio pai do imperador Trajano.

“Mas Nerva não considerava que os laços familiares estivessem acima da segurança do Estado, nem estava ele menos inclinado a adotar Trajano por ser este um espanhol, em vez de um italiano ou italiota, visto que nenhum estrangeiro previamente havia sido soberano romano.”

Cassius Dio, Livro LXVIII, 4,1

É bem provável que os antepassados de Trajano, pertencendo a famílias integrantes da elite de Itálica, fossem proprietários de vastas propriedades agrícolas, e que eles tenham enriquecido principalmente devido à plantação de oliveiras, produção e exportação de azeite, um produto pelo qual até hoje a região é conhecida. E é curioso observar que uma das explicações para a origem do nome “Traii” é que este seria derivado da palavra ibérica nativa “traha“, que dava nome a uma ferramenta agrícola utilizada para lavrar a terra (vide https://www.academia.edu/1082682/Las_ra%C3%ADces_b%C3%A9ticas_de_Trajano_los_Traii_de_la_It%C3%A1lica_turdetana_y_otras_novedades_sobre_su_familia_texto_

Seja como for, o primeiro Úlpio a alcançar uma posição de proeminência na História de Roma foi o pai de Trajano, Marcus Ulpius Traianus-I (Traianus Pater ou Trajano Pai). Nascido por volta de 25 D.C. (data estimada por Julian Benett, autor do livro “Trajan: Optimus Princeps, Ed. Routledge), em Itálica, e tendo uma irmã conhecida como Ulpia, o pai de Trajano comandou a Legião Romana X Fretensis durante a Grande Guerra Judaica, que durou de 66 a 70 D.C., servindo diretamente sob o comando geral do respeitado general Vespasiano, que em breve seria aclamado imperador romano, em 69 D.C. (A Décima Legião era provavelmente a legião mais afamada do exército romano, recrutada e comandada pelo próprio Júlio César). Vale notar que antes de deixar a Judéia para ir reclamar o trono do Império, Vespasiano chegou a instalar o seu quartel-general no acampamento conjunto da Legião X Fretensis e da Legião V Macedonica. O historiador romano de origem judaica, Flávio Josefo, inclusive narra, em sua obra “A Guerra do Judeus”, várias ações militares comandadas por Trajano Pai.

Cabeça de estátua de Marcus Ulpius Traianus Pater (Pai de Trajano)

Portanto, não temos dúvida que o desempenho de Marcus Ulpius Traianus-I deve ter impressionado o futuro imperador Vespasiano (que já devia conhecê-lo, já que as famílias eram próximas, como em breve veremos) que, em reconhecimento aos serviços por ele prestados na referida campanha, após assumir o trono imperial, nomeou Trajano Pai governador da província romana da Capadócia e, em seguida, ele receberia a grande honraria de ser nomeado Consul Suffectus, nos meses de setembro e outubro de 72 D.C.. Continuando sua trajetória bem-sucedida, Trajano Pai foi, sucessivamente, nomeado Governador da província romana da Síria, entre 73 e 74 D.C., Procônsul da Ásia, de 79 a 80 D.C., e governador da província de origem da sua família, a Hispania Baetica, em uma data não precisada. Sem dúvida, tratava-se de uma carreira pública brilhante, certamente turbinada pela antigos laços de camaradagem que havia entre ele e Vespasiano.

Busto de Vespasiano, foto de shakko, under CC BY-SA 3.0

Vale notar que o fato de Trajano Pai ter sido nomeado pelo imperador Nero comandante (Legatus Legionis) da X Legião Fretensis, que pode ser considerada uma unidade de elite, demonstra, no contexto da organização do Exército Romano implementada por Augusto, que ele já tinha se tornado senador e ocupado o cargo de Pretor. Assim, muito provavelmente, ele já deveria ser um militar experimentado. É, ainda, possível, como especula Julian Benett, que a carreira de Trajano Pai tenha sido favorecida por um conterrâneo espanhol que era muito influente no início do reinado de Nero: Lucius Annaeus Seneca (Sêneca, o Jovem), um nativo de Corduba, cidade igualmente situada na Hispania Baetica.

Por volta do ano 47 D.C., Marcus Ulpius Traianus-I casou-se com Márcia, que era integrante de uma família que pertencia a uma gens de prestígio, a qual, embora de origem ancestral plebeia, reivindicava ser descendente de Anco Márcio, um dos reis lendários de Roma. Como já vimos, Márcia era filha e neta de senadores, e sobrinha e neta de cônsules e, portanto, um casamento com um pretendente que não pertencesse à classe senatorial seria impensável. Portanto, é também provável, então, que o anterior casamento de sua irmã Ulpia com Publius Aelius Hadrianus Marullinus, ele também filho e neto de senadores romanos e membro de uma proeminente família também radicada em Itálica, tenha facilitado a união.

Por sua vez, Márcia, a futura mãe de Trajano, era irmã de Marcia Furnilla, que, em 63 D.C., casou-se com Tito Flávio Vespasiano (Tito), o filho mais velho de Vespasiano, que era muito amigo do pai dela, o senador Quintus Marcius Barea Sura. Mais tarde, o tio de Márcia, Quintus Marcius Barea Soranus, foi acusado de conspirar contra Nero e obrigado a suicidar-se, em 66 D.C. Em função disso, a família de Márcia caiu em desgraça, e Tito achou mais prudente divorciar -se de Marcia Furnilla, mas ficando, entretanto, com a guarda da filha que ambos tiveram em 64 D.C., que recebeu o nome de Julia Flavia.

Acredita-se que este busto retrate Marcia Furnilla, foto Carole Raddato 

Em agosto de 48 D.C., Marcus Ulpius Traianus -I e Márcia foram pais de uma menina, que recebeu o nome de Ulpia Marciana.

Cabeça de Ulpia Marciana

2- Infância e Juventude

E, em 18 de setembro de 53 D.C., nasceu a segunda cria do casal, o primeiro varão, que recebeu o mesmo nome do pai, Marcus Ulpius Traianus-II (Marco Úlpio Trajano, o futuro imperador Trajano). A criança nasceu em Itálica, lar ancestral dos Úlpios Trajanos, onde o patriarca devia passar parte do ano supervisionando as suas propriedades e recebendo a sua clientela.

Não sabemos detalhes da infância do menino Trajano. Ao vestir a toga virilis, por volta dos 14 anos, que marcava o início da idade adulta, certamente ele passou a se inteirar mais dos negócios do pai. E, quando ele atingiu a idade militar, já no início do reinado de Vespasiano, o seu pai estava prestes a assumir o cargo de governador da importante província da Síria, um posto que implicava no comando das numerosas legiões ali estacionadas. É, então, quase certo que Trajano deva ter iniciado sua carreira militar na Síria, na condição de tribuno, algo que sua posição como filho de um senador lhe permitia. E é bem possível que, na Síria, Trajano tenha presenciado de perto quando seu pai repeliu uma incursão dos Partos.

Todavia, as fontes antigas, tais como Cássio Dião e a Epitome De Caesaribus, atribuída a Sexto Aurélio Victor, dão conta que Trajano não teve uma educação esmerada, algo que, certamente, deve-se ao fato dele, desde muito jovem, ter se dedicado inteiramente à carreira militar, provavelmente passando a sua juventude no meio dos soldados, entre quartéis e acampamentos:

“Faltava-lhe educação, no sentido estrito da palavra, quando se tratava de oratória, mas ele tanto conhecia, como sabia empregar, o seu conteúdo,”

Cassius Dio (Livro LXVIII 7, 4

Ele estimava grandemente pessoas muito francas ou homens muito eruditos, embora ele mesmo tivesse conhecimento teórico superficial e fosse moderadamente eloquente.”

Aurelius Victor, 149, 8

Fontes sobre Trajano

Nesse ponto de nossa biografia de Trajano é preciso dizer que as fontes históricas sobre o seu reinado, em comparação com a dos seus antecessores, são de certo modo bem esparsas. O relato mais completo sobrevivente é feito pelo historiador Cássio Dião (Cassius Dio ou, ainda, Dion Cássio) que escreveu um século depois do reinado de Trajano uma História de Roma até aos seus próprios dias, porém, o livro 68, que trata do referido imperador, é na verdade uma coletânea ou resumo (Epitome) produzida posteriormente nos tempos do Império Bizantino. Há ali, não obstante, algumas informações importantes sobre Trajano, tanto na sua biografia, como, em menor número, na do seu sucessor, Adriano. A “Epitome de Cesaribus“, atribuída a Sextus Aurelius Victor, é basicamente uma sinopse contendo ainda mais curtos resumos do reinado dos imperadores romanos e o capítulo 13, que trata de Trajano, tem somente 15 linhas, a mesma característica aplicando-se ao resumo do reinado dele contido no Breviarium, de Eutrópio. O historiador eclesiástico romano Eusébio de Cesaréia, em sua História da Igreja, também relata alguns fatos ocorridos no reinado de Trajano, notadamente acerca da Guerra de Kitos. Finalmente, o historiador romano-bizantino João Malalas, do século VI D.C., ainda que por vezes impreciso e não muito consistente, fornece informações sobre a campanha de Trajano contra os Partas. As cartas trocadas entre o Caio Plínio Segundo, mais conhecido como Plínio, o Jovem, que era amigo de Trajano, e o imperador, no período em que o primeiro serviu como governador da Bitínia, revelam informações de primeira mão e também pistas sobre algumas ações, motivações, preocupações de Trajano e o seu caráter como governante. De Plínio também nos chegou um revelador Panegírico, um discurso de saudação escrito no ano 100, que apesar do tom bajulador, traz informações valiosas sobre a percepção senatorial da conduta do imperador. Lúcio Flávio Arriano Xenofonte (ou Arriano de Nicomédia) escreveu uma História da Pártia (Parthica), que também aborda a campanha de Trajano contra os Partas, mas da qual somente sobrevivem poucos fragmentos, embora valiosos. Finalmente, há algumas informações sobre o reinado de Trajano nas Cartas de Marco Cornélio Frontão ao imperador Marco Aurélio e também nos Discursos de Dião Crisóstomo (ou Dião de Prusa). Não obstante, sobreviveram muitos monumentos, estátuas, moedas e inscrições, além de achados arqueológicos, que ajudam a preencher essas lacunas, como por exemplo, a Coluna de Trajano.

Desse modo, não sabemos muitos detalhes acerca da infância e do início da carreira militar de Trajano.

Por volta de 75 D.C., mais ou menos, Trajano casou-se com Pompeia Plotina, uma conterrânea nascida na província da Hispania. Provavelmente, este foi um casamento para atender os interesses locais de ambas as famílias. Plotina, não obstante, mostraria durante toda a sua vida, ser uma mulher muito culta, inteligente, austera e virtuosa. Entretanto, o casal jamais geraria um filho, talvez devido à orientação sexual de Trajano, que, segundo os relatos dos historiadores, sempre demostrou muita atração por rapazes, preferência que, juntamente com o vinho, parece ter sido seu único vício, segundo os autores antigos:

É claro que eu sei que ele devotava-se aos garotos e ao vinho, porém, se ele alguma vez tivesse praticado ou levado a cabo algum ato baixo ou maligno como resultado disso, ele teria incorrido em censura; do jeito que foi, entretanto, ele bebia todo vinho que queria, e permanecia sóbrio, e, em suas relações com rapazes, ele não fez mal a ninguém

Cassius Dio (Livro LXVIII 7, 4)

Em 78 D.C., Ulpia Marciana, a irmã de Trajano, ficou viúva, e foi morar com Trajano e Plotina, levando com ela sua filha, Salonina Matidia, que tinha dez anos de idade. Trajano se afeiçoou muito à sobrinha e passou a tratá-la como se fosse sua própria filha. Os tios devem ter arranjado o casamento precoce de Matidia com o senador de uma ilustre família de status consular, Lucius Vibius Sabinus, união da qual nasceria, em 83 D.C., uma menina, que recebeu o nome de Vibia Sabina. Pouco depois do nascimento da filha, porém, Sabinus faleceu. Matídia, agora viúva, ainda se casaria mais duas vezes, a última delas com Marcus Annius Verus-I, um rico senador de uma família também originária da Hispania Baetica. Desta última união, nasceriam, entre outros: Anna Galeria Faustina, que seria esposa do futuro imperador Antonino Pio, e Marcus Annius Verus-II, pai do futuro imperador Marco Aurélio.

Busto de Salonina Matídia, foto de Clio20

Em 81 D.C., Trajano foi designado para o cargo de Questor na cidade de Gortyn, que era a capital da província romana de Creta. Os Questores provinciais podiam ser, de acordo com a organização política do Império Romano da época, os auxiliares militares diretos do governador da província, ocupando a posição de segundo em comando das tropas ali estacionadas.

Cumprida a designação em Creta, Trajano voltou para a sua província natal e, em 86 D.C., ele assumiu o comando da VII Legião Gemina, uma unidade militar que havia sido recrutada pelo imperador Galba na própria Hispania, e cujo quartel-general (Castra Legionis), deu origem à atual cidade de Léon, nome que deriva do seu nome original – Legio (Legião, em latim). Certamente, Trajano, nessa época, já devia ser Senador, pois já atingira a idade mínima legal de 30 anos e tinha sido Questor, o que lhe permitiu ser escolhido para a prestigiosa assembleia.

Também em 86 D.C., ocorreu o falecimento de Publius Aelius Hadrianus Afer, primo de Trajano, que era viúvo. Hadrianus Afer era filho do senador Publius Aelius Hadrianus Marullinus, ele mesmo filho e neto de senadores, e de Ulpia, a irmã do pai de Trajano. Os Élios (Aelii) eram, como os Úlpios, uma rica família descendente dos colonos italianos que fundaram Itálica.

Hadrianus Afer deixou órfãos, em Itálica, um filho de dez anos de idade, de nome Publius Aelius Hadrianus (o futuro imperador Adriano) e uma menina de onze anos, chamada Aelia Domitia Paulina. As crianças ficaram sob a tutela do primo em segundo grau, Trajano, e de Publius Acilius Attianus, um outro cidadão de Itálica, provavelmente um amigo da família, sendo que os dois podem ter sido indicados pelo falecido pai delas em testamento.

3- Ascensão de Trajano

A primeira oportunidade que Trajano teve desempenhar um papel relevante na grande cena da história política de Roma ocorreu em 89 D.C., quando ele, no comando da VII Gemina ajudou a debelar uma revolta liderada por Lúcio Antônio Saturnino, governador da província da Germânia Superior, contra o imperador Domiciano.

Cabeça do imperador Domiciano

A Revolta de Saturnino, suspeita-se, estava ligada a uma conspiração senatorial maior, fruto de uma reação ao comportamento crescentemente despótico de Domiciano em face dos senadores, e a uma série de reveses militares, especialmente contra os Dácios.

Os Dácios eram um povo indo-ariano de origem Sármata, originalmente das estepes da europa oriental, que, por volta de 300 A.C, assentou-se no território hoje conhecido como Romênia. Após se tornarem agricultores, os Dácios passaram também a explorar as ricas minas de ouro, ferro e cobre que havia no seu território e, no século I A.C., eles fundaram um reino que, à exceção do Império Romano, tornou-se o único Estado organizado da Europa, e situado na sensível fronteira romana do Danúbio.

Em 85 D.C., provavelmente estimulados pelo fato de que o Exército Romano, recentemente saído de uma campanha inconclusiva contra os germânicos Catos, estava ocupado com operações no norte da Britânia (e também com a construção de uma linha de paliçada e fortificações, o Limes Germanicus, no território incorporado dos Agri Decumates, entre o Reno e o Danúbio Ocidental, encurtando a fronteira das recém-criadas províncias da Germânia Superior e Inferior), os Dácios invadiram a Província da Moésia, na região próxima ao Mar Negro, chegando a matar o governador romano da proví­ncia. 

A campanha contra os Dácios terminou com a vitória parcial dos romanos, comandados por Cornélio Fusco, em 86 D.C. Porém, pouco tempo depois, os Dácios novamente voltaram a atacar os romanos, ocasião em que a Legião V, comandada por Fusco, foi destruída, na Primeira Batalha de Tapae (Tapas), um desastre militar no qual o próprio Fusco perdeu a vida. Os Dácios, posteriormente, seriam derrotados pelo general Tettius Julianus (Segunda Guerra Contra os Dácios), sem que, contudo, a capital dácia, Sarmizegetusa, fosse tomada.

Inclusive, especula-se que devido à crescente pressão na fronteira do Danúbio, em função da guerra contra os Dácios e também a incursões dos Suevos e dos Sármatas, que se somavam à agressão dos Catos, Domiciano foi obrigado a ordenar uma retirada total das tropas romanas na Caledônia, onde os romanos enfrentavam forte resistência, recuando a fronteira romana uns 120 km para o sul da ilha da Grã-Bretanha, tanto por não poder contar com reforços como pelo fato de talvez ter sido necessário recorrer a destacamentos deslocados da Ilha.

Pressionado em vários fronts e, naquela altura da vida, não parecendo muito disposto a trocar os prazeres de Roma para se empenhar em duras campanhas militares, Domiciano, assinou com a Dácia um tratado de paz no qual Roma concordava em pagar ao rei Decébalo um subsídio anual de oito milhões de sestércios, uma concessão  que foi muito criticada pelos autores antigos.

Há, inclusive, indícios de que Trajano permaneceu na Germânia, após a Revolta de Saturnino ser debelada, para lidar com as tribos germânicas que tentaram se aproveitar da confusão reinante.

É bem provável que a recompensa pelos bons serviços prestados a Domiciano pela supressão da Revolta de Saturnino e pela contenção dos germânicos tenha sido a escolha de Trajano para ser o Cônsul Ordinário para o ano de 91 D.C., um cargo que normalmente significava o auge da carreira política para um cidadão romano. Foi, aliás, nessa época que Trajano trouxe para Roma o grande arquiteto Apolodoro de Damasco, que, durante o seu futuro reinado, e o de seu sucessor, Adriano, se notabilizaria por projetar grandes obras e monumentos na capital e por todo o Império.

O agravamento da paranoia de Domiciano, deflagrada pela Revolta de Saturnino, resultou em uma onda de perseguições e execuções, terminando por acarretar, em 18 de setembro de 96 D.C., o seu assassinato, em uma conspiração palaciana, executada por pessoas do círculo mais íntimo do imperador, que se sentiram ameaçadas, mas que, com toda a certeza, deve ter contado com o apoio de um grupo influente de senadores, possivelmente integrado secretamemte por alguns que exerciam comandos militares importantes…

Em um desfecho surpreendente- pela ausência prévia de pretendentes apoiados pela Guarda Pretoriana e/ou de generais aclamados pelas suas tropas nas províncias dirigindo-se à Roma para reclamar o trono, o Senado Romano escolheu o velho senador Marcus Cocceius Nerva (Nerva), um homem já sexagenário e sem filhos, como o novo Imperador Romano. Tratava-se obviamente, como até hoje é a opinião geral, de um “imperador-tampão”, em uma sintomática solução de compromisso: uma escolha que não significava a volta da supremacia política do Senado, algo que seria inaceitável para o exército, bem como para o populacho, e nem tampouco a perspectiva de um reinado duradouro ou o estabelecimento de uma nova dinastia, impossibilidade que aplacaria, ao menos por algum tempo, os senadores e generais mais ambiciosos.

Busto do Imperador Nerva

Porém, o assassinato de Domiciano irritou bastante os Guardas Pretorianos, que gostavam dele, deixando a corporação suscetível a insubordinações e revoltas.

Nessa época, Trajano ocupava o importante posto de Governador da Germânia Superior (não se tem certeza se ele foi nomeado ainda no reinado de Domiciano, ou pelo novo imperador, Nerva). Antes da Germânia, observe-se, parece que Trajano tinha sido governador da província da Panônia ou da Moesia).

4- Herdeiro do trono

Porém, em outubro de 97 D.C., estourou a nada surpreendente revolta da Guarda Pretoriana, liderada por seu comandante, Casperius Aelianus, exigindo a punição dos assassinos de Domiciano. Os Pretorianos chegaram a cercar o palácio imperial, praticamente colocando o imperador na situação de refém. Acossado e humilhado, Nerva teve que ceder, e dois implicados na conspiração contra Domiciano foram executados.

Foi, portanto, a fraqueza de sua posição que obrigou Nerva  a adotar como herdeiro e sucessor aquele que provavelmente era o general mais prestigiado do Exército Romano no momento: Marco Úlpio Trajano, comandante das legiões romanas na Germânia, como filho e sucessor. Segundo a narrativa consagrada, esta representou a escolha do homem mais capaz para a sucessão imperial, uma fórmula sucessória que seria a marca da dinastia dos Nerva-Antoninos. O ato de adoção ocorreu perante o Templo de Jupiter Optimus Maximus, na colina do Capitólio.

Consequentemente, Nerva, vendo a si mesmo mergulhado em tal situação de desonra, em virtude da sua velhice, subiu ao Capitólio, e disse em voz alta: “Que possa a a boa Fortuna escutar o Povo e o Senado de Roma e a mim mesmo: Eu, neste ato, adoto Marcus Ulpius Nerva Traianus!”

Cassius Dio (Livro LXVIII 3, 4

O fato é que não sabemos se Trajano pressionou Nerva a adotá-lo ou se esta foi uma decisão voluntária do imperador. Eu pessoalmente acredito que o círculo de senadores hispano-romanos, que havia muitos anos vinha mostrando ser muito influente, deve ter tido relevante participação nessa escolha. Outro ponto a favor de Trajano deve ter sido o fato dele não ser intimamente associado a Domiciano e de não ter participado ou apoiado as perseguições do falecido imperador; Com efeito, apesar de Trajano ter prosperado e experimentado sua grande ascensão na carreira pública durante o reinado daquele odiado imperador, a percepção que deve ter prevalecido entre seus colegas é que isso decorrera exclusivamente dos seus méritos militares.

Certamente abalado pela revolta dos pretorianos, em 1º de janeiro de 98 D.C., Nerva sofreu um derrame, em uma audiência privada. E em 27 de janeiro de 98 D.C, o alquebrado imperador faleceu, aos 65 ou 67 anos de idade, em sua casa situada nos Jardins de Salústio, em Roma, após uma prolongada febre, que surgiu depois do citado derrame. Trajano foi prontamente reconhecido pelo Senado como sucessor, o que não deve ter surpreendido ninguém, pois Nerva já lhe havia concedido o “Poder Tribunício“e o título de “Imperator” (significando na prática, o poder político supremo e o comando dos exércitos romanos), e portanto, Trajano já era, de fato, um co-imperador. Ele adotou o título e o nome de Imperator Caesar Divi Nervae Filius Nerva Traianus Augustus (Imperador César, filho do Divino Nerva, Nerva Trajano Augusto).

5- Trajano imperador

O primeiro a levar a notícia da morte de Nerva à Trajano, que se encontrava em Colonia Agrippina (atual Colônia) na Germânia, foi o seu primo Adriano, que cavalgando com velocidade espantosa para a época, conseguiu chegar na frente do emissário oficial, motivo pelo qual Trajano ficou muito grato ao rapaz.

(Nota: Assim que Adriano completou 14 anos e largou a toga praetexta, Trajano enviou-o à Roma, para se aprimorar nos estudos e iniciar sua carreira pública. Quando da adoção de Trajano por Nerva, Adriano já era tribuno militar. Vale ressaltar, por outro lado, que uma fonte relata que Trajano, já havia se indisposto com o seu tutelado, quando soube do estilo de vida extravagante e perdulário que Adriano estava levando em Roma).

Estátua de Trajano

Surpreendentemente, Trajano, após ser comunicado da morte de Nerva, na Germânia, não se deslocou imediatamente para Roma, preferindo assegurar a lealdade das legiões do Reno antes de se deslocar para a capital, o que somente ocorreria no ano seguinte. Ele, então, diplomaticamente enviou uma carta ao Senado, na qual prometia jamais executar ou cassar um senador.

Creio que Trajano aprendeu bem com os exemplos que ele mesmo presenciou no início de sua carreira militar, durante a crise da deposição e sucessão de Nero, que resultara no chamado “Ano dos Quatro Imperadores“: Galba, Otão e Vitélio de fato não tomaram os cuidados necessários e partiram direto para Roma enquanto ainda havia pretendentes rivais no comando de outras poderosas legiões, o apoio do Senado era incerto e sem que eles tivessem assegurado o controle, ou ao menos a simpatia, da Guarda Pretoriana.

Trajano seria mais prudente, e procurou certificar-se, antes de marchar para a capital do Império, da lealdade dos comandantes das principais legiões e dos Pretorianos.

Para tanto, o novo imperador contou com o apoio de um outro conterrâneo seu, Lucius Licinius Sura (Licínio Sura), natural de Tarraco, na Hispania Tarraconensis, Cônsul Suffectus em 93 D.C., e que era o Governador da província da Germânia Inferior, quando Nerva faleceu. Ele tornou-se um grande amigo de Trajano, embora não se possa precisar se amizade era anterior a esses fatos, e durante o reinado deste, receberia inauditas honrarias, tais como: ser designado Cônsul por mais duas vezes (em 102 e 107 D.C.), o que não era comum para quem não fosse da família imperial, ter o seu nome dado a um banho público na cidade de Roma e receber Trajano em sua casa, sem guardas, tendo o imperador, certa vez, se permitido até dormir, tomar banho e ser barbeado ali, para demonstrar sua inteira confiança no amigo. Mais tarde, segundo conta o historiador Sexto Aurélio Vítor, Trajano construiria no bairro do Aventino, termas em homenagem a Sura (ou, então, estabeleceria que esses banhos, que teriam sido construídos pelo próprio amigo, deveriam ser batizados em homenagem ao mesmo).

Outro aliado importante de Trajano foi Quintus Sosius Senecio (Sósio Senecião), um senador que também seguira uma carreira militar de sucesso e era o Governador da Província da Gallia Belgica. Certamente, o apoio dele deve ter sido muito valioso para Trajano, pois, já em 99 D.C., Sósio Senecião foi designado Cônsul Ordinário (e, novamente, em 107 D.C.).

Da mesma forma, Trajano contou com o apoio de Sextus Attius Suburanus, um experiente militar da classe equestre que ocupara vários postos militares importantes no Exército, desde o início do reinado de Vespasiano, e, formalmente, era subordinado a Sósio Senecião, exercendo o importante cargo de Procurador da Gallia Bélgica, sendo o responsável por controlar as finanças da referida província e das legiões do Reno.

Finalmente, podemos também citar Aulus Cornelius Palma Frontonianus (Cornélio Palma), mais um senador e comandante de legião, que pouco tempo depois seria o outro Cônsul Ordinário indicado por Trajano para o ano de 99 D.C., ano em que aquele também foi nomeado Governador da Hispania Tarraconensis e, posteriormente, Governador da Síria.

Desse modo, confiante em seu “dispositivo militar”, Trajano, ainda na Germânia, convocou o Prefeito Pretoriano  Casperius Aelianus e outros guardas pretorianos para comparecerem à sua presença, fazendo-os acreditar que tinha alguma missão ou recompensa para lhes dar. Todavia, a sua verdadeira intenção era livrar-se daqueles que, tendo já ameaçado o seu antecessor, não eram dignos de gozar da sua confiança, e de fato, após chegarem à Germânia, eles foram executados ou, em um desfecho menos provável, dispensados.

Eliminado o perigoso Casperius Aelianus, Trajano nomeou Sextus Attius Suburanus para substituí-lo como Prefeito Pretoriano, enviando-o imediatamente para Roma para assumir o comando da Guarda, onde com toda a certeza Suburanus deve ter escolhido oficiais fiéis ao novo imperador e defenestrado aqueles julgados não-confiáveis. Posteriomente, Suburanus foi recompensado pelos bons serviços, entrando para o Senado Romano e chegando a ser designado Consul Suffectus, em 101 D.C.

O chamado relevo de Cancelleria, retratando guardas pretorianos

De fato, Suburanus revelou-se tão competente e digno de confiança que, segundo o relato de Cássio Dião, quando Trajano entregou-lhe cerimonialmente a espada de Prefeito Pretoriano. ele a desembainhou e a passou às mãos de Suburanus, dizendo:

“Pegue essa espada para que, se eu reinar bem, você possa usá-lá a meu favor; mas, se eu reinar mal, use-a contra mim”

Cassius Dio (Livro LXVIII, 16, 1,2

O tempo decorrido entre a morte de Nerva e a entrada de Trajano em Roma foi superior a um ano, intervalo que ele aproveitou para inspecionar as fronteiras do Reno-Danúbio, supervisionar a construção do Limes Germanicus e avaliar a ameaça das tribos, enquanto seus homens de confiança “arrumavam a casa”, na capital e no Exército. Embora não se saiba de nenhuma grande vitória que tivesse, na ocasião, sido obtida por Trajano contra os Germanos, os seus feitos na província renderam-lhe o título de Germanicus, conferido pelos Senado. Então, ao partir para capital, Trajano deixou Adriano na Germânia, no posto de Tribuno Militar.

Ao chegar em Roma, em outubro de 99 D.C., várias ações de Trajano mostraram o seu tato político:

Ele, de início, pagou o donativo costumeiro à Plebe Romana, que os imperadores costumavam dar em razão da sua aclamação. Porém, de maneira surpreendente, o tradicional donativo que também se pagava aos soldados foi reduzido pela metade. Isso, a meu ver, é uma prova evidente da confiança que Trajano possuía de que ele possuía o controle do Exército.

Claramente, a nosso ver, o novo governante implantou, desde o início, uma ideologia de que o governo imperial deveria ser legitimado pela atenção ao interesse público, pelo respeito à lei, aos direitos dos cidadãos e aos costumes, e, não menos importante, pela escolha do governante mais capaz, uma política atribuída, ainda que um tanto eufemística e fantasiosamente, à Nerva, apontado como o fundador da dinastia, e que foi continuada por seu filho adotivo Trajano e, depois, pelos seus sucessores.

Tratava-se, obviamente, de uma forma de despotismo esclarecido, uma monarquia autocrática, mas que se prometia limitada pela lei, pela razão e pelo respeito a algumas das prerrogativas históricas da aristocracia romana, corporificada no Senado, a quem o regime reconhecia dever deferência. Como a realidade iria demonstrar, era um regime que dependia muito da personalidade do monarca: funcionou bem com Trajano, mas de forma oscilante com seu sucessor Adriano, recuperando-se com Antonino Pio e Marco Aurélio, para desmoronar de vez sob Cômodo….

Aureus de Trajano. No verso, as efígies de Nerva, o pai adotivo, e Traianus, o pai natural

Essa ideologia evidencia-se claramente do texto do Panegírico escrito por Plínio, o Jovem, saudando Trajano, no início do ano 100 D.C, quando o imperador iniciava o seu terceiro consulado. como bem definiu o grande historiador Ronald Syme:

“O discurso não é meramente um encômio de Trajano – é uma espécie de manifesto senatorial em favor da monarquia constitucional “

Ronald Syme, citado por Mark P. O. Morford, no artigo “Iubes Esse Liberos: Pliny’s Panegyricus and Liberty”, publicado no The American Journal of Philology, vol. 113, nº 4, 1992,  The Johns Hopkins University Press

No citado Panegírico, Plínio enfatiza a participação voluntária de Trajano na cerimônia da renuntiatio, uma formalidade dos tempos da República, no qual o resultado das eleições para as magistraturas da República Romana eram anunciados publicamente aos eleitores, e os eleitos faziam um juramento perante os Cônsules. Plínio elogia o fato de Trajano, quando da sua terceira eleição para o Consulado, ter seguido o procedimento costumeiro, que há muito não era observado pelos imperadores, comparecendo pessoalmente à cerimônia e fazendo o juramento de pé, perante o Cônsul em exercício, este sentado em sua cadeira curul, do mesmo modo que faria qualquer senador:

O Povo Romano vos contemplou no lugar solene da Eleição, onde vós pacientemente comparecestes a todas as cerimônias que nesta ocasião são costumeiras, e contentastes-vos em ser feito Cônsul seguindo os mesmos ritos tradicionais, como se fôsseis um de nós. Qual de vossos predecessores jamais condescenderia em fazer esta honra ao cargo, ou ao Povo?”

Plínio, o Jovem, “Panegírico”, 63, em https://quod.lib.umich.edu/e/eebo/A55147.0001.001/1:5?rgn=div1;view=fulltext

Outro texto que ilustra muito bem a acima descrita ideologia do principado é o Terceiro Discurso sobre a Realeza, do filósofo Dião Crisóstomo, também conhecido como Dião de Prusa, que havia sido banido por Domiciano e se tornou amigo de Trajano.

O fato é que toda suposta “Era de Ouro” tem que ser precedida de uma era anterior, obviamente feita de um elemento menos nobre, para ser comparada…As fontes romanas do período, marcadamente de pedigree senatorial, encontraram o antípoda de Trajano em seu predecessor Domiciano, cujo período passou a ser retratado como “reinado de terror”.

E o temperamento e os modos ao mesmo tempo sóbrios e afáveis de Trajano logo contribuíram para fazê-lo querido pelo povo e pela aristocracia romanas, sobretudo em contraste com o comportamento arrogante, frio e frequentemente misantropo de Domiciano:

A associação dele com o Povo foi marcada pela afabilidade, e a sua relação com o Senado pela dignidade, tanto que ele foi amado por todos e temido por ninguém, a não ser pelo inimigo. Ele se juntava aos outros nas caçadas e em banquetes, e também nos seus afazeres, planos e brincadeiras. Frequentemente, ele levava outros três em sua carruagem, e entrava nas casas dos cidadãos, muitas vezes até sem um guarda, e se divertia lá.

Cassius Dio (Livro LXVIII, 7, 3

A postura da imperatriz Plotina também contribuiu para enfatizar a nova atmosfera política, respirada e percebida por todos como mais fresca e saudável. Segundo Cassius Dio, ao entrar pela primeira vez no Palácio, na colina do Palatino, ela se virou para a multidão, e disse:

“Ao sair, desejo ser a mesma mulher do que quando entrei”

Cassius Dio (Livro LXVIII, 5, 4

Trajano deu nova ênfase à nomeação de senadores e equestres para cargos importantes, preferindo-os, quando possível, em contraste à crescente tendência dos imperadores das dinastias dos Júlio-Cláudios e dos Flávios de privilegiarem os seus próprios libertos para exercerem funções importantes para o governo.

Outra característica marcante do reinado de Trajano, e que seria muito apreciada pelos Senadores, foi o pouco número de consulados exercidos pelo Imperador e pela família imperial, em contraste com os seus antecessores, permitindo que muitos senadores se tornassem cônsules. E, de fato, embora este cargo tivesse se tornado, no Principado, meramente honorífico, ele era ainda muito cobiçado pela aristocracia senatorial.

Governante e politico sagaz, Trajano, contudo, jamais deixou de ser, em sua alma, um soldado, profissão que ele havia exercido desde os dezoito anos, sendo que, por mais de uma década, ele fora um general do Exército Romano. Assim, dentre as habilidades que ele devia dominar com maestria, estavam as de um comandante militar.

6- Primeira Guerra contra a Dácia

O tratado de paz firmado por Domiciano com Decébalo nunca foi bem digerido pela opinião pública romana. E Trajano, ao inspecionar a fronteira do Reno/Danúbio, certamente percebeu, de perto, a crescente ameaça que o Reino da Dácia representava. Segundo Cássio Dião:

Após passar algum tempo em Roma, ele fez uma campanha contra os Dácios; pois ele levou em consideração as ações passadas deles e estava incomodado com a quantidade de dinheiro que eles estavam recebendo anualmente, e ele também observou que o poder e o orgulho deles estavam aumentando”.

Cassius Dio (Livro LXVIII, 6, 1

Uma das maiores queixas do Império Romano era que Decébalo não só vinha dando abrigo a um grande número de desertores do Exército Romano, mas também os recrutava para seu exército, valendo-se do dinheiro que ele recebia dos próprios romanos em cumprimento ao tratado assinado com Domiciano. A grande riqueza natural da Dácia, dotada, entre outras coisas, de produtivas minas de ouro, também permitia a Decébalo contratar engenheiros e técnicos romanos, empregados para construir máquinas de assédio, muralhas e outros tipos de defesas. Claramente, Roma temia a competição do único estado organizado na Europa além do Império Romano. Por 150 anos, Roma vinha conseguindo conter com sucesso o Império Parta na Ásia, os Germânicos no Reno/Danúbio e os Celtas na Caledônia. Mas permitir o crescimento de um estado rival na Europa parecia uma ameaça grande demais.

A campanha começou a ser idealizada já em 100 D.C., pois Trajano recrutou duas novas legiões (havia então, 28 legiões no Exército Romano): a XXX Ulpia Victrix e a II Traiana ( OBS: algumas fontes apontam da data de 105 D.C., para esta última, correspondendo à 2ª fase da campanha contra os Dácios). Há, ainda, indícios de que outras duas legiões foram criadas por Trajano para essa campanha, e, posteriormente, extintas por Adriano, por volta de 120 D.C.

Assim, desde que Augusto, após firmar-se no cargo de imperador, após a Batalha de Actium, extinguira dezenas de legiões recrutadas durante as guerras civis, estabelecendo o número máximo de 28 Legiões, mais de um século antes, nunca antes o Exército Imperial havia sido tão numeroso.

Então, na primavera de 101 D.C., Trajano considerou que Roma estava preparada para o ataque.

Não há relatos escritos detalhados das batalhas dessa Guerra, mas Trajano nos legou uma crônica visualmente muito informativa, retratados nos relevos da coluna comemorativa que ele mandou construir em seu Fórum (vale a pena conferir todos os relevos aqui http://www.trajans-column.org/?page_id=107#PhotoSwipe1600480583249).

As imagens são bem realistas: o primeiro relevo mostra a fronteira romana com a Dácia, com sua paliçada e torres de vigia. Depois, a narrativa desenrola-se ao longo da coluna como um papiro: entre as centenas de cenas, podemos citar as pontes de embarcações utilizadas para atravessar o Danúbio, as armas, trajes e equipamentos dos romanos e dos Dácios e dos seus aliados sármatas, a frota fluvial romana, as atrocidades, como as cabeças decepadas dos guerreiros dácios vencidos e mulheres dácias torturando prisioneiros romanos, táticas legionárias como a “tartaruga”, os conselhos de guerra de Trajano, entre muitas outras; Enfim, a Coluna de Trajano é quase como se fosse uma história em quadrinhos sobre as duas guerras contra os Dácios.

Trajano teve que formar um grande exército para a invasão, somando às nove legiões do Danúbio, outras quatro legiões, duas transferidas de outras províncias e as duas recém-criadas para a campanha, já mencionadas. O ataque foi dividido em duas colunas, que, deixando o quartel-general em Viminacium, capital da província da Moesia Superior (Atual Stari Kostolac, na Sérvia, a leste de Belgrado) atravessaram o Danúbio marchando por uma espetacular ponte fluvial em cima de barcaças (muito semelhante às pontes de campanha que os exércitos modernos constroem), avançaram em direção ao centro da Dácia, queimando sitiando cidades e e queimando vilas no caminho. Seguindo as táticas do manual militar romano, no percurso, as tropas cortavam florestas, para abrir passagem e obter material para construir os seus acampamentos. Inclusive, boa parte dos relevos mostram os legionários cavando, cortando árvores e construindo fortificações, mostrando que o grande diferencial dos romanos em relação aos seus adversários não eram tanto a bravura ou os armamentos mais sofisticados, mas sim, a disciplina, a engenharia e a logística.

Por volta de setembro de 101 A.C., os romanos inflingiram aos Dácios uma derrota na Segunda Batalha de Tapas (Tapae). Segundo Cássio Dião, apesar da vitória, esta foi uma batalha renhida e os romanos tiveram muitas baixas. Os guerreiros dácios destacavam-se por utilizarem como armamento principal uma espécie de foice comprida, chamada falx, com a qual os soldados romanos não estavam familiarizados. Essa arma afiada causava terríveis ferimentos, especialmente nos braços desprotegidos dos legionários.

Relevo do Troféu de Trajano, em Adamclissi, mostrando um romano submetendo um dácio, armado com falx. O legionário já está usando uma manica laminata, que foi adotada para proteger os braços. Foto de CristianChirita

Decébalo enviou emissários para negociar e pediu um encontro com Trajano ou alguém de sua confiança. O imperador enviou o seu amigo Licínio Sura e Tiberius Claudius Livianus, que havia substituído Suburanus no comando da Guarda Pretoriana, para negociar, porém Decébalo não apareceu.

Trajano, ladeado por Licínio Sura e Claudius Livianus, detalhe da Coluna de Trajano, foto de ColdEel

Trajano, então, reiniciou os ataques contra os postos fortificados dácios que ficavam perigosamente nas montanhas do entorno de Tapae, que guardava a entrada para as chamadas “Portas de Ferro”, uma garganta profunda que constitui a única entrada pelo sul para a capital Dácia, Sarmizegetuza, e para o grande e fértil planalto da Transilvânia. Nessas operações, os romanos lograram capturar grande quantidade de armas, máquinas de guerra e até um estandarte romano que havia sido capturado pelos Dácios quando derrotaram Cornélio Fusco, na Primeira Batalha de Tapas, no reinado de Domiciano.

Todavia, devido à chegada do inverno, Trajano decidiu interromper as operações, retirando seu exército para, provavelmente, aguardar a retomada da campanha aquartelado em Viminacium, onde os romanos passaram a virada do ano de 101 para o ano 102 D.C.

Neste intervalo, Trajano mandou de volta à Roma o seu pupilo Adriano, onde este assumiu o posto de Questor e casou-se com Víbia Sabina, a jovem filha (18 anos) de Matídia, que, por sua vez, era a muito querida sobrinha-neta de Trajano, a quem o imperador tratava como se fosse sua própria filha.

Busto de Víbia Sabina, esposa de Adriano e futura imperatriz de Roma

Decébalo aproveitou a retirada estratégica dos romanos para, valendo-se do congelamento do rio Danúbio, no início de 102 D.C., atravessar o rio e fazer ataques na província da Moesia, junto com seus aliados Roxolanos, uma tribo sármata que se notabilizava pelo emprego da cavalaria couraçada, do tipo catafractos. Provavelmente, o objetivo de Decébalo era atrair os romanos para longe dos Portões de Ferro e da sua capital, Sarmizegetuza.

A cavalaria dos Roxolanos, como retratada na Coluna de Trajano. Vale notar como o escultor tentou reproduzir a descrição feita pelas fontes de que os cavaleiros e os cavalos sármatas eram inteiramente protegidos por armadura.

Mas o estratagema não foi bem sucedido. No início de 102 D.C., Trajano enviou uma força de cavalaria para lidar com os ataques diversionistas de Decébalo, e partiu, novamente em duas colunas, para o norte, em direção a Sarmizegetuza. Os romanos ganharam duas batalhas, a primeira, contra os Roxolanos, no local onde posteriormente Trajano fundaria a cidade de Nicopolis ad Istrum, no norte da atual Bulgária. O segundo enfrentamento, mais decisivo e também vencido pelos romanos. foi na Batalha de Adamclisi, já na região romena da Dobrudja (mais tarde, em 109 D.C., os romanos construiriam ali um grande monumento em homenagem aos 3 mil soldados mortos na batalha, o chamado “Tropaeum Traiani“).

Reconstrução do Tropaeum Traiani, na Romênia, foto de Bogdan Croitoru

Em seguida, uma força comandada por Manius Laberius Maximus (Labério Máximo), outro senador, que já fora Consul Suffectus sob Domiciano, em 89 D.C., tomou uma das fortalezas que guardavam a entrada para a capital dácia, logrando inclusive capturar uma irmã de Decébalo. Para piorar a situação dos Dácios, as duas colunas comandadas por Trajano e Labério Máximo finalmente se uniram, e às duas se juntaram também a altamente móvel cavalaria auxiliar moura, liderada por Lusius Quietus (Quieto), posicionando-se todos a apenas 30 km de Sarmizegetuza.

O experiente rei dácio percebeu o tamanho da ameaça que pairava sob sua cabeça e decidiu pedir a paz, concordando com todas as exigências romanas. Os Dácios teriam que entregar aos romanos todas as suas armas, máquinas de assédio e os especialistas que tinham construído essas máquinas, que provavelmente eram desertores romanos ou romanos a serviço dos Dácios, e todos os outros desertores romanos, além de demolir as fortalezas que guardavam Sarmizegetuza e abandonar o território romano que eles haviam invadido. Os Dácios comprometiam-se, ainda, a abster-se de dar abrigo a desertores romanos ou empregar qualquer romano em seu exército e a não se aliar com inimigos de Roma e não atacar povos aliados dos romanos. Especialmente, a questão da proibição do abrigo aos desertores ou a qualquer pessoa dotada de habilidades técnicas foi enfatizada: Como já dissemos, Roma não poderia tolerar a competição de outro Estado organizado em suas fronteiras na Europa.

Na cerimônia de assinatura do Tratado de Paz, Decébalo prostrou-se aos pés de Trajano, depondo suas armas em frente do Imperador, tornando-se formalmente um rei-cliente de Roma. Os Dácios também enviaram embaixadores ao Senado Romano, para este ratificasse o tratado.

Retornando para Roma, Trajano celebrou um Triunfo pelas ruas de Roma e foi agraciado com o título de “Dacicus“. Em reconhecimento aos relevantes serviços prestados, Labério Máximo foi designado Cônsul ordinário, em 103 D.C., em companhia do próprio Trajano. Por sua vez, Quieto, que era um príncipe berbere de nascimento e que recebera de Domiciano o status de Equestre, foi nomeado senador.

De volta à Roma, Trajano dedicou-se às outras tarefas que costumavam construir uma boa imagem de imperador. Ele proporcionou ao povo os adorados jogos de gladiadores no Coliseu, mas também liberou os espetáculos de pantomimas (ou mimes) nos teatros, que haviam sido proibidos pelas medidas de moralização de costumes características do reinado de Domiciano.

7-A administração da Justiça sob Trajano

Trajano também empenhou-se em presidir julgamentos nos tribunais, principalmente no Fórum de Augusto ou no Pórtico de Lívia.

Uma rara imagem de Trajano em trajes civis (Toga), mostra-o concedendo uma audiência a cidadãos, provavelmente comerciantes ou empresários., acompanhado de Adriano. Relevo do Arco de Trajano, em Benevento)

No aspecto legal, Trajano é reconhecido pelos estudiosos do direito romano como o responsável por fazer constar em lei dois princípios hoje considerados como básicos do Direito Penal (vide: https://scholarship.richmond.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=2425&context=lawreview):

“Nenhum réu poderá ser julgado à revelia no processo penal”

“O réu tem o direito de conhecer e contraditar as testemunhas apresentadas contra si”

O segundo princípio citado surgiu como corolário da proibição instituída por Trajano de que alguém fosse processado com base em denúncias anônimas, um fato comum durante o reinado de Domiciano.

Essas passagens atribuindo expressamente tais normas a Trajano constam do Digesto publicado pelo imperador Justiniano, quase cinco séculos depois:

“Uma pessoa ausente não deve ser condenada em um processo criminal, o divino Trajano respondeu em uma consulta a Júlio Frontão. E ninguém deve ser condenado com base em meras suspeitas, o divino Trajano respondeu a Adsiduus Severus; pois é melhor absolver um culpado do que condenar um inocente”.

(Absentem in criminibus damnari non debere, divus Traianus Iulio Frontoni rescripsit. Sed nec de suspicionibus debere aliquem damnari, divus
Traianus Adsiduo Severo rescripsit; satius enim esse, impunitum relinqui
facinus nocentis, quam innocentem damnari)

DIG. 48.19.5pr;

8- Primeiras grandes obras públicas do reinado de Trajano:

  • Porto de Trajano

Ainda em 103 D.C., Trajano ordenou a construção de um enorme cais hexagonal, ligado por um canal ao porto construído pelo imperador Cláudio, visando a desafogar o porto da cidade de Óstia, a 4 km de distância. Com 39 hectares escavados na terra, o Porto de Trajano é ainda hoje uma obra impressionante (O mar recuou várias centenas de metros em 19 séculos, mas subsiste o cais que agora é uma lagoa artificial com seis lados).

Modelo do Porto de Trajano
  • Termas de Trajano

Posteriormente, em 104 D.C., Trajano iniciou as obras de construção do impressionante complexo de banhos públicos, livraria e ginásio que receberia o nome de Termas de Trajano, no Monte Ópio, construídas em cima de parte das estruturas que tinham pertencido à Domus Aurea, o enorme palácio do imperador Nero. As Termas de Trajano, provavelmente planejadas por Apolodoro de Damasco, também ofuscavam às vizinhas Termas de Tito, que eram bem menores. O complexo ocupava uma área de mais de 110 mil metros quadrados e a obra somente seria inaugurada em julho de 109 D.C. Estas termas foram as maiores já construídas até então e tornaram-se o modelo para todas as que seriam construídas posteriormente em Roma.

Reconstrução das Termas de Trajano, na maquete da cidade de Roma no século IV feita por I. Gismondi, em exibição no Museu dela Civita Romana, Roma, EUR. Foto de Cassius Ahenobarbus

Foi por essa época (104 D.C.), que Trajano permitiu que Adriano designado para o cargo de Pretor.

9- Optimus Princeps

A partir de 105 D.C. (alguns falam em 103 D.C.) aparecem moedas romanas ostentando a efígie de Trajano acompanhada da palavra “optimus” e/ou “optimo principi” (“melhor dos príncipes”), alcunha que sabemos que ele recebeu por meio de um Senatus Consultum (espécie de decreto legislativo emanado pelo Senado Romano), segundo Cassius Dio (Cassius Dio), mais em função do seu caráter justo e moderado do que em razão de seus feitos militares. No entanto, no livro LXVIII da Epitome de Cassius Dio, consta que o título de Optimus foi conferido pelo Senado Romano após Trajano incorporar a Armênia ao Império Romano, o que somente ocorreu em 114 D.C. Segundo o referido autor, dentre todos os títulos que Trajano recebeu durante o seu reinado, a alcunha de Optimus era a que ele mais apreciava.

10- Segunda Guerra contra a Dácia

Após a paz, ou melhor seria dizer, trégua, com os Dácios, Trajano, que como general tinha, como uma de suas melhores qualidades, o talento para compreender as necessidades logísticas de uma campanha, ordenou a construção de uma espetacular ponte sobre o rio Danúbio, a fim de possibilitar o deslocamento de reforços e suprimentos para as legiões romanas acantonadas em território ocupado da Dácia e, provavelmente, já antevendo uma futura anexação daquele reino.

A Ponte de Trajano, construída entre 103 e 105 D.C., entre as atuais cidade de Drobeta-Tumu Severin (Romênia) e Kladovo (Sérvia) é seguramente uma das maiores obras de engenharia da Antiguidade e, com mais de 1 km de comprimento (1135m) foi a ponte sobre arcos mais longa construída durante mil anos. A obra, que foi projetada por Apolodoro de Damasco, tinha 20 pilares de tijolos e concreto romano que suportavam arcos de madeira.

A Ponte de Trajano, reproduzida em um dos relevos da Coluna de Trajano
Reconstrução moderna de um trecho da Ponte de Trajano, na Romênia (“Trajan’s Bridge over the Danube, Romanian side” by Following Hadrian is licensed under CC BY-SA 2.0)

Em paralelo à construção da Ponte de Trajano, os engenheiros militares romanos escavaram uma passagem nas ravinas dos Portões de Ferro que ladeavam o Danúbio, no ponto em que o rio se estreita e as águas correm muito rápido. Essas passagens na verdade serviam como canais, pois o nível das águas era muito mais alto do que hoje em dia, devido à construção da represa de Djerdap, e possibilitavam a comunicação entre os barcos das frotas fluviais das províncias da Moésia e da Panônia.

Todos esses preparativos certamente impeliram Decébalo a transgredir o tratado de paz assinado com os romanos. Assim, segundo Cássio Dião, o rei dácio começou a restaurar as suas fortalezas, voltou a dar asilo e a empregar desertores romanos, a atacar os povos vizinhos que não o apoiassem, inclusive anexando parte do território dos Iáziges e a fazer alianças com outros povos supostamente hostis aos romanos.

O Senado Romano, seguindo a formalidade tradicional, declarou Decébalo inimigo de Roma, o que significava guerra. Trajano assumiu o comando das operações em pessoa e iniciou as operações militares na Dácia.

Visando ganhar tempo, Decébalo, mais uma vez, pediu uma trégua, porém negando-se a debandar o seu exército e continuando a convocar seus vizinhos para ajudar a Dácia.

Ainda de acordo com a narrativa de Cássio Dião, Decébalo chegou a executar um plano para assassinar Trajano, sendo que a tentativa foi frustrada quando os desertores romanos que o rei enviou tencionando que fossem recebidos em audiência pelo imperador foram presos por suspeita e, torturados, revelaram o plano.

Em seguida, Decébalo prendeu o general Gnaeus Pompeius Longinus, um respeitado senador e comandante de legiões romanas na Dácia, após atraí-lo para uma conferência onde o rei supostamente concordaria com as exigências romanas. A ideia era interrogar Longinus acerca dos planos de Trajano e usá-lo como refém para oer alguma concessão dos romanos. Porém, Longinus conseguiu enganar Decébalo, fazendo-o acreditar que ele, valendo-se de uma mensagem a ser enviada por um liberto, conseguiria convencer Trajano a ceder. Ocorreu que, após Decébalo concordar em enviar o liberto a Trajano, Longinus tomou uma poção de veneno que aquele mesmo liberto havia lhe dado antes de partir e morreu. Quando alcançou os romanos, o liberto contou tudo a Trajano. O rei dácio, então, propôs a Trajano que, se o imperador lhe enviasse de volta o liberto que o havia traído, em troca, os Dácios devolveriam o corpo de Longinus e mais dez prisioneiros romanos vivos. Entretanto, o imperador, em mais um exemplo de seu caráter e humanidade, julgando que a preservação da vida do liberto,em reconhecimento às suas ações favoráveis a Roma, era mais importante para a dignidade do Império do que o enterro do ilustre Longinus, recusou a proposta.

Nota; As fontes não mencionam, mas as escavações arqueológicas demonstram que, enquanto Trajano ocupava-se da campanha contra a Dácia, as tribos do norte da Britânia, provavelmente aproveitando-se mais uma vez da diminuição do efetivo romano local, que deve ter cedido destacamentos para a Guerra contra Decébalo, lograram sucesso em queimar e destruir um importante forte romano na atual Newstead, na Escócia, além de cerca de 5 fortes menores, obrigando, ainda que não imediatamente, os romanos a retroceder, de maneira organizada, para uma linha mais defensável na altura da passagem do Tyne, mais estreita (Fonte: “The Reach of Rome, a History of the Roman Imperial Frontier 1st – 5th Centuries AD“, Derek Williams, St. Martin’s Press)

O fato é que os preparativos feitos por Trajano para a Segunda Guerra contra a Dácia provaram-se fundamentais, pois a resistência dácia somente foi vencida graças aos contínuos reforços trazidos pelos romanos, que conseguiram reconquistar as fortalezas que protegiam Sarmizegetusa, que foi cercada.

Nesta campanha, Trajano foi acompanhado por Adriano, que foi designado comandante da Legião I Minervia.

Vendo a sua capital ameaçada pela sede e fome, e sentindo o grande risco de ser capturado pelos romanos, captura que certamente seria seguida pela sua exibição no triunfo de Trajano pelas ruas de Roma, Decébalo conseguiu escapar do cerco à sua capital e fugiu para as montanhas, mas, perseguido e acuado pela cavalaria romana, o rei terminou por cometer suicídio, cortando a própria garganta, em 106 D.C. O cavaleiro Tiberius Claudius Maximus, da Legião VII Claudia Pia Fidelis, por pouco não capturou Decébalo com vida e foi ele quem cortou a cabeça do rei dácio e entregou este cobiçado troféu a Trajano, um feito que o soldado fez questão de registrar em sua estela funerária, erguida na cidade de Philippi, na Grécia. Trajano, em reconhecimento, promoveu o soldado ao posto de Decurião.

Este relevo da Coluna de Trajano retrata o momento em que Decébalo comete suicídio. O cavaleiro romano que se aproxima do rei agonizante é Tiberius Claudius Maximus

Para completar a desgraça dos Dácios, um certo Bicilis, um dos membros da corte de Decébalo, revelou aos romanos onde estava escondido o enorme tesouro do rei dácio, que havia mandado enterrar suas riquezas no leito do rio Sargetia, cujo curso ele havia mandado desviar enquanto alguns de seus súditos cavavam, os quais, para fins de manter o segredo, foram prontamente executados após a tarefa.

A capital Sarmizegetusa foi afinal tomada pelos romanos, em 106 D.C., e totalmente arrasada, tendo seus habitantes sido escravizados.

Ruínas de Sarmizegetusa, foto de
Cosmin Stefanescu
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Assim, segundo as estimativas, os romanos capturaram na Dácia a fabulosa quantidade de 165 toneladas de ouro e de 331 toneladas de prata, além de cerca de 100 mil escravos! (Para se ter um termo de comparação, em Serra Pelada, no estado brasileiro do Pará, que foi o maior garimpo de ouro registrado a céu aberto do mundo, o máximo de produção alcançado em um ano (1983) foi de 14 toneladas (vide https://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u62192.shtml).

A última resistência dos Dácios foi vencida em Porolissum, local onde os romanos, em 106 D.C., construíram um quartel militar para 5 mil soldados auxiliares e que daria origem à cidade de mesmo nome, que se tornaria capital da província da Dacia Porolissenssis, criada pelo futuro imperador Adriano, em 124 D.C.

Dessa forma, a maior parte da Dácia, consequentemente, foi incorporada ao Império Romano, avançando-se a fronteira, no trecho que corresponde a atual fronteira entre a Bulgária e a Romênia, mais de 400 km quilômetros para o norte, além do curso do Rio Danúbio, curso de água que servia uma barreira natural aos invasores; porém a região da Transilvânia. que corresponde à maior e mais importante área conquistada pelos romanos, é um planalto rodeado em quase todos os lados pelas montanhas dos Cárpatos.

Portanto, desde que defendida por uma cadeia de fortes, torres e paliçadas, ocupadas por um número de tropas suficientes, a nova província foi uma excelente aquisição estratégica, sobretudo porque os custos necessários para pagar e manter os cerca de 30 mil soldados necessários para a sua defesa poderiam ser suficientemente cobertos pela produção das minas de ouro existentes na Dácia e, logo, a segurança, bem como o mercado consumidor, que as tropas romanas representavam incentivou que agricultores vindos predominantemente da Trácia se instalassem no fértil planalto.

Enfim, como bem avaliou o historiador britânico Derek Williams:

A Conquista da Dácia removeu um espinho encravado por meio século no flanco de Roma. Embora um saliente, ou fronteira em formato de bolsão projetado para fora, nunca seja o ideal, a obtenção da Dácia colocou a segurança da totalidade do território imperial, de Budapeste até o Mar Negro. em fundações sólidas. Foi uma proa de segurança projetada 250 milhas barbaricum (n.t; terras dominadas pelos bárbaros) adentro, com as tribos que antes flanqueavam os domínios romanos agora elas mesmas flanqueadas. Neste sentido estratégico, a nova província continuaria a ser um ativo valioso durante os 165 anos que Roma teve o poder para mantê-la. Em particular, o resultado da vitória de Trajano foram sessenta anos de paz praticamente ininterrupta neste quadrante do Império; uma paz que tornou a prosperidade do século II possível, porque este período começa e termina com uma conflagração no Médio Danúbio”.

“The Reach of Rome, an History of the Roman Imperial Frontier 1st-5th Centuries AD, St. Martin’s Press, pág. 62”
“File:Moesian-Dacian Limes.jpg” by rené ployer, marinus polak and ricarda schmidt is licensed under CC BY 4.0

11- Conquista do Reino dos Nabateus (Nabatéia)

De acordo com Cássio Dião, durante a fase final da Segunda Guerra contra os Dácios, o imperador Trajano determinou que o governador da Síria, o seu antigo correligionário Cornélio Palma, invadisse o Reino dos Nabateus, após a notícia da morte do rei Rabbel Soter II, que já era um rei-cliente de Roma.

Os Nabateus eram um povo semita, mais especificamente árabes, que enriqueceram monopolizando o comércio entre a Arábia propriamente dita (Arabia Felix) e os povos do Mediterrâneo oriental, feito por caravanas que transportavam principalmente incenso e mirra, através da Rota do Incenso, para a capital Petra, e também de especiarias com a Índia, por via marítima, em seu empório situado na cidade de Leuke Kome. Nesta última, os Nabateus consentiram, ainda na primeira metade do século I, que os romanos estabelecessem uma guarnição militar na cidade, chefiada por um centurião encarregado de coletar um imposto de importação de 25% sobre as mercadorias destinadas ao Império Romano.

O território do Reino da Nabatéia compreendia os territórios da moderna Jordânia e parte da faixa de Gaza e da Península do Sinai.

A conquista da Nabateia foi muito fácil, iniciada e concluída por Palma em 106 D.C., praticamente sem oposição relevante (se é que houve alguma), sendo rebatizada como a nova província da Arabia Petrae. Somente foi necessário o acantonamento de apenas uma legião no reino recém-conquistado, a Legião VI Ferrata, em Bosra, escolhida como a nova capital e rebatizada como Traiana Bostra.

Panorâmica da cidade de Petra, com um trecho do calçamento romano, foto “Petra” by ChrisYunker is licensed under CC BY 2.0

A Legião VI Ferrata ocupou-se a seguir, entre 111 e 114 D.C, da pavimentação da antiga Estrada do Rei, uma rota milenar que unia o porto de Aqaba à Bosra, com cerca de 400 km de extensão, que foi rebatizada como Via Nova Traiana e conectada a uma rede de estradas romanas que cortava a Síria e a Anatólia, unindo, assim, o Mar Vermelho ao Mar Negro.

Não há nenhum relato sobre as razões expressas que levaram Trajano a anexar a Nabateia, mas essa anexação de reinos-clientes no Oriente era uma tendência que vinha ocorrendo desde o início do século I e muito provavelmente decorria de uma visão estratégica de consolidar a fronteira oriental do Império Romano contra uma eventual ameaça do Império Parta, com o fim de melhor proteger a vital província do Egito e a rica província da Síria, bem como, talvez, controlar diretamente o comércio com o Oriente mais distante.

Após derrotar os últimos focos de resistência dácia, Trajano dedicou-se a organizar a nova Província da Dácia, onde ele ordenou que o seu primeiro governador, Decimus Terentius Scaurianus, construísse a nova capital, Colonia Ulpia Traiana Augusta Dacica Sarmizegetusa, no local onde ficava o quartel da Legião V Macedonica, situado a 40 km da capital dácia original. Trajano também decretou, fugindo da sua política tradicional de privilegiar as relações com os senadores, que as ricas minas da província seriam administradas por um por Procurador pertencente à classe dos Equestres, diretamente subordinado ao imperador (procurator aurariarum).

Em 107 D.C., Trajano retornou à Roma trazendo consigo o imenso tesouro de Decébalo e cerca de quinhentos mil escravos. Ele celebrou a vitória com uma magnífica procissão triunfal e proporcionou cento e vinte e três dias de espetáculos ininterruptos no Coliseu e no Circo Máximo, em que, segundo Cássio Dião (Epítome do Livro LXVIII, 15, 1), lutaram dez mil gladiadores e cerca de onze mil feras foram mortas!

Adriano, que foi encarregado de organizar os festejos, foi, em seguida, designado governador da Panônia Inferior.

Pouco tempo depois desse memorável ano, morreu Lucius Licinius Sura, o grande amigo de Trajano, que havia sido honrado, em reconhecimento aos serviços prestados na Segunda Guerra contra a Dácia, com o privilégio incomum de exercer um terceiro consulado.

12- Continuação do grande programa de obras públicas:

  • Acqua Traiana (Aqueduto de Trajano)

Favorecido pelo grande aporte de metais preciosos obtido na Dácia, em 24 de junho de 109 D.C., Trajano inaugurou um grande aqueduto, que trazia água potável de fontes situadas a mais de 40 km a oeste da cidade de Roma, batizado de Acqua Traiana, e que foi inaugurado dois dias após as Termas de Trajano, para mim demonstrando que ambas as obras devem ter sido planejadas em conjunto (fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Aqua_Traiana). Além das Termas, sabe-se que o aqueduto abastecia a Naumaquia de Trajano, uma espécie de enorme anfiteatro-piscina, destinada a jogos de combates navais de gladiadores, que ficava na colina do Vaticano, e, não menos importante, um grande complexo de moinhos de grãos situado na colina do Janículo, possivelmente similar ao existente em Barbegal, na França.

Complexo de moinhos hidraulicos romanos em Barbegal, desenho da revista Scientific American, em http://www.waterhistory.org/histories/barbegal/
  • Via Traiana

Em 109 D.C., Trajano deu início à construção de uma expansão da célebre Via Appia, encurtando em um dia a viagem entre Benevento e Brindisi. Alguns anos mais tarde, foi construído um Arco comemorando a conclusão da estrada, em Benevento, que, como não é de se admirar, recebeu o nome de Via Traiana.

Arco de Trajano, em Benevento, foto de Decan 
  • O Fórum de Trajano

Provavelmente assim que a segunda campanha contra a Dácia foi concluída, Trajano começou a planejar a construção do gigantesco complexo arquitetônico que seria batizado de Fórum de Trajano, cujas obras iniciaram-se em 109 D.C., e também foram custeadas pelo imenso butim obtido na referida guerra.

O complexo, que pode ser considerado um Centro Cívico, era constituído por uma vasta praça, que constituía o Fórum propriamente dito, que levaria o seu nome, com 116 metros de comprimento x 95 metros de largura (maior do que um campo de futebol oficial), uma enorme Basílica, que seria batizada de Úlpia e uma Coluna Honorária, comemorativa das duas campanhas contra a Dácia, e duas Bibliotecas, edifícios aos quais, postumamente, Adriano adicionaria um Templo de culto a Trajano. Finalmente, também compunha o projeto um grande edifício semicircular de concreto adjunto a outros prédios e com uma rua interna, formando uma exedra, que acompanhavam o formato de uma das absides da Basílica, que por sua vez formavam o Mercado de Trajano.

Foto da reconstrução do Fórum de Trajano constante da maquete da cidade de Roma feita por I. Gismondi, existente no Museu da Civilização Romana, EUR)
“Roman Fora: reconstruction plan” by Penn State Libraries Pictures Collection is licensed under CC BY-NC 2.0

O complexo foi concebido por Apolodoro de Damasco, e sua construção exigiu a demolição de inúmeras casas, ruas e até o desmonte de uma parte da colina do Quirinal, com 38 metros de altura. Esta, propositadamente, é a mesma altura da Coluna Honorária completada em 113 D.C., contando em uma série de relevos esculpidos em volta da coluna de maneira helicoidal, como se fosse um rolo de papiro sendo desenrolado, a história das duas campanhas que resultaram na anexação da Dácia. O topo da Coluna de Trajano era encimado por uma estátua do Imperador. Já a base da Coluna era em formato de um grande cubo, onde em um dos lados ficava a porta de entrada para o interior da Coluna, e contendo a seguinte inscrição:

O Senado e Povo de Roma dedica isto ao Imperador César, filho do Divino Nerva, Nerva Trajano Augusto Germânico Dácico, Pontífice Máximo, em seu 17º ano no cargo de Tribuno, tendo sido aclamado 6 vezes Imperador, 6 vezes Cônsul, e Pai da Pátria, para demonstrar de quão grande altura era a colina e o lugar que foram removidos por tão grandes trabalhos “

A Coluna de Trajano ficava um tanto “ensanduichada” entre as entradas de dois prédios, em formatos de templos, sendo que um abrigava uma biblioteca de obras em latim e o outro um acervo de obras em grego. Como a maior parte dos relevos contando a história das Guerras contra a Dácia não poderiam ser vistos do chão, é provável que os mesmos pudessem ser observados dos andares de cima e do terraço das bibliotecas, permitindo aos observadores vislumbrar a narrativa visual completa.

Mas o prédio mais impressionante do complexo do Fórum de Trajano era mesmo a Basílica Úlpia, que media 117 metros de comprimento por 55 metros de largura e cujo teto ficava a uma altura de cerca de 30 metros.

Imagem de Julien Guadet, prix de Rome, Public domain, via Wikimedia Commons

Ornada com dezenas de colunas e revestimentos dos mármores mais preciosos, espólios da Guerra contra os Dácios e inúmeras estátuas e inscrições alusivos àquela campanha, a magnificência e suntuosidade da Basílica Úlpia, que era a maior edificação deste tipo em Roma (basílica, então, significava um edifício público retangular e coberto, para finalidades civis, geralmente judiciais, políticas ou comerciais, composto por uma nave central e duas ou mais naves laterais), pode ser apreciada na excelente reconstrução apresentada no vídeo abaixo:

  • O Mercado de Trajano

Além da Coluna de Trajano. o único componente do complexo do Fórum de Trajano que se manteve de pé até nossos dias foi o Mercado de Trajano. Inaugurado em 113 D.C., é, em si mesmo, um complexo erguido em vários níveis, sendo o principal um enorme edifício semicircular sustentado por várias arcadas, o qual acompanhava o formato exterior de uma exedra que por sua vez seguia o traçado de uma das absides da Basílica Úlpia. Havia, sobre este edifício, outros edifícios de vários andares, os quais abrigavam até apartamentos, e uma rua interna, chamada de “Via Biberatica“, aparentemente pelo fato de existirem várias lojas onde se vendia pimenta (pipera, em latim), ou, então, porque ali também ficavam tavernas onde se bebiam vinho e outras bebidas alcoólicas (nesta hipótese, o nome da rua decorreria do verbo latino “bibere“, que significa beber).

Muitos consideram que o Mercado de Trajano foi o primeiro “shopping-center” da História. Vale notar, todavia, que ali também funcionavam repartições públicas, sendo inclusive o local para a distribuição pública de víveres para os cidadãos romanos pobres, como era o caso dos alimenta, programa instituído por Trajano, do qual trataremos a seguir.

Mercado de Trajano, foto de Alessio Nastro Siniscalchi
Via Biberatica

13- Políticas Públicas de Trajano :

  • Os “Alimenta

Trajano adicionou à tradicional distribuição de trigo e gêneros alimentícios aos cidadãos romanos pobres da Cidade de Roma (Anonna), um programa de benefícios sociais chamado “Alimenta“, que era muito mais amplo e destinado às famílias italianas.

O programa consistia em sua essência no fornecimento de uma ajuda financeira aos pais de famílias pobres dos diversos distritos da Itália, que poderiam inscrever seus filhos, de qualquer sexo, fossem legítimos ou ilegítimos, para receberem os recursos para pagar pela alimentação e também pela educação da sua prole, ou, de outra forma, para que recebessem diretamente alimentos e ensino custeados pelo esquema. Os recursos necessários para a execução e manutenção do programa eram provenientes dos juros pagos pelos proprietários rurais do distrito em questão, que recebiam do governo imperial um empréstimo correspondente a 8% do valor das propriedades, devendo pagar 5% de juros anuais, sendo este pagamento direcionado para os Alimenta (vide a tese de Gavin Carroll O’ Brien,Trajan’s Imperial Alimenta: An analysis of the values attached to children in Roman society in the alimenta of Trajan“, Universidade de Leyden-https://studenttheses.universiteitleiden.nl/handle/1887/133450).

Uma carta de Plínio, o Jovem a seu amigo Caninius (Cartas, Livro VII, Carta 18) dá a entender que uma outra forma de contribuição para os Alimenta poderia ser a cessão de domínio de parte da propriedade ou de outro imóvel para o Estado, continuando o proprietário com o domínio útil da área, sobre a qual deveria pagar um aluguel ao Estado.

Certos trechos do Panegírico, escrito por Plínio, o Jovem, enfatizam que o objetivo primordial de Trajano ao instituir os Alimenta seria proporcionar os funcionários públicos e, principalmente, os soldados, dos quais o Império Romano necessitaria para manter-se poderoso:

Não! Vós ordenastes que as próprias crianças fossem arroladas entre as finalidades da Vossa real assistência, para que, em sendo educadas ao Vosso encargo, elas possam desde o berço reconhecer o seu Pai Adotivo. Vós pensastes, senão justa e razoavelmente, que aqueles que são criados para o Vosso serviço devem ser mantidos às Vossas expensas: Que eles devem ser sustentados por uma pensão até que sejam capazes de ganhar um salário e assim não serem mais agradecidas aos próprios pais por terem nascido do que a Vós por terem se tornado homens. É uma discreta generosidade, César, assumir o custo de criar essas florescentes esperanças de Roma. Não pode haver desembolso mais vantajoso, nenhum que irá mais eficazmente Vos comprar um nome imortal, que este que assim é estabelecido para o bem da Posteridade. Os ricos tem estímulos para ter filhos para gozarem os muitos privilégios que desta forma eles ganham, e para evitar aqueles inconvenientes que eles de outro modo experimentem; Os pobres não tem senão um incentivo que é a benção de gerar súditos para um Príncipe tão bom. Estas crianças, assim, nascem para o único propósito de serem usadas a serviço Dele. E se Ele delas não cuidar, alimentar e manter, Ele sabe que não fará outra coisa senão acelerar a queda do seu império e impulsionar a ruína da República. Porque um Príncipe que protege a sua nobreza com privilégios e proteção, enquanto deixa a República nua e indefesa, não propicia senão uma cabeça cambaleante, sem braços ou corpo para equilibrá-la ou suportá-la.”

Plínio, o Jovem, “Panegírico”, 50/51, em https://quod.lib.umich.edu/e/eebo/A55147.0001.001/1:5?rgn=div1;view=fulltext

Em outros trechos do Panegírico, infere-se que Trajano também organizou melhor a distribuição da Anonna em Roma, que antes obrigava os interessados em receber o benefício a terem que fazer requerimentos escritos à burocracia imperial, e, depois, em dia determinado, a multidão de beneficiários teria que comparecer a algum evento público em que se fazia a distribuição, a qual, aparentemente, ocorria na própria rua, em praças ou nos fóruns, algumas vezes na presença do próprio imperador, o que, provavelmente, devia causar muitos percalços e confusão.

Este relevo do Arco de Trajano, em Benevento, parece mostrar uma representação alegórica da distribuição de pão aos cidadão romanos pobres, carregando nos ombros seus filhos, provavelmente uma alusão aos Alimenta. Foto: Institute for the Study of the Ancient World from New York, United States of America, CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Commons

Sou da opinião que a construção do enorme Porto de Trajano, em Óstia, do grande complexo de moinhos em Roma, alimentado pela Acqua Traiana, e dos Mercados de Trajano, deviam estar relacionados à reestruturação da Anonna e à instituição dos Alimenta, tudo isso demonstrando a grande capacidade de planejamento estratégico de Trajano, indubitavelmente uma aplicação civil de seu invulgar conhecimento da logística militar.

Mas os Alimenta também podem ser considerados como um grande gesto político de Trajano: Sendo ele o primeiro imperador nascido fora da Itália (mais especificamente, de uma família provincial), a criação de um programa social exclusivo para os cidadãos da Península certamente foi recebida pela opinião pública como o reconhecimento da posição especial e privilegiada a que os Italianos tinham direito no Império que eles haviam criado.

  • Pão e Circo

Com efeito, dentre os imperadores romanos, Trajano foi um dos que melhor compreendeu que uma das chaves para um príncipe manter-se seguro no trono e assegurar um reinado estável e duradouro era providenciar a subsistência da plebe romana, mas, além disso, mantê-la entretida, como escreveu o percuciente professor, orador e advogado romano Marco Cornélio Frontão em uma de suas Cartas:

No restante, se Trajano deve ser considerado mais ilustre na guerra ou na paz da minha parte eu deixo de opinar, apenas pontuando que até Espártaco e Viriato detinham consideráveis habilidades militares, enquanto que nas artes da paz quase ninguém, se é que alguém conseguiu, tem igualado Trajano em relação à popularidade com o povo. (…). É baseado nos mais elevados princípios de sabedoria política que o Imperador não negligencia até mesmo os atores e outros artistas de palco, o Circo e o Anfiteatro, tendo ciência, como ele de fato tem, que o Povo Romano é conservado por duas coisas acima de todas: A Anona (o fornecimento gratuito de trigo) e os espetáculos; que o sucesso de um governo depende tanto das diversões, como de coisas mais sérias; negligenciar os assuntos sérios acarreta a maior perda, negligenciar as diversões, o maior descontentamento; Dar comida é um incentivo mais fraco do que os espetáculos: Na Anona, somente o proletariado arrolado é aplacado de maneira isolada e individualizada; enquanto que, pelos espetáculos, mantém-se todo o populacho de bom humor…”

Carta de Frontão Lúcio Vero, “Principia Historiae”, 17 , em “The Correspondence of Marcus Cornelius Fronto” , disponível em https://archive.org/details/correspondencem00frongoog/page/n230/mode/2up?view=theater

Assim, mesmo antes da implantação dos Alimenta, Trajano preocupou-se em proporcionar espetáculos suntuosos ao povo romano, como por exemplo os já mencionados jogos que duraram 123 dias e envolveram dez mil gladiadores e a morte de onze mil feras. Além da Naumaquia, também já mencionada, Trajano foi o responsável por reconstruir em Roma o vetusto Circo Máximo, que nos últimos séculos havia sofrido alguns incêndios, agora feito inteiramente em alvenaria e revestido de mármore, com a capacidade de abrigar um público estimado entre 150 mil e 250 mil espectadores!

Reconstrução do Circo Máximo por I. Gismondi, maquete existente no Museo della Civiltá Romana
  • Desvalorização do denário

Mesmo com o gigantesco afluxo de metais preciosos advindos da conquista da Dácia, Trajano decidiu, em 107 D.C., desvalorizar o denário de prata, reduzindo a sua pureza de 93,5% para 89%. Provavelmente, ele foi obrigado a isso para financiar os imensos gastos ocasionados não apenas pela campanha, mas sobretudo com o enorme programa de obras públicas (valendo notar que a maioria delas somente foi concluída após a desvalorização) e os Alimenta. De qualquer forma, o aumento da base monetária não se mostrou nocivo à economia romana, que experimentou um grande crescimento no período.

  • Os Correctores

Durante a formação do Império Romano, houve a incorporação várias Cidades-estados, tão ou mais antigas do que Roma, inicialmente na Itália, fundadas pelos próprios povos itálicos ou pelos gregos (a chamada Magna Grécia, que compreendia também a Sicília), e depois, principalmente no Mediterrâneo Oriental, compreendendo especialmente cidades de cultura grega, seja na própria Grécia e ilhas do Mar Egeu, como também cidades fundadas pelos gregos na Ásia Menor, sem falar nas cidades e territórios dominados por diversos impérios ou reinos conquistados pelos romanos (como o Império Cartaginês, Macedônia, Egito, etc), além de colônias fundadas pelos próprios romanos em todo orla do Mediterrâneo e além.

Não obstante, a autonomia político-administrativa das centenas de cidades existentes no Império Romano, bem como os direitos políticos dos seus cidadãos, variavam em função do contexto em que se deu a incorporação delas ao Império Romano, bem como, depois da respectiva incorporação, eles podiam variar em função de diversos acontecimentos relevantes que modificavam a relação dessas cidades com o governo imperial.

No caso das cidades italianas e gregas, a esmagadora maioria incorporada ao “Imperium Romanum” (na sua acepção de território governado por Roma) ainda no tempo da República, houve inúmeros casos em que os conquistadores romanos reconheceram aos cidadãos o direito de manter as suas assembleias eleitas pelos cidadãos locais, preservando os seus respectivos direitos políticos e gozando de um grande grau de autonomia em seus assuntos internos.

Enquanto isso, a chamada Pax Romana, que o Império Romano experimentou após a incorporação de toda a orla do Mediterrâneo e o fim das guerras civis dos Dois Triunviratos, ocasionou uma grande prosperidade geral, notadamente na Itália e na Grécia.

Sobretudo na Grécia, onde havia mais cidades populosas e, em geral, mais riqueza acumulada, seja devido à maior antiguidade dos centros civilizados, seja pela possibilidade de um fluxo comercial maior e mais profícuo com outras civilizações tais como as iranianas, mesopotâmicas, índicas e até mesmo a chinesa, houve um grande enriquecimento das cidades e das suas classes dominantes.

Entretanto, historicamente, sempre houve uma grande rivalidade e competição entre as Cidades-Estado gregas, um traço que, enquanto elas ainda eram independentes e seus interesses estratégicos “nacionais” entravam em choque, resultou em muitas guerras, ou, de modo mais saudável, essa rivalidade era resolvida em provas esportivas, exibições musicais ou construção de obras artísticas e de embelezamento urbano.

A Biblioteca de Celso, em Èfeso, exemplo do tipo de edifício suntuoso que as cidades gregas se compraziam em construir, foto de Benh Lieu Song

Após a conquista romana, as cidades gregas não perderam essa cultura competitiva, como alguém poderia esperar, mas, ao contrário, elas continuaram a disputar acirradamente entre si pelo respectivo status dentro da mesma província e no Império Romano, status que podia se traduzir em favores imperiais, como, por exemplo, algum benefício fiscal ou outra vantagem, ou mais frequentemente, eram expressados por categorias ou títulos, muitas vezes apenas honoríficos. E uma das formas mais costumeiras que a classe dominante dessas cidades gregas utilizava para ganhar proeminência política e aumentar o status das suas cidades era mediante a construção de edifícios públicos grandiosos e suntuosos, tais como termas, basílicas, fontes e chafarizes, etc.

Reconstrução artística da cidade de Nicomédia, na Bitínia, uma das cidades que seria alvo da ação do Corrector Plínio, o Jovem (foto extraída de Limen Project – Izmit (Ancient Nicomedia), Turkey)

Como essas cidades ainda gozavam de uma certa autonomia política e os seus cidadãos mantiveram os seus direitos políticos de votar e ser votados, elegendo os seus governantes locais, mas que todavia, prestavam contas, de uma forma ou de outra, ao governador romano da Província, e, em última instância, ao Imperador, era comum que essas disputas políticas, que não poucas vezes degeneravam em tumultos violentos, ou até mesmo em revoltas, acabassem sendo levadas à Corte Imperial, em Roma, sobrecarregando as repartições públicas imperiais e o próprio monarca. Parece que um problema semelhante ocorria na Itália, posto que para essas duas províncias é que os Correctores seriam designados.

Do mesmo modo, a consequente insolvência dessas cidades, além de implicar na diminuição do montante dos tributos que deviam ser pagos ao Império, acabava obrigando Roma, em algum momento, a ter que enviar dinheiro para a manutenção de um serviço público ou construção considerada essencial, ou até mesmo para socorrer a população em apuros. Além disso, essa crescente onda de construções de edifícios públicos grandiosos, que se esperava fossem custeados pelos que, por direito, faziam parte dos conselhos municipais (os chamados “Curiais“), afastava desses conselhos a maior parte dos membros menos ricos da aristocracia local, que não tinham condições financeiras de comparecer com a parte que lhes caberia, algo que não era de interesse do Império Romano, que precisava dos “Curiais” para atender várias demandas fiscais e administrativas no território controlado pelas cidades.

O Ninfeu restaurado na cidade de Sagalassos, na Turquia, uma cidade pequena, mas que não economizou na construção de uma fonte pública suntuosa (“The restored Antonine Nymphaeum, erected ca. 160-180 AD, Sagalassos, Turkey” by Following Hadrian is licensed under CC BY-SA 2.0)

Para lidar com esse problema, e uma vez que o estatuto de “cidade livre” impunha algumas restrições ao poder dos governadores romanos, Trajano decidiu criar uma magistratura extraordinária que recebeu o nome de “Legatus Augusti pro praetore(missus) ad corrigendum (ordinandum)” – nome que normalmente acompanhado do local onde as funções seriam exercidas, sendo que no caso do primeiro a ser designado por Trajano, o título foi “Legatus Augusti pro praetore ad corrigendum statum civitatium liberarum“, ou seja, “Enviado de Augusto com poderes de pretor (este era o título oficial dos governadores das províncias imperiais) para regular as cidades livres“. (Nota: os governadores das províncias senatoriais tinham o título de “pro-cônsules“). Posteriormente, este cargo passou a ser conhecido genericamente como “Correctores” (um termo cuja melhor acepção seria “Corregedores”).

Durante o reinado de Trajano e dos seus sucessores Antoninos, o cargo de Corrector foi ocupado por membros da aristocracia senatorial que fizessem parte do circulo mais íntimo do imperador, e, portanto, isto fazia também parte da estratégia de Trajano de manter boas relações com o Senado.

Os Correctores eram designados em função de crises e lugares específicos, mas eles tinham um amplo poder (imperium) delegado pelo Imperador, nas esferas administrativa, política e jurídica locais. Na prática, eles podem ser considerados como um misto de interventores e auditores, e, como se extrai principalmente da correspondência imperial, adequavam-se a uma crescente tendência centralizadora, vigilante e autocrática do Principado, mas que também ao que parece emanava da personalidade do próprio Trajano.

As situações existentes nas cidades gregas que devem ter inspirado a decisão de Trajano podem ser vislumbradas:

1) No 38º Discurso feito aos cidadãos de Nicomédia, na Bitínia, no qual Dião Crisóstomo critica a rivalidade entre aquela cidade e a cidade vizinha de Nicéia, que se digladiavam, entre outras honrarias, pelo título de “metrópole” da região:

“Assim, pelos atos públicos deles (os governadores romanos), eles vos rotularam como um bando de idiotas, sim, eles vos tratam como crianças, pois nós sempre oferecemos às crianças as coisas mais triviais em lugar de coisas de grande valor, na ignorância delas do que é realmente valioso e no prazer que elas sentem pelo que é de menor importância, da satisfação pelo que é, meramente, coisa alguma. Assim, também no vosso caso, no lugar da Justiça, no lugar da liberdade das cidades da espoliação ou do confisco da propriedade privada dos seus habitantes, em lugar de que eles se abstenham de vos insultar, no lugar deles se absterem da violência embriagada, os vossos governadores vos dão títulos, e vos chamam “primeiros”, seja oralmente ou por escrito; feito isto, eles podem, doravante, impunemente tratá-los como se vós fosseis os últimos!

Em verdade, tais marcas de distinção, com as quais vós vos enfeitais, são objeto de total desprezo, não apenas aos olhos de todas as pessoas de discernimento, mas, especialmente, em Roma, onde elas despertam gargalhadas e, o que é mais humilhante, são chamadas de “fraquezas gregas!”.

Dio Chrysostom, “The Thirty-eighth Discourse: To the Nicomedians on Concord with the Nicaeans”, https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Dio_Chrysostom/Discourses/38*.html

2)N o 48ª Discurso feito por Dião Crisóstomo aos seus concidadãos da cidade de Prusa, possivelmente pronunciado pouco tempo antes do envio do primeiro Corrector à Grécia, do qual destacamos o seguinte trecho:

“Vocês pensam que um mercado, teatro, ginásio ou colunata ou riqueza trazem alguma vantagem para homens que estão em discórdia? Não, não são essas coisas que fazem um cidade bela, mas sim autocontrole, amizade, confiança mútua. Porém, quando vocês criticam o Conselho, os líderes do governo, os magistrados devidamente eleitos, não estão vocês criticando a vocês mesmos? Porque, se os melhores homens entre vocês são baixos, o que alguém irá achar em relação aos demais? “Então nós vamos perder o que nos pertence?”, alguém contrapõe. Ninguém está sugerindo isso, pelo contrário, vocês podem ficar certos que em todas as nossas cidades há verbas públicas, e que algumas poucas pessoas estão em poder desses fundos, alguns por ignorância e alguns por outro motivo. e é preciso tomar medidas e tentar recuperar essas verbas, contudo não com ódio ou brigas”.

Dio Chrysostom, “The Forty-eighth Discourse: A Political Addres in Assembly”, https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Dio_Chrysostom/Discourses/48*.html#ref19

O mais famoso Corrector nomeado por Trajano foi o seu amigo e senador Gaius Plinius Caecilius Secundus, mais conhecido como Plínio, o Jovem, para intervir nas cidades livres da Província da Bitínia. Enquanto cumpria esta designação, Plínio, o Jovem trocou uma copiosa correspondência com o Imperador, que posteriormente foi compilada em uma coleção que, aliás, surpreende pela frequência com a qual o auxiliar consultava o monarca sobre quase qualquer questão, inclusive assuntos que hoje nos parecem questões burocráticas de pouca importância. Sobrelevam, entretanto, nas cartas, os assuntos relacionados aos gastos públicos excessivos das cidades gregas.

Plínio relata e pede orientação a Trajano acerca de como proceder em relação a aquedutos, teatros e banhos públicos inacabados, construção de ginásios e termas demasiado grandiosos para determinadas cidades, tais como Nicomédia, Prusa e Nicéia e, quase sempre, a resposta do imperador enfatiza a preocupação com as finanças municipais e a averiguação das responsabilidades pelo desperdício do dinheiro público e a punição dos desvios.

Em uma das cartas, entretanto, vemos que o Imperador estava também especialmente preocupado com os riscos potenciais que a criação de quaisquer associações de cidadãos em geral pudessem acarretar ao domínio romano, e aqui o tom do imperador nos soa mais sombrio, mostrando uma política imperial mais parecida com a de um estado policial:

Plínio a Trajano, Livro X, Carta 33:

“Enquanto eu estava visitando uma parte distante da província, um incêndio muito desolador deflagrou-se em Nicomédia e destruiu um número de casas particulares e dois edifícios públicos: o asilo e o Templo de Ísis, embora uma rua corresse entre eles. Permitiu-se que o fogo se espalhasse mais do que deveria, em primeiro l ugar, devido à violência do vento, e, em segundo lugar, devido á inação dos habitantes, (…). Além do mais, não há sequer uma única bomba de incêndio (sipho) ou balde no local, e nem um solitário equipamento para lidar com um surto de incêndio. Entretanto, estes serão providenciados de acordo com as ordens que eu já dei. Mas, Senhor, eu gostaria que vossa majestade considerasse se uma corporação de bombeiros, de cerca de 150 homens, deveria ser instituída. Eu cuidarei para ninguém que não seja um bombeiro genuíno deva ser admitido, e que a corporação não aja contrariamente ao estatuto que lhe for conferido; e não haveria dificuldade em vigiar um contingente tão pequeno.”

Trajano a Plínio, Livro X, Carta 34:

“Você concebeu a ideia de que uma corporação de bombeiros devia ser formado em Nicomédia, nos moldes de várias outras já existentes. Mas, deve ser lembrado, que a vossa província da Bitínia, e, especialmente, cidades-estado como Nicomédia, são presas de facções. Qualquer nome que nós possamos dar àqueles que formem uma associação, e qualquer que possa ser a razão desta associação, elas logo irão degenerar em sociedades secretas. É melhor política providenciar equipamentos para lidar com incêndios e encorajar os proprietários a fazer uso deles, e, se a ocasião requerer, convocar a multidão para que se junte a esta tarefa.

Em http://www.attalus.org/old/pliny10a.html
Teatro de Niceia, o mesmo mencionado por Plínio, o Jovem na Carta 39, a Trajano. Foto de Dosserman

Política em relação aos Cristãos

Nas célebres Cartas 96 e 97, Plínio consulta Trajano sobre como ele deveria proceder em relação aos processos instaurados contra os Cristãos. O Corrector demonstra uma certa perplexidade com a própria acusação em si, pedindo ao soberano orientação sobre a natureza do crime e a punição a ser aplicada aos que fossem seguidores do Cristianismo. Das perguntas de Plínio e da resposta do imperador infere-se que já estava estabelecido, provavelmente antes mesmo do reinado de Trajano, que o Cristianismo era uma religião ilegal. Entretanto, parece a percepção estatal mais aguda era a de que as condutas dos Cristãos eram perigosas para a ordem pública por envolverem a associação entre os fiéis e a realização de reuniões constantes (e aqui se lê Plínio citando um Decreto de Trajano que certamente decorreu dos mesmos motivos elencados para a proibição da criação da corporação de bombeiros em Nicomédia). Em segundo lugar, nota-se que o Cristianismo representava um risco às religiões tradicionais, mas, sobretudo, ao culto imperial. Neste último aspecto, a razão para que os Cristãos, “caso fossem denunciados e a culpa provada“, fossem punidos, mas não “perseguidos“, parece ter sido também a de preservar a ordem pública e a devoção ao imperador, evitando o descontentamento entre os fiéis das religiões tradicionais e preservando os negócios que dependiam delas (deviam ser a maior parte dos que delatavam os Cristãos e esperavam a sua punição) e, por fim, afirmando o caráter divino do Imperador (uma condição que era essencial na parte oriental do Império, mesmo desde o início do Principado):

Plínio a Trajano, Carta 96:

Meu senhor, tenho como costume fazer chegar a ti todas aquelas dúvidas que me acometem no cumprimento de meu cargo. Quem melhor, na verdade, para conduzir minhas hesitações por um bom caminho ou instruir-me em minha ignorância? Nunca participei em Roma de nenhum processo contra os cristãos. Desconheço, por isso, qual é o crime do qual os acusam, quais punições merecem, qual procedimento deve regular o inquérito e quais limites devem colocar-se a eles. [2] Assim, tive as mais sérias dúvidas sobre se devem estabelecer-se diferenças entre as idades dos réus ou se, pelo contrário, os mais jovens, por mais tenra que seja sua idade, em nada se diferenciam dos mais velhos; sobre se deve conceder-se a absolvição à retratação, ou pelo contrário, àquele que tenha sido cristão em nada lhe beneficia a renúncia; por fim, se o castigo é pelo mero nome de cristão, inclusive na ausência de quaisquer tipos de crimes, ou se o que se castiga são os crimes associados ao dito nome. Eis de que modo me comportei até o momento com aqueles que foram conduzidos diante de mim e acusados de ser cristãos.
[3] Perguntei diretamente a eles se são cristãos. Ao responder-me que sim, perguntei-lhes uma segunda e até uma terceira vez, advertindo-lhes que o reconhecimento de algo assim expressaria a morte. Aos que mantiveram sua declaração, ordenei que os executassem. A razão disso foi que não me cabia dúvida de que, qualquer que fosse a natureza do crime que confessavam, certamente este fanatismo e esta obstinação intransigente merecia a morte. [4] Houve outros que, apesar de mostrarem uma irracionalidade semelhante, sendo cidadãos romanos, os incluí nas listas daqueles que devem ser enviados ao julgamento em Roma. Em seguida, durante a instrução do processo, ao estender a outros a acusação, apresentou-se, como de costume, muitos casos particulares. [5] Por exemplo, apareceu fixado em um lugar público uma denúncia anônima contendo um grande número de nomes. Aos que negaram ser ou terem sido em algum momento cristãos, como invocaram aos deuses de acordo com a norma ditada por mim, fizeram uma oferenda de incenso e vinho diante de tua imagem, que com este propósito eu havia ordenado trazer junto às estátuas dos deuses, e também maldisseram o nome de Cristo, o que segundo se diz, não se pode forçar de modo algum aos que são verdadeiramente cristãos, a estes cri que devia deixá-los em liberdade. [6] Outros, cujos nomes foram revelados por um delator, reconheceram inicialmente ser cristãos, mas logo negaram, dizendo que, na verdade, haviam sido cristãos, mas que deixaram de sê-lo. Alguns firmam que faz três anos, outros dizem que faz muitos anos, inclusive alguns há mais de vinte anos. Todos estes também veneraram tua imagem e as estátuas dos deuses e maldisseram o nome de Cristo. [7] Houve entre eles quem assegurou, além disso, que toda a sua culpa, ou melhor, todo o seu erro consistiu tão somente em reunir-se regularmente em certo dia antes do nascer do sol, entoar alternadamente entre os presentes um hino em honra de Cristo, como se de um deus se tratasse, e comprometer-se mediante juramento a não perpetuar alguns tipos de crimes, como se comenta, a não cometer furto nem roubo com violência, nem adultério, a não faltar com a palavra dada e a não se negar a restituir um depósito quando chamados a pagar. Também manifestaram que, uma vez cumpridos esses ritos, tinham o costume de retirar-se e voltar a se reunir mais tarde para celebrar com comida, composta, ao contrário do que foi dito, de alimentos normais e inocentes, mas que já haviam deixado estas práticas desde que meu Édito, seguindo tuas ordens, proibiu a todos os tipos de associações. [8]
Por esta razão, considerei necessário investigar quanto há de verdade em tudo isso e, assim, submeti à tortura duas escravas as quais os cristãos denominam de ministras. Mas não encontrei nada além de uma tola e extravagante superstição. [9] Por tudo isso, adiando de momento a instrução da causa, apressei-me a consultar-te. Na verdade, pareceu-me que o assunto merecia uma consulta a ti, em especial pelo número dos acusados, pois muitas pessoas de todas as idades, de toda condição e tanto de um como de outro sexo já foram processadas, e ainda muitas outras serão. E o contágio desta superstição não se estendeu unicamente pelas cidades, mas que também se propagou pelos povos e campos. Acredito, contudo, que a enfermidade pode ser detida e curada.
[10] Certamente, é um fato comprovado que os templos, que já se encontravam praticamente abandonados, começaram a ser frequentados novamente, que as cerimônias sagradas, interrompidas durante um longo tempo, voltaram a ser celebradas, e que por toda parte se vende a carne das vítimas sacrificadas, para a qual até pouco tempo encontravam-se escassos compradores. Disto se deduz facilmente que grande quantidade de pessoas poderia ser afastada dessa superstição, se a elas fosse oferecida a absolvição no caso de retratação.”

Caio Plínio Segundo (Carta 97, tradução retirada de PROMETEUS – Ano 11 – Número 28 – Edição Especial – 2018 – E-ISSN: 2176-5960)

Resposta de Trajano a Plínio, Carta 97):

Meu caríssimo Segundo, seguiste o procedimento que devias ao analisar as causas dos processos daqueles que foram denunciados diante de ti como cristãos. Na verdade, não se pode estabelecer uma norma geral que imponha, por assim dizer, alguns critérios absolutamente rígidos. Os cristãos não devem ser perseguidos. Se forem denunciados e a culpa provada, devem ser castigados. No entanto, aquele que nega ser cristão e o demonstre de fato, isto é, venerando aos nossos deuses, embora se suspeite de ter sido cristão no passado, deve obter a absolvição por sua retratação. [2] Quanto às denúncias anônimas que podem aparecer fixadas em lugares públicos, não devem servir a nenhum tipo de acusação, pois é uma prática detestável e imprópria de nosso tempo.

Trajano (Carta 97, tradução retirada de PROMETEUS – Ano 11 – Número 28 – Edição Especial – 2018 – E-ISSN: 2176-5960)

Enfim, a correspondência entre Trajano e Plínio, o Jovem é uma fonte valiosa para se entender a política imperial do período para as províncias, bem como para revelar as preocupações que moviam as ações de Trajano. Porém, o estudioso do reinado de Trajano não deve se esquecer que o tom adotado por Plínio, o Jovem é quase sempre de adulação e, portanto, não nos permite penetrar no real caráter do reinado, seja para considerá-lo mais “republicano” ou menos tirânico e despótico do que o de algum dos seus maus-afamados antecessores, como Nero ou Domiciano.

14- Guerra contra os Partas

Durante sete anos, contados desde a conquista definitiva da Dácia e a anexação da Nabateia, em 106 D.C., Trajano dedicou-se apenas aos assuntos civis e administrativos. Tanto na política exterior como na interna, a tranquilidade reinava: entre as fontes, Cássio Dião, entretanto, relata que houve pelo menos uma conspiração, que resultou na punição de Gaius Calpurnius Piso Crassus Frugi Licinianus ao exílio. O Breviarium de Eutrópio também menciona a condenação de um único senador inominado, que foi aplicada pelo Senado, a qual, de acordo com o relato do autor, teria ocorrido sem o conhecimento do imperador.

Então, em 112 D.C., um incidente no exterior requereu a atenção de Trajano: o nobre Osroes (Chosroes ou Khosro) revoltou-se contra o imperador dos Partas, Pacorus II e assumiu o controle da metade ocidental do Império Parta (a metade oriental ficou sob o cetro de Vologeso III, filho de Pacorus II) . Em seguida, Osroes I interveio na vizinha Armênia, depondo o rei Axidares, filho de Pacorus II (ou, segundo outra versão, o deposto teria sido um certo Tiridates, que Osroes I substituiu por Axidares).

Moeda com a efígie de Osroes I, em  http://www.cngcoins.com

Ocorre que, desde 63 D.C., durante o reinado de Nero, os impérios romano e parta haviam celebrado o Tratado de Rhandeia, que pôs fim à chamada “Guerra da Sucessão Armênia” travada entre as duas potências referidas. Pelo tratado, que considera-se ter sido mais vantajoso para os Partas, o rei da Armênia deveria ser um príncipe integrante da dinastia parta dos Arsácidas, mas a sua nomeação e investidura ou coroação cabia ao imperador romano. A Armênia era estrategicamente importante para os Romanos porque funcionava como uma zona ou estado-tampão que protegia suas províncias da Ásia Menor, como a Bitínia, a Capadócia e o Ponto, bem como suas possessões no Mar Negro, de ameaças vindas do Irã e da Mesopotâmia, controladas pelo Império Parta. Os Romanos chegaram a invadir e controlar brevemente a Armênia, em 66 A.C. e em 34 A.C., mas o imperador Augusto preferiu negociar com os Partas um status de reino-cliente de Roma para a Armênia, com a prerrogativa do Império Romano de indicar um rei de sua confiança, ainda que Arsácida. Então, a partir desse período, a nobreza armênia dividiu-se em facções pró-Roma e pró-Partas e, então, o país, embora fosse étnica e culturalmente mais ligado aos povos iranianos, oscilou entre a esfera de influência de um e de outro Império.

Estátua de nobre parta, encontrada em Shami, Irã, datada entre 50 A.C. e 150 D.C., foto de  Arashk rp2 

Tratava-se, portanto, a ação de Osroes, de uma evidente violação do tratado, o que obrigava o Império Romano a dar uma resposta.

Façamos, agora, uma rápida pausa digressiva para explicar que o Império Parta era dominado pela tribo iraniana dos Parni, um dos vários povos iranianos que habitavam a região situada entre o atual Irã e o Afeganistão. Os Parni, liderados por Arsaces I, travaram uma longa guerra de independência ao final completamente bem sucedida, entre 247 e 129 A.C., contra o Império Selêucida, que por sua vez tinha sido fundado pelo general macedônio Seleuco I, em 323 A.C., após a morte de Alexandre, o Grande, rei da Macedônia que havia destruído o Império Persa (que era controlado por outra tribo iraniana, a dos Farsi e havia sido fundado pela dinastia persa dos Aquemênidas, cerca de 550 A.C.) e conquistado toda a região, até o norte da Índia.

Porém, ao contrário dos seus antecessores persas, o Império Parta tinha uma organização mais descentralizada e o imperador era praticamente um suserano de uma coleção de grandes províncias, quase feudos, muitos semi-independentes e frequentemente propensos a revoltas (sem falar nas frequentes disputas entre vários príncipes da dinastia Arsácida pelo trono).

Não obstante, o Império Parta mantinha, entretanto, um controle mais direto sobre a Mesopotâmia, que, embora fosse a parte mais rica e populosa do Império, e também a região onde ficava a capital, Ctesifonte, não era a terra natal dos Partas, que ainda habitavam em sua maior parte as terras situadas dentro do atual Irã, uma terra montanhosa, de onde ainda provinha a nobreza guerreira que compunha as unidades militares de elite – a cavalaria couraçada denominada de “catafractos“, e também a parte restante do exército, quase que inteiramente constituída por arqueiros montados. Vale observar também que, ao contrário dos seus sucessores persas da dinastia dos Sassânidas, o Império Parta era bem mais permeável a influências vindas do Ocidente, e no geral, os Arsácidas permitiam que as muitas cidades helenísticas existentes em seu território mantivessem a organização política e a identidade cultural de matriz grega.

John Tremelling, GFDL http://www.gnu.org/copyleft/fdl.html, via Wikimedia Commons
Catafracto em relevo em Nasq-i-Rustam, Irã. Foto: Zereshk, Public domain, via Wikimedia Commons, Public domain, via Wikimedia Commons

Retomando a nossa narrativa principal, em 113 D.C., Trajano partiu de Roma para o Oriente já com o propósito de retaliar o Império Parta pela violação do Tratado. Entretanto, é provável que o imperador romano deve ter mandado um ultimato aos persas, ou que a notícia da sua partida tenha corrido mais rápido, pois quando Trajano chegou a Atenas, segundo Cássio Dião, ele já encontrou ali os embaixadores partas, trazendo presentes e uma proposta de paz de Osroes I: O rei propunha que o trono da Armênia fosse dado a Parthamasiris, outro filho de Pacorus II, que ele já havia colocado no trono no lugar de Axidares e cuja aprovação ele agora pedia a Trajano, justificando que o motivo da deposição foi o fato deste último estar se mostrando insatisfatório tanto para os Partas quanto para os Romanos.

Contudo, Trajano rejeitou os presentes oferecidos por Osroes I e despachou de volta a embaixada dos Partas, respondendo apenas que “a amizade devia ser demonstrada pelos atos, e não pelas palavras“, junto com o aviso de que ele, Trajano, estava partindo para a Síria, e lá chegando, ele faria tudo aquilo “que fosse apropriado” em relação ao caso.

Trajano, assim, partiu para Antióquia, a capital da província da Síria, onde começaram os preparativos para a guerra contra os Partas. Estando ali pelo menos desde o início de 114 D.C., o imperador recebeu uma embaixada enviada pelo rei Abgar VII, do reino de Osroene, trazendo presentes, mas que, durante o seu reinado, vinha se esforçando para manter a neutralidade em relação aos Impérios Romano e Parta.

Como parte dos preparativos para a guerra, Trajano também reabilitou e convocou novamente o nobre berbere Lusius Quietus (Lúsio Quieto), cuja cavalaria moura tinha sido muito útil na Guerra contra a Dácia, mas que, após essa campanha, tinha sido expulso do Exército por má conduta.

Enquanto isso, partindo de Antióquia, Trajano fez uma viagem ao grande complexo religioso de Heliopolis (atual Baalbek) para visitar o oráculo situado no Templo de Júpiter e consultá-lo sobre a iminente campanha.

Assim, não temos dúvida de que quando Trajano partiu de Roma ele já tinha o propósito de fazer uma campanha militar contra o Império Parta, Na verdade, alguns trechos das cartas de Plínio até sugerem que a empreitada já estava sendo planejada desde 111 D.C. e estima-se, antes do início das hostilidades, que dez legiões estavam sendo concentradas na Síria.

Há, inclusive, indícios de que ao preparar uma campanha contra os Partas, Trajano pode ter retomado um projeto de seu antecessor Domiciano (o que, aliás, parece ter se verificado em muitos outros atos do seu governo), conforme pode ser visto em “A Political History of Parthia“, Neilson C. Debevoise, The University of Chicago Press, página 214, vide (https://oi.uchicago.edu/sites/oi.uchicago.edu/files/uploads/shared/docs/political_history_parthia.pdf).

Entretanto, até hoje especula-se quais seriam os verdadeiros motivos que levaram Trajano a essa audaciosa decisão, afinal os Partas se mostraram dispostos a negociar e os precedentes históricos demonstravam que muitas vezes a guerra contra esses adversários tinha sido desfavorável, quando não desastrosa, para o Exército Romano. Vale lembrar, entre outras, a derrota sofrida por Crasso, na Batalha de Carras, em 53 A.C, onde o triúnviro perdeu a vida e vinte mil romanos foram mortos ou capturados.

Com efeito, desde o reinado de Augusto que manter um equilíbrio de poder na Armênia vinha sendo considerado um objetivo estrategicamente satisfatório para o Império Romano. Desse modo, a razão que levou Trajano a invadir o Império Parta sempre provocou questionamentos entre os historiadores (e mesmo entre os seus contemporâneos, como veremos

Alguns historiadores modernos defendem que a grande meta de Trajano era que o Império Romano assumisse o total controle das rotas comerciais com a Índia, inclusive mediante a conquista do pequeno Reino de Characene ou Mesene, cuja capital, Charax, fundada por Alexandre, o Grande, era um importante porto fluvial que ficava próximo à foz do rio Tigre, no Golfo Pérsico, por onde passavam os navios que transportavam os produtos indianos, além de ser o ponto de partida das caravanas terrestres para Petra, que recém havia sido conquistada pelos romanos.

O problema com essa teoria é que não há evidência conclusiva de que os romanos estivessem de fato experimentando algum transtorno em seu comércio com a Índia que pudesse ser atribuído aos Partas, ou que a conquista de Charax eliminasse algum custo fiscal ou com intermediários que justificasse uma guerra e uma invasão por si mesmas muito custosas. Na verdade, as evidências são de que Charax, antes da invasão de Trajano e da sua Guerra Contra os Partas, apesar de ser um reino-vassalo dos Partas, era muito mais influenciada pela cultura helenística do que pela iraniana. Os achados arqueológicos, especialmente moedas, parecem sugerir que foi somente após a retirada dos romanos da Pártia que Charax passou decisivamente para a esfera de influência cultural e controle mais direto pelos Partas. Aliás, o referido reino somente seria anexado pelos sucessores dos Partas e dos Arsácidas – o Império da Pérsia Sassânida, em 221-222 D.C. (ver https://iranicaonline.org/articles/characene-and-charax-spasinou-in-pre-islamic-times)

Território controlado por Characene ou Mesene, imagem de NordNordWest –

Outro possível motivação de Trajano, a nosso ver bem mais provável, seria aproveitar uma boa oportunidade de eliminar definitivamente a ameaça militar Parta, tornando a fronteira leste do Império Romano mais protegida, já que o Império Parta naquele momento, encontrava-se internamente dividido pela disputa entre Osroes I, que governava a parte ocidental, e Vologeso III, que continuou controlando as províncias orientais.

Mas não podemos descartar a opinião dos autores antigos que concluíram que o maior propósito de Trajano era mesmo o de aumentar a sua glória e renome, emulando Alexandre, o Grande, que conquistara o Império Persa, um desejo que também parece ter inspirado os seus predecessores no governo romano, ainda sob a República- Crasso, Júlio César e Marco Antônio, como escreveu Cássio Dião:

Em seguida, ele fez uma campanha contra os Armênios e Partas sob o pretexto de que o rei armênio não tinha sido coroado por ele, mas pelo rei parta, embora a verdadeira razão fosse o seu desejo de ganhar renome”.

Cassius Dio (Livro LXVIII, 17, 1)

A mesma opinião foi esposada por Frontão em uma carta enviada ao seu pupilo e futuro imperador Lúcio Vero:

Para Trajano, como muitos julgam do restante de suas ambições, provavelmente a sua própria glória lhe era mais preciosa do que o sangue dos seus soldados, porque ele frequentemente enviou de volta os embaixadores do rei parta desapontados, quando eles suplicaram pela paz”.

Carta de Frontão a Lúcio Vero, “Principia Historiae”, 14 , em “The Correspondence of Marcus Cornelius Fronto” , disponível em https://archive.org/details/correspondencem00frongoog/page/n226/mode/2up?view=theater

Enfim, Trajano invadiu a Armênia, ainda nos primeiros meses de 114 D.C., à testa de um exército estimado entre 60 e 80 mil soldados, um dos maiores já reunidos pelos imperadores romanos, compostos das legiões veteranas da Guerra contra a Dácia, estacionadas na Panônia e das legiões, ou respectivos destacamentos retirados das mesmas (vexillationes), estacionadas no Egito, Judéia e Síria, entre as quais vale citar as Legiões IV Scythica, VI Ferrata, X Fretensis e XVI Flavia Firma, totalizando provavelmente dez legiões no total.

Em seu progresso pela Armênia, Trajano foi recebendo a submissão ou presentes de vários “sátrapas” (governadores) e nobres armênios e também de reis de regiões vizinhas, até mesmo do Mar Cáspio.

O rei Parthamasiris percebendo o tamanho da força e a situação estratégica débil de seus aliados Partas, imediatamente mostrou-se disposto a ceder à vontade dos romanos. Ele foi ao encontro de Trajano na cidade de Elegeia, próxima a atual Erzurum, na Turquia, onde, em um ritual de submissão, retirou a coroa (em verdade, um diadema) de sua cabeça e colocou-a sob os pés de Trajano, que estava sentado em um tribunal. As tropas enfileiradas saudaram Trajano com gritos de Imperator“, o que assustou Parthamasiris, que fez menção de tentar fugir. Às tentativas do rei armênio de entabular alguma condição, Trajano lhe respondeu que a Armênia agora pertencia à Roma e que teria um governador romano.

Segundo a versão de Cássio Dião, o imperador concedeu que Parthamasiris partisse para onde quisesse com sua comitiva, acompanhados de uma escolta de cavalaria romana, porém, de acordo com as palavras de Frontão, momentos depois, o rei armênio deposto foi assassinado enquanto ainda estava sob a custódia dos soldados romanos:

Não é fácil absolver Trajano do assassinato de um suplicante rei Parthamasiris. Porque, embora pelo fato de ter sido o primeiro a apelar para a violência este tenha feito a sua sorte cair sobre sua própria cabeça; na conflagração que se seguiu, ainda assim, teria sido melhor para o bom nome dos Romanos que um suplicante partisse ileso do que punido, mesmo que com justiça; pois em tais feitos, o motivo do ato fica oculta, mas o ato em si está diante dos olhos, e é bem melhor deixar passar uma injúria, e ter a opinião pública do seu lado, do que vingar outra e tê-la contra você”.

Carta de Frontão a Lúcio Vero, “Principia Historiae”, 14 , em “The Correspondence of Marcus Cornelius Fronto” , disponível em https://archive.org/details/correspondencem00frongoog/page/n226/mode/2up?view=theater

Uma coluna comandada por Quieto foi enviada contra o povo iraniano dos Mardi, ou Mardianos, que viviam a leste do Lago Van, derrotando-os completamente e uma guarnição romana foi estacionada na fornteira da Armênia com a Lazica, provavelmente para fechar completamente o cerco ao Reino da Armênia, que foi conquistado ainda em 114 D.C., levando o Senado Romano a conceder-lhe formalmente o título de Optimus Princeps e a cunhagem de moedas, ostentando a inscrição KOINON APMENIAC, dando a entender que a Armênia tinha sido incorporada ao Império como uma liga de cidades (koinon) e povos com certo grau de autonomia, nos mesmos moldes do que anteriormente ocorrera com outros reinos gregos. O seu primeiro governador foi Lucius Catilius Severus (Severo), um senador que já vinha ocupando cargos muitos importantes e havia comandado legiões como general, inclusive nesta campanha.

Moeda de Trajano ostentando a representação da Armênia sentada sobre as suas armas diante de um troféu, simbolizando a sua captura


Nesta fase do relato da campanha, Cássio Dião nos mostra como Trajano, mesmo já tendo completado 60 anos de idade, ainda sentia-se com disposição física para comandar pessoalmente um exército como general no campo de batalha, o que talvez tenha sido outro fator a motivá-lo a embarcar em uma campanha militar:

“Ele sempre marchava a pé com as fileiras do seu exército e cuidava da ordem e disposição das tropas durante toda a campanha, liderando-os às vezes em uma ordem de marcha, ora em outra, e atravessou todos os rios que eles atravessavam. Algumas vezes, ele até fez com que seus batedores circulassem falsas notícias para que os soldados ao mesmo tempo praticassem exercícios militares e se tornassem destemidos e prontos para quaisquer perigos.”

Cassius Dio (Livro LXVIII, 23, 1

Após a conquista da Armênia, onde deixou guarnições estacionadas em pontos-chave, por volta de julho de 114 D.C., Trajano dirigiu a campanha para o sul, com suas forças divididas em duas colunas, descendo as terras altas de onde fluíam os rios Tigre e Eufrates e adentrando a Mesopotâmia setentrional (nome que deriva do fato da região ficar no meio de dois rios).

Trajano, então, rumou para a importante cidade de Nísibis (atual Nusaybin, no Curdistão turco), que foi tomada, por volta de setembro de 114 D.C., juntamente com a cidade de Batnae (atual Suruç, também no Curdistão), embora as fontes não deem detalhes de como isso aconteceu, sendo que a segunda cidade, que fazia parte do Filarcado de Anthemusia, teria sido entregue sem luta, com a fuga do seu governante, Sporaces. A conquista destas cidades fez com que Trajano fosse aclamado Parthicus” pelas tropas, título que seria posteriormente confirmado pelo Senado Romano quando a notícia deste sucesso chegou à Roma. Assim como na Armênia, foram estacionadas guarnições nas referidas cidades e em pontos estratégicos ao longo do avanço das tropas romanas. Provavelmente, concluída esta fase, as operações devem ter sido suspensas com a chegada do inverno.

No início da primavera do ano de 115 D.C., a força invasora romana dirigiu-se, para Edessa (atual Sanliurfa, na Turquia), capital do Reino de Osroene, cujo rei Abgar VII, que até então vinha se esgueirando em responder às investidas diplomáticas de Trajano, acabou tendo que se submeter aos romanos, dada a magnitude daquela expedição militar. Antes de encontrar Trajano, contudo, Abgar enviou seu filho, Arbandes, como emissário. Segundo a narrativa de Cássio Dião, este foi um gesto bastante inteligente do rei, ou, ao menos, bem afortunado, uma vez que a bela aparência do rapaz teve considerável influência em cativar as boas graças de Trajano, que aceitou as desculpas de Abgar. Nesta passagem, Cássio Dião, talvez intencionalmente querendo fazer um paralelo com o episódio do jovem Júlio César com o rei Nicomedes, da Bitínia (frequentemente utilizado pelos adversários políticos do Ditador como prova de sua suposta homossexualidade) menciona que, no banquete realizado para homenagear Trajano, o jovem Arbandes “entreteu” o imperador romano, dançando para ele no jantar.

” Entretanto, nesta ocasião, induzido em parte pela persuasão do seu filho Arbandes, que era bonito e estava na flor da idade e, consequentemente, tido em boa conta por Trajano, e, em parte, pelo seu medo da presença deste último, ele foi ao encontro de Trajano na estrada, apresentou suas desculpas e obteve perdão, porque ele tinha em seu filho um poderoso intercessor. Assim, ele tornou-se amigo de Trajano e o entreteve em um banquete; e, durante o jantar ele introduziu seu filho para executar uma ou outra dança bárbara.”

Cassius Dio (Livro LXVIII, 21, 2

Assim, Osroene tornou-se mais um reino-cliente de Roma, não obstante a existência de uma facção dos súditos que se opuseram a isso. Abgar, além disso, ofereceu aos romanos 250 catafractos, compreendendo cavaleiros e respectivos cavalos, além de um suprimento de 60 mil flechas (segundo os fragmentos 48 a 52 da Parthica, de Arriano, citados em A Political History of Parthia“, Neilson C. Debevoise, The University of ChicagoPress, página 227) .

Enquanto isso, Trajano recebeu uma embaixada de Manisarus, rei de Corduena, um reino-vassalo dos Partas, que estava em guerra contra Osroes I, chegando ocupar território do Império Parta na Mesopotâmia e até na Armênia, na qual ele informava ao imperador romano que pretendia retirar-se das terras que ele havia capturado. Na mesma ocasião, também foram recebidos emissários enviados por Mannus, que, segundo Cássio Dião, governava uma parte da Arábia vizinha à Edessa.

Ocorre que Mannus, anteriormente, havia enviado auxílio militar a Mebarsapes, sátrapa ou rei de Adiabena, um reino-cliente do Império Parta, cujos reis tinham se convertido ao judaísmo, no século I D.C., e que no momento vinha resistindo à invasão romana, já tendo tentado obstaculizar o avanço das legiões, inclusive mandando prender o centurião Sentius, um emissário que lhe havia sido enviado por Trajano e que foi aprisionado numa fortaleza chamada Adenystrae. Porém, Sentius conseguiu tomá-la com o auxílio dos outros prisioneiros e abriu as portas para o exército romano que invadia a Mesopotâmia.

O fato é que Trajano ignorou os apelos dos emissários e o avanço romano prosseguiu para ocupar o território controlado pelo Reino de Adiabena situado na margem ocidental do rio Tigre, onde as cidades de Singara e Libana foram ocupadas pelas tropas comandadas por Quieto.

Com a aproximação do inverno, Trajano decidiu, como era praxe nas guerras da Antiguidade, interromper a campanha e invernar em Antióquia. no final de 115 D.C. A conquista da Armênia e da Mesopotâmia (setentrional) foi comemorada com a emissão de moedas.

(Sestércio de Trajano, com a inscrição ARMENIA ET MESOPOTAMIA IN POTESTATEM P R REDACTAE no reverso (foto extraída de Leu Numismatik)

Enquanto Trajano passava o inverno em Antióquia ocorreu, em 13 de dezembro de 115 D.C., um terrível terremoto que durante alguns dias assolou boa parte da Síria, mas foi especialmente destrutivo na cidade, onde o número de mortos foi estimado em 260 mil (A data do terremoto é dada pelo historiador romano-bizantino João Malalas, cidadão de Antióquia). Cássio Dião narra o episódio em detalhes, contando que o imperador chegou a correr risco de morte e escapou com ferimentos leves. Já o Cônsul Marcus Pedo Vergilianus não teve tanta sorte e faleceu na catástrofe:

” Enquanto o imperador estava invernando em Antioquia, ocorreu um terremoto terrível; Muitas cidades sofreram danos, mas Antioquia foi a mais desgraçada de todas. Considerando que Trajano estava passando o inverno ali e muitos soldados e civis haviam se dirigido para lá em função de processos judiciais, embaixadas, negócios ou turismo, não houve nação que escapasse ilesa; e assim, em Antioquia o mundo inteiro que se encontrava sob o cetro de Roma sofreu a catástrofe. Tinha havido muitas trovoadas e ventos portentosos, mas ninguém poderia esperar que tantos males resultassem deles. Em primeiro lugar veio, de repente, um rugido ululante, e este foi seguido por um tremendo tremor. A terra toda foi erguida e prédios saltaram no ar; alguns foram lançados para cima apenas para desmoronarem e serem feitos em pedaços, enquanto outros foram jogados para lá e para cá como se fosse pelas ondas do mar e virados de cabeça para baixo, e as ruínas espalharam-se por uma grande extensão até mesmo em campo aberto. O barulho do choque de madeiras junto com telhas e pedras sendo trituradas e quebradas foi o mais apavorante; e levantou-se uma inconcebível quantidade de poeira de modo que era impossível alguém enxergar algo e falar ou escutar uma palavra. No que toca às pessoas, muitos, mesmo os que estavam fora das casas, foram atingidos, sendo erguidos e jogados de um lado para o outro violentamente e então chocando-se com o chão como se tivessem caído de um morro; alguns sendo mutilados e outros mortos. Em alguns casos, até mesmo árvores saltaram no ar, com raízes e tudo. Não foi possível contar o número dos que foram soterrados nas casas e morreram, porque multidões foram mortas pela força dos fragmentos que caíam, e um grande número morreu sufocado nas ruínas. Aqueles que jazeram com uma parte do corpo soterrado sob as pedras ou traves de madeira sofreram terrivelmente, pois não lhes era possível nem sobreviver, nem encontrar uma morte rápida.

Não obstante, mesmo muitos destes foram salvos, como era de se esperar em tão incontável multidão, porém nem todos ilesos. Muitas pernas e braços foram perdidos, alguns tiveram as cabeças fraturadas e outros ainda vomitaram sangue; Pedo, o Cônsul, foi um destes, e ele morreu na ocasião. (…)

Trajano conseguiu escapar através de uma janela do quarto onde ele estava. Algum ser, de altura maior que a humana, veio até ele e o conduziu adiante, de modo que ele escapou com apenas alguns ferimentos leves; e enquanto os tremores continuaram por vários dias, ele acampou ao ar livre no hipódromo. (…)”

Cassius Dio (Livro LXVIII, 24, 1-6 a 25, 1-5)

No início da primavera de 116 D.C., Trajano deu prosseguimento à campanha contra o Império Parta, novamente dividindo o exército em duas colunas, uma avançando ao longo do rio Eufrates e outra seguindo o curso do rio Tigre. Chama a atenção dos estudiosos que, até aquele momento, a oposição das forças partas havia sido mínima, para não dizer inexistente. A principal explicação para esse fato, que serve também para justificar a decisão de Trajano iniciar o próprio conflito, era o fato de que a guerra civil entre Osroes I e Vologeso III se intensificara. Reforçando essa impressão, as evidências numismáticas sugerem que o controle da casa da moeda (fundição) parta em Seleucia-Ctesifonte passou das mãos do segundo para o primeiro, naquele período (cf. “A Political History of Parthia“, Neilson C. Debevoise, The University of ChicagoPress, página 228).

Demonstrando todo o seu gênio logístico, quando dominou a região de Nísibis, que era circundada por florestas, Trajano havia ordenado a construção de uma frota de barcos aproveitando a oferta de madeira, um recurso que ele sabia ser inexistente no restante da Mesopotâmia. Assim, quando o exército chegou às margens do rio Tigre, lá encontrou já montados os navios que Trajano havia mandado construir, os quais haviam sido transportados até lá desmontados em cima de carretas.

Ainda hoje a região de Nísibis é bem arborizada. Foto de Arab Salsa – Qamishli view at Arabic Wikipedia

As fontes sugerem que o propósito do transporte dos barcos era possibilitar que as tropas romanas cruzassem o rio Tigre, atravessando para a margem oriental, invadindo o distrito conhecido como Assíria e conquistassem a Adiabena propriamente dita. O ponto escolhido para a travessia foi o lado oposto às montanhas Gordyaean, e pela primeira vez, forças partas (ou de seus vassalos adiabenos), posicionadas na outra margem tentaram atacar os romanos com artilharia e flechas. Porém, os romanos, enquanto construíam uma ponte sobre barcos, usaram outros como escudo para proteger esse trabalho, uma parte trazendo arqueiros e infantaria pesada, enquanto que outros barcos fingiam se dirigir para prováveis pontos de desembarque. Assim, tanto a visão inesperada e incomum de inúmeros navios, bem como a tática de empregá-los para responder aos ataques inimigos e confundi-los quanto ao lugar onde seria estabelecida a cabeça-de-ponte, tiveram como resultado intimidar os Partas (ou Adiabenos), os quais, após observar a conclusão da ponte e a travessia do Exército Romano, retiraram-se sem oferecer mais combate.

Dessa forma, os romanos conquistaram o Reino de Adiabena, que foi transformado na província romana da Assíria.

Tudo indica que a referida frota de barcos do rio Tigre foi abandonada após a travessia do rio, pois a mesma não é mais mencionada nos relatos. Provavelmente, o motivo para essa decisão deve-se ao fato de que, então, como atualmente, a navegação no rio Tigre na primavera torna-se difícil devido ao volume que desce das nascentes com o degelo, e impossível no trecho das corredeiras Al-Fathah.

Enquanto isso, a outra coluna, comandada pessoalmente pelo próprio Trajano, saiu de Antioquia, provavelmente marchando pela estrada construída pelo próprio imperador, passando por Alepo, até as margens do rio Eufrates. O exército, então, desceu o rio Eufrates, também acompanhado por uma outra frota de barcos, mais umaa vez sem enfrentar oposição digna de nota, passando pelas cidades de Phaliga e Dura-Europos (ver nosso artigo sobre a Pompéia do Deserto), cidade que, séculos antes, foi fundada pelos Selêucidas e onde foi erguido um arco triunfal pelos soldados da Legião III Cyrenaica, cujos vestígios ainda existem.

Trecho preservado da estrada romana que liga Antioquia a Alepo “Roman road, Aleppo” by luigig is licensed under CC BY 2.0

O avanço romano seguiu Eufrates abaixo, chegando até a cidade de Ozogardana, onde Trajano passou em revista as tropas, em um pódio ou tribunal cuja existência é relatada pelo historiador romano Amiano Marcelino, que, quase 250 anos depois, acompanhou pessoalmente e fez o relato da campanha do imperador romano Juliano (apelidado O Apóstata” contra a sucessora do Império Parta, a Pérsia Sassânida.

Se cronologicamente o relato de Cássio Dião estiver correto, Trajano avançou rapidamente pelo Eufrates, mais uma vez sem encontrar resistência, até a antiga cidade da Babilônia, que na época já contava com mais de dois mil anos de idade, embora, naquela época, ela estivesse praticamente abandonada (os seus habitantes haviam sido reassentados na cidade helenística de Selêucia no rio Tigre, por ordem de seu fundador, Seleuco I Nicator, o fundador do Império Selêucida). Nas cercanias da Babilônia, Trajano observou o asfalto que foi empregado na construção das muralhas da cidade, e também um local sagrado de onde emanavam, através de um buraco na terra, vindos do subterrâneo, gases sulfurosos.

Muralhas restauradas da Babilônia, “Processional Way” by D-Stanley is licensed under CC BY 2.0

Entretanto, como a Babilônia fica cerca de 40 km ao sul da altura do ponto do curso do rio mais próximo à Ctesifonte, a capital parta, que ficava nas margens do rio Tigre (que corre paralelo ao Eufrates), onde deveria estar Osroes I e seu exército, o mais provável é que essa visita tenha se dado após o ataque à referida cidade. Mas não é impossível que Trajano tenha passado um ou dois dias visitando a Babilônia, pois batedores poderiam ter lhe dito que a mesma estava quase desabitada e era segura, e ir até lá com destacamentos de cavalaria levaria apenas algumas horas, enquanto os trabalhos que mencionaremos a seguir eram efetuados.

Seguindo o relato de Cássio Dião, quando alcançou o trecho onde a distância entre o Tigre e o Eufrates é mais estreita (cerca de 30 km), Trajano pretendeu escavar um canal ligando os dois rios, a fim de navegar até Ctesifonte. Porém, a diferença de altura existente entre as duas áreas onde corre cada rio tornava a tarefa difícil e arriscada. Então, o imperador ordenou a construção de engenhos capazes de arrastar os barcos do Eufrates até o Tigre, onde os mesmos seriam necessários para cruzar este rio, uma vez que a capital parta ficava na margem oposta. Essa distância seria capaz de ser percorrida pelas legiões em um dia de marcha forçada. Já os barcos e as equipes de transporte, bem como as escoltas, devem ter levado mais tempo.

Ctesifonte ficava na margem oriental do Eufrates, praticamente em frente à cidade de Selêucia do Tigre, a antiga capital dos Selêucidas (dinastia de origem macedônica fundada por Seleuco I, Nicator, general de Alexandre, o Grande, que também fundou Selêucia, em 305 A.C.), que governaram a cidade até esta ser capturada pelos Partas, em 141 A.C. As evidências indicam, porém, que ao invés de instalarem a sua capital na cidade helenística conquistada, na margem ocidental do Tigre, os Partas preferiram, uns 20 anos mais tarde, transformar o acampamento militar que o seu exército havia erguido na margem oposta em uma nova capital, com palácios, mercados e habitações mais de acordo com o seu estilo de vida, permitindo que Selêucia continuasse como uma urbe helenizada.

Seleucia, na margem esquerda do Tigre, e Ctesifonte, na margem direita, imagem de Lencer 

As fontes não relatam a chegada de Trajano à Selêucia, e apenas o Breviarium de Eutrópio, menciona que a cidade foi tomada pelo imperador, muito provavelmente sem luta.

Assim, Trajano não teve dificuldade em cruzar o Eufrates e, de maneira mais surpreendente, Ctesifonte foi também tomada sem oferecer resistência. Parece que Osroes I fugiu ante à aproximação dos romanos, deixando contudo à mercê dos invasores uma filha e o seu trono real dourado (cf. Historia Augusta, Vida de Adriano, 13, 8), sendo ambos capturados e, posteriormente, levados para Roma. Em Ctesifonte, Trajano foi novamente aclamado Imperator e teve o título Parthicus confirmdo quando a notícia chegou ao Senado, Foram cunhadas moedas com a inscrição: “Parthia capta“. Cássio Dião escreve, com uma conotação para mim um tanto jocosa, que o Senado também decretou que, dali em diante, Trajano poderia celebrar o Triunfo que ele desejasse contra qualquer nação estrangeira, em decorrência da quantidade de mensagens relatando vitórias sobre povos cujos nomes os senadores não conseguiam transcrever corretamente nos documentos…

Aureum de Trajano, com a inscrição “Párthia capta”, no verso

Seria razoável na situação em que se encontravam os romanos, a conclusão de que Trajano poderia reivindicar que a campanha era vitoriosa e dar a guerra por terminada, com a captura da capital do Império Parta, a fuga do seu rei e a conquista da sua província mais rica e populosa, a Mesopotâmia, sobre a qual o imperador imediatamente instituiu a cobrança de um imposto (cf. Historia Augusta, Vida de Adriano, 21,12). Todavia, Trajano, seja pelo suposto projeto de dominar toda a Mesopotâmia até o Golfo Pérsico e controlar diretamente o comércio com a Índia, ou seja pelo desejo da glória de se igualar a Alexandre, o Grande, após a chegada dos barcos decidiu continuar navegando o rio Tigre abaixo, em uma frota de cinquenta navios, incluindo a sua grande e luxuosa galera imperial.

Então, agora em um misto de expedição militar e viagem turística, Trajano entrou no território de Mesene (Reino de Characene), ocupando as cidades Apamea, e Charax-Spasinus, onde ele parece ter sido bem recebido pela população e ali recebeu a submissão do seu rei Athambelus, passando pela confluência dos rios Tigre e Eufrates.

Em seguida, rumando para a foz do sistema hídrico Tigre/Eufrates, no Golfo Pérsico, que se transforma no rio atualmente chamado de Shatt-el-Arab, Trajano e sua frota correram um sério perigo ocasionado por uma tempestade em conjunto com a maré contrária ao curso do rio, um um fenômeno do tipo “pororoca“, que, inclusive, até os dias de hoje é observado naquele rio, entre janeiro e junho.

Finalmente, provavelmente em meados de 116 D.C, Trajano alcançou as margens do Golfo Pérsico, sendo ele o primeiro e único governante romano a alcançar este feito, chegando até a observar os navios que dali partiam para a Índia, para onde, segundo Cássio Dião, ele teria navegado, não fosse a sua idade:

” Então ele chegou ao oceano propriamente dito, e quando ele conpreendeu onde estava e viu um navio velejando para a Índia, ele disse: “Eu certamente também teria rumado para as Índias, fosse eu ainda jovem”. Porque ele começou a pensar nos Hindus e estava curioso sobre os seus negócios, e ele considerou Alexandre um homem de sorte”.

Cassius Dio (Livro LXVIII, 29, 1-2)

Reconhecendo a impossibilidade de avançar em direção à Índia, Trajano começou o caminho de volta, provavelmente pelo Eufrates, com objetivo de parar na cidade da Babilônia (ou também é possível que ele tenha retornado pelo Tigre e desembarcado no ponto mais estreito entre os dois rios, fazendo o restante da jornada por terra). O imperador, não obstante, teria enviado mensageiros ao Senado informando que ele havia avançado mais longe do que o próprio Alexandre. Entretanto, de acordo com o relato de Cássio Dião, enquanto a expedição fazia este percurso, começaram a estourar levantes armados na maior parte das províncias recém-conquistadas, especificamente na Armênia e na Mesopotâmia.

Ainda ignorante das más notícias, Trajano, durante sua nova estadia na Babilônia, uma parada cujo objetivo parece ter sido sobretudo simbólico, aproveitou para fazer um sacrifício no aposento onde, em 11 de junho de 323 A.C., Alexandre, o Grande deu seu último suspiro, nas ruínas do palácio de Nabucodonosor II.

Cronologia da campanha

É possível até que o mencionado sacrifício tenha sido intencionalmente feito na data de aniversário da morte do célebre rei macedônio

Neste ponto, é necessário que eu faça uma observação: A nossa cronologia dessa parte da expedição toma como ponto de partida a supracitada data do terremoto em Antióquia, obtida no sítio da Encyclopaedia Iranica e o período compreendido pelo fenômeno das marés no Shatt al-Arab e a data da morte de Trajano, mas advertimos que essa não é a cronologia seguida por muitos historiadores). Mas não podemos afirmar com certeza que isso tenha ocorrido na mesma data, mas esta hipótese me parece bem razoável. É importante ressaltar que nossa contagem exigiria que a coluna comandada por Trajano tivesse levado quatro meses para fazer todo esse percurso, contados da saída de Antioquia. Então é possível que isso tenha ocorrido na metade de 116 D.C.

Temos, inclusive, um termo de comparação cronológica que é a campanha do imperador Juliano, em 363 D.C, cujo efetivo em termos numéricos era praticamente o mesmo e que seguiu um curso semelhante ao de Trajano e da qual temos um bom relato feito por Amiano Marcelino.

Com efeito, sabe-se que a expedição de Juliano saiu de Antióquia em 05 de março de 363 D.C. e que em meados de maio do mesmo ano os romanos estavam sitiando as muralhas de Ctesifonte, que fica nas cercanias da moderna Bagdá. Pois bem, de Antióquia até Bagdá são cerca de 1050 km, e desta até Basra, que já fica no Shatt-al Arab, são pouco mais de 500 km. Então, ao menos teoricamente, parece-me perfeitamente possível que Trajano tenha conseguido estar na Babilônia lá pela metade do ano de 116 D.C. De fato, considerando que até aquele momento a oposição militar parta vinha sendo quase inexistente, e que o trajeto em grande parte tenha envolvido a navegação pelos rios, (cuja velocidade provável, embora eu não tenha conhecimento para afirmar, normalmente era mais rápida que um avanço por terra), eu mantenho minha “timeline“.

Reação Parta

Seja como for, nos dias em que Trajano ficou na Babilônia, ele recebeu a péssima notícia de que as guarnições romanas estacionadas nos territórios inicialmente conquistados mais ao norte haviam sido massacradas ou tinham fugido em função de revoltas simultâneas. De fato, um irmão de Osroes I, chamado Meherdotes (ou Mitridates, um nome comum na realeza parta) conseguiu retomar um pedaço da Mesopotâmia, situada no Médio Eufrates, morrendo em seguida (ao cair de um cavalo) e sendo substituído por seu filho Sanatruces que aparentemente também controlava algum território na Armênia. Entre as cidades que se revoltaram com sucesso contra os Romanos estavam Selêucia do Tigre, Nísibis e Edessa.

Este pedaço de um friso em marfim, encontrado nas ruínas de um terraço em Éfeso, representa Trajano na campanha da Pártia “Trajan in Parthia, ivory frieze from the Terrace Houses, Ephesus Museum” by Following Hadrian is licensed under CC BY-SA 2.0

Trajano, assim, ordenou que os generais Lúsio Quieto e Appius Maximus Santra rumassem para o norte para sufocar a revolta em Nísibis e Edessa, enquanto que os generais Marcus Erucius Clarus e Tiberius Julius Alexander Julianus foram enviados para sitiar e tomar Selêucia do Tigre.

O sempre eficiente Quieto conseguiu capturar Nísibis, porém, um certo Arbaces (possivelmente o rei Abgar, cujo nome teria sido corrompido ou escrito errado em alguma cópia do manuscrito de Cássio Dião, vide (PDF) The Mysterious Arbaces | David Potter – Academia.edu ) conseguiu derrotar as legiões sob comando de Appius Maximus Santra, que acabou morto nos combates.

Não obstante, após a captura de Nísibis, Quieto conseguiu tomar Edessa, que foi saqueada e queimada. É possível que Nísibis tenha sido poupada por ter concordado em se render sem luta, ou, então, pelo fato de ocupar uma posição mais estratégica, não interessando aos romanos a sua destruição. Já Edessa pode muito bem ter sido punida pela oposição armada que acarretou a morte de Appius Maximus Santra.

Por sua vez, Selêucia foi capturada e, igualmente, queimada, enquanto que o próprio Trajano conseguiu entrar em Ctesifonte, a capital parta que, aparentemente, conseguiu ser mantida em mãos romanas pela sua guarnição, que compreensivelmente devia ser a mais reforçada. Aparentemente, até então as revoltas estavam ocorrendo em territórios controlados pelos antigos vassalos partas em Osroene, Adiabena e Armênia.

Um dos motivos imediatos para essa revolta podem ter sido as taxas impostas por Trajano incidentes sobre o transporte de cavalos e camelos pelos rios Tigre e Eufrates, providência que ele estava implementando quando estourou a rebelião ( vide Carta de Frontão a Lúcio Vero, “Principia Historiae“, em “The Correspondence of Marcus Cornelius Fronto“, pág. 215”).

Segundo o relato de João Malalas, para sorte dos romanos, no momento em que ganhava força a resistência parta à invasão do seu império, Parthamaspates, um príncipe parta que era filho de Osroes I, entrou em desavença com seu primo Sanatruces. Aproveitando rapidamente a oportunidade, Trajano enviou emissários a Parthamaspates oferecendo-lhe o trono da Pártia, caso ele se voltasse contra Sanatruces. O filho de Osroes I aceitou a proposta, comparecendo a uma conferência secreta noturna com o próprio imperador romano e, com os soldados de Parthamaspates recebendo o auxílio de tropas romanas, Sanatruces foi capturado e morto. (vide “The Chronicle of John Malalas, A Translation” by Elizabeth Jeffreys, Michael Jeffreys and Roger Scott with Brian Croke, Jenny Ferber, Simon Franklin, Alan James, Douglas Kelly, Ann Moffatt, Ann Nixon, Melbourne, 1986, pág. 145, em https://en.calameo.com/read/000675905f2f4bf509d49)

Após, temendo que Ctesifonte também pudesse se revoltar, o que comprometeria ainda mais a segurança dos territórios conquistados e colocaria em risco a segurança do próprio exército romano invasor, Trajano, na presença da população da cidade, incluindo os Partas simpáticos à Roma e os Romanos que agora a habitavam, reunidos em frente a um palanque construído especialmente para a ocasião, coroou Parthamaspates, como Rei da Pártia, colocando o diadema na cabeça dele com as próprias mãos. A cena aparece nos sestércios cunhados na época, acompanhada da frase: ¨Rex Parthia Datus¨.

Sestércio de Trajano coroando Parthamaspastes, foto em https://www.vcoins.com/

Agora agindo claramente na defensiva, Trajano, quando soube que Vologeso, filho de Sanatruces, comandando um exército que se encontrava em ordem de batalha contra as tropas do governador da Armênia, Lucius Catilius Severus, havia proposto uma trégua aos romanos, o imperador romano enviou ao chefe parta emissários informando que Roma abria mão de uma parte da Armênia, em troca da paz. Esta concessão de Trajano pode ser explicada pelo fato de que, caso Severo fosse derrotado, o exército de Vologeso, invadindo a Mesopotâmia, poderia apoiar a insurreição dos vassalos partas de origem árabe que também estourara na cidade de Hatra, e até mesmo, juntando-se a eles, impedir a retirada do exército romano da Pártia, o que tudo indica, era a real intenção de Trajano.

Panorâmica das ruínas de Hatra, foto de Multi-National Corps Iraq Public Affairs. Infelizmente, as ruínas caíram em poder do Estado Islâmico (DAESH), que as vandalizou barbaramente

Hatra era a capital de um pequeno reino árabe situado na Mesopotâmia Superior, que fica 110 km ao sul da atual cidade iraquiana de Mosul, dedicada ao culto de Shamash, o deus-sol babilônico, A cidade era vassala do Império Parta e seu urbanismo, arquitetura e arte ostentavam forte influência cultural parta, embora houvesse sincretismo com as religiões grega, babilônica, canaanita e árabe. Os Partas dotaram a cidade de fortes muralhas, que, somadas ao fato do território circundante ser desértico, sem fontes de água potável ou madeira para construir máquinas de assédio, tornava qualquer sítio um desafio logístico.

A operação romana de cerco a Hatra foi comandada por Trajano em pessoa. Os Romanos conseguiram até abrir uma brecha nas muralhas, e o imperador enviou a cavalaria para tentar invadir a cidade, mas o ataque foi repelido e os atacantes tiveram que se refugiar no acampamento. Trajano, inclusive, chegou a acompanhar pessoalmente uma arriscada incursão da cavalaria romana contra as muralhas de Hatra, que também foi reprimida e na qual ele quase foi atingido. Nas palavras de Cássio Dião:

“De fato, o próprio imperador por pouco não escapou de ser ferido enquanto ele cavalgava diante das muralhas, apesar do fato dele ter tirado seu traje imperial para evitar ser reconhecido; mas o inimigo, vendo a sua majestosa cabeça grisalha e o seu augusto semblante, suspeitou sua identidade, disparou flechas em sua direção e matou um cavaleiro que o escoltava.”

Cassius Dio (Livro LXVIII, 31, 3)
Estátua de um comandante militar da cidade de Hatra, foto de By Hanming Huang https://www.flickr.com/photos/29868194@N08/40405703243/ – This file has been extracted from another file: Military commander from the city of Hatra. National Museum of Iraq.jpg, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=89183132

Ainda segundo Dião, durante o cerco a Hatra, o exército romano foi atormentado pelo sol e calor, mas também por fortes chuvas, trovões e nuvens de moscas, as quais pousavam sobre toda a bebida e comida dos legionários (cf. Cassius Dio (Livro LXVIII, 31, 4). Este relato é consistente com o clima da região no início do outono, sendo que moscas e mosquitos ali são abundantes até hoje, sendo um dos picos de infestação verificados entre os meses de setembro e outubro.

A resistência dos sitiados e os tormentos causados pelo clima e pelos insetos, de acordo com o relato de Dião, obrigaram Trajano a suspender o sítio a Hatra e ordenar a retirada do exército. E então, pouco depois de deixar as cercanias da cidade, o imperador adoeceu.

Para Frontão, que parece não ter nutrido muita simpatia por Trajano, em uma observação feita em uma carta escrita ao seu antigo pupilo e então co-imperador (junto com Marco Aurélio), Lúcio Vero, ao discorrer sobre as guerras de Roma contra os Partas, qualifica a interrupção da campanha de Trajano contra esses velhos inimigos como tendo o único objetivo de permitir que o imperador celebrasse o seu triunfo, apesar do insucesso da empreitada, resultando em nada menos do que uma difícil e encarniçada retirada forçada, na qual aparentemente Frontão inclui a morte de Appius Maximus Santra:

“Dentre o gênero humano, somente os Partas sustentaram o papel de inimigo dos romanos de uma maneira a ser jamais desprezada, como mostra apropriadamente, não apenas o desastre de Crasso e a fuga vergonhosa de Antônio, mas o massacre de um general com todo o seu exército sob o comando até mesmo de Trajano, o mais resoluto dos imperadores, e pela retirada, de modo algum ilesa ou sem baixas, deste imperador, enquanto ele retrocedia para celebrar seu triunfo.” (Carta de Frontão a Lúcio Vero, “Principia Historiae“, em “The Correspondence of Marcus Cornelius Fronto“, pág. 203)

A Guerra de Kitos

Apesar da sua moléstia ter aparecido após o fim do cerco, Trajano quase que certamente teria que interromper as operações contra Hatra mesmo que a sua saúde estivesse em perfeito estado: em primeiro lugar pela aproximação da chegada do inverno, e, mais importante, pelo fato de que, naqueles dias, chegara a notícia de que os judeus de Cirene (capital da Cirenaica, na atual Líbia), comandados por um certo Andreas (chamado em outra fonte de Lukuas), tinham deflagrado uma grande rebelião contra o governo romano e contra os habitantes gregos da região adeptos de religiões pagãs, revolta essa que rapidamente se alastrou para o Egito e para a ilha de Chipre (vide Cassius Dio (Livro LXVIII, 32, 1) .

Segundo o historiador cristão Eusébio de Cesaréia ( vide”História da Igreja“, livro IV, 2), esta revolta judaica começou no 18º ano do reinado de Trajano, ou seja, no ano de 115 D.C., quando o imperador estava em campanha no norte da Mesopotâmia, sendo que, no ano seguinte (116 D.C.), quando era governador do Egito um certo Lupus, os cidadãos romanos de língua grega, que haviam se refugiado em Alexandria dos ataques dos Judeus, contra-atacaram e, por sua vez massacraram os judeus alexandrinos. De acordo com Dião, duzentos e vinte mil pessoas foram mortas na região de Cirene, e outras duzentas e quarenta mil pessoas morreram em Chipre, para onde a revolta se alastrou (sendo ali liderada por um judeu de nome Artemion), contados entre judeus e os seus adversários, sem cconsiderar as mortes em Alexandria, que certamente devem ter sido também muito numerosas.

Não se sabe com exatidão as causas da revolta judaica, nem se os movimentos em Cirene, Alexandria e Chipre foram planejados em comum. De fato, a História registra uma prolongada rivalidade entre os cidadãos gregos e os judeus em Alexandria, desde as primeiras décadas do Império Romano, não raras vezes degenerando em autênticos pogroms. Uma tese bem provável é que a insatisfação dos judeus com o Império Romano durante o reinado de Trajano tenha tido como causa mais remota o “fiscus judaicus“, um tributo imposto aos judeus após a Primeira Guerra contra os Judeus, a grande revolta ocorrida entre 66 e 73 D.C., debelada por Vespasiano e seu filho Tito, sendo que esse tributo foi expandido pelo imperador Domiciano, que reinou entre 81 e 96 D.C.

O fato é que a campanha de Trajano contra o Império Parta, que incluiu sitiar e conquistar cidades onde havia uma expressiva população judia, como é o caso de Nísibis, Edessa e Selêucia, bem como a taxação que o imperador impôs às caravanas que cruzavam o Tigre e o Eufrates, uma lucrativa atividade empreendida por muitos judeus, deve ter exacerbado ainda mais os ânimos da comunidade judaica. Assim, é bem provável que o levante dos Partas na Mesopotâmia tenha tido a participação entusiástica dos judeus habitantes dessas cidades.

Em reação à revolta, de acordo com Eusébio de Cesaréia, Trajano enviou o incansável Lúsio Quieto para atacar os judeus na Mesopotâmia, tendo este sido responsável pela matança de milhares deles. Para reprimir a revolta no Egito e em Cyrene, por sua vez, foi enviado o comandante da Frota Imperial de Miseno (Classis Misenensis), Quintus Marcius Turbo, que liderando uma força naval transportando unidades de infantaria e cavalaria sufocou a rebelião.

Andreas/Lukuas fugiu e se refugiou na cidade de Lydda, na Judéia (atual Lod, em Israel), que parece ter sido o último bastião da revolta. A cidade foi, então, sitiada por Quieto, que conseguiu tomá-la e executar os revoltosos. Pouco antes disso, ou logo em seguida, Quieto foi nomeado governador da Judéia e lhe foi prometido o Consulado para o ano seguinte. Devido ao papel predominante que Lúsio Quieto desempenhou na repressão a esta revolta, o conflito ficaria conhecido nas fontes judaicas como “Guerra de Kitos“, sendo “Kitos“, uma corruptela do nome do general (latim: Quietus), como este devia ser falado pelos judeus de fala grega da região.

O relevo acima, da Coluna de Trajano, retrata a cavalaria moura comandada por Lúsio Quieto na Guerra contra os Dácios, que prestou outros tantos serviços inestimáveisao imperador Trajano (“File:Colonne trajane 1-50 rec.jpg” by User:Cassius Ahenobarbus is licensed under CC BY-SA 3.0)

Quando a revolta judaica foi sufocada, já em 117 D.C., Trajano ainda estava em Antióquia, para onde ele foi obrigado a partir, no final do ano anterior, devido a chegada do inverno e à deterioração do seu estado de saúde.

MORTE DE TRAJANO

Segundo Cássio Dião, enquanto invernava e procurava convalescer em Antióquia, no início de 117 D.C., Trajano estava planejando fazer uma nova expedição à Mesopotâmia para sufocar as revoltas e restabelecer o controle romano sobre a região.

Porém, o esforço físico que a campanha impôs a organismo do imperador de 64 anos de idade, além da possível gravidade de alguma doença contraída nos inóspitos confins da Mesopotâmia, provaram-se insuperáveis e a saúde dele piorou.

Então, provavelmente, entre o final do mês de julho e o início de agosto de 117 D.C., Trajano resolveu partir de Antióquia com destino à Roma, deixando Adriano no comando do Exército na Síria. Cássio Dião cita que, nessa ocasião, Trajano apresentava algum problema circulatório, algo que o teria levado até a suspeitar de possível envenenamento. Ainda segundo o citado historiador, logo após a partida, o imperador sofreu um derrame e ficou com uma parte do corpo paralisada, mostrando-se inchado e com edemas generalizados.

Ao parar na cidade litorânea de Selinus, atual Gazipasa, na Turquia, uma parada que certamente deve ter sido motivada pelo agravamento do seu estado de saúde, Trajano faleceu, no dia 08 de agosto de 117 D.C. Esta cidade fica distante 550 km de Antioquia por rodovia moderna, mas a distância em linha reta e provável rota marítima é menor, então devem ter decorrido só uns poucos dias entre a partida de Antioquia e a chegada a Selinus, que em função do trágico evento, seria rebatizada como Traianopolis.

A morte de Trajano deve ter antecedido, mas pode também ter sido concomitante, ou até mesmo pode ter ocorrido em seguida a uma retirada geral das tropas romanas das posições ocupadas na Mesopotâmia e da Pártia. Dura-Europos, por exemplo, ao norte da Mesopotâmia, foi evacuada antes do outono de 117 D.C (segundo M. Rostovtzeff, citado em A Political History of Parthia“, Neilson C. Debevoise., pág. 238, nota 123). Esta retirada pode ter sido tanto em consequência, como pode ter sido a causa, de outro revés estratégico para os romanos: naquele mesmo ano, Parthamaspates, o aliado parta que Trajano havia colocado no trono da Pártia foi expulso do trono pelos súditos seus súditos partas, para quem ele obviamente era inaceitável. De fato, com base em alguma evidência numismática, na ocasião, Osroes I prontamente reassumiu o controle de Ctesifonte (A Political History of Parthia“, Neilson C. Debevoise, pág. 239).

Acredita-se que esta efígie de bronze, que originalmente ficava nas termas de Ancyra (atual Ankara, na Turquia), seja uma efígie de Trajano, feita quando ele estava em Antióquia, e exibe um imperador envelhecido e possivelmente já com a saúde debilitada. Foto de Bjørn Christian Tørrissen – Own work by uploader, http://bjornfree.com/galleries.html

Sucessão de Trajano

Graças a pequena distância entre Selinus e Antioquia, a notícia da morte do imperador deve ter chegado rápido a Adriano e ao grande exército estacionado na capital da província da Síria.

Efetivamente, durante o seu longo reinado e até os dias que precederam a sua morte, Trajano não havia adotado oficialmente Adriano, que, como já mencionamos anteriormente, era seu primo em segundo grau e foi seu tutelado enquanto menor de idade, além de ser casado com sua sobrinha, que era considerada como uma filha pelo imperador.

Cássio Dião menciona a existência de relatos ou rumores de que a imperatriz Plotina, que estava acompanhando o marido em seu retorno para Roma, e que sempre havia sido amiga e protetora de Adriano, teria atuado para esconder a morte de Trajano por alguns dias, forjando o anúncio da adoção de Adriano por Trajano como tendo ocorrido ainda em vida. Nesta empreitada, segundo o relato em questão, Plotina contou com a ajuda do Prefeito Pretoriano Publius Acilius Attianus, que era ninguém menos do que o antigo tutor de Adriano, durante a sua menoridade, juntamente com Trajano… E, ainda de acordo com Cássio Dião, uma carta de Trajano foi então enviada ao Senado Romano comunicando a adoção de Adriano, porém esta missiva era assinada por Plotina. (Dião inclusive afirma que esta versão lhe foi contada por seu próprio pai, que era governador da província da Cilicia, quando Trajano morreu, vide Cassius Dio, Livro LXIX, 1, 3-4).

Já segundo a Historia Augusta, igualmente a adoção de Adriano teria sido forjada por Plotina nos dias que se sucederam a morte do marido, porém, de acordo com este relato, a farsa teria consistido nela ter feito alguém se passar por Trajano em seu leito de morte e, imitando a voz trêmula do imperador moribundo, anunciado a adoção de Adriano.

Seja como for, o fato é que as tropas do Exército Romano na Síria aclamaram Adriano imperador imediatamente ao tomarem conhecimento da morte de Trajano, o que até motivou o envio de uma protocolar carta de Adriano ao Senado desculpando-se pelo fato da sua ascensão ao trono não haver sido previamente submetida à aprovação daquela assembleia, como era a formalidade costumeira. Vale notar que não se tratava apenas das legiões da Síria que aclamaram Adriano, mas de todo o exército romano combinado para a Guerra contra os Partas, reunindo efetivos de inúmeras legiões espalhadas pelo Império e portanto, não havia nenhuma outra força militar que pudesse se comparar ao contingente sob o controle do novo imperador.

Cabeça de Adriano, foto Bodrumlu55, CC BY-SA 4.0

A maioria dos historiadores desconsidera, tendo por fantasioso, o relato existente na História Augusta de que Trajano tencionava nomear o jurista Neratius Priscus como sucessor. Embora aparentemente Trajano não nutrisse grande afeto por Adriano, durante o seu reinado este exerceu diversas magistraturas e comandos militares importantes e também recebeu honrarias que denotavam confiança e proximidade com o imperador, ainda que, admita-se, nenhum destes chegando a ser inequivocamente um sinal de consagração como herdeiro do trono.

Portanto, ainda que possam ser verdadeiras as suspeitas relatadas nas fontes antigas, a “interpretação” que a imperatriz Plotina teria dado à vontade do finado marido, foi a mais lógica, senão verossimilhante.

Epílogo

Assim que Adriano assegurou o trono, houve um rápido e sangrento expurgo de alguns dos mais fiéis e valorosos colaboradores de Trajano: Lúsio Quieto, a quem Trajano havia prometido o consulado do ano de 118 D.C. em retribuição aos inestimáveis serviços nas últimas campanhas militares, foi imediatamente acusado de traição e afastado do comando e Manius Laberius Maximus, duas vezes cônsul e general veterano da campanha da Dácia, foi exilado para uma ilha. Além dos dois, caíram em desgraça: Cornélio Palma (Aulus Cornelius Palma Frontonianus), apoiador de primeira hora nos eventos que levaram Trajano ao trono, conquistador da Nabatéia e também duas vezes cônsul, Gaius Avidius Nigrinus, outro importante colaborador de Trajano, que era governador da Dácia e havia sido Cônsul Suffectus e, finalmente, Lucius Publilius Celsus, que era muito amigo de Trajano, tendo igualmente exercido duas vezes o consulado e que provavelmente havia se destacado militarmente, pois, ele foi, da mesma forma que Cornélio Palma e Sósio Senecião, honrado em vida por Trajano com uma estátua de bronze no Fórum.

Todos eles seriam executados em 118 D.C.

De acordo com a História Augusta, Cornélio Palma e Publilius Celsus eram inimigos de longa data de Adriano. Apesar disso, Adriano, tendo em vista a impopularidade que a execução de senadores e consulares tão ilustres lhe granjeou perante a opinião pública, afirmou expressamente que ele nunca ordenou a execução desses auxiliares de Trajano, atribuindo este ato a Attianus, o Prefeito Pretoriano, uma alegação que não soou muito convincente, pois este foi em seguida nomeado por Adriano para o Senado.

Cássio Dião alude como justificativa, para ele não muito crível, para as referidas execuções, à alegação de que Cornélio Palma e Publilius Celsus teriam conspirado para matar Adriano durante uma caçada. Já a História Augusta traz a versão de que a trama para assassinar Adriano em uma cerimônia religiosa ou sacrifício teria tido a participação de Avidius Nigrinus, Cornélio Palma, Lúsio Quieto e Publilius Celsus.

Mas o mais provável é que Adriano tenha feito um expurgo preventivo, seja porque ele desconfiava dos auxiliares mais próximos de Trajano, ou, sobretudo porque, ele estava em vias de promover uma guinada de 180º na política externa romana …

Com efeito, de acordo com o relato da História Augusta, assim que assumiu o trono, Adriano decidiu abrir mão de todas as conquistas de Trajano a oeste de Eufrates, reconhecendo na prática a independência da Pártia ao nomear Parthamaspates rei de Osroene, e Antióquia. Ele também teve que lidar com algumas revoltas e ataques que espoucaram na Mauritânia, atacada pelos mouros, na Britânia, no Danúbio, com incursões dos Sármatas, e na Líbia e na Palestina, onde os judeus haviam renovado a insurreição.

Há até quem procure explicações psicológicas para tamanha mudança na estratégia imperial promovida por Adriano, tais como a vaidade expressa na necessidade de competir com a fama do antecessor ilustre, ou algum complexo de rejeição pelo parente que nunca teria lhe demonstrado apreço, mas prevalece o entendimento de que a decisão de Adriano de por um freio ao expansionismo romano, devolver as províncias conquistadas no Oriente e adotar uma estratégia defensiva (da qual o Muro de Adriano seria o exemplo mais eloquente) foi uma medida racional, motivada pela compreensão da crescente incapacidade militar e demográfica do Império Romano em continuar se expandindo, sendo preferível manter as províncias mais defensáveis.

De qualquer modo, somente após tomar medidas contra as referidas rebeliões, e também depois de dispensar Quieto e exilar Laberius Maximus, o prudente Adriano deixou Antióquia e foi prestar as homenagens aos restos de Trajano, que estavam sob os cuidados de Plotina, Matídia e Attianus. O imperador Adriano, então, enviou as cinzas de Trajano para Roma, junto com uma carta em que recomendava ao Senado a deificação do seu antecessor.

O Senado espontaneamente decretou a deificação de Trajano e muitas outras honras além das que Adriano havia solicitado. As cinzas de Trajano foram, então, depositadas em uma urna no interior da base da sua Coluna Honorária, no Fórum de Trajano, que, oomo se sabe, narra em relevo as campanhas do falecido imperador contra a Dácia.

Base da Coluna Honorária de Trajano, onde foi depositada a urna com suas cinzas. Foto de Gary Todd from Xinzheng, China, PDM-owner, via Wikimedia Commons

Conclusão

Trajano permanece como a epítome daqueles que a historiografia romana convencionou chamar de “Bons Imperadores“. E realmente, não apenas para os seus contemporâneos, como para a Posteridade, ele demonstrou possuir todas as virtudes que eram valorizadas não apenas pela classe senatorial, de onde proveio a maior parte dos historiadores romanos, mas também pelo populacho romano.

Assim, Trajano foi: Moderado e afável em suas relações com os súditos, respeitoso com o Senado, cujos integrantes foram nomeados para os mais altos cargos civis e militares, vitorioso nas guerras externas, além de construir grandes obras públicas, manter e aumentar a prosperidade econômica e prestar assistência social aos cidadãos pobres.

Mesmo na Idade Média, mais de mil anos após a sua morte, Trajano foi mencionado como exemplo de virtude por autores com Tomás de Aquino e Dante Alighieri (fonte: wikipedia.en, verbete: Trajan).

Thomas Ihle, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons

Das conquistas militares de Trajano, a da Dácia teria influência até os nossos dias, tendo a atual Romênia, cujo território corresponde em boa parte a da antiga província incorporada pelo imperador, permanecido como um país de língua latina em meio a um mar de idiomas eslavos.

Porém a campanha contra o Império Parta é frequentemente avaliada sob um viés negativo, como um gasto de energia infrutífero, contraproducente e fruto de vaidade desmedida. Trata-se de um entendimento compreensível em função dos resultados práticos e, sobretudo, das subsequentes medidas do sucessor de Trajano. Mas teria sido mesmo esta uma empreitada vã? Em outras palavras, a submissão do Império Parta, durante o reinado de Trajano, seria algo inviável ou além das capacidades do Império Romano no início do século II D.C.?

Em primeiro lugar, como objetivo estratégico de longo prazo, e não sendo descartável que o aumento de alguma pressão bárbara hostil no Danúbio já fosse perceptível pelos governantes romanos, eliminar ou controlar o Império Parta, ou, pelo menos, ao longo de algumas décadas, “romanizar” (ou “greco-romanizar”) mais a região teria tido um impacto estratégico, e também, econômico, muito positivo para o Império Romano.

Entendemos que alguma comparação com as campanhas de Alexandre, o Grande, ainda que em um contexto temporalmente distante cerca de 450 anos no passado, pode ser útil para esta análise.

Assim, inicialmente, devemos ressaltar que o Império Parta dos Arsácidas era, sob muitos aspectos, um adversário mais difícil de derrotar que o decadente Império Persa dos Aquemênidas, em parte pelos defeitos do primeiro: Os Partas eram muito mais descentralizados, então a derrota de um exército ou a conquista da capital não resultavam na conquista inevitável do país.

Militarmente, os Aquemênidas, quando das guerras contra Alexandre, ainda não tinham como forças principais a cavalaria couraçada (Catafractos) e nem os arqueiros montados. Os Persas, no século IV A.C, estavam taticamente muito influenciados pelos próprios gregos, e adotavam como esteio militar, ou núcleo de seu exército, a infantaria de hoplitas, muitos deles sendo mercenários gregos e ainda, os obsoletos carros de batalha, além de arqueiros a pé. E os temíveis arqueiros à cavalo, que adotavam o famigerado “Tiro Parta“, não eram usados em quantidades dignas de nota.

Portanto, os Partas eram muito mais móveis e difíceis de engajar para os romanos do que os Persas de Dario III foram para os Macedônios. Por outro lado, Alexandre dispunha de um exército de 45 mil homens quando começou a guerra contra o Império Persa, enquanto estima-se que Trajano tenha invadido o Império Parta à testa de um exército de 60 mil homens. Indiscutivelmente, o total dos meios militares à disposição de Trajano era superior a qualquer material humano que Alexandre pudesse cogitar.

Mesmo assim, foi a persistência de Alexandre em continuar a perseguição ao exército de Dario III e dar combate a qualquer força militar persa que escapasse de seus ataques que permitiu a conquista do Império Persa pela Macedônia. E tanto a conquista do Império Persa como a do Império Parta, por um período razoável de tempo, não era possível sem que fosse controlada ou neutralizada a região da Média, que era de onde vinha a nobreza guerreira iraniana.

As terras altas e montanhosas da Média ao Norte e ao Leste dominam a Mesopotâmia mais baixa, ao Sul e ao Oeste. Portanto, caso Trajano tencionasse mesmo dominar o Império Parta, ele certamente não ignorava que uma segunda fase da campanha obrigatoriamente impunha a conquista ou o controle da Média.

Portanto, não temos como afirmar como seria o desfecho da campanha se Trajano não tivesse sucumbido à doença. Cássio Dião relata expressamente que o imperador, enquanto tentava convalescer em Antióquia, tencionava uma nova expedição.

Trajano estava se preparando para fazer uma nova expedição à Mesopotâmia, porém, como sua doença começou a afligi-lo severamente, ele partiu, visando navegar até a Itália, deixando Publius Aelius Adriano com o Exército na Síria.

Cassius Dio (Livro LXVIII, 33, 1
Trajan by Colin Smith, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

Talvez, se Trajano fosse uns dez anos mais novo quando iniciou a campanha, o desfecho da Guerra contra os Partas, e, por decorrência, da própria História Mundial, teria sido diferente. Certamente, comparando com a guerra anterior contra a Dácia, o imperador possuiria a disposição e a saúde necessárias para conduzir uma campanha tão difícil e prolongada por vários anos.

FIM

FONTES:

a) Romanas

1- Cássio Dião, Cassius Dio, Roman History, Book LXVIII, https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Cassius_Dio/68*.html

2- Sexto Aurélio Vítor, Epitome De Caesaribus, A Booklet about the Style of Life and the Manners of the imperatores, sometimes attributed to Sextus Aurelius Victor, Translated by Thomas M. Banchich, Canisius College Translated Texts, Number 1, Canisius College. Buffalo, New York, 2018, 3rd edition, http://www.roman-emperors.org/epitome.htm

3- Plínio, o Jovem, “Panegírico”, PLINY’S Panegyrick. An address of thanks to a good prince presented in the panegyrick of Pliny, upon Trajan, the best of Roman Emperours, Kennett, White, 1660-1728. https://quod.lib.umich.edu/e/eebo/A55147.0001.001/1:5?rgn=div1;view=fulltext

4- Plínio, o Jovem, Cartas, Livro X, http://www.attalus.org/old/pliny10a.html (OBS: As Cartas 96 e 97 foram extraídas de PROMETEUS – Ano 11 – Número 28 – Edição Especial – 2018 – E-ISSN: 2176-5960)

5- Marco Cornélio Frontão, Carta de Frontão a Lúcio Vero, “Principia Historiae”, 17 , em “The Correspondence of Marcus Cornelius Fronto” , disponível em https://archive.org/details/correspondencem00frongoog/page/n230/mode/2up?view=theater

6- Dião Crisóstomo, Dio Chrysostom,The Thirty-eighth Discourse: To the Nicomedians on Concord with the Nicaeans“, https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Dio_Chrysostom/Discourses/38*.html e “The Forty-eighth Discourse: A Political Address in Assembly“, https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Dio_Chrysostom/Discourses/48*.html#ref19

7- Eutrópio, Sumário da História Romana, Abridgement of Roman History, translated, with notes, by the Rev. John Selby Watson, London: Henry G. Bohn, York Street, Convent Garden, 1853. disponível emhttps://www.forumromanum.org/literature/eutropius/trans8.html

8- Historia Augusta, Life of Hadrian, disponível em https://penelope.uchicago.edu/Thayer/L/Roman/Texts/Historia_Augusta/Hadrian/1*.html

9- João Malalas, “The Chronicle of John Malalas, A Translation” by Elizabeth Jeffreys, Michael Jeffreys and Roger Scott with Brian Croke, Jenny Ferber, Simon Franklin, Alan James, Douglas Kelly, Ann Moffatt, Ann Nixon, Melbourne, 1986, pág. 145, em https://en.calameo.com/read/000675905f2f4bf509d49)

10–Eusébio de Cesaréia, História da Igreja, Livro IV, 2, disponível em https://www.ccel.org/ccel/schaff/npnf201.iii.ix.ii.html

b) Modernas

1- Caesar’s Legion, The Epic Saga of Julius Caesar’s Elite Tenth Legion and the Armies of Rome, Stephen Dando-Collins, Wiley, 2002.

2- Quem foi Quem na Roma Antiga, Diana Bowder, Ed. Círculo do Livro, 1980

3- The Reach of Rome, an History of the Roman Imperial Frontier 1st-5th Centuries AD, Derek Williams, 1997, St. Martin’s Press

4- A Vida Cotidiana em Roma no Apogeu do Império, Jerôme Carcopino, Livros do Brasil, Lisboa,

5- Trajan’s Imperial Alimenta: An analysis of the values attached to children in Roman society in the alimenta of Trajan, Gavin Carroll O’ Brien, Universidade de Leyden. 2020. https://studenttheses.universiteitleiden.nl/handle/1887/133450

6- A Political History of Parthia, Neilson C. Debevoise, The University of Chicago Press, 1938 https://oi.uchicago.edu/sites/oi.uchicago.edu/files/uploads/shared/docs/political_history_parthia.pdf

Artigos:

1- Las raíces béticas de Trajano: los ‘Traii’ de la Itálica turdetana, y otras novedades sobre su família, Alicia M. Canto. https://www.academia.edu/1082682/Las_ra%C3%ADces_b%C3%A9ticas_de_Trajano_los_Traii_de_la_It%C3%A1lica_turdetana_y_otras_novedades_sobre_su_familia_texto_

2- Iubes Esse Liberos: Pliny’s Panegyricus and Liberty, Mark P. O. Morford, publicado no The American Journal of Philology vol. 113, nº 4, 1992,  The Johns Hopkins University Press.

3- The Government as Fiduciary: A Practical Demonstration From the Reign of Trajan, Robert G. Natelson, University of Richmond Law Review, vol 35, issue 2, 2001, disponível em https://scholarship.richmond.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=2425&context=lawreview

4- The Mysterious Arbaces, David Potter, disponível em https://www.academia.edu/389199/The_Mysterious_Arbaces

CALÍGULA – ENLOUQUECIDO PELO PODER

Em 24 de janeiro de 41 D.C (segundo Suetônio), após três dias de exibições dos Jogos Palatinos em homenagem ao divino Augusto, os quais estavam sendo realizados em um teatro montado no próprio palácio imperial, o Imperador Romano Gaius Julius Caesar Germanicus Augustus Germanicus, a quem o povo chamava, carinhosamente, de Calígula, sentiu-se fatigado e foi incentivado por cortesãos a ir tomar um banho.

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Busto de Calígula, Ny Carlsberg Glyptotek. foto de Louis le Grand

Calígula , então, resolveu deixar o teatro e ir para os seus aposentos através de uma passagem subterrânea coberta (criptopórtico), que ligava as referidas áreas e que era privativa para o imperador.

Eram cerca de 15 horas da tarde e o imperador devia estar com fome, pois assistira todas as performances daquele dia sem se ausentar, exibindo-se à vista de todos, rodeado pela sua devotada guarda particular, composta por guerreiros germânicos e que ficou no teatro para vigiar os espectadores.

No caminho, Calígula parou para inspecionar alguns jovens gregos, bailarinos da chamada “dança pírrica”, que se preparavam para se apresentarem no evento, e tinham sido acomodados naquela passagem.

De repente, um velho oficial da guarda pretoriana se aproximou do Imperador…

Era o centurião Cássio Queréa, um veterano e bastante condecorado soldado que inclusive servira sob o comando do pai de Calígula, o adorado general Germânico, 20 anos antes, durante as campanhas romanas na Germânia, ocasião em que Queréa distinguira-se pelos seus atos de bravura, razão pela qual ele conseguiu ingressar e progredir na Guarda Pretoriana, a guarnição militar de Roma e do Palácio Imperial.

Porém, após Calígula ser sagrado imperador e passar a habitar no Palácio, o jovem imperador escolheu Queréa para ser a vítima frequente de suas zombarias e pilhérias:

Neste particular, conta-se que, pelo fato de Queréa ter o timbre de voz fino, Calígula, quando o Centurião estava de sentinela – ocasião em que os escalados deviam, ao iniciar o serviço, perguntar ao Imperador qual seria a senha – escolhia nomes embaraçosos, tal como “Vênus“, só para que Queréa, com seu peculiar timbre feminino, respondesse na frente dos outros, quando a senha fosse exigida.

Uma outra brincadeira que deleitava ao Imperador era quando ele estendia a sua mão para que o veterano centurião beijasse o anel, ocasião em que Calígula, avançava e retirava o punho da boca de Queréa, aludindo a um gesto pornográfico de felação, humilhando o veterano soldado perante os colegas.

Então, naquele dia 24 de janeiro, entretido com os jovens gregos no criptopórtico, Calígula mal olhou para Queréa quando este, como de costume, perguntou-lhe qual seria a senha do dia. Consta que o Imperador respondeu:

“Júpiter”.

Queréa, então, imediantemente respondeu, gritando:

“Assim seja. Toma!”

E, já com o seu gládio em punho, Queréa desfechou um tremendo golpe entre o ombro e pescoço de Calígula, o qual penetrou até o osso do peito, mas sem atravessá-lo.

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Foto do criptopórtico escavado no Palatino. Há grande probabilidade de que este seja o local onde Calígula foi assassinado –  © Photo Ministero dei Beni e delle Attività Culturali

Calígula ficou tão perplexo com o ataque que ele sequer gritou ou esboçou qualquer reação, mas apenas se virou, para receber um novo golpe potente, que, desta vez, praticamente arrancou, de uma só vez, a sua mandíbula inferior, a qual ficou pendendo presa apenas por um fiapo de músculo, deixando o seu rosto com o aspecto de uma máscara grotesca.

Somente então o Imperador começou a correr, somente para ser alcançado por outro conspirador, o tribuno Cornélio Sabino, que lhe acertou um golpe de espada no joelho, levando-o ao chão. A partir daí, Queréa, Sabino, o soldado Áquila e provavelmente outros conspiradores começaram a golpear Calígula, já moribundo, inclusive nos genitais. Assim, ele levou 30 golpes, até morrer. Queréa e os cúmplices conseguiram fugir do Palácio, ironicamente, atravessando a casa de Germânico, o finado pai de Calígula, que tinha sido anexada ao Palácio.

O destacamento de guarda-costas pessoais de Calígula, que, como dito, era composto de bárbaros germânicos, quando percebeu que o imperador tinha sido atacado, tomou-se de um frenesi de vingança e começou a matar todos que viam pela frente no Palácio, inclusive um Senador. Eles logo cercaram o teatro e fizeram menção de massacrar todos os espectadores, até alguém informar que o Imperador estava morto, ocasião os seus líderes devem ter pensado que não havia mais nada o que fazer.

Não satisfeito, Queréa mandou um subordinado, chamado Lupus, de volta ao Palácio, para matar Cesônia e a pequena filha de Calígula, que era ainda apenas um bebê. Assim, Cesônia recebeu, resignadamente, um golpe no pescoço. Já a menina teve a cabeça esmagada contra uma parede.

É difícil achar a explicação para a brutal execução de ambos: Obviamente, não poderia haver pretensão alguma de se ocultar a autoria do assassinato do imperador, cometido à luz do dia e com testemunhas. E não havia a menor chance de Cesônia ou a filha assumirem o governo. Eu posso cogitar de dois motivos: Cesônia saberia de algo que poderia arruinar Queréa, ou, talvez até mesmo ela soubesse o nome de outros conspiradores mais ilustres; como também é possível que a esposa do finado Imperador participasse ativamente das humilhações a que Caligula submetia Queréa.

Muitos, porém, acreditam que Queréa pode ter sido cooptado por senadores que queriam restaurar a República, e por isso, visavam eliminar a descendência de Calígula, para que não houvesse sucessores, porém, para que tal propósito fosse bem sucedido, eles teriam que eliminar também outros integrantes da dinastia Júlio-Cláudia, como o jovem Nero, entre outros…

Com efeito, logo após o assassinato, enquanto o Palácio era vasculhado, um pretoriano chamado Gratus encontrou Cláudio, que era tio de Calígula e irmão do pai dele, Germânico, escondido apavorado atrás de uma cortina do Palácio. Uma facção dos pretorianos saudou Cláudio, que até então era tido como imbecil, como o novo imperador, e levou-o para o quartel da Guarda. Lá, ele foi reconhecido e aclamado como o novo Príncipe pelo Senado.

Um Novo Imperador 41 AD, tela de Sir Lawrence Alma-Tadema (1871), foto: Lawrence Alma-Tadema, Public domain, via Wikimedia Commons

Nascimento e caminho para o trono

Nascido em  31 de Agosto do ano 12 D.C., em Anzio, Itália, Gaius Julius Caesar Germanicus (Caio Júlio César Germânico), que se tornaria popularmente conhecido como o imperador romano Calígula, era filho de Germanicus Julius Caesar, cognominado “Germânico” e de Vipsânia Agripina (mais conhecida como Agripina, a “Velha”, para distingui-la de sua filha, do mesmo nome, Agripina, a “Jovem”, mãe do futuro imperador Nero).

Portanto, por parte de pai, Calígula era sobrinho-bisneto do Imperador Augusto, pois a sua bisavó paterna era Otávia, a irmã do primeiro imperador que se casou com o triúnviro Marco Antônio, em uma união da qual nasceu Antônia, a Jovem, de cujo casamento com Nero Cláudio Druso, por sua vez, nasceu Germânico. E Calígula também era bisneto de Lívia Drusila, a influente esposa de Augusto, avó de seu pai, pois Nero Cláudio Druso era o filho mais novo do primeiro casamento dela com Tibério Cláudio Nero, sendo que o caçula desta união foi o imperador Tibério, irmão de Druso, tendo o primeiro sucedido Augusto como seu herdeiro e filho adotivo, sendo aquele também, portanto, tio-avô de Calígula.

Já pela linha materna, Calígula era bisneto de Augusto, pois sua mãe, Agripina, era filha de Marco Vipsânio Agripa, o grande amigo e braço-direito do primeiro imperador, e de Júlia, “a Velha”, a única filha e descendente de Augusto.

Tal “pedigree” colocava Germânico, o pai de Calígula, como um não-desprezível pretendente à sucessão do próprio Augusto. Aliás, vale observar que todos herdeiros-presuntivos inicialmente favorecidos por Augusto eram seus parentes, tais como seu sobrinho, Marcelo, e seus netos Caio César e Lúcio César. Todos eles, porém, morreram antes do velho imperador, que, muito em função das maquinações de sua esposa Lívia, acabou adotando e nomeando como herdeiro o filho natural desta, o seu enteado Tibério.

Augusto, porém, certamente visando garantir alguma continuidade sanguínea entre si e os seus sucessores, ao adotar Tibério, exigiu que este, por sua vez, da mesma forma adotasse Germânico, como herdeiro.

Ocorre que o pai de Calígula tornou-se um grande general, muito querido pelo Exército e pelo povo. Ele se destacou em campanhas na Panônia e na Dalmácia. Aliás, Germânico e Agripina eram uma espécie de família romana modelo: Eles tiveram nove filhos juntos, seis dos quais atingiram a idade adulta, três meninos, sendo Calígula o mais jovem deles, e três meninas, sendo que a mais velha, Agripina, “a Jovem”, seria mãe do futuro imperador Nero.

Quando Augusto morreu, em 14 D.C., sendo sucedido por Tibério, o sobrinho deste, Germânico, recebeu do novo imperador um comando na Germânia, onde ele comandou uma campanha brilhante na qual conseguiu finalmente, em 16 D.C., vingar a grande derrota sofrida por Varo, sete anos antes (foi por esse motivo que ele recebeu o seu apelido, pois dar ao general um cognome derivado dos inimigos vencidos era uma tradicional honraria romana).

Foi durante esse período que Germânico demonstrou que sabia utilizar sua família como uma ferramenta de propaganda pessoal. Ele residia no acampamento militar, em território inimigo, com toda a sua família e costumava vestir o seu filho mais novo Caio, que tinha entre 3 e 4 anos, com um uniforme militar em miniatura.

E entre as peças de vestuário militar que o pequeno Caio usava, estava uma pequena sandália ou bota militar, “caligae“, em latim. O diminutivo de “caligae” é “caligula” e o menino acabou recebendo da soldadesca esse apelido, que pode ser traduzido como “Botinha” (ou “Sandalinha“), um apelido que “pegou” (e consta que o mesmo era abominado por Calígula, depois de se tornar adulto).

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Inclusive, as fontes narram que em certa ocasião, quando uma das legiões comandadas por Germânico se revoltou, a mera sugestão de que o comandante, temendo pela segurança de sua família, estava mandando o adorado “Botinha” para um lugar seguro, longe dos soldados, bastou para acabar espontaneamente com o motim.

Infelizmente, a imensa popularidade de Germânico seria, para muitos, a provável causa de sua morte…

Consta que Lívia, a imperatriz-mãe viúva, muito provavelmente, e não para o desagrado de Tibério, urdiu uma série de intrigas visando afastar Germânico da linha sucessória, a quem percebia como uma ameaça a seu filho. De fato, as fontes do período, como Tácito, apontam Lívia e Tibério como os principais suspeitos pela morte de Germânico, em 19 D.C., acometido de uma misteriosa doença que se assemelhava a um caso de envenenamento, ainda que não haja provas conclusivas disso.

A postura questionadora da mãe de Calígula e viúva de Germânico, Agripina, em relação à morte de seu marido, azedou as relações dela com Tibério e deu início a uma série de desconfiança e intriga entre ambos. Consta que, certa vez, Tibério, notando uma cara de desagrado em Agripina, teria recitado, em grego, para ela o seguinte verso de uma então famosa obra clássica:

Porque não és rainha, eu te fiz algum mal?

Assim, em virtude dessa animosidade, e dos efeitos que isso causou na saúde da sua mãe, Calígula acabou indo morar sua bisavó, Lívia, a principal suspeita pelo assassinato de seu pai.

Em 29 D.C, no mesmo ano em que Lívia morreu, Agripina foi presa e exilada para a remota ilha de Pandatária, acusada de traição junto com seus outros filhos Nero e Druso.

Após sofrer vários maus-tratos e provações, Agripina morreu na ilha, em 33 D.C. Antes disso, os irmãos de Calígula também morreriam em função das acusações: Nero (não confundir com o imperador de mesmo nome) morreu de inanição, enquanto preso e Druso se suicidou. Em todos esses fatos esteve implicado o Prefeito Pretoriano Lúcio Élio Sejano, para alguns como instigador, ou ao menos, como o executor da vontade de Tibério.

Então, em 31 D.C, Calígula, que estava morando junto com sua avó Antônia, foi residir com Tibério, que, deixando os assuntos da administração nas mãos de Sejano, havia abandonado Roma e se mudado para Capri, desde o ano de 26 D.C.

Não temos dúvidas de que a situação deve ter sido aterrorizante para Calígula, pois após morar com Lívia, a suposta algoz de seu pai, agora ele iria viver sob a tutela do filho desta, o imperador responsável pelo sofrimento e morte de sua mãe e de seus irmãos. O que ele podia esperar para si senão o pior?

A julgar pelo relato de Suetônio, em Capri, Calígula habilmente soube fingir ser inofensivo e servil a Tibério. Se os escandalosos relatos do citado historiador forem verdadeiros, na paradisíaca ilha,  Calígula deve ter sofrido a influência maléfica dos inúmeros atos de perversão sexual e crueldade relatados na “Vida de Tibério“, o livro integrante da coletânea de biografias conhecida como “Os doze Césares“, que teriam ocorrido na espetacular Villa Jovis de Tibério, situada em Capri.

No entanto, em 33 D.C, Tibério deu a Calígula seu primeiro cargo público, o de Questor Honorário, e, dois anos mais tarde, Calígula foi nomeado herdeiro do Imperador, juntamente com seu primo, e neto de Tibério, o menino Tibério Gemellus.

Quando Tibério morreu, em 16 de março de 37 D.C, com a avançada idade de 78 anos, Calígula tornou-se o terceiro imperador romano. Suetônio levanta suspeitas sobre a culpa de Calígula na morte do tio, mas o mais provável é que Tibério tenha morrido de velhice.

A morte de Tibério foi recebida com júbilo pelo povo e pelo Senado. De fato, a austeridade de Tibério, que havia acumulado um grande superávit no Tesouro, muito em função dele ser avesso aos gastos públicos, especialmente para com os jogos e corridas tão amados pela plebe, acabou tornando-o consideravelmente impopular, fato que foi reforçado pela sua responsabilização, real ou presumida, pelas mortes dos queridos Germânico e Agripina.

Calígula imperador

Assim, a aprovação entusiasmada do Senado e do Povo de Roma acompanhou a aclamação de Calígula como imperador: Além de suceder um governante antipático, ele era o belo e jovem filho de um herói popular e membro de uma família muito célebre e muito estimada. Para comparar, o clima deve ter sido parecido com o que o Reino Unido atual experimentará quando o príncipe William tornar-se rei da Inglaterra, sucedendo ao pai Charles.

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Reprodução de um busto original  romano de Calígula, com cores restauradas, obtidas através de processo científico

Parece que, em seus primeiros meses, o reinado de Calígula parecia promissor (aliás, a crônica do seu início pode ser considerada a narrativa-padrão do reinado de todos os “maus” imperadores romanos, tais como Nero, Domiciano e Cômodo). Ele entrou em Roma em 28 de março de 37 D.C, 12 dias após a morte de Tibério, seguindo-se cerca de três meses de verdadeira adoração, em grande parte espontânea, por parte do povo. De fato, inicialmente, Calígula correspondeu mesmo aos anseios dos súditos:

De fato, o novo imperador mandou pagar todos os legados previstos no testamento de Tibério, tanto individuais como coletivos e, mais importante, mandou destruir todos os documentos que estavam nos arquivos imperiais para dar subsídios aos numerosos processos de crime de alta-traição ou de lesa-majestade, que haviam sido tão frequentes no reinado do seu antecessor.

Calígula também inaugurou o costume, que depois se mostraria funesto, de dar um grande donativo à Guarda Pretoriana em comemoração à ascensão de um novo imperador ao trono (prática que estimularia futuros motins dos Guardas visando destronar o monarca reinante, para assim obter recompensas do substituto).

Passados poucos meses, porém, Calígula não titubeou em se livrar de seu primo Gemellus, o neto de Tibério que, com ele, havia recebido em testamento o Império. Na verdade, um dos primeiros atos de Calígula após a sua aclamação oficial havia sido conseguir do Senado a anulação do testamento de Tibério no que se refere à posição de co-herdeiro de Gemellus. Porém, antes que o ano terminasse, Gemellus seria executado sumariamente à mando de Calígula.

As fontes narram que, antes disso, Calígula, em outubro de 37 D.C, ficou seriamente doente, e que foi somente após recuperar-se desta enfermidade que ele começou a praticar os reiterados atos de tirania, crueldade, devassidão e loucura pelos quais tornaria célebre (Suetônio, contudo, aponta que Calígula já demonstrava sua má índole quando adolescente). Infelizmente, os textos antigos não fornecem detalhes precisos sobre a misteriosa doença dele que possam nos dar alguma pista da sua real natureza –  isto é, se tratava-se uma doença infecciosa, congênita, física ou mental.

Gastos exorbitantes e deterioração na situação econômica

Um fato que parece incontestável acerca do reinado de Calígula é a rapidez com que a situação financeira do Império se deteriorou. Com efeito, são várias as afirmações nas fontes de que Tibério havia deixado um gigantesco superávit no Tesouro do Estado, apontando-se até a soma precisa de 2,7 bilhões de sestércios, e, portanto, parece certo que o problema fiscal foi causado pela política (ou falta de) determinada por Calígula. A desorganização econômica acarretou, ainda, episódios, relatados pelas fontes, da ocorrência de fome entre a população, algo que não ocorria há tempos.

Com feito, ,as fontes mencionam vários gastos desmedidos ordenados por Calígula:

Relata-se, por exemplo, que ele ordenou a construção de uma ponte flutuante de mais de 4 km entre Baiae e Puteoli, apenas para contrariar uma profecia. Uma outra despesa enorme descrita por Suetônio foi a construção de dois enormes navios, para serem usados como templo e palácio. Esses barcos, que tinham mais de 70 metros de comprimento, foram recuperados no Lago Nemi, durante o governo de Mussolini na Itália, e colocados em um museu especialmente construído. Infelizmente, durante a 2ª Guerra, os barcos foram destruídos. Recentemente, vale citar, foi restituído a Itália um pedaço do magnífico pavimento de mosaico da referida embarcação, retirado em data incerta do fundo do Lago, e que foi parar em um apartamento em Manhattan, Nova York, EUA, transformado em uma mesa de centro! (vide https://olhardigital.com.br/2021/12/06/ciencia-e-espaco/como-um-mosaico-do-lendario-imperador-romano-caligula-virou-tampo-de-mesa-em-ny/

De qualquer modo, a Arqueologia confirmou, mais uma vez, os relatos dos historiadores antigos.

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(Foto da escavação de um dos navios de Caligula, no Lago Nemi)

Política Externa

Não obstante, no front externo, Calígula reivindicou a realização de campanhas na Britânia e na Germânia, mas estas teriam, sido, na verdade, na opinião dos historiadores, apenas exercícios ou manobras militares, ou pior, segundo as fontes romanas (cf. Suetônio), uma encenação ridícula. Mas talvez seja provável que essas opiniões tenham exageradas, uma vez que, recentemente, descobriu-se, nas escavações de um forte romano na Holanda, chamado de Velsen-2, indícios de que Calígula pode ter estado realmente nesta região durante o seu reinado, e de que a referida fortificação foi efetivamente construída para viabilizar a invasão da Britânia e conter as tribos germânicas da outra margem do Reno.

Ilustração do Forte Romano em Velsen, extraída da matéria do The Guardian, conforme o link no parágrafo seguinte. Foto de Graham Sumner

A descoberta do forte cf. em https://www.theguardian.com/world/2021/dec/26/roman-fort-built-by-caligula-discovered-velsen-near-amsterdam.

Já a decisão de anexar a Mauritânia, um reino-cliente de Roma, foi tomada durante o reinado de Calígula, mas há dúvidas se a execução desta decisão ocorreu quando ele ainda estava vivo ou se foi deixada para o sucessor, Cláudio, que, assim, teria, em seu reinado, na verdade, continuado iniciativas tomadas pelo antecessor.

Desmandos, perversões e crueldades

Vamos aqui deixar a narrativa detalhada dos inúmeros assassinatos, atos de perversão sexual e gestos tresloucados de Calígula para quem se interessar em ler Suetônio. Entre os últimos, podemos citar o desejo manifesto dele nomear seu cavalo Incitatus para o Senado Romano…

Aliás, o filme Calígula, de Bob Guccione, dono da Revista Penthouse, foi muito criticado por ser porno-erótico, mas a película não deixa de ser bem fiel ao relato de Suetônio (com a interpretação magistral de Malcolm Mcdowell no papel do imperador)…

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De qualquer forma, a personalidade cada vez mais instável de Calígula inviabilizou politicamente o seu governo. As fontes asseguram que ele efetivamente pensava ser um deus-vivo e exigia o culto que lhe achava devido. O judeu alexandrino Filão deixou um precioso relato da embaixada que ele fez à Roma, onde encontrou pessoalmente Calígula, com o objetivo de tentar demovê-lo do propósito de instalar uma estátua de si mesmo no interior do Templo de Jerusalém. Filão descreve em seu texto que percebeu que o imperador ficava muito agitado em alguns momentos, e ele saiu do encontro com a impressão de que Calígula acreditava que realmente era um ser divino.

Calígula era louco?

Entre os autores antigos há certo consenso de que Calígula era louco, mas, hoje em dia, muitos autores modernos lançam suspeitas sobre esses relatos, atribuindo o tom negativo a uma certa antipatia e animosidade política dos escritores romanos, todos integrantes da classe senatorial, que se julgava preterida e perseguida pelos Césares.

Porém, eu acredito que Calígula era insano mesmo, embora não possamos identificar com precisão que tipo de distúrbio psicológico ele sofria. É quase certo que as provações pelas quais passou na infância e adolescência, como, por exemplo, ter visto a mãe e os irmãos morrerem assassinados e o medo incessante de ser executado por Tibério ou por Sejano, tudo isto deve ter deixado marcas profundas em sua mente e pode ter gerado transtornos de personalidade. Por exemplo, Suetônio narra que Calígula conversava com as estátuas dos deuses, não conseguia dormir à noite e vagava como uma alma penada pelo Palácio. É bem possível, portanto, que ele sofresse de esquizofrenia paranóide.

Dessa forma, ao contrário de outros imperadores que se destacaram pelo comportamento tirânico e bizarro, como Nero, que reinou 14 anos, Domiciano, que reinou 15 anos, e Cômodo, que reinou 13 anos, Calígula, apesar do prestígio quase sacrossanto de sua linhagem entre o Povo e o Exército, foi assassinado antes de completar o quarto ano de seu reinado!

A conspiração

Quando Calígula manifestou a intenção de se mudar para Alexandria, onde poderia ser adorado como Deus, muitos romanos influentes perceberam que havia chegado a hora de se livrar do lunático imperador…

A elite política romana estava farta das insanidades de Calígula. Talvez ela até aguentasse as excentricidades e bizarrices se tais comportamentos não comprometessem a deferência e os privilégios aos quais os senadores se julgavam merecedores, mas esse definitivamente não era o caso, já que Calígula não titubeava em tratar os senadores como súditos e submeter-lhes a inúmeras humilhações.

Assim, somos da opinião de que quando os senadores perceberam que Calígula também não era benquisto por um bom número de seus próprios guarda-costas, a conspiração para se livrarem do perturbado imperador ganhou corpo, e foi posta em prática no dia 24 de janeiro de 41 D.C.,  por elementos da Guarda Pretoriana, como relatamos no início do nosso texto.

Contudo, se os conspiradores alguma vez de fato tiveram alguma esperança de restaurar a República, a realidade tratou de sepultar imediatamente suas aspirações, pois a própria Guarda apresentou ao Senado, o tio de Calígula, Cláudio, como sucessor, demonstrando que, após mais de setenta anos de governo de Augusto e de seus sucessores Júlio-Cláudios haviam colocado a ideia de um regime de uma República governada pelo Senado definitivamente nos livros de História.

FIM

ADRIANO – ANIMA VAGULA BLANDULA

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NASCIMENTO, ORIGEM FAMILIAR, INFÂNCIA E JUVENTUDE

Em 24 de janeiro de 76 D.C, nascia Publius Aelius Hadrianus (Adriano),  em Roma, ou, segundo algumas fontes, em Itálica, cidade na província romana da Hispania Betica a 9 km da atual Sevilha, que foi fundada por Cipião, o Africano ainda durante a 2ª Guerra Púnica, que ali assentou colonos romanos de origem italiana, entre os quais provavelmente estava a família dos Élios.

O pai de Adriano, Publius Aelius Hadrianus Afer, era um senador romano e primo de Marcus Ulpius Trajanus, seu conterrâneo de Itálica que se tornaria, em 98 D.C, o imperador Trajano (o primeiro imperador nativo de uma província fora da Itália;  já a sua mãe, Domícia Paulina, também vinha de uma família da classe senatorial radicada na Espanha.

Quando Adriano tinha apenas 10 anos de idade, no ano de 86 D.C, os seus pais faleceram e ele ficou sob a tutela de Trajano e de Publius Acilius Attianus, um conterrâneo de seu pai. E aos 14 anos de idade, Adriano, que estava em Itálica, foi chamado para ir morar em Roma por Trajano. Na capital do Império, Adriano recebeu uma esmerada educação, em companhia de outros rapazes da alta aristocracia romana.

Consta que, ainda na infância, chamou a atenção o grande interesse de Adriano pela cultura grega, chegando ele a receber o apelido de”graeculus” (“greguinho”), não se olvidando que esse termo também era, entre os romanos, por vezes usado como uma forma jocosa de chamar alguém de efeminado ou “gay”.

Com cerca de 18 anos, Adriano entrou para o serviço militar na condição de tribuno, mas sem muito destaque. Ele serviu por cerca de três anos em legiões na Mésia, na Dácia e na Germânia.

INGRESSO NA FAMÍLIA IMPERIAL DE TRAJANO E INÍCIO DA CARREIRA PÚBLICA

Em 98 D.C, o imperador Nerva, que, ao assumir o trono, havia adotado Trajano como sucessor faleceu. Adriano, então ao receber a notícia, fez questão de ser o primeiro a comunicar o momentoso fato a Trajano, que estava em campanha, e cavalgando com velocidade espantosa para a época, conseguindo chegar na frente do emissário oficial, motivo pelo qual Trajano ficou muito grato e sua carreira começou a decolar.

Fortalecendo seus laços com a casa imperial, Adriano, em 100 D.C, casou-se com Víbia Sabina, que era filha de Matídia, sobrinha de Trajano, mas que tiha sido criada como se fosse filha do imperador, que, aliás, nunca teve filhos naturais. Este foi um casamento arranjado por Matídia e pela própria imperatriz Plotina, duas mulheres que sempre demonstraram um grande afeto por Adriano. E, com efeito, os estreitos laços emotivos entre Plotina e Adriano ainda favoreceriam muito o jovem no futuro…

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(Busto da Imperatriz Plotina, a protetora de Adriano)

Pouco depois do casamento, Adriano acompanhou Trajano na primeira grande empreitada militar deste imperador: A Primeira Guerra contra a Dácia (101-102 D.C). Contudo, no decorrer desta campanha, Adriano foi dispensado para assumir os cargos de Questor, em 101 D.C, e, posteriormente, de Tribuno da Plebe, em 105 D.C., seguindo os passos da tradicional carreira das magistraturas (cursus honorum) romana.

Na Segunda Guerra contra os Dácios (105-106 D.C), Adriano também integrou a comitiva de Trajano e recebeu o comando da I Legião Minervia. Novamente, Adriano deixou a campanha em seu desenrolar e foi para a Roma assumir o cargo de Pretor, em 106 D.C. Em seguida, ele foi nomeado governador da Panônia Inferior. Não obstanyr, Adriano recebeu menções honrosas do Imperador pelo seu desempenho na referida segunda campanha na Dácia. Posteriormente, em 108 D.C, Adriano foi nomeado cônsul suffectus (equivalente a cônsul substituto –  um posto somente inferior ao consulado ordinário. Um cônsul suffectus era designado para completar o período do consulado ordinário quando este ficava vago).

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(Relevo da Coluna de Trajano, em Roma, com cena da Guerra contra os Dácios)

Depois do consulado, Adriano integrou os colégios sacerdotais dos setêmviros e dos sodalis augustales, este último um prestigiado ofício religioso encarregado do culto a Augusto.

Nos anos seguintes, que parecem ter sido “sabáticos”, sabemos que Adriano viajou para a sua adorada Grécia, onde estudou com o filósofo estóico Epicteto, na Hélade, como mais um exemplo e reconhecimento do seu amor pela cultura grega, Adriano conseguiu ser eleito cidadão de Atenas e ocupou o cargo de Archon, uma magistratura ateniense, entre 112 e 113 D.C.

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(Arco de Adriano, em Atenas, foto de Carole Raddato)

Nesse ponto, parece estranho que a carreira pública de Adriano tenha ficado em segundo plano em relação à sua viagem existencial pela Grécia. Alguns acreditam que Trajano nunca tenha tido muito entusiasmo pela possibilidade de Adriano tornar-se seu sucessor. Se por um lado, a sucessão de cargos ocupados por ele  (bem como o seu casamento com Sabina) demonstra que Adriano era bem considerado e próximo ao Imperador, por outro é certo que ele ainda não recebera nenhuma distinção inegável para que fosse considerado um herdeiro escolhido, tal como, por exemplo, o Poder Tribunício, a adoção oficial ou, mesmo, a designação para sucessivos consulados ordinários. Poderia-se até cogitar que o fato de Adriano ter ficado tanto tempo em Atenas para se dedicar a estudos filosóficos, quando já tinha mais de 35 anos de idade e sem ocupar nenhum cargo de cúpula, equivaleria à nossa expressão: “ficar na geladeira”…

Porém,  eu entendo que não há dúvidas de que Adriano jamais deixou de gozar da confiança de Trajano, pois, quando, em 114 D.C. este embarcou em sua campanha contra a Pártia, ele integrou a comitiva imperial, e, no decorrer da guerra, foi nomeado governador da importantíssima província da Síria. Esse cargo tornava Adriano virtualmente o comandante militar do Exército Romano no Oriente, pois Trajano, gravemente doente, teve que deixar a campanha e partir para Roma, em 117 D.C.

ASCENSÃO AO TRONO

Assim, foi enquanto era governador da Síria que Adriano recebeu, em Antióquia, a notícia de que Trajano havia falecido, na viagem de retorno à Roma, em Selinos, na Cilícia, ainda na Ásia Menor, em 8 de agosto de 117 D.C, nomeando-lhe como sucessor.

As fontes antigas atribuem a investidura de Adriano à imperatriz Plotina, que, contando também como o auxílio de seu velho tutor Attianus, teriam mantido a morte de Trajano em segredo por alguns dias, aproveitando para forjar os documentos em que Trajano designava Adriano como o herdeiro que deveria sucedê-lo no trono do Império Romano. A História Augusta até menciona que Trajano pretendia nomear o famoso jurista Neratius Priscus como sucessor, mas isso é altamente improvável, até porque, posteriormente, Priscus ocupou importantes cargos durante o reinado de Adriano e foi encarregado de várias reformas legais. Mas, certamente, Priscus teria sido logo eliminado por Adriano, caso a escolha dele por Trajano como sucessor tivesse mesmo ocorrido.

O fato é que Adriano era o parente vivo mais próximo de Trajano e ocupava o importante governo da Síria, o que o colocaria, mesmo na ausência de testamento, como o comandante militar mais poderoso do Império naquele momento. Assim, ainda que Trajano não tenha expressamente designado Adriano como sucessor, essa condição era natural pelas circunstâncias, e não se pode condenar a “interpretação” que, supostamente, Plotina teria dado à vontade do marido falecido…

REINADO

Um dos primeiros atos de Adriano foi livrar-se de quatro importantes senadores, que tinham sido grandes colaboradores de Trajano. As fontes relatam que ele depois sempre se ressentiria dessa “mancha” na sua, em geral, reputação de monarca tolerante e ilustrado. A desagradável tarefa foi executada pelo seu ex-tutor Attianus, que havia sido nomeado Prefeito Pretoriano, ainda por Trajano, em Roma. Adriano sempre colocaria a culpa desses assassinatos políticos em Attianus, alegando que ele mesmo de nada sabia, chegando até a removê-lo do cargo, mas essa alegação não se coaduna com com o fato de, logo após a essa “punição”, Adriano ter nomeado Attianus para o Senado Romano e lhe honrado com os ornamentos consulares…

Entrementes, logo ficou claro que Adriano promoveria uma guinada de 180° em relação à política exterior de Trajano.

Todas as conquistas no Oriente duramente obtidas por Trajano, mas onde já espoucavam revoltas, foram abandonadas, inclusive a província da Mesopotâmia, o que gerou certa insatisfação na opinião pública. Esse sentimento é compreensível, sobretudo porque o domínio romano na Mesopotâmia evocava de certo modo as conquistas de Alexandre, o Grande na Pérsia, mas provavelmente esta decisão de Adriano foi correta, pois dificilmente os romanos conseguiriam mantê-la.

Adriano entendia que o Império devia fortalecer as fronteiras estabelecidas na época de Augusto, com exceção a rica Dácia, que também estabelecia um colchão de segurança para a estratégica fronteira do Danúbio.

O Império, assim, embarcou na construção de uma rede de muralhas, torres fortificadas, quartéis e paliçadas visando assegurar essas fronteiras. O exemplo mais famoso desse programa são as Muralhas de Adriano, na Grã-Bretanha (construída entre 122 e 125 D.C).

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Não obstante, Adriano cuidou para que o Exército Romano fosse cuidadosamente mantido em estado de excelência, seja em equipamentos, disciplina e prontidão, tendo sido extensivamente empregado em projetos de construção e manobras militares constantes.m Com efeito, uma das grandes preocupações de Adriano era o evidente relaxamento da disciplina militar pelo excesso de confortos e luxos nos quartéis, situação que ele combateu.

Já na esfera social, Adriano expandiu o programa dos “Alimenta” (fornecimento gratuito de gêneros alimentícios aos cidadãos pobres de Roma).

O imperador externou que seu propósito era visitar todas as províncias do Império Romano, a fim de verificar pessoalmente as condições dos cidadãos romanos, conhecer os problemas das províncias e fiscalizar a administração regional. E com efeito, Adriano visitou a Gália e o Reno (120-121 D.C), a Bretanha (121-122 D.C), a Espanha (122 D.C), a Ásia (123 D.C), a Grécia (125 D.C), e, após voltar à Roma, a África (128 D.C), novamente a sua amada Grécia (Atenas, 128 D.C), a Cária, Cilícia, Capadócia e Sìria (129 D.C) e o Egito (130 D.C), voltando à Roma em 131 D.C. Essas viagens também demonstrariam a visão do Império Romano como uma comunidade de povos que compartilhavam a civilização helenística, ao invés de ser meramente um território conquistado pelos romanos e governado por Roma para os de origem italiana.

Aliás,foi muito provavelmente durante a estadia de Adriano na Bitínia que ele conheceu o belo adolescente Antinoos, ou Antinous,  que foi enviado para Roma para ser educado como pajem e que se tornaria seu notório amante.

Outra reforma importante implementada por Adriano foi a designação de integrantes da classe equestre para os cargos da burocracia imperial (Seu antecessor, Trajano, dava preferência aos membros da classe senatorial), assegurando-lhes, a partir daí, a promoção para os mais altos cargos da magistratura. Esse passo foi seguido pela profissionalização do Conselho do Imperador (Consilia Princeps), corpo consultivo que passaria a ser integrado por conselheiros pagos e não mais por libertos ou servos domésticos do Imperador.

No campo do Direito, Adriano foi o primeiro a editar um Código de Leis publicado para ser conhecido para todos os cidadãos. Esse Código, elaborado pelo célebre jurtsta Sálvio Juliano, chamado de Édito do Pretor (depois conhecido com Editum Perpetuum), marcou uma profunda alteração no sistema jurídico-legal romano, pois, até então, tradicionalmente, os juízes (pretores) publicavam seus éditos com a sua interpretação jurídica das leis e costumes romanos, que era considerada como uma fonte do Direito. Agora, todos os éditos anteriores ao Editum Perpetuum estavam sendo fixados no Código e, a partir daí, somente o Imperador poderia alterar a legislação mediante a expedição de decretos ou de leis ratificadas pelo Senado. Esta era uma mudança revolucionária: do sistema de direito de precedente judiciário e judge men’s law (direito dos juízes) para o direito codificado ou legislado, que, ainda hoje, marca a divisão entre os sistemas jurídicos existentes no mundo.

Adriano foi também um grande construtor, e os edifícios mais famosos em Roma construídos durante o seu reinado foram: o Templo de Vênus e Roma, o seu próprio Mausoléu ( que ainda existe, na forma do Castelo de Santo Ângelo), e o muito bem preservado Pantheon, no qual, pretendendo demonstrar humildade, Adriano manteve a inscrição ostentada na fachada do prédio antecessor, que havia sido destruído havia tempos, declarando que havia sido construído por Marcus Agrippa. Espetacular também foi a sua Villa, em Tìvoli, que constituía praticamente um grande parque temático sobre o mundo helenístico.

(Pantheon e Templo de Vênus e Roma – este reconstituído por Franck devedjian)

PERSONALIDADE

A personalidade de Adriano era certamente refinada, complexa e contraditória. Ele queria ser visto como, e, tudo indica, se esforçava mesmo para ser,  um monarca esclarecido, humano, tolerante, pio e dedicado ao serviço público, mas era excessivamente vaidoso, de temperamento colérico e emotivo.

Os seguintes casos preservados pelas fontes podem dar uma idéia:

Sabe-se que Adriano publicou leis visando melhorar a condição dos escravos. Contudo, consta que certa vez, irritado com um seu escravo doméstico, Adriano cravou o seu estilete de escrita no olho do infeliz escravo. Logo depois, tomado de remorso, Adriano pediu perdão ao escravo e, visando reparar essa violência, disse que o escravo poderia pedir qualquer coisa que quisesse, que ele, Adriano, lhe daria. Resposta do escravo: “Só quero o meu olho de volta“.

Outra vez, quando viajava, uma mulher abordou a comitiva e quis fazer um pedido, ao que Adriano respondeu: “Não tenho tempo para te ouvir“. A mulher então, ousadamente, replicou: “então, não seja imperador!“. Adriano, envergonhado, parou e ouviu o requerimento da mulher .

Cássio Dião descreve Adriano como sendo um homem agradável de se encontrar e dotado de um certo charme. Segundo a História Augusta, ele tinha muito interesse em poesia e nas letras e era expert em aritmética, geometria e pintura. Adriano sabia tocar bem a flauta e cantar. Porém, ele excedia-se ao satisfazer seus desejos e escreveu muitos versos aos objetos de suas paixões. Adriano também sabia manejar diversas armas.

Ainda, segundo Cássio Dião, Adriano:

“na mesma pessoa, era austero e genial, solene e brincalhão, ativo e preguiçoso, sovina e generoso, dissimulado e direto, cruel e compassivo e, sempre, em todas as coisas, volúvel“.

Certamente, Adriano era muito vaidoso intelectualmente, o que deu margem a algumas estórias sobre a inveja que sentiria de outros homens admirados pelo talento. Consta que até que ele teria mandado matar o arquiteto Apolodoro de Damasco porque este debochara de seus desenhos e desdenhara das suas sugestões para o Pantheon e o Templo de Vênus e Roma. Mas alguns duvidam que essa narrativa seja verdadeira.

Sobre a vida afetiva de Adriano, parece que o casamento com a imperatriz Sabina era de fachada, Ela inclusive teria tido um relacionamento amoroso com o célebre historiador Suetônio. Em todo caso, o casamento imperial não gerou filhos e ela morreu um pouco antes do imperador, em 136 ou 137 D.C.

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(Busto da imperatriz Víbia Sabina)

O relacionamento amoroso mais conhecido de Adriano foi com o belo jovem bitínio Antínoo, natural da cidade de Claudiópolis, que ele deve ter conhecido em 123 D.C, durante a sua viagem pelas províncias da Ásia. O menino deveria ter, então, cerca de 13 anos e foi levado para Roma para ser educado. Sendo ele grande admirador da cultura grega, é provável que a relação íntima de Adriano com o rapaz tenha se desenvolvido como a relação entre as figuras do “eraster” e do “eromenos“, onde um homem adulto assume o papel de mentor educacional de um pupilo,  ocasião em que se admitia, na Grécia, o relacionamento sexual entre eles (pederastia). Considerando que a elite romana, no período, era fortemente influenciada pelo helenismo, provavelmente a relação entre Adriano e Antinoos, naquele momento, não foi considerada escandalosa, ao menos enquanto o rapaz era adolescente.

Antinous

Porém, em 130 D.C, durante a viagem de Adriano pelo Egito, quando eles navegavam pelo Nilo, a flotilha imperial parou na cidade de Hermópolis e durante essa parada, Antinoos afogou-se no rio. Consta que Adriano chorou copiosamente a perda do amante. Pouco depois, Adriano conseguiu que os gregos deificassem Antinoos e ordenou que uma cidade no Egito fosse construída no local da morte do amante, batizando-a de Antinoopolis.  Inúmeras estátuas do jovem foram espalhadas pelo Império (muitas ainda existem).

As fontes antigas divergem sobre a causa da morte de Antinoos. As versões variam entre suicídio, assassinato, sacrifício e acidente. Para alguns, o próprio rapaz, percebendo que em breve a relação terminaria devido á sua condição de homem adulto, já que a relação amorosa aberta entre homens adultos livres não era aceita pela sociedade romana, teria se matado. Esse também seria o motivo pelo qual ele poderia ter sido assassinado. Para outros, Antinoos teria sido voluntariamente sacrificado em algum misterioso ritual religioso ou vítima de um acidente. O fato é que as homenagens prestadas pelo imperador a Antinoo foram consideradas excessivas e expuseram Adriano ao ridículo, ao menos segundo nos conta a História Augusta.

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O conflito militar mais importante do reinado de Adriano foi a revolta judaica liderada por Simão Bar-kohba, entre 132 e 136 D.C, que foi implacavelmente reprimida, com a destruição de Jerusalém, a morte estimada de 580 mil judeus e a deportação de grande parte da população judaica , vendida como escrava, episódio chamado pelo povo hebreu de “A Grande Diáspora“. Sobre as ruínas de Jerusalém, Adriano ordenou a construção de uma nova cidade, batizando-a de Élia Capitolina.

MORTE

O final da vida de Adriano foi atormentado por uma grave doença que lhe causou muito sofrimento, ao ponto de seus assessores mais íntimos se preocuparem em evitar que ele tivesse qualquer instrumento potencialmente letal à sua disposição, por medo de que ele se matasse.

Adriano escolheu como sucessor Lucius Ceionus Commodus, em 136 D.C, um senador que era filho de um dos quatro consulares que ele havia executado no início do seu reinado. Porém, Lucius, que adotou o nome de Lucius Aelius Caesar, morreu no início de 138 D.C. Adriano, então, adotou Titus Aurelius Fulvus Boionius Arrius Antoninus (o futuro imperador Antonino Pio), que era casado com Faustina, uma sobrinha da imperatriz Sabina e filha de Marco Ânio Vero, grande amigo de Adriano e membro de uma família conterrânea da Hispânia, como novo herdeiro.

Segundo a História Augusta, em seu leito de morte, Adriano compôs o célebre poema Anima, Vagula, Blandula (Pequena alma terna e flutuante), uma belíssima peça lírica que ilustra a riqueza do espírito do moribundo Imperador:

“Pequena alma terna e flutuante,

hóspede e companheira de meu corpo,

vais descer a lugares pálidos, duros, nús,

onde renunciarás aos jogos de outrora.

Animula,_vagula,_blandula_(13307208213)(Lápide moderna em mármore com o poema de Adriano em latim, colocada no interior do seu Mausoléu, hoje Castello Sant’Angelo, em Roma. Foto: Carole Raddato)

Em 10 de julho de 138 D.C., o coração de Adriano parou de bater em sua villa no tradicional balneário de Baiae. Ele tinha 62 anos de idade e seu reinado durou  21 anos, um dos mais longos da História, então somente superado por seus predecessores Augusto e Tibério. Ele inicialmente foi sepultado em uma villa que havia pertencido a Cícero, e depois seus restos foram trasladados para Roma, onde foram cremados e depositados no seu magnífico Mausoléu de Adriano, juntamente com os de sua esposa Sabina e seu filho adotivo Lúcio Élio, pelo seu sucessor Antonino, que, por ter conseguido convencer o relutante Senado Romano a deificar Adriano, recebeu o cognome de “Pio”.

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F I M

OS GORDIANOS, PUPIENO, BALBINO E O ANO DOS SEIS IMPERADORES

Em 22 de março de 238 D.C., na pequena, mas próspera, cidade de Thysdrus (atual El-Djem, na Tunísia), na província romana da África Proconsularis, uma multidão armada com machados e porretes invadiu a residência do Procônsul da África,  o velho senador Marcus Antonius Gordianus Sempronianus (Gordiano I).

 

El Jem, Voyage en Tunisie, amphitheatre d'El Djem

(Anfiteatro romano de El-Djem, na Tunísia, o maior depois do Coliseu, acomodava 35 mil espectadores)

A turba enfurecida tinha acabado de assassinar, poucas horas antes, um dos Procuradores do Imperador, exasperada contra injustos processos de cobrança de impostos e confiscos de propriedades, que tinham sido ordenadas para saciar a necessidade do imperador Maximino Trácio (foto de seu busto abaixo) em financiar a guerra contra as tribos germânicas no Danúbio (OBS: o reinado de Maximino Trácio será objeto de um artigo próprio).

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Se o velho Procônsul Gordiano, em seus avançados 79 anos de idade, certamente ficou perplexo com a súbita invasão de sua casa, provavelmente mais apavorado ainda ele ficou quando ouviu os chefes da multidão aclamarem-no imperador, dando-lhe, aos gritos, o título de “Africanus“.

Gordiano tentou desesperadamente recusar o título e até chegou a se prostrar no chão implorando que os revoltosos fossem embora, dizendo-lhes que ele era apenas um velho cansado, que nunca lhes fizera mal, mas os chefes, com armas em riste, disseram que seria melhor para ele arriscar uma futura e incerta punição de Maximino do que a certeza da morte que lhe esperava, caso ele não aceitasse a púrpura imperial naquele exato momento.

Sem alternivas, Gordiano I cedeu, e,  dias depois, acompanhou os revoltosos até Cartago. Não obstante, em algum momento entre a sua aclamação e a entrada em Cartago, Gordiano, lembrando que ele era um homem idoso, entendeu que era conveniente que o seu filho, que também se chamava Gordiano (Gordiano II), igualmente fosse aclamado Augusto e, portanto, co-imperador.

Ao chegar a Cartago, uma grande cidade que, naquela época,  que só perdia em tamanho para Roma, e disputava com Alexandria o título de cidade mais importante da África, os Gordianos foram entusiasticamente recebidos pela população local e pelos líderes da cidade.

Imediatamente, emissários levando cartas de Gordiano foram despachados para Roma, sendo bem recebidos pelo presidente do Senado (Princeps Senatus), o senador Públio Licínio Valeriano (que, anos mais tarde, tornaria-se também imperador). De fato,  um grande número de senadores e do contingente da Guarda Pretoriana, que nunca haviam se conformado com a ascensão de Maximino, cognominado, o Trácio, considerado nada mais do um bárbaro que assassinou o seu antecessor, Severo Alexandre,  apoiou a revolta e, por conseguinte, assim que a notícia da rebelião na África chegou em Roma, Vitalianus, o Prefeito Pretoriano nomeado por Maximino, foi assassinado.

Em seguida, o populacho de Roma, acreditando nos boatos de que Maximino teria sido assassinado, perseguiu pelas ruas a maior parte dos funcionários e magistrados que ele havia nomeado e destruiu as estátuas do odiado imperador.

Assim, em 2 de abril de 238 D.C., o Senado confirmou a aclamação de Gordiano I e de Gordiano II como imperadores romanos. Cartas foram enviadas aos governadores das demais províncias anunciando a coroação dos novos imperadores. E, de fato, muitos aderiram ao novo governo, porém, alguns governadores, com medo da conhecida ferocidade de Maximino, chegaram a executar os mensageiros.

Ao ser coroado, Gordiano I adotou o nome de Caesar Marcus Antonius Gordianus Sempronianus Romanus Africanus Augustus .

Nascido no ano de 159 D.C., com o nome de Marcus Antonius Gordianus Sempronianus, Gordiano I era supostamente filho de um senador romano, cujo nome, segundo a História Augusta, seria Maecius Marullus (um nome que os historiadores modernos acreditam ser fictício). e de Ulpia Gordiana.

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A família da mãe de Gordiano I provavelmente era radicada na Ásia Menor, o que explicaria a origem do nome “Gordianus“. Por sua vez, o prenome feminino “Ulpia” pode indicar algum parentesco com a família do imperador Trajano, ou, mais provavelmente, que a família recebeu a cidadania romana no reinado deste imperador.

Já o prenome “Marco Antônio”, que parece ter sido um nome de família, pode indicar que a família do pai de Gordiano recebeu a cidadania romana durante o triunvirato de Marco Antônio, que governou o Oriente na 2ª metade do século I A.C. Inscrições funerárias encontradas em Ancyra (atual Ancara, capital da Turquia) demonstram que uma certa  Sempronia Romana, filha de um certo Sempronius Aquila , Secretário da Correspondência Imperial em Grego do Imperador (Secretarius ab epistulis Graecis), que podem ter sido a avó e o bisavô maternas de Gordiano I, ergueu o monumento em honra de seu marido, um Pretor, cujo nome, contudo, não aparece.

Inicialmente, durante a sua juventude e idade adulta, os interesses e atividades de Gordiano parecem ter se limitado à  Literatura e Retórica. Ele, segundo a História Augusta, teria escrito poemas e até biografias dos imperadores Antonino Pio e Marco Aurélio, embora nenhuma obra dele tenha sido citada por algum historiador antigo.

As atividades literárias de Gordiano podem ser a explicação para a dedicatória feita a “Antonius Gordianus“, na obra “Vidas dos Sofistas”, escrita por Filóstrato, poucos anos antes de Gordiano ser nomeado imperador. Na dedicatória, Filóstrato menciona que esse Antonius Gordianus era descendente de Herodes Ático, uma aristocrata grego que também foi filósofo sofista e chegou a ser Cônsul Ordinário para o ano de 143 D.C., sendo o primeiro grego a atingir este importante posto. Herodes Ático ( foto do seu busto abaixo) era amigo do imperador Antonino Pio e foi professor do imperador Marco Aurélio.  A conexão é reforçada pelo fato da já mencionada Sempronia Romana ser filha de Titus Flavius Sempronius Aquila, que foi Secretarius ab epistulis Graecis do Imperador. Mas, como a idade de Gordiano II, que tinha o mesmo nome do pai, encaixa-se melhor nessa cronologia, é bem possível que a homenagem tenha sido feita a ele, e não a Gordiano I. De qualquer forma, a genealogia proposta por Cristian Settipani, com base na Prosopografia se mantém plausível.

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Quando resolveu entrar na carreira pública, Gordiano se destacou como Edil, Questor e Pretor pela magnificência dos espetáculos que financiou e apresentou ao Povo. Disto conclui-se que Gordiano deveria ser muito rico, o que é corroborado pelo fato de ele ser proprietário da “Casa dos Bicos”, uma mansão que pertenceu a Pompeu, o Grande. Seguindo o tradicional Cursus Honorum romano (carreira das magistraturas), o exercicio desses cargos teve como resultado a entrada de Gordiano no Senado Romano.

Inscrições sobreviventes indicam que Gordiano serviu como  Governador da Britânia Inferior em 216 D.C. e, posteriormente, como Governador da Síria Coele,  ou Comandante da Legião IV Scythica, estacionada nesta última Província. Ele ainda foi Governador da Província da Acaia. E em algum momento, durante o reinado do imperador Elagábalo, Gordiano foi nomeado Cônsul Suffectus.

Em 237 D.C., o cargo de governador da  importante província senatorial da África Proconsularis, uma das que cabia ao Senado Romano, coube a Gordiano mediante sorteio. E assim, voltamos para os dramáticos eventos que se seguiram após a aclamação dele como Imperador, em Cartago, que narramos na abertura deste artigo.

As notícias da revolta na África e da decisão do Senado chegaram aos ouvidos de Maximino, que se encontrava em Sirmium, na Ilíria. No início, o imperador até manifestou desprezo pelo fato,  considerando tratar-se de uma insignificante revolta de provinciais da África e cidadãos de Cartago, os quais não eram muito considerados, naqueles dias, pelo valor militar,  e que, além do mais, tinham aclamado um senador quase octogenário,  e o filho deste, cujo estilo de vida não era muito respeitável. Porém, quando soube de que houve a adesão do Senado à aclamação dos Gordianos, o imperador ficou realmente furioso e preparou-se para marchar contra Roma.

Enquanto isso, os Gordianos resolveram livrar-se de um velho desafeto, Capelianus, que era o governador da Província da Numídia, vizinha à África Proconsularis, e que tinha sido nomeado por Maximino, substituindo-o por um novo governador.

Porém Capelianus, quando soube do propósito dos Gordianos, reuniu uma tropa de auxiliares Mouros e  declarou fidelidade ao imperador Maximino, partindo em direção a Cartago, disposto a depor os usurpadores.

A população de Cartago, ao ver a chegada das forças de Capelianus, resolveu armar-se e resistir aos atacantes, comandada por Gordiano II. Porém, sem treinamento militar, eles foram facilmente derrotados, na chamada Batalha de Cartago. O massacre foi tão grande que o corpo de Gordiano II, soterrado por uma montanha de cadáveres, jamais foi encontrado.

Quando a notícia da derrota do filho chegou ao seu conhecimento, Gordiano I recolheu-se ao seu quarto e matou-se, enforcando=se com a faixa que lhe cingia a túnica, em 12 de abril de 238 D.C. O seu reinado durara apenas 21 dias.

Com a notícia da morte dos Gordianos, não restava nenhuma opção aos senadores romanos senão continuar a revolta contra Maximino Trácio, pois eles tinham certeza que assim que o implacável imperador chegasse a Roma mandaria executar a todos.

Assim, o Senado escolheu dois novos imperadores no lugar dos Gordianos, selecionando-os das suas próprias fileiras., aclamando,  em 22 de abril de 238 D.C, os senadores Marcus Clodius Pupienus (Pupieno) e Decimus Caelius Calvinus Balbinus Pius (Balbino). Ambos faziam parte de um comitê de 20 senadores criado pelo Senado para supervisionar os preparativos militares para a defesa contra Maximino ainda durante o reinado dos Gordianos.

O Senado também conferiu ao neto de Gordiano I, Marcus Antonius Gordianus Pius, um menino de 13 anos de idade, o título de “César”, tornando-o herdeiro do trono.

Pupieno, segundo a História Augusta, era um filho de um ferreiro, e ele ingressou na carreira militar, onde obteve sucesso, chegando a primeiro centurião (Primus Pilus) e, de modo incomum para a época,  e foi promovido depois a general e, depois, nomeado Pretor. Depois, Pupieno exerceu cargos de Procônsul em várias províncias, culminando com a sua nomeação para Cônsul Suffectus em 207 D.C. e  Cônsul Ordinário, em 234 D.C. O mais provável, contudo, para alguns historiadores, é que Pupieno fosse da pequena nobreza equestre e tenha escolhido a carreira militar. (muitos equestres serviam como centuriões no exército romano).

De qualquer modo, o fato de Pupieno (foto de seu busto abaixo) ter sido escolhido imperador por seus pares senadores, na iminência da chegada das tropas de Maximino, com certeza deve-se ao fato dele ter experiência militar, não obstante ele já ter entre 68 e 73 anos de idade, na data de sua elevação ao trono.

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Balbino (foto de seu busto abaixo)era de uma família da nobreza senatorial e ele ocupou vários postos de governador de província, culminando com dois consulados, um deles em companhia do imperador Caracala.

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Enquanto Pupieno se encarregou de partir para Ravena no norte da Itália para preparar a defesa e recrutar tropas contra Maximino, Balbino ficou em Roma para cuidar da administração civil e da ordem pública na Cidade.

As perspectivas para Pupieno eram as piores possíveis, pois ele teria que enfrentar o experimentado exército de Maximino, que estava em campanha contra os Sármatas, no Danúbio, após derrotar os Alamanos. mas ele fez o melhor que pode reunindo uma tropa de auxiliares germânicos  com os quais ele tinha servido quando fora legado imperial na Germânia.

Porém, quando Maximino chegou ao norte da Itália, necessitando de suprimentos em razão da rapidez com que saíra de Sirmium, a cidade de Aquiléia, na rota para Roma, fechou os portões das suas muralhas,  tomando o partido de Pupieno e Balbino.

As tropas já famintas de Maximino ficaram irritadas durante o inesperado cerco à Aquiléia. Em maio de 238 D.C., soldados da Legião II Parthica invadiram o acampamento de Maximino e o assassinaram,  juntamente com seu filho e seus auxiliares, decapitando-os e enviando as cabeças de todos para Roma.  O reinado de Maximino havia durado pouco mais de três anos.

Parecia que Pupieno tinha conseguido vencer o seu  maior desafio sem sequer precisar  ter lutado.

Entretanto, em Roma, as coisas degeneraram para Balbino. A plebe se enfureceu com a execução de dois soldados desarmados, e tumultos se espalharam pelas ruas. Parece que alguns senadores insuflaram os protestos, sustentando que o neto de Gordiano I, o César Marcus Antonius Gordianus Pius (Gordiano III) deveria ser o imperador. Para piorar o quadro, em junho de 238 D.C, um grande incêndio irrompeu em Roma.

Como se tudo isso não bastasse, quando Pupieno chegou a Roma, com uma guarda de soldados germânicos, Balbino ficou receoso e as relações entre os dois esfriaram.

Por outro lado, a Guarda Pretoriana, já acostumada em várias oportunidades a fazer e desafazer imperadores, não estava nada satisfeita com o incomum protagonismo do Senado na nomeação de Pupieno e Balbino.

Desse modo, quando os Pretorianos perceberam que Pupieno e Balbino não gozavam da aprovação geral, a sorte de ambos estava decidida.  Assim, no dia 29 de julho de 238 D.C., um grupo de Pretorianos invadiu o Palácio e capturou os dois imperadores. Pupieno e Balbino foram arrastados para o Quartel da Guarda Pretoriana, torturados e executados. Eles tinham reinado por apenas três meses.

Gordiano III, de apenas 13 anos de idade, foi  imediatamente aclamado imperador pelos Pretorianos. Ele nasceu em 20 de janeiro de 225 D.C e era filho de Antonia Gordiana, filha de Gordiano I e de um senador cujo nome é desconhecido, mas que para alguns estudiosos poderia se chamar Junius Balbus.

Entretanto, o controle do governo de fato de Roma, no início, ficou nas mãos do Senado Romano, tendo em vista a menoridade do imperador.

Em 241 D.C, com apenas 16 anos, Gordiano III casou-se com Furia Sabinia Tranquillina, filha de Gaius Furius Sabinius Aquila Timesitheus, um integrante da classe equestre que teve uma carreira de sucesso e exerceu vários cargos militares e civis importantes até ser nomeado Prefeito Pretoriano, tornando-se a eminência parda do Reinado de Gordiano III.

O reinado de Gordiano III também não seria tranquilo. Inicialmente, o governo teve que enfrentar a revolta do governador da África, Marcus Asinius Sabinianus (Sabiniano), que se declarou imperador mas logo foi derrotado pelo governador da província vizinha da Mauretania.

O próximo contratempo foi a invasão do renovado Império Persa Sassânida, sobre a liderança do belicoso Xá Ardashir e seu filho Sapor I, que invadiu o Império Romano e tomou as estratégicas cidades de Hatra, Carras, Singara e Nísibis.

Como muitas vezes se repetiu durante o século III e depois, quando os romanos deslocavam tropas para a fronteira oriental para combater os Partas ou Persas, os bárbaros germânicos aproveitavam para atacar a fronteira Reno-Danubio, e nesta ocasião, não foi diferente: a tribo dos Carpi aproveitou a oportunidade e fez uma incursão no Baixo Danúbio, mas eles foram derrotados na Trácia por tropas destacadas por Thimesiteus.

O contra-ataque romano aos Sassânidas foi liderado por Thimesiteus e Gordiano III em pessoa e foi bem-sucedido, com a vitória romana na Batalha de Reasena, em 243 D.C e a reconquista das cidades tomadas pelos Persas. Em comemoração, foi celebrado um Triunfo em Roma.

Porém, enquanto o imperador preparava a invasão do Império Persa, seu sogro Thimesiteus morreu em circunstâncias ignoradas. Mesmo privado do auxílio do sogro, um militar experiente e que era o homem-forte do seu governo, Gordiano III foi obrigado a prosseguir na campanha.

Thimesiteus foi substituído pelo irmão de Gaius Julius Priscus, o outro Prefeito Pretoriano, de nome Marcus Julius Philipus, mais conhecido como Filipe, o Árabe, devido à sua origem.

O exército romano invadiu a Pérsia, e, repetindo campanhas anteriores e futuras, rumou em direção à capital Ctesifonte,

Porém, os romanos foram derrotados na Batalha de Misiche, próximo à Fallujah, no atual Iraque, conforme mencionado nas inscrições persas existentes nos monumentos persas em Naqsh-e Rustam.

Gordiano III morreu em 11 de fevereiro de 244 D.C, por volta do do em que ocorreu a Batalha de Misiche, sem que exista, contudo, uma fonte confiável que possa dizer que se o imperador perece em combate ou foi assasinado por seus oficiais, antes, durante ou logo após a referida Batalha.

O imperador Gordiano III (foro de seu busto abaixo) foi sucedido por Filipe, o Árabe, que enterrou o corpo do antecessor na cidade de Zaitha e providenciou a sua deificação.

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Conclusão

Por tudo isso, o ano de 238 D.C. ficaria conhecido como “O Ano dos Seis Imperadores” e trata-se um grande retrato dos problemas que o  Império Romano estava começando a enfrenta, durante a chamada “Crise do Século III“, marcada pela instabilidade interna e a crescente pressão externa nas fronteiras.

O período dos reinados dos Gordianos e de Pupieno e Balbino marca o início da transição do período do Principado inaugurado por Augusto, caracterizado ainda por uma predominância da elite senatorial tradicional romana entre os aspirantes ao trono, bem como no exercício dos principais comandos militares e governos de províncias (elite esta que, após a Crise do Século III teria suas fileiras muito diminuídas e seria praticamente afastada do Exército, o qual passaria a ser também o principal ator político e praticamente o único caminho de acesso para os cargos públicos mais importantes) para o Dominado, com as reformas introduzidas por Diocleciano nas últimas décadas do século III.

TEODÓSIO – A IGREJA NO PODER

Em 17 de janeiro de 395 D.C, apenas 4 meses após se tornar o último Imperador a reinar sobre as duas metades, Ocidental e Oriental, do Romano, faleceu, em Milão,, Teodósio, cognominado “o Grande”.

Solidus de Teodósio, foto Classical Numismatic Group, Inc. http://www.cngcoins.com, CC BY-SA 2.5 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.5, via Wikimedia Commons

Antes de morrer, Teodósio tomara as medidas necessárias para que seus filhos Honório e Arcádio se tornassem, respectivamente, após a sua morte, os Imperadores Romanos do Ocidente e do Oriente.

Nascido em 11 de janeiro de 346 D.C, em Cauca (Coca), a 50 km da atual cidade de Segóvia, na província romana da Hispania Gallaecia, Flavius Theodosius (Teodósio), era o filho de seu pai homônimo, Flavius Theodosius (Conde Teodósio”, e de Flavia Thermantia (Termântia).

O pai de Teodósio, chamado de “Teodósio, o Velho“, pelos historiadores, para distingui-lo do filho que viria a se tornar imperador, foi um renomado general, também nascido na Hispânia, que teve uma brilhante carreira durante o reinado do imperador Valentiniano I, sendo, em 368 D.C , designado para ocupar o cargo de Conde (Comes) da Britânia, onde, acompanhado do filho, derrotou uma insurreição promovida por tropas romanas amotinadas aliadas a tribos bárbaras.

Posteriormente, Teodósio, “o Velho” foi promovido ao importantíssimo posto de Comandante-em-chefe de Cavalaria do Exército Romano (Magister Equitum) e, novamente acompanhado do filho Teodósio, teve decisiva atuação na campanha contra os bárbaros Alamanos.

Em 373 D.C, o jovem Teodósio já tinha prestígio próprio bastante para ser apontado por Valentiniano I como governador da Moésia superior e Duque (Dux, ou seja, comandante militar daquela província), onde combateu com sucesso os Sármatas.

Enquanto isso, Teodósio, “o Velho” foi enviado à província da Mauritânia, na África, para combater a rebelião de Firmus Mouro, um nobre berbere que ocupava um comando militar no exército romano naquela província. Após uma duríssima campanha, o pai de Teodósio conseguiu derrotar a insurreição e Firmus cometeu suicídio.

Em 375 D.C, Valentiniano I, o último imperador romano que efetivamente comandou um exército poderoso, faleceu após mais um dos seus temidos ataques de fúria, que desta última vez foi causada pelo comportamento insolente de embaixadores da tribo dos Quados, explosão que lhe causou um derrame em plena audiência.

Não se sabe exatamente o motivo, mas, logo após a morte de Valentiniano I, o pai de Teodósio foi preso, quando ainda estava em Cartago, e ali mesmo executado. Muito provavelmente essa execução estava ligada à crise causada pela inesperada sucessão do imperador falecido, quando alguns generais do exército romano, notadamente o general de origem franca Merobaudes aclamaram como imperador Valentiniano II, com apenas 4 anos de idade, forçando Graciano, o filho mais velho de Valentiniano I, então com 16 anos de idade, a aceitar o irmão como co-imperador do Ocidente (Assim, inaugurando a tendência que dominaria as últimas décadas do império romano, a escolha de imperadores fantoches por comandantes militares de origem bárbara).

Essa solução acabou sendo aceita também por Valente, irmão de Valentiniano I, que, desde 364 D.C., reinava sobre a metade oriental do Império, em Constantinopla. Desse modo, é bem possível que o Conde Teodósio tenha sido executado por ter sido contra aquela manobra, ou, ainda, por ser percebido como um obstáculo ao projeto de poder de Merobaudes.

Teodósio, por sua vez, no mesmo ano em que ocorreu a morte do pai, foi destituído de seu comando e voltou para as terras de sua família, na atual Galícia, dedicando-se aos seus assuntos privados. Discute-se se esse “exílio” de Teodósio foi devido à desgraça do pai ou se foi por causa da derrota de duas legiões que ele comandava para os Sármatas, em 374 D.C. Nesse caso, isso teria sido uma punição infligida ainda em vida por Valentiniano I, que, notoriamente, não tolerava as derrotas de seus generais,  a quem ele frequentemente responsabilizava pelos erros de seus subordinados.

Todavia, em 378 D.C, uma das maiores catástrofes militares sofridas pelos romanos, e talvez a que tenha acarretado as piores consequências, mudaria para sempre a sorte de Teodósio.

Cerca de 200 mil Godos, após cruzarem a fronteira romana do rio Danúbio, procurando asilo motivado pela sucessão de migrações causadas pelo avanço das tribos hunas em direção ao Ocidente, acabaram se revoltando, invadindo a província romana da Trácia.. O efetivo militar dos Godos é calculado entre 20 e 30 mil homens.

Ao saber da invasão, Valente, o Imperador Romano do Oriente, comandando todo o seu exército e sem esperar pelo auxílio das tropas de seu sobrinho Graciano, Império Romano do Ocidente, resolve atacar sozinho os bárbaros, que, liderados pelo Chefe Fritigern, se encontravam entrincheirados próximos à cidade de Adrianópolis, em uma boa posição defensiva, protegidos por um círculo de carroções parecidos com os dos pioneiros do Velho Oeste americano (formação conhecida como “laager“), sem se dar conta de que a cavalaria Goda estava ao largo. Antes que a noite do dia 09 de agosto de 378 D.C. terminasse, dois terços do exército romano, cerca de 40 mil soldados, morreram na chamada Batalha de Adrianópolis, incluindo o imperador Valente, cujo corpo jamais foi encontrado em meio à montanha de cadáveres, vários generais e centenas de oficiais.

A morte de Valente automaticamente tornaria seu sobrinho Graciano, o Imperador Romano do Ocidente (lembrando que a Itália, da África e de parte da Ilíria, eram formalmente governadas pelo seu irmão Valentiniano II, de apenas 7 anos de idade) o governante também do Oriente.

Com os Godos à vontade para se locomoverem nos Bálcãs ( o que ameaçava a própria Itália), sem opções militares, tendo em vista que mal acabara de concluir uma campanha contra os Alamanos, poucos meses antes do desastre de Adrianópolis, e não havendo mais generais experientes no Oriente, Graciano resolve chamar Teodósio de seu retiro na Espanha e, em raro gesto de desprendimento somado à necessidade, o nomeia Augusto, em 19 de janeiro de 379 D.C, entregando-lhe o trono da metade oriental do Império Romano.

Obviamente que o primeiro problema que o novo Imperador Romano do Oriente teve que enfrentar foi a ameça dos Godos, que pilhavam à vontade a Trácia e a Ilíria, somente sendo incapazes de sitiar com sucesso cidades protegidas por boas muralhas, por falta do “hardware” e do “know-how” necessários para esta difícil tarefa.

Para isso, ele precisava de tropas e ele tentou formar um exército, convocando veteranos e até trazendo unidades do Egito. Segundo o historiador pagão Zózimo, Teodósio também recrutou amplamente guerreiros bárbaros, observando que as tropas do Egito acabaram tendo a disciplna severamente enfraquecida pelo convívio com os indisciplinados germanos.

Neste ponto, deve ser observado que o Exército Romano do Oriente sofrera duas grandes derrotas no espaço de quinze anos. Em 363 D.C, a invasão da Pérsia pelo Imperador Juliano resultara em uma grave derrota, com o imperador sendo ferido no campo de batalha e morrendo em sua tenda. E agora, pouco antes da ascensão de Teodósio, dois terços do exécito tinham sido aniquilados em Adrianopla.

O problema do recrutamento sempre foi recorrente durante o Império Romano. A Itália, esteio principal do Exército durante a República, ao longo do Império cessou de contar como fornecedora de tropas. Seus cidadãos tinham ficado durante muito tempo praticamente isentos do serviço militar. De fato, depois que O primeiro imperador Augusto estabelecera as 28 legiões em quartéis na fronteira, os legionários passaram a ser recrutados entre colonos de cidadania romana estabelecidos nos locais onde as legiões estavam baseadas. Já os auxiliares eram recrutados entre os povos vizinhos que tinham vocação guerreira e adquiriam a cidadania romana após 20 anos de serviço. A vida de soldado era dura e não era para qualquer um. Os citadinos amolecidos pelos confortos da vida urbana dificilmente seriam aptos para uma vida de longas marchas em terreno difícil, dormir em barracas precárias em lugares inóspitos e combates cada vez mais sangrentos.

O fato é que os romanos, ainda durante a República, recrutaram contingentes de origem estrangeira para o seu exército. Unidades de cavalaria germânica, por exemplo, foram empregadas por César e Augusto. Porém, o normal era empregar as unidades estrangeiras subordinadas a uma legião, sob o comando de um general romano e submetidas à disciplina militar romana.

As evidências apontam que, a partir do imperador Constantino, uma boa parte dos soldados do Exército Romano era de origem germânica, sobretudo no Ocidente. A “germanização” do Exército é um fato atestado. O próprio Constantino foi aclamado imperador pelas suas tropas e erguido em cima de um escudo, um tradicional costume germânico de saudar um novo chefe. No século IV D.C, registrou-se que os soldados romanos utilizavam o tradicional grito de batalha dos bárbaros, o “baritus”. E o nome de vários generais e soldados mencionados nos textos denota clara origem germânica.

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(soldados romanos do início do século IV D.C)

A partir da metade do século III, Roma passou a enfrentar o desafio estratégico de lutar em dois fronts: 1) A constante investida dos povos germânicos situados na fronteira do Reno e Danúbio começou a aumentar devido a pressão gerada pelas migrações de povos vindos da Escandinávia e do Leste Europeu, deslocadas pelo avanço dos Hunos para o Ocidente a partir da fronteira com a China; 2) A subida ao poder dos nacionalistas Sassânidas na Pérsia que adotaram uma política de confronto militar para conter a influência romana na Armênia e no Oriente Médio, resultando em um estado de guerra constante do século III ao século VII.

Feita essa explanação da situação estratégica de Roma e da situação do Exército Romano antes da derrota de Adrianópolis, é sintomático que uma das medidas tomadas por Teodósio, a qual demonstra a magnitude que o problema do recrutamento de tropas representava para o Império Romano naqueles tempos e o estado desesperador do setor militar romano, tenha sido reformar um Decreto de Valentiniano I determinando que aqueles que tentassem fugir do recrutamento cortando os próprios polegares seriam queimados vivos – Teodósio mudou o Decreto para prever que para cada recruta que se apresentasse sem um dos polegares, outro recruta, da mesma circunscrição, deveria ser apresentado, ou seja, o recruta amputado teria que servir e o seu vilarejo ainda teria que mandar outro!

Não obstante esse quadro, o historiador Zózimo narra que Teodósio começou o seu reino demonstrando indolência e luxo, aumentando o número de funcionários-eunucos e aumentando os gastos com a manutenção da corte. Parece que o julgamento do cristão devoto Teodósio pelo pagão Zózimo seria de uma suspeita severidade, mas certamente a gravidade dos tempos pedia um líder da estatura de um Cipiáo , de um César ou Diocleciano, este último um reformador implacável que enfrentou uma situação parecida com a de Teodósio.

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(Prato de prata, dito Missorium de Teodósio, que está representado no centro.)

De qualquer forma, parece que a tentativa de Teodósio de reforçar o exército romano oriental não teve sucesso. As fontes não são claras, mas tudo indica que, no verão de 380 D.C, o novo exército de Teodósio foi, mais uma vez, derrotado pelos Godos, na Macedônia e na Tessália, ainda que não de forma catastrófica. Teodósio, então, teve que deixar a cidade de Tessalônica, que havia sido o seu quartel-general durante os dois primeiros anos à testa do governo do Oriente e se refugiar na inexpugnável Constantinopla.

A tarefa de conter os Godos nos Bálcãs ficou a cargo do Imperador do Ocidente, Graciano, qua mandou um exército comandado pelos generais Bauto e Arbogaste,ambos francos que serviam o Império.

Os Godos se dividiram em vários bandos. Um dos principais grupos, chamado de Ostrogodos, rumou para o oeste e invadiu a Panônia, No outro grupo importante, conhecido como Visigodos, estourou uma guerra entre o chefe Fritigern e o antigo rei, Atanarico, que foi se abrigar em Constantinopla, lugar onde, em 381 D.C., ele foi recebido com surpreendentes honras por Teodósio.

Em 3 de outubro de 382 D.C, Teodósio firmaria um polêmico Tratado de Paz com os Godos, um inédito acordo que teria consequências duradouras: os Visigodos seriam recebidos dentro do Império Romano como aliados (foederati), recebendo a autorização para se instalarem na Moésia, diocese setentrional da Trácia, continuando a serem governados pelos seus chefes e somente com a obrigação de lutarem quando convocados pelo Imperador, porém como um exército independente. Os visigodos também receberiam tributos em forma de provisões a serem pagas pelos súditos romanos da Mésia e seus chefes um pagamento anual em ouro.

Talvez tenha parecido, a muitos contemporâneos, que uma composição com os Godos era uma medida razoável. Um orador do período, Themistius, louvando Teodósio, até escreveu, esperançosa ou aduladoramente, que os Godos trocariam a espada pelo arado e, romanizados, revitalizariam aquela província. A posteridade, porém, reconheceria que aquele ato de Teodósio foi desastroso: O assentamento permanente dos visigodos dentro do Império seria um fator decisivo de enfraquecimento romano. Com efeito, em 410 D.C, o Império seria abalado pelo saque de Roma pelos visigodos, e eles ainda pilhariam a Gália, até se instalarem na Hispânia, onde criariam um reino independente que duraria até a invasão árabe no início do século VIII D.C.

Enquanto isso, em 25 de agosto de 383 D.C, morreu Graciano, o colega de Teodósio no Ocidente, assassinado em Lyon, para onde teve que fugir após não conseguir debelar a revolta do general da Britânia, Magnus Maximus, um militar também de origem espanhola que havia servido como subordinado do Conde Teodósio, e invadira a Gália para depor o imperador, filho do primeiro, supostamente pelo fato das tropas estarem insatisfeitas com a preferência que Graciano dava às tropas compostas por bárbaros alanos.

Valentiniano II, o jovem irmão de Graciano, que, por influência dos generais francos havia sido reconhecido por ele como co-imperador seria o próximo alvo de Maximus. Teodósio então, pressionado pelas circunstâncias, acabou concordando em reconhecer Maximus como novo imperador das províncias governadas por Graciano, sob o compromisso de que Maximus reconheceria Valentiniano II como co-imperador no Ocidente.

Esse arranjo durou até 387 D.C, quando Maximus resolveu invadir a Itália para derrubar Valentiniano II e assumir o controle total do Ocidente. Um dos motivos principais era a crescente influência de Teodósio nos assuntos da corte de Valentiniano II. Assim, em um momento em que a ameaça externa era enorme, mais uma vez os maltratados exércitos romanos envolveriam-se em uma nova guerra civil, pois Teodósio resolveu intervir e, após juntar suas forças com as de Valentiniano II, que recuara para Tessalônica, valendo-se de seus aliados visigodos e de mercenários hunos, conseguiu derrotar Maximus na Batalha de Siscia, no rio Sava, na atual Croácia, em 388. Maximus conseguiu fugir, mas foi capturado e executado próximo a Aquiléia, em 28 de agosto de 388 D.C.

Na prática, mas ainda não de direito, Teodósio tornou-se o virtual imperador de todo o Império Romano. Ele ficaria ainda três anos na Itália, voltando para Constantinopla em 391 D.C. Oficialmente, porém, o novo imperador único do Ocidente passara a ser Valentiniano II. Contudo, o real poder militar estava nas mãos do general de origem franca Arbogaste, na qualidade de Comandante-em-chefe da Infantaria (Magister Peditum Praesentalis).

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(base do obelisco de Teodósio, no Hipódromo de Constantinopla, mostrando o Imperador presidindo uma corrida)

Em 392 D.C, após um desentendimento público com Arbogaste, Valentiniano II foi encontrado enforcado em seus aposentos. As suspeitas, obviamente, recaem sobre o general franco. A esposa de Teodósio, a imperatriz Gala, irmã do falecido, não engoliu a tese de suicídio e insta que o marido investigue a morte do irmão. Porém, Arbogaste não perdeu tempo e, incapaz de assumir ele mesmo o trono, devido a sua origem bárbara, proclamou, em 22 de agosto de 392 D.C, o inesperado Eugênio, um professor de retórica e ministro de Valentiniano II, como novo Imperador Romano do Ocidente.

Teodósio recusa-se a reconhecer Eugênio e prepara-se para invadir a Itália. Durante os preparativos, Teodósio nomeia, em janeiro de 393 D.C, o seu filho de 4 anos, Honório, como Augusto do Ocidente, o que inviabiliza qualquer tentativa de composição com Eugênio. Além disso, Eugênio, embora aparentemente fosse cristão, tomou medidas simpáticas aos pagãos, especialmente para o ainda muito influente grupo de senadores pagãos de Roma, inclusive financiando a restauração de templos pagãos na Cidade. Ele provavelmente tinha, portanto, o suporte de uma boa parte da aristocracia romana tradicional e, indiretamente, de todos os pagãos ainda influentes…

Em 394 D.C, Teodósio estava pronto e marchou em direção a Itália, com seu exército. A longa preparação era necessária pois, nominalmente, o exército do Ocidente era considerado maior e melhor. Ele ainda mantinha um núcleo de tropas tradicionalmente romanas, no que se refere à disciplina e táticas e não havia sofrido tantas baixas como o exército oriental, derrotado fragorosamente em 363 e 378 D.C .

Os oponentes se encontraram no rio Frigidus, no território da atual Eslovênia, em 5 de setembro de 394 D.C. Consta que imediatamente, dispensando qualquer reconhecimento ou preparação, Teodósio mandou os seus 20 mil Visigodos comandados pelo rei Alarico (que mais tarde saquearia Roma) atacarem uma posição bem defendida pelas tropas de Eugênio. Após duríssimos combates, os Visigodos foram repelidos, perdendo 10 mil homens. Muitos estudiosos acreditaram que com esse ataque, Teodósio deliberadamente visou enfraquecer os seus aliados Godos, que eram reconhecidamente a principal ameaça militar ao Império Romano.

As fontes também relatam que, antes do início da batalha, Eugênio e Arbogaste ordenaram que duas estátuas de Júpiter fossem colocadas nos flancos do seu Exército e que estandartes fossem pintados com a imagem de Hércules, dando,assim, um nítido caráter de guerra religiosa ao confronto, já que as tropas de Teodósio, incluindo os Visigodos que professavam a heresia Ariana, eram cristãs.

Assim, no primeiro dia da batalha, o exército de Eugênio e Arbogaste levou a melhor, sendo relatado que houve comemorações no respectivo acampamento.

No dia seguinte, Teodósio, que passara a noite em claro, foi estimulado pela notícia de que um contingente que Arbogaste enviara para guardar umas passagens entre as montanhas desertara para o seu lado. Reanimado, ele decidiu, assim, renovar o ataque. Então, segundo o relato das fontes, no exato momento em que suas tropas atacavam, começou a soprar o fortíssimo vento conhecido como “Bora“, um fenômeno natural que ocorre ainda hoje na região. jogando nuvens de poeira nos olhos das tropas de Eugênio, que, impedidas de combater com eficiência, foram derrotadas. Posteriormente, o influente Ambrósio, Bispo de Milão, mencionaria que o vento decorreu da intervenção divina em favor da Cristandade.

Eugênio, capturado, é decapitado. Arbogaste consegue fugir, mas, após vagar durante dias, resolve cometer suicídio.

Teodósio tornava-se, assim, o único Augusto reinante, o último Imperador a reinar oficialmente sobre as duas metades do Império Romano. Todavia, quatro meses após, em 17 de janeiro de 395 D.C., ele morreria em Milão, de causas naturais.

Para quem olhasse de fora, apenas contemplando o mapa, era um Império Romano cuja área era maior do que aquela sobre a qual Augusto reinara, 400 anos antes, e somente um pouco menor do que o de Trajano. Contudo, era um Império que tinha dentro de si um  povo inimigo inteiro, e que dependia dessas mesmas tropas inimigas para se defender de outros inimigos que rodeavam suas fronteiras; e, tão grave quanto isso, cuja economia suportava um esforço enorme para pagar essa defesa e, não menos importante, que ainda era corroído por sangrentas disputas religiosas.

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Com efeito, em 27 de fevereiro de 380 D.C, Teodósio promulgou, em conjunto com Graciano e Valentiniano II, o Édito de Tessalônica, declarando o Credo Niceno-Trinitário como a única religião legítima do Império e a única passível de ser considerada “católica” (universal), e determinando que todo apoio oficial às demais religiões politeístas fosse encerrado.

Cristão devoto,