TITO, O IMPERADOR QUE SÓ TEVE TEMPO PARA SER AMADO

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Em 30 de dezembro de 39 D.C., nascia, em Roma, Titus Flavius Sabinus Vespasianus (Tito), filho mais velho de Tito Flávio Vespasiano (que trinta anos mais tarde se tornaria o imperador Vespasiano) e de Domitila, a Velha.

Os Flávios eram uma família de origem sabina (povo itálico vizinho dos romanos), proveniente da cidade de Reate, que, no final da República, ingressaram na classe dos Equestres (ou Cavaleiros), que era o segundo nível hierárquico da nobreza romana.

Com efeito, o bisavô paterno de Tito havia sido um mero centurião das tropas de Pompeu, que lutou na Batalha de Farsália, durante a guerra civil entre este e Júlio César, e, depois, coletor de impostos. Já o seu avô paterno, Titus Flavius Sabinus, também foi coletor de impostos na Província romana da Ásia e, depois, banqueiro.

Por sua vez,  família de Domitila, a Velha, mãe de Tito, havia se estabelecido na cidade de Sabratha, na colônia romana da África. durante o reinado de Augusto, sendo o avô materno de Tito um simples secretário de um questor daquela província (Nota: Domitila, a Velha é avó de Flávia Domitila, que foi canonizada pela Igreja Católica como Santa Flávia Domitila e era sobrinha de Tito. As chamadas Catacumbas de Domitila, em Roma, têm esse nome porque as terras pertenciam a ela, que as legou para a nascente comunidade cristã da Cidade, ainda no século I D.C).

Porém o pai de Tito, Vespasiano, e o irmão mais velho deste, Sabino, tiveram sucesso no serviço público e no Exército, durante os reinados de Calígula e Cláudio. Vespasiano, inclusive, conseguiu ingressar no círculo mais íntimo do imperador Cláudio, em função da sua relação amorosa com a influente liberta Antônia Caenis, que era secretária pessoal da mãe de Cláudio, Antônia, a Jovem, e da amizade com o liberto Narcissus, que era um dos principais ministros deste imperador.

Assim, durante o reinado de Cláudio, Vespasiano conseguiu atingir o cume da carreira pública das magistraturas romanas, ao ser nomeado Cônsul, em 51 D.C., também obtendo um importante comando militar na conquista da Britânia.

Por isso,  Tito teve o raro privilégio de ser educado junto com Britânico, o filho natural de Cláudio, e, obviamente, um natural pretendente ao trono, muito embora as maquinações da imperatriz Agripina, a Jovem persuadissem Cláudio a privilegiar o filho desta, Nero, que foi adotado como herdeiro pelo imperador.

Não obstante, vale observar que, anos mais tarde, quando ficou claro que ele seria o herdeiro de Vespasiano, o comportamento de Tito, durante a sua mocidade suscitaria alguns temores naqueles que chegaram a perceber muita semelhança entre ele e Nero, sobretudo no que tange aos prazeres mundanos…

Segundo o historiador Suetônio, o jovem Tito era bonito e forte, apesar dele ser baixo e barrigudo. Ele montava bem à cavalo e era bom no manejo das armas, notadamente o arco e a flecha (inclusive, durante o Cerco a Jerusalém, Tito teria oportunidade de demonstrar esta habilidade). Outro talento que chamou a atenção, embora fosse um tanto mais preocupante, era a sua extraordinária capacidade de imitar perfeitamente a caligrafia dos outros.

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Iniciando a sua carreira militar, entre os anos 57 e 63 D.C, Tito destacou-se como tribuno militar na Britânia e na Germânia.

De volta à Roma, em 63 D.C., Tito casou-se com Arrecina Tertulla, que era filha de um ex-Prefeito da Guarda Pretoriana. Porém, Arrecina  faleceria cedo, em 65 D.C., assim, o viúvo Tito em seguida desposou a nobre Marcia Furnilla, que pertencia a uma distinta família da classe senatorial romana (apesar de, originalmente, no início da República, os Márcios serem uma gens plebeia, eles reivindicavam descender do lendário Rei de Roma Ancus Marcius).

Ocorre que o novo casamento de Tito também teria vida curta, pois ele achou por bem divorciar-se da segunda esposa quando membros da família dela foram acusados de participar da Conspiração Pisoniana, liderada por Caio Calpúrnio Pisão contra o imperador Nero, que ocorreu naquele mesmo ano de 65 D.C.

Tito jamais se casaria de novo.

Pouco depois, Vespasiano, que era um general respeitado, no final do reinado de Nero foi nomeado para comandar as legiões que iriam combater a Grande Revolta Judaica, que estourara em 66 D.C.

Na Guerra contra os Judeus, Tito acompanhou Vespasiano até a Judéia, em 67 D.C., comandando a XV Legião.

Quando estourou a rebelião de Gaius Julius Vindex, na Gália, em 68 D.C., que iniciou a cadeia de eventos que resultaria na deposição e suicídio de Nero, Tito foi enviado à capital por Vespasiano para transmitir o reconhecimento das legiões na Judéia ao novo imperador, Galba. Porém, antes de chegar à Roma, Tito recebeu a notícia de que Galba havia sido assassinado e de que agora Otão era o novo imperador. Ele decidiu, então, retornar para a Judéia para ver o que o pai decidiria diante do novo quadro.

Entretanto, já em 69 D.C., Otão foi derrotado por Vitélio, que, pouco antes,  havia sido aclamado pelas legiões da Germânia, e, com a vitória, foi aclamado como o novo Imperador.

Enquanto isso, Tito teve vital importância e participou diretamente das negociações que levaram Muciano, o Governador da Síria, a jogar a cartada de reconhecer Vespasiano como imperador, desprezando o reconhecimento de Vitélio, que, afinal, tinha menos prestígio que o primeiro.

Vespasiano, assim, partiu para Roma para reclamar o trono e deixou sob o comando de Tito a campanha contra a Grande Revolta Judaica. Consequentemente, ficou sob a responsabilidade de Tito a fase mais difícil da guerra: o cerco e captura de Jerusalém. Em 70 D.C., Jerusalém, após um duro sítio, foi finalmente tomada e saqueada pelos romanos.

Segundo o abrangente relato do historiador Flávio Josefo, que era um líder rebelde judeu que foi capturado e aderiu aos romanos, Tito tinha a intenção de poupar da destruição o Grande Templo de Jerusalém, que teria sido acidentalmente incendiado durante o cerco. Porém, para muitos, essa parte do relato de Josefo não teria muita credibilidade, já o que houve de fato foi uma destruição sistemática do templo, sendo que o referido historiador seria muito propenso a incensar os Flávios, os seus captores e patronos.

O Arco de Tito, em Roma, que foi erguido por seu irmão, Domiciano, após a morte de Tito, comemora a vitória obtida por ele contra a revolta judaica e ilustra em relevos o célebre candelabro de 7 braços (Menorah) sendo transportado na procissão triunfal de Tito em Roma.

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Foi durante a Guerra contra os Judeus que Tito envolveu-se com Berenice, uma bela princesa judia, dez anos mais velha do que ele,  e que era bisneta de Herodes, o Grande, e irmã de Herodes Agripa II, o rei-cliente de Roma que, entre outros territórios, governava a Galileia, situando-se entre seus domínios, a cidade de Cesareia (Nota: Foi em Cesareia, na presença de Berenice, de Herodes Agripa, e do procurador romano Festus, por volta de 59 D.C., que o apóstolo Saulo de Tarso (São Paulo), preso, defendeu sua causa e apelou para ser julgado em Roma (Atos, 26).

O Senado Romano reconheceu Vespasiano como novo Imperador, em 21 de dezembro de 69 D.C.  Em 70 D.C,, enquanto ainda estava no Oriente, Tito foi nomeado Consul junto com seu pai.

Em 71 D.C.Tito recebeu do pai o “Poder Tribunício”, que constituía uma declaração informal de que ele seria o herdeiro e sucessor de Vespasiano (afastando, assim, qualquer pretensão de que seu ambicioso irmão mais novo, Domiciano, pudesse ter de herdar o trono antes dele). Certamente, o sábio Vespasiano quis evitar um dos principais fatores de instabilidade nos reinados dos seus antecessores da dinastia dos Júlios-Cláudios: a pouca clareza quanto à sucessão, pela existência de vários pretendentes dinásticos).

Tito também foi nomeado Prefeito da Guarda Pretoriana, um cargo de grande poder e que demonstrava a confiança que Vespasiano tinha no filho. E, de fato, agindo como comandante da guarnição militar da Capital e Guarda de Honra do Imperador, Tito foi implacável na vigilância e repressão a potenciais ameaças ao reinado do pai, tendo executado sumariamente vários supostos conspiradores.

Em 75 D.C., Tito trouxe sua amante Berenice para viver com ele no Palácio. Porém, a opinião pública romana, sempre suspeitosa contra princesas estrangeiras e não muita afeta à fé judaica, não recebeu bem esta união, talvez amedrontada com um possível paralelo com a união entre Cleópatra e Marco Antônio, que foi considerada prejudicial aos interesses do Estado. Tito, então, teve que se curvar à vontade popular e mandou a princesa judia de volta para o Oriente.

Porém, em 23 de junho de 79 D.C., aos 69 anos de idade, Vespasiano morreu de causas naturais e Tito foi imediatamente aclamado como novo Imperador Romano, aos 38 anos.

Uma das primeiras medidas de Tito foi decretar o fim dos julgamentos por crimes de lesa-majestade (maiestas). Essa antiga lei romana, que originalmente visava processar os responsáveis por conspirações contra a segurança nacional, tinha se tornado, durante o principado, um pretexto para executar qualquer pessoa que desagradasse o trono, até mesmo por uma simples manifestação de desagrado contra os imperadores, inclusive os já falecidos.

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(Estátua de Tito, foto de Sailko)

As palavras de Tito, ao acabar com os processos por maiestas, foram preservadas, e valem ser transcritas:

“É impossível que eu seja insultado ou sofra qualquer tipo de abuso, pois eu nada fiz que mereça censura, e eu não me importo com relatos falsos. No que se refere aos imperadores que já morreram, eles podem se vingar sozinhos se alguém lhes fizer algum malefício, caso sejam eles mesmo semideuses e possuam algum poder…”

A declaração supracitada demonstra que Tito herdou muito da personalidade e das maneiras do pai, Vespasiano, que prezava pela simplicidade, afabilidade e senso de humor. Suetônio assim descreve o comportamento de Tito:

“Ele era muito gentil por natureza, e, considerando que, de acordo com um costume estabelecido por Tibério, todos os Césares que o seguiram recusavam-se a reconhecer favores concedidos pelos imperadores precedentes, a menos que eles próprios os concedessem novamente aos mesmos indivíduos, Tito foi o primeiro a ratifica-los conjuntamente em um simples decreto, não admitindo que fossem requeridos pessoalmente a ele. Ademais, no caso de outros pedidos feitos a ele, a norma que ele adotou foi não deixar ninguém sair sem esperanças. Mesmo quando os seus secretários domésticos advertiam-no que ele estava prometendo mais do que podia cumprir, ele dizia que não estava certo que alguém fosse embora triste de uma audiência com o seu imperador. Em outra ocasião, lembrando-se, enquanto jantava, de que durante aquele dia ele não tinha atendido aos pedidos de ninguém, ele proferiu aquele memorável e louvável comentário: “Amigos, hoje foi um dia perdido

Decorridos cerca de dois meses do reinado de Tito, aconteceu uma das maiores tragédias que já se abateram sobre o Império Romano: a grande erupção do Vesúvio que soterrou Pompéia e Herculano, entre outras cidades.

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Nota: a data da erupção, tradicionalmente considerada como sendo 24 de agosto de 79 D.C., com base em cópias medievais da carta de Plínio, o Jovem, testemunha ocular do fato, descrevendo a erupção, tem sido reconsiderada em função dos achados arqueológicos. Além do estado dos restos de plantas e sementes  encontrados não corresponder a essa estação do ano (verão europeu), indicando mais o outono, recentemente, no final de 2018, nas escavações na chamada Região V da cidade de Pompéia, foi encontrado um grafite feito em carvão em uma parede, contendo a data “17 de outubro” (por ser em carvão, material que se apagaria em pouco tempo ao ar livre, acredita-se que essa inscrição foi feita poucos dias antes da erupção ).

A conduta de Tito após a catástrofe do Vesúvio foi digna de um grande estadista. Ele visitou pessoalmente a região afetada, criou um fundo para assistência às vítimas, tomou medidas para o reassentamento dos sobreviventes e organizou uma comissão do Senado para deliberar sobre medidas adicionais de auxílio.

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(Cabeça de Tito, proveniente de Utica, Museu Britânico, foto de Carole Raddato)

Entretanto, pouco tempo depois, na primavera de 80 D.C., estando o Império ainda traumatizado pela destruição na Itália, uma nova tragédia aconteceria: um novo incêndio de Roma. Novamente, Tito, que ainda estava na Campânia supervisionando as medidas de apoio à população afetada pela erupção do Vesúvio, foi incansável nas ações de assistência aos desabrigados.

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Para alguns dos supersticiosos romanos, e certamente para a maioria dos judeus e cristãos, essas tragédias for consideradas uma punição pela destruição do Templo de Jerusalém.

Mas o reinado de Tito não seria marcado apenas pelas tragédias. Em uma espécie de compensação do destino pelos desastres sucessivos, ficou a cargo de Tito terminar e inaugurar o magnífico e grandioso Amphitheatrum Flavium (Anfiteatro Flávio), que ficaria conhecido popularmente como “Colosseum” (Coliseu). O nome do Coliseu deriva do fato dele ficar ao lado da enorme estátua dourada de Nero (que, segundo os relatos, seria maior do que a moderna Estátua da Liberdade, em Nova York),  conhecida como “Colossus” (Colosso).

A construção do Coliseu foi iniciada por Vespasiano, em cujo reinado a maior parte do edifício foi construída, aproveitando as fundações e parte da estrutura do enorme palácio de Nero (“Domus Aurea“), que foi soterrado.

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(O autor no Coliseu, em 2000)

Foram 100 dias de jogos inaugurais e, portanto, feriados, para deleite da plebe romana, que assistiram a lutas de gladiadores e caçadas de animais (cerca de 9 mil animais teriam sido mortos durante o período desses jogos).

Tito também construiu e inaugurou, no mesmo período que o Coliseu (80-81 D.C.), as suas Termas ou Banhos de Tito) para o uso da população de Roma e que, assim como no caso do Coliseu,  aproveitaram a infraestrutura da Domus Aurea. Embora não fossem muito grandes, comparados com os complexos de banhos que os imperadores construiriam nos séculos posteriores, as Termas de Tito foram as terceiras termas públicas construídas em Roma, após as Termas de Agripa e as Termas de Nero. Segundo Suetônio, nas suas Termas, Tito costumava banhar-se junto com os demais frequentadores do povo.

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Na política externa, o único desafio enfrentado por Tito foi uma revolta das tribos da Britânia, que foi debelada pelo general Agrícola, que levou suas legiões em campanha até a Escócia.

Em 13 de setembro de 81 D.C., o imperador Tito morreu de uma febre súbita, quando visitava a terra natal de seus antepassados, em território sabino, aos 41 anos de idade. A suas últimas palavras teriam sido:

“Cometi senão um erro”.

O real significado da frase derradeira de Tito sempre suscitou muita discussão entre os historiadores. Para alguns, ele se referia ao fato de não ter executado o irmão Domiciano, cujo caráter já há tempos já dava mostras de ser tirânico e que, segundo alguns relatos, teria conspirado para derrubar Tito. Houve também quem acreditasse que o erro lamentado teria sido um romance adúltero que Tito teria mantido com a mulher do irmão, Domícia Longina.

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(Quadro “O Triunfo de TIto“, de Sir Lawrence Alma-Tadema (1885). Na cena, Vespasiano é seguido por Domiciano, de mãos dadas com sua esposa Domícia Longina, que olha sugestivamente para Tito)

O reinado de Tito somente durou dois anos. Apesar das catástrofes ocorridas, o seu comportamento afável e generoso, a ausência de perseguições durante o seu governo, a sua procupação com a sorte das vítimas dos desastres e as obras públicas e espetáculos grandiosos, granjearam-lhe a estima do povo e dos historiadores, que lhe retrataram de maneira favorável.

Nas palavras de SuetônioTito foi:

“O querido e a delícia da raça humana”.

CONCLUSÃO

Tito é um daqueles exemplos em que a morte de uma celebridade jovem no auge da fama preserva a mitifica a sua boa imagem.

Ademais, o reinado do sucessor de Tito, Domiciano, mais autocrático e centralizador, desagradou boa parte dos senadores, que acabaram engendrando algumas conspirações para derrubá-lo. Após o assassinato de Domiciano, a história do reinado dele foi contada por historiadores ligados à classe senatorial, hostis a Domiciano, e os relatos dos mesmos tendem a classifica-lo como um “mau” imperador, cujo reinado intercala-se entre os reinados dos “bons” imperadores, Tito e Nerva.

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IO, SATURNALIA!

A Saturnália era um festival da Antiga Roma em honra ao deus Saturno, que ocorria em 17 de dezembro no Calendário juliano. Mais tarde, as festividades foram estendidas até 23 de dezembro.

Saturno na mitologia romana foi o deus responsável por ensinar a agricultura aos homens, inaugurando uma “Era de Ouro”, de abundância e igualdade, por isso a divindade é habitualmente representada com uma foice na mão. Vale observar, inclusive, que o nome “Saturno” está ligado a raiz da palavra “semear”, em latim.

Afresco do deus Saturno, proveniente da Casa dos Dioscuros, em Pompéia. Carole Raddato from FRANKFURT, Germany, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

Tratava-se a Saturnália de uma das festas religiosas romanas ancestrais, ligada ao fim da sementeira de outono, quando dezembro ainda era para os Romanos o décimo e último mês do ano, antes da adoção do citado Calendário Juliano, que foi implantado pelo Ditador Júlio César e que é baseado no movimento de translação da Terra em torno do Sol em um ano de 365 dias, dividido em 12 meses.

Com o fim da sementeira, para os agricultores romanos, terminava mais um ano de trabalho, o que era para eles, assim como até hoje é para nós, motivo para celebração e alegria.

Porém, com o passar do tempo e o progressivo distanciamento dos Romanos da Urbe das atividades agrícolas, o sentido inicial do Festival caiu no esquecimento e a Saturnália transformou-se na prática em um animado Festival de Inverno.

O Feriado era celebrado com um sacrifício no Templo de Saturno, no Fórum Romano, com um banquete público, seguido de troca de presentes em privado, festa contínua e uma atmosfera de carnaval que derrubava as normas sociais romanas, como por exemplo: os escravos podiam ser servidos à mesa pelos seus senhores e jogos de dados e outros tipos de jogos de azar eram permitidos em público. A Saturnália era uma das poucas datas festivas em que realmente quase ninguém trabalhava. As ruas da Cidade ficavam cheias de gente e os celebrantes cumprimentavam-se uns aos outros, dizendo : “ Io, Saturnalia !”

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O Tempço de Saturno, no Fórum Romano Chabe01, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

O poeta Catulo chamava a Saturnália de “o melhor dos dias“.(Da Wikipedia).

Muitos estudiosos acreditam que a Saturnália está na origem do costume das pessoas darem-se presentes no Natal e, até mesmo, influenciou a existência da própria data cristã em si.

Fontes:

  1. Gods and Myths of the Romans, Mary Barnett, Grange Books, 1999
  2. Roma, Biblioteca dos Grandes Mitos e Lendas Universais, Stewart Perowne, Verbo, 1987
  3. Saturnalia, verbete Wikipedia, inglês

PAPAI NOEL É ROMANO!

#papainoel #santaclaus #saonicolau

Ícone de São Nicolau, provavelmente bizantino, Public domain, via Wikimedia Commons

Em 15 de novembro de 270 D.C, na província romana da Lícia e Panfília, nasceu Nicolau (Nikolaos), filho de Epifânio (ou Téofano) e Joana (ou Nona), um casal de cristãos abastados da cidade de Patara, na atual província turca da Antalya. Tendo nascido livre e filho de romanos livres, Nicolau era também cidadão romano, de acordo com a lei promulgada pelo imperador Caracala, em 212 D.C .

Os pais de Nicolau morreram enquanto ele era ainda muito jovem e o menino foi criado por seu tio, também chamado Nicolau, que era o Bispo de Patara e logo fez o menino entrar na Igreja como coroinha, e, quando o sobrinho tornou-se adulto, ordenou-o padre.

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Portão da cidade de Patara, By Bjørn Christian Tørrissen – Own work by uploader, http://bjornfree.com/travel/galleries/, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=81819539

Ainda em Patara, Nicolau ficou conhecido pelos atos de caridade, como quando certa vez, sabedor que as 3 filhas de um homem que havia caído na miséria iriam se prostituir para poder sobreviver, ele atirou três bolsinhas contendo moedas de ouro pela janela da casa da família.

Foi durante a Grande Perseguição dos Cristãos, decretada em 303 D.C, pelo imperador Diocleciano, que Nicolau, como tantos outros prelados cristãos, foi preso e, segundo relatos, espancado na prisão. Ele deve ter ficado preso, contínua ou intermitentemente, pelo menos até o Édito de Tolerância baixado pelo imperador Galério, em 311 D.C, também conhecido como Édito de Sérdica, e que tornou o Cristianismo uma religião lícita (este decreto antecedeu o famoso Édito de Milão, publicado dois anos depois).

Cabeça do imperador Diocleciano

Entre os anos 312 e 315 D.C, Nicolau peregrinou pela Terra Santa e viveu em uma pequena comunidade de monges que viviam em cavernas em Beit Jala, nas montanhas do deserto próximo à Belém, onde, séculos mais tarde seria construída a igreja ortodoxa grega de São Nicolau, porém, em 317 D.C, Nicolau voltou para a sua província e foi consagrado bispo da cidade de Mira, atual Demre, na Turquia.

Na condição de bispo de Mira, Nicolau participou do fundamental Concílio de Nicéia, convocado pelo 1º imperador romano cristão, Constantino I, em 325 D.C, sendo listado como participante de número 151: “Nicolau de Mira da Lícia”. Nicolau foi, assim, um dos signatários do “Credo Niceno”, que até hoje é o cerne dogmático do cristianismo católico romano e ortodoxo.

Vários milagres foram atribuídos a Nicolau, sendo que muitos teriam ocorridos em navios, motivo pelo qual ele virou padroeiro de várias cidades portuárias e, inclusive, da Marinha da Grécia moderna.

Nicolau faleceu em 6 de dezembro de 343 D.C, com 73 anos de idade. Ele foi enterrado em Mira.

Sarcófago original de Nicolau na Igreja de São Nicolau, em Demre (Mira), Turquia. By The original uploader was Sjoehest at German Wikipedia. – Transferred from de.wikipedia to Commons., CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1422675

Durante as invasões turcas ao Império Bizantino, no século XI, a cristandade passou a implorar que as relíquias de São Nicolau fossem transferidas para um local mais seguro e os seus restos mortais quase completos foram transferidos para a cidade de Bari, na Itália, por piratas. Posteriormente, marinheiros venezianos levaram o restante dos ossos de Nicolau de Mira para Veneza. Exames forenses modernos confirmaram que ambos os restos pertencem ao mesmo esqueleto. Não obstante, alguns ossos ou fragmentos ósseos de São Nicolau foram sendo espalhados por várias igrejas da Europa.

Igreja de  San Nicolò al Lido , em Veneza, que guarda cerca de 500 fragmentos de ossos de São Nicolau. By Didier Descouens – Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=42306590

Em 2004 foi feita uma autópsia no esqueleto pelo professor de Patologista Forense da Universidade de Bari, Francesco Introna, e uma reconstrução facial do crânio pela perita antropologista facial Caroline Wilkinson, da Universidade de Manchester. Verificou-se que Nicolau sofreu uma fratura grave em vida no nariz, provavelmente devido aos maus tratos sofridos durante a Grande Perseguição. A sua altura foi estimada em 1,68 m. Posteriormente, em 2014, Wilkinson produziu uma nova versão da reconstrução facial do Santo. Tudo isto pode ser conferido no link https://www.stnicholascenter.org/who-is-st-nicholas/real-face

Mas como São Nicolau inspirou a figura do Papai Noel?

A tradição cristã registra que Nicolau, além de devotar especial cuidado para com as crianças, era conhecido pelo costume de dar secretamente presentes, colocados nos sapatos das pessoas que ele visitava. Atualmente, no Calendário Gregoriano seguido pela Igreja Católica Romana, o dia festivo de Nicolau é 6 de dezembro. Todavia, na Igreja Ortodoxa, que segue o Calendário Juliano o Dia de São Nicolau cai no dia 6 de janeiro, e, em sua homenagem, nos países ortodoxos nasceu o costume das pessoas se darem presentes, considerando que a data também coincidia com o dia de natal para os cristãos ortodoxos (atualmente é dia 7 de janeiro).

Atribuido a Antonino Giuffré o a Giovanni Antonio Marchese ,cópia do original de Antonello da Messina, c.1465, Public domain, via Wikimedia Commons

Entre as nações européias ocidentais cristãs que herdaram o culto a São Nicolau, ele passou a ser especialmente reverenciado durante a Idade Média na Holanda, como “SinterClaes“, forma que evoluiu para “Sinterklaas”, sendo representado com as roupas vermelhas comuns a um bispo católico. Inclusive, São Nicolau, ou Sinterklaas, passou a ser o santo padroeiro da Amsterdam.

Essa casa em Amsterdam, datada do século XVI traz um relevo do padroeiro da cidade,SInterClaesç By Aloxe – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=3138918

Quando os Holandeses estabeleceram sua primeira colônia na América do Norte, batizada de Nova Amsterdam, em 1624. Sinterklaas, ou seja, São Nicolau, igualmente foi escolhido como padroeiro da cidade, que, quarenta anos depois, seria conquistada pelos ingleses e rebatizada de “Nova York”. Assim, Sinterklaas acabou sendo transliterado no idioma inglês como “Santa Claus” e no século XIX começou a ser associado nos Estados Unidos a uma figura tradicional do folclore anglo-saxão medieval tardio e seiscentista associada ao Natal, o “Father Christmas”, que, em português, pode ser traduzido como “Papai Noel“.

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“Father Christmas”, ilustração de Josiah King no panfleto The Examination and Tryal of Old Father Christmas (1687). By Josiah King – Folger Shakespeare Library, Washington, D.C., Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=457834

Progressivamente, durante o século XIX, a figura de Santa Claus foi ganhando personalidade própria em relação a São Nicolau na majoritariamente protestante costa leste dos EUA, perdendo seu traje de bispo católico (como ele sempre foi retratado), embora mantendo a cor vermelha, ganhando suas feições e silhueta roliças, e incorporando-se à sua iconografia os trenós, as renas e outras características típicas do inverno nas latitudes mais extremas da Europa Setentrional.

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Azulejo de Sâo Nicolau que se acredita ter vindo de uma igreja em Constantinopla, datado do século X. Walters Art Museum, Public domain, via Wikimedia Commons

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Feliz Natal!

MARCO TÚLIO CÍCERO – O PODER DA PALAVRA

#‎cícero‬ ‪#‎cicerus‬ ‪#‎catilinária‬

Em 3 de janeiro de 106 A.C, nascia em Arpinum (atual Arpino, no Lácio), a cerca de 100 km de Roma, Marcus Tullius Cicerus (Cícero), filho de um próspero membro da ordem equestre, e de Helvia, uma dedicada dona de casa.

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(Restos de pavimento romano, em Arpino, foto de Pietro Scerrato)

O nome Cícero, segundo o historiador Plutarco,  vem da palavra romana “cicer“, que significa “grão-de-bico”, aludindo, provavelmente, ao formato da ponta do nariz de um ancestral. Plutarco conta que esse nome era alvo de algumas gozações, mas que o próprio Cícero não dava muita trela para isso, e, mais tarde, quando Questor na Sicília, certa vez, ao fazer uma oferenda de uma baixela de prata a um templo, mandou gravar nela o nome “Marco Túlio”, acompanhado do desenho de um grão-de-bico.

A família de Cícero não fazia parte da aristocracia romana tradicional e nem das gens plebeias romanas ilustres, algo que ele nunca se cansaria de lamentar em seus escritos.  Mas ela tinha recursos suficientes para proporcionar ao menino uma excelente educação e Cícero, ainda durante a infância e adolescência, demonstrou ter um invulgar talento para as letras e para a oratória, bem como para a Poesia.

Admirado pela sua eloquência e pelo profundo conhecimento da língua e filosofia gregas, capacidade que lhe abriu as portas dos círculos da aristocracia romana, Cícero aproximou-se de homens importantes, como, por exemplo, Quintus Mucius Scaevola (Múcio Cévola), ex-Cônsul (no ano de 95 A.C.) e afamado jurista (ele escreveu um tratado sobre o direito civil romano, em 18 volumes, tão importante que, quase 600 anos depois, teve trechos citados no Digesto, publicado pelo imperador Justiniano I).

Tendo Múcio Cévola como mestre, Cícero estudou Direito,  em companhia de jovens aristocratas e filhos de pessoas ricas ou importantes, como Servius Sulpicius Rufus, Titus Pomponius e Caio Mário, o Jovem, sendo que a amizade com os dois primeiros teria longa duração.

Em seguida, Cícero fez o serviço militar, lutando na chamada “Guerra Social“, travada contra os povos aliados italianos de Roma (socii) que demandavam mais direitos. A experiência militar ocorreu especificamente na campanha contra os Marsos, servindo sob as ordens de Cneu Pompeu Estrabão, pai de Pompeu, o Grande (Pompeu)., por volta de 88 A.C.

Finda a campanha contra os Marsos, e tendo muito mais vocação para os estudos do que para a carreira das armas, Cícero buscou enriquecer a sua formação e foi estudar com o filósofo cético Philo (Filão) de Larissa, professor da Academia de Atenas,  fundada por Platão, e que havia se mudado para Roma,  em 87 A.C., durante a Guerra contra Mitridates.

Durante esses anos de estudos, a situação política em Roma complicara-se bastante. O sucesso de Publius Cornelius Sulla (Sila) como comandante na Guerra Social estimulou os conservadores no Senado Romano a nomeá-lo Cônsul para o ano de 88 A.C., visando contrabalançar a influência de Caio Mário, que era apoiado pela facção senatorial dos Populares.  Simultaneamente, o rei Mitridates, do rico reino helenístico do Ponto, decidiu conter a expansão romana no Mediterrâneo Oriental e invadiu a Grécia e massacrou 80 mil cidadãos romanos e italianos que viviam na região.

O comando da Guerra contra Mitridates era o mais importante dos últimos tempos e, por isso, o seu comandante seria o detentor de um grande poder militar, sem falar na perspectiva de polpudos saques. O Senado escolheu Sila para a tarefa, porém  um Tribuno da Plebe, partidário de Mário conseguiu anular a decisão. Enfurecido, Sila invadiu Roma, assumiu o poder e decretou que Mário e os Populares eram “Inimigos do Estado”.

Contudo, quando Sila já estava no Oriente, comandando a Guerra Contra Mitridates, os partidários de Mário conseguiram retomar o poder em Roma e ele foi eleito Cônsul, em 87 A.C., contudo, já velho e doente, este morreu pouco tempo depois e Roma ficou sendo governada pelos partidários de Mário, liderados por Lúcio Cornélio Cina.

Porém, quando Mitridates foi derrotado, Sila marchou novamente sobre a Itália, derrotou as forças dos Populares e foi eleito Ditador, em 81 A.C., iniciando uma grande perseguição contra os adversários políticos, conhecida como “Proscrições”.

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Sila encarregou o seu secretário, o liberto Lucius Cornelius Chrysogonus, de coordenar os processos contra os partidários de Mário, tratando das execuções, exílios e confiscos. Segundo Plutarco, o próprio Chrysogonus adquiriu, em leilão, uma propriedade de um homem que havia sido assassinado e figurava na lista de proscrições ordenadas por Sila, pagando um preço bem abaixo do valor do imóvel. O filho e herdeiro do proscrito, Sextus Roscius, indignado, resolveu contestar o valor nos Tribunais. Sila, porém, quando soube do fato, ficou furioso, e, em retaliação, Chrysogonus, valendo-se de provas falsas, acusou Roscius de ter assassinado o próprio pai.

Desesperado, Roscius procurou um advogado para se defender no processo criminal,  mas nenhum profissional se atrevia a patrocinar a causa, com medo da reação de Sila. Até que ele procurou Cícero, que, incentivado por seus amigos,  aceitou o caso, entre outros motivos, porque eles enfatizaram que, se ele ganhasse o processo, ficaria conhecido do público. Cícero desmontou a tese acusatória com brilhantismo e Roscius foi absolvido, por volta de 80 A.C.

Em 79 A.C., Cícero casou-se com Terentia (Terência), que pertencia a uma rica família de plebeus, mas cujos antepassados tinham conseguido ingressar no Senado Romano (um dos precursores foi o senador e novus homo, Caio Terêncio Varrão, que comandou as tropas romanas na Batalha de Canas). É também possível que Terência fosse parente de Marco Terêncio Varrão, homem de letras considerado o romano mais culto de seu tempo e que era dono de uma propriedade próxima a Arpinum.

No ano seguinte, nasceu Tullia (Túlia), a  filha a quem Cícero seria muito apegado durante toda a vida.

Agora um advogado famoso, ainda em 79 A.C.Cícero resolveu aprofundar os estudos de Filosofia na Grécia, sendo que, de acordo com a narrativa de Plutarco, a viagem também poderia ajudá-lo a ficar longe de uma eventual retaliação de Sila. Em Atenas, Cícero assistiu as aulas do filósofo Antíoco de Ascalon, um filósofo da Academia, ex-discípulo de Filão de Larissa, mas que adotava o Ecleticismo.

A morte de Sila, em 78 A.C., deve ter encorajado Cícero a voltar à advocacia e tentar a carreira pública, em Roma. Mas antes, ele decidiu preparar-se e foi estudar Oratória em Rodes, que era uma espécie de centro de excelência daquela disciplina no Mundo Mediterrâneo. Ali, ele foi estudar com Apolônio Molon, que, alguns anos mais tarde, seria também professor de Júlio César.

O fato é que Terência herdou uma grande fortuna, e o dinheiro da mulher ajudaria Cícero a iniciar sua carreira pública, mas foi o indiscutível brilho dele nos tribunais e nas letras que o fez famoso e o possibilitou progredir  na carreira do serviço público, ocupando as sucessivas magistraturas romanas (o “cursus honorum“).

Assim, Cícero foi Questor na Sicília, em 75 A.C., onde ele chamou a atenção dos locais pela honestidade e integridade  (que por isso, mais tarde o escolheriam para advogar a causa dos provinciais contra Caio Verres, o corrupto governador da Sicília, em 70 A.C., um sucesso retumbante que catapultou a fama de Cícero), Edil em 69 A.C., e Pretor, em 66 A.C., culminando com a sua eleição como Cônsul para o ano de 63 A.C., aos 43 anos de idade.

Cícero, assim, chegou ao Senado como um “novus homo” (homem novo), ou seja, um senador que não provinha de nenhuma das famílias tradicionais da nobreza romana cujos integrantes já tinham sido senadores.

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Marcus Tullius Cicerus Minor (Marco Túlio Cícero, o  Jovem), o único filho homem de Cícero, nasceu em 65 A.C.

No ano de 63 A.C., o grande momento de Cícero como Cônsul  foi expor e debelar uma conspiração para a tomada do poder e derrubada do Senado, liderada pelo também senador e partidário da facção dos  Populares, Lucius Sergius Catilina, que foi denunciada em uma série de discursos que ficariam célebres, conhecidos como “As Catilinárias“. Até hoje, passagens desses discursos são estudadas, e algumas delas até ficaram populares, como, por exemplo:

“Quosque tandem, Catilina, abutere patientia mostra?” (Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?”

“O tempora, O mores” (Ó Tempos, Ó costumes)

Nesse episódio, após a prisão dos conspiradores, ocorreu o primeiro embate entre Cícero e o jovem senador Júlio César, que defendia uma punição mais branda para os acusados – a prisão. Cícero, porém, conseguiu convencer o Senado a condená-los à morte, embora esta Assembleia não fosse um tribunal judiciário, enfatizando motivos ligado à “segurança do Estado”, desenvolvendo, naquele tempo, uma argumentação que soaria familiar aos tempos atuais…

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(Cícero denuncia Catilina,  quadro de Cesare Maccari, 1882)

Com a destruição da conspiração de Catilina (que talvez não tenha sido tão crucial como Cícero fez parecer nos seus escritos), Cícero atingiu o ápice do seu prestígio entre os nobres (Optimates), recebendo o título honorífico de “Pai da Pátria“.

Em 62 A.C., Cícero teve atuação destacada na investigação do escândalo político ocorrida na cerimônia da Bona Dea, um festejo religioso exclusivo para mulheres que estava sendo celebrado na casa de Júlio César,  que então ocupava o cargo de chefe da religião romana, como Pontífice Máximo.

Na festa da Bona Dea, o jovem e ambicioso político demagogo da facção dos Populares, Publius Clodius Pulcher (Clódio), penetrou na festa disfarçado de mulher, aparentemente com a intenção de seduzir Pompeia, a mulher de César, mas ele logo foi descoberto, aparentemente antes de conseguir o seu suposto intento.

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Mesmo assim, César, com o prestígio político ameaçado pelo caso, acabou divorciando-se da esposa, apesar de ter afirmado que nada tinha acontecido, aceitando as escusas de Clódio.

Todavia, os adversários políticos de Clódio, entre os quais estava Cícero, conseguiram abrir um processo contra ele, sob a acusação de incestum e diversas testemunhas foram ouvidas. Clódio tentou alegar um álibi, mas foi contestado por Cícero, que testemunhou que aquele estava em Roma no dia do fato e, ainda, criticou-o muito duramente, como se vê no trecho abaixo:

“Ó, pródigio extraordinário! Ó, seu monstro! Não estás tu envergonhado pela visão deste templo, e desta cidade, nem por sua vida, nem pela luz do dia? Tu, que estavas vestido de mulher e cuja infame luxúria e adultério, unidos com a impiedade, não foram, nem na ocasião, obstaculizados por testemunhas obstinadas, atreves-te a assumir uma voz máscula para defender a tua absolvição?”

Mas Clódio acabou sendo absolvido, segundo algumas fontes, após subornar os juízes.

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Cícero procurou, em seguida, restaurar a velha ordem republicana, propondo regras para o estabelecimento da harmonia entre as diversas instâncias de poder da nobreza (concordia ordinum), sem, contudo, obter sucesso, sendo que as incessantes disputas políticas entre os políticos partidários da nobreza e da plebe (chamados didaticamente de “partido aristocrático”, ou Optimates, e “partido democrático”, ou “Populares“) desaguaram na aguda crise que resultaria na formação do Primeiro Triunvirato, em 59 A.C., formado por Pompeu, Crasso e César (retratados abaixo, da direita para a esquerda).

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Era um quadro político que não favorecia os políticos tradicionais, mas, ao contrário, beneficiava aqueles que tinham comandos militares. Os Triúnviros não gozavam da simpatia dos Optimates e Cícero, politicamente, alinhava-se com eles.

Já, Clódio, que aliara-se aos Triúnviros, agora era Tribuno da Plebe, tendo sido eleito em 59 A.C., com o apoio de César. No ano seguinte, ele conseguiu aprovar, em plebiscito, uma série de leis no interesse da plataforma dos Populares, entre elas a Lex Clodia de Civibus Romanis Interemptis, uma lei determinando o exílio de todos aqueles que tivessem executado cidadãos romanos sem o devido julgamento. Embora a lei fosse genérica e abstrata, era óbvio que Cícero era o principal alvo da medida, por causa da sua ação contra os partidários de Catilina.

Assim, Cícero, bem que tentou, mas não conseguiu obter o suporte dos Triúnviros para escapar da aplicação da Lex Clodia e ele acabou sendo exilado para a Grécia, em 58 A.C., onde chegou em 23 de maio daquele ano, indo viver na cidade de Tessalonica, local, onde, deprimido, chegou a cogitar o suicídio.

Enquanto isso, Clódio aproveitou para confiscar a magnífica casa que Cícero comprara no Palatino, com vista para o Fórum Romano, a qual foi demolida, e o respectivo terreno consagrado para a construção de um “Templo para a Liberdade”.

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(A casa de Cícero devia ficar em algum lugar do canto superior esquerdo nessa foto da colina do Palatino, que foi totalmente remodelada no período imperial com a construção de diversos palácios – a própria palavra deriva do nome do morro – pelos imperadores)

Todavia, as relações entre os Triúnviros começavam a se esgarçar. Insatisfeito com algumas ações de Clódio, Pompeu aproximou-se de Cícero e, assim, o Tribuno da Plebe Titus Annius Milo (Milão), que era aliado de Pompeu, conseguiu fazer o Senado revogar o exílio de Cícero, em uma eleição cujo único voto contrário foi o de Clódio

Em 5 de agosto de 57 A.C., Cícero retornou à Itália, sendo recebido por uma entusiástica multidão que tinha ido lhe dar as boas-vindas no porto de Brundisium, junto com sua adorada Túlia.

Uma das primeiras ações de Cícero após o retorno do exílio, foi tentar reaver a sua propriedade no Palatino, que havia sido confiscada por Clódio. Para isso, ele precisava obter a revogação da decisão do Colégio dos Pontífices que havia consagrado o terreno. Em sua “Oração por sua Casa aos Pontífices” (Oratio De Domo Sua Ad Pontices), Cícero assim defendeu o seu caso, sem deixar de, en passant,  criticar os Triúnviros:

“A Vós lhes foi dado decidir hoje se vós preferis entrar para a posteridade retirando de magistrados fora-de-si e devassos a condição de cidadãos malvados e sem princípios, ou até mesmo armando-os com o manto da religião e do respeito que é devido aos deuses imortais. Porque, se esta peste e  flagelo da República tiver sucesso em defender o seu próprio tribunato – malicioso e mortîfero, apelando à divina religião, quando ele não consegue sustenta-lo por quaisquer considerações de equidade humana, então nós teremos que procurar outras cerimônias, outros ministros dos deuses imortais, outros intérpretes dos requisitos da religião… Mas, se estas coisas, que a loucura de homens malvados obrou na República, nos tempos em que ela estava oprimida por uma parte, abandonada por outra e traída por uma terceira, forem anuladas pela vossa autoridade e pela vossa sabedoria, Ó Pontífices, então nós teremos motivo para devida e merecidamente saudar a sabedoria de nossos ancestrais em escolher os homens mais ilustres do Estado para o sacerdócio”.

O terreno foi desconsagrado e restituído a Cícero, que reconstruiu nele a sua casa com a ajuda de doações de simpatizantes e de particulares  que  tinham achado a ação de Clódio injusta.

Mas a aproximação com Pompeu e a reafirmação do Primeiro Triunvirato após a Conferência de Lucca, em 56 A.C., que havia sido convocada por César para resolver as diferenças entre os Triúnviros, tornaram qualquer oposição de Cícero inviável e isso forçou-o a  deixar a política em segundo plano, passando a se dedicar mais às obras literárias e à vida intelectual.

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Porém, após a morte de Júlia, esposa de Pompeu e filha de César, em 54 A.C.,  e com a morte de Crasso na Batalha de Carras, contra os Partas, no ano seguinte, o Primeiro Triunvirato terminou, colocando César e Pompeu em rota de colisão. Os Optimates perceberam que, para os interesses da nobreza, Pompeu seria um melhor candidato ao poder supremo do que César  e começaram a se aglutinar  em torno do primeiro.

A situação política deteriorara-se muito, e os bandos armados partidários dos políticos Optimates e Populares enfrentavam-se nas ruas. Inclusive em função da violência, a eleição para o Consulado de 52 A.C. teve que ser adiada. Um dos cargos era disputado por Clódio e Milão (o outro, ninguém tinha dúvida, seria de Pompeu). Em 18 de janeiro de 52 A.C., em mais um desses confrontos, o grupo de gladiadores contratado por Milão para escolta-lo assassinou Clódio, quando ambas as comitivas se cruzaram na Via Ápia, nos arredores de Roma. Como um dos resultados, o Senado resolveu designar Pompeu como único Cônsul para aquele ano.

Os correligionários de Clódio, indignados, protestaram violentamente pelas ruas, chegando a queimar a Cúria Hostília, o prédio do Senado Romano, e Pompeu acabou sendo obrigado a determinar que Milão fosse a julgamento pela morte do rival. No julgamento, que transcorreu sob um clima de tensão e ameaça, Milão foi defendido por Cícero, que, entretanto, intimidado pela turba de aliados de Clódio, não conseguiu fazer o seu discurso de acusação direito, chegando a até a ter a voz comprometida. Milão acabou sendo condenado por 38 votos a 13, a ser exilado em Massilia (Marselha) e a ter os bens confiscados.

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(O prédio da Curia Hostilia, que foi destruído e reconstruído diversas vezes durante a História de Roma. O prédio atual data do reinado do imperador Diocleciano).

Pompeu, em 52 A.C.,  nomeou Cícero para ser Proconsul (Governador) da província romana da Cilícia. para entrar em exercício em 51 A.C. Na Cilícia, onde ele ficou de maio de 51 A.C. a novembro de 50 A.C., consta que Cícero fez uma boa administração, aplicando os princípios ensinados por seu antigo mestre, Múcio Cévola. Ele, por exemplo, restituiu terras e imóveis públicos apropriados indevidamente pelos seus antecessores e foi austero nos gastos.

Cícero também agiu vigorosamente para proteger militarmente a região de um ataque dos partas e marchou à testa de um exército romano de 15 mil homens para socorrer o governador da Síria, Caio Cássio Longino, que estava cercado em Antioquia. obrigando Pacorus, o príncipe parta, a retroceder. Cícero, então, deixou a província a cargo de seu irmão, Quintus Tullius Cicero, já que a situação política na Itália estava se agravando. Mas, antes de retornar para a Itália, aproveitou para parar em Rodes e, depois, em Atenas, onde ficou algum tempo encontrando-se com filósofos de renome.

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Mal Cícero retornara à Roma, eclodiu a Guerra Civil entre César e Pompeu, após o primeiro cruzar o Rio Rubicão e invadir a Itália, em 10 de janeiro de 49 A.C.

Os Optimates já haviam escolhido Pompeu como o campeão dos seus interesses e muitos fugiram com ele para a Grécia, mas Cícero ainda ficou, durante pouco tempo em Roma, aparentemente indeciso sobre o que deveria fazer. Porém, quando César, após alguns dias, resolver ir combater as forças senatoriais na Espanha,  Cícero decidiu fugir de Roma e unir-se às forças de Pompeu na Grécia.

Na Batalha de Dirráquio, e, depois, na Batalha de Farsália, em  9 de agosto de 48 A.C., da qual Cícero não participou alegando estar doente, os Optimates foram derrotados. Após a fuga de Pompeu, cujo último destino seria o Egito, Cícero recusou o comando das forças remanescentes dos Optimates em Dirráquio, que lhe foi oferecido por Catão, o Jovem, o líder moral da facção. Segundo Plutarco, Pompeu, o Jovem, acompanhado de alguns amigos, indignados com o que chamaram de traição, chegaram a desembainhar as espadas para atacar Cícero, mas Catão interveio e mandou Cícero embora, ileso.

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(Busto de Catão, o Jovem, da cidade de Volubilis, foto de Prioryman)

Cícero então voltou para Roma, aceitando o perdão de César, que já havia sido nomeado Ditador e tratou-o de modo cortês e respeitoso. Novamente, sem espaço para atividade política, ele voltou a se dedicar à produção literária, especialmente às obras de Filosofia. Datam desse período (46 a 44 A.C.) as obras  Paradoxa Stoicorum (Paradoxos Estóicos), Hortensius, Lucullus or Academica Priora , Varro or Academica Posteriora, Consolatio (Consolação),  De Finibus Bonorum et Malorum (Sobre os fins do Bem e do Mal),  Tusculanae Quaestiones (Questões Tusculanas),  De Natura Deorum (Sobre a Natureza dos Deuses),  De Divinatione (Sobre a Divinação), De Fato (Sobre o Destino), Cato Maior de Senectute (Catão, o Velho, sobre a Velhice), Laelius de Amicitia (Laelius sobre a Amizade) e  De Officiis (Sobre os Deveres).

Durante esses anos, Cícero e Terência divorciaram-se. Segundo as fontes, o motivo principal para o divórcio foi a insatisfação de Cícero com a forma com que a esposa vinha administrando a economia doméstica, sendo que Terência teria até deixado de lhe enviar dinheiro enquanto ele esteve fora de Roma, além de ter deixado Túlia sem uma escolta apropriada e até mesmo sem meios de subsistência adequados quando esta foi visitar o pai, em Brundisium, durante a Guerra Civil. De qualquer forma, as cartas que Cícero enviou para Terência alguns anos antes já indicavam um esfriamento na relação e um afastamento afetivo do casal.

Em seguida, Cícero, que já tinha, então, sessenta anos de idade, casou-se com uma jovem de apenas 15 anos, Publilia, de quem ele era tutor. Publilia era muito rica, e tudo indica que Cícero estava mesmo era de olho no dote da menina, já que naquela época ele estaria afundado em dívidas, incluindo a obrigação legal de ter que devolver o dote que tinha recebido de Terência.

Pouco tempo depois do divórcio e do novo casamento, Cícero sofreu a grande perda de sua amada filha Túlia, que morreu, em fevereiro de 45 A.C.,  das complicações de um parto, de seu casamento com Públio Cornélio Dolabela, de quem ela havia se divorciado apenas três meses antes. (Dolabela era um partidário de Pompeu que havia aderido a César, que o indicou para ser Cônsul). Em uma carta a um amigo, AtticusCícero desabafou:

Perdi a única coisa que ainda me prendia à vida“.

As cartas denotam que após a morte da filha, Cícero ficou realmente bem deprimido. Os amigos tentaram de várias formas consolá-lo, porém ele só parecia se preocupar em como homenagear a memória de Túlia. Em poucas semanas, ele se divorciou de Publilia, alegando que a esposa teria demonstrado satisfação ou feito pouco caso do falecimento de Túlia.

Em 44 A.C., Cícero foi surpreendido pela ação dos conspiradores no Senado que assassinaram Caio Júlio César, nos idos de Março (dia 15 de março), integrada por cerca de 60 senadores liderados por Marco Júnio Bruto (Bruto) e Caio Cássio Longino (Cássio). Embora ele não tenha participado da trama,  Cícero apoiou publicamente os autodenominados “Libertadores” (Liberatores), os quais também buscavam a sua ilustre aprovação, e ele até conseguiu que o Senado votasse pela anistia deles em uma sessão convocada por Marco Antônio, que, naquele momento, ainda aturdido e amedrontado pelo assassinato do Ditador (No primeiro momento ele chegou a fugir de Roma), visava compor-se com os “Libertadores” e o Senado, em troca da revalidação dos atos praticados por César.

Porém, em poucos dias, essas ações seriam submersas pela maré de indignação popular desencadeada pelo velório de César, quando Antônio exibiu a toga ensanguentada do falecido à multidão. Nos violentos tumultos que imediatamente se seguiram, os conspiradores foram obrigados a fugir de Roma.

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Não obstante, no período que se seguiu à morte de César, Cícero era, indiscutivelmente, o líder do Senado, visto como alguém cujo prestígio pessoal talvez fosse capaz de manter a ordem institucional e confrontar Marco Antônio, o braço-direito do Ditador falecido, que se apresentava como o chefe militar e político dos que apoiaram César, e em quem os Optimates não confiavam, sobretudo depois do seu discurso no Fórum, apesar das tentativas dele de entrar em acordo com os assassinos de César.

Entretanto, quando o testamento de César foi aberto, descobriu-se que o herdeiro escolhido por ele foi o seu sobrinho-neto, Caio Otávio, a quem César adotou postumamente e legou a maior parte da sua  imensa fortuna.  Caio Júlio César Otaviano, como o rapaz, de apenas dezoito anos, passou a ser conhecido,  audaciosamente abandonou seus estudos em Apolônia, na Grécia, e desembarcou na Itália, sendo calorosamente acolhido pelos soldados de César que serviam no porto de Brundisium.

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(Busto de Otaviano jovem, foto de Wolfgang Sauber)

Otaviano chegou em Roma no dia 6 de maio de 44 A.C. Durante os meses que se seguiram, ele procurou se aproximar dos senadores. Enquanto isso, os Optimates e os simpatizantes dos “Libertadores” no Senado tinham-se aglutinado em torno de Cícero contra a crescente truculência e revanchismo de Marco Antônio. A velha raposa política e o surpreendentemente astuto jovem herdeiro perceberam que ambos tinham a ganhar com essa aproximação. Cícero passou a elogiar Otaviano publicamente, reconhecendo a sua posição e parecendo mesmo acreditar que o rapaz se guiaria pelos princípios republicanos caros aos Optimates.

Bruto não concordou com a aproximação de Cícero e Otaviano,  e enviou ao primeiro uma carta, censurando-o por escolher um “tirano gentil” (Otaviano) a um “tirano inimigo” (Antônio).

Em setembro de 44 A.C., Cícero começou a despejar contra Marco Antônio a torrente de discursos históricos que ficaria conhecida como as “Filípicas” (porque inspirados nos discursos congêneres com que o célebre orador grego Demóstenes atacou o rei Filipe II, da Macedônia, que era visto por ele como um tirano).

Antônio,, em novembro de 44 A.C., havia partido para Brundisium para assumir o comando das 4 legiões que ele havia transferido da Macedônia, que iriam se somar a uma outra, que estava estacionada ao longo da Via Ápia, e que formariam um exército para combater Décimo Bruto e assumir o governo da Gália Cisalpina. Porém, as duas melhores dessas legiões, que tinham servido sob Júlio César, amotinaram-se e foram se juntar às forças que Otaviano estava reunindo, muito embora ele ainda fosse apenas um particular, sem autoridade legal para comandar tropas. Mesmo assim, em dezembro, Antônio decidiu marchar contra  Décimo Bruto e, chegando à Gália Cisalpina, cercou-o na cidade de Mutina (atual Modena).

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Cícero conseguiu articular uma votação do Senado para declarar AntônioInimigo Público“, motivada pelo fato dele estar tentando assumir o controle da província da Gália Cisalpina em detrimento do governador Décimo Júnio Bruto, cujo comando tinha sido ratificado pelo Senado, embora ele fosse um dos assassinos de César (não confundi-lo com o líder da conspiração,  Bruto). Mas o Tribuno da Plebe, Salvius, conseguiu adiar essa votação. Na sessão seguinte, os argumentos do senador Lucius Calpurnius Piso Caesoninus, sogro de César e antigo desafeto de Cícero, teriam convencido os senadores a não aprovar, naquele momento, a moção  contra Antônio.

Porém, no decorrer daquela crise, Cícero não teve dificuldade de reapresentar a moção contra o adversário no Senado, na primeira sessão do ano seguinte, em 1º de janeiro de 43 A.C., na qual Antônio foi declarado “Inimigo Público“. Na mesma oportunidade, os novos cônsules Aulus  Hirtius (Hírtio), amigo de Cícero, e  Gaius Vibius Pansa (Pansa), que tinham sido partidários moderados de César (que os havia escolhido para o posto no ano anterior) receberam ordens de partir para Mutina com um exército para levantar o cerco que Antônio estava fazendo contra Décimo Bruto. Finalmente, Otaviano teve reconhecido o comando militar sobre as legiões que lhe apoiavam, com o cargo de propretor e também partiu para Mutina, em apoio ao Senado, para combater Antônio.

Em uma carta enviada a um dos conspiradores, Gaius Trebonius (ele abordou Antônio, impedindo que ele entrasse junto com César na sessão do Senado na qual ele foi assassinado), alguns meses depois do assassinato, e  que resume bem a sua posição no conflito, Cícero, após lamentar não ter sido chamado para se juntar à conspiração, reclama pelo fato deles também não terem matado Antônio em seguida a César (poupá-lo foi uma decisão de Bruto), e elogia Otaviano:

“Como eu queria que você tivesse me convidado para aquele tão glorioso banquete nos Idos de Março! Nós deveríamos não ter deixado restos! Uma vez, como ocorre, nós estamos tendo tantos problemas com eles, que o magnífico serviço que vocês, cavalheiros, fizeram em prol do Estado deixou espaço para algumas queixas.  De fato, por Antônio ter sido desviado do caminho por você – o melhor dos homens – e que tenha sido por sua bondade que essa peste ainda viva, eu algumas vezes me sinto, embora talvez eu não tenha nenhum direito para isso, um pouco zangado com você. Pois você deixou para trás uma quantidade de problema que é maior para mim do que para todos os outros juntos., 

(…)

O jovem César está se comportando de maneira excelente e eu espero que ele continuará assim. Você de qualquer modo, pode estar certo disso – que, se ele não tivesse as duas legiões que foram transferidas do exército de Antônio para o comando dele, e não tivesse Antônio sido confrontado por essa ameaça, não haveria crime ou crueldade que este não deixaria de praticar. (…)”.

Inicialmente, os desígnios de Cícero pareciam estar sendo atendidos: Em 14 de abril de 43 A.C.,  na Batalha de Forum Gallorum, após inicialmente levar vantagem contra as tropas de Pansa, que foi ferido mortalmente, o exército de Antônio foi duramente rechaçado por Hírtio, com a ajuda providencial de Otaviano (cujas tropas envolvidas foram chamadas por Cícero de “legiões celestiais”). Seis dias depois, na Batalha de Mutina, Hírtio e Otaviano atacaram o acampamento de Antônio, contando com a ajuda das forças sitiadas de Décimo Bruto, na cidade de Mutina.  Embora Hírtio tenha sido morto nos combates, Antônio acabou sendo obrigado a suspender o sítio e retirar suas forças, passando por Parma, Piacenza e Tortonia, até a costa da Ligúria, ao oeste de Gênova.

Em um incomum erro de avaliação, talvez motivado por ele ainda ignorar que os dois cônsules haviam morrido, levando-o a acreditar que Antônio estava decisivamente enfraquecido,  Cícero persuadiu o Senado a transferir o comando da guerra contra Antônio para Décimo Bruto, tendo os atos senatoriais imprudentementeminimizado o papel desempenhado por Otaviano na vitória, ainda que parcial. Com efeito, o Senado conferiu a Décimo a honra de celebrar o triunfo pela vitória contra Antônio.

Ademais, Otaviano recusou-se a qualquer tipo de cooperação com Décimo Bruto, um dos assassinos de seu pai adotivo, e que pediu o seu auxílio para interceptar as tropas do general  Públio Ventídio Basso que vinham do Piceno em auxílio de Antônio. Logo em seguida, as legiões de Décimo desertaram em favor de Otaviano. Décimo, então, resolveu fugir de Mutina em direção à Macedônia, visando juntar-se a Bruto e Cássio. Tempos depois, ele seria interceptado por um chefe gaulês aliado de Antônio e assassinado.

Enquanto isso, as três legiões de Ventídio Basso juntaram-se a Antônio, que também recebeu o apoio de Marco Antônio Lépido (Lépido), um dos principais subordinados de César e governador da Hispânia e da Gália Narbonense. Isso colocou sob o comando de Antônio um formidável exército de 17 legiões e 10 mil cavaleiros.

Na prática, após a Batalha de Mutina, após a morte dos cônsules e a fuga de Décimo, o Senado não tinha mais forças militares na Itália à sua disposição. Otaviano era agora o homem mais poderoso na Itália, com oito legiões, mas a sua posição poderia ser colocada em cheque por Antônio, secundado por Lépido, que comandavam forças bem maiores na vizinhança da península.

Neste ocasião, algumas fontes (Apiano e Plutarco) mencionam que Otaviano teria feito uma proposta a Cícero para que este convencesse o Senado a eleger ambos para os cargos de Cônsules, em substituição aos falecidos Hírtio e Pansa, instigando assim, astuciosamente, a conhecida vaidade do velho senador, que, animado, deu andamento à proposta.

O mais provável nessa súbita aliança é que ambos, a velha raposa política e o jovem herdeiro, estivessem tentando aproveitar-se um do outro.  Cícero provavelmente via Otaviano meramente como um instrumento descartável para neutralizar Antônio. E Otaviano sabia disso, mas também via como útil ter a seu lado a legitimá-lo um dos senadores mais ilustres.

Com efeito, os dois certamente sabiam que tratava-se de uma aliança precária e ao sabor das circunstâncias…Em uma carta de Décimo Bruto a Cícero, que sobreviveu, o primeiro escreve que:

“Minha afeição e dever para convosco compelem-me a sentir por vós o que eu nunca senti para comigo: medo. Refiro-me a um boato que eu ouvi várias vezes (e nunca fiz pouco caso), a última vez de Labeo Segullis, que me disse que esteve com Otávio, e que eles conversaram bastante sobre você. Otávio mesmo não reclamou de nada quanto a você, a não ser acerca de uma frase que ele falou que você teria pronunciado, especificamente: “laudandum adolescentem, ornandum, tollendum”. A força nessa sentença é encontrada na última palavra, que tem um duplo sentido, assim a frase pode significar: “o jovem deve ser louvado, homenageado e exaltado”, ou, “o jovem deve ser louvado, homenageado e removido”. Otávio então disse que não daria nenhuma oportunidade para a sua remoção”. (Ad Fam, XI, 21)

Seja como for, em julho de 43 A.C., Otaviano enviou uma delegação de centuriões ao Senado demandando o cargo de Cônsul. Porém, o Senado respondeu com questionamentos acerca da pouca idade de Otaviano para o cargo. Ele então decidiu marchar em direção a Roma com suas oito legiões, sem encontrar oposição. Segundo Apiano Cícero ainda conseguiu um encontro com Otaviano, onde enfatizou suas ações no Senado em apoio da candidatura dele, porém o rapaz apenas respondeu com ironia.

Cícero ainda convocou uma sessão noturna no Senado após circular um boato de que duas legiões de Otaviano tinham desertado e se unido à causa senatorial, mas quando a notícia foi desmentida, ele fugiu.

Como resultado, em 19 de agosto de 43 A.C. Otaviano foi eleito Cônsul, tendo apenas 19 anos de idade. Na ocasião, Cícero não foi visto em Roma.

Ainda no mês de julho, Cícero tinha escrito uma carta a Bruto, tentando explicar os fatos :

“Otávio, que até então vinha sendo governado pelos meus conselhos e mostrou a mais excelente disposição e uma firmeza admirável, foi pressionado por certas pessoas, mediante cartas das mais perversas e falsos relatos e mensagens, a uma expectativa absolutamente segura do Consulado. Tão logo eu soube disso, eu não cessei de adverti-lo, por cartas, quando não estava presente, e de acusar, na presença dos seus amigos, que parecem apoiar as reivindicações dele, nem hesitei em expor no Senado a fonte desses miseráveis desígnios. E eu não lembro de um assunto no qual o Senado tenha demonstrado um melhor espírito.  Porque, anteriormente,  nunca aconteceu, quando se tratasse do caso de conferir uma honraria extraordinária a um homem poderoso, ou melhor, a um homem todo-poderoso (visto que o poder agora reside na força e nas armas), que ninguém, seja Tribuno da Plebe, ou outro magistrado, ou mesmo um particular, erguesse a voz em favor disso. Ainda assim, no meio dessa firmeza e virtude, a Cidade está em um estado de angústia. Nós viramos joguete dos caprichos dos soldados e da insolência do general. Cada um demanda tanto poder na República quanto a força que ele tem para extorqui-lo. Razão, moderação, lei, costume, dever, não valem nada, e nem a consideração pela opinião pública ou a vergonha da posteridade têm qualquer serventia. Foi por ter previsto tudo isso muito tempo atrás que eu fugi da Itália, quando a notícia da vossa proclamação me chamou de volta”.

O fato é que agora Cícero é quem era o descartável. Otaviano estava muito mais preocupado com a aliança entre Antônio e Lépido e com o crescente número de tropas que Bruto e Cássio estavam reunindo na Grécia. Em outubro de 43 A.C.,  os três encontraram-se nos arredores de Bononia (atual Bolonha), onde resolveram formar a aliança política que ficou conhecida como Segundo Triunvirato, ou como eles mesmo batizaram: “Triúnviros com Poderes Consulares para confirmar a República“.

Nessa reunião, os Triúnviros dividiram entre si as províncias romanas e, emulando Sila, decidiram fazer uma lista de proscrições abrangendo mais de 200 cidadãos (Apiano fala em cerca de 300 senadores e 2 mil equestres), sujeitos à serem executados e terem suas propriedades confiscadas (os cofres do tesouro estavam vazios). Antes de publicar os decretos, eles resolveram enviar logo os executores para assassinarem doze ou dezessete (os números variam) desafetos, entre os quais estava Cícero. De acordo com Plutarco, Antônio, inclusive, queria que o nome de Cícero fosse o primeiro da lista, mas Otaviano teria sido contra a execução dele, resistindo em concordar durante dois dias, até que, no terceiro, ele acabou cedendo à vontade do colega. O Cônsul Quintus Pedius acabou, inadvertidamente, publicando a lista dos dezessete no dia seguinte.

Quando soube da sua proscrição, segundo o relato combinado de Plutarco e Apiano, Cícero estava com seu irmão, Quinto, em sua vila próximo à cidade de Tusculum. Eles decidiram fugir e pegar um navio que os levasse até Bruto, que estava resistindo na Macedônia.  Mas, Quinto acabou precisando voltar para a sua própria casa (onde ele e o filho foram mortos) e Cícero partiu sozinho em sua liteira com destino à Fórmia, onde ele tinha outra vila, próxima à costa. Dali, ele foi para o porto de Caieta, onde embarcou em um barco visando ir até a Macedônia. Porém, o mar estava agitado e Cícero ficou mareado, motivo pelo qual resolveu voltar para Fórmia.

Enquanto isso os soldados encarregados da execução de Cícero andavam pelos arredores, procurando-o, mas os locais, simpatizando com a sua causa, negavam saber do seu paradeiro, até que um sapateiro, que fora cliente de Clódio, o velho inimigo de Cícero, informou que ele estava na vila, apontando o caminho.

Em 7 de dezembro de 43 A.C., uma tropa de soldados chegou até o local, mas os escravos de Cícero conseguiram perceber com alguma antecedência a aproximação dos soldados que vinham atrás de seu amo e tentaram alcançar novamente o porto,  levando-o de liteira através de um caminho discreto pela mata.

Quando os soldados, liderados pelo tribuno Popillius Laena e pelo centurião Herennius chegaram na casa, não encontrando Cícero, começaram a interrogar os escravos, que disseram não saber o paradeiro do amo. Porém, um liberto, chamado Philologus, acabou revelando que Cícero tinha saído de liteira por uma trilha que levava ao mar.

Ao perceber a aproximação de Herennius e sua tropa, Cícero ordenou que os servos descessem a liteira, exclamando: “eu decerto fico aqui“,  e colocou a sua cabeça para fora, esticando o pescoço, dizendo:

“O que estás a fazer, soldado, não é nada correto; no entanto, mate-me corretamente”.

Na versão contada por Sêneca, o Velho (Suasoriae, I, 7), as últimas palavras de Cícero teriam sido:

“Vem, veterano, e se ao menos pode fazer isto certo, acerta o pescoço!”

Segundo o relato de Apiano, quem executou Cícero foi Popillius Laena, que por sinal não atendeu o desejo de Cícero, pois precisou de três golpes de espada para decepar a cabeça dele. Já de acordo com Plutarco, quem decepou a cabeça dele foi Herennius.

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(A chamada “Tumba de Cícero”, em um trecho da Via Ápia próximo à Fórmia. Acredita-se que se trata, na verdade, de um monumento erguido na Antiguidade,  no local onde Cícero foi assassinado).

De qualquer modo, os relatos concordam que a cabeça e as mãos de Cícero foram cortadas a mando de Antônio, que, ficou muito satisfeito quando as mesmas foram trazidas à sua presença no momento em que ele estava em um ato público no Fórum. Antônio, então, ordenou que as mesmas ficassem expostas durante vários dias nos Rostra (uma espécie de palanque no Fórum Romano, que tinha esse nome porque era adornado com os esporões dos navios inimigos capturados em batalha), um ato bárbaro que muito horrorizou os cidadãos da Urbs.

Consta que Fúlvia, a esposa de Marco Antônio, segundo o relato do historiador Cássio Dião, odiava tanto Cícero que, ao ver a cabeça decepada dele pregada nos Rostra, desceu de sua liteira, retirou o alfinete de ouro que prendia os seus cabelos e espetou-o na língua do grande Orador. Sem dúvida, esta foi uma abjeta vingança contra a arma mais poderosa do falecido inimigo…

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(Os Rostra, reconstrução virtual e estado atual)

CONCLUSÃO

Muitos anos após a morte de Cícero, de acordo com Plutarco, Otaviano, agora conhecido como o imperador Augusto, certa ocasião fez uma visita à casa de sua irmã Otávia, e encontrou um dos filhos dela lendo uma obra de Cícero. O menino, quando percebeu que Augusto tinha notado quem era o autor do livro, ficou amedrontado e tentou esconder o livro dentro da roupa. Augusto, porém, percebeu e pegou o livro das mãos do rapaz e, por alguns instantes ficou lendo-o. Depois, pensativo, o imperador devolveu o livro ao sobrinho,  dizendo:

“Um homem erudito, minha criança, um homem erudito…e que amava o seu país.”

Não obstante, o fato de Augusto não ter se oposto à decisão de Marco Antônio de incluir Cícero na lista de proscritos pesaria para sempre como um ponto negativo na biografia do primeiro imperador. Sabedor disso,  Augusto apontou Marco Túlio Cícero, o Jovem, filho de Cícero, como Cônsul Suffectus, para o ano de 30 A.C e foi ele quem anunciou ao Senado a derrota de Antônio na Batalha de Actium. Posteriormente, Augusto ainda nomeou-o Governador da Síria e da Ásia, e ali uma das medidas que o rapaz tomou foi ordenar a remoção de todas as estátuas de Antônio daquelas províncias.

A extensa obra literária e filosófica de Cícero é divida em: Poemas, Cartas (sobreviveram 931 cartas de Cícero), Discursos, Tratados de Retórica e de Oratória ( eu um deles, relaciona César como um dos maiores, senão o maior, orador romano) e Obras Filosóficas (entre as quais, “Sobre o Estado e as Leis”, “Sobre os deveres”, “Sobre as finalidades”, “Sobre a velhice”, “Questões Tusculanas”, “A Natureza dos Deuses” e “Sobre o Destino”).

Os autores antigos já reconheciam a importância de Cícero para a cultura latina. Plutarco,  por exemplo, em suas “Vidas Paralelas”, escreveu que:

“O trabalho e o assunto que ele escolheu for compor e traduzir os diálogos filosóficos e adaptar os termos da Lógica e da Física ( gregas) para o idioma romano. Pois, como se diz, ele foi quem primeiro deu nomes latinos para palavras como phantasia, syncatathesis, epokhe, catalepsis, atomon, ameres, kenon e outros termos científicos como esses, que, seja por metáforas ou outras formas de acomodação, ele teve sucesso em fazer inteligíveis e com significado para os Romanos”.

Assim, a influência do pensamento de Cícero perdurou séculos após a sua morte, sobretudo por introduzir os falantes de latim, mesmo após o fim do Império Romano, nos meandros da especulação filosófica grega, influenciando, por exemplo, até Santo Agostinho (o religioso admitiu que a leitura da obra de Cícero, Hortensius, hoje desparecida, foi fundamental para a sua conversão ao Cristianismo).

Com efeito, tamanho foi o volume da produção intelectual de Cícero que sobreviveu até os nossos dias, sobretudo em cartas e discursos, que muitos historiadores consideram que ele é a personalidade romana mais bem conhecida na intimidade, como por exemplo, afirmou a historiadora Mary Beard, da Universidade de Cambridge.

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(No livro SPQR, de Mary Beard, Cícero é o fio-condutor da narrativa sobre a História de Roma)

Até a recente operação da Polícia Federal brasileira, batizada de “Catilinária”, é um exemplo de quão longe chegou a influência da vida e do pensamento de Cícero.

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DIOCLECIANO – O RECONSTRUTOR DO IMPÉRIO ROMANO

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(Cabeça de Diocleciano, foto de Giovanni Dall’Orto)

Origem

Em 22 de Dezembro de 244 D.C., nascia em Salona, na província romana da Dalmácia, próximo à atual cidade de Split, na Croácia, Gaius Aurelius Valerius Diocletianus (Diocleciano).

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(Ruínas romanas de Salona)

O nome verdadeiro de nascença de Diocleciano era Diocles Valerius e ele era filho de um humilde escriba de um senador chamado Anulinnus. Com efeito, acredita-se que o pai de Diocleciano era provavelmente um escravo liberto ou então filho de um liberto.

Embora não saibamos nada sobre a infância e juventude de Diocleciano, é certo que ele alistou-se no Exército Romano e, como muitos conterrâneos de origem ilíria, foi sendo promovido até as mais altas patentes.

Assim, quando a História começa a mencionar a carreira de Diocleciano, ele já ocupava o importante posto militar de Duque da Moésia (Dux Moesiae), no baixo Danúbio.

Ascensão

Em 282 D.C., Diocleciano foi promovido pelo imperador Caro ao prestigioso posto de Comandante dos “Protectores Domestici”, o corpo de cavalaria de elite que funcionava como uma espécie de Guarda Imperial. Nesta condição, Diocleciano acompanhou Caro na guerra contra a Pérsia.

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Aclamação

Após a morte de Caro no Oriente, em 283 D.C. (segundo consta, ele foi atingido por um raio enquanto travava a bem sucedida campanha contra os Persas), os seus filhos Carino e Numeriano, assumiram o trono, sendo que o primeiro assumiu, informalmente, o governo da metade ocidental do Império, e o último, o do Oriente.

Porém, no decorrer do ano seguinte, Numeriano morreu, acometido de uma misteriosa inflamação nos olhos, quando voltava da Pérsia (algumas fontes levantem a suspeita de que ele foi assassinado pelo Prefeito Pretoriano, Lucius Flavius Aper (Áper).

Verdadeira ou não a participação de Áper na morte de Numeriano, o seu suposto crime não lhe trouxe o proveito esperado, pois, quando o exército imperial alcançou os subúrbios de Nicomédia (atual Izmir, na Turquia), um conselho de generais escolheu Diocleciano como sucessor, em 20 de novembro de 284 D.C.

Na presença das tropas reunidas para a sua aclamação, Diocleciano imediatamente acusou Áper de ter assassinado Numeriano e, em seguida, executou-o com a própria espada, na frente dos soldados estupefatos (há quem defenda que Diocleciano estava implicado na trama que assassinou o imperador e a morte de Áper teria sido na verdade uma “queima de arquivo”).

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Eliminando o rival

Ao assumir o seu primeiro consulado, Diocleciano escolheu como colega Lúcio Cesônio Basso, um experiente político de uma ilustre família romana, e, não, como seria natural, o outro imperador, Carino, o filho de Numeriano que reinava em Roma. Este ato representava uma na prática uma declaração de rompimento com Carino, prenunciando uma guerra civil.

Todavia, a disputa entre Carino e Diocleciano foi breve: Diocleciano avançou para o Oeste em direção à Itália e foi confrontado pelas forças de Carino na província da Moésia, no rio Margus, próximo a Viminacium, que ficava no território vizinho à atual Belgrado. No começo da batalha, Aristóbulo, o prefeito pretoriano de Carino desertou para o campo inimigo. Antecipando a derrota, os próprios soldados de Carino, mataram o seu imperador e aclamaram Diocleciano, em julho de 285 D.C.

Consolidando o poder

Contrariando o que se esperava de um imperador romano do século III D.C, o vitorioso Diocleciano não perseguiu os partidários de Carino, mantendo nos cargos muitos dos auxiliares deste, o que emulava, de certa forma a célebre clemência de Júlio César. Por sua vez, Aristóbulo foi mantido como Prefeito Pretoriano e Basso foi nomeado Prefeito Urbano de Roma.

Um dos primeiros atos de Diocleciano no trono foi escolher um colega para governar em conjunto com ele e o escolhido foi seu velho amigo e companheiro de armas, o general e conterrâneo de origem ilíria, Marcus Aurelius Valerius Maximianus (Maximiano). Embora os amigos compartilhassem a origem humilde, Maximiano, ao contrário de Diocleciano, era um homem muito mais áspero e implacável. Não obstante, Diocleciano mantinha sobre o amigo uma perceptível ascendência moral e intelectual. Assim,em 1º de abril de 286 D.C., Maximiano foi elevado do posto de “César” para  o de “Augusto”, que correspondia ao de Imperador.

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(Cabeça de Maximiano

Sintomaticamente, os dois Augustos concederam-se os títulos de “Júpiter” (Diocleciano) e de “Hércules”(Maximiano). Com efeito e não por acaso, os títulos e os atributos das divindades escolhidas visavam ilustrar o papel de ambos no Império Romano, onde Diocleciano aparecia como o sábio pai dos deuses e chefe do Olimpo e Maximiano como o guerreiro encarregado das tarefas militares. Desse modo, embora os dois fossem juridicamente iguais, Diocleciano mantinha para si, na prática, o status de “imperador sênior”.

Campanhas internas e externas

Diocleciano, desde logo o início do seu reinado, demonstrou uma certa rejeição à cidade de Roma. Muitos historiadores até acreditam que ele sequer chegou a visitar a velha capital quando de sua ascensão ao trono, ou, segundo outros, ele passou por lá tão brevemente que, em novembro de 285 D.C., ele já estava nos Bálcãs em campanha contra os Sármatas, os quais foram batidos, embora não esmagados.

Enquanto isso, Maximiano lidava com os bandos de fora-da-lei conhecidos como bagaudas, no norte da Gália. Submetidos estes, foi a vez dele combater a insurreição de seu subordinado Caráusio, o comandante da frota do Mar do Norte, que chegou a ser aclamado “Imperador da Britânia”. Porém, Caráusio estava firmemente estabelecido na Ilha e lá ele conseguiu resistir por sete anos, cunhando moedas em que ostentava o título de imperador e “irmão” de Diocleciano e Maximiano e louvava a concórdia (paz) entre eles.

Maximiano resolveu lutar contra os Alamanos, na fronteira do Reno, os quais ele combateu inicialmente sozinho, recebendo, posteriormente, a ajuda do colega Diocleciano. Essa campanha foi bem sucedida, e Diocleciano pode voltar sua atenção para o Oriente, onde os Persas criavam problemas crescentes.

Estabelecido em Nicomédia, as iniciativas de Diocleciano asseguraram a assinatura de um tratado de paz com os persas bastante favorável a Roma, que conseguiu instalar um rei-cliente no trono da Armênia. No Oriente, Diocleciano ainda combateu invasores árabes (sarracenos) na Palestina.

Na virada do ano de 290 D.C para 291 D.C, Diocleciano voltou para a Itália, onde encontrou com seu colega Maximiano em Milão, que tinha passado a ser a capital do Ocidente. 

Outras questões externas que ocupariam Diocleciano foram novos ataques dos Sármatas, um povo de origem iraniana, em 294 D.C., que foram derrotados de modo mais duradouro. O imperador decidiu reforçar a fronteira do Danúbio construindo uma cadeias de fortes abrangendo as cidades de Aquincum (atual Budapeste), Bononia (atual Vidin, na Bulgária), Ulcisia Vetera, Castra Florentium, Intercisa (atual Dunaújváros, na Hungria) e Onagrinum (atual, Begec, na Sérvia), que se tornaram parte de uma nova linha defensiva chamada de Ripa Sarmatica. Em 295 e 296 D.C., foi a vez dele dar combate à tribo bárbara dos Carpi, os quais também foram derrotados.

A Tetrarquia

A vivência da eclosão de crises simultâneas em diferentes partes do Império certamente contribuiu para estimular Diocleciano a idealizar a medida mais revolucionária do seu reinado: a chamada Tetrarquia, em 293 D.C.

Em 1º de março de 293 D.C., Diocleciano resolveu nomear o general Flávio Constâncio “Cloro”, genro de Maximiano e Prefeito Pretoriano da Gália, e recentemente encarregado da campanha contra Caráusio, como “César“, o que caracterizava, na prática, o posto de imperador “júnior”, e de herdeiro de Maximiano. Provavelmente, na mesma data ou um pouco depois, Diocleciano nomeou seu genro, o general Galério, marido de sua filha Valéria (Diocleciano não teve filhos homens), para o posto de César, passando a ser o seu herdeiro.

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Bloco de pórfiro entalhado com a representação dos Tetrarcas, trazido de Constantinopla pelos venezianos e colocado na lateral da Basílica de San Marco

Diocleciano considerava o Império Romano grande demais para ser governado por apenas um monarca, motivo pela qual instituiu a Tetrarquia, onde ele seria administrado por quatro governantes imperiais, sendo dois mais graduados, que teriam o título de “Augusto“, inicialmente com as respectivas capitais em Milão e Nicomédia, e dois, em plano um pouco inferior e subordinados a eles, nomeados “César“, instalados em Trier e Sirmium. A escolha dos “Césares”, pelos “Augustos”, visava assegurar uma sucessão tranquila e automática, teoricamente baseada no mérito, sendo que, quando o trono ficasse vago, o “César”, já previamente nomeado e experimentado na tarefa de governar, assumiria o posto vago de “Augusto” e, por sua vez,  este escolheria o novo “César”.

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(Embora a ilustração retrate Maxêncio, os trajes dele certamente são os mesmos que os tetrarcas deviam usar, incluindo o tradicional gorro ilírio,  costumeiramente utilizado pelos militares originários daquela região e que também foi retratado na escultura existente na Basílica de São Marcos).

Reformando o Império

Outra grande reforma administrativa promovida por Diocleciano foi a redivisão das cerca de 50 províncias romanas em 100 unidades menores, agrupadas em doze “Dioceses”, governadas por “Vigários”(Vicarii). Esses Vigários deixaram de ter funções militares, que foram transferidas para dezenas de “Duques” (Duces), mas retendo funções administrativas, judiciárias e fiscais. Dessa forma, Diocleciano tencionava diminuir a possibilidade de revoltas, tão frequentes durante o período imperial, dividindo e diminuindo o poder de que disporiam esses administradores.

Diocleciano também praticamente dobrou o número de funcionários públicos civis e também os efetivos do Exército Romano.

O consequente aumento da despesa pública gerado pelo aumento do tamanho do funcionalismo público e dos militares foi enfrentado com uma grande reforma no sistema tributário imperial. Após a realização de um abrangente e detalhado censo, foram estabelecidas duas unidades fiscais chamadas de “jugum” e de “caput”, a primeira levando em consideração uma determinada área de terra em função do tipo e da quantidade de produção agrícola que ela seria capaz de sustentar, num conceito um tanto parecido com o do módulo rural, e a segunda, o número de pessoas que neles viviam, podendo variar em função do sexo e idade. Em decorrência, os impostos passaram a serem calculados em função da quantidade de “jugera” e “capita” atribuídos a cada região ou cidade integrante do Império. E os impostos agora passavam a ser pagos não apenas em dinheiro, mas também em gêneros (conferir a esse respeito a obra The Later Roman Empire, de A.H.M. Jones)

Para combater a crescente inflação, Diocleciano determinou duas medidas:

1- Uma reforma monetária, estabelecendo três tipos de moeda: de ouro (aureus), de prata (argenteus) e de cobre (follis), fixando os percentuais de metais nas ligas com  as quais elas seriam cunhadas.

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(Um “Antoniniano” de Diocleciano, moeda anterior a reforma monetária, foto de Sosius11)

2- Entretanto, como a inflação não cedia, Diocleciano baixou o seu célebre “Édito de Preços Máximos”, em 301 D.C., que se tratava de uma verdadeira lei de congelamento de preços, bem similar às tão conhecidas dos brasileiros em tempos não tão distantes e que, da mesma maneira que as leis brasileiras, não deu certo, gerando desabastecimento…

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(lápide contendo parte do Édito de Preços Máximos, de Diocleciano)

Uma outra medida de Diocleciano, e que, para muitos historiadores, teria influência duradoura na Europa Medieval, foi a lei que obrigava aos camponeses e seus descendentes a trabalharem permanentemente nas terras agrícolas, tornando compulsória e hereditária esta atividade, além de outras profissões, entre as quais as de soldado, padeiro e até mesmo a função de membros das câmaras municipais, uma política que muitos veem como uma das origens do sistema feudal.

Diocleciano procurou assegurar a estabilidade política do trono promovendo uma verdadeira sacralização da pessoa do imperador, algo que ele fez, não por vaidade, mas para impedir as reiteradas conspirações para derrubar os imperadores romanos, tão comuns ao longo da história imperial. Assim, o cerimonial da corte tornou-se altamente ritualístico, estabelecendo-se como dever de todos que chegassem à presença do imperador prostrar-se no solo (“adoratio”), como se estivessem na presença de um deus. Do mesmo modo, somente o monarca poderia usar a cor púrpura. O título imperial de “Príncipe”, que tinha origem na expressão “primeiro senador”, foi substituído pelo de “Dominus” (Senhor).

O Conselho do Imperador (“Consilium”), que tradicionalmente tinha entre seus componentes algum senador ou figura pública, foi substituído pelo Consistório, um nome que denotava uma assembleia particular e privada.

A ênfase no culto ao imperador, decorrente da política acima citada, levou inevitavelmente à exigência de demonstrações públicas de devoção. Não surpreende, assim, que os Cristãos, que admitiam adorar apenas um Deus, tenham sido alvo de uma perseguição implacável por Diocleciano, decretada em 303 D.C, e que seria batizada pela Igreja Católica como “A Grande Perseguição”. Não obstante, não se pode afirmar que Diocleciano, pessoalmente, nutrisse ódio ou inimizade pelo Cristianismo.

Com efeito, as medidas de Diocleciano contra a fé cristã parecem decorrer mais de sua vontade dele ser o restaurador da velha grandeza do Império Romano, o que também incluía o fortalecimento da religião tradicional romana, do que a um ódio particular contra esta religião. Consta que o seu colega Galério é que era radicalmente avesso aos cristãos. Curiosamente, vale notar que, segundo algumas fontes, Valéria, filha de Diocleciano e esposa de Galério, era simpatizante do Cristianismo ou seria até mesmo cristã, o mesmo ocorrendo com sua mãe, Prisca.

Abdicação e aposentadoria

Em 20 de novembro de 303 D.C., Diocleciano finalmente visitou Roma para comemorar o vigésimo aniversário do seu reinado. Foi uma breve estadia, pois o imperador não gostou das maneiras pouco deferentes dos romanos. Um mês depois, ele viajou para Ravena, de onde partiu para uma campanha no Danúbio. Porém, a saúde de Diocleciano começou a piorar e ele resolveu voltar para Nicomédia, onde ficou recluso no palácio, o que fez circular o boato de que ele havia morrido.

Em março de 305 D.C., Diocleciano reapareceu em público. Poucos dias depois, Galério chegou à Nicomédia. Então, em 1º de maio do mesmo ano, Diocleciano reuniu os generais do Exército e anunciou que ele estava doente e que precisava descansar. E, num gesto inédito na história do Império Romano, o imperador comunicou que iria abdicar em favor de um herdeiro mais capaz: Com base no sistema da Tetrarquia, Galério o sucederia como Augusto e Maximiano também abdicaria, fiel e obedientemente, do trono, sendo sucedido por Constâncio Cloro.

A grande surpresa, porém,  foi quando se anunciaram quem seriam os novos Césares…Com efeito, todos pensavam que Maxêncio, filho de Maximiano, e Constantino, filho de Constâncio Cloro, seriam os novos Césares. Porém, os escolhidos foram Maximino Daia, sobrinho de Galério, e Severo, este um velho amigo de Galério. Portanto, a Tetrarquia, que mal começara, já nascia, assim, ameaçada em sua estabilidade pelo preterimento de dois candidatos naturais à sucessão. Tudo indica que isso decorreu da vontade de Galério, que era agora o verdadeiro homem-forte da Tetrarquia.

Diocleciano, após a abdicação, foi viver em seu espetacular palácio-fortaleza na cidade de Salona, em sua terra natal. Boa parte deste palácio ainda existe e, em seu vasto interior, nasceu a atual cidade de Split, na Croácia. De fato, Diocleciano parece ter encontrado a verdadeira felicidade cuidando de suas hortas e jardins. Assim, consta que, durante a guerra civil que logo eclodiu entre os seus sucessores e precipitou o fim da Tetrarquia, Diocleciano foi instado por populares a reassumir o trono, ao que ele teria respondido:

Se vocês pudessem mostrar ao imperador os repolhos que eu plantei com minhas próprias mãos, ele definitivamente jamais sugeriria que eu trocasse a paz e a felicidade deste lugar pelas tormentas de uma insaciável ambição”.

Morte

Diocleciano morreu em 03 de dezembro de 312 D.C., aos 67 anos de idade, em seu palácio em Split, sendo sepultado em um mausoléu octogonal que ele havia mandado construir no interior do mesmo.

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Reconstituição da aparência do Palácio de Diocleciano, em Split

Legado

O principal feito de Diocleciano foi conseguir dar estabilidade ao Império após um século de crises, guerras civis, derrotas militares e tumultos. Efetivamente, fazia mais de cem anos que um imperador não conseguia reinar 20 anos: A média no período tinha sido de cerca de três anos de reinado para cada imperador em 100 anos. Para isso contribuiu, certamente, a sacralização da imagem do Imperador, oficialmente estabelecida como “Dominus et Deos” (Senhor e Deus). Por isso, o reinado de Diocleciano é considerado um marco que divide a História do Império Romano entre os períodos do “Principado” ( a partir de Augusto, o primeiro imperador) e do “Dominado” (a partir de Diocleciano).

As linhas estabelecidas por Diocleciano, foram em grande parte mantidas por Constantino, que derrotou os demais contendores pelo espólio da Tetrarquia (sendo a mais notável exceção a política religiosa) e elas duraram até o final do Império do Ocidente, cerca de 200 anos mais tarde.

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