A BATALHA DE ZAMA – ROMA ESTÁ VINGADA

Estamos em 19 de outubro de 202 A. C….

Nas proximidades da cidade de Zama Regia, a aproximadamente 130 km ao sudoeste da antiga Cartago, e da moderna Túnis, os exércitos romano e cartaginês esperam na planície as ordens dos seus comandantes, Públio Cornélio Cipião e Aníbal Barca.

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Os participantes esperam que a batalha seja o round final da Segunda Guerra Púnica, que já durava 16 anos, um conflito que havia se iniciado com o ataque dos africanos a Sagunto, uma cidade ibérica aliada de Roma, e, ganhado proporções épicas quando o cartaginês Aníbal deixando a Espanha em uma marcha surpreendente, cruzou os Alpes e invadiu a Itália, ali derrotando, uma após uma, as legiões romanas enviadas contra ele.

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Prelúdio

Após a grande vitória de Aníbal na Batalha de Canas, no sul da Itália, em 216 A.C., na qual, adotando uma tática magistral, o exército cartaginês destruiu quatro exércitos consulares, matando mais de 60 mil soldados romanos em apenas um dia, muitos acreditavam que o cerco e captura de Roma seria uma questão de tempo. Aníbal, inclusive, confiava que as cidades italianas aliadas à Roma iriam passar para o seu lado, deixando os romanos em uma posição insustentável.

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Porém, os aliados de Roma se mantiveram fiéis. Diante da situação desesperadora, o Senado Romano resolveru nomear um comandante, com poderes ditatoriais, o general Quinto Fábio Máximo, que retomou a sua estratégia de guerrilha e de terra arrasada, mas evitando confrontos diretos com o multinacional exército cartaginês (uma vez que este, além dos povos púnicos, de origem fenícia e berberes, incluía ibéricos, gauleses e mercenários gregos).

Vale citar que Fábio Máximo, devido a estratégia que adotou, ganhou o apelido de “Cuntator“, ou seja, “protelador” (ou “contemporizador”), com o qual ele passaria a História. E de fato, a “estratégia fabiana“, naquele momento, permitiu que Roma continuasse a guerrear.

Não obstante, Aníbal perambulou à vontade durante quase 10 anos pela península italiana. Entretanto, o tempo trabalhava a favor dos romanos, já que, longe da pátria, com poucas fontes de reforços, o exército cartaginês aos poucos ia minguando e se enfraquecendo.

Até que, em 207 A.C., os cartagineses decidiram mandar para a Itália um importante exército que lutava na Espanha, sob o comando de Asdrúbal, irmão de Aníbal, tendo aquele também cruzado os Alpes para juntar-se às forças do irmão ilustre, com o fim de ambos darem o golpe final em Roma.

Desta vez, contudo, os romanos estavam melhor preparados: Asdrúbal acreditava que ele iria enfrentar apenas um exército consular, no Rio Metauro, na Úmbria. Entretanto, os romanos, secretamente, enviaram para  juntar-se a este mais um exército, iludindo Aníbal e Asdrúbal, sendo que este segundo exército romano conseguiu ficar escondido no acampamento do primeiro.

Consequentemente, valendo-se de sua oculta superioridade numérica, os romanos conseguiram derrotar a força expedicionária cartaginesa, na Batalha do Rio Metauro. Como um recado macabro, a cabeça de Asdrúbal foi cortada e enviada para seu irmão, no sul da Itália.

Assim, com a derrota de Asdrúbal no Rio Metauro, Aníbal perdeu definitivamente a oportunidade de liquidar a campanha na Itália: Ele não receberia mais reforços, e, com os recursos humanos que ele dispunha, o grande general era incapaz de derrotar Roma, muito embora os romanos ainda não se atrevessem a atacá-lo diretamente.

Concomitante ao quadro acima descrito, os exércitos romanos na Espanha eram comandados por Públio Cornélio Cipião. Sentindo-se confiante com a situação favorável aos romanos na Península Ibérica, após a vitória na Batalha de Ilipa, em 206 A.C., o prestigiado Cipião resolveu voltar para Roma, onde ele conseguiu ser eleito Cônsul (vide abaixo, busto de Cipião, encontrado na Vila dos Papiros, em Herculano).

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Como primeira medida no mais importante cargo executivo da República, Cipião propôs a estratégia de se mudar o teatro de operações da Itália para a África, defendendo um ataque direto a Cartago. Assim, ao invés de arriscar uma incerta vitória contra o temido Aníbal na Itália, onde uma nova derrota teria consequências desastrosas, Cipião acreditava que um desembarque nas costas africanas obrigaria o próprio cartaginês a vir em socorro da mãe-pátria.

Todavia, o Senado Romano, por influência de Fábio “Cuntator, opôs-se ao plano de Cipião, julgando-o muito arriscado.

Ocorre que as sucessivas vitórias de Cipião na Espanha deram-lhe muito prestígio junto ao povo. Então, o Senado, pressionado pela opinião pública, acabou autorizando a expedição idealizada por Cipião,  mas proibindo que os homens já conscritos, recrutados para os exércitos consulares, fossem utilizados por ele.

Assim, Cipião partiu, seguido, inicialmente, por apenas 7 mil voluntários, atraídos pelo seu prestígio, para a Sicília, onde ele ficou durante um ano treinando o seu exército para o confronto na África.

Em 203 A.C., com o seu novo exército pronto e bem mais reforçado por novas adesões, Cipião desembarcou próximo à cidade de Útica, na moderna Tunísia, onde  ele prontamente derrotou um exército cartaginês de cerca de 30 mil homens enviado para repelir a invasão romana.

Essa derrota inicial dos cartagineses consagrou a eficácia da estratégia de Cipião, pois em função dela o Senado de Cartago chamou Aníbal de volta para a África e pediu a paz aos romanos. Observe-se que o próprio general cartaginês foi favorável à capitulação, até porque os termos do tratado proposto pelos romanos, dada a presente situação militar dos cartagineses, eram bem razoáveis: Cartago permaneceria com todos os seus territórios na África, mas perderia suas colônias na Espanha, Sicília e Sardenha (que, de qualquer forma já estavam em mãos romanas), pagaria uma indenização e, finalmente, teria sua frota reduzida para apenas 40 galeras.

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Entretanto,  durante as tratativas; uma frota romana com suprimentos enviados para as tropas de Cipião acabou encalhando no golfo de Túnis e os cartagineses se apropriaram dos navios e da carga. Era, sem dúvida, uma óbvia violação da trégua, e, provavelmente, os cartagineses se sentiram encorajados  a fazer isso devido ao retorno de Aníbal, embora o grande general continuasse a favor do fim das hostilidades.

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Consequentemente, o Senado de Cartago votou pela rejeição do tratado e pela continuação da guerra. Obediente, Aníbal reuniu o máximo de tropas disponíveis e partiu para interceptar o exército romano, sendo o primeiro a chegar nas planícies próximas à Zama, seguido por Cipião

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A batalha

Consta que os dois maiores generais que o mundo havia conhecido depois da morte de Alexandre, o Grande, encontraram-se antes da batalha para negociar: Aníbal propôs que o tratado anterior fosse restabelecido. Contudo, Cipião respondeu que, agora, somente a rendição incondicional seria aceita pelo Senado Romano. A paz, portanto, era impossível, e ambos os  generais se retiraram para seus acampamentos.

Os Cartagineses tinham cerca de 36 mil soldados de infantaria, 4 mil cavaleiros e 80 elefantes, que deveriam ser os primeiros a atacar. Segundo as fontes, entre as tropas cartaginesas, havia 4 mil soldados macedônios cedidos pelo rei Filipe V, da Macedônia, monarca que já estava incomodado com o aumento do poder romano no Mediterrâneo.

Aníbal dispôs as suas tropas formadas em três linhas: as tropas de seu outro irmão Mago, retiradas da Itália, na primeira linha; as tropas domésticas alistadas para essa campanha, na segunda linha; e, na terceira, na retaguarda, os veteranos que vinham servindo com Aníbal desde a Itália. No flanco esquerdo, ficava a eficiente cavalaria númida e, no flanco direito, a cavalaria cartaginesa, menos experiente.

Já o exército romano tinha cerca de 29 mil homens e 6 mil cavaleiros, sendo a maioria deles númidas fornecidos pelo agora aliado rei Masinissa, que havia sido capturado por Cipião na Espanha e, tinha sido, pelos reconhecidos talentos diplomáticos do general romano, convencido a lutar contra Cartago. A forte cavalaria númida ficou na ala esquerda, e a cavalaria italiana na ala esquerda. Observe-se que os romanos sempre foram fracos em cavalaria, arma que vinha se mostrando muito importante nos combates anteriores,  e, portanto, o apoio de Masinissa era crucial.

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( A ordem de batalha em Zama, diagrama de Mohammad adil)

Preocupado com a ameaça representada pelos elefantes de Aníbal, Cipião, engenhosamente, dispôs as tradicionais três linhas das legiões em blocos espaçados (com exceção das primeiras, para que o estratagema não fosse percebido), como que criando avenidas por onde os elefantes passariam, e no meio das quais os enormes bichos poderiam ser atacados pelos lados. Para assustar os elefantes, Aníbal instruiu a cavalaria a soprar suas trombetas a plenos pulmões, fazendo um ruído ensurdecedor.

Quando a batalha começou, assim como previsto, parte dos elefantes se apavorou com o barulho e voltou em direção aos próprios cartagineses, criando confusão em suas linhas, e a outra parte passou pelos corredores sem causar danos de monta.

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Masinissa atacou a cavalaria númida cartaginesa, que já tinha sido desorganizada pela fuga dos elefantes, fugindo esta do campo de batalha. Por sua vez, Aníbal ordenou que a cavalaria cartaginesa remanescente desengajasse para atrair a cavalaria romana para fora do campo de batalha, com a intenção de impedir que esta fosse utilizada contra a sua infantaria.

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Cipião, então, ordenou que a infantaria romana avançasse. Como sempre, as linhas cartaginesas não conseguiam resistir muito tempo ao assalto dos legionários. Porém, ao contrário do que ocorrera na Batalha de Canas, os cartagineses agora não tinham mais o apoio da cavalaria para ajudar a montar a mesma armadilha usada naquela oportunidade: o falso recuo do centro da linha visando fazer os romanos serem cercados pelas tropas cartaginesas nos flancos da sua formação, e pela cavalaria cartaginesa na retaguarda. Aníbal, notando a situação difícil, ordenou que a sua segunda linha não permitisse o recuo da primeira, e a batalha recrudesceu com a massa de tropas envolvidas. Temendo ser flanqueado pelo número superior de tropas cartaginesas, Cipião ordenou que as legiões formassem agora uma só linha. Era uma manobra complicada que, em meio à confusão do campo de batalha, somente era possível devido ao excepcional treinamento e disciplina do legionário romano e ao excelente nível dos oficiais subalternos (centuriões graduados).

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Não obstante, a batalha restou indecisa até o momento que a cavalaria de Cipião retornou, após haver perseguido os inimigos, e atacou a infantaria cartaginesa pela retaguarda. Agora acossados pela frente e por trás, as linhas cartaginesas foram sendo desmanteladas e destruídas. No final, vinte e cinco mil soldados de Cartago foram mortos e o restante foi feito prisioneiro.

Epílogo

Aníbal conseguiu escapar com uma escolta de cavalaria para a cidade de Hadrumeto, e dali ele alcançou Cartago, onde ele recomendou ao Senado que se rendessem aos romanos, conselho que acabou sendo aceito, apesar de muita oposição. Deve ter sido um momento devastador para  quem, quando menino décadas antes, jurara ao seu pai, Amílcar Barca, perante um altar, que ele seria inimigo de Roma para sempre!

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Banido de Cartago, em 195 A.C., Aníbal foi asilar-se na corte de Antíoco III, rei da Selêucia e outro grande adversário de Roma. Quando Roma derrotou também esse reino, em 183 A.C., Aníbal fugiu para a Bitínia, onde, após o seu anfitrião, o rei Prúsias, ser intimado a a entregá-lo aos romanos, ele cometeu suicídio.

Públio Cornélio Cipião voltou para Roma onde ele celebrou um magnífico Triunfo e foi agraciado com o congnome “Africano“. Disputas políticas, entretanto, fariam com que o grande herói romano da Segunda Guerra Púnica fosse banido da vida pública, falecendo, coincidentemente, também em 183 A.C.

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Com a vitória, Roma tornou-se a potência suprema no Mediterrâneo ocidental,  governando a Península Itálica, a Sicília, a Sardenha, a Espanha e o sul da França. Assegurada a supremacia naquela vasta região, em poucos anos Roma seria capaz de derrotar, um a um, na Grécia, na Ásia e no Egito, os Estados helenísticos, herdeiros do vasto império de Alexandre, iniciando, por conseguinte, uma hegemonia política e cultural que duraria 500 anos, ou mesmo 1500, se contarmos o período relativo ao Império Romano do Oriente,  centrado em Constantinopla.

GERMÂNICO – O FAVORITO DA PLEBE

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Em 10 de outubro de 19 D.C, aos 33 anos de idade, morreu, em Antióquia, na província romana da Síria, Germanicus Julius Caesar (Germânico), oficialmente vítima de uma doença misteriosa, uma morte sobre a qual recaíram, no entanto, suspeitas de que tenha se tratado, na verdade, de um assassinato por envenenamento.

Germânico era filho de Nero Cláudio Druso, o irmão do futuro imperador Tibério, e de Antônia. a Jovem, filha do casamento do triúnviro Marco Antônio com Otávia, irmã do imperador Augusto. Ele provavelmente recebeu em nascença o mesmo nome do pai, e, somente anos depois recebeu o cognome “Germanicus”, que ele herdou de seu pai, que o havia recebido como homenagem às vitórias obtidas contra as tribos germânicas.

Nascido em 24 de maio de 15 A.C, Germânico, por ser sobrinho-neto de Augusto, o primeiro imperador, recebeu esmerada educação, suficiente para que ele, ainda jovem, conseguisse traduzir e publicar um hermético poema sobre Astronomia do poeta grego Arato. O jovem Germânico também foi treinado nas artes da Oratória, sendo reconhecidamente um ótimo orador, um talento que ele utilizaria para angariar muita simpatia entre o povo e as tropas, durante a sua vida pública.

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( A família imperial no reinado de Augusto retratada no painel sul da Ara Pacis. Acredita-se que o menino pequeno seja Germânico, por volta de 13 A.C.)

Após a morte prematura dos dois netos de Augusto, Lúcio César e Caio César, ocorridas, respectivamente em 2 D.C. e 4 D.C., o velho imperador viu-se compelido a adotar o seu enteado Tibério, que era filho natural e primogênito da imperatriz Lívia Drusila, e, já, então, um homem maduro. Porém, Augusto, que tinha simpatia por Germânico, exigiu que Tibério, por sua vez, adotasse o rapaz, visando assim, garantir alguma continuidade sanguínea para a linhagem dos Júlios, mesmo que Tibério já tivesse seu próprio filho natural, Druso Júlio César, que tinha apenas dois anos a menos do que Germânico

Após ocupar o cargo de questor, no ano de 7 D.C., com apenas 22 anos de idade e participar com sucesso da repressão à chamada Guerra Batoniana, uma importante revolta nas províncias da Panônia e da Ilíria, Germânico foi nomeado Cônsul para o ano de 12 D.C.. Devido ao seu bom desempenho e aptidão para os assuntos militares, o Senado deu a Germânico, em 14 D.C., o importante comando para lidar com a guerra contra as tribos germânicas que, lideradas por Armínio, tinham, cinco anos antes, destruído as três legiões de Públio Quintílio Varo, na Batalha da Floresta de Teutoburgo.

No início de seu comando na Germânia, Germânico teve que lidar com uma grande rebelião do exército do Reno, onde ele enfrentou risco à sua própria integridade pessoal e chegou a ter que mandar a família se refugiar por medo de represálias dos soldados. Nesse episódio, ficou evidente o talento de relações-públicas de Germânico, que, além de obter a admiração dos soldados pelos seus méritos pessoais, cativou a afeição das tropas ao usar o seu jovem filho, Gaius, como mascote das legiões, apresentando-o, ainda menininho, fardado com vestimenta militar completa, inclusive sandálias de legionário (caligae), motivo pelo qual o garoto viria a ser conhecido como “Caligula” (sandalinha).

Apaziguadas as tropas, Germânico, em três anos de campanha, derrotou várias vezes os germanos, conseguiu recuperar dois dos três estandartes das legiões de Varo, enterrou os corpos dos romanos mortos naquele desastre, e, finalmente, derrotou o próprio Armínio, apesar deste ter conseguido fugir, evitando a captura. Não obstante, Germânico  conseguiu capturar a esposa do chefe bárbaro, Thusnelda, e o filho dele, Thumelicusque foram trazidos para Roma.

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(“Germânico Ante os Restos das Legiões de Varo”, quadro de  Lionel Royer, 1896)

Com o prestígio nas alturas, Germânico foi chamado por Tibério à Roma com a finalidade de celebrar o seu Triunfo, o que ocorreu em 26 de maio de 17 D.C., ocasião em que desfilaram, acorrentados, Thusnelda e Thumelicus. 

Germânico agora era considerado um verdadeiro herói romano e era adorado pela plebe romana: afinal, ele era jovem, bonito, inteligente, simpático e chefe de uma família modelo, pois teve seis filhos com a sua esposa, Agripina, a Velha, que era nada menos do que  neta do Divino Augusto! Sem dúvida, era um grande contraste com o imperador Tibério, que não tinha parentesco sanguíneo nem com Augusto, nem com Júlio César, e além de velho,  era tido como distante,  frio, sovina e antipático e cuja percepção popular era de que ele devia o trono às maquinações de sua mãe, Lívia Drusila.

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(Estátua de bronze de Germânico, Museo civico di AmeliaAmelia, Umbria, Itália).

Muitos acreditam que Tibério já estava alarmado com a popularidade do sobrinho entre as tropas e, por isso, ele quis colocar um fim na campanha, convocando Germânico para a realização da procissão triunfal. Para o historiador romano Tácito, isso foi uma atitude prejudicial de Tibério, pois faltava pouco para que Germânico submetesse toda a Germânia.

No final do ano de 17 D.C., Germânico foi enviado por Tibério em uma missão pelas províncias do Oriente, que enfrentavam vários problemas. Foi uma viagem triunfal pelas cidades helenísticas, onde Germânico foi aclamado por onde passou. Nessa viagem, Germânico comandou a anexação dos reinos da Capadócia e da Comagena, que viraram províncias romanas.

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No Egito, Germânico adotou medidas para minorar a escassez de víveres que assolava a grande cidade de Alexandria. Como o Egito era uma província sob a administração direta do Imperador, através de um Legado, os atos de Germânico ali despertaram certa insatisfação entre os administradores nomeados por Tibério,  e isso acabou acarretando uma série de intrigas e suspeitas contra o primeiro.

Com efeito, de volta à Antióquia, na Síria, Germânico entrou em atrito com o governador daquela província, Cneu Calpúrnio Pisão, que anulara os atos que ele tinha praticado. Sentindo-se desafiado, Germânico ordenou que Pisão se deslocasse até Roma e se apresentasse a Tibério.

Foi durante essa crise, então, que Germânico adoeceu. Durante seu estado enfermo, desconfiado que Pisão lhe tivesse lhe administrado algum veneno ou usado magia negra  contra sua pessoa, Germânico chegou a escrever uma carta ao governador, renunciando formalmente à sua amizade. Pouco depois, o jovem sobrinho do imperador deu seu último suspiro, em  10 de outubro de 19 D.C.

Houve uma grande comoção geral no Império e Pisão foi acusado de ter envenenado Germânico. Em resposta à indignação popular, Pisão foi levado para Roma para ser julgado. Todavia, enquanto ele aguardava o julgamento, e o caso era investigado, Pisão foi encontrado morto na prisão, onde ele teria se suicidado. Para muitos, a morte do réu foi na verdade uma “queima de arquivo” e o imperador virou o principal suspeito de ter ordenado o envenenamento, juntamente com sua mãe, Lívia Drusila.

Quando a notícia da morte de Germânico chegou à Roma, houve indignação popular e muitos suspeitaram de que Tibério, ou sua mãe, Lívia, que era amiga de Plancina, a  esposa de Pisão, poderiam estar por trás do suposto envenenamento. Tibério ordenou uma breve investigação e Pisão foi preso e enviado para ser julgado pelo Senado. A acusação de envenenamento foi logo arquivada, mas a de traição foi mantida. Durante o julgamento, Pisão foi encontrado morto em sua cela, supostamente tendo cometido suicídio. Obviamente, o fato contribuiu para aumentar as suspeitas sobre Tibério e muitos consideraram que a morte de Pisão teria sido uma “queima de arquivo”.

Apesar do suicídio de Pisão, o julgamento dele prosseguiu e o veredito foi a sua condenação pelo crime de “maiestas“, ou lesa-majestade, em 20 D.C.,  delito que, pela primeira vez em Roma, foi considerado como abrangendo o imperador e a “casa imperial”, já que Germânico, enquanto filho adotivo e herdeiro imperial, teria tido a sua autoridade desobedecida por Pisão. Essa novidade mostra que a transição da República para a Monarquia estava bem avançada, apesar das aparências que Augusto e Tibério procuraram manter.

O caso da morte de Germânico mobilizou tanto a opinião pública romana- segundo Suetônio, vários muros foram pichados com a frase: “Dê-nos Germânico de volta!” – que para acalmar os ânimos Tibério foi obrigado a tornar públicas as atas do julgamento de Pisão e enviar cópias das conclusões do Senado para várias cidades importantes espalhadas pelo império.

Sabemos disso graças à descoberta, nos anos 80 do século XX,  próximo à Sevilha, na atual Espanha, de tábuas de bronze contendo o texto do Senatus Consultum de Gn. Pisone Patre, que, basicamente, vem a ser um decreto do Senado Romano contendo a versão oficial sobre o assunto (cf. https://scholar.princeton.edu/sites/default/files/SCCPP_0.pdf). Entre outras coisas, o texto confirma o relato de Tácito de que a imperatriz Lívia intercedeu para que sua amiga Plancina fosse perdoada, fato que, se não pode ser considerada prova de culpa da imperatriz, também não deve ter contribuído para afastar as suspeitas…

Segundo as fontes, Agripina, a Velha, a esposa de Germânico, jamais aceitou a versão oficial e, sempre que ela tinha uma oportunidade, demonstrava que suspeitava de Tibério.

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(Quadro “A Morte de Germânico, de Nicolas_Poussin, 1627)

Germânico recebeu muitas honras póstumas e vários monumentos e estátuas foram erguidos em sua honra. O seu filho Calígula, depois de se tornar imperador, chegou a mandar renomear o mês de setembro como “Germanicus”, em honra do pai, mas a homenagem não vingaria. Já o neto dele, Nero (Lucius Domitius Ahenobarbus), que era filho de sua filha, Agripina, a Jovem, seria o último imperador da dinastia dos Júlio-Cláudios.