TERMINÁLIA

TERMINÁLIA

#terminalia

No dia 23 de fevereiro, o último dia do ano no calendário romano primitivo, celebrava-se o festival em honra do deus Terminus (Término),  a divindade que zelava pelas fronteiras e pelos limites das propriedades particulares e, naturalmente, pela harmonia entre os vizinhos.

Ao contrário da maior parte dos deuses do panteão romano, Término  não era representado por estátuas antropofórmicas, e sim pelos marcos de pedras que marcavam os limites dos terrenos.

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Essas pedras eram ungidas solenemente e adornadas com coroas de flores e encravadas em um buraco, o qual também tinha sido consagrado com o sangue de um animal sacrificado, e onde se colocavam vinho e outras oferendas.

Todo dia de fevereiro, os vizinhos cujas propriedades eram delimitadas por Término encontravam-se e sacrificavam um porco ou um cordeiro, cujo sangue salpicava o marco.

Em Roma, a Terminália, que era como se chamava o festival público em homenagem a Término, ocorria no sexto marco da estrada para Laurentum, cidade próxima à Òstia, que nos primórdios da fundação da Cidade, marcava o seu limite.

AS LUPERCAIS

AS LUPERCAIS

Entre os diversos festivais religiosos celebrados pelos romanos, as Lupercais ou Lupercalia incluem-se entre os mais primitivos, misteriosos e, não obstante, duradouros.

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O festival durava três dias, a partir dos Idos de fevereiro (dia 13) e terminava no dia 15.

A maior parte do que se sabe acerca da Lupercália nos foi transmitido pelo historiador Tito Lívio.

Vale observar, contudo, que é bem provável que o festival seja anterior à fundação de Roma,  incluindo-se entre os costumes dos povos itálicos ancestrais. O seu nome indica uma associação com o animal lobo (lupus) e acredita-se que ele pode ter surgido como um ritual para afastar os lobos,  que no passado remoto infestavam as florestas do Lácio, dos rebanhos dos pastores.

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Depois de dois dias de festa e procissões, no dia 15 de fevereiro, dois grupos de rapazes  que para o evento recebiam o nome de “Luperci“, todos pertencentes a famílias patrícias, partiam para a entrada de uma caverna na colina do Palatino, chamada de “Lupercal“, lugar associado com os lendários gêmeos fundadores de Roma, Rômulo e Remo. No local, eles sacrificavam bodes e um cachorro (vítima inusitada para os romanos).

O sangue que ficava na faca devia ser passado na testa de dois dos Luperci,  bem como em pedaços de lã encharcados de leite. Nesse momento, ambos deveriam rir, ainda que não soubessem o motivo.

Então, os rapazes deveriam entrar na caverna e fazer um banquete, acompanhado de bastante vinho. Ao saírem da caverna, no frio inverno de fevereiro, os rapazes, que desde o início da cerimônia  estavam nus,  a não ser por um cinto de pele de cabra, levavam tiras, também de pele de cabra, passando no meio da multidão reunida para o evento, que os assistia correr ao longo de um percurso marcado no sopé do Palatino, correspondendo a um dos primitivos ajuntamentos romanos.

Na corrida, os jovens açoitavam as pessoas da multidão, especialmente as mulheres, pois acreditava-se que aquelas chicotadas tornavam as mulheres mais férteis, curando as que fossem estéreis. A finalidade da corrida em torno do Palatino também era a de afastar os maus espíritos dos simbólicos limites da antiga povoação.

Provavelmente, os romanos, já no final da República e durante o Império, nem deviam mais saber exatamente a origem da cerimônia, mas a mesma estava tão arraigada na memória coletiva que ela continuou sendo celebrada, até mesmo depois do final do Império Romano, somente tendo sido proibida por um decreto do Papa Gelásio, que reinou entre 492/496 D.C.

Para alguns, as Lupercais teriam sido o embrião do nosso moderno Carnaval.

Consta, inclusive,  que o triúnviro Marco Antônio, quando já era um homem público, uma vez participou da celebração nu, como um Lupercal, sendo muito criticado por isso e inclusive sendo ridicularizado por Cícero. Foi na Lupercália que Antônio também ofereceu uma tiara de ouro a César, por três vezes, sendo recusada pelo Ditador, supostamente sem muita convicção, cena que teria sido um dos pretextos para a conspiração que resultou no seu assassinato, com o objetivo de evitar que ele virasse rei.

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O episódio foi eternizado por Shakespeare. no começo da peça “Júlio Cèsar“, quando César pede a Antônio que chicoteie Calpúrnia para livrá-la da infertilidade.

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