TIBÉRIO – UM IMPERADOR RELUTANTE

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Tiberius,_Romisch-Germanisches_Museum,_Cologne foto Carole Raddato(Cabeça de Tibério, Museu Romano-Germânico, Colônia, foto de Carole Raddato)

NASCIMENTO, INFÂNCIA E JUVENTUDE

Em 16 de novembro de 42 A.C., nasceu Tiberius Claudius Nero (Tibério), membro de uma das famílias mais tradicionais da nobreza romana, cujos ancestrais tinham ocupado os mais importantes postos desde o início da República, desde o longínquo ano de 494 A.C.. O menino recebeu o mesmo nome de seu pai, que havia sido Cônsul, no ano de 50 A.C.

Tibério era filho de Lívia Drusila, que, poucos anos após se divorciar de seu pai, mesmo estando grávida de seu irmão, Druso, o Velho, casou-se, em 39 A.C, com Otaviano, o herdeiro de Júlio César, sendo que seu novo marido, em uma década, tornaria-se o primeiro imperador romano, com o nome de Augusto.

Em 33 A.C., o pai de Tibério faleceu e foi ele quem fez o discurso fúnebre na tribuna dos Rostra, no fórum romano, diante da multidão, quando tinha apenas 9 anos de idade.

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(Cabeça de Lívia Drusila, molde do original da Glipoteca Ny Carlsberg, foto de Giovanni Dall’Orto)

O casamento de Lívia com Augusto fez Tibério entrar no círculo familiar do imperador, e, após a morte do pai dele, ele passou a viver na casa de Otaviano e Lívia, no Palatino, onde recebeu esmerada educação dos melhores tutores, como por exemplo, Teodoro de Gadara, que lhe ensinou Retórica.

Quando Otaviano celebrou o triunfo pela vitória contra Cleópatra (e Marco Antônio) pelas ruas de Roma, em 29 A.C., o menino Tibério, então com cerca de doze anos, recebeu a distinção de conduzir, ao lado de Marcelo,  a quadriga triunfal na qual ia o seu padastro.

A posição de Tibério na família imperial foi ainda mais reforçada quando ele casou-se com Vipsânia Agripina, filha do maior colaborador e amigo de Augusto, o general Marco Vipsânio Agripa, então cotado para ser o sucessor. Arranjado ou não este casamento, o fato é que Tibério e a esposa apaixonaram-se. Eles tiveram dois filhos: Druso, o Jovem, em 14 A.C., e uma outra criança, que morreu precocemente.

 (Tibério e Vipsânia Agripina)

Por sua vez, Augusto e Lívia não tiveram filhos e a única descendente do imperador era sua filha Júlia, nascida do seu casamento anterior com Escribônia, e que havia se casado com Agripa.

Porém, Agripa morreria em 12 A.C., deixando Júlia viúva com dois filhos pequenos, Caio César e Lúcio César, que já haviam sido adotados por Augusto em 17 A.C., fato que colocou os meninos na condição de prováveis sucessores do trono. Vale notar que essa adoção ocorreu após a morte do sobrinho e predileto de Augusto, Marcelo,  filho de sua irmã, Otávia, a  Jovem, ocorrida em 23 A.C., o que também demonstra como Augusto ia lidando com a questão da sucessão, em função dos imprevistos.

A condição de enteado do imperador fez com que que Tibério, aos 17 anos de idade, inciasse a sua carreira pública como Questor, apesar de não ter a idade legalmente exigida para o cargo. Nessa função, Tibério demonstrou competência para lidar com um problema de abastecimento de grãos, em Óstia.

O progresso de Tibério na carreira das magistraturas foi rápido e, em 13 A.C., novamente antes de ter a idade legal, ele foi escolhido Cônsul.

ASCENSÃO DE TIBÉRIO

Em 11 A.C, Augusto, chegou à conclusão que seu enteado Tibério, em caso de uma eventualidade (o já quinquagenário imperador tinha ficado gravemente doente onze anos antes), seria um bom candidato para ocupar o trono, pelo menos até a maioridade dos seus netos, Caio César e Lúcio César. Com essa finalidade, e provavelmente incentivado por Lívia, Augusto “pediu” (na verdade, provavelmente, ele deve ter ordenado) que Tibério se divorciasse de  sua adorada Vipsânia e se casasse com sua filha viúva,  Júlia.

Tibério, contrariado, teve que obedecer e casou-se com Júlia, tornando-se, agora, além de enteado, genro do imperador. Porém, segundo as fontes, certa vez, após o divorciar-se de Vipsânia, Tibério encontrou-a em algum evento social, ocasião em que copiosas lágrimas desceram pelo rosto dele, obrigando-o a se retirar do local e ir para casa.  E, ainda de acordo com o relato, algumas testemunhas teriam ouvido, no trajeto, Tibério implorar  aos céus, insistentemente, pelo perdão da ex-mulher. Foi uma cena  que certamente inspirou preocupação na família imperial, pois Suetônio conta que “foram tomadas precauções para que Tibério nunca mais tivesse a oportunidade de encontrar a ex-mulher novamente“.

Enquanto isso, Tibério prosseguiu a sua carreira no serviço público como advogado, atuando em defesa de diversas cidades gregas no Senado e também como acusador público de um senador que havia conspirado contra Augusto.

Depois disso, Tibério destacou-se na carreira militar e acabou se revelando um grande general. Ele comandou campanhas bem sucedidas na Panônia e na Germânia, estas muito bem descritas pela historiador Veléio Patérculo, que serviu sob as ordens dele. Foi Tibério o primeiro romano a descobrir a nascente do Rio Danúbio e ele também marchou à testa de seu exército até o Rio Elba, um feito notável. Assim, as vitórias de Tibério, na Germânia, abriram o terreno para estabelecer esta região como província romana, um projeto que, contudo, seria interrompido pelo Desastre de Varo, que narramos em uma das primeiras postagens de nossa página.

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(Campanha de Tibério na Germânia)

Graças a essas vitórias, Tibério foi o primeiro romano a receber os “ornamentos triunfais“, inaugurando esta nova forma de reconhecimento aos generais vitoriosos, já que os Triunfos, agora, passavam a ser reservados apenas ao Imperador, em pessoa. E, em 7 A.C., Tibério foi designado Cônsul e recebeu, em 6 A.C., o “Poder Tribunício” (Poder que conferia ao magistrado o poder de vetar todos os atos dos demais magistrados, transferido do cargo de Tribuno da Plebe ao Imperador, por Augusto, e que, ao longo dos anos, se tornara praticamente um reconhecimento da posição do receptor como a pessoa mais importante no Império, depois do Imperador).

Com os despojos obtidos na guerra contra os Germanos, Tibério encarregou-se de restaurar o Templo da Concórdia, no Fórum Romano, que só seria completado em 10 D.C.

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(Reconstrução do Templo da Concórdia, no Fórum, restaurado por Tibério – autor Lasha Tskhondia)

TIBÉRIO NA BERLINDA

Porém, foi após receber essas honrarias e liderar outra bem sucedida campanha, contra os Marcomanos, que Tibério, em 6 A.C, inusitadamente auto-exilou-se na ilha de Rodes. Há muitos debates sobre este misterioso exílio:

Em primeiro lugar, parece claro que Augusto nunca simpatizou muito com o reservado e frio Tibério, somente tendo-o favorecido por instigação da mãe dele, a sua influente esposa Lívia, e pela necessidade de ter um sucessor da família à mão, em caso de imprevisto.

Em segundo lugar, mas talvez mais importante, Caio César e Lúcio César, os já mencionados netos de Augusto,  estavam crescendo. O primeiro, inclusive, já havia sido designado, naquele ano, para ser cônsul quando alcançasse os 20 anos, embora ele ainda tivesse apenas 14 anos na ocasião.

Assim, Tibério provavelmente deve ter sentido a sua posição na sucessão imperial enfraquecida e decidiu retirar-se voluntariamente das intrigas pela sucessão do já quase sexagenário Augusto. Segundo Suetônio, essa explicação teria sido dada, posteriormente, pelo próprio Tibério, porém atribuindo-a ao nobre propósito de não ofuscar  e deixar o terreno livre para os dois rapazes.

Outro motivo que se cogita para o auto-exílio de Tibério em Rodes é o fato de que ele poderia estar se sentindo humilhado pela notória infidelidade da sua esposa Júlia,  a quem se atribuía publicamente a participação em vários episódios de adultério e até de orgias.

Consta que Augusto, sincera ou fingidamente, tentou impedir Tibério de partir, somente permitindo a viagem após uma curta greve de fome do genro.  Entretanto, depois da chegada de Tibério à ilha, o imperador passou a preferir que ele permanecesse longe de Roma e a situação de Tibério passou a ser a de um exilado de facto. Há até relatos de que ele chegou a ser hostilizado por algumas pessoas, que percebiam a situação dele como a de alguém que caiu em desgraça.

Para piorar, Augusto baniu Júlia de Roma, por causa dos adultérios, e decretou, em nome de Tibério, o divórcio de ambos.

Mas o destino,  que, segundo a suspeita de muitos, de vez em quando era ajudado por sua mãe Lívia,  parecia sorrir para Tibério, pois Caio César e Lúcio César morreriam no espaço de dois anos, entre 2 e 4 D.C.: Lúcio, por doença, aos 18 anos de idade, e  Caio, por ferimentos recebidos em batalha, na Armênia, aos 23 anos.

Consta que logo depois da morte de Lúcio César, ocorrida em 20 de agosto de 2 D.C., Augusto acabou cedendo aos apelos da imperatriz Lívia, e os do próprio Tibério, e, depois de oito anos de exílio, autorizou a volta do seu enteado para Roma, onde, após o retorno, ele se manteve como um cidadão privado, afastado de qualquer função pública.

Segundo uma passagem citada por Cássio Dião, em Rodes, Tibério estava acompanhado do famoso astrólogo Trasyllas, que, ao ver no horizonte um navio, teria previsto que ele trazia a mensagem de Augusto e Lívia chamando Tibério de volta à Roma. Prestigiado com o acerto da sua previsão, Trasyllas acompanharia Tibério, que acreditava piamente nos seus poderes de adivinhação, durante boa parte da sua existência.

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(Cabeça de Lúcio César)

Em  21 de fevereiro de 4 D.C., Caio César morreu na província romana da Lícia, no Oriente, após uma prolongado agravamento de sua saúde decorrente de um ferimento sofrido no final do ano 2 D.C., em um ataque traiçoeiro na Armênia, quando ele liderava uma campanha visando pacificar o referido reino-cliente de Roma. Alguns historiadores, como Tácito e Dião Cássio, suspeitam de que Lívia estaria por trás da morte dos dois rapazes, com o objetivo de afastá-lo do caminho de seu filho Tibério ao trono.

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(cabeça de Caio César)

HERDEIRO DO TRONO

Agora sem os seus dois herdeiros consanguíneos mais próximos, Augusto, naquele mesmo  ano de 4 D.C., no dia 26 de junho, adotou formalmente Tibério como herdeiro e sucessor, juntamente com seu último neto vivo, Agripa Póstumo, que era o irmão mais novo dos falecidos e tinha 16 anos de idade. E Tibério também recebeu, mais uma vez, o Poder Tribunício.

Augusto, contudo, ainda não havia abandonado totalmente a esperança de que um parente de sangue da gens Julia viesse a herdar o trono, pois o imperador exigiu, ao adotar Tibério, que este, por sua vez, adotasse o jovem Germânico, que era neto de sua irmã, Otávia, a  Jovem, fruto do casamento desta com o Triúnviro Marco Antônio.

Porém, em uma clara demonstração de que a posição de Tibério agora era inconteste,  em 7 D.C., Augusto ordenou o banimento de Agripa Póstumo, que foi exilado para a remota ilha de Planásia, na costa italiana. Vale citar que, de acordo com alguns relatos, o rapaz tinha o temperamento inconstante e era dado a ataques de fúria, um indício de que ele não estava apto para ser imperador.

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(Cabeça de bronze de Agripa Póstumo, Louvre, foto de Mbzt)

 

Depois disso, Tibério recebeu comandos militares proconsulares (imperium) para combater os inimigos do império na Panônia e na Germânia (ele teve que lutar contra os bárbaros germânicos que haviam destruído as 3 legiões de Varo). Em 13 D.C., Tibério recebeu poder consular compartilhado com Augusto, tornando-se, na prática, coimperador.

TIBÉRIO IMPERADOR

Assim, com a morte de Augusto, ocorrida um mês antes dele completar a avançada idade de 76 anos, em 19 de agosto de 14 D.C, a sucessão em favor de Tibério foi praticamente “automática”.

Mesmo assim, algumas fontes relatam que Lívia teria escondido a morte do imperador, até que Tibério, que estaria na Dalmácia, chegasse à Roma. Já outras fontes, segundo Cássio Dião, narram que Tibério chegou a receber pessoalmente algumas instruções e conselhos para o seu governo do próprio Augusto, em seu leito de morte.

Concomitantemente ou logo depois da morte de Augusto, Agripa Póstumo foi prontamente assassinado em Planásia. Tibério foi acusado de ser o mandante, mas negou veementemente essa acusação no Senado. Até hoje há discussão se ele de fato foi o responsável, ou se isso ocorreu por alguma ordem anterior de Augusto. Seja como for, essa medida extrema logo demonstrou ter alguma razoabilidade, pois, pouco tempo depois do fato, apareceu um impostor fazendo-se passar por Póstumo, e o tratante chegou a angariar algum apoio entre o populacho, causando tumulto, até ser capturado e executado.

Contudo, não havia precedentes para regular as relações do Príncipe com o Senado, já que Augusto, em seu longo reinado de quarenta anos, sem contar o tempo em que ele esteve à frente da República como Triúnviro, e período durante a guerra civil contra Marco Antonio ( cerca de 56 anos ), sempre fizera questão de se apresentar como um magistrado da antiga República que somente ocupou uma posição excepcional em decorrência de crises e guerras civis.

O fato é que o já citado temperamento frio, desconfiado, introvertido e orgulhoso de Tibério não facilitou em nada a tarefa de conciliar-se aquilo que, na prática, era uma monarquia, com uma assembléia representativa de uma elite aristocrática que  acreditava ter direito a administrar o Estado.

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Um episódio, relatado pelo historiador Tácito, já demonstra essas dificuldades:

Em uma das primeiras sessões do Senado após a sucessão , quando os senadores discutiam quais os cargos, títulos, poderes e províncias, entre todos aqueles que Augusto tinha paulatinamente reunido sob o seu cetro, iriam ser conferidos a Tibério, o futuro imperador fingia não querer tamanho fardo sobre suas costas, insinceramente recusando alguns deles, que sugeria que fossem conferidos ao Senado. Porém, essa relutância de Tibério, que foi considerada por muitos apenas uma atuação teatral, alongou-se por tanto tempo que o senador Asínio Galo, já impaciente com a encenação, perguntou, com ironia:

“Que parte do Império, então, ó César, vós quereis que vos seja confiada?”

Esse impasse durou praticamente um mês. Somente na sessão do dia 18 de setembro de 14 D.C., Tibério seria oficialmente aclamado imperador, sendo a demora devida não à resistência do Senado, mas à bizarra relutância do próprio imperador. Ele, por exemplo, recusou os títulos de “Augusto” e de “Pai da Pátria“.

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Ao contrário de Augusto, que, sabia muito bem manobrar seus apoiadores no Senado para que a vontade dele fosse imposta sob uma aparência de naturalidade e de preservação das tradições republicanas, Tibério demonstrou não ter tato nem astúcia para as sutilezas da política. De fato, ele quase sempre mostrava-se ambíguo e enigmático para os senadores, parecendo esperar que os mesmos adivinhassem o que ele realmente queria. Todavia, Tibério não assimilava bem quando havia oposição aos seus desígnios e isso, pouco a pouco, foi criando uma atmosfera de intrigas e de suspeita.

Uma passagem de Tácito exemplifica o desconforto e o desprezo que Tibério parecia sentir com relação ao cargo de imperador e às maneiras dos senadores. Certa vez, ao deixar um evento, ele foi cercado por senadores, que começaram a fazer reverências e pedidos. Tibério, então, teria comentado com um de seus acompanhantes:

“Que homens tão bem apropriados para serem escravos!”

MOTIM NA GERMÂNIA

Logo no início do reinado, estourou uma séria revolta entre as legiões da Germânia e da Panônia, as tropas mais numerosas e bem preparadas do Império, que estavam ocupadas lutando contra os bárbaros germânicos. Os soldados cobravam uma gratificação que tinha sido prometida por Augusto e não havia ainda sido paga por Tibério.

Germânico e o filho do imperador, Druso, o Jovem, foram enviados para lidar com os revoltosos e o primeiro, que chegou a correr risco à sua integridade física, conseguiu debelar a revolta. Em seguida, Germânico liderou essas tropas contra a coalizão de tribos germânicas que havia massacrado as legiões de Varo, invadiu a Germânia e conseguiu várias vitórias, recuperando duas das três águias-estandarte perdidas, até ser chamado de volta à Roma por Tibério para celebrar um grande triunfo, em 17 D.C. .Para o historiador Tácito, o temor em relação ao grande prestígio popular que essas vitórias deram a Germânico foi o verdadeiro motivo para que Tibério ordenasse a interrupção da campanha.

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Depois do triunfo, Tibério conferiu à Germânico autoridade sobre as províncias orientais do Império Romano, com objetivo de organizá-las e estabelecer as relações com diversos reinos-clientes, e nomeou-o Cônsul para o ano de 18 D.C., ao lado do próprio imperador. Tais medidas pareciam uma demonstração, ao menos  publicamente, de que Tibério prestigiava a posição de Germânico como seu sucessor.

MORTE DE GERMÂNICO

No Oriente, contudo, Germânico entrou em atrito com o  governador da Síria designado por Tibério, Caio Calpúrnio Pisão. Além de visitar o Egito sem a permissão expressa de Tibério (esta província estava sob a autoridade direta do imperador e, com base em uma lei de Augusto, nenhum senador podia visitá-la sem autorização imperial), Germânico demitiu Pisão e ordenou que este se apresentasse em Roma.

Todavia, enquanto ainda estava em Antióquia, Germânico adoeceu sem causa aparente. Desconfiado de que tivesse sido vítima de feitiçaria ou veneno por parte do governador, Germânico enviou uma carta a Pisão, renunciando formalmente à amizade entre ambos. Logo em seguida, Germânico faleceu, em 10 de outubro de 19 D.C.

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Quando a notícia da morte de Germânico chegou à Roma, houve comoção popular e muitos suspeitaram de que Tibério, ou sua mãe, Lívia, que era amiga de Plancina, a  esposa de Pisão, poderiam estar por trás do suposto envenenamento. Tibério ordenou uma breve investigação e Pisão foi preso e enviado para ser julgado pelo Senado. A acusação de envenenamento foi logo arquivada, mas a de traição foi mantida. Durante o julgamento, Pisão foi encontrado morto em sua cela, supostamente tendo cometido suicídio. Obviamente, o fato contribuiu para aumentar as suspeitas sobre Tibério e muitos consideraram que a morte de Pisão teria sido uma “queima de arquivo”.

Apesar do suicídio de Pisão, o julgamento dele prosseguiu e o veredito foi a sua condenação pelo crime de “maiestas“, em 20 D.C., que, pela primeira vez em Roma, foi considerado como abrangendo o imperador e a casa imperial, já que Germânico, enquanto membro desta, teria tido a autoridade desobedecida por Pisão. Essa mudança mostra que a transição da República para a Monarquia estava bem avançada, apesar das aparências que Augusto e Tibério procuraram manter..

O caso da morte de Germânico mobilizou tanto a opinião pública romana- segundo Suetônio, vários muros foram pichados com a frase: “Dê-nos Germânico de volta!” – que Tibério foi obrigado a tornar públicas as atas do julgamento de Pisão, o que hoje sabemos graças à descoberta, nos anos 80 do século XX,  próximo à Sevilha, na atual Espanha, de tábuas de bronze contendo o texto do Senatus Consultum de Gn. Pisone Patre, que, basicamente, vem a ser um decreto do Senado Romano contendo a versão oficial sobre o assunto (cf. https://scholar.princeton.edu/sites/default/files/SCCPP_0.pdf). Entre outras coisas, o texto confirma o relato de Tácito de que a imperatriz Lívia intercedeu para que sua amiga Plancina fosse perdoada.

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Apesar das suspeitas de que Tibério estaria implicado na morte de Germânico, até este evento as ações do  imperador tinham sido marcantemente em favor da manutenção do status do falecido como o primeiro na linha de sucessão imperial. Porém, a viúva de Germânico, Agripina, a Velha, não escondia de ninguém que suspeitava de Tibério e Lívia. Sintomaticamente, os dois não compareceram ao funeral de Germânico.

Consta, inclusive que, certa vez, Tibério, ouvindo Agripina queixar-se do assassinato do marido, teria recitado, em grego, para ela o seguinte verso de um então famoso poema clássico:

Porque não és rainha, eu te fiz algum mal?

Morto Germânico, Tibério  passou a investir somente em seu único filho natural, Druso, o  Jovem, que era cerca de um ano mais novo do que o falecido, e cuja carreira pública progredia junto com a do irmão adotivo (parece que Tibério copiou Augusto e planejou a sua sucessão de modo semelhante a do que o seu antecessor havia tentado em relação a Caio e Lúcio César: ou que ambos reinassem em conjunto, ou que um servisse como substituto no caso do outro morrer antes da sucessão).

Assim, em 22 D.C., Druso recebeu o Poder Tribunício, demonstrando que ele estava sendo preparado para suceder o pai.

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(Busto de Druso, o Jovem)

Enquanto isso, aparentemente Tibério ressentiu-se com o aumento de sua impopularidade causada pela morte de Germânico e começou, paulatinamente, a se ausentar mais e mais de Roma, passando temporadas na Campânia, região que, desde a República, era considerada como um balneário de luxo para a elite romana.

SEJANO E MORTE DE DRUSO

Na época em que Germânico morreu, já se notava o grande poder que o Comandante da Guarda Pretoriana, Lúcio Élio Sejano exercia em Roma. Ele expandiu a guarnição dos pretorianos para um efetivo de cerca de nove mil homens, os quais, durante o reinado de Augusto, estavam espalhados em várias cidades nos arredores de Roma, e que por iniciativa de Sejano foram centralizados em um grande quartel fortificado, adjunto às muralhas da cidade, por volta de 18 D.C.

Sejano era membro da classe equestre, e sucedera o seu pai,  Lucius Seius Strabo, como comandante dos pretorianos. A família de Sejano era bem relacionada com a classe senatorial, seu avô paterno foi casado com a filha de Caio Mecenas, o rico e influente amigo de Augusto, e o próprio Sejano foi adotado por Caio Élio Galo, que foi governador do Egito no reinado de Augusto. Acredita-se que a esposa de Sejano, Apicata, era filha do rico e famoso gourmet Marcus Gavius Apicius (Apício). Segundo as más línguas, antes de se casar com Apicata, Sejano havia funcionado como amante do sogro. Não obstante, Sejano tornou-se amigo íntimo de Caio César, o neto de Augusto, e, portanto, apesar de ocupar uma posição social inferior à da alta aristocracia, ele acabou ficando próximo da casa imperial.

O poder de Sejano tornou-se tão destacado que Tibério, nessa época, referiu-se a ele como meu sócio-trabalhador” (socius laborum). E Sejano, de fato, tinha altas pretensões. Em 20 D.C., ele  arranjou uma promessa de casamento de sua filha, Junilla,  com o filho do sobrinho do imperador, Cláudio, quando as duas crianças tinham apenas quatro anos de idade. Porém, os planos de Sejano ingressar na família imperial foram por água baixo, porque, poucos dias depois do arranjo, o menino morreria engasgado com uma pera.

Porém, Druso, o Jovem não tinha boas relações com Sejano e certa vez, segundo Tácito, ele chegou a dar um soco no Prefeito Pretoriano, sendo que, em outra ocasião, ele teria reclamado que:

“um estranho tenha sido convidado para auxiliar no governo enquanto o filho do imperador estava vivo” 

Mais grave do que tudo isso foi o fato de Sejano ter seduzido Livilla, a esposa de Druso, de quem ele havia se tornado amante.

Porém, em  14 de setembro de 23 D.C., Druso, o Jovem morreu, aos 36 anos de idade, de causa ignorada. Para alguns historiadores antigos, como Tácito e Dião CássioSejano foi o responsável pela morte de Druso por envenenamento, empresa na qual ele teria sido auxiliado por Livilla, que também era irmã do finado Germãnico.

De acordo com Dião Cássio, oito anos após a morte de Druso, a esposa de Sejano, Apicata, teria enviado uma carta a Tibério, revelando que o marido e Livilla teriam envenenado o herdeiro. A acusação não parece muito plausível e o fato é que, se o adultério de Sejano e Livilla realmente ocorreu, e se a morte de Druso alguma vez lhe pareceu suspeita,  Tibério continuou, durante muitos anos, a confiar em Sejano, e não demonstrou suspeitar da participação do auxiliar na morte do filho.

Seja como for, em 25 D.C., Sejano pediu formalmente a Tibério permissão para se casar com Livilla, o que foi recusado pelo velho imperador, que, após exaltar os méritos do subordinado, ressaltou, suavemente, que ele, tendo nascido na classe Equestre, estava abaixo da posição social de Livilla, uma integrante da família imperial.

Com a morte de Druso, o Jovem, os jovens filhos de GermânicoAgripina, a Velha: Nero Julius Caesar Germanicus e Drusus Julius Caesar Germanicus, foram adotados por Tibério e adquiriram a condição de sucessores naturais dele, o que colocaria todos na alça de mira de Sejano.

AUTO-EXÍLIO EM CAPRI 

No ano seguinte, 26 D.C.Tibério foi viver na Ilha de Capri, em um novo auto-exílio voluntário que, desta vez, duraria onze anos, deixando, informalmente, o governo imperial nas mãos de Sejano, aparentemente a pessoa em quem ele mais confiava. A  confiança que o imperador depositava em Sejano aumentou ainda mais após o incidente no qual o teto da gruta (grotto) da Villa de Tibério, em Sperlonga, adornada por primorosas esculturas, onde ele costumava fazer banquetes, desabou e Sejano protegeu Tibério com o próprio corpo, das rochas que caíam.

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(1- Grotto da Villa de Tibério, em Sperlonga, e 2- parte das esculturas restauradas, foto: Carole Radatto)

Não obstante, durante algum tempo, Tibério chegou a deixar Capri e ele viajou até as cercanias de Roma, talvez, quem sabe, com a intenção de deixar os senadores em suspense, pois ele, em certas ocasiões, enviava despachos informando que estava vindo à Cidade.

Certamente, a conhecida misantropia do imperador foi um dos motivos que o levou a se retirar de Roma e ir viver na maravilhosa Villa Jovis, que ele mandou construir em Capri. O outro teria sido a tristeza causada pela morte do filho.

Em Capri, o avanço da senilidade – ele tinha 68 anos de idade – e uma misteriosa doença que lhe cobria o rosto e o corpo de feridas (alguns a comparam à sífilis, e, embora a ciência tradicional considere que essa doença não era conhecida na Europa naquela época, estudos recentes parecem indicar que ela ali já circulava durante o Império Romano) aos poucos deram vazão a uma personalidade paranóica, cruel e devassa. Se for verdade o que Suetônio conta, em Capri aconteceram atos os mais tenebrosos de depravação sexual e assassinatos.

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villa jovisUnknown_d_0_0_800.20170804192902(Villa Jovis, Capri, 1- maquete e 2- estado atual)

MORTE DE LÍVIA

Em 29 de setembro de 29 D.C., com a provecta idade de 87 anos, morreu Lívia Drusila. a mãe de Tibério, que, por disposição testamentária de Augusto, recebera o nome de Júlia Augusta. Lívia permaneceu detentora de grande poder durante boa parte do reinado de Tibério, que passou a se ressentir da ascendência pessoal e da influência excessiva da mãe nos negócios do Estado. Houve até quem dissesse que o principal motivo da ida de Tibério para Capri foi o fato dele não suportar mais a personalidade dominadora da mãe.

Consta que, ao ser informado da morte de Lívia e dos preparativos para o funeral, Tibério não viajou, permanecendo em Capri por vários dias, até que os encarregados da cerimônia desistiram de esperar a chegada dele, tendo em vista que o corpo da falecida já estava apodrecendo. Então, Tibério acabou enviando seu sobrinho-neto, Gaius Julius Caesar Germanicus, apelidado Calígula”, o filho mais novo de Germânico e Agripina, a Velha,  para fazer a oração fúnebre. E o imperador também vetou que o Senado divinizasse a mãe.

Livia_y_Tiberio_M.A.N._01 foto Miguel Hermoso Cuesta

(Estátuas de Lívia e de Tibério, lado a lado)

“REGÊNCIA” DE SEJANO

Enquanto isso, Sejano, que controlava toda informação entre Roma e Capri, agia como virtual governante de Roma, ainda mais agora que a intimidadora presença de Lívia desaparecera, e começou a eliminar os seus desafetos e adversários políticos. Um alvo preferencial de Sejano foi Agripina, a Velha,  a esposa do falecido Germânico, que foi exilada em 30 D.C. Ela vinha acusando publicamente Tibério e Lívia de serem os mandantes da morte do esposo e reuniu em torno de si um grupo de senadores que faziam oposição a Sejano.

Sejano parece ter instigado Tibério para que este escrevesse uma carta ao Senado denunciando Agripina e seu filho primogênito, Nero Julius Caesar Germanicus (não confundir com o futuro imperador Nero), de conspiração. Após bastante relutância (Tibério teve que renovar as acusações), o Senado acabou banindo os dois, declarando-os “inimigos públicos”.

(Cabeças de Agripina, a Velha e de seu filho Nero Julius Caesar Germânico, National Archaeological Museum of Tarragona )

Agripina foi  exilada para a ilha de Pandatária e lá, após sofrer maus-tratos, morreu de inanição voluntária, em 33 D.C..  Nero Julius Caesar Germanicus também foi exilado, no mesmo ano que a mãe, para a ilha de Pontia, e lá morreria no ano seguinte, compelido a se suicidar,  em 31 D.C..

Por sua vez, o filho do meio de Agripina, Drusus Julius Caesar Germanicus, foi acusado por um senador de estar tramando contra Tibério. Consta que foi Amelia, a esposa de Drusus, quem o denunciou para Sejano,  que a teria seduzido. Ele foi preso e confinado a uma cela no Palatino, também em 30 D.C.

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(Possível estátua de Drusus Julius Caesar, foto Sailko)

Em 31 D.CCalígula, que estava morando junto com sua avó Antônia, foi residir com Tibério na Villa Jovis em Capri.

A julgar pelo relato de SuetônioCalígula habilmente soube fingir ser inofensivo e servil a Tibério e, graças a isso teria conseguido sobreviver ao destino da sua família. Se os relatos do citado historiador forem verdadeiros, em Capri,  Calígula deve ter sofrido a influência maléfica dos inúmeros atos de perversão sexual e crueldade relatados na “Vida de Tibério“, livro integrante da coletânea de biografias conhecida como “Os doze Césares“.

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(Cabeça de Calígula, com as cores originais que recobriam o mármore)

QUEDA DE SEJANO

Parecia que Sejano nessa época estava no auge de seu poder: o aniversário dele foi incluído no calendário como uma data a ser comemorada e várias estátuas foram erguidas em sua homenagem.  Em 30 D.C., ele conseguiu finalmente a tão almejada conexão familiar com a família imperial, a autorização para o casamento com Livilla, E, no ano seguinte, ele foi designado Cônsul, na companhia de Tibério. Naquele momento, segundo as palavras de Dião Cássio,parecia que Sejano era o Imperador, e Tibério, o governante de uma ilha.

Então, naquele mesmo ano, Tibério começou a tomar atitudes ambíguas em relação à Sejano. Ele nomeou seu sobrinho Calígula para um prestigioso posto de sacerdote, gesto que foi recebido com entusiasmo pela Plebe, e insinuou que o rapaz poderia ser o seu sucessor.

Sejano ficou desconfiado até que o Senado Romano recebeu um despacho oficial de Tibério convocando uma sessão para o dia 18 de outubro de 31 D.C.,  na qual  Sejano receberia o Poder Tribunício, acompanhado de uma carta de Tibério que deveria ser lida na sessão, ambos entregues por Névio Sutório Macro, que até pouco tempo era chefe dos Vigiles, o corpo de guardas-bombeiros criado por Augusto. Seguindo as ordens de Tibério, Macro informou o teor da carta a Memmius Regulus, que havia sucedido Sejano como Cônsul (Tibério pouco tempos antes havia renunciado ao cargo, forçando Sejano a segui-lo).

No dia designado, Sejano compareceu ao Templo de Apolo Palatino, onde, naquela ocasião, o Senado estava se reunindo, lotado de Senadores, que imediatamente o cercaram com bajulações. Enquanto a longa carta era lida, contendo uma introdução sobre  assuntos variados e algumas menções lacônicas de Tibério ao seu “sócio“, o edifício foi cercado pelos vigiles, comandados por Graecinus Laco

A leitura da carta prosseguiu e, para a surpresa de todos, o tom inicialmente amistoso de Tibério, transformou-se na acusação de vários crimes contra Sejano, terminando por ordenar a sua prisão.

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(Templo de Apolo Palatino,  acima à esquerda, nesta reconstrução do complexo de palácios e prédios imperiais  a maioria construídos posteriormente na Colina do Palatino)

O espanto logo se transformou em comoção, e os senadores que estavam sentados próximos a Sejano, afastaram-se dele correndo. Sejano continuou sentado, imóvel -ele somente levantou-se quando Regulus, pela terceira vez, ordenou que ele ficasse de frente para a assembléia.

Quando a carta terminou de ser lida, Regulus perguntou se algum senador se opunha à prisão de Sejano, mas ninguém teve coragem de se manifestar contra. Ele, então, foi levado para a prisão por Laco.

No caminho para a prisão, Sejano foi hostilizado pelo populacho, que zombou acerbamente das suas supostas pretensões ao trono. Naquele mesmo dia, o Senado, ao saber da reação da Plebe e perceber que nenhum soldado pretoriano aparecera para defender o chefe, votou pela condenação de Sejano à morte, decretando também a damnatio memoriae (destruição de todas as estátuas e supressão do seu nome dos registros públicos).

O que muitos senadores ainda ignoravam, enquanto hesitavam temendo alguma reação de soldados fiéis a Sejano, é que Tibério havia dado à Macro um documento nomeando-o novo comandante da Guarda Pretoriana, quando despachou-o para Roma para convocar o Senado. Assim, enquanto Laco cercava o Senado e a carta era lida, Macro já havia assumido o comando no quartel da Guarda Pretoriana.

Sejano foi executado e seu corpo atirado para rolar pelas “Escadas Gemônias“, onde ficou por três dias sendo vilipendiado pela turba (Parece que essa forma de punição foi inaugurada no reinado do próprio Tibério).  Os filhos de Sejano: Lúcio Seio Estrabão, Capito Elano e Junilla, também seriam executados, o primeiro em 24 de outubro, e os outros em  dezembro de 31 D.C., pelo simples fato de serem filhos dele. A ainda adolescente Junilla, antes de ser estrangulada, foi estuprada pelo carrasco, pois o costume proibia executar uma virgem).

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(Escadaria que leva ao Capitólio, em Roma, talvez construída sobre as Escadarias Gemônias)

De acordo com o historiador Flávio Josefo, foi Antônia, a Jovem, cunhada de Tibério e mãe do falecido Germânico, quem denunciou Sejano a Tibério. Ela teria enviado uma carta ao imperador, que estava em Capri, e, supostamente, ignorava as ações do subordinado, contando dos planos dele para tomar o poder, nos quais estaria sendo auxiliado pela amante, Livilla, filha da própria Antônia.

Livilla foi poupada de ser executada, mas foi entregue à mãe, em cuja casa ficou em prisão domiciliar, segundo consta, trancada em um quarto sem receber alimentação, até morrer de inanição.

Quando Apicata, a viúva de Sejano, soube da execução do filho, ela enviou, antes de se suicidar, uma carta a Tibério, acusando Livilla de ter envenenado o próprio marido, e filho do imperador, Druso, o Jovem, em conluio com seu amante Sejano. Muitos historiadores não dão crédito a essa acusação de Apicata, atribuindo-a à vingança de uma esposa traída contra a amante que estava em vias de substituí-la como esposa.

O fato é que a descoberta da conspiração instaurou um frenesi persecutório em Roma e vários senadores que tinham relacionamento com Sejano foram executados.

Tibério mais tarde declararia ao Senado que decidiu remover Sejano quando soube da participação dele na perseguição à Agripina e na morte do filho dela, mas essa explicação não convenceu nem os contemporâneos, nem os historiadores modernos, uma vez que Agripina continuou exilada, até morrer, em 33 D.C, de inanição. quase dois anos após a execução de Sejano, o mesmo ocorrendo com o filho dela, Drusus Julius Caesar, que também morreu de inanição, em sua cela no Palatino, em 33 D.C., igualmente de inanição (consta que ele, famélico, chegou a comer o colchão em que dormia). A coincidência no ano e forma das mortes é um forte indício de que as mortes deles foram ordenadas por Tibério.

TIBÉRIO COMO GOVERNANTE

Tibério era estóico e, durante a juventude e parte da sua vida adulta,  ele parece ter se conduzido pelos rígidos padrões morais dessa corrente filosófica. Talvez por isso, a marca do seu reinado tenha sido a de uma austeridade nos gastos públicos, política que acarretou um grande superávit no tesouro do Estado. Consequentemente, em termos econômicos, houve grande prosperidade no Império. Assim, quando morreu, Tibério deixou nos cofres do Tesouro a formidável quantia de três bilhões e setecentos milhões de sestércios.

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(Aureus de Tibério, c. 27/30 D.C., foto cgb)

Por outro lado, a falta de espetáculos públicos e de outras formas de propaganda tornou-o antipático para a plebe romana.

Procurou-se controlar os excessos dos governadores das províncias e nomear homens capazes e de boa reputação para administrá-las. Ficou famoso o episódio em que o governador do Egito, Aemilius Rectus, enviou à Roma um volume de tributos maior do que o normal, e recebeu de Tibério a seguinte advertência:

“Eu quero minhas ovelhas tosquiadas,  mas não depiladas!”

A cidade de Tiberias, na Galiléia, um reino-cliente de Roma, foi fundada pelo tetrarca Herodes Antipas, em 20 D.C., e foi assim batizada em homenagem a Tibério.

Outro motivo que contribuiu para a grande prosperidade econômica experimentada durante o reinado de Tibério foi o fato dele ter evitado travar campanhas militares, após as campanhas de Germânico, valendo-se precipuamente da diplomacia nas questões de interesse do Estado. Entre as poucas ocorrências bélicas estão a supressão de uma revolta gaulesa liderada por Julius Sacrovir, em 21 D.C., a vitória final contra uma rebelião berbere na Numídia, comandada pelo chefe Tacfarinas, que, após dez anos, foi finalmente derrotado, em 24 D.C. e uma vitória contra tribos montanhesas insubmissas na Trácia, em 26 D.C.

Em 28 D.C., um forte romano foi cercado pela tribo germânica dos Frísios, na Floresta Baduhenna, na atual Holanda. Os Frísios estavam insatisfeitos com o tributo que pagavam como clientes de Roma e mataram os coletores de impostos romanos. Destacamentos da V Legião, após um duro combate, conseguiram repelir os bárbaros, mas 900 soldados romanos morreram. Seguindo política de Tibério de evitar guerras custosas, não houve nenhuma represália e, de acordo com Tácito, o assunto foi deixado de lado.

Politicamente, o reinado de Tibério foi um reinado de perseguições e de julgamentos de senadores por traição (maiestas), instalando-se uma cultura de delações e do uso de informantes.

Segundo Dião Cássio, Tibério também baniu praticantes de religiões estrangeiras que residiam em Roma, inclusive muitos judeus, no caso destes, supostamente motivado pelo fato de que eles estariam fazendo muitas conversões entre os habitantes da cidade. Curiosamente, muitos estudiosos acreditam que provavelmente, foi o seu braço-direito Sejano quem nomeou Pôncio Pilatos  governador da Judéia, entre 26 e 36 D.C, sendo que Jesus Cristo  foi crucificado por volta do ano 30 D.C.

FINAL DO REINADO E MORTE DE TIBÉRIO

Após a queda de Sejano, parece que Tibério desiludiu-se e desinteressou-se por completo do cargo de imperador e permaneceu em Capri, deixando a administração do Império por conta dos funcionários da casa imperial e dos governadores das províncias. Segundo os relatos, ele sequer deu-se o trabalho de preencher os cargos que iam ficando vagos, e o Senado, por temor de desagradá-lo, ficava de mãos atadas.

Em 33 D.C., Tibério nomeou seu sobrinho, Gaius Julius Ceasar Germanicus (Calígula), Questor honorário, e, cerca de dois anos depois, em 35 D.C., ele fez um testamento no qual Calígula, então com 23 anos de idade, junto com e seu neto, Tibério Gemelo, filho de Druso, o Jovem, que tinha apenas 15 ou 16 anos, eram designados como herdeiros de suas propriedades. Segundo Tácito, nessa ocasião, quando os dois rapazes estavam em Capri, Tibério abraçou Gemelo e, em lágrimas, disse para Calígula:

“Você o matará, e um outro irá te matar”

 

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(Raríssima moeda com a efígie de Tiberius Gemellus, cunhada em 37 D.C., foto Classical Numismatic Group)

Tibério nunca mais voltou à Roma e a sua reclusão em Capri aumentou os boatos sobre o que ele fazia na ilha. A sua saúde  foi dando sinais de que estava indo embora, mas o velho imperador, temendo, talvez, que a sua fraqueza física incentivasse alguma tentativa de assassinato, fazia o possível para não demonstrá-la em público e até evitava que o seu médico lhe medisse o pulso na frente dos outros.

Em 16 de março de 37 D.C., Tibério agonizava em sua outra Villa, em Misenum, e a sua morte era iminente. Em certo momento, ele parou de respirar e os presentes logo foram congratular Calígula como o novo imperador. Porém, segundo Tácito, o imperador moribundo voltou a respirar, o que deixou a todos aterrorizados. Então, naquele mesmo dia, Macro teria entrado no quarto e sufocado Tibério, usando a a colcha e os lençóis. No relato de Dião Cássio, Macro teria sido ajudado por Calígula. Já Suetônio, embora narre fatos semelhantes, adiciona que antes Calígula teria envenenado Tibério  e que, aquele, ao tentar tirar o anel com o selo do imperador do dedo do tio, ao perceber que esse resistia, sufocou-o com o travesseiro.

Assim morreu Tibério, aos 78 anos de idade. O Senado e Povo Romano (pelo menos o de Roma e parte da Itália) comemoraram a morte do antipático imperador e consta que, quando o cortejo fúnebre trazendo o cadáver de Tibério chegou à Cidade, a plebe nas ruas, ameaçando jogar o corpo dele nas água do rio, gritava:

“Tibério ao Tibre!”

O Senado recusou-se a divinizar Tibério, mas ele foi sepultado no Mausoléu de Augusto,  tendo um funeral apropriado e com seu sucessor, Calígula, fazendo a oração fúnebre (eulogia).

 

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CONCLUSÃO

Na opinião dos historiadores romanos antigos, com exceção de Veleio Patérculo, não há dúvida de que Tibério faz parte do time dos “maus imperadores”.

Porém, mesmo a leitura dos textos desses membros da classe senatorial, não permite um julgamento tão fácil.

Só o fato de Tibério ter reinado durante quase 23 anos já foi um feito importante. O seu reinado serviu para consolidar a maior parte das instituições e práticas político-administrativas forjadas por Augusto.

Em seus primeiros anos, parece que Tibério efetivamente procurou dividir o poder com o Senado, participando ativamente das sessões desta assembleia e tentando fazer com que os senadores assumissem diversas tarefas. Ele escolheu bons administradores para as províncias e a manutenção da paz, e a parcimônia com os gastos públicos assegurou uma grande prosperidade econômica, com grande valorização da moeda.

Porém, a sua personalidade fria e distante e a falta de tato político não criaram empatia com a classe senatorial. Talvez a sua relutância em assumir totalmente os poderes de Augusto seja fruto da consciência de sua incapacidade para o jogo político. Mas pode também ter sido apenas uma maneira desastrada e inábil de imitar o primeiro imperador. De qualquer modo, a postura de Tibério contribuiu para agravar o grande problema enfrentado durante boa parte do período imperial: a não-aceitação do caráter monárquico do regime pelo próprio regime, bem como por sua elite política e a consequente ambiguidade na delimitação dos papéis do imperador e do Senado

O grande divisor de águas no reinado de Tibério parece ter sido a morte de Germânico, que, designado como seu sucessor ainda durante a vida de Augusto (que obrigou Tibério a adotá-lo), sempre foi uma sombra capaz de ofuscá-lo e uma opção de governante muito mais querida pela população. Diga-se, como atenuante da suposta responsabilidade de Tibério pela morte do filho adotivo, que, em vários episódios da vida de Germânico, transparece que este realmente cortejava a população e os senadores e agia com demasiada independência em relação a Tibério.

A forma como Tibério lidou com a hostilidade da viúva de Germânico, Agripina, a Velha, que sem dúvida reuniu em torno de si um núcleo de oposição ao imperador, também parece excessiva, já que importou na destruição quase que total da própria dinastia, somente deixando vivo Calígula e as irmãs dele, logo ele que, depois, se tornaria o pior dos Júlio-Cláudios, e cuja personalidade doentia pode muito bem ter sido gerada no clima de terror que a sua família viveu sob Tibério.

A ida de Tibério para Capri pode denotar um traço de misantropia em sua personalidade, mas também pode ter sido uma maneira de lidar com a desilusão e o desânimo que ele sentia pela função de monarca. É difícil compreender como ele pode ter deixado que Sejano concentrasse tanto poder e porque ele depositou em Sejano tanta confiança. Tanto pode ter sido um sinal de fraqueza psicológica após a morte do filho, como pode ter sido também uma forma maquiavélica de instaurar um reinado de terror, usando Sejano como instrumento, para depois botar a culpa no subordinado. Mas isso se houve mesmo um “reinado de terror”, pois, em 23 anos de governo, as execuções nem foram tantas, comparadas com as que ocorreriam nos reinados posteriores. De qualquer forma, Tibério fica com a má distinção de ter sido o primeiro imperador a recorrer aos processos de lesa-majestade (maiestas).

Porém, a facilidade com que Tibério prendeu e executou Sejano mostra que o Principado estava consolidado como instituição, e  o prestígio que a dinastia dos Júlio-Cláudios gozava entre a população civil e o Exército, mesmo quando o seu representante era antipático e pouco querido.

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VESPASIANO – O BOA-PRAÇA DURÃO QUE RESTAUROU O TRONO E CONSOLIDOU O IMPÉRIO

#Vespasiano

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I- Nascimento, família e juventude

Em 17 de novembro do ano 9 D.C, nascia na cidade de Falacrinae, a sudoeste de Roma, Titus Flavius Vespasianus (Vespasiano), integrante de uma família de origem sabina, proveniente de Reate (atual Rieti), que, recentemente, havia ingressado na classe Equestre, que era o segundo nível hierárquico da nobreza romana.

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(Piso de uma villa romana que estudiosos acreditam ter pertencido à família dos Flávios, vide http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/8190955.stm)

Com efeito, Titus Flavius Petro, o avô de Vespasiano havia sido um simples centurião das tropas de Pompeu, em Farsália, durante a guerra civil entre este e Júlio César, que depois virou coletor de impostos. E o pai de Vespasiano, Titus Flavius Sabinus (I), também seria coletor de impostos (publicano), na Província romana da Ásia, e banqueiro. Segundo o historiador Suetônio, na primeira função, Titus Sabinus destacou-se pela retidão, um traço que era tão incomum entre os publicanos romanos, que os provinciais chegaram a erguer uma estátua em sua honra ostentando a inscrição:

A um coletor de impostos honesto“…

Acredita-se que, devido à ausência dos seus pais enquanto eles serviam na Ásia, Vespasiano deve ter sido educado pela avó, Tertulla, a quem ele ficou muito apegado e de quem se lembraria pelo resto da vida, mesmo depois de virar imperador.

Foi o irmão mais velho de Vespasiano, também chamado de Titus Flavius Sabinus  (II)(Sabino), quem realmente começou uma carreira militar e pública de sucesso, sendo nomeado Tribuno na Trácia e, depois, conseguindo eleger-se para os cargos públicos (magistraturas) de Questor, Edil e Pretor.

Vespasiano seguiu os passos do irmão, e até o precedeu no exército romano, sendo nomeado, antes dele, Tribuno, também na Trácia, voltando à Roma por volta do ano 30 D.C.

O primeiro cargo público de Vespasiano,  ainda durante o reinado de Tibério, no entanto, foi servir entre os Vigintiviratos, um colégio de vinte magistrados menores, encarregados, dentre outras coisas, da limpeza das ruas de Roma,

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No início do reinado de Calígula, Vespasiano ainda continuava servindo no Colégio dos Vigintiviratos. Em sua “Vida de Vespasiano“, Suetônio, inclusive, chega a mencionar que aquele imperador, certa vez, insatisfeito com o serviço de limpeza urbana da Cidade, mandou que os seus guardas jogassem lama na toga de Vespasiano,  um gesto, sem dúvida, humilhante, e que poderia até ter terminado pior para Vespasiano, tendo em vista os crescentes episódios de insanidade de Calígula.

Depois disso, Vespasiano serviu como Questor na ilha de Creta, retornando para assumir o cargo de Edil em 38 D.C. Neste mesmo ano, ele se casou com Flávia Domitila, a Velha, nascida na cidade de Sabratha (na atual Líbia) filha de um simples secretário de um Questor, originário da cidade italiana de Ferentium, que servia na província da África.

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(Denário de prata com a efígie de Flávia Domitila, a Velha, cunhado após a sua morte e deificação)

II- Sucesso na carreira pública

Foi no reinado do sucessor de Calígula, o imperador Cláudio, que a carreira dos irmãos Flávios, sobretudo a de Vespasiano, decolou. Ele foi muito ajudado pelo fato de ser amante de Antonia Caenis, uma mulher muito inteligente que tinha sido escrava, e, depois de, alforriada, já na condição de liberta, virara secretária pessoal da influente Antônia, a Jovem, mãe de Cláudio (Antônia, a Jovem era filha de Marco Antônio e Otávia, irmã de Augusto). Vale citar que, antes de Vespasiano se casar com Domitila, ele e Antonia Caenis viviam em “contubernium“, uma espécie de concubinato admitido pela lei romana).

Muito provavelmente por injunção de Antonia Caenis, Vespasiano caiu nas graças de Narcissus, o poderoso liberto de Cláudio, que então ocupava o importante cargo de Secretário de Correspondência Imperial (Praepositus ab Epistulis) na Corte Imperial, e exercia forte influência sobre o imperador.

Assim, Vespasiano foi nomeado general da II Legião Augusta (Legatus Legionis II Augustae), sediada em Argentorarum ,na província da Germânia (a atual Estrasburgo) em preparação para a campanha militar mais importante do reinado de Cláudio: a Conquista da Grã-Bretanha. Nesta guerra, Vespasiano, servindo sob as ordens do comandante-geral Aulus Plautius, ficou responsável por subjugar a maior parte do sul da atual Inglaterra, bem como a Ilha de Wight.

Como recompensa pelas suas vitórias na Britânia, Vespasiano recebeu a honraria dos “ornamentos triunfais“, regalias destinadas aos generais vitoriosos durante o Império e que substituíram as procissões triunfais, que foram reservadas apenas para os Imperadores.

Em 51 D.C, Vespasiano foi escolhido para o cargo de Cônsul, a mais alta magistratura da antiga República, sendo ainda o ápice da carreira política em Roma. Todavia, logo depois disso, a posição dele sofreria uma grande reviravolta, pois Narcissus, o seu protetor, havia conspirado contra Agripina, a Jovem, a poderosa e vingativa nova esposa (e sobrinha) de Cláudio, e seu filho, Lucius Domitius Ahenobarbus (o futuro imperador Nero), que havia sido adotado, em 50 D.C,  por Cláudio, em detrimento do seu próprio filho natural, Britânico, que era apoiado por Narcissus.

III- Ostracismo e reabilitação

Cláudio morreu em 54 D.C., provavelmente envenenado por Agripina e o filho, desta, Nero, assumiu como novo Imperador. A seguir, Narcissus e Britânico também foram, no espaço de alguns meses, assassinados.

Assim, prudentemente, Vespasiano passaria os próximos 12 anos na obscuridade.

Esse “retiro” de Vespasiano só terminaria em 63 D.C, quando ele, agora um veterano e respeitável Senador, foi indicado para ser Procônsul na província romana da África. Consta que ali, Vespasiano fez uma boa administração, marcada pela honestidade, numa época em que os governadores romanos só pensavam em espoliar as províncias e encherem a bolsa de dinheiro.

Não demorou muito para que o respeitável senador e general fosse admitido de volta na Corte Imperial, passando a integrar o círculo íntimo de Nero, chegando até a integrar a comitiva do imperador, quando da sua acalentada viagem à Grécia, em 66 D.C,  ocasião em que Nero apresentou-se em competições artísticas e esportivas, no seu afã de seguir a trajetória de um herói grego.

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(O ator Peter Ustinov foi indicado ao Oscar de melhor ator em 1951 pela sua magistral interpretação de Nero, no filme Quo Vadis)

Contudo, um fato, que hoje para nós é até cômico, quase acabaria com a sorte de Vespasiano: Durante um dos intermináveis recitais de Nero, ele cochilou enquanto o imperador cantava (ou tocava a lira), deixando o vaidoso artista furioso. De acordo com Suetônio,  em punição pela afronta, Vespasiano foi excluído da Corte e teve que ir viver em uma cidade pequena, onde ele chegou a temer, justificadamente, pela própria vida.

Foi por volta dessa época que Vespasiano ficou viúvo, após a morte de sua esposa Flávia Domitila, a Velha, que havia lhe dado três filhos: Tito, Flávia Domitila, a Jovem e Domiciano. Ele nunca mais se casaria novamente, mas logo voltou a viver junto com Antonia Caenis, que, nas palavras dos historiadores antigos, “de esposa de Vespasiano só não tinha o nome“.

Domiciano, o  filho caçula de Vespasiano, porém, jamais aceitou a madastra.

Por sua vez,  Flavia Domitila, a Jovem casou-se com o grande general Quinto Petílio Cereal, mas ela morreria jovem, com pouco mais de vinte anos.  O casal teve uma filha, também chamada Flávia Domitila, que, de acordo com a tradição católica, é a Santa Flávia Domitila, que se converteu ao cristianismo e por isso foi banida de Roma, e que também teria sido a responsável pela doação à Igreja das terras onde seriam escavadas as chamadas Catacumbas de Domitila.

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(Pintura do “Bom Pastor” existente nas Catacumbas de Domitila)

Mas a aflição de Vespasiano duraria pouco, porque, naquele mesmo ano de 66 D.C, o estouro de uma séria revolta na sempre turbulenta Judéia obrigou Nero a se valer dos seus melhores generais.

Com efeito, começara a Grande Revolta Judaica, com o massacre de toda a guarnição romana de Jerusalém e a destruição da XII Legião Fulminata, que havia sido mandada da Síria para esmagar a rebelião, onde, inclusive esta unidade militar teve o seu icônico estandarte-águia capturado pelos revoltosos. Vespasiano, assim, recebeu de Nero o comando especial do formidável exército de 60 mil soldados que havia sido reunido para  para esmagar a rebelião e partiu para a província rebelde. Lá chegando, ele rapidamente conquistou a Galiléia, que era o celeiro da Judéia, e começou os preparativos para o cerco a Jerusalém.

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Durante o avanço pela Judéia, Vespasiano tomou a cidade de Jotapata, uma das praças-fortes judaicas, e capturou vivo um dos líderes da defesa da cidade, um judeu que, anos mais tarde, escreveria o relato dessa terrível guerra, e ficaria conhecido como o grande historiador Flávio Josefo. Durante o seu cativeiro, Josefo teria predito que Vespasiano se tornaria Imperador, o que o fez cair nas graças do general.

Enquanto isso, na distante Gália, o governador Gaius Julius Vindex e suas legiões revoltaram-se contra Nero, mas essa insurreição foi rapidamente derrotada pelas legiões da Germânia. Todavia, o governador da Hispânia, Servius Sulpicius Galba, que fora sondado por Vindex para aderir a revolta, não relatou de pronto a conspiração a Nero e, por isso, ele foi condenado pelo imperador à morte. Galba, que pertencia ao ilustre clã dos Sulpícios, então, emitiu uma declaração de que ele estava “à disposição do Senado para restaurar a liberdade“…

Estimulados, os partidários de Galba em Roma conseguiram a adesão do comandante da Guarda Pretoriana, Ninfídio Sabino, que se juntou à rebelião, e, em decorrência disso, os guardas do palácio de Nero debandaram. Circulou a notícia de que o Senado tinha declarado Nero como “Inimigo Público“. Assim, o emotivo imperador, desesperado com a situação, cometeu suicídio, em junho de 68 D.C. Galba foi aclamado o novo imperador. Era o fim da dinastia dos Júlio-Cláudios, que fundara o Império e o governava há praticamente um século.

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IV- Candidato à sucessão e o “Ano dos Quatro Imperadores”

O reinado de Galba, que já tinha 70 anos de idade, porém, não duraria muito. O seu comportamento extremamente severo desagradou muito aos soldados que o apoiavam, e esperavam polpudas recompensas, bem como a todos aqueles que tinham sido beneficiados durante o reinado anterior e, agora, sentiam-se espoliados.

Assim, passados apenas dois meses da ascensão de Galba, as descontentes legiões da Germânia proclamaram, no dia 2 de janeiro de 69 D.C., o seu comandante Aulus Vitelius (Vitélio), como Imperador. Enquanto isso, em Roma, o rico senador Marcus Salvius Otho (Otão), insatisfeito pelo fato dele não ter sido escolhido como o sucessor de Galba, subornou a Guarda Pretoriana, que, ainda em janeiro de 69 D.C., assassinou o imperador.

O Senado, que não podia confrontar a Guarda Pretoriana, imediatamente reconheceu Otão como o novo Imperador Romano.

Ocorre que Vitélio e suas experimentadas legiões da Germânia já estavam entrando na Itália e marcharam em direção à Roma, derrotando com facilidade as tropas reunidas por Otão, na Primeira Batalha de Bedríaco, após o que, este, resignadamente, cometeu suicídio, dois dias depois, em 16 de abril de 69 D.C.. O reinado dele durara apenas três meses.

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(Mapa do Império Romano no “Ano dos Quatro Imperadores”, imagem de Steerpike e Andrei nacu)

Enquanto tudo isso ocorria na Europa Ocidental, Vespasiano comandava a campanha contra os Judeus. Quando as notícias da morte de Nero chegaram à Judéia, Vespasiano prontamente declarou lealdade a Galba. Depois, ele chegou a fazer o mesmo quando soube da aclamação de Vitélio. Porém, o caos gerado pela rápida sucessão de deposições violentas e nomeações de imperadores acabou por gerar nos auxiliares de Vespasiano a convicção de que  ele tinha melhores qualidades e tropas suficientes para aspirar ao trono imperial.

Assim, Gaius Licinius Mucianus (Muciano), o Governador da Síria,  encontrou-se com Vespasiano na fronteira com a Judéia. Provavelmente, nesse encontro, eles decidiram que Vespasiano deveria tentar tomar o cetro imperial para si.

Então, no dia 1º de julho de 69 D.C., as legiões estacionadas em Alexandria, no Egito, instadas pelo Prefeito do Egito, Tiberius Julius Alexander, que era de origem judaica, aclamaram Vespasiano Imperador. Poucos dias depois, elas foram seguidas pelas legiões comandadas pelo próprio Vespasiano, em Cesaréia.

V- O caminho para o trono

Em seguida, os líderes arquitetaram um plano: Muciano se dirigiria para a Itália com um contingente de 20 mil soldados para atacar Vitélio, enquanto Vespasiano iria para o Egito, para ordenar um bloqueio aos vitais carregamentos de trigo egípcio que alimentavam a enorme metrópole de Roma, ação que provavelmente forçaria Vitélio à rendição. No comando das tropas que ficariam na Judéia, para dar prosseguimento à guerra contra a Revolta Judaica e manter o cerco à Jerusalém, Vespasiano deixou o seu filho Tito.

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Durante essa incursão no Egito, Suetônio conta uma história curiosa, a de que Vespasiano teria feito dois milagres, bem comparáveis aos das narrativas bíblicas: Segundo o historiador, enquanto estava em Alexandria, Vespasiano teria curado um cego e um côxo, após os dois, avisados pelo deus Serápis, aproximarem-se dele e pedirem que ele os tocasse. Suetônio também narra a existência de uma profecia entre os Judeus, a de que um homem vindo da Judéia seria o senhor do mundo, concluindo Suetônio que a profecia dizia respeito ao próprio Vespasiano. Esse mesmo episódio, com pequenas diferenças, é relatado por Tácito e Dião Cássio.

Cogito que esses intrigantes relatos talvez já demonstrem a influência das narrativas cristãs nos autores romanos pagãos que escreveram as suas obras entre quarenta (Tácito) e cento e cinquenta anos (Cássio) após os fatos narrados.

Todavia, antes que o citado plano de Vespasiano começasse a ser executado, as legiões da Panônia se declararam em revolta a favor de Vespasiano e partiram por si próprias para invadir a Itália, com 30 mil homens. Vitélio tentou resistir, mas as suas forças foram derrotadas na Segunda Batalha de Bedríaco,  em 24 outubro de 69 D.C.. Outro exército foi enviado por Vitélio, logo em seguida, mas, ao invés de combater os insurretos, uniu-se a eles. Vitélio, assustado, tentou  abdicar, sem sucesso, pois os seus assessores e soldados partidários o proibiram.

Apostando na luta, os soldados leais a Vitélio mataram Sabino, o irmão de Vespasiano, que então era o Prefeito Urbano de Roma e havia tentando tomar o controle da cidade. Porém, quando as tropas leais a Vespasiano começaram a entrar em Roma, Vitélio foi assassinado e o seu corpo, segundo Suetônio, foi jogado ao Tibre, ou, segundo Dião Cássio, ele foi decapitado e a sua cabeça desfilada nas ruas da Cidade.

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Vespasiano foi oficialmente reconhecido como imperador pelo Senado em 22 de dezembro de 69 D.C., in absentia, pela “Lex de imperio Vespasiani“. Ele tinha, então, 60 anos de idade. Todos os seus atos foram ratificados, e, portanto, a lei tinha o efeito retroativo de reconhecer a aclamação feitas pelas tropas em 1º de julho.

Terminava, assim,  o turbulento ano que ficaria conhecido como “O Ano dos Quatro Imperadores“. O novo imperador somente chegaria a Roma em outubro de 70 D.C. Nesse período, quem administrou o Império em seu nome foram Muciano e Domiciano, o  filho mais novo de Vespasiano.

Consta que, durante esses meses, Domiciano agiu com tanto voluntarismo e independência que, Vespasiano, com o seu peculiar senso de humor, teria enviado a ele uma carta na qual constava o seguinte cumprimento:

“Obrigado, meu filho, por me permitir manter o meu cargo e por ainda não ter me destronado”

VI- O reinado de Vespasiano

O reinado de Vespasiano começou com a questão premente de sufocar a perigosa Revolta dos Batavos, na região do Delta do rio Reno, no território da atual Holanda. Os Batavos eram um povo germânico que vinha sendo recrutado como tropas auxiliares do Exército Romano. O comandante desses regimentos, Gaius Julius Civilis, um príncipe batavo, insatisfeito com  a conduta dos seus superiores, havia se rebelado e foi preso, mas ele acabou sendo solto por Vitélio, o governador da província da Germânia que havia se rebelado contra Galba e precisava das tropas batavas para invadir a Itália.

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Os Batavos lutaram na Primeira Batalha de Bedríaco, mas quando voltaram para suas terras e foram novamente convocados, eles acabaram rebelando-se novamente. Encorajados após a notícia da morte de Vitélio, os Batavos chegaram a derrotar duas legiões, fazendo com a revolta se espalhasse por algumas tribos do norte da Gália,  onde Julius Sabinus, um nobre gaulês romanizado que se dizia descendente de Júlio César, declarou a independência da Gália, autonomeando-se imperador. Duas legiões romanas, a  I Germanica e a XVI Gallica, aderiram à revolta.

Essa rebelião de Sabinus, entretanto, foi facilmente derrotada pela tribo gaulesa romanizada dos Sequanos, aliada dos romanos. Como curiosidade, as fontes relatam a estória de que Sabinus, foragido, ficou nove anos escondido em uma câmara embaixo de um monumento, junto com a mulher, com quem ele chegou a ter dois filhos durante o tempo que ficou no esconderijo.

Para lidar com a Revolta dos Batavos, Vespasiano enviou o general Quintus Petilius Cerealis  no comando um exército de oito legiões. A aproximação deste poderoso exército foi o suficiente para dispersar boa parte dos que apoiavam Civilis e ele teve que recuar para o território dos Batavos. Ali ele chegou a empregar táticas de guerrilha, porém, quando Civilis soube que Jerusalém foi saqueada e a Revolta Judaica virtualmente derrotada, ele percebeu que em breve todo o peso do Exército Romano voltaria-se contra si e, então, ele decidiu render-se.

Os romanos exigiram que os Batavos cedessem mais tropas para o Exército Romano e destruíram Naviomagus (Nijmegen), a capital batava, no final de 70 D.C.

 

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(Busto de Vespasiano, detalhe, foto Shakko)

O reinado de Vespasiano foi um governo de reconstrução e de reconciliação, muito ajudado pelo seu caráter íntegro, pela sua índole moderada e pelo seu senso de justiça. De certa forma, era uma retomada das linhas estabelecidas por Augusto, onde o Príncipe deveria se pautar pela retidão, moralidade e espírito público, permitindo ao Senado ter algum papel na administração pública e, principalmente, receber alguma deferência do Imperador.

Essas intenções ficaram implícitas na “Lex de Imperio Vespasiani“, que alguns consideram a primeira tentativa de regular por escrito as relações entre o Imperador e o Senado, com base nos precedentes dos reinados anteriores, até Augusto. É interessante notar que, pelo que denota a sua redação, trata-se de um Senatus Consultum (Decreto do Senado) que foi submetido à sanção da Assembleia (ou Comício) das Centúrias (Comitia Centuriata), obedecendo à uma formalidade republicana que na época, tudo indica, era sobretudo cerimonial.

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(Tábua de bronze contendo o texto da Lex de Imperio Vespasiani, achadas  em Roma por Cola de Rienzo em 1347. Hoje as tábuas estão nos Museus Capitolinos).

Após décadas de expurgos e perseguições pelos imperadores Júlio-Cláudios, a aristocracia romana, que fornecia a maior parte dos quadros do serviço público, estava dizimada. Por isso, Vespasiano deu ênfase, valendo-se do cargo de Censor, à recomposição dos quadros da nobreza, promovendo plebeus capazes, de preferência nascidos na Itália.

Foi Vespasiano quem primeiro instituiu a contratação pelo Estado de professores, pagos pelo Erário, para ministrarem o ensino público às crianças romanas, estando entre os primeiros mestres a serem contratados, o grande retórico Quintiliano.

Vespasiano também restaurou as finanças estatais, estabelecendo uma série de novos tributos. Essa medida, que poderia ser tomada como antipática, foi de certo modo contrabalançada pelo estilo de vida frugal e modesto que o imperador adotava, e que bem poderia servir de exemplo aos governantes atuais…

Esse traço austero de Vespasiano, que lhe rendeu em algumas passagens dos historiadores da época a pecha de avaro, é ilustrada por uma historia contada por Dião Cássio:

Certa vez,  alguns cidadãos  ilustres tomaram a iniciativa de erguer uma estátua de Vespasiano que custaria um milhão de sestércios. Quando eles foram dar a notícia a Vespasiano, o imperador estendeu a mão e disse-lhes:

“Deem-me o dinheiro! Aqui está o pedestal!”

A vitória contra a Revolta Judaica e o saque de Jerusalém, especialmente do Segundo Templo, que também funcionava  como tesouro, rendeu um espólio valioso que foi utilizado por Vespasiano para construir várias obras públicas em Roma.

A mais famosa, evidentemente, é o grandioso Anfiteatro Flávio, que ficaria popularmente conhecido como  o  “Coliseu” (Colosseum), pelo fato de ficar ao lado da enorme estátua dourada do imperador Nero, que era chamada de “Colossus” (Colosso). A espetacular arena começou a ser construída sobre o terreno onde ficava a enorme “Domus Aurea“,  o espetacular palácio de Nero, que serviu como fundação para uma parte da construção. Politicamente, isso foi um gesto muito hábil, pois devolvia ao povo da cidade uma área que Nero havia tornado privada.

A construção do Coliseu  foi iniciada por volta de 72 D.C., mas somente seria concluída em 80 D.C., já sob o reinado de Tito, que o inaugurou. A sua capacidade é estimada entre 55 mil e 80 mil espectadores. Milhares de cativos judeus, entre os 100  mil capturados e trazidos para Roma, trabalharam como escravos na construção do edifício.

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Um ano antes do Coliseu, e também com os recursos provenientes do Saque de Jerusalém, Vespasiano construiu o chamado Templo da Paz, que ficava próximo ao Fórum de Augusto. No Templo da Paz ficavam em exibição os tesouros mais relevantes saqueados do Templo de Jerusalém, como por exemplo o célebre candelabro de 7 braços (Menorah), de ouro puro. O templo era circundado por um grande pórtico que circundava uma área aberta com jardins e fileiras de espelhos d’água retangulares. Parece que a sua função era funcionar como uma área para passear, entre as estreitas e congestionadas ruas que ligavam os apinhados fóruns.

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(Foto superior; Maquete do Templo da Paz, de E. Gismondi, no Museu da Civilização Romana; foto inferior: Relevo no Arco de Tito, retratando a chegada em Roma dos despojos do Saque de Jerusalém)

Uma orientação pouco abordada nos livros sobre o seu reinado é a clara política adotada por Vespasiano de racionalização militar e ordenamento das fronteiras do Império Romano:

A importante fronteira com a Germânia Magna, seguia o curso do rio Reno e prosseguia pelo curso do rio Danúbio, formando uma perigosa reentrância ou saliência, como se fosse uma cunha encravada e que facilitava o deslocamento das tribos. Essa área, com tamanho comparável ao da atual Suíça, era conhecida como os “Agri Decumates” (campos que pagam o dízimo). Vespasiano ordenou a ocupação da região, que foi anexada ao Império Romano, e a construção de uma cadeia de fortes para defendê-la.

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Na Britânia,  o rei Venutius, da tribo celta dos Brigantes, que habitava o norte da atual Inglaterra, aproveitando a convulsão do Império Romano durante o “Ano dos Quatro Imperadores“, iniciou uma rebelião e depôs a sua ex-esposa e rainha dos Brigantes, Cartimandua, que era aliada dos romanos.

Em 71 D.C., Vespasiano designou o general Quinto Petílio Cereal como novo governador da Britânia, e ele começou o processo de conquista dos Brigantes. Em 74 D.C., Cereal foi substituído por Sextus Julius Frontinus, que subjugou a tribo dos Silures, no sudeste do atual País de Gales. Em 77 D.C., o novo governador, Gnaeus Julius Agricola assumiu e, no ano seguinte, iniciou uma campanha que levaria as legiões romanas até a Caledônia, estabelecendo alguns fortes no Firth of Tay (firth é uma palavra inglesa que denomina estuários escavados que adentram profundamente uma massa de terra), em 79 D.C. que era uma fronteira mais facilmente defensável. Essa campanha comandada por Agricola prosseguiu até 84 D.C., bem depois da morte de Vespasiano, mas o plano geral parece ter sido delineado durante o reinado dele.

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Outra importante medida de Vespasiano no campo militar, certamente influenciada pelas já mencionadas rebeliões na Germânia e na Gália, foi a exigência de que os contingentes de tropas auxiliares recrutadas entre os povos estrangeiros não podiam servir na região de origem, devendo serem deslocadas para outros pontos do Império.

Os historiadores preservaram muitos relatos de episódios nos quais  Vespasiano demostrou tolerância com opositores e respeito à posições divergentes dos senadores, mas em pelo menos duas oportunidades, os atritos acabaram degenerando em punições:  o primeiro caso foi o do senador Helvídio Prisco, um empedernido republicano que era hostil a Vespasiano, foi exilado, por volta de 75 D.C., e, posteriormente, assassinado, apesar de Vespasiano negar ter ordenado a execução dele. Posteriormente, no final do seu reinado, por volta de 78 D.C., o senador Éprio Marcelo e o general Aulus Caecina Alienus conspiraram contra o principado, aparentemente para evitar que Vespasiano fosse sucedido por Tito, e foram julgados culpados pelo Senado, sendo que o primeiro suicidou-se e o segundo foi executado por Tito.

Vespasiano tinha um grande senso de humor e as suas deliciosas tiradas ficaram célebres:

Ao filho Tito, que lhe repreendera por instituir um tributo sobre as latrinas públicas nas cidades (elas lucravam com a venda de urina para ser usada como alvejante nas lavanderias), algo que estaria abaixo da dignidade do Estado Romano, Vespasiano, então, deu a Tito uma moeda e mandou que o herdeiro a cheirasse e disse o que sentia: “Não cheira” (em latim, “non olet), respondeu o filho, ao que Vespasiano lhe respondeu que aquela moeda era fruto do  imposto questionado. Graças a esse episódio, o princípio tributário que prevê que qualquer tipo de renda, inclusive as oriundas de atos ilícitos, podem ser tributadas pelo Estado foi batizado de “non olet“). Esse imposto foi tão marcante que, até hoje, Vespasiano, em italiano, quer dizer “penico” ou “urinol”.

Ao receber uma carta do rei dos Partos, dirigindo-se ao imperador romano dessa forma: “De Vologeso, Rei dos Reis, a Vespasiano“, que foi considerada por todos como uma afronta passível de retaliação. Vespasiano, todavia, achando graça no título grandiloquente do estrangeiro, ao responder a carta, simplesmente endereçou-a assim: “De Vespasiano a Vologeso, Rei dos Reis“.

VII – Morte de Vespasiano

Enquanto estava na Campânia, Vespasiano contraiu uma doença cujo sintoma principal era diarreia. Ele teve que voltar para Roma, mas logo partiu para a estação de águas minerais de  Aquae Cutiliae, onde passaria o verão, como era de seu costume, e que ficava em antigo território sabino, na sua região natal de Reate. Lá ele ainda tentou por algum tempo cumprir as obrigações do cargo de imperador, recebendo até embaixadas enquanto estava acamado, mas a crise de diarreia piorou.

Contudo, nem no leito de morte, o humor de Vespasiano se abateu. Quando ele sentiu que as suas forças se esvaíam, ele, fazendo graça com o costume romano de divinizar os imperadores que morriam , disse:

“Oh, penso que agora estou me tornando um Deus!”

No dia 24 de junho de 79 D.C., sentindo que o fim estava realmente  próximo, Vespasiano, com muito esforço tentou levantar-se, dizendo:

“Um imperador deve morrer de pé!”

E acabou falecendo nos braços dos que estavam ao seu redor, tentando ajudá-lo.

 

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(Ruínas da piscina dos Banhos de Vespasiano, 13 km de Rieti, antiga Reate)
VII- Conclusão

Vespasiano foi um governante consciencioso, justo e diligente. As suas numerosas boas medidas poderiam ser condensadas sob o lema “restauração do Império Romano às linhas traçadas por Augusto”. Podemos dizer, assim, que ele consolidou o Principado, cujo prestígio, bem como a confiança (ou, ainda, adesão) da elite naquele sistema de governo, estavam abalados pelos desmandos havidos no final dos reinados de Tibério, Calígula e Nero, pela extinção da dinastia fundadora (Júlio-Cláudios) e pela guerra civil travada durante o “Ano dos Quatro Imperadores“. A economia, sobretudo as finanças públicas, e as fronteiras foram organizadas com coerência e afinco. Por outro lado, ele conseguiu evitar as vicissitudes e ambiguidades que Augusto experimentou quanto à questão da sucessão, que ficou firmemente estabelecida pelo princípio dinástico, nas mãos de seus filhos, Tito, e, depois, Domiciano.

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NERVA – O INVOLUNTÁRIO FUNDADOR DA IDADE DE OURO DE ROMA

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Em 8 de novembro do ano 30 D.C. (ano provável), nascia, em Narni, na região italiana da Úmbria, Marcus Cocceius Nerva (Nerva),  membro de uma tradicional família da nobreza italiana,  sendo ele filho, neto e bisneto de ex-Cônsules. O bisavô de  Nerva era partidário de Marco Antônio, mas em algum momento, durante as guerras do Segundo Triunvirato, ele passou a apoiar Otaviano, o futuro imperador Augusto, que, em recompensa, elevou à família de Nerva ao Patriciado. Por sua vez, o avô e o pai de Nerva foram afamados juristas, sendo que o primeiro era amigo pessoal do imperador Tibério.

Pouco se sabe da carreira política de Nerva no serviço público. Na verdade, parece que o único campo em que ele se destacou em sua juventude foi a poesia, chegando a receber elogios do imperador Nero. E foi no reinado deste imperador que Nerva foi indicado para o cargo de Pretor, no ano de 65 D.C., ocasião em que recebeu os ornamentos triunfais. Porém, como a história não registra nenhuma campanha militar nesse período, é bem possível que Nerva tenha, de alguma forma, ajudado a debelar a chamada Conspiração Pisoniana, uma trama para assassinar Nero, liderada por Calpúrnio Pisão, envolvendo senadores e integrantes da guarda pretoriana que estavam fartos das excentricidades e do comportamento cada vez mais tirânico daquele imperador, que finalmente cometeria suicídio ao ser destronado, em 68 D.C.

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Tudo indica que Nerva apesar de não ter se destacado como homem público ou na carreira militar, certamente tinha talento para atrair ou se aproximar de pessoas importantes e ele devia ser tido como um amigo ou conselheiro confiável, tanto é que, para o ano 71 D.C., ele foi escolhido para ocupar o consulado junto com o imperador Vespasiano, que, após os breves reinados de Galba, Oto e Vitélio, que disputaram a sucessão de Nero, tornara-se, em 69 D.C., imperador romano, inaugurando a dinastia dos Flávios.

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Ser escolhido pelo imperador para ser  o seu colega de consulado era uma honra excepcional, somente conferida a pessoas muito importantes e próximas do imperador (dois cônsules eram escolhidos para cada ano, e a identificação dos anos do calendário romano era feita de acordo com o nome dos cônsules que serviram naquele ano – ex: “no consulado de Vespasiano e Nerva“, era como os romanos identificavam o que hoje numeramos como o ano 69).

Em 90 D.C., Nerva,  que agora já era um senador veterano, foi escolhido novamente para ser cônsul junto com o imperador Domiciano, o filho de Vespasiano que sucedera o seu irmão mais velho, o adorado Tito, como Imperador, no ano de 81 D.C. Novamente, alguns historiadores acreditam que Nerva deve ter tido um papel importante ajudando o imperador a debelar uma séria revolta, agora capitaneada pelo governador da Germânia, o general Lúcio Antônio Saturnino e suas legiões. Nerva  pode ter atuado para assegurar o apoio do Senado, ou talvez tenha denunciado a trama, não se sabe ao certo.

Domiciano, embora não tenha sido, como administrador do império, um mau imperador, adotou, ao longo do seu reinado de 15 anos, um comportamento crescentemente despótico em relação à aristocracia senatorial, a quem, de acordo com a constituição não-escrita legada pelo primeiro imperador, Augusto, cabia um papel no governo imperial, administrando diretamente algumas províncias menos importantes, e, reunida no Senado, funcionava como órgão consultivo, sendo destinatária de algumas honrarias e de uma deferência protocolar pelo imperador.

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Toda vez que um imperador não respeitava essas aparências, ligadas à fictícia permanência dos elementos de um regime republicano, que em verdade estava defunto, ele recebia a hostilidade dos senadores mais ciosos de suas prerrogativas, que, em alguns casos, desaguavam em uma conspiração, normalmente reprimida com rigor implacável. 

Os historiadores antigos que escreveram sobre o seu reinado afirmam que Domiciano teria abandonado o título de “Princeps” ( que significava o primeiro senador e cidadão do império) e, abandonando todos os escrúpulos, exigiu ser tratado como “Dominus et Deus” (Senhor e Deus).

Sendo o imperador caracterizado como desconfiado e paranoico, o reinado de Domiciano acarretou para a aristocracia romana uma época de perseguições, processos de traição e execuções, período em que prosperaram os informantes e os delatores.

Com o passar do tempo, Domiciano tornou-se insuportável para o seu próprio círculo íntimo, tendo ele sido finalmente assassinado em uma conspiração arquitetada por cortesãos próximos, incluindo altos funcionários que eram seus escravos libertos domésticos e até a sua própria esposa, Domícia Longina, em 96 D.C., pondo fim à dinastia dos Flávios.

Se dermos crédito aos historiadores antigos, pela primeira vez, não havia generais em revolta dirigindo-se à Roma para assumir a púrpura imperial. E pela primeira vez, coube ao Senado assumir as rédeas da sucessão e nomear o novo imperador. E o escolhido foi o velho senador Marcus Cocceius Nerva.

Existe praticamente um consenso sobre os motivos pelos quais Nerva foi proclamado imperador:

Em primeiro lugar, ele era um senador respeitado, de uma família ilustre o suficiente para estar à altura da dignidade máxima do Estado. Vale notar que Nerva deve ter convivido com Tibério quando criança, e o seu tio era parente-afim deste imperador. E quatro gerações da família já tinham exercido o consultado.

De certa forma, a figura de Nerva fazia um elo de ligação entre o final da República, o início do Principado e o final da dinastia Flaviana. Politicamente, Nerva não devia estar ligado a nenhuma facção que fosse inaceitável para os militares.

Porém, talvez mais importante do motivo acima mencionado, era o fato de que Nerva era velho, quase um ancião para os padrões romanos, tendo cerca de 65 anos de idade e não gozando de boa saúde (a História conta que ele sofria de uma doença que o fazia vomitar com frequência).

E, mais importante ainda do que tudo isso, Nerva não tinha filhos…

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Portanto, Nerva era o “imperador-tampão” ideal, pois não havia risco de que se criasse uma dinastia que reivindicasse, posteriormente, seu direito ao trono, caso a situação política se invertesse e aparecesse algum general poderoso o suficiente para assumir o Império.

O reinado de Nerva foi curto, de setembro de 96 D.C. a janeiro de 98 D.C.

Nerva, obviamente não desapontou quem esperava o fim da tirania de Domiciano: as suas primeiras medidas foram a anulação de todos os processos de traição, a devolução das propriedades confiscadas, a volta dos exilados e a libertação de todos os presos políticos. As prerrogativas do Senado voltaram a ser respeitadas.

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Nerva também reduziu alguns tributos, medida sempre bem vista em todos os tempos e lugares, reduziu gastos com espetáculos e vendeu propriedades do Estado.

O chamado “Forum Transitorium“, iniciado por Domiciano, foi concluído e inaugurado por Nerva, em 97 D.C., por isso, ficou conhecido como Fôro de Nerva. O nome Forum Transitorium, provavelmente, deve-se ao fato de que ele ficava adjunto aos Fôros de César e de Augusto, maiores e mais antigos,  podendo passar-se de um ao outro através do Fôro de Nerva. Ainda subsistem, em Roma, alguns vestígios da colunata deste fórum (vide foto abaixo). Ironicamente, o reinado de Nerva também  seria caracterizado como um “reinado transitório”…

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Em outubro de 97 D.C.,  estourou uma revolta da Guarda Pretoriano, liderada por seu comandante, Casperius Aelianus, exigindo a punição dos assassinos de Domiciano. Os pretorianos chegaram a cercar o palácio imperial, praticamente colocando o imperador na situação de refém. Acossado e humilhado, Nerva teve que ceder e dois implicados na conspiração contra Domiciano foram executados.

Sem dúvida, a fraqueza de sua posição obrigou  Nerva  a adotar o general mais prestigiado do Exército Romano, o hispânico Marcus Ulpius Trajanus (o futuro imperador Trajano), comandante das legiões romanas na Germânia, como filho e sucessor. Segundo a narrativa consagrada, foi a escolha do homem mais capaz para a sucessão imperial, fórmula sucessória que seria a marca da dinastia dos Nerva-Antoninos. Porém, não sabemos se Trajano pressionou Nerva a adotá-lo ou se esta foi uma decisão voluntária do imperador.

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(Denário de Nerva, com a inscrição Concórdia no Exército, provavelmente cunhada para simbolizar o apoio do Exército Romano ao imperador, após a crise com os Pretorianos e a adoção do general Trajano como sucessor)

No primeiro dia do seu quarto consulado, no 1º de janeiro de 98 D.C. em uma audiência privada, Nerva sofreu um derrame. A sua saúde frágil certamente sucumbiu à tensão gerada pela revolta dos pretorianos.

Em 27 de janeiro de 98 D.C,  Nerva faleceu, aos 67 anos de idade, em sua casa situada nos Jardins de Salústio, em Roma, após uma prolongada febre, que surgiu depois do citado derrame. Trajano, o sucessor legal de Nerva, foi comunicado da morte na Germânia, mas não se deslocou imediatamente para Roma, preferindo assegurar a lealdade das legiões do Reno antes de sua entrada triunfal na capital, o que somente ocorreria no ano seguinte. 

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CONCLUSÃO

A sucessão pacífica entre Nerva e Trajano seria o paradigma do principado até a morte do imperador Marco Aurélio, em 180 D.C,, oficialmente deixando de lado o princípio dinástico baseado no nascimento, optando-se pela escolha do homem mais capaz como sucessor. Era um ideal caro à dinastia dos Nerva-Antoninos, apesar de, na realidade, as coisas serem um pouco diferentes: os imperadores antoninos em geral tinham algum laço de parentesco, ainda que distante.

Com efeito, os anos de governo de Nerva até Marco Aurélio seriam os mais prósperos e internamente pacíficos da História de Roma, sendo o período batizado de “Seculum Aureum” (O SÉCULO DE OURO).

SIDÔNIO APOLINÁRIO

Em  5 de novembro de 432 D.C., nasceu Gaius Sollius Sidonius Apollinaris (Sidônio Apolinário),  famoso poeta e missivista romano, em Lyon, antiga Lugdunun, na província romana da Gália, no seio de uma tradicional família da classe senatorial daquela província, sendo ele filho e neto de prefeitos pretorianos da Gália.

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(Ruínas do anfiteatro romano de Lyon)

As Cartas escritas por Sidônio constituem a fonte histórica contemporânea mais importante, não apenas sobre a situação da província da Gália no final do século V, mas também nos fornecem um panorama do Baixo Império Romano em seus últimos anos de agonia.

E Sidônio encontrava-se em uma posição de espectador privilegiado para legar essa contribuição, pois, em 452 D.C., ele casou com Papianilla, que era filha de Avito, que logo seria aclamado Imperador Romano do Ocidente (Avito, que também era um influente senador galo-romano, reinaria de julho de 455 a outubro de 456).

As cartas de Sidônio nos mostram que ele teve uma esmerada educação na cultura clássica greco-romana, talento que lhe granjeou o respeito dos seus contemporâneos e, sem dúvida, ele utilizou em seu próprio benefício, ao compor panegíricos em honra de seu sogro, Avito, e também dos imperadores Majoriano, que destronou o primeiro, e reinou de 457 D.C. a 461 D.C. e lhe nomeou Conde (Comes) de Auvergne, e Antêmio, que reinou de 467 D.C. a 472  D.C. – sendo que este último, em reconhecimento, presenteou Sidônio com o prestigioso cargo de Prefeito Urbano de Roma, em 467 D.C.

Sidônio voltou para a Auvergne em 469 D.C. e aproveitou para publicar o restante dos seus poemas. Logo depois, ele foi escolhido como Bispo da atual cidade de Clermont-Ferrand, graças muito mais às suas conexões políticas e prestígio do que pelos seus méritos teológicos, já que ele mesmo duvidava de usa capacidade para ocupar o cargo. Nessa função, Sidônio tentou defender a cidade dos  ataques dos bárbaros visigodos.

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Quando Clermont finalmente se rendeu aos Visigodos, em 474 D.C., Sidônio  foi exilado para Carcassone, mas, depois de muito suplicar a Eurico, rei dos germânicos, ele foi autorizado a reassumir suas funções de bispo em Clermont.

Não obstante, pouco após a sua morte, ocorrida em 21 de agosto, provavelmente do ano de 486 D.C., Sidônio Apolinário foi canonizado pela Igreja Católica e virou um santo, cujo dia de veneração é o dia do seu falecimento, que ocorreu quando ele tinha cerca de 45 anos de idade.

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(Pedaço da estela funerária de Sidônio Apolinário, com fragmentos do texto do seu epitáfio)