O MENOS FAMOSO, PORÉM MAIS DEVASTADOR SAQUE DE ROMA

Em 17 de dezembro de 546 D.C., Totila, rei dos Ostrogodos, transpôs as Muralhas Aurelianas que protegiam Roma e invadiu a Cidade Eterna.

Roma era protegida por uma guarnição de soldados do Império Romano do Oriente, que muito mais tarde seria batizado pelos ocidentais de Bizantino. A maior parte da Itália tinha sido reconquistada pelo exército romano comandado pelo general Belisário, à testa de uma campanha militar idealizada pelo Imperador Justiniano I, visando restaurar a antiga glória do Império Romano (executada após a bem sucedida destruição e reconquista do reino vândalo na África), campanha essa que ficou conhecida como “A Guerra Gótica”.

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(O Imperador Justiniano I e sua corte, mosaico da Basílica de San Vitale, em Ravena)

Nota: Os Ostrogodos haviam invadido a Itália em 489 D.C., liderados pelo seu grande rei Teodorico, e eles tornaram-se senhores da península ao derrotar definitivamente o rei Odoacro, em 493 D.C. (Vale lembrar que foi o chefe bárbaro Odoacro quem depôs o último Imperador Romano do Ocidente, Rômulo Augústulo, em 476 D.C., autoproclamando-se Rei (rex) da Itália. Por isso, esta data é considerada como sendo o fim do Império Romano do Ocidente e, convencionalmente, como o início da Idade Média).

Roma foi recapturada por Belisário em 536 D.C. Porém, rei ostrogodo Wittigis (Vitiges) submeteu à Cidade a um cerco que durou 374 dias, entre idas e vindas, até que eles desistiram, após uma resistência feroz dos romanos. Nesse meio tempo, Wittigis mandou executar dezenas de senadores romanos que ele mantinha presos em Ravena.

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(Moeda ostrogoda com a efígie de Wittigis, foto de http://www.cngcoins.com)

Essa primeira fase da guerra prosseguiu até 540 D.C., até a derrota e captura de Wittigis, que foi levado cativo para Constantinopla.

Todavia, após a derrota para os bizantinos, Totila, o sucessor de Wiittigis,  reagrupou as forças godas e combateu ferozmente o exército de Belisário. Assim, após conquistar as regiões da Lucânia e do Brutium, Totila resolveu sitiar Roma.

Ao contrário do que muita gente pensa, a Queda do Império Romano do Ocidente, em 476 D.C.,  praticamente não acarretou nenhuma consequência negativa para a grande cidade de Roma, exceto o desconforto da sua elite em ter que negociar diretamente com os bárbaros. Vale lembrar que a “Cidade Eterna” já não era a capital do Ocidente fazia mais de um século, substituída por Milão e, depois, Ravena.

Na verdade, depois do Saque de 410 D.C., pelos Godos (evento que só durou 3 dias e causou poucos estragos), e de 455 D.C., pelos Vândalos (esse bem mais desastroso),  a cidade de Roma até prosperou, pois Teodorico conseguiu proporcionar mais segurança e ordem na península, além dele entrar em entendimento com a aristocracia senatorial.

O Senado Romano, que continuou funcionando sob o domínio ostrogodo, até mesmo readquiriu uma parte da antiga proeminência, passando a ter voz ativa nos assuntos urbanos. E também os antigos magistrados, como os cônsules, continuaram a ser indicados.

Estima-se que, anteriormente à Guerra Gótica, Roma deveria ter cerca de 100 mil habitantes. Assim, embora longe do 1 milhão de habitantes que a Urbs chegou a ter no auge do Império, ela ainda era, com folga, a maior cidade da Europa Ocidental.

No entanto, Totila estava mesmo decidido a reconquistar Roma, apesar de um destacamento das tropas bizantinas estar estacionado na cidade de Portus – o Porto de Roma, de onde vinham os cereais que abasteciam a cidade, e da guarnição de Roma ser composta de 3 mil soldados (um número ridículo para o tamanho da cidade e dos exércitos nos tempos antigos, mas que no período da Alta Idade Média não era assim tão desprezível).

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(Moeda com a efígie de Totila, foto de http://www.cngcoins.com)

Assim, para forçar uma rendição, Totila mandou derrubar os aquedutos que ainda estavam de pé,  e logo a sede e a fome começaram a grassar na Cidade. Os historiadores contam que os habitantes comeram as sementes, urtigas e depois os cachorros e os camundongos. Quando tudo acabou, relatou-se que eles comeram os próprios excrementos. Diante da situação insustentável, o comandante da guarnição autorizou que quem quisesse poderia deixar a cidade.

O Papa Vigilius que conseguiu fugir de Roma para Siracusa antes do cerco, convenceu o imperador Justiniano a mandar navios com suprimentos para a Cidade, mas eles foram interceptados e capturados pelos Ostrogodos quando tentaram subir o Rio Tibre.

Finalmente, no dia 17 de dezembro de 547 D.C., soldados isáurios da guarnição de Roma, subornados por Totila, ajudaram alguns godos a abrirem a Porta Asinaria das Muralhas Aurelianas, e os Ostrogodos entraram.

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(Porta Asinaria, Muralhas Aurelianas, Roma)

A maior parte da guarnição conseguiu escapar por outro portão e, a se acreditar nas fontes, da população civil somente teriam permanecido 500 habitantes! (esse número deve explicar a baixa contagem de 28 soldados e 60 civis mortos logo após a invasão).

A cidade foi devastada: trechos da muralha foram derrubados, inúmeras casas foram queimadas e tudo que podia ser carregado foi saqueado. Toda ou a maioria da população remanescente, incluindo os senadores, foram levados cativos.

Consta que a intenção inicial de Totila era transformar Roma em pastagem para gado, mas ele teria recebido uma carta de Belisário alertando que aquele propósito de destruir uma cidade mundialmente célebre pelos seus monumentos, que pertenciam à posteridade humana, comprometeria a sua reputação. Convencido ou não por esse argumento, o fato é que Totila não levou à cabo a sua intenção original, deixou a Cidade e partiu para a região da Apúlia para continuar a guerra contra os bizantinos.

Segundo a “Crônica do Conde Marcellinus”, Roma ficou inabitada por quarenta dias, ao ponto de “nenhum homem ou animal ter permanecido ali”.

Belisário, então, reocupou Roma, derrotando a pequena força de 400 homens que Totila deixara na Cidade, e restaurou as muralhas o melhor que pôde, colocando outra guarnição. Ele também instalou um mercado, agora que o transporte dos grãos da Sicília tinha sido restabelecido. Totila retornou do Sul e tentou recapturar Roma de novo, mas foi derrotado.

Contudo, a guerra prosseguia no resto da Itália e Totila se reorganizou para tentar a captura pela terceira vez, em 549 D.C. Os eventos deste cerco foram praticamente uma repetição daquele ocorrido três anos antes. Soldados isáurios da guarnição bizantina de 3.000 homens também traiçoeiramente permitiram a entrada dos Ostrogodos, agora pela Porta Ostiense.

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(Porta Ostiense, Muralhas Aurelianas, Roma, foto de Livioandronico2013)

Desta vez, porém, os soldados romanos que fugiram pelo outro portão foram,, em grande parte, mortos. A cidade foi novamente tomada e saqueada. Desta vez, Totila compreendeu que o controle de Roma lhe trazia um ganho político e estratégico. Assim, ele preferiu tomar medidas que favorecessem o repovoamento da Cidade. Ele mandou reconstruir as muralhas, bem como outros edifícios, e mandou trazer de volta para Roma os romanos que se encontravam em seu poder. Até mesmo vários senadores foram trazidos da Campânia e reinstalados em Roma.

Totila chegou, inclusive, a presidir uma corrida de cavalos no Circo Máximo. E, tentando ser simpático aos italianos, o rei ostrogodo nomeou o octogenário senador romano Liberius como comandante de suas tropas.

Contudo, em 552 D.C., os romano-bizantinos voltaram, agora liderados pelo hábil general Narses, que, auxiliado pelos Lombardos, à testa de um exército de cerca 25 mil homens derrotou e matou Totila, na Batalha de Taginae.

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(Tropas romanas durante o reinado de Justiniano)

Por sua vez, Teia, o sucessor de Totila, que comandava os Ostrogodos remanescentes, foi aniquilado na Batalha de Mons Lactarius, no ano seguinte, e o reino ostrogodo foi finalmente destruído.

A Itália, e Roma, quedavam-se arrasadas após 20 anos de cruentos combates. Os romano-bizantinos até tentariam revitalizar a Cidade, porém, sem sucesso, sobretudo porque, 15 anos mais tarde, a maior parte da Península  foi invadida pelos Lombardos, restando à Constantinopla o controle de Ravena e algumas áreas no sul.

Somente um núcleo de habitantes vivendo em torno do Papa e da Igreja Católica permaneceu residindo em Roma. A estimativa é de que a Cidade passou a ter, no máximo, entre 5 mil e 20 mil habitantes, sobrevivendo entre as monumentais ruínas de um passado glorioso. Pouco a pouco, elas passariam a ser usadas como estábulos,  fortalezas e pedreiras. Apenas um punhado de igrejas ou templos que foram convertidos para esse uso, como é o caso do Pantheon, sobreviveriam mais ou menos intactos até os nossos dias.

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O fato é que a população de Roma somente alcançaria os 50 mil habitantes no final do Renascimento, já na Idade Moderna.

CONCLUSÃO

No fim das contas, o projeto de “Reconquista” de Justiniano foi o pior que poderia ter acontecido à Itália. O fato é que as duas metades do Império Romano já tinham começado a se estranhar ainda durante o período imperial. A chegada desses romanos de fala grega vindos do Oriente, após mais de meio século de separação entre Roma e Constantinopla, foi mais percebida por muitos italianos latinos como uma nova invasão estrangeira do que como um exército de libertação do jugo germânico.

E ainda havia a questão da cada vez maior incompatibilidade entre o Catolicismo Romano, obediente ao Papa, e a Igreja Oriental, dirigida por um patriarca subordinado ao Imperador… Assim, muitos historiadores acredita que para os italianos era melhor a perspectiva de uma Itália unificada sobre um rei ostrogodo moderado, como foi o caso de Teodorico I, do que viver como uma nova província de Constantinopla…

HORÁCIO – CARPE DIEM

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Em 8 de dezembro de 65 A.C., nasceu, em Venusia  (atual Venosa), no sul da Itália, Quintus Horatius Flaccus (Horácio), filho de um escravo liberto que conseguiu tornar-se leiloeiro público. A cidade ficava na região do Samnium, que deu nome ao povo itálico dos Samnitas.

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(Panorâmica de Venosa, terra natal de Horácio, By D.N.R. – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=3978388)

Embora tivesse origem humilde, o pai de Horácio conseguiu amealhar dinheiro suficiente para lhe dar uma esmerada educação, inclusive propiciando que ele fosse estudar em Roma.

Horácio nunca deixou de demonstrar sua extrema gratidão à formação que seu pai lhe proporcionou, referindo-se a ele afetuosamente na sua obra Sátiras:

“Se meu caráter é maculado por algumas pequenas falhas, mas, fora isso, é decente e moral, se tu podes apontar apenas algumas manchas numa superfície que, de resto, é imaculada, se ninguém pode me acusar de cobiça, lascívia ou desregramento, se vivo eu uma vida virtuosa, livre de corrupção (perdoem-me, por um instante, a minha autoemulação), e se sou eu para meus amigos, um bom amigo, meu pai merece todo o crédito…Como agora ele merece de mim irrestrita gratidão e exaltação. Eu jamais poderei me envergonhar de tal pai, nem sinto eu qualquer necessidade, como tanta gente sente, de me desculpar por ser filho de um liberto” (Sátiras, 1.6.65-92).

Depois de estudar em Roma, onde o pai havia se juntado a ele, Horácio foi completar a sua formação em Atenas,  estudando na famosa Academia, fundada por Platão. Ali, ele foi influenciado pela escola filosófica de Epicuro e também pelos  filósofos estoicos. É provável que, antes ou durante a viagem, o pai de Horácio tenha falecido, deixando-lhe uma boa herança.

Em seguida, Horácio alistou-se, entre 44 e 42 A.C., no exército de Marcus Junius Brutus (Bruto), o líder dos conspiradores e assassinos do Ditador Júlio César, e que se autointitulavam “Os Libertadores” (Bruto (após o assassinato, tinha fugido para a Grécia e visitou Atenas, onde procurou angariar adeptos para a causa dos Optimates – a facção dos partidários da nobreza no Senado Romano que se opunha ao Ditador).

Tendo sido nomeado para o alto posto de tribuno militar, normalmente reservado para jovens da nobreza romana, Horácio chegou a combater na Batalha de Fílipos, travada em outubro de 42 A.C. contra os sucessores políticos de César, integrantes do Segundo Triunvirato, Otaviano, Marco Antonio e Lépido. Com a derrota dos “Libertadores“, Horácio teve as suas propriedades confiscadas pelos Triúnviros.

Apesar de ter escolhido o lado dos perdedores na Guerra do Segundo Triunvirato, bem como do confisco de seus bens, Horácio, graças à sua esmerada educação, conseguiu um emprego como escrivão do Tesouro da República (Aerarium), cargo que lhe permitiu começar a sua produção literária sem ter que se preocupar com a própria subsistência.

Então, a sorte somou-se ao talento de Horácio, quando, em 38 A.C., ele foi apresentado pelo seu amigo Virgílio, que, então, já era um festejado poeta, ao rico Mecenas, um entusiasmado patrono das artes que era amigo íntimo de Otaviano, o herdeiro de César, que se tornaria o futuro imperador Augusto.

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(Busto de Mecenas, By Cgheyne – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=6644246)

Horácio caiu nas graças de Mecenas, que inclusive deu-lhe de presente uma villa em Tívoli, e ele foi introduzido no círculo de poetas protegidos de Otaviano. Consequentemente, Horácio começou a receber encomendas de odes e poemas alusivos a eventos importantes para a propaganda imperial. Ele compunha seus versos em hexâmetros (métrica poética) e iambos (unidade rítmica).

Mecenas e Otaviano gostavam tanto de Horácio que o segundo, já transformado no imperador Augusto, convidou-o para ser seu secretário particular, o que era uma honra incomensurável, mas que foi delicadamente recusada pelo Poeta.

Em uma de suas Epístolas, datada 21 A.C.,  Horácio descreve a si mesmo como “tendo 44 anos e sendo baixo, bronzeado, prematuramente grisalho, de pavio-curto, mas facilmente acalmado.

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Em 27 de novembro de 8 A.C. Horácio faleceu, poucos meses depois de Mecenas, e, em obediência às instruções de Augusto, o Poeta foi sepultado no Mausoléu do seu falecido amigo e benfeitor,  situado na colina do Esquilino, em Roma.

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(Construção circular da época romana, chamada de “Auditório de Mecenas!”, ficava provavelmente nos famosos jardins do magnata romano, na colina do Esquilino, onde ele e Horácio foram sepultados).

As obras mais famosas de Horácio são as Sátiras e as Odes, além da Ars Poetica A poesia de Horácio, em muitas passagens, denota a influência da corrente filosófica do Epicurismo. Um dos versos mais famosos, de uma das “Odes”, é

Carpe diem, quam minimum credula postero” (aproveite o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã)

O conhecido verso, vale notar, voltou a ficar célebre em nosso tempo na fala do Professor de Literatura Keating, personagem de Robin Williams no filme “Sociedade dos Poetas Mortos“.

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Já na Antiguidade, Horácio foi reconhecido como um dos maiores poetas latinos. O retórico Quintiliano considerava as Odes “os únicos versos latinos que mereciam ser lidos”.

A obra de Horácio atravessou os séculos e influenciou importantes poetas e pensadores como Montaigne, Garcilaso de la Vega, Milton e muitos escritores e poetas da língua inglesa, além do grande filósofo Immanuel Kant, que usou um verso de Horácio – Sapere aude (Ouse saber!) – como o lema para a Era do Iluminismo em um ensaio.

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Segundo as palavras do próprio Horácio, o seu objetivo ao compor versos era o de dizer a verdade de um modo satírico:

“O que impede de dizer a verdade, rindo?”.

Os seguintes versos são um exemplo da refinada veia satírica do Poeta:

Há um defeito comum a todos os cantores: entre os seus amigos, eles nunca cantam quando se pede; e jamais param de cantar quando não é“.

Ajudar um homem contra a vontade dele é fazer o mesmo que matá-lo“.

Até um verso de Horácio foi citado recentemente em latim pelo juiz Sérgio Moro para minimizar as revelações do site Intercept (vide https://newsba.com.br/2019/06/23/moro-ironiza-the-intercept-em-latim-parturiunt-montes-nascetur-ridiculus-mus/):

As montanhas pariram um ridículo rato.” (parturiunt montes, nascetur ridiculus mus.)