DURA-EUROPOS – A POMPÉIA DO DESERTO

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(A Porta Palmirena, o principal portão de entrada de Dura-Europos, na Muralha Oeste da cidade)

Um dos sítios arqueológicos mais fascinantes do antigo Império Romano provavelmente nunca mais poderá ser visitado, pelo menos como era até bem pouco tempo atrás.

A cidade de Dura-Europos, na margem direita do Rio Eufrates, na atual Síria, situa-se próximo à fronteira oriental deste país com o Iraque, área que se encontra dentro da antiga Mesopotâmia. Mas, infelizmente, o lugar esteve no centro do território controlado pelo Estado Islâmico (ISIS ou DAESH), que durante três anos, sistematicamente pilhou e destruiu o sítio arqueológico.

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Ninguém sabe ainda o quanto foi saqueado e quais ou quantos tesouros podem ter desaparecido para sempre. Com base em imagens de satélite, estima-se que 70% do sítio arqueológico teria sido destruído pelos fundamentalistas (vide https://www.npr.org/sections/parallels/2015/03/10/392077801/via-satellite-tracking-the-plunder-of-middle-east-cultural-history).

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(Foto mostrando a extensão dos danos, com a cidade completamente escavada pelo ISIS, extraída do site da Universidade de Oxford,  satellite image © DigitalGlobe. Taken on 25/12/15)

Origem e período selêucida

 Dura-Europos foi fundada em 303 A.C. por Seleuco I Nicator, um general macedônio que, após a morte de Alexandre, o Grande, foi nomeado sátrapa (governador) da Babilônia. Após a guerra civil travada entre os generais que reivindicavam suceder o falecido rei (os chamados Diádocos), Seleuco autoproclamou-se rei da maior parte do território conquistado por Alexandre na Ásia, que incluía o que hoje é a Turquia, a Síria, o Iraque, o Irã, e partes do Afeganistão e do Paquistão, assim fundando o Império Selêucida.

A cidade foi construída segundo o modelo ortogonal das cidades helenísticas, seguindo a planta chamada de hipodâmica (porque idealizada pelo arquiteto grego e precursor do urbanismo, Hipódamo de Mileto).

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( Imagem do plano urbano de Dura-Europos )

O motivo principal da fundação de Dura-Europos foi estratégico, pois o local onde ela foi construída era o ponto de cruzamento fluvial da rota comercial leste-oeste que ligava as recém-fundadas cidades selêucidas de  Antióquia e Selêucia do Tigre, sendo também um ponto de passagem da rota norte-sul ao longo do rio Eufrates.  Ademais, o local era ideal para a construção de uma cidade fortificada: um promontório bem elevado em três lados, um deles dando para o rio, possibilitando que o único lado aberto fosse facilmente fechado por uma muralha (que seria construída décadas mais tarde). Por isso, a cidade ficou conhecida, na língua semítica dos habitantes nativos locais, como “Dura“, que  vem da palavra “duru” (fortaleza, em aramaico), embora o seu nome oficial grego fosse Europos, um nome provavelmente dado em homenagem à cidade de nascimento do seu fundador, Seleuco I, na Macedônia, que também se chamava Europos. (O nome composto “Dura-Europos”, pelo qual a cidade hoje é conhecida, só começou a ser empregado bem mais tarde).

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(Na foto acima é possível notar a posição privilegiada da cidade, dominando o rio Eufrates, somente sendo acessível pelo lado oposto ao rio, que foi  fechado pela muralha).

Com o colapso do Império Selêucida, sobretudo devido às seguidas derrotas sofridas contra a República Romana, Dura-Europos foi conquistada, em 113 A.C. pelo Império Parta, que em sua essência era uma coalizão de tribos iranianas chefiadas pela dinastia dos Arsácidas que recuperou a maior parte das terras do antigo Império Persa, conquistadas pela dinastia dos Aquemênidas.

Período Arsácida (Parta)

Em Dura-Europos, o período dos Arsácidas caracterizou-se por um certo compromisso d do Império com as elites de origem grega que governavam as cidades que pontilhavam a Anatólia e a Síria, inclusive as fundadas pelos Selêucidas, como foi o caso da cidade (Aliás, diga-se de passagem, o próprio Império Parta adquiriu apreciável grau de helenização). Por outro lado, estando a cidade inserida em uma região de fronteira entre o mundo helenístico e o mesopotâmico, de substrato étnico majoritariamente semita e babilônio, mas que estava sujeita a um império dominado por iranianos, não surpreende que, ao longo dos anos, a sua população fosse composta por vários grupos étnicos e que a sua cultura tivesse se tornado altamente sincrética.

No decorrer desse período, nota-se que a função estratégica militar de Dura-Europos perdeu importância. E, talvez por isso, durante o governo parta, a cidade virou uma espécie de centro administrativo e comercial da região próxima, prosperando bastante.

Entretanto, como resultado das campanhas do expansionista imperador romano Trajano, que declarou guerra ao Império Parta sob o pretexto de coibir a interferência dele na Armênia, e também,  provavelmente visando a glória militar e, ainda, eliminar o controle parta sobre o fluxo da Rota da Seda para o Império Romano, Dura-Europos foi conquistada pelos romanos, em 113 D.C.

Todavia, com a morte de Trajano, em 117 D.C., o seu sucessor, Adriano, resolveu abrir mão da recém-conquistada Província da Mesopotâmia, seguindo o seu pensamento estratégico de manter fronteiras melhor defensáveis, e a cidade, então, foi reocupada pelos Partas.

Com o passar dos anos, porém, no final do reinado do imperador romano Antonino Pio, o Império Parta, governado pelo rei Vologeso IV, voltou a intervir nos assuntos da Armênia. Assim, em 161 D.C., logo após a morte de Pio, que foi sucedido por Marco Aurélio Vologeso invadiu o referido reino-cliente de Roma, depondo o rei que era simpático aos romanos e instalando Pacorus, um parente, no trono. Isso marcou o início da Guerra Romano-parta de 161-166 D.C..

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(moeda parta com a efígie de Vologeso IV)

Em 165 D.C., após vários sucessos ao longo dos dois anos anteriores, os romanos capturaram Dura-Europos, comandados pelo grande general Avídio Cássio (Nota: Avídio era tataraneto de Júlia Lépida, que por sua vez, era tataraneta de Júlia, a Jovem, sendo ele, assim, descendente direto do imperador Augusto, pai da última). Em seguida, o Avídio Cássio logrou saquear e incendiar a capital parta, Ctesifonte.

Essa guerra terminou no ano seguinte, com a vitória romana, embora o exército romano tenha sido obrigado a voltar para o território romano em virtude da terrível epidemia que ficaria conhecida como Peste Antonina. Como resultado da vitória, a fronteira romana da Síria avançou mais quase 250 km na direção sul do rio Eufrates, parando em Dura-Europos.

Começava, assim, o período da dominação romana em Dura-Europos.

Período Romano

O Império Romano, como anteriormente procedera em relação a maior parte das cidades de cultura grega conquistadas, permitiu que os magistrados civis da cidade mantivessem certo grau de autonomia. Assim, a elite grega da cidade manteve o seu status, ainda que, agora, a autoridade sobre questões relativas à segurança e ordem pública provavelmente coubesse, em última instância, ao comandante militar romano.

Com a chegada do Exército Romano, Dura-Europos acrescentou novos elementos ao  fascinante  e variado cadinho étnico-cultural que habitava um perímetro tão pequeno. De fato, estima-se que a população da cidade, então, seria de aproximadamente cinco mil habitantes. Os indícios até agora encontrados apontam que, integrando as tropas romanas, ou acompanhando as mesmas, chegaram os judeus e os cristãos.

Com efeito, sendo uma cidade pequena, mesmo para os padrões da Antiguidade, é impressionante que, na época do período romano, fossem faladas oito línguas diferentes em Dura-Europos (grego, latim, pahlavi, persa médio, aramaico, safaitico, siríaco e palmireno), existindo na cidade dez santuários pagãos de divindades de diferentes povos (Artemis Nanaïa, Zeus Megistos Artemis Azzanathkona, Zeus Kyrios, Atargatis, Bel, Aphlad, Zeus Theos, Gad, Adonis e Mitra), além de uma sinagoga e de uma igreja cristã, conforme os vestígios arqueológicos revelaram,  todos aparentemente coexistindo em harmonia. A arquitetura e as obras de arte existentes na cidade também demonstram esse sincretismo, misturando elementos ocidentais e orientais. (cf.https://www.researchgate.net/publicatio/326929394_Dura_Europos_a_Greek_Town_of_the_Parthian_Empire_in_T_Kaizer_ed_Religion_Society_and_Culture_at_Dura-Europos_YCS_38_2016_Cambridge_University_Press_pp_16-29. e https://archive.archaeology.org/online/features/dura_europos/ )

No reinado do imperador Septímio Severo, que infligiu aos Partas nova derrota e dessa vez ainda mais esmagadora, os romanos estabeleceram uma guarnição militar permanente na cidade, destacando-se uma coorte de arqueiros originários da cidade síria de Palmira, a Cohors XX Palmyrenorum (cidade que, embora nominalmente fizesse parte do Império Romano, gozava de alto grau de autonomia) e também soldados da Cohors II Ulpia Equitata, e para isso foi necessário instalar, em 209 D.C., um quartel, ocupando alguns quarteirões do canto norte da cidade, que, transformados em distrito militar,  foram separados por um muro. Dentro dos muros do quartel, além das barracas dos soldados, a maioria utilizando residências convertidas, ficava o palácio do comandante (Dux Ripae). E com a presença dos soldados, a cidade ganhou também um pequeno anfiteatro.

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(Afresco do templo que ficava dentro do quartel da Cohors XX Palmyrenorum, em Dura-Europos, mostrando os soldados da unidade, capitaneados por seu comandante, Julius Terentius, participando de uma cerimônia religiosa).

Ainda, com a vitória de Severo na última guerra romano-pártica, a fronteira romano desceu mais 160 km na direção sul do Eufrates, abaixo de Dura-Europos, parando na cidade de Kifrin.

Severo,  com o objetivo de limitar o poder dos governadores da Síria, que em décadas passadas tinha sido a origem de vários pretendentes ao trono, resolveu dividir a província, destacando dela a nova província da Síria-Coele, da qual Dura-Europos passou a fazer parte.

Em 211 D.C., Septímio Severo concedeu a Dura-Europos o status de Colônia, o que conferia aos seus habitantes livres a cidadania romana e o acesso a vários privilégios, incluindo isenções de tributos.

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Uma fortaleza romana contra a Pérsia Sassânida

Apesar dos séculos de guerra e várias vitórias (e derrotas), contudo, não seriam os romanos quem dariam o golpe final no Império Parta…

Em 224 D.C., Ardashir (ou Artaxerxes), que havia substituído Papak como rei dos Persas (os quais então eram súditos dos Arsácidas), aproveitou-se dos conflitos internos entre os Partas e iniciou uma revolta contra os Arsácidas, incorporando ou recebendo a adesão de outros governantes vassalos, terminando por derrotar o último rei parta, Artabanes, na Batalha de Hormozdgan. Dois anos depois, em 226 D.C., Ardashir I foi coroado Rei dos Reis (Shahanshah em persa), em Ctesifonte, fundando o Império Sassânida (assim chamado porque Ardashir era neto de Sasan).

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(Relevo em Naqsh Rajab, Irã, mostrando Ardashir I recebendo o anel real do deus Ahura-Mazda, foto de Sahand Ace)

Um dos motivos para o sucesso dos Sassânidas foi a insatisfação dos nobres do Império Parta com as seguidas derrotas militares sofridas pelas Arsácidas contra o Império Romano, e eles aparentemente ansiavam pela volta dos tempos gloriosos do Império Persa da época dos Aquemênidas, quando foram governados pelos grandes reis Ciro e Dario.

A orientação nacionalista e o desejo de restaurar as fronteiras do antigo Império Persa obviamente só podia levar ao confronto com Roma e Ardashir I logo tomou a iniciativa, em 230 D.C.,  sitiando a estratégica cidade de Nísibis (Nusaybin), uma praça-forte que havia sido recapturada pelos romanos no século anterior.

Somente a muito custo o imperador Severo Alexandre conseguiu repelir a invasão de Ardashir I.  Embora, no final, os persas tenham sido contidos, o exército romano sofreu algumas derrotas e houve vários motins, onde as tropas mostraram  extraordinária falta de disciplina.

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(Busto do Imperador Severo Alexandre)

Para piorar a situação, em concomitância com a ressurgimento de um inimigo poderoso no Oriente, o Império Romano começava a enfrentar, no Ocidente, as invasões de tribos germânicas, que por sua vez demonstravam ser mais numerosas, belicosas e bem preparadas do que as suas antepassadas de mais de dois séculos atrás.

Por isso, muitos estudiosos consideram que um dos fatores mais decisivos para o declínio e queda do Império Romano do Ocidente foi o surgimento do Império Sassânida, que ao  infligir várias derrotas militares romanos, drenou tropas que poderiam ter sido empregadas na defesa da fronteira Reno-Danúbio,  facilitando, assim, a penetração dos bárbaros germânicos, acarretando, ainda, a necessidade de reorganização política do Império, sendo uma das causas principais da criação do Império Romano do Oriente.

Para lidar com o pesadelo estratégico da guerra em dois fronts foi necessário aumentar o número de soldados e manter duas cortes, uma no Ocidente e outra no Oriente, contribuindo para o aumento dos gastos públicos, o que por sua vez, impôs a realização de reformas fiscais a partir do reinado de Diocleciano, aumentando a tributação, com sérias consequências econômicas, políticas e sociais.

Os sucessores de Septímio Severo e de Caracala caracterizaram-se por serem manipulados pelas imperatrizes-mãe, que na verdade controlavam a burocracia palaciana e as finanças imperiais.

Severo Alexandre acabou sendo assassinado pelos soldados, após tentar negociar com os bárbaros germânicos, em 235 D.C. Ironicamente, a dinastia dos Severos, cujo fundador elegeu o prestígio e o bem-estar dos militares como prioridade absoluta, favoreceu o aumento da indisciplina e os dois últimos imperadores, Elagábalo e Severo Alexandre, reputados como fracos., foram assassinados pelas tropas. Assim, Roma agora entrava na chamada Crise do Século III.

O ressurgimento de um Império Persa poderoso foi uma péssima notícia para os habitantes de Dura-Europos. Afinal, a cidade fronteiriça estava obviamente na linha de frente de qualquer ataque persa. A guarnição da cidade teve que ser reforçada e os assuntos militares tornaram-se preponderantes.

Pelos nomes existentes em inscrições e papiros que foram descobertos nas suas ruínas, aparentemente houve no período um grande influxo de habitantes de origem síria, incluindo soldados provenientes de destacamentos (vexillationes) de legiões acantonadas na província. Tudo indica que o status político da elite de origem grega, que já vinha perdendo  proeminência e poder a partir da instalação de um comandante militar romano no interior da cidade,  diminuiu bastante e muitos dos seus membros podem até ter emigrado (cf. “The Palmyrenes of Dura-Europos: A Study of Religious Interaction in Roman Syria“, Lucinda Dirven, pág. 15)

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Dura-Europos agora, era praticamente mais um forte militar do que uma cidade. Sentindo a ameaça do renovado poder sassânida, a cidade passou por uma série de obras visando reforçar as suas defesas.

Entrementes, a morte de Severo Alexandre e o caos reinante no Império Romano incentivou Ardashir I a atacar novamente a Síria e a Mesopotâmia romanas. Ele sitiou e tomou as estratégicas cidades de Nísibis e Carras (Harran), em 238 D.C.

Em 242 D.C, Ardashir I foi sucedido por seu hábil e determinado filho, Sapor I (Shapur), que receberia o cognome do “O Grande”, e, fazia dois anos já vinha governando a Pérsia junto com o pai. Inicialmente, Sapor teve que subjugar  as tribos medas nas montanhas do Irã e os Kushan na fronteira oriental do Império Persa, e,, assim, os romanos, durante o reinado de Gordiano III , aproveitaram para invadir a Mesopotâmia sassânida e conseguiram retomar Nísibis e Carras, em 242 D.C.

Sapor I retornou para dar combate à invasão e os Persas derrotaram os romanos na Batalha de Misiche, próximo à atual Fallujah, no Iraque, em 244 D.C. Segundo as fontes persas e um relevo comemorativo que Sapor I mandou fazer em uma rocha no local, o imperador Gordiano III foi morto nessa batalha, embora o fato não seja mencionado nas fontes romanas. De qualquer forma, o imperador romano, se não morreu na batalha, foi assassinado  imediatamente depois, e sucedido pelo Prefeito Pretoriano, Filipe I, cognominado “o Árabe” (ele nasceu  na província romana da Arabia Petraea, na cidade de Philippopolis, atual Shabbah, a 90 km ao sul de Damasco).

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(Busto de Filipe, o Árabe)

Filipe, o Árabe não teve muitas alternativas senão assinar um tratado de paz com o Império Sassânida, o qual foi considerado humilhante pelos romanos, a fim de evitar a destruição ou captura do exército romano sobrevivente da Batalha de Misiche, fato que poderia colocar todo o Oriente romano em risco.

Mas na verdade, dadas as circunstâncias,  os termos da trégua não foram tão ruins. Os Persas colocaram um pretendente de sua confiança no trono da Armênia e receberam uma indenização de 500 mil denários de ouro. Os romanos mantiveram Nísibis, Carras e Dura-Europos.

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(Relevo persa em Naqsh-e Rostam, mostrando Filipe, o Árabe se ajoelhando perante Sapor I, que também captura Valeriano, o seu sucessor – este último fato ocorreu em 260 D.C.)

Não se sabe com exatidão o que sucedeu em Dura-Europos nesses anos, mas, apesar da cidade estar no centro do conflito Roma x Pérsia, a sua comunidade judaica, por exemplo, teve recursos suficientes para erguer uma nova sinagoga no lugar da antiga, muito mais suntuosa do que a anterior, no ano de 244 D.C.

Como é frequente no período entre 240 e 270 D.C., o auge da Crise do Século III, as fontes escritas romanas são esparsas e pouco confiáveis.

O caos em que se encontrava o Império Romano, sobretudo após a desastrosa derrota sofrida contra os Godos na Batalha de Abritus, em 251 D.C. que resultou na morte em combate do imperador Trajano Décio, muito provavelmente encorajou Sapor I a invadir novamente a Sìria e a Mesopotâmia romanas.

Em 253 D.C., segundo as inscrições nos relevos comemorativos que Sapor mandou fazer em Naqsh-i Rostam, os Persas derrotaram um grande exército romano com 60 mil soldados, na Batalha de Barbalissos, cidade às margens do rio Eufrates na província romana da Síria-Coele.

A vitória possibilitou os Persas sitiarem e tomarem várias cidades importantes (37 segundo o relevo de Naqsh-i-Rostam), incluindo a grande cidade de Antióquia, capital da Síria romana, que tinha cerca de 400 mil habitantes (Há, inclusive, entre os acadêmicos, uma corrente, com argumentos respeitáveis, que vê indícios de que, nessa ocasião, Dura-Europos foi uma das cidades capturadas, sendo, posteriormente, retomada pelos romanos, como por exemplo, a professora de Arqueologia  Jennifer Baird, da Univesidade de Londres (cf. https://www.academia.edu/656310/Dura_Deserta_The_Death_and_Afterlife_of_Dura-Europos)

Os Persas Sassânidas haviam herdado milênios de cultura e tradições das civilizações do Oriente Médio, eram disciplinados e bem mais determinados do que seus antecessores arsácidas. E, além disso, ele eram conhecedores das mais avançadas técnicas de cerco e das máquinas de assédio da Antiguidade.

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Indubitavelmente, a guarnição e os habitantes de Dura-Europos sabiam que a vez deles chegaria logo… (OBS: É possível, e há algumas evidências que parecem apoiar essa tese, que a população civil tenha sido deportada pelos persas, caso eles tenham tomado a cidade em 253 D.C., ou evacuada pelos romanos, em preparação para o cerco)

Cerco persa e abandono

Não há nenhum relato escrito sobre o cerco de Dura-Europos, mas o excepcional estado de preservação de todo o sítio arqueológico, permitiu aos estudiosos reconstruir com bastante precisão como ele ocorreu e o seu desfecho.

A guarnição romana certamente teve algum tempo para se preparar e antecipar o que os Persas fariam. Eles sabiam que a muralha oeste, que dava para o deserto aberto, seria o foco principal das investidas inimigas e que os persas usariam arietes para tentar abrir brecha por onde poderiam entrar. Assim, os soldados construíram  à frente da muralha de pedra uma cinta de tijolos de barro inclinada, que na base tinha 6 metros de profundidade, denominada de glacis.

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(Militares romanos da Cohors XX Palmyrenorum reproduzindo os uniformes retratados no mural do templo que decorava o templo. A suástica  para os romanos era um elemento decorativo, e talvez tivesse o objetivo de trazer boa sorte, não tendo nenhuma relação com a futura ideologia nazista)

Por sua vez, à parede do fundo da muralha, os romanos  ajuntaram um aterro que tinha o comprimento de 20 metros para trás e subia até 8 metros de altura. Esse aterro cobriu a  rua e a fileira de casas e edifícios adjacente à muralha oeste e tinha a finalidade de dar mais sustentação à muralha para resistir aos arietes e grandes pedras que fossem arremessadas contra ela. Foi graças a esse aterro que, quase 1700 anos mais tarde, seriam descobertas, praticamente intactas, a sinagoga e a igreja cristã primitiva da cidade.

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(Esquema mostrando os reforços à muralha feitos pelos romanos para resistir ao cerco persa, extraída dehttps://www.academia.edu/1448923/Death_in_the_dark_at_Dura-Europos_Did_the_Sassanids_use_chemical_warfare)

 

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(No foto podem  ser vistas algumas partes- não escavadas – do aterro feito pelos romanos)

O exército persa, estimado em 20 mil homens, chegou a Dura-Europos em 256 D.C., provavelmente no início da primavera, construindo um acampamento próximo à cidade. Era uma força que não ficava nada a dever aos romanos em termos de disciplina, equipamentos e e capacidade tática.  A tropa incluía, além da infantaria, a temível e vistosa cavalaria couraçada chamada pelos romanos de clibanários (clibanarii), grandes catapultas e sapadores especializados em cavar túneis.

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(Um relevo sassânida em Taq-i-bostan, no Irã, mostrando um clibanarius persa, foto de Zereshk )

Por sua vez,  sua vez, a guarnição romana certamente recebeu reforços, mas, em todo caso, o seu número deveria ser de 3 mil soldados, sendo, na estimativa mais larga, de 5 mil soldados .

Os romanos sabiam que, devido a superioridade numérica dos Persas, eles somente teriam chance de sobreviver se conseguissem resistir às tentativas dos inimigos de penetrar nas muralhas de Dura por tempo suficiente para que eles desistissem em face das perdas sofridas ou, então, até que o resto do exército romano, vindo de outras províncias,  chegasse em socorro. A resistência, assim, dependia da defesa e da solidez das muralhas, pois a cidade contava com fonte de água dentro dela e provisões tinham sido estocadas em antecipação.

Acredita-se, com base nos vestígios, que os persas devem ter feito algumas incursões exploratórias junto à muralha oeste, com suas 15 torres, principalmente onde ficava o portão principal de entrada da cidade (Porta Palmirena),  para testar a força dos defensores. Eles logo devem ter percebido que eram guarnecidas por muitas armas de arremesso do tipo balista, o temível escorpião ( scorpio ), como eram chamadas pelos romanos (vide fotos abaixo), que tinham o alcance de 400m e eram capazes de perfurar um escudo a mais de 100m de distância, além das flechas disparadas pelos experientes arqueiros da Cohors XX Palmyrenorum.

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( foto de MatthiasKabel)

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(Um scorpio, defendendo uma posição fortificada, retratada na Coluna de Trajano, em Roma – foto acima. OBS; Nas duas fotos aparecem a cheiroballistra uma variante do scorpio)

Os Persas, então, começaram a usar as suas catapultas, que atiravam enormes bolas de pedra, a fim de causar dano à muralha, matar os defensores que estavam nos muros e nas torres, além de causar o máximo de pânico na população civil.

Sobretudo, a barragem de artilharia facilitava dissimular o principal objetivo dos Persas: cavar túneis que chegassem até as fundações das muralhas, que, sem o apoio necessário, eles esperavam que ruíssem nos trechos escolhidos, permitindo um assalto direto pelas tropas sassânidas.

Os Persas começaram a cavar esses túneis a partir do cemitério de Dura-Europos, que, como em todas as cidades antigas, ficava do lado de fora das muralhas. Isso permitia que eles aproveitassem as tumbas já escavadas no solo rochoso sobre o qual se assentava a própria cidade. Dois dos locais que os Persas escolheram para fazer o trabalho de sapa foram as denominadas Torres 14 e 19 da Muralha Oeste de Dura-Europos.  A primeira fica ao sul, e a segunda, ao norte, da Porta Palmirena. Isso, provavelmente, tinha o propósito de fazer com que os defensores romanos se espalhassem mais, não ficando concentrados num só ponto de ataque.

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(Desenho reconstituindo a aparência interna da Porta Palmirena, de A. Henry Detweiler, 1937. Unpublished drawing, Yale University Art Gallery, Dura-Europos Archives).

A Batalha pela Torre 19

Com o objetivo de derrubar a Torre 19, os Persas  começaram a cavar um túnel a cerca de 40 metros dela. Em dado momento, quando o túnel chegou mais próximo, os defensores romanos certamente conseguiram ouvir, vindo do subsolo, o barulho das ferramentas persas escavando a rocha e, da mesma forma que nos relatos sobre vários outros cercos da Antiguidade, eles resolveram cavar uma contra-mina, isto é, o seu próprio túnel, visando interceptar o dos Persas e impedi-los de continuar a ação deles, seja matando os inimigos em combate corpo-a-corpo, seja fechando o túnel inimigo.

Porém, os Persas conseguiram chegar primeiro embaixo da base da Torre 19 e, retirando o trecho de  terra que estava acima de suas cabeças, começaram a minar as fundações de blocos de pedra da muralha, escorando com vigas de madeira.

Por sua vez, o túnel romano foi cavado através do aterro que os defensores tinham feito anteriormente para escorar a muralha e conseguir interceptar o túnel inimigo, embora ficando 3 metros acima dele.

O arqueólogo francês Robert du Mesnil du Buisson, que escavou o local entre as décadas de 20 e 30 do século XX, encontrou, no túnel escavado pelos Persas, 20 corpos de soldados romanos, identificados pelo seu característico equipamento, e o corpo de um soldado persa, identificado por seu elmo e cota de malha. além de outros materiais.

 

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(Restos mortais do soldado sassânida encontrado no túnel sob a Torre 19, ainda com a sua cota de malha).

Segundo a interpretação de Robert du Mesnil, os soldados romanos  conseguiram descer até o túnel persa e invadi-lo, entrando em combate com os Persas, mas acabaram repelidos para o seu próprio túnel, deixando apenas um inimigo morto. Porém, os soldados romanos que estavam do lado de fora devem ter pensado que um grande número de persas tinha conseguido  derrotar os seus colegas e estavam vindo invadir a cidade pelo próprio túnel romano, e, assim, teriam entrado em pânico e rapidamente fechado a sua entrada, deixando os seus camaradas trancados. Em seguida, os Persas atearam fogo às escoras de madeira em seu túnel, embaixo da fundação das muralhas, valendo-se de betume e cristais de enxofre, cujos vestígios foram encontrados no local, matando os soldados romanos asfixiados pela fumaça.

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Os vestígios mostram que por muito pouco o estratagema persa não deu certo.  Após as escoras serem incendiadas, a Torre 19 chegou a afundar,  descendo apenas um metro mas se estabilizou, provavelmente contida pelo aterro que os romanos, previdentemente, tinham construído atrás de toda a Muralha Oeste. Um trecho inteiro dela também  levemente cedeu, afundando um pouco verticalmente, mas sem, contudo desmoronar. Um piso interno da torre desabou, soterrando embaixo dele escudos romanos e uma armadura para cavalo.

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(Os efeitos do trabalho de minagem persa na região da Torre 19 ainda são clarametne visíveis, quase 1800 anos depois).

O ataque final

Com o insucesso da investida sobre a Torre 19, os Persas provavelmente resolveram se concentrar no trecho sul da Muralha, entre a Torre 14 e a Torre 15,  que ficava na quina sul da cidade, onde uma rampa de assédio estava sendo engenhosamente construída. Efetivamente, as escavações encontraram não um monte de terra, mas uma rampa sólida, com com muros laterais e pavimentada com tijolos de argila, por onde certamente subiria uma torre de cerco com rodas. A Torre 14 chegou a iniciar um colapso, mas a estrutura  também se manteve em pé, ainda que desconjuntada, igualmente contida pelo aterro de arrimo. Além disso, ao lado da rampa, os Persas escavaram um túnel largo o suficiente para permitir a passagem de quatro soldados lado-a-lado.  Houve também outras tentativas de invasão pela porta da cidade que dava para o rio Eufrates e intensos ataques dirigidos à Porta Palmirena, mas o mais provável é que o ataque final tenha se dado pela rampa, em um ataque conjunto com o avanço pelo túnel subterrâneo.

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(A Torre 14, vista de dentro,  que foi desconjuntada pela minagem persa, mas não colapsou totalmente)

Embora não se tenha certeza sobre o ponto exato por onde os Persas conseguiram penetrar,  o fato é que, após várias semanas, ou, mais provável, alguns meses de cerco, eles conseguiram invadir Dura-Europos. Escavações mais recentes demonstraram que houve luta dentro da cidade no reduto final romano: o quartel no norte da cidade, onde foram encontrados alguns restos mortais de soldados romanos nos alojamentos e uma boa quantidade de flechas de metal, voltadas para dentro da cidade, para serem disparadas pelos escorpiões.

Como já dissemos acima, não há relatos escritos do cerco a Dura-Europos, mas quem quiser ter uma boa idéia de como  se desenvolvia um cerco persa contra uma cidade romana na região, vale a pena ler o emocionante, mas bem fidedigno, relato que o historiador romano Amiano Marcelino fez do cerco à cidade de Amida, ocorrido em 359 D.C. Uma obra moderna que também faz uma excelente descrição do fim de Dura-Europos é o romance histórico Fogo no Leste,  integrante da série Guerreiros de Roma, do  historiador britânico Harry Sidebottom (no livro, a cidade é chamada de Arete).

O fim de Dura-Europos

Certamente os soldados romanos que não morreram na defesa de Dura-Europos foram  levados como prisioneiros pelos Sassânidas para trabalhar como cativos em seus domínios. A população civil, caso ainda estivesse vivendo algum particular em Dura-Europos quando do cerco, também foi deportada para a Pérsia ( OBS: se procedente a tese de que a cidade já havia sido uma primeira vez capturada pelos persas em 253 D.C., isso teria ocorrido, então, nesta oportunidade). Vale notar que a deportação de soldados romanos e da população capturada em batalhas e cercos era um costume arraigado entre os Persas, desde o tempo dos Aquemênidas,  tendo se verificado, por exemplo, em várias cidades da Síria e da Mesopotâmia romanas, e, portanto, em Dura-Europos isso não deve ter sido diferente.

Algumas inscrições persas parecem indicar que os sassânidas ficaram ainda, no mínimo por alguns meses, em Dura-Europos, mas não há dúvida de que a cidade foi abandonada, seja logo após a sua queda ou pouco tempo depois.

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(Inscrições em persa, na sinagoga de Dura-Europos)

Pouco mais de cem anos depois, em 352/363 D.C., Amiano Marcelino, servindo na campanha de Juliano contra a Pérsia, conta que este imperador passou por Dura-Europos e que ela, então, era uma cidade deserta.

A redescoberta de Dura-Europos

Dura-Europos foi visitada por uma expedição norte-americana, que, inclusive, fotografou a Porta Palmirena, em 1885.

Em termos arqueológicos, a cidade foi “redescoberta” poucos anos após o fim da 1ª Guerra Mundial, quando, em 30 de março de 1920,  um soldado britânico cavando uma trincheira encontrou paredes com pinturas murais no Templo de Bel. Como a Síria estava sob administração francesa, em mandato conferido pela Liga das Nações,  o arqueólogo belga Franz Cumont, com o patrocínio da Académie des Inscriptions et Belles-Lettres  de Paris iniciou as escavações científicas. Por sua vez, entre 1929 e 1937, a Universidade de Yale, junto com a Académie patrocinaram os trabalhos, sob a diração do prestigiado historiador russo,  Michael. I. Rostovtzeff, que publicou o livro Dura-Europos and Its Art. Os trabalhos arqueológicos foram interrompidos pelo advento da 2ª Guerra Mundial e somente seriam reiniciados em 1986, pela Missão Franco-Síria, que revelou vestígios que sugerem que houve um grande combate seguido de incêndio, na Porta Palmirena e outros que sugerem que a cidade foi ocupada pelos Sassânidas durante algum tempo após o sítio de 256 D.C. (cf. https://www.persee.fr/doc/crai_0065-0536_1994_num_138_2_15369?pageId=T1_398)

A “Pompéia do Deserto”

O fato da cidade nunca mais ter sido habitada, ao menos em caráter permanente, após a sua captura pelos Sassânidas, em 256 D.C. e, sobretudo,  vários edifícios terem sido deliberadamente sepultados pela construção do aterro junto à Muralha Oeste, foram responsáveis por uma grande quantidade de achados de valor incalculável, cuja enumeração e comentários pormenorizados fica um tanto difícil em um blog de divulgação como o nosso. As condições climáticas do sítio arqueológico, somadas as circunstâncias ligadas às obras defensivas feitas pelos romanos, à própria dinâmica dos combates travados e ao abandono final da cidade contribuíram muito para o excelente estado de preservação desses achados.

Entre os achados que consideramos mais notáveis, podemos mencionar:

1) A sinagoga

A sinagoga de Dura-Europos, em seu formato derradeiro, é uma das mais antigas já encontradas.  Ela foi remodelada em 244 D.C, expandindo um prédio mais antigo. O fato de ter sido intencionalmente soterrada pelo aterro defensivo construído pelos romano às vésperas do cerco de 256 D.C. ajudou a preservar boa parte da sua estrutura, disposição e decoração internas.  Em uma das paredes, por exemplo, há um nicho para a Torá, que fica na direção de Jerusalém. Os arqueólogos ficaram tão estupefactos com a riqueza e quantidade de suas pinturas murais, retratando várias passagens bíblicas, que, inicialmente, pensaram tratar-se de um templo pagão, devido ao fato da existência de uma proibição divina na Bíblia quanto a feitura de imagens de pessoas e animais. Observe-se que essas pinturas, alguns estudiosos acreditam, trazem indícios de que havia um modelo amplamente disseminado de imagens narrativas bíblicas, que teria sido copiado pelos artistas que fizeram os murais, e também de que esse modelo influenciou a  arte cristã primitiva. A sinagoga ficava bem próxima à igreja cristã da cidade, bem como de outros templos pagãos, o que parece indicar que havia uma convivência harmônia entre as diversas religiões em Dura. Por outro lado, a qualidade das pinturas e o tamanho do edifício é prova de que a comunidade judaica da cidade era bastante próspera e gozava de boas relações com a classe dominante de Dura. As pinturas e vários elementos arquitetônicos da sinagoga, incluindo os muito fragmentos do forro original do teto, foram remontados no Museu de Damasco e ainda estão em ótimo estado.

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2) A igreja cristã

Trata-se da igreja cristã mais antiga já encontrada. Ocupa uma casa particular, remodelada para servir como igreja, como era comum no início da cristandade. Fica próxima à sinagoga, tendo sido construída alguns anos antes da remodelação daquela, e também foi preservada graças ao mesmo aterro. É, contudo, bem menor e mais modesta do que a sua vizinha. No seu interior, ha um salão para a reunião dos fiéis e um acesso para uma pequena, que foi adaptada para servir como batistério, em um nicho parecido com o que foi feito para abrigar a Torá na sinagoga. Inclusive, estudiosos acreditam que a igreja pode ter sido decorada pelos mesmos artesãos que trabalharam na primeira. Entre as pinturas existentes na parede do batistério estão as mais antigas imagens retratando Jesus Cristo encontradas até hoje, uma sobre a cura do paralítico (vide foto abaixo, onde ele carrega o próprio catre, como narrado no evangelho) e o outra mostrando Cristo caminhando sobre as águas e amparando São Pedro que afundava (as pinturas hoje estão na Universidade de Yale, nos EUA). O fato da igreja estar colada à Torre 17 e bem próxima a uma casa de banho e da casa dos escribas romanos é um sinal de que os cristãos eram bem tolerados em Dura-Europos, a despeito dos relatos de escritores cristãos de perseguições no reinado do imperador Trajano Décio (249-251 D.C).

 

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3) O mitreu

O mitreu (santuário do deus Mitra) de Dura-Europos foi construído em 168 D.C., logo depois da conquista pelos soldados do exército romano, já que o deus era extremamente popular entre os militares. O santuário também foi preservado pela construção do aterro defensivo e foi remontado na Universidade de Yale.

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(Imagem de um soldado romano participando de um culto no Mithraeum (templo de Mitra), em Dura)

 

4) Equipamentos bélicos  e vestígios relacionados com o cerco persa e a batalha travada em Dura-Europos

As escavações no sítio arqueológico de Dura-Europos proporcionaram achados de valor incalculável no que se refere aos equipamentos e táticas militares utilizados pelos exércitos romano e persas.

Os trabalhos dos arqueólogos nas torres e muralhas da cidade renderam exemplos raríssimos e, até mesmo inéditos, de vestígios decorrentes de guerras de antiguidade que congelaram no tempo situações de combate enquanto elas estavam se desenrolando.

A situação mais dramática foi a já mencionada operação de minagem persa e contra-minagem romana na Torre 19 da Muralha Oeste.

Recentemente, o arqueólogo Simon James, da Universidade de Leicester,  publicou suas conclusões sobre os achados na Torre 19 e concluiu, de modo bem convincente, que os 20 soldados romanos  cujos restos foram encontrados no interior do túnel que eles mesmo cavaram para interceptar o túnel persa foram mortos em virtude de deliberada queima de cristais de enxofre e betume pelos inimigos, tratando-se de um episódio de guerra química, que, aliás, não era estranha aos antigos, sendo mencionada por fontes antigas gregas.

De acordo com James, os soldados romanos não foram mortos em combate corpo-a-corpo, e sim  asfixiados e envenenados por dióxido de enxofre, proveniente dos elementos  acima mencionados, queimados pelos persas em um braseiro, provavelmente com o uso de um fole (ou em função do efeito sucção causado pela abertura do túnel romano). Posteriormente, os corpos dos soldados romanos inconscientes ou já mortos foram propositalmente empilhados no fundo do túnel romano, para impedir a entrada de reforços romanos. Porém, na operação, o único soldado persa cujo corpo foi encontrado, provavelmente um oficial comandante, dada a qualidade da sua armadura e elmo, acabou também morrendo asfixiado (vide https://www.academia.edu/1448923/Death_in_the_dark_at_Dura-Europos_Did_the_Sassanids_use_chemical_warfare)

(Desenho ilustrando a “guerra química” empregada pelos persas contra os romanos nos túneis subterrâneos embaixo da Torre 19, extraído do artigo do Prof. Simon James)

Um acessório militar importante encontrado no mesmo túnel foi o elmo utilizado pelo oficial persa que provavelmente morreu acendendo o braseiro que sufocou os romanos. Segundo estudiosos, o desenho deste elmo provavelmente influenciou o design dos elmos romanos utilizados no final do século III até o final do império, e, consequentemente até mesmo, os elmos europeus medievais *Cf. artigo de Simon James em https://www.persee.fr/doc/syria_0039-7946_1986_num_63_1_6923)

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(O desenho reconstitui o elmo e proteção de cota de malha do soldado persa que morreu na Torre 19, extraído do artigo do Prof. Simon James, acima citado)

Ainda em relação aos persas sassânidas, os achados no sítio de Dura-Europos demonstram que, ao contrário de que as fontes romanas, suspeitas de parcialidade, relatavam, e alguns historiadores ocidentais acreditavam,  o exército persa detinha capacidade logística, especialização e táticas militares avançadas para manter um cerco a uma cidade tão fortificada como Dura.

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(Foto tirada nos anos 20 mostra projéteis para catapultas trazidas pelo persas ainda no local exato onde eles as empilharam para serem usadas no cerco a Dura. Provavelmente, a cidade caiu antes que o lote precisasse ser utilizado).

Do lado romano, as escavações em Dura-Europos também renderam objetos muito valiosos para os historiadores militares.

Talvez o  mais icônico desses artefatos seja o escudo romano encontrado embaixo de detritos de uma das torres da muralha oeste. Simplesmente, este é o único escudo retangular romano já encontrado, do célebre tipo retratado em tantos relevos existentes em monumentos romanos. Este achado permitiu compreender a técnica construtiva do escudo, entender melhor o seu emprego e determinar que o seu tipo ainda continuava em uso em meados do século III (vide foto abaixo).

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Também foram encontrados exemplares de escudos redondos, tradicionalmente associados às unidades de auxiliares (auxilia), muito embora hoje acredite-se que ambos  poderia ser empregados por legionários ou auxiliares, conforme a situação exigisse. Um desses escudos é particularmente interessante porque ostenta uma pintura mostrando um mapa, ainda que impreciso como representação geográfica, mostrando o nome de várias fortificações romanas ao longo do Mar Negro, onde, presumivelmente, o soldado a quem ele pertencia deve ter servido. Esse costume castrense, aliás, é mencionado pelo poeta romano Ovídio, em seu poema Metamorfoses. (vide primeira foto abaixo)

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Finalmente, foram achadas armaduras para cavalos romanas, utilizadas pelas tropas equestres chamadas de catafractos, encontradas na Torre 19. Uma delas estava em tão bom estado que chegou a ser colocada em um cavalo que estava na escavação, nos anos 30.

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5) Outros achados (tão ou mais) relevantes

Vários papiros bem conservados foram achados no que seriam os arquivos da Cohors XX Palmyrenorum abarcando um período de 50 anos de atividades da unidade em Dura-Europos. Os documentos são relativos a escalas de serviços dos soldados, inventários de suprimentos, licenças e autorizações para transferência de militares, listas de pagamentos, datas de pagamentos de soldos e de dispensas militares, além de um calendário das datas comemorativas próprias da unidade, bem como de feriados religiosos e aniversários dos imperadores, a serem celebrados com paradas.

Um  fragmento de pergaminho (nº 24) contendo uma Harmonia do Evangelho em grego, um texto buscando conciliar as narrativas dos 4 Evangelhos Canônicos sobre a vida de Jesus Cristo, que se estima datar do século III D.C (sendo portanto anterior a 256 D.C, data do cerco e abandono de Dura-Europos). Para alguns estudiosos, o fragmento seria uma cópia do Diatessaron escrito por Taciano cerca de 165/170 D.C, embora para outros trate-se de uma obra independente.

Outro pergaminho, escrito em hebraico, parece derivar do Didache (Didaque), uma espécie de catecismo escrito cristão primitivo (alguns estudiosos estimam que ele dataria do século I A.C.), originado da comunidade de judeus-cristãos da Síria ou até da própria Jerusalém, sendo que alguns trechos são muito semelhantes a bençãos judaicas sobre a comida e o vinho ( Birkot-ha-mazon,). O fragmento foi assim traduzido:

“Bendito seja o Senhor, Rei do Universo, que criou todas as coisas, deu de comer e beber a todas os filhos da carne com os quais eles serão saciados; mas concedeu a nós, seres humanos, participar do alimento das miríades do seu angélico corpo. Por tudo isso, nós devemos dar graças cantando nas reuniões do povo”.

Conclusão

 

Dura-europos é um dos sítios arqueológicos mais fascinantes do mundo. A cidade existiu durante 560 anos, mais do que qualquer cidade brasileira, por exemplo, e, apesar de ter tido uma população que não ultrapassou 5 mil habitantes, foi o lar de diversas etnias e religiões que, tudo indica, coabitaram em harmonia.

Há um vasto material  sobre as escavações arqueológicas realizadas na cidade que ainda aguarda publicação.

Dezoito séculos depois,  uma nova tragédia se abateu sobre Dura-Europos: a devastação feita pelo Estado Islâmico, que, na busca por artefatos antigos para  vender no mercado negro e, também, por fanatismo religioso, vem sistematicamente destruindo o sítio.

                                                               F I M

 

 

POR QUE ASSASSINARAM CÉSAR?

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Para os conspiradores que esfaquearam César no Senado, a resposta para essa pergunta seria muito simples: “Porque ele era um tirano que planejava tornar-se rei e acabar com a República”. Eles inclusive chegaram a alegar que agiram com base em uma antiga lei grega que não apenas autorizava, mas até exigia,  que qualquer um que tivesse a oportunidade deveria matar o tirano, não sendo, assim, o tiranicídio, um crime, mas, em verdade, um ato em defesa da Democracia.

O estudo da História de Roma, porém, demonstra que a morte violenta de César era uma questão muito mais complexa do que um tiranicídio…

Nosso artigo, escrito nos dias que precedem  o dia 15 de março – os Idos de março de acordo com o calendário romano – e o mais célebre de todos, o dia 15 de março de 44 A.C., quando o Ditador Caio Júlio César foi morto na Cúria do Teatro de Pompeu, em Roma, é tentar contextualizar o assassinato na História da República Romana.

ANTECEDENTES HISTÓRICOS

Desde a sua fundação, surge, em Roma, uma acirrada luta pelo poder,  opondo o restrito grupo de clãs familiares aristocráticos (gens), cujos integrantes foram inicialmente chamados de “patrícios” contra a maioria da população livre que não fazia parte daquele grupo, compreendendo pequenos proprietários de terras, comerciantes e proletários (pessoas que vendiam sua força de trabalho a empregadores), que constituíam a “Plebe”.  Os patrícios julgavam-se os responsáveis pela Fundação da Cidade, pela sua posterior libertação do domínio etrusco e pela expulsão dos reis, ou seja, eles consideravam-se os fundadores da “Respublica Romana“.

Essa distinção Patrício x Plebeu era sobretudo censitária: plebeu era todo aquele que não fora arrolado como patrício pelo Censor, o magistrado encarregado de fazer o censo, naturalmente um patrício.

E assim, a República Romana não tinha ainda 15 anos, quando, em 495 A.C, os plebeus, insatisfeitos com os privilégios dos patrícios, ameaçaram abandonar Roma e fundar outra cidade. Conflitos como esses se repetiriam várias vezes, e, ao final deles, os plebeus conseguiram expandir seus direitos e limitar as prerrogativas dos patrícios, como por exemplo, quando eles impuseram a obrigação de publicação escrita das leis,  ao obterem os direitos de elegerem magistrados com poder de veto (Tribunos da Plebe) e de serem eleitos para todas as magistraturas, e,  finalmente, isso após prolongada luta, conquistarem o reconhecimento da força legislativa das votações de suas assembleias (“Concilium Plebis“, isto é Conselho ou Concílio da Plebe), em 287 A.C.

Comitium_Kontext-601x338(O”Comitium” era o local no Fórum Romano, em frente à Cúria do Senado, onde se realizava o Concilium Plebis, a assembleia dos plebeus. Sua aparência em meados do período republicano devia ser a da reconstrução acima, que foi extraída de http://www.digitales-forum-romanum.de/gebaeude/comitium/?lang=en )

Durante o crescimento e a expansão de Roma pela Península Italiana e pelo Mediterrâneo, houve a incorporação de vários povos italianos e inúmeras cidades e a fundação de colônias, não só na Itália, mas, também no sul da França e na Espanha, assentando-se nas mesmas soldados veteranos e povoando-as com cidadãos romanos que para lá migravam em busca de oportunidades. Aumentou, também, em decorrência dessa expansão,  o influxo de produtos e riquezas para Roma, enriquecendo muitos plebeus.

Esse processo de criação de uma nova classe de plebeus ricos, levou, ao longo de dois séculos, a uma reformulação da classe dos patrícios: O influxo de plebeus “novos ricos” foi absorvido,  ou melhor poderíamos dizer, cooptado, pela antiga elite patrícia, passando todos a fazer parte de uma nova classe informal, porque não reconhecida então pela legislação romana, chamada de “Nobilitas” (nobreza),  a qual incluía os antigos patrícios e vários plebeus muito ricos.

A ascensão social do plebeu rico era possibilitada pela própria evolução democrática da República Romana, fruto da luta secular da Plebe. Com a conquista do direito de serem votados para ocupar quaisquer cargos, eles podiam percorrer integralmente e em ordem crescente todas as magistraturas (ou cargos públicos), carreira que recebia o nome de “Cursus Honorum“, até chegarem ao Senado Romano. O plebeu que conseguisse chegar ao cargo de Cônsul, automaticamente ingressava no Senado e passava a integrar a nobreza (apelidava-se, então, a esses senadores “sem pedigree”, de “Novus Homo” – um “homem novo”).

 

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Teoricamente, os plebeus, desde o século III A.C, haviam adquirido a proeminência política em Roma, já que somente eles poderiam eleger os Tribunos da Plebe,  os quais tinham o poder de vetar qualquer leis, inclusive as emanadas do Senado (Senatus Consultus) e qualquer ato dos demais magistrados e, também,  de intercederem em qualquer ato em favor dos plebeus (“intercessio“). Porém, os atos do Tribuno da Plebe, ao contrário, não podiam ser objeto de veto. Aos Tribunos da Plebe era conferida a sacrossantidade, significando não podendo serem presos e nem seus passos impedidos, nem seus atos obstaculizados. Para completar, eles podiam convocar um Conselho da Plebe, onde somente os plebeus tinham direito a voto, com o poder de promulgar leis (“plebiscita” ou plebiscito).

Não obstante, todo esse poder conferido aos Tribunos e Concílios da Plebe raramente era usado. Eram tempos em que Roma se achava em quase permanente estado de guerra, os magistrados no front de batalha e a administração e a política eram conduzidas, quase que exclusivamente, pelo Senado, ao qual todos reconheciam o patriotismo e a abnegação pela causa romana.Esse regime, teoricamente democrático, na prática começou a ser erodido pelo Senado Romano, dominado pela nobreza, da seguinte forma: os Senadores, uma vez ingressados naquele Corpo, eram vitalícios e invioláveis. Os demais magistrados, porém, exerciam um mandato temporário, normalmente de um ano. Assim, ao deixarem o cargo,  eles podiam ser processados. Essa vulnerabilidade, ao longo do tempo, acarretou que todos os magistrados evitassem agir em desacordo com o Senado, procurando sempre consultá-lo antes de qualquer ato importante, para se garantir contra eventuais questionamentos futuros.

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(A Cúria Júlia, onde se reunia o Senado Romano, foi erguida por Júlio César e reconstruída diversas vezes durante o Império Romano. O prédio atual data do reinado do imperador Diocleciano)

Considerando que as eleições para as magistraturas exigiam campanhas que eram  bem custosas para a esmagadora maioria dos plebeus, frequentemente os candidatos, inclusive para o cargo de Tribuno da Plebe, endividavam-se, ou, quando exerciam outros cargos públicos, desviavam recursos públicos para as suas campanhas, ficando passíveis de serem processados pelos inimigos ao término de seus mandatos.

O que acontecia, então, era que majoritariamente apenas plebeus ricos ou aristocratas supostamente simpáticos à causa da Plebe concorriam ao cargo de Tribuno da Plebe. As poderosas prerrogativas do cargo eram disputadas em concorridas eleições, onde homens ambiciosos despejavam dinheiro para comprar votos dos eleitores plebeus. Os candidatos também frequentemente recorriam a bandos armados, com o objetivo de intimidar os adversários pela violência.

Logo, o Senado percebeu que poderia controlar os comícios da plebe se controlasse os Tribunos, já que eram eles que convocavam e presidiam essa assembleia popular.  E, não poucas vezes, na História de Roma constata-se que houve Tribunos que,  na realidade, atuavam em favor dos interesses da elite, como se fossem verdadeiros “pelegos“.

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A aparente constituição democrática de Roma, assim, na prática, degenerara em uma disputa parecida com as que hoje vemos em nações do chamado “3º Mundo”, temperada por aspectos de uma guerra entre “famiglias” da Máfia Italiana,  cenário aliás muito bem retratado nos primeiros episódios da minissérie “Roma”.

Enquanto isso, a expansão de Roma exasperava as contradições políticas, econômicas e sociais internas. Era necessário dar participação política às elites das inúmeras cidades incorporadas ou fundadas não só na Itália, mas também no Sul da França, Espanha, Norte da África e na Grécia.

Mais importante, havia a questão da grande extensão de terras agriculturáveis anexadas ao “Ager publicus” e que eram cedidas para um grupo seleto de nobres senadores ou para ricos integrantes da classe equestre. Essas terras eram exploradas em sistema de latifúndios, cultivados em larga escala com o emprego da grande massa de escravos que resultava das vitórias militares. Tal fenômeno expulsava do campo o pequeno agricultor livre, outrora o esteio do poder militar romano, incapaz de competir com os latifúndios operados em grande escala comercial. Esses pequenos agricultores falidos migravam para a Cidade, à procura de trabalho, engrossando as fileiras do Proletariado. Assim, a fenda entre os aristocratas ricos e o resto não parava de aumentar…

Ademais, essa massa de proletários para sobreviver procurava a proteção de nobres poderosos, que assumiam o seu patrocínio, aumentando a sua clientela (sendo o Clientelismo uma instituição particularmente romana,  na qual se instituíam deveres entre Patrão e Cliente). Não demorou para que a aumentada clientela corrompesse o sistema eleitoral, sob a fórmula “distribua uma esmola e reclame um voto“.

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(Na imagem, clientes comparecem ao ritual conhecido como “salutatio”, o comparecimento matinal da clientela à residência do patrono para demonstrar consideração, aproveitando para pedir algum benefício ou oferecer seus préstimos)

O problema atingiu tal dimensão que provocou o surgimento, dentro da própria nobreza senatorial, de um grupo que defendia uma profunda reforma no sistema político e na estrutura socioeconômica romanos. O estreito contato com a cultura grega propiciado pela anexação das cidades fundadas pelos gregos no sul da Itália e, posteriormente, com a anexação da própria Grécia, permitiu a difusão das mais avançadas teorias políticas e filosóficas gregas no seio da elite romana.

Surgiu, consequentemente, na elite romana, uma corrente que percebia que o sistema político de Roma apodrecia, exemplificando o famoso conceito grego sobre os ciclos de degeneração das formas de organização política dos Estados: monarquia/tirania-aristocracia/oligarquia-democracia/demagogia.

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(O denário de prata mostra um eleitor romano depositando o voto na urna)

 

O primeiro político romano a seriamente propor e executar uma ação visando a reformar esse Sistema foi Tibério Semprônio Graco

Tibério Graco era um jovem político que trilhava a tradicional carreira das magistraturas mas que havia se decepcionado bastante com o Senado, pois este repudiara um tratado que ele havia negociado como Questor na Espanha.

Consta que no trajeto de volta da Espanha, Tibério Graco teria constatado o abandono das pequenas propriedades rurais na Etrúria, substituídas por grandes fazendas escravistas. Ele resolveu concorrer ao cargo de Tribuno da Plebe e ganhou a eleição, em 133 A.C.

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Para lidar com o problema, Tibério Graco propôs a “Lex Sempronia Agraria” – que pode ser considerada  a primeira lei de reforma agrária – prevendo a distribuição das terras devolutas, inicialmente aos soldados veteranos e, depois, ao proletariado romano. As terras que tivessem sido ilegalmente distribuídas aos ricos, em contrariedade à antiga Lex Licínia, que previa uma quantidade máxima de terra pública passível de ser cedida a particulares (mas que era largamente ignorada), deveriam também, segundo a Lex Sempronia, serem redistribuídas para os pobres, mediante o pagamento de uma indenização aos seus atuais possuidores, que, no entanto, ainda poderiam ficar com uma determinada fração delas.

A maioria conservadora do Senado se aglutinou e se opôs à Lex Sempronia, alegando que a medida abalava os fundamentos da República e fomentava a revolução social. Essa oposição cresceu,  sobretudo depois que  Tibério Graco, passando por cima do Senado, apelou ao Conselho da Plebe para aprovar a nova lei,  uma medida que,  apesar de estar de acordo com o Direito Romano, era incomum.

O Senado conseguiu convencer o outro Tribuno da Plebe, Otávio, a vetar a Lex Sempronia. Tibério Graco, entendendo que o veto de Otávio contrariava a própria finalidade do cargo de Tribuno – a de defender a Plebe contra a opressão dos nobres – submeteu  à questão ao Conselho da Plebe, pedindo que votasse pela deposição do colega. Após a votação ter começado, Otávio vetou o próprio ato que determinara a votação de seu afastamento. Graco, então, teria mandado retirar Otávio à força da assembléia e a votação prosseguiu, decidindo pelo seu afastamento.

Segundo outra versão, do historiador Apiano, quando a 18ª Tribo de Plebeus, de um total de 35, votou pela deposição do seu colega, Tibério Graco apenas cumpriu a decisão, removendo Otávio porque ele não era mais Tribuno. A diferença entre as versões é relevante, pois, como vimos, um Tribuno da Plebe era sacrossanto, e, portanto, a ação de Graco teria sido formalmente ilegal, caso a primeira delas seja a verdadeira.

O povo saudou Tibério Graco como um verdadeiro herói e, pressionado, o Senado autorizou a formação de uma comissão agrária para implementar a Lex Sempronia. Porém, desde o início, os senadores conservadores tentaram sabotar a execução da lei, liberando apenas uma pequena verba para a instalação dos trabalhos da comissão, alegando a insuficiência de fundos no Tesouro.

Entretanto, naquele mesmo ano de 133 A.C, o Rei Átalo III, de Pérgamo, aliado romano, morreu sem herdeiros, legando toda a sua vasta fortuna (e o próprio reino) à Roma.Tibério Graco viu nisso uma chance de executar seus planos e, invadindo a competência que o costume conferira ao Senado de deliberar sobre o orçamento e os assuntos estrangeiros, determinou que parte da herança de Átalo fosse usada para financiar a implementação de sua lei agrária, valendo-se dos seus poderes tribunícios.

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(Átalo III admirava os romanos e deixou o Reino de Pérgamo como herança para Roma)

O acirramento do confronto entre a maioria conservadora do Senado e Tibério Graco atingiu uma proporção incontornável. Ele foi acusado por Quinto Pompeu, um senador que era seu vizinho, o qual alegava que, nesta condição, soube que Graco havia recebido de presente de um certo Eudemus, de Pérgamo, um manto púrpura e uma coroa de ouro, devido ao fato de este pensar que Graco iria se tornar o Rei de Roma.

Aproximando-se o fim do seu mandato, aumentavam as evidências de que Tibério Graco seria processado pelo crime de violar a sacrossantidade de seu colega Otávio. Assim, Graco decidiu concorrer à reeleição, defendendo a popular plataforma de redução do tempo de serviço militar e de concessão da cidadania romana a povos aliados. Havia rumores de que um amigo seu havia sido envenenado e, por isso, temendo pela sua vida e de sua família, Graco apelou ao povo reunido em assembleia por proteção, e, de fato,  uma multidão passou a acampar em frente a sua casa com o objetivo de protegê-lo, o que lhe granjeou ainda mais simpatia popular.

Tibério Graco foi reeleito. Pouco antes do seu mandato encerrar, ele foi a um comício, apesar de advertido da existência de vários presságios desfavoráveis, estando o povo reunido no Capitólio. Lá ele recebeu a notícia de que os senadores planejavam mata-lo. Seus partidários armaram-se de porretes. Os senadores, já mal dispostos contra Tibério, interpretaram esse gesto como uma insurreição na qual seus partidários pretendiam coroá-lo rei, e exigiram que o cônsul enviasse as tropas para reprimi-la. Com a recusa deste, os próprios senadores, acompanhados de sua clientela, armaram-se de porretes e foram atacar o grupo de Tibério.

Na confrontação que se seguiu,,Tibério Graco e 300 de seus seguidores foram mortos a porretadas e pedradas e seus corpos jogados no Rio Tibre. Consta que o primeiro golpe contra a cabeça de Tibério Graco foi dado por seu novo colega, o Tribuno Publius Satyreius. Segundo Plutarco, esta foi a primeira vez que um conflito político entre cidadãos em Roma degenerou em um banho de sangue. Em seguida, vários partidários de Graco foram exilados, presos e até executados sem julgamento.

 

Temendo a reação do povo indignado, o Senado informou que iria implementar a Lex Sempronia, mas na prática, ele continuou impondo várias dificuldades para a sua execução.

As tensões e contradições políticas e sociais que Tibério Graco tentou solucionar não morreram com ele. Uma década mais tarde, seu irmão, Caio Graco tentou aprovar um programa ainda mais radical do que o de Tibério. Considerado então o melhor orador de Roma,  Caio foi eleito Tribuno da Plebe em 123 A.C. Em uma trajetória parecida a do seu falecido irmão, ele também acabou sendo falsamente acusado de crimes e morto em um conflito sangrento entre facções.

Eugene_Guillaume_-_the_Gracchi(Escultura “Os Gracos”, de Eugene_Guillaume)

 

Com a morte de Caio Graco, em 121 A.C, torna-se explícita a divisão da política e do Senado romanos em duas facções: a maioria conservadora aglutinou-se em um grupo que foi batizado de “Optimates” (literalmente, os “Muito Bons” ou “Ótimos”), que entendiam que a República deveria ser conduzida pelo Senado, mantendo-se as leis e costumes tradicionais (mos maiorum) em benefício dos cidadãos romanos tradicionais, sobretudo os Nobres; Por sua vez, aqueles que defendiam que o poder deveria emanar dosConcílios da Plebe, limitando o poder do Senado, que a cidadania deveria ser estendida aos povos aliados e que a maior parte dos recursos do Estado deveria ser empregada em benefício dos cidadãos mais pobres, foram chamados de “Populares“. Optimates e Populares não devem, entretanto, ser considerados partidos políticos no sentido moderno.

Death_of_Gaius_Gracchus(A morte de Caio Graco, pintada em 1792. Por François Topino-Lebrun )

A partir de então, a oposição entre Optimates e Populares, quase sempre degenerando em violência e guerra civil, marcaria a política romana até o fim da Guerra Civil do 2º Triunvirato e a ascensão de Augusto como primeiro imperador, em 27 A.C.

Quinze anos depois da morte de Caio Graco, a questão social, segundo Plutarco, havia piorado ainda mais e as reformas dos Gracos tinham sido abandonadas pelo Senado. Aumentava sem parar a massa de proletários expulsos de suas terras e cada vez mais o número de cidades e territórios controlados pelo Estado Romano, sem que os aliados tivessem qualquer participação política e gozassem dos inúmeros direitos conferidos aos cidadãos romanos.

Esse período é marcado pela ascensão de Gaius Marius (Caio Mário), um brilhante general sem estirpe que conseguiu ser eleito Cônsul, tornando-se um “Homem Novo” (Novus Homo). Mário era hostil ao Senado e  também é considerado um integrante da facção dos Populares.

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A principal reforma de Mário, fundamental na História de Roma, foi reorganização do Exército Romano. Até então, somente cidadãos livres que fossem proprietários de terras podiam ser recrutados como soldados, já que eles deveriam pagar o seu próprio uniforme e equipamento. Porém, o aumento demasiado dos latifúndios cultivados por escravos levou a uma grande diminuição do número de pequenos proprietários rurais (proletarização), prejudicando o recrutamento militar. Mário instituiu que o Estado deveria pagar um salário e fornecer armas e vestuário para os soldados, criando um exército permanente que recrutaria, basicamente, os proletários urbanos de Roma e das cidades italianas. Terminava, assim, a era da milícia de cidadãos e inaugurava-se a era do primeiro exército profissional moderno da História.

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( Um típico legionário romano após as Reformas de Mário. Os soldados ficariam conhecidos como “Mulas de Mário” por terem que carregar todo o seu equipamento)

Mário era casado com Júlia, irmã do pai de Caio Júlio César, e portanto, era tio deste. Ele seria cônsul por 7 vezes, entre 107 A.C. e 86 A.C., frequentemente entrando em atrito com a maioria conservadora do Senado Romano. Mário seguiu uma linha de atuação política que pode ser descrita como “populista”.

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(Denário de Mário. Difícil não associar a imagem com as políticas defendidas pelos Populares)

 

Os Optimates encontraram seu campeão na pessoa do ultraconservador e tradicionalista Lucius Cornelius Sulla (Lúcio Cornélio Sila), membro de uma antiga família patrícia, ele também um prestigiado general.

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O conflito entre Mário e Sila ecoava a disputa entre os Populares e os Optimates. No momento em que ambos disputaram importantes comandos militares, Mário, ilegalmente, ignorou a designação de Sila pelo Senado, levando este a se insurgir militarmente.

Após derrotar as forças de Mário em combate, Sila marchou contra a própria Roma e entrou, à testa de suas forças, no “Pomerium” (fronteiras sagradas da cidade de Roma), o que era expressamente proibido pela lei romana. Ele foi o primeiro general romano a ousar praticar esse fato, considerado como um grande sacrilégio. Sila perseguiu os partidários de Mário e revogou a maior parte dos seus atos. Mas Mário conseguiu escapar e se exilou na África.

Porém, Sila foi obrigado a deixar Roma e ir combater Mitridates, poderoso Rei do Ponto, na atual Turquia, que havia ordenado o massacre de milhares de civis romanos naquela região (fala-se em 80 mil mortos).

Aproveitando a situação, Mário voltou da África e conseguiu assumir de novo o governo, sendo eleito para o seu sétimo consulado. Mas,  sendo já velho e estando muito doente, ele morreu no meio do primeiro mês de seu mandato, em 86 A.C., aos 70 anos de idade, deixando no poder seu colega de consulado, Cina, um correligionário que apoiava a facção dos Populares. A última volta ao poder de Mário foi marcada pela perseguição sangrenta aos seus inimigos políticos.

Com a morte de Mário, Cina ficou no poder, ocupando sucessivos consulados até 84 A.C,. Nesse período, ele adotou medidas que faziam parte do ideário dos Populares, como por exemplo, a concessão de cidadania aos italianos, até ser morto pelas suas próprias tropas quando elas se preparavam para ir lutar contra Sila.

Nesse ano de 84 A.C., o jovem Caio Júlio César se casou com Cornélia, filha de Cina, o que demonstra a plena inserção do sobrinho de Mário na facção dos Populares.

Quando Sila retornou à Itália e assumiu o governo, sendo nomeado Ditador, ele desencadeou uma grande perseguição aos simpatizantes de Mário e da facção dos Populares, chegando a executar 1.500 nobres e 9 mil pessoas no total, além de exilar outros tantos. Um dos que tiveram que fugir para preservar a vida foi o jovem Júlio César. Depois, familiares e conhecidos seus apelaram a Sila para que César fosse poupado. Porém, quando o Ditador exigiu que ele se divorciasse de Cornélia, César galantemente recusou. Sila, mesmo assim concordou em poupar o rapaz, não sem antes advertir aos senadores:

Há vários Mários em César“…

Como Ditador, as leis e decretos instituídos por Sila ordenaram a restauração dos privilégios do Senado e a restrição do poder legislatório dos Concílios e dos Tribunos da Plebe, que foram transformados praticamente em meros defensores públicos dos indivíduos de condição humilde. Ele também regulamentou o Cursus Honorum e o número das magistraturas, aumentando em consequência o número de senadores de 300 para 600 membros, com a finalidade de cimentar a coesão da elite e proporcionar que o Senado pudesse executar mais funções administrativas. Ele também declarou MárioInimigo do Estado” e mandou banir quaisquer referências à sua memória.

Surpreendentemente, acreditando ter restaurado o poder do Senado, Sila decidiu voluntariamente se retirar da vida pública e voltar para suas propriedades, em 81 A.C, falecendo, provavelmente de cirrose ou úlcera gástrica, em 78 A.C.

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Ainda que essa não fosse a intenção deles, Mário e Sila implodiram as fundações da República Romana, pois as ações de ambos demonstraram que as assembleias, tanto a dos plebeus (Concílios), quanto a dos nobres (Senado), não tinham mais o poder de solucionar e arbitrar os conflitos de interesses entre os grupos políticos e as classes sociais.

 

Agora, o palco estava montado para  um novo espetáculo e para  que os atores pudessem atuar nos papéis principais,  não bastava que eles tivessem talento político, mas, além disso,  deveriam também ser bons generais..

De fato,  após Mário e Sila, agora seria aos generais ambiciosos que as facções políticas do Senado iriam recorrer, e as disputas políticas seriam resolvidas no campo de batalha.

Mário criara as condições para isso, ao conceber um exército de soldados profissionais recrutado entre proletários desempregados que deviam seu emprego e sua lealdade ao Cônsul que os recrutara. E Sila fora o primeiro a se valer de um exército como esse para entrar em Roma à força com o objetivo de derrubar o governo, criando este precedente,  e também inaugurando o costume de recompensar regiamente os seus veteranos com as terras confiscadas dos adversários políticos proscritos.

Um desses generais ambiciosos foi Gnaeus Pompeius (Cneu Pompeu). O Senado, sem dispor de meios militares, já tinha se valido do talentoso general para derrotar as forças contrárias a Sila , na Sicília e na África e depois as de Lépido, que pretendia restaurar o poder dos Tribunos e realizar outras reformas de interesse dos Populares.

Pompey the Great. Marble. Beginning of the 1st century A.D. Inv. No. 733. Copenhagen, New Carlsberg Glyptotek.(Cabeça de mármore de Pompeu, o Grande)

Em um indício de que a ordem tradicional estava com os dias contados, o Senado, quebrando os precedentes, concedeu a Pompeu a honra de celebrar dois triunfos, apesar de ele  sequer ser magistrado e, em 70 A.C, ignorando as normas, nomeou-lhe Cônsul, embora ele não fosse senador.

Ironicamente, Pompeu conseguiu compelir o Senado a fazer isso aliando-se com os Populares, os quais, até então, ele havia perseguido. Para obter o apoio deles, Pompeu comprometeu-se a revogar os decretos de Sila que retiraram os poderes dos Tribunos da Plebe e dos Concílios.

Nessa época, Caio Júlio César entrou oficialmente na política e a sua adesão à causa dos Populares ficou explícita quando, em 69 A.C, ele, no funeral de sua tia Júlia, a viúva de Mário, pronunciou um discurso fúnebre, onde exaltou a memória de seu tio Mário, discursando a frente de uma imagem do grande general falecido, coisa que não era vista em Roma desde o governo de Sila, .

Foi, de fato, como integrante da facção dos Populares que César seguiu a carreira política, em um período de acirramento da oposição entre eles e os Optimates. O astuto César, contudo, também procurou mostrar-se atraente para os conservadores, como ilustra o fato dele, tendo recém ficado viúvo de Cornélia, ter se casado com Pompéia, que era neta de ninguém menos do que Sila, o inimigo figadal dos Populares, sendo que o casamento ocorreu em 67 A.C.

Para ganhar eleições e atingir os cargos mais altos, César, como todos os demais políticos romanos, precisava de muito dinheiro, e ele já tinha se endividado bastante para se eleger para o cargo de Questor. Portanto, de muita utilidade foi a sua recente amizade com o aristocrata Marco Licínio Crasso, um dos homens mais ricos de Roma, e que disputava a primazia política com Pompeu ( eles tinham sido colegas de consulado, em 70 A.C.). Crasso também apoiara, como Cônsul, a restauração dos poderes dos Tribunos da Plebe, apoio esse que o afastou da facção dos Optimates, aproximando-o dos Populares.

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(Cabeça de mármore de Crasso, foto de Gautier Poupeau )

Com o apoio financeiro de Crasso, César conseguiu se eleger para o cargo de Edil, em 65 A.C. Os Edis eram magistrados encarregados de vários serviços urbanos em Roma, incluindo a promoção de jogos públicos, e César aproveitou este cargo para agradar a Plebe promovendo espetáculos suntuosos,  o que o tornou muito popular. Começava a nascer a política do “Pão e Circo” (“Panem et Circensis“)…

Depois de exercer a edilidade, César gastou rios de dinheiro na eleição para o prestigioso posto de “Pontifex Maximus“, o chefe dos cultos oficiais do Estado e, apesar de não ser o favorito, ele venceu o certame, em 63 A.C.

A política em Roma tinha-se tornado altamente violenta e corrupta e a República em frangalhos convidava os homens ambiciosos a tentarem a sorte na disputa pelo poder supremo, o que, obviamente, encontrava obstáculo no tradicionalismo da elite senatorial. Para isso, contudo, os sequiosos de poder ainda precisavam de votos.

O aristocrata Lúcio Sérgio Catilina foi um desses, que, através da demagogia e dos subornos, atraía uma grande clientela e seguidores. Como ele não conseguira ser Cônsul, por ter sido barrado por Marco Túlio Cícero (ele também um “Novus Homo“), Catilina uniu-se à facção dos Populares e passou a defender uma nova lei agrária ampliando a Lex Sempronia .

Cicero_(1st-cent._BC)_-_Palazzo_Nuovo_-_Musei_Capitolini_-_Rome_2016(Busto de Cícero, nos Museus Capitolinos, foto de José Luiz Bernardes Ribeiro / )

Contudo, não obtendo sucesso nas eleições de 63 A.C, apesar de apoiado por Crasso e César, Catilina arquitetou uma conspiração visando eliminar o Senado,  trama que foi descoberta e denunciada publicamente por Cícero no Senado, em suas famosas “Catilinárias“. E assim, Catilina foi facilmente derrotado e morto pelas tropas legalistas.

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César, embora fosse aliado de Catilina, não teve participação na conspiração, chegando até a informar Cícero da trama, Não obstante,  César defendeu, nos debates no Senado, que os conspiradores presos não fossem executados, como queriam Cícero e o senador ultraconservador Catão, já que a lei não previa nem a pena de morte, nem o julgamento pelo Senado, para casos como o dele. Mesmo assim, a execução dos conspiradores ocorreu, sob a alegação de motivos de “segurança do Estado“.

Apesar da conspiração de Catilina ter colocado em risco a sua carreira política, César conseguiu se eleger para o cargo de Pretor, em 62 A.C. Segundo a lei romana, após cumprir o mandato, ele fazia jus a ser indicado para governar uma das províncias romanas, no seu caso, a Hispânia, como Propretor. Os costumes romanos admitiam que o governador ficasse com uma parte dos tributos arrecadados dos súditos provinciais, sem falar do produto do que fosse saqueado das tribos ainda rebeldes, desde que não houvesse muitos exageros. E César, após derrotar várias tribos celtiberas, aproveitou esta oportunidade para conseguir o dinheiro necessário para pagar a sua legião de credores em Roma.

Naquele ano, após uma prolongada e vitoriosa campanha militar no Oriente, Pompeu voltou à Roma, e, para a surpresa geral, ele entrou na Cidade como um simples cidadão e sem exército. Provavelmente, esse foi um gesto politicamente calculado para obter o apoio do Senado e do povo, demonstrando ser ele, Pompeu, um cidadão cumpridor da lei e dos costumes tradicionais.

Contudo, Pompeu não gozava nem da simpatia dos conservadores, devido à revogação das leis de Sila que restringiam o poder tribunício, nem dos Populares, dado o seu histórico de lutas contra os mesmos. Assim, ele ficou muito contrariado quando o Senado decidiu não recompensar os seus soldados veteranos com terras

Quando César voltou à Roma, no ano 60 A.C, ele viu a oportunidade de conjugar sua ambição com as dos dois homens mais poderosos de Roma: Pompeu e Crasso, ambos insatisfeitos com os Optimates, que controlavam o Senado. Eles então formaram a aliança política batizada de “Primeiro Triunvirato”.

A aliança foi cimentada pelo casamento de Pompeu com Júlia, filha única de César. Mesmo se tratando de um casamento arranjado, e apesar da diferença de idade entre os noivos (ele tinha 47 anos e ela, 24), os esposos acabariam se apaixonando, e Pompeu sofreria muito com a morte prematura de Júlia, no parto de uma menina que também não sobreviveu).

César foi eleito Cônsul em 59 A.C. e o Triunvirato assumiu o poder de fato em Roma. Apesar da violenta oposição dos Optimates, liderados por Catão, o Jovem, e do seu colega de consulado, Bíbulo, César conseguiu aprovar uma legislação dando terras na Campânia para os veteranos de Pompeu. Ele também perdoou um terço das dívidas de impostos dos agricultores. O seu correligionário Clódio conseguiu aprovar uma lei especial determinando o exílio de Cícero, pela execução dos conspiradores de Catilina sem julgamento. Essa lei também designou o adversário Catão para governar a distante Chipre, o que equivalia, na prática, a um exílio, afastando-o do Senado. Muitas dessas iniciativas de César foram executadas em desacordo com a lei romana, o que o deixaria vulnerável à retaliação dos adversários, em tempos futuros.

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(O chamado “Busto de Tusculum” é considerado pelos especialistas o único busto existente que foi produzido durante a vida de César)

Os Triúnviros também decidiram dividir o governo das províncias romanas entre si e César escolheu controlar as Gálias Cisalpina e Narbonense, além da Ilíria, autonomeando-se Procônsul, com mandato de 5 anos, a partir de 58 A.C.

A escolha tinha um motivo: César constatara que lhe faltavam as glórias militares de Pompeu , que já havia derrotado Sertório, na Espanha, a rebelião do gladiador Espártaco (junto com Crasso), na Itália, os piratas do Mediterrâneo e o rei Mitridates, anexando o Reino do Ponto à Roma, entre outras vitórias, as quais lhe valeram o apelido de Magno, ou “o Grande” e, ainda, em menor escala, os louros de Crasso.

O governo da Gália permitiu a César arquitetar o plano que lhe colocaria no mesmo plano dos seus colegas: A anexação da Gália Transalpina, povoada pelos temidos gauleses, que, séculos atrás, em 390 A.C, tinham até saqueado e incendiado Roma. O pretexto foi a necessidade de fazer um ataque preemptivo, devido ao fato de tribos aliadas dos romanos terem sido atacadas por gauleses e germânicos que, supostamente, pretendiam migrar para a Gália Cisalpina, ou seja, a parte da Itália que fica ao sul dos Alpes.

Em nove anos de guerra, César derrotou completamente os gauleses e anexou toda a Gália. Para muitos, essa teria sido a maior contribuição de César à História, pois, sem isso, não existiria a França e, consequentemente, a Europa e sua civilização seriam completamente diferentes.

A vitória na Gália deu a César não somente uma aura de herói nacional e de general brilhante, mas também o exército mais disciplinado e bem treinado de Roma, além de muito dinheiro proveniente dos saques, afinal os gauleses eram um povo muito próspero.

Enquanto César lutava na Gália, ele certamente mantinha um olho nos assuntos domésticos. Com efeito, em Roma, o cimento que mantinha unido o Triunvirato começava a amolecer…Pompeu, aparentemente se ressentia do brilho das conquistas militares de César, as quais ameaçavam ofuscar as suas próprias. Talvez por isso, ele manobrou para trazer Cícero de volta à Roma e ambos acabaram se aproximando.

Em 57 A.C., Pompeu recebeu poderes extraordinários do Senado para cuidar do abastecimento de cereais de Roma, o que o colocava em uma excepcional posição em relação aos outros dois colegas, no que tange a capacidade de angariar as simpatias da Plebe. Já as relações entre Crasso e Pompeu, que nunca tinham sido boas, também iam de mal a pior.

Os nobres conservadores aproveitaram as dissensões entre os Triúnviros e conseguiram eleger um dos seus integrantes como Cônsul para o ano de 56 A.C. Por sua vez, Cícero questionou a legalidade da nomeação de César para o governo da Gália.

Percebendo o risco ao Triunvirato e a si mesmo, César deixou o comando da campanha da Gália com seus lugares-tenentes e convocou Pompeu e Crasso para uma reunião em Lucca, na fronteira da Itália com a Gália Cisalpina, em abril de 56 A.C.

Nesse encontro, que passaria à História como a “Conferência de Lucca“, César, Pompeu e Crasso resolveram as suas diferenças, estabelecendo que os dois últimos seriam candidatos a Cônsul no ano seguinte, com o apoio de César. Assegurada a eleição, os novos cônsules promulgariam uma lei prorrogando o mandato do proconsulado de César na Gália por mais 5 anos, sendo que, após o término do consulado de Pompeu e Crasso, eles seriam designados procônsules, respectivamente da Hispânia e da Síria, também pelo prazo de 5 anos.

O adversário de Crasso e Pompeu na eleição para o consulado de 55 A.C, era Lúcio Domício Enobarbo, um fervoroso membro da facção dos Optimates, casado com a irmã do líder Catão, o Jovem. Ele  prometeu proibir a prática de compra de votos dos eleitores e revogar o comando de César na Gália. Porém, no dia da eleição, ele foi expulso à força do Campo de Marte pelos partidários dos Triúnviros, com o reforço de mil soldados enviados por César, ação que garantiu a vitória de Crasso e Pompeu.

Os novos cônsules executaram os termos do acordo da Conferência de Lucca, através da “Lex Pompeia Licinia“, garantindo a recondução de César para a Gália e o proconsulado da Síria e da Hispânia para Crasso e Pompeu, respectivamente.

O destino, porém, abalaria a recém-obtida estabilidade do 1º Triunvirato: no ano de 54 A.C, Júlia, a filha de César e esposa de Pompeu, morreria no parto e, em 53 A.C, Crasso, também ele sedento de obter a glória militar contra os Partos, seria capturado e morto por estes, após a desastrosa Batalha de Carras, na pior derrota militar sofrida pelos romanos desde a 2ª Guerra Púnica, 150 anos antes…

O Triunvirato estava, assim acabado, antes de tudo, matematicamente, pela simples eliminação de Crasso. Agora, só restavam César e Pompeu. E não havia também mais a doce Júlia, a quem seu pai e o seu esposo eram muito devotados e a quem eles deviam muito a existência de uma relação cordial entre ambos.

Enquanto isso, desde 55 A.C, em campanha na Gália, César realizava algumas das maiores façanhas militares que Roma já vira. Ele havia derrotado um enorme horda de tribos germânicas, os Usipetes e Tencteris, e, na fuga, os sobreviventes derrotados, inclusive mulheres e crianças, totalizando cerca de meio milhão de bárbaros, foram aniquilados, a maioria, acredita-se, afogados, após tentarem cruzar a confluência entre os rios Reno e Mosela. Depois, César mandou construir uma espetacular ponte de madeira sobre o largo Reno e cruzou, pela primeira vez na História de Roma, aquele largo rio, marchando, também de forma inédita, por dezoito dias na margem oriental. Ainda naquele ano, César cruzou o Canal da Mancha e invadiu, também pela primeira vez na História, a Britânia, ficando lá também por  18 dias. Ele ainda voltaria àquela Ilha no ano seguinte.

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Pompeu, apesar de ser governador da Hispânia, permanecera todo esse tempo em Roma, recebendo as notícias das façanhas de César e sendo assediado pelos partidários da nobreza conservadora no Senado, sobretudo após a morte de Crasso, em 53 A.C. Ele certamente não se opôs que o ferrenho opositor de César, Lúcio Domício Enobarbo conseguisse se eleger Cônsul no ano anterior.

Sintomaticamente, Pompeu recusou a proposta de César de celebrarem uma nova aliança matrimonial, na qual Otávia, sobrinha-neta de César (e irmã do futuro imperador Otávio Augusto) lhe foi oferecida em casamento. Para reforçar ainda mais o distanciamento, Pompeu,  demonstrando uma completa oposição à proposta de renovação da aliança com o seu colega, casou-se, em 52 A.C., com Cornélia Metela, filha de Quinto Cecílio Metelo Cipião, um dos mais empedernidos membros da facção dos Optimates e portanto inimigo figadal de César.

Em 52 A.C, as lutas políticas na cidade de Roma degeneraram em anarquia, com repetidos motins nas ruas, culminando no assassinato do ex-Tribuno da Plebe e membro dos Populares, Clódio,  violências que resultaram inclusive no incêndio do edifício da Cúria do Senado e impediram a eleição dos cônsules naquele ano (Clódio, a bem da verdade, era um dos políticos que mais se valeram do uso político da violência das verdadeiras gangues de rua em que os “collegia”- corporações de ofício de Roma, haviam se tornado).

A situação caótica em Roma obrigou o Senado à medida extrema de nomear Pompeu como único Cônsul para aquele ano. Imediatamente, Pompeu convocou seus soldados e restaurou a ordem na Cidade. Evidenciando sua aproximação com os Optimates, Pompeu nomeou seu sogro Metelo Cipião como seu colega para o Consulado de 52 A.C.

Embora Pompeu ainda resistisse a tomar a iniciativa do rompimento com César, qualquer um que tivesse o mínimo discernimento político perceberia que isso era apenas uma questão de tempo. Na verdade, o motivo pel qual Pompeu e o Senado somente ainda não haviam tomado nenhuma medida mais efetiva contra César era porque, ainda naquele ano de 52 A.C, estourara uma rebelião geral das tribos gaulesas, recém-conquistadas. Unidos e lideradas por Vercingetórix, os gauleses tentariam um confronto definitivo na cidade fortificada de Alésia.

Alesia_8.jpg(Reconstrução das fortificações construídas por César em torno de Alésia, foto de Christophe.Finot )

Contudo, em um mês, César não apenas sitiou  Alésia, defendida por 80 mil guerreiros, como ainda derrotou a força gaulesa de 100 mil homens que tentava furar a praça sitiada, que, por sua vez,  tinham cercado os romanos. Foi uma vitória espetacular que levou o prestígio de César às alturas. Apesar de a única fonte sobre a campanha ser os próprios “Comentários” de César, os mesmos são geralmente aceitos como verídicos e acurados, sendo respaldados pelas escavações arqueológicas. Finalmente, no final de 51 A.C, após quase 10 anos de luta, César havia submetido a Gália até o Reno, equivalendo à maior parte do território da atual França.

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Terminada a luta na Gália, a facção dos Optimates no Senado tratou de tentar  decretar o o fim do comando de César para aquela campanha. Tanto os senadores conservadores quanto o próprio César sabiam que, despido da condição de governador e sem cargo público, César perderia a sua imunidade, sendo muitos os pretextos para processá-lo e condená-lo, na mais suave das hipóteses, ao exílio.

map 1280px-Europe_-50.png(Terminada a conquista da Gália, o mapa mostra o território da República Romana, em amarelo. Mapa de Cristiano64 / Coldeel)

A iminente perda da imunidade tornava-se aflitiva para César. Em 50 A.C, enquanto ainda na Gália, ele tentou, sem sucesso, concorrer ao cargo de Cônsul, mas sem abandonar o Proconsulado da Gália e continuando a comandar seus exércitos na Província, o que era proibido por lei.

César, porém, contava com o apoio do Tribuno da Plebe Caio Escribônio Curião, que, segundo alegava-se, teria sido subornado pelo pagamento de suas dívidas por César e, de fato, ele vetava todos os projetos de lei que pretendiam substituir César na Gália ou terminar o seu mandato.

Curião inclusive propôs uma solução conciliatória entre os partidários de César e a facção dos Optimates: César renunciaria ao comando da Gália, desde que ele recebesse permissão para concorrer às eleições para o Consulado de 49 A.C. somado à condição de que Pompeu também renunciasse ao seu comando militar. A proposta até encontrou simpatia do grupo de senadores moderados, mas o núcleo conservador do Senado, liderado pelo Cônsul Caio Cláudio Marcelo, se opôs ferozmente a ela e obstruiu a votação de qualquer proposta naquele sentido.

Com certeza, os senadores mais sensatos percebiam o risco iminente de uma guerra civil e apoiavam uma solução de compromisso. Assim, quando, na Sessão do Senado do dia 1º de dezembro de 50 A.C., o Cônsul Cláudio Marcelo reapresentou a proposta de substituição de César na Gália, eles, que inicialmente haviam aprovado a remoção dele, acabaram aprovando, por 370 votos a favor e apenas 22 contra, a emenda substitutiva apresentada por Curião, a qual estabelecia que também o comando de Pompeu deveria ser encerrado.

Marcelo recusou-se a aceitar o resultado da votação da emenda de Curião e, alegando que César havia cruzado os Alpes com 10 legiões para invadir a Itália, declarou dissolvida a Sessão, antes da aprovação do texto. Em seguida, rompendo com a ordem institucional, Marcelo e alguns integrantes da facção conservadora partiram para a residência de Pompeu para tentar convencê-lo a assumir o comando de todas as tropas na Itália, fazendo o que fosse necessário para “salvar a República”. Pompeu concordou, mas ressalvando que ele faria isso, “a não ser que fosse encontrado um caminho melhor”.

Curião, cujo mandato de Tribuno e consequente inviolabilidade terminariam em poucos dias, decidiu fugir de Roma e ir ao encontro de César, que se encontrava em Ravena, fora dos limites da Itália Romana, acompanhado apenas da XIII Legião. Apesar de instado por Curião a marchar sobre Roma, César decidiu fazer uma nova proposta de acordo: Ele seria nomeado governador da Ilíria e manteria sob seu comando apenas uma legião, até a eleição para o consulado de 49 A.C. A proposta foi terminantemente recusada pelos Cônsules.

No dia 1º de janeiro de 49 A.C., César tentou sua última cartada no Senado para manter a sua carreira política: Valendo-se do novo Tribuno da Plebe, Marco Antônio, que, da mesma forma que o seu colega, Longino, eram fiéis colaboradores de César, ele enviou, por Curião, uma carta ao Senado para ser lida em sessão por Antônio. Todavia, quando Antônio começou a ler a carta, após o trecho em que César reiterava a disposição de somente deixar a Gália e desmobilizar o seu exército caso Pompeu fizesse o mesmo, ele foi interrompido aos gritos pelos senadores conservadores, e não conseguiu continuar.

Roman male portrait bust, so-called Marcus Antonius. Fine-grained yellowish marble. Flavian age (69—96 A.D.). Rome, Vatican Museums, Chiaramonti Museum.(Busto de Marco Antônio)

Metelo Cipião, o sogro de Pompeu, propôs que fosse fixada uma data para que César fosse demitido do comando na Gália e dispensasse suas tropas, após o que ele seria considerado “Inimigo Público“. A moção foi aprovada, e os únicos votos contrários foram de Curião e do senador Célio. Muito provavelmente, a explicação para a diferença entre esta votação e a ocorrida um mês antes era a maciça presença de tropas de Pompeu nas cercanias de Roma…

O Tribuno Marco Antônio vetou a moção e apresentou nova proposta para que fosse incluído na lei que o comando de Pompeu também se encerraria na mesma data, sendo a idéia bem recebida. Porém, novamente, o cônsul Lúcio Cornélio Lêntulo, apoiado por Metelo, dissolveu a Sessão antes que a lei com as modificações propostas  por Antônio fosse aprovada.

Em 7 de janeiro de 49 A.C, o Senado Romano aprovou o “Senatus Consultum Ultimus” declarando Lei Marcial e nomeando Pompeu como “Protetor de Roma“, isto é, na prática, um Ditador. Como era esperado, essa lei também declarou o término do mandato de César na Gália, ordenando que o mesmo entregasse o comando das tropas. Em seguida, os soldados de Pompeu ocuparam Roma. Pompeu expediu uma nota dizendo que “não poderia garantir a segurança dos Tribunos“.

Marco Antônio e Cássio entenderam o recado e fugiram de Roma, indo ao encontro de César. Quando lá chegaram, César percebeu que não havia mais espaço para manobras políticas ou negociações. Ele teria que optar entre obedecer o Senatus Consultum Ultimus e arriscar a sorte como um cidadão comum exposto à sede de vingança dos inimigos, ou tornar-se um rebelde e um fora-da-lei.

Na verdade, como frequentemente acontece nas guerras, revoluções ou golpes de Estado, as partes rivais sempre alegam um bom pretexto para legitimar a sua ação. O fato é que a fuga dos Tribunos da Plebe, ou, como é mais correto, a expulsão deles de Roma, violando a sua sacrossantidade legal, deu a César um pretexto para ele para começar a Guerra Civil.

Rimini088(Coluna de César, em Rimini, erigida para marcar o local onde César discursou para as suas tropas exortando-as a entrarem com ele na Itália. Foto de Georges Jansoone (JoJan)

No dia 10 de janeiro de 49 A.C. (data estimada), César, comandando apenas a XIII Legião, cruzou um riacho chamado Rubicão, que marcava a fronteira da Itália com a Gália Cisalpina. Ao entrar na Itália, ele violou a lei romana e era, tecnicamente, autor de um crime de alta traição. Em suas próprias palavras:

A sorte está lançada!” (alea iacta est).

Começava a #GuerraCivil.

Menander_and_New_Comedy_Masks_-_Princeton_Art_Museum.jpg(Relevo do autor grego Menandro, com máscaras de teatro de Comédia. César era grande apreciador da obra de Menandro e a frase “A sorte está lançada”, ou, ‘os dados estão lançados’, foi extraída de uma das peças dele  – Deipnosophistes, livro XIII)

GUERRA CIVIL

Durante a confrontação política que antecedeu a travessia do Rubicão por César, os Optimates cometeram alguns graves erros de avaliação:

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Por exemplo, eles superestimaram a capacidade militar de Pompeu na Itália: Embora Pompeu tenha retido sob seu controle, irregularmente, duas legiões recrutadas por César no sul da Península, elas não eram páreo para a experimentada XIII Legião que lutara com ele na Gália.

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Da mesma forma, os Optimates também levaram em conta a seu favor o fato de que  Pompeu comandaria, teoricamente, todas as forças romanas na Hispânia, África, Egito, Grécia e Oriente, em número bem superior às 8 legiões que César tinha na Gália,

E os Optimates também confiavam  no histórico dos muitos sucessos militares de Pompeu.

Por último, os Optimates acreditavam que, pelo fato de César ter violado a proibição da lei romana de entrar na Itália com um exército,  a maior parte da população da Itália ficaria contra ele, que, ao menos formalmente, tinha se tornado um criminoso.

Mas eles não poderiam estar mais errados….

As legiões da Gália, calejadas por dez anos de guerra cruenta contra os gauleses, naquele momento eram, provavelmente, os melhores soldados do Mundo Antigo; Pompeu era um renomado general, mas estava ficando velho e não comandava uma legião, quanto mais uma campanha, havia vários anos; Ademais, ao contrário do que os Optimates esperavam, no trajeto do norte da Itália em direção a Roma, César foi aclamado triunfalmente em diversas cidades, cujas  respectivas guarnições acabavam por juntar-se ao seu exército.

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Entretanto, nem tudo ia bem para César, pois, durante o avanço sobre Roma, o seu ajudante em mais de 10 anos de luta, o hábil general Labieno, desertou e uniu-se às forças de Pompeu. Não se sabe o motivo exato da defecção de Labieno, sendo que as explicações mais plausíveis são que ele seria um legalista que via a insurreição de César como criminosa ante as leis da República ou, então, o fato de ele estar decepcionado por não ter recebido maiores recompensas por seus serviços, como por exemplo, um consulado, ficando, ainda,  talvez enciumado pela predileção que César demonstrava em relação a Marco Antônio.

Pompeu, mesmo assim, concluiu que a sua melhor estratégia era fugir para a Grécia, onde ele poderia reunir um grande exército e, já que controlava a frota romana, interceptar os carregamentos de cereais para Roma, causando ali uma fome cuja responsabilidade seria atribuída a César, enfraquecendo-o perante a Plebe.

Embora esse não fosse um plano ruim, o simples fato de ele ter que abandonar a Itália, demostra o despreparo com que Pompeu foi pego pela rápida ação de César. E isto apesar de terem sido Pompeu e os Optimates que deram o ultimato ao adversário, motivo pelo qual seria de se esperar que eles, ao menos deveriam estar de antemão preparados.

A maior parte da facção dos Optimates acompanhou Pompeu em sua retirada estratégica da Itália . Portanto, ao contrário de César, que era o indiscutível comandante supremo de suas forças, Pompeu, por diversas vezes, tinha que escutar e levar em consideração os palpites militares dos senadores mais proeminentes, muitos deles sem qualquer experiência bélica…

Não é nosso propósito, todavia, aqui narrar pormenorizadamente os eventos da Guerra Civil, mas apenas traçar um quadro explicativo dos eventos que degeneraram no desfecho sangrento dos Idos de março de 44 A.C.

Senhor da Itália, César, ainda desejoso de respeitar as formalidades legais, convocou os senadores que tinham permanecido em Roma para um encontro, realizado em 1º de abril de 49 A.C, mas muito poucos apareceram. Consta que, ofendido com as ausências dos senadores, César teria dito:

Convidei-os para se reunirem a mim na tarefa de governar Roma. Porém, se a timidez faz com que recuem diante da tarefa, não os incomodarei mais. Governarei sozinho“.

Logo depois, porém, César conseguiu convencer (ou compelir) o Senado a autorizar o uso de um fundo de reserva para construir uma frota. Todavia, em uma demonstração de que seus oponentes ainda tinham poder na Cidade, a medida foi vetada pelo Tribuno Lúcio Cecílio Metelo. Não obstante, César ignorou o veto, entrou em Roma e, ameaçando executar Metelo, lançou mão dos recursos, manu militari.

César, então, partiu para enfrentar o exército de Pompeu na Hispânia.  Este, porém, naquele momento encontrava-se na Grécia, reunindo outro exército. Por isso, César assinalou:

Parto para a Espanha para enfrentar um exército sem general e logo seguirei para enfrentar um general sem exército.”

Em Ilerda, na Espanha, César cercou o exército de Pompeu, que se rendeu em 02 de julho de 49 A.C. A partir desta vitória, César principiou um comportamento em relação aos inimigos vencidos que ele repetiria muitas outras vezes durante a Guerra Civil e que se tornaria uma de suas marcas registradas causando admiração em muitos escritores antigos: a “Clementia” de César (clemência), poupando e anistiando os adversários. Com efeito, em Ilerda,  César concedeu aos inimigos derrotados que não quiseram se juntar ao seu exército, a opção de retornarem para casa como civis.

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Esse era um comportamento tão incomum na antiguidade que o próprio exército de César, pela primeira vez desde que ele se tornara um general, amotinou-se. O motivo da revolta era que os seus soldados esperavam saquear os pertences dos vencidos. O motim, contudo, foi reprimido sem muito custo.

Voltando a Roma, César, em apenas 11 dias de estadia na capital, foi nomeado Ditador por um curto período, o que lhe permitiu convocar a eleição para o consulado de 48 A.C, para o qual ele, naturalmente, se candidatou. Ele aproveitou também para colocar seus correligionários em todos os cargos importantes e, além disso, promulgou várias leis, entre elas uma dispondo sobre o pagamento de dívidas, permitindo que fossem dados bens em pagamento, dado o grande número de romanos endividados em função das turbulências políticas. Finalmente, César também restituiu os direitos civis aos cassados durante o governo de Sila e conseguiu que Pompeu fosse declarado fora-da-lei.

De volta à campanha de César na Guerra Civil, seguiram-se o quase-desastre em Dirráquio e a surpreendente vitória em Farsália, em 09 de agosto de 48 A.C., na qual César lutou em desvantagem numérica de 1 x 3 e onde muitos Optimates foram capturados, apesar de Pompeu ter conseguido fugir para o Egito, onde acreditava que iria ser acolhido pelo faraó Ptolomeu XIII, supostamente seu aliado.

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Porém, o jovem faraó, aconselhado a cair nas boas graças do vencedor, mandou prender Pompeu e decapitá-lo, enviando a cabeça dele para César. Quando ele, perseguindo o adversário, chegou em Alexandria, a História registra que César, ao receber, chocado, a cabeça de Pompeu, chegou a chorar, penalizado com o destino do seu ex-genro. E, em verdade, parece mesmo que nunca chegara a haver inimizade pessoal entre os dois grandes homens de Roma.

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Em Farsália, César pode exercer novamente a política de clemência para os adversários. Antes da luta, ele distribuiu aos seus oficiais uma lista dos partidários de Pompeu que deveriam ser poupados. Entre os nomes, estava o de Marco Júnio Bruto, um senador da facção dos Optimates e filho da amante de César, Servília Caepionis, que era irmã de Catão, o Jovem, o senador que pode ser considerado o verdadeiro ideólogo dos Optimates no Senado.

Seguiu-se o envolvimento de César na disputa pelo trono do Egito e o romance com Cleópatra VII, que resultaria no nascimento de seu único filho homem, chamado de Ptolomeu XV Filópator Filómetor César e que foi apelidado de “Cesarion“.

TRIUNFO E PODER ABSOLUTO

#César #Caesar #idosdemarço

Morto Pompeu, o seu único rival pelo poder supremo, César celebrou os seus Triunfos com uma magnificência jamais vista em Roma. Nos festejos pela vitória na Gália, que tinham sido adiados pela Guerra Civil, vinha, no final da procissão triunfal, Vercingetórix acorrentado (o altivo chefe gaulês seria executado após a cerimônia, como era o costume romano). Houve, ainda, uma batalha naval simulada em um lago artificial e 400 leões foram soltos em um Circo, para serem mortos por quem se dispusesse a pagar uma taxa. E em seu novo Fórum construído perto do antigo, César, presença de Cleópatra e Cesarion, desvendou uma bela estátua de ouro de sua amante e rainha do Egito, ao lado do Templo de Vênus Genitrix,  a deusa que a gens Júlia reivindicava como sendo sua ancestral.

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(Denário de prata de 48 A.C.,  com a imagem de Vercingetórix acorrentado, é a única imagem do líder gaulês capturado e executado após o Triunfo de César, em Roma)

Provavelmente esses festejos foram a maior exibição de propaganda política em toda a História de Roma. Mas os Optimates ainda não tinham sido completamente derrotados… Na África, um exército de 40 mil soldados liderado pelos velhos inimigos Catão, o Jovem e Metelo Cipião, e pelo inimigo recente, Labieno, aos quais se juntaram os filhos de Pompeu, contando com a ajuda do rei Juba, da Numídia, ainda constituía uma ameaça respeitável.

César, após as celebrações de seu triunfo, partiu de Roma e sitiou a cidade de Tapsos, na atual Tunísia. Os Optimates foram forçados a aceitar a batalha campal e o exército de César mais uma vez venceu, em 06 de abril de 46 A.C. Os Númidas fugiram e os 10 mil soldados inimigos que quiseram se render foram mortos pelos soldados de César. Esse massacre não era compatível com a política de clemência que ele vinha adotando desde o início da Guerra Civil. A explicação, segundo Plutarco, é que César, durante a Batalha de Tapsos, perdeu os sentidos devido a um ataque, supostamente epilético, e o desfecho sangrento teria acontecido à sua revelia.

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Catão, o Jovem e Metelo Cipião conseguiram fugir de Tapsos. O primeiro, que não era militar e não participara da batalha, se refugiou em Útica, mas acabou cometendo suicídio ao saber do resultado da luta. Consta que César, ao ser informado da morte de Catão, disse:

“Eu lamento a sua morte, Catão, assim como você teria lamentado se eu tivesse poupado a sua vida”.

Cipião também cometeu suicídio, após ser interceptado pela frota de César, quando tentava chegar com um navio até a Espanha, onde esperavam obter auxílio dos numerosos veteranos de Pompeu que viviam naquela Província.

Vale observar que, especialmente Catão, o Jovem, ao tirar a própria vida, tornou-se um símbolo para os Optimates de uma vida virtuosa e de sacrifício em prol da República. Posteriormente, já durante o Império, o nome dele seria sempre evocado como exemplo pelos senadores insatisfeitos como o Principado e por aqueles que , no futuro, conspirariam contra o despotismo dos imperadores.

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(Busto de bronze de Catão, o Jovem, achado na cidade romana de Volubilis, no Marrocos)

Após essa vitória, César foi nomeado Ditador da República Romana por 10 anos, algo inédito. Ele também foi eleito Cônsul para o ano de 46 A.C. (o que se repetiria nos dois anos seguintes).

O último bastião da resistência dos Optimates era agora a Espanha, onde os filhos de Pompeu, Cneu Pompeu e Sexto  Pompeu, valendo-se do grande número de soldados veteranos do falecido general assentados naquela província, conseguiram reunir um grande exército (incluindo duas legiões que tinham desertado do exército de César). Com isso, eles tomaram toda a Espanha, forçando as legiões leais a César a se refugiarem na cidade de Oculbo. De lá, os sitiados pediram ajuda a César.

César, cuja qualidade mais impressionante como general talvez fosse a velocidade com que conseguia que suas tropas se deslocassem, marchou os 2.400 km que separavam Roma de Oculbo em menos de 1 mês, e, com essa aparição súbita, conseguiu levantar o sítio.

Em 17 de março de 45 A.C, na planície de Munda, após uma feroz batalha que durou 8 horas, o exército de César saiu vencedor. Ele assim definiria a Batalha de Munda, segundo suas próprias palavras:

Inúmeras vezes, eu lutei pela vitória; em Munda, eu lutei pela minha vida !

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Trinta mil soldados inimigos foram mortos na batalha, incluindo o general Labieno. Um dos filhos de Pompeu, Cneu, foi capturado um mês após e morto. Já Sexto, sem exército, somente seria morto por Marco Antônio dez anos mais tarde.

César agora era o senhor absoluto de Roma, para onde voltou para implementar seus projetos de governo, que tinham sido interrompidos pela necessidade de combater os últimos focos de resistência senatorial em Tapsos e Munda.

Inicialmente, derrotados os inimigos, é preciso reconhecer que César, ao contrário de Mário e Sila – que tinham sido os únicos que haviam chegado perto de deter tamanha parcela de poder na República e que se aproveitaram disso para eliminar os desafetos – perdoou seus inimigos e permitiu que eles participassem da administração pública e retornassem ao Senado, sendo os exemplos mais ressonantes, os adversários Cícero, Cássio, Marco e Décimo Bruto.

E o que César tencionava fazer com tanto poder?

César nunca escreveu, ou foi registrado para a posteridade, quais eram os seus planos para a República: se pretendia aboli-la ou meramente reformá-la. Ele também não teve tempo, se é que esse era mesmo o seu propósito, de estabelecer para si uma nova posição como monarca de Roma. Somente podemos inferir, das medidas que tomou após alcançar o poder absoluto, algumas linhas gerais:

Uma diretiva inequívoca de seus planos é dada pelo aumento do número de Senadores e renovação da composição do Senado Romano (que havia sido muito desfalcado pelos anos de guerra civil). César aumentou o número de senadores para 900 e nomeou senadores oriundos de províncias fora da Itália, especialmente gauleses. Esse propósito é corroborado pela permissão de que legionários fossem recrutados nas províncias. De fato, César criou legiões compostas por gauleses, espanhóis e súditos do Oriente. Para isso, a cidadania romana e latina foi concedida amplamente na Sicília, na Gália, na Hispânia e até na Criméia.

Tudo isso constitui um indício de que o plano de César era criar um Império Romano universal e mais inclusivo, e não apenas manter uma dominação de Roma e das cidades italianas sobre colônias ao longo do Mediterrânea, em uma dominação etnicamente latina sobre súditos de outras raças. Nisso, talvez César até evocasse os desígnios de Alexandre, o Grande, um herói por ele admirado desde a juventude,  e cujos atos, inclusive os seus casamentos, manifestavam o propósito do rei macedônio de criar um império mundial que unisse  os gregos e outros povos orientais, como os persas e os hindus.

Podemos cogitar que César não tencionava restaurar a velha ordem republicana. Provavelmente, o Senado não seria mais a instância máxima de poder, funcionando como um conselho consultivo e, em seu governo, não apenas os Optimates, mas também os Populares, não encontrariam lugar, pois, já no início de sua Ditadura, os Concílios da Plebe atuavam apenas para referendar as leis promulgadas pelo Ditador, sem maior debate ou discussão. Nessa linha, César havia abolido os “collegia“, as associações corporativas que participavam politicamente das eleições, e que tinham se transformado em milícias violentas utilizadas para influir nos pleitos.

Vale citar como exemplo o fato de César ter sido o primeiro romano a exercer, concomitantemente, diversas magistraturas republicanas, que podem ter sido formalmente mantidas, mas cuja concentração nas mãos de um único homem era um fato inédito e que constitui mais um indício de que se tratava de uma nova ordem.

Assim, César, além de Ditador pelo longo prazo de dez anos (e em 44 A.C, ele seria nomeado “Ditador Perpétuo“) era, respectivamente: Cônsul e Pontífice Máximo (Chefe da religião) e, além disso, em mais uma inovação, mesmo sem ser Tribuno da Plebe, ele recebia, anualmente, o “Poder Tribunício“, ou seja, detinha todos os poderes inerentes a essa magistratura, inclusive o poder de votar todos os atos administrativos ou legislativos, bem como a “sacrossantidade” daqueles magistrados. Essa fórmula, diga-se de passagem,  seria mantida por Augusto e todos os imperadores que o sucederam. Devemos, contudo, observar que, de certa maneira, a menção expressa ao Poder Tribunício não deixava de ser um reconhecimento de que o Poder emanava do Povo.

O virtual fim da República também foi evidenciado pelas leis que deram a César:

a) o novo cargo de “Prefectus Morum“, encampando as atribuições dos Censores. Com esse poder, César podia nomear ou expulsar do Senado quem ele julgasse que obedecesse, ou não, os costumes morais romanos;

b) o direito de nomear os governadores das províncias para um mandato com prazo fixo, e de recomendar ao povo, para referendo, a metade dos magistrados em Roma;

c) o direito de declarar guerra e de celebrar a paz;

d) o direito de votar em primeiro lugar no Senado (assumindo, na prática, o lugar do “Princeps Senatus“, distinção conferida ao Senador mais antigo ou eminente e que seria a inspiração para Augusto batizar a posição ocupada pelo Imperador, dando o nome pelo qual o novo regime por ele inaugurado seria conhecido: “Principado“);

e) o direito perpétuo de comandar o Exército (“Imperium“, atributo do “Imperator“, ou comandante,  e que, futuramente, também acabaria batizando o governante do novo regime que seria inaugurado por Augusto);

f) o direito de dispor dos fundos públicos; e

g) o direito de promulgar Éditos,  que deveriam ser confirmados sem discussão pelo Senado.

Entretanto, devemos anotar que alguns historiadores não têm certeza de que César pretendesse que as reformas supracitadas fossem permanentes, considerando o fato de que ele, antes de morrer, planejava uma grande campanha militar contra a Pártia. Assim,  talvez essas reformas se destinassem apenas a assegurar a estabilidade do governo, enquanto ele estivesse ausente na planejada guerra.

César também reorganizou a estrutura dos governos municipais das cidades italianas e parece que ele tencionava uniformizar os diferentes sistemas de governo por elas adotados. Considerando que ele fundou diversas cidades, inclusive refundando as destruídas Cartago e Corinto, é possível supor que César compreendia que a força do Estado Romano repousava nas cidades e talvez ele até imaginasse o futuro império como uma confederação de cidades autônomas unidas sobre a autoridade de um governo central. Notavelmente, nas renascidas Cartago e Corinto, César determinou que fossem prestigiadas as populações nativas.

O Ditador César promoveu a reforma de várias leis penais, aumentando a punição para crimes violentos. Ele também instituiu um sistema uniforme de taxas alfandegárias e promulgou uma lei proibindo a exibição de luxo excessivo em público, uma preocupação recorrente dos governos desde quando o enriquecimento da aristocracia romana após as Guerras Púnicas atingiu níveis astronômicos. César também iniciou um vasto programa de obras públicas, visando aproveitar a numerosa mão de obra ociosa do proletariado romano, que aumentou muito após a desmobilização das legiões que se verificou com o fim da Guerra Civil.

O poder absoluto de César e a aura de semi-divindade que ele assumira perante boa parte dos olhos da opinião pública acarretaram que lhe fossem concedido um sem número de honrarias inauditas, como por exemplo: O 5º mês do calendário romano, “Quintilis“, foi rebatizado de “Julius” (Julho), em sua homenagem. Aliás, a reforma do antiquado e astronomicamente impreciso calendário romano, pelo muito mais acurado “Calendário Juliano“, foi uma das grandes contribuições de César para a Civilização Ocidental. E, pela primeira vez na História de Roma, a efígie de um governante foi cunhada nas moedas, a dele. Finalmente, muitos templos e estátuas foram erguidos em sua homenagem.

Surpreendentemente, César, apesar do pouco tempo decorrido desde a derrota militar da facção aristocrática do Senado, em Munda. mantinha seus exércitos fora da Itália e, na cidade de Roma,  ele era protegido apenas por uma pequena guarda pessoal. E mesmo este destacamento foi afastado pouco antes de março de 44 A.C.

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(Busto de César, retratado em seus últimos anos)

OS IDOS DE MARÇO – O ASSASSINATO DE CÉSAR

Nos meses anteriores ao assassinato de César, as fontes antigas narram um certo descontentamento com o seu comportamento soberbo e arrogante, ao menos por parte da elite governante. Suetônio narra que surgiram rumores acerca de conspirações para derrubá-lo e que tais informações tinham chegado anteriormente aos ouvidos de César, que se limitou apenas a advertir publicamente que ele  tinha ciência das mesmas.

A conspiração que resultou no assassinato de César, como não é de surpreender, em vista de tudo que narramos desde a primeira parte de nosso artigo, nasceu no seio dos remanescentes da facção dos Optimates no Senado Romano. O número de conspiradores, nas fontes antigas, varia entre 60 e 90 senadores. Os líderes da conspiração eram Caio Cássio Longino, Marco Júnio Bruto e Décimo Bruto.

Marco Júnio Bruto era filho do pai do mesmo nome e, supostamente, ele era descendente direto do fundador da República Romana, Lúcio Júnio Bruto, que expulsara o último rei de Roma e se tornaria o 1º Cônsul da República. Bruto era filho de Servília Caepionis, que também era meia-irmã de Caio Cássio Longino e que , desde longa época, era notória amante de ninguém menos do que  Júlio César. Alguns suspeitavam até que Bruto pudesse ser filho ilegítimo de César, mas isto é altamente improvável, pois ele tinha apenas 15 anos quando Bruto nasceu. Além disso, Bruto era genro do finado Catão, o Jovem, que se suicidara em Útica após uma vida de lutas contra César. A presença de Bruto entre os líderes da conspiração conferia legitimidade ideológica e histórica ao movimento.

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Bruto sempre foi um integrante da facção dos Optimates no Senado Romano e acompanhou Pompeu na Guerra Civil. Poupado por ordens expressas de César na Batalha de Farsália, Bruto, em seguida, foi admitido no círculo mais íntimo do Ditador e nomeado por ele Governador da Gália, em 46 A.C.

O historiador Nicolau de Damasco, uma das fontes antigas que escreveu em época mais próxima aos Idos de Março de 44 A.C, narra que o círculo de conspiradores foi crescendo, atraindo pessoas que tinham sido prejudicadas pela guerra civil com a perda de seu patrimônio ou de sua posição social, bem como antigos aliados de César que se sentiam preteridos em favor de inimigos perdoados, e, não menos importante, aqueles idealistas que achavam que César estava destruindo a República ou, ainda,  pessoas incomodadas com a idolatria a César.

Não há dúvida de que a Guerra Civil havia deixado feridas abertas na aristocracia romana. Temos um exemplo parecido com o que ocorreu após a Guerra Civil Americana (1861-1865). Aliás, o assassino de Abraham Lincoln, John Wilkes Booth, assumidamente reivindicou ter se inspirado em Bruto e, de fato, após atirar em Lincoln, ele repetiu a frase célebre atribuída a Bruto na cena do assassinato de César, em meio às punhaladas:

Sic semper tiranus!” (Sempre assim com os tiranos!).

A aristocracia senatorial romana era um clube fechado de umas centenas de famílias que se consideravam fundadoras da República, as únicas com direito a exercer o governo, em benefício não só da nação, mas também em seu próprio proveito e, não menos importante, julgavam-se merecedoras de especiais deferência e privilégios. Não é a toa que a carreira política do homem de Estado romano era chamada de “Cursus Honorum“… O direito a essas “honras” era inerente ao papel do aristocrata na sociedade romana. Em muitos aspectos, e não apenas o semântico, em Roma, “Respublica“, na prática, assumia um significado mais parecido com “Cosa Nostra“…

Como vimos no início de nosso estudo, essa aristocracia já havia reagido com violência à perspectiva de perda de seus poderes e privilégios,  inclusive assassinando os líderes da facção dos Populares que ameaçaram a sua posição privilegiada, como ocorreu com Tibério e Caio Graco.

Indiscutivelmente, a nomeação de César como Ditador Perpétuo, em 15 de fevereiro de 44 A.C deve ter desencadeado a conspiração para assassinar César.  E, neste mesmo mês, ocorreu o episódio que muitos historiadores consideram que forneceu o pretexto para o assassinato do Ditador – a acusação de que César pretendia ser coroado Rei.

Com efeito, foi na festa religiosa da Lupercalia que Marco Antônio, um dos celebrantes, completamente nu, colocou, por três vezes, um diadema de ouro sobre a cabeça de César,  e sendo, por três vezes, repelido pelo Ditador. É bem possível que esse ato de Marco Antônio tenha sido encenado de comum acordo para demonstrar que César não tencionava ser coroado rei. Há quem acredite, por outro lado,  que aquela encenação foi um ardil para sondar o sentimento popular,  um teste para verificar se a massa reprovaria o gesto. O  fato é que alguns na multidão realmente aclamaram César como rei, o que deve ter aterrorizado os Optimates.

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Diante disso, a decisão de executar a conspiração de matar César dependia apenas de se decidir sobre o dia, o local e o modo. Os conspiradores logo concordaram que, considerando que César comparecia ao Senado sem escolta, lá seria o local mais fácil de executar o Ditador, além de  poderem  facilmente ocultar os punhais sob suas togas, traje obrigatório para o comparecimento às sessões.

No dia 15 de março de 44 A.C, César acordou e ficou em dúvida se deveria ir ao Senado. Sua esposa Calpúrnia tinha tido um pesadelo em que aparecia uma poça de sangue e implorou para que César ficasse em casa. César. que não era nada supersticioso, decidiu ir. O adivinho Surinna também teria lhe advertido para ter cuidado com os Idos de  Março, mas César fez pouco caso. E, já na rua, em direção ao Senado, ele chegou a receber um rolo de papiro em que alguém delatava a conspiração, porém, guardou o manuscrito sem ler.

A reunião do Senado ocorreria em um recinto existente no Odeon do magnífico teatro construído por Pompeu, chamado de “Cúria de Pompeu”, já que a Cúria tradicional do Senao tinha sido danificada nos tumultos da guerra civil e estava em reparos.

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 (A Cúria de Pompeu, local onde César foi assassinado, é o edifício em forma de templo no meio do semicírculo do Teatro.Computer generated image of the Theatre of Pompey by the model maker, Lasha Tskhondia – L.VII.C)

No caminho para a Cúria de Pompeu, César estava acompanhado de Marco Antônio, mas os conspiradores, sabendo que ele era um sujeito parrudo e com experiência militar, acharam que ele poderia dificultar o assalto a César, e, assim, conseguiram distraí-lo a pretexto de um assunto e separá-lo do Ditador. César entrou sozinho na Cúria.

Os conspiradores esperaram César se sentar e se aproximaram, fingindo apresentar alguns requerimentos, até que o senador Cimber, em um sinal previamente combinado, arrancou a túnica do pescoço do Ditador, que, chocado, reclamou:

“Por quê? Isto é uma violência!”

Então o Senador Casca desferiu o primeiro golpe, mas, devido ao seu nervosismo, este apenas pegou de raspão no pescoço de César, que se virou e segurou a mão de Casca, dizendo:

Casca, seu vilão, o que estás fazendo?

Aterrorizado, Casca gritou, em grego :

Adelphi, boethei !” (“Irmãos, ajuda!”)

Nesse momento, vários conspiradores atenderam ao apelo de Casca, desferindo sucessivos golpes de adaga em César. Segundo Suetônio, quando César percebeu que Bruto estava entre os que o atacavam, ele falou, em grego:

Kai su, teknon?” (“Tu também, criança?”)

Segundo os relatos, César tentou se evadir dos seus atacantes como um leão ferido, mas, quando percebeu que estava perdendo forças, ele deixou-se cair e apenas cobriu a sua cabeça, tentando morrer com alguma aparência de dignidade (durante toda a sua vida, César sempre fora preocupado com sua imagem).

Bruto, em seguida, tentou fazer a sua proclamação, mas todos os senadores, aterrorizados, fugiram da Cúria.

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Foram contadas 23 feridas de punhaladas em César. De acordo com Suetônio, na opinião de um médico, que, pode-se dizer, autopsiou César, apenas uma delas, no peito, tinha sido fatal.

O corpo de César, ironicamente, ficou caído aos pés da estátua de seu maior rival, Pompeu, e jazeu ensanguentado por três horas no chão frio da Cúria, até ser recolhido por seus escravos.

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Bruto e os demais conspiradores se auto-intitulariam “Os Libertadores“. Eles tentaram imediatamente alguma conciliação com os Populares, oferecendo a preservação de todos os atos de César como Ditador e o direito a um funeral público.

Porém, na cerimônia pública de cremação, no Fórum Romano, um discurso de Antônio inflamou a massa e uma turba saiu à caça de qualquer um que fosse suspeito de participação na conspiração contra César.

Os “Libertadores” tencionavam restaurar a República, mas em três anos, todos eles seriam mortos, e o resultado da ação deles foi apenas causar outra Guerra Civil, primeiro para vingar César e depois para decidir quem seria o seu sucessor. É mais ou menos como se alguém tivesse tentado fazer recuar os ponteiros do relógio da História, mas apenas conseguisse segurá-los por 14 anos (até a vitória de Otaviano, o futuro Augusto, em Actium, em 31 A.C.)

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(Denário cunhado pelos “Libertadores” ostentando os punhais usados para assassinar César, o tradicional capacete associado no Mundo Antigo aos que lutam pela Liberdade e a inscrição abreviada “Idos de Março)

A República já havia morrido antes de César lutar e vencer a Guerra Civil e obter o poder supremo, porém seu sucessor Augusto, seria mais astuto em preservar algumas aparências republicanas e conceder algumas deferências à classe senatorial.

(Templo do Divino Júlio, construído no exato local onde o corpo de César foi cremado, no Fórum Romano. A 2ª foto mostra o estado atual da ruína, com os restos do altar. Normalmente, mesmo nos dias atuais,  sempre há flores colocadas  nas ruínas do altar).

Como brilhantemente constatou Cícero, nos meses que se seguiram ao assassinato:

Matamos o Rei, mas o Reino continua entre nós“.

FIM

ANTONINO PIO – O IMPERADOR-MODELO

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Em 7 de março de 161 D.C, na cidade de Lório, na Etrúria, Itália,  morre o Imperador romano Antonino Pio.

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Nascido no ano de 19 de setembro de 86 D.C, próximo à antiga cidade latina de Lanúvio, na Itália, com o nome de Titus Aurelius Fulvus Boionus, Antonino era filho deTitus Aurelius Fulvius,  que seria cônsul em 89 D.C, sendo que o seu avô, que também tinha esse mesmo nome, havia sido cônsul em 85 D.C., tendo se destacado como general no início do governo de Vespasiano, ao derrotar os bárbaros roxolanos na fronteira do rio Danúbio.

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(Lanuvio, antiga Lanuvium, a 32 km a sudoeste de Roma, terra natal de Antonino Pio)

A família dos Aurélios Fúlvios era originária da Gália Narbonense,  sendo radicada na cidade de Nîmes (antiga Nemausum).

Por sua vez, a mãe de Antonino, Arria Fadilla, era filha de Gneaus Arrius Antoninus,  um senador que ocupou por duas vezes o consulado e que era muito amigo de Plínio, o Jovem, que o descreveu como ” um homem de caráter reto“. Os Árrios eram uma tradicional família da classe senatorial de Roma.

O pai de Antonino morreu em 89 D.C, motivo pelo qual ele foi criado pelo avô, de quem herdou o nome e as propriedades, passando a se chamar Titus Aurelius Fulvus Boionus Arrius Antoninus. A vultosa herança do avô materno, somada ao patrimônio herdado de seu pai, tornou Antonino um dos homens mais ricos do Império Romano.

Por volta de 110 D.C, Antonino casou-se com a belíssima Annia Galeria Faustina (Faustina, a Velha), filha de Marcus Annius Verus, o Velho, um conterrâneo (da Hispânia) e amigo chegado do futuro imperador Adriano, e que já tinha sido cônsul durante o reinado de Domiciano (e depois viria a ocupar o posto duas vezes durante o reinado de Adriano).

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(Faustina, a Velha)

O casamento com Faustina aproximou Antonino do circulo íntimo de Adriano. Assim, após exercer os cargos de questor e pretor, Antonino foi nomeado cônsul em 120 D.C. Depois, Adriano nomeou-o Procônsul da Itália e da África, em 134/135 D.C, cargos onde ele se destacou pela boa administração.

Sacramentando a confiança e a estima que Antonino gozava junto a Adriano, este, já enfermo, adotou-o como filho e herdeiro, em 25 de fevereiro de 138 D.C.,concedendo-lhe o poder tribunício e o império proconsular,  distinções que caracterizavam, segundo o costume imperial daquele tempo , o reconhecimento oficial dele como co-imperador.

A única condição imposta pelo imperador Adriano foi que Antonino, por sua vez, adotasse Marcus Annius Verus, o Jovem,  que era sobrinho de sua mulher Faustina ( e que se tornaria o futuro imperador Marco Aurélio), e Lucius Aelius Commodus (que reinaria junto com o primeiro com o nome de Lúcio Vero), filho de Lucius Aelius, quem, anteriomente, tinha sido adotado por Adriano, mas falecera devido a uma hemorragia.

Em 11 de julho de 138 D.C, um dia após a morte de Adriano, Antonino foi aclamado imperador pelo Senado Romano, em uma sucessão pacífica, seguindo a característica dos imperadores da dinastia que tinha sido iniciada por Nerva, em 96 D.C,  mas que acabaria por levar o seu nome (os Antoninos).

Uma das primeiras medidas de Antonino foi convencer o relutante Senado a “deificar” Adriano (Este, no final de seu reinado, havia se indisposto com aquela assembléia, executando alguns senadores acusados de conspiração). Essa devoção ao seu pai adotivo valeu a Antonino o cognome de “Pio”, conferido pelo Senado.

Diplomático e cortês, Antonino Pio, por sua vez, manteria boas relações com o Senado Romano durante todo o seu reinado. Com certeza, o fato de ser ele mesmo um membro de famílias que há muito tempo integravam a classe senatorial favoreceu a sua aceitação.

E o prolongado reinado de Antonino Pio ( o mais longo desde Augusto) foi marcado pela paz externa e interna (para os padrões romanos) e pela relativa prosperidade econômica.

De fato, os poucos conflitos externos foram breves e não muito sangrentos. A principal campanha foi na Britânia, resultando na construção da Muralha de Antonino, mais ao norte da Muralha de Adriano, em 142 D.C. Feita de turfa e protegendo uma fronteira mais curta, esse muro provavelmente foi resultado de um plano de Antonino de obter prestígio militar logo no início de seu reinado, já que o território conquistado parece não ter oferecido atrativos econômicos. Foram cunhadas moedas aludindo ao fato e  conferida uma “salutatio” ao Imperador. Contudo, oito anos após a sua construção,  a muralha foi abandonada e os romanos retornaram para a linha defensiva estabelecida pela Muralha de Adriano naquela Província.

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É preciso observar que, para alguns historiadores, a reiterada falta de interesse de Antonino pelas questões militares,  depois dessa inicial campanha britânica,  e que resultou em uma paz que daria  vinte anos de alívio aos inimigos de Roma, notadamente aos Germanos e Partas,  pode ter sido nociva ao Império Romano, conjecturando-se que eles se fortaleceram muito durante esse período.

Em 141 D.C, a sua amada imperatriz Faustina faleceu. Antonino mostrou o seu pesar e devoção pela esposa ordenando a construção de um templo no Fórum Romano, em honra de Faustina, que, a pedido dele,  havia sido deificada pelo Senado. Esse templo ainda existe (atual Igreja de San Lorenzo in Miranda) e, após a morte de Antonino, que também foi deificado, ele foi renomeado como “Templo de Antonino e Faustina“.

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Antonino também fundou, em memória de Faustina,  uma espécie de instituto de assistência para meninas pobres de família, chamado de “Meninas de Faustina“.

No campo jurídico, o reinado de Antonino foi marcado pela edição de várias leis em favor dos escravos, seja facilitando a alforria dos mesmos, seja prevendo penas para os proprietários que matassem os próprios escravos e estipulando a venda forçada para outro senhor, em caso de maus-tratos. A legislação de Antonino estabeleceu, ainda, a presunção legal de que, nos litígios envolvendo a liberdade, quando as provas fossem duvidosas,  o juiz deveria decidir a favor do escravo.

A situação da economia do império durante o reinado de Antonino foi próspera, mas ele foi obrigado, após os gastos com os festejos pelo 900º aniversário de Roma, a desvalorizar o denário de prata romano. Não obstante, quando ele morreu, Antonino deixou o Tesouro com uma impressionante reserva de 675 milhões de denários.

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Em 146 D.C, seu herdeiro Marco Aurélio casou-se com a única filha sobrevivente de Antonino, Faustina, a Jovem (seus outros três filhos com Faustina faleceram antes de sua ascensão ao trono).

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(Faustina, a Jovem, filha de Antonino Pio e esposa de Marco Aurélio)

A admiração de Marco Aurélio pelo genro ficou preservada em sua obra  “Meditações”, que assim descreve as qualidades de Antonino Pio:

Gentileza e resolução inabaláveis nas sentenças proferidas após exame minucioso; renúncia às honras exteriores; amor ao trabalho e à perseverança; presteza para ouvir aqueles que têm algo a contribuir para o bem estar público; o desejo de recompensar cada homem de acordo com o seu mérito, com imparcialidade”; (…)”sua energia na defesa de tudo o que fosse feito com a razão, sua equanimidade constante, sua expressão serena, sua doçura, seu desdém pela glória, sua ambição de dominar todos os problemas“.

Em 5 de março de 161 D.C., Antonino Pio descansava em sua antiga propriedade familiar em Lorium, a 19 km de Roma, onde ele tinha sido educado quando criança, quando, após comer  uma porção de queijo, começou a vomitar. Dois dias depois, no dia 7, ele morreria, com a avançada idade de 74 anos. Consta que,  na noite do dia anterior,  o tribuno da Guarda Pretoriana pediu a Antonino a senha para a vigília daquela noite, tendo o moribundo imperador escolhido esta:

Equanimitas” (Equanimidade)

Mais do que a senha para uma noite, equanimidade retratou o espírito do reinado de Antonino Pio.

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(Ruínas da chamada Villa Romana delle Collonace, em Lorium. A villa de Antonio Pio ainda não foi descoberta pelos arqueólogos)