PORQUE CARTAGO FALHOU E ROMA TEVE SUCESSO

Esta é uma tradução minha de um artigo de J. E. Lendon, publicado originalmente na Weekly Standard Magazine, uma crítica do livro “Hannibal: A Hellenistic Life”, de Eve Macdonald, que pode ser lida no original no link abaixo. Gostei do artigo, que na minha opinião, oferece uma boa apreciação de um dos principais motivos pelos quais Roma triunfou sobre Cartago na Segunda Guerra Púnica. Boa leitura!

https://www.washingtonexaminer.com/weekly-standard/why-carthage-failed-and-rome-succeeded

É um sintoma do estado deplorável da vida intelectual nos dias de hoje que os leitores desta revista possam intuir os traços da estória contada em “Hannibal” no instante em que eles leem, logo no início de suas páginas, que a Cartago clássica – a cidade em nome da qual o grande comandante do título lutou contra Roma – era “diversificada” e “multicultural”.

A despeito de qual fosse o grau que os tendenciosos observadores contemporâneos considerassem Cartago como sendo: brutal na sua política e religião, opressora de seus súditos, agressiva com seus vizinhos, e dissimulada nas suas relações com as potências estrangeiras, uma cidade que ostentasse estas duas brilhantes qualidades, hoje quase divinizadas pelos nossos educadores, deve ter sido, ao contrário: amigável e escrupulosa em suas relações estrangeiras e domésticas, e vitimada em sua inocência por nações menos politicamente corretas.

Os incontáveis recém-nascidos e crianças pequenas que os Cartagineses sacrificaram aos seus deuses– os restos de mais de 20 mil deles já foram encontrados apenas em Cartago – se esvanece em não mais do que uma simples faceta do glorioso mosaico cultural que era Cartago. E nada disso precisa ser provado, ou mesmo, discutido pela autora, que também é livre para cometer não poucos erros factuais: já que, por definição, os caras legais devem ser um povo diversificado e multicultural, e uma escritora que canta as suas virtudes é liberada de maçante labuta da precisão histórica pela pureza dos seus ideais.

A Antiga Cartago era, provavelmente, tão diversa e multicultural como a Arábia Saudita de hoje: Um Estado rico com uma população pequena, Cartago empregava estrangeiros para fazer o trabalho sujo e dependia mais de mercenários estrangeiros do que dos seus cidadãos para lutar as suas guerras. Os mercenários que Cartago contratava certamente não tinham nenhum sentimento de fazer parte da nação cartaginesa: Quando os Cartagineses, após a sua derrota na Primeira Guerra Púnica (264-241 A.C), não foram capazes de pagá-los, os mercenários iniciaram uma guerra de inigualável brutalidade – a chamada “Guerra Sem Trégua” – contra seus ex-empregadores (240-238 A.C). Autores antigos descrevem os Cartagineses como sendo soberanos implacáveis, e praticamente todas as comunidades que eles dominavam na Espanha e no Norte da África alegremente abandonaram seus antigos mestres quando lhes foi oferecida proteção pelos Romanos. Poucos participaram voluntariamente no diverso e multicultural paraíso cartaginês imaginado pela nossa autora.

Na verdade, no Mundo Mediterrâneo posterior a Alexandre, o Grande, onde as incontáveis cidades gregas tornaram-se mais e mais liberais do que já tinham sido anteriormente em conceder cidadania a imigrantes, Cartago pode ter sido extraordinariamente excludente, enfeitada (como todos os Estados não-gregos) com uma pátina de cultura grega, mas somente aceitando, em seu corpo de cidadãos, imigrantes da região que originalmente fundou-a como colônia: a Fenícia, no Levante.

Na outra extremidade, positiva, dos Estados antigos que recebiam imigrantes e seus costumes estava Roma. Tendo saudado Cartago como “diversa e multicultural”, o autor de Hannibal inconscientemente imagina a sua grande adversária como sendo monolítica em raça, credo e aparência, tanto quanto um grande escritório de advogados brancos protestantes anglo-saxões da Nova York dos anos 50 e, consequentemente (por uma lógica implícita inevitável), como sendo gananciosa, pérfida e beligerante. Porém, os Romanos reais imaginavam que a cidade deles havia sido fundada por um bando de renegados, exilados e falidos. E, leal a essas origens, Roma energicamente dividiu a sua cidadania em direitos e classes, e concedeu partes dela aos seus aliados, que poderiam ultimamente aspirar ao seu todo.

Na época em que Roma começou a lutar contra Cartago, não apenas a mais numerosa nação dos Latinos, que eram culturalmente similares à Roma, mas também os Sabinos, Volscos, Marsos, Etruscos, Úmbrios, Samnitas, Gregos, e muitos outros, que falavam línguas estranhas e tinham costumes diferentes, haviam sido admitidos, em maior ou menor grau, nesse sistema generoso.

Consequentemente, para qualquer um que se sinta atraído à tarefa de pontuar as potências da Antiguidade em termos de sua diversidade e multiculturalismo, a Roma do século III A.C é um candidato muito melhor para obter esse dúbio certificado do que a Cartago do século III A.C. Mas, se tal questão for mesmo de interesse histórico, ela tem um significado bem oposto ao que o autor de Hannibal assevera, porque, em vez de fator de força, durante a Segunda Guerra Púnica de Aníbal (218-201 A.C), diversidade e multiculturalismo foram fraquezas – ainda que não fraquezas decisivas – para ambos os adversários.

Assim, sem dúvida, nossa autora o admite, quando ela aponta para a notável habilidade de Aníbal em manter unido o seu “multicultural” e “diverso” exército mercenário “colcha de retalhos” devido à força de seu carisma, à sua identificação com Hércules, e aos seus crescentes sucessos militares (Como se fosse uma professora de faculdade contemporânea, nossa autora acha que o verdadeiro gênio de Aníbal reside em – hein? – administrar a diversidade).

Mas a notável destreza de Aníbal sugere uma ânsia extraordinária, uma ânsia, suspeita-se, que o Cartaginês ficaria satisfeito em não ter. Apesar das heroicas qualidades pessoas de Aníbal, o seu exército padecia de deserções individuais e em massa.

No que se refere aos Romanos, a estratégia de Aníbal era derrotá-los em batalha (como ele fez, habilmente, em 218, 217 e na sangrenta Canas em 216 A.C) e então separar os aliados italianos que tanto contribuíam tanto para o poder militar de Roma. E alguns deles ele realmente ele conseguiu separar, especialmente após Canas, sobretudo no sul da Itália. Porém aqueles que abandonaram Roma, quase todos Gregos ou Oscos, eram os aliados de Roma culturalmente mais alienígenas, enquanto uma vasta porção da Itália, 160 km ao norte e 120 km ao sul de Roma (sem falar na maioria das cidades ainda mais ao sul), permaneceu leal aos Romanos, apesar das vitórias de Aníbal, e dos seus agrados, tentativas de suborno para encorajar traição e, finalmente, cercos e devastação coercitiva das terras deles.

O coração dessa resoluta região era composto de povos que sempre tinham sido (ou tinham se desenvolvido) similares em seus costumes aos Romanos. Mas muitos aliados romanos alhures, que não eram culturalmente similares aos Romanos também se mantiveram fiéis, e foram eles os que mais sofreram por isso, estando localizados em áreas onde os seus vizinhos tinham desertado para o lado de Aníbal. Esses amigos de Roma, conquanto achassem os costumes romanos esquisitos, sabiam ao menos uma coisa sobre eles: os Romanos, ao contrário de Aníbal, mantinham a sua palavra quanto a socorrer aliados cercados, recompensavam os que se mantinham leais e puniam com terrível crueldade aqueles que os traíam.

A fidelidade contínua aos Romanos, tanto a de seus parentes italianos, como a de seus outros aliados, não importa o quanto fossem diferentes os seus costumes, é o decisivo fator da guerra de Aníbal na Itália. Essa história é contada (juntamente com aquelas da Primeira e Terceira Guerra Púnicas), livre de modismos de posições políticas, no livro de Dexter Hoyos, “Mastering the West: Roma and Carthage at War” – sendo ele mesmo o reconhecido mestre deste assunto na atual geração. O cálculo é este: Nas suas vitórias entre 218 e 216 A.C., Aníbal matou ou capturou talvez 15 por cento da totalidade da população masculina das partes da Itália leais à Roma. Nunca nenhum Estado moderno jamais sofreu algo que se aproximasse de tais perdas (mesmo a França e a Alemanha perderam menos que 9 por cento na 1ª Guerra Mundial).

Ainda assim, contra a expectativa geral daqueles que não a conheciam bem, Roma não pediu a paz, e, um ano após Canas, colocava 75 mil homens no campo de batalha. Em 212 e 211 A.C., 200 mil homens serviam na terra ou no mar, algo como um terço de todos os homens em idade militar na Itália. A capacidade de Roma de recrutar tais números dentre seus próprios homens e os aliados dela é a razão pela qual ela finalmente venceu a guerra. Aníbal foi mantido sob controle na Itália, outras possessões romanas foram fortemente guarnecidas e o aliado de Cartago, Filipe V da Macedônia foi bloqueado na Grécia, enquanto os Romanos ainda possuíam amplas forças para derrotar os Cartagineses na Espanha, capturar a poderosa aliada de Cartago, Siracusa, na Sicília, e, ao final, invadir o Norte da África, obrigando Cartago a chamar Aníbal de volta para defender a terra natal.

Durante os 16 anos que Aníbal permaneceu na Itália, Cartago fez esporádicas tentativas de reforçá-lo com mercenários recém-contratados e reluzentes novos elefantes. Mas a necessidade de ter que fazer isso mostra que Aníbal, apesar das suas vitórias e carisma, simplesmente não pôde – ao contrário dos Romanos – recrutar em larga escala entre os habitantes da Itália. Ao longo do tempo, as suas forças diminuíam e minguavam, e os Romanos cada vez mais restringiam os movimentos dele. Nos últimos anos anteriores à sua volta, Aníbal foi essencialmente um chefe de um bando confinado ao árido Brútio, a ponta do pé da península italiana.

Aparentemente, o exército diverso e multicultural de Aníbal não exerceu sobre os potenciais recrutas na antiga Itália o mesmo apelo que exerce sobre a autora de Hannibal, confortavelmente à vontade na câmara de eco intelectualmente monocultural da universidade atual.

J.E. Lendon, professor of history at the University of Virginia, is the author of Soldiers and Ghosts: A History of Battle in Classical Antiquity and Song of Wrath: The Peloponnesian War Begins.

BATALHA DE CANAS – O DIA MAIS SANGRENTO DA HISTÓRIA

BATALHA DE CANAS – O DIA MAIS SANGRENTO DA HISTÓRIA

Em 02 de agosto de 216 A.C., quando o sol se pôs detrás do rio Aufidus, na fértil planície da região da Apúlia, próximo à cidadezinha de Canas (Cannae), no sul da península italiana, 80 mil cadáveres jaziam sem vida.

Eram os corpos de cerca de 70 mil soldados e aliados romanos, aos quais se somavam pouco mais de 6 mil soldados africanos, celtiberos e gauleses, estes integrantes da força expedicionária comandada pelo grande general cartaginês Aníbal Barca.

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(Acredita-se que este busto antigo, encontrado em Cápua, seja de Aníbal)

Para se ter uma ideia do tamanho dessa carnificina- talvez a maior jamais ocorrida em um único dia em qualquer guerra- estima-se, por exemplo, que 50 mil civis e soldados alemães morreram no Bombardeio de Dresden, em abril de 1945, realizado por mil bombardeiros ingleses. Já em 6 de agosto de 1945, em Hiroshima, a estimativa do número de mortos varia entre 22 mil e 80 mil vítimas, e o maior número de pessoas mortas proposto para Nagasaki, três dias depois também devastada por uma bomba atômica norte-americana, é de 70 mil vítimas. No primeiro dia da sangrenta Batalha do Somme, na 1ª Guerra Mundial, em 1916, o número estimado de soldados mortos é de 35 mil. E, por sua vez, na Batalha de Borodino, travada entre o exército de Napoleão e a Rússia Czarista, o maior número estimado de baixas é de 45 mil, entre mortos e feridos.

Prelúdio

Após a Primeira Guerra Púnica, que durou de 264 A.C a 241 A.C., Roma havia conseguido deter a expansão de Cartago pela Sicília e pelo sul da Itália, triunfo em boa parte conseguido após ela construir, pela primeira vez em sua história, uma marinha, derrotando a rival no mar. Os mais de 20 anos de conflito, e o tratado de paz assinado com os romanos, não impediram que Cartago continuasse a prosperar e expandir suas colônias e esfera de influência pela Península Ibérica, levando a atritos com aliados de Roma, especialmente a cidade ibérica de Sagunto, que, em 219 A.C., acabou sendo alvo de um ataque que deflagraria um novo conflito.

O grande general Aníbal Barca, filho de Amílcar Barca, o comandante cartaginês durante a Primeira Guerra Púnica, então, devisou a estratégia de atacar diretamente Roma no coração do território que ela controlava na Itália, ao invés de combater os exércitos romanos que se encontravam na Espanha, foco das presentes disputas.

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(Shekel, moeda cartaginesa, com a efígie de Amílcar Barca)

Em uma manobra surpreendente e ousada, Aníbal conseguiu evadir as tropas romanas que se dirigiam à Espanha, cruzando a França e, com seu exército de cartagineses e aliados celtiberos e celtas, incluindo uma unidade móvel “blindada” integrada por elefantes treinados para a guerra, cruzou as escarpadas montanhas dos Alpes, invadindo a Itália por terra, com uma rapidez inesperada, sendo que muitos supunham que o ataque se daria por via marítima.

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Mestre na Arte da Guerra, Aníbal derrotou os exércitos consulares que os romanos confiantemente enviaram para derrotá-lo no norte da Itália, na Batalha de Trébia e na Batalha do Lago Trasimeno,  sendo que esta foi uma emboscada terrível na qual os romanos sofreram 30 mil baixas, entre mortos e capturados.

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A gravidade da situação militar levou o Senado Romano a acionar um dispositivo constitucional que, em situações extremas, permitia a nomeação de um Ditador com poderes extraordinários, tendo sido designado o Cônsul Quinto Fábio Máximo.

O Ditador Fábio entendeu que o melhor para os romanos, em razão do quadro em que eles se encontravam, era adotar uma tática de guerrilha, evitando engajamentos decisivos em batalhas campais, com o objetivo de diminuir, paulatinamente, os efetivos de Aníbal, tendo em vista o contingente mais reduzido de que, então, os romanos dispunham na Itália, depois da perda de vários exércitos consulares, e, sobretudo, o fato de que Aníbal estava longe de suas bases de suprimentos na Espanha e na África. Essa estratégia, que, aliás, seria repetida com sucesso pelos russos contra Napoleão e contra Hitler, até hoje é chamada de “estratégia fabiana” e valeu a Fábio o cognome, isto é, o apelido, de Fábio Cuntator, ou seja, o “Contemporizador”.

Durante dois anos, a estratégia fabiana foi adotada com bons resultados pelos romanos. Porém, quando Aníbal chegou ao sul da Itália, algumas cidades aliadas começaram a desertar para o lado dos cartagineses, fato que, como ele tencionava, acabaria por obrigar os romanos a uma batalha campal.

A estratégia de Fábio era eficiente, mas não era popular…Os romanos se orgulhavam do seu exército, com o qual haviam anexado praticamente a Itália inteira, e a questão virou política. Nas eleições de 216 A.C., foram eleitos os cônsules Caio Terêncio Varrão (Varro) e Lúcio Emílio Paulo. Varrão era de uma família importante, mas de origem plebeia, e Emílio Paulo era um aristocrata da tradicional elite senatorial. O primeiro, era um ardoroso crítico da estratégia fabiana, e defendia um ataque direto ao exército de Aníbal; já o outro, um pouco mais cauteloso, propunha apenas um pouco mais de ousadia, sem abandonar o que vinha dando certo.

Por outro lado, Aníbal não conseguiu convencer as cidades mais importantes do sul, como Cápua, a abandonarem a aliança com Roma, como ele pretendia, visando deixar os romanos isolados e conseguir, ele mesmo, uma base mais estável na Península. Ele então, planejou uma ação mais contundente para atrair os romanos: tomar o importante depósito romano de suprimentos na cidade de Canas, algo que dificultaria muito as ações do exército romano no sul da Itália.

Quando a notícia da perda de Canas chegou a Roma, os Cônsules decidiram que era chegada a hora de um ataque combinado ao exército cartaginês. O Senado autorizou o recrutamento de forças que dobravam os exércitos consulares, totalizando uma força entre 90 e 100 mil homens, configurando, até então, o maior exército já reunido pelos romanos em toda a sua história!

Comandados por Varrão e Paulo, que se revezavam periodicamente no comando, o enorme exército, após uma marcha de 2 dias, chegou até as vizinhanças de Canas, acampando a uns 10 km do acampamento cartaginês (e, no final desta marcha, os romanos chegaram a derrotar em uma escaramuça alguns cartagineses). Consta que, admirado ao ver o tamanho do exército romano, Gisco, um oficial cartaginês, teria comentado com Aníbal que o exército romano era muito mais numeroso do que o cartaginês, ao que o general teria respondido:

“Outra coisa que você não notou, e essa é ainda mais impressionante, é que, embora haja entre eles tantos soldados, nenhum deles se chama Gisco”.

Paulo, nos dois dias em que ele foi o comandante-em-chefe do exército combinado, manteve-se acampado. Os romanos haviam decidido estabelecer um pequeno acampamento suplementar na outra margem do rio Aufidus, para assegurar o suprimento de água. No terceiro dia, 02 de agosto de 216 A.C., Varrão assumiu o comando e Aníbal, percebendo a oportunidade (parece que ele tinha sido informado da divergência de opiniões entre os dois romanos), mandou um destacamento de cavalaria atacar o acampamento menor.

A Batalha

Varrão mordeu a isca e ordenou que o exército saísse do acampamento para a planície, desdobrando-se em ordem de batalha. Ele certamente estava confiante, pois em suas vitórias anteriores, Aníbal tinha se aproveitado ou de emboscadas ou de um terreno difícil. Mas, desta vez, a batalha ocorreria em campo aberto, onde os romanos se julgavam imbatíveis…

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(Os soldados de uma legião romana, da esquerda para a direita: 1- Hastati, 2-Velites, 3-Triarii, 4- Principes)

Aníbal, como todo grande general, já tinha estudado completamente o terreno onde escolhera oferecer batalha. Ele escolheu uma posição na qual, ao longo da luta, os romanos ficariam de frente para o sol escaldante do verão italiano, e contra o vento, que poderia jogar poeira e atrapalhar o avanço inimigo. Além disso, ele sabia como os romanos lutavam, que, aliás, não diferia muito da tática padrão dos exércitos helenísticos: tentar quebrar a linha do adversário e, então, envolver as formações desconjuntadas.

Nota: As batalhas de infantaria da Antiguidade, sobretudo as dos gregos e macedônios, até então ( as quais influenciaram o resto do mundo mediterrâneo), caracterizavam-se pelo choque de linhas cerradas de infantaria, armadas com escudos e lanças, variando a profundidade e a extensão dessas linhas de soldados, sempre visando a empurrar o adversário para trás, até que essa linha cedesse em algum ponto, onde então se dava uma penetração que levaria ao esfacelamento dassa linha e ao consequente envolvimento dos pedaços cercados. Somente aí é que se começava a infligir as maiores baixas, já que, por si só, a pressão frontal contra centenas ou milhares soldados de capacete e armadura, protegidos por uma barreira de escudos, lado a lado, causava muito poucas mortes. Os massacres só ocorriam quando um exército era completamente cercado e, sobretudo, quando os soldados debandavam, dando as costas para o inimigo.

Percebendo que os romanos planejavam fazer uso do seu número muito maior de tropas, Aníbal escolheu um terreno onde o exército romano não poderia se espalhar muito, já que as suas linhas, caso inteiramente desdobradas, tinham a capacidade de ficar muito mais extensas do que as dos cartagineses. Por isso, ele colocou o exército cartaginês perto do rio, cobrindo o seu flanco esquerdo, sendo que, no lado direito, um terreno mais elevado dificultava que ele fosse atacado por ali.

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(O sítio da Batalha de Canas, com a coluna in memoriam que foi erguida já antiguidade. O rio Aufidus (atual Ofanto) mudou o seu curso ao longo de 2 milênios, mas a elevação é a mesma descrita pelos historiadores. Na coluna foi gravada uma citação de Tito Lívio sobre a Batalha: “Nenhuma outra nação poderia ter sofrido tamanhos desastres e não ter sido destruída.“)

Por outro lado, Aníbal optou por adelgaçar (tornar mais fina) a profundidade da sua linha, que era a única maneira pela qual ele poderia desdobrar a sua linha de frente em uma extensão igual dos romanos. Aníbal compreendia que os romanos também não esgarçariam demais a linha deles, já que, pela lógica das táticas vigentes, acima explicadas, eles deveriam concentrar o seu peso no centro da linha dos Cartagineses.

Além disso, Aníbal sabia que os romanos eram tradicionalmente fracos em cavalaria – enquanto que ele dispunha de dez mil cavaleiros africanos, ibéricos e gauleses, os romanos somente contavam com quatro mil cavaleiros. Assim, ele poderia proteger melhor os seus flancos com a sua cavalaria, e impedir que os romanos o envolvessem valendo-se de sua infantaria bem maior, ou, melhor ainda, ao dispersar a cavalaria romana, Aníbal poderia, com a sua própria, tentar atacar a infantaria romana pelos flancos e pela retaguarda. No comando da cavalaria númida, no flanco direito da linha cartaginesa, estava Asdrúbal, irmão de Aníbal, acompanhado de Maharbal, e, no esquerdo, o cartaginês Hanno.

Seguindo o plano, e, aí, mais do que em todo resto, reside o brilhantismo de Aníbal, ele planejou que o seu centro deveria ceder terreno aos atacantes inimigos, embora não a ponto de se dissolver com a pressão exercida pelo avanço romano. Para isso, Aníbal cuidadosamente escolheu a posição que cada grupo do seu exército multinacional deveria ocupar: na vanguarda, com a função de causar o máximo de estrago possível, antes do contato com o inimigo, ficaram os fundibulários das ilhas baleares, mestres no uso da funda. No centro da formação, ele colocou os ibéricos e os gauleses, teoricamente os integrantes menos confiáveis das tropas e, portanto, para melhor poder comandar e vigiar esse sensível setor, Aníbal escolheu para si mesmo esta posição na ordem de batalha. Já nas alas esquerda e direita do seu exército, Aníbal posicionou a leal infantaria recrutada no norte da África, território de Cartago, já experimentada em batalha,  e em quem ele tinha inteira confiança..

Era, portanto, um plano totalmente não-convencional para a época, em que as melhores tropas estavam nos flancos, e não no centro da formação.

O historiador grego Políbio assim descreve  o início da batalha:

“Depois de dispor assim todo o seu exército em uma linha reta, ele levou os regimentos de hispânicos e celtas e os avançou, deixando o resto deles em contato com estes, mas gradualmente recuando, de modo a produzir um formato de lua-crescente, a linha dos regimentos de flanco tornando-se mais delgada enquanto era esticada, sendo o seu propósito empregar os africanos como uma força de reserva e iniciar a ação com os espanhóis e celtas”.

Note-se que, para alguns estudiosos, que fazem uma ressalva à descrição de Políbio, inicialmente, a intenção de Aníbal seria apenas a de segurar o avanço dos romanos ao máximo, a fim de aguardar que sua cavalaria subjugasse a romana e viesse em seu auxílio. Por isso, os flancos de infantaria africana teriam sido dispostos diagonalmente, em formação de esquadrão.

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Seja como for, o fato é que Aníbal controlou magistralmente o desenvolvimento da luta no centro da linha cartaginesa, comandando os celtas e ibéricos em um recuo ordenado. Devido a isso, o centro romano começou a avançar mais e mais para o centro da meia-lua cartaginesa, sem que, provavelmente atrapalhados pelo sol e pelo vento que soprava a poeira no rosto dos romanos, estes percebessem que, na verdade estavam sendo cercados pelas alas esquerda e direita da infantaria africana de Aníbal. Na verdade, Varrão, vendo o recuo do centro cartaginês, realmente acreditou que os inimigos estavam prestes a serem derrotados e ordenou que o avanço romano se intensificasse.

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Enquanto isso, a ala esquerda das cavalarias ibérica e celta cartaginesa conseguiu fazer a romana fugir e se dirigiu para apoiar a sua ala direita, númida, que ainda lutava contra sua contraparte inimiga romana. Em pouco tempo, a cavalaria romana inteira debandou, sendo perseguida pela cartaginesa.

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Agora, o avanço romano no centro tinha tal intensidade, que os soldados romanos da frente começaram a ser espremidos pelos de trás, faltando-lhes espaço até para desembainhar seus gládios. E os flancos romanos vulneráveis agora começavam a ser atacados pelas alas direita e esquerda da infantaria africana, obedecendo às ordens de Aníbal. Para piorar, algum tempo depois, a vitoriosa cavalaria cartaginesa retornou para o campo de batalha e começou a atacar os romanos pela retaguarda. Como resultado, os romanos ficaram completamente cercados, tendo a infantaria ibérica e celta pela frente, os africanos pelos lados e a cavalaria inimiga por trás…

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Foi um clássico movimento de pinças, também conhecido como “duplo envelopamento” que até hoje, dois mil e duzentos anos depois, é obrigatoriamente estudado em qualquer academia militar que se preze no planeta.

Ainda segundo a descrição de Políbio, assim os romanos foram derrotados:

“enquanto as suas fileiras eram continuamente eliminadas, e os sobreviventes eram forçados a recuar e se amontoar, todos eles foram, no final, mortos onde estavam”.

E foi assim que o historiador romano Tito Lívio descreveu o estado do campo de batalha, em seus momentos finais:

“Tantos milhares de romanos morriam…Alguns, incomodados pelos seus ferimentos,  e beliscados pelo frio da manhã, despertaram, e, enquanto eles se erguiam, cobertos de sangue, do meio das pilhas de mortos, foram liquidados pelo inimigo. Outros, foram encontrados com suas cabeças enfiadas na terra, que eles escavaram, tendo, assim, segundo parece, feito buracos para eles, nos quais se sufocaram”.

Dos cerca de 86 mil romanos, somente entre 10 mil e 14 mil romanos conseguiram escapar. Paulo morreu na batalha, mas Varrão conseguiu fugir. Do exército de Aníbal, estimado em cerca de 50 mil homens, entre 8 mil e 5700 morreram. Apesar dos historiadores romanos posteriormente terem acusado Varrão de ser o responsável pela tragédia romana, mesmo assim ele foi recebido com respeito pelo Senado, que inclusive renovou o seu comando.

Epílogo

Após a batalha, muitos esperavam que Aníbal iria imediatamente marchar contra Roma. Segundo Tito Lívio, Maharbal teria chegado a demandar que o general fizesse exatamente isso, tendo Aníbal dito que iria ponderar o assunto e, segundo consta, Maharbal teria afirmado:

“Em verdade, os deuses não conferem tudo a uma só pessoa… pois, Aníbal, você sabe como vencer, mas não sabe como fazer uso de sua vitória”.

Em verdade, contudo, fazendo-se uma análise fria, Aníbal tomou a decisão militarmente mais correta: Roma era uma cidade que na época deveria ter cerca de 250 mil habitantes, cercada de muralhas. E, ao contrário de Cartago, ela não era mais apenas uma cidade-estado, mas liderava o que, praticamente, era uma confederação de cidades italianas, cujo poder de recrutamento não estava esgotado. Além do mais, ainda havia um exército romano na Sicília, e outro na Espanha, além dos 12 mil romanos que haviam sobrevivido à batalha, o que correspondia a cerca de duas legiões. Portanto, um cerco a Roma não seria nada fácil, e o exército de Aníbal se veria na perigosa situação de atacar uma cidade murada com tropas inimigas às suas costas. Ele preferiu, assim, mandar uma embaixada à Roma,  que foi liderada por Carthalo, para negociar um tratado de paz com termos moderados.

Ao contrário do que Aníbal esperava, o Senado, apesar da consternação geral com a esmagadora derrota em Canas, recusou a paz e determinou medidas extremas para lidar com a catástrofe: decretou-se a mobilização total de todos os cidadãos, incluindo, excepcionalmente, o recrutamento de camponeses sem terra, e, em um ato extremo, até de milhares de escravos. Foi proibida a utilização da palavra “paz” e, segundo consta, temporariamente, até alguns sacrifícios humanos, que eram abominados pela opinião pública romana, teriam sido admitidos para obter a boa vontade dos deuses.

Na verdade, com a vitória em Canas, Aníbal efetivamente esteve muito perto de obter o seu maior ganho estratégico planejado: separar Roma de seus aliados italianos. Por exemplo, as importantes cidades de Cumas e Tarento mudaram de lado e aderiram aos cartagineses. E o importante reino de Siracusa, na Sicília, também aliou-se a Cartago. O resultado de Canas também encorajou o rei Filipe V, da Macedônia a atacar os romanos na Ilíria, abrindo um front que colocava Roma em uma péssima situação estratégica (Primeira Guerra Macedônica, da qual tratamos em nosso post sobre a Batalha de Pydna).

Concluindo, agora, somente a vontade férrea do Senado, o patriotismo dos romanos, e a futura emergência de uma nova liderança militar romana, – Públio Cornélio Cipião–  cujo gênio era comparável ao de Aníbal, salvariam Roma da derrota total.

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