RÔMULO AUGÚSTULO E O FIM DO IMPÉRIO ROMANO DO OCIDENTE

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Em 04 de setembro de 476 D.C., o  bárbaro Odoacro, chefe militar dos Hérulos, e comandante de um exército de mercenários a serviço de Roma, depôs o jovem Imperador do Ocidente, Rômulo Augústulo, em sua capital Ravena, enviando-o para viver em paz próximo a Nápoles, e com o direito de receber uma pensão anual.

Em seguida, Odoacro, ao invés de escolher um fantoche para ser o novo Imperador Romano do Ocidente, como vinha ocorrendo nos últimos 20 anos, devolveu as insígnias imperiais ao Imperador Romano do Oriente, Zenão I, em Constantinopla, gesto que caracterizou o  que a maioria dos historiadores considera como o fim do Império Romano do Ocidente  (27 A.C – 476 D.C.). Porém, Zenão, embora tenha aceitado as insígnias, nunca reconheceu Rômulo Augustúlo como imperador legítimo, mas sim Júlio Nepos, que, naquele momento, controlava a Dalmácia, e ali se manteve até  480 D.C., quando foi assassinado.

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Assim, a data de 04 de setembro de 476 D.C. tradicionalmente marca o fim da Antiguidade e o começo da Idade Média, muito embora discuta-se, e muito, se efetivamente ela representa o fim do Império do Ocidente, sendo que há várias opiniões respeitáveis defendendo que o que se chama de Queda do Império Romano não teria sido um evento, mas um processo, o qual  havia começado muito antes da referida data, e, igualmente, não estava terminado em 476 D.C, pensamento que também se aplica a própria Era Antiga.

Flavius Romulus (Rômulo Augústulo) era filho do general e político romano Orestes,  um cidadão romano natural da Panônia, que ascendeu no serviço público graças às suas ligações com os Hunos (ele chegou a ser notarius (secretário) de Átila, o Huno).

Orestes foi nomeado Comandante do Exército Romano do Ocidente (Magister Militum) por Júlio Nepos, que por sua vez havia sido nomeado Imperador Romano do Ocidente por Leão I, o Imperador Romano do Oriente que reinava em Constantinopla, no início de 474 D.C.,  para substituir Glicério, um governante que era considerado um usurpador pela corte oriental.

Porém, Orestes tinha outros planos e,  aproveitando-se do fato do Império Romano do Oriente estar conflagrado pela luta entre Zenão I, o sucessor de Leão I, e o usurpador Basilisco, o general,  valendo-se das tropas bárbaras que comandava,  depôs Júlio Nepos,  o qual teve que fugir para a Dalmácia.

No lugar de Júlio Nepos, Orestes, em 31 de outubro de 475 D.C., proclamou imperador o seu próprio filho, que adotou o nome de Flavius Romulus Augustus. Porém, como o rapaz somente tinha 15 anos de idade, ele logo ficaria conhecido como Romulus Augustulus, ou seja, “Rômulo, o Pequeno Augusto“, que foi reconhecido pelo Senado Romano. De fato, naquele momento, os senadores italianos pareciam mais satisfeitos em manter-se livres da influência da corte de Constantinopla do que livrar-se da ameaça dos bárbaros germânicos..

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Contudo, quando da aclamação de Rômulo Augústulo, os únicos territórios que o Império do Ocidente controlava, além da Itália, eram alguns  pequenos enclaves na Gália e na Ilíria.  Consequentemente, um dos principais problemas causados pela exiguidade desse território apresentou-se de imediato: a completa insuficiência de arrecadação…Assim, não tendo dinheiro para pagar os bandos de bárbaros que constituíam o que ainda se chamava de Exército Romano, uma revolta contra o novo imperador não tardou a acontecer.

Sem pagamento, uma coalizão de mercenários germânicos, majoritariamente Hérulos e Scirii exigiram que lhes fossem dadas terras correspondentes a um terço do território da Itália, aclamando o seu comandante, Odoacro, como “Rex Italiae” (Rei da Itália). Orestes, cujo poder e reconhecimento dependiam do apoio e do reconhecimento do Senado Romano, recusou.

Em 28 de agosto de 476 D.C. Orestes foi capturado pelas tropas comandadas por Odoacro e executado, próximo à Piacenza. Os mercenários avançaram contra Ravena, a capital do Império do Ocidente, que, apesar de uma breve resistência dos poucos soldados romanos que restavam, caiu, em 2 de setembro de 476 D.C.

Dois dias depois, Odoacro compeliu o jovem Rômulo Augustúlo a abdicar. Consta, todavia, que Odoacro, tomado de pena e também impressionado com a beleza do rapaz, decidiu poupar o imperador deposto e enviou-o para viver em uma vila romana fortificada no que hoje é a cidade de Nápoles, recebendo uma pensão de seis mil solidii de ouro. Essa villa, que havia pertencido ao riquíssimo aristocrata romano Lucius Licinius Lucullus (Lúculo), no século I A.C., hoje é o medieval Castello dell’Ovo (na foto abaixo)

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Em seguida Odoacro, marcando uma ruptura com uma prática de décadas, ao invés de colocar um fantoche seu no trono do Império Romano do Ocidente, resolveu aceitar o título de Rei da Itália, com o apoio implícito do Senado Romano.

Com efeito, Odoacro mandou devolver ao Imperador Romano do Oriente as insígnias imperiais, que acredita-se compunham-se principalmente do cetro e da coroa. Uma embaixada de senadores levou os objetos enviados por Odoacro até Constantinopla, acompanhada da mensagem do Senado Romano :

” A majestade de um monarca único é suficiente para proteger, ao mesmo tempo, o Mundo”

Ao aceitar as insígnias, consta que Zenão I respondeu aos senadores italianos, não sem um tom de reprimenda:

“Que os romanos do Ocidente tinham recebido dois homens enviados pelo Império do Oriente, expulsando um e matando o outro, Antêmio…”

Odoacro, entretanto, agiu de modo prudente e respeitoso para com o trono oriental, e continuou mantendo as aparências externas de que ele, no máximo,  se tornara um rei-cliente do Império Romano do Oriente…Ele até cunhou moedas ostentando o nome do Imperador Zenão I. Porém, Odoacro ignorou solenemente o mais importante dos pedidos do Imperador: a de que ele reconhecesse Júlio Nepos como o legítimo Imperador Romano do Ocidente. Nisso, com certeza, ele teve o apoio do Senado de Roma, que passou a cooperar intimamente com ele na administração da Itália.

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As evidências indicam que, em 507 D.C., Rômulo Augústulo ainda recebia uma pensão, que teria sido mantida pelo rei ostrogodo Teodorico, o Grande, que havia conquistado a Itália, após derrotar Odoacro, fundando o Reino Ostrogodo, que duraria até a reconquista da Itália pelo imperador Justiniano I, em 554 D.C.

Em uma grande ironia do destino, o jovem soberano, que tanto tinha o nome do lendário fundador de Roma, Rômulo, como também o do fundador do Império Romano, Augusto, terminou sendo o último soberano do Império Romano do Ocidente…