MARCO AURÉLIO – O IMPERADOR-FILÓSOFO

Em 26 de abril de 121 D.C., nasceu, em Roma, Marcus Annius Verus (Marco Aurélio), filho de Marcus Annius Verus (III) e Domitia Lucilla, a Jovem.

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Por parte de pai, Marco Aurélio era integrante de uma distinta família da classe senatorial, originária da Hispânia, da cidade de Ucubi, próximo à Corduba (Córdoba), que enriquecera graças à plantação de oliveiras e produção de azeite. O seu bisavô, também chamado Marcus Annius Verus (I), chegou a ser Pretor e Senador. Mas a família ascendeu mesmo a partir da chegada de seu conterrâneo Adriano ao trono, juntamente com outras famílias aristocráticas daquela província, que, em sua grande maioria tinham parentesco, consanguíneo ou por afinidade, com o referido imperador e com seu antecessor, Trajano.

Acredita-se que a família de Marco Aurélio fosse um ramo da  originalmente plebeia gens Annia, de Setia (atual Sezze), no Lácio,  cidade fundada pelo povo itálico dos Volscos  e que se tornou colônia de Roma em 382 A.C. Os Ânios  devem ter chegado ao Senado no final do século III A.C. e, no século seguinte, alguns de seus membros conseguiram ser eleitos Cônsules, a mais alta magistratura da República Romana.

O avô de Marco Aurélio, igualmente de nome Marcus Annius Verus (II), foi nomeado Cônsul Suffectus (substituto ou extraordinário) para o ano de 97 D.C., ainda durante o reinado de Trajano. Annius Verus era amigo pessoal do imperador Adriano e, graças a isso, ele foi nomeado Prefeito de Roma e, por duaz vezes, Cônsul ordinário, nos anos de 121 e 126 D.C.

Já  a mãe de Marco Aurélio, Domitia Lucilla, era filha de Publius Domitius Calvisius Tullus Ruso e de Domitia Lucilla, a Velha, esta, por sua vez, filha adotiva de Lucius Catilius Severus, que foi Cônsul nos reinados de Trajano (110 D.C.) e Adriano (120 D.C.).

Domitia Lucilla era uma mulher riquíssima, que herdou de sua mãe um grande complexo de olarias e fábricas de tijolos nas cercanias de Roma, que forneceu boa parte dos tijolos para a construção de monumentos tais como o Coliseu, o Mercado de Trajano e o Pantheon.

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(um dos tijolos da fábrica dos Domitii)

Marcus Annius Verus (III) e Domitia Lucilla, a Jovem também tiveram, por volta de 122 D.C, uma filha, que recebeu o nome de Annia Cornificia Faustina.

Quando Marco Aurélio tinha apenas três anos, o pai dele morreu e ele passou ao pátrio poder de seu avô, por quem foi criado. Apesar dele pouco ter convivido com o  pai, anos mais tarde, em sua obra “Meditações“, Marco Aurélio escreveria que, através das memórias e da reputação paterna, com ele aprendeu a ter “modéstia e hombridade”.

Igualmente, no que se refere à mãe, Domitia Lucilla, Marco Aurélio menciona que ela lhe ensinou a ter “devoção religiosa e simplicidade na dieta” e a evitar “as manias dos ricos”.

Efetivamente, Marco Aurélio nasceu em um ambiente de afluente riqueza. Ele cresceu na elegante casa de seus pais, no Monte Célio, bairro aristocrático de Roma, coalhado de mansões. Em seus escritos, ele se refere carinhosamente ao bairro como “Meu Célio”.

Caelian_Hill foto de Roundtheworld(Panorama do Monte Célio, em Roma)

Ao avô, Marco Aurélio também se mostra agradecido, por lhe ter ensinado  a ter “bom caráter e evitar o mau gênio”

Como bom jovem aristocrata romano, a educação básica de  Marco Aurélio, dos sete aos onze anos, ficou a cargo de tutores, sabendo-se que dois deles se chamavam Euphoric e Geminus.

Com doze anos, a educação de Marco Aurélio passou para dois grammatici, e ele também foi introduzido ao estudo de ciências e artes, sob a responsabilidade de Andros, um professor de geometria e música, e de Diognetus, um mestre de pintura e professor de filosofia. Este último teve grande influência sobre Marco Aurélio, ensinando-o a pensar filosoficamente, a não acreditar em superstições ou dar atenção exagerada aos esportes de luta. Influenciado pelas lições de Diognetus, que parece ter sido estoico, Marco Aurélio adotou, ainda adolescente, o costume de se vestir como um filósofo grego e até o de dormir no chão, para o desespero de sua mãe.

Deram continuidade à educação de Marco Aurélio os tutores Alexandre de Cotiaeum, Trosius Aper e Tuticius Proculus, os dois últimos, professores de latim. Vale citar que Alexandre era o maior especialista romano em Homero e, segundo o próprio Marco Aurélio, ele o ensinou a dar ênfase ao conteúdo sobre o estilo.

Com apenas seis anos de idade, Marco Aurélio foi incluído na Ordem Equestre, o segundo nível da nobreza romana, por ordem do imperador Adriano. Segundo as fontes, este imperador sempre simpatizou com Marco Aurélio, e assegurou ao menino a participação em vários postos prestigiosos para a juventude aristocrática romana, como o colégio de sacerdotes juvenis dos “Sálios”.

De fato, Adriano costumava chamar Marco Aurélio de “Verissimus“, em uma brincadeira com o nome do menino (que, então, ainda se chamava “Marcus Annius Verus“. Verissimus, em latim, significa “muito verdadeiro”, com o sentido de “confiabilíssimo”.

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Depois de ficar um longo período afastado de Roma, viajando, Adriano retornou à Cidade em 135 D.C. Porém, nio ano seguinte, o Imperador ficou muito doente e, já que não tinha filhos, após uma crise de hemorragia, achando que ia morrer, adotou como herdeiro Lucius Ceionus Commodus, que passou a se chamar Lucius Aelius Caesar.

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(Busto de Lucius Aelius Caesar, foto de Jastrow)

Naquele mesmo ano de 136 D.C., Marco Aurélio assumiu a “toga virilis“, que simbolizava a sua chegada à idade adulta. Como prova da estima e do favor que ele gozava junto ao imperador, Adriano arranjou o casamento de Marco Aurélio com Ceionia Fabia, filha de Lucius Ceionus Commodus (Lucius Aelius Caesar), o herdeiro imperial.

Contudo, em 1º de janeiro de 138 D.C., Lucius Aelius Ceasar morreu subitamente de hemorragia (talvez estivesse grassando alguma febre hemorrágica na região).

Necessitando de um novo herdeiro, Adriano, no dia 24 do mesmo mês, escolheu oficialmente Titus Aurelius Fulvus Boionius Arrius Antoninus (Antonino Pio) como seu sucessor, com a condição de que este, por sua vez, adotasse Marco Aurélio e Lúcio Vero, filho de Lucius Aelius Caesar, como seus herdeiros. Em virtude dessa adoção por Antonino, Marco Aurélio passou a se chamar Marcus Aelius Aurelius Verus.

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(Busto de Antonino Pio)

Antonino era casado com Annia Galeria Faustina (Faustina, a Velha), tia de Marco Aurélio, que era sobrinha da imperatriz Vibia Sabina, esposa de Adriano.

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(Busto de Faustina, a Velha)

Em 10 de julho de 138 D.C., Adriano faleceu em Baiae, um balneário chique na costa da Campânia, após uma prolongada agonia. A sua sucessão foi tranquila e Antonino assumiu imediatamente o trono, mantendo os principais magistrados e auxiliares de Adriano nos cargos, e tranquilizando o Senado Romano de que os seus privilégios seriam respeitados.

A posição do jovem Marco Aurélio, que naquele momento tinha apenas 17 anos, foi reafirmada pelo fato da Antonino ter pedido que ele rompesse o compromisso com Ceionia Fabia e se comprometesse a casar-se com a filha dele, Annia Galeria Faustina Minor (Faustina, a Jovem), o que foi prontamente aceito.

Faustine_la_Jeune_01(Busto de Faustina, a Jovem)

 

No início do pacífico e estável reinado de Antonino Pio, Marco Aurélio continuou seu aprimoramento intelectual tornando-se aluno de Marco Cornélio Frontão, um famoso gramático, retórico e advogado, que se tornaria um de seus amigos mais íntimos e era considerado um dos maiores oradores romanos. A correspondência entre Marco Aurélio e Frontão foi preservada e é muito útil para demonstrar a evolução do pensamento do primeiro e o ambiente no círculo imperial.

Marco Aurélio também estudou com Herodes Ático, um influente e riquíssimo aristocrata ateniense, que também era um reconhecido filósofo sofista e foi convidado por Antonino para residir em Roma, com o propósito específico de ser professor dos herdeiros Marco Aurélio e Lúcio Vero. Outro importante integrante do círculo de professores de Marco Aurélio foi o filósofo grego Apolônio de Calcedônia, com quem ele se aprofundou no estudo do Estoicismo.

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(Busto de Herodes Ático)

O treinamento público de Marco Aurélio para suceder Antonino começou assim que este assumiu o trono. Assim, ainda com 18 anos de idade, o jovem herdeiro passou a participar das reuniões do Conselho Imperial. Em 140 D.C, Marco Aurélio, foi nomeado Cônsul pela primeira vez, e, novamente, em 145 D.C.

Neste mesmo ano, ele se casou com Faustina, a Jovem. Curiosamente, como Marco Aurélio era filho adotivo de Antonino, legalmente aquela seria uma união incestuosa com a sua irmã. Assim, foi preciso que Antonino revogasse expressamente o seu pátrio poder sobre o noivo, para que o casamento pudesse se realizar.

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(O jovem Marco Aurélio, em uniforme de general)

Vale citar que o casamento de Marco Aurélio e Faustina, a Jovem seria um dos mais prolíficos, senão o mais fértil, dentre todos os casamentos imperiais da História de Roma. Eles teriam treze filhos, nascidos no decorrer de vinte e três anos! A primeira filha, Antonina Faustina, nasceu em  30 de novembro de 147 D.C. Muitos deles morreriam na infância, de doenças variadas, mas, em 31 de agosto de 161 D.C., durante os primeiros meses do futuro reinado de Antonino, nasceu Lucius Aurelius Commodus (Cômodo), que sucederia o pai no trono.

Embora Lúcio Vero também estivesse recebendo educação esmerada, tudo indica que Antonino considerava Marco Aurélio a opção preferencial para ser o sucessor dele, ou talvez, um “herdeiro-sênior”. Com efeito, em 146 D.C., Marco Aurélio recebeu o “Poder Tribunício” e o “Imperium Proconsular“, atributos que somente o Imperador podia deter.

Em 160 D.C., ficou claro que a saúde de Antonino Pio, aos 70 anos de idade, estava ruim. Naquele ano, Marco Aurélio e Lúcio Vero foram nomeados Cônsules.

No ano seguinte, em 07 de março de 161 D.C, em sua propriedade familiar situada em Lorium, na Etrúria, Antonino Pio convocou o Conselho Imperial e comunicou-lhes que entregava o Império e sua filha a Marco Aurélio. Horas depois, o imperador faleceu.

Novamente, a sucessão foi pacífica. Marco Aurélio, ao receber todos os títulos, poderes e honrarias imperiais, solicitou ao Senado que Lúcio Vero, respeitando a vontade de Adriano, também deveria ser aclamado Imperador, o que foi obedecido. Marco Aurélio manteve o costume de dar um donativo à Guarda Pretoriana, quando da ascensão de um novo imperador. Porém, a gratificação foi o dobro do que tinha sido dado em ocasiões anteriores, já que formalmente eram dois os príncipes que ascenderam ao trono.

Todavia, embora a Guarda tenha se mantido fiel durante o seu longo reinado, no futuro, a ganância dos Guardas em assegurar novos donativos seria causa de inúmeros assassinatos de imperadores. Assim, se por um lado podemos conjecturar  que Marco Aurélio tenha sido sábio em agradar a Guarda e assegurar a fidelidade dos soldados, por outro lado não é absurdo pensar que ele pode, impensadamente, ter estimulado futuras e reiteradas conspirações deles.

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(Busto de Lúcio Vero)

Logo no início do seu reinado, Marco Aurélio teve que desvalorizar o denário, reduzindo o percentual de prata na moeda. Não se sabe o motivo exato, mas é possível isso tenha sido causado pela necessidade de fazer frente aos crescentes gastos com campanhas militares.

Com efeito, desde o princípio, o reinado de Marco Aurélio seria afligido pela necessidade de travar guerras quase contínuas nas fronteiras, e, em pouco tempo, por uma terrível peste.

Os antigos acreditavam que os Deuses se divertiam com as agruras humanas e, depois de vinte anos de reinado calmo e pacífico de Antonino Pio, agora o Império Romano seria governado por um imperador adepto do Estoicismo, a corrente que acreditava que a virtude era a única fonte de felicidade e que, por isso,  o homem-sábio deveria suportar as adversidades e fazer o que era o seu dever. E isso foi justamente o que Marco Aurélio nunca deixou de fazer enquanto imperador.

Ainda durante os últimos dias do reinado de Antonino Pio, o rei Vologeses IV, da Pártia, havia invadido a Armênia, que então era um reino-cliente de Roma, depondo o monarca e instalando no trono um aliado seu, Pacorus, no que constituía um evidente ato de hostilidade ao Império Romano. O governador da Síria, Severianus pensou que podia conter sozinho a ameaça e invadiu a Armênia, mas ele foi derrotado e morto pelo exército Parta, que dizimou a IX Legião Hispana. Naquela ocasião, Marco Aurélio já tinha assumido o trono.

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(Este grafito de um catafracto, um cavaleiro couraçado, o principal elemento das tropas do Império Parta, foi encontrado na cidade de Dura-Europos)

Diante da seriedade da ameaça, Marco Aurélio resolveu mandar seu colega Lúcio Vero em pessoa para assumir nominalmente o comando do Exército Romano na região, bem como dos reforços que foram enviados. Embora Lúcio Vero não tivesse qualquer experiência militar, a sua presença em Antióquia, que seria o quartel-general das operações, era uma afirmação da importância da campanha.

Lúcio Vero, que durante a guerra pareceu mais preocupado em desfrutar os prazeres de Antióquia, estava assessorado pelos melhores generais de Roma, incluindo Avídio Cássio e Marco Cláudio Frontão. Este, comandando a  Legião I Minervia, em conjunto com a Legião V Macedonica, comandada por Públio Mátio Vero, conseguiu tomar a capital armênia, Artabata, em 163 D.C, e destronar Pacorus, reinstalando o aristocrata romano Gaius Julius Soahemus, um membro da elite senatorial romana, que tinha origem armênia e parta e também era membro da dinastia arsácida, no trono. A capital da Armênia foi transferida, em 164 D.C., para a cidade de Kaine Polis, a apenas 50 km da fronteira romana. Em consequência, Lúcio Vero e Marco Aurélio foram saudados pelas tropas como Imperatores, o primeiro recebendo o título de “Armeniacus“.

Os Partas, enquanto isso, intervieram em Osroene, outro reino-cliente de Roma, na Alta Mesopotâmia, onde também instalaram outro aliado, mas o Exército Romano da Síria, reforçado por legiões do Danúbio, conseguiu igualmente expulsa-los, entre 164 D.C. e 165 D.C., capturando a capital de Osroene, a cidade de Edessa.

Os romanos começaram, então, os preparativos para a invasão da Mesopotâmia, coração do Império Parta. Durante o ano de 165 D.C, os Romanos impuseram várias derrotas aos Partas, que recuaram para a estratégica cidade de Nisibis, que, no entanto, foi sitiada e capturada pelo Império Romano, na posse de quem ficaria durante várias décadas. Enquanto isso, a outra ala do Exército Romano, comandada por Avídio Cássio, infligiu outra derrota aos Partas na cidade de Dura-Europos.

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(Panorama da cidade de Dura-Europos, conquistada pelos Romanos)

No final do ano de 165 D.C., o exército de Avídio Cássio avançou pela Mesopotâmia e sitiou as cidades de Seleucia e Ctesifonte, a capital do Império Parta. Seleucia, cuja população era em grande parte de origem grega, abriu as portas para os Romanos, o que não os impediu de saqueá-la, para indignação de muitos contemporâneos . Já Ctesifonte foi tomada, onde foi queimado o  palácio real dos Partas. Pela segunda vez, Lúcio Vero e Marco Aurélio foram saudados como Imperatores, e o primeiro recebeu o título de “Parthicus“. A campanha prosseguiu com a invasão da parte nordeste do Império Parta, com a invasão da Média e, por esse motivo, no ano seguinte, houve nova aclamação dos dois imperadores, tendo Lúcio Vero sido agraciado com o título de “Medicus“.

Porém a grande vitória obtida por Marco Aurélio Júlio Vero no Oriente teria um terrível custo não previsto: As tropas romanas contraíram, segundo as fontes, na cidade de Seleucia, a chamada “Peste Antonina“, provavelmente originária da China e que se acredita ser uma epidemia de varíola ou de sarampo, trazendo a doença para o seio do Império Romano.

Em decorrência da Peste Antonina, que, acredita-se, tinha uma taxa de mortalidade de 25%, estima-se que 5 milhões de romanos morreram, e, em alguns lugares, metade da população pereceu. Entre os infectados, estaria o próprio Júlio Vero, que, no fim do ano de 168 D.C, teria contraído a doença e morreria em 23 de janeiro de 169 D.C.

Outra campanha sangrenta, e muito mais prolongada, iniciou-se quando a guerra contra os Partas ainda não havia sequer se encerrado:

Já em 162 D.C., bárbaros germânicos das tribos dos Chauci e dos Catos tentaram invadir as províncias da Rétia e da Germânia Superior, sendo repelidos.

No final do ano de 166 D.C. e no início do ano seguinte, invasores Lombardos (lungobardi) cruzaram o Danúbio e invadiram a província da Panônia, mas foram contidos por destacamentos da Legião I Adiutrix. O governador da Panônia tentou negociar uma trégua com os representantes de onze tribos germânicas. Porém, naquele mesmo ano, os Vândalos, que faziam a sua primeira aparição na História Romana, e que ficariam célebres quase três séculos mais tarde, junto com os Iáziges, invadiram a província da Dácia e mataram o governador romano.

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A repentina pressão militar dos bárbaros germânicos nas fronteiras romanas, relativamente pacificadas, tinha como motivo uma onda migratória vinda do Báltico e da região do Vístula, quando os  belicosos Godos começaram a migrar para o sudeste da Europa, empurrando os povos daquela região em direção à fronteira romana do Reno/Danúbio.

Somente com o fim da campanha contra o Império Parta, Marco Aurélio e Júlio Vero tiveram condições de organizar uma resposta compatível com a ameaça germânica, e, em 167 D.C, os romanos, com duas novas legiões formadas para a campanha, a Legião II Italica e a Legião III Italica, realizaram uma expedição punitiva na Panônia.

Porém, os bárbaros germânicos não paravam de chegar e, entre 167 e 168 D.C., um grande número de Marcomanos (literalmente, os “homens da fronteira”, na língua germânica), chefiados pelo líder Ballomar, e de Quados cruzaram o Danúbio, derrotaram um exército de 20 mil romanos em Carnuntum, e, rapidamente, chegaram ao norte da Itália, destruindo a cidade de Opitergium e sitiando a importante cidade de Aquileia.

Essa invasão foi um choque para os Romanos. Era a primeira vez, desde a incursão dos bárbaros Cimbros e Teutões, no final do século II A.C. (que, a muito custo, foram derrotados por Caio Mário,  em 101 A.C.), que a Itália era invadida por inimigos estrangeiros.

Nota: Os Marcomanos inicialmente viviam próximo à fronteira do Reno. Porém, com a expansão romana para a Gália e para a própria Germânia, a partir da época de Júlio César e a reação romana ao Desastre de Varo, no reinado de Tibério, aquele povo migrou para a região do Danúbio.  No período dos Antoninos (Nerva – Marco Aurélio), começou a se verificar entre os Marcomanos, bem como outros povos germânicos, o fenômeno da formação de confederações de tribos, com o consequente aumento do tamanho das forças militares e de sua efetividade contra as forças romanas.

Prosseguindo, era necessária, agora, uma grande mobilização de tropas, que, contudo, seria dificultada pela falta de recrutas decorrente da Peste Antonina, que grassava no exército, e a necessidade de conter os Partas no Oriente.

Enquanto pessoalmente liderava a resposta aos Marcomanos e Quados, junto com Júlio Vero, Marco Aurélio teve que voltar para Roma para tratar do funeral do colega que, como vimos, morreu em janeiro de 169 D.C, provavelmente da Peste.

No outono de 169 D.C.,  Marco Aurélio, acompanhado de seu genro, Tibério Cláudio Pompeiano, retornou para a região do Danúbio para enfrentar os bárbaros Iáziges, uma tribo sármata, de origem iraniana, os quais derrotariam e matariam o general Marco Cláudio Frontão, o herói da Guerra contra os Partas.

Enquanto isso, os Costoboci, um povo das montanhas dos Cárpatos, que viviam nas fronteiras da Dácia, também cruzaram a extensa fronteira do Danúbio e invadiram a província romana da Trácia, chegando até Eleusis, próximo a Atenas, onde destruíram o afamado templo dos Mistérios Eleusinos.

Entre 170 e 171 D.C, todos os esforços de Marco Aurélio concentraram-se em expulsar os Marcomanos do território romano. Ele determinou a criação da Prefeitura da Itália e dos Alpes, com o objetivo de melhorar a defesa das passagens alpinas para a Itália e reforçou a frota fluvial do Danúbio. As tropas foram comandadas por Pompeiano e por Pertinace (que, muitos anos mais tarde seria imperador).

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Começaram então os preparativos para uma grande ofensiva contra os Marcomanos, que incluiu a formação de alianças com outras tribos germânicas, como foi o caso dos Vândalos.

Em 172 D.C, os Romanos cruzaram o Danúbio e atacaram os Marcomanos em seu próprio território. No espaço de um ano os bárbaros foram subjugados e Marco Aurélio recebeu o titulo “Germanicus“.  Esta campanha está retratada nos relevos da famosa Coluna de Marco Aurélio. erguida em comemoração da vitória no Campo de Marte, em Roma.

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(Os soldados romanos cruzando o Danúbio sobre uma ponte de barcos, como retratado na Coluna de Marco Aurélio)

No ano de  173 D.C, o Exército Romano se voltou contra os Quados, que tinham apoiado os Marcomanos. Foi nesta campanha que ocorreu o chamado “milagre da chuva”, também retratado na Coluna de Marco Aurélio, ocasião em que as tropas romanas, cercadas pelos Quados em uma posição sem acesso à água, na época da seca, estavam passando muita sede e acabaram sendo salvas por uma súbita chuvarada.

Somente no final do ano seguinte, os Quados seriam subjugados.

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(O “milagre da chuva”, retratado na Coluna de Marco Aurélio – a chuva aparece na forma de uma divindade antropomórfica)

Naquele mesmo ano de 173 D.C.,, Dídio Juliano, o comandante militar na Germânia que, bem mais tarde, também seria imperador, derrotou uma invasão dos Catos e Hermunduri na fronteira do Reno.

Ainda m 174 D.C, chegou a vez dos Iáziges experimentarem a vingança romana. Após uma campanha vitoriosa, os bárbaros assinaram um tratado de paz no ano seguinte, devolvendo os prisioneiros romanos e concordando em fornecer um contingente de oito mil cavaleiros para o Exército Romano, dos quais 5.500 foram assentados na Britânia. Por isso, Marco Aurélio recebeu o título de “Sarmaticus“.

Parece que Marco Aurélio planejava instituir duas novas províncias romanas na região, que se chamariam “Marcomannia” e “Sarmatia”, depois da derrota dos bárbaros. E, de fato, ele vinha sendo bem sucedido na estratégia de isolar e derrotar as tribos uma a uma, não ostante tal estratégia demandasse mais tempo e consumisse mais recursos.

Todavia, os planos  de Marco Aurélio foram por água baixo quando chegou a notícia de que o general Avídio Cássio , comandante do  Exército Romano no Oriente havia se autodeclarado imperador , em maio de 175 D.C.

Avídio Cássio foi incentivado a tentar usurpar o trono quando recebeu a falsa notícia de que Marco Aurélio teria morrido de doença na campanha do Danúbio. Parece que o boato foi aceito como verídico em boa parte do Império e Avídio Cássio, inicialmente,  recebeu o apoio das províncias orientais e do Egito. Há uma versão de que Cássio teria sido incentivado a se rebelar pela própria imperatriz Faustina.

Marco Aurélio, que ao tomar ciência da rebelião estava acompanhado de Cômodo, que aos quatorze anos já estava mesmo na idade de se inteirar dos assuntos militares, teve que abandonar a campanha contra os germânicos e rumar para o Leste.

Entretanto, a notícia de que o imperador estava vivo chegou primeiro às províncias orientais, e o próprio exército de Avídio Cássio executou o seu certeza comandante, preferindo evitar a certeza punição por embarcarem em uma aventura incerta contra um imperador de tanto prestígio.

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(Cabeça de Cômodo adolescente)

O Imperador  aproveitou a estadia na região para visitar Atenas e ele e Cômodo se iniciaram nos Mistérios Eleusinos, Depois, ele visitou o Egito e voltou para Roma para celebrar seu muito merecido Triunfo, em 23 de dezembro de 176 D.C., na companhia de seu filho Cômodo, ocasião em que, provavelmente, a Coluna de Marco Aurélio foi dedicada.

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Os problemas na fronteira do Danúbio, contudo, ainda não tinham sido completamente resolvidos e, em 177 D.CMarco Aurélio voltou à Região,

Ao contrário do que é retratado em filmes como “Gladiador” e “A Queda do Império Romano”, Marco Aurélio sempre pretendeu que Cômodo, o seu único filho homem sobrevivente, herdasse o trono. Ainda em 166 D.C., Cômodo havia recebido o titulo de “César’, que segundo os costumes imperiais significava algo próximo a “príncipe-herdeiro”.  Em 177 D.C., para não restar nenhuma dúvida, sobretudo após a rebelião de Avídio Cássio, Marco Aurélio deu a Cômodo o título de “Augusto”, tornando-o, de direito, Co-Imperador. Seria apenas a segunda vez, na História do Império Romano, que um filho natural sucederia ao pai, tendo sido Tito o primeiro.

Durante o ano de 178 D.C.,  o Exército Romano obteve diversas vitórias no Danúbio e o ano de 179 D.C. parece ter sido dedicado a uma grande preparação para uma ofensiva decisiva contra os bárbaros da região.

Porém, em 17 de março de 180 D.C., aos 58 anos de idade, Marco Aurélio faleceu, provavelmente de causas naturais, ou doença, na cidade de Vindobona (atual Viena, na Áustria). Ele passara os últimos 10 anos lutando contra os Marcomanos, Quados e outros bárbaros na fronteira do Danúbio. Mesmo admitindo-se que lhe tenha sido providenciado todo o conforto a que um imperador romano fazia jus, ninguém discute que passar esse tempo todo afastado de Roma, na fria, inóspita e distante província da Panônia, foi uma prova de dedicação e amor ao dever impressionante para um homem cuja aptidão maior sempre tinha sido a filosofia e a literatura.

Não é a toa que a representação mais famosa de Marco Aurélio, a sua soberba estátua equestre originalmente dourada, hoje guardada no Museu Capitolino, em Roma, mostre o imperador em trajes civis. Não obstante, na Coluna de Marco Aurélio, ele é retratado recebendo a submissão de bárbaros derrotados. Certamente, Marco Aurélio deve ter se valido dos ensinamentos estoicos para suportar cenas tão díspares do seu jeito afável de ser. Antes de tudo, para ele vinha o dever.

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Foi durante o período em que liderou a Guerra contra os Marcomanos que Marco Aurélio escreveu, em grego, a sua obra mais famosa, as “Meditações“,  em 12 livros, enquanto residia em Aquincum (cidade romana fortificada, no perímetro urbano da atual Budapeste, Hungria) e Carnuntum, local de uma fortaleza romana, na atual Áustria. O nome da obra foi dado posteriormente e o melhor título, segundo o que se depreende do que escreveu nos seus cadernos seria “Pensamentos para mim mesmo”. Esse clima é, de fato,  muito bem retratado nos filmes “Gladiador” e “A Queda do Império Romano”.

A linha que conduziu as meditações, segundo o próprio Marco Aurélio, é  a ideia de que a pessoa “tem o poder de se despir de vários problemas superficiais localizados inteiramente na mente dela e possuir um grande espaço para ela mesma abraçar em pensamento todo o Cosmos, levar em consideração a eternidade, pensar nas rápidas mudanças nas partes de cada coisa, de quão pouco tempo há do nascimento até a morte e como o vazio que existe antes do nascimento e depois da morte  é igualmente infinito“.

Cássio Dião,  que, juntamente com a História Augusta e as cartas de Frontão, é a melhor fonte sobre o reinado de Marco Aurélio, ao terminar o seu texto sobre este imperador, escreveu:

Marcus não encontrou a boa sorte que ele merecia, pois ele  não era dotado um físico vigoroso e se viu envolvido em um turbilhão de problemas durante praticamente todo o seu reinado. Mas, na parte que me toca, eu o admiro ainda mais por essa razão, já que, em meio a dificuldades incomuns e extraordinárias ele conseguiu sobreviver e preservar o Império. Somente uma coisa o impediu de ser completamente feliz, nomeadamente, que, após cuidar e educar seu filho da melhor forma possível ele tenha se decepcionado tanto com ele. Esse assunto será nosso próximo tópico; pois agora nossa História desce de um reinado de ouro para um de ferro e ferrugem, como as coisas se tornariam para os Romanos daqueles dias.

Com efeito, das poucas críticas que os historiadores antigos e modernos fizeram a Marco Aurélio, encontra-se a escolha de Cômodo como sucessor. Porém eu entendo a crítica como injusta. Não há muitos indícios de que Cômodo, antes de assumir o trono, tenha dado demonstrações de que ele fosse incapaz para governar. Aos 18 anos, o mais provável é que Marco Aurélio esperasse que bons conselheiros e professores dessem ao rapaz a orientação necessária para ser um bom imperador e um bom homem, como tinha ocorrido com ele próprio, Marco Aurélio.

Escolher uma outra pessoa, como por exemplo, um general capaz como Tibério Cláudio Pompeiano, que, aliás, foi a maior inspiração para o personagem Maximus Decimus Meridius, do filme “Gladiador”, no lugar de Cômodo, além de significar, na prática, condenar o próprio filho à morte, significaria, caso este não fosse executado pelo sucessor, uma perpétua fonte de potenciais guerras civis, enfraquecendo ainda mais o Império em um momento crucial.

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Infelizmente, Cômodo realmente mostrou-se não ser o governante talhado para a situação do Império Romano. Assim que o pai morreu, ele negociou uma paz com as tribos do Danúbio e voltou para Roma, onde ele celebrou um imerecido Triunfo, em outubro de 180 D.C. Ele negligenciaria os assuntos militares e a política externa durante todo o seu reinado e isso contribuiria, décadas mais tarde, para as catástrofes que se abateriam sobre o Império, no século III D.C.

A outra crítica foi feita pelos historiadores cristãos, que denunciaram as perseguições ocorridas no reinado de Marco Aurélio. Quanto a isso, não parece ter havido mudança na política seguida pelo Império com relação ao Cristianismo. O que pode ter havido é o aumento de processos e prisões em virtude do aumento do número de cristãos. O Estado Romano intervinha nessas questões muito por demanda dos cidadãos espalhados pelas cidades. A principal preocupação era a manutenção da ordem, que, de quando em quando era afetada pelos conflitos entre as autoridades locais e os cristãos, entre estes e outras religiões ou entre os próprios cristãos. Como normalmente não participavam dos cultos públicos ligados à Roma e ao Imperador, as autoridades romanas normalmente tomavam partido contra os cristãos. E no reinado de Marco Aurélio não foi diferente.

Assim, o retrato de Marco Aurélio que sobreviveu para a posteridade foi a de um genuíno imperador-filósofo, como preconizado por Platão, no livro VI da “República“.

 

 

 

 

 

GRACIANO

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Em 18 de abril de 359 D.C., nasce, em Sirmium,  capital da província romana da Panônia, cerca de 55 km da atual Belgrado, Sérvia, Flavius Gratianus (Graciano), filho do general Flávio Valentiniano e da esposa dele, Marina Severa. Graciano recebeu este nome em homenagem ao avô, Graciano, o Velho, também natural da Panônia, que, depois de ganhar a vida como vendedor ou fabricante de cordas, entrou no Exército Romano, na unidade de elite dos “Protectores domesticus” e chegou ao posto de general e governador da África e da Britânia.

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Quando Graciano tinha cinco anos, em 364 D.C., o pai dele foi aclamado imperador romano, tornando-se Valentiniano I,  considerado o último grande Imperador Romano do Ocidente.

Já em 366 D.C., Graciano, ainda uma criança pequena, foi nomeado Cônsul. E, no ano seguinte, enquanto Valentiniano I encontrava-se em campanha contra os bárbaros Alamanos, na Gália e ficou seriamente doente, Graciano foi nomeado “Augusto”, tornando-se, portanto, formalmente, coimperador junto com o pai.

O motivo da nomeação de Graciano foi o fato de que, percebendo o estado de saúde grave de Valentiniano I, cortesãos começaram um movimento para nomear o ministro Rusticus Julianus como sucessor, enquanto que, no exército, os militares apoiavam o general Severus. Desse modo, ao nomear precocemente o filho como Augusto, Valentiniano I tentou garantir o trono para a sua descendência.

Porém, tanto os ministros da Corte como o Exército tinham lá seus motivos para apoiarem outros candidatos ao trono pois, mesmo sendo uma criança, Graciano não demonstrava nenhum pendor para os assuntos militares, preferindo se dedicar à Retórica e à Literatura. Consta, inclusive, segundo o historiador Amiano Marcelino,  que Valentiniano chegou a ter que mencionar expressamente, em discursos às tropas, que Graciano, apesar de não ser muito afeto às artes militares, seria um governante justo e capaz, e que ele, com o tempo,  iria se tornar um bom comandante .

Não obstante, a educação de Graciano ficara a cargo de Ausonius, um famoso poeta e professor de Retórica de origem galo-romana.

Por volta do ano de 370 D.C., Valentiniano I se divorciou da mãe de GracianoMartina Severa e se casou com Justina. Há uma versão tardia, do historiador Sócrates de Constantinopla, de que Valentiniano na verdade passou a ter duas esposas, desejo que teria motivado inclusive a edição de uma lei autorizando a bigamia, embora isto seja altamente improvável e não se tenha preservado nenhuma legislação relativa a isso.

Na verdade, é provável que Sócrates estivesse fazendo alusão a algum decreto de Valentiniano autorizando o divórcio, expressamente proibido pela Igreja Católica, que já dominava a Corte Imperial. Como o casamento era e até hoje continua sendo, indissolúvel para a Igreja, o casamento de um divorciado poderia muito bem ser equiparado à bigamia.

De qualquer forma, é interessante transcrever essa passagem um tanto picante, relativa à relação entre a mãe e a madrasta de Graciano,  e, ainda, à suposta lei de Valentiniano I, por Sócrates de Constantinopla:

Justina  tendo,  assim, perdido o pai, ainda continuava virgem. Tempos depois ela conheceu Severa, esposa do imperador Valentiniano, e conversava frequentemente com a imperatriz, até que a intimidade delas chegou a tal ponto que elas costumavam tomar banho juntas. Quando Severa viu Justina tomando banho ela ficou bastante impressionada com a beleza da virgem, e falou dela para o imperador, dizendo que a filha de Justus era uma criatura tão adorável e possuía tal simetria de formas que ela mesma, embora fosse uma mulher, estava completamente encantada com ela. O imperador, guardando aquela descrição pela esposa em sua própria mente, pensou consigo mesmo como ele poderia casar com Justina, sem repudiar Severa, já que ela tinha lhe gerado Graciano, a quem ele tinha nomeado Augusto pouco tempo antes. Ele por conseguinte editou uma lei, e a fez publicar por todas as cidades, pela qual seria permitido a qualquer homem ter duas esposas legítimas“.

Graciano foi nomeado Cônsul pela segunda vez em 371 D.C. e, novamente, em 374 D.C.

Também em 374 D.C., Graciano casou-se com Flavia Maxima Constantia, filha do imperador do imperador Constâncio II, falecido em 361 D.C.

Em 17 de novembro de 375 D.C., Valentiniano I morreu, provavelmente de um derrame, durante um ataque de fúria causado pelo comportamento insolente de emissários bárbaros contra os quais ele se encontrava em campanha.

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Graciano se encontrava em Trier, na fronteira com a Germânia e esperava-se que a sucessão fosse tranquila. Porém, o general Merobaudes, o Comandante da Infantaria de origem franca, alegou que as tropas  apoiavam a nomeação do irmão mais novo de Graciano, Flávio Valentiniano, de apenas quatro anos de idade, como imperador. Graciano, por sua vez, tinha dezesseis anos quando o seu pai morreu.

As fontes divergem sobre a reação de Graciano. Para Sócrates de Constantinopla, Graciano ficou furioso, já para Amiano Marcelino, uma fonte mais confiável, ele aceitou de bom grado a exigência das tropas. Seja como for, o fato é que Graciano teve que aceitar dividir o trono com o irmão mais novo, que foi coroado como Valentiniano II e passou a reinar sobra as províncias da Gália, da Hispânia e da Britânia, enquanto Graciano governaria a Ilíria, a África e a Itália.

O principal problema enfrentado por Graciano foram os crescentes ataques dos Alamanos, que devem ter se sentido incentivados pela morte de Valentiniano I, reconhecidamente um imperador enérgico e um competente comandante militar.

Em maio de 378 D.C., o exército comandado pelo general Mallobaudes, outro franco à serviço de Roma, derrotou os Lentienses,  bárbaros germânicos que constituíam um ramo meridional dos Alamanos, na Batalha de Argentovaria, proximo à atual cidade de Colmar, na Alsácia. Cerca de trinta mil bárbaros foram dizimados. Graciano, depois disso, sentiu-se encorajado a liderar a fase final da campanha contra os Lentienses e recebeu a rendição daqueles que tinham sobrevivido à derrota anterior. Essa seria a última vez que os romanos levariam uma campanha além da linha de fortificações do Reno/Danúbio (limes germanicus). Em razão disso, Graciano recebeu o título de Alemannicus Maximus.

Porém, cerca de três meses depois, o colega de Graciano no Oriente, o Imperador Romano do Oriente, seu tio Valente, seria morto na desastrosa Batalha de Adrianópolis, ocorrida em 9 de agosto de 378 D.C.

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Os Godos tinham migrado para a fronteira do Império Romano no Danúbio, dentro de um quadro migratório mais amplo de povos germânicos, entre outros motivos, pela pressão dos Hunos, e, em 376 D.C., duzentos mil Godos foram autorizados a atravessar a fronteira, porém, logo em seguida eles se revoltaram na Trácia. Graciano,em resposta a um pedido de auxílio de seu colega Valente,  chegou a enviar algumas unidades estacionadas na Panônia, sob o comando do dux Frigeridus e outras, da Gália, sob o comando do Comes Richomeres, mas o general Merobaudes, desobedecendo ao imperador, as reteve para a defesa da fronteira do Reno contra os Alamanos.

Sabedor da urgência que a rebelião dos Godos na Trácia representava, Graciano, que, antes de ter que lidar com os Alamanos, já estava marchando para a região, enviou emissários ao imperador Valente pedindo que aguardasse a sua chegada, quando então os exércitos do Ocidente e do Oriente, combinados, poderiam liquidar os bárbaros.

Porém, Valente, ciumento do prestígio que Graciano recém-conquistara contra os Alamanos, resolveu atacar os Godos sozinho. Eles eram um adversário formidável, e, liderados pelo hábil chefe Fritigern conseguiram derrotar Valente, que perdeu a vida na Batalha de Adrianópolis, perecendo junto com dois terços do seu exército, sendo as perdas romanas estimadas em 40 mil soldados.

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Agora Graciano, após a morte do tio,  aos dezenove anos, tornara-se, de direito, o único imperador das duas metades do Império Romano. Entretanto, segundo as fontes, percebendo que a situação depois de Adrianópolis era grave demais para que ele desse conta,  Graciano não hesitou um momento em nomear um sucessor para Valente, escolhendo, em 19 de janeiro de 379 D.C.,  o general Teodósio, um militar de prestígio que fora afastado por Valentiniano I e se retirado da vida pública para suas propriedades na Espanha, e tinha sido convocado após Adrianópolis para assumir o comando do Exército oriental.

Provavelmente, assim como ocorrera com a nomeação de Valentiniano II, a designação de Teodósio deve ter sido uma imposição dos comandantes do Exército Romano a Graciano.

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As duas derrotas fragorosas sofridas pelo exército oriental entre 361 e 378 D.C., na Pérsia e em Adrianópolis, e a incessante luta contra os bárbaros germânicos no Ocidente parece que drenaram a maior parte do efetivo militar recrutado entre os cidadãos romanos natos.

Com efeito, a reiterada presença de nomes de oficiais germânicos, mencionados nas fontes sobre os reinados de Juliano e Valentiniano, mostra que o emprego de contingentes de origem germânica já estava se generalizando antes do reinado de Graciano. O próprio Valentiniano já tinha sido obrigado a reduzir a altura mínima exigida para os soldados, como modo de aumentar a massa recrutável. Esse era um problema que, além das perdas sofridas em batalhas, tinha também causas sócio-econômicas, como o aumento do instituto do colonato entre os agricultores livres (que alguns consideram precursor da servidão medieval), cada vez mais concentrados nos latifúndios da aristocracia senatorial (que normalmente conseguia eximir do recrutamento os seus trabalhadores colonos), além de um declínio populacional que transparece em diversas leis promulgadas pelos imperadores.

Teodósio e Graciano tentaram aplicar com rigor as leis que tratavam da conscrição de recrutas entre os cidadãos romanos e até conseguiram alistar filhos de veteranos, mas claramente o número foi insuficiente. Valendo-se largamente de bárbaros germânicos recrutados mediante termos generosos, o que acabou comprometendo a disciplina do Exército, Teodósio, entre 379 e 382 D.C., conseguiu conter os Godos, ainda que sem obter nenhuma vitória decisiva, assinando com eles um tratado de paz em 3 de outubro de 382 D.C., no qual os Godos eram reconhecidos como “Federados” (Foederati), nominalmente sob a autoridade do Imperador e obrigados a fornecer tropas quando requisitados, todavia, sendo-lhes granjeado o direito de se estabelecer em território romano , um fato inédito na História de Roma e que teria consequências funestas em um futuro próximo.

Enquanto isso, Graciano parecia justificar as dúvidas sobre a sua falta de pendor para os assuntos militares. Sob a influência de Ausônio, os retóricos e gramáticos de ascendência galo-romana passaram a dominar a Corte. Em 381 D.C., Graciano resolveu mudar a sua capital de Trier, onde ficara para supervisionar a defesa do Reno, para Milão, em uma demonstração tácita de que sua atenção agora voltava-se para  outros assuntos e, de fato, Amiano Marcelino relata que o imperador, que era um tipo atlético, chegou a dedicar-se a provas de habilidade na arena, emulando o malsinado imperador Cômodo.

Em Milão, Graciano também  ficou sob a influência do enérgico e carismático Bispo da cidade, Ambrósio (Santo Ambrósio) e tornou-se um fervoroso patrono da ortodoxia cristã na forma do Credo Niceno. Essa influência foi decisiva para que Graciano abandonasse a prudente política de tolerância imperial ao Paganismo e aos demais credos cristãos concorrentes adotada sobretudo por seu pai, Valentiniano I.

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Tudo o que o Império Romano mais precisava naquele momento era unidade e estabilidade internas para enfrentar a terrível ameaça representada pelos bárbaros, externa e internamente (Godos). No entanto, as perseguições religiosas teriam como efeito a alienação de uma boa parte da aristocracia senatorial do Ocidente, degenerando na escolha de um usurpador pagão, guerra civil, ausência de cooperação entre as Cortes de Constantinopla e Milão, tumultos e massacres e até mesmo impossibilidade de composição com bárbaros germânicos que professavam o Arianismo, considerado uma heresia cristã, em alguma ocasiões cruciais.

Seguindo essa política de intolerância, Graciano, em 382 D.C, atendendo aos apelos de Santo Ambrósio, determinou a remoção do Altar da Vitória da Cúria do Senado no Fórum Romano, além de retirar os subsídios estatais para os cultos pagãos. Os senadores pagãos chegaram a protestar, lembrando que Graciano, na condição de Pontifex Maximus, era o chefe da tradicional religião pagã. Em resposta, Graciano renunciou ao título e devolveu os robes e insígnias cerimoniais ligados aos cultos pagãos.

Graciano também conseguiu irritar os comandantes e tropas do Exército Romano que tinham sobrevivido ao influxo de tropas bárbaras ao escolher como guarda-costas um contingente de bárbaros Alanos e, ainda, ao aparecer em público vestido como um guerreiro godo.

Assim, no início de 383 D.C., quando Graciano teve que se deslocar para a Gália para combater uma nova incursão dos Alamanos,  o Governador militar da Britânia, o general Magnus Maximus (Máximo) , um nativo da província da Espanha, aproveitou o sentimento de insatisfação das tropas para se autoproclamar imperador e invadir a Gália.

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O imperador Graciano encontrava-se em Paris e, quando as tropas de Máximo aproximaram-se da cidade, após breves escaramuças, as tropas dele desertaram, deixando o imperador sozinho. Graciano, então, fugiu para Lugdunum (Lyon). Porém, o governador da cidade o entregou ao general Andragathius, um dos comandantes de Máximo.

Em 25 de agosto de 383 D.C., Graciano foi assassinado por ordens de Andragathius. Ele tinha 24 anos de idade.

CONCLUSÃO

Talvez, se Graciano fosse melhor dotado de astúcia e determinação, ele poderia ter sido um imperador melhor, mas ele teve o azar de ser coroado muito jovem. A maior parte das vicissitudes que o Império enfrentou durante o seu reinado não podem lhe ser atribuídas e antecederam o seu reinado, salvo a intolerância religiosa e a preferência pelas tropas bárbaras, sendo que esse último problema praticamente lhe foi imposto pelas circunstâncias.

TEODÓSIO II

TEODÓSIO II

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(Cabeça de Teodósio II, foto de Marie-Lan Nguyen)

 

Em 10 de abril de 401 D.C., nasce Flavius Theodosius Junior (Teodósio II), em Constantinopla , filho do Imperador Romano do Oriente Arcádio, e neto de Teodósio, o Grande, o último imperador a reinar sobre as duas metades do Império Romano. A mãe de Teodósio II, Aelia Eudoxia (Eudóxia), era filha de Flávio Bauto, um general franco assimilado à serviço de Roma, que chegou ao posto máximo de Magister Militum (Comandante do Exército), durante o reinado do imperador Graciano, e foi Cônsul em 385 D.C.

A ancestralidade germânica  por parte de mãe  parece que não retirou o “pedigree” dinástico de Teodósio II como descendente de Teodósio, o Grande, apesar de Eudóxia ter sido rotulada como possuindo “um grau não desprezível de arrogância bárbara” pelo historiador eclesiástico Philostorgius.

Antes mesmo de completar um ano de idade, Teodósio II foi nomeado Augusto, e, portanto, formalmente, co-imperador, por seu pai Arcádio, em 402 D.C, sendo, assim, o imperador mais jovem de toda a História do Império Romano.

Em 1º de maio de 408 D.C, o imperador Arcádio morreu e Teodósio II foi reconhecido como Imperador Romano do Oriente, tendo apenas sete anos de idade. Assim, quem exerceu de fato o poder na qualidade de regente foi o Prefeito Pretoriano Antêmio, que foi o responsável pela construção da grande obra que marcaria o reinado de Teodósio: as espetaculares Muralhas Teodosianas de Constantinopla, completadas em 413 D.C , as quais garantiriam a sobrevivência do Império Romano do Oriente por mais de mil anos, até serem penetradas pelos turcos otomanos, em 1453 D.C. Pouco depois, Antêmio não seria mais mencionado nas fontes, não se sabendo se morreu de causas naturais, demitido ou executado.

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Enquanto isso, Teodósio II recebia esmerada educação em grego e latim, além de aulas de Gramática e Retórica, e treinamento em equitação, esgrima e arco e flecha.

Durante o início do reinado de Teodósio II, contudo, aprofundou-se a divisão e a rivalidade entre as duas metades do Império Romano, ou, para sermos mais precisos, entre a Corte de Constantinopla e a aristocracia senatorial da velha Roma, concentrada no Senado Romano. Antêmio favorecia uma política anti-germâmica e de intervenção nos assuntos do Ocidente, e por isso, entrava frequentemente  em choque com sua contra-parte na corte ocidental, o general Estilicão, que, por sua vez, exercia o poder de fato por trás do Imperador Honório, irmão de Arcádio.

Entretanto, após a execução de Estilicão, em 408 D.C., o qual teve seu prestígio solapado junto a Honório devido à grande invasão bárbara que atravessou o Reno em 406 D.C. e pelo insucesso dele em lidar com os Godos alojados no interior do Império, houve, enfim, uma aproximação entre Constantinopla e Ravenna.

Em 414 D.C, Pulquéria, a irmã mais velha de Teodósio II, foi proclamada “Augusta” e assumiu a regência do Império do Oriente, bem como a tutela e criação do imperador, que estava ainda em sua pré-adolescência. Cristã devota, Pulquéria tomou voto de castidade perpétua e tal condição, provavelmente fruto de um cálculo político, assegurou-lhe uma autoridade moral para adotar uma política de promoção da ortodoxia católica, a qual resultou também na perseguição do paganismo, das heresias cristãs e do judaísmo, degenerando no brutal assassinato da filósofa pagã Hypathia, em Alexandria.

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(Estudiosos acreditam que o relevo de marfim representa Teodósio II e Pulquéria em procissão trazendo relíquias para Constantinopla)

Graças à intervenção de Pulquéria, Teodósio II conheceu a jovem grega Athenais, uma brilhante filha de um filósofo de Atenas, originalmente pagã, que se tornaria a sua esposa, adotando como imperatriz  o nome de Eudocia. Não obstante, Eudocia se tornaria no futuro a grande rival de Pulquéria e ambas disputariam o posto de maior influência sobre Teodósio II. O casal imperial teve três filhos, porém somente a mais velha, Licínia Eudocia, chegaria à idade adulta e se casaria com os imperadores romanos do Ocidente, Valentiniano III e Petrônio Máximo.

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(Eudócia é retratada neste mosaico do séc. XIX, em Sófia, Bulgária)

No plano externo, o reinado de Teodósio II caracterizou-se pela tentativa de conter as ameaças representadas pelo Império Persa e pelos Hunos. Com os Sassânidas, o Império Romano, após uma guerra inconclusiva, conseguiu celebrar um tratado de paz duradouro, que ficaria conhecido como a “Paz dos Cem Anos“.

Durante seu reinado, Teodósio II também procurou auxiliar militarmente o Império do Ocidente contra os Vândalos, infelizmente, sem sucesso

Tentou-se uma política de apaziguamento dos Hunos mediante o pagamento de tributos, com sucesso limitado, já que periodicamente os bárbaros exigiam o aumento do valor, que começou em 350 libras de ouro, aumentou para 700 libras com a ascensão de Átila e Bleda, em 433 D.C e passou para 2.100 libras, em 443 D.C., após os Hunos derrotarem dois exércitos romanos. Mesmo assim, em 447 D.C., os Hunos devastariam os Bálcãs e chegariam aos subúrbios de Constantinopla.

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Relativamente às relações com o Império do Ocidente, Teodósio II apoiou seu tio Honório e defendeu a causa do sucessor deste, seu primo Valentiniano II, chegando a abrigá-lo, acompanhado de sua mãe Gala Placídia, em Constantinopla , e depois ajudando-os a reinstalá-los em Ravena, com o auxílio de um pequeno exército oriental.

.Em 425 D.C., Teodósio II fundou o Pandidakterion, que mais tarde seria considerada como a “Universidade de Constantinopla,” uma precursora das universidades medievais europeias, situada na Magna Aula do Palácio (Magnaura).

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(Reconstituição da Magnaura, em Constantinopla, onde ficava o Pandidakterion – © Byzantium 1200.)

O outro grande legado de Teodósio II, além das Muralhas de Constantinopla e da Universidade, foi o seu “Código Teodosiano“, uma grande compilação e sistematização do Direito Romano produzido até então e que, cem anos mais tarde, seria a base para o “Código de Justiniano”, contribuindo, assim, para a preservação da herança jurídica romana até os nossos dias. Os trabalhos foram iniciados por ordem de Teodósio II em 429 D.C. e, após muitos anos de trabalhos e a nomeação de duas comissões de juristas, o Código foi promulgado em 438 D.C.

Em tempos mais amenos, Teodósio II poderia ter sido um bom imperador, mas a época demandava um governante mais enérgico e determinado e com aptidões e meios militares dos quais ele não dispunha.

Em 28 de julho de 450 D.C, Teodósio II sofreu uma queda de cavalo enquanto caçava. Ele foi levado para Constantinopla, mas não resistiu e morreu naquele mesmo dia. Segundo a versão oficial, ele teria indicado o general Marciano como seu sucessor, já que não tinha mais nenhum filho do sexo masculino. Na verdade, o nome de Marciano foi imposto pelo marechal Áspar, um militar de origem bárbara (Alano-Gótica) que era o comandante-em-chefe do Exército e homem forte do Império Romano do Oriente, desde meados da década de 20 do século V D.C.

Trinta dias após a morte de Teodósio II, Marciano foi reconhecido como imperador e se casou com Pulquéria, que, contudo, manteve o seu voto de castidade.

BATALHA DE POLLENTIA

 

Em 6 de abril de 402 D.C, em Pollentia, próximo à atual Asti, no norte da Itália, o exército visigodo do rei Alarico celebrava o domingo de Páscoa.  Os Visigodos eram cristãos que professavam a “heresia” ariana,  e, por conta disso, eles fizeram uma pausa na luta contra o exército romano do general Stilicho (Estilicão), para festejar o dia santo, e, certamente, acreditaram que os romanos fariam o mesmo…

Os Godos vinham sendo um espinho na carne do Império desde 378 D.C, quando, em uma das maiores catástrofes militares sofridas pelos romanos, um exército de cerca de 20 mil Godos, liderados pelo Chefe Fritigern, de um total de 200 mil que tinham cruzado o Danúbio e se refugiado no Império Romano do Oriente,entrincheiraram-se próximo à cidade de Adrianópolis e derrotaram o exército romano comandado pelo imperador Valente,  matando cerca de 40 mil soldados romanos, na chamada Batalha de Adrianópolis, incluindo o próprio imperador.

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A horda goda vagou pela Trácia e outras províncias orientais causando muito estrago, mas acabou sendo contida pelo imperador Teodósio I, que com eles celebrou um tratado de paz, em 382 D.C. Pela primeira vez, na História de Roma, um povo bárbaro inteiro foi admitido como foederati (aliados) dentro das fronteiras do Império Romano. Embora os Visigodos estivessem formalmente obrigados a prestar serviço militar à Roma, eles podiam fazê-lo sob o comando de seus próprios chefes. Os Godos, então, receberam autorização para se assentar na província da Mésia.

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Teodósio, dessa forma,  conseguira o seu objetivo de conter a ameaça goda, pois, durante o resto do seu reinado, os Godos respeitaram o tratado. Assim, quando, no final de seu reinado, em 394 D.C, na Batalha do Rio Frígido, Teodósio teve que combater o usurpador Eugênio, que havia sido colocado no trono como fantoche pelo general de origem franca Arbogaste, vinte mil visigodos combateram ao lado de Teodósio, e foram eles quem suportaram o maior castigo.

As derrotas militares sofridas na Pérsia, em 363 D.C, e nos confrontos com os Godos em Adrianópolis, em 378 D.C e no período logo a seguir, tinham destroçado boa parte do efetivo militar romano, e Teodósio preferiu, ou foi forçado pelas circunstâncias, a recrutar bárbaros para completar as fileiras desfalcadas do Exército.

Entretanto, logo após a Batalha do Rio Frígido, Teodósio morreu, deixando como sucessores, seus filhos Honório, na metade ocidental do Império, cuja capital era Milão, e Arcádio, na metade oriental, cuja capital era Constantinopla.

Os dois novos imperadores eram ainda crianças, e assim, Honório teve como tutor e virtual regente do Império do Ocidente o general Flávio Estilicão, filho de pai Vândalo e de mãe romana; já Arcádio, naquele momento, era controlado pelo ministro Rufino.

 

Com a morte de Teodósio, os Visigodos sentiram-se estimulados a exigir grandes recompensas pelo sacrifício que tinham feito no Rio Frígido. Seu rei agora era o astuto e competente Alarico, que ambicionava nada menos do que o cargo de Magister Militum per Illyricum, ou seja, marechal do exército da Ilíria, o que obteve após devastar a província da Grécia.

Alarico aproveitou o cargo, que lhe dava acesso aos arsenais romanos, para equipar o seu exército e saquear até a exaustão, durante cerca de cinco anos, as províncias da Dácia e da Macedônia.

Procurando novas regiões que oferecessem a perspectiva de mais e polpudos saques, mas, considerando que a capital do Oriente, Constantinopla, era inexpugnável para os bárbaros, Alarico voltou sua atenção para o Ocidente e dirigiu-se para a capital Milão.

A corte de Honório, julgando Milão vulnerável, resolveu se mudar para Arles, na Gália, contudo Alarico mandou ocupar os passos alpinos com sua cavalaria e ao mesmo tempo cercou Milão, obrigando Honório a se refugiar na cidade fortificada de Hasta (a moderna Asti, na Liguria).

Fazendo um movimento que denotava que ele visava capturar o próprio imperador, Alarico partiu para sitiar Hasta, iniciando o cerco em fevereiro de 402 D.C. Porém, mesmo após  terem se equipado com armas romanas, os visigodos ainda não dominavam a arte da guerra de sítio e Honório tinha uma boa expectativa de que os bárbaros suspenderiam o cerco devido à fome ou doenças.

O general Estilicão, enquanto isso, estava ocupado com a luta contra incursões bárbaras dos Vândalos e dos Alanos nas fronteiras da província da Récia. Quando a notícia do cerco chegou ao seu conhecimento, Estilicão conseguiu reunir tropas romanas do Reno e da Britânia e também recrutou os próprios guerreiros alanos e vândalos que ele estava combatendo, para vir em socorro do Imperador.

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Assim, quando Estilicão e seus homens chegaram, os Visigodos foram forçados a recuar para Pollentia (Polenza),

Estilicão chegou a Pollentia no dia 06 de abril e hesitou em lutar no domingo de páscoa, um dia sagrado para os soldados cristãos. Porém os homens, especialmente os aliados alanos, queriam lutar imediatamente e Estilicão resolveu aproveitar o élan deles para fazer um ataque da cavalaria alana sobre os desatentos visigodos.

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O ataque foi repelido, mas Estilicão acudiu com a infantaria e os Alanos se reanimaram. Na confusão, os Visigodos acabaram deixando o seu acampamento exposto e Estilicão conseguiu capturar a esposa de Alarico e seus filhos. Todavia, as indisciplinadas e barbarizadas tropas que agora constituíam agora o exército romano, ao invés de perseguirem os Visigodos, entregaram-se a pilhagem do acampamento inimigo, que estava repleto do produto dos saques que aqueles bárbaros haviam feito desde Adrianópolis, mais de 20 anos antes.

Após a Batalha de Pollentia, Alarico reagrupou suas forças e recuou para Verona, onde, em junho de 402 D.C, seria novamente derrotado, porém, mais uma vez, Estilicão falharia em destruir o rei visigodo e seu exército. Ele seria criticado duramente pelos historiadores por ter deixado Alarico escapar e, em vista disso, até a sua lealdade ao Império Romano seria questionada, o que parece duvidoso considerando toda a sua trajetória. Ele, por exemplo, não resistiu quando, anos mais tarde, foi preso em um motim fomentado por seus adversários na Corte e aceitou resignadamente a sua sentença de morte, executada em 22 de agosto de 408 D.C.

A principal consequência dos eventos narrados foi a mudança da capital do Império Romano do Ocidente de Milão para Ravenna, fato que facilitaria o posterior saque de Roma, em 410 D.C, por Alarico e seus visigodos. Essa mudança, segundo muitos historiadores, foi uma decisão errada, pois ocorreu em detrimento da defesa da fronteira do Reno, o que expôs a Gália, a maior e mais rica província do Ocidente, a mais ataques dos bárbaros. Para Arther Ferril (“A Queda do Império Romano, a Explicação Militar”), naquele momento, para o Império Romano do Ocidente o mais importante estrategicamente era a defesa da Gália, o que recomendaria até a instalação da capital em Arles).

SANTO AMBRÓSIO – UM BISPO TÃO PODEROSO QUANTO OS IMPERADORES

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Em 4 de abril de 397 D.C, morre, em Milão, cidade que então era a capital do Império Romano do Ocidente, Aurelius Ambrosius, mais conhecido como Santo Ambrósio.

Nascido por volta do ano 340 D.C, na cidade de Augusta Treverorum (atual Trier, na província da Germânia), Ambrósio era filho do Prefeito Pretoriano da Gália, que também se chamava Aurelius Ambrosius. A mãe de Ambrósio era uma cristã devota, e assim, ele e seus irmãos, Satyro e Marcellina, foram criados como cristãos (Posteriormente, os dois últimos também seriam venerados como santos católicos).

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(Porta Nigra, em Trier, portão das muralhas romanas da cidade onde Ambrósio nasceu)

Graças à posição de seu pai, Ambrósio recebeu uma esmerada educação em Roma,  sendo versado em latim, grego, filosofia e direito, e, concluídos os seus estudos, ele seguiu a carreira pública, chegando a ser nomeado governador da Ligúria-Emília, região onde ficava a cidade de MIlão, em 372 D.C.

Em 374 D.C, Ambrósio foi escolhido para ser o Bispo de Milão, por aclamação dos fiéis, embora ele não fosse ainda batizado (era então costume dos cristãos leigos se batizar apenas no fim da vida, mas para os bispos isso era requerido) e, muito menos, ordenado. Apesar de inicialmente recusar a escolha da comunidade, Ambrósio acabou cedendo e, em uma semana, ele foi batizado, ordenado padre e nomeado Bispo!

A Sé de Milão vivia uma disputa entre os devotos que esposavam o Credo Niceno, estabelecido no Concílio de Nicéia, e os que seguiam a doutrina do Bispo Ário, chamados de “Arianos” (nada a ver com o suposto grupo étnico).

Ambrósio uniu a experiência administrativa civil no serviço público, que ele tinha adquirido no cargo de governador, a uma grande eloquência e força de caráter, e, por isso, ele logo atraiu uma enorme legião de seguidores entre os fiéis. Os seus sermões eram famosos e faziam encher a catedral de Milão com uma multidão. Foi durante uma dessas homilias de Ambrósio que um jovem inseguro e  indeciso em sua fé tornou-se um fervoroso convertido: era o futuro Santo Agostinho, que seria batizado por Ambrósio, em 387 D.C.

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(Santo Agostinho, seu retrato mais antigo, do séc. V,  existente na Basílica Laterana, em Roma).

Em 380 D.C., os imperadores Teodósio I, Graciano e Valentiniano II publicaram o Édito de Tessalônica, tornando o Cristianismo a religião oficial do Império Romano.

No Concílio de Aquiléia, em 381 D.C, Ambrósio destituiu os bispos arianos, apesar dos mesmos terem o apoio do imperador Valentiniano II, o colega do imperador Graciano no Ocidente.

Mais tarde, quando o imperador cristão Graciano, em 382 D.C, ordenou a retirada do venerável Altar da Vitória, o santuário com a estátua dourada da deusa que, havia séculos, ficava na Cúria do Senado em Roma. Ambrósio foi o principal responsável por  impedir que esse altar fosse restaurado, apesar dos insistentes pedidos da influente facção de senadores pagãos.

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Interior da Cúria Júlia, sede do Senado Romano. O Altar da Vitória provavelmente ficava no fundo do edifício, no centro, onde está a base de mármore).

Outro episódio em que  Ambrósio teve destacada atuação na defesa da ortodoxia católica, ocorreu quando a imperatriz Justina, mãe de Valentiniano II, exigiu que a Basílica Portia, na cidade de Milão, fosse destinada ao culto dos cristãos arianos. Nessa ocasião, Ambrósio colocou barricadas em torno da mesma e encheu-a de partidários da ortodoxia nicena preparados para resistir, o que acabou levando a imperatriz a desistir do seu intento, em 386 D.C

Em 390 D.C., o imperador do Oriente, Teodósio I, massacrou 7 mil pessoas em Tessalônica, ordenando brutal represália a uma revolta contra a guarnição de Godos estacionada na cidade. Considerando a ação um grave pecado, Ambrósio excomungou o imperador, que, depois de alguns meses, foi obrigado a fazer uma penitência pública, somente após a qual Ambrósio admitiu que Teodósio pudesse comungar. Esse gesto foi um precursor de uma tendência que se repetiria algumas vezes na Idade Média – o reconhecimento da supremacia do poder espiritual, detido pelo clero, sobre o poder temporal . Após este episódio, Teodósio tornou-se muito mais intolerante com o paganismo, proibindo, em 393 D.C, a celebração de qualquer ritual pagão, incluindo a proibição tácita da realização dos Jogos Olímpicos.

Assim,  Santo Ambrósio foi uma figura fundamental para que o cristianismo se tornasse a religião oficial do Império Romano, sob a direção da Igreja Católica, o que teria influência duradoura na História do Mundo.

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(Foto: Corpo de Santo Ambrósio, preservado ao lado de dois outros mártires, na Catedral de Milão)

ABRIL – O MUNDO SE ABRE

April

No antigo calendário romanoABRIL era o segundo mês do ano. Mas posteriormente, ainda durante a República, o mês passou a ocupar a  mesma posição no calendário que ocupa hoje. Porém, o trigésimo dia do mês de abril somente foi adicionado com a reforma do calendário determinada  pelo Ditador Caio Júlio César, que por isso recebeu o nome de “Calendário Juliano” e foi utilizado no Ocidente até o século XVI.

Abril, ou Aprilis, vem do latim “aperio”, aperire“, do verbo latino que signfica “abrir“. Nos  Fasti Praenestini, um antigo calendário romano que sobreviveu em fragmentos até os nossos dias, é mencionado que no mês de abril “abrem-se as flores, os frutos e   os animais e  os mares e as terras”.

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(Os “Fasti Praenestini, foto de Marie-Lan Nguyen)

Entre os muitos festivais romanos  ancestrais celebrados no mês de abril, destacam-se a Fordicidia, um festival de fertilidade agrícola e criação de animais domesticados, celebrado no dia 15, a Parilia, uma festa dos pastores, no dia 21, a Vinalia,  no dia 23, um dos dois festivais do vinho celebrados no ano (o outro era em agosto) e a Robigalia, no dia 25, uma festa para proteger as colheitas das pragas. Além destes, do dia 4 ao dia 9 eram celebrados os Ludi Megalenses, em homenagem à Grande Mãe Cibele, uma divindade importada de Pessinus, na Frígia.

Na segunda metade do mês, em data incerta, era celebrada a Cerealia, em homenagem à Ceres, a deusa da agricultura e das colheitas. E no dia 27 ( e depois, no dia 28, já no Calendário Juliano) era celebrada a Floralia, em homenagem à deusa Flora, a deusa das flores.

Uma importante data que passou a ser comemorada a partir do reinado do imperador Cláudio foi a fundação de Roma (Roma Condita), no dia 21 de abril.

Nas calendas de abril (dia 1º),  ocorreu um fato marcante na História de Roma: o imperador Maximiano foi nomeado Augusto, e, na prática, Imperador Romano do Ocidente, pelo imperador Diocleciano.