OVÍDIO – O POETA SEDUTOR

#Ovídio

Em 20 de março de 43 A.C, nasce, na cidade de Sulmo (atual Sulmona, na região de Abruzzo, Itália), Publius Ovidius Naso (Ovídio), no seio de uma próspera família da classe Equestre.

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(Estátua de Ovídio, em Sulmona)

O pai de Ovídio queria que ele seguisse a carreira jurídica, o que lhe poderia abrir as portas para importantes cargos públicos. Por isso, Ovídio foi para Roma estudar Retórica com o famoso orador Aurellius Fuscus, que, dentre outros, foi professor de Plínio, o Velho.  Mas, como ele nos conta em seu poema que seria escrito no exílio, “Tristeza” (Tristia), desde jovem o que lhe encantava mesmo era fazer versos (Deixo aqui o link para a tradução, em inglês, do poema, no livro em que Ovídio conta a sua biografia, vide https://www.poetryintranslation.com/PITBR/Latin/OvidTristiaBkFour.php)

Após a morte do seu irmão, que tinha apenas 20 anos de idade, o abalado Ovídio viajou para Atenas e algumas cidades gregas da Ásia Menor, passando algum tempo também em uma região italiana de cultura grega, a Sicília, em um périplo comum aos jovens romanos que pretendiam fazer uma espécie de pós-graduação em Retórica e Oratória.

De volta a Roma, Ovídio chegou a exercer cargos de juiz nos tribunais de Centúnviros e Decênviros, que julgavam causas cíveis e criminais. Assim, em tese, Ovídio tinha abertas diante de si a possibilidade de, no futuro, aspirar entrar no Cursus Honorum, que dava acesso às magistraturas maiores, tais como Edil, Questor, Pretor e Cônsul.

Todavia, por volta do ano de 23 A.C., Ovídio decidiu largar a magistratura e se dedicar à poesia, decisão que, evidentemente, deve ter desagradado muito o seu pai. Por essa época, ele já tinha feito sua primeira récita em público e ingressado no círculo literário patrocinado por Marcus Valerius Messalla Corvinus, um general e aristocrata ilustre, que foi Cônsul Suffectus no ano de 31 A.C. Isso permitiu a Ovídio conhecer e fazer amizade com os poetas  Propércio e Horácio, este já consagrado como um dos maiores poetas latinos e patrocinado por Mecenas.

O estilo poético que Ovídio escolheu foi a Elegia, caracterizada por hexâmetros seguidos por pentâmetros, mas com um toque de paródia do estilo convencional de outros poetas.

Sua primeira série de poesias conhecidas foram “os Amores“, poemas dedicados ao amor, dedicados a uma namorada, Corinna (que não é o nome verdadeiro dela) com inspiração erótica, como por exemplo, na Elegia I, 5:

Calor intenso, já passara o meio-dia;
Deitei-me ao leito, os membros repousando.
Em parte aberta, em parte cerrada a janela;
Luz como a que costumam ter os bosques,
qual reluz o crepúsculo, ausente já Febo,
quando a noite foge e o dia hesita.
Tal luz é a que convém às moças tímidas,
nela o pudor espera achar abrigo.
Eis que Corina vem, com a túnica entreaberta,
em desalinho a cabeleira sobre a nuca…

 

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A série de poemas chamada “A Arte de Amar” (Ars Amatoria) continha instruções de como encontrar, conquistar e manter um amor, tanto para os homens como para as mulheres, uma espécie de manual, sarcástico, irônico e cheio de alusões ao ato sexual, mas sem ser jamais pornográfico.

Entre os conselhos de Ovídio aos amantes do sexo masculino, destacam-se:

não esquecer o aniversário dela“, “deixá-la com saudade de você, mas não por muito tempo“, e “jamais perguntar a idade dela“. Lições, como se vê, ainda bem atuais…Já às mulheres, Ovídio aconselha: “maquiar-se, mas nunca na presença dele” e “experimentar os amantes jovens e os maduros“. Ele assim introduz o livro contendo os conselhos para o público feminino: “Eu acabei de armar os Gregos contra as Amazonas, agora, Pentesiléia (Obs: rainha das Amazonas), resta-me  armar-te contra os Gregos“.

 Logo no início, Ovídio dá algumas instruções para se escolher uma amante  bonita:

“Nós frequentemente perdemos a cabeça por uma linda garota em um jantar. Sem dúvida, Juntar amor e vinho é  como colocar combustível na fogueira. Não avalie uma mulher à luz dos candelabros, é enganoso! Se você realmente quiser saber qual a aparência dela, olhe-a de dia e quando estiver sóbrio! Foi ao ar livre, e durante um dia claro, que Páris viu as três deusas e disse para Vênus: “você é mais bonita do que suas duas rivais”. A noite cobre um sem-número de defeitos e imperfeições. À noite, não há mulher feia! Quando você quer ver pedras preciosas ou roupas coloridas, você as leva para a luz do sol, e é de dia que você deve julgar o rosto e a aparência de uma mulher“.

 Depois, o Poeta nos ensina a conservá-la:

Então, quem quer que você seja, não ponha muita confiança no enganoso charme da formosura. Cuide de possuir algo mais do que mera beleza física. O que funciona espantosamente com as mulheres é um jeito insinuante. Brusquidão e palavras rudes só promovem desaprovação. Nós odiamos o falcão porque ele passa a sua vida brigando; e nós odiamos o lobo que se lança sobre os tímidos rebanhos, mas o Homem não captura a andorinha porque ela é mansa e atura o pombo fazer sua casa nas torres que ele construiu. Longe toda discórdia e amargura na fala. Palavras suaves são o alimento do amor. É pelas discussões que a mulher estranha o marido e o marido a sua esposa. Eles imaginam que agindo dessa forma , eles estão pagando um ao outro em sua própria moeda.  Deixe isso para os casados. Brigas são o dote que os casados dão um ao outro. Mas uma amante deve ouvir apenas palavras agradáveis. Não foram as Leis que colocaram vocês na cama. A SUA lei, a LEI para você e para ela, é o Amor. Nunca a aborde senão com carinhos suaves e palavras que acariciem o ouvido dela, de modo que ela sempre se alegre com a sua chegada.

As festejadas “Metamorfoses” estão contidas em 15 livros e são um épico sobre o tema das transformações da mitologia greco-romana, da Criação à deificação de Júlio César.

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Outras obras do poeta são as “Cartas das Heroínas“, os “Remédios para o Amor” e “Calendários” e uma tragédia, Medéia, que infelizmente não chegou até os nossos dias, mas que foi muito apreciada na Antiguidade.

Nos “Remédios para o Amor“, Ovídio escreveu esse verso, em resposta aos seus críticos:

Exploda, Inveja voraz: o meu nome já é bem conhecido; E será ainda mais, se meus pés viajarem pela estrada que eles iniciaram; Mas você está muito apressada – se eu viver, você ficará mais do que arrependida: Muitos poemas, de fato, estão se formando na minha mente.”

Em 8 D.C.,  o imperador Augusto determinou que Ovídio fosse exilado para a longínqua cidade de Tomis, que os romanos recém tinham conquistado do reino trácio dos Odrísios. A cidade ficava onde hoje é a cidade de Constança, na Romênia.

 

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(Ruínas de Tomis, foto de Postoiu Roxana )

 

O motivo real do exílio de Ovídio não é conhecido, embora ele mencione que foi devido a um “carmen” (poema) e a um “error” (deslize ou engano), na sua obra “Tristeza” (Tristis), escrita em Tomis.

 

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Muitos estudiosos acreditam que a poesia de Ovídio estava em choque com a política moralizante de Augusto, que estabelecia penas severas para o crime de adultério.

Porém esses poemas foram escritos bem antes do seu banimento. Sabe-se, entretanto, que Júlia, a Jovem, neta de Augusto, foi exilada por  trair o seu marido com o senador Décimo Júnio Silano, também em 8 D.C, o  mesmo ano do exílio de Ovídio. O marido de Júlia foi executado por envolvimento em uma conspiração contra Augusto, em data indeterminada, mas que pode ter sido também em 8 D.C.. É possível que o poeta ou sua obra tenha de alguma forma se relacionado com este incidente, não sabemos.

No poema Tristeza, Ovídio lamenta o exílio distante, extravasando sua saudade da esposa e da pátria, e apela ao senso de justiça do imperador, sem sucesso. Ele morreria em Tomis, já no reinado do sucessor de Augusto, Tibério, em 17 ou 18 D.C., com aproximadamente 60 anos de idade. Ele teve uma filha que lhe deu dois netos.

 

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A BATALHA DE MUNDA

No dia 17 de março de 45 A.C, na planície de Munda, próximo ao atual vilarejo de Lantejuela, na Andaluzia, os exércitos liderados pelo Ditador de Roma, Caio  Júlio César, e pelos líderes da facção senatorial dos Optimates, Cneu Pompeu e Publius Attius Varus, bem como pelo general ex-partidário de César, Tito  Labieno, se enfrentaram em uma terrível batalha, que seria a última travada no contexto da Guerra Civil.

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Após a morte de Pompeu Magno, no Egito, os Optimates (os defensores dos privilégios da aristocracia senatorial )resolveram continuar a guerra contra César. Assim, eles conseguiram reunir, na África, um exército de 40 mil soldados liderado pelos velhos inimigos de César: Catão, o Jovem e Metelo Cipião, e pelo inimigo mais recente, Tito Labieno, que, surpreendentemente, abandonara seu antigo líder e se bandeara para o lado dos Optimates. Foram se juntar a eles,  na atual Tunísia, os dois filhos de Pompeu, Cneu Pompeu e Sexto Pompeu. E os adversários de César ainda contariam com a ajuda do rei Juba, da Numídia.

César deixou Roma e partiu para a África, conseguindo sitiar os Optimates na cidade de Tapsos.  Na batalha que se seguiu, em 06 de abril de 46 A.C, os Optimates foram derrotados e, em decorrência, Catão, o Jovem e Metelo Cipião cometeram suicídio.

Enquanto isso, Cneu e Sexto Pompeu conseguiram fugir para a Espanha, para onde também escapou Labieno. Na Espanha, os três conseguiram formar um novo exército, incluindo duas legiões que tinham desertado do exército de César e eram formadas por veteranos das campanhas de Pompeu Magno. Vários outros veteranos de Pompeu tinham sido assentados na Espanha e, demonstrando fidelidade a seu falecido comandante, juntaram-se aos Optimates. Com esse exército, totalizando treze legiões, eles tomaram boa parte da Espanha, forçando os dois comandantes das forças leias a César, Quintus Pedius e Quintus Fabius Maximus, a se refugiarem na cidade de Oculbo (distante cerca de 50 km da atual Córdoba). De lá, os sitiados pediram ajuda a César.

César, cuja qualidade mais impressionante como general talvez fosse a velocidade com que conseguia que suas tropas se deslocassem, marchou os 2.400 km que separavam Roma de Oculbo em apenas 27 dias, e, com essa aparição súbita, conseguiu levantar o sítio.

A rapidez com que decidiu agir somente permitiu que César trouxesse consigo as legiões  nas quais ele mais confiava; a X Equestris e a V Alaudae (esta era uma legião formada por gauleses e é considerada a primeira legião romana formada por não-cidadãos), além de duas legiões recém formadas, a III Gallica e a VI Ferrata . Ele também recrutou, entre os cidadãos romanos que viviam na Espanha, mais quatro legiões.

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O exército de César tentou sitiar a importante cidade de Corduba (atual Córdoba) sem sucesso, e Cneu e Sexto Pompeu, aconselhados por Labieno, decidiram adotar uma estratégia defensiva, o que obrigou César a se preparar para passar o inverno na região, o que lhe obrigou a procurar os mantimentos necessários.

Porém, ainda durante o inverno, o exército de César conseguiu capturar a importante cidade de Ategua, obtendo suprimentos e infligindo uma derrota que enfraqueceu o moral do exército dos Optimates, que começou a experimentar deserções.

Assim, com a chegada do fim do inverno, pressionados pela queda do moral de suas tropas, os Optimates resolveram finalmente enfrentar o exército de César em uma batalha campal, em uma planície situada a uma milha das muralhas da cidade de Munda.

O exército dos dos Pompeianos tendo se desdobrado primeiro em ordem de batalha, escolheu uma elevação suave na planície, dando-lhe uma posição mais favorável. Eles comandavam uma força de treze legiões, mais seis mil auxiliares, além de seis mil cavaleiros, em um total de cerca de 70 mil homens.

César comandava oito legiões, com mais oito mil cavaleiros, totalizando cerca de 40 mil homens, sendo que no seu flanco direito, ele posicionou, como de costume, a sua estimada X Legião.

César ordenou que o seu exército parasse a uma certa distância da planície, tentando atrair o inimigo e fazê-lo descer a colina, sem sucesso, já que eles apenas avançaram um pouco, sem deixar a sua posição vantajosa. Suas próprias tropas não gostaram dessa pausa no seu avanço, achando que isso atrasaria a fácil vitória que eles pensavam que iriam obter.

Então, César deu o comando para o ataque, utilizando a senha “Vênus” (a deusa de quem a sua família julgava descender) e suas legiões avançaram soltando um grito de guerra.

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Dessa vez, os Pompeianos estavam dispostos a tudo para vencer, afinal muitos dos seus soldados já tinham sido perdoados por César e, por voltarem a combatê-lo, acreditavam que desta vez não teriam clemência.

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 No calor dos furiosos combates, César teve que desmontar e lutar ao lado da infantaria. Em dado momento, indo para um ponto onde as suas tropas começavam a fraquejar, ele retirou o seu elmo para que os soldados pudessem vê-lo e se sentirem encorajados ou envergonhados por ele ser obrigado a combater junto deles. Não surtindo muito efeito isso, consta que César tirou um escudo das mãos de um legionário e falou para os seus oficiais:

Isto será o fim da minha vida e também das suas carreiras militares“.

Então, César avançou para a frente de batalha, chegando a ficar a apenas três metros do inimigo, que atirou cerca de duzentas lanças em sua direção,  tendo César conseguido desviar da maioria e os outros cravando-se no seu escudo. Nesse momento, todos os tribunos correram para ele, colocando-se ao seu redor e todo o exército avançou.

Mais tarde,  César diria:

Inúmeras vezes, eu lutei pela vitória; em Munda, eu lutei pela minha vida !

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A encarniçada luta se estenderia por oito horas, até que a X Legião começou a prevalecer sobre a ala esquerda do exército dos Pompeianos. Cneu Pompeu, percebendo o perigo, retirou uma legião da sua ala direita para reforçar a sua ala esquerda ameaçada. Porém, o rei Bogud, da Mauritânia, que comandava a cavalaria de César, percebendo o consequente enfraquecimento da ala direita inimiga, ordenou uma carga contra a retaguarda de Pompeu.

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Labieno viu o ataque da cavalaria de César e deslocou várias unidades para contê-lo, todavia o movimento foi mal interpretado pelo seu exército, que pensou, equivocadamente, que se tratava de uma retirada. O exército pompeiano já estava sob forte pressão em ambos os flancos e quando eles viram várias da suas unidades recuando para fazer a manobra ordenada por Labieno, o pânico se instalou e as suas linhas começaram a se dissolver devido a debandada dos soldados pompeianos apavorados.

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Como era frequente nas batalhas da antiguidade, a grande matança se dava após uma debandada. Assim, morreram trinta mil soldados do exército pompeiano, contra apenas mil mortos das tropas de César.

Labieno tombou na Batalha de Munda, recebendo de César o devido funeral, mas Cneu e Sexto Pompeu conseguiram escapar. Porém, um mês depois, o primeiro  na Batalha de Lauro, onde lutou até a morte. Já Sexto Pompeu ainda lideraria, anos mais tarde, uma rebelião na Sicília,  depois do assassinato de César. Ele somente seria morto por Marco Antônio, em 35 A.C.

14 mil soldados pompeianos ainda conseguiram fugir para Munda, sendo sitiados pelo legado de César, Quintus Fabius Maximus. Córdoba já havia caído e Munda acabou se rendendo.

Este foi o último conflito da Guerra Civil iniciada quando César cruzou o rio Rubicão, quatro anos antes. Deve ter parecido a muitos que César e os Populares tinham derrotado completamente os Optimates e que uma nova era iria começar.

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Porém, havia, em Roma, um núcleo duro da facção dos Optimates que ainda estava disposto a resistir, mesmo sem exércitos…

 

 

 

 

VALENTINIANO III

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Em 16 de março de 455 D.C, no Campo de Marte, em Roma,  o imperador  Valentiniano III estava  treinando com o arco e flecha,  quando foi morto por dois mercenários hunos, chamados Optelas e Thraustelas, que também mataram o eunuco Heraclius, que acompanhava seu mestre. Era o fim da dinastia teodosiana no Ocidente.

Nascido em 2 de julho de 419 D.C, em Ravena, capital do Império Romano do Ocidente, Flavius Placidius Valentinianus (Valentiniano III), era filho de Flávio Constâncio e de Galla Placídia.

O pai de Valentiniano foi um dos últimos de uma longa linha de generais nativos da Ilíria que assumiram o trono no período final do Império Romano do Ocidente. Nascido em Naissus, na atual Sérvia, ele derrotou uma série de usurpadores durante o reinado do Imperador do Ocidente, Honório, e conseguiu alguns sucessos contra os Godos, com os quais conseguiu entrar em acordo, assentando-os no sul da Gália.

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(Medalhão romano do século V que se acredita retratar Valentiniano III. Galla Placídia e Honória)

Outro item do tratado assinado por Flávio Constâncio com os Godos foi a devolução à Roma da irmã de Honório, Galla Placídia, que havia sido capturada pelos bárbaros quando do Saque de Roma, liderados pelo rei Alarico, em 410 D.C.

O poderoso Flávio Constâncio acabou se casando com Galla Placídia, em 417 D.C, e, em função disso, em 421 D.C, ele conseguiu ser nomeado Augusto, e, portanto, co-imperador junto com Honório, reinando com o nome de Constâncio III.

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Entretanto, Constâncio III somente reinaria por 7 meses, vindo a falecer de causas desconhecidas, em 2 de setembro daquele ano.

A mãe de Valentiniano III, Galla Placídia, além de irmã de Honório, era filha do imperador Teodósio, o Grande, e neta do imperador Valentiniano I, o último imperador do Ocidente que comandou um grande exército, e, consequentemente, ela era a mulher mais ilustre do Império Romano naquele tempo. Além disso, Galla Placídia, durante o cativeiro nas mãos dos Godos, havia se casado, aparentemente não contra a própria vontade, com o rei deles, Ataulfo, que depois seria assassinado em 415 D.C.

O sucessor de Ataulfo, Wallia, necessitando de alimentos para o seu povo, concordou em assinar o tratado proposto por Constâncio III e devolveu a viúva Galla Placídia aos romanos.

Como Honório era divorciado, Galla Placídia, após a elevação de seu marido Constâncio à posição de Augusto, passou a ser a única Augusta (imperatriz) no Ocidente. Após ela ter ficado viúva de Constâncio, intrigas da Corte e as suspeitas de um relacionamento incestuoso com o irmão Honório forçaram Galla Placídia e seu filho bebê, Valentiniano, a se exilarem em Constantinopla, sob a proteção do Imperador do Oriente, Teodósio II, em 423 D.C.

Naquele mesmo ano de 423, Honório morreu de edema e o trono do ocidente foi usurpado por João, colocado no trono pelo general Castino. Teodósio II obviamente não reconheceu João e nomeou seu parente Valentiniano, filho de Galla Placídia, como César, além de arranjar o futuro casamento deste com sua filha Licínia Eudóxia, sendo ambos ainda crianças.

Após a derrota de João, Valentiniano III foi, oficialmente, coroado como Imperador Romano do Ocidente, em 23 de outubro de 425 D.C, com apenas 6 anos de idade.

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Assim, no início do reinado de Valentiniano III, o governo do Império do Ocidente ficou de fato nas mãos de sua mãe, a Imperatriz Gala Placídia, regente de fato.

O reinado de Valentiniano III caracterizou-se pelo progressivo desmembramento do Império Romano do Ocidente, decorrente de uma série de invasões bárbaras. Com efeito, durante esse período, os bárbaros Vândalos, Suevos e Alanos consolidaram seus reinos na Espanha, e os Visigodos, inicialmente, no sul da Gália. Além disso, o noroeste da Gália encontrava-se virtualmente independente controlado por bandoleiros chamados de bagaudas. Para piorar, os Vândalos deixaram a Espanha e invadiram a rica província da África, que na época era a principal fonte de suprimento de grãos para Roma. (o Egito estava sob a jurisdição de Constantinopla).

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O Exército do Império do Ocidente, durante o reinado do antecessor de Valentiniano III, Honório,  praticamente havia desaparecido, e o Imperador dependia majoritariamente de tropas bárbaras, cujos chefes, cada vez, mais ansiavam o cargo de Comandante Supremo das Forças Armadas (Magister Utriusque Militiae), visando ter acesso aos ainda vastos recursos do Império.

Roma, apesar de tudo, durante esse período (400 a 450 D.C), ainda conseguia desdobrar algum poder militar, nas vezes em que o exército era comandado por um general de prestígio e dotado de orientação patriótica, como foi o caso do meio-romano, meio-vândalo Estilicão, que foi o comandante do Exército de Honório. Esses generais, enquanto o tesouro não se exauriu completamente, frequentemente conseguiam reunir tropas bárbaras que serviam ao Império como “federados” (foederati) e empregá-las no interesse de Roma.

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Foi o que ocorreu, quando, decorridos alguns anos do reinado de Valentiniano III, outro militar do quilate de Estilicão assumiu o comando do que restava do Exército: o general Flávio Aécio, um romano nascido na região do Danúbio. Aécio tinha sido, durante a juventude, entregue como refém aos Godos  que, por sua vez, o entregaram aos Hunos. Porém, Aécio, valendo-se de seu talento para a Diplomacia, conseguiu fazer  muitas amizades e contatos entre os Hunos, que eram os bárbaros mais temidos naqueles tempos.

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De fato, durante toda a sua carreira, Aécio se valeria dessa amizade com os Hunos, que lhe forneceriam as tropas que o Império do Ocidente tanto precisava para fazer frente aos Visigodos, Suevos, Francos, Burgúndios e outros tantos, os quais, já instalados na Gália e Espanha, ou, em reides partindo dos rios Reno e Danúbio, ameaçavam a própria Itália.

Aécio, que alcançara o posto de comandante militar da Gália, teve que combater Bonifácio, um rival pelo comando supremo do Exército, que gozava da predileção de Gala Placídia. Nessa luta entre romanos, Aécio, apesar de ter sido derrotado na Batalha de Rimini, em 432 D.C, conseguiu fugir e chegar até aos seus amigos Hunos, enquanto que Bonifácio morreu em decorrência dos ferimentos sofridos no combate.

Os Hunos forneceram a Aécio novas tropas, com as quais ele não teve dificuldade em “convencer” Gala Placídia a lhe nomear “Magister Utriusque Militae” e Conde (“Comes“).

Infelizmente, os Vândalos se aproveitaram desse conflito e aproveitaram para invadir a África, que era vital como fonte de fornecimento de grãos e de tributos para o Império do Ocidente, e onde os senadores romanos possuíam imensas propriedades.

A estratégia seguida por Aécio diante desse grave quadro é considerada pelos historiadores militares como inteligente e adequada para a delicadíssima situação em que o Império do Ocidente se encontrava.

Com efeito, Flávio Aécio,  procurou proteger, entre todos os domínios imperiais, a Gália, a maior e mais rica província do Ocidente, já bem devastada pelas invasões bárbaras. Ele conseguiu derrotar os Burgúndios e conter os bagaudas, na Gàlia e ,após algumas derrotas e vitórias contra os Visigodos, firmar com eles um tratado delimitando a área que seria destinada aos últimos. Sem ter tropas suficientes para subjugar todos os bárbaros, Aécio passou a se valer da tática de usar as tribos bárbaras que tinham sido recentemente derrotadas e assentadas para conter aquelas outras que fossem julgadas mais perigosas para Roma.

Por outro lado, embora a defesa da Gália, no plano militar, fosse a escolha mais adequada, no campo político essa estratégia colocou Aécio em choque com os interesses da nobreza senatorial italiana, que ainda era muito influente e achava que a Itália deveria ser defendida a qualquer preço.

Efetivamente, Aécio foi a pessoa mais poderosa do Império do Ocidente entre 433 e 450 D.C. Porém, em 451 D.C, Átila, que tinha se tornado rei dos Hunos em 435 D.C, resolveu atacar o Império do Ocidente, valendo-se de um pretexto surpreendente: a irmã de Valentiniano III, Honória, que havia sido presa por ter engravidado de um camareiro, tinha conseguido enviar a Átila um pedido de socorro, junto com um anel, razão pela qual o rei bárbaro considerou que a princesa romana era sua noiva, dando-lhe o direito de exigir o seu dote: Metade do Império do Ocidente!

O irresistível avanço da horda huna, acrescida por várias tribos germânicas súditas de Átila, rapidamente tomou Metz, Reims, Mogúncia, Estrasburgo, Colônia, Worms e Trier que foram saqueadas e incendiadas.

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Aécio, porém, conseguiu formar uma aliança com os Visigodos, Francos e Alanos, que se uniram a um pequeno contingente de tropas romanas tradicionais. Quando o exército aliado aproximou-se de Orleans, sitiada pelos Hunos, Átila teve que abandonar o cerco e rumou para o campo aberto em Châlons, na Champagne.

Ali, em 20 de junho de 451 D.C., travou-se uma sangrenta batalha onde os Visigodos e Alanos aguentaram a maior parte da carga dos guerreiros hunos. Os Romanos colaboraram ocupando uma importante elevação no terreno. Em posição desfavorável, Átila acabou ordenando uma retirada, sem que houvesse uma perseguição por parte dos aliados romanos.

A vitória na Batalha de Châlons foi certamente o auge da carreira de Aécio. Muitos historiadores consideram, para outros com algum exagero, que esta foi uma das batalhas mais importantes da História, e o historiador romano-bizantino Procópio apelidou Aécio de “O Último dos Romanos“. É difícil, no entanto, chegar a uma conclusão, pois Átila morreria dois anos depois e o seu império se esfumaçou tão rápido como surgira.

Todavia, o prestígio político de Aécio não duraria muito. No ano seguinte à Batalha de Chalons, Átila e seus Hunos invadiriam a Itália. Em seu avanço, a grande cidade de Aquiléia foi varrida do mapa.

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Valentiniano III, protegido pelos pântanos de Ravenna, foi obrigado a assistir impotente enquanto a horda se dirigia para Roma. Contudo, por razões até hoje misteriosas, mas provavelmente devido à peste que se alastrava pela Península, Átila, após receber uma embaixada do Papa Leão, resolveu se retirar da Itália e, no ano seguinte, ele morreria sufocado pelo próprio sangue, após a festa do seu casamento com uma nova esposa, quando teria tido uma hemorragia nasal.

Após Chalons, Aécio tinha conseguido a honra de casar seu filho Gaudentius com Eudóxia, filha de Valentiniano III, passando, assim, a ser oficialmente membro da família imperial e colocando seu filho como um sério candidato à sucessão do próprio Valentiniano III.

A ascensão de Aécio despertou muitos ciúmes, especialmente em Petrônio Máximo, então o senador mais poderoso e com mais distinções em cargos públicos. Segundo o historiador romano-bizantino do século VII, João de Antióquia, Máximo foi o maior responsável pelas intrigas contra Aécio, conseguindo envenenar o imperador  Valentiniano III contra o general, cujo prestígio junto aos senadores italianos estava muito abalado pela invasão da Itália.

Petrônio aliou-se a um secretário doméstico do imperador (“Primicerius Sacri Cubiculi“), um eunuco chamado Heraclius, que também era inimigo de Aécio e ambos conseguiram convencer Valentiniano III de que Aécio planejava matá-lo. Em decorrência persuadiram o imperador a convocar o general para um encontro no Palácio, onde seria recebido por Valentiniano III em pessoa,  no que foi provavelmente uma forma de afastar Aécio de seus guarda-costas hunos, sem despertar a suspeita deles.

Em 21 de setembro de 454 D.C., Valentiniano III convocou Aécio ao Palácio e, quando este lhe apresentava um relatório, o imperador acusou-o de traição. Ao tentar se explicar, Aécio foi atacado por Valentiniano III e por Heraclius, sendo morto por um golpe de espada desferido pelo próprio imperador. Não deve ter sido uma luta muito difícil, pois, enquanto Valentiniano tinha 34 anos e era dado a se exercitar, Aécio já tinha a avançada idade, para a época, de 63 anos.

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Dias depois, ao comentar que tinha agido corretamente ao matar Aécio, Valentiniano III ouviu de um cortesão:

Se foi bom ou ruim eu não sei, mas o que eu sei é que Vossa Majestade cortou vossa mão direita com a vossa esquerda“…

O ambicioso Petrônio conseguiu convencer dois guarda-costas de Aécio a vingarem a morte do seu amado chefe, prometendo ainda uma recompensa pela morte de Valentiniano III. Assim, no dia 16 de março de 455 D.C, em Roma, quando o imperador estava praticando com o arco e flecha, os dois bárbaros mataram Valentiniano III, bem como o eunuco Heraclius, que o acompanhava. Assim, terminava a dinastia inaugurada pelo imperador Teodósio, o Grande no Ocidente.

Naquele mesmo ano, Roma seria alvo de um devastador saque pelos Vândalos e, no espaço de apenas 21 anos, o Império Romano do Ocidente deixaria de existir.

                                                                      FIM

POR QUE ASSASSINARAM CÉSAR? FINAL

TRIUNFO, PODER ABSOLUTO E MORTE

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Morto Pompeu, o seu único rival pelo poder supremo, César celebrou os seus Triunfos com uma magnificência jamais vista em Roma. Nos festejos pela vitória na Gália, que tinham sido adiados pela Guerra Civil, vinha, no final da procissão triunfal, Vercingetórix acorrentado. O altivo chefe gaulês seria executado após a cerimônia, como era o costume romano. Houve, ainda, uma batalha naval simulada em um lago artificial e 400 leões foram soltos em um Circo, para serem mortos por quem se dispusesse a pagar uma taxa. Em seu novo Fórum construído perto do antigo, César, presença de Cleópatra e Cesarion, desvendou uma bela estátua de ouro de sua amante e rainha do Egito, ao lado do Templo de Vênus Genitrix, deusa que a gens Júlia reivindicava como sendo sua ancestral.

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(Denário de prata de 48 A.C.,  com a imagem de Vercingetórix acorrentado, é a única imagem do líder gaulês capturado e executado após o Triunfo de César, em Roma)

Provavelmente esses festejos foram a maior exibição de propaganda política em toda a História de Roma. Mas os Optimates ainda não tinham sido completamente derrotados… Na África, um exército de 40 mil soldados liderado pelos velhos inimigos Catão, o Jovem e Metelo Cipião, e pelo inimigo recente, Labieno, aos quais se juntaram os filhos de Pompeu, contando com a ajuda do rei Juba, da Numídia, ainda constituía uma ameaça respeitável.

César, após as celebrações de seu triunfo, partiu de Roma e sitiou a cidade de Tapsos, na atual Tunísia. Os Optimates foram forçados a aceitar a batalha campal e o exército de César mais uma vez venceu, em 06 de abril de 46 A.C. Os Númidas fugiram e os 10 mil soldados inimigos que quiseram se render foram mortos pelos soldados de César. Esse massacre não era compatível com a política de clemência que ele vinha adotando desde o início da Guerra Civil. A explicação, segundo Plutarco, é que César, durante a Batalha de Tapsos, perdeu os sentidos devido a um ataque, supostamente epilético, e o desfecho sangrento teria acontecido à sua revelia.

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Catão, o Jovem e Metelo Cipião conseguiram fugir de Tapsos. O primeiro, que não era militar e não participara da batalha, se refugiou em Útica, mas acabou cometendo suicídio ao saber do resultado da luta. Consta que César, ao ser informado da morte de Catão, disse:

Eu lamento a sua morte, Catão, assim como você teria lamentado se eu poupasse a sua vida“.

Cipião também cometeu suicídio, após ser interceptado pela frota de César, quando tentava chegar com um navio até a Espanha, onde esperavam obter auxílio dos numerosos veteranos de Pompeu que viviam naquela Província.

Vale observar que, especialmente Catão, o Jovem, ao tirar a própria vida, tornou-se um símbolo para os Optimates de uma vida virtuosa e de sacrifício em prol da República. Posteriormente, já durante o Império, o nome dele seria sempre evocado como exemplo pelos senadores insatisfeitos como o Principado e por aqueles que , no futuro, conspirariam contra o despotismo dos imperadores.

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(Busto de bronze de Catão, o Jovem, achado na cidade romana de Volubilis, no Marrocos)

Após essa vitória, César foi nomeado Ditador da República Romana por 10 anos, algo inédito. Ele também foi eleito Cônsul para o ano de 46 A.C. (o que se repetiria nos dois anos seguintes).

O último bastião da resistência dos Optimates era agora a Espanha, onde os filhos de Pompeu, Cneu Pompeu e Sexto  Pompeu, valendo-se do grande número de soldados veteranos do falecido general assentados naquela província, conseguiram reunir um grande exército (incluindo duas legiões que tinham desertado do exército de César). Com isso, eles tomaram toda a Espanha, forçando as legiões leais a César a se refugiarem na cidade de Oculbo. De lá, os sitiados pediram ajuda a César.

César, cuja qualidade mais impressionante como general talvez fosse a velocidade com que conseguia que suas tropas se deslocassem, marchou os 2.400 km que separavam Roma de Oculbo em menos de 1 mês, e, com essa aparição súbita, conseguiu levantar o sítio.

Em 17 de março de 45 A.C, na planície de Munda, após uma feroz batalha que durou 8 horas, o exército de César saiu vencedor. Ele assim definiria a Batalha de Munda, segundo suas próprias palavras:

Inúmeras vezes, eu lutei pela vitória; em Munda, eu lutei pela minha vida !

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Trinta mil soldados inimigos foram mortos na batalha, incluindo o general Labieno. Um dos filhos de Pompeu, Cneu, foi capturado um mês após e morto. Já Sexto, sem exército, somente seria morto por Marco Antônio dez anos mais tarde.

César agora era o senhor absoluto de Roma, para onde voltou para implementar seus projetos de governo, que tinham sido interrompidos pela necessidade de combater os últimos focos de resistência senatorial em Tapsos e Munda.

Inicialmente, derrotados os inimigos, é preciso reconhecer que César, ao contrário de Mário e Sila – que tinham sido os únicos que haviam chegado perto de deter tamanha parcela de poder na República e que se aproveitaram disso para eliminar os desafetos – perdoou seus inimigos e permitiu que eles participassem da administração pública e retornassem ao Senado, sendo os exemplos mais ressonantes, os adversários Cícero, Cássio, Marco e Décimo Bruto.

E o que César tencionava fazer com tanto poder?

César nunca escreveu, ou foi registrado para a posteridade, quais eram os seus planos para a República: se pretendia aboli-la ou meramente reformá-la. Ele também não teve tempo, se é que esse era mesmo o seu propósito, de estabelecer para si uma nova posição como monarca de Roma. Somente podemos inferir, das medidas que tomou após alcançar o poder absoluto, algumas linhas gerais:

Uma diretiva inequívoca de seus planos é dada pelo aumento do número de Senadores e renovação da composição do Senado Romano (que havia sido muito desfalcado pelos anos de guerra civil). César aumentou o número de senadores para 900 e nomeou senadores oriundos de províncias fora da Itália, especialmente gauleses. Esse propósito é corroborado pela permissão de que legionários fossem recrutados nas províncias. De fato, César criou legiões compostas por gauleses, espanhóis e súditos do Oriente. Para isso, a cidadania romana e latina foi concedida amplamente na Sicília, na Gália, na Hispânia e até na Criméia.

Tudo isso constitui um indício de que o plano de César era criar um Império Romano universal e mais inclusivo, e não apenas manter uma dominação de Roma e das cidades italianas sobre colônias ao longo do Mediterrânea, em uma dominação etnicamente latina sobre súditos de outras raças. Nisso, talvez César até evocasse os desígnios de Alexandre, o Grande, um herói por ele admirado desde a juventude,  e cujos atos, inclusive os seus casamentos, manifestavam o propósito do rei macedônio de criar um império mundial que unisse  os gregos e outros povos orientais, como os persas e os hindus.

Podemos cogitar que César não tencionava restaurar a velha ordem republicana. Provavelmente, o Senado não seria mais a instância máxima de poder, funcionando como um conselho consultivo e, em seu governo, não apenas os Optimates, mas também os Populares, não encontrariam lugar, pois, já no início de sua Ditadura, os Concílios da Plebe atuavam apenas para referendar as leis promulgadas pelo Ditador, sem maior debate ou discussão. Nessa linha, César havia abolido os “collegia“, as associações corporativas que participavam politicamente das eleições, e que tinham se transformado em milícias violentas utilizadas para influir nos pleitos.

Vale citar como exemplo o fato de César ter sido o primeiro romano a exercer, concomitantemente, diversas magistraturas republicanas, que podem ter sido formalmente mantidas, mas cuja concentração nas mãos de um único homem era um fato inédito e que constitui mais um indício de que se tratava de uma nova ordem.

Assim, César, além de Ditador pelo longo prazo de dez anos (e em 44 A.C, ele seria nomeado “Ditador Perpétuo“) era, respectivamente: Cônsul e Pontífice Máximo (Chefe da religião) e, além disso, em mais uma inovação, mesmo sem ser Tribuno da Plebe, ele recebia, anualmente, o “Poder Tribunício“, ou seja, detinha todos os poderes inerentes a essa magistratura, inclusive o poder de votar todos os atos administrativos ou legislativos, bem como a “sacrossantidade” daqueles magistrados. Essa fórmula, diga-se de passagem,  seria mantida por Augusto e todos os imperadores que o sucederam. Devemos, contudo, observar que, de certa maneira, a menção expressa ao Poder Tribunício não deixava de ser um reconhecimento de que o Poder emanava do Povo.

O virtual fim da República também foi evidenciado pelas leis que deram a César:

a) o novo cargo de “Prefectus Morum“, encampando as atribuições dos Censores. Com esse poder, César podia nomear ou expulsar do Senado quem ele julgasse que obedecesse, ou não, os costumes morais romanos;

b) o direito de nomear os governadores das províncias para um mandato com prazo fixo, e de recomendar ao povo, para referendo, a metade dos magistrados em Roma;

c) o direito de declarar guerra e de celebrar a paz;

d) o direito de votar em primeiro lugar no Senado (assumindo, na prática, o lugar do “Princeps Senatus“, distinção conferida ao Senador mais antigo ou eminente e que seria a inspiração para Augusto batizar a posição ocupada pelo Imperador, dando o nome pelo qual o novo regime por ele inaugurado seria conhecido: “Principado“);

e) o direito perpétuo de comandar o Exército (“Imperium“, atributo do “Imperator“, ou comandante,  e que, futuramente, também acabaria batizando o governante do novo regime que seria inaugurado por Augusto);

f) o direito de dispor dos fundos públicos; e

g) o direito de promulgar Éditos,  que deveriam ser confirmados sem discussão pelo Senado.

Entretanto, devemos anotar que alguns historiadores não têm certeza de que César pretendesse que as reformas supracitadas fossem permanentes, considerando o fato de que ele, antes de morrer, planejava uma grande campanha militar contra a Pártia. Assim,  talvez essas reformas se destinassem apenas a assegurar a estabilidade do governo, enquanto ele estivesse ausente na planejada guerra.

César também reorganizou a estrutura dos governos municipais das cidades italianas e parece que ele tencionava uniformizar os diferentes sistemas de governo por elas adotados. Considerando que ele fundou diversas cidades, inclusive refundando as destruídas Cartago e Corinto, é possível supor que César compreendia que a força do Estado Romano repousava nas cidades e talvez ele até imaginasse o futuro império como uma confederação de cidades autônomas unidas sobre a autoridade de um governo central. Notavelmente, nas renascidas Cartago e Corinto, César determinou que fossem prestigiadas as populações nativas.

O Ditador César promoveu a reforma de várias leis penais, aumentando a punição para crimes violentos. Ele também instituiu um sistema uniforme de taxas alfandegárias e promulgou uma lei proibindo a exibição de luxo excessivo em público, uma preocupação recorrente dos governos desde quando o enriquecimento da aristocracia romana após as Guerras Púnicas atingiu níveis astronômicos. César também iniciou um vasto programa de obras públicas, visando aproveitar a numerosa mão de obra ociosa do proletariado romano, que aumentou muito após a desmobilização das legiões que se verificou com o fim da Guerra Civil.

O poder absoluto de César e a aura de semi-divindade que ele assumira perante boa parte dos olhos da opinião pública acarretaram que lhe fossem concedido um sem número de honrarias inauditas, como por exemplo: O 5º mês do calendário romano, “Quintilis“, foi rebatizado de “Julius” (Julho), em sua homenagem. Aliás, a reforma do antiquado e astronomicamente impreciso calendário romano, pelo muito mais acurado “Calendário Juliano“, foi uma das grandes contribuições de César para a Civilização Ocidental. E, pela primeira vez na História de Roma, a efígie de um governante foi cunhada nas moedas, a dele. Finalmente, muitos templos e estátuas foram erguidos em sua homenagem.

Surpreendentemente, César, apesar do pouco tempo decorrido desde a derrota militar da facção aristocrática do Senado, em Munda. mantinha seus exércitos fora da Itália e, na cidade de Roma,  ele era protegido apenas por uma pequena guarda pessoal. E mesmo este destacamento foi afastado pouco antes de março de 44 A.C.

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(Busto de César, retratado em seus últimos anos)

OS IDOS DE MARÇO – O ASSASSINATO DE CÉSAR

Nos meses anteriores ao assassinato de César, as fontes antigas narram um certo descontentamento com o seu comportamento soberbo e arrogante, ao menos por parte da elite governante. Suetônio narra que surgiram rumores acerca de conspirações para derrubá-lo e que tais informações tinham chegado anteriormente aos ouvidos de César, que se limitou apenas a advertir publicamente que ele  tinha ciência das mesmas.

A conspiração que resultou no assassinato de César, como não é de surpreender, em vista de tudo que narramos desde a primeira parte de nosso artigo, nasceu no seio dos remanescentes da facção dos Optimates no Senado Romano. O número de conspiradores, nas fontes antigas, varia entre 60 e 90 senadores. Os líderes da conspiração eram Caio Cássio Longino, Marco Júnio Bruto e Décimo Bruto.

Marco Júnio Bruto era filho do pai do mesmo nome e, supostamente, ele era descendente direto do fundador da República Romana, Lúcio Júnio Bruto, que expulsara o último rei de Roma e se tornaria o 1º Cônsul da República. Bruto era filho de Servília Caepionis, que também era meia-irmã de Caio Cássio Longino e que , desde longa época, era notória amante de ninguém menos do que  Júlio César. Alguns suspeitavam até que Bruto pudesse ser filho ilegítimo de César, mas isto é altamente improvável, pois ele tinha apenas 15 anos quando Bruto nasceu. Além disso, Bruto era genro do finado Catão, o Jovem, que se suicidara em Útica após uma vida de lutas contra César. A presença de Bruto entre os líderes da conspiração conferia legitimidade ideológica e histórica ao movimento.

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Bruto sempre foi um integrante da facção dos Optimates no Senado Romano e acompanhou Pompeu na Guerra Civil. Poupado por ordens expressas de César na Batalha de Farsália, Bruto, em seguida, foi admitido no círculo mais íntimo do Ditador e nomeado por ele Governador da Gália, em 46 A.C.

O historiador Nicolau de Damasco, uma das fontes antigas que escreveu em época mais próxima aos Idos de Março de 44 A.C, narra que o círculo de conspiradores foi crescendo, atraindo pessoas que tinham sido prejudicadas pela guerra civil com a perda de seu patrimônio ou de sua posição social, bem como antigos aliados de César que se sentiam preteridos em favor de inimigos perdoados, e, não menos importante, aqueles idealistas que achavam que César estava destruindo a República ou, ainda,  pessoas incomodadas com a idolatria a César.

Não há dúvida de que a Guerra Civil havia deixado feridas abertas na aristocracia romana. Temos um exemplo parecido com o que ocorreu após a Guerra Civil Americana (1861-1865). Aliás, o assassino de Abraham Lincoln, John Wilkes Booth, assumidamente reivindicou ter se inspirado em Bruto e, de fato, após ele atirar em Lincoln, ele disse a frase célebre atribuída a Bruto na cena do assassinato de César, em meio às punhaladas:

Sic semper tiranus!” (Sempre assim com os tiranos!).

A aristocracia senatorial romana era um clube fechado de umas centenas de famílias que se consideravam fundadoras da República, as únicas com direito a exercer o governo, em benefício não só da nação, mas também em seu próprio proveito e, não menos importante, julgavam-se merecedoras de especiais deferência e privilégios. Não é por nada que a carreira política do homem de Estado romano era chamada de “Cursus Honorum“. O direito a essas “honras” era inerente ao papel do aristocrata na sociedade romana. Em muitos aspectos, e não apenas o semântico, em Roma, “Respublica“, na prática, assumia um significado mais parecido com “Cosa Nostra“…

Como vimos no início de nosso estudo, essa aristocracia já havia reagido com violência à perspectiva de perda de seus poderes e privilégios,  inclusive assassinando os líderes da facção dos Populares que ameaçaram a sua posição privilegiada, como ocorreu com Tibério e Caio Graco.

Indiscutivelmente, a nomeação de César como Ditador Perpétuo, em 15 de fevereiro de 44 A.C deve ter desencadeado a conspiração para assassinar César.  E, neste mesmo mês, ocorreu o episódio que muitos historiadores consideram que forneceu o pretexto para o assassinato do Ditador – a acusação de que César pretendia ser coroado Rei.

Com efeito, foi na festa religiosa da Lupercalia que Marco Antônio, um dos celebrantes, completamente nu, colocou, por três vezes, um diadema de ouro sobre a cabeça de César,  e sendo, por três vezes, repelido pelo Ditador. É bem possível que esse ato de Marco Antônio tenha sido encenado de comum acordo para demonstrar que César não tencionava ser coroado rei. Há quem acredite, por outro lado,  que aquela encenação foi um ardil para sondar o sentimento popular,  um teste para verificar se a massa reprovaria o gesto. O  fato é que alguns na multidão realmente aclamaram César como rei, o que deve ter aterrorizado os Optimates.

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Diante disso, a decisão de executar a conspiração de matar César dependia apenas de se decidir sobre o dia, o local e o modo. Os conspiradores logo concordaram que, considerando que César comparecia ao Senado sem escolta, lá seria o local mais fácil de executar o Ditador, além de  poderem  facilmente ocultar os punhais sob suas togas, traje obrigatório para o comparecimento às sessões.

No dia 15 de março de 44 A.C, César acordou e ficou em dúvida se deveria ir ao Senado. Sua esposa Calpúrnia tinha tido um pesadelo em que aparecia uma poça de sangue e implorou para que César ficasse em casa. César. que não era nada supersticioso, decidiu ir. O adivinho Surinna também teria lhe advertido para ter cuidado com os Idos de  Março, mas César fez pouco caso. E, já na rua, em direção ao Senado, ele chegou a receber um rolo de papiro em que alguém delatava a conspiração, porém, guardou o manuscrito sem ler.

A reunião do Senado ocorreria em um recinto existente no Odeon do magnífico teatro construído por Pompeu, chamado de “Cúria de Pompeu”, já que a Cúria tradicional do Senao tinha sido danificada nos tumultos da guerra civil e estava em reparos.

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 (A Cúria de Pompeu, local onde César foi assassinado, é o edifício em forma de templo no meio do semicírculo do Teatro.Computer generated image of the Theatre of Pompey by the model maker, Lasha Tskhondia – L.VII.C)

No caminho para a Cúria de Pompeu, César estava acompanhado de Marco Antônio, mas os conspiradores, sabendo que ele era um sujeito parrudo e com experiência militar, acharam que ele poderia dificultar o assalto a César, e, assim, conseguiram distraí-lo a pretexto de um assunto e separá-lo do Ditador. César entrou sozinho na Cúria.

Os conspiradores esperaram César se sentar e se aproximaram, fingindo apresentar alguns requerimentos, até que o senador Cimber, em um sinal previamente combinado, arrancou a túnica do pescoço do Ditador, que, chocado, reclamou:

Por quê? Isto é uma violência!

Então o Senador Casca desferiu o primeiro golpe, mas, devido ao seu nervosismo, este apenas pegou de raspão no pescoço de César, que se virou e segurou a mão de Casca, dizendo:

Casca, seu vilão, o que estás fazendo?

Aterrorizado, Casca gritou, em grego :

Adelphi, boethei !” (“Irmãos, ajuda!”)

Nesse momento, vários conspiradores atenderam ao apelo de Casca, desferindo sucessivos golpes de adaga em César. Segundo Suetônio, quando César percebeu que Bruto estava entre os que o atacavam, teria dito, em grego:

Kai su, teknon?” (“Tu também, criança?”)

Segundo os relatos, César tentou se evadir dos seus atacantes como um leão ferido, mas, quando percebeu que estava perdendo forças, ele deixou-se cair e apenas cobriu a sua cabeça, tentando morrer com alguma aparência de dignidade (durante toda a sua vida, César sempre fora preocupado com sua imagem).

Bruto tentou fazer uma proclamação, mas todos os senadores, aterrorizados, fugiram da Cúria.

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Foram contadas 23 feridas de punhaladas em César ( Suetônio conta que na opinião de um médico, que, pode-se dizer, autopsiou César, apenas uma delas, no peito, tinha sido fatal).

O corpo de César, ironicamente, ficou caído aos pés da estátua de seu maior rival, Pompeu, e jazeu ensanguentado por três horas no chão frio da Cúria, até ser recolhido por seus escravos.

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Bruto e os demais conspiradores se auto-intitulariam “Os Libertadores“. Eles tentaram imediatamente alguma conciliação com os Populares, oferecendo a preservação de todos os atos de César como Ditador e o direito a um funeral público.

Porém, na cerimônia pública de cremação, no Fórum Romano, um discurso de Antônio inflamou a massa e uma turba saiu à caça de qualquer um que fosse suspeito de participação na conspiração contra César.

Os “Libertadores” tencionavam restaurar a República, mas em três anos, todos eles seriam mortos, e o resultado da ação deles foi apenas causar outra Guerra Civil, primeiro para vingar César e depois para decidir quem seria o seu sucessor. É mais ou menos como se alguém tivesse tentado fazer recuar os ponteiros do relógio da História, mas apenas conseguisse segurá-los por 14 anos (até a vitória de Otaviano, o futuro Augusto, em Actium, em 31 A.C.)

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(Denário cunhado pelos “Libertadores” ostentando os punhais usados para assassinar César, o tradicional capacete associado no Mundo Antigo aos que lutam pela Liberdade e a inscrição abreviada “Idos de Março)

A República já havia morrido antes de César, porém seu sucessor Augusto, seria mais astuto em preservar algumas aparências e conceder algumas deferências à classe senatorial.

(Templo do Divino Júlio, construído no exato local onde o corpo de César foi cremado, no Fórum Romano. A 2ª foto mostra o estado atual da ruína, com os restos do altar. Normalmente,  sempre há flores colocadas por pessoas nas ruínas do altar).

Como brilhantemente constatou Cícero, nos meses que se seguiram ao assassinato:

Matamos o Rei, mas o Reino continua entre nós“.

FIM

POR QUE ASSASSINARAM CÉSAR? 3ª Parte – GUERRA CIVIL

#César#Caesar#idosdemarço

Durante a confrontação política que antecedeu a travessia do Rubicão por César, os Optimates cometeram alguns graves erros de avaliação:

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Por exemplo, eles superestimaram a capacidade militar de Pompeu na Itália: Embora Pompeu tenha retido sob seu controle, irregularmente, duas legiões recrutadas por César no sul da Península, elas não eram páreo para a experimentada XIII Legião que lutara com ele na Gália.

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Da mesma forma, os Optimates também levaram em conta a seu favor o fato de que  Pompeu comandaria, teoricamente, todas as forças romanas na Hispânia, África, Egito, Grécia e Oriente, em número bem superior às 8 legiões que César tinha na Gália,

E os Optimates também confiavam  no histórico dos muitos sucessos militares de Pompeu.

Por último, os Optimates acreditavam que, pelo fato de César ter violado a proibição da lei romana de entrar na Itália com um exército,  a maior parte da população da Itália ficaria contra ele, que, ao menos formalmente, tinha se tornado um criminoso.

Mas eles não podiam estar mais errados….

As legiões da Gália, calejadas por dez anos de guerra cruenta contra os gauleses, naquele momento eram, provavelmente, os melhores soldados do Mundo Antigo; Pompeu era um renomado general, mas estava ficando velho e não comandava uma legião, quanto mais uma campanha, havia vários anos; Ademais, ao contrário do que os Optimates esperavam, no trajeto do norte da Itália em direção a Roma, César foi aclamado triunfalmente em diversas cidades, cujas  respectivas guarnições acabavam por juntar-se ao seu exército.

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Entretanto, nem tudo ia bem para César, pois, durante o avanço sobre Roma, o seu ajudante em mais de 10 anos de luta, o hábil general Labieno, desertou e uniu-se às forças de Pompeu. Não se sabe o motivo exato da defecção de Labieno, sendo que as explicações mais plausíveis são que ele seria um legalista que via a insurreição de César como criminosa ante as leis da República ou, então, o fato de ele estar decepcionado por não ter recebido maiores recompensas por seus serviços, como por exemplo, um consulado, ficando, ainda,  talvez enciumado pela predileção que César demonstrava em relação a Marco Antônio.

Pompeu, mesmo assim, concluiu que a sua melhor estratégia era fugir para a Grécia, onde ele poderia reunir um grande exército e, já que controlava a frota romana, interceptar os carregamentos de cereais para Roma, causando ali uma fome cuja responsabilidade seria atribuída a César, enfraquecendo-o perante a Plebe.

Embora esse não fosse um plano ruim, o simples fato de ele ter que abandonar a Itália, demostra o despreparo com que Pompeu foi pego pela rápida ação de César. E isto apesar de terem sido Pompeu e os Optimates que deram o ultimato ao adversário, motivo pelo qual seria de se esperar que eles, ao menos deveriam estar de antemão preparados.

A maior parte da facção dos Optimates acompanhou Pompeu em sua retirada estratégica da Itália . Portanto, ao contrário de César, que era o indiscutível comandante supremo de suas forças, Pompeu, por diversas vezes, tinha que escutar e levar em consideração os palpites militares dos senadores mais proeminentes, muitos deles sem qualquer experiência bélica…

Não é nosso propósito, todavia, aqui narrar pormenorizadamente os eventos da Guerra Civil, mas apenas traçar um quadro explicativo dos eventos que degeneraram no desfecho sangrento dos Idos de março de 44 A.C.

Senhor da Itália, César, ainda desejoso de respeitar as formalidades legais, convocou os senadores que tinham permanecido em Roma para um encontro, realizado em 1º de abril de 49 A.C, mas muito poucos apareceram. Consta que, ofendido com as ausências dos senadores, César teria dito:

Convidei-os para se reunirem a mim na tarefa de governar Roma. Porém, se a timidez faz com que recuem diante da tarefa, não os incomodarei mais. Governarei sozinho“.

Logo depois, porém, César conseguiu convencer (ou compelir) o Senado a autorizar o uso de um fundo de reserva para construir uma frota. Todavia, em uma demonstração de que seus oponentes ainda tinham poder na Cidade, a medida foi vetada pelo Tribuno Lúcio Cecílio Metelo. Não obstante, César ignorou o veto, entrou em Roma e, ameaçando executar Metelo, lançou mão dos recursos, manu militari.

César, então, partiu para enfrentar o exército de Pompeu na Hispânia.  Este, porém, naquele momento encontrava-se na Grécia, reunindo outro exército. Por isso, César assinalou:

Parto para a Espanha para enfrentar um exército sem general e logo seguirei para enfrentar um general sem exército.”

Em Ilerda, na Espanha, César cercou o exército de Pompeu, que se rendeu em 02 de julho de 49 A.C. A partir desta vitória, César principiou um comportamento em relação aos inimigos vencidos que ele repetiria muitas outras vezes durante a Guerra Civil e que se tornaria uma de suas marcas registradas causando admiração em muitos escritores antigos: a “Clementia” de César (clemência), poupando e anistiando os adversários. Com efeito, em Ilerda,  César concedeu aos inimigos derrotados que não quiseram se juntar ao seu exército, a opção de retornarem para casa como civis.

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Esse era um comportamento tão incomum na antiguidade que o próprio exército de César, pela primeira vez desde que ele se tornara um general, amotinou-se. O motivo da revolta era que os seus soldados esperavam saquear os pertences dos vencidos. O motim, contudo, foi reprimido sem muito custo.

Voltando a Roma, César, em apenas 11 dias de estadia na capital, foi nomeado Ditador por um curto período, o que lhe permitiu convocar a eleição para o consulado de 48 A.C, para o qual ele, naturalmente, se candidatou. Ele aproveitou também para colocar seus correligionários em todos os cargos importantes e, além disso, promulgou várias leis, entre elas uma dispondo sobre o pagamento de dívidas, permitindo que fossem dados bens em pagamento, dado o grande número de romanos endividados em função das turbulências políticas. Finalmente, César também restituiu os direitos civis aos cassados durante o governo de Sila e conseguiu que Pompeu fosse declarado fora-da-lei.

De volta à campanha de César na Guerra Civil, seguiram-se o quase-desastre em Dirráquio e a surpreendente vitória em Farsália, em 09 de agosto de 48 A.C., na qual César lutou em desvantagem numérica de 1 x 3 e onde muitos Optimates foram capturados, apesar de Pompeu ter conseguido fugir para o Egito, onde acreditava que iria ser acolhido pelo faraó Ptolomeu XIII, supostamente seu aliado.

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Porém, o jovem faraó, aconselhado a cair nas boas graças do vencedor, mandou prender Pompeu e decapitá-lo, enviando a cabeça dele para César. Quando ele, perseguindo o adversário, chegou em Alexandria, a História registra que César, ao receber, chocado, a cabeça de Pompeu, chegou a chorar, penalizado com o destino do seu ex-genro. E, em verdade, parece mesmo que nunca chegara a haver inimizade pessoal entre os dois grandes homens de Roma.

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Em Farsália, César pode exercer novamente a política de clemência para os adversários. Antes da luta, ele distribuiu aos seus oficiais uma lista dos partidários de Pompeu que deveriam ser poupados. Entre os nomes, estava o de Marco Júnio Bruto, um senador da facção dos Optimates e filho da amante de César, Servília Caepionis, que era irmã de Catão, o Jovem, o senador que pode ser considerado o verdadeiro ideólogo dos Optimates no Senado.

Seguiu-se o envolvimento de César na disputa pelo trono do Egito e o romance com Cleópatra VII, que resultaria no nascimento de seu único filho homem, chamado de Ptolomeu XV Filópator Filómetor César e que foi apelidado de “Cesarion“.

Embora César nunca tenha reconhecido oficialmente o menino Cesarion como filho, a maior parte das fontes do período admite que César era o pai natural dele. Após a vitória na Guerra Civil, César celebrou os  seus merecidos triunfos pelas suas vitórias desde a Gália ( mas somente as vitórias obtidas contra os povos estrangeiros já que ele entendia que as campanhas contra os adversários romanos não deviam ser comemoradas), trazendo Cleópatra e Cesarion para Roma para participarem dos festejos, em 47 A.C,  lugar onde ficariam até o assassinato do Ditador.

O relacionamento de César com Cleópatra e a paternidade de Cesarion foram muito utilizados pelos inimigos políticos dele como propaganda negativa. Chegou-se a alegar que César pretendia casar-se com Cleópatra e mudar a capital do “Imperium” Romano (conjunto das terras dominadas pela República Romana) para Alexandria, deixando Cesarion como seu sucessor. Esta acusação, como se constataria após o assassinato de César, com a abertura do seu testamento, aditando Otávio como filho e herdeiro legítimo, era falsa.

CONTINUA

POR QUE ASSASSINARAM CÉSAR? 2ª PARTE

#César #Caesar #idosdemarço

 

De fato,  após Mário e Sila, agora seria aos generais ambiciosos que as facções políticas do Senado iriam recorrer, e as disputas políticas seriam resolvidas no campo de batalha.

Mário criara as condições para isso, ao conceber um exército de soldados profissionais recrutado entre proletários desempregados que deviam seu emprego e sua lealdade ao Cônsul que os recrutara. E Sila fora o primeiro a se valer de um exército como esse para entrar em Roma à força com o objetivo de derrubar o governo, criando este precedente,  e também inaugurando o costume de recompensar regiamente os seus veteranos com as terras confiscadas dos adversários políticos proscritos.

Um desses generais ambiciosos foi Gnaeus Pompeius (Cneu Pompeu). O Senado, sem dispor de meios militares, já tinha se valido do talentoso general para derrotar as forças contrárias a Sila , na Sicília e na África e depois as de Lépido, que pretendia restaurar o poder dos Tribunos e realizar outras reformas de interesse dos Populares.

Pompey the Great. Marble. Beginning of the 1st century A.D. Inv. No. 733. Copenhagen, New Carlsberg Glyptotek.(Cabeça de mármore de Pompeu, o Grande)

Em um indício de que a ordem tradicional estava com os dias contados, o Senado, quebrando os precedentes, concedeu a Pompeu a honra de celebrar dois triunfos, apesar de ele  sequer ser magistrado e, em 70 A.C, ignorando as normas, nomeou-lhe Cônsul, embora ele não fosse senador.

Ironicamente, Pompeu conseguiu compelir o Senado a fazer isso aliando-se com os Populares, os quais, até então, ele havia perseguido. Para obter o apoio deles, Pompeu comprometeu-se a revogar os decretos de Sila que retiraram os poderes dos Tribunos da Plebe e dos Concílios.

Nessa época, Caio Júlio César entrou oficialmente na política e a sua adesão à causa dos Populares ficou explícita quando, em 69 A.C, ele, no funeral de sua tia Júlia, a viúva de Mário, pronunciou um discurso fúnebre, onde exaltou a memória de seu tio Mário, discursando a frente de uma imagem do grande general falecido, coisa que não era vista em Roma desde o governo de Sila, .

Foi, de fato, como integrante da facção dos Populares que César seguiu a carreira política, em um período de acirramento da oposição entre eles e os Optimates. O astuto César, contudo, também procurou mostrar-se atraente para os conservadores, como ilustra o fato dele, tendo recém ficado viúvo de Cornélia, ter se casado com Pompéia, que era neta de ninguém menos do que Sila, o inimigo figadal dos Populares, sendo que o casamento ocorreu em 67 A.C.

Para ganhar eleições e atingir os cargos mais altos, César, como todos os demais políticos romanos, precisava de muito dinheiro, e ele já tinha se endividado bastante para se eleger para o cargo de Questor. Portanto, de muita utilidade foi a sua recente amizade com o aristocrata Marco Licínio Crasso, um dos homens mais ricos de Roma, e que disputava a primazia política com Pompeu ( eles tinham sido colegas de consulado, em 70 A.C.). Crasso também apoiara, como Cônsul, a restauração dos poderes dos Tribunos da Plebe, apoio esse que o afastou da facção dos Optimates, aproximando-o dos Populares.

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(Cabeça de mármore de Crasso, foto de Gautier Poupeau )

Com o apoio financeiro de Crasso, César conseguiu se eleger para o cargo de Edil, em 65 A.C. Os Edis eram magistrados encarregados de vários serviços urbanos em Roma, incluindo a promoção de jogos públicos, e César aproveitou este cargo para agradar a Plebe promovendo espetáculos suntuosos,  o que o tornou muito popular. Começava a nascer a política do “Pão e Circo” (“Panem et Circensis“)…

Depois de exercer a edilidade, César gastou rios de dinheiro na eleição para o prestigioso posto de “Pontifex Maximus“, o chefe dos cultos oficiais do Estado e, apesar de não ser o favorito, ele venceu o certame, em 63 A.C.

A política em Roma tinha-se tornado altamente violenta e corrupta e a República em frangalhos convidava os homens ambiciosos a tentarem a sorte na disputa pelo poder supremo, o que, obviamente, encontrava obstáculo no tradicionalismo da elite senatorial, Para isso, contudo, os sequiosos de poder ainda precisavam de votos.

O aristocrata Lúcio Sérgio Catilina foi um desses, que, através da demagogia e dos subornos, atraía uma grande clientela e seguidores. Como ele não conseguira ser Cônsul, por ter sido barrado por Marco Túlio Cícero (ele também um “Novus Homo“), Catilina uniu-se à facção dos Populares e passou a defender uma nova lei agrária ampliando a Lex Sempronia .

Cicero_(1st-cent._BC)_-_Palazzo_Nuovo_-_Musei_Capitolini_-_Rome_2016(Busto de Cícero, nos Museus Capitolinos, foto de José Luiz Bernardes Ribeiro / )

 

Contudo, não obtendo sucesso nas eleições de 63 A.C, apesar de apoiado por Crasso e César, Catilina arquitetou uma conspiração visando eliminar o Senado,  trama que foi descoberta e denunciada publicamente por Cícero no Senado, em suas famosas “Catilinárias“. E assim, Catilina foi facilmente derrotado e morto pelas tropas legalistas.

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César, embora fosse aliado de Catilina, não teve participação na conspiração, chegando até a informar Cícero da trama, Não obstante,  César defendeu, nos debates no Senado, que os conspiradores presos não fossem executados, como queriam Cícero e o senador ultraconservador Catão, já que a lei não previa nem a pena de morte, nem o julgamento pelo Senado, para casos como o dele. Mesmo assim, a execução dos conspiradores ocorreu, sob a alegação de motivos de “segurança do Estado“.

Apesar da conspiração de Catilina ter colocado em risco a sua carreira política, César conseguiu se eleger para o cargo de Pretor, em 62 A.C. Segundo a lei romana, após cumprir o mandato, ele fazia jus a ser indicado para governar uma das províncias romanas, no seu caso, a Hispânia, como Propretor. Os costumes romanos admitiam que o governador ficasse com uma parte dos tributos arrecadados dos súditos provinciais, sem falar do produto do que fosse saqueado das tribos ainda rebeldes, desde que não houvesse muitos exageros. E César, após derrotar várias tribos celtiberas, aproveitou esta oportunidade para conseguir o dinheiro necessário para pagar a sua legião de credores em Roma.

Naquele ano, após uma prolongada e vitoriosa campanha militar no Oriente, Pompeu voltou à Roma, e, para a surpresa geral, ele entrou na Cidade como um simples cidadão e sem exército. Provavelmente, esse foi um gesto politicamente calculado para obter o apoio do Senado e do povo, demonstrando ser ele, Pompeu, um cidadão cumpridor da lei e dos costumes tradicionais, imitando, neste particular, Sila.

Contudo, Pompeu não gozava nem da simpatia dos conservadores, devido à revogação das leis de Sila que restringiam o poder tribunício, nem dos Populares, dado o seu histórico de lutas contra os mesmos. Assim,  ele ficou muito contrariado quando o Senado decidiu não recompensar os seus soldados veteranos com terras

Quando César voltou à Roma, no ano 60 A.C, ele viu a oportunidade de conjugar sua ambição com as dos dois homens mais poderosos de Roma: Pompeu e Crasso, ambos insatisfeitos com os Optimates, que controlavam o Senado. Eles então formaram a aliança política batizada de “Primeiro Triunvirato”.

A aliança foi cimentada pelo casamento de Pompeu com Júlia, filha única de César. Mesmo se tratando de um casamento arranjado, e apesar da diferença de idade entre os noivos (ele tinha 47 anos e ela, 24), os esposos acabariam se apaixonando, e Pompeu sofreria muito com a morte prematura de Júlia, no parto de uma menina que também não sobreviveu).

César foi eleito Cônsul em 59 A.C. e o Triunvirato assumiu o poder de fato em Roma. Apesar da violenta oposição dos Optimates, liderados por Catão, o Jovem, e do seu colega de consulado, Bíbulo, César conseguiu aprovar uma legislação dando terras na Campânia para os veteranos de Pompeu. Ele também perdoou um terço das dívidas de impostos dos agricultores. O seu correligionário Clódio conseguiu aprovar uma lei especial determinando o exílio de Cícero, pela execução dos conspiradores de Catilina sem julgamento. Essa lei também designou o adversário Catão para governar a distante Chipre, o que equivalia, na prática, a um exílio, afastando-o do Senado. Muitas dessas iniciativas de César foram executadas em desacordo com a lei romana, o que o deixaria vulnerável à retaliação dos adversários, em tempos futuros.

 

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(O chamado “Busto de Tusculum” é considerado pelos especialistas o único busto existente que foi produzido durante a vida de César)

 

Os Triúnviros também decidiram dividir o governo das províncias romanas entre si e César escolheu controlar as Gálias Cisalpina e Narbonense, além da Ilíria, autonomeando-se Procônsul, com mandato de 5 anos, a partir de 58 A.C.

A escolha tinha um motivo: César constatara que lhe faltavam as glórias militares de Pompeu , que já havia derrotado Sertório, na Espanha, a rebelião do gladiador Espártaco (junto com Crasso), na Itália, os piratas do Mediterrâneo e o rei Mitridates, anexando o Reino do Ponto à Roma, entre outras vitórias, as quais lhe valeram o apelido de Magno, ou “o Grande” e, ainda, em menor escala, os louros de Crasso.

O governo da Gália permitiu a César arquitetar o plano que lhe colocaria no mesmo plano dos seus colegas: A anexação da Gália Transalpina, povoada pelos temidos gauleses, que, séculos atrás, em 390 A.C, tinham até saqueado e incendiado Roma. O pretexto foi a necessidade de fazer um ataque preemptivo, devido ao fato de tribos aliadas dos romanos terem sido atacadas por gauleses e germânicos que, supostamente, pretendiam migrar para a Gália Cisalpina, ou seja, a parte da Itália que fica ao sul dos Alpes.

Em nove anos de guerra, César derrotou completamente os gauleses e anexou toda a Gália. Para muitos, essa teria sido a maior contribuição de César à História, pois, sem isso, não existiria a França e, consequentemente, a Europa e sua civilização seriam completamente diferentes.

A vitória na Gália deu a César não somente uma aura de herói nacional e de general brilhante, mas também o exército mais disciplinado e bem treinado de Roma, além de muito dinheiro proveniente dos saques, afinal os gauleses eram um povo muito próspero.

Enquanto César lutava na Gália, ele certamente mantinha um olho nos assuntos domésticos. Com efeito, em Roma, o cimento que mantinha unido o Triunvirato começava a amolecer…Pompeu, aparentemente se ressentia do brilho das conquistas militares de César, as quais ameaçavam ofuscar as suas próprias. Talvez por isso, ele manobrou para trazer Cícero de volta à Roma e ambos acabaram se aproximando.

Em 57 A.C., Pompeu recebeu poderes extraordinários do Senado para cuidar do abastecimento de cereais de Roma, o que o colocava em uma excepcional posição em relação aos outros dois colegas, no que tange a capacidade de angariar as simpatias da Plebe. Já as relações entre Crasso e Pompeu, que nunca tinham sido boas, também iam de mal a pior.

Os nobres conservadores aproveitaram as dissensões entre os Triúnviros e conseguiram eleger um dos seus integrantes como Cônsul para o ano de 56 A.C. Por sua vez, Cícero questionou a legalidade da nomeação de César para o governo da Gália.

Percebendo o risco ao Triunvirato e a si mesmo, César deixou o comando da campanha da Gália com seus lugares-tenentes e convocou Pompeu e Crasso para uma reunião em Lucca, na fronteira da Itália com a Gália Cisalpina, em abril de 56 A.C.

Nesse encontro, que passaria à História como a “Conferência de Lucca“, César, Pompeu e Crasso resolveram as suas diferenças, estabelecendo que os dois últimos seriam candidatos a Cônsul no ano seguinte, com o apoio de César. Assegurada a eleição, os novos cônsules promulgariam uma lei prorrogando o mandato do proconsulado de César na Gália por mais 5 anos, sendo que, após o término do consulado de Pompeu e Crasso, eles seriam designados procônsules, respectivamente da Hispânia e da Síria, também pelo prazo de 5 anos.

O adversário de Crasso e Pompeu na eleição para o consulado de 55 A.C, era Lúcio Domício Enobarbo, um fervoroso membro da facção dos Optimates, casado com a irmã do líder Catão, o Jovem. Ele  prometeu proibir a prática de compra de votos dos eleitores e revogar o comando de César na Gália. Porém, no dia da eleição, ele foi expulso à força do Campo de Marte pelos partidários dos Triúnviros, com o reforço de mil soldados enviados por César, ação que garantiu a vitória de Crasso e Pompeu.

Os novos cônsules executaram os termos do acordo da Conferência de Lucca, através da “Lex Pompeia Licinia“, garantindo a recondução de César para a Gália e o proconsulado da Síria e da Hispânia para Crasso e Pompeu, respectivamente.

O destino, porém, abalaria a recém-obtida estabilidade do 1º Triunvirato: no ano de 54 A.C, Júlia, a filha de César e esposa de Pompeu, morreria no parto e, em 53 A.C, Crasso, também ele sedento de obter a glória militar contra os Partos, seria capturado e morto por estes, após a desastrosa Batalha de Carras, na pior derrota militar sofrida pelos romanos desde a 2ª Guerra Púnica, 150 anos antes…

O Triunvirato estava, assim acabado, antes de tudo, matematicamente, pela simples eliminação de Crasso. Agora, só restavam César e Pompeu. E não havia também mais a doce Júlia, a quem seu pai e o seu esposo eram muito devotados e a quem eles deviam muito a existência de uma relação cordial entre ambos.

Enquanto isso, desde 55 A.C, em campanha na Gália, César realizava algumas das maiores façanhas militares que Roma já vira. Ele havia derrotado um enorme horda de tribos germânicas, os Usipetes e Tencteris, e, na fuga, os sobreviventes derrotados, inclusive mulheres e crianças, totalizando cerca de meio milhão de bárbaros, foram aniquilados, a maioria, acredita-se, afogados, após tentarem cruzar a confluência entre os rios Reno e Mosela. Depois, César mandou construir uma espetacular ponte de madeira sobre o largo Reno e cruzou, pela primeira vez na História de Roma, aquele largo rio, marchando, também de forma inédita, por dezoito dias na margem oriental. Ainda naquele ano, César cruzou o Canal da Mancha e invadiu, também pela primeira vez na História, a Britânia, ficando lá também por  18 dias. Ele ainda voltaria àquela Ilha no ano seguinte.

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Pompeu, apesar de ser governador da Hispânia, permanecera todo esse tempo em Roma, recebendo as notícias das façanhas de César e sendo assediado pelos partidários da nobreza conservadora no Senado, sobretudo após a morte de Crasso, em 53 A.C. Ele certamente não se opôs que o ferrenho opositor de César, Lúcio Domício Enobarbo conseguisse se eleger Cônsul no ano anterior.

Sintomaticamente, Pompeu recusou a proposta de César de celebrarem uma nova aliança matrimonial, na qual Otávia, sobrinha-neta de César (e irmã do futuro imperador Otávio Augusto) lhe foi oferecida em casamento. Para reforçar ainda mais o distanciamento, Pompeu,  demonstrando uma completa oposição à proposta de renovação da aliança com o seu colega, casou-se, em 52 A.C., com Cornélia Metela, filha de Quinto Cecílio Metelo Cipião, um dos mais empedernidos membros da facção dos Optimates e portanto inimigo figadal de César.

Em 52 A.C, as lutas políticas na cidade de Roma degeneraram em anarquia, com repetidos motins nas ruas, culminando no assassinato do ex-Tribuno da Plebe e membro dos Populares, Clódio,  violências que resultaram inclusive no incêndio do edifício da Cúria do Senado e impediram a eleição dos cônsules naquele ano (Clódio, a bem da verdade, era um dos políticos que mais se valeram do uso político da violência das verdadeiras gangues de rua em que os “collegia”- corporações de ofício de Roma, haviam se tornado).

A situação caótica em Roma obrigou o Senado à medida extrema de nomear Pompeu como único Cônsul para aquele ano. Imediatamente, Pompeu convocou seus soldados e restaurou a ordem na Cidade. Evidenciando sua aproximação com os Optimates, Pompeu nomeou seu sogro Metelo Cipião como seu colega para o Consulado de 52 A.C.

Embora Pompeu ainda resistisse a tomar a iniciativa do rompimento com César, qualquer um que tivesse o mínimo discernimento político perceberia que isso era apenas uma questão de tempo. Na verdade, o motivo pel qual Pompeu e o Senado somente ainda não haviam tomado nenhuma medida mais efetiva contra César era porque, ainda naquele ano de 52 A.C, estourara uma rebelião geral das tribos gaulesas, recém-conquistadas. Unidos e lideradas por Vercingetórix, os gauleses tentariam um confronto definitivo na cidade fortificada de Alésia.

Alesia_8.jpg(Reconstrução das fortificações construídas por César em torno de Alésia, foto de Christophe.Finot )

Contudo, em um mês, César não apenas sitiou  Alésia, defendida por 80 mil guerreiros, como ainda derrotou a força gaulesa de 100 mil homens que tentava furar a praça sitiada, que, por sua vez,  tinham cercado os romanos. Foi uma vitória espetacular que levou o prestígio de César às alturas. Apesar de a única fonte sobre a campanha ser os próprios “Comentários” de César, os mesmos são geralmente aceitos como verídicos e acurados, sendo respaldados pelas escavações arqueológicas. Finalmente, no final de 51 A.C, após quase 10 anos de luta, César havia submetido a Gália até o Reno, equivalendo à maior parte do território da atual França.

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Terminada a luta na Gália, a facção dos Optimates no Senado tratou de tentar  decretar o o fim do comando de César para aquela campanha. Tanto os senadores conservadores quanto o próprio César sabiam que, despido da condição de governador e sem cargo público, César perderia a sua imunidade, sendo muitos os pretextos para processá-lo e condená-lo, na mais suave das hipóteses, ao exílio.

map 1280px-Europe_-50.png(Terminada a conquista da Gália, o mapa mostra o território da República Romana, em amarelo. Mapa de Cristiano64 / Coldeel)

 

A iminente perda da imunidade tornava-se aflitiva para César. Em 50 A.C, enquanto ainda na Gália, ele tentou, sem sucesso, concorrer ao cargo de Cônsul, mas sem abandonar o Proconsulado da Gália e continuando a comandar seus exércitos na Província, o que era proibido por lei.

César, porém, contava com o apoio do Tribuno da Plebe Caio Escribônio Curião, que, segundo alegava-se, teria sido subornado pelo pagamento de suas dívidas por César e, de fato, ele vetava todos os projetos de lei que pretendiam substituir César na Gália ou terminar o seu mandato.

Curião inclusive propôs uma solução conciliatória entre os partidários de César e a facção dos Optimates: César renunciaria ao comando da Gália, desde que ele recebesse permissão para concorrer às eleições para o Consulado de 49 A.C. somado à condição de que Pompeu também renunciasse ao seu comando militar. A proposta até encontrou simpatia do grupo de senadores moderados, mas o núcleo conservador do Senado, liderado pelo Cônsul Caio Cláudio Marcelo, se opôs ferozmente a ela e obstruiu a votação de qualquer proposta naquele sentido.

Com certeza, os senadores mais sensatos percebiam o risco iminente de uma guerra civil e apoiavam uma solução de compromisso. Assim, quando, na Sessão do Senado do dia 1º de dezembro de 50 A.C., o Cônsul Cláudio Marcelo reapresentou a proposta de substituição de César na Gália, eles, que inicialmente haviam aprovado a remoção dele, acabaram aprovando, por 370 votos a favor e apenas 22 contra, a emenda substitutiva apresentada por Curião, a qual estabelecia que também o comando de Pompeu deveria ser encerrado.

Marcelo recusou-se a aceitar o resultado da votação da emenda de Curião e, alegando que César havia cruzado os Alpes com 10 legiões para invadir a Itália, declarou dissolvida a Sessão, antes da aprovação do texto. Em seguida, rompendo com a ordem institucional, Marcelo e alguns integrantes da facção conservadora partiram para a residência de Pompeu para tentar convencê-lo a assumir o comando de todas as tropas na Itália, fazendo o que fosse necessário para “salvar a República”. Pompeu concordou, mas ressalvando que ele faria isso, “a não ser que fosse encontrado um caminho melhor”.

Curião, cujo mandato de Tribuno e consequente inviolabilidade terminariam em poucos dias, decidiu fugir de Roma e ir ao encontro de César, que se encontrava em Ravena, fora dos limites da Itália Romana, acompanhado apenas da XIII Legião. Apesar de instado por Curião a marchar sobre Roma, César decidiu fazer uma nova proposta de acordo: Ele seria nomeado governador da Ilíria e manteria sob seu comando apenas uma legião, até a eleição para o consulado de 49 A.C. A proposta foi terminantemente recusada pelos Cônsules.

No dia 1º de janeiro de 49 A.C., César tentou sua última cartada no Senado para manter a sua carreira política: Valendo-se do novo Tribuno da Plebe, Marco Antônio, que, da mesma forma que o seu colega, Longino, eram fiéis colaboradores de César, ele enviou, por Curião, uma carta ao Senado para ser lida em sessão por Antônio. Todavia, quando Antônio começou a ler a carta, após o trecho em que César reiterava a disposição de somente deixar a Gália e desmobilizar o seu exército caso Pompeu fizesse o mesmo, ele foi interrompido aos gritos pelos senadores conservadores, e não conseguiu continuar.

Roman male portrait bust, so-called Marcus Antonius. Fine-grained yellowish marble. Flavian age (69—96 A.D.). Rome, Vatican Museums, Chiaramonti Museum.(Busto de Marco Antônio)

 

Metelo Cipião, o sogro de Pompeu, propôs que fosse fixada uma data para que César fosse demitido do comando na Gália e dispensasse suas tropas, após o que ele seria considerado “Inimigo Público“. A moção foi aprovada, e os únicos votos contrários foram de Curião e do senador Célio. Muito provavelmente, a explicação para a diferença entre esta votação e a ocorrida um mês antes era a maciça presença de tropas de Pompeu nas cercanias de Roma…

O Tribuno Marco Antônio vetou a moção e apresentou nova proposta para que fosse incluído na lei que o comando de Pompeu também se encerraria na mesma data, sendo a idéia bem recebida. Porém, novamente, o cônsul Lúcio Cornélio Lêntulo, apoiado por Metelo, dissolveu a Sessão antes que a lei com as modificações propostas  por Antônio fosse aprovada.

Em 7 de janeiro de 49 A.C, o Senado Romano aprovou o “Senatus Consultum Ultimus” declarando Lei Marcial e nomeando Pompeu como “Protetor de Roma“, isto é, na prática, um Ditador. Como era esperado, essa lei também declarou o término do mandato de César na Gália, ordenando que o mesmo entregasse o comando das tropas. Em seguida, os soldados de Pompeu ocuparam Roma. Pompeu expediu uma nota dizendo que “não poderia garantir a segurança dos Tribunos“.

Marco Antônio e Cássio entenderam o recado e fugiram de Roma, indo ao encontro de César. Quando lá chegaram, César percebeu que não havia mais espaço para manobras políticas ou negociações. Ele teria que optar entre obedecer o Senatus Consultum Ultimus e arriscar a sorte como um cidadão comum exposto à sede de vingança dos inimigos, ou tornar-se um rebelde e um fora-da-lei.

Na verdade, como frequentemente acontece nas guerras, revoluções ou golpes de Estado, as partes rivais sempre alegam um bom pretexto para legitimar a sua ação. O fato é que a fuga dos Tribunos da Plebe, ou, como é mais correto, a expulsão deles de Roma, violando a sua sacrossantidade legal, deu a César um pretexto para ele para começar a Guerra Civil.

Rimini088(Coluna de César, em Rimini, erigida para marcar o local onde César discursou para as suas tropas exortando-as a entrarem com ele na Itália. Foto de Georges Jansoone (JoJan)

No dia 10 de janeiro de 49 A.C. (data estimada), César, comandando apenas a XIII Legião, cruzou um riacho chamado Rubicão, que marcava a fronteira da Itália com a Gália Cisalpina. Ao entrar na Itália, ele violou a lei romana e era, tecnicamente, autor de um crime de alta traição. Em suas próprias palavras, “A sorte estava lançada” (alea iacta est). Começava a #GuerraCivil.

Menander_and_New_Comedy_Masks_-_Princeton_Art_Museum.jpg(Relevo do autor grego Menandro, com máscaras de teatro de Comédia. César era grande apreciador da obra de Menandro e a frase “A sorte está lançada”, ou, ‘os dados estão lançados’, foi extraída de uma das peças dele  – Deipnosophistes, livro XIII)

 

CONTINUA

ELAGÁBALO – MENINO TRAVESTIDO DE IMPERADOR

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(Busto de Elagábalo, foto de Giovanni Dall’orto)

 

#Elagábalo #Heliogabalus

Em 11 de março de 222 D.C, no Quartel da Guarda Pretoriana (Castra Pretoria) em Roma, os soldados da Guarda Pretoriana atacaram e mataram o Imperador Romano Elagábalo (Elagabalus, nome que às vezes também é grafado como Heliogábalo) e a mãe dele, Júlia Soêmia, em seguida aclamando o seu primo, Severo Alexandre, ali também presente, como novo imperador. Em seguida, os assassinos decapitaram os cadáveres e jogaram os corpos de Elagábalo e de Júlia no rio Tibre.

Nascido com o nome de Varius Avitus Bassianus, na Síria, em 203 D.C, Elagábalo era filho de Sextus Varius Marcellus e de Julia Soemias Bassiana (Júlia Soêmia).

 

Julia_Soemias_2.jpg(Detalhe de estátua de Júlia Soêmia, mãe de Elagábalo, foto de Wolfgang Sauber )

 

O pai de Elagábalo era membro de uma família da classe Equestre, originária da cidade grega de Apamea, na Síria, e  que ascendeu durante o reinado do imperador Septímio Severo, período no qual Sextus Varius Marcellus ocupou vários cargos importantes, como Procurador dos Aquedutos em Roma, Procurador Romano da Britânia, Prefeito da Urbe e Prefeito Pretoriano.

Como evidência do seu status na corte de Severo, Sextus Varius Marcellus se casou com Júlia Soêmia, sobrinha da poderosa imperatriz Júlia Domna, que era irmã da mãe dela, Júlia Maesa.

ulia_Domna_Glyptothek_Munich_354(A poderosa, bela e inteligente imperatriz Júlia Domna era tia-avó de Elagábalo)

As duas irmãs, a imperatriz Júlia Domna e a avó de Elagábalo, Júlia Maesa, eram filhas de Julius Bassianus, sumo-sacerdote do Templo do deus Elagábalo (El-Gabal ou Ilāh hag-Gabal, literalmente, “O Deus da Montanha”), situado em Emesa (a moderna Homs), na Síria, e membro da dinastia dos Sempseramidas, os governantes ancestrais daquela cidade, a qual, durante muito tempo, havia sido a capital de um reino-cliente de Roma, até aquela ser anexada pelo Imperador Caracala. O posto de sumo-sacerdote de El-Gabal era hereditário, e foi assumido por Elagábalo.

Emesa era uma cidade próspera e o culto ao Deus-sol se espalhava pelo império romano no século III. O Templo de Elagábalo guardava uma pedra negra cônica sagrada, que muitos acreditavam ter caído do céu,  a qual  atraía peregrinos e doações de toda a região, Consequentemente, os sumos-sacerdotes de El-Gabal eram riquíssimos.

homs03a(Homs, antiga Emesa, no início do século XX)

Vale observar que o culto a El-Gabal não seria primeira, nem a última religião oriental a cultuar uma pedra negra supostamente caída do céu…Com efeito, hoje os muçulmanos veneram uma pedra negra chamada de al-Hajar al-Aswad, que se encontra no interior da Caaba, uma construção quadrada em pedra, cuja construção é atribuída ao patriarca Abraão, em Meca.

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(A Pedra Negra e o Templo de El-Gabal são retratados nessa moeda cunhada por um governante Sempseramida de Emesa, em meados do século III D.C.),

 

Quando Septímio Severo morreu, ele foi sucedido por seus dois filhos Caracala e Geta. Caracala logo matou o seu irmão Geta e assumiu o trono sozinho, em 211 D.C. A imperatriz viúva, Julia Domna, porém, continuou muito influente na Corte. Porém, após seis anos de um reinado turbulento, Caracala foi assassinado, em 8 de abril de 217 D.C. por um guarda-costas, em uma estada próxima à Carras, na Turquia, onde ele se encontrava em preparativos para uma campanha contra a Pérsia, crime cometido provavelmente à mando do Prefeito Pretoriano Macrino, que assumiu o trono.

Em decorrência, Júlia Domna, mãe do imperador assassinado que estava gravemente doente devido a um câncer de mama, suicidou-se, recusando-se a comer.

Macrino exilou o restante da família de Caracala, agora chefiada por sua tia Júlia Maesa, para a sua nativa Emesa. Esta decisão foi um grande equívoco de Macrino, pois, valendo-se de seu imenso poder e riqueza na região, a influente matriarca síria e suas parentes iniciaram uma conspiração para derrubar Macrino.

Em primeiro lugar, Júlia Soêmia declarou publicamente que seu filho Varius Avitus Bassianus (Elagábalo) era filho ilegítimo de Caracala ( consta que, de fato, ambos eram muito parecidos) e, portanto, o legítimo herdeiro do imperador falecido.

Depois, usando seus vastos recursos financeiros, Júlia Maesa conseguiu convencer a III Legião “Gallica, baseada na Jordânia, e o seu comandante, Publius Valerius Comazon, a aclamarem Elagábalo  imperador, em 16 de maio de 218 D.C.

O prestígio de Macrino já estava abalado pelo resultado desfavorável da guerra que ele vinha movendo contra a Pérsia, onde Roma teve que pagar uma indenização para terminar a guerra.

Macrino tentou combater a insurreição, mas as tropas enviadas aderiram à revolta. Quando ele mesmo entrou em batalha, foi derrotado, em Antióquia, em 8 de junho de 218 D.C e tentou fugir para a Itália e foi executado na Capadócia.

O Senado Romano, sem alternativa, acabou reconhecendo formalmente Elagábalo e ele assumiu o nome oficial de Marco Aurélio Antonino Augusto,  em uma tentativa de legitimar a sua suposta condição de descendente de Caracala (que por sua vez procurara difundir a crença, muito pouco provável, de que ele era descendente do imperador Marco Aurélio).

Não obstante  se tenha inaugurado,  com Trajano,  cidadão romano nativo da Espanha,  a possibilidade de que cidadãos nativos de outras províncias que não a Itália assumissem o trono, com certeza a ascensão de Elagábalo deve ter espantado Roma.

Afinal, Elagábalo era sacerdote de uma religião estrangeira de origem semítica (o povo de Emesa falava aramaico, a mesma língua falada por Jesus Cristo). Ainda que os romanos cultuassem vários deuses estrangeiros, tais como, por exemplo, a egípcia Ísis, estas eram divindades que não ofuscavam as tradicionais do Panteão Romano, pois normalmente elas eram passíveis de associação ou assimilação.

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Antes mesmo que a comitiva de Elagábalo chegasse a Roma, a mãe dele, Júlia Soêmia, já havia mandado para a capital um grande retrato pintado de Elagábalo vestido com os trajes de sumo-sacerdote,  o qual foi pendurado em cima do Altar da deusa Vitória, na Cúria do Senado Romano (cujo prédio ainda existe, no Fórum Romano). para que os romanos fossem se acostumando com o fato de serem governados por um sacerdote estrangeiro…

Enquanto isso, a comitiva parou em Nicomédia para passar o inverno. Lá, segundo as fontes, Elagábalo entregou-se à prática de vários rituais orgiásticos característicos de sua religião, os quais desagradaram às tropas. Houve até o início de uma revolta, mas ela acabou suprimida.

Entretanto, o poder agora baseava-se na riqueza e influência dos sírios, que foram instalados nos postos chaves. Comazon,  o correligionário de primeira hora, recebeu o posto de Prefeito Pretoriano e ela ainda seria duas vezes cônsul. A mãe do novo imperador, Júlia Soêmia, e  a sua tia, Júlia Maesa, foram declaradas “Augustas”. Mais surpreendente, as duas seriam, um pouco mais tarde, as primeiras e únicas mulheres a serem admitidas no Senado Romano. E Júlia Maesa ainda receberia o título de “Mãe do Senado”.

Elagábalo também trouxe junto com ele da Síria a Pedra Negra do Templo de El-Gabal em Emesa para Roma, onde, para guardá-la, mandou construir um templo, chamado de “Elagabalium“, na colina do Palatino (foram cunhadas moedas mostrando a pedra). Ele também mandou retirar várias relíquias de templos ancestrais da Cidade Eterna e transferi-los para o Elagabalium.

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(Ruínas do terraço do Elagabalium, em Roma, e maquete mostrando sua provável aparência)

 

O deus Elagábalo foi associado ao “Deus Solis Invictus“, para identificá-lo como o Deus-Sol, cujo culto vinha crescendo desde a virada do século III.

Em uma grande demonstração de falta de respeito para com a tradicional religião romana, Elagábalo se casou a virgem vestal Aquília Severa, o que muito escandalizou os romanos, já que essas sacerdotisas deveriam permanecer virgens durante os seus 30 anos de serviço. Mais grave ainda, a lei romana previa a pena de morte, tanto para aquele que tivesse deflorado uma virgem vestal, como para esta própria.

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(Denário cunhado durante o reinado de Elagábalo, com a efígie de Aquília Severa)

Pressionado pelo escândalo,  Elagábalo se divorciou de Aquília e se casou com Anna Aurelia Faustina, uma descendente do imperador Marco Aurélio.  Ele teria cinco esposas no total, em sua curta vida (sua primeira esposa foi a aristocrata Júlia Cornélia Paula, um casamento arranjado por sua mãe, após a sua ascensão ao trono, tendo dela se divorciado para se casar com a vestal Aquília).

Entretanto, segundo as fontes,  a maior paixão de  Elagábalo foi o seu escravo Hierócles, um condutor de carruagens a quem ele chamava de marido. Consta que Elagábalo, certa vez, teria dito, a respeito do rapaz: “ Eu tenho muito prazer em ser sua amante, sua esposa e sua rainha“.

Embora alguns historiadores modernos sustentem que as fontes antigas exageraram os fatos acerca dos imperadores, especialmente de Elagábalo, o fato é que Cassius Dio, a História Augusta e Herodiano (os dois últimos, de fato, fontes frequentemente não confiáveis), convergem para afirmar a ocorrência desses comportamentos de Elagábalo.

Narra-se, por exemplo, que Elagábalo se apresentaria em público vestido de mulher, maquiado e com os olhos pintados. E ele teria também mandado depilar o seu corpo inteiro e até procurado um médico para fazer uma espécie de operação de mudança de sexo, visando fazer um órgão genital feminino em si mesmo, o que o tornaria, até onde se sabe, o primeiro governante transexual da História.

Outro companheiro de Elagábalo teria sido Aurelius Zoticus, no colo de quem, reclinado, o imperador chegava até a fazer as refeições. Todavia, consta que Hierócles, ciumento do rival, conseguiu, através de um médico, um tipo de medicamento que  causava impotência, fazendo com que, diluído em alguma bebida, fosse servido a Zoticus, que, sem poder mais satisfazer os desejos do imperador, foi mandado embora do Palácio.

E Elagábalo de fato, segundo as fontes, apreciava ser surpreendido por Hierócles enquanto mantinha relações sexuais com outros homens, ocasião em que se comprazia ao ser castigado fisicamente pelo seu companheiro traído.

Outra prática escandalosa de Elagábalo, relatada pelos historiadores antigos, era o seu costume de se prostituir no próprio Palácio, colocando-se nu atrás de uma cortina, cobrando para praticar sexo com os homens que se deitavam com ele (no que talvez fosse um ritual da religião de El-Gabal, pois vários cultos semíticos incluíam a prostituição sagrada).

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(Representação artística do rosto de Elagábalo com base nos seus retratos que sobreviveram)

 

Em algum momento, Júlia Maesa percebeu que a crescente rejeição a Elagábalo pela sociedade romana, e, sobretudo, pelos militares romanos, colocava em perigo a própria posição da família. Ela também percebeu que os seus reiterados excessos sexuais eram encorajados pelo fervor religioso dele e de sua filha, Júlia Soêmia, a mãe do imperador, no culto a El-Gabal.

Júlia Maesa então aproximou-se de sua outra filha, Júlia Maméia, que também tinha um filho, Severo Alexandre, então com 13 anos de idade. A influente Júlia Maesa conseguiu persuadir Elagábalo a nomear seu primo Severo como seu herdeiro, dando-lhe o título de “César”. Naquele mesmo ano, 221 D.C, Elagábalo e Severo exerceram o consulado.

Contudo, percebendo o entusiasmo que a nomeação de  Severo Alexandre provocou nos soldados da Guarda Pretoriana, há muito incomodados com os seus excessos, Elagábalo resolveu anular sua decisão e revogar os títulos concedidos ao seu primo. Contudo, essa decisão fez o  público e as tropas se alvoraçarem temendo pela vida do menino.

Os Pretorianos demandaram a presença de Elagábalo e Severo no Castra Pretoria, devido aos rumores de que Severo pudesse ter sido assassinado. É possível que o motim tenha sido instigado por Júlia Maesa e Júlia Maméia.

Quando o imperador e seu primo apareceram, os guardas começaram a saudar Severo Alexandre, ignorando Elagábalo, que furioso, teria ordenado a prisão dos simpatizantes do primo. Essa ordem, por sua vez,  enfureceu ainda mais a tropa, que imediatamente atacou o palanque e perseguiu Elagábalo e sua mãe, os quais tentaram fugir. Júlia Soêmia tentou proteger o filho, abrançando-o, mas ambos acabaram mortos e decapitados. Os corpos deles foram arrastados pelas ruas e o de Elagábalo foi jogado no Rio Tibre. Nos dias seguintes, várias pessoas associadas a Elagábalo foram mortas, incluindo Hierócles. A Pedra Negra foi imediatamente mandada de volta para Emesa, e provavelmente ela só não foi destruída porque os romanos eram notadamente um povo supersticioso, e também para não causar desnecessário descontentamento entre a população de Emesa.

 

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(Severo Alexandre, primo de Elagábalo e seu sucessor no trono imperial)

Elagábalo morreu com a idade de dezoito anos. Com apenas cerca de quinze anos ele fora feito imperador pela mãe e pela avó. Ele é descrito pelos historiadores como travesti, transexual ou mesmo transgênero.

Entendemos que é difícil avaliar o comportamento sexual e a moral dos antigos pelos padrões modernos, e nem devemos utilizar exemplos da antiguidade para justificar ou condenar aspectos das sociedades atuais. Certamente, o que era considerado comportamento “normal” ou padrão socialmente aceito pelos romanos é diferente do vigente nos dias de hoje. Heterossexualidade e homossexualidade para os romanos eram conceitos vagos comparados com as nossas definições atuais. Imperadores considerados “bons” pelos historiadores romanos, como Trajano e Adriano, notoriamente sentiam atração e tinham relações sexuais com jovens rapazes, sem que isso tenha comprometido a sua reputação. No máximo, como vemos em Dion Cássio sobre Trajano, isso era mencionado de passagem, como uma curiosidade e uma ponta muito sutil de ironia. A censura moral dos autores antigos aos imperadores sobre este tema, é feita muito mais ao desregramento ou à luxúria desenfreada, ou, ainda, à efeminação caricatural, pois eles esperavam de um imperador uma aparência marcial e um comportamento masculino, característica essa que não era manchada pelo fato deles fazerem sexo com rapazes, desde que eles assumissem a posição ativa.

É provável que muitas das passagens sexualmente escandalosas do reinado de Elagábalo,  mencionadas nas fontes antigas,  estejam ligadas ao culto de El-Gabal, divindade frequentemente associada à Baal, cujo culto parece ter incluído ritos de prostituição sagrada masculina (os kadesh, citados na Bíblia Judaica) e também castração de sacerdotes. Note-se que isso se parece um pouco com os vícios aos quais os autores romanos aludem em suas obras e poderia explicar também a aparência feminina de Elagábalo.

O único erro que poderia ser imputado a Elagábalo é não ter percebido o choque cultural que a reunião, em uma mesma pessoa, dos papéis de imperador e sumo-sacerdote de uma religião tão estranha aos costumes italianos como era a sua causou na sociedade romana. Convenhamos que esperar essa consciência de um menino sírio que foi feito imperador aos quinze anos pelas manobras da mãe e da avó seria demasiado,  mesmo nos tempos atuais.

CUIDADO COM OS IDOS DE MARÇO!

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Adivinho:    —    César!!!!
César: —              Ei! Quem me chama?
Casca: —              Silêncio, novamente! Pare tudo!
César: —              Quem dentre a multidão disse meu nome?
                               Ouvi uma voz, mais alta do que a música, bradar por César…
                               Fala! César se acha disposto para ouvir-te!
Adivinho: —         Tem cui­da­do com os idos de março!
César: —              Que homem é esse?
Brutus: —            Um adivinho. Manda que tu tomes cuidado com os idos de março.

(Ato I, Cena II, Júlio César, de William Shakespeare)

Os idos de março, no antigo calendário romano, correspondiam ao dia 15 de março.

A passagem acima, ocorrida no dia 15 de março mais importante da História da Humanidade, aqui contada nos versos magistrais de Shakespeare, segundo o historiadores romanos, aconteceu realmente. Suetônio preservou até o nome do adivinho, Surinna, , e Plutarco e Cássio Dio também narram o mesmo fato.

No dia 15 de março de 44 A.C, Caio Júlio César, Ditador Perpétuo de Roma, o homem mais poderoso que governara a República Romana em seus 465 anos de existência, acordou e passou a manhã pensando se deveria ou não comparecer a uma sessão do Senado Romano.

Foi um momento em que o destino do Mundo se equilibrou à maneira de uma bola de tênis em cima de uma rede, como na célebre cena do filme Match Point, de Woody Allen…

Na semana dos idos de março, vamos republicar nossa série sobre o drama político que resultou no assassinato de César.

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(Cena do clássico “Julius Caesar” (1953) dirigido por Joseph L. Mankiewicz)

GLICÉRIO – O ANTEPENÚLTIMO IMPERADOR ROMANO DO OCIDENTE

 

Glicerio_-_MNR_Palazzo_Massimo.jpg(moeda de Glicério, foto de TcfkaPanairjdde)

 

Em 3 de março de 473 D.C., em Ravena, Itália,  Flavius Glycerius (Glicério) foi escolhido como novo Imperador Romano do Ocidente, pelas tropas comandadas por Gundobado, o Burgúndio, que sucedera seu tio Ricimer na condição de Patrício (um título que no final do Império era dado ao comandante militar supremo do exército romano, ou Magister Militum, normalmente um chefe bárbaro germânico).

Glicério, quando de sua ascensão ao trono, ocupava o cargo de Comes Domesticorum (Conde dos Domésticos), ou seja, comandava o regimento de guardas imperiais do Palácio de Ravena. E antes deste posto, as fontes citam que Glicério ocupou um comando militar na Dalmácia.

As fontes nada mencionam sobre a origem de Glicério, mas, certamente, ele devia ser um cidadão romano e sem antepassados bárbaros recentes, pois,  para ser considerado um candidato aceitável para o Senado Romano e para a população italiana, era necessário ter este pedigree.

Com efeito, apesar de Ricimer  ser a eminência parda do Império do Ocidente desde 456 D.C. e o responsável pelas nomeações dos imperadores Majoriano, Líbio Severo e Olíbrio, ele mesmo jamais se atreveu a assumir o trono, uma vez que Ricimer era filho de Rechila, o rei dos Suevos, na Galícia e norte do atual Portugal e neto, por parte de mãe, de Wallia, rei dos Visigodos. E se Ricimer,  mesmo depois de quase vinte anos de poder, não foi um pretendente viável ao trono, muito menos o seria seu sucessor e sobrinho, Gundobado.

Contudo, apesar de ser um efetivo criador de imperadores, Ricimer preferiu não se opor à indicação de Antêmio (467/472 D.C.), feita pelo pelo Imperador Romano do Oriente, Leão I, para ser o novo imperador do Ocidente, devido ao fato de que Ricimer precisava do apoio de Constantinopla para contrabalançar a influência de Geiserico, rei dos Vândalos. Como retribuição à sua boa vontade e provável compensação, Ricimero recebeu a mão de Alypia, a filha de Antêmio, em casamento.

Como imperador, Antêmio procurou atacar os dois maiores problemas que ameaçavam a sobrevivência do Império do Ocidente:  a) a ocupação dos Vândalos na África, governados pelo astuto e competente rei Geiserico, que fazia incursões na Itália (entre as quais o Grande Saque de Roma, em 455 D.C) e no Mediterrâneo e intervinha constantemente nos assuntos do governo e, b) a expansão dos Visigodos  na Gália.

E, mais importante, Antêmio contava com o apoio de Leão I, o novo Imperador Romano do Oriente, que também estava comprometido com uma estratégia de enfraquecimento do poder dos bárbaros e, como visto, mostrava-se interessado nos assuntos ocidentais. Sem a participação de Constantinopla, contudo, nenhum plano nesse sentido seria possível, porque seus recursos materiais e humanos eram muitos superiores aos disponíveis ao imperador ocidental.

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Com efeito, o fato é que, após a perda da África, em  sua maior fonte de grãos, em 435 D.C.,  e de boa parte da Gália, a sua província mais rica, o Império do Ocidente mal tinha recursos para pagar o seu exército composto, majoritariamente, de mercenários bárbaros e tribos germânicas servindo como foederati.

Porém, a grande expedição conjunta contra Cartago, a capital dos Vândalos na África, em 468 D.C., foi um retumbante fracasso. E Antêmio não teve mais sorte contra os Visigodos, que derrotaram as tropas ocidentais próximo a Arles, inclusive matando seu filho, Anthemiolus.

Esses insucessos tornaram Antêmio muito mais dependente de seu general Ricimer, que, ostensivamente, já se mexia para colocar um novo fantoche no trono ocidental.

O estopim para  o conflito aberto entre Antêmio e o seu comandante-em-chefe Ricimer foi a execução do senador Romanus, amigo próximo e aliado do general bárbaro, acusado de conspiração, o que levou Ricimer a abandonar Roma acompanhado de 6 mil  guerreiros, em direção a Milão.

O bispo de Pavia intermediou uma trégua entre Antêmio e Ricimer que durou um ano. Quando as hostilidades recomeçaram,  Antêmio julgou mais seguro ir se refugiar na Basílica de São Pedro, no Vaticano, que, desde o reinado de Constantino I era a sede do Bispado de Roma.

Leão I, preocupado com a crise, resolveu mandar à Roma o senador Olíbrio, que se encontrava em Constantinopla para intermediar um novo acordo entre os adversários, além de um emissário levando uma carta para Antêmio

Segundo uma das fontes, porém, a verdadeira intenção de Leão I era se livrar de Olíbrio, já que este era suspeito de ser aliado de Geiserico, o rei dos Vândalos, que por duas vezes já tinha patrocinado a candidatura dele ao trono.

Contudo, os soldados de Ricimer controlavam o Porto de Roma e a carta do imperador foi interceptada. Ao ser aberta a carta, uma surpresa: Leão I dava instruções a Antêmio para executar Olíbrio assim que este chegasse à Roma.

Em abril de 472 D.C. (data provável), Ricimer proclamou Olíbrio como novo imperador do Ocidente. Porém, os nobres e a população de Roma ficaram do lado de Antêmio.

Seguiram-se cinco meses de combates urbanos nas ruas de Roma, com Antêmio e seus partidários entrincheirados no Palatino. Porém, quando Ricimer conseguiu  cortar a rota entre o Palácio e o Porto fluvial do Tibre , interrompendo o abastecimento de víveres, Antêmio foi obrigado a ir se refugiar novamente na Basílica de São Pedro (outra fonte menciona a Igreja de Santa Maria in Trastevere). Vale citar que, entre as tropas comandadas por Ricimer, estava Odoacro, chefe da tribo dos Scirii.

Em uma última tentativa desesperada, durante o conflito, Antêmio enviou um pedido de ajuda às tropas da Gália, também compostas de mercenários germânicos, sendo que Ricimer havia feito, concomitantemente, idêntica solicitação.

Ocorre que o primeiro a atender o pedido foi Gundobado, o sobrinho de Ricimer, que ocupava o cargo de Magister Militum per Gallias. O provável substituto de Gundobado, Bilimer,  também veio em socorro de Antêmio, mas foi derrotado e morto nas proximidades de Roma.

Derrotado e sem reforços, Antêmio tentou fugir disfarçado de mendigo, mas foi decapitado por Gundobado, que não deu a mínima para o fato do imperador estar refugiado em uma igreja.

basilica são pedro 21.jpg(Antiga basílica de São Pedro,no Vaticano, construída pelo imperador Constantino, o Grande. Ela durou até a atual ser construída, no século XVI).

Assim, Olíbrio assumiu o trono, mas, novamente, quem governava de fato era Ricimer, secundado por Gundobado. O novo imperador era integrante de uma das famílias senatoriais mais ilustres e mais ricas do Baixo Império Romano, os Anícios, mas isso não lhe seria de muita serventia, pois o que contava agora era a capacidade de controlar tropas e recursos e isso ele não tinha. Para piorar, como não é de surpreender, ele não foi reconhecido pelo imperador do Oriente, Leão I, o único capaz de oferecer algum auxílio.

Uns 30 ou 40 dias após a ascensão de Olíbrio ao trono, Ricimer morreu, aparentemente de causas naturais, sendo sucedido por Gundobado, agora o novo Patrício.

O reinado de Olíbrio seria curto e insignificante. Não havia nada que ele pudesse fazer para reverter a situação terminal do Império do Ocidente, se é que ele tinha alguma disposição de tentar, assim, não espanta que os esparsos indícios de suas ações relacionem-se com a religião cristã.  Em outubro ou novembro de 472 D.C., Olíbrio morreu de alguma doença cujo sintoma era hidropsia.

Com a morte de Olíbrio, Gundobado tinha 3 alternativas: a) colocar um sucessor no trono ocidental; b) oferecer o trono ocidental a Leão I, que, afinal, ainda que apenas formalmente, tinha legitimidade para reunificar o Império Romano; ou c) proclamar-se ele mesmo o novo imperador romano.

Gundobado, como vimos, jamais seria um imperador aceito pela aristocracia senatorial romana. Esta podia não ter nenhum poder militar, mas o fato é que os senadores do Ocidente tinham, em regra, uma fortuna descomunal, proveniente de séculos de acumulação de patrimônio, e, além disso, a administração pública ocidental não conseguiria funcionar sem o concurso da classe senatorial.

Ironicamente, reunificar o Império também era uma opção indesejada pela aristocracia ocidental. Os senadores ocidentais gozavam de  privilégios e isenções muito maiores do que os seus colegas em Constantinopla, onde a autoridade do imperador era exercida de modo muito mais intenso e abrangente.

Assim, Gundobado optou por agir de modo convencional e escolher mais um fantoche para o trono do Império Romano do Ocidente. E, naquele  03 de março de 473 D.C. (uma fonte menciona o dia 05), o escolhido foi Glicério, que, além de ser aceitável para o Senado, como já mencionamos, era, ao menos tecnicamente, até aquele momento, um subordinado do Magister Militum,  ou seja, do próprio Gundobado.

Glicério e Gundobado, de início, tentaram ser conciliadores com Leão I, como foi demonstrado pelo fato de Glicério não haver escolhido, como era de seu direito, o segundo Cônsul para o ano de 474 D.C, deixando que o neto de Leão I, que era ainda uma criança pequena, servisse como único cônsul para aquele ano.

Mesmo assim, Leão I, que em breve morreria, em janeiro de 474 D.C., não reconheceu a escolha de Glicério como imperador pelo Senado Romano, designando Julius Nepos, o comandante do exército oriental na Dalmácia e parente da imperatriz Verina, como seu candidato ao trono do Ocidente, encarregando-o de uma expedição para depor Glicério. Com a morte de Leão I, seu neto, Leão II assumiu o Império Romano do Oriente, o qual  nomeou, como co-imperador, o próprio pai, e, então, o verdadeiro homem-forte em Constantinopla, Zenão I.

Ainda tentando ser reconhecido pelos colegas orientais, Glicério chegou a cunhar moedas com as efígies de Leão II e Zenão I, mas a corte de Constantinopla se manteve inflexível em considerá-lo apenas um usurpador.

A situação do Ocidente só piorava e Glicério, sem muitas alternativas, fez o melhor que podia para lidar com a ameaça de invasão dos Visigodos e dos Ostrogodos à Itália, que, na prática, era a única província que ele ainda governava de fato: Mandou as tropas que ainda restavam combater, com algum sucesso, os Visigodos (na verdade, era apenas um bando desses bárbaros, comandado por um subordinado do rei Eurico), e, após conseguir acumular algum ouro, pagou  2 mil moedas de ouro aos Ostrogodos para que eles fossem para algum outro lugar. Infelizmente, o lugar onde ambos os bandos foram parar foi a Gália, que já estava sendo avassalada por várias invasões.

Enquanto isso, a expedição de Julius Nepos, que estava aguardando o inverno passar para poder zarpar, finalmente, com a chegada da primavera, pôs-se a caminho de Ravena.

Glicério, que durante o seu reino residira em Ravena ou em Milão, foi para Roma, talvez porque essa cidade estivesse mais distante da Dalmácia, ou, também,  porque lá, contando com o apoio do Senado Romano e da população, ele tenha pensado que fosse mais fácil resistir.

Contudo, Julius Nepos certamente tinha ciência da manobra de Glicério, pois navegou em direção ao Mar Tirreno, desembarcou em Portus (porto de Roma, no litoral), sendo que Glicério não esboçou nenhuma resistência, sendo deposto sem esboçar qualquer luta, em junho de 474 D.C.

Ao contrário do desfecho mais corriqueiro na longa lista de imperadores romanos, Glicério não foi executado, mas apenas destituído do trono e nomeado Bispo de Salona, na Dalmácia (lugar onde Julius Nepos decerto tinha mais capacidade de controlar qualquer ação sua).

O Senado Romano imediatamente reconheceu Julius Nepos como o novo imperador do Ocidente.

Não há registro de qualquer medida tomada por Gundobado para defender Glicério ou atacar Julius Nepos. É bem possível que ele estivesse na Gália, lidando com os ataques de outras tribos germânicas ou tentando reunir tropas para  a defesa de Glicério, não se sabe ao certo. Outra possibilidade é que ele tenha ido reclamar a sua parte no reino dos Burgúndios, na Gália Lugdunense (que daria origem à atual região da Borgonha), após a morte de seu pai, Gundioc, e do irmão dele, Chilperico I, esta ocorrida justamente em 474 D.C. De qualquer forma, o seu comando militar na Itália não existia mais e de fato não  consta que ele tenha voltado à península.

A última notícia que se tem de Glicério data do ano de 480 D.C., quando ele ainda era Bispo de Salona e, segundo um autor antigo, teria participado de uma conspiração para assassinar, ironicamente,  ninguém menos do que o próprio Julius Nepos, que, após ser deposto pelo novo Magister Militum do Ocidente, Orestes, em 29 de agosto de 475 D.C.,  havia fugido para a Dalmácia.

 

 

 

 

 

 

 

MARÇO – O MÊS DA GUERRA

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No antigo calendário romano, utilizado antes do calendário Juliano adotado por ordens do Ditador Caio Júlio César, março era o primeiro mês do ano. Assim, o ano romano começava nas calendas (1º dia de cada mês romano) de março.

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Março, ou Martius, em latim, recebeu esse nome em homenagem ao deus da Guerra, Marte, e, de fato, a temporada de guerra começava nesse mês, quando o inverno aproximava-se do seu fim e começava a primavera.

Entre os muitos festivais romanos celebrados no mês de março, destacam-se os célebres Bacanais (Bacchanalia), em honra a Baco, deus do Vinho,  no dia 17.

Nas calendas de março (dia 1º), ocorreram vários fatos marcantes na História de Roma, entre eles:

1 – Em 509 A.C. : foi celebrado a primeira procissão triunfal (Triunfo) em Roma, pela vitória na Batalha de Silva Arsia, onde os Romanos, liderados pelos dois primeiros Cônsules, Lúcio Júnio Bruto e Públio Valério Publícola, derrotaram os Etruscos das cidades de Veii e Tarquinia, liderados por Tarquínio, o Soberbo,  o antigo rei de Roma que havia sido destronado pela revolta liderada pelos dois cônsules, no episódio que levou à instauração da República Romana. Na Batalha, Lúcio Júnio Bruto foi morto.

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2 –  Em 86 A.C.: o general romano Lúcio Cornélio Sila, encarregado da guerra contra Mitridates VI, rei do Ponto e várias cidades gregas,  consegue invadir Atenas, após vários dias de cerco, e captura o tirano Aristion, aliado de Mitridates, que é executado.

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3- Em 293 D.C.: Os imperadores Diocleciano e Maximiano, respectivamente Augustos das metades oriental e ocidental do Império Romano, nomeiam como Césares os generais Constâncio Cloro e Galério, para ajudá-los a administrar o Império e serem os seus sucessores, instaurando formalmente o sistema de governo que ficaria conhecido como “Tetrarquia”.

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4- Em 317 D.C.: Crispo e Constantino II, filhos do imperador Constantino, o Grande, são nomeados Césares.

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