CONSTÂNCIO CLORO

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Em 31 de março de 250 D.C., na Dardânia, região da Província da Moésia,  nasceu Marco Flávio Valério Constâncio (Constâncio Cloro), filho de um certo Eutrópio, que, segundo a História Augusta, seria um “nobre” daquela região, e de Cláudia, que, supostamente, seria sobrinha do imperador romano Cláudio II Gótico (vale notar que a maior parte dos historiadores modernos acredita que esse suposto parentesco foi inventado pelo escritor da “História Augusta”, com o objetivo de melhorar o “pedigree” da dinastia constantiniana).

Observe-se que na Dardânia,  desde a sua conquista pelos romanos, em 73 A.C, foi estabelecido um acampamento de legionários que deu origem à cidade de Naissus (atual Nîs, na Sérvia) e a região tornou-se um dos principais centros de recrutamento de tropas para o exército romano no século III D.C.

Como outros conterrâneos seus da 2ª metade do século III D.C., Constâncio ingressou no exército e foi galgando postos. Neste progresso, ele recebeu a prestigiosa patente de “Protector Augusti Nostri”, dada a soldados de elite que se destacavam no serviço ao imperador, no reinado do imperador Aureliano, e depois foi promovido a Tribuno, após os Protectori Augusti Nostri se tornarem um corpo de elite do Exército Romano. Nesta condição, ele deve ter conhecido o futuro imperador Diocleciano, que mais tarde comandaria o referido corpo de elite, já no reinado do imperador Caro, em 282 D.C.

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(As tropas que serviam próximo ao Imperador durante a carreira de Constâncio Cloro deviam ter essa aparência)

Deve ter sido no Exército que Constâncio recebeu o apelido de Cloro (Chlorus), que em latim significa “pálido”, devido a sua pele excessivamente clara.

Como Protector Augusti Nostri, Constâncio Cloro participou da campanha de Aureliano contra o Império de Palmira, que tinha se formado a partir da secessão das províncias romanas da Síria, Arábia Pétrea e Egito, além de outras partes da Ásia Menor, entre 272 e 273 D.C, e era governado pela grande rainha Zenóbia.

Foi nessa campanha que Constâncio Cloro conheceu Helena, uma jovem bitínia, nativa da cidade de Drepanus, que trabalhava numa estalagem ao longo da estrada pela qual o exército marchava para dar combate aos rebeldes palmirenos.

Consta que Constâncio Cloro notou que a jovem usava um bracelete de prata idêntico ao que ele estava usando no momento, o que lhe teria dado a certeza de que ela era a sua alma-gêmea enviada por Deus.

Verdadeira ou não a história, o fato é que, finda a sua participação na campanha, Constâncio Cloro, levou Helena consigo para sua terra natal na Dardânia, onde, na cidade de Naissus, ela deu a luz ao seu primeiro filho, que recebeu o nome de Constantino (o futuro imperador Constantino I, o Grande), em 27 de fevereiro de 272 D.C. (considerado o ano mais provável).

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(Estátua de Helena. A obra é do período clássico, mas a cabeça foi alterada  por escultores durante o reinado de seu filho Constantino para retratá-la)

A Bitínia era uma das regiões onde o Cristianismo mais cedo se enraizara no Império. Por exemplo, o apóstolo Pedro já menciona a existência de uma comunidade cristã na Bitínia por volta do ano 60 D.C.. E, no início do século II D.C., Plínio,o Jovem, quando ocupou o cargo de governador da província, chegou a consultar, por meio de uma carta, o imperador Trajano acerca de como ele deveria proceder com os cristãos locais, os quais se encontravam não apenas nas cidades, mas espalhados pelos campos.

E de fato, jovem bitínia Helena se mostraria, anos mais tarde, uma das cristãs mais devotas. Podemos, assim, considerar, com um bom grau de probabilidade, que o filho de Constâncio, o menino Constantino, desde a mais tenra infância sofreu as influências da devoção de sua mãe (Como todos sabem, Constantino, depois de se tornar imperador, favoreceu muito o Cristianismo e a sua conversão mudou a História Mundial).

Até hoje se discute se Constâncio Cloro e Helena se casaram ou se eles viveram em concubinato. Sabemos que Maxêncio, o principal rival de Constantino, o acusaria de ser filho de uma prostituta, mas essa acusação pode  também ser vista como propaganda política negativa. Não obstante, sabe-se que, na Antiguidade, e mesmo na Idade Média, não era prática incomum que mulheres que trabalhassem em estalagens ou pensões tivessem também que dormir com os hóspedes…

Após a união com Helena, Constâncio continuou ascendendo na carreira militar e, no reinado do imperador Caro, ele foi nomeado “Praeses” (governador) da província da Dalmácia, entre 282 e 283 D.C. No mesmo período, Caro nomeou Diocleciano como Comandante dos Protectori Augusti Nostri, que, neste posto, acompanhou o imperador na invasão da Mesopotâmia, coração do império Sassânida.

Não há menção nas fontes se Constâncio participou da bem sucedida campanha de Caro contra os Persas, na qual este imperador acabaria falecendo, em 283 D.C., segundo consta atingido por um raio durante uma tempestade. Caro foi, então, sucedido pelos  seus filhos, Carino e Numeriano.

Porém, em novembro de 284 D.C., Numeriano morreu na Bitínia, em circunstâncias misteriosas, quando voltava para Roma, aparentemente devido a uma doença caracterizada por inflamação nos olhos.

Então, um conselho de generais escolheu Diocleciano como sucessor de Carino e ele foi aclamado imperador pelas tropas em Nicomédia. Assim, Diocleciano, desde o início, se apresentou como adversário de Carino, deslocando-se para dar combate ao rival, cujo exército  ele encontrou na Moésia, na Batalha do rio Margus ( local próximo à atual Belgrado, na Sérvia), em julho de 285 D.C., ocasião em que os principais generais de Carino se passaram para o lado de Diocleciano. Carino foi, em seguida, morto pelos seus próprios homens.

Alguns historiadores acreditam que, durante o avanço de Diocleciano pelos Bálcãs para engajar Carino, Constâncio também teria aderido ao seu velho conterrâneo e camarada dos Protectori Augusti Nostri.

Um dos primeiros atos de Diocleciano no trono foi escolher um colega para governar em conjunto com ele e o escolhido foi seu velho amigo e companheiro de armas, o general e conterrâneo de origem ilíria, Maximiano. Embora ambos compartilhassem a origem humilde, Maximiano, era muito mais áspero e implacável do que Diocleciano, que, no entanto, tinha sobre ele uma considerável ascendência moral e intelectual.  Assim, em 1º de abril de 286 D.C, Maximiano, foi elevado de “César” para “Augusto”.

Sintomaticamente, os dois Augustos se concederam os títulos de “Júpiter” (Diocleciano) e de “Hércules”(Maximiano), em uma espécie de alusão ao papel de ambos no Império, no qual Diocleciano figurava como o “sábio pai dos deuses e chefe do Olimpo” e Maximiano,  como o guerreiro encarregado das tarefas militares.

Entre 287 e 288D.C., Constâncio Cloro já era um dos principais auxiliares, senão o mais importante, de Maximiano, e, nesta condição, liderou a campanha contra os bárbaros Alamanos, chegando a cruzar o Reno para atacá-los, fato que sinalizou o reerguimento do poder romano na região, após vários anos de invasões e rebeliões durante a crise da segunda metade do século III D.C.

Provavelmente por volta de 288 D.C., Maximiano designou Constâncio Cloro para o cargo de Prefeito Pretoriano do Ocidente, cargo que havia sido reformulado dentro das extensas e fundamentais reformas administrativas e militares promovidas por Diocleciano, e que passava a ser uma espécie de Chefe de Gabinete e Chefe do Estado-Maior do Imperador.

Os laços entre o imperador Maximiano e seu subordinado Constâncio Cloro foram ainda mais reforçados com o casamento de Constâncio com Flávia Maximiana Teodora, a filha (ou para alguns, enteada) de Maximiano, união que, segundo um dos Panegíricos Latinos, teria ocorrido em 289 D.C. Assim, Constâncio teve que se divorciar (ou separar-se, caso proceda a versão de que a relação era de concubinato) de Helena, a mãe de seu primogênito, Constantino.

Ainda que motivado por razões políticas, o casamento de Constâncio Cloro com Teodora seria prolífico, gerando 6 filhos (3 homens), nenhum dos quais, contudo, chegaria a ocupar o trono.

Enquanto isso, Maximiano tinha que lidar com os camponeses fora-da-lei chamados de bagaudas, no norte da Gália. Submetida essa insurreição, Constâncio Cloro foi encarregado de combater a insurreição de Caráusio, o comandante da frota do Mar do Norte, a quem Maximiano havia condenado à morte, devido a uma acusação de peculato. Por este motivo, Caráusio, que estava firmemente estabelecido na Grã-Bretanha, e controlava, ainda, o noroeste da Gália, autoproclamou-se “Imperador da Britânia”.

Maximiano e Constâncio Cloro, se preparam para combater o usurpador Caráusio, mas as  fontes sugerem que houve algum incidente com a frota que eles estavam construindo para invadir a Britânia, por volta de 289 D.C., e, assim, Caráusio conseguiria resistir ainda por sete anos, cunhando moedas em que ostentava o título de Imperador e “irmão” de Diocleciano e Maximiano e nas quais louvava a suposta concórdia (paz) entre eles.

A experiência da eclosão de crises simultâneas em diferentes partes do Império Romano certamente contribuiu para inspirar Diocleciano a idealizar a medida mais revolucionária do seu reinado: a chamada Tetrarquia, em 293 D.C., caracterizada pela divisão administrativa do poder imperial,  que antes era centralizado na pessoa de um monarca que governava o Império a partir da cidade de Roma,  e agora seria repartido entre quatro governantes:  dois mais graduados, que teriam o título de “Augusto”, tendo as respectivas capitais em Milão e Nicomédia, e dois, em plano um pouco inferior e subordinados a eles, chamados de “Césares”, instalados em Augusta Treverorum (Trier) e Sirmium. A idéia é que quando os “Augustos” se retirassem ou morressem, fossem substituídos automaticamente pelos “Césares”.

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(Os Tetrarcas, escultura da época imperial, hoje na lateral da Catedral de São Marco, em Veneza)

Em 1º de março de 293 D.C, Diocleciano autorizou Maximiano a nomear Constâncio Cloro como “César” do Ocidente o que caracterizava a sua ascensão ao posto de imperador “júnior” e herdeiro de Maximiano.

Provavelmente naquela mesma data, ou pouco depois, Diocleciano nomeou seu genro, o general Galério, marido de sua filha Valéria (Diocleciano não teve filhos homens), para o posto de “César” do Oriente, e, portanto, seu herdeiro. Sendo o mais antigo dos Césares, Constâncio Cloro, formalmente, teria precedência sobre Galério, sendo o seu nome sempre mencionado na frente de seu colega nos documentos.

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(Cabeça de Galério)

Constâncio Cloro, em decorrência da sua nomeação,  foi obrigado a enviar seu filho Constantino, então um rapaz já no começo dos seus 20 anos, para ir viver na corte de Diocleciano, na cidade de Nicomédia, na Bitínia, acompanhado de sua mãe, Helena, que assim retornava à sua terra natal.

Embora Constantino tenha recebido a melhor educação clássica em Nicomédia (onde certamente teve contato com Lactâncio, professor de retórica latina na Corte, que, posteriormente, se tornaria um dos intelectuais cristãos mais influentes), e iniciado sua carreira serviço público e militar, considera-se que ele,  na verdade, era sobretudo um refém sob a custódia de Diocleciano, visando assegurar a lealdade de seu pai, Constâncio Cloro.

Enquanto isso, na Britânia, o usurpador Caráusio foi assassinado e substituído por seu lugar-tenente Alecto (Allectus), que era apoiado pelos Francos.

Constâncio Cloro teve muito trabalho para conter os Francos e lutar contra os Alamanos, que ameaçavam a fronteira do Reno. Ele ficou baseado em Trier, que, nesse período, começou a ser embelezada com monumentos dignos de uma capital imperial.

Quando Maximiano chegou para reforçar a defesa do Reno, Constâncio Cloro conseguiu expulsar Alecto do norte da Gália, e, com a ajuda de seu prefeito pretoriano, Asclepiodoto, reuniram duas frotas para a invasão da Grã-Bretanha. A frota comandada por Asclepiodoto desembarcou perto da atual Ilha de Wight e derrotou e executou o rebelde, enquanto Constâncio capturou e ocupou a capital da Britânia, Londinium (atual Londres). A entrada de Constâncio em Londres aparece em um medalhão de ouro que seu filho Constantino, mandou cunhar quando já era imperador, e que foi encontrado em Arras, na França).

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(Aureum mostrando Londinium se rendendo a Constâncio Cloro)

Derrotado Alecto, Constâncio Cloro dedicou-se a reorganizar a província da Britânia e e reparar suas fortificações, incluindo a famosa Muralha de Adriano. Em 298, D.C., contudo, ele já estava na Germânia lutando novamente contra os Alamanos, a quem conseguiu derrotar após ser cercado por eles na cidade de Vindonissa (na atual Suíça).

No ano de 303 D.C., Diocleciano decretou a repressão ao Cristianismo, que pelos cristãos seria chamada de “A Grande Perseguição”. Dos quatro tetrarcas, Constâncio Cloro seria o mais que foi mais brando na execução da política de Diocleciano,  limitando-se a demolir algumas igrejas. Talvez a moderação de Constâncio Cloro tivesse alguma influência de sua relacionamento com Helena, mas pode ser também que Lactâncio tenha tido a intenção de fazer média com o pai de Constantino, o futuro primeiro imperador cristão, abrandando o papel que ele desempenhou.

Porém, em 305 D.C, Diocleciano, doente e cansado aos 60 anos de idade, resolveu se aposentar, abdicando em favor de Galério. Foi a primeira vez, durante mais de três séculos de Império, que um Imperador voluntariamente abdicou do trono. Diocleciano foi viver em seu espetacular palácio-fortaleza na cidade de Salona, em sua terra natal ( a atual cidade de Split, na Croácia). Seguindo, naquela oportunidade, a política traçada por Diocleciano, Maximiano também abdicou voluntariamente em prol de Constâncio Cloro.

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(Palácio de Diocleciano em Split)

Em 1º de maio de 305 D.C., em uma cerimônia militar em Milão, Maximiano proclamou Constâncio Cloro o novo Imperador (Augusto), do Ocidente, que passou a se chamar Imperator Caesar Marcus Flavius Valerius Constantius Herculius Augustus .

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Porém, para a surpresa geral, Maximiano, quando foi anunciar o nome do novo “César” do Ocidente,entregou o seu manto púrpura para Severo, um velho amigo e colega de armas de Galério,  o Imperador Romano do Oriente.

Ocorre que todos pensavam que Maxêncio, filho de Maximiano, e Constantino, filho de Constâncio Cloro, naturalmente seriam os novos Césares…

Embora o sistema da Tetrarquia não exigisse o princípio dinástico, obviamente que os filhos dos Augustos eram os candidatos naturais. E, obviamente, a circunstância de um imperador ter herdeiros naturais adultos, já seguindo a carreira militar, preteridos em favor de outros só poderia ser um fator de instabilidade.

Constâncio Cloro e Constantino logo perceberam que não apenas as ambições, mas a própria vida do segundo estariam ameaçadas na corte de Galério, em Nicomédia. Por isso, Constâncio enviou um pedido formal ao colega Galério pedindo que o filho fosse liberado para lhe ajudar na campanha contra os Pictos, que estavam causando problemas no norte da Britânia.

Consta que Galério, quando recebeu a carta de Constâncio Cloro, estava participando de um banquete e, na presença de Constantino, deu o seu consentimento. Naquela mesma noite, Constantino abandonou o palácio a toda velocidade e partiu para encontrar o pai, antes que Galério mudasse de idéia. Assim, quando o imperador acordou, no dia seguinte, Constantino já estava a léguas de distância da corte.

Constantino se juntou ao pai na costa da Gália e ambos cruzaram o canal para comandar uma expedição militar contra os Pictos. Em 7 de janeiro de 306 D.C., Constâncio Cloro recebeu o título de “Britannicus Maximus“. após algumas vitórias contra os bárbaros.

Porém, antes que a campanha fosse completada, a saúde de Constâncio Cloro piorou e ele teve que se retirar para a cidade de Eburacum (York) para passar o inverno. Sentindo que ia morrer, Constâncio resolveu abandonar as regras da Tetrarquia, mandou reunir as tropas e recomendou o seu filho ao Exército como seu sucessor.

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(Restos da muralha romana de Eboracum, foto de Kaly99

Em 25 de julho de 306 D.C., Constâncio Cloro faleceu, em Eboracum. O primeiro a tomar a iniciativa de aclamar Constantino foi o chefe Alamano Chrocus, um bárbaro a serviço de Roma, que, à maneira dos Germanos, mandou seus homens erguerem Constantino de pé em cima de um escudo.

Galério, apesar de ter ficado enfurecido, premido pelas circunstâncias, reconheceu a aclamação de Constantino, mas conferindo-lhe o posto menor de “César“.

Para suceder o falecido Constâncio Cloro, Galério nomeou o seu velho amigo Severo, que afinal era o César do Ocidente, como Augusto, tornando-o, assim, oficialmente coimperador, ainda durante o verão daquele ano de 306 D.C.

Em uma inusitada consequência da importância do papel de Constâncio Cloro na História e de seus feitos militares na Britânia, a sua figura acabaria sendo também lembrada nas lendas galesas e seu nome mencionado pelos proto-historiadores ingleses medievais.

PERTINACE E O ANO DOS CINCO IMPERADORES

Em 28 de março de 193 D.C, o Imperador Romano Pertinace devia estar ansioso para que o mês,  no qual já tinham ocorrido tantos acontecimentos funestos, acabasse logo. Mas, de repente, os pensamentos do imperador foram interrompidos pela gritaria dos servos do Palácio e pelo barulho de sandálias militares, o que só podia significar uma coisa…

Nascido em 1º de agosto de 126 D.C., na cidade de Alba Pompéia, no atual Piemonte, Publius Helvius Pertinax (Pertinace), segundo a História Augusta,  era filho de um escravo liberto da Ligúria, de nome Helvius Successus, que ganhava a vida como comerciante de madeira. O comércio não deve ter deixado Helvius rico, pois, segundo as fontes, seu filho Pertinace teve que trabalhar como “grammaticus” (professor de Gramática).

Entretanto, como os historiadores que escreveram a História Augusta algumas vezes inventaram detalhes para enriquecer a biografia dos imperadores, está narrativa deve ser visto com alguma cautela. Cássio Dião, um historiador mais respeitado, por exemplo,  apenas escreveu que o pai de Pertinace não era de origem nobre

Em algum momento de sua juventude, Pertinace deixou a profissão de professor e, com o patrocínio do ex-Cônsul (144 D.C) Lollianus Avitus, de quem seu pai devia ser cliente, entrou para o Exército, alcançando o posto de Prefeito de uma Coorte (unidade que compõe uma legião).

Sabe-se que Pertinace serviu na Síria, onde, inclusive, ele recebeu uma punição pela infração de usar o transporte do governador daquela província sem autorização, tendo sido lhe dada a punição de que ele voltasse a pé de Antióquia até o local onde sua unidade estava estacionada!

Já segundo a versão de Cássio Dião,  o patrono de Pertinace no Exército teria sido Tibério Cláudio Pompeiano, general e genro do imperador Marco Aurélio. Vale observar que a versão da História Augusta, no que tange à carreira de Pertinace, é mais completa.

Não obstante, o fato é que, na vitoriosa guerra contra os Partas, que ocorreu entre 161 e 166 D.C, no reinado do Imperador Marco Aurélio, servindo sob o comando do co-imperador Lúcio Vero e de Pompeiano, Pertinace se destacou e foi galgando postos no Exército Romano.

Posteriormente, já na década de 170 D.C, Pertinace foi nomeado comandante da Legião XX Valeria Victrix, na Britânia e, depois disso, comandante da Flotilha do Reno e Procurador da Dácia,  cargo equivalente ao cargo de governador.

Foi nessa época que Pertinace também entrou no Senado Romano, onde foi alvo de intrigas palacianas que o prejudicaram aos olhos da Corte, mas ele acabou sendo reabilitado devido à guerra que Marco Aurélio travava com os Marcomanos. E, em decorrência do seu bom desempenho nesta campanha, Pertinace foi nomeado Consul Suffectus em 175 D.C.

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Posteriormente, ainda no reinado de Marco Aurélio, Pertinace foi nomeado governador das províncias da Moésia Inferior, da Dácia e da Síria.  Acredito que o motivo de Pertinace ser estimado pelo letrado Marco Aurélio deveu-se não apenas aos talentos militares dele, mas também pela sua formação de professor.

Quando Cômodo tornou-se imperador, porém, Pertinace foi novamente alvo de intrigas, agora por parte do Prefeito da Guarda Pretoriana Tigidius Perennis, que tentou implicá-lo em uma conspiração contra o Imperado. Esse fato levou Pertinace, em 182 D.C, a deixar a vida pública, voltando para a Ligúria, onde o seu pai tinha adquirido uma loja de roupas, lá ficando por 3 anos.

Mais uma vez, contudo, Pertinace conseguiu voltar às boas graças com o monarca reinante e ele foi nomeado, de 185 a 187 D.C, Governador da Britânia. Nesta província, porém, Pertinace teve que enfrentar o motim de uma legião, quando um grupo de soldados atacou os seus guarda-costas e feriu o próprio Pertinace, que chegou a ser dado como morto.

Quando Pertinace conseguiu recuperar-se dos ferimentos, ele reuniu os soldados fiéis e puniu severamente os revoltosos, ganhando a fama de disciplinador implacável. Apesar disso, o clima de tensão com a tropa continuou e, em 187 D.C, Pertinace deixou a Britânia.

No ano seguinte, Pertinace foi nomeado Governador da África.

Já em 189 D.C, Pertinace foi escolhido para ser o Prefeito Urbano de Roma, um cargo muito importante e que o colocava em contato direto com o Imperador Cômodo. Naquele mesmo ano, ele foi nomeado Cônsul, tendo como colega de consulado, próprio imperador, o que era considerado uma grande honraria.

No início da década de 190, estava ficando claro para a elite romana que Cômodo estava perdendo a sanidade mental, pois juízo e compostura sempre lhe faltaram…

De fato, face aos repetidos desmandos de Cômodo, a expectativa era que alguém tomasse a iniciativa de montar uma trama para acabar com os desmandos do imperador.

Assim, segundo a História Augusta,  as pessoas que tomaram para si a tarefa de se livrar de Cômodo foram: o Prefeito Pretoriano Quintus Aemilius Laetus, Márcia, a amante do imperador, e o seu camareiro Eclectus. A urgência surgiu quando eles descobriram que figuravam em uma lista de pessoas a serem executadas a mando de Cômodo,

Assim, os conspiradores assassinaram Cômodo enquanto este tomava banho, em 31 de dezembro de 192 D.C. O nome de Pertinace não é mencionado expressamente na lista de conspiradores, porém, a ação que ele tomaria em seguida, é um indício de que dificilmente ele ignorava esta trama, e, provavelmente, devia ser participante.

Com efeito, imediatamente após o assassinato de Cômodo, Pertinace se dirigiu ao acampamento da Guarda Pretoriana e prometeu uma doação aos soldados, sendo aclamado imperador. A aclamação dele foi aprovada entusiasticamente pelo Senado, que, tudo indica, também tinha tomado parte na trama.

Consequentemente, em 1º de janeiro de 193 D.C, e, até onde se sabe, pela primeira vez na Historia de Roma, o filho de um liberto se tornava imperador, com o nome de Publius Helvius Pertinax Augustus, aos 66 anos de idade (tornando-se, até então,  a pessoa mais velha a assumir o trono romano, com exceção de Galba).

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Pertinace adotou uma série de medidas populares a partir de sua coroação, revogando algumas leis tirânicas ou insensatas de Cômodo.

Todavia, quando Cômodo morreu, só havia um milhão de sestércios no Tesouro do Estado e Pertinax teve muita dificuldade para pagar o donativo prometido aos Pretorianos. Ele, inclusive, teve que vender várias propriedades e escravos de Cômodo para poder reunir o dinheiro.

Segundo o historiador Cássio Dião, ele mesmo um senador que foi contemporâneo de Pertinace no Senado Romano, o reinado de Pertinace havia começado de modo promissor, porém, ele, esquecendo-se de que seu poder dependia da precária boa-vontade dos Pretorianos, tentou revogar os imensos privilégios que Cômodo havia-lhes conferido durante o seu reinado…

Não obstante, Pertinace deve ter percebido que sua posição no trono não era muito segura, pois ele recusou que a sua esposa, Flávia Titiana, recebesse o título de Augusta e mandou o seu filho ir morar com o avô, e não, como seria de se esperar, com ele, no Palácio.

Pertinace deve ter entendido que o reinado dele deveria seguir a “raison d’etre do principado de Nerva, que não tinha filhos e era idoso ( ele foi coroado com 65 anos), sendo visto por todos como um imperador transitório, originário do Senado, o que explica a sua tentativa de afastar a sua família da Corte. Seja como for, a medida foi sensata, pois essa providência permitiu que, mais tarde, eles fossem poupados.

Contudo, Pertinace nomeou seu sogro, o senador e ex-cônsul Tito Flávio Cláudio Sulpiciano, Prefeito Urbano do Roma.

Nota: Acredita-se que Sulpiciano possa ser filho de Tito Flávio Titianus e de Flávia Domitila. Nesse caso, o pai de Sulpiciano era filho de Tito Flávio Clemente, sobrinho do imperador Vespasiano e primo dos imperadores Tito e Domiciano, e a mãe de Sulpiciano seria neta de Vespasiano.  Vale citar, assim, que o avô  da esposa de Pertinace,  o qual foi executado sob acusação de ateísmo,  pode ter sido cristão e seria, na verdade,  o santo católico conhecido como São Clemente. E a sua mãe,Domitila, seria a Santa Domitila dos cristãos.

O fato é que quando março chegou, sendo este apenas o terceiro mês do reinado de Pertinace,  ele teve que enfrentar a primeira tentativa de golpe. Assim, quando ele  estava no porto de Óstia inspecionando o embarque de grãos para Roma, alguns Pretorianos procuraram o cônsul Quintus Sosius Falco, propondo-lhe o cargo de Imperador caso aceitasse participar de uma conspiração contra Pertinace. Segundo o plano, Falco, após a morte de Pertinace, seria levado ao quartel da Guarda Pretoriana e aclamado. Pertinace, porém, avisado a tempo por um escravo, voltou à Roma e fez um discurso no Senado denunciando a conspiração. Alguns senadores propuseram condenar Falco à morte e declará-lo inimigo público, porém o imperador disse: “Não permitam os céus que algum senador seja executado durante o meu reinado” e Falco foi perdoado. Na História Augusta, é relatada também a versão de que Falco ignoraria a trama dos Pretorianos, que teria sido feita à sua revelia.

De acordo com Cássio Dião, Pertinace, na referida sessão do Senado, teria irritado os Pretorianos quando disse aos senadores que ele havia lhes pago o mesmo donativo que Marco Aurélio tinha pago quando de sua ascensão ao trono. O motivo da indignação seria o fato de que, na verdade, Pertinace tinha dado aos Pretorianos 12 mil sestércios, em comparação com os 20 mil sestércios que os soldados receberam de Cômodo. Além disso, conta-se que Pertinace mandou executar alguns Pretorianos pelo golpe falho envolvendo Falco, o que também desagradou os soldados.

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Seja como for, essa alusão de Pertinace à questão dos donativos em seu discurso acerca da rebelião de Falco, e a reação zangada dos Pretorianos, mostram que eles deviam estar bem insatisfeitos com a recompensa que receberam por terem elevado Pertinace ao trono.

Assim, não deve ter sido surpresa, nem para as mentes mais ingênuas, quando, em 28 de março de 193 D.C, um bando calculado entre 200 e 300 Pretorianos se dirigiu ao Palácio. O Prefeito Pretoriano Laetus não interceptou os soldados e Pertinace, apesar de avisado da aproximação do grupo, decidiu ficar no Palácio, que já estava sendo invadido, sem que nenhum de seus guarda-costas oferecesse qualquer oposição.

Dizem as fontes que Pertinace ainda poderia ter fugido, mas ele preferiu ir em direção ao grupo e fazer-lhes um inflamado discurso reprovando a conduta deles , o que causou um grande efeito, levando a maioria dos soldados a baixarem os olhos.

Porém, um certo Tausius, um soldado de origem germânica, insatisfeito,  gritou com os seus camaradas e atirou uma lança no peito de Pertinace, que caiu e foi golpeado por vários outros soldados. Em seguida, a cabeça de Pertinace foi cortada e desfilada por Roma na ponta de uma lança.

Depois da morte de Pertinace, ocorreu um dos mais vergonhosos episódios da História de Roma: Os Pretorianos saíram pela cidade de Roma em busca de candidatos para quem pudessem vender o trono imperial.

Um grupo de Pretorianos levou para o Quartel da Guarda o Prefeito Urbano Sulpiciano, com quem começaram a negociar o preço. Logo em seguida, trazido por outro grupo, chegou o senador Dídio Juliano, que, ouvindo tudo, começou a fazer, ainda do lado de fora dos muros, as suas ofertas. O triste espetáculo transformou-se em um verdadeiro leilão, no qual Dídio Juliano acabou saindo vitorioso.

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Porém, nem o povo, nem o Senado aceitaram a forma abjeta com que Dídio Juliano havia obtido o trono e ele começou a ser vaiado em público, quando comparecia a jogos, cerimônias ou espetáculos. Em um desses eventos, o povo chegou a aclamar o governador da Síria, o general Pescênio Niger, imperador.

Logo, os generais Clódio Albino, Septímio Severo e Pescênio Niger seriam aclamados imperadores, cada um pelas respectivas legiões, e a Guarda Pretoriana, com medo da punição aos seus crimes, abandonou Dídio Juliano.

Quando Septímio Severo invadiu a Itália, o Senado condenou Dídio Juliano à morte e reconheceu-o como novo imperador. Dídio Juliano foi executado por um soldado, em 1º de junho de 193 D.C., antes mesmo de Severo entrar em Roma

Senhor absoluto de Roma (mais tarde ele se livraria dos rivais Niger e Albino nas províncias), Septímio Severo ordenou a execução dos assassinos de Pertinace e fez com que o Senado  “deificasse” o antecessor. Severo também decretou que as datas de nascimento e de ascensão de Pertinace ao trono fossem incluídas no calendário de festejos romanos (e elas ainda constavam do célebre calendário do ano de 354 D.C, de Filócalo), recuperou a cabeça e o corpo de Pertinace, que foram objeto de um funeral estatal, e, honra suprema, incorporou o nome de “Pertinax” ao seu próprio nome imperial.

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Pertinace, apesar de reinar por apenas 86 dias, havia sido um governante popular e respeitado.

Severo, inicialmente, resolveu compor com Clódio Albino e lhe deu o título de “César”, o que implicava em um reconhecimento do seu direito de herdar o trono.

Pertinace granjeou a fama de ter sido um bom imperador e que poderia ter restaurado os bons tempos da dinastia dos Antoninos. Parece que o Senado o escolheu com intuito parecido com  o que ensejou a nomeação de Nerva: um senador respeitado e de idade avançada para um reinado de transição,  que não instauraria uma dinastia, pois enquanto Nerva não tinha filhos, Pertinace tinha deixado claro que não associaria o seu filho ao governo.

O exemplo de Nerva foi bem sucedido porque ele soube (ou talvez, mais apropriadamente, não se opôs) escolher um general de prestígio no Exército, com boas conexões com a elite romana e uma boa base de apoio na sua própria província para sucedê-lo (Trajano).

Pertinace não parece ter tido tempo sequer de tratar de sua sucessão, e, de modo imprudente,  para dizer o mínimo, ignorou a precariedade da sua posição, já que de fato ele era um verdadeiro refém da Guarda Pretoriana. Esta,  por sua vez, era incapaz de impor, de modo duradouro, qualquer escolha às legiões das províncias. E o Senado também foi ingênuo em achar que poderia escolher alguém entre os seus pares que não tivesse o apoio do Exército.

Por tudo isso, o ano de 193 D.C ficaria conhecido como “O Ano dos Cinco Imperadores“.

OVÍDIO – O POETA SEDUTOR

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Em 20 de março de 43 A.C, nasce, na cidade de Sulmo (atual Sulmona, na região de Abruzzo, Itália), Publius Ovidius Naso (Ovídio), no seio de uma próspera família da classe Equestre.

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(Estátua de Ovídio, em Sulmona)

O pai de Ovídio queria que ele seguisse a carreira jurídica, o que lhe poderia abrir as portas para importantes cargos públicos. Por isso, Ovídio foi para Roma estudar Retórica com o famoso orador Aurellius Fuscus, que, dentre outros, foi professor de Plínio, o Velho.  Mas, como ele nos conta em seu poema que seria escrito no exílio, “Tristeza” (Tristia), desde jovem o que lhe encantava mesmo era fazer versos (Deixo aqui o link para a tradução, em inglês, do poema, no livro em que Ovídio conta a sua biografia, vide https://www.poetryintranslation.com/PITBR/Latin/OvidTristiaBkFour.php)

Após a morte do seu irmão, que tinha apenas 20 anos de idade, o abalado Ovídio viajou para Atenas e algumas cidades gregas da Ásia Menor, passando algum tempo também em uma região italiana de cultura grega, a Sicília, em um périplo comum aos jovens romanos que pretendiam fazer uma espécie de pós-graduação em Retórica e Oratória.

De volta a Roma, Ovídio chegou a exercer cargos de juiz nos tribunais de Centúnviros e Decênviros, que julgavam causas cíveis e criminais. Assim, em tese, Ovídio tinha abertas diante de si a possibilidade de, no futuro, aspirar entrar no Cursus Honorum, que dava acesso às magistraturas maiores, tais como Edil, Questor, Pretor e Cônsul.

Todavia, por volta do ano de 23 A.C., Ovídio decidiu largar a magistratura e se dedicar à poesia, decisão que, evidentemente, deve ter desagradado muito o seu pai. Por essa época, ele já tinha feito sua primeira récita em público e ingressado no círculo literário patrocinado por Marcus Valerius Messalla Corvinus, um general e aristocrata ilustre, que foi Cônsul Suffectus no ano de 31 A.C. Isso permitiu a Ovídio conhecer e fazer amizade com os poetas  Propércio e Horácio, este já consagrado como um dos maiores poetas latinos e patrocinado por Mecenas.

O estilo poético que Ovídio escolheu foi a Elegia, caracterizada por hexâmetros seguidos por pentâmetros, mas com um toque de paródia do estilo convencional de outros poetas.

Sua primeira série de poesias conhecidas foram “os Amores“, poemas dedicados ao amor, dedicados a uma namorada, Corinna (que não é o nome verdadeiro dela) com inspiração erótica, como por exemplo, na Elegia I, 5:

Calor intenso, já passara o meio-dia;
Deitei-me ao leito, os membros repousando.
Em parte aberta, em parte cerrada a janela;
Luz como a que costumam ter os bosques,
qual reluz o crepúsculo, ausente já Febo,
quando a noite foge e o dia hesita.
Tal luz é a que convém às moças tímidas,
nela o pudor espera achar abrigo.
Eis que Corina vem, com a túnica entreaberta,
em desalinho a cabeleira sobre a nuca…

 

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A série de poemas chamada “A Arte de Amar” (Ars Amatoria) continha instruções de como encontrar, conquistar e manter um amor, tanto para os homens como para as mulheres, uma espécie de manual, sarcástico, irônico e cheio de alusões ao ato sexual, mas sem ser jamais pornográfico.

Entre os conselhos de Ovídio aos amantes do sexo masculino, destacam-se:

não esquecer o aniversário dela“, “deixá-la com saudade de você, mas não por muito tempo“, e “jamais perguntar a idade dela“. Lições, como se vê, ainda bem atuais…Já às mulheres, Ovídio aconselha: “maquiar-se, mas nunca na presença dele” e “experimentar os amantes jovens e os maduros“. Ele assim introduz o livro contendo os conselhos para o público feminino: “Eu acabei de armar os Gregos contra as Amazonas, agora, Pentesiléia (Obs: rainha das Amazonas), resta-me  armar-te contra os Gregos“.

 Logo no início, Ovídio dá algumas instruções para se escolher uma amante  bonita:

“Nós frequentemente perdemos a cabeça por uma linda garota em um jantar. Sem dúvida, Juntar amor e vinho é  como colocar combustível na fogueira. Não avalie uma mulher à luz dos candelabros, é enganoso! Se você realmente quiser saber qual a aparência dela, olhe-a de dia e quando estiver sóbrio! Foi ao ar livre, e durante um dia claro, que Páris viu as três deusas e disse para Vênus: “você é mais bonita do que suas duas rivais”. A noite cobre um sem-número de defeitos e imperfeições. À noite, não há mulher feia! Quando você quer ver pedras preciosas ou roupas coloridas, você as leva para a luz do sol, e é de dia que você deve julgar o rosto e a aparência de uma mulher“.

 Depois, o Poeta nos ensina a conservá-la:

Então, quem quer que você seja, não ponha muita confiança no enganoso charme da formosura. Cuide de possuir algo mais do que mera beleza física. O que funciona espantosamente com as mulheres é um jeito insinuante. Brusquidão e palavras rudes só promovem desaprovação. Nós odiamos o falcão porque ele passa a sua vida brigando; e nós odiamos o lobo que se lança sobre os tímidos rebanhos, mas o Homem não captura a andorinha porque ela é mansa e atura o pombo fazer sua casa nas torres que ele construiu. Longe toda discórdia e amargura na fala. Palavras suaves são o alimento do amor. É pelas discussões que a mulher estranha o marido e o marido a sua esposa. Eles imaginam que agindo dessa forma , eles estão pagando um ao outro em sua própria moeda.  Deixe isso para os casados. Brigas são o dote que os casados dão um ao outro. Mas uma amante deve ouvir apenas palavras agradáveis. Não foram as Leis que colocaram vocês na cama. A SUA lei, a LEI para você e para ela, é o Amor. Nunca a aborde senão com carinhos suaves e palavras que acariciem o ouvido dela, de modo que ela sempre se alegre com a sua chegada.

As festejadas “Metamorfoses” estão contidas em 15 livros e são um épico sobre o tema das transformações da mitologia greco-romana, da Criação à deificação de Júlio César.

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Outras obras do poeta são as “Cartas das Heroínas“, os “Remédios para o Amor” e “Calendários” e uma tragédia, Medéia, que infelizmente não chegou até os nossos dias, mas que foi muito apreciada na Antiguidade.

Nos “Remédios para o Amor“, Ovídio escreveu esse verso, em resposta aos seus críticos:

Exploda, Inveja voraz: o meu nome já é bem conhecido; E será ainda mais, se meus pés viajarem pela estrada que eles iniciaram; Mas você está muito apressada – se eu viver, você ficará mais do que arrependida: Muitos poemas, de fato, estão se formando na minha mente.”

Em 8 D.C.,  o imperador Augusto determinou que Ovídio fosse exilado para a longínqua cidade de Tomis, que os romanos recém tinham conquistado do reino trácio dos Odrísios. A cidade ficava onde hoje é a cidade de Constança, na Romênia.

 

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(Ruínas de Tomis, foto de Postoiu Roxana )

 

O motivo real do exílio de Ovídio não é conhecido, embora ele mencione que foi devido a um “carmen” (poema) e a um “error” (deslize ou engano), na sua obra “Tristeza” (Tristis), escrita em Tomis.

 

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Muitos estudiosos acreditam que a poesia de Ovídio estava em choque com a política moralizante de Augusto, que estabelecia penas severas para o crime de adultério.

Porém esses poemas foram escritos bem antes do seu banimento. Sabe-se, entretanto, que Júlia, a Jovem, neta de Augusto, foi exilada por  trair o seu marido com o senador Décimo Júnio Silano, também em 8 D.C, o  mesmo ano do exílio de Ovídio. O marido de Júlia foi executado por envolvimento em uma conspiração contra Augusto, em data indeterminada, mas que pode ter sido também em 8 D.C.. É possível que o poeta ou sua obra tenha de alguma forma se relacionado com este incidente, não sabemos.

No poema Tristeza, Ovídio lamenta o exílio distante, extravasando sua saudade da esposa e da pátria, e apela ao senso de justiça do imperador, sem sucesso. Ele morreria em Tomis, já no reinado do sucessor de Augusto, Tibério, em 17 ou 18 D.C., com aproximadamente 60 anos de idade. Ele teve uma filha que lhe deu dois netos.

 

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ALEXANDRE, O ÚLTIMO SEVERO E A CRISE DO SÉCULO III

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Em 19 de março de 235 D.C., o imperador romano Severo Alexandre, se encontrava  na base militar romana de  Castrum Moguntiatium (que deu origem à moderna cidade alemã de Mainz, ou Mogúncia, seu nome em português) quando um motim dos soldados da Legião XII Primigenia estourou.

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As tropas se recusavam a obedecer aos apelos do imperador para que combatessem as tropas lideradas pelo general Maximino Trácio, comandante da Legião IV Italica, as quais tinham aclamado Maximino imperador

Reunidos no centro do Quartel, os soldados começaram a ficar muito agressivos, acusando Severo Alexandre de ser um covarde dominado pela mãe avarenta e comparando-o ao desprezível Elagábalo, seu primo e antecessor no trono.

Os amotinados, ato contínuo, demandaram que os demais soldados abandonassem “o tímido menininho amarrado à barra da saia da mãe“,  fazendo com que toda a soldadesca lhe desse as costas, deixando o imperador sozinho no praetorium.

Severo Alexandre, aterrorizado, correu para a tenda de sua mãe, a imperatriz Júlia Maméia (Julia Mammaea), que o acompanhava, como sempre, naquela campanha contra os bárbaros Alamanos.

Tinha sido Júlia Maméia quem havia aconselhado Alexandre a oferecer aos bárbaros uma boa soma em dinheiro para que eles desistissem de guerrear contra os Romanos.

E esse foi justamente o estopim da revolta das legiões , pois os soldados alegavam que isso era uma grande desonra para o Império Romano (talvez eles esperassem que o dinheiro fosse dado a eles como donativo pela vitória).

No interior da tenda da mãe, Severo Alexandre chorou e recriminou a mãe pelos seus infortúnios. Ele sabia que estava acabado. Por isso, quando um grupo de soldados seguiu o imperador e invadiu a tenda de Júlia Maméia, Alexandre, resignadamente, ofereceu o pescoço para que eles o executassem. Ele morreu aos 26 anos de idade e treze de reinado. Na mesma ocasião, os soldados também mataram Júlia.

Marcus Julius Gessius Bassianus Alexianus(Severo Alexandre) nasceu em 1º de outubro de 208 D.C, na cidade de Arca Caesarea , na província romana da Síria Fenícia (atual Arqa, no Líbano), filho de  Marcus Julius Gessius Marcianus e de Julia Avita Mammaea (Júlia Maméia).

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O pai de Severo Alexandre era um cidadão romano de origem síria que pertencia à classe Equestre, o segundo nível da nobreza romana e parece ter exercido alguns cargos públicos.

Em algum momento depois do ano 200 D.C., Marcus Julius Gessius Marcianus casou-se com Júlia Maméia, que era sobrinha da poderosa imperatriz Júlia Domna, casada com o imperador Septímio Severo. Durante o reinado do marido, Júlia Domna receberia o título de “Mãe dos Quartéis, do Senado e da Pátria“.

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(busto de Júlia Maméia)

Júlia Maméia e sua irmã, Júlia Soêmia, eram filhas de Júlia Maesa, irmã da imperatriz Júlia Domna, que por sua vez eram filhas de  Julius Bassianus, sumo-sacerdote do Templo do deus Elagábalo (El-Gabal), situado em Emesa (a moderna Homs), na Província da  Síria, e integrante da dinastia dos Sempseramidas, que havia séculos governavam a referida cidade, a qual, durante muito tempo, havia sido a próspera capital de um reino-cliente de Roma,  até a sua anexação pelo Império Romano.

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(Estátua de Júlia Soêmia)

Portanto, a família de Júlia Maméia era riquíssima e, quando o imperador Caracala, filho e sucessor de Septímio Severo morreu, assassinado por ordens de Macrino, sua mãe Júlia Maesa e sua irmã, Júlia Soêmia, valeram-se dessa fortuna e de seu poder e prestígio na importante província da Síria para fomentar a rebelião que em pouco tempo derrubou Macrino. 

As tropas da Síria aclamaram o jovem filho de Júlia Soêmia, Elagábalo, de apenas 15 anos de idade, como imperador, em 16 de maio de 218 D.C. Macrino seria derrotado em junho de 218 D.C. e, assim,  Elagábalo foi reconhecido imperador pelo Senado.

A mãe do novo imperador, Júlia Soêmia, e  a sua tia, Júlia Maesa, foram declaradas “Augustas”. Mais surpreendente, as duas seriam, um pouco mais tarde, as primeiras e únicas mulheres a serem admitidas no Senado Romano. E Júlia Maesa ainda receberia o título de “Mãe do Senado”.

O reinado de Elagábalo seria marcado pelos escândalos e pela repulsa que a sua condição de sumo-sacerdote de El-Gabal, a sua aparência andrógina e o seu comportamento desregrado provocaram não apenas na elite senatorial, mas nas próprias tropas.

Em algum momento, Júlia Maesa percebeu que a crescente rejeição a Elagábalo pela sociedade romana, e, sobretudo, pelos militares romanos, colocava em perigo a própria posição da família. Ela também percebeu que os reiterados excessos sexuais dele eram encorajados pelo fervor religioso que com que ele e sua filha, Júlia Soêmia, a mãe do imperador, se dedicavam ao culto a El-Gabal.

Júlia Maesa então aproximou-se de sua outra filha, Júlia Maméia, que também tinha um filho, Marcus Julius Gessius Bassianus Alexianus (Severo Alexandre), então com 13 anos de idade, primo do imperador.

A influente Júlia Maesa conseguiu persuadir Elagábalo a nomear o seu primo como seu herdeiro, dando-lhe o título de “César”, passando a adotar o nome de Caesar Marcus Aurelius Alexander, em 221 D.C, Severo Alexandre seria Cônsul junto com Elagábalo. As duas mulheres também devem ter sido as responsáveis por espalhar o boato de que Alexandre seria também filho ilegítimo de Caracala, o que lhe granjearia a simpatia dos soldados.

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(estátua de Júlia Maesa)

Contudo, percebendo o entusiasmo que a nomeação de  Severo Alexandre provocou nos soldados da Guarda Pretoriana, já muito incomodados com os seus excessos, Elagábalo resolveu anular sua decisão e revogar os títulos concedidos ao seu primo. Contudo, essa decisão fez o  público e as tropas se alvoraçarem temendo pela vida do menino.

Os Pretorianos demandaram a presença de Elagábalo e de Severo Alexandre no Castra Pretoria, devido aos rumores de que Alexandre pudesse ter sido assassinado. É possível até que o motim tenha sido instigado por Júlia Maesa e Júlia Maméia. Quando Elagábalo chegou, começou um tumulto que degenerou no assassinato dele e de sua mãe, Júlia Soêmia, que depois tiveram os corpos arrastados pelas ruas, em 11 de março de 222 D.C.

Em 13 de março de 222 D.C., Severo Alexandre foi aclamado oficialmente imperador romano, adotando o nome de Marcus Aurelius Severus Alexander Augustus, nome escolhido para enfatizar a conexão dinástica com Septímio Severo e Caracala.

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Como o  imperador Severo Alexandre tinha  apenas 13 anos de idade, quem de fato detinha as rédeas do poder era sua mãe, Júlia Maméia.

Júlia Maesa e Júlia Maméia tinham testemunhado a catástrofe que a coroação de um imperador muito jovem, completamente despreparado e de comportamento indecoroso, como foi o seu seu sobrinho Elagábalo, representava, não só ao Império, mas, sobretudo, à própria sobrevivência da dinastia dos Severos.

Assim, as duas mulheres, que, naquele momento, eram as governantes de fato do Império Romano procuraram cercar o jovem Severo Alexandre dos mais ilustres e respeitáveis conselheiros, como foi o caso dos juristas Ulpiano, que foi nomeado para o importante cargo de Prefeito Pretoriano, e Paulus, e  também do senador e, mais tarde, historiador, Cassius Dio (Dião Cássio). Vale citar que Júlia Maesa morreria logo em 224 D.C., portanto, foi Júlia Maméia quem teve ascendência preponderante sobre o filho.

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(Busto de Ulpiano)

Graças a esse Conselho de homens notáveis, os primeiros atos do governo de Severo Alexandre visavam a recuperação moral e econômica do governo romano, a melhoria das condições da plebe de Roma e implantar medidas em prol dos soldados.

Foram implementavas ações para diminuir os gastos da Corte, considerada excessivamente luxuosa e extravagante. Talvez daí tenha surgido a fama de avarenta que Júlia Maméia gozou até o fim da sua vida. Uma fonte chegou a narrar que ela teria determinado que os restos dos banquetes no Palácio fossem recolhidos e guardados para serem servidos em outra oportunidade…

O denário foi inicialmente desvalorizado, provavelmente para aumentar a circulação de moeda e ajudar a equilibrar o déficit do Tesouro, mas posteriormente, mediante o aumento do percentual de prata, a moeda foi revalorizada, o que demonstra que houve uma melhoria nas contas públicas. Isso inclusive permitiu que os impostos fossem diminuídos, o que sempre estimula a economia e satisfaz os contribuintes. Esse programa foi completado pela criação de um serviço para emprestar dinheiro a taxas de juros moderadas.

Durante o reinado de Severo Alexandre foi construído o  Acqua Alexandrina, o último dos grandes aquedutos que abasteciam a cidade de Roma, em 226 D.C.. As Termas de Nero, que se encontravam em péssimo estado, foram reconstruídas, passando o complexo a ser conhecido como “Banhos de Alexandre”.

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(Um trecho do aqueduto Acqua Alexandrina, foto de Chris 73)

Severo Alexandre também estabeleceu medidas para beneficiar os militares no que se refere aos direitos sucessórios e pecúlios.

Todavia, já no início do reinado, Severo Alexandre sofreu com o problema da crescente indisciplina dos soldados.

Em 223 D.C., os Pretorianos, insatisfeitos com as medidas do Prefeito Pretoriano Ulpiano, a quem eles eram subordinados, assassinaram o famoso jurista na presença do próprio imperador. Ulpiano se tornaria célebre nas faculdades de direito por ter estabelecido o que seriam os preceitos do Direito: “Viver honestamente, não causar mal a ninguém e dar a cada um o que é seu” (Juris praecepta sunt haec: honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique tribuere)

Aliás, no período da dinastia dos Severos, apesar dos imperadores seguirem estritamente o conselho do seu fundador, Septímio Severo, de “dar dinheiro aos soldados e desprezar todos os outros“, aumentaram muito os episódios de indisciplina e insubordinação, chegando a um ponto que qualquer medida que visasse enrijecer a disciplina ou reduzir os donativos e gratificações, como ocorreu no reinado de Severo Alexandre, desencadeava rebeliões e motins entre a tropa, cuja efetividade em combate, também, parece ter sido comprometida.

Apesar das questões relativas à disciplina dos militares, o reinado de Severo Alexandre vinha tendo relativo sucesso em relação aos reinados anteriores de Elagábalo e Caracala, melhorando a economia e obtendo estabilidade política.

Contudo, eventos externos que ocorreram no reinado de Severo Alexandre, e em relação aos quais ele não teve qualquer responsabilidade,  não só causariam problemas que levariam à sua derrubada, mas teriam graves consequências estratégicas, que, futuramente comprometeriam a própria sobrevivência do Império Romano…

O primeiro deles foi a ascensão de Ardashir I (Artaxerxes I), nobre persa da Casa de Sassan, em 227 D.C., derrotando a dinastia dos Arsácidas, que fazia séculos governava o Império dos Partas e instalando a dinastia dos Persas Sassânidas, criando o império do mesmo nome. Os Sassânidas eram nacionalistas e centralizadores e eram muito mais agressivos militarmente do que os seus antecessores. Ironicamente, o principal motivo para a ascensão dos Sassânidas foram as sucessivas invasões que os romanos promoveram na Mesopotâmia parta durante os reinados de Trajano, Septímio Severo e Caracala, saqueando a capital Ctesifonte.

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(Relevo no Irã, retratando Ardashir e o deus Ahura-Mazda)

Em 330 D.C., Ardashir I lançou um ataque contra o sistema defensivo romano na fronteira da Mesopotâmia, sitiando a estratégica fortaleza de Nusaybin (Nísibis), sem, contudo conseguir tomá-la. Em seguida, as tropas persas invadiram as províncias da Síria e da Capadócia.

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Os Romanos foram obrigados a reagir militarmente, e o imperador teve que atender aos reclamos dos governadores.

Para lidar com a agressão persa, Severo Alexandre mandou reunir um exército com soldados das legiões espalhadas pelo Império. O historiador Herodiano de Antióquia narra que a medida causou comoção no Império, provavelmente pelo fato de terem sido recrutados soldados em províncias onde há muito não se faziam conscrições, como, por exemplo, a Itália.

Herodiano relata que Alexandre e sua comitiva integravam a expedição militar, sendo que ao partir o imperador pode ser visto chorando e repetidamente olhando para trás enquanto deixava Roma.

Chegando no teatro de operações, o imperador ainda tentou apelar para a diplomacia, enviando embaixadores à Ctesifonte.  Os embaixadores não foram recebidos, mas Ardashir mandou sua própria embaixada aos Romanos, com as seguintes exigências, segundo o historiador bizantino João Zonaras:

O Grande Rei Artaxerxes ordena aos romanos que deixem a Síria e toda a Ásia adjacente à Europa e permitam ao Persas governar até o mar“.

Como o objetivo dos Sassânidas era, como se vê no referido ultimato, restaurar o Império Persa às fronteiras dos gloriosos tempos de Dario e Xerxes, o que implicaria na perda para os Romanos das importantes províncias da Síria, Ásia, Capadócia e Bitínia, entre outras, a paz obviamente era impossível.

Nessa ocasião, houve mais uma prova de que a disciplina militar do Exército Romano estava seriamente comprometida: Quando as tropas estavam se preparando para cruzar os rios Tigre e Eufrates, para invadir o território persa, vários motins explodiram entre os soldados, especialmente entre os soldados do Egito, e também na Síria, onde as tropas até tentaram proclamar imperador um certo Taurinus,  no verão de 232 D.C., porém esta rebelião foi rapidamente debelada.

Os comandantes militares romanos decidiram dividir o exército em três. O primeiro destacamento invadiria ao norte a Armênia para atacar os Medos, súditos dos Sassânidas. O segundo atacaria a Mesopotâmia na confluência dos rios Tigre e Eufrates e o terceiro, sob o comando direto do imperador, atacaria os Persas no centro. Porém, na Armênia, os romanos tiveram muita dificuldade no terreno montanhoso, mas conseguiram chegar ao território dos Medos, devastando-o. Algumas tropas persas tentaram impedir o avanço, mas o terreno desfavorável à cavalaria impediu-os de engajar os Romanos.

Quando Artaxerxes I soube do avanço do segundo destacamento pelo Tigre e Eufrates, atacou aquele exército com suas tropas principais. Os Romanos avançavam sem muita cautela, pois até então não tinham enfrentado qualquer resistência. Assim, eles foram fragorosamente derrotados pelos Persas.

Para piorar, Alexandre foi aconselhado por Júlia Maméia, que acompanhava a comitiva, a não invadir a Pérsia com o seu exército, contribuindo para que as tropas do segundo destacamento fossem cercadas pelos arqueiros montados persas e aniquiladas.

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Apesar do fracasso da expedição, os Romanos conseguiram infligir muitas baixas entre os Persas, e dois dos três segmentos da força expedicionária devem ter conseguido sobreviver, o que impediu os Persas de explorarem a vitória na Mesopotâmia.

De volta a Antióquia, Alexandre distribuiu grandes donativos para as tropas e informou ao Senado, em Roma, que ele tinha vencido os Persas. E ao chegar em Roma, em 233 D.C., o imperador ainda chegou a celebrar um Triunfo.

De fato, como nenhuma inscrição ou texto persa relata uma vitória na ocasião, Artaxerxes I deve der ficado decepcionado com o desfecho da guerra, sobretudo porque as fronteiras do Império Romano no Oriente permaneceram inalteradas.

Assim, o conflito pode ser considerado um empate e Artaxerxes I somente voltaria a atacar o território romano em 237 D.C, dois anos após a morte de Severo Alexandre.

O conflito entre o Império Romano e o Império Persa duraria, com alguns intervalos de paz e vitórias e derrotas para ambos os lados, até a vitória final dos Romanos na Batalha de Nínive, em 628 D.C., no reinado do imperador romano-bizantino Heraclius.

O segundo evento que assolaria o reinado de Severo Alexandre foi a aparição nas fronteiras romanas dos rios Reno e Danúbio, da poderosa confederação de tribos germânicas dos Alamanos, que atacaram as fortificações romanas na fronteira e devastaram as cidades das províncias fronteiriças, em 234 D.C., ameaçando a província da Ilíria e, consequentemente, a própria Itália.

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Os Germanos, desde o final do século II A.C., vinham mostrando serem capazes de infligir grandes derrotas aos Romanos em batalhas isoladas, porém, os seus sucessos tinham duração efêmera, pois eles estavam organizados em inúmeras tribos pequenas, que não costumavam colaborar entre si, quando não guerreavam umas contra as outras. E, material e taticamente, em geral, os Germanos eram bem inferiores aos Romanos.

Todavia, assim como nós mencionamos acima com relação aos Persas e o Império Parta, foram os próprios Romanos que contribuíram para mudar a correlação de forças entre os Germanos.

Com efeito, de modo crescente, a partir de meados do século I A.C., os Romanos vinham empregando como soldados auxiliares tribos inteiras de Germanos. Muitos desses Germanos passavam 20 anos servindo no Exército Romano. Ao final do período, muitos adquiriam a cidadania romana, mas, ao contrário da maioria de outros povos que também forneciam tropas aos Romanos, muitos deles voltavam para as suas terras na Germânia, trazendo armamentos e táticas do exército romano. Com o tempo, os Germanos, que já eram tradicionalmente um povo de índole guerreira, foram adquirindo o conhecimento das táticas romanas e reunindo um grande arsenal de armas romanas, aprendendo também técnicas para o seu fabrico.

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A partir do século II D.C, começou a se observar que os chefes militares germânicos, muitos, provavelmente, egressos do Exército Romano, foram dominando as tribos vizinhas, que começaram a se aglutinar em forma de confederações de tribos.

Os achados arqueológicos, notadamente os provenientes de enterros em pântanos de turfa, mostram que, na virada do século II para o século III D.C., os bandos de guerreiros germânicos já demonstravam um grau de especialização (cavalaria, infantaria e arqueiros) e dispunham de espadas, elmos, armaduras (ao menos os chefes) e lanças que não ficavam a dever a dos Romanos, ou até mesmo eram de fabricação romana. Por sua vez, a nobreza germânica consumia produtos de origem romana e entesourava moedas de ouro romanas. Parece, neste particular, que os Romanos incentivaram a formação de verdadeiros reinos-clientes entre os Germanos.

Feita essa pausa digressiva, com a invasão dos Alamanos, mais uma vez, Severo Alexandre foi obrigado a se deslocar para o front de batalha. As tropas, cuja disciplina, como vimos, era problemática, estavam reclamando, especialmente as oriundas das províncias atacadas, pelo fato de Severo Alexandre tê-las feito lutar a campanha na Pérsia,  o que, no entender deles, provavelmente deve ter facilitado o ataque dos bárbaros germânicos.

Em Mogúncia, base das operações contra os Alamanos, Severo Alexandre, novamente, foi aconselhado por sua mãe a tentar conter a ameaça militar com a diplomacia. Nesse particular, não havia nada de absurdo naquele conselho, pois, há muito tempo, os Romanos costumavam pagar dinheiro aos Germanos para que estes ficassem sossegados e não atacassem o Império.

Não obstante, os militares tinham se acostumado com anos de condescendência, fraqueza e de mão-aberta dos imperadores em relação às suas demandas, e a insatisfação deles ao que parece, foi agravada pelos vexames de Elagábalo e pela falta de aptidão militar de Severo Alexandre, que, para piorar, parece que não era mesmo muito generoso nos donativos, em decorrência da sua política de austeridade fiscal, a qual era atribuída à mãe do imperador.

Assim, quando eles souberam que Severo Alexandre, seguindo as instruções de Júlia Maméia, estava disposto a dar dinheiro aos bárbaros Alamanos, as legiões aclamaram imperador o comandante da Legião IV Italica, Gaius Julius Verus Maximinus (Maximino Trácio).

Maximino era um Trácio da Moesia que quando criança trabalhara como pastor, mas, após entrar no exército romano, foi galgando postos, destacando-se nas batalhas devido a sua incrível força física. Há relatos de que ele teria cerca de 2m 40cm de altura e, de fato, as suas estátuas apresentam caracteristicas físicas de acromegalia. Ironicamente, ele havia sido promovido a comandante pelo próprio Severo Alexandre.

Entretanto, Não podia ser maior o contraste entre a figura frágil do imperador e a virilidade castrense de Maximino, que parecia aos soldados muito mais adequada para comandar o Exército naqueles tempos belicosos.

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Assim, no dia  19 de março de 235 D.C, quando se avistou a coluna de poeira deslocada pelas legiões que aclamaram Maximino, que se aproximavam do quartel-general em Mogúncia, só restou a Severo Alexandre apelar, sem sucesso, à lealdade dos soldados da Legião XII Primigenia,  que logo matariam ele e sua mãe. Era o fim da dinastia dos Severos, que governava Roma, com o breve intervalo de Macrino, desde 193 D.C.

Após saberem da execução de Severo Alexandre e Júlia Maméia, a Guarda Pretoriana também aclamou Maximino imperador e o Senado, constrangido, confirmou o nome dele, apesar de considerá-lo pouco mais do que um camponês bárbaro.

Maximino, sem deixar a Germânia, partiu para enfrentar os Alamanos, os quais conseguiu derrotar, apesar do exército sofrer pesadas baixas, no território romano dos Agri Decumates.

O reinado de Maximino marcaria o início da chamada “Crise do Século III“, o período  de grande instabilidade verificado entre 235 e 284 D.C quando 30 imperadores ocuparam o trono em 49 anos, ou seja, uma média de apenas 18 meses de reinado por imperador. Nesse período, vários imperadores foram assassinados, dois mortos no campo de batalha e um deles capturado vivo pelos Persas. Para se ter uma comparação, entre os reinados de Augusto e de Severo Alexandre, foram 28 imperadores para um período de 266 anos, com uma média de 9 anos e seis meses para cada reinado…

No ano de 238 D.C., ano que Maximino foi assassinado, houve cinco imperadores diferentes no trono , motivo pelo qual ficaria conhecido como “O Ano dos Cinco Imperadores“. E, em um futuro próximo, durante um bom período, a Gália e a Síria ficariam independentes, fazendo parte dos chamados “Império Gaulês” e “Império de Palmira“.

O principal motivo de tudo isso foi a duradoura incapacidade de Roma lidar com pesadelo estratégico da guerra em dois fronts naquele período. Embora haja também causas econômicas (especialmente déficit público causado pelos gastos militares e déficit comercial com a China) e demográficas (diminuição da população notadamente por epidemias).

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(Mapa do Império dividido – Blank map of South Europe and North Africa.svg: historicair

Para terminar nossa narrativa, é interessante citar, com a devida cautela quanto à veracidade do relato, da frequentemente imprecisa História Augusta, e também do historiador cristão Eusébio, ambos os textos datando provavelmente do reinado do imperador Constantino, o Grande, as passagens abaixo, que afirmam que Severo Alexandre era simpático ao Cristianismo.

Segundo Eusébio, no período que passaram em Antióquia, Júlia Maméia, que era muito religiosa, mandou Severo Alexandre estudar com o afamado teólogo cristão Orígenes.

Já a História Augusta (Lampridius) relata que Severo Alexandre colocou em seu “lararium” (oratório doméstico) imagens do patriarca Abraão e de Jesus Cristo, entre outros místicos famosos, como Apolônio de Tiana.

Ainda segundo a História Augusta, Severo Alexandre chegou a pensar em erguer um Templo em honra a Cristo em Roma e teria mandado gravar no Palácio dos Césares “as famosas palavras de Cristo”:

Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem contigo

A BATALHA DE MUNDA

No dia 17 de março de 45 A.C, na planície de Munda, próximo ao atual vilarejo de Lantejuela, na Andaluzia, os exércitos liderados pelo Ditador de Roma, Caio  Júlio César, e pelos líderes da facção senatorial dos Optimates, Cneu Pompeu e Publius Attius Varus, bem como pelo general ex-partidário de César, Tito  Labieno, se enfrentaram em uma terrível batalha, que seria a última travada no contexto da Guerra Civil.

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Após a morte de Pompeu Magno, no Egito, os Optimates (os defensores dos privilégios da aristocracia senatorial )resolveram continuar a guerra contra César. Assim, eles conseguiram reunir, na África, um exército de 40 mil soldados liderado pelos velhos inimigos de César: Catão, o Jovem e Metelo Cipião, e pelo inimigo mais recente, Tito Labieno, que, surpreendentemente, abandonara seu antigo líder e se bandeara para o lado dos Optimates. Foram se juntar a eles,  na atual Tunísia, os dois filhos de Pompeu, Cneu Pompeu e Sexto Pompeu. E os adversários de César ainda contariam com a ajuda do rei Juba, da Numídia.

César deixou Roma e partiu para a África, conseguindo sitiar os Optimates na cidade de Tapsos.  Na batalha que se seguiu, em 06 de abril de 46 A.C, os Optimates foram derrotados e, em decorrência, Catão, o Jovem e Metelo Cipião cometeram suicídio.

Enquanto isso, Cneu e Sexto Pompeu conseguiram fugir para a Espanha, para onde também escapou Labieno. Na Espanha, os três conseguiram formar um novo exército, incluindo duas legiões que tinham desertado do exército de César e eram formadas por veteranos das campanhas de Pompeu Magno. Vários outros veteranos de Pompeu tinham sido assentados na Espanha e, demonstrando fidelidade a seu falecido comandante, juntaram-se aos Optimates. Com esse exército, totalizando treze legiões, eles tomaram boa parte da Espanha, forçando os dois comandantes das forças leias a César, Quintus Pedius e Quintus Fabius Maximus, a se refugiarem na cidade de Oculbo (distante cerca de 50 km da atual Córdoba). De lá, os sitiados pediram ajuda a César.

César, cuja qualidade mais impressionante como general talvez fosse a velocidade com que conseguia que suas tropas se deslocassem, marchou os 2.400 km que separavam Roma de Oculbo em apenas 27 dias, e, com essa aparição súbita, conseguiu levantar o sítio.

A rapidez com que decidiu agir somente permitiu que César trouxesse consigo as legiões  nas quais ele mais confiava; a X Equestris e a V Alaudae (esta era uma legião formada por gauleses e é considerada a primeira legião romana formada por não-cidadãos), além de duas legiões recém formadas, a III Gallica e a VI Ferrata . Ele também recrutou, entre os cidadãos romanos que viviam na Espanha, mais quatro legiões.

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O exército de César tentou sitiar a importante cidade de Corduba (atual Córdoba) sem sucesso, e Cneu e Sexto Pompeu, aconselhados por Labieno, decidiram adotar uma estratégia defensiva, o que obrigou César a se preparar para passar o inverno na região, o que lhe obrigou a procurar os mantimentos necessários.

Porém, ainda durante o inverno, o exército de César conseguiu capturar a importante cidade de Ategua, obtendo suprimentos e infligindo uma derrota que enfraqueceu o moral do exército dos Optimates, que começou a experimentar deserções.

Assim, com a chegada do fim do inverno, pressionados pela queda do moral de suas tropas, os Optimates resolveram finalmente enfrentar o exército de César em uma batalha campal, em uma planície situada a uma milha das muralhas da cidade de Munda.

O exército dos dos Pompeianos tendo se desdobrado primeiro em ordem de batalha, escolheu uma elevação suave na planície, dando-lhe uma posição mais favorável. Eles comandavam uma força de treze legiões, mais seis mil auxiliares, além de seis mil cavaleiros, em um total de cerca de 70 mil homens.

César comandava oito legiões, com mais oito mil cavaleiros, totalizando cerca de 40 mil homens, sendo que no seu flanco direito, ele posicionou, como de costume, a sua estimada X Legião.

César ordenou que o seu exército parasse a uma certa distância da planície, tentando atrair o inimigo e fazê-lo descer a colina, sem sucesso, já que eles apenas avançaram um pouco, sem deixar a sua posição vantajosa. Suas próprias tropas não gostaram dessa pausa no seu avanço, achando que isso atrasaria a fácil vitória que eles pensavam que iriam obter.

Então, César deu o comando para o ataque, utilizando a senha “Vênus” (a deusa de quem a sua família julgava descender) e suas legiões avançaram soltando um grito de guerra.

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Dessa vez, os Pompeianos estavam dispostos a tudo para vencer, afinal muitos dos seus soldados já tinham sido perdoados por César e, por voltarem a combatê-lo, acreditavam que desta vez não teriam clemência.

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 No calor dos furiosos combates, César teve que desmontar e lutar ao lado da infantaria. Em dado momento, indo para um ponto onde as suas tropas começavam a fraquejar, ele retirou o seu elmo para que os soldados pudessem vê-lo e se sentirem encorajados ou envergonhados por ele ser obrigado a combater junto deles. Não surtindo muito efeito isso, consta que César tirou um escudo das mãos de um legionário e falou para os seus oficiais:

Isto será o fim da minha vida e também das suas carreiras militares“.

Então, César avançou para a frente de batalha, chegando a ficar a apenas três metros do inimigo, que atirou cerca de duzentas lanças em sua direção,  tendo César conseguido desviar da maioria e os outros cravando-se no seu escudo. Nesse momento, todos os tribunos correram para ele, colocando-se ao seu redor e todo o exército avançou.

Mais tarde,  César diria:

Inúmeras vezes, eu lutei pela vitória; em Munda, eu lutei pela minha vida !

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A encarniçada luta se estenderia por oito horas, até que a X Legião começou a prevalecer sobre a ala esquerda do exército dos Pompeianos. Cneu Pompeu, percebendo o perigo, retirou uma legião da sua ala direita para reforçar a sua ala esquerda ameaçada. Porém, o rei Bogud, da Mauritânia, que comandava a cavalaria de César, percebendo o consequente enfraquecimento da ala direita inimiga, ordenou uma carga contra a retaguarda de Pompeu.

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Labieno viu o ataque da cavalaria de César e deslocou várias unidades para contê-lo, todavia o movimento foi mal interpretado pelo seu exército, que pensou, equivocadamente, que se tratava de uma retirada. O exército pompeiano já estava sob forte pressão em ambos os flancos e quando eles viram várias da suas unidades recuando para fazer a manobra ordenada por Labieno, o pânico se instalou e as suas linhas começaram a se dissolver devido a debandada dos soldados pompeianos apavorados.

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Como era frequente nas batalhas da antiguidade, a grande matança se dava após uma debandada. Assim, morreram trinta mil soldados do exército pompeiano, contra apenas mil mortos das tropas de César.

Labieno tombou na Batalha de Munda, recebendo de César o devido funeral, mas Cneu e Sexto Pompeu conseguiram escapar. Porém, um mês depois, o primeiro  na Batalha de Lauro, onde lutou até a morte. Já Sexto Pompeu ainda lideraria, anos mais tarde, uma rebelião na Sicília,  depois do assassinato de César. Ele somente seria morto por Marco Antônio, em 35 A.C.

14 mil soldados pompeianos ainda conseguiram fugir para Munda, sendo sitiados pelo legado de César, Quintus Fabius Maximus. Córdoba já havia caído e Munda acabou se rendendo.

Este foi o último conflito da Guerra Civil iniciada quando César cruzou o rio Rubicão, quatro anos antes. Deve ter parecido a muitos que César e os Populares tinham derrotado completamente os Optimates e que uma nova era iria começar.

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Porém, havia, em Roma, um núcleo duro da facção dos Optimates que ainda estava disposto a resistir, mesmo sem exércitos…

 

 

 

 

VALENTINIANO III

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Em 16 de março de 455 D.C, no Campo de Marte, em Roma,  o imperador  Valentiniano III estava  treinando com o arco e flecha,  quando foi morto por dois mercenários hunos, chamados Optelas e Thraustelas, que também mataram o eunuco Heraclius, que acompanhava seu mestre. Era o fim da dinastia teodosiana no Ocidente.

Nascido em 2 de julho de 419 D.C, em Ravena, capital do Império Romano do Ocidente, Flavius Placidius Valentinianus (Valentiniano III), era filho de Flávio Constâncio e de Galla Placídia.

O pai de Valentiniano foi um dos últimos de uma longa linha de generais nativos da Ilíria que assumiram o trono no período final do Império Romano do Ocidente. Nascido em Naissus, na atual Sérvia, ele derrotou uma série de usurpadores durante o reinado do Imperador do Ocidente, Honório, e conseguiu alguns sucessos contra os Godos, com os quais conseguiu entrar em acordo, assentando-os no sul da Gália.

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(Medalhão romano do século V que se acredita retratar Valentiniano III. Galla Placídia e Honória)

Outro item do tratado assinado por Flávio Constâncio com os Godos foi a devolução à Roma da irmã de Honório, Galla Placídia, que havia sido capturada pelos bárbaros quando do Saque de Roma, liderados pelo rei Alarico, em 410 D.C.

O poderoso Flávio Constâncio acabou se casando com Galla Placídia, em 417 D.C, e, em função disso, em 421 D.C, ele conseguiu ser nomeado Augusto, e, portanto, co-imperador junto com Honório, reinando com o nome de Constâncio III.

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Entretanto, Constâncio III somente reinaria por 7 meses, vindo a falecer de causas desconhecidas, em 2 de setembro daquele ano.

A mãe de Valentiniano III, Galla Placídia, além de irmã de Honório, era filha do imperador Teodósio, o Grande, e neta do imperador Valentiniano I, o último imperador do Ocidente que comandou um grande exército, e, consequentemente, ela era a mulher mais ilustre do Império Romano naquele tempo. Além disso, Galla Placídia, durante o cativeiro nas mãos dos Godos, havia se casado, aparentemente não contra a própria vontade, com o rei deles, Ataulfo, que depois seria assassinado em 415 D.C.

O sucessor de Ataulfo, Wallia, necessitando de alimentos para o seu povo, concordou em assinar o tratado proposto por Constâncio III e devolveu a viúva Galla Placídia aos romanos.

Como Honório era divorciado, Galla Placídia, após a elevação de seu marido Constâncio à posição de Augusto, passou a ser a única Augusta (imperatriz) no Ocidente. Após ela ter ficado viúva de Constâncio, intrigas da Corte e as suspeitas de um relacionamento incestuoso com o irmão Honório forçaram Galla Placídia e seu filho bebê, Valentiniano, a se exilarem em Constantinopla, sob a proteção do Imperador do Oriente, Teodósio II, em 423 D.C.

Naquele mesmo ano de 423, Honório morreu de edema e o trono do ocidente foi usurpado por João, colocado no trono pelo general Castino. Teodósio II obviamente não reconheceu João e nomeou seu parente Valentiniano, filho de Galla Placídia, como César, além de arranjar o futuro casamento deste com sua filha Licínia Eudóxia, sendo ambos ainda crianças.

Após a derrota de João, Valentiniano III foi, oficialmente, coroado como Imperador Romano do Ocidente, em 23 de outubro de 425 D.C, com apenas 6 anos de idade.

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Assim, no início do reinado de Valentiniano III, o governo do Império do Ocidente ficou de fato nas mãos de sua mãe, a Imperatriz Gala Placídia, regente de fato.

O reinado de Valentiniano III caracterizou-se pelo progressivo desmembramento do Império Romano do Ocidente, decorrente de uma série de invasões bárbaras. Com efeito, durante esse período, os bárbaros Vândalos, Suevos e Alanos consolidaram seus reinos na Espanha, e os Visigodos, inicialmente, no sul da Gália. Além disso, o noroeste da Gália encontrava-se virtualmente independente controlado por bandoleiros chamados de bagaudas. Para piorar, os Vândalos deixaram a Espanha e invadiram a rica província da África, que na época era a principal fonte de suprimento de grãos para Roma. (o Egito estava sob a jurisdição de Constantinopla).

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O Exército do Império do Ocidente, durante o reinado do antecessor de Valentiniano III, Honório,  praticamente havia desaparecido, e o Imperador dependia majoritariamente de tropas bárbaras, cujos chefes, cada vez, mais ansiavam o cargo de Comandante Supremo das Forças Armadas (Magister Utriusque Militiae), visando ter acesso aos ainda vastos recursos do Império.

Roma, apesar de tudo, durante esse período (400 a 450 D.C), ainda conseguia desdobrar algum poder militar, nas vezes em que o exército era comandado por um general de prestígio e dotado de orientação patriótica, como foi o caso do meio-romano, meio-vândalo Estilicão, que foi o comandante do Exército de Honório. Esses generais, enquanto o tesouro não se exauriu completamente, frequentemente conseguiam reunir tropas bárbaras que serviam ao Império como “federados” (foederati) e empregá-las no interesse de Roma.

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Foi o que ocorreu, quando, decorridos alguns anos do reinado de Valentiniano III, outro militar do quilate de Estilicão assumiu o comando do que restava do Exército: o general Flávio Aécio, um romano nascido na região do Danúbio. Aécio tinha sido, durante a juventude, entregue como refém aos Godos  que, por sua vez, o entregaram aos Hunos. Porém, Aécio, valendo-se de seu talento para a Diplomacia, conseguiu fazer  muitas amizades e contatos entre os Hunos, que eram os bárbaros mais temidos naqueles tempos.

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De fato, durante toda a sua carreira, Aécio se valeria dessa amizade com os Hunos, que lhe forneceriam as tropas que o Império do Ocidente tanto precisava para fazer frente aos Visigodos, Suevos, Francos, Burgúndios e outros tantos, os quais, já instalados na Gália e Espanha, ou, em reides partindo dos rios Reno e Danúbio, ameaçavam a própria Itália.

Aécio, que alcançara o posto de comandante militar da Gália, teve que combater Bonifácio, um rival pelo comando supremo do Exército, que gozava da predileção de Gala Placídia. Nessa luta entre romanos, Aécio, apesar de ter sido derrotado na Batalha de Rimini, em 432 D.C, conseguiu fugir e chegar até aos seus amigos Hunos, enquanto que Bonifácio morreu em decorrência dos ferimentos sofridos no combate.

Os Hunos forneceram a Aécio novas tropas, com as quais ele não teve dificuldade em “convencer” Gala Placídia a lhe nomear “Magister Utriusque Militae” e Conde (“Comes“).

Infelizmente, os Vândalos se aproveitaram desse conflito e aproveitaram para invadir a África, que era vital como fonte de fornecimento de grãos e de tributos para o Império do Ocidente, e onde os senadores romanos possuíam imensas propriedades.

A estratégia seguida por Aécio diante desse grave quadro é considerada pelos historiadores militares como inteligente e adequada para a delicadíssima situação em que o Império do Ocidente se encontrava.

Com efeito, Flávio Aécio,  procurou proteger, entre todos os domínios imperiais, a Gália, a maior e mais rica província do Ocidente, já bem devastada pelas invasões bárbaras. Ele conseguiu derrotar os Burgúndios e conter os bagaudas, na Gàlia e ,após algumas derrotas e vitórias contra os Visigodos, firmar com eles um tratado delimitando a área que seria destinada aos últimos. Sem ter tropas suficientes para subjugar todos os bárbaros, Aécio passou a se valer da tática de usar as tribos bárbaras que tinham sido recentemente derrotadas e assentadas para conter aquelas outras que fossem julgadas mais perigosas para Roma.

Por outro lado, embora a defesa da Gália, no plano militar, fosse a escolha mais adequada, no campo político essa estratégia colocou Aécio em choque com os interesses da nobreza senatorial italiana, que ainda era muito influente e achava que a Itália deveria ser defendida a qualquer preço.

Efetivamente, Aécio foi a pessoa mais poderosa do Império do Ocidente entre 433 e 450 D.C. Porém, em 451 D.C, Átila, que tinha se tornado rei dos Hunos em 435 D.C, resolveu atacar o Império do Ocidente, valendo-se de um pretexto surpreendente: a irmã de Valentiniano III, Honória, que havia sido presa por ter engravidado de um camareiro, tinha conseguido enviar a Átila um pedido de socorro, junto com um anel, razão pela qual o rei bárbaro considerou que a princesa romana era sua noiva, dando-lhe o direito de exigir o seu dote: Metade do Império do Ocidente!

O irresistível avanço da horda huna, acrescida por várias tribos germânicas súditas de Átila, rapidamente tomou Metz, Reims, Mogúncia, Estrasburgo, Colônia, Worms e Trier que foram saqueadas e incendiadas.

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Aécio, porém, conseguiu formar uma aliança com os Visigodos, Francos e Alanos, que se uniram a um pequeno contingente de tropas romanas tradicionais. Quando o exército aliado aproximou-se de Orleans, sitiada pelos Hunos, Átila teve que abandonar o cerco e rumou para o campo aberto em Châlons, na Champagne.

Ali, em 20 de junho de 451 D.C., travou-se uma sangrenta batalha onde os Visigodos e Alanos aguentaram a maior parte da carga dos guerreiros hunos. Os Romanos colaboraram ocupando uma importante elevação no terreno. Em posição desfavorável, Átila acabou ordenando uma retirada, sem que houvesse uma perseguição por parte dos aliados romanos.

A vitória na Batalha de Châlons foi certamente o auge da carreira de Aécio. Muitos historiadores consideram, para outros com algum exagero, que esta foi uma das batalhas mais importantes da História, e o historiador romano-bizantino Procópio apelidou Aécio de “O Último dos Romanos“. É difícil, no entanto, chegar a uma conclusão, pois Átila morreria dois anos depois e o seu império se esfumaçou tão rápido como surgira.

Todavia, o prestígio político de Aécio não duraria muito. No ano seguinte à Batalha de Chalons, Átila e seus Hunos invadiriam a Itália. Em seu avanço, a grande cidade de Aquiléia foi varrida do mapa.

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Valentiniano III, protegido pelos pântanos de Ravenna, foi obrigado a assistir impotente enquanto a horda se dirigia para Roma. Contudo, por razões até hoje misteriosas, mas provavelmente devido à peste que se alastrava pela Península, Átila, após receber uma embaixada do Papa Leão, resolveu se retirar da Itália e, no ano seguinte, ele morreria sufocado pelo próprio sangue, após a festa do seu casamento com uma nova esposa, quando teria tido uma hemorragia nasal.

Após Chalons, Aécio tinha conseguido a honra de casar seu filho Gaudentius com Eudóxia, filha de Valentiniano III, passando, assim, a ser oficialmente membro da família imperial e colocando seu filho como um sério candidato à sucessão do próprio Valentiniano III.

A ascensão de Aécio despertou muitos ciúmes, especialmente em Petrônio Máximo, então o senador mais poderoso e com mais distinções em cargos públicos. Segundo o historiador romano-bizantino do século VII, João de Antióquia, Máximo foi o maior responsável pelas intrigas contra Aécio, conseguindo envenenar o imperador  Valentiniano III contra o general, cujo prestígio junto aos senadores italianos estava muito abalado pela invasão da Itália.

Petrônio aliou-se a um secretário doméstico do imperador (“Primicerius Sacri Cubiculi“), um eunuco chamado Heraclius, que também era inimigo de Aécio e ambos conseguiram convencer Valentiniano III de que Aécio planejava matá-lo. Em decorrência persuadiram o imperador a convocar o general para um encontro no Palácio, onde seria recebido por Valentiniano III em pessoa,  no que foi provavelmente uma forma de afastar Aécio de seus guarda-costas hunos, sem despertar a suspeita deles.

Em 21 de setembro de 454 D.C., Valentiniano III convocou Aécio ao Palácio e, quando este lhe apresentava um relatório, o imperador acusou-o de traição. Ao tentar se explicar, Aécio foi atacado por Valentiniano III e por Heraclius, sendo morto por um golpe de espada desferido pelo próprio imperador. Não deve ter sido uma luta muito difícil, pois, enquanto Valentiniano tinha 34 anos e era dado a se exercitar, Aécio já tinha a avançada idade, para a época, de 63 anos.

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Dias depois, ao comentar que tinha agido corretamente ao matar Aécio, Valentiniano III ouviu de um cortesão:

Se foi bom ou ruim eu não sei, mas o que eu sei é que Vossa Majestade cortou vossa mão direita com a vossa esquerda“…

O ambicioso Petrônio conseguiu convencer dois guarda-costas de Aécio a vingarem a morte do seu amado chefe, prometendo ainda uma recompensa pela morte de Valentiniano III. Assim, no dia 16 de março de 455 D.C, em Roma, quando o imperador estava praticando com o arco e flecha, os dois bárbaros mataram Valentiniano III, bem como o eunuco Heraclius, que o acompanhava. Assim, terminava a dinastia inaugurada pelo imperador Teodósio, o Grande no Ocidente.

Naquele mesmo ano, Roma seria alvo de um devastador saque pelos Vândalos e, no espaço de apenas 21 anos, o Império Romano do Ocidente deixaria de existir.

                                                                      FIM

POR QUE ASSASSINARAM CÉSAR? FINAL

TRIUNFO, PODER ABSOLUTO E MORTE

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Morto Pompeu, o seu único rival pelo poder supremo, César celebrou os seus Triunfos com uma magnificência jamais vista em Roma. Nos festejos pela vitória na Gália, que tinham sido adiados pela Guerra Civil, vinha, no final da procissão triunfal, Vercingetórix acorrentado. O altivo chefe gaulês seria executado após a cerimônia, como era o costume romano. Houve, ainda, uma batalha naval simulada em um lago artificial e 400 leões foram soltos em um Circo, para serem mortos por quem se dispusesse a pagar uma taxa. Em seu novo Fórum construído perto do antigo, César, presença de Cleópatra e Cesarion, desvendou uma bela estátua de ouro de sua amante e rainha do Egito, ao lado do Templo de Vênus Genitrix, deusa que a gens Júlia reivindicava como sendo sua ancestral.

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(Denário de prata de 48 A.C.,  com a imagem de Vercingetórix acorrentado, é a única imagem do líder gaulês capturado e executado após o Triunfo de César, em Roma)

Provavelmente esses festejos foram a maior exibição de propaganda política em toda a História de Roma. Mas os Optimates ainda não tinham sido completamente derrotados… Na África, um exército de 40 mil soldados liderado pelos velhos inimigos Catão, o Jovem e Metelo Cipião, e pelo inimigo recente, Labieno, aos quais se juntaram os filhos de Pompeu, contando com a ajuda do rei Juba, da Numídia, ainda constituía uma ameaça respeitável.

César, após as celebrações de seu triunfo, partiu de Roma e sitiou a cidade de Tapsos, na atual Tunísia. Os Optimates foram forçados a aceitar a batalha campal e o exército de César mais uma vez venceu, em 06 de abril de 46 A.C. Os Númidas fugiram e os 10 mil soldados inimigos que quiseram se render foram mortos pelos soldados de César. Esse massacre não era compatível com a política de clemência que ele vinha adotando desde o início da Guerra Civil. A explicação, segundo Plutarco, é que César, durante a Batalha de Tapsos, perdeu os sentidos devido a um ataque, supostamente epilético, e o desfecho sangrento teria acontecido à sua revelia.

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Catão, o Jovem e Metelo Cipião conseguiram fugir de Tapsos. O primeiro, que não era militar e não participara da batalha, se refugiou em Útica, mas acabou cometendo suicídio ao saber do resultado da luta. Consta que César, ao ser informado da morte de Catão, disse:

Eu lamento a sua morte, Catão, assim como você teria lamentado se eu poupasse a sua vida“.

Cipião também cometeu suicídio, após ser interceptado pela frota de César, quando tentava chegar com um navio até a Espanha, onde esperavam obter auxílio dos numerosos veteranos de Pompeu que viviam naquela Província.

Vale observar que, especialmente Catão, o Jovem, ao tirar a própria vida, tornou-se um símbolo para os Optimates de uma vida virtuosa e de sacrifício em prol da República. Posteriormente, já durante o Império, o nome dele seria sempre evocado como exemplo pelos senadores insatisfeitos como o Principado e por aqueles que , no futuro, conspirariam contra o despotismo dos imperadores.

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(Busto de bronze de Catão, o Jovem, achado na cidade romana de Volubilis, no Marrocos)

Após essa vitória, César foi nomeado Ditador da República Romana por 10 anos, algo inédito. Ele também foi eleito Cônsul para o ano de 46 A.C. (o que se repetiria nos dois anos seguintes).

O último bastião da resistência dos Optimates era agora a Espanha, onde os filhos de Pompeu, Cneu Pompeu e Sexto  Pompeu, valendo-se do grande número de soldados veteranos do falecido general assentados naquela província, conseguiram reunir um grande exército (incluindo duas legiões que tinham desertado do exército de César). Com isso, eles tomaram toda a Espanha, forçando as legiões leais a César a se refugiarem na cidade de Oculbo. De lá, os sitiados pediram ajuda a César.

César, cuja qualidade mais impressionante como general talvez fosse a velocidade com que conseguia que suas tropas se deslocassem, marchou os 2.400 km que separavam Roma de Oculbo em menos de 1 mês, e, com essa aparição súbita, conseguiu levantar o sítio.

Em 17 de março de 45 A.C, na planície de Munda, após uma feroz batalha que durou 8 horas, o exército de César saiu vencedor. Ele assim definiria a Batalha de Munda, segundo suas próprias palavras:

Inúmeras vezes, eu lutei pela vitória; em Munda, eu lutei pela minha vida !

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Trinta mil soldados inimigos foram mortos na batalha, incluindo o general Labieno. Um dos filhos de Pompeu, Cneu, foi capturado um mês após e morto. Já Sexto, sem exército, somente seria morto por Marco Antônio dez anos mais tarde.

César agora era o senhor absoluto de Roma, para onde voltou para implementar seus projetos de governo, que tinham sido interrompidos pela necessidade de combater os últimos focos de resistência senatorial em Tapsos e Munda.

Inicialmente, derrotados os inimigos, é preciso reconhecer que César, ao contrário de Mário e Sila – que tinham sido os únicos que haviam chegado perto de deter tamanha parcela de poder na República e que se aproveitaram disso para eliminar os desafetos – perdoou seus inimigos e permitiu que eles participassem da administração pública e retornassem ao Senado, sendo os exemplos mais ressonantes, os adversários Cícero, Cássio, Marco e Décimo Bruto.

E o que César tencionava fazer com tanto poder?

César nunca escreveu, ou foi registrado para a posteridade, quais eram os seus planos para a República: se pretendia aboli-la ou meramente reformá-la. Ele também não teve tempo, se é que esse era mesmo o seu propósito, de estabelecer para si uma nova posição como monarca de Roma. Somente podemos inferir, das medidas que tomou após alcançar o poder absoluto, algumas linhas gerais:

Uma diretiva inequívoca de seus planos é dada pelo aumento do número de Senadores e renovação da composição do Senado Romano (que havia sido muito desfalcado pelos anos de guerra civil). César aumentou o número de senadores para 900 e nomeou senadores oriundos de províncias fora da Itália, especialmente gauleses. Esse propósito é corroborado pela permissão de que legionários fossem recrutados nas províncias. De fato, César criou legiões compostas por gauleses, espanhóis e súditos do Oriente. Para isso, a cidadania romana e latina foi concedida amplamente na Sicília, na Gália, na Hispânia e até na Criméia.

Tudo isso constitui um indício de que o plano de César era criar um Império Romano universal e mais inclusivo, e não apenas manter uma dominação de Roma e das cidades italianas sobre colônias ao longo do Mediterrânea, em uma dominação etnicamente latina sobre súditos de outras raças. Nisso, talvez César até evocasse os desígnios de Alexandre, o Grande, um herói por ele admirado desde a juventude,  e cujos atos, inclusive os seus casamentos, manifestavam o propósito do rei macedônio de criar um império mundial que unisse  os gregos e outros povos orientais, como os persas e os hindus.

Podemos cogitar que César não tencionava restaurar a velha ordem republicana. Provavelmente, o Senado não seria mais a instância máxima de poder, funcionando como um conselho consultivo e, em seu governo, não apenas os Optimates, mas também os Populares, não encontrariam lugar, pois, já no início de sua Ditadura, os Concílios da Plebe atuavam apenas para referendar as leis promulgadas pelo Ditador, sem maior debate ou discussão. Nessa linha, César havia abolido os “collegia“, as associações corporativas que participavam politicamente das eleições, e que tinham se transformado em milícias violentas utilizadas para influir nos pleitos.

Vale citar como exemplo o fato de César ter sido o primeiro romano a exercer, concomitantemente, diversas magistraturas republicanas, que podem ter sido formalmente mantidas, mas cuja concentração nas mãos de um único homem era um fato inédito e que constitui mais um indício de que se tratava de uma nova ordem.

Assim, César, além de Ditador pelo longo prazo de dez anos (e em 44 A.C, ele seria nomeado “Ditador Perpétuo“) era, respectivamente: Cônsul e Pontífice Máximo (Chefe da religião) e, além disso, em mais uma inovação, mesmo sem ser Tribuno da Plebe, ele recebia, anualmente, o “Poder Tribunício“, ou seja, detinha todos os poderes inerentes a essa magistratura, inclusive o poder de votar todos os atos administrativos ou legislativos, bem como a “sacrossantidade” daqueles magistrados. Essa fórmula, diga-se de passagem,  seria mantida por Augusto e todos os imperadores que o sucederam. Devemos, contudo, observar que, de certa maneira, a menção expressa ao Poder Tribunício não deixava de ser um reconhecimento de que o Poder emanava do Povo.

O virtual fim da República também foi evidenciado pelas leis que deram a César:

a) o novo cargo de “Prefectus Morum“, encampando as atribuições dos Censores. Com esse poder, César podia nomear ou expulsar do Senado quem ele julgasse que obedecesse, ou não, os costumes morais romanos;

b) o direito de nomear os governadores das províncias para um mandato com prazo fixo, e de recomendar ao povo, para referendo, a metade dos magistrados em Roma;

c) o direito de declarar guerra e de celebrar a paz;

d) o direito de votar em primeiro lugar no Senado (assumindo, na prática, o lugar do “Princeps Senatus“, distinção conferida ao Senador mais antigo ou eminente e que seria a inspiração para Augusto batizar a posição ocupada pelo Imperador, dando o nome pelo qual o novo regime por ele inaugurado seria conhecido: “Principado“);

e) o direito perpétuo de comandar o Exército (“Imperium“, atributo do “Imperator“, ou comandante,  e que, futuramente, também acabaria batizando o governante do novo regime que seria inaugurado por Augusto);

f) o direito de dispor dos fundos públicos; e

g) o direito de promulgar Éditos,  que deveriam ser confirmados sem discussão pelo Senado.

Entretanto, devemos anotar que alguns historiadores não têm certeza de que César pretendesse que as reformas supracitadas fossem permanentes, considerando o fato de que ele, antes de morrer, planejava uma grande campanha militar contra a Pártia. Assim,  talvez essas reformas se destinassem apenas a assegurar a estabilidade do governo, enquanto ele estivesse ausente na planejada guerra.

César também reorganizou a estrutura dos governos municipais das cidades italianas e parece que ele tencionava uniformizar os diferentes sistemas de governo por elas adotados. Considerando que ele fundou diversas cidades, inclusive refundando as destruídas Cartago e Corinto, é possível supor que César compreendia que a força do Estado Romano repousava nas cidades e talvez ele até imaginasse o futuro império como uma confederação de cidades autônomas unidas sobre a autoridade de um governo central. Notavelmente, nas renascidas Cartago e Corinto, César determinou que fossem prestigiadas as populações nativas.

O Ditador César promoveu a reforma de várias leis penais, aumentando a punição para crimes violentos. Ele também instituiu um sistema uniforme de taxas alfandegárias e promulgou uma lei proibindo a exibição de luxo excessivo em público, uma preocupação recorrente dos governos desde quando o enriquecimento da aristocracia romana após as Guerras Púnicas atingiu níveis astronômicos. César também iniciou um vasto programa de obras públicas, visando aproveitar a numerosa mão de obra ociosa do proletariado romano, que aumentou muito após a desmobilização das legiões que se verificou com o fim da Guerra Civil.

O poder absoluto de César e a aura de semi-divindade que ele assumira perante boa parte dos olhos da opinião pública acarretaram que lhe fossem concedido um sem número de honrarias inauditas, como por exemplo: O 5º mês do calendário romano, “Quintilis“, foi rebatizado de “Julius” (Julho), em sua homenagem. Aliás, a reforma do antiquado e astronomicamente impreciso calendário romano, pelo muito mais acurado “Calendário Juliano“, foi uma das grandes contribuições de César para a Civilização Ocidental. E, pela primeira vez na História de Roma, a efígie de um governante foi cunhada nas moedas, a dele. Finalmente, muitos templos e estátuas foram erguidos em sua homenagem.

Surpreendentemente, César, apesar do pouco tempo decorrido desde a derrota militar da facção aristocrática do Senado, em Munda. mantinha seus exércitos fora da Itália e, na cidade de Roma,  ele era protegido apenas por uma pequena guarda pessoal. E mesmo este destacamento foi afastado pouco antes de março de 44 A.C.

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(Busto de César, retratado em seus últimos anos)

OS IDOS DE MARÇO – O ASSASSINATO DE CÉSAR

Nos meses anteriores ao assassinato de César, as fontes antigas narram um certo descontentamento com o seu comportamento soberbo e arrogante, ao menos por parte da elite governante. Suetônio narra que surgiram rumores acerca de conspirações para derrubá-lo e que tais informações tinham chegado anteriormente aos ouvidos de César, que se limitou apenas a advertir publicamente que ele  tinha ciência das mesmas.

A conspiração que resultou no assassinato de César, como não é de surpreender, em vista de tudo que narramos desde a primeira parte de nosso artigo, nasceu no seio dos remanescentes da facção dos Optimates no Senado Romano. O número de conspiradores, nas fontes antigas, varia entre 60 e 90 senadores. Os líderes da conspiração eram Caio Cássio Longino, Marco Júnio Bruto e Décimo Bruto.

Marco Júnio Bruto era filho do pai do mesmo nome e, supostamente, ele era descendente direto do fundador da República Romana, Lúcio Júnio Bruto, que expulsara o último rei de Roma e se tornaria o 1º Cônsul da República. Bruto era filho de Servília Caepionis, que também era meia-irmã de Caio Cássio Longino e que , desde longa época, era notória amante de ninguém menos do que  Júlio César. Alguns suspeitavam até que Bruto pudesse ser filho ilegítimo de César, mas isto é altamente improvável, pois ele tinha apenas 15 anos quando Bruto nasceu. Além disso, Bruto era genro do finado Catão, o Jovem, que se suicidara em Útica após uma vida de lutas contra César. A presença de Bruto entre os líderes da conspiração conferia legitimidade ideológica e histórica ao movimento.

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Bruto sempre foi um integrante da facção dos Optimates no Senado Romano e acompanhou Pompeu na Guerra Civil. Poupado por ordens expressas de César na Batalha de Farsália, Bruto, em seguida, foi admitido no círculo mais íntimo do Ditador e nomeado por ele Governador da Gália, em 46 A.C.

O historiador Nicolau de Damasco, uma das fontes antigas que escreveu em época mais próxima aos Idos de Março de 44 A.C, narra que o círculo de conspiradores foi crescendo, atraindo pessoas que tinham sido prejudicadas pela guerra civil com a perda de seu patrimônio ou de sua posição social, bem como antigos aliados de César que se sentiam preteridos em favor de inimigos perdoados, e, não menos importante, aqueles idealistas que achavam que César estava destruindo a República ou, ainda,  pessoas incomodadas com a idolatria a César.

Não há dúvida de que a Guerra Civil havia deixado feridas abertas na aristocracia romana. Temos um exemplo parecido com o que ocorreu após a Guerra Civil Americana (1861-1865). Aliás, o assassino de Abraham Lincoln, John Wilkes Booth, assumidamente reivindicou ter se inspirado em Bruto e, de fato, após ele atirar em Lincoln, ele disse a frase célebre atribuída a Bruto na cena do assassinato de César, em meio às punhaladas:

Sic semper tiranus!” (Sempre assim com os tiranos!).

A aristocracia senatorial romana era um clube fechado de umas centenas de famílias que se consideravam fundadoras da República, as únicas com direito a exercer o governo, em benefício não só da nação, mas também em seu próprio proveito e, não menos importante, julgavam-se merecedoras de especiais deferência e privilégios. Não é por nada que a carreira política do homem de Estado romano era chamada de “Cursus Honorum“. O direito a essas “honras” era inerente ao papel do aristocrata na sociedade romana. Em muitos aspectos, e não apenas o semântico, em Roma, “Respublica“, na prática, assumia um significado mais parecido com “Cosa Nostra“…

Como vimos no início de nosso estudo, essa aristocracia já havia reagido com violência à perspectiva de perda de seus poderes e privilégios,  inclusive assassinando os líderes da facção dos Populares que ameaçaram a sua posição privilegiada, como ocorreu com Tibério e Caio Graco.

Indiscutivelmente, a nomeação de César como Ditador Perpétuo, em 15 de fevereiro de 44 A.C deve ter desencadeado a conspiração para assassinar César.  E, neste mesmo mês, ocorreu o episódio que muitos historiadores consideram que forneceu o pretexto para o assassinato do Ditador – a acusação de que César pretendia ser coroado Rei.

Com efeito, foi na festa religiosa da Lupercalia que Marco Antônio, um dos celebrantes, completamente nu, colocou, por três vezes, um diadema de ouro sobre a cabeça de César,  e sendo, por três vezes, repelido pelo Ditador. É bem possível que esse ato de Marco Antônio tenha sido encenado de comum acordo para demonstrar que César não tencionava ser coroado rei. Há quem acredite, por outro lado,  que aquela encenação foi um ardil para sondar o sentimento popular,  um teste para verificar se a massa reprovaria o gesto. O  fato é que alguns na multidão realmente aclamaram César como rei, o que deve ter aterrorizado os Optimates.

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Diante disso, a decisão de executar a conspiração de matar César dependia apenas de se decidir sobre o dia, o local e o modo. Os conspiradores logo concordaram que, considerando que César comparecia ao Senado sem escolta, lá seria o local mais fácil de executar o Ditador, além de  poderem  facilmente ocultar os punhais sob suas togas, traje obrigatório para o comparecimento às sessões.

No dia 15 de março de 44 A.C, César acordou e ficou em dúvida se deveria ir ao Senado. Sua esposa Calpúrnia tinha tido um pesadelo em que aparecia uma poça de sangue e implorou para que César ficasse em casa. César. que não era nada supersticioso, decidiu ir. O adivinho Surinna também teria lhe advertido para ter cuidado com os Idos de  Março, mas César fez pouco caso. E, já na rua, em direção ao Senado, ele chegou a receber um rolo de papiro em que alguém delatava a conspiração, porém, guardou o manuscrito sem ler.

A reunião do Senado ocorreria em um recinto existente no Odeon do magnífico teatro construído por Pompeu, chamado de “Cúria de Pompeu”, já que a Cúria tradicional do Senao tinha sido danificada nos tumultos da guerra civil e estava em reparos.

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 (A Cúria de Pompeu, local onde César foi assassinado, é o edifício em forma de templo no meio do semicírculo do Teatro.Computer generated image of the Theatre of Pompey by the model maker, Lasha Tskhondia – L.VII.C)

No caminho para a Cúria de Pompeu, César estava acompanhado de Marco Antônio, mas os conspiradores, sabendo que ele era um sujeito parrudo e com experiência militar, acharam que ele poderia dificultar o assalto a César, e, assim, conseguiram distraí-lo a pretexto de um assunto e separá-lo do Ditador. César entrou sozinho na Cúria.

Os conspiradores esperaram César se sentar e se aproximaram, fingindo apresentar alguns requerimentos, até que o senador Cimber, em um sinal previamente combinado, arrancou a túnica do pescoço do Ditador, que, chocado, reclamou:

Por quê? Isto é uma violência!

Então o Senador Casca desferiu o primeiro golpe, mas, devido ao seu nervosismo, este apenas pegou de raspão no pescoço de César, que se virou e segurou a mão de Casca, dizendo:

Casca, seu vilão, o que estás fazendo?

Aterrorizado, Casca gritou, em grego :

Adelphi, boethei !” (“Irmãos, ajuda!”)

Nesse momento, vários conspiradores atenderam ao apelo de Casca, desferindo sucessivos golpes de adaga em César. Segundo Suetônio, quando César percebeu que Bruto estava entre os que o atacavam, teria dito, em grego:

Kai su, teknon?” (“Tu também, criança?”)

Segundo os relatos, César tentou se evadir dos seus atacantes como um leão ferido, mas, quando percebeu que estava perdendo forças, ele deixou-se cair e apenas cobriu a sua cabeça, tentando morrer com alguma aparência de dignidade (durante toda a sua vida, César sempre fora preocupado com sua imagem).

Bruto tentou fazer uma proclamação, mas todos os senadores, aterrorizados, fugiram da Cúria.

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Foram contadas 23 feridas de punhaladas em César ( Suetônio conta que na opinião de um médico, que, pode-se dizer, autopsiou César, apenas uma delas, no peito, tinha sido fatal).

O corpo de César, ironicamente, ficou caído aos pés da estátua de seu maior rival, Pompeu, e jazeu ensanguentado por três horas no chão frio da Cúria, até ser recolhido por seus escravos.

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Bruto e os demais conspiradores se auto-intitulariam “Os Libertadores“. Eles tentaram imediatamente alguma conciliação com os Populares, oferecendo a preservação de todos os atos de César como Ditador e o direito a um funeral público.

Porém, na cerimônia pública de cremação, no Fórum Romano, um discurso de Antônio inflamou a massa e uma turba saiu à caça de qualquer um que fosse suspeito de participação na conspiração contra César.

Os “Libertadores” tencionavam restaurar a República, mas em três anos, todos eles seriam mortos, e o resultado da ação deles foi apenas causar outra Guerra Civil, primeiro para vingar César e depois para decidir quem seria o seu sucessor. É mais ou menos como se alguém tivesse tentado fazer recuar os ponteiros do relógio da História, mas apenas conseguisse segurá-los por 14 anos (até a vitória de Otaviano, o futuro Augusto, em Actium, em 31 A.C.)

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(Denário cunhado pelos “Libertadores” ostentando os punhais usados para assassinar César, o tradicional capacete associado no Mundo Antigo aos que lutam pela Liberdade e a inscrição abreviada “Idos de Março)

A República já havia morrido antes de César, porém seu sucessor Augusto, seria mais astuto em preservar algumas aparências e conceder algumas deferências à classe senatorial.

(Templo do Divino Júlio, construído no exato local onde o corpo de César foi cremado, no Fórum Romano. A 2ª foto mostra o estado atual da ruína, com os restos do altar. Normalmente,  sempre há flores colocadas por pessoas nas ruínas do altar).

Como brilhantemente constatou Cícero, nos meses que se seguiram ao assassinato:

Matamos o Rei, mas o Reino continua entre nós“.

FIM

POR QUE ASSASSINARAM CÉSAR? 3ª Parte – GUERRA CIVIL

#César#Caesar#idosdemarço

Durante a confrontação política que antecedeu a travessia do Rubicão por César, os Optimates cometeram alguns graves erros de avaliação:

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Por exemplo, eles superestimaram a capacidade militar de Pompeu na Itália: Embora Pompeu tenha retido sob seu controle, irregularmente, duas legiões recrutadas por César no sul da Península, elas não eram páreo para a experimentada XIII Legião que lutara com ele na Gália.

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Da mesma forma, os Optimates também levaram em conta a seu favor o fato de que  Pompeu comandaria, teoricamente, todas as forças romanas na Hispânia, África, Egito, Grécia e Oriente, em número bem superior às 8 legiões que César tinha na Gália,

E os Optimates também confiavam  no histórico dos muitos sucessos militares de Pompeu.

Por último, os Optimates acreditavam que, pelo fato de César ter violado a proibição da lei romana de entrar na Itália com um exército,  a maior parte da população da Itália ficaria contra ele, que, ao menos formalmente, tinha se tornado um criminoso.

Mas eles não podiam estar mais errados….

As legiões da Gália, calejadas por dez anos de guerra cruenta contra os gauleses, naquele momento eram, provavelmente, os melhores soldados do Mundo Antigo; Pompeu era um renomado general, mas estava ficando velho e não comandava uma legião, quanto mais uma campanha, havia vários anos; Ademais, ao contrário do que os Optimates esperavam, no trajeto do norte da Itália em direção a Roma, César foi aclamado triunfalmente em diversas cidades, cujas  respectivas guarnições acabavam por juntar-se ao seu exército.

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Entretanto, nem tudo ia bem para César, pois, durante o avanço sobre Roma, o seu ajudante em mais de 10 anos de luta, o hábil general Labieno, desertou e uniu-se às forças de Pompeu. Não se sabe o motivo exato da defecção de Labieno, sendo que as explicações mais plausíveis são que ele seria um legalista que via a insurreição de César como criminosa ante as leis da República ou, então, o fato de ele estar decepcionado por não ter recebido maiores recompensas por seus serviços, como por exemplo, um consulado, ficando, ainda,  talvez enciumado pela predileção que César demonstrava em relação a Marco Antônio.

Pompeu, mesmo assim, concluiu que a sua melhor estratégia era fugir para a Grécia, onde ele poderia reunir um grande exército e, já que controlava a frota romana, interceptar os carregamentos de cereais para Roma, causando ali uma fome cuja responsabilidade seria atribuída a César, enfraquecendo-o perante a Plebe.

Embora esse não fosse um plano ruim, o simples fato de ele ter que abandonar a Itália, demostra o despreparo com que Pompeu foi pego pela rápida ação de César. E isto apesar de terem sido Pompeu e os Optimates que deram o ultimato ao adversário, motivo pelo qual seria de se esperar que eles, ao menos deveriam estar de antemão preparados.

A maior parte da facção dos Optimates acompanhou Pompeu em sua retirada estratégica da Itália . Portanto, ao contrário de César, que era o indiscutível comandante supremo de suas forças, Pompeu, por diversas vezes, tinha que escutar e levar em consideração os palpites militares dos senadores mais proeminentes, muitos deles sem qualquer experiência bélica…

Não é nosso propósito, todavia, aqui narrar pormenorizadamente os eventos da Guerra Civil, mas apenas traçar um quadro explicativo dos eventos que degeneraram no desfecho sangrento dos Idos de março de 44 A.C.

Senhor da Itália, César, ainda desejoso de respeitar as formalidades legais, convocou os senadores que tinham permanecido em Roma para um encontro, realizado em 1º de abril de 49 A.C, mas muito poucos apareceram. Consta que, ofendido com as ausências dos senadores, César teria dito:

Convidei-os para se reunirem a mim na tarefa de governar Roma. Porém, se a timidez faz com que recuem diante da tarefa, não os incomodarei mais. Governarei sozinho“.

Logo depois, porém, César conseguiu convencer (ou compelir) o Senado a autorizar o uso de um fundo de reserva para construir uma frota. Todavia, em uma demonstração de que seus oponentes ainda tinham poder na Cidade, a medida foi vetada pelo Tribuno Lúcio Cecílio Metelo. Não obstante, César ignorou o veto, entrou em Roma e, ameaçando executar Metelo, lançou mão dos recursos, manu militari.

César, então, partiu para enfrentar o exército de Pompeu na Hispânia.  Este, porém, naquele momento encontrava-se na Grécia, reunindo outro exército. Por isso, César assinalou:

Parto para a Espanha para enfrentar um exército sem general e logo seguirei para enfrentar um general sem exército.”

Em Ilerda, na Espanha, César cercou o exército de Pompeu, que se rendeu em 02 de julho de 49 A.C. A partir desta vitória, César principiou um comportamento em relação aos inimigos vencidos que ele repetiria muitas outras vezes durante a Guerra Civil e que se tornaria uma de suas marcas registradas causando admiração em muitos escritores antigos: a “Clementia” de César (clemência), poupando e anistiando os adversários. Com efeito, em Ilerda,  César concedeu aos inimigos derrotados que não quiseram se juntar ao seu exército, a opção de retornarem para casa como civis.

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Esse era um comportamento tão incomum na antiguidade que o próprio exército de César, pela primeira vez desde que ele se tornara um general, amotinou-se. O motivo da revolta era que os seus soldados esperavam saquear os pertences dos vencidos. O motim, contudo, foi reprimido sem muito custo.

Voltando a Roma, César, em apenas 11 dias de estadia na capital, foi nomeado Ditador por um curto período, o que lhe permitiu convocar a eleição para o consulado de 48 A.C, para o qual ele, naturalmente, se candidatou. Ele aproveitou também para colocar seus correligionários em todos os cargos importantes e, além disso, promulgou várias leis, entre elas uma dispondo sobre o pagamento de dívidas, permitindo que fossem dados bens em pagamento, dado o grande número de romanos endividados em função das turbulências políticas. Finalmente, César também restituiu os direitos civis aos cassados durante o governo de Sila e conseguiu que Pompeu fosse declarado fora-da-lei.

De volta à campanha de César na Guerra Civil, seguiram-se o quase-desastre em Dirráquio e a surpreendente vitória em Farsália, em 09 de agosto de 48 A.C., na qual César lutou em desvantagem numérica de 1 x 3 e onde muitos Optimates foram capturados, apesar de Pompeu ter conseguido fugir para o Egito, onde acreditava que iria ser acolhido pelo faraó Ptolomeu XIII, supostamente seu aliado.

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Porém, o jovem faraó, aconselhado a cair nas boas graças do vencedor, mandou prender Pompeu e decapitá-lo, enviando a cabeça dele para César. Quando ele, perseguindo o adversário, chegou em Alexandria, a História registra que César, ao receber, chocado, a cabeça de Pompeu, chegou a chorar, penalizado com o destino do seu ex-genro. E, em verdade, parece mesmo que nunca chegara a haver inimizade pessoal entre os dois grandes homens de Roma.

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Em Farsália, César pode exercer novamente a política de clemência para os adversários. Antes da luta, ele distribuiu aos seus oficiais uma lista dos partidários de Pompeu que deveriam ser poupados. Entre os nomes, estava o de Marco Júnio Bruto, um senador da facção dos Optimates e filho da amante de César, Servília Caepionis, que era irmã de Catão, o Jovem, o senador que pode ser considerado o verdadeiro ideólogo dos Optimates no Senado.

Seguiu-se o envolvimento de César na disputa pelo trono do Egito e o romance com Cleópatra VII, que resultaria no nascimento de seu único filho homem, chamado de Ptolomeu XV Filópator Filómetor César e que foi apelidado de “Cesarion“.

Embora César nunca tenha reconhecido oficialmente o menino Cesarion como filho, a maior parte das fontes do período admite que César era o pai natural dele. Após a vitória na Guerra Civil, César celebrou os  seus merecidos triunfos pelas suas vitórias desde a Gália ( mas somente as vitórias obtidas contra os povos estrangeiros já que ele entendia que as campanhas contra os adversários romanos não deviam ser comemoradas), trazendo Cleópatra e Cesarion para Roma para participarem dos festejos, em 47 A.C,  lugar onde ficariam até o assassinato do Ditador.

O relacionamento de César com Cleópatra e a paternidade de Cesarion foram muito utilizados pelos inimigos políticos dele como propaganda negativa. Chegou-se a alegar que César pretendia casar-se com Cleópatra e mudar a capital do “Imperium” Romano (conjunto das terras dominadas pela República Romana) para Alexandria, deixando Cesarion como seu sucessor. Esta acusação, como se constataria após o assassinato de César, com a abertura do seu testamento, aditando Otávio como filho e herdeiro legítimo, era falsa.

CONTINUA

POR QUE ASSASSINARAM CÉSAR? 2ª PARTE

#César #Caesar #idosdemarço

 

De fato,  após Mário e Sila, agora seria aos generais ambiciosos que as facções políticas do Senado iriam recorrer, e as disputas políticas seriam resolvidas no campo de batalha.

Mário criara as condições para isso, ao conceber um exército de soldados profissionais recrutado entre proletários desempregados que deviam seu emprego e sua lealdade ao Cônsul que os recrutara. E Sila fora o primeiro a se valer de um exército como esse para entrar em Roma à força com o objetivo de derrubar o governo, criando este precedente,  e também inaugurando o costume de recompensar regiamente os seus veteranos com as terras confiscadas dos adversários políticos proscritos.

Um desses generais ambiciosos foi Gnaeus Pompeius (Cneu Pompeu). O Senado, sem dispor de meios militares, já tinha se valido do talentoso general para derrotar as forças contrárias a Sila , na Sicília e na África e depois as de Lépido, que pretendia restaurar o poder dos Tribunos e realizar outras reformas de interesse dos Populares.

Pompey the Great. Marble. Beginning of the 1st century A.D. Inv. No. 733. Copenhagen, New Carlsberg Glyptotek.(Cabeça de mármore de Pompeu, o Grande)

Em um indício de que a ordem tradicional estava com os dias contados, o Senado, quebrando os precedentes, concedeu a Pompeu a honra de celebrar dois triunfos, apesar de ele  sequer ser magistrado e, em 70 A.C, ignorando as normas, nomeou-lhe Cônsul, embora ele não fosse senador.

Ironicamente, Pompeu conseguiu compelir o Senado a fazer isso aliando-se com os Populares, os quais, até então, ele havia perseguido. Para obter o apoio deles, Pompeu comprometeu-se a revogar os decretos de Sila que retiraram os poderes dos Tribunos da Plebe e dos Concílios.

Nessa época, Caio Júlio César entrou oficialmente na política e a sua adesão à causa dos Populares ficou explícita quando, em 69 A.C, ele, no funeral de sua tia Júlia, a viúva de Mário, pronunciou um discurso fúnebre, onde exaltou a memória de seu tio Mário, discursando a frente de uma imagem do grande general falecido, coisa que não era vista em Roma desde o governo de Sila, .

Foi, de fato, como integrante da facção dos Populares que César seguiu a carreira política, em um período de acirramento da oposição entre eles e os Optimates. O astuto César, contudo, também procurou mostrar-se atraente para os conservadores, como ilustra o fato dele, tendo recém ficado viúvo de Cornélia, ter se casado com Pompéia, que era neta de ninguém menos do que Sila, o inimigo figadal dos Populares, sendo que o casamento ocorreu em 67 A.C.

Para ganhar eleições e atingir os cargos mais altos, César, como todos os demais políticos romanos, precisava de muito dinheiro, e ele já tinha se endividado bastante para se eleger para o cargo de Questor. Portanto, de muita utilidade foi a sua recente amizade com o aristocrata Marco Licínio Crasso, um dos homens mais ricos de Roma, e que disputava a primazia política com Pompeu ( eles tinham sido colegas de consulado, em 70 A.C.). Crasso também apoiara, como Cônsul, a restauração dos poderes dos Tribunos da Plebe, apoio esse que o afastou da facção dos Optimates, aproximando-o dos Populares.

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(Cabeça de mármore de Crasso, foto de Gautier Poupeau )

Com o apoio financeiro de Crasso, César conseguiu se eleger para o cargo de Edil, em 65 A.C. Os Edis eram magistrados encarregados de vários serviços urbanos em Roma, incluindo a promoção de jogos públicos, e César aproveitou este cargo para agradar a Plebe promovendo espetáculos suntuosos,  o que o tornou muito popular. Começava a nascer a política do “Pão e Circo” (“Panem et Circensis“)…

Depois de exercer a edilidade, César gastou rios de dinheiro na eleição para o prestigioso posto de “Pontifex Maximus“, o chefe dos cultos oficiais do Estado e, apesar de não ser o favorito, ele venceu o certame, em 63 A.C.

A política em Roma tinha-se tornado altamente violenta e corrupta e a República em frangalhos convidava os homens ambiciosos a tentarem a sorte na disputa pelo poder supremo, o que, obviamente, encontrava obstáculo no tradicionalismo da elite senatorial, Para isso, contudo, os sequiosos de poder ainda precisavam de votos.

O aristocrata Lúcio Sérgio Catilina foi um desses, que, através da demagogia e dos subornos, atraía uma grande clientela e seguidores. Como ele não conseguira ser Cônsul, por ter sido barrado por Marco Túlio Cícero (ele também um “Novus Homo“), Catilina uniu-se à facção dos Populares e passou a defender uma nova lei agrária ampliando a Lex Sempronia .

Cicero_(1st-cent._BC)_-_Palazzo_Nuovo_-_Musei_Capitolini_-_Rome_2016(Busto de Cícero, nos Museus Capitolinos, foto de José Luiz Bernardes Ribeiro / )

 

Contudo, não obtendo sucesso nas eleições de 63 A.C, apesar de apoiado por Crasso e César, Catilina arquitetou uma conspiração visando eliminar o Senado,  trama que foi descoberta e denunciada publicamente por Cícero no Senado, em suas famosas “Catilinárias“. E assim, Catilina foi facilmente derrotado e morto pelas tropas legalistas.

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César, embora fosse aliado de Catilina, não teve participação na conspiração, chegando até a informar Cícero da trama, Não obstante,  César defendeu, nos debates no Senado, que os conspiradores presos não fossem executados, como queriam Cícero e o senador ultraconservador Catão, já que a lei não previa nem a pena de morte, nem o julgamento pelo Senado, para casos como o dele. Mesmo assim, a execução dos conspiradores ocorreu, sob a alegação de motivos de “segurança do Estado“.

Apesar da conspiração de Catilina ter colocado em risco a sua carreira política, César conseguiu se eleger para o cargo de Pretor, em 62 A.C. Segundo a lei romana, após cumprir o mandato, ele fazia jus a ser indicado para governar uma das províncias romanas, no seu caso, a Hispânia, como Propretor. Os costumes romanos admitiam que o governador ficasse com uma parte dos tributos arrecadados dos súditos provinciais, sem falar do produto do que fosse saqueado das tribos ainda rebeldes, desde que não houvesse muitos exageros. E César, após derrotar várias tribos celtiberas, aproveitou esta oportunidade para conseguir o dinheiro necessário para pagar a sua legião de credores em Roma.

Naquele ano, após uma prolongada e vitoriosa campanha militar no Oriente, Pompeu voltou à Roma, e, para a surpresa geral, ele entrou na Cidade como um simples cidadão e sem exército. Provavelmente, esse foi um gesto politicamente calculado para obter o apoio do Senado e do povo, demonstrando ser ele, Pompeu, um cidadão cumpridor da lei e dos costumes tradicionais, imitando, neste particular, Sila.

Contudo, Pompeu não gozava nem da simpatia dos conservadores, devido à revogação das leis de Sila que restringiam o poder tribunício, nem dos Populares, dado o seu histórico de lutas contra os mesmos. Assim,  ele ficou muito contrariado quando o Senado decidiu não recompensar os seus soldados veteranos com terras

Quando César voltou à Roma, no ano 60 A.C, ele viu a oportunidade de conjugar sua ambição com as dos dois homens mais poderosos de Roma: Pompeu e Crasso, ambos insatisfeitos com os Optimates, que controlavam o Senado. Eles então formaram a aliança política batizada de “Primeiro Triunvirato”.

A aliança foi cimentada pelo casamento de Pompeu com Júlia, filha única de César. Mesmo se tratando de um casamento arranjado, e apesar da diferença de idade entre os noivos (ele tinha 47 anos e ela, 24), os esposos acabariam se apaixonando, e Pompeu sofreria muito com a morte prematura de Júlia, no parto de uma menina que também não sobreviveu).

César foi eleito Cônsul em 59 A.C. e o Triunvirato assumiu o poder de fato em Roma. Apesar da violenta oposição dos Optimates, liderados por Catão, o Jovem, e do seu colega de consulado, Bíbulo, César conseguiu aprovar uma legislação dando terras na Campânia para os veteranos de Pompeu. Ele também perdoou um terço das dívidas de impostos dos agricultores. O seu correligionário Clódio conseguiu aprovar uma lei especial determinando o exílio de Cícero, pela execução dos conspiradores de Catilina sem julgamento. Essa lei também designou o adversário Catão para governar a distante Chipre, o que equivalia, na prática, a um exílio, afastando-o do Senado. Muitas dessas iniciativas de César foram executadas em desacordo com a lei romana, o que o deixaria vulnerável à retaliação dos adversários, em tempos futuros.

 

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(O chamado “Busto de Tusculum” é considerado pelos especialistas o único busto existente que foi produzido durante a vida de César)

 

Os Triúnviros também decidiram dividir o governo das províncias romanas entre si e César escolheu controlar as Gálias Cisalpina e Narbonense, além da Ilíria, autonomeando-se Procônsul, com mandato de 5 anos, a partir de 58 A.C.

A escolha tinha um motivo: César constatara que lhe faltavam as glórias militares de Pompeu , que já havia derrotado Sertório, na Espanha, a rebelião do gladiador Espártaco (junto com Crasso), na Itália, os piratas do Mediterrâneo e o rei Mitridates, anexando o Reino do Ponto à Roma, entre outras vitórias, as quais lhe valeram o apelido de Magno, ou “o Grande” e, ainda, em menor escala, os louros de Crasso.

O governo da Gália permitiu a César arquitetar o plano que lhe colocaria no mesmo plano dos seus colegas: A anexação da Gália Transalpina, povoada pelos temidos gauleses, que, séculos atrás, em 390 A.C, tinham até saqueado e incendiado Roma. O pretexto foi a necessidade de fazer um ataque preemptivo, devido ao fato de tribos aliadas dos romanos terem sido atacadas por gauleses e germânicos que, supostamente, pretendiam migrar para a Gália Cisalpina, ou seja, a parte da Itália que fica ao sul dos Alpes.

Em nove anos de guerra, César derrotou completamente os gauleses e anexou toda a Gália. Para muitos, essa teria sido a maior contribuição de César à História, pois, sem isso, não existiria a França e, consequentemente, a Europa e sua civilização seriam completamente diferentes.

A vitória na Gália deu a César não somente uma aura de herói nacional e de general brilhante, mas também o exército mais disciplinado e bem treinado de Roma, além de muito dinheiro proveniente dos saques, afinal os gauleses eram um povo muito próspero.

Enquanto César lutava na Gália, ele certamente mantinha um olho nos assuntos domésticos. Com efeito, em Roma, o cimento que mantinha unido o Triunvirato começava a amolecer…Pompeu, aparentemente se ressentia do brilho das conquistas militares de César, as quais ameaçavam ofuscar as suas próprias. Talvez por isso, ele manobrou para trazer Cícero de volta à Roma e ambos acabaram se aproximando.

Em 57 A.C., Pompeu recebeu poderes extraordinários do Senado para cuidar do abastecimento de cereais de Roma, o que o colocava em uma excepcional posição em relação aos outros dois colegas, no que tange a capacidade de angariar as simpatias da Plebe. Já as relações entre Crasso e Pompeu, que nunca tinham sido boas, também iam de mal a pior.

Os nobres conservadores aproveitaram as dissensões entre os Triúnviros e conseguiram eleger um dos seus integrantes como Cônsul para o ano de 56 A.C. Por sua vez, Cícero questionou a legalidade da nomeação de César para o governo da Gália.

Percebendo o risco ao Triunvirato e a si mesmo, César deixou o comando da campanha da Gália com seus lugares-tenentes e convocou Pompeu e Crasso para uma reunião em Lucca, na fronteira da Itália com a Gália Cisalpina, em abril de 56 A.C.

Nesse encontro, que passaria à História como a “Conferência de Lucca“, César, Pompeu e Crasso resolveram as suas diferenças, estabelecendo que os dois últimos seriam candidatos a Cônsul no ano seguinte, com o apoio de César. Assegurada a eleição, os novos cônsules promulgariam uma lei prorrogando o mandato do proconsulado de César na Gália por mais 5 anos, sendo que, após o término do consulado de Pompeu e Crasso, eles seriam designados procônsules, respectivamente da Hispânia e da Síria, também pelo prazo de 5 anos.

O adversário de Crasso e Pompeu na eleição para o consulado de 55 A.C, era Lúcio Domício Enobarbo, um fervoroso membro da facção dos Optimates, casado com a irmã do líder Catão, o Jovem. Ele  prometeu proibir a prática de compra de votos dos eleitores e revogar o comando de César na Gália. Porém, no dia da eleição, ele foi expulso à força do Campo de Marte pelos partidários dos Triúnviros, com o reforço de mil soldados enviados por César, ação que garantiu a vitória de Crasso e Pompeu.

Os novos cônsules executaram os termos do acordo da Conferência de Lucca, através da “Lex Pompeia Licinia“, garantindo a recondução de César para a Gália e o proconsulado da Síria e da Hispânia para Crasso e Pompeu, respectivamente.

O destino, porém, abalaria a recém-obtida estabilidade do 1º Triunvirato: no ano de 54 A.C, Júlia, a filha de César e esposa de Pompeu, morreria no parto e, em 53 A.C, Crasso, também ele sedento de obter a glória militar contra os Partos, seria capturado e morto por estes, após a desastrosa Batalha de Carras, na pior derrota militar sofrida pelos romanos desde a 2ª Guerra Púnica, 150 anos antes…

O Triunvirato estava, assim acabado, antes de tudo, matematicamente, pela simples eliminação de Crasso. Agora, só restavam César e Pompeu. E não havia também mais a doce Júlia, a quem seu pai e o seu esposo eram muito devotados e a quem eles deviam muito a existência de uma relação cordial entre ambos.

Enquanto isso, desde 55 A.C, em campanha na Gália, César realizava algumas das maiores façanhas militares que Roma já vira. Ele havia derrotado um enorme horda de tribos germânicas, os Usipetes e Tencteris, e, na fuga, os sobreviventes derrotados, inclusive mulheres e crianças, totalizando cerca de meio milhão de bárbaros, foram aniquilados, a maioria, acredita-se, afogados, após tentarem cruzar a confluência entre os rios Reno e Mosela. Depois, César mandou construir uma espetacular ponte de madeira sobre o largo Reno e cruzou, pela primeira vez na História de Roma, aquele largo rio, marchando, também de forma inédita, por dezoito dias na margem oriental. Ainda naquele ano, César cruzou o Canal da Mancha e invadiu, também pela primeira vez na História, a Britânia, ficando lá também por  18 dias. Ele ainda voltaria àquela Ilha no ano seguinte.

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Pompeu, apesar de ser governador da Hispânia, permanecera todo esse tempo em Roma, recebendo as notícias das façanhas de César e sendo assediado pelos partidários da nobreza conservadora no Senado, sobretudo após a morte de Crasso, em 53 A.C. Ele certamente não se opôs que o ferrenho opositor de César, Lúcio Domício Enobarbo conseguisse se eleger Cônsul no ano anterior.

Sintomaticamente, Pompeu recusou a proposta de César de celebrarem uma nova aliança matrimonial, na qual Otávia, sobrinha-neta de César (e irmã do futuro imperador Otávio Augusto) lhe foi oferecida em casamento. Para reforçar ainda mais o distanciamento, Pompeu,  demonstrando uma completa oposição à proposta de renovação da aliança com o seu colega, casou-se, em 52 A.C., com Cornélia Metela, filha de Quinto Cecílio Metelo Cipião, um dos mais empedernidos membros da facção dos Optimates e portanto inimigo figadal de César.

Em 52 A.C, as lutas políticas na cidade de Roma degeneraram em anarquia, com repetidos motins nas ruas, culminando no assassinato do ex-Tribuno da Plebe e membro dos Populares, Clódio,  violências que resultaram inclusive no incêndio do edifício da Cúria do Senado e impediram a eleição dos cônsules naquele ano (Clódio, a bem da verdade, era um dos políticos que mais se valeram do uso político da violência das verdadeiras gangues de rua em que os “collegia”- corporações de ofício de Roma, haviam se tornado).

A situação caótica em Roma obrigou o Senado à medida extrema de nomear Pompeu como único Cônsul para aquele ano. Imediatamente, Pompeu convocou seus soldados e restaurou a ordem na Cidade. Evidenciando sua aproximação com os Optimates, Pompeu nomeou seu sogro Metelo Cipião como seu colega para o Consulado de 52 A.C.

Embora Pompeu ainda resistisse a tomar a iniciativa do rompimento com César, qualquer um que tivesse o mínimo discernimento político perceberia que isso era apenas uma questão de tempo. Na verdade, o motivo pel qual Pompeu e o Senado somente ainda não haviam tomado nenhuma medida mais efetiva contra César era porque, ainda naquele ano de 52 A.C, estourara uma rebelião geral das tribos gaulesas, recém-conquistadas. Unidos e lideradas por Vercingetórix, os gauleses tentariam um confronto definitivo na cidade fortificada de Alésia.

Alesia_8.jpg(Reconstrução das fortificações construídas por César em torno de Alésia, foto de Christophe.Finot )

Contudo, em um mês, César não apenas sitiou  Alésia, defendida por 80 mil guerreiros, como ainda derrotou a força gaulesa de 100 mil homens que tentava furar a praça sitiada, que, por sua vez,  tinham cercado os romanos. Foi uma vitória espetacular que levou o prestígio de César às alturas. Apesar de a única fonte sobre a campanha ser os próprios “Comentários” de César, os mesmos são geralmente aceitos como verídicos e acurados, sendo respaldados pelas escavações arqueológicas. Finalmente, no final de 51 A.C, após quase 10 anos de luta, César havia submetido a Gália até o Reno, equivalendo à maior parte do território da atual França.

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Terminada a luta na Gália, a facção dos Optimates no Senado tratou de tentar  decretar o o fim do comando de César para aquela campanha. Tanto os senadores conservadores quanto o próprio César sabiam que, despido da condição de governador e sem cargo público, César perderia a sua imunidade, sendo muitos os pretextos para processá-lo e condená-lo, na mais suave das hipóteses, ao exílio.

map 1280px-Europe_-50.png(Terminada a conquista da Gália, o mapa mostra o território da República Romana, em amarelo. Mapa de Cristiano64 / Coldeel)

 

A iminente perda da imunidade tornava-se aflitiva para César. Em 50 A.C, enquanto ainda na Gália, ele tentou, sem sucesso, concorrer ao cargo de Cônsul, mas sem abandonar o Proconsulado da Gália e continuando a comandar seus exércitos na Província, o que era proibido por lei.

César, porém, contava com o apoio do Tribuno da Plebe Caio Escribônio Curião, que, segundo alegava-se, teria sido subornado pelo pagamento de suas dívidas por César e, de fato, ele vetava todos os projetos de lei que pretendiam substituir César na Gália ou terminar o seu mandato.

Curião inclusive propôs uma solução conciliatória entre os partidários de César e a facção dos Optimates: César renunciaria ao comando da Gália, desde que ele recebesse permissão para concorrer às eleições para o Consulado de 49 A.C. somado à condição de que Pompeu também renunciasse ao seu comando militar. A proposta até encontrou simpatia do grupo de senadores moderados, mas o núcleo conservador do Senado, liderado pelo Cônsul Caio Cláudio Marcelo, se opôs ferozmente a ela e obstruiu a votação de qualquer proposta naquele sentido.

Com certeza, os senadores mais sensatos percebiam o risco iminente de uma guerra civil e apoiavam uma solução de compromisso. Assim, quando, na Sessão do Senado do dia 1º de dezembro de 50 A.C., o Cônsul Cláudio Marcelo reapresentou a proposta de substituição de César na Gália, eles, que inicialmente haviam aprovado a remoção dele, acabaram aprovando, por 370 votos a favor e apenas 22 contra, a emenda substitutiva apresentada por Curião, a qual estabelecia que também o comando de Pompeu deveria ser encerrado.

Marcelo recusou-se a aceitar o resultado da votação da emenda de Curião e, alegando que César havia cruzado os Alpes com 10 legiões para invadir a Itália, declarou dissolvida a Sessão, antes da aprovação do texto. Em seguida, rompendo com a ordem institucional, Marcelo e alguns integrantes da facção conservadora partiram para a residência de Pompeu para tentar convencê-lo a assumir o comando de todas as tropas na Itália, fazendo o que fosse necessário para “salvar a República”. Pompeu concordou, mas ressalvando que ele faria isso, “a não ser que fosse encontrado um caminho melhor”.

Curião, cujo mandato de Tribuno e consequente inviolabilidade terminariam em poucos dias, decidiu fugir de Roma e ir ao encontro de César, que se encontrava em Ravena, fora dos limites da Itália Romana, acompanhado apenas da XIII Legião. Apesar de instado por Curião a marchar sobre Roma, César decidiu fazer uma nova proposta de acordo: Ele seria nomeado governador da Ilíria e manteria sob seu comando apenas uma legião, até a eleição para o consulado de 49 A.C. A proposta foi terminantemente recusada pelos Cônsules.

No dia 1º de janeiro de 49 A.C., César tentou sua última cartada no Senado para manter a sua carreira política: Valendo-se do novo Tribuno da Plebe, Marco Antônio, que, da mesma forma que o seu colega, Longino, eram fiéis colaboradores de César, ele enviou, por Curião, uma carta ao Senado para ser lida em sessão por Antônio. Todavia, quando Antônio começou a ler a carta, após o trecho em que César reiterava a disposição de somente deixar a Gália e desmobilizar o seu exército caso Pompeu fizesse o mesmo, ele foi interrompido aos gritos pelos senadores conservadores, e não conseguiu continuar.

Roman male portrait bust, so-called Marcus Antonius. Fine-grained yellowish marble. Flavian age (69—96 A.D.). Rome, Vatican Museums, Chiaramonti Museum.(Busto de Marco Antônio)

 

Metelo Cipião, o sogro de Pompeu, propôs que fosse fixada uma data para que César fosse demitido do comando na Gália e dispensasse suas tropas, após o que ele seria considerado “Inimigo Público“. A moção foi aprovada, e os únicos votos contrários foram de Curião e do senador Célio. Muito provavelmente, a explicação para a diferença entre esta votação e a ocorrida um mês antes era a maciça presença de tropas de Pompeu nas cercanias de Roma…

O Tribuno Marco Antônio vetou a moção e apresentou nova proposta para que fosse incluído na lei que o comando de Pompeu também se encerraria na mesma data, sendo a idéia bem recebida. Porém, novamente, o cônsul Lúcio Cornélio Lêntulo, apoiado por Metelo, dissolveu a Sessão antes que a lei com as modificações propostas  por Antônio fosse aprovada.

Em 7 de janeiro de 49 A.C, o Senado Romano aprovou o “Senatus Consultum Ultimus” declarando Lei Marcial e nomeando Pompeu como “Protetor de Roma“, isto é, na prática, um Ditador. Como era esperado, essa lei também declarou o término do mandato de César na Gália, ordenando que o mesmo entregasse o comando das tropas. Em seguida, os soldados de Pompeu ocuparam Roma. Pompeu expediu uma nota dizendo que “não poderia garantir a segurança dos Tribunos“.

Marco Antônio e Cássio entenderam o recado e fugiram de Roma, indo ao encontro de César. Quando lá chegaram, César percebeu que não havia mais espaço para manobras políticas ou negociações. Ele teria que optar entre obedecer o Senatus Consultum Ultimus e arriscar a sorte como um cidadão comum exposto à sede de vingança dos inimigos, ou tornar-se um rebelde e um fora-da-lei.

Na verdade, como frequentemente acontece nas guerras, revoluções ou golpes de Estado, as partes rivais sempre alegam um bom pretexto para legitimar a sua ação. O fato é que a fuga dos Tribunos da Plebe, ou, como é mais correto, a expulsão deles de Roma, violando a sua sacrossantidade legal, deu a César um pretexto para ele para começar a Guerra Civil.

Rimini088(Coluna de César, em Rimini, erigida para marcar o local onde César discursou para as suas tropas exortando-as a entrarem com ele na Itália. Foto de Georges Jansoone (JoJan)

No dia 10 de janeiro de 49 A.C. (data estimada), César, comandando apenas a XIII Legião, cruzou um riacho chamado Rubicão, que marcava a fronteira da Itália com a Gália Cisalpina. Ao entrar na Itália, ele violou a lei romana e era, tecnicamente, autor de um crime de alta traição. Em suas próprias palavras, “A sorte estava lançada” (alea iacta est). Começava a #GuerraCivil.

Menander_and_New_Comedy_Masks_-_Princeton_Art_Museum.jpg(Relevo do autor grego Menandro, com máscaras de teatro de Comédia. César era grande apreciador da obra de Menandro e a frase “A sorte está lançada”, ou, ‘os dados estão lançados’, foi extraída de uma das peças dele  – Deipnosophistes, livro XIII)

 

CONTINUA

ELAGÁBALO – MENINO TRAVESTIDO DE IMPERADOR

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(Busto de Elagábalo, foto de Giovanni Dall’orto)

 

#Elagábalo #Heliogabalus

Em 11 de março de 222 D.C, no Quartel da Guarda Pretoriana (Castra Pretoria) em Roma, os soldados da Guarda Pretoriana atacaram e mataram o Imperador Romano Elagábalo (Elagabalus, nome que às vezes também é grafado como Heliogábalo) e a mãe dele, Júlia Soêmia, em seguida aclamando o seu primo, Severo Alexandre, ali também presente, como novo imperador. Em seguida, os assassinos decapitaram os cadáveres e jogaram os corpos de Elagábalo e de Júlia no rio Tibre.

Nascido com o nome de Varius Avitus Bassianus, na Síria, em 203 D.C, Elagábalo era filho de Sextus Varius Marcellus e de Julia Soemias Bassiana (Júlia Soêmia).

 

Julia_Soemias_2.jpg(Detalhe de estátua de Júlia Soêmia, mãe de Elagábalo, foto de Wolfgang Sauber )

 

O pai de Elagábalo era membro de uma família da classe Equestre, originária da cidade grega de Apamea, na Síria, e  que ascendeu durante o reinado do imperador Septímio Severo, período no qual Sextus Varius Marcellus ocupou vários cargos importantes, como Procurador dos Aquedutos em Roma, Procurador Romano da Britânia, Prefeito da Urbe e Prefeito Pretoriano.

Como evidência do seu status na corte de Severo, Sextus Varius Marcellus se casou com Júlia Soêmia, sobrinha da poderosa imperatriz Júlia Domna, que era irmã da mãe dela, Júlia Maesa.

ulia_Domna_Glyptothek_Munich_354(A poderosa, bela e inteligente imperatriz Júlia Domna era tia-avó de Elagábalo)

As duas irmãs, a imperatriz Júlia Domna e a avó de Elagábalo, Júlia Maesa, eram filhas de Julius Bassianus, sumo-sacerdote do Templo do deus Elagábalo (El-Gabal ou Ilāh hag-Gabal, literalmente, “O Deus da Montanha”), situado em Emesa (a moderna Homs), na Síria, e membro da dinastia dos Sempseramidas, os governantes ancestrais daquela cidade, a qual, durante muito tempo, havia sido a capital de um reino-cliente de Roma, até aquela ser anexada pelo Imperador Caracala. O posto de sumo-sacerdote de El-Gabal era hereditário, e foi assumido por Elagábalo.

Emesa era uma cidade próspera e o culto ao Deus-sol se espalhava pelo império romano no século III. O Templo de Elagábalo guardava uma pedra negra cônica sagrada, que muitos acreditavam ter caído do céu,  a qual  atraía peregrinos e doações de toda a região, Consequentemente, os sumos-sacerdotes de El-Gabal eram riquíssimos.

homs03a(Homs, antiga Emesa, no início do século XX)

Vale observar que o culto a El-Gabal não seria primeira, nem a última religião oriental a cultuar uma pedra negra supostamente caída do céu…Com efeito, hoje os muçulmanos veneram uma pedra negra chamada de al-Hajar al-Aswad, que se encontra no interior da Caaba, uma construção quadrada em pedra, cuja construção é atribuída ao patriarca Abraão, em Meca.

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(A Pedra Negra e o Templo de El-Gabal são retratados nessa moeda cunhada por um governante Sempseramida de Emesa, em meados do século III D.C.),

 

Quando Septímio Severo morreu, ele foi sucedido por seus dois filhos Caracala e Geta. Caracala logo matou o seu irmão Geta e assumiu o trono sozinho, em 211 D.C. A imperatriz viúva, Julia Domna, porém, continuou muito influente na Corte. Porém, após seis anos de um reinado turbulento, Caracala foi assassinado, em 8 de abril de 217 D.C. por um guarda-costas, em uma estada próxima à Carras, na Turquia, onde ele se encontrava em preparativos para uma campanha contra a Pérsia, crime cometido provavelmente à mando do Prefeito Pretoriano Macrino, que assumiu o trono.

Em decorrência, Júlia Domna, mãe do imperador assassinado que estava gravemente doente devido a um câncer de mama, suicidou-se, recusando-se a comer.

Macrino exilou o restante da família de Caracala, agora chefiada por sua tia Júlia Maesa, para a sua nativa Emesa. Esta decisão foi um grande equívoco de Macrino, pois, valendo-se de seu imenso poder e riqueza na região, a influente matriarca síria e suas parentes iniciaram uma conspiração para derrubar Macrino.

Em primeiro lugar, Júlia Soêmia declarou publicamente que seu filho Varius Avitus Bassianus (Elagábalo) era filho ilegítimo de Caracala ( consta que, de fato, ambos eram muito parecidos) e, portanto, o legítimo herdeiro do imperador falecido.

Depois, usando seus vastos recursos financeiros, Júlia Maesa conseguiu convencer a III Legião “Gallica, baseada na Jordânia, e o seu comandante, Publius Valerius Comazon, a aclamarem Elagábalo  imperador, em 16 de maio de 218 D.C.

O prestígio de Macrino já estava abalado pelo resultado desfavorável da guerra que ele vinha movendo contra a Pérsia, onde Roma teve que pagar uma indenização para terminar a guerra.

Macrino tentou combater a insurreição, mas as tropas enviadas aderiram à revolta. Quando ele mesmo entrou em batalha, foi derrotado, em Antióquia, em 8 de junho de 218 D.C e tentou fugir para a Itália e foi executado na Capadócia.

O Senado Romano, sem alternativa, acabou reconhecendo formalmente Elagábalo e ele assumiu o nome oficial de Marco Aurélio Antonino Augusto,  em uma tentativa de legitimar a sua suposta condição de descendente de Caracala (que por sua vez procurara difundir a crença, muito pouco provável, de que ele era descendente do imperador Marco Aurélio).

Não obstante  se tenha inaugurado,  com Trajano,  cidadão romano nativo da Espanha,  a possibilidade de que cidadãos nativos de outras províncias que não a Itália assumissem o trono, com certeza a ascensão de Elagábalo deve ter espantado Roma.

Afinal, Elagábalo era sacerdote de uma religião estrangeira de origem semítica (o povo de Emesa falava aramaico, a mesma língua falada por Jesus Cristo). Ainda que os romanos cultuassem vários deuses estrangeiros, tais como, por exemplo, a egípcia Ísis, estas eram divindades que não ofuscavam as tradicionais do Panteão Romano, pois normalmente elas eram passíveis de associação ou assimilação.

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Antes mesmo que a comitiva de Elagábalo chegasse a Roma, a mãe dele, Júlia Soêmia, já havia mandado para a capital um grande retrato pintado de Elagábalo vestido com os trajes de sumo-sacerdote,  o qual foi pendurado em cima do Altar da deusa Vitória, na Cúria do Senado Romano (cujo prédio ainda existe, no Fórum Romano). para que os romanos fossem se acostumando com o fato de serem governados por um sacerdote estrangeiro…

Enquanto isso, a comitiva parou em Nicomédia para passar o inverno. Lá, segundo as fontes, Elagábalo entregou-se à prática de vários rituais orgiásticos característicos de sua religião, os quais desagradaram às tropas. Houve até o início de uma revolta, mas ela acabou suprimida.

Entretanto, o poder agora baseava-se na riqueza e influência dos sírios, que foram instalados nos postos chaves. Comazon,  o correligionário de primeira hora, recebeu o posto de Prefeito Pretoriano e ela ainda seria duas vezes cônsul. A mãe do novo imperador, Júlia Soêmia, e  a sua tia, Júlia Maesa, foram declaradas “Augustas”. Mais surpreendente, as duas seriam, um pouco mais tarde, as primeiras e únicas mulheres a serem admitidas no Senado Romano. E Júlia Maesa ainda receberia o título de “Mãe do Senado”.

Elagábalo também trouxe junto com ele da Síria a Pedra Negra do Templo de El-Gabal em Emesa para Roma, onde, para guardá-la, mandou construir um templo, chamado de “Elagabalium“, na colina do Palatino (foram cunhadas moedas mostrando a pedra). Ele também mandou retirar várias relíquias de templos ancestrais da Cidade Eterna e transferi-los para o Elagabalium.

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(Ruínas do terraço do Elagabalium, em Roma, e maquete mostrando sua provável aparência)

 

O deus Elagábalo foi associado ao “Deus Solis Invictus“, para identificá-lo como o Deus-Sol, cujo culto vinha crescendo desde a virada do século III.

Em uma grande demonstração de falta de respeito para com a tradicional religião romana, Elagábalo se casou a virgem vestal Aquília Severa, o que muito escandalizou os romanos, já que essas sacerdotisas deveriam permanecer virgens durante os seus 30 anos de serviço. Mais grave ainda, a lei romana previa a pena de morte, tanto para aquele que tivesse deflorado uma virgem vestal, como para esta própria.

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(Denário cunhado durante o reinado de Elagábalo, com a efígie de Aquília Severa)

Pressionado pelo escândalo,  Elagábalo se divorciou de Aquília e se casou com Anna Aurelia Faustina, uma descendente do imperador Marco Aurélio.  Ele teria cinco esposas no total, em sua curta vida (sua primeira esposa foi a aristocrata Júlia Cornélia Paula, um casamento arranjado por sua mãe, após a sua ascensão ao trono, tendo dela se divorciado para se casar com a vestal Aquília).

Entretanto, segundo as fontes,  a maior paixão de  Elagábalo foi o seu escravo Hierócles, um condutor de carruagens a quem ele chamava de marido. Consta que Elagábalo, certa vez, teria dito, a respeito do rapaz: “ Eu tenho muito prazer em ser sua amante, sua esposa e sua rainha“.

Embora alguns historiadores modernos sustentem que as fontes antigas exageraram os fatos acerca dos imperadores, especialmente de Elagábalo, o fato é que Cassius Dio, a História Augusta e Herodiano (os dois últimos, de fato, fontes frequentemente não confiáveis), convergem para afirmar a ocorrência desses comportamentos de Elagábalo.

Narra-se, por exemplo, que Elagábalo se apresentaria em público vestido de mulher, maquiado e com os olhos pintados. E ele teria também mandado depilar o seu corpo inteiro e até procurado um médico para fazer uma espécie de operação de mudança de sexo, visando fazer um órgão genital feminino em si mesmo, o que o tornaria, até onde se sabe, o primeiro governante transexual da História.

Outro companheiro de Elagábalo teria sido Aurelius Zoticus, no colo de quem, reclinado, o imperador chegava até a fazer as refeições. Todavia, consta que Hierócles, ciumento do rival, conseguiu, através de um médico, um tipo de medicamento que  causava impotência, fazendo com que, diluído em alguma bebida, fosse servido a Zoticus, que, sem poder mais satisfazer os desejos do imperador, foi mandado embora do Palácio.

E Elagábalo de fato, segundo as fontes, apreciava ser surpreendido por Hierócles enquanto mantinha relações sexuais com outros homens, ocasião em que se comprazia ao ser castigado fisicamente pelo seu companheiro traído.

Outra prática escandalosa de Elagábalo, relatada pelos historiadores antigos, era o seu costume de se prostituir no próprio Palácio, colocando-se nu atrás de uma cortina, cobrando para praticar sexo com os homens que se deitavam com ele (no que talvez fosse um ritual da religião de El-Gabal, pois vários cultos semíticos incluíam a prostituição sagrada).

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(Representação artística do rosto de Elagábalo com base nos seus retratos que sobreviveram)

 

Em algum momento, Júlia Maesa percebeu que a crescente rejeição a Elagábalo pela sociedade romana, e, sobretudo, pelos militares romanos, colocava em perigo a própria posição da família. Ela também percebeu que os seus reiterados excessos sexuais eram encorajados pelo fervor religioso dele e de sua filha, Júlia Soêmia, a mãe do imperador, no culto a El-Gabal.

Júlia Maesa então aproximou-se de sua outra filha, Júlia Maméia, que também tinha um filho, Severo Alexandre, então com 13 anos de idade. A influente Júlia Maesa conseguiu persuadir Elagábalo a nomear seu primo Severo como seu herdeiro, dando-lhe o título de “César”. Naquele mesmo ano, 221 D.C, Elagábalo e Severo exerceram o consulado.

Contudo, percebendo o entusiasmo que a nomeação de  Severo Alexandre provocou nos soldados da Guarda Pretoriana, há muito incomodados com os seus excessos, Elagábalo resolveu anular sua decisão e revogar os títulos concedidos ao seu primo. Contudo, essa decisão fez o  público e as tropas se alvoraçarem temendo pela vida do menino.

Os Pretorianos demandaram a presença de Elagábalo e Severo no Castra Pretoria, devido aos rumores de que Severo pudesse ter sido assassinado. É possível que o motim tenha sido instigado por Júlia Maesa e Júlia Maméia.

Quando o imperador e seu primo apareceram, os guardas começaram a saudar Severo Alexandre, ignorando Elagábalo, que furioso, teria ordenado a prisão dos simpatizantes do primo. Essa ordem, por sua vez,  enfureceu ainda mais a tropa, que imediatamente atacou o palanque e perseguiu Elagábalo e sua mãe, os quais tentaram fugir. Júlia Soêmia tentou proteger o filho, abrançando-o, mas ambos acabaram mortos e decapitados. Os corpos deles foram arrastados pelas ruas e o de Elagábalo foi jogado no Rio Tibre. Nos dias seguintes, várias pessoas associadas a Elagábalo foram mortas, incluindo Hierócles. A Pedra Negra foi imediatamente mandada de volta para Emesa, e provavelmente ela só não foi destruída porque os romanos eram notadamente um povo supersticioso, e também para não causar desnecessário descontentamento entre a população de Emesa.

 

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(Severo Alexandre, primo de Elagábalo e seu sucessor no trono imperial)

Elagábalo morreu com a idade de dezoito anos. Com apenas cerca de quinze anos ele fora feito imperador pela mãe e pela avó. Ele é descrito pelos historiadores como travesti, transexual ou mesmo transgênero.

Entendemos que é difícil avaliar o comportamento sexual e a moral dos antigos pelos padrões modernos, e nem devemos utilizar exemplos da antiguidade para justificar ou condenar aspectos das sociedades atuais. Certamente, o que era considerado comportamento “normal” ou padrão socialmente aceito pelos romanos é diferente do vigente nos dias de hoje. Heterossexualidade e homossexualidade para os romanos eram conceitos vagos comparados com as nossas definições atuais. Imperadores considerados “bons” pelos historiadores romanos, como Trajano e Adriano, notoriamente sentiam atração e tinham relações sexuais com jovens rapazes, sem que isso tenha comprometido a sua reputação. No máximo, como vemos em Dion Cássio sobre Trajano, isso era mencionado de passagem, como uma curiosidade e uma ponta muito sutil de ironia. A censura moral dos autores antigos aos imperadores sobre este tema, é feita muito mais ao desregramento ou à luxúria desenfreada, ou, ainda, à efeminação caricatural, pois eles esperavam de um imperador uma aparência marcial e um comportamento masculino, característica essa que não era manchada pelo fato deles fazerem sexo com rapazes, desde que eles assumissem a posição ativa.

É provável que muitas das passagens sexualmente escandalosas do reinado de Elagábalo,  mencionadas nas fontes antigas,  estejam ligadas ao culto de El-Gabal, divindade frequentemente associada à Baal, cujo culto parece ter incluído ritos de prostituição sagrada masculina (os kadesh, citados na Bíblia Judaica) e também castração de sacerdotes. Note-se que isso se parece um pouco com os vícios aos quais os autores romanos aludem em suas obras e poderia explicar também a aparência feminina de Elagábalo.

O único erro que poderia ser imputado a Elagábalo é não ter percebido o choque cultural que a reunião, em uma mesma pessoa, dos papéis de imperador e sumo-sacerdote de uma religião tão estranha aos costumes italianos como era a sua causou na sociedade romana. Convenhamos que esperar essa consciência de um menino sírio que foi feito imperador aos quinze anos pelas manobras da mãe e da avó seria demasiado,  mesmo nos tempos atuais.