VALENTINIANO II

VALENTINIANO II

Em 15 de maio do ano de 392 D.C na cidade de Vienne, capital provincial da Prefeitura Pretoriana da Gália, os camareiros da residência imperial ocupavam-se como os preparativos para o desjejum matinal e para a “cura corporis” do Imperador (cuidados de asseio e higiene pessoal) quando escutaram um grito aterrorizado, vindo do “sacrum cubiculum” (como era chamado o aposento particular do imperador). Em seguida, uma escrava saiu correndo de lá, chorando copiosamente. O camareiro-mor, temendo que o alarido despertasse o Imperador, correu para o quarto e estranhou que não estavam à soleira da porta nenhum dos “scutarii”, que serviam como guarda-costas do imperador…

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(Templo de Augusto e Lívia, na cidade de Vienne, foto de Troyeseffigy )

Após relutar um pouco, o camareiro-chefe abriu a porta e ficou petrificado. De uma arquitrave no teto pendia o corpo enforcado de um jovem vestido em deslumbrante traje de seda púrpura com fios de ouro. Era Valentiniano II,  o Imperador Romano do Ocidente.

Flávio Valentiniano (Flavius Valentinianus) nasceu em 371 D.C, filho do imperador do Ocidente, Valentiniano I, e da imperatriz Justina, a segunda mulher do imperador, que também teve com este outras três filhas: Galla, Grata e Justa. Valentiniano I já tinha um filho, Graciano, nascido em 359 D.C., de seu primeiro casamento com Marina Severa. Graciano foi preparado para suceder Valentiniano I,  tendo acompanhado, ainda criança, o seu pai em diversas batalhas e sendo, proclamado, em 367 D.C, com apenas 8 anos de idade, Augusto, ou seja, co-imperador.

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Em 375 D.C, Valentiniano I, considerado por muitos o último grande imperador romano, faleceu após mais um dos seus temidos ataques de fúria, nesse caso causada pelo comportamento insolente de embaixadores da tribo dos Quados. que lhe causou um derrame em plena audiência. Enquanto isso, o imperador Valente, irmão de Valentiniano, reinava, na metade oriental do Império, em Constantinopla.

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O súbito falecimento do grande e temido Valentiniano I deixou um vácuo de poder e causou uma crise ligada à sucessão do imperador falecido, pois os senadores romanos e os generais do Ocidente provavelmente não confiavam nas virtudes militares de Graciano.

Com efeito, a História mostraria que os generais e políticos ocidentais tinham certa razão para não terem confiança em Graciano. Ele demonstrou fraqueza com relação à disciplina das tropas, chegando a concordar com uma petição em que os soldados pediam para serem dispensados de usarem armadura (tal fato, aliás, provavelmente denota que o grosso das tropas eram compostas já por soldados de origem germânica). Graciano também mostrava-se muito propenso a intervir nos conflitos religiosos em favor da ortodoxia católica, o que desagradava núcleos adeptos do cristianismo herético ariano e, sobretudo, a rica e influente facção pagã do Senado de Roma, a antiga capital, que continuava a ter muita influência política.

Assim, alguns generais do exército romano, notadamente o general de origem franca Merobaudes, aclamaram como imperador o menino Valentiniano II, com apenas 4 anos de idade, forçando Graciano, então com 16 anos de idade, a aceitar o irmão caçula como co-imperador do Ocidente (inaugurando, dessa forma, a tendência que dominaria as últimas décadas do império romano: a escolha de imperadores fantoches por comandantes militares de origem bárbara). Graciano efetivamente controlava a Gália, a Hispânia e a Britânia, enquanto que a Itália, a Iliria e a África ficaram subordinadas a Valentiniano II.

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Todavia, em 378 D.C, uma das maiores catástrofes militares sofridas pelos romanos, veio sacudir esse precário arranjo da situação: Cerca de 200 mil Godos, após cruzarem a fronteira romana do rio Danúbio, procurando asilo motivado pela sucessão de migrações causadas pelo avanço das tribos hunas em direção ao Ocidente, acabaram se revoltando, invadindo a província romana da Trácia.

Ao saber da invasão, Valente, o Imperador Romano do Oriente, comandando todo o seu exército e sem esperar pelo auxílio das tropas ocidentais de seu sobrinho Graciano, resolveu atacar sozinho os bárbaros, mas foi fragorosamente derrotado, na chamada Batalha de Adrianópolis, onde dois terços do exército romano, cerca de 40 mil soldados, morreram, incluindo o próprio imperador Valente, cujo corpo jamais foi encontrado em meio à montanha de cadáveres.

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A morte de Valente  tornaria seu sobrinho Graciano, que já era o Imperador Romano do Ocidente, juntamente com seu meio-irmão Valentiniano II, de apenas 7 anos de idade (que governa nominalmente a Itália, d África e parte da Ilíria), automaticamente também Imperador do Oriente.

Contudo, com os Godos à vontade para se locomoverem nos Bálcãs ( o que ameaçava a própria Itália), não dispondo de outras opções militares, tendo em vista que mal acabara de concluir uma campanha contra os Alamanos, poucos meses antes do desastre de Adrianópolis, e também pelo fato de não haver mais generais experientes no Oriente, Graciano resolveu chamar o respeitado general espanhol Flávio Teodósio(Teodósio I)de seu retiro na Espanha e, em um raro gesto de desprendimento, nascido, é verdade, da necessidade, nomeou-o Augusto, em 19 de janeiro de 379 D.C, entregando-lhe o trono da metade oriental do Império Romano.

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Entretanto, em 25 de agosto de 383 D.C, Graciano foi assassinado em Lyon, para onde teve que fugir após não conseguir debelar a revolta do general da Britânia, Magnus Maximus, um militar também de origem espanhola que havia servido como subordinado do Conde Teodósio, pai do imperador Teodósio I, e invadira a Gália para depor o imperador, supostamente devido ao fato das tropas estarem insatisfeitas com a preferência que Graciano dava às tropas compostas por bárbaros alanos.

Valentiniano II, que, como vimos, por influência dos generais francos, havia sido reconhecido por Graciano como co-imperador, seria o próximo alvo de Maximus. Teodósio I, então, pressionado pelas circunstâncias, acabou concordando em reconhecer Maximus como o novo imperador nas províncias governadas por Graciano, sob o compromisso de que Maximus, por sua vez, reconheceria Valentiniano II como co-imperador no Ocidente.

Esse acerto durou até 387 D.C, quando Maximusresolveu invadir a Itália para derrubar Valentiniano II e assumir ele mesmo o controle total do Ocidente. Um dos motivos principais foi a crescente influência de Teodósio nos assuntos da corte de Valentiniano II. Assim, o jovem imperador, acompanhado da mãe, resolveu fugir para Tessalônica, na parte oriental governada por Teodósio. Este resolveu intervir e, após combinar o seu exército com as forças remanescentes de Valentiniano II, comandados pelo general de origam franca, Flávio Arbogaste, bem como com as de seus aliados Visigodos e mercenários Hunos, conseguiu derrotar Maximusna Batalha de Siscia, no rio Sava, na atual Croácia, em 388 D.C.. Maximus conseguiu fugir, mas foi capturado e executado próximo a Aquileia.

Portanto, na prática, ainda que não de direito, Teodósio I tornou-se o virtual imperador de todo o Império Romano.

Considerando que Valentiniano II, na ocasião, somente tinha dezessete anos, Teodósio ainda ficou três anos na Itália, organizando o Império do Ocidente, somente voltando para Constantinopla em 391 D.C.  Embora, oficialmente, o novo imperador único do Ocidente passasse a ser Valentiniano II, contudo, o real poder no Ocidente estava nas mãos do general franco Flávio Arbogaste, que ocupava o cargo de Comandante-em-chefe da Infantaria (Magister Peditum Praesentalis).

Com efeito, durante todos esses eventos, Valentiniano II sempre havia sido um imperador-fantoche: Primeiro, na Ilíria, sob a proteção de Graciano, e, depois, nas mãos de sua mãe Justina, em Milão, a capital do Império do Ocidente, onde viveu por doze anos, até ter que fugir para Tessalônica.

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Nesses anos em Milão, Justina tornou-se a virtual regente do Império Romano do Ocidente. Ela era adepta do cristianismo segundo a doutrina do bispo Ário (Para os cristão “arianos”, Jesus Cristo, o Filho de Deus, era subordinado ao Pai, e, portanto, esse credo negava o dogma da “Santíssima Trindade”. Para os católicos, isto somente poderia ser uma heresia).

Para azar de Justina, a figura mais influente em Milão naquela época era o Bispo da cidade, Ambrósio, um homem carismático e eloquente, de personalidade forte e muito bem relacionado, pois antes de ser bispo, havia sido governador da Província. Ambrósio era inimigo implacável de tudo que se opusesse à ortodoxia do credo niceno-trinitário, fosse o paganismo ou as heresias cristãs.

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Ambrósio, apenas com a sua determinação e força de seus sermões, já havia conseguido persuadir Graciano a retirar o quase ancestral altar da deusa Vitória da Cúria do Senado, em Roma, sob protestos dos senadores pagãos. Quando estes apelaram a Valentiniano II para que o altar fosse restaurado, Ambrósio convenceu o jovem imperador a negar o pedido. Ele também conseguira exonerar os bispos arianos no Concílio de Aquileia, e nem o poderoso Teodósio escapou de sua influência, sentindo-se obrigado a tomar uma série de medidas contra os pagãos, incluindo a proibição de sacrifícios.

Quando Justina tentou, entre 385 e 386 D.C, que uma basílica fosse consagrada ao culto ariano, Ambrósio ocupou o edifício com uma milícia de cristãos-ortodoxos,  que lá se entrincheiraram, protegidos por barricadas, forçando a imperatriz-viúva a desistir da ideia.

Porém, uma das iniciativas de Justina que teve sucesso foi o casamento da sua bela filha Galla, irmã de Valentiniano II, com Teodósio.

Após o usurpador Maximus ser derrotado, Valentiniano II foi residir em Vienne, capital provincial da Gália. Justina havia recém-falecido e os seus ministros foram nomeados por Teodósio, que também nomeou o poderoso general Arbogaste para o cargo de Magister Peditum Praesentalis.

Valentiniano, agora já em seus vinte anos de idade, começou a se ressentir do fato de ser apenas uma figura decorativa, totalmente dominada por Arbogaste. Para se ter um ideia dessa situação, em um episódio sintomático, certa vez Arbogaste matou, na presença do próprio imperador, um amigo deste, Harmonius, que havia sido acusado de corrupção.

O fato é que a única coisa que impedia Arbogaste de se apropriar do trono e coroar-se a si mesmo era a sua origem bárbara. Apesar da proeminência dos bárbaros no exército, era inadmissível para a sociedade romana que um germânico se tornasse imperador. Era uma realidade tão evidente que, mesmo na fase terminal do Império, nenhum general bárbaro jamais reivindicou o trono para si. O próprio Odoacro, quando destronou o último imperador romano do Ocidente, Rômulo Augusto, não ousou nomear-se Imperador Romano, mas, apenas Rex (Rei) da Itália, devolvendo as insígnias imperiais do Império do Ocidente à Constantinopla.

Valentiniano II tentou se libertar do jugo de Arbogaste, escrevendo cartas secretas a Teodósio, pedindo auxílio. E também buscou o apoio de Ambrósio, inclusive manifestando o desejo de ser batizado pelo Bispo segundo os rituais do Credo Niceno.

A tensão entre Valentiniano II e o seu general aumentou quando o primeiro resolveu demitir Arbogaste do cargo de Marechal da Infantaria do Ocidente. Consta que ao receber do imperador a ordem escrita, Arbogaste foi à presença de Valentiniano e lhe disse, em pessoa: “Não foi você quem me deu o meu comando e não é você quem pode tirá-lo de mim”, após o que, jogou a carta no chão, deu as costas e foi embora!

Segundo Philostorgius, um historiador da igreja de Constantinopla, Valentiniano, como último recurso desesperado, tentou pessoalmente matar Arbogaste, apoderando-se de uma espada de um dos seus guarda-costas,  mas acabou sendo impedido pelo mesmo.

Pouco depois desse incidente, Valentiniano II foi encontrado morto em seus aposentos imperiais. Ele morreu com apenas 21 anos de idade.

Não há, contudo, certeza absoluta de que Valentiniano II tenha sido assassinado. Rufino de Aquileia, um historiador mais próximo dos fatos, tanto temporalmente como espacialmente, escreveu que “ninguém pode estar certo do que aconteceu com o imperador”. Já o historiador Zózimo e outros, consideram que Valentiniano II foi assassinado a mando de Arbogaste. Alguns historiadores modernos acreditam que a causa da morte dele foi suicídio, decorrente do quadro depressivo que Valentiniano II deveria estar enfrentando pela reiterada insolência de Arbogaste e por sua submissão ao general. Ambrósio, em sua eulogia ao imperador, não aborda o assunto, até porque se ele mencionasse o suicídio, isso teria sido um grave pecado de Valentiniano, à luz da doutrina católica.

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O fato é que Arbogaste conseguiu fazer o Senado Romano nomear o inexpressivo Eugênio, um político pouco influente e ex-professor de retórica, como Imperador do Ocidente, o que foi inicialmente reconhecido por Teodósio.

Porém, Eugênio e Arbogaste aproximaram-se da facção pagã do Senado Romano, autorizando, inclusive, a reabertura dos templos e a celebração de rituais pagãos em Roma, culminando com a restauração do Altar da Vitória na Cúria, o que enfureceu Ambrósio e deixou Teodósio em uma posição politicamente difícil na ortodoxa Constantinopla.

Assim, em 393 D.C, Teodósio elevou o seu próprio filho Honório à posição de Augusto no Ocidente, reconhecendo-o como Imperador, o que obviamente significou o seu rompimento definitivo com Arbogaste e Eugênio.

Em 394 D.C, Arbogaste e Eugênio, liderando tropas que lutavam sob a proteção de estandartes adornados com imagens de deuses pagãos, foram derrotados por Teodósio, na sangrenta Batalha do Rio Frígido. Após essa vitória, Teodósio I se tornou o último imperador a reinar sobre as duas metades do Império.

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