UM BANQUETE ROMANO

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O mosaico da foto acima, que hoje faz parte do acervo do museu do Chateau de Boudry (foto copiada do site “http://www.chateaudeboudry.ch”) é um dos mais extraordinários mosaicos romanos que sobreviveram. Ele data do século V D.C. e acredita-se que seja originário da Síria.

Trata-se, provavelmente, de uma das melhores representações de como era um banquete da elite romana. Nele podemos ver a disposição do triclinium, aposento equivalente à sala de jantar das grandes residências modernas. Este nome é devido aos três leitos dispostos em forma de “U”, onde os convivas  comiam reclinados. O aposento tem uma porta de madeira, que deve dar para a cozinha, e uma entrada maior, com cortinas, que deve dar para um peristilo, pátio rodeado de colunas com um agradável jardim, geralmente com fontes, no centro, como era padrão em uma domus romana.

O normal é que cada sofá ou dossel do triclinium acomodasse três pessoas, perfazendo um evento para nove pessoas, mas grandes triclinia  já foram encontrados em escavações, os quais, certamente, poderiam acomodar muito mais conjuntos de três leitos,  e portanto, os seus proprietários poderiam receber um grande número de convivas.

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No mosaico, os convivas são servidos de vinho pelos escravos, os quais, exceto o que está em primeiro plano, usam um corte de cabelo rapado com uma espécie de mecha ou chuca comprida). A comida é servida em três banquetas trípodas, do tipo das que já foram recuperadas em Pompéia e Herculano. Alguns comensais estão bem à vontade, dando a entender que já beberam bastante…

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Também na cena retratada, os serviçais estão preparando vinho quente (vin chaud), ainda hoje consumido no inverno na Europa, o que pode ser constatado pela imagem do escravo enchendo a jarra em uma espécie de samovar, bem no canto direito do mosaico. Mas pode ser também que o líquido seja água quente, pois sabemos que também se costumava adicioná-la ao vinho (porém, os romanos no verão também apreciavam o oposto: beber vinho misturado com neve trazida dos picos das montanhas).

O primeiro prato ou prato principal acaba de ser servido: frangos inteiros assados (e provavelmente estufados com os recheios mais surpreendentes, provavelmente bem picantes) e podemos ver que o convidado de cabelo e barba grisalha já se apressou em pegar uma coxa…

A cena mais chamativa do mosaico, entretanto, é o chão salpicado de restos do que devem ter sido pratos de entrada: Folhas de verduras, peixes, camarões, lulas, conchas de moluscos, etc. E, aproveitando a fartura dos restos no piso, um gato e um camundongo aproveitam para garantir a sua parte…

Esse tema do nosso mosaico de maneira nenhuma é original. Ele faz parte de um estilo comum no Mundo Helenístico, que foi apelidado de asarotos oikos (“chão não varrido”),  e do qual sobraram vários exemplos, como o da foto abaixo. Em nossa opinião, o propósito dessas representações era retratar a fartura das recepções dadas e lembrar aos observadores que o sucesso do banquete retratado no piso estava a se repetir novamente, como os comensais perceberiam ao olharem para o chão. Ou, quem sabe, o tema fosse uma forma bem-humorada de pedir que os convivas não fizessem tanta sujeira…

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Parece que a quantidade dos restos no chão e a presença dos camundongos de maneira nenhuma chocavam os romanos. Certamente, um anfitrião próspero teria que ter um time de escravos suficiente para deixar tudo limpo ao fim do banquete. Mas é possível que alguma obra literária antiga forneça mais alguma explicação para a recorrência do tema (era também comum que os mosaicos trouxessem temas de obras literárias famosas ou do cotidiano, tais como jogos de gladiadores, corridas, caçadas, etc.).

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Os encontros onde ocorriam os banquetes recebiam o nome genérico de convivium (palavra latina que originou a palavra convívio, em português, e com o mesmo sentido).

Os banquetes públicos eram chamados de epulum e costumavam ser oferecidos pelo Estado ou por políticos, normalmente para marcar alguma festividade religiosa ou celebrar vitórias. Júlio César, por exemplo, ficou célebre pela suntuosidade e grandiosidade dos banquetes públicos que ele patrocinou. A História, inclusive, registra que César ofereceu o primeiro banquete público em Roma no qual foram servidos quatro tipos de vinhos diferentes.

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Os banquetes privados eram oferecidos nas residências, normalmente jantares (Cena) onde o anfitrião se esmerava em impressionar os convidados com pratos exóticos e o serviço de mesa mais rico que ele pudesse adquirir. Nos arredores de Pompéia, foi encontrado o magnífico “Tesouro de Boscoreale” (nome da vila onde ele foi escavado), um serviço de mesa completo com baixelas e taças de prata ricamente decoradas.

Mas, mesmo nas mais longínquas regiões do antigo Império Romano, foram descobertos também serviços de mesa tão fabulosos quanto os de Boscoreale (como por exemplo, o “Tesouro de Middenhall”, na Inglaterra), que, na época do Baixo Império Romano, foram propositalmente enterrados pelos proprietários para que não fossem saqueados pelos bárbaros .

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Não menos espetaculares que os serviços de mesa de prata são os fabulosos  recipientes de vidro, produzidos com uma técnica requintada que faria inveja aos artesãos da atual Murano.

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Muito provavelmente, todo esse aparato era guardado para ser utilizado nos banquetes, pois, para as refeições cotidianas, os romanos costumavam usar as peças feitas de cerâmica do tipo “terra sigilata“, como, por exemplo, a taça do tipo scyphus abaixo.

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Note-se que o talher mais usado eram as colheres. Facas e garfos raramente são encontrados em escavações e parece que não eram comuns. Provavelmente. os alimentos ou porções eram servidos para serem consumidos com as mãos, sendo as colheres utilizadas apenas para alguns alimentos, como papas, pastas, cremes, ovos, ostras, sopas, molhos, etc.

Note-se que as mesas trípodas encontradas nas escavações e retratadas nos afrescos e mosaicos parecem pequenas para acomodar tantas travessas com comida. Provavelmente, os escravos ficavam levando as baixelas até os convivas, que pegavam o que queriam.

Ao contrário do que acontecia nos symposia gregos, nos banquetes romanos, as mulheres também eram comensais (no symposium, elas somente podiam participar como cantoras, músicas ou dançarinas, entretendo os convivas, ou, no máximo, como hetairas, que eram cortesãs algo similares às gueixas japonesas). Já as romanas participavam dos banquetes em igualdade com os homens, reclinando-se ao lado deles e conversando animadamente).

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Durante o banquete

As refeições romanos incluíam normalmente três pratos: a entrada (gustatio),  o prato principal (mensae primae) e a sobremesa (mensae secundae), que podiam conter várias opções de cardápio. Um anfitrião abastado certamente procuraria que os três impressionassem os convidados.

As entradas mais comuns consistiam em mariscos, ostras, mexilhões, pequenos aves e peixes, assados ou fritos, acompanhados de pão, queijo, folhas, frutas e sementes, tais como  nozes e castanhas.  Em qualquer caso, e também na mensae primae, os romanos adoravam temperar os pratos com o onipresente garum, um molho feito com miúdos de peixe salgados, deixados a fermentar, cujos principais centros de produção ficavam na península ibérica, especialmente no Algarve. A popularidade do garum pode ser comparada a do atual ketchup e, de fato, sabe-se que o ketchup, originalmente, era um molho feito das entranhas de peixe.

Depois vinham as saladas e os pratos de carne, normalmente aves, peixes ou moluscos, porco ou carne de caça. Os romanos não consumiam muita carne bovina, porque, além dos bois serem valiosos para o trabalho rural e o transporte, a conservação da sua carne era mais complicada (peixes eram fáceis de serem salgados no local em que eram pescados, mas a quantidade de sal necessária para salgar a carne bovina era maior e o sal era caro e nem sempre era abundante nas zonas de pecuária, mais distantes das cidades).

Uma carne muito apreciada era a de arganaz, uma espécie de roedor europeu parecida com o esquilo.

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Anfitriões abastados gostavam de impressionar os convidados com pratos exóticos, tanto pelo tipo de animal servido, como pela apresentação do prato.  Línguas de pavões, tetas de porca confeitadas recheadas com ouriços-do-mar salgados (aperitivos), papagaios assados, flamingo cozido com passas,  arganaz recheado com porco e pinhões, são pratos citados na literatura antiga.

Como curiosidade, transcrevemos duas receitas romanas extraídas de dois famosos compêndios da Antiguidade:

1 -Salada “Columella”: Coloque no moedor menta, arruda, coentro, salsinha, alho-poró fatiado, ou, caso não tenha, cebola, folhas de alface e de rúcula, tomilho verde, ou hortelã. E também poejo e queijo feta fresco. Amasse tudo junto, despeje vinagre condimentado e agite. Coloque a mistura em um prato e despeje azeite (Columella, Re Rustica, XII, LIX)

2 – Avestruz Cozido: Ingredientes: Pimenta, menta, cominho frito, semente de aipo, passas ou tâmaras, mel, vinagre, vinho passificado, garum, azeite. Coloque tudo na panela e cozinhe. Envolva com farinha de espelta, despeje sobre as peças de avestruz (já cozidas) em uma travessa com pitadas de pimenta. Se desejar cozinhar o avestruz no molho, adicione trigo selvagem (Apicius, De Re Coquinaria, 212).

Coquetel depois do jantar

Depois da sobremesa, um banquete que se pretendesse longo evoluiria para uma fase de degustação de vinhos, em variadas formas, chamada de comissatio (valendo observar que nos banquetes romanos, ao contrário dos symposia gregos, o vinho era servido já durante a refeição).

O vinho normalmente era misturado com água ao gosto do convidado, em sua própria taça, para o qual ele se valia de uma concha, chamada de simpulum. Isso era necessário porque o processo de fermentação utilizado pelos romanos resultava em um vinho de teor alcoólico muito elevado.

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Entre os tipos de vinhos mais consumidos estava o passum, um vinho doce de uvas passificadas, o muslum, que era uma mistura de vinho e mel, de origem cartaginesa, e o conditum, que era uma mistura de vinho, mel e especiarias,  envelhecida em recipientes. Segundo as recomendações, as mulheres somente deveriam consumir o passum. Uma outra forma de adoçar o vinho, relatada pelos autores antigos mas que para nós parece inacreditável, era adicionar suco de uva concentrado, aquecido em recipientes de chumbo, que adocicavam a mistura devido ao acetato presente no referido elemento.

Havia taças de vários tipos, as mais comuns sendo o scyphus e o cantharus,  de inspiração grega, que tinham duas asas para segurar.

Entretenimento

Um banquete romano suntuoso certamente terminaria com uma apresentação de músicos, flautistas, tocadores de lira e até mesmo um órgão hidráulico, que podiam acompanhar ou ser seguidos de dança, acrobacia, teatro e, em alguns casos mais extremos, uma luta de gladiadores ou exibição de feras.

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Talvez o banquete mais célebre da literatura latina seja o do fictício liberto Trimalquião, personagem da obra Satyricon, uma sátira escrita pelo autor romano Petrônio, durante o reinado de Nero, que retratava as extravagâncias de um ex-escravo novo rico.

Mito

Ao contrário da crença popular, provocar o vômito durante as refeições não era um costume romano. Na verdade, a História conta que o imperador Vitélio, um notório glutão, costumava tomar remédios para vomitar durante as refeições para que ele pudesse comer mais, mas a prática é relatada como um traço patológico de glutonaria do monarca em questão.

Na verdade, acredita-se que esse equivocado mito moderno seja derivado da palavra latina “vomitorium“, que era o nome dado aos portões de saída dos anfiteatros e estádios.

Finalizamos nosso artigo com a citação desse belíssimo texto do historiador francês Paul Veyne:

 

O muro é penhor de civilidade; o banquete é cerimônia de civilidade. Assim que se vê em suas terras, em seu caro retiro, Horácio convida uma amiga para jantar, sem dúvida uma liberta, cantora ou atriz conhecida. Pois o banquete, para todos os usos, é a circunstância em que o homem privado desfruta do que ele de fato é e o mostra veridicamente a seus pares. O banquete tinha tanta importância quanto a vida dos salões no século XVIII e mesmo quanto a corte no Ancien Regime. Os imperadores não tinham corte; viviam em seu “palácio” na colina do Palatino, à maneira dos nobres de Roma em suas mansões. Cercados de escravos e libertos (tanto que o palácio abrigava os diferentes serviços ministeriais); mas, caída a noite, jantavam com seus convidados, que eram senadores ou simples cidadãos cuja companhia apreciavam. Acabavam-se as honras “públicas” e o “governo” do patrimônio: à noite o homem privado desabrochava no banquete; até os pobres (hoi penêtes) — ou seja, nove décimos da população — tinham suas noites de festim. O homem privado esquecia tudo durante o banquete, menos sua eventual “profissão”; um indivíduo que fez voto de consagrar a vida à busca da sabedoria não festejava da mesma forma que o profano vulgo, e sim como filósofo.

O banquete constituía uma arte. A etiqueta parece ter sido menos elaborada e rigorosa que a nossa. Em compensação, jantava-se com clientes e amigos de toda posição, tanto que a ordem de precedência era rigorosamente observada na distribuição dos leitos ao redor da mesa onde ficavam os pratos. Não havia verdadeiro festim sem leito, mesmo entre os pobres: só se comia sentado nas refeições comuns (nas casas simples a mãe de família, de pé, servia o pai à mesa). A comida nos pareceria ora oriental, ora medieval. Contém muitos temperos e molhos complicados. A carne é fervida antes de cozinhar ou assar — tanto que perde o sangue — e adoçada. A gama dos sabores favoritos situa-se no agridoce. Para beber, poderíamos escolher entre um vinho com gosto de marsala e um resinado, como hoje em dia na Grécia, todos cortados com água. “Reforça a dose”, ordena a um escanção um poeta erótico de coração partido. Pois a melhor parte do jantar, a mais longa, é aquela em que se bebe; durante a primeira metade do jantar nada se faz senão comer sem beber; a segunda parte, em que se bebe sem comer, constitui o banquete propriamente dito (comissatio). É mais que um festim: uma pequena festa, onde cada qual deve manter seu personagem. Em sinal de festa, os convivas portam chapéus de flores ou “coroas” e usam perfume, quer dizer, estão untados de óleo perfumado (desconhecendo-se o álcool, o óleo era o solvente dos perfumes): os banquetes eram suntuosos e brilhantes, assim como as noites de amor. 

O banquete era muito mais que um banquete, e esperavam–se considerações gerais, temas elevados, recapitulações de atos pessoais; se o dono da casa tem um filósofo doméstico ou um preceptor dos filhos, ordena-lhe que tome a palavra; os interlúdios musicais (com danças e cantos), executados por profissionais contratados para a ocasião, podem dar mais vida à festa. O banquete constitui uma manifestação social equivalente ao prazer de beber — ou até maior — e por isso inspirou um gênero literário, o do “banquete”, em que os homens de cultura, filósofos ou eruditos (grammatici), abordam temas elevados. Quando a sala de festim oferece desse modo um espetáculo mais de salão que de refeitório, o ideal do banquete se realiza e a confusão com um festejo popular já não é possível. “Beber” designava então os prazeres da mundanidade, da cultura, e às vezes os encantos da amizade; pensadores e poetas também podiam filosofar sobre o vinho.

(Paul Veyne, História da Vida Privada, do Império Romano ao Ano Mil, 1990. p. 181-184, Ed. Companhia das Letras)