POMPEU, O GRANDE

#POMPEU

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(Excelente humanização de um dos muitos bustos de mármore de Pompeu)
 

1 – Nascimento, juventude e início da carreira militar e política

Em 29 de setembro de 106 A.C, nasceu, em Piceno, na Itália, Gnaeus Pompeius (Pompeu), membro de uma família bem situada de proprietários rurais da Itália Central, uma gente que, apesar de estar totalmente integrada à República e gozar de cidadania plena há centenas de anos, ainda enfrentava barreiras para ingressar no seio da elite romana.

Assim, o pai de Pompeu, Gnaeus Pompeius Strabo (Cneu Pompeu Estrabão), foi o primeiro de sua família a ascender ao Senado Romano, na condição de “homem novo” (novus homo, ou seja, um senador que não tinha antepassados senadores), chegando até o cargo de Cônsul, no ano de 89 A.C, graças aos seus feitos militares, especialmente durante a chamada “Guerra Social” (conflito que recebeu esse nome porque se tratava de uma insurreição dos povos italianos aliados, ou “socii“, em latim, de Roma, que queriam os mesmos direitos dos cidadãos romanos).

Quando Pompeu Estrabão morreu, em 87 A.C, vítima de uma epidemia, ele deixou ao seu jovem filho Pompeu, de apenas 20 anos de idade, a sua vasta fortuna e, talvez mais importante do que isso, uma numerosa clientela.

O jovem Pompeu logo mostrou que também tinha grandes aspirações quando, em 83 A.C, aproveitando-se da herança do pai, ele formou um pequeno exército e aliou-se a Lucius Cornelius Sulla (Sila), o poderoso general que atuava como defensor dos interesses da facção aristocrática do Senado Romano (“Optimates“), na disputa contra os sucessores do falecido general Mário, que durante vários anos foi o campeão da facção dos Populares e que tinha se aproveitado da ausência de Sila da Itália (devido à guerra de Roma contra o rei Mitridates, na Ásia) para tomar novamente o poder, porém acabou morrendo pouco depois de assumir o seu sétimo e último consulado.

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(cabeça de Sila)

Tendo ajudado Sila a derrubar o governo dos Populares, em Roma, Pompeu  passou a gozar da simpatia dele, que agora foi nomeado “Ditador”. Sila, inclusive, ofereceu-lhe a mão da sua enteada, Emília Scaura. O casamento, porém, seria breve, pois Emília, que já estava grávida de seu casamento anterior, acabou morrendo no parto, em 82 A.C.

Em seguida, Pompeu foi enviado para combater as forças dos partidários de Mário que tinham fugido para Sicília e para a África, campanha na qual ele ficou conhecido pela repressão brutal aos inimigos, que lhe deram o apelido de “açougueiro adolescente“…

De volta a Itália, Pompeu não recebeu, todavia, o Triunfo que ele esperava, pois a lei romana somente permitia tal honraria a Pretores ou Cônsules. Não obstante, Sila ordenou que Pompeu deveria receber o cognome de “Magno” (Magnus, que em latim quer dizer, o Grande), em função das suas façanhas militares, tendo ele apenas 25 anos de idade. Mesmo assim, Pompeu insistiu em realizar o triunfo ilegal que ele tanto ansiava, e, como Sila não o proibiu, a procissão triunfal acabou sendo realizada, em 81 A.C.

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Naquele mesmo ano de 81 A.C., Sila renunciou ao cargo de Ditador, restaurando o governo consular eletivo, cargo para o qual ele concorreu nas eleições para o ano seguinte. Enquanto isso, Sila também patrocinou o novo casamento de Pompeu, agora com Múcia Tércia, que era víúva do filho do  grande rival de Sila, Caio Mário, o Jovem, que se suicidou após ser derrotado quando Sila tomou Roma.

Para a eleição do consulado do ano de 79 A.C, Pompeu, contra a vontade de Sila, apoiou a candidatura de Marco Antônio Lépido (pai do futuro Triúnviro) que era integrante da facção dos Populares,  e foi por esta razão que, quando Sila morreu, no ano seguinte, ele não mencionou Pompeu em seu testamento.

A morte de Sila não abrandou o conflito entre os Optimates e os Populares. Com efeito, em Roma, Lépido procurava revogar os atos de Sila contra a facção democrática, e ele até chegou a negar ao falecido Ditador um funeral público, sendo impedido por Pompeu, que, apesar de não ocupar nenhum cargo público, continuava mantendo um exército particular, no qual baseava a sua influência nos assuntos do Estado. Usando esse trunfo, Pompeu conseguiu intimidar um exército aliado de Lépido, que tentava garantir a este um segundo consulado. Assim, Lépido foi obrigado a fugir para Sicília, onde ele morreu.

Enquanto isso, na Hispânia, um partidário dos Populares, o general Quinto Sertório havia se rebelado, em 80 A.C., contra o governo de Sila, assumindo o governo daquela província como Procônsul. Sertório, cujo governo favorecia os chefes celtiberos e os cidadãos romanos nativos da Província, recebeu o apoio entusiasmado de várias tribos hispânicas, sobretudo do aguerrido povo dos Lusitanos. Essa rebelião política acabou se transformando também em uma guerra de guerrilha de cunho nativista e autonomista, na qual Sertório e os seus aliados derrotaram várias legiões romanas enviadas por Sila.

2 – Sucesso na Hispânia

Em 77 A.C., Pompeu conseguiu obter do Senado a missão de ir combater a rebelião de Sertório na Hispânia, juntando-se às forças de Quinto Cecílio Metelo Pio, que comandava as forças romanas nesta campanha há 3 anos. Juntos, Metelo Pio e Pompeu conduziram uma campanha extremamente difícil contra as forças de Sertório, alternando vitórias e derrotas. Contudo, em 72 A.C., Sertório foi assassinado em uma trama urdida por outro general rebelde, Perpena. Assim, boa parte das tropas celtiberas, incluindo os Lusitanos desistiram de lutar após a morte do admirado Sertório. Metelo Pio, então, resolveu deixar a cargo de Pompeu a tarefa de lidar com as forças remanescentes de Perpena, que foram derrotadas com facilidade por Pompeu, ainda em 72 A.C.

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Pompeu capturou e executou Perpena, mas ele foi muito criticado por ter queimado as cartas existentes no arquivo pessoal de Sertório. Acredita-se, por isso, que essa correspondência poderia guardar fatos comprometedores contra pessoas influentes em Roma…O fato é que a luta contra Sertório deu grande prestígio popular a Pompeu, que levou a fama de haver vencido a guerra, apesar dele ter dividido o comando da parte mais difícil da campanha com Metelo Pio. Além disso, em 71 A.C., Pompeu aproveitou para aumentar a sua já vasta clientela na Hispânia e recompensou os seus soldados veteranos, dando-lhes terras na província.

3 – Aproveitando a vitória contra a Rebelião de Espártaco

De volta à Itália com seu exército,  a carreira de Pompeu seria novamente bafejada pela sorte: Os remanescentes da célebre rebelião de Espártaco (Terceira Guerra Servil), que havia sido derrotada pelo general Crasso, ainda vagavam pela Itália. Pompeu recebeu do Senado a missão de combatê-los e, sem muita dificuldade, ele derrotou os últimos 6 mil escravos rebeldes, recebendo, mais uma vez, a maior parte do crédito que, na verdade, era devido aos seus antecessores.

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4 – Primeiro Consulado

A vitória na guerra contra Sertório deu a Pompeu, em 29 de dezembro de 71 A.C., o seu segundo Triunfo, igualmente contrário às leis da República, pelo mesmo motivo anteriormente citado. Em seguida, numa uma prova cabal de que a República era, agora, mais um regime de fachada, onde o verdadeiro poder estava com os generais, Pompeu conseguiu ser eleito Cônsul para o ano de 70 A.C., apesar dele não ter percorrido a “Carreira das Magistraturas” (Cursus Honorum) e de ter apenas 35 anos de idade, não perfazendo, portanto, os requisitos legais. O seu colega de consulado seria Marco Licínio Crasso, o vencedor de Espártaco e que era o homem mais rico de Roma.

5 – Aproximação com a facção dos Populares

Em um sinal do tenso clima reinante, os dois homens fortes da República não dispensaram seus exércitos após o conflito. Aliás, Pompeu e Crasso nunca digeririam a questão sobre a quem cabiam os louros pela vitória na Guerra Servil. Não obstante, os dois concordaram em uma medida que certamente desagradou a facção dos Optimates: a restauração dos poderes e privilégios dos Tribunos da Plebe, os quais haviam sido revogados por Sila.

6 –  A Guerra Contra os Piratas

Após exercer o consulado, Pompeu manobrou para obter, em 67 A.C., com a duração de 3 anos, o importante comando da Guerra contra os Piratas, os quais, centrados na região da Cilícia, infestavam o Mediterrâneo, atacando e saqueando os navios comerciais romanos. Para isso,  ele contaria, entre outros, com o apoio de um jovem e promissor Senador, integrante dos Populares: Caio Júlio Cesar

Essa seria uma campanha gigantesca, que envolveria cerca de 100 mil soldados e 250 navios de guerra,  e que certamente caracterizava uma grande oportunidade de fama e poder para os políticos ambiciosos…

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Ao contrário de suas campanhas anteriores, Pompeu, na Guerra contra os Piratas, teve um desempenho brilhante e decisivo, derrotando os inimigos em apenas 3 meses. De fato, nesta guerra, Pompeu demonstrou um grande talento de estrategista, dividindo o Mediterrâneo em setores, cada um a cargo de um comandante, que ficou encarregado de patrulhar as respectivas águas, enquanto, por terra, Pompeu destruía, uma a uma, as bases dos piratas.

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7 – A Guerra contra Mitridates e os sucessos no Oriente

Com seu prestígio nas alturas devido á vitória contra os piratas, Pompeu recebeu, em 66 A.C., em substituição à Lúculo, e, novamente com o apoio do jovem Júlio César e, também, do conservador Cícero, o comando da Terceira Guerra contra Mitridates, o rei do Ponto ( Nota: o Ponto era um reino originariamente surgido de uma satrapia, ou província, do Império Persa que se tornou helenizado e que, durante um quarto de século, vinha opondo-se fortemente à expansão romana pelo Mediterrâneo Oriental).

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(A campanha de Pompeu contra Mitridates)

No Oriente, Pompeu fez muito mais do que derrotar Mitridates, em 65 A.C., combatendo também os aliados deste na Armênia e até na atual Geórgia. Assim, com a vitória, além do Ponto, que foi unido à Bitínia, Pompeu anexou a Capadócia e a rica Síria, que se tornaram províncias romanas, apesar da relutância do Senado em autorizar isso. Ele também se aproveitou das dissensões que grassavam no reino da Judéia, para sitiar Jerusalém e invadir o Templo (respeitando, todavia, os objetos sacros, que não foram saqueados) e, por fim, atacou o reino dos Nabateus, em Petra. Por fim, em 62 A.C., Pompeu transformou a Judeia em um estado-cliente, dependente da recém anexada Província da Síria.

Depois dessas façanhas militares, Pompeu passou a ser considerado no Oriente um personagem de estatura próxima à de Alexandre, o Grande. Já para os cidadãos romanos, que eram bem mais comedidos em colocar seus grandes homens no pedestal de heróis, sem dúvida Pompeu havia contribuído como poucos para aumentar o território e, sobretudo, a arrecadação da República Romana, incorporando como contribuintes as ricas cidades helenizadas da Anatólia e do Levante.

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(Em 62 A.C., após as campanhas de Pompeu, a República Romana anexa o Ponto e a Síria, alargando os seus domínios e a sua área de influência na Ásia)

8 – Triunfo em Roma e intrigas políticas

Retornando vitorioso para Roma, passando pela Grécia, onde ele foi homenageado como se fosse um verdadeiro Rei, muitos agora pensavam que Pompeu tomaria o poder pela força. Porém, contrariando todas as expectativas, Pompeu dispensou o seu exército antes de entrar na Cidade, como mandava a Lei., sendo ovacionado por onde passou., para celebrar o seu terceiro Triunfo, no dia do seu aniversário, em 61 A.C., que, desta vez, foi o mais suntuosa e magnífica procissão triunfal jamais vista em Roma.

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(” Triunfo de Pompeu”, de Gabriel de Saint-Aubin Metropolitan Museum of Art)

Certamente, dispensar o exército e entrar em Roma como simples cidadão foi um gesto calculado de Pompeu para obter o apoio do Senado e do povo, demonstrando ser ele um cidadão cumpridor da lei e dos costumes tradicionais, imitando, desse modo, Sila, que, ao meu ver, parece ter sido o modelo no qual Pompeu baseava todo o seu projeto pessoal de ascensão ao poder…Contudo, no Senado, Pompeu não gozava nem da simpatia dos conservadores, ofendidos pela revogação das leis de Sila que restringiam o poder tribunício que ele apoiara, nem dos Populares, dado o seu histórico de lutas contra os mesmos. E Pompeu ficaria ainda mais contrariado quando o Senado decidiu não recompensar os seus soldados veteranos com doações de lotes de terras públicas.

9 – Aliança com César e Crasso e o Primeiro Triunvirato

Ocorre que, durante o afastamento de Pompeu de  Roma para comandar as campanhas no Oriente, Júlio César ascendera como a grande liderança da facção dos Populares (César era sobrinho da mulher de Mário). Assim, quando César voltou à Roma, no ano 60 A.C., após governar a Hispânia, ele viu a oportunidade de conjugar a sua ambição com as dos dois homens mais poderosos de Roma: Pompeu e Crasso, ambos insatisfeitos com os Optimates, que controlavam o Senado. Os três então formaram a aliança batizada de Primeiro Triunvirato.

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(César, Crasso e Pompeu)

Essa aliança foi cimentada pelo casamento de Pompeu com Júlia, a filha única de César. Mesmo se tratando de um casamento arranjado, e apesar da diferença de idade (Pompeu tinha 47 anos e Júlia, 24), os esposos acabariam se apaixonando e, anos mais tarde, Pompeu sofreria muito com a morte de Júlia, no parto de uma menina que também não sobreviveu.

César foi eleito Cônsul em 59 A.C., com o apoio de Pompeu, e o Triunvirato assumiu o poder de fato em Roma. Apesar da violenta oposição dos Optimates, liderados por Catão, o Jovem, e também do seu colega de consulado, Bíbulo, César, entre outras medidas defendidas pelos Populares, conseguiu aprovar uma legislação dando terras na Campânia para os veteranos de Pompeu. Na mesma toada, Clódio, um correligionário de César, conseguiu aprovar uma lei especial (Lex Clodia) determinando o exílio de Cícero, como pena pelo fato deste ter ordenado a execução dos envolvidos na Conspiração de Catilina sem julgamento. Essa lei também designou o adversário Catão para governar a distante Chipre, o que, na prática, também equivalia a um exílio, afastando-o do Senado.

Em seguida, os Triúnviros decidiram dividir o governo das províncias romanas entre si, e César escolheu controlar as Gálias Cisalpina e Narbonense, além da Ilíria, autonomeando-se Procônsul, com mandato de 5 anos, a partir de 58 A.C. Em breve, ficaria claro que o propósito de César na Gália era conseguir uma conquista militar que o igualasse em prestígio a Pompeu

10 – Crise do Primeiro Triunvirato

Todavia, as fontes relatam que os repetidos sucessos de César na Gália começaram a amargurar Pompeu, em Roma, pois elas ameaçavam ofuscar as suas próprias. Talvez por isso, Pompeu manobrou para trazer o influente Cícero de volta para Roma e, graças à revogação do exílio, ambos os homens se aproximaram.

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Em 57 A.C., Pompeu recebeu poderes extraordinários do Senado para cuidar do abastecimento de cereais de Roma, onde a fome grassava, um encargo que o colocava em uma excepcional posição em relação aos outros dois colegas no que tange à capacidade de angariar as simpatias da Plebe.

Enquanto isso, as relações entre Crasso e Pompeu também iam mal e, diante de tudo isso, o Triunvirato começava a soçobrar… Os nobres conservadores  perceberam e os Optimates, aproveitando as dissensões entre os Triúnviros, conseguiram eleger um dos seus integrantes como Cônsul para o ano de 56 A.C. Por sua vez, Cícero questionou a legalidade da nomeação de César para o governo da Gália.

Percebendo o risco ao Triunvirato e a sua própria vulnerabilidade, César deixou o comando da campanha da Gália com seus lugares-tenentes e convocou Pompeu e Crasso para uma reunião em Lucca, cidade situada na fronteira da Itália com a Gália Cisalpina, em abril de 56 A.C. Nesse encontro, que passaria à História como a “Conferência de Lucca“, César, Pompeu e Crasso resolveram as suas diferenças, estabelecendo que os dois últimos seriam candidatos a Cônsul no ano seguinte, com o apoio de César. Assegurada a eleição, os novos cônsules promulgariam uma lei prorrogando o mandato do proconsulado de César na Gália por mais cinco anos, sendo que, após o término do consulado de Pompeu e Crasso, eles seriam designados procônsules, respectivamente, da Hispânia e da Síria, também pelo prazo de cinco anos.

O adversário de Crasso e Pompeu na eleição para o consulado de 55 A.C., Lúcio Domício Enobarbo, um fervoroso membro da facção dos Optimates, e que era casado com a irmã do líder deles, Catão, o Jovem, prometeu proibir a prática da compra de votos dos eleitores e revogar o comando de César na Gália. Porém, no dia da eleição, Enobarbo foi expulso à força do Campo de Marte pelos partidários dos Triúnviros, incluindo mil soldados enviados por César, uma coação que garantiu a vitória de Crasso e Pompeu.

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Os novos cônsules executaram os termos do acordo da Conferência de Lucca, através da “Lex Pompeia Licínia“, garantindo a recondução de César para a Gália e os proconsulados da Síria e da Hispânia para Crasso e Pompeu.

11 –  O fim do Primeiro Triunvirato e a reaproximação com os Optimates

O destino, porém, abalaria a recém obtida estabilidade do Primeiro Triunvirato: no ano de 54 A.C., Júlia, filha de César e esposa de Pompeu morreu no parto e, em 53 A.C., Crasso, também ele sedento de obter a glória militar contra os Partos, foi capturado e morto por estes, após a desastrosa Batalha de Carras, na pior derrota militar sofrida pelos romanos desde a Segunda Guerra Púnica, 150 anos antes…

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Logo ficou claro para os Optimates do Senado que César era uma ameaça muito maior do que Pompeu à supremacia que eles detinham no Estado Romano, e, assim, eles passaram a cortejar o último, que, na verdade, sempre havia ansiado pelo reconhecimento dos nobres. Com efeito, reconciliado com os conservadores, Pompeu já não tinha se oposto à eleição de Lúcio Domício Enobarbo, ferrenho opositor de César, para cônsul, no ano de 54 A.C. Na verdade, o segundo até havia se tornado sogro do filho de Pompeu, que se casou com a filha de Enobarbo.

Sintomaticamente, Pompeu recusou a proposta de César para uma nova aliança matrimonial entre as famílias deles, na qual Otávia, a sobrinha-neta de César (e irmã do futuro imperador Otávio Augusto) lhe foi oferecida em casamento. Para reforçar ainda mais o seu  distanciamento de César, Pompeu, em completa oposição à proposta de renovação dos laços matrimoniais com a família do seu colega, casou-se, em 52 A.C., com Cornélia Metela, que era filha de Quinto Cecílio Metelo Cipião, um dos mais empedernidos membros da facção dos Optimates e, portanto, um inimigo figadal de César.

Ainda em 52 A.C, as lutas políticas na cidade de Roma degeneraram em anarquia, com repetidos motins nas ruas, culminando no assassinato do ex-Tribuno da Plebe e membro dos Populares, Clódio, e que resultaram inclusive no incêndio do edifício da Cúria do Senado, terminando por impedir a eleição dos cônsules naquele ano. Essa situação caótica obrigou o Senado à medida extrema de nomear Pompeu como único Cônsul para aquele ano. Pompeu agiu convocando os seus soldados e, com eles, restaurou a ordem na Cidade.

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Evidenciando sua aproximação com os Optimates, Pompeu nomeou o seu sogro Metelo Cipião como seu colega para o Consulado de 52 A.C. Assim, embora Pompeu ainda resistisse a tomar a iniciativa do rompimento com César, qualquer um que tivesse o mínimo discernimento político perceberia que isso era apenas uma questão de tempo. Na verdade, ele e o Senado somente ainda não haviam tomado nenhuma medida mais efetiva contra César porque, ainda naquele ano de 52 A.C., estourou uma rebelião geral das tribos gaulesas, recém-conquistadas., que podia colocar em risco à segurança da própria  Roma. Unidos e liderados pelo chefe Vercingetórix, os gauleses tentaram um confronto definitivo na cidade fortificada de Alésia, onde eles foram definitivamente derrotados na que foi talvez a vitória militar mais brilhante de toda carreira de César.

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Terminada a luta na Gália, a facção dos Optimates no Senado tratou de tentar fazer o mesmo com o comando de César para aquela campanha. Tanto os senadores conservadores quanto César sabiam que, despido da condição de governador e sem cargo público, ele perderia a imunidade, não faltando pretextos para processá-lo e condená-lo, na mais branda das hipóteses, ao exílio.

O confronto entre César e os Optimates tornou-se, então, dramático, com várias manobras políticas visando substituir o primeiro, cassando-lhe a imunidade ou, pelo lado dos seus correligionários Populares, tentando prolongar-lhe o mandato ou elegê-lo para outra magistratura capaz de manter César fora do alcance das retaliações dos adversários.

Assim, em 50 A.C., enquanto ainda estava na Gália, César tentou, sem sucesso, concorrer ao cargo de Cônsul, sem, contudo, abandonar o Proconsulado da Gália e continuando naquela Província, o que era proibido por lei. César, porém, contava com o apoio do Tribuno da Plebe Caio Escribônio Curião, que, segundo alegou-se, teria sido subornado mediante o pagamento de suas dívidas por César. Curião vetava todos os projetos de lei que pretendiam substituir César na Gália ou revogar o seu mandato. Curião, inclusive, chegou a propor uma solução conciliatória entre os partidários de César e a facção dos Optimates: César renunciaria ao comando da Gália desde que: ele recebesse a permissão para concorrer às eleições para o Consulado de 49 A.C. e Pompeu também renunciasse ao seu comando militar. Essa proposta até encontrou simpatia do grupo de senadores moderados, mas o núcleo conservador do Senado, liderado pelo Cônsul Caio Cláudio Marcelo, se opôs ferozmente a ela e eles obstruíram a votação de qualquer proposta naquele sentido.

Com certeza, os senadores mais sensatos percebiam o risco iminente da guerra civil e, por isso, eles apoiavam uma solução de compromisso. Assim, quando, na Sessão do Senado do dia 1º de dezembro de 50 A.C., o Cônsul Cláudio Marcelo reapresentou a proposta de substituição de César na Gália, eles, que inicialmente haviam aprovado a remoção dele, acabaram aprovando, por 370 votos a favor e apenas 22 contra, a emenda substitutiva apresentada por Curião, que estabelecia que também o comando de Pompeu deveria ser encerrado. Porém, Marcelo recusou-se a aceitar o resultado da votação da emenda de Curião e, alegando que César havia cruzado os Alpes com 10 legiões para invadir a Itália, ele declarou dissolvida a Sessão, antes da aprovação do texto.

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12 – Rompimento com César

Em seguida, rompendo com a ordem institucional, Marcelo e alguns integrantes da facção conservadora partiram para a residência de Pompeu para tentar convencê-lo a assumir o comando de todas as tropas na Itália e fizesse o necessário para “salvar a República“. Pompeu, demonstrando alguma relutância, real ou fingida, concordou, ressalvando que ele faria isso

“a não ser que fosse encontrado um caminho melhor”.

Curião, cujo mandato de Tribuno e a sua consequente inviolabilidade pessoal terminariam em poucos dias, decidiu fugir de Roma e ir ao encontro de César, que se encontrava em Ravena, fora dos limites da Itália Romana, acompanhado apenas da XIII Legião. Apesar de instado por Curião a marchar sobre Roma, César decidiu, entretanto, fazer uma nova proposta de acordo: Ele seria nomeado governador da Ilíria e manteria sob seu comando uma legião, até a eleição para o consulado de 49 A.C. Essa proposta foi terminantemente recusada pelos Cônsules.

No dia 1º de janeiro de 49 A.C., César tentou a sua última cartada no Senado para manter a sua carreira política: Valendo-se do novo Tribuno da Plebe, Marco Antônio, que, da mesma forma que o outro Tribuno, Cássio Longino, era seu fiel colaborador, ele enviou, através de Curião, uma carta ao Senado para ser lida em sessão, por Antônio. Contudo, quando Antônio começou a ler a carta, após o trecho em que César reiterava a disposição dele de somente deixar a Gália e desmobilizar o seu exército caso Pompeu fizesse o mesmo, ele foi interrompido aos gritos pelos senadores conservadores. Metelo Cipião, o sogro de Pompeu, propôs que fosse fixada uma data para que César fosse demitido do comando na Gália e dispensasse suas tropas, após o que ele seria declarado “Inimigo Público“. A moção foi aprovada, e somente houve dois votos contrários: os de Curião e do senador Célio.

Muito provavelmente, a diferença entre esta votação e a ocorrida um mês antes foi a maciça presença das tropas de Pompeu nas cercanias de Roma…Não obstante, o Tribuno Marco Antônio vetou a moção de Metelo Cipião e apresentou uma nova proposta para que fosse incluído na lei que o comando de Pompeu também se encerraria na mesma data, sendo esta bem recebida. Porém, novamente, o cônsul Lúcio Cornélio Lêntulo, apoiado por Metelo Cipião, dissolveu a Sessão antes que a lei com as modificações de Antônio fosse aprovada.

Em 7 de janeiro de 49 A.C., o Senado Romano aprovou o “Senatus Consultum Ultimus” declarando a Lei Marcial e nomeando Pompeu como “Protetor de Roma“, equivalendo, na prática, ao cargo de Ditador. Como era esperado, essa lei também declarou o término do mandato de César na Gália, ordenando que ele entregasse o comando das tropas. Em seguida, os soldados de Pompeu ocuparam Roma. Pompeu, agora mais incisivo, expediu uma sugestiva nota dizendo que ele:

“não poderia garantir a segurança dos Tribunos”.

Marco Antônio e Cássio entenderam o recado e fugiram de Roma, indo ao encontro de César. Quando eles chegaram, César percebeu que não havia mais espaço para manobras políticas ou negociações. Ele teria que optar entre obedecer o Senatus Consultum Ultimus e arriscar a sorte como um cidadão comum exposto à sede de vingança dos inimigos, ou tornar-se um rebelde e um fora-da-lei.

 

13 – Começa a Guerra Civil

No dia 16 de janeiro de 49 A.C., César, comandando apenas a XIII Legião, cruzou o riacho chamado Rubicão, que marcava a fronteira da Itália com a Gália Cisalpina. Ao entrar na Itália, ele violou a lei romana e era, tecnicamente, autor de um crime de alta traição. Em suas próprias palavras, “a sorte estava lançada”. Começou a Guerra Civil.

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O Senado ficou chocado com a rapidez com que César conseguira invadir a Itália e pela ousadia de tê-lo feito com apenas uma legião. Pompeu já tinha recebido a autorização do Senado, agora inteiramente controlado pelos Optimates  para recrutar um exército de 130 mil homens na Itália, o qual eles achavam que estaria pronto quando César chegasse. Além disso, ao contrário do esperado, ao invés de ser recebido como fora-da-lei pelos italianos, praticamente todas as cidades no caminho recebiam César como herói e campeão da causa dos Plebeus. Pompeu imediatamente compreendeu que qualquer tropa que estivesse a sua disposição não seria páreo para os calejados legionários de César, que naquele momento eram provavelmente os melhores soldados do Mundo…

Entretanto, durante o avanço de César para Roma, Pompeu recebeu um alento: um dos mais importantes comandantes de César, o hábil general Labieno, desertou e uniu-se às forças de Pompeu. Enquanto isso, César tomou Roma sem precisar de lutar, pois os senadores conservadores, apavorados, fugiram para as propriedades deles fora da Cidade, deixando boa parte do Tesouro do Estado à disposição do primeiro.

Antes disso, Pompeu havia concluído que a melhor estratégia era fugir para a Campânia, onde as tropas senatoriais estavam sendo recrutadas. Nesse meio tempo, Lúcio Domício Enobarbo, que fora apontado pelo Senado como o sucessor de César para a Gália e recebera 4 mil homens para tentar impedir o avanço dele para Roma, foi detido enquanto tentava escapar da cidade de Corfinium, pelos próprios habitantes e entregue a César, que já vinha em sua perseguição. Os soldados que Enobarbo comandava aderiram a César, enfraquecendo, assim, a perspectiva de uma resistência senatorial na Itália.

14- Retirada estratégica para a Grécia

Pompeu decidiu, então, partir para a Grécia, onde, explorando o seu prestígio e sua vasta clientela existente na região, ele poderia reunir um grande exército. Além disso, ele ainda tinha sob seu comando uma considerável frota romana, ao contrário de César, cujos poucos navios disponíveis  tornavam difícil perseguir Pompeu, ainda mais agora que a chegada do inverno estava próxima, impedindo por alguns meses os transportes marítimos. Finalmente, Pompeu tinha mais chances de interceptar os carregamentos de cereais para Roma, onde a fome resultante seria responsabilidade de César, enfraquecendo-o perante a Plebe.

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Embora o plano supracitado não fosse um plano ruim, o fato de Pompeu ter tido que abandonar a Itália, demostra o despreparo com que ele foi pego pela rápida ação de César. E isto apesar de terem sido Pompeu e os Optimates que deram o ultimato ao adversário, tendo um bom tempo para se prepararem…

Acompanharam Pompeu em sua retirada estratégica da Itália a maior parte da facção dos Optimates. Assim, ao contrário de César, que era o comandante supremo de suas forças, Pompeu, por diversas vezes, tinha que escutar e levar em consideração os palpites militares dos senadores mais proeminentes, muitos deles sem experiência bélica.

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César, devido à impossibilidade de perseguir Pompeu até a Grécia, decidiu partir para enfrentar os exércitos do rival que se encontravam baseados na Hispânia. Isso motivou o famoso comentário de César:

“Parto para a Espanha para enfrentar um exército sem general e logo seguirei para enfrentar um general sem exército.”

Chegando em Ilerda, após mais uma impressionante marcha forçada, César cercou o exército de Pompeu, que se rendeu em 02 de julho de 49 A.C., De volta à Roma, César, em apenas 11 dias de estadia na capital, foi nomeado Ditador por um curto período e, após editar uma série de decretos implementando políticas de interesse dos Populares, conseguiu que Pompeu fosse declarado “fora-da-lei”.

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Em 28 de novembro de 49 A.C., após conseguir os navios necessários, César partiu de Brundisium e cruzou o mar Adriático em direção ao Épiro, na atual Albânia. Se o inverno era insatisfatório para transportar as tropas via marítima, era muito mais para as instáveis galeras de patrulha da frota de Pompeu, assim, a cartada de César inicialmente foi um sucesso e ele conseguiu desembarcar metade de suas forças.

Porém o comandante da frota de Pompeu, ancorada em Corfu, Marco Calpúrnio Bíbulo, que tinha sido pego de surpresa pelo desembarque repentino de César, agora  estava alerta e decidiu bloquear a costa do Épiro, impedindo a chegada de reforços e de provisões para César. E, para a animar o ânimo de Pompeu, o seu outro comandante, Lúcio Escribônio Libo,  conseguiu a capturar as ilhas que dominavam a entrada do porto de Brundisium.

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Agora parecia que a audácia de César o tinha levado longe demais. Pompeu tinha muito mais legiões do que ele no Épiro e agora, além da inferioridade numérica, o exército do rival não poderia mais receber suprimentos nem reforços.

Enquanto isso, Pompeu, estabelecido em Tessalonica, na Macedônia, montou um verdadeiro governo romano no exílio, rodeado por tantos senadores fugitivos, cerca de duzentos, que eles passaram a se reunir em sessão naquela cidade grega, como se estivessem no Senado, em Roma. Em Tessalonica, Pompeu recebeu Rufo, um general partidário seu a quem César havia capturado na Hispânia, que lhe foi enviado por César como um emissário levando uma  proposta de acordo de paz, onde ambos desmobilizariam seus exércitos e submeteriam seus pleitos ao Senado e ao Povo de Roma. Essa proposta de César foi motivada pela situação desfavorável em que ele se encontrava no Épiro.

Pompeu, diante das notícias, recusou a oferta e decidiu que era hora dele se mexer e marchar em Direção à Apolônia, na costa do Épiro. Porém, César chegou ali antes e o povo da cidade, surpreendentemente, o recebeu de braços abertos, e o governador romano da cidade, Straberius, que tinha sido apontado por Pompeu, teve que fugir.

15-  Vitória tática, mas derrota estratégica na Batalha de Dirráquio

Quando ficou sabendo da perda de Apolônia, Pompeu decidiu fazer uma marcha forçada para uma boa posição defensiva na cidade de Dirráquio (atual Durres, na Albânia, ou, ainda, Durazzo, em italiano), local que ele alcançou em 3 de dezembro de 49 A.C.  Porém, essa marcha forçada não foi um bom prenúncio para os partidários de Pompeu. Nela ficou patente que o grande general já estava ficando velho, e que as tropas recrutadas estavam despreparadas e desanimadas.

Agora, os exércitos estavam separados pelo rio Apsus, o de Pompeu acampado nas cercanias de Dirráquio, e o de César nos arredores de Apolônia. Entretanto, Pompeu, apesar do seu exército ser muito mais numeroso, dando uma demonstração de falta de combatividade, ou talvez por ele não confiar na capacidade do seu exército, ao invés de atacar César, ficou acampado por dois meses em atitude de espera…

Nesse meio termo, César vinha requisitando aos seus correligionários em Roma o envio de reforços com urgência, e, para a sua felicidade, Marco Antônio, o seu braço-direito, conseguiu despistar o bloqueio naval de Libo, que havia perdido um pouco da eficiência depois da morte de Bíbulo, e desembarcou mais 4 legiões na cidade de Nympheum, em fevereiro de 48 A.C.

A notícia do desembarque de Antônio chegou, quase ao mesmo tempo, aos dois acampamentos. Pompeu decidiu, então, interceptar os recém-chegados reforços  antes que eles se unissem a César. Ele tinha a vantagem de não ter que cruzar o rio e na verdade começara a marcha um pouco antes. Assim, Pompeu escolheu um ponto para tentar emboscar as legiões de Antônio que avançavam. Antônio, porém, foi avisado por simpatizantes gregos da armadilha e decidiu permanecer acampado, protegido de um ataque pela paliçada, fosso e torres. Pompeu logo percebeu que, agora, ele corria o risco de ficar entre uma posição fortificada inimiga e o exército de César e ele, então, achou mais prudente voltar para Dirráquio, onde se entrincheirou de vez. Ele foi seguido por César, que também começou a construir uma cadeia de paliçadas, fossos e torres de fortificação, de modo que ambos os líderes foram tornando o campo de batalha de certa forma parecido com o que se veria, quase dois mil anos depois, na 1ª Guerra Mundial.

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Permitir a junção das reforços de Antônio às legiões de César com certeza foi uma derrota tática de Pompeu. Se antes, quando tinha superioridade de 3 para 1, ele não atacara César, agora seria muito mais difícil… A sua estratégia reduziu-se, então, a esperar que César ficasse sem suprimentos, já que ele poderia recebê-los da Grécia. César, por sua vez, como demonstram os trabalhos de fortificação que ordenou, também esperava proteger as únicas linhas que tinha de suprimentos por terra, no Épiro, província que estava longe de ser abundante em recursos, já bem exauridos pelos recentes combates, e, sobretudo, se proteger dos ataques do inimigo muito mais numeroso.

Curiosamente, à medida que o tempo foi passando, o trigo dos campos que se encontravam dentro do perímetro fortificado de César começou a crescer. Já Pompeu passou a ter problemas de escassez de água, e, assim,  ele é que passou a ficar na condição de sitiado. Essa situação em breve obrigaria Pompeu a ter que atacar para romper as linhas de César. Mas, nessa premência, Pompeu seria beneficiado por um golpe de sorte: Dois comandantes de cavalaria da tribo gaulesa dos Allobroges, que serviam como auxiliares no exército de César,  acusados de desviarem o soldo das suas tropas, desertaram e foram se unir a Pompeu. Os desertores contaram detalhes acerca das posições defensivas de César, sobretudo algumas posições no sul das linhas, que não tinham ficado prontas.

 

Vislumbrando uma boa oportunidade, Pompeu, em 10 de julho de 48 A.C., ordenou um ataque de seis legiões contra o ponto fraco, onde a paliçada de César chegava até o mar, inclusive utilizando tropas ligeiras desembarcando diretamente da água, naquele ponto. Com superioridade numérica esmagadora, as legiões de Pompeu conseguiram romper o perímetro defensivo, fazendo recuar a IX Legião Cesarista, com pesadas perdas. Contudo, César deslocou 4 mil homens para o ponto fraco, sob o comando de Marco Antônio e contra-atacou, fazendo as tropas de Pompeu se refugiarem em um pequeno forte que havia sido abandonado pelos soldados de César. Este resolveu desalojá-los de lá enviando 33 Cohortes de infantaria, apesar desse número ser metade do das legiões que estavam sendo atacadas.

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Ao contrário do que se esperava, as tropas de Pompeu resistiram tenazmente e ainda foram auxiliadas por um destacamento misto de cavalaria e infantaria que o experiente general enviou no calor da batalha para flanquear a retaguarda da ala direita dos soldados de César. Ameaçado pelo contra-ataque de Pompeu, César tentou organizar uma retirada ordenada mas os soldados dele entraram em pânico e correram para se proteger atrás dos muros de seu próprio acampamento. César perdeu mil homens no ataque fracassado.

Mais uma vez, contudo, Pompeu hesitou no momento crucial e deixou de ordenar um ataque generalizado ao exército de César, o qual teria grande probabilidade de lhe dar a vitória completa. Parece que ele, erroneamente, suspeitou que a retirada do rival era uma armadilha ou, então, que a parada já estava ganha, mas o fato é que ele acabou não fazendo nada, o que motivou o impiedoso comentário de César:

“Hoje a vitória teria sido do Inimigo, se houvesse entre eles alguém que soubesse ganhá-la”.

César, então, decidiu se retirar do campo da Batalha de Dirráquio e marchar para a Tessália, local para onde ele já tinha enviado umas legiões sob o comando de Cneu Domício Calvino para confrontar o resto do exército de Pompeu que ali era lideradas por Cipião Násica

Da mesma forma, seguindo a uma distância prudente o inimigo, Pompeu deixou o campo de batalha e seguiu para a Tessália. Embora cautelosamente ele achasse que ainda não chegara a hora de lutar uma batalha decisiva, Pompeu acabou sendo convencido pelo seu séquito de influentes senadores Optimates a perseguir César e seu exército para forçar uma batalha decisiva. .E o cenário escolhido para isso foi a planície de Farsália (Pharsalos), onde os exércitos inimigos acamparam.

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Pompeu tinha entre cerca de 60 mil soldados e 45 mil soldados e César, entre 30 mil e 22 mil (as fontes variam). E o contingente de cavalaria à disposição de Pompeu era esmagadoramente superior: 7 mil contra mil. Os acampamentos dos dois exércitos ficavam distantes cerca de 9 km um do outro.

 

César, com certeza, não tivera sua confiança abalada pela derrota na Batalha de Dirráquio e ele deve, como em tantas vezes anteriores, ter conseguido motivar suas tropas. Por isso, todo dia ele mandava o exército entrar em formação de combate à vista do inimigo, tentando atrair Pompeu para o campo de batalha. Mas o máximo que Pompeu fazia era formar seu exército no topo da colina em que ele acampara, na improvável esperança de que César atacasse em um terreno que lhe era francamente desfavorável.

Enquanto isso, no quartel de Pompeu, os senadores exigiam que ele liquidasse logo o assunto. Após o desempenho razoável em Dirráquio, a confiança dos Optimates era tanto que eles chegaram até a fazer uma divisão prévia dos cargos no governo, para ser implementada quando do que julgavam ser o iminente retorno vitorioso deles à Roma.

16- Derrota na Batalha de Farsália

Assim, em 9 de agosto de 48 A.C., todo o exército de Pompeu desceu da colina e se colocou em ordem de batalha, disposto em três linhas com profundidade de dez homens cada. Novamente, porém, a iniciativa seria deixada ao adversário. O plano era esperar que César atacasse, já que se esperava que suas tropas ficariam cansadas pela marcha. E, desta vez,  as linhas de César, comandadas por Marco Antônio e Domício Calvino avançaram, não sem antes pararem no meio do caminho para descansar e se reagrupar, até que elas se chocaram com o centro da primeira linha de Pompeu, que resistiu ao ataque.

 

 

Então, ambos os exércitos ficaram se empurrando e tentando abrir espaços entre os caídos, sem sucesso, como era característico dos combates da Antiguidade. Entretanto, quando Labieno, obedecendo as ordens de Pompeu, lançou a sua cavalaria do flanco esquerdo, que superava a de César por 7×1, visando esmagar a a cavalaria inimiga,  é que se percebeu que César, discretamente, havia formado uma quarta linha, por trás das 3 primeiras, que tinham sido formadas para serem mais finas dos que as de Pompeu ( 6 homens),  a qual composta com elementos da terceira linha (8 coortes) misturados com seus mil cavaleiros.

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Os cavaleiros de Pompeu, surpresos pelo tamanho da formação, que eles esperavam que fosse bem menor, quando se depararam com a quarta fileira de tropas de César, entraram em pânico e dispersaram-se, quando os legionários, ao invés de atirarem os seus dardos (pila), usaram-nos como lanças, apontadas para os cavalos.

Em seguida, a quarta linha de infantaria de César aproveitou-se de que o flanco esquerdo de Pompeu estava desprotegido, após a fuga da cavalaria, e atacou aquele ponto, que, em pouco tempo, começou a perder a coesão, e  com o pânico espalhando-se entre os soldados.

Aproveitando o momento adequado, César lançou a sua terceira linha sobre a linha de frente do inimigo, que foi rompida. Assistindo seu exército ser envolvido, Pompeu decidiu voltar para o seu acampamento, deixando as tropas no campo de batalha, que, ao se verem sem o seu comandante supremo , começaram um debandada geral. Quando César conseguiu alcançar o acampamento inimigo, que, diga-se de passagem, foi galantemente defendido pelos auxiliares trácios, Pompeu já tinha fugido.

De acordo com os “Comentários sobre a Guerra Civil”, escritos pelo próprio César, ele perdeu apenas 30 centuriões e 200 legionários na Batalha de Farsália.

17 – Pompeu foge para o Egito

O objetivo de César agora era perseguir e capturar Pompeu para impedir que ele reunisse um novo exército. De fato, Pompeu tinha parado em Amfípolis e publicado um decreto conclamando todos os homens da província da Macedônia a se juntarem a sua causa. Porém, quando se César aproximava-se daquela cidade, ele resolveu fugir, embarcou em um navio e, no trajeto, apanhou sua esposa, Cornélia, e o seu filho, para se juntar aos remanescentes de sua frota. Contudo, em todo lugar que Pompeu atracava, ficava claro que ele ali não era bem-vindo.

Como o grande aliado de Pompeu na guerra contra César e os Populares, Catão, o Jovem, o líder intelectual dos Optimates, já tinha fugido para a África para tentar organizar a resistência aos inimigos, Pompeu foi aconselhado a fazer uma parada no Egito. Parecia uma boa ideia, já que o pai do atual faraó Ptolomeu XIII tinha mantido com Pompeu uma relação de quase-clientela, a quem, inclusive, ele pagou uma grande soma  em dinheiro para ser reconhecido por Roma.

Ptolomeu XIII, que ainda era um menino de cerca de 14 anos, no início parecia disposto a receber Pompeu, porém, ele foi alertado pelo eunuco Potheinus, por seu tutor, Teódoto de Chios, e por Achillas, o comandante do exército egípcio, de que, uma vez no Egito, Pompeu poderia tentar governar o país, já que muitos dos mercenários romanos que compunham o exército egípcio tinham servido sob as ordens de Pompeu. O jovem faraó foi também aconselhado que tudo indicava que César seria o vencedor da Guerra Civil e o melhor seria não desagradá-lo.

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18 – A triste morte de Pompeu

Assim, quando a pequena frota de Pompeu chegou próximo à cidade egípcia de Pelousium, local onde Ptolomeu XIII travava uma guerra pela sucessão com sua irmã Cleópatra VII, o general Achillas foi, juntamente com Septimius, que tinha sido um antigo oficial de Pompeu, foram ao encontro dele em um barco de pesca, dando a entender que tinham vindo buscar o romano para desembarca-lo em terra.

Os acompanhantes de Pompeu, porém, quando viram o pequeno barco de pesca aproximar-se, ficaram desconfiados e o aconselharam de que eles não deviam se aproximar da outra embarcação. Achillas, então,  gritou que o motivo deles estarem usando um barco tão pequeno era a pequena profundidade da água, apesar de alguns navios egípcios estarem próximos. Nesse momento, Cornélia teve um pressentimento de que o seu marido ia ser morto e lhe disse para não embarcar. Pompeu, todavia, ignorou as suspeitas da esposa e embarcou.

À bordo do pesqueiro, Pompeu, achando a fisionomia de Septimius familiar, perguntou se ele tinha sido seu camarada de exército. Naquele instante, Septimius, sem nada responder, enfiou a espada dele em Pompeu, sendo que Achillas e um certo romano Savius, que acompanhavam tudo,  também aproveitaram para esfaquear Pompeu com as suas adagas. Assistindo a tudo, horrorizados, os tripulantes do navio de Pompeu, aproveitando o vento favorável, fugiram. Enquanto isso, a cabeça de Pompeu era cortada, e o corpo dele, jogado ao mar.

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Pompeu morreu em 28 de setembro de 48 A.C., um dia antes do seu aniversário, no qual ele completaria 60 anos de idade. Quando, apenas dois dias após, César chegou à Alexandria, em perseguição ao rival, Teódoto lhe presenteou com o anel-selo de Pompeu e um recipiente, do qual foi retirada a cabeça de Pompeu. As fontes contam que César horrorizado, chorou o trágico fim do rival e amaldiçoou Teódoto, que teve que fugir para não ser executado.

Os restos de Pompeu foram entregues a Cornélia e enterrados na Vila de Pompeu, em Alba, na Itália.

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19 – Conclusão

Pompeu acabou se tornando um personagem que goza de uma certa simpatia pelo público amante da História de Roma. Apesar de ser muito ambicioso, ele preferiu, quando teve condições de tentar a conquista do poder absoluto, obter a chancela do Senado e respeitar a Constituição. Parece-nos que o fato dele não pertencer a uma família da nobreza tornou-o excessivamente sequioso da aprovação dos nobres, de quem, embora ele tenha se afastado temporariamente, acabou se reaproximando.

Na verdade, mesmo que Pompeu tivesse ganho a Guerra Civil, a República já estava ferida de morte e provavelmente ele seguiria a trajetória de Sila, ou, caso a sua ambição falasse mais alto, a que o próprio César trilharia, após ter vencido a Guerra Civil. Em qualquer dos casos, acredito que os Populares acabariam encontrando um outro campeão, provavelmente os próprios Marco Antônio ou Otaviano.

A relação pessoal amistosa de Pompeu com César, durante a maior parte da carreira dele, parece ter sido genuína, e os relatos deixam transparecer que os dois grandes homens da República no período efetivamente admiravam-se e respeitavam-se mutuamente. O casamento de Pompeu e Júlia, embora tenha sido arranjado com finalidades políticas, acabou se transformando em uma união de verdadeiro amor conjugal, e tudo isso contribuiu para melhorar a imagem de Pompeu para a posteridade.

FIM

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DISCIPLINA ROMANA: MAIS FORTE QUE O VESÚVIO !

ARQUEOLOGIA

Durante séculos, os arqueólogos que trabalharam nas escavações das cidades soterradas pela erupção do Vesúvio em 79 D.C notaram uma particularidade: Em Pompéia foram achados muitos restos humanos, sobretudo em cavidades formadas nos depósitos de detritos, que, preenchidas por resina, resultaram nos impressionantes figuras moldadas de pessoas e animais que os turistas ainda hoje podem ver quando visitam a cidade (Técnica inventada por Giuseppe Fiorelli, em 1864, vide foto abaixo).

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Contudo, na vizinha Herculano, quase nenhum vestígio das vítimas daquela catástrofe havia sido achado, sendo que, embora  sendo uma cidade bem menor do que Pompéia, Herculano tinha cerca de 5 mil habitantes.

A explicação mais aceita era a de que Herculano era uma espécie de balneário chique à beira-mar, e os seus ricos habitantes deviam ter conseguido fugir em massa da vila, usando até barcos particulares.

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Entretanto, em 1982, um arqueólogo fez uma impressionante descoberta: ao escavar as grandes arcadas dando entrada para as massivas galerias que eram utilizadas como garagem para barcos, de frente para a antiga praia em frente a Herculano, um trecho que tinha sido totalmente soterrado pelos detritos da erupção do vulcão, ele encontrou os esqueletos de cerca de trezentas pessoas.

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(Garagem dos barcos em Herculano, com os esqueletos das vítimas, foto de Norbert Nagel)

 

Quase todos os esqueletos estavam dentro das garagens, separados por sexo e idade (homens separados de mulheres).

E um achado, em especial, intrigou os arqueólogos: mais afastado das garagens, eles encontraram um esqueleto de um homem de cerca de 40 anos de idade e 1,70m de altura, que ainda portava um cinturão com uma espada (gládio) embainhada, colada ao lado direito de sua cintura. O corpo recebeu a identificação de indivíduo E26. (vide foto abaixo).

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O cenário e a posição em que o cadáver foi encontrado deixavam claro que o homem estava do lado de fora das garagens, na praia e voltado para a direção do mar, quando ele foi atingido pela massiva explosão piroplástica do Vesúvio, tendo o seu corpo sido instantaneamente calcinado.

Não havia nenhum barco dentro das garagens e alguém obviamente tinha organizado as pessoas para que, de maneira ordeira, separassem-se em grupos de homens e mulheres e crianças, que, infelizmente, também morreram imediatamente devido à nuvem de calor de cerca de 500 graus. A erupção foi relatada pelos historiadores antigos, destacando-se a descrição feita por Plínio, o Jovem, que presenciou a tragédia.

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Plínio narra que seu tio, Gaius Plinius Secundus,  (Plínio, o Velho) era comandante da frota imperial em Miseno, a 30 km de Pompéia e Herculano. Plínio, o Velho, quando presenciou a erupção do vulcão, começou a receber pedidos de ajuda de habitantes das cidades afetadas e montou uma operação de resgate usando os navios da esquadra. Ele mesmo chegou a desembarcar na cidade de Stabiae, para resgatar conhecidos seus, porém, devido aos ventos desfavoráveis, o navio não conseguiu regressar e ele acabou morrendo no local.

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CONCLUSÃO

Portando um gládio militar, com uma bainha e cinturão muito bem decorados, o homem caído na praia certamente era um militar, provavelmente um oficial, já que seu esqueleto também apresentava marcas típicas de quem costumava cavalgar. É até possível que ele fosse um dos integrantes da operação comandada por Plínio, o Velho.

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(Reprodução da espada e cinturão do indivíduo E26. A qualidade do material permite supor que se tratava ao menos de um centurião)

Nossa opinião é que o oficial E26 morreu enquanto esperava a volta da frota, que deve ter passado por Herculano em direção à Stabiae. Enquanto isso, ele deve ter organizado a retirada dos últimos habitantes de Herculano.

Não havia mais barcos e a frota era a única esperança deles saírem dali. Eles não sabiam o que era um erupção vulcânica e as garagens, muito bem construídas com paredes grossas, devem ter parecido ao E26 um lugar seguro para aguardar o socorro.

O fato é que E26 morreu em seu posto, no cumprimento do dever e não abandonou as pessoas que dependiam dele. Felizmente, tudo indica que a onda de calor chegou tão rápida e violentamente que as pessoas no local sequer tiveram tempo de perceber antes que seus cérebros praticamente vaporizassem e explodissem dentro dos crânios.

Por tudo isso, homenageamos o soldado E26 e todos militares, bombeiros e policiais que porventura morreram ou se arriscam para garantir a nossa segurança.

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SÃO MAURÍCIO E A LEGIÃO TEBANA

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(São Maurício, tela de Matthias Grünewald, século XVI).

Em 22 de setembro de 286 D.C., segundo a hagiografia cristã de São Maurício, uma legião romana inteira teria sido martirizada por ordens do Imperador Maximiniano, na cidade de Agaunum (atual cidade de Saint-Maurice, na Suiça).

Os fatos, que já faziam parte da tradição oral da comunidade cristã, foram mencionados pela primeira vez por escrito em um carta do bispo Euquério, bispo de Lyon, escrita por volta do ano 450 D.C. Segundo a estória narrada na carta,  Maurício era o comandante da Legião Tebana, era originária da cidade de Tebas, ou da província de Thebaida, ambas no Egito, de onde se originou o nome de “Legião Tebana”, e foi transferida para a Gália.

Chegando na cidade de Agaunum, para combater uma revolta dos chamados bagaudas, como eram denominados numerosos bandos de revoltosos e foras-da-lei que chegaram a dominar uma parte da Gália, os soldados da Legião Tebana, que tinham se convertido ao cristianismo ainda no Egito, recusaram-se a fazer os sacrifícios ao imperador e aos deuses romanos antes do combate.

Enfurecido, Maximiano ordenou que a já arcaica punição da dizimação ou “decimatio” fosse aplicada à Legião Tebana (a pena da dizimação consistia em punir uma unidade militar que tivesse demonstrado covardia ou traição pela reunião dos soldados em grupos de dez homens, dos quais um seria escolhido para ser executado).

Porém, mesmo após a primeira rodada de aplicação da decimatio, os soldados cristãos permaneceram firmes em sua fé, e,  depois de várias rodadas de execuções, toda a Legião Tebana, o que totalizaria cerca de cinco mil homens (ou talvez mil, pois nesta época estavam em curso profundas mudanças no Exército Romano),  teria sido morta.

Apesar da conotação mítico-religiosa da fantástica do relato, Muitos historiadores acreditam que essa impressionante estória pode ter um fundo de verdade.

Efetivamente, houve uma legião romana que se chamava I Maximiana Thebanorum,  a qual foi formada pelo imperador Diocleciano cerca de dez anos após a data em que se teria dado o aludido martírio. Apesar da pequena imprecisão cronológica,  o fato é que na época em que a unidade foi criada, Maximiano ainda era co-imperador junto com Diocleciano e ele realmente estava comandando o exército no Reno, o que é compatível com o local mencionado na narrativa hagiológica.

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(Imperador Maximiano)

Inclusive segundo o historiador galo-romano Gregório de Tours, que escreveu no final do século VI D.C., existia na cidade de Colônia uma igreja erguida em torno da cova onde os restos de cinquenta mártires da Legião Tebana foram jogados após o seu martírio.

A transferência de uma legião inteira do Egito para a Gália é improvável, mas a retirada de destacamentos (vexillationes) de várias legiões para campanhas era uma prática comum.

Assim, seria mais condizente com a prática romana, constatada em vários episódios anteriores,  que uma “Coorte” (Cohors), uma unidade militar com cerca de quinhentos homens, tenha sido enviada para a Gália. Se isso for verdade, considerando o relato de Gregório de Tours, que fala em cinquenta mártires, é razoável que a pena da dizimação tenha sido aplicada a uma coorte da Legião Tebana, perfazendo um décimo do seu efetivo.

Maurício, além de outros oficiais martirizados, tais como Cândido e Exupério, passaram a ser venerados como santos pela Igreja Católica. Maurício, inclusive, segundo a hagiografia, seria originário de Tebas, cidade egípcia próxima a Assuã, já quase na fronteira com o Sudão, onde começa da fato a  África Subsaariana, que antigamente era conhecida como “África Negra” . Por isso, São Maurício é representado, ao menos desde a Idade Média, como um homem negro vestido com armadura militar.

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 (Estátua de São Maurício, século XIII, Catedral de Magdeburgo , foto de Chris 73)

HOJE É SEXTA-FEIRA!!! VOCÊ SABE O PORQUÊ?

#calendário #nundinae #domingo #dominicus #natalissolisinvictus #sãomartinhodedume

Todos nós que falamos português logo percebemos os dias úteis da semana em nossa língua têm um nome diferente do que em outras línguas derivadas do latim, faladas na Europa, que também se difundiram principalmente pelas Américas, África e Oceania.

Notamos também, que nas línguas germânicas, tal como o inglês, nenhum dos sete dias da semana é igual ao seu correspondente na língua portuguesa.

Não obstante, e especialmente nas línguas derivadas do latim, sábado e domingo, normalmente o 7º e o 1º dias da semana (sim, em alguns países não é assim), compartilham esse mesmo nome.

Por que somos diferentes?

Essa é uma longa história que começou muito antes dos romanos, os principais responsáveis por esse calendário que hoje usamos.

Inicialmente, a maior parte dos povos antigos não adotava uma divisão do calendário em semanas. Certamente, dentre as primeiras sociedades a fazê-lo estavam os povos do Oriente Médio, notadamente os babilônios. Esses povos usavam um calendário lunar, organizado em função das fases da lua, e eles tentavam sincronizá-las com as estações do ano, que por sua vez eram percebidas em função do movimento do sol, o que intuitivamente induz a uma divisão do ano em meses de 28 dias com quatro semanas de sete dias (eles também usavam, entretanto, calendários astronômicos mais sofisticados).

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(Sofisticado calendário astronômico babilônico)

Por sua vez, a astrologia, difundida entre os babilônios, ligava-se à observação das órbitas dos sete astros visíveis a olho nu, que são: o Sol, a Lua e os planetas Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.

Porém, os primeiros a adotarem a divisão do tempo em uma semana de sete dias (hebdomadário, de “hebdo”, isto é, “sete”) como algo inseparável da sua própria identidade foram os judeus. A narrativa bíblica da criação do mundo em sete dias, incluindo o descanso de Deus no sábado, efetivamente governava a vida dos hebreus.

Já os romanos, inicialmente, e ainda durante a República, dividiam os dias do mês em ciclos de oito dias, cada um correspondendo no calendário a uma letra de “A” a “H”, sendo estes contados de trás para frente a partir de marcos, seja do primeiro dia do mês (calendas), mas também dos Idos, que normalmente caíam no dia 15 no meio do mês, e das Nonas, que podiam cair no entre o quarto e o sétimo dia do mês, tudo dependendo do número de dias do mês, que podia ser de 30, 31 ou 28 dias.

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Reprodução del Calendario de Anzio (Fasti Antiates) del 84-55 a. C., exposto no Museo do Teatro romano de Caesaragusta. O original está en Roma, no Museu Nacional das Termas, e é anterior a la reforma de Julio César. Foto de Bauglir)

Esse ciclo era chamado de “nundinário”, nome que deriva do número 9, pois ele incluía o dia do qual a contagem do ciclo partia.

O calendário romano, como a descrição que fizemos acima torna fácil perceber, era muito complicado e impreciso astronomicamente, não acompanhava o movimento de translação da Terra e, com a passagem dos anos, ele divergia do verdadeiro início e fim das estações do ano.

Por conta disso, periodicamente, o calendário romano tinha que ser corrigido mediante a inclusão de meses “extraordinários”, o que ocorreu até Júlio César assumir o cargo de Ditador e resolver reformar o calendário, adotando um calendário-solar adaptado do egípcio, contendo doze meses e com a inclusão de um dia adicional a cada quatro anos, no mês de fevereiro.

(Calendário egípcio)
Gaius Julius Caesar
The Roman most people think of instantly – Gaius Julius Caesar. Loads more on him at http://en.wikipedia.org/wiki/Julius_Caesar For more on the Museo della Civiltà Romana, have a look at http://en.museociviltaromana.it/ or http://en.wikipedia.org/wiki/Museum_of_Roman_Civilization

Poucos anos depois da adoção daquele que acabaria sendo chamado de “Calendário Juliano”, a arqueologia e o estudo das fontes mostra que os romanos começaram a adotar também uma semana de sete dias, de onde surgiu, inclusive, pela primeira vez, em latim, com essa acepção, a palavra “septimana”, devirada de “septimus” (sete), que obviamente é a raiz da nossa palavra “semana”.

Por volta do início do século I D.C., as fontes narram que havia uma grande colônia judaica em Roma (alguns estimam que ela remontava 5% da população da cidade, o que representaria 50 mil pessoas), bem como uma grande popularidade de astrólogos caldeus (Babilônia, mas provavelmente também associados a astrólogos egípcios), o que levou até alguns imperadores a expulsarem esses estrangeiros, sob a alegação de corromperem os costumes tradicionais dos romanos (cf. Suetônio e Tácito).

Assim, tudo indica que foram mesmo os judeus que influenciaram a adoção da semana de sete dias em Roma. Da mesma forma, os romanos, influenciados pela Astrologia de origem babilônica-egípcia, adotaram o costume de batizar os dias da semana com o nome dos astros visíveis, associados às divindades do panteão greco-romano, os quais já eram adotados pelos astrólogos helenísticos do Egito Ptolemaico. A primeira evidência arqueológica da adoção de ambos os costumes é uma inscrição (graffiti) encontrada em uma parede de um imóvel em Pompéia, que foi soterrada pelo Vesúvio em 79 D.C.

Assim, seguindo premissas da Astronomia e as características atribuídas a cada divindade:

1) O primeiro dia da semana estava associado ao astro mais importante no firmamento, o Sol (o graffitti de Pompéia fala em “dies Solis” – dia do Sol).

2) O segundo dia foi associado ao segundo astro mais importante, a Lua (dies Lunae ou Lunes dies).

3) O terceiro dia foi associado a Marte, planeta vermelho que remetia a sangue e a guerra ( dies Martis ou Martis dies).

4) O quarto dia, cujo movimento celeste era o mais rápido, foi associado a Mercúrio, o deus-mensageiro do panteão romano (dies Mercuriae ou Mercuriae dies).

5) O quinto dia passou a representar Júpiter (dies Iovis ou Jovis dies),

6) O sexto dia foi associado ao planeta mais brilhante e vistoso no céu, que naturalmente representava a deusa da beleza, Vênus (dies Venus ou Venus dies),

7) O sétimo dia oi associado com Saturno (dies Saturni ou Saturni dies).

Mas os romanos eram famosos pelo conservadorismo e tradicionalismo, e, assim, durante alguns séculos, o calendário nundinário continuou convivendo com o calendário hebdomadário, e, por sua vez, a nomenclatura antiga dos dias da semana, de “A” a “H”, conviveu simultaneamente com os dias batizados com nomes de planetas (zodiacal) que parece ter sido o sistema preferido pela população.

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(Fasti Vallenses, fragmento de calendário romano no Museu Nacional de  Nápoles, © Institute for the Study of the Ancient World / Guido Petruccioli, photographer)

Uma prova arqueológica disso é um famoso fragmento de mármore de um calendário público, hoje desaparecido, que ficava afixado nas paredes das Termas de Trajano, o qual utilizava tanto o sistema nundinário, com a letra do dia dentro do mês, como o sistema zodiacal com o nome do dia de acordo com o planeta (cf. “Rome in Late Antiquity”, Bertrand Lançon).

Ver a imagem de origem
Esse calendário encontrado nas Termas de Trajano mostra já uma fusão entre o calendário romano antigo e o zodiacal. Notem os sete deuses associados aos dias da semana (dois deles estão faltando na primeira imagem, sendo que o primeiro seria Saturno, o segundo Apolo, associado ao Sol, o terceiro  seria alguma divindade associada à Lua, o quarto é obviamente Marte, o quinto seria Mercurío, o sexto, Júpiter e a última, Vênus. Nesse calendário, o primeiro dia da semana é o sábado, assim como era para os Judeus. A segunda imagem é uma reconstituição).

Contudo, após o imperador Constantino I abraçar publicamente o Cristianismo, no início do século IV D.C, a semana de sete dias, que os cristãos seguiam, adaptando-a do Judaísmo, passou a ter a definitiva precedência.

Vale notar que, pelo menos desde a metade do século II D.C., os cristãos passaram a cultuar o “dies Solis”, como primeiro dia da semana, que era o dia em que eles acreditavam que Jesus Cristo ressuscitou, como “Dia do Senhor” (dies Dominicus). Além disso, segundo a Bíblia, o domingo era o primeiro dia da criação do Mundo, já que Deus havia descansado no sétimo dia, o sábado.

Um pouco antes da ascensão de Constantino, em 270 D.C., o Imperador Aureliano, um devoto do deus Mitra, havia instituído o culto ao Sol Invicto (Solis Invictus), associado àquela divindade, como a principal religião do Império Romano. Tudo isto contribuiu para que, em 31 de março de 321 D.C, Constantino editasse uma lei estabelecendo que o “dies Solis” deveria ser devotado ao descanso de todos.

Não obstante, o famoso Calendário de Filócalo, de 354 D.C, que chegou até os nossos dias, mostra um curioso sincretismo entre o calendário romano tradicional e o cristão. No referido calendário são assinaladas tanto datas importantes para os cristãos como datas de festivais pagãos. Embora este calendário em si ainda apresente o vetusto modelo nundinário, com os dias identificados pelas letras A a H, uma das suas páginas traz uma correlação do dia da semana com o planeta correspondente, com o nome dos deuses romanos (Pode ser consultado em http://www.tertullian.org/fathers/chronography_of_354_06_calendar.htm).

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Curiosamente, no Calendário de Filócalo, o primeiro dia da semana, de acordo com a tradição judaica, ainda é o sábado (Pode-se então, inferir que a adoção do domingo como o primeiro dia somente tornou-se praxe com a primazia do Cristianismo sobre as demais religiões, a partir do reinado do imperador Teodósio, o Grande). Entre as datas importantes assinaladas no calendário, está o feriado (feriae) do Natalis Solis Invictus (“Nascimento do Sol Invicto”), no dia 8 antes das calendas de Janeiro, que, de acordo com o sistema nundinário, correspondente ao dia 25 de dezembro (Parte 6 do Calendário).

A parte 12 do Calendário de Filócalo traz um anexo relacionando as datas comemorativas do nascimento dos mártires cristãos, apontando o mesmo dia 25 de dezembro com o do nascimento de Jesus Cristo em Belém, Judéia. Aliás, este é o primeiro documento que menciona o nascimento de Jesus nesta data, considerada improvável pelos especialistas (tendo em vista a própria narrativa bíblica) e que poderia ser decorrente da intenção de aproveitar um feriado religioso dos mais importantes para os romanos (Nascimento do Sol Invicto) para comemorar o nascimento de Jesus pelos cristãos.

Importante para a resposta à pergunta que fazemos em nosso artigo é o fato de que os calendários romanos (fasti) sempre previam inúmeros dias de feriados (“feriae”), ou seja, dias consagrados a um festival em honra de alguma divindade, embora não necessariamente feriados no sentido moderno (dias em que não se precisa trabalhar).

Quando o Cristianismo se tornou a religião oficial do Império, no final do século IV D.C, durante o reinado do imperador Teodósio I, muitos bispos começaram a se incomodar com o costume de nomear os dias da semana com nomes de deuses pagãos. Afinal, em uma concepção cristã, o tempo pertence a Deus, e, portanto, todos os dias são sagrados e, portanto, podem ser considerados “feriae”, quer dizer, dias consagrados a Deus.

Portanto, sendo para os romanos, sete os dias da semana, e sendo o “Dia dos Senhor” (dies Dominicus) o primeiro e o mais importante deles, uma decorrência lógica para os ciosos prelados católicos era que o segundo dia da semana fosse rebatizado como “secunda feriae” e assim sucessivamente: “tertia feriae”, “quarta feriae”, “quinta feriae” e “sexta feriae”. Mas, com relação ao sábado, este dia já tinha um nome profundamente enraizado na tradição cristã, e mencionado expressamente na Bíblia, herdada dos judeus, o qual continuou sendo observado pelas primeiras gerações de cristãos, motivo pelo qual ele foi preservado, inclusive no latim eclesiástico, como “sabbatum”.

Apesar do propósito religioso da Igreja ao adotar oficialmente a nova nomenclatura, pode-se concluir que esta não se popularizou o suficiente a ponto de substituir o costume popular dos súditos do Império: a grande prova é que praticamente todas as línguas européias derivadas do latim continuam a batizar os dias da semana com os nomes dos deuses associados a planetas, como por exemplo o italiano, o francês e o espanhol, respectivamente, como citado abaixo:

1) 2º dia da semana (Lunes dies): lunedi, lundi e lunes.

2) 3º dia da semana (Martes dies): martedi, mardi e martes.

3) 4º dia da semana (Mercuriae dies): mercoledi, mercredi e miércoles

4) 5º dia da semana (Jovis dies): giovedi, jeudi e jueves.

5) 6º dia da semana (Venus dies): venerdi, vendredi e viernes .

O nome do 7º dia da semana (sabattum), porém, como já vimos, ecoava a influência primitiva do judaísmo na adoção da semana de sete dias e já estava suficientemente arraigado na população romana e, por isso, sobreviveu em todas as línguas latinas (ex: sabato, samedi e sábado).

Para os povos de língua germânica, que também batizavam os planetas com os nomes dos seus deuses, em uma correlação análoga aos dos romanos entre as características da divindade e as do planeta em questão e que também, pelo contato com o Império Romano, passaram a adotar a dividir o calendário em semana de sete dias, foi ainda mais difícil aceitar a nomenclatura cristã, já que eles foram convertidos ao cristianismo, em geral, bem mais tarde do que os romanos (embora os invasores godos tenham se convertido no século IV, à confissão herética chamada de Arianismo, porque pregada pelo bispo Ário).

Com efeito, no caso dos Germanos, mesmo o sábado e o domingo mantiveram os seus nomes associados aos astros. E a designação do domingo como “Dia do Sol” (“Sunday”, “Sonntag”, “Zondag”, “Sondag”, etc.) nas línguas germânicas parece ter sido independente (não se olvidando, porém, que o latim e as línguas germâncias pertencem ao mesmo tronco linguístico, o indo-europeu) e anterior ao decreto de Constantino.

Com relação ao sábado, no inglês e em algumas línguas germânicas, curiosamente, e por algum motivo que ainda não foi suficientemente explicado, este dia manteve o nome dado pelos romanos pagãos no período clássico, associado ao deus Saturno (ex: saturday). No sul da Alemanha, contudo, que foi mais influenciado pelos romanos e pela Igreja Católica, também se adota a palavra alemã “samstag”, que deriva do sabbatum eclesiástico.

Mas, voltando a pergunta do nosso título: Por que os dias da semana para os portugueses têm nomes diferentes dos utilizados pelos seus vizinhos?

Quando o Império Romano do Ocidente caiu, em 476 D.C., as províncias romanas de cada região seguiram uma dinâmica própria. A Península Ibérica foi invadida por bárbaros germânicos Visigodos, Suevos, Alanos e Vândalos, sendo que os últimos logo migraram para o norte da África. Uma parte de Portugal e da Galícia ficou submetida aos Suevos, que estabeleceram sua capital na antiga cidade romana de Bracara Augusta, a moderna Braga. Os Suevos eram cristãos, mas adotavam a doutrina do Arianismo.

Em 569 D.C., Martinho de Dume foi nomeado Bispo de Braga. Ele era um nativo da Panônia, na atual Hungria, que peregrinou pela Terra Santa e havia estudado teologia e grego no Oriente, e, após a sua morte foi canonizado.Valendo-se de seu poder de persuasão e eloquência, São Martinho de Dume (também conhecido como São Martinho de Braga) conseguiu converter o rei suevo Teodomiro (ou Theodomar) ao Catolicismo niceno-trinitariano (na foto abaixo, iluminura medieval retratando São Martinho de Dume).

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São Martinho de Dume era um fervoroso adversário do paganismo e advogou que qualquer terminologia que fosse alusiva aos deuses pagãos deveria ser suprimida. Valendo-se de sua posição privilegiada de Bispo de Braga, o religioso conseguiu suprimir nas igrejas situadas sob a jurisdição da sé bracarense, e também fora delas, a utilização dos antigos nomes pagãos dos dias da semana, que foram substituídos pela nomenclatura eclesiástica em latim, que já mencionamos anteriormente (dominus dies, secunda feriae, tertiae feriae, etc.) . A palavra da língua portuguesa “feira” deriva diretamente do latim “feriae“e a população laica passou a se referir aos dias como “segunda-feira”, “terça-feira”, “quarta-feira”, etc.)

E, assim, caros leitores, foi graças a São Martinho de Dume, que, em português e galego, é por isso que hoje é sexta-feira!

DOMICIANO, UM BOM “MAU IMPERADOR”…

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PRÓLOGO

Em 18 de setembro de 96 D.C., em um suntuoso aposento da recém-completada Domus Flaviae, o grandioso complexo palaciano  que os imperadores da dinastia flaviana haviam construído na colina do Palatino, descortinava-se um sangrento cenário: dois cadáveres sem vida jaziam no chão, junto com duas adagas ensanguentadas, em uma poça de sangue, no meio da luxuosa mobília revirada. Eram os corpos do imperador romano Domiciano e do liberto Stephanus, que em vida fora o secretário pessoal de Flávia Domitila, a irmã do imperador.

HISTÓRICO FAMILIAR, NASCIMENTO E INFÂNCIA

Nascido em 24 de outubro de 51 D.C., Titus Flavius Domitianus (Domiciano) era o filho mais novo do general Tito Flávio Vespasiano (que se tornaria o imperador Vespasiano) e de Flávia Domitila, a Velha. Os Flávios eram uma família de origem sabina, proveniente da cidade de Reate, os quais, no final da República, ingressaram na classe dos Equestres (ou Cavaleiros), que era o segundo ní­vel hierárquico da nobreza romana.

Com efeito, o primeiro Flávio de que se tem notícia havia sido um mero centurião das tropas de Pompeu, na Batalha de Farsália, durante a guerra civil travada entre este e Júlio César, e que, depois deste conflito, estabeleceu-se como coletor de impostos. O filho dele, chamado Titus Flavius Sabinus, também foi coletor de impostos na Proví­ncia romana da Ásia e além de banqueiro.

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Já a família de Domitila, a Velha, a mãe de Vespasiano, havia se estabelecido na cidade de Sabratha, na colônia romana da África, durante o reinado do imperador Augusto, sendo que o pai dela era um simples secretário de um questor daquela proví­ncia.

Vespasiano, junto com seu irmão, Tito Flávio Sabino, tiveram sucesso no serviço público e no Exército Romano, durante os reinados dos imperadores Calígula e Cláudio.

Ressalte-se que Vespasiano, inclusive, conseguiu ingressar no círculo mais íntimo da corte de Cláudio, muito em função da sua união amorosa com a liberta Antônia Caenis, que era secretária pessoal da mãe de Cláudio, Antônia, a Jovem, e da sua amizade com o poderoso liberto Narcissus, que era um dos principais assessores imperiais, com status de ministro.

Assim, durante o reinado de Cláudio, graças a essas privilegiadas ligações,  Vespasiano conseguiu alcançar o cume da carreira das magistraturas romanas (Cursus Honorum), ao ser nomeado Cônsul, em 51 D.C, mesmo ano em que nasceu Domiciano, o seu filho caçula.

O primogênito de Vespasiano, Tito, nascido em 39 D.C. (doze anos antes de Domiciano), também se beneficiou da proximidade do pai com o palácio no reinado de Cláudio: ele teve o raro privilégio de ser educado junto com Britânico, o filho natural do referido imperador.

Tito e Domiciano também tinham uma irmã, chamada Flávia Domitila, a Jovem, também nascida em 39 D.C. (Curiosidade: a filha dela, que também se chamava Domitila, seria cristã e, muitos anos mais tarde, ela seria canonizada pela Igreja Católica como Santa Flávia Domitila e as chamadas Catacumbas de Domitila, em Roma, têm este nome porque as terras onde elas foram escavadas pertenceriam a ela, que as legou para a nascente comunidade cristã da Cidade, ainda no século I D.C).

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Apesar dos tempos de fartura e glória vividos pelo pai, as fontes narram que quando Domiciano nasceu, a sua família estava de fato na pobreza. O motivo mais provável para isso, ao que tudo indica, é o fato de que o seu pai Vespasiano teria caí­do em desgraça quando Agripina, a Jovem, a última esposa do imperador Cláudio, foi, pouco a pouco, dominando o velho e influenciável imperador e aproveitou-se disso para afastar os desafetos dela, sobretudo, aqueles que ela julgava que ameaçavam a ascensão de seu filho Nero ao trono. E entre os piores desafetos da nova imperatriz encontrava-se Narcissus, o amigo e protetor de Vespasiano.

Entretanto, enquanto Domiciano era ainda uma criança pequena, a sua mãe, Domitila, a Jovem, morreu. Vespasiano então resolveu assumir o romance com Antônia Caenis e os dois passaram a viver em “Contubérnio“,  uma forma de concubinato que era admitida pela lei romana.

Todavia, segundo as fontes, seja por apego à memória da mãe, seja por ciúme do pai, ou por outro motivo qualquer,  Domiciano não gostava de Antônia Caenis e o historiador Suetônio, inclusive, relata que, certa vez, quando a “madrasta” tentou saudá-lo com um beijo, Domiciano a impediu, e em vez de oferecer a face,  estendeu-lhe a mão…

Assim, quem parece ter cuidado mesmo do menino Domiciano foi Phyllis, a sua ama, que esteve próxima a ele  durante toda a sua vida (e mesmo depois, como  veremos mais tarde)…

JUVENTUDE E FORMAÇÃO

Finalmente, quando Nero, passados os primeiros anos do seu reinado,  conseguiu dar cabo de Agripina, em 59 D.C., Vespasiano, ainda um general respeitado, voltou a receber comandos importantes. Assim, em 60 ou 63 D.C, ele foi nomeado governador da África. Nesse período, Domiciano ficou aos cuidados de seu tio Sabino, enquanto seu irmão Tito, que já tinha idade militar, fazia carreira no Exército, servindo na Germânia e na Britânia.

Sabemos que Sabino não descurou da educação do sobrinho, pois Suetônio nos conta que, já adolescente, Domiciano estudou Retórica e Literatura, sendo capaz de declamar poetas importantes, como Homero e Virgílio, em público, e de manter uma elegante conversação em eventos sociais. Consta, além disso, que na juventude, Domiciano chegou a publicar poemas e até alguns escritos sobre Direito.

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Suetônio descreve Domiciano como sendo um jovem alto e de boa aparência, mas que, na idade madura, ficaria barrigudo e calvo. Como curiosidade, com relação a esse  último traço, consta que Domiciano  escreveu um “Tratado sobre Cuidados com os Cabelos“, que, infelizmente, não sobreviveu.

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Vespasiano foi nomeado pelo imperador Nero para comandar o grande exército que fora reunido para combater a Grande Revolta Judaica, em 66 D.C., ao qual se juntou, a seguir, Tito, que recebeu o comando da XV Legião.

Em 68 D.C., quando estourou a rebelião do governador Vindex, na Gália o fato que iniciou a cadeia de eventos que resultaria na deposição e no suicídio de Nero Tito foi enviado à Roma por Vespasiano para transmitir o reconhecimento das Legiões na Judéia ao novo imperador, Galba. Porém, antes de chegar à Roma, Tito recebeu a notícia de que Galba havia sido assassinado e de que, agora, Oto (Otão) era o novo imperador. Ele decidiu, então, retornar para a Judéia para ver o que o seu pai decidiria.

Entretanto, no conturbado ano de 69 D.C, que ficaria conhecido como o “Ano dos Quatro Imperadores“, Oto foi derrotado por Vitélio, que se tornou o novo imperador. Enquanto isso se desenrolava na Itália, Tito teve vital importância e participou diretamente das negociações que levaram Muciano, o Governador da Província da Síria, a jogar a cartada de reconhecer Vespasiano como imperador, desprezando o reconhecimento de Vitélio por Roma.

Assim, Vespasiano partiu para a capital para reclamar o trono e deixou sob o comando de Tito a campanha contra a Grande Revolta Judaica, que ficou com a tarefa de liderar a fase mais difí­cil da guerra: o cerco e captura de Jerusalém. Ao tomarem conhecimento da aclamação na Síria, as legiões do Danúbio, sob o comando de Antônio Primo, também escolheram apoiar Vespasiano e invadiram a Itália, derrotando as tropas de Vitélio na Batalha de Bedríaco, saqueando em seguida a cidade de Cremona.

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A ASCENSÃO DE VESPASIANO E O PAPEL DESEMPENHADO POR DOMICIANO

Enquanto isso, em Roma, Vitélio informou a Tito Flávio Sabino, o irmão de Vespasiano, que ocupava, fazia onze anos, o cargo de Prefeito Urbano de Roma, a, sua intenção de renunciar. Porém, os soldados de Vitélio e o populacho da cidade,  quando souberam disso, protestaram violentamente e cercaram Sabino e a sua famí­lia, incluindo o jovem Domiciano, os quais se refugiaram na colina do Capitólio, que chegou a ser incendiada pelos partidários de Vitélio no conflito. Domiciano conseguiu escapar dos perseguidores, mas Sabino foi capturado e executado.

Dois dias depois, as tropas de Antônio Primo tomaram Roma e depuseram Vitélio, que foi arrastado pelas ruas, torturado e morto. Em seguida, as tropas aclamaram Domiciano como “César“ (um tí­tulo que começava a adquirir o significado de “prí­ncipe-herdeiro”).

Em dezembro de 69 D.C., o Senado Romano reconheceu Vespasiano como imperador – embora ele ainda estivesse no Oriente. Assim, o seu correligionário Muciano, que havia chegado à Roma um dia depois da morte de Vitélio, imediatamente assumiu o comando das tropas leais a Vespasiano que tinham tomado a capital e passou a administrar o Império em nome do novo imperador, contando com a ajuda de Domiciano, que, então, tinha apenas 18 anos de idade e foi nomeado pelo Senado para o cargo de Pretor com poderes consulares, de acordo com o historiador Tácito.

Narram as fontes que o jovem Domiciano, mostrando  bastante audácia e uma indisfarçável ambição pelo poder,  logo nomeou várias pessoas para diversos cargos importantes, tais como governos de províncias, prefeituras e, até mesmo, para o consulado. Por esse motivo, segundo o historiador Dião Cássio, o sempre bem-humorado Vespasiano teria chegado a mandar uma carta contendo a seguinte mensagem para o filho:

“Obrigado, meu filho, por me permitir manter o meu cargo e por não ter me destronado“.

Ainda durante o Ano dos Quatro Imperadores, havia estourado na Gália uma grave revolta dos auxiliares batavos, liderada por Gaius Julius Civilis. Domiciano, embora não tivesse nenhuma experiência militar, tentou liderar a reação contra a rebelião, assumindo o comando de uma legião, mas acabou sendo dissuadido por Muciano.

Entretanto, Tito, o filho mais velho de Vespasiano, que conduzia com brilho a guerra contra os judeus, enquanto ainda estava no Oriente  foi, em 70 D.C, nomeado Cônsul junto com o pai. Em seguida, em 71 D.C, Tito recebeu o Poder Tribunício, no que era um claro sinal de que ele seria o herdeiro e sucessor do pai  e afastando qualquer pretensão que Domiciano pudesse ter).

Certamente, com essas medidas, o sábio Vespasiano quis evitar um dos principais fatores de instabilidade nos reinados dos seus antecessores da dinastia dos Júlios-Cláudios: a pouca clareza quanto à sucessão, pela existência de vários pretendentes dinásticos.

Tito também foi nomeado Prefeito da Guarda Pretoriana e, assim,  agindo como comandante da guarnição militar da capital e da Guarda de Honra do Imperador, ele foi implacável na vigilância e repressão a potenciais ameaças ao reinado do pai, tendo de fato executado sumariamente vários supostos conspiradores.

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(Triunfo de Tito, óleo de Sir LawrenceAlma-Tadema 1885, mostrando Vespasiano, seguido por  Tito e Domiciano, este de mãos dadas com Domícia Longina, que olha sugestivamente para Tito)

CARREIRA PÚBLICA E CASAMENTO

Durante o reinado de Vespasiano, Domiciano foi designado seis vezes  Cônsul Suffectus (um consulado honorário, menos importante do que o ordinário), mas manteve o tí­tulo de César, sendo nomeado sacerdote de vários cultos, além de receber o tí­tulo de “Príncipe da Juventude” (Princeps Juventutis). Mesmo assim,  Vespasiano sempre deixou evidente que a precedência era do irmão mais velho.

Contudo, a primazia dada a Tito não quer dizer que Domiciano estivesse sido excluído da sucessão dinástica: Vespasiano tentou casar Domiciano com Júlia Flávia, que era a filha única de Tito, e, portanto, sobrinha dele, quando esta era apenas uma criança, mas a iniciativa não teve sucesso porque, naquela época,  Domiciano já estava apaixonado por Domícia Longina, filha do famoso general Cneu Domí­cio Corbulão, que tinha se suicidado a mando de Nero por suspeita de haver participado de uma conspiração.

Domícia Longina era filha de Júnia Lépida, tataraneta do imperador Augusto e, portanto, junto com sua irmã, ela era uma das últimas descendentes da dinastia dos Júlios-Cláudios, que fundaram o Império Romano. Domícia era casada com o senador Lucius Aelius Lamia Plautius Aelianus, de quem  ela se divorciou para se casar com Domiciano, por volta de 70 D.C.

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Em 23 de junho de 79 D.C, Vespasiano morreu de causas naturais e Tito foi imediatamente aclamado como novo Imperador Romano, com a idade de 39 anos.

Tito não tinha herdeiros do sexo masculino e sua única filha, Júlia Flávia, tinha 14 anos de idade. Ele havia se divorciado, ainda durante o reinado de Nero, de sua esposa Márcia Furnilla.

Durante a Guerra Judaica, Tito se apaixonou pela rainha Berenice, filha de Herodes Agripa, que logo tornou-se sua amante e, depois  da guerra, ela foi viver com ele em Roma. Esta era uma união politicamente inviável para Tito, e qualquer filho advindo desta relação estaria obviamente excluí­do da linha sucessória do trono. Com efeito, devido à pressão da opinião pública, Tito teve que despachar Berenice de volta para o Oriente. Portanto, agora, naquele momento, Domiciano era, de fato, o herdeiro natural do trono imperial.

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Os autores antigos mencionam que a relação entre os irmãos Tito e Domiciano era, no mí­nimo, fria e distante. Isso provavelmente decorria da grande diferença de idade e do pouco contato que eles devem ter tido, já que, enquanto Domiciano crescia, Tito já tinha entrado no Exército, acompanhando Vespasiano em suas campanhas. Deve-se mencionar, todavia, que o historiador Flávio Josefo relata que, durante a Guerra Judaica, Tito comemorou o aniversário de Domiciano em uma cerimônia pública, em Cesaréia.

Em 80 D.C., nasceu o único filho de Domiciano e Domí­cia Longina, cujo nome, entretanto, não foi preservado.

Em 13 de setembro de 81 D.C, Tito morreu de uma febre súbita, após reinar por apenas dois anos. Consta que as suas últimas palavras teriam sido:

“Cometi somente um erro”.

O real significado da frase derradeira de Tito sempre suscitou muita discussão entre os historiadores. Para alguns, ele se referia ao fato de não ter executado o irmão Domiciano, cujo caráter já há tempos já dava mostras de ser tirânico, ou porque ele teria conspirado para derrubar Tito, mas não há qualquer evidência de nenhum desses fatos.  Alega-se, também, que Tito nunca reconheceu formalmente Domiciano como sucessor e herdeiro, mas vale notar que Domiciano já era o Cônsul designado para o ano de 80 D.C. e talvez as medidas destinadas a lidar com os efeitos da erupção do Vesúvio, ocorrida ainda em 79 D.C., e que consumiram muito do tempo do primeiro ano do reinado de Tito, tenham-no distraído da questão sucessória, ou então, ante à ausência de qualquer outro rival, a posição de Domiciano tenha parecido óbvia. No plano das fofocas, também argumentou-se que Tito poderia ter tido um caso com a cunhada, Domícia Longina.

ASCENSÃO AO TRONO E REINADO

Consta que no mesmo dia da morte do irmão, Domiciano correu para o quartel da Guarda Pretoriana, em Roma, onde ele foi aclamado imperador.

No dia seguinte, em 14 de setembro de 81 D.C., o Senado Romano reconheceu Domiciano, conferindo-lhe os títulos de Augusto, Pai da Pátria e Pontifex Maximus, além do Poder Tribuní­cio. Mais do que uma possí­vel demonstração de falta de apreço e de respeito pelo irmão falecido, a conduta de Domiciano de partir imediatamente para o quartel dos pretorianos, ao invés de velar o corpo de Tito, deve ser vista como uma cautela necessária, recomendada pelo histórico das sucessões imperiais.

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Desde os primeiros dias de seu reinado, Domiciano mostrou-se um governante interessado por todos os detalhes da administração pública, como poucas vezes se tinha visto na História de Roma: Ele publicou leis detalhadas sobre vários assuntos e seu estilo de governo pode ser descrito como “microgerenciamento“. Ele também comparecia em pessoa às audiências no Tribunal do Fórum Romano, que ele mesmo concedia aos que apelavam das decisões das Cortes.

Uma das primeiras medidas econômicas de Domiciano foi promover uma valorização do denário, aumentando o seu teor de prata em 12%. Embora , depois de 85 D.C., ele tenha sido obrigado a promover uma pequena desvalorização devido aos gastos com expedições militares e programas de reconstrução, ainda assim, a moeda ainda continuou mais valorizada do que durante o reinado de Vespasiano. Ele também deu especial atenção à taxação dos impostos, aprimorando a cobrança e aumentando as receitas do Estado.

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Graças a outra medida de Domiciano, pela primeira vez na História de Roma, foi possí­vel ter alguma previsão dos gastos e receitas futuras, estabelecendo-se uma espécie de orçamento público embrionário.

Devido ao grande incêndio no reinado de Nero, às devastações da guerra civil  causadas durante o Ano dos Quatro Imperadores e a um outro incêndio, ocorrido em 80 D.C., Domiciano determinou que se executasse um grande projeto de reconstrução dos monumentos destruí­dos, incluindo o vetusto Templo de Júpiter Optimus Maximus, no Capitólio, que foi coberto com um magní­fico telhado de bronze dourado. No total, cerca de 50 edifí­cios importantes seriam reconstruí­dos ou reparados, caracterizando um recorde entre os imperadores romanos.

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Mas novos edifí­cios também foram erguidos, como o Palácio de Domiciano, parte do complexo palaciano da Domus Flaviae, e o enorme Estádio de Domiciano, onde eram disputados os Jogos Agonais (Agone), e que cuja forma sobrevivente daria origem, na Idade Média, à atual Praça Navona (cujo nome vem de “Piazza in Agone“).

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Além de reformar a paisagem urbana de Roma, Domiciano, que se revelou um moralista, também pretendeu reformar os costumes romanos, os quais ele julgava degradados. Em 85 D.C., ele se autoproclamou “Censor Perpetuus“, ou seja, censor vitalí­cio, com a atribuição de supervisionar a moral e os bons costumes. Isso incluí­a velar pela observância dos rituais da religião tradicional de Roma, cuja ortodoxia e pureza ele pretendia restaurar. Assim, Domiciano proibiu a castração de meninos e o comércio de eunucos em todo o Império Romano.

Fontes relatam que Domiciano era particularmente hostil ao Judaí­smo e não é à toa que autores cristãos (religião que, para muitos romanos, aparentava ser apenas uma seita judaica), apontam aquele imperador como um dos grandes perseguidores do Cristianismo. Não há, contudo, nas fontes romanas, evidência de nenhuma perseguição oficial à religião cristã. Com relação aos Judeus, contudo,  é certo que eles foram alvo de um aumento nas taxas e impostos cobrados.

Domiciano também estabeleceu os Jogos Capitolinos, em homenagem a Minerva, a deusa da sabedoria, que ele considerava ser a sua divindade protetora, e a Júpiter.

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Uma medida que causou comoção na época (87 D.C.) foi a ressuscitação da arcaica punição às Virgens Vestais que quebrassem o voto de castidade – serem enterradas vivas – o que não ocorria havia séculos, mesmo ainda durante a República.

O imperador também renovou a Lex Iulia de Adulteriis Coercendis, que punia com exílio o adultério, e vários senadores foram processados por condutas consideradas imorais, incluindo homossexualismo.

Não obstante, Suetônio registra que, em 83 D.C., a imperatriz Domícia Longina teve um caso com um ator chamado Páris, que, por  causa disso, teria sido morto pelo próprio imperador em pessoa.

Como punição, Domícia Longina foi exilada. Neste mesmo ano, também morreria o único filho do casal. Talvez corroído pelo remorso, Domiciano chamou de volta Longina, e os dois voltaram a viver juntos. Ou quem sabe, talvez a morte do menino tenha sido a causa do exílio e o adultério não tenha ocorrido.

O detalhismo da polí­cia de costumes de Domiciano chegou ao nível de exigência de que os cidadãos romanos usassem togas nos espetáculos públicos, muito embora essa vestimenta tradicional estivesse em desuso, pois era cara para os pobres e desconfortável para todos usarem. A orientação autocrática e moralista do reinado também ficou patente no agravamento da punição aos que escrevessem textos considerados ofensivos ao Imperador e na proibição de sátiras e comédias com teor crítico, chegando à completa proibição da apresentação de Mimes, uma espécie de teatro de comédia vulgar e grosseira, onde frequentemente as figuras públicas eram satirizadas.

No entanto, a corrupção no serviço público foi duramente combatida, havendo muitos casos de punições a juízes acusados de receberem propinas, uma queixa recorrente.

Nas províncias, Domiciano também aprimorou a taxação e majorou impostos, mas, em contrapartida, ele criou o cargo de “Curator“ (Curador) para investigar casos de má administração nas cidades do Império. Domiciano também construiu várias estradas na Ásia Menor, Sardenha e Danúbio, e melhorou as instalações defensivas no Norte da África.

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No serviço público, Domiciano privilegiou a nomeação de cidadãos da classe dos Equestres, e até mesmo de libertos, para os cargos mais importantes, em detrimento da classe senatorial. Para alguns autores, as más experiências que Domiciano deve ter tido no Senado, durante os eventos que resultaram na morte de seu tio Sabino e também durante o reinado de Vespasiano e Tito, predispuseram o imperador contra os senadores.

Assim, o imperador, seguindo a tendência inaugurada por Cláudio, administrava o Império auxiliado por um conselho privado que frequentemente se reunia na Vila de Domiciano, na cidade de Alba, a cerca de 20 km de Roma (ou seja, para os padrões antigos, a no mí­nimo uma hora de viagem de Roma, a todo galope ou mais de duas, de carruagem). Esse conselho era composto por amigos (amicii), libertos do imperador e  altos funcionários, como os prefeitos urbano e da guarda pretoriana. Domiciano também manteve a política adotada pelo pai e de pelo irmão de reservar o exercí­cio dos consulados majoritariamente para o imperador, seus filhos e parentes.

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(Criptopórtico, ou passagem subterrânea, da Villa de Domiciano, em Alba)

Indubitavelmente,  todas as medidas citadas faziam parte de uma guinada para um principado absolutista e centralizador. E tudo isso se coadunava com uma ênfase na sacralização da figura do monarca. Não é a toa de que uma das maiores crí­ticas dos autores antigos é a mencionada predileção por parte de Domiciano do tratamento de “Dominus et Deos“ (“Senhor e Deus”), o qual, contudo, até onde se averiguou, jamais constou de documentos oficiais.

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(Estátua de bronze dourado de Domiciano, retratado como Hércules)

Como era de se esperar, essa forma de governar adotada por Domiciano em nada contribuiu para melhorar as relações do imperador com o Senado Romano. Os reinados de Tibério, Calí­gula e Nero, sem falar nos eventos que levaram ao assassinato de Júlio César, tinham já mostrado que os senadores viam a si mesmos como uma classe que tinha direito manifesto a prerrogativas, poderes, cargos e influência no Estado, cuja preterição gerava atritos entre o imperador e o Senado. Augusto havia entendido isso o suficiente para criar um sistema em que, ainda que de forma condescendente e não equânime, uma parcela do poder do Estado Romano era dividida entre o Imperador e o Senado, que continuou intitulado a governar certas Províncias, a poder ocupar as mais altas magistraturas e, não menos importante, a ser merecedor de tratamento deferente pelo Príncipe (“Princeps“ -tí­tulo que, sintomaticamente, tem em sua origem o significado de “primeiro senador”).

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Com efeito, em várias passagens dos livros de história podemos inferir que, para os senadores, tão importantes quanto o poder de fato eram a deferência e as honrarias…E a personalidade arredia de Domiciano tornou as relações com o trono mais difí­ceis…Ele, segundo as fontes, gostava de solidão, possivelmente um traço adquirido pelo afastamento de seus pais na infância.

Há uma anedota na qual se conta que, durante o tempo em que Domiciano passava trancado em seu gabinete, nos intervalos de trabalho, ele se distraí­a capturando moscas e traspassando-as com um fino estilete. Então, jocosamente, quando alguém chegava para despachar e perguntava se havia alguém com o Imperador, os porteiros respondiam:

Nem uma mosca…“

As fontes descrevem Domiciano como sendo frio, distante, arrogante e, por vezes, insolente e cruel. Esses traços, somados às medidas autocráticas, desgastaram as relações com o Senado e, certamente, não lhe granjearam amizades nesta assembleia. Vale notar que: medidas como a punição dos maus administradores e juízes, o afastamento de homossexuais do Senado, e a execução das Virgens Vestais que violavam a sua castidade, atingiam, precipuamente, os membros da elite senatorial. Entretanto, nos oito primeiros anos do reinado de Domiciano aparentemente não houve conspirações…

Enquanto isso, Domiciano dedicou muita atenção à polí­tica exterior e aos assuntos militares e ele aumentou o pagamento do soldo dos militares de 300 para 400 denários.

Em 82 D.C., as legiões sob o comando de Cneu Júlio Agrí­cola derrotaram as tribos no norte da Britânia, chegando até a costa oposta à Irlanda. Há quem sustente que os romanos chegaram até a fazer uma expedição na referida ilha. Posteriormente, no verão de 84 D.C., Agrí­cola derrotou os Caledônios,, os quais se refugiaram nas Terras Altas da atual Escócia (Highlands). Depois, em 85 D.C., apesar do sucesso desta campanha, Agrícola foi chamado de volta à Roma.

Segundo o historiador Tácito, que era genro de Agrí­cola e escreveu uma obra sobre a vida do sogro, o motivo do retorno foi o ciúme de Domiciano de que as conquistas de Agrí­cola ofuscassem o duvidoso triunfo que Domiciano tinha celebrado pela vitória contra a tribo germânica dos Catos, que tinham atacado a Gália.

Porém, mesmo que Domiciano tivesse a intenção de promover uma grande campanha contra os Catos, visando obter uma vitória completa, a mesma foi por água abaixo devido a invasão da Província da Moésia pelos Dácios, em 85 D.C. os quais chegaram a matar o governador romano da proví­ncia.

A campanha contra os Dácios, que no início chegou a contar com a presença de Domiciano, terminou com a vitória parcial dos romanos, comandados por Cornélio Fusco, em 86 D.C. Porém, pouco tempo depois, os Dácios novamente voltaram a atacar os romanos, ocasião em que a Legião V, comandada por Fusco, foi destruída, morrendo seu comandante. Os Dácios, posteriormente, foram derrotados pelo general Tettius Julianus (Segunda Guerra Contra os Dácios), sem que, contudo, a capital dácia, Sarmizegetusa, fosse tomada.

Provavelmente devido à crescente pressão na fronteira do Danúbio, devido a guerra contra os Dácios e incursões dos Suevos e Sármatas, somada à agressão dos Catos, Domiciano foi obrigado a ordenar uma retirada total das tropas romanas na Caledônia, recuando a fronteira romana uns 120 km para o sul da ilha da Grã-Bretanha.

O fato é que o Exército Romano não podia mais se dar ao luxo de luxo de se comprometer em uma guerra em dois fronts, sendo que a relação custo-benefício de manter a Caledônia não justificava a manutenção daquele território.

E Domiciano, realmente,  deve ter avaliado que a situação estratégica no momento também não recomendava o comprometimento total do exército com uma campanha no Danúbio, pois, logo após a cessação dos combates contra os Dácios ele assinou com eles um tratado de paz no qual Roma concordava em pagar ao rei Decébalo um subsídio anual de oito milhões de sestércios, uma concessão  que foi muito criticada pelos autores antigos.

Desse modo, os Dácios somente seriam conquistados pelos romanos em 106 D.C., pelo imperador Trajano, em uma campanha que de fato  revelou-se durí­ssima.

CONSPIRAÇÃO CONTRA DOMICIANO

Como tantas vezes se veria na História do Império Romano, a combinação de insucessos militares com a impopularidade de um imperador entre os Senadores  teve como resultado uma conspiração para assassinar o monarca. Assim, no iní­cio do ano de 89 D.C., o general Lúcio Antônio Saturnino, um senador que comandava duas legiões na Germânia Superior, foi proclamado imperador pelas suas tropas, na cidade de Moguntiacum (atual Mainz, na Alemanha). Saturnino, muito provavelmente, fazia parte de um grupo de senadores insatisfeitos com o reinado de Domiciano. Ele esperava que o governador da Germânia Inferior, o também senador Aulus Lappius Maximus, se juntasse à rebelião, mas este comandante se manteve fiel ao imperador. Para piorar, os esperados reforços de tribos aliadas germânicas foram impedidos de cruzar o rio Reno devido a uma cheia. Assim, as tropas rebeldes acabaram sendo derrotadas pelos soldados leais ao imperador na Batalha de Castellum, e Saturnino foi executado. Note-se que a conduta de Aulus Lappius de queimar as cartas apreendida em poder de Saturnino é um forte indício de que havia outros senadores envolvidos na trama, em Roma.

Todavia, a revolta de Saturnino exacerbou os já existentes traços de paranoia que já estavam sendo notados em Domiciano. De fato, embora possa ter havido algumas execuções de senadores anteriores a 89 D.C, considera-se que o “reinado de terror“ atribuído a Domiciano efetivamente começou após à referida conspiração.

No ano seguinte, Domiciano dividiu o consulado com o veterano senador Marco Cocceio Nerva (o futuro imperador Nerva), um jurista que, mais de vinte anos antes, havia ajudado Nero a desbaratar a chamada Conspiração Pisoniana.

No chamado “reinado de terror“ de Domiciano, cerca de onze senadores foram executados, por motivos variados. Para se ter uma comparação, o imperador Cláudio executou 35 senadores durante o seu reinado, e, mesmo assim, ele  foi deificado pelo Senado após a sua morte. E o imperador Adriano, logo no primeiro ano de seu reinado, executou quatro, mas os historiadores não se referem a tais execuções como um período de “terror”..

A propósito, consta que Domiciano, certa vez,  teria dito:

“Os imperadores são a gente mais desafortunada, pois, quando eles descobrem uma conspiração, ninguém lhes dá crédito, a não ser que eles sejam assassinados…”.

Mas o motivo alegado para essas execuções dos senadores nem sempre foi o envolvimento deles com conspirações: No caso do primo de Domiciano, Tito Flávio Clemente, um ex-Cônsul, a acusação era de sacrilégio contra a religião romana. Os historiadores acreditam que Clemente se converteu ao Judaí­smo ou ao Cristianismo. Devido a essa acusação, a esposa dele, Flávia Domitila, que era sobrinha de Domiciano, foi banida para uma ilha remota. Essa Flávia Domitila, de quem já falamos acima, era filha da irmã de Domiciano e é mencionada na História Eclesiástica, do bispo cristão Eusébio de Cesaréia, escrita no século IV D.C., como sendo uma mártir cristã que morreu no exílio na ilha de PonzaI e filha da irmã do cônsul Flávio Clemente.

Curiosidade: Há quem associe Tito Flávio Clemente com o Papa Clemente,que depois passou a ser venerado como São Clemente pela Igreja Católica. De fato, uma inscrição teria sido encontrada, durante o Renascimento, nos subterrâneos da Basí­lica de São Clemente, em Roma, contendo a inscrição “T. Flavius Clemens, vir consularis“. Assim, 60 anos após a execução de Jesus Cristo e o início da pregação pelos seus apóstolos, a nascente religião já tinha, ao menos, alguns adeptos nas mais altas esferas da sociedade romana.

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(Entrada lateral da Basílica de São Clemente, em Roma)

ASSASSINATO DE DOMICIANO

Em 96 D.C., até os auxiliares mais próximos de Domiciano estavam apreensivos com o comportamento cada vez mais paranoico do imperador. E a insatisfação do Senado atingiu o limite e, assim,  tudo estava pronto para uma nova conspiração com o objetivo de libertar Roma daquele que eles consideravam ser um odiado tirano.

Com efeito, Domiciano tinha mandado executar seu camareiro, Epafrodito e o substituto deste, Partênio, prevendo que não demoraria muito para que ele sofresse o mesmo destino, contactou um liberto do imperador, Maximus e Stephanus, que era o secretário pessoal da imperatriz Flávia Domitila,

Já premeditando a execução do assassinato, Stephanus tinha simulado um ferimento no braço dias antes, com o objetivo de poder esconder embaixo da atadura uma adaga. Para ter um motivo para ser recebido, Stephanus fez chegar ao imperador a informação de que ele tinha descoberto uma trama para assassinar Domiciano, e lhe traria as provas.

Assim, quando Stephanus foi admitido no quarto do imperador, ele aproveitou o momento em que Domiciano estava distraído, lendo o documento que provaria a suposta conspiração, e cravou a adaga na virilha dele. Mesmo ferido, Domiciano conseguiu escapar e apanhar uma adaga. Seguiu-se uma luta feroz, em que Stephanus e Domiciano rolaram pelo chão do aposento. Durante o combate, Stephanus foi ajudado por Maximus e por um colega do camareiro Partênio, Satur, que tinham lhe acompanhado ao quarto imperial. Após levar sete golpes de adaga, Domiciano faleceu, mas  não sem antes levar consigo o próprio Stephanus, que também havia sido golpeado pelo imperador. Domiciano tinha 44 anos de idade quando morreu.

EPÍLOGO

O Senado Romano imediatamente aclamou o  velho senador Marco Cocceio Nerva como imperador, que, por já ser bem idoso e não ter filhos, parecia o candidato mais capaz de ser aceito por todas as facções senatorias e, principalmente, pelo Exército. Aliás, é bem provável que esta solução já fosse apoiada pelos generais mais influentes, como Públio Élio Trajano.

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O Senado também decretou que a memória de Domiciano devia ser banida (procedimento conhecido como “damnatio memoriae” e que implicava em apagar inscrições, destruir estátuas e qualquer referência oficial ao nome do imperador).

O cadáver de Domiciano foi levado embora do seu palácio e cremado por iniciativa de sua ex-babá Phyllis, que, tudo indica, nunca se afastou de Domiciano. As cinzas dele foram depositadas no Templo dos Flávios, na colina do Quirinal, em Roma.

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(O Templo dos Flávios, no Quirinal, foto de Cassius Ahenobarbus)

CONCLUSÃO

Os historiadores modernos tendem a favorecer uma revisão do reinado de Domiciano, que foi um governante aplicado e que adotou várias medidas racionais. A imagem negativa dele hoje é considerada por muitos como fruto da antipatia do Senado Romano, valendo observar que os historiadores que escreveram sobre Domiciano, tais como Suetônio, Tácito e Dião Cássio, ou eram todos senadores, como os dois últimos, ou auxiliares próximos à  dinastia que sucedeu Domiciano, como é o caso de Suetônio.

O texto desses historiadores da classe senatorial normalmente divide os imperadores romanos entre “Bons“ e “Maus“, sendo que, invariavelmente, os “Bons“ são aqueles que mantiveram boas relações com o Senador Romano. Já os ‘Maus” são aqueles que desrespeitaram as prerrogativas dos senadores ou perseguiram os seus integrantes. Com efeito, Tácito e Suetônio foram homens que começaram a sua carreira pública no reinado de Domiciano, mas que escreveram as histórias deles no reinado do sucessor de Nerva, Trajano. Assim, a nova dinastia tinha todo o interesse em se legitimar em contraste com uma imagem necessariamente negativa do reinado de Domiciano, e para isso, ela contou com a pena solícita dos historiadores da classe senatorial.

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via DOMICIANO, UM BOM “MAU IMPERADOR”…

A BATALHA DO RIO FRÍGIDO

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(Batalha do Rio Frígido, ilustração de Angus McBride)

Em 05 de setembro de 394 D.C, o exército do Imperador Romano do Oriente, Teodósio, o Grande,  após marchar pela província da Ilíria e atravessar os Alpes Julianos, chegou no Rio Frigidus (que separa o que hoje é a Eslovênia da Itália ). Quando o exército oriental chegou, já estavam acampadas no local as tropas do usurpador Eugênio, comandadas pelo general de origem franca, Arbogaste, o homem-forte do Império Romano do Ocidente, e padrinho da nomeação de Eugênio, com o objetivo de darem combate a Teodósio.

A cadeia de eventos que levou ao conflito começa em 383 D.C,com a morte do imperador Graciano, que foi assassinado em Lyon, após não conseguir debelar a revolta do general da Britânia, Magnus Maximus,

Valentiniano II, o jovem meio-irmão de Graciano, que  por este foi reconhecido como co-imperador por pressão dos generais francos, seria o próximo alvo de Maximus. assim, Teodósio, pressionado pelas circunstâncias, acabou concordando em reconhecer Maximus como novo imperador das províncias ocidentais que até então tinham sido governadas por Graciano, sob  a condição de que Maximus reconhecesse Valentiniano II como co-imperador no Ocidente. Continuaria a haver, portanto, dois imperadores no Ocidente.

Esse acerto durou até 387 D.C, quando Maximus resolveu invadir a Itália para derrubar Valentiniano II e, assim, assumir o controle total do Ocidente. Dessa vez, contudo, Teodósio resolveu intervir e, após reunir as suas tropas com as de Valentiniano II, as quais eram comandadas pelo general Arbogaste, e também valendo-se da ajuda dos seus aliados visigodos e mercenários hunos,  ambos conseguiram derrotar Maximus, na Batalha de Siscia, em 388 D.C.

Oficialmente, porém, o novo imperador único do Ocidente passara a ser Valentiniano II,  que tinha apenas 17 anos de idade. Porém, o poder de fato no Ocidente estava nas mãos do general Arbogaste, que ocupava o cargo de Comandante-em-chefe da Infantaria (Magister Peditum Praesentalis).

Ainda durante o reinado de Graciano, havia sido ordenada a retirada do ancestral altar da deusa Vitória da cúria do Senado, em Roma, sob protestos dos senadores pagãos, que ainda eram muito influentes na antiga capital do Império. Quando estes apelaram a Valentiniano II para que o altar fosse restaurado, Ambrósio, o poderoso bispo de Milão, que instigara aquela medida, convenceu o jovem imperador a negar o pedido senatorial.

A tensão entre o imperador e seu comandante-em-chefe aumentou quando Valentiniano II resolveu demitir Arbogaste do cargo de Marechal da Infantaria do Ocidente. Consta que ao receber do imperador a ordem escrita, Arbogaste, teria respondido: “Não foi você quem me deu o meu comando e tampouco é você quem pode tirá-lo de mim”, após o que ele jogou a carta no chão, dando as costas ao imperador perplexo, e  retirou-se do recinto!

Pouco tempo depois, Valentiniano II foi encontrado morto em seus aposentos imperiais, tendo as suspeitas recaído sobre Arbogaste, embora uma fonte relate que o imperador pode ter se suicidado, deprimido pela impossibilidade de confrontar o general.

O fato é que Arbogaste conseguiu fazer nomear o inexpressivo Eugênio, um funcionário palaciano que era professor de Retórica,  como Imperador do Ocidente pelo Senado Romano. Esta nomeação foi, inicialmente, tolerada por Teodósio. Não obstante, à míngua de um reconhecimento formal, Eugênio é considerado pelos historiadores como um usurpador.

Entretanto, Eugênio e Arbogaste aproximaram-se da influente facção pagã do Senado Romano,  que vinha patrocinando um renascimento do paganismo em Roma, autorizando, inclusive, a reabertura dos templos e a celebração de rituais pagãos em Roma, culminando com a restauração do Altar da Vitória na Cúria do Senado, o que enfureceu Ambrósio e também deixou Teodósio em uma posição politicamente difícil na ortodoxa Constantinopla. Esta, de fato,  seria a última tentativa de se restaurar a proeminência do paganismo no Império Romano.

Assim, em 393 D.C, Teodósio concedeu oficialmente ao seu filho, Honório o título de Augusto no Ocidente, isto é, reconhecendo-o como Imperador, o que significava, obviamente, o rompimento com Arbogaste e o seu imperador-fantoche, Eugênio.

A partir daí, o devoto Imperador Romano do Oriente decidiu acabar com o renascimento pagão e começou a se preparar para invadir o Ocidente e entrar na Itália para derrubar Eugênio e Arbogaste.  Teodósio iniciou os preparativos formando um exército, recrutando e reinando romanos, o que não ocorria desde a destruição do exército do Oriente pelos visigodos na Batalha de Adrianópolis, 15 anos antes.

Em 394 D.C., o novo exército romano do Oriente estava pronto e, sob o comando deo próprio Teodósio e do fiel general Estilicão, ele deixou Constantinopla rumo à fronteira do Oriente com o Ocidente, que ficava na Ilíria (o território ocidental começava no que hoje é a Sérvia).

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O rei Alarico recebeu ordens para que os seus visigodos, que viviam nas terras do Império do Oriente sob a condição de foederati (federados) juntassem-se à ofensiva.

O avanço pelas províncias limítrofes foi fácil, assim como a passagem pelos Alpes Julianos, pois Arbogaste decidiu esperar o ataque próximo à cidade de Aquileia, no norte da península.  Ao realizarem os preparativos para a batalha, ficou claro que o renascimento pagão era a mola inspiradora da campanha: Eugênio e Arbogaste ordenaram que uma estátua do deus Júpiter fosse colocado nos limites do acampamento, e que os estandartes das tropas ostentassem imagens de Hércules.

Assim que alcançou o Rio Frigidus, no dia 05 de setembro de 394 D.C., Teodósio viu as tropas ocidentais acampadas e mandou os visigodos atacarem. Entretanto, o terreno era desfavorável e metade dos soldados bárbaros morreu neste ataque ( totalizando cerca de 10 mil baixas). Muitos acreditam que Teodósio intencionalmente quis enfraquecer os visigodos, para diminuir a grande e duradoura ameaça que eles vinham representando ao Império, apesar deles,  momentaneamente,  estarem do seu lado.

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(Rio Vipava, na Eslovênia, chamado pelos romanos de rio Frigidus, foto de Johann Jaritz )

No dia seguinte, 06 de setembro de 394 D.C.,, Arbogaste, achando que o exército de Teodósio não se recuperaria do revés sofrido, mandou uns destacamentos atacarem o acampamento oriental, Porém, o que ele não esperava, é que o matreiro Teodósio subornou os soldados enviados para essa ataque, os quais acabaram se juntando ao exército oriental.

Em seguida, enquanto Teodósio deslocava o seu exército por uma passagem estreita, Arbogaste ordenou  um ataque de emboscada Porém, no exato momento em que os soldados dele iriam atacar, soprou com força de tempestade o característico vento daquela região, chamado até hoje de Bora, jogando grande quantidade de poeira nos olhos dos atacantes, atrapalhando-os de tal forma que eles foram desbaratados pelos soldados orientais.

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Assim, as tropas de Teodósio, com seus escudos decorados com o monograma chi-ro (XP), iniciais em grego de “Cristo” derrotaram o exército de Eugênio, com seus escudos com a imagem de Hércules, fato que os propagandistas cristãos fartariam-se de cantar em prosa e verso.

O próprio Eugênio foi capturado e implorou clemência. Porém, após ser exibido em várias cidades como troféu de guerra, ele foi decapitado. Já Arbogaste,  conseguiu fugir por alguns dias, vagando pelos Alpes, mas, desesperançado, ele acabou cometendo suicídio.

Como resultado da batalha, Teodósio passou a reinar sobre as duas metades do Império Romano, mas não por longo tempo, pois ele morreria no ano seguinte, de causas naturais, em 395 D.C, sendo sucedido por seu filho, Arcádio, no trono oriental. No trono do Ocidente, Teodósio, após a vitória no rio Frígido, instalou Honório, no lugar de Eugênio.

Alarico, convicto de que os godos eram os que mais tinham se sacrificado pela vitória de Teodósio na Batalha do Rio Frígido, após a morte deste imperador passou a exigir altas recompensas para si e para o seu povo, mas não obteve o reconhecimento pretendido. Ele seria duramente confrontado por Estilicão, que durante muito tempo foi o homem-forte do Império Romano, nos anos que se seguiram, mas, após a execução deste,  o rei visigodo acabou dando aos romanos um golpe terrível, quando liderou o Saque de Roma, em 410 D.C.

RÔMULO AUGÚSTULO E O FIM DO IMPÉRIO ROMANO DO OCIDENTE

# RômuloAugústulo #RomulusAugustulus

Em 04 de setembro de 476 D.C., o  bárbaro Odoacro, chefe militar dos Hérulos, e comandante de um exército de mercenários a serviço de Roma, depôs o jovem Imperador do Ocidente, Rômulo Augústulo, em sua capital Ravena, enviando-o para viver em paz próximo a Nápoles, e com o direito de receber uma pensão anual.

Em seguida, Odoacro, ao invés de escolher um fantoche para ser o novo Imperador Romano do Ocidente, como vinha ocorrendo nos últimos 20 anos, devolveu as insígnias imperiais ao Imperador Romano do Oriente, Zenão I, em Constantinopla, gesto que caracterizou o  que a maioria dos historiadores considera como o fim do Império Romano do Ocidente  (27 A.C – 476 D.C.). Porém, Zenão, embora tenha aceitado as insígnias, nunca reconheceu Rômulo Augustúlo como imperador legítimo, mas sim Júlio Nepos, que, naquele momento, controlava a Dalmácia, e ali se manteve até  480 D.C., quando foi assassinado.

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Assim, a data de 04 de setembro de 476 D.C. tradicionalmente marca o fim da Antiguidade e o começo da Idade Média, muito embora discuta-se, e muito, se efetivamente ela representa o fim do Império do Ocidente, sendo que há várias opiniões respeitáveis defendendo que o que se chama de Queda do Império Romano não teria sido um evento, mas um processo, o qual  havia começado muito antes da referida data, e, igualmente, não estava terminado em 476 D.C, pensamento que também se aplica a própria Era Antiga.

Flavius Romulus (Rômulo Augústulo) era filho do general e político romano Orestes,  um cidadão romano natural da Panônia, que ascendeu no serviço público graças às suas ligações com os Hunos (ele chegou a ser notarius (secretário) de Átila, o Huno).

Orestes foi nomeado Comandante do Exército Romano do Ocidente (Magister Militum) por Júlio Nepos, que por sua vez havia sido nomeado Imperador Romano do Ocidente por Leão I, o Imperador Romano do Oriente que reinava em Constantinopla, no início de 474 D.C.,  para substituir Glicério, um governante que era considerado um usurpador pela corte oriental.

Porém, Orestes tinha outros planos e,  aproveitando-se do fato do Império Romano do Oriente estar conflagrado pela luta entre Zenão I, o sucessor de Leão I, e o usurpador Basilisco, o general,  valendo-se das tropas bárbaras que comandava,  depôs Júlio Nepos,  o qual teve que fugir para a Dalmácia.

No lugar de Júlio Nepos, Orestes, em 31 de outubro de 475 D.C., proclamou imperador o seu próprio filho, que adotou o nome de Flavius Romulus Augustus. Porém, como o rapaz somente tinha 15 anos de idade, ele logo ficaria conhecido como Romulus Augustulus, ou seja, “Rômulo, o Pequeno Augusto“, que foi reconhecido pelo Senado Romano. De fato, naquele momento, os senadores italianos pareciam mais satisfeitos em manter-se livres da influência da corte de Constantinopla do que livrar-se da ameaça dos bárbaros germânicos..

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Contudo, quando da aclamação de Rômulo Augústulo, os únicos territórios que o Império do Ocidente controlava, além da Itália, eram alguns  pequenos enclaves na Gália e na Ilíria.  Consequentemente, um dos principais problemas causados pela exiguidade desse território apresentou-se de imediato: a completa insuficiência de arrecadação…Assim, não tendo dinheiro para pagar os bandos de bárbaros que constituíam o que ainda se chamava de Exército Romano, uma revolta contra o novo imperador não tardou a acontecer.

Sem pagamento, uma coalizão de mercenários germânicos, majoritariamente Hérulos e Scirii exigiram que lhes fossem dadas terras correspondentes a um terço do território da Itália, aclamando o seu comandante, Odoacro, como “Rex Italiae” (Rei da Itália). Orestes, cujo poder e reconhecimento dependiam do apoio e do reconhecimento do Senado Romano, recusou.

Em 28 de agosto de 476 D.C. Orestes foi capturado pelas tropas comandadas por Odoacro e executado, próximo à Piacenza. Os mercenários avançaram contra Ravena, a capital do Império do Ocidente, que, apesar de uma breve resistência dos poucos soldados romanos que restavam, caiu, em 2 de setembro de 476 D.C.

Dois dias depois, Odoacro compeliu o jovem Rômulo Augustúlo a abdicar. Consta, todavia, que Odoacro, tomado de pena e também impressionado com a beleza do rapaz, decidiu poupar o imperador deposto e enviou-o para viver em uma vila romana fortificada no que hoje é a cidade de Nápoles, recebendo uma pensão de seis mil solidii de ouro. Essa villa, que havia pertencido ao riquíssimo aristocrata romano Lucius Licinius Lucullus (Lúculo), no século I A.C., hoje é o medieval Castello dell’Ovo (na foto abaixo)

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Em seguida Odoacro, marcando uma ruptura com uma prática de décadas, ao invés de colocar um fantoche seu no trono do Império Romano do Ocidente, resolveu aceitar o título de Rei da Itália, com o apoio implícito do Senado Romano.

Com efeito, Odoacro mandou devolver ao Imperador Romano do Oriente as insígnias imperiais, que acredita-se compunham-se principalmente do cetro e da coroa. Uma embaixada de senadores levou os objetos enviados por Odoacro até Constantinopla, acompanhada da mensagem do Senado Romano :

” A majestade de um monarca único é suficiente para proteger, ao mesmo tempo, o Mundo”

Ao aceitar as insígnias, consta que Zenão I respondeu aos senadores italianos, não sem um tom de reprimenda:

“Que os romanos do Ocidente tinham recebido dois homens enviados pelo Império do Oriente, expulsando um e matando o outro, Antêmio…”

Odoacro, entretanto, agiu de modo prudente e respeitoso para com o trono oriental, e continuou mantendo as aparências externas de que ele, no máximo,  se tornara um rei-cliente do Império Romano do Oriente…Ele até cunhou moedas ostentando o nome do Imperador Zenão I. Porém, Odoacro ignorou solenemente o mais importante dos pedidos do Imperador: a de que ele reconhecesse Júlio Nepos como o legítimo Imperador Romano do Ocidente. Nisso, com certeza, ele teve o apoio do Senado de Roma, que passou a cooperar intimamente com ele na administração da Itália.

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As evidências indicam que, em 507 D.C., Rômulo Augústulo ainda recebia uma pensão, que teria sido mantida pelo rei ostrogodo Teodorico, o Grande, que havia conquistado a Itália, após derrotar Odoacro, fundando o Reino Ostrogodo, que duraria até a reconquista da Itália pelo imperador Justiniano I, em 554 D.C.

Em uma grande ironia do destino, o jovem soberano, que tanto tinha o nome do lendário fundador de Roma, Rômulo, como também o do fundador do Império Romano, Augusto, terminou sendo o último soberano do Império Romano do Ocidente…