A BATALHA DE DIRRÁQUIO

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A BATALHA DE DIRRÁQUIO

 

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Em 10 de julho de 48 A.C.,  fazia cerca de um semestre que os exércitos dos rivais Caio Júlio César e Cneu Pompeu encontravam-se em um impasse, entrincheirados atrás de fortes posições defensivas, sem que um deles conseguisse atrair o outro para um engajamento decisivo.

A  Grande Guerra Civil de Roma havia começado em 16 de janeiro do ano anterior, quando César cruzou o Rio Rubicão com apenas uma legião.

Surpreendentemente, pouco tempo depois da célebre travessia, César tomou Roma sem precisar lutar, uma vez que Pompeu, o chefe dos exércitos senatoriais, junto com boa parte dos senadores integrantes da facção dos Optimates (nobres), perplexos com a rapidez e o sucesso da investida de César, concluiu que a melhor estratégia era deixar a capital e aglutinar suas forças.

Pompeu decidiu, então, partir para a Grécia, onde, explorando o seu prestígio e sua vasta clientela existente na região, poderia reunir um grande exército. Além disso, ele ainda tinha sob seu comando uma considerável frota romana, ao contrário de César, que tinha poucos navios disponíveis para perseguir Pompeu;

Acompanharam Pompeu, em sua retirada estratégica da Itália, a maior parte da facção dos Optimates. Assim, ao contrário de César, que era o comandante supremo de suas forças, Pompeu, por diversas vezes, tinha que escutar e levar em consideração os palpites militares dos senadores mais proeminentes, muitos deles sem experiência bélica.

César, devido à impossibilidade de perseguir Pompeu até a Grécia, decidiu, então, partir para enfrentar o grupo de exércitos do rival que se encontravam baseados na Hispânia. Chegando em Ilerda, após mais uma impressionante marcha forçada, César cercou o exército senatorial, que se rendeu em 02 de julho de 49 A.C.

Voltando para a Itália, César reuniu as 7 legiões que estavam disponíveis para serem transportadas, e embarcou em Brundisium (Brindisi), em 28 de novembro de 49 A.C, cruzando o mar Adriático em direção ào Épiro, na atual Albânia. Se o inverno era insatisfatório para transportar as tropas via marítima, o era muito mais para as instáveis galeras de patrulha da frota de Pompeu, assim, a cartada de César inicialmente foi um sucesso e ele desembarcou com metade de suas forças.

Porém o comandante da frota de Pompeu, ancorada em Corfu, Marco Calpúrnio Bíbulo, que tinha sido pego de surpresa pelo desembarque repentino de César, agora estav alerta, e decidiu bloquear a costa do Épiro, impedindo a chegada de reforços e de provisões para César. E o outro comandante naval fiel aos Optimates, Lúcio Escribônio Libo, chegou a capturar as ilhas que dominavam a entrada do porto de Brundisium, reforçando ainda mais o bloqueio das operações navais de César.

Agora, de fato parecia que a audácia de César o tinha levado longe demais. Pompeu tinha muito mais legiões do que ele no Épiro e, além da inferioridade numérica, o seu exército não poderia mais receber suprimentos. E, naquele momento, parecia que o Épiro, assim como toda a Grécia, estavam do lado de Pompeu

Pompeu, diante das notícias, resolveu que era hora de se mexer e marchar em Direção à Apolônia, na costa do Épiro. Porém, César, com a velocidade que lhe era característica, chegou lá antes, e a cidade grega, surpreendentemente, recebeu-o de braços abertos.

Quando ficou sabendo da perda de Apolônia, Pompeu decidiu fazer uma marcha forçada para a boa posição defensiva na cidade de Dirráquio (atual Durres, na Albânia, ou, ainda, Durazzo, em italiano), a qual ele alcançou em 3 de dezembro de 49 A.C. Essa marcha forçada não foi um bom prenúncio para os partidários de Pompeu. Nela ficou patente que o grande general já estava ficando velho, e que as tropas recrutadas estavam despreparadas e desanimadas.

Agora, os dois exércitos estavam separados pelo rio Apsus : o de Pompeu acampado nas cercanias de Dirráquio, e o de César, nos arredores de Apolônia. Apesar do exército de Pompeu ser muito mais numeroso, o veterano general, em uma demonstração de falta de combatividade, ou talvez por não confiar na capacidade do seu exército, ao invés de atacar César, ficou acampado por dois meses em atitude de espera…

Enquanto isso, César vinha requisitando o envio de reforços com urgência, tendo ele chegado a dizer, acerca do seu receio de que navios fossem perdidos devido ao rigoroso inverno:

Eu preciso de soldados, não de navios!”.

Para a sorte de César, Marco Antônio, o seu braço-direito, conseguiu despistar o bloqueio naval de Libo, que havia perdido um pouco da eficiência depois da morte de seu colega Bíbulo, e desembarcou mais quatro das legiões de César na cidade de Nympheum, em fevereiro de 48 A.C.

Quando a notícia do desembarque de Marco Antônio chegou, quase ao mesmo tempo, aos dois acampamentos, Pompeu decidiu interceptar os recém-chegados reforços e impedir que eles se unissem a César. Pompeu tinha a vantagem de não ter que cruzar o rio e, na verdade, ele começara a marcha um pouco antes. Assim, ele escolheu um ponto para tentar emboscar as legiões de Antônio que avançavam. Antônio, porém, foi avisado por simpatizantes gregos dessa armadilha e resolveu permanecer acampado, protegido de um ataque inimigo por paliçadas, fossos e torres.

Pompeu percebeu que, agora, era ele quem corria o risco de ficar entre uma posição fortificada inimiga e o exército de César, e achou mais prudente voltar para Dirráquio, onde ele se entrincheirou de vez, seguido por César, que também começou a construir uma cadeia de paliçadas, fossos e torres de fortificação, de modo que ambos os líderes foram tornando o campo de batalha, de certa forma, parecido com o que se veria, quase dois mil anos depois, na 1ª Guerra Mundial.

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Permitir a junção das reforços de Antônio com as legiões de César com certeza foi uma derrota tática de Pompeu. Se antes, quando ele tinha superioridade de 3 para 1, ele não atacara César, agora, então, isso seria muito mais difícil…

O plano de Pompeu, agora, era esperar que César ficasse sem suprimentos, já que ele mesmo poderia continuar a recebê-los da Grécia. César, por sua vez, como demonstram os trabalhos de fortificação que ordenou, também esperava proteger as únicas linhas que tinha de suprimentos por terra, no Épiro, província que estava longe de ser abundante em recursos, já bem exauridos pelos recentes combates, e, sobretudo, se proteger dos ataques do inimigo, muito mais numeroso.

Curiosamente, à medida que o tempo ia passando, o trigo dos campos que se encontravam dentro do perímetro fortificado de César começou a crescer, enquanto que Pompeu passou a ter problemas de escassez de água, e, assim,  este é que passou a ficar na condição de sitiado.

Essa aflitiva situação em breve obrigaria Pompeu a ter que atacar para romper as linhas de César. Mas, nessa premência, Pompeu seria beneficiado por um golpe de sorte: Dois comandantes de cavalaria da tribo gaulesa dos Allobroges, auxiliares no exército de César, acusados de desviarem o soldo dos seus soldados, desertaram, e foram se unir a Pompeu. Eles revelaram muitos detalhes acerca das posições defensivas de César, sobretudo  apontando algumas posições ao sul das linhas, que não tinham ficado prontas.

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Vislumbrando uma grande oportunidade, Pompeu ordenou, em 10 de julho de 48 A.C., um ataque de 6 legiões contra o ponto fraco do inimigo, em um local onde a paliçada de César chegava até o mar, inclusive utilizando tropas ligeiras, que desembarcaram diretamente da água, naquele ponto.

Contando com superioridade numérica esmagadora, as legiões de Pompeu conseguiram romper o perímetro defensivo, fazendo recuar a IX Legião inimiga, com pesadas perdas. César deslocou 4 mil homens para o ponto fraco, sob o comando de Marco Antônio e contra-atacou, fazendo as tropas de Pompeu se refugiarem em um pequeno forte que, anteriormente, havia sido abandonado pelos soldados de César, que, por sua vez, resolveu desalojá-los de lá enviando 33 Cohortes de infantaria, apesar desse número ser metade do das legiões que estavam sendo atacadas.

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Ao contrário do que se esperava, as tropas de Pompeu lutaram tenazmente e ainda foram auxiliadas por um destacamento misto de cavalaria e infantaria que seu comandante enviou no calor da batalha para flanquear a retaguarda da ala direita dos soldados de César. Este tentou organizar uma retirada ordenada, mas os soldados entraram em pânico e correram para se proteger atrás dos muros de seus próprios acampamentos. Como resultado, César perdeu mil homens no ataque fracassado.

Mais uma vez, contudo, Pompeu hesitou no momento oportuno, e deixou de ordenar um ataque generalizado ao exército de César,  o qual teria grande probabilidade de lhe dar a vitória completa. Parece que ele, erroneamente, suspeitou que a retirada de César era uma armadilha ou, ainda, que a parada já estava ganha, e, por conta disso, acabou não fazendo nada, o que motivaria impiedoso comentário de César:

“Hoje a vitória teria sido dos Inimigos, se houvesse entre eles alguém que soubesse ganhá-la…”.

César decidiu se retirar do campo de Dirráquio e marchar para a Tessália, para onde ele já tinha enviado umas legiões sob o comando de Cneu Domício Calvino para confrontar as tropas de Pompeu lideradas por Cipião Násica.

Pompeu, da mesma forma, deixou o campo de batalha e seguiu para a Tessália. Embora, cautelosamente,  ainda achasse que não chegara a hora de lutar uma batalha decisiva, ele acabou sendo convencido pelo seu séquito de influentes senadores Optimates a perseguir César e o seu exército para forçar uma batalha decisiva.

O novo encontro ocorreria um mês depois em Farsália, e seria a batalha decisiva da Guerra Civil, embora o conflito não terminasse com ela…

 

CÉSAR, O HOMEM – 2ª PARTE

5- Auto-exílio e início da carreira militar

César, então achou mais prudente afastar-se para valer de Roma e procurar alguma colocação nas colônias, já que, ao menos formalmente, ele havia sido perdoado por Sila das Proscrições de 82 A.C. Talvez, na minha opinião, o suborno de 2 talentos,  anteriormente referido como tendo sido feito por César ao líder dos soldados de Sila, Cornélio, para permitir que ele fugisse de Roma, refira-se, na verdade, ao valor pago por César para não ser incluído na lista dos proscritos, já que sabemos que a execução das Proscrições de 82 A.C. ficou a cargo do liberto de Sila, Lucius Cornelius Chrisogonus…(Nota: um talento de ouro equivale a cerca de 70 libras de ouro, e hoje isso valeria mais de 1 milhão de dólares; já um talento de prata valeria hoje cerca de 22 mil dólares – assim, dois talentos de ouro, ou mesmo, de prata, parece ser uma soma muito grande para  subornar um simples líder de um bando de soldados para ele fazer vista grossa para um fugitivo, porém, não para se obter um favor legal do braço direito de um Ditador…)

Isso explicaria como foi possível que César, pouco depois de sua saída de Roma, conseguisse se alistar nas tropas sob o comando do Pró-Pretor romano para a Província da Ásia, Marcus Minucius Thermus, que, logicamente, não se arriscaria a alistar um fugitivo desafeto de Sila

Servindo sob o comando de Thermus, César se destacou no cerco à cidade grega de Mitilene, que havia se rebelado contra Roma. Nesse cerco, ocorrido em 81 A.C., César, que então tinha, apenas, entre 18 e 19 anos de idade, destacou-se nas operações de assalto às muralhas da cidade sitiada, quando chegou a salvar a vida de um colega, razão pela qual ele foi condecorado com a prestigiosa “Coroa Cívica”, honraria concedida àqueles que salvassem a vida de um cidadão romano em batalha.

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Logo depois, no ano seguinte, Thermus encarregou o seu jovem comandado, César, de ser o emissário que levaria ao rei aliado Nicomedes IV, da Bitínia, um pedido para que este monarca contribuísse com navios e recursos para a Guerra Contra os Piratas que infestavam a região.

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O rei Nicomedes tinha sido obrigado a se asilar em Roma, em 88 A.C., durante a guerra que lhe moveu o rei Mitridates VI, grande inimigo de Roma. Após Mitridates pedir a trégua aos romanos, Nicomedes voltou para assumir o seu reino na Bitínia, em 84 A.C.

6- Sexualidade de César

As fontes não contam se, no período que passou em Roma, Nicomedes chegou a conhecer o jovem César, mas isso não seria impossível, já que César assumiu o posto de sacerdote de Júpiter em 84 A.C., e ambos podem ter se conhecido em alguma cerimônia pública, da qual ambos participaram.

Nicomedes era famoso por ter inclinação sexual por jovens rapazes, dos quais se fazia rodear em sua corte na cidade de Nicomédia.

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As fontes contam que César ficou um tempo considerável na Bitínia, talvez mais do que fosse esperado, e foi admitido no círculo mais íntimo da Corte de Nicomedes. E, certa vez, em um banquete no Palácio, segundo os autores antigos, César teria aparecido publicamente como parte da “entourage” de jovens rapazes que rodeavam a mesa real, servindo o rei como copeiros.

Quando, posteriormente, o fato se tornou conhecido em Roma, César foi muito criticado por esse fato, e, pelo resto da vida, jamais se livraria das insinuações, ironias e acusações diretas de seus inimigos políticos, e até de piadas do povo em geral, de que ele tivesse sido um dos amantes de Nicomedes. O tom dos ataques e pilhérias era sempre depreciativo, pois, naqueles tempos, considerava-se humilhante para o homem livre romano praticar sexo com outro homem na condição de sujeito passivo da relação sexual.

Tirando esse episódio, que seus antagonistas políticos fizeram questão de perpetuar para a posteridade (Cícero, especialmente,  que era famoso pela língua ferina, comprazia-se em relembrar o episódio em discursos no Senado), todos os demais relatos da vida sexual de César o mostram como sendo um contumaz mulherengo (womanizer), do tipo que não podia ver “um rabo de saia”.

Suetônio, historiador romano que por vezes mais parece um colunista de revista de fofocas, relaciona várias amantes de César, além de suas esposas legítimas Cornélia, Pompéia e Calpúrnia, nas três passagens abaixo:

Que ele era desenfreado e extravagante em seus casos amorosos é a opinião geral, e ele seduziu muitas mulheres ilustres, entre elas Postumia, esposa de Servius Sulpicius, Lollia, esposa de Aulus Gabinius, Tertulla, esposa de Marcus Crassus, e até mesmo a esposa de Pompeu, Mucia. (…) Mas, acima de todas, César amou Servília, a mãe de Marcus Brutus, para quem, em seu sexto Consulado, ele comprou uma pérola no valor de seis milhões de sestércios. Durante a Guerra Civil também, junto com outros presentes, ele adquiriu alguns ótimos imóveis em um leilão público pelo preço estipulado e, quando alguns expressaram surpresa pelo pequeno valor pago, Cícero espirituosamente comentou: “é um negócio ainda melhor do que você pensa, pois é ainda um terço a menos do que isso…” e de fato acreditava-se que Servília estava prostituindo a sua própria filha, Tertia, para César”.

(…)

“E que ele não se abstinha de casos amorosos nas províncias é evidenciado em particular por esse coro, que também era cantado pelos soldados em seu Triunfo da Gália: “ Homens de Roma, aqui vem um adúltero careca, mantenham suas esposas trancadas!; Você gastou na Gália em namoros, as bolsas de ouro que em Roma pegou emprestadas! ”.

(…)

“Ele também teve casos com rainhas, incluindo Eunoe, a Moura, esposa de Bogudes, para quem ele deu vários presentes esplêndidos, como escreve Naso; mas acima de todas com Cléopatra, com quem ele frequentemente festejava até o amanhecer e com quem ele teria ido, através do Egito, na sua barcaça real até a Etiópia, se os seus soldados não tivessem se recusado a segui-lo. No final, ele a chamou para Roma e não deixou-a ir até que ele a enchesse de honras e ricos presentes, e ele permitiu que ela desse o seu nome à criança que ela concebeu. De fato, de acordo com certos autores gregos, essa criança parecia muito com César, fisicamente e no jeito de andar. Marco Antônio declarou ao Senado que César tinha realmente reconhecido o menino e que Gaius Matius, Gaius Oppius e outros amigos de César sabiam disso”.

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É verdade que Marco Antônio, após a morte de César, quando disputou a primazia política em Roma com Otaviano, o sobrinho-neto e filho adotivo nomeado pelo Ditador como sucessor em seu testamento, acusou o rival de prestar favores sexuais ao tio, enquanto ainda adolescente. Essa acusação certamente tinha o objetivo de desmoralizar Otaviano, pois, de acordo com a moral da época helenística, paulatinamente adotada pelas classes altas romanas, o adulto mais velho (“erastes”), que no caso seria César, assumia a condição de ativo em um relacionamento com um adolescente (“eromenos”) não tinha a sua masculinidade comprometida. Tudo indica, porém, que esse ataque de Antônio não tinha nenhum fundamento, tendo o mero intuito de difamar Otaviano, pois esta acusação só foi feito muito tempo depois da morte de César, e não encontrou respaldo em nenhuma outra fonte que não fosse o próprio Antônio. O mesmo pode ser dito no que se refere ao alegado reconhecimento de Cesarion.

Desse modo, pensamos que a inclinação de César era heterossexual, sendo que o episódio com Nicomedes IV na Bitínia pode ter alguma dessas  três  explicações: a) uma aleivosia inventada pelos seus políticos rivais Optimates, já que desde a juventude, César identificava-se com a facção dos Populares, com o objetivo de desmoralizar o jovem político, que, ademais, era conhecido pelo excesso de vaidade no vestir, o que poderia ter lhe granjeado a fama, de acordo com os preconceitos de todas as épocas, de afeminado, mentira que, ainda, obteve credibilidade devido ao fato de Nicomedes ser notório pederasta; b) César, efetivamente, chegou a ter relações sexuais com o rei, para obter dele algum favor, seja a cessão da frota de Nicomedes, ou alguma vantagem financeira, sem que ele tivesse, de fato, inclinações homossexuais; ou c) César seria, efetivamente, bissexual (neste último caso, procederia o famoso comentário de seu inimigo político Gaio Escribônio Curião, de que César seria “o marido de todas as mulheres e a mulher de todos os maridos”).

7- Morte de Sila e cativeiro em Pharmacusa

Na Ásia, César, agora, estava servindo sob as ordens de Publius Servilius Isauricus, um correligionário de Sila, que havia sido apontado como cônsul no ano anterior e, em 78 A.C., estava comandando a Guerra Contra os Piratas, os quais infestavam a costa da Cilícia, na qualidade de Procônsul.

Enquanto servia na Cilícia, ocorreu um episódio que contribuiu para a fama de César como homem de temperamento inquebrantável: O barco que o levava foi interceptado por piratas, próximo à ilha de Pharmacusa ((atual Farmakonisi, um território grego na costa da Turquia) e ele foi feito refém.

César, durante o cativeiro, mostrou-se altivo e zombeteiro, chegando a exigir que os piratas elevassem o preço do seu resgate de 20 para 50 talentos de prata, para que o mesmo estivesse de acordo com a importância da sua pessoa, e, ainda, prometendo crucificá-los depois que eles o libertassem. E, de fato, assim que foi libertado, após 38 dias de cativeiro, com o pagamento do resgate, César, valendo-se de recursos próprios, armou uma pequena frota, perseguiu, capturou e, cumprindo a sua promessa, crucificou os piratas. Porém, como sinal de sua compaixão, que mais tarde se tornaria célebre, César ordenou que eles fossem degolados, antes de serem colocados na cruz, para que não sofressem as agruras daquela terrível forma de execução.

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Não sabemos quanto tempo durou essa perseguição aos piratas, que, penso eu, pode ter ocorrido como parte da campanha de Servilius Isauricus e não, exclusivamente, da sua iniciativa individual, como contam Plutarco, Suetônio e Veleio Patérculo.

Durante a sua ditadura, Sila decretou a restauração dos privilégios do Senado e a restrição do poder legislativo dos Comícios e dos Tribunos da Plebe, que foram transformados praticamente em defensores públicos dos indivíduos de condição humilde. Ele também regulamentou o cursus honorum e o número das magistraturas, aumentando em consequência o número de senadores de 300 para 600, com a finalidade de cimentar a coesão da elite e proporcionar que o Senado pudesse executar mais funções. Ele também declarou Mário, “Inimigo do Estado“, e mandou banir quaisquer referências à sua memória.

Todavia, para a surpresa geral, acreditando ter restaurado o poder do Senado, Sila decidiu voluntariamente se retirar da vida pública e voltar para suas propriedades em 81 A.C., falecendo, provavelmente de cirrose ou úlcera gástrica, em 78 A.C.

Quando Sila morreu, César ainda estava na Cilícia, e, com a morte do Ditador e algoz da facção dos Populares, ele sentiu-se seguro para voltar à Roma. Segundo Suetônio, o retorno de César também foi estimulado pelo fato do cônsul para o ano de 78 A.C., Marco Emílio Lépido (pai do Triúnviro de mesmo nome), após a morte de Sila, ter tomado uma série de medidas revertendo as leis do Ditador, bem como adotando outras em favor da causa dos Populares.

Aliás, a cronologia desses eventos é confusa, entre Suetônio e Plutarco. De acordo com a “Vida de César”, de Suetônio, César retornou a Roma e tornou-se acusador público, como  uma espécie de promotor, destacando-se na acusação ao político Dolabela, partindo, depois, para Rodes para estudar, sendo, então, capturado pelos piratas. Já Plutarco adota a narrativa mais próxima a que fazemos neste texto, colocando a chegada de César à Roma posteriormente à sua captura pelos piratas da Cilícia, sendo que, antes de voltar à Cidade, ele foi estudar em Rodes.

Entretanto, a narrativa de Suetônio é mais plausível geograficamente, já que uma rota marítima de Roma para Rodes, beirando a costa, que é como os antigos costumavam navegar, passaria antes por Pharmacusa, onde o navio de César foi interceptado. Os textos contam que os barcos utilizados pelos piratas eram pequenos e, portanto, o grupo que capturou César não devia ser muito grande. Logo, não é impossível que a versão de Suetônio seja a correta, colocando o episódio no contexto da viagem particular de César para Rodes, após sua volta para Roma e atuação como acusador de Dolabela. Em qualquer caso, estaria ao alcance de César, após a sua soltura, armar alguns barcos e liderar uma pequena expedição particular para capturar e punir os piratas.

8- Término de sua formação em Rodes, volta à Roma e atuação como “Promotor Público”

Feita essa pequena digressão, nos parece mais plausível que a atuação de César na acusação contra Dolabela, a qual lhe granjeou fama pela eloquência apurada, tenha ocorrido após o aprofundado estudo da arte da retórica em Rodes, onde aprimorou suas habilidades de oratória e argumentação para uso nos tribunais romanos.

Em Rodes, César foi estudar com Apolônio Molon, um célebre retórico que também foi professor daquele que é considerado o maior orador romano de todos os tempos, Marco Túlio Cícero (Cícero era seis anos mais velho do que César e ambos parecem ter, algumas vezes, compartilhado os mesmos mestres, como Gnifo eApolônio).

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Concluídos os seus estudos, César finalmente regressou à Roma, atendendo ao insistente chamado dos amigos, que estavam estimulados pela morte de Sila e a consequente melhoria das perspectivas políticas para os partidários dos Populares.

Seus dons e a sua recém-adquirida formação conduziram naturalmente César para o exercício do cargo de acusador público. Não havia, entre os romanos, a figura do Promotor Público, como funcionário do Estado encarregado da acusação. Assim, eram advogados privados especializados que exerciam a tarefa de acusar as pessoas suspeitas de crimes perante o tribunal. Essa era uma função que dava muito prestígio popular, já que os julgamentos contra pessoas importantes eram públicos, realizados no Fórum Romano, os quais atraíam multidões para assisti-los.

César resolveu fazer, por volta do ano 77 A.C., a acusação pública de Gnaeus Cornelius Dolabella (Dolabela), um partidário de Sila que havia sido Cônsul, em 81 A.C., que, durante o seu governo como Procônsul da Macedônia, entre 80 A.C. e 78 A.C., foi acusado de extorsão contra os provinciais e de malversação de fundos.

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Dolabela acabou sendo absolvido, mas o libelo acusatório de César foi aclamado como uma brilhante peça de oratória. Outras cidades gregas resolveram contratar César para acusar outros governantes romanos corruptos e, pouco a pouco, César foi ficando famoso entre o público romano, pela eloquência e pela sua empostação de voz, de tom agudo, bem como o seu gestual elaborado nos tribunais.

Cícero, ao discorrer sobre os oradores romanos, disse não ver nenhum para quem César tivesse que abrir mão do troféu de melhor orador, afirmando que “o estilo dele era ao mesmo tempo elegante e transparente, grandioso e, de certo modo, nobre”. E Cícero, que foi considerado o maior orador romano também escreveu assim, sobre César, em uma carta a Cornélio Nepos:

“Agora, que orador você classificaria à frente dele, daqueles que não devotaram sua vida a outra atividade? Quem tem epigramas mais inteligentes ou frequentes? Quem é mais descritivo, ou mais seletivo em sua fala?”

9- Ingresso na política e vida familiar: o César pai e esposo e o seu Estilo de Vida

Agora César já tinha se tornado conhecido pelo povo de Roma, não só pela brilhante oratória, mas também pelo estilo de vida glamuroso, evidenciado pelas roupas elegantes e, sobretudo, pelo jeito afetuoso de tratar os possíveis eleitores e, não menos ainda, pela generosidade nos presentes e banquetes que ele frequentemente oferecia. Assim, ele resolveu concorrer, e foi eleito, para o seu primeiro cargo público, o de Tribuno Militar. Esse cargo, após as reformas militares de Mário, representava o primeiro passo na carreira das magistraturas da República Romana (cursus honorum), sendo elegíveis jovens da nobreza romana.

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Por volta de 76 A.C., Cornélia, a jovem esposa de César, que tinha apenas 21 anos, deu à luz a primeira filha, que seria a sua única descendente oficialmente reconhecidauma menina que recebeu o nome de Júlia. A menina cresceria e, futuramente, se tornaria uma mulher linda e, tudo indica, de personalidade encantadora, e muito devotada ao pai. Ela não hesitaria em se casar, em 59 A.C., quando tinha apenas 17 anos, com Pompeu, então 30 anos mais velho, em obediência às conveniências políticas do pai. Porém, apesar disso, as fontes relatam que esta foi uma união bem-sucedida, e que ambos se amavam. As delícias de um casamento feliz teriam até afastado Pompeu da política. Quando Júlia morreu, devido a complicações no parto de seu primeiro filho (ou filha, não se tem certeza), o viúvo, Pompeu, e o pai  ela, César, publicamente deram demonstrações de sua tristeza. (Nota: É possível que, antes de se casar com Pompeu, Júlia estivesse prometida a Marco Júnio Bruto (que passou a usar o nome de Quintus Servilius Caepio, após ser adotado por seu tio, de mesmo nome) e quem, ironicamente, seria, muitos anos mais tarde, o líder da conspiração que assassinaria o pai dela).

Após o nascimento de Júlia, César, no exercício do cargo de Tribuno, teria, por volta de 73 A.C, segundo Veléio Patérculo, diligenciado para que fosse votada a Lex Plautia, uma lei que visava anistiar os romanos que tinham sido exilados por Sila (outros autores mencionam que isso teria ocorrido mais tarde).

Em 69 A.C., ano em que vários eventos significativos em sua vida ocorreriam, César concorreu e venceu a eleição para o importante cargo de Questor, que era um cargo com atribuições judiciárias e militares. Nessa eleição, ficou evidenciado que ele não costumava medir gastos para cair nas boas graças dos eleitores.

Eleito César Questor, em 69 A.C., em seguida,  morreram naquele mesmo ano, praticamente ao mesmo tempo, a sua esposa Cornélia e a sua tia Júlia, viúva do Ditador Mário, o grande campeão da causa dos Populares e a quem a sua família devia o retorno aos altos escalões da política romana.

César aproveitou a oportunidade para fazer do velório público das duas mulheres um ato político combinado com uma manifestação de veneração pela esposa, esta um fato pouco comum em uma sociedade patriarcal e machista como a romana.

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A procissão e os discursos que acompanharam o funeral ocorreram nos “Rostra” – o célebre palanque público situado no coração do Fórum Romano, adornado com os esporões dos navios inimigos capturados em batalha (“rostrum”).

Apesar de Mário haver sido declarado “Inimigo Público” por seu inimigo e sucessor, Sila, estando proibida qualquer alusão pública à sua memória, César mandou que a efígie de cera do marido de sua falecida tia integrasse a procissão fúnebre dela. Era, evidentemente, uma declaração política de apoio à causa dos Populares, o que muito irritou os Optimates (facção aristocrática do Senado), mas, talvez,  tão desafiadora quanto isso tenha sido a apologia que ele fez à própria família. Suetônio preservou uma parte do discurso laudatório de César à sua tia Júlia:

“A família de minha tia Júlia descende, por parte de mãe, dos reis e, por parte de pai, é aparentada com os deuses imortais; pois os Márcios recuam até Anco Márcio (rei mítico de Roma), e os Júlios, dos quais nossa família é um ramo, até Vênus. Nosso sangue, consequentemente, tem ao mesmo tempo a santidade dos reis, cujo poder é supremo entre os mortais, e o direito à reverência que se prende aos deuses, que reinam sobre os próprios reis”.

A multidão que acompanhou o cortejo aplaudiu entusiasticamente o discurso, e recebeu com simpatia a oração e as preces do viúvo César pela falecida Cornélia, apesar de não ser costume fazer discursos fúnebres em homenagem a mulheres jovens, sendo que, segundo as fontes, César foi a primeira pessoa importante a fazer isso, o que lhe granjeou a fama de homem sensível e de bom coração.

Assumindo as funções de Questor, César, ainda no ano de 69 A.C., acompanhou Gaius Anstitius Vetus à Hispânia, Província para a qual este havia sido nomeado Pró-pretor.

Voltando para Roma, ainda viúvo, César, por volta do ano 67 A.C., casou-se pela segunda vez, escolhendo como sua nova esposa, Pompéia, filha de Quintus Pompeius Rufus e de Cornélia Sila, filha mais velha do finado Ditador Sila. Vale notar que o pai de Pompéia havia sido morto pelos partidários de Mário, em um tumulto, no ano de 88 A.C.

Não há como negar que o casamento de César com a neta de Sila foi também um ato político que visava a uma conciliação com os Optimates e melhorar a aceitação do jovem César, que era um herdeiro político presuntivo de Mário, pela facção dos aristocratas.

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Se o casamento efetivamente rendeu algum resultado político proveitoso para César é difícil saber. Em 65 A.C. ele conseguiu ser eleito, sucessivamente, Curador da Via Ápia e Edil Curul, dois cargos importantes que lhe permitiram administrar verbas públicas, realizar obras e, no caso do último, oferecer espetáculos ao povo.

Como Curador da Via Ápia (“curator”), César mandou fazer vários reparos nesta importante estrada, e embelezamentos pagando de seu próprio bolso.

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Já no exercício da edilidade, César manteve a consistência de sua adesão à causa dos Populares e determinou a restauração ou reconstrução dos monumentos erguidos em homenagem ao seu tio Mário.

No entanto, o que realmente chamou a atenção e agradou à plebe foi a magnificência dos espetáculos que César bancou como Edil. Plutarco nos conta que ele custeou 320 pares de gladiadores, além de apresentações de teatro, procissões e banquetes públicos, superando todos os seus antecessores, caindo assim nas graças do povo.

De fato, Cássio Dio conta que, durante a edilidade de César, ele apresentou os Jogos Romanos (“Ludi Romani”) e os Jogos Megalenses em uma escala suntuosa. As lutas de gladiadores provavelmente foram oferecidas  por ele em homenagem à memória do falecido pai (esse era um costume etrusco que foi herdado pelos romanos – as lutas, ou jogos funerais, faziam parte das homenagens aos falecidos).

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Plínio, o Velho,  de fato, relata que César, quando Edil, nos jogos funerais que ofereceu em honra do pai, foi a primeira pessoa a apresentar todo o aparato dos gladiadores em prata, sendo também a primeira vez que criminosos enfrentaram animas selvagens adornados com prata, na arena, sendo que, mais de um século depois, esta prática continuava a ser imitada até mesmo nas cidades das províncias.

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Toda essa generosidade, no entanto, começava a agravar um problema inevitável para quem não nascera no seio das famílias mais ricas de Roma…Dívidas!

Pois, para poder fazer tudo isto o que ele fazia, em escala poucas vezes vista anteriormente, com o propósito de obter prestígio popular, César teve que pegar dinheiro emprestado. E os cargos públicos exercidos na cidade de Roma, não permitiam, como ocorria nas Províncias, que os seus ocupantes extorquissem o dinheiro dos provinciais via tributos, ficando com uma parte deles para si, renda com a qual contavam para pagar as liberalidades que tinham feito para obter o cargo.  E a acirrada política da Cidade Eterna fazia com que os adversários aproveitassem qualquer irregularidade para processar sem piedade o oponente apanhado em alguma malversação.

Aliás, segundo Plutarco, antes mesmo que César exercesse qualquer cargo público, os débitos dele já alcançavam a estratosférica soma de 1.300 talentos!

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E, para isso, certamente, concorria o estilo de vida glamuroso que César fazia questão de cultivar. Parece-nos que César fazia isso não porque ele não conseguisse viver sem conforto (embora ele apreciasse as coisas belas), mas, sobretudo,  como parte da imagem pública de “superstar” que ele fazia questão de ostentar.

Por exemplo, sabemos que, segundo Suetônio, César, quando ele ainda era  pobre (para os padrões dos grandes de Roma), e endividado, após construir e decorar a casa de campo dele (ou villa), às margens do Lago de Nemi, mandou demolir tudo porque não gostou de como ela havia ficado depois de pronta.  E, ainda de acordo com o historiador citado, César, quando em campanha, levava em sua bagagem pisos de mármore e de mosaico para forrar seus aposentos!

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Suetônio também conta que César era um colecionador de pedras preciosas, gravuras, estátuas e pinturas de artistas antigos, assim, podemos dizer, um apreciador de Arte e de antiguidades. Até os seus escravos eram escolhidos entre os de melhor aparência e treinamento.

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Obviamente que o apreço de César pelas coisas belas e valiosas aumentou junto com a sua ascensão aos cargos mais altos da República.

Como exemplo, consta, segundo Plínio, o Velho, que César, quando já era Ditador, comprou duas pinturas, “Medéia” e “Ajax”, do pintor Timomachus, por 80 talentos, para colocá-las no Templo de Vênus Genitrix, que ele construiu para honrar a divindade de quem a sua família reivindicava descendência.

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E também que, para os seus banquetes triunfais, César comprou 6 mil peixes da rara espécie Murena. Para esses mesmos banquetes, ele mandou colocar, em cada mesa, uma ânfora dos afamados vinhos Falérnio, Quiano, Lésbio e Mamertino, sendo esta considerada a primeira vez em Roma que quatro tipos diferentes de vinho foram servidos à mesa!

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César também era perfeccionista e detalhista no que se refere as regras de etiqueta então vigentes na sociedade romana, preocupando-se sempre se os eventos que patrocinava atendiam os ditames da arte de bem receber.

10 – Pontifex Maximus e César, o bom filho.

Com a popularidade em alta após o exercício da edilidade, César decidiu concorrer, em 63 A.C, ao posto de Pontifex Maximus (Sumo Pontífice), que era o chefe da religião romana, e, além disso, verificava a legalidade dos casamentos, adoções, enterros e funerais, sucessão testamentária, regulava o calendário e também supervisionava a moralidade pública. Era um cargo tão importante que foi um dos últimos a serem franqueados aos plebeus, sendo, até 254 A.C., exclusivo dos patrícios.

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Consta que, no dia da eleição, segundo Plutarco,  a mãe de César, Aurélia Cota, em lágrimas, acompanhou-o até a porta da casa onde eles moravam na Subura, ocasião em que César, despedindo-se,  beijou a mãe, dizendo-lhe:

“Mãe, hoje tu verás o teu filho Pontífice Máximo ou um exilado”.

Para a surpresa de muitos, César, apesar de ser bem mais jovem e ilustre do que os dois outros concorrentes, ganhou a eleição, onde também gastou muito dinheiro, razão pela qual disse a frase dramática com a qual se despediu da mãe no dia do pleito (se ele perdesse, teria que se exilar para escapar dos credores). Um dos derrotados era Quinto Lutácio Catulo, chamado de “Capitolino”, porque ele havia cuidado da restauração do Templo de Júpiter Optimus Maximus na colina do Capitólio. Ele era um velho partidário de Sila e inimigo dos Populares. Já o principal contribuinte para a campanha de César ao Pontificado foi Marco Licínio Crasso, então o homem mais rico de Roma.

No aspecto privado desse episódio, podemos constatar que César, aos 37 anos, ainda morava junto com Aurélia. Essa cena do dia da eleição para Sumo Pontífice é mais uma das que demonstram a forte ligação entre César e sua mãe. Já vimos, por exemplo, como ela ousadamente fez a defesa do filho junto ao Ditador Sila.

Aurélia Cota morreria, ironicamente, em 31 de julho de 54 A.C (mês do nascimento de César e que, posteriormente, recebeu esse nome em homenagem ao filho dela), na casa em que ambos moravam. Ela então deveria ter cerca de 65 anos de idade.

Assumindo o cargo de Pontífice Máximo, César mudou-se para a Domus Publica, uma habitação destinada aos Sumos Pontífices que era um venerável ex-palácio dos reis de Roma e que teria sido construído pelo rei Numa Pompílio. A Domus Publica ficava entre a Casa das Virgens Vestais e a Via Sacra, no Fórum Romano.

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Aurélia, após César se casar com Pompéia, foi com eles morar na Domus Publica na Régia e, como sempre havia feito, continuou administrando ali a casa do filho.

A afeição e os laços estreitos que César tinha com a mãe, mesmo depois de já ter uma longa carreira de homem público, também eram manifestados com os parentes e amigos em geral. Com efeito, César, segundo Cássio Dio:

“Possuía uma forte afeição por todos os seus parentes, exceto os mais ímpios. Por isso, ele não ignorou nenhum deles nas suas vicissitudes, nem invejou aqueles que gozavam de boa fortuna, e sim, ajudou a estes a aumentarem as posses que eles já tinham, e deu para os outros o que lhes faltava, dando a alguns deles dinheiro, algumas terras, alguns cargos e alguns sacerdócios. Novamente, a sua conduta em relação aos seus amigos e outros aliados foi notável. Ele jamais escarneceu deles ou insultou-os, mas sempre foi cortês com todos.

Suetônio, igualmente, escreveu sobre isso:

“ Ele tratava seus amigos com invariável gentileza e consideração. Quando Gaius Oppius acompanhou-o em uma viagem através de uma região selvagem e florestada, e ficou subitamente doente, César lhe deu o único abrigo que havia”.

O fato acima também foi relatado por Plutarco, que especifica que ele ocorreu durante uma tempestade, sendo que César deixou Oppius dormir dentro de uma pobre cabana, onde somente cabia uma pessoa, enquanto ele e o resto de sua comitiva foram dormir ao relento. Segundo Plutarco, naquela ocasião, César disse aos amigos:

As honrarias devem ser concedidas aos mais fortes, mas o que é de necessidade, aos mais fracos

Em dezembro de 62 A.C, ocorreu o famoso episódio dos ritos da Bona Dea (a Boa Deusa), celebrados na casa do Pontifex Maximus, organizados pelas Virgens Vestais e pelas anfitriãs, Pompéia, a esposa de César, e Aurélia Cota, sua mãe.

Somente mulheres podiam participar da celebração (na verdade, sequer o nome da deusa poderia ser pronunciado por homens, daí o eufemismo “Boa Deusa”), porém o senador Públio Clódio Pulcher, um partidário dos Populares que tinha fama de devasso, conseguiu entrar na casa de César, disfarçando-se de mulher, supostamente com a intenção de seduzir Pompéia.

Clódio foi descoberto e o escândalo público que se seguiu foi tão grande que César viu-se obrigado a se divorciar de Pompéia, apesar de aparentemente a esposa não ter culpa de nada. Os Optimates, adversários políticos de César e dos Populares, não perderam a oportunidade de aproveitar ao máximo o fato, e um processo criminal por “incestum” foi instaurado contra Clódio. Pompéia e Aurélia, inclusive, prestaram depoimento como testemunhas. César tentou defender seu correligionário político, ao mesmo tempo alegando que nada tinha ocorrido. Quando os adversários lhe perguntaram porque motivo então ele tinha se divorciado de Pompéia, César disse a célebre frase:“A mulher de César tem que estar acima de qualquer suspeita”, que acabou sendo imortalizada como:

“À mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta”.

Terminamos aqui esse texto em duas partes sobre Júlio César. Depois do cargo de Pontífice Máximo e o grande impulso que o exercício dessa função deu em sua carreira política, César foi para a província da Hispânia como governador (Procônsul), o que além de lhe dar a experiência de comando militar, lhe permitiria obter os recursos para saldar suas vultosas dívidas. Mas aí ele já tinha quase quarenta anos de idade e todos os aspectos de sua personalidade já estavam delineados.

JULHO – O MÊS DE JÚLIO

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(Mosaico de uma casa romana de Tysdrum (El Djem), na Tunísia, foto de Ad Meskens )

No antigo calendário romano, de dez meses, que começava no mês de março, Quintilis era o nome do quinto mês, que vinha depois de Junius (junho), assim chamado para homenagear a deusa Juno, e antes do mês Sextilis. Devido a imprecisão desse calendário primitivo, os romanos passaram a adotar um calendário de doze meses, introduzindo-se os meses de janeiro, quer passou a ser o primeiro mês, e de fevereiro. Assim, Quintilis passou a ser o sétimo mês do ano, mas, mesmo assim, ele manteve esse nome, com o qual o povo já estava acostumado.

Apesar disso, persistindo ainda consideráveis discrepâncias do calendário romano, de apenas 355 dias, com o ano solar, o ditador Caio Júlio César, em 46 A.C., assistido por uma comissão de astrônomos notáveis, determinou a adoção do calendário de 365 dias, ajustando o número de dias dos diversos meses, que foi chamado de “Calendário Juliano“.

Após o assassinato de Júlio César, nos Idos de março de 44 A.C., entre as homenagens póstumas decretadas em sua memória, o mês Quintilis foi rebatizado de “Julius“, que, na língua portuguesa, transformou-se em “Julho“. O motivo da escolha de Quintilis para homenagear César é o fato dele ter nascido no dia 12 de julho de 100 A.C.

No mês de Julho comemoravam-se, sobretudo, os Ludi Apollinares, em honra do deus Apolo, a divindade associada com o Sol, afinal, em julho começa o verão no Hemisfério Norte.

 

SENADORES ROMANOS DA GÁLIA – ANTEPASSADOS DA NOBREZA EUROPEIA?

 

Ontem publiquei um artigo sobre o Imperador Avito (455-456 D.C). Na crônica que fizemos do seu reinado, me chamaram a atenção o patriotismo e a notável coesão da aristocracia senatorial galo-romana durante o século V, especialmente da região da Auvergne, centrada na cidade de Clermont, além das cidades de Tours, Arles e Lyon.

As cartas e poemas de Sidônio Apolinário ( *430 +489 D.C), um conhecido diplomata, político e poeta galo romano, também ele um membro da prestigiada classe senatorial, e que chegou a ocupar o cargo de Prefeito Urbano de Roma, descrevem as provações que a Gália e sua elite enfrentaram durante as invasões bárbaras da fase final do Império Romano do Ocidente.

A leitura de Sidônio Apolinário, que pode e deve ser feita em conjunto com a “História dos Francos”, de Gregório de Tours (ele também um descendente da classe senatorial galo romana, mas que escreveu pouco mais de um século depois de Sidônio), demonstra como os senadores galo romanos conseguiram não apenas manter consideravelmente as suas propriedades e posição social, durante os primeiros reinos bárbaros instalados no que tinha sido a província romana da Gália, mas até mesmo influenciar a política e o desenvolvimento destes mesmos estados originados do desmembramento do Império.

As fontes do período demonstram que, para conseguir feito tão notável, o meio principal utilizado pela aristocracia galo romana foi a Igreja Católica.

Com efeito, quase todos os senadores galo romanos que abordamos no artigo sobre Avito, bem como os que mencionaremos a seguir, tornaram-se Bispos de Clermont-Ferrand, Tours, Arles, Metz, Uzes, Lyon, Reims e muitas outras cidades da atual França, exatamente aquelas onde a língua e a cultura clássica romana foram melhor preservadas.

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Pela simples leitura de Apolinário e de Gregório de Tours, percebemos que, com o desaparecimento da autoridade civil e militar romanas, os bispados passaram a atuar como se fossem verdadeiros magistrados romanos: resolvendo disputas jurídicas, provendo o abastecimento em situações de calamidade, organizando a defesa das cidades contra os bandos armados, etc.

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( A igreja católica copiou a organização administrativa do Império Romano Tardio)

E, para conferir um mínimo de organização aos primeiros reinos bárbaros, bem como para regular as suas relações com os seus novos súditos -os antigos cidadãos romanos (que ainda constituíam a maioria da respectiva população) os reis germânicos dependiam do auxílio de homens letrados. Note-se, por exemplo, que os primeiros códigos de leis do reino visigótico e do reino burgúndio são elaborados por membros da citada aristocracia senatorial, os quais continuaram ocupando postos importantes nas cortes germânicas.

Penso que a situação da Gália pós-imperial, nas primeiras décadas que se seguiram ao desmembramento do Império Romano do Ocidente, devia ser  parecida a uma mistura de Velho Oeste Americano, de Sertão brasileiro dos coronéis e cangaceiros. e da Sicília, no apogeu da Máfia Italiana, onde, em meio a um Estado fraco, os grandes senhores ou chefes locais exerciam a sua autoridade, cada um com seu bando armado. Vale observar que os bárbaros, fossem os Visigodos, na Aquitânia (e, depois, na Hispânia), os Burgúndios (que dariam o nome à Borgonha, onde se assentaram) ou os Francos, não eram numerosos. Para os primeiros, por exemplo, a estimativa é a de que a sua população deveria estar na casa dos 200 mil indivíduos. Os Burgúndios deveriam ser por volta de 80 mil. E os Francos deviam estar entre algum desses números…

E os bárbaros provavelmente não tinham nem o efetivo, nem o ânimo para controlar diretamente cada uma das imensas propriedades detidas pela nobreza galo romana, onde devia trabalhar e morar uma considerável população de colonos e escravos, proporcionando aos seus proprietários uma força não desprezível para se defender, senão de um exército, de pequenos ou até  de médios bandos de atacantes bárbaros, caso isso fosse inevitável. Assim, um compromisso entre os chefes germânicos e os grandes senhores de terra era mais do que natural…

Com a conversão dos Francos ao Cristianismo Católico do Credo Niceno, foi-se o último obstáculo para uma acomodação com a classe dirigente galo romana. Na verdade, a conversão do rei franco Clóvis ( que foi convertido pelo bispo Remigius,  que depois viraria Saint Remy, também ele um integrante da aristocracia galo romana e amigo de Sidônio Apolinário) é um dos fatores pelos quais a França manteve a sua herança romana de forma muito mais marcante do que os outros reinos bárbaros.

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(São Remígio batizando Clóvis, relevo em marfim, c. 870 D.C.)

GENEALOGIA DA NOBREZA EUROPEIA  ATUAL RECUARIA ATÉ A ROMA ANTIGA

É fato incontroverso que praticamente todas (senão todas) as casas reais da Europa, reinantes ou pretendentes em caso de restauração monárquica, podem, sem muita dificuldade, traçar sua árvore genealógica até o rei Carlos Magno, rei dos Francos e fundador do Sacro Império Romano-Germânico, no ano de 800 D.C.

Carlos Magno nasceu por volta do ano 742 D.C e teve 18 filhos. Portanto, somente por esse fato, muitos milhares de pessoas, hoje, podem traçar sua genealogia até ele. Genealogistas conseguem desenhar, com certa segurança, o traçado de uma árvore genealógica de uma pessoa viva até o grande rei franco, desde que essa pessoa provenha de uma família que tenha mantido alguns documentos de ancestrais não muito distantes e  assim é torna-se possível conectá-los com a legião de nobres europeus que descendem do referido Sacro-imperador.

 

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(“denário” cunhado por Carlos Magno. O Imperador se considerava um sucessor dos imperadores romanos e se a Prosopografia estiver correta, a pretensão tinha bases não apenas políticas, mas  também genealógicas)

Porém, recuar qualquer genealogia europeia para aquém do século VIII D.C, sempre foi bastante difícil: antes disso, a Europa estava mergulhada no período mais sombrio da Idade Média, ao que corresponde a escassez de documentos e fontes históricas sobre o período entre o século VI, quando os últimos autores remanescentes do Império Romano começaram a serem engolfados pelo caos, e o século VIII, quando houve o chamado “Renascimento Carolíngio” e as condições do continente europeu experimentaram uma melhora.

Alguns pesquisadores tem se valido, para tentar preencher esse hiato, da “Prosopografia“, que pode ser entendida como o estudo das características comuns de um grupo social histórico, cujas biografias individuais podem ser consideravelmente não-traçáveis, através do estudo coletivo de suas vidas, em análises de múltiplas carreiras. A pesquisa prosopográfica, portanto, tem como meta o estudo de padrões de relacionamentos e atividades através do estudo biográfico coletivo. Assim, ela coleta e analisa estatisticamente quantidades relevantes de dados biográficos acerca de um grupo bem definido de indivíduos.

Por conseguinte, a Prosopografia vai além da Genealogia (embora inevitavelmente tenha que se valer muito desta), pois o escopo da primeira é estudar a relação entre um grupo social e os acontecimentos históricos, valendo-se da trajetória individual pública, dos relacionamentos públicos e privados entre os integrantes deste grupo e entre estes e os demais grupos sociais. Não obstante, a Prosopografia pode também contribuir para completar as lacunas da genealogia dos indivíduos, através do estudo de uma “rede prosopográfica“, que se vale das ferramentas da análise de redes sociais, onde, inclusive, podem ser empregadas a matemática de sistemas complexos e estudos gráficos.

A maior autoridade na Prosopografia do final do Império Romano e da Alta Idade Média é o historiador francês Christian Settipani, autor das obras ” Les Ancêtres de Charlemagne” e “Nos ancêtres de l’Antiquité“.

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Segundo os estudos de Settipani, a conexão de Carlos Magno com os senadores galo-romanos segue a genealogia da família dos Pipinidas, também conhecidos como Arnulfidas:

É consenso que Carlos Magno (*742 +814 D.C.) era filho de Pepino, o Breve (* 714 + 768 D.C.), que era filho de Carlos Martelo (* 686 +741 D.C.), que era filho de Pepino de Herstal (*635 +714 D.C.), que era filho de Ansegisel (*602 ou 610 + antes de 679 D.C.), que era filho de Arnulfo (Santo Arnulfo, Bispo de Metz *582 +645 D.C.), que era filho de Arnoaldo (*540 ou 560 +611 D.C), também Bispo de Metz .

Segundo Paulo, o Diácono (século VIII D.C), Arnoaldo era um romano de “família senatorial” e era filho de Ansbertus (uma crônica do reino dos Francos, também do século VIII confirma isso) e de Blithilde ou Bilichilde (*538 +603 D.C), filha do rei franco merovíngio Cariberto I e neta de Clotário, rei dos Francos que, por sua vez, era filho do rei Clóvis, o fundador da dinastia dos Merovíngios.

De acordo com a Commemoratio Genealogiae Domni Karoli Glorissimi Imperatoris , do início do século IX, Ansbertus era filho do aristocrata galo-romano Ferreolus de Rodez (* c. 485 D.C.), originalmente de Narbonne, e que depois se estabeleceu em Rodez, e de  Doda, filha de Cloderico, rei dos Francos Ripuários. Ferreolus de Rodez, por sua vez, era filho do senador galo-romano Tonantius Ferreolus (II) *c.440 + c.517 D.C. e de sua esposa Industria.

Acredita-se que Industria fosse a filha de Flavius Probus, senador romano originário de Narbonne. Flavius Probus era filho de Flavius Magnus, Senador de Narbonne e Cônsul para o ano de 460 D.C. Há uma teoria de que Flavius Magnus seria filho de Flavius Felix, Cônsul para o ano de 428 D.C, e sua mãe seria filha de Flavius Julius Agricola, senador de Narbonne, duas vezes Prefeito Pretoriano da Gália e Cônsul para o ano de 421 D.C., e que se supõe ter sido o pai de Avito, Imperador Romano do Ocidente (455-456 D.C.), o qual era originário da nobreza senatorial galo-romana da cidade de Clermont-Ferrand.

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(Solidus do imperador romano Avito)

Tonantius Ferreolus (II) era filho de Tonantius Ferreolus (I) e de sua esposa Papianilla. Ele era muito amigo de Sidônio Apolinário, também ele um aristocrata romano da Gália, da cidade de Clermon-Ferrand, que chegou a ser Prefeito Urbano de Roma em 469 D.C. e senador. As cartas de Sidônio Apolinário são uma importante fonte para os eventos do final do Império Romano na Gália. Em uma das cartas, Sidônio menciona a boa acolhida que teve na grande propriedade do pai do amigo, Tonantius Ferreolus  (I), em Prusianum, na região de Gard.

Tonantius Ferreolus (I) *390 +475 D.C., também foi senador e  ocupou o importante cargo de Prefeito Pretoriano da Gália, em 451 D.C. e, embora o nome de sua mãe não seja citado nas fontes, sabe-se que ela era filha de Flávio Afrânio Siágrio, originário de Lyon, que foi Prefeito Urbano de Roma e Cônsul no ano de 382 D.C. Este Flávio Afrânio Siágrio muito provavelmente é ancestral do Siágrio que protagonizou a última resistência contra os Francos e o seu rei Clóvis, na Batalha de Soissons, em 486 D.C.

A esposa de Tonantius Ferreolus (I), Papianilla, segundo Christian Settipani, seria sobrinha do imperador Avito.

O último Tonantius Ferreolus citado, pai, era casado com Papianilla, que provavelmente era prima de outra Papianilla, esposa de Sidônio Apolinário, e esta, por sua vez, era filha do Imperador Romano do Ocidente, Avito, como já mencionamos no artigo sobre este último, o qual recomendamos aos nossos amigos que também leiam para ter um panorama completo da importância da classe senatorial galo-romana nos eventos que marcaram o fim do Império e o nascimento da Europa Medieval.

Os estudiosos propõem também uma linha alternativa, não necessariamente excludente, através do tataravô de Carlos Magno, Angegisel, cuja esposa, Begga, era filha de Pepino de Landem, Major Domus do Palácio de reino franco da Austrásia, e de sua esposa Itta, que que seria filha do Bispo de Metz, Arnoaldo, que já mencionamos acima. E por meio deste último, essa linha genealógica também recuaria até Ansbertus e os senadores galo-romanos.

Obviamente que se tratam de teorias conjecturais e especulativas, mas com um bom grau de consistência, que ainda podem vir a ser comprovadas pela arqueologia e, quem sabe, pela pesquisa genética. Nesse caso, a rainha Elizabeth II, Dom Pedro II e todos os Orleans e Bragança e, quem sabe, até você, leitor, seriam descendentes de senadores romanos!

 

AVITO – A ESPERANÇA DA GÁLIA ROMANA

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(Solidus do imperador Avito, foto de Numismatica Ars Classica NAC AG)

 

Em 9 de julho de 455 D.C, na cidade de Ugernum, na província romana da Gália Lugdunense, o senador galo-romano Marcus Maecilius Flavius Eparchius Avitus (Avito) foi aclamado imperador por uma assembleia de notáveis da aristocracia galo-romana.

Avito, que deve ter nascido por volta de 395 D.C, era membro de uma família ilustre da nobreza galo-romana, classe que, já a partir dos tempos de Júlio César, assimilou profundamente a cultura clássica romana. Vale notar que a Gália era a maior e mais produtiva província da metade ocidental do Império Romano. Apesar disso, o Senado Romano continuou a ser controlado pelas famílias tradicionais da nobreza italiana.

Além de Avito, que nasceu  na cidade de Clermont (atual Clermont-Ferrand), vários outros influentes aristocratas galo-romanos nasceram  na região gaulesa do Auvergne,  tais como o seu genro, o poeta, diplomata e político Sidônio Apolinário e, após a Queda do Império Romano do Ocidente, o historiador Gregório de Tours.

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(Panorama da atual Clermont-Ferrand)

Após a derrota na Batalha de Adrianópolis, em 378 D.C., para os invasores Godos, e o profundo enfraquecimento militar romano que se seguiu, a Gália, que já tinha sido a principal vítima das invasões germânicas durante a crise de meados do século III D.C, passou a ser o alvo principal da nova onda de incursões bárbaras, que culminou com a grande invasão dos Vândalos, Alanos e Suevos no inverno de 406 D.C, que atravessaram o Reno e, após devastar a referida província, alojaram-se na vizinha Hispânia. Para piorar, após o saque de Roma, em 410 D.C, os Godos também escolheram a rica Gália como presa.

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Consequentemente, o Imperador Honório, em 418 D.C, visando apaziguar a ameaça mais premente representada pelos Godos, acabou assinando com eles um tratado em que reconhecia aos bárbaros a condição de “foederati” (povo aliado governado por seus próprios chefes), concedendo-lhes o direito de se assentarem na Gália Aquitânia, em um arranjo que, ainda que precariamente, funcionou por algum tempo.

Observe-se que, ainda durante as invasões dos Alamanos, na chamada Crise do Século III D.C, a insegurança dos galo-romanos levou-os a apoiar os usurpadores Póstumo e Tétrico, que chegaram a governar durante alguns anos a Gália, a Hispânia e a Britânia como integrantes do chamado “Império Gálico” (ou “Império das Gálias“), que durou, no total, de 260 a 274 D.C.

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Com a recuperação econômica e militar do Império Romano, a partir do reinado de Diocleciano, a Prefeitura da Gália foi criada, na reestruturação administrativa do Império continuada por Constantino, e compreendia, além da Gália e dos territórios que tinham sido controlados pelo malfadado Império Gálico, a Germânia e parte da África, ficando subordinada ao Imperador do Ocidente.

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Em algum momento entre o final do século IV e o início do século V, provavelmente em função das demandas da aristocracia galo-romana, notadamente no que tange ao agravamento da segurança da fronteira, estabeleceu-se uma “Assembleia” da Gália (“Concilium Septem Provinciarum“),  com periodicidade anual, que era integrada pelos membros da aristocracia senatorial galo-romana. O Prefeito Pretoriano Julius Agricola, que, acredita-se, era parente, ou, até mesmo, o próprio pai de Avito, presidiu esta “Assembleia dos Gauleses“, em 418 D.C.

Sabe-se que Avito, como se esperava de um jovem de sua estirpe, estudou Direito Romano, tendo provavelmente destacando-se como advogado, pois, pouco antes de 421 D.C, ele foi enviado pelos seus compatriotas para apresentar uma petição ao general Flávio Constâncio (o futuro imperador Constâncio III) na Itália,  solicitando uma redução de impostos para a sua Província natal. Avito foi bem sucedido, obtendo a redução pedida (nota: Flávio Constâncio era o homem forte durante o reinado do Imperador do Ocidente, Honório, e pouco  tempo antes da viagem de Avito, o general tinha estado na Gália para negociar o Tratado com os Visigodos, onde havia obtido também a libertação de Galla Placidia, irmã do Imperador, que depois disso, casou-se com ele).

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(Moeda de Constâncio III)

Enquanto isso, após a súbita morte de Constâncio III, o poder passou a ser exercido pela Imperatriz Galla Placidia, em nome de seu filho Valentiniano III, ocasião em que o general Flávio Aécio alcançou o o posto de Comandante Militar da Gália.

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Por volta de 425 D.C., Avito foi para a cidade de Tolosa (atual Toulouse), então capital do Reino dos Visigodos na Aquitânia, tentar negociar a libertação de seu parente Theodorus junto ao rei Teodorico I. No tempo em que passou entre os Visigodos, Avito fez vários contatos, chegando até a frequentar o círculo mais íntimo da corte de Teodorico.

Alguns anos depois, ocorreu um novo grande revés para os romanos : a travessia dos Vândalos para a África do Norte, em 429 D.C. Após prolongada guerra, os bárbaros conseguiram conquistar a grande cidade romana de Cartago, em 439 D.C., e se apropriar da parte mais rica e próspera da Província da África. Isso representou uma perda considerável de receita para o Imperador do Ocidente, além da perspectiva da interrupção do vital suprimento de trigo para a cidade de Roma, e, certamente, o encarecimento daquele produto, já que, como bem observa J.Bury:

“o que antes era enviado como tributo, agora era produto de exportação”.

Aécio, a quem a História concederia o título de “O Último dos Romanos“, tornou-se, em 432 D.C., Comandante-em-chefe do Exército Romano do Ocidente e foi, entre 433 e 451 D.C., o homem mais poderoso do Império. Um fator importante para a ascensão de Aécio foi a rede de contatos que ele estabeleceu com os Hunos, após ter vivido entre eles como refém. Os Hunos naquele momento eram a força militar mais poderosa da Europa.

A estratégia militar seguida por Aécio visava proteger preferencialmente a Gália, a maior e mais rica província do Ocidente, já bem devastada pelas invasões bárbaras. Ele, de fato, conseguiu derrotar os Burgúndios e conter os chamados Bagaudas, na Gália (Acredita-se que os Bagaudas eram habitantes da própria província que, fartos de serem atacados pelos bárbaros e também do pagamento dos impostos, formaram bandos criminosos que controlavam áreas fora-da-lei).

Após uma série de derrotas e vitórias contra os Visigodos,  Aécio conseguiu firmar com eles um novo tratado delimitando a área que seria destinada aos Germânicos. Com efeito, sem ter tropas suficientes para subjugar todos os bárbaros, Aécio passou a se valer da tática de usar as tribos bárbaras que tivessem sido derrotadas ou apaziguadas e assentá-las  para conter as outras que fossem julgadas mais perigosas para Roma.

Sabemos que Avito exerceu diversos postos militares sob o comando de Aécio, culminando com sua nomeação para um importante cargo de comando, provavelmente o de “Magister Militum per Gallias”, em 437 D.C.

Avito, vale mencionar, teve participação decisiva na renegociação do Tratado de Amizade com os Visigodos  que Aécio pretendeu fazer. Em 439 D.C., já na condição de Prefeito Pretoriano da Gália, foi ele quem viajou a Toulouse para encontrar-se com Teodorico, Lá, ele conheceu o filho do rei, o futuro rei Teodorico II, e chegou a incentivar o jovem a estudar os poetas latinos.

Depois desse relevante serviço público, Avito retirou-se para a vida privada, retornando para sua grande propriedade de Avitacum, nas cercanias de Clermont. Muito provavelmente, em Avitacum, Avito deve ter gozado as delícias da vida de um aristocrata romano em sua adorada villa, que foi tão bem descrita por seu genro Sidônio Apolinário em suas cartas. Sidônio era casado com Papianilla, filha de Avito, que, inclusive, foi quem herdou a propriedade após a morte do pai. É muito conhecida a carta de Sidônio em que ele descreve para um amigo a enorme propriedade, enfatizando a excelência de suas termas privadas e as belezas do lago – vide: http://www.tertullian.org/fathers/sidonius_letters_02book2.ht)

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(Avitacum, a villa de Avito, tinha vista para o Lago Aydat, in Puy-de-Dome, próximo a Clermont)

Porém, em 451 D.C, uma ameaça ainda maior do que a dos Visigodos e das outras tribos germânicas pairou sobre a Gália: Átila, que tinha se tornado rei dos Hunos em 435 D.C, resolveu atacar o Império do Ocidente…O irresistível avanço da horda huna rapidamente tomou Metz, Reims, Mogúncia, Estrasburgo, Colônia, Worms e Trier, que foram impiedosamente saqueadas e incendiadas.

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Obrigado a sair do seu retiro dourado, Avito, valendo-se de seus contatos com Teodorico, colaborou na vital aliança entre os Romanos e os Visigodos, que incluiu também os Alanos, Francos e outros bárbaros, em menor escala. Na Batalha de Châlons, ainda em 451 D.C. as tropas combinadas dos aliados, lideradas por Aécio e Teodorico conseguiram derrotar os Hunos, que foram obrigados a se retirar. Teodorico, porém, foi morto durante a batalha e os Godos voltaram para a Aquitânia. Assim, Teodorico foi inicialmente sucedido por seu filho Torismundo, que era hostil aos romanos e pretendia quebrar o Tratado de Paz anteriormente assinado pelo pai.

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Átila, recuperado da derrota em Châlons, no ano seguinte invadiu a Itália, que foi devastada. Valentiniano III e a Corte se protegeram atrás dos pântanos de Ravenna. Aécio, sem tropas romanas suficientes para oferecer batalha campal, adotou uma estratégia de atrasar o avanço huno, evitando confrontos diretos. As fontes não dizem se as táticas de Aécio tiveram algum resultado, mas o fato é que, após receber uma delegação romana integrada pelo Papa Leão I, Átila resolveu dar meia-volta e abandonar a Itália. Muitos historiadores acreditam que essa decisão de Atila deveu-se a existência de uma grave epidemia de peste na Itália.

O prestígio de Aécio, porém, ficou abalado com a devastação causada pelos Hunos na Itália. Os senadores italianos ressentiam-se do fato de que a Gália tinha sido poupada, em função do sucesso da estratégia de Aécio no ano anterior.

Seguiram-se intrigas palacianas que incentivaram o Imperador Valentiniano III a tomar a iniciativa de, pessoalmente, matar o velho general. Porém, pouco depois da morte de Aécio,  seus antigos guarda-costas resolveram vingar a morte do chefe e, por sua vez, em 455 D.C, dois dele assassinaram Valentiniano III, segundo consta, instigados pelo ambicioso senador Petrônio Máximo.

Com a morte de Aécio, boa parte das forças recrutadas por ele, basicamente mercenários bárbaros, dispersaram-se. Os inimigos de Roma, que tinham aprendido a respeitar Aécio, tais como os Visigodos, Francos e Alamano,  sentiram-se estimulados a atacar o que restava do Império.

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Assim, foi provavelmente a falta de tropas para a defesa da Gália, e o renovado medo da ameaça bárbara, que fez o imperador Petrônio Máximo, o ambicioso sucessor de Valentiniano III, chamar Avito de volta à ativa, nomeando-lhe “Magister Militum Praesentalis” e enviá-lo em uma embaixada à Teodorico II, que  havia se tornado o rei visigodo após o assassinar o irmão Torismundo, tendo em vista a proximidade que Avito tinha com o novo rei.

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(Solidus de Petrônio Máximo)

Quando Avito estava na Corte de Teodorico II, em Toulouse, chegou a notícia de que Petrônio Máximo havia sido linchado, em 31 de maio de 455 D.C., por uma turba revoltada com sua tentativa de fugir de Roma, decorrente da invasão da Itália pelos Vândalos do rei Geiserico. O pretexto para a invasão era o fato de Eudocia, filha de Valentiniano III, que, desde a infância tinha sido prometida ao herdeiro do trono vândalo,  Hunerico,  tinha se casado com o filho de Petrônio.

O Saque de Roma pelos Vândalos durou de 02 a 16 de junho de 455 D.C. Eles levaram para Cartago tudo o que puderam, incluindo as telhas de bronze dourado do Templo de Júpiter Capitolino, e até mesmo o candelabro de ouro do Templo de Jerusalém, que, por sua vez, tinha sido levado para Roma pelo imperador Tito, quase 400 anos antes. Junto com os tesouros, os Vândalos levaram para Cartago a imperatriz Licínia Eudóxia, que tinha sido a viúva de Valentiniano III e, agora, era a de Petrônio Máximo e, obviamente, também a filha dela, Eudocia.

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Ao tomar conhecimento da morte de Petrônio Máximo, Teodorico II tomou a iniciativa de aclamar Avito como novo Imperador Romano, pois certamente, era do interesse dos Visigodos ter no trono um romano que sempre lhes parecera confiável e simpático.

Desse modo, foi graças ao apoio dos Visigodos que Avito foi aclamado Imperador Romano do Ocidente, em Ugernium (atual Beaucaire), localidade nas proximidades de Arelate (atual Arles), por uma assembleia de senadores galo-romanos e também pelos soldados presentes (provavelmente remanescentes das tropas de “limitanei” ou guarda fronteiriça da Gália), em 9 de julho de 455 D.C, valendo notar que uma fonte relata a presença de Teodorico II no evento. Também é interessante observar que,  segundo um relato, na cerimônia, Avito, além das insígnias imperiais e de uma coroa, ostentava um “torque“, que era uma espécie de colar de ouro, em formato trançado, que costumava ser usado pelos antigos gauleses e pelas tribos celtas em geral, o que, na opinião de muitos, denota um componente nativista, senão patriótico, na coroação de Avito como sendo um imperador nascido na Gália.

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(vista de Beaucaire, antiga Ugernum, onde Avito foi aclamado imperador)

Antes de chegar à Roma, em 21 de setembro de 455 D.C., ocasião em que estava acompanhado do genro Sidônio Apolinário, Avito foi oficialmente reconhecido pelo Senado Romano como Imperador,  o que, segundo uma fonte, ocorreu em 5 de agosto daquele ano. O fato de nenhum pretendente italiano ao trono ter surgido indica que, provavelmente, o Senado Romano entendia que ninguém possuía no momento melhores credenciais do que Avito para assumir a Púrpura Imperial.

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(solidus de Avito, foto de Classical Numismatic Group(

Certamente Avito, nos dois meses que decorreram entre a sua aclamação na Gália, e a sua entrada em Roma, deve ter recebido um reforço de tropas visigodas, que vieram se juntar a outras tropas que ele conseguiu reunir na Gália. No caminho, parece que Avito, aproveitando o fato de que ninguém controlava a região do Danúbio vizinha à Itália, devido ao recente falecimento de Átila e a derrota dos Hunos para seus antigos vassalos germânicos, conseguiu temporariamente restaurar algum grau de autoridade romana na região.

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Em Ravenna, Avito nomeou o Visigodo Remistus como “Magister Militum“, cargo anteriormente ocupado por Aécio e que desde a morte dele estava vago. Remistus foi o primeiro bárbaro sem qualquer gota de sangue romano a ser nomeado para o posto.

A primeira medida de Avito em Roma foi tentar obter o reconhecimento de seu imperial colega, o Imperador Romano do Oriente, Marciano. As fontes são dúbias sobre se Avito obteve ou não a chancela de Marciano. Um indício de que não houve um reconhecimento é o fato de que, em 456 D.C, Avito exerceu o consulado sozinho (Normalmente, o Imperador de cada metade do Império nomeava um Cônsul, do total de dois que, desde o inicio da República Romana, em 509 A.C, serviam a cada ano), sendo que, para o ano em questão, Marciano nomeou os dois Cônsules, Johannes e Varanes, demonstrando não reconhecer o consulado “sine collega” (sem colega) de Avito.

Era vital para a viabilidade do reinado de Avito, ainda, obter a simpatia do Senado Romano e das tropas italianas; porém, neste particular, muitos consideram que Avito cometeu um grave erro: Ele preferiu nomear para os cargos mais altos apenas os seus conterrâneos galo-romanos.  E ignorar o bairrismo da aristocracia italiana que, desde ainda os tempos de Júlio César, sempre demonstrou acreditar ter direito manifesto a ocupara os cargos mais importantes e sempre se julgou credora das maiores honrarias. Portanto, essa foi, no mínimo, uma decisão imprudente…

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(Os senadores nunca deixaram de ter influência,  e, no final do Império, quando o poder imperial se enfraqueceu, a classe senatorial até recuperou parte do protagonismo nos destinos do Império)

Com efeito, os senadores romanos da Itália podiam não ter, diretamente, nenhum poder militar, mas eram, como já demonstrou A.H.M. Jones, incomensuravelmente ricos, muito mais abastados do que os galo-romanos, ou que os seus colegas orientais, em Constantinopla, onde, aliás, eles continuavam a ter muitos contatos, quando não parentes. O Senado Romano tinha meios para aliciar generais ambiciosos e se aproveitar de quaisquer insatisfações com a política do Imperador e, assim, urdir conspirações para derrubar os monarcas que fossem seus desafetos.

Durante o reinado de Avito, o exército da Itália era controlado por dois generais: Majoriano, um romano de família originária da Ilíria, o tradicional esteio militar de Roma durante o Baixo Império Romano; e Ricimer, que era um guerreiro germânico de estirpe nobre, pois era filho de Rechila, rei dos Suevos, e neto de Wallia, que tinha sido rei dos Visigodos. Após a morte de Wallia, Ricimer teve que deixar a corte, e ele foi se asilar em Roma, onde passou a servir o exército e foi, ainda que parcialmente, “romanizado”.

Enquanto isso, na Lusitânia, os Suevos estavam fazendo incursões nas terras ainda controladas por Roma. Para lidar com essa agressão, Avitus acionou seu amigo Teodorico II, que, agindo nominalmente em nome do Imperador Romano do Ocidente, combateu os Suevos e  conseguiu matar o rei deles, Rechila, em Portocale (atual cidade do Porto).

Militarmente, porém, o problema mais grave era a ameaça dos Vândalos, que, desrespeitando o Tratado de 442 D.C, avançavam sobre o diminuído território romano que restava na África. Avito enviou uma embaixada ao rei Geiserico, advertindo para que este se mantivesse fiel ao Tratado, sob pena de sofrer retaliação militar, uma ameaça que, dificilmente , o imperador romano poderia fazer valer…

Os Vândalos, obviamente, não se intimidaram e, afrontando a advertência romana, ainda submeteram a Sicília a uma onda de ataques; porém, o general Ricimer obteve uma vitória naval próximo à Ilha da Córsega, estancando momentaneamente a agressão.

A QUEDA DE AVITO

A retaliação vândala ao ultimato de Avito provavelmente veio também na forma da interrupção do suprimento de grãos da África, já que, antes mesmo da vitória na Córsega, a população começou a protestar contra a ameaça premente da fome (note-se que, ainda naquele tempo, talvez mais de 100 mil habitantes de Roma dependiam, para comer, do suprimento de trigo gratuito provido pela instituição da “anonna).

Premido pelos protestos, Avito acabou tendo que dispensar seus soldados godos, além de seus aliados galo-romanos, para que estes não sobrecarregassem os já escassos estoques de alimentos. Mais importante, a situação acabou por exaurir completamente as já bem desfalcadas finanças do Estado.

Sem ter dinheiro para pagar as tropas godas pelos relevantes serviços prestados à sua causa, Avito resolveu mandar retirar muitas das várias estátuas de bronze que adornavam os logradouros públicos, as quais eram um dos orgulhos dos romanos, e as vendeu para negociantes de metais, visando obter os recursos necessários para fazer face às despesas mais prementes.

A população se revoltou com a situação e Majoriano e Ricimer, encorajados pela retirada dos Godos de Avito, apoiaram os protestos. Avito, percebendo o perigo que sua posição e a sua própria vida corriam, fugiu de Roma em direção à Arles, capital de sua fiel Gàlia, onde certamente julgava poder encontrar suporte e reagrupar suas forças. Nesse meio tempo, antes ou depois de Avito ter alcançado Arles, se é que ele conseguiu mesmo sair da Itália, Remistus, o seu Magister Militum, foi derrotado e morto em Ravenna, em 17 de setembro de 456 D.C.

Nesse ponto, as fontes variam: uma chega a relatar que Avito de fato conseguiu chegar à Arles, de onde ele até conseguiu enviar um pedido de ajuda a Teodorico II, e depois ele teria voltado para a Itália, onde ele foi cercado e derrotado nas cercanias de Piacenza. Porém, ao invés de ser executado, como era costumeiro,  Avito teria sido obrigado a se ordenar Bispo da cidade, em 17 de outubro de 456 D.C. (numa prática que, posteriormente, se tornaria comum nos conflitos subsequentes até durante a Idade Média). Segundo Gregório de Tours, após ser Avito ordenado Bispo de Piacenza, ao saber que o Senado tencionava mandar executá-lo, ele fez uma viagem até o túmulo de São Juliano, na cidade de Brioude, em sua nativa Auvergne, levando oferendas, mas acabou morrendo no caminho, terminando por ser enterrado aos pés do relicário do referido mártir cristão, na Basílica de Saint Julien, na referida cidade.

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Tudo indica que Avito tenha de fato sido forçado a abdicar em Piacenza por Majoriano e Ricimer, tendo ele sido poupado como um gesto de boa vontade para com a aristocracia galo-romana. Acredito que a informação de que Avito foi nomeado bispo da cidade é verdadeira, pois esse fato seria facilmente verificável  nos registros da Igreja, pelos contemporâneos das fontes que assim relataram.

Gregório de Tours é bem específico sobre o fato de Avito ter morrido no caminho para Brioude, onde, certamente, ele deveria ter muitos partidários, como em toda a Auvergne, e Gregório, inclusive, relata onde o finado imperador foi enterrado. Porém, ao invés de uma peregrinação ao túmulo de Saint Julien, como o famoso historiador da Gália do século VI escreveu, eu acredito que o mais provável é que o objetivo da viagem de Avito tenha sido se refugiar em sua terra natal e, provavelmente, buscar apoio para recuperar o trono, e a citada peregrinação seria apenas um pretexto.

Inclusive, Sidônio Apolinário relata a existência de uma conspiração na Gália, chamada de Marcellana, da qual pouco se sabe, mas que pode ter tido o intuito de restaurar Avito no trono. Porém, na viagem para a Auvergne, Avito deve ter sido alcançado pelas tropas de Majoriano, o sucessor de Avito no posto de Imperador, e de Ricimer, o novo “Magister Militum” e eminência parda do Império pelas próximas duas décadas. Em 457 D.C, em data desconhecida, Avito deve ter sido executado e sepultado no local mencionado por Gregório de Tours.

A Igreja original de Saint Julien em Brioude onde Avito teria sido enterrado não existe mais. O rei visigodo Eurico construiu um basílica no local, por volta de 480 D.C. Esta, por sua vez, foi substituída por uma bela catedral em estilo românico, entre 1060 e 1180 e que ainda existe, onde estão as relíquias de São Juliano. Não há notícia acerca do túmulo de Avito.

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CONCLUSÃO

Com o fim do reinado de Avito falhou a última estratégia coerente que o Império Romano do Ocidente tentou implementar: A aliança com os Visigodos poderia ter preservado, ainda que não integralmente, uma Gália romana, que, junto com a Itália, poderia ter constituído o núcleo de um Império Romano viável no Ocidente. É fato que faltou sensibilidade a Avito para seduzira aristocracia senatorial italiana para esse projeto e, para piorar as coisas, o favorecimento dos seus conterrâneos gauleses para a nomeação dos cargos teve o efeito contrário..

Mas, no final, o egoísmo e cegueira dos senadores italianos foram mais relevantes para a catástrofe. Eles sabotaram quase todos os bons comandantes do Exército do Ocidente, como Estílico e Aécio, não cooperaram com Constantinopla quando mais deviam tê-lo feito e, ao contrário de seus colegas galo-romanos, jamais se empenharam diretamente na defesa do Império.

No crepúsculo final do Império, foram os galo-romanos os últimos romanos a se renderem, protagonizando uma resistência heroica aos bárbaros. O filho de Avito, Eccidius Avitus combateu os novamente hostis Visigodos até o fim, chegando a, inclusive, levantar um cerco à Clermont comandando apenas 18 cavaleiros, por volta de 474 D.C.

Segundo Thomas Hodgkin, Avito

“foi a pedra fundamental de uma grande e importante combinação política, uma combinação que, tivesse ela durado, certamente teria mudado a face da Europa e poderia ter antecipado o Império de Carlos Magno, favorecendo uma nação mais nobre do que a dos Francos, e sem a interposição de três séculos de barbarismo”.

Em nosso próximo artigo, falaremos dos possíveis laços sanguíneos entre a atual nobreza europeia e os senadores galo-romanos, incluindo a família de Avito.