PLÍNIO, O VELHO

PLÍNIO, O VELHO

#Plínio #Pliny

A erupção do vulcão Vesúvio, em 24 de agosto de 79 D.C,  foi uma tragédia que ceifou milhares de vidas e sepultou as cidades de Pompéia, Herculano, Oplontis e Stabiae. E, dentre as vítimas, a mais famosa foi Gaius Plinius Secundus, mais conhecido como Plínio, o Velho, que morreu no dia seguinte à erupção.

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Plínio, o Velho nasceu por volta de 23 D.C, na cidade de Como. Ele era filho de um integrante da classe Equestre (o segundo escalão da nobreza romana), de nome Gaius Plinius Celer e de sua esposa, Marcella.  Nota: A cidade de Como foi fundada por Júlio César, em 59 A.C, com o objetivo de vigiar e conter incursões de tribos alpinas ainda não subjugadas por Roma.

Durante a sua adolescência e juventude, Plínio foi morar em Roma para estudar Direito. Concluídos os estudos, ele ingressou, em 46 D.C, com a idade de 23 anos, no Exército Romano, como era costume entre os jovens da aristocracia, no posto de oficial, servindo na Germânia. O tempo que ele passou nesta província ajudou Plínio a escrever, posteriormente, uma importante obra de história sobre as guerras entre os Romanos e os Germanos. O famoso historiador Tácito utilizaria esta obra de Plínio como fonte para o seu livro “Germania“, o  qual sobreviveu até os nossos dias.

Após o início do reinado de Nero, Plínio voltou à Roma e, ao que se sabe, ele não ocupou nenhum posto no serviço público, dedicando-se à advocacia e aos estudos literários e historiográficos. Ele, então, trabalhou em uma biografia sobre seu comandante na Germânia, Pomponius Secundus, escreveu seus vinte volumes sobre a História das Guerras Germânicas, além de um manual sobre retórica (Studiosus) e, nos anos finais do reinado do referido imperador, oito livros intitulados “Dubii Sermonis“. Somente estes últimos teriam sido publicados enquanto Nero era imperador, o que foi considerado uma prova de coragem, pois o insano monarca tinha fama de perseguir intelectuais que se destacassem.

Quando Vespasiano assumiu o trono, vencedor da guerra civil decorrente da rebelião que causou o suicídio de Nero, e também ele, um equestre nascido em uma pequena cidade italiana, o novo imperador certamente encontrou em Plínio um homem confiável e não conectado ao antigo regime, mas que gozava de prestígio intelectual e tinha experiência militar. Assim, durante o reinado de Vespasiano, Plínio exerceu vários cargos públicos, sobrelevando os de Procurator (ou governador) da Gália Narbonense, da África, da Hispânia e da Gália Belgica (embora não haja certeza quanto a segunda e a última). Consta aaté que Vespasiano costumava receber Plínio à noite para despachar, o que dá provas da intimidade que ele tinha com o imperador.

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O exercício de cargos em variadas regiões do Império Romano também contribuiu para que Plínio escrevesse o seu último e mais famoso trabalho (e o único que chegou até nós): a sua “História Natural“, na verdade, uma verdadeira Enciclopédia em 37 livros, compilando a maior parte do conhecimento do mundo romano sobre os mais variados assuntos, especialmente botânica, zoologia, astronomia, geologia, mineralogia, agricultura e indústria. Muitas das técnicas e equipamentos ali descritos por Plínio foram confirmados pela arqueologia, tais como a extração mineral de ouro pelo processo hidráulico da lavação e o uso de moinhos hidráulicos. Inclusive obras-primas da arte clássica, descritas por Plínio, foram encontradas séculos depois, como é o caso da famosa escultura de Lacoonte e seus Filhos, atualmente em exibição nos Museus Vaticanos, em Roma.

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Em 79 D.C, Plínio foi nomeado por Vespasiano como Comandante da Frota Imperial baseada em Miseno, uma cidade situada na Baía de Nápoles. Em 24 de agosto daquele ano, ele testemunhou a erupção do Vesúvio, em 24 de agosto, com muito interesse, como se esperaria de um naturalista. Todavia, ele logo recebeu em sua casa uma mensagem de sua amiga Rectina, pedindo-lhe que a resgatasse, bem como ao amigo Pomponianus e aos habitantes das cidades costeiras ao sopé do vulcão. Naquela ocasião, estava hospedado com Plínio, o seu sobrinho e herdeiro, Gaius Plinius Caecilius Secundus, que ficaria conhecido como Plínio, o Jovem. de 18 anos de idade.

Plínio, o Velho, após ordenar que a frota rumasse para resgatar os habitantes de outras cidades em perigo, zarpou ele mesmo em um pequeno navio mais veloz para resgatar Rectina e outras pessoas ameaçadas na cidade de Stabiae.

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Efetivamente, Plínio conseguiu desembarcar em Stabiae e encontrar Pomponianus. Porém, os mesmos ventos que haviam impulsionado Plínio rapidamente até Stabiae,  agora impediam o navio de voltar. Plínio, então, resolveu esperar os ventos mudarem, mas a contínua chuva de pedra-pomes lançada do vulcão acabou obrigando o grupo a deixar a casa., já no dia seguinte, 25 de agosto de 79 D.C.

Plínio, o Velho, que era obeso e sofria de problemas respiratórios, acabou não conseguindo acompanhar os outros e, provavelmente, desmaiou e foi deixado  para trás pelo grupo, que deve tê-lo julgado morto. O resto do grupo, ou ao menos alguns deles, conseguiram escapar e relataram o que aconteceu a Plínio, o Jovem. Três dias depois, quando a fumaça e as cinzas dissiparam, o corpo de Plinio, o Velho foi encontrado, intacto e dando a impressão de estar apenas adormecido.

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A erupção do Vesúvio em 79 D.C e a morte de Plínio, o Velho, foram minuciosamente narradas por seu sobrinho Plínio, o Jovem, em uma carta escrita ao historiador Tácito. Por isso, o tipo de erupção vulcânica piroplástica relatado por ele é chamada até hoje de “erupção pliniana”.

Nota: Em 2018, escavações na Região V ( Regio V) de Pompéia encontraram uma inscrição feita a carvão na parede de uma residência, após retirarem a grande quantidade de detritos vulcânicos que cobria o aposento, que via a luz do sol após mais de 1900 anos. A inscrição em latim dizia : “17 de outubro”(vide foto abaixo). Os estudiosos acreditam que, tendo em vista as circunstâncias, o grafito deve ter sido feito poucos dias antes da erupção do Vesúvio, o que comprovaria a tese, já defendida há algum tempo, de que a catástrofe ocorreu em outubro ou novembro e não em agosto de 79 D.C., o que também parece ser reforçado pelos restos de plantas carbonizados e pelas vestígios das vestes das vítimas da tragedia que foram encontrados, apontando para uma data mais próxima ao outono.

BATALHA DE CANAS – O DIA MAIS SANGRENTO DA HISTÓRIA

BATALHA DE CANAS – O DIA MAIS SANGRENTO DA HISTÓRIA

#Canas #Cannae

Em 02 de agosto de 216 A.C., quando o sol se pôs detrás do rio Aufidus, na fértil planície da região da Apúlia, próximo à cidadezinha de Canas (Cannae), no sul da península italiana, 80 mil cadáveres jaziam sem vida.

Eram os corpos de cerca de 70 mil soldados e aliados romanos, aos quais se somavam pouco mais de 6 mil soldados africanos, celtiberos e gauleses, estes integrantes da força expedicionária comandada pelo grande general cartaginês Aníbal Barca.

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(Acredita-se que este busto antigo, encontrado em Cápua, seja de Aníbal)

Para se ter uma ideia do tamanho dessa carnificina- talvez a maior jamais ocorrida em um único dia em qualquer guerra- estima-se, por exemplo, que 50 mil civis e soldados alemães morreram no Bombardeio de Dresden, em abril de 1945, realizado por mil bombardeiros ingleses. Já em 6 de agosto de 1945, em Hiroshima, a estimativa do número de mortos varia entre 22 mil e 80 mil vítimas, e o maior número de pessoas mortas proposto para Nagasaki, três dias depois também devastada por uma bomba atômica norte-americana, é de 70 mil vítimas. No primeiro dia da sangrenta Batalha do Somme, na 1ª Guerra Mundial, em 1916, o número estimado de soldados mortos é de 35 mil. E, por sua vez, na Batalha de Borodino, travada entre o exército de Napoleão e a Rússia Czarista, o maior número estimado de baixas é de 45 mil, entre mortos e feridos.

Prelúdio

Após a Primeira Guerra Púnica, que durou de 264 A.C a 241 A.C., Roma havia conseguido deter a expansão de Cartago pela Sicília e pelo sul da Itália, triunfo em boa parte conseguido após ela construir, pela primeira vez em sua história, uma marinha, derrotando a rival no mar. Os mais de 20 anos de conflito, e o tratado de paz assinado com os romanos, não impediram que Cartago continuasse a prosperar e expandir suas colônias e esfera de influência pela Península Ibérica, levando a atritos com aliados de Roma, especialmente a cidade ibérica de Sagunto, que, em 219 A.C., acabou sendo alvo de um ataque que deflagraria um novo conflito.

O grande general Aníbal Barca, filho de Amílcar Barca, o comandante cartaginês durante a Primeira Guerra Púnica, então, devisou a estratégia de atacar diretamente Roma no coração do território que ela controlava na Itália, ao invés de combater os exércitos romanos que se encontravam na Espanha, foco das presentes disputas.

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(Shekel, moeda cartaginesa, com a efígie de Amílcar Barca)

Em uma manobra surpreendente e ousada, Aníbal conseguiu evadir as tropas romanas que se dirigiam à Espanha, cruzando a França e, com seu exército de cartagineses e aliados celtiberos e celtas, incluindo uma unidade móvel “blindada” integrada por elefantes treinados para a guerra, cruzou as escarpadas montanhas dos Alpes, invadindo a Itália por terra, com uma rapidez inesperada, sendo que muitos supunham que o ataque se daria por via marítima.

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Mestre na Arte da Guerra, Aníbal derrotou os exércitos consulares que os romanos confiantemente enviaram para derrotá-lo no norte da Itália, na Batalha de Trébia e na Batalha do Lago Trasimeno,  sendo que esta foi uma emboscada terrível na qual os romanos sofreram 30 mil baixas, entre mortos e capturados.

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A gravidade da situação militar levou o Senado Romano a acionar um dispositivo constitucional que, em situações extremas, permitia a nomeação de um Ditador com poderes extraordinários, tendo sido designado o Cônsul Quinto Fábio Máximo.

O Ditador Fábio entendeu que o melhor para os romanos, em razão do quadro em que eles se encontravam, era adotar uma tática de guerrilha, evitando engajamentos decisivos em batalhas campais, com o objetivo de diminuir, paulatinamente, os efetivos de Aníbal, tendo em vista o contingente mais reduzido de que, então, os romanos dispunham na Itália, depois da perda de vários exércitos consulares, e, sobretudo, o fato de que Aníbal estava longe de suas bases de suprimentos na Espanha e na África. Essa estratégia, que, aliás, seria repetida com sucesso pelos russos contra Napoleão e contra Hitler, até hoje é chamada de “estratégia fabiana” e valeu a Fábio o cognome, isto é, o apelido, de Fábio Cuntator, ou seja, o “Contemporizador”.

Durante dois anos, a estratégia fabiana foi adotada com bons resultados pelos romanos. Porém, quando Aníbal chegou ao sul da Itália, algumas cidades aliadas começaram a desertar para o lado dos cartagineses, fato que, como ele tencionava, acabaria por obrigar os romanos a uma batalha campal.

A estratégia de Fábio era eficiente, mas não era popular…Os romanos se orgulhavam do seu exército, com o qual haviam anexado praticamente a Itália inteira, e a questão virou política. Nas eleições de 216 A.C., foram eleitos os cônsules Caio Terêncio Varrão (Varro) e Lúcio Emílio Paulo. Varrão era de uma família importante, mas de origem plebeia, e Emílio Paulo era um aristocrata da tradicional elite senatorial. O primeiro, era um ardoroso crítico da estratégia fabiana, e defendia um ataque direto ao exército de Aníbal; já o outro, um pouco mais cauteloso, propunha apenas um pouco mais de ousadia, sem abandonar o que vinha dando certo.

Por outro lado, Aníbal não conseguiu convencer as cidades mais importantes do sul, como Cápua, a abandonarem a aliança com Roma, como ele pretendia, visando deixar os romanos isolados e conseguir, ele mesmo, uma base mais estável na Península. Ele então, planejou uma ação mais contundente para atrair os romanos: tomar o importante depósito romano de suprimentos na cidade de Canas, algo que dificultaria muito as ações do exército romano no sul da Itália.

Quando a notícia da perda de Canas chegou a Roma, os Cônsules decidiram que era chegada a hora de um ataque combinado ao exército cartaginês. O Senado autorizou o recrutamento de forças que dobravam os exércitos consulares, totalizando uma força entre 90 e 100 mil homens, configurando, até então, o maior exército já reunido pelos romanos em toda a sua história!

Comandados por Varrão e Paulo, que se revezavam periodicamente no comando, o enorme exército, após uma marcha de 2 dias, chegou até as vizinhanças de Canas, acampando a uns 10 km do acampamento cartaginês (e, no final desta marcha, os romanos chegaram a derrotar em uma escaramuça alguns cartagineses). Consta que, admirado ao ver o tamanho do exército romano, Gisco, um oficial cartaginês, teria comentado com Aníbal que o exército romano era muito mais numeroso do que o cartaginês, ao que o general teria respondido:

“Outra coisa que você não notou, e essa é ainda mais impressionante, é que, embora haja entre eles tantos soldados, nenhum deles se chama Gisco”.

Paulo, nos dois dias em que ele foi o comandante-em-chefe do exército combinado, manteve-se acampado. Os romanos haviam decidido estabelecer um pequeno acampamento suplementar na outra margem do rio Aufidus, para assegurar o suprimento de água. No terceiro dia, 02 de agosto de 216 A.C., Varrão assumiu o comando e Aníbal, percebendo a oportunidade (parece que ele tinha sido informado da divergência de opiniões entre os dois romanos), mandou um destacamento de cavalaria atacar o acampamento menor.

A Batalha

Varrão mordeu a isca e ordenou que o exército saísse do acampamento para a planície, desdobrando-se em ordem de batalha. Ele certamente estava confiante, pois em suas vitórias anteriores, Aníbal tinha se aproveitado ou de emboscadas ou de um terreno difícil. Mas, desta vez, a batalha ocorreria em campo aberto, onde os romanos se julgavam imbatíveis…

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(Os soldados de uma legião romana, da esquerda para a direita: 1- Hastati, 2-Velites, 3-Triarii, 4- Principes)

Aníbal, como todo grande general, já tinha estudado completamente o terreno onde escolhera oferecer batalha. Ele escolheu uma posição na qual, ao longo da luta, os romanos ficariam de frente para o sol escaldante do verão italiano, e contra o vento, que poderia jogar poeira e atrapalhar o avanço inimigo. Além disso, ele sabia como os romanos lutavam, que, aliás, não diferia muito da tática padrão dos exércitos helenísticos: tentar quebrar a linha do adversário e, então, envolver as formações desconjuntadas.

Nota: As batalhas de infantaria da Antiguidade, sobretudo as dos gregos e macedônios, até então ( as quais influenciaram o resto do mundo mediterrâneo), caracterizavam-se pelo choque de linhas cerradas de infantaria, armadas com escudos e lanças, variando a profundidade e a extensão dessas linhas de soldados, sempre visando a empurrar o adversário para trás, até que essa linha cedesse em algum ponto, onde então se dava uma penetração que levaria ao esfacelamento dassa linha e ao consequente envolvimento dos pedaços cercados. Somente aí é que se começava a infligir as maiores baixas, já que, por si só, a pressão frontal contra centenas ou milhares soldados de capacete e armadura, protegidos por uma barreira de escudos, lado a lado, causava muito poucas mortes. Os massacres só ocorriam quando um exército era completamente cercado e, sobretudo, quando os soldados debandavam, dando as costas para o inimigo.

Percebendo que os romanos planejavam fazer uso do seu número muito maior de tropas, Aníbal escolheu um terreno onde o exército romano não poderia se espalhar muito, já que as suas linhas, caso inteiramente desdobradas, tinham a capacidade de ficar muito mais extensas do que as dos cartagineses. Por isso, ele colocou o exército cartaginês perto do rio, cobrindo o seu flanco esquerdo, sendo que, no lado direito, um terreno mais elevado dificultava que ele fosse atacado por ali.

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(O sítio da Batalha de Canas, com a coluna in memoriam que foi erguida já antiguidade. O rio Aufidus (atual Ofanto) mudou o seu curso ao longo de 2 milênios, mas a elevação é a mesma descrita pelos historiadores. Na coluna foi gravada uma citação de Tito Lívio sobre a Batalha: “Nenhuma outra nação poderia ter sofrido tamanhos desastres e não ter sido destruída.“)

Por outro lado, Aníbal optou por adelgaçar (tornar mais fina) a profundidade da sua linha, que era a única maneira pela qual ele poderia desdobrar a sua linha de frente em uma extensão igual dos romanos. Aníbal compreendia que os romanos também não esgarçariam demais a linha deles, já que, pela lógica das táticas vigentes, acima explicadas, eles deveriam concentrar o seu peso no centro da linha dos Cartagineses.

Além disso, Aníbal sabia que os romanos eram tradicionalmente fracos em cavalaria – enquanto que ele dispunha de dez mil cavaleiros africanos, ibéricos e gauleses, os romanos somente contavam com quatro mil cavaleiros. Assim, ele poderia proteger melhor os seus flancos com a sua cavalaria, e impedir que os romanos o envolvessem valendo-se de sua infantaria bem maior, ou, melhor ainda, ao dispersar a cavalaria romana, Aníbal poderia, com a sua própria, tentar atacar a infantaria romana pelos flancos e pela retaguarda. No comando da cavalaria númida, no flanco direito da linha cartaginesa, estava Asdrúbal, irmão de Aníbal, acompanhado de Maharbal, e, no esquerdo, o cartaginês Hanno.

Seguindo o plano, e, aí, mais do que em todo resto, reside o brilhantismo de Aníbal, ele planejou que o seu centro deveria ceder terreno aos atacantes inimigos, embora não a ponto de se dissolver com a pressão exercida pelo avanço romano. Para isso, Aníbal cuidadosamente escolheu a posição que cada grupo do seu exército multinacional deveria ocupar: na vanguarda, com a função de causar o máximo de estrago possível, antes do contato com o inimigo, ficaram os fundibulários das ilhas baleares, mestres no uso da funda. No centro da formação, ele colocou os ibéricos e os gauleses, teoricamente os integrantes menos confiáveis das tropas e, portanto, para melhor poder comandar e vigiar esse sensível setor, Aníbal escolheu para si mesmo esta posição na ordem de batalha. Já nas alas esquerda e direita do seu exército, Aníbal posicionou a leal infantaria recrutada no norte da África, território de Cartago, já experimentada em batalha,  e em quem ele tinha inteira confiança..

Era, portanto, um plano totalmente não-convencional para a época, em que as melhores tropas estavam nos flancos, e não no centro da formação.

O historiador grego Políbio assim descreve  o início da batalha:

“Depois de dispor assim todo o seu exército em uma linha reta, ele levou os regimentos de hispânicos e celtas e os avançou, deixando o resto deles em contato com estes, mas gradualmente recuando, de modo a produzir um formato de lua-crescente, a linha dos regimentos de flanco tornando-se mais delgada enquanto era esticada, sendo o seu propósito empregar os africanos como uma força de reserva e iniciar a ação com os espanhóis e celtas”.

Note-se que, para alguns estudiosos, que fazem uma ressalva à descrição de Políbio, inicialmente, a intenção de Aníbal seria apenas a de segurar o avanço dos romanos ao máximo, a fim de aguardar que sua cavalaria subjugasse a romana e viesse em seu auxílio. Por isso, os flancos de infantaria africana teriam sido dispostos diagonalmente, em formação de esquadrão.

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Seja como for, o fato é que Aníbal controlou magistralmente o desenvolvimento da luta no centro da linha cartaginesa, comandando os celtas e ibéricos em um recuo ordenado. Devido a isso, o centro romano começou a avançar mais e mais para o centro da meia-lua cartaginesa, sem que, provavelmente atrapalhados pelo sol e pelo vento que soprava a poeira no rosto dos romanos, estes percebessem que, na verdade estavam sendo cercados pelas alas esquerda e direita da infantaria africana de Aníbal. Na verdade, Varrão, vendo o recuo do centro cartaginês,  realmente acreditou que os inimigos estavam prestes a serem derrotados e ordenou que o avanço romano se intensificasse.

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Enquanto isso, a ala esquerda das cavalarias ibérica e celta cartaginesa conseguiu fazer a romana fugir e se dirigiu para apoiar a sua ala direita, númida, que ainda lutava contra sua contraparte inimiga romana. Em pouco tempo, a cavalaria romana inteira debandou, sendo perseguida pela cartaginesa.

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Agora, o avanço romano no centro tinha tal intensidade, que os soldados romanos da frente começaram a ser espremidos pelos de trás, faltando-lhes espaço até para desembainhar seus gládios. E os flancos romanos vulneráveis agora começavam a ser atacados pelas alas direita e esquerda da infantaria africana, obedecendo às ordens de Aníbal. Para piorar, algum tempo depois, a vitoriosa cavalaria cartaginesa retornou para o campo de batalha e começou a atacar os romanos pela retaguarda. Como resultado, os romanos ficaram completamente cercados, tendo a infantaria ibérica e celta pela frente, os africanos pelos lados e a cavalaria inimiga por trás…

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Foi um clássico movimento de pinças, também conhecido como “duplo envelopamento” que até hoje, dois mil e duzentos anos depois, é obrigatoriamente estudado em qualquer academia militar que se preze no planeta.

Ainda segundo a descrição de Políbio, assim os romanos foram derrotados:

“enquanto as suas fileiras eram continuamente eliminadas, e os sobreviventes eram forçados a recuar e se amontoar, todos eles foram, no final, mortos onde estavam”.

E foi assim que o historiador romano Tito Lívio descreveu o estado do campo de batalha, em seus momentos finais:

“Tantos milhares de romanos morriam…Alguns, incomodados pelos seus ferimentos,  e beliscados pelo frio da manhã, despertaram, e, enquanto eles se erguiam, cobertos de sangue, do meio das pilhas de mortos, foram liquidados pelo inimigo. Outros, foram encontrados com suas cabeças enfiadas na terra, que eles escavaram, tendo, assim, segundo parece, feito buracos para eles, nos quais se sufocaram”.

Dos cerca de 86 mil romanos, somente entre 10 mil e 14 mil romanos conseguiram escapar. Paulo morreu na batalha, mas Varrão conseguiu fugir. Do exército de Aníbal, estimado em cerca de 50 mil homens, entre 8 mil e 5700 morreram. Apesar dos historiadores romanos posteriormente terem acusado Varrão de ser o responsável pela tragédia romana, mesmo assim ele foi recebido com respeito pelo Senado, que inclusive renovou o seu comando.

Epílogo

Após a batalha, muitos esperavam que Aníbal iria imediatamente marchar contra Roma. Segundo Tito Lívio, Maharbal teria chegado a demandar que o general fizesse exatamente isso, tendo Aníbal dito que iria ponderar o assunto e, segundo consta, Maharbal teria afirmado:

“Em verdade, os deuses não conferem tudo a uma só pessoa… pois, Aníbal, você sabe como vencer, mas não sabe como fazer uso de sua vitória”.

Em verdade, contudo, fazendo-se uma análise fria, Aníbal tomou a decisão militarmente mais correta: Roma era uma cidade que na época deveria ter cerca de 250 mil habitantes, cercada de muralhas. E, ao contrário de Cartago, ela não era mais apenas uma cidade-estado, mas liderava o que, praticamente, era uma confederação de cidades italianas, cujo poder de recrutamento não estava esgotado. Além do mais, ainda havia um exército romano na Sicília, e outro na Espanha, além dos 12 mil romanos que haviam sobrevivido à batalha, o que correspondia a cerca de duas legiões. Portanto, um cerco a Roma não seria nada fácil, e o exército de Aníbal se veria na perigosa situação de atacar uma cidade murada com tropas inimigas às suas costas. Ele preferiu, assim, mandar uma embaixada à Roma,  que foi liderada por Carthalo, para negociar um tratado de paz com termos moderados.

Ao contrário do que Aníbal esperava, o Senado, apesar da consternação geral com a esmagadora derrota em Canas, recusou a paz e determinou medidas extremas para lidar com a catástrofe: decretou-se a mobilização total de todos os cidadãos, incluindo, excepcionalmente, o recrutamento de camponeses sem terra, e, em um ato extremo, até de milhares de escravos. Foi proibida a utilização da palavra “paz” e, segundo consta, temporariamente, até alguns sacrifícios humanos, que eram abominados pela opinião pública romana, teriam sido admitidos para obter a boa vontade dos deuses.

Na verdade, com a vitória em Canas, Aníbal efetivamente esteve muito perto de obter o seu maior ganho estratégico planejado: separar Roma de seus aliados italianos. Por exemplo, as importantes cidades de Cumas e Tarento mudaram de lado e aderiram aos cartagineses. E o importante reino de Siracusa, na Sicília, também aliou-se a Cartago. O resultado de Canas também encorajou o rei Filipe V, da Macedônia a atacar os romanos na Ilíria, abrindo um front que colocava Roma em uma péssima situação estratégica (Primeira Guerra Macedônica, da qual tratamos em nosso post sobre a Batalha de Pydna).

Concluindo, agora, somente a vontade férrea do Senado, o patriotismo dos romanos, e a futura emergência de uma nova liderança militar romana, – Públio Cornélio Cipião–  cujo gênio era comparável ao de Aníbal, salvariam Roma da derrota total.

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MORRE O IMPERADOR TRAJANO

MORRE O IMPERADOR TRAJANO

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Em 8 de agosto de 117 D.C., morre, em Selinus, na Cilícia, o imperador romano Trajano, quando ele retornava de uma exaustiva, mas bem sucedida campanha no Oriente, na qual  o Exército Romano derrotou o Império Parta e incorporou a Mesopotâmia como província.

Marco Úlpio Trajano nasceu em Italica (próximo à atual Sevilha), na Hispânia, em 53 D.C. O pai dele, que tinha o mesmo nome, foi nomeado Cônsul no reinado do imperador Vespasiano.

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Trajano seguiu a carreira militar com sucesso e, no reinado do imperador Domiciano, quando era legado na Espanha, ele teve um papel importante nas ações para debelar uma conspiração contra o referido imperador, que, reconhecendo o mérito, a partir de então nomeou Trajano para vários comandos importantes.

Quando Domiciano foi assassinado, em 96 D.C., encerrando a dinastia dos Flávios, o novo imperador escolhido pelo Senado, o velho senador Nerva, desde o início precisou do apoio do Exército para conter a insubordinação da Guarda Pretoriana em Roma, e, como resultado, ele teve que adotar Trajano como herdeiro, sendo sucedido por ele, em 98 D.C., após falecer sem deixar filhos.

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O reinado de Trajano foi caracterizado, no plano externo, por uma série de campanhas militares que resultaram em importantes conquistas de território. De fato, durante o Principado de Trajano, o Império Romano atingiria a sua maior extensão geográfica. A conquista da Dácia, que se apresentava como um perigoso Estado belicoso no Danúbio, e o espólio dali resultante, permitiu um grande afluxo de ouro e prata na economia romana. Já a conquista da Pártia ocidental eliminou temporariamente um ameaçador império rival no Oriente e anexou ao Estado Romano as províncias da Armênia e da Mesopotâmia (esta teria vida curta e seria abandonada por seu sucessor, Adriano). Antes disso, o Reino dos Nabateus havia sido anexado, tornando-se uma província com o nome de Arábia Petra.

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No plano interno, o reinado se notabilizou pelas boas relações do Palácio com o Senado Romano, cujos membros foram prestigiados e apontados para importantes comandos militares. Como já dito, o ouro e a prata da Dácia  trouxe prosperidade econômica e permitiu a construção de grandes monumentos em Roma, entre os quais se destacam o Fórum de Trajano – o maior dos fóruns imperiais, do qual faziam parte a Basílica Úlpia e a Coluna de Trajano (cujos relevos narram a campanha da Dácia), bem como as Termas de Trajano. Grande obras públicas também foram construídas nas províncias, especialmente estradas e pontes. Trajano instituiu um programa de apoio aos órfãos e crianças pobres da Itália, chamado de “Alimenta“, fornecendo aos menores carentes comida e ensino subsidiado pela Estado.

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Por todas essas realizações, Trajano recebeu do Senado Romano o título de “Optimus Princeps” (Melhor Príncipe). Os historiadores sempre o incluíram como um dos maiores representantes da categoria dos “Bons Imperadores”.

Trajano era casado com a imperatriz Plotina, mas eles não tiveram filhos. Por isso, Trajano escolheu como sucessor seu parente Adriano, que era filho de seu primo e conterrâneo Públio Élio Adriano Afer, que morreu quando Adriano tinha 10 anos de idade, deixando Trajano como tutor do menino.

Ele morreu de um edema,  aos 63 anos de idade, sofrendo, no último ano de sua vida um quadro de declínio em sua saúde, que pode ser constatado em suas últimas estátuas.

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Voltaremos a falar de Trajano e do seu reinado, fazendo um artigo mais completo, como os leitores já estão acostumados, quando de seu aniversário de nascimento ou de aclamação.