ALEXANDRE, O ÚLTIMO SEVERO E A CRISE DO SÉCULO III

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Em 22 de março de 235 D.C., o imperador romano Severo Alexandre, encontrava-se na base militar romana de  Castrum Moguntiatium (que deu origem à moderna cidade alemã de Mainz, ou Mogúncia, seu nome em português) quando um motim dos soldados da Legião XII Primigenia estourou.

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As tropas recusaram-se a obedecer aos apelos do imperador para que combatessem as tropas lideradas pelo general Maximino Trácio, comandante da Legião IV Italica, as quais tinham aclamado Maximino imperador.

Reunidos no centro do Quartel, os soldados começaram a ficar muito agressivos, acusando Severo Alexandre de ser um covarde dominado pela mãe avarenta e comparando-o ao desprezível Elagábalo, seu primo e antecessor no trono.

Os amotinados, ato contínuo, demandaram que os demais soldados abandonassem “o tímido menininho amarrado à barra da saia da mãe“,  fazendo com que toda a soldadesca lhe desse as costas, deixando o imperador sozinho no praetorium.

Severo Alexandre, aterrorizado, correu para a tenda de sua mãe, a imperatriz Júlia Maméia (Julia Mammaea), que o acompanhava, como sempre, naquela campanha contra os bárbaros Alamanos.

Tinha sido Júlia Maméia quem havia aconselhado Alexandre a oferecer aos bárbaros uma boa soma em dinheiro para que eles desistissem de guerrear contra os Romanos.

E esse foi justamente o estopim da revolta das legiões , pois os soldados alegavam que isso era uma grande desonra para o Império Romano (talvez eles esperassem que o dinheiro fosse dado a eles como donativo pela vitória).

No interior da tenda da mãe, Severo Alexandre chorou e recriminou a mãe pelos seus infortúnios. Ele sabia que estava acabado. Por isso, quando um grupo de soldados seguiu o imperador e invadiu a tenda de Júlia Maméia, Alexandre, resignadamente, ofereceu o pescoço para que eles o executassem. Ele morreu aos 26 anos de idade e treze de reinado. Na mesma ocasião, os soldados também mataram Júlia.

Marcus Julius Gessius Bassianus Alexianus(Severo Alexandre) nasceu em 1º de outubro de 208 D.C, na cidade de Arca Caesarea , na província romana da Síria Fenícia (atual Arqa, no Líbano), filho de  Marcus Julius Gessius Marcianus e de Julia Avita Mammaea (Júlia Maméia).

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O pai de Severo Alexandre era um cidadão romano de origem síria que pertencia à classe Equestre, o segundo nível da nobreza romana e parece ter exercido alguns cargos públicos.

Em algum momento depois do ano 200 D.C., Marcus Julius Gessius Marcianus casou-se com Júlia Maméia, que era sobrinha da poderosa imperatriz Júlia Domna, casada com o imperador Septímio Severo. Durante o reinado do marido, Júlia Domna receberia o título de “Mãe dos Quartéis, do Senado e da Pátria“.

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(busto de Júlia Maméia)

Júlia Maméia e sua irmã, Júlia Soêmia, eram filhas de Júlia Maesa, irmã da imperatriz Júlia Domna, que por sua vez eram filhas de  Julius Bassianus, sumo-sacerdote do Templo do deus Elagábalo (El-Gabal), situado em Emesa (a moderna Homs), na Província da  Síria, e integrante da dinastia dos Sempseramidas, que havia séculos governavam a referida cidade, a qual, durante muito tempo, havia sido a próspera capital de um reino-cliente de Roma,  até a sua anexação pelo Império Romano.

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(Estátua de Júlia Soêmia)

Portanto, a família de Júlia Maméia era riquíssima e, quando o imperador Caracala, filho e sucessor de Septímio Severo morreu, assassinado por ordens de Macrino, sua mãe Júlia Maesa e sua irmã, Júlia Soêmia, valeram-se dessa fortuna e de seu poder e prestígio na importante província da Síria para fomentar a rebelião que em pouco tempo derrubou Macrino. 

As tropas da Síria aclamaram o jovem filho de Júlia Soêmia, Elagábalo, de apenas 15 anos de idade, como imperador, em 16 de maio de 218 D.C. Macrino seria derrotado em junho de 218 D.C. e, assim,  Elagábalo foi reconhecido imperador pelo Senado.

A mãe do novo imperador, Júlia Soêmia, e  a sua tia, Júlia Maesa, foram declaradas “Augustas”. Mais surpreendente, as duas seriam, um pouco mais tarde, as primeiras e únicas mulheres a serem admitidas no Senado Romano. E Júlia Maesa ainda receberia o título de “Mãe do Senado”.

O reinado de Elagábalo seria marcado pelos escândalos e pela repulsa que a sua condição de sumo-sacerdote de El-Gabal, a sua aparência andrógina e o seu comportamento desregrado provocaram não apenas na elite senatorial, mas nas próprias tropas.

Em algum momento, Júlia Maesa percebeu que a crescente rejeição a Elagábalo pela sociedade romana, e, sobretudo, pelos militares romanos, colocava em perigo a própria posição da família. Ela também percebeu que os reiterados excessos sexuais dele eram encorajados pelo fervor religioso que com que ele e sua filha, Júlia Soêmia, a mãe do imperador, se dedicavam ao culto a El-Gabal.

Júlia Maesa então aproximou-se de sua outra filha, Júlia Maméia, que também tinha um filho, Marcus Julius Gessius Bassianus Alexianus (Severo Alexandre), então com 13 anos de idade, primo do imperador.

A influente Júlia Maesa conseguiu persuadir Elagábalo a nomear o seu primo como seu herdeiro, dando-lhe o título de “César”, passando a adotar o nome de Caesar Marcus Aurelius Alexander, em 221 D.C, Severo Alexandre seria Cônsul junto com Elagábalo. As duas mulheres também devem ter sido as responsáveis por espalhar o boato de que Alexandre seria também filho ilegítimo de Caracala, o que lhe granjearia a simpatia dos soldados.

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(estátua de Júlia Maesa)

Contudo, percebendo o entusiasmo que a nomeação de  Severo Alexandre provocou nos soldados da Guarda Pretoriana, já muito incomodados com os seus excessos, Elagábalo resolveu anular sua decisão e revogar os títulos concedidos ao seu primo. Contudo, essa decisão fez o  público e as tropas se alvoraçarem temendo pela vida do menino.

Os Pretorianos demandaram a presença de Elagábalo e de Severo Alexandre no Castra Pretoria, devido aos rumores de que Alexandre pudesse ter sido assassinado. É possível até que o motim tenha sido instigado por Júlia Maesa e Júlia Maméia. Quando Elagábalo chegou, começou um tumulto que degenerou no assassinato dele e de sua mãe, Júlia Soêmia, que depois tiveram os corpos arrastados pelas ruas, em 11 de março de 222 D.C.

Em 13 de março de 222 D.C., Severo Alexandre foi aclamado oficialmente imperador romano, adotando o nome de Marcus Aurelius Severus Alexander Augustus, nome escolhido para enfatizar a conexão dinástica com Septímio Severo e Caracala.

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Como o  imperador Severo Alexandre tinha  apenas 13 anos de idade, quem de fato detinha as rédeas do poder era sua mãe, Júlia Maméia.

Júlia Maesa e Júlia Maméia tinham testemunhado a catástrofe que a coroação de um imperador muito jovem, completamente despreparado e de comportamento indecoroso, como foi o seu seu sobrinho Elagábalo, representava, não só ao Império, mas, sobretudo, à própria sobrevivência da dinastia dos Severos.

Assim, as duas mulheres, que, naquele momento, eram as governantes de fato do Império Romano procuraram cercar o jovem Severo Alexandre dos mais ilustres e respeitáveis conselheiros, como foi o caso dos juristas Ulpiano, que foi nomeado para o importante cargo de Prefeito Pretoriano, e Paulus, e  também do senador e, mais tarde, historiador, Cassius Dio (Dião Cássio). Vale citar que Júlia Maesa morreria logo em 224 D.C., portanto, foi Júlia Maméia quem teve ascendência preponderante sobre o filho.

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(Busto de Ulpiano)

Graças a esse Conselho de homens notáveis, os primeiros atos do governo de Severo Alexandre visavam a recuperação moral e econômica do governo romano, a melhoria das condições da plebe de Roma e implantar medidas em prol dos soldados.

Foram implementavas ações para diminuir os gastos da Corte, considerada excessivamente luxuosa e extravagante. Talvez daí tenha surgido a fama de avarenta que Júlia Maméia gozou até o fim da sua vida. Uma fonte chegou a narrar que ela teria determinado que os restos dos banquetes no Palácio fossem recolhidos e guardados para serem servidos em outra oportunidade…

O denário foi inicialmente desvalorizado, provavelmente para aumentar a circulação de moeda e ajudar a equilibrar o déficit do Tesouro, mas posteriormente, mediante o aumento do percentual de prata, a moeda foi revalorizada, o que demonstra que houve uma melhoria nas contas públicas. Isso inclusive permitiu que os impostos fossem diminuídos, o que sempre estimula a economia e satisfaz os contribuintes. Esse programa foi completado pela criação de um serviço para emprestar dinheiro a taxas de juros moderadas.

Durante o reinado de Severo Alexandre foi construído o  Acqua Alexandrina, o último dos grandes aquedutos que abasteciam a cidade de Roma, em 226 D.C.. As Termas de Nero, que se encontravam em péssimo estado, foram reconstruídas, passando o complexo a ser conhecido como “Banhos de Alexandre”.

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(Um trecho do aqueduto Acqua Alexandrina, foto de Chris 73)

Severo Alexandre também estabeleceu medidas para beneficiar os militares no que se refere aos direitos sucessórios e pecúlios.

Todavia, já no início do reinado, Severo Alexandre sofreu com o problema da crescente indisciplina dos soldados.

Em 223 D.C., os Pretorianos, insatisfeitos com as medidas do Prefeito Pretoriano Ulpiano, a quem eles eram subordinados, assassinaram o famoso jurista na presença do próprio imperador. Ulpiano se tornaria célebre nas faculdades de direito por ter estabelecido o que seriam os preceitos principais do Direito: “Viver honestamente, não causar mal a ninguém e dar a cada um o que é seu” (Juris praecepta sunt haec: honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique tribuere)

Aliás, no período da dinastia dos Severos, apesar dos imperadores seguirem estritamente o conselho do seu fundador, Septímio Severo, de “dar dinheiro aos soldados e desprezar todos os outros“, aumentaram muito os episódios de indisciplina e insubordinação, chegando a um ponto que qualquer medida que visasse enrijecer a disciplina ou reduzir os donativos e gratificações, como ocorreu no reinado de Severo Alexandre, desencadeava rebeliões e motins entre a tropa, cuja efetividade em combate, também, parece ter sido comprometida.

Apesar das questões relativas à disciplina dos militares, o reinado de Severo Alexandre vinha tendo relativo sucesso em relação aos reinados anteriores de Elagábalo e Caracala, melhorando a economia e obtendo estabilidade política.

Contudo, eventos externos que ocorreram no reinado de Severo Alexandre, e em relação aos quais ele não teve qualquer responsabilidade,  não só causariam problemas que levariam à sua derrubada, mas teriam graves consequências estratégicas, que, futuramente comprometeriam a própria sobrevivência do Império Romano…

O primeiro deles foi a ascensão de Ardashir I (Artaxerxes I), nobre persa da Casa de Sassan, em 227 D.C., derrotando a dinastia dos Arsácidas, que fazia séculos governava o Império dos Partas e instalando a dinastia dos Persas Sassânidas, criando o império do mesmo nome. Os Sassânidas eram nacionalistas e centralizadores e eram muito mais agressivos militarmente do que os seus antecessores. Ironicamente, o principal motivo para a ascensão dos Sassânidas foram as sucessivas invasões que os romanos promoveram na Mesopotâmia parta durante os reinados de Trajano, Septímio Severo e Caracala, saqueando a capital Ctesifonte.

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(Relevo no Irã, retratando Ardashir e o deus Ahura-Mazda)

Em 230 D.C., Ardashir I lançou um ataque contra o sistema defensivo romano na fronteira da Mesopotâmia, sitiando a estratégica fortaleza de Nusaybin (Nísibis), sem, contudo conseguir tomá-la. Em seguida, as tropas persas invadiram as províncias da Síria e da Capadócia.

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Os Romanos foram obrigados a reagir militarmente, e o imperador teve que atender aos reclamos dos governadores.

Para lidar com a agressão persa, Severo Alexandre mandou reunir um exército com soldados das legiões espalhadas pelo Império. O historiador Herodiano de Antióquia narra que a medida causou comoção no Império, provavelmente pelo fato de terem sido recrutados soldados em províncias onde há muito não se faziam conscrições, como, por exemplo, a Itália.

Herodiano relata que Alexandre e sua comitiva integravam a expedição militar, sendo que ao partir o imperador pôde ser visto chorando e repetidamente olhando para trás enquanto deixava Roma.

Chegando no teatro de operações, o imperador ainda tentou apelar para a diplomacia, enviando embaixadores à Ctesifonte. Os embaixadores não foram recebidos, mas Ardashir mandou sua própria embaixada aos Romanos, com as seguintes exigências, segundo o historiador bizantino João Zonaras:

O Grande Rei Artaxerxes ordena aos romanos que deixem a Síria e toda a Ásia adjacente à Europa e permitam ao Persas governar até o mar“.

Como o objetivo dos Sassânidas era, como se vê no referido ultimato, restaurar o Império Persa às fronteiras dos gloriosos tempos de Dario e Xerxes, o que implicaria na perda para os Romanos das importantes províncias da Síria, Ásia, Capadócia e Bitínia, entre outras, a paz obviamente era impossível.

Nessa ocasião, houve mais uma prova de que a disciplina militar do Exército Romano estava seriamente comprometida: Quando as tropas estavam se preparando para cruzar os rios Tigre e Eufrates, para invadir o território persa, vários motins explodiram entre os soldados, especialmente entre os soldados do Egito, e também na Síria, onde as tropas até tentaram proclamar imperador um certo Taurinus,  no verão de 232 D.C., porém esta rebelião foi rapidamente debelada.

Os comandantes militares romanos decidiram dividir o exército em três. O primeiro destacamento invadiria ao norte a Armênia para atacar os Medos, súditos dos Sassânidas. O segundo atacaria a Mesopotâmia na confluência dos rios Tigre e Eufrates e o terceiro, sob o comando direto do imperador, atacaria os Persas no centro. Porém, na Armênia, os romanos tiveram muita dificuldade no terreno montanhoso, mas conseguiram chegar ao território dos Medos, devastando-o. Algumas tropas persas tentaram impedir o avanço, mas o terreno desfavorável à cavalaria impediu-os de engajar os Romanos.

Quando Artaxerxes I soube do avanço do segundo destacamento pelo Tigre e Eufrates, atacou aquele exército com suas tropas principais. Os Romanos avançavam sem muita cautela, pois até então não tinham enfrentado qualquer resistência. Assim, eles foram fragorosamente derrotados pelos Persas.

Para piorar, Alexandre foi aconselhado por Júlia Maméia, que acompanhava a comitiva, a não invadir a Pérsia com o seu exército, contribuindo para que as tropas do segundo destacamento fossem cercadas pelos arqueiros montados persas e aniquiladas.

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Apesar do fracasso da expedição, os Romanos conseguiram infligir muitas baixas entre os Persas, e dois dos três segmentos da força expedicionária devem ter conseguido sobreviver, o que impediu os Persas de explorarem a vitória na Mesopotâmia.

De volta a Antióquia, Alexandre distribuiu grandes donativos para as tropas e informou ao Senado, em Roma, que ele tinha vencido os Persas. E ao chegar em Roma, em 233 D.C., o imperador ainda chegou a celebrar um Triunfo.

De fato, como nenhuma inscrição ou texto persa relata uma vitória na ocasião, Artaxerxes I deve der ficado decepcionado com o desfecho da guerra, sobretudo porque as fronteiras do Império Romano no Oriente permaneceram inalteradas.

Assim, o conflito pode ser considerado um empate e Artaxerxes I somente voltaria a atacar o território romano em 237 D.C, dois anos após a morte de Severo Alexandre.

O conflito entre o Império Romano e o Império Persa duraria, com alguns intervalos de paz e vitórias e derrotas para ambos os lados, até a vitória final dos Romanos na Batalha de Nínive, em 628 D.C., no reinado do imperador romano-bizantino Heraclius.

O segundo evento que assolaria o reinado de Severo Alexandre foi a aparição nas fronteiras romanas dos rios Reno e Danúbio, da poderosa confederação de tribos germânicas dos Alamanos, que atacaram as fortificações romanas na fronteira e devastaram as cidades das províncias fronteiriças, em 234 D.C., ameaçando a província da Ilíria e, consequentemente, a própria Itália.

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Os Germanos, desde o final do século II A.C., vinham mostrando serem capazes de infligir grandes derrotas aos Romanos em batalhas isoladas, porém, os seus sucessos tinham duração efêmera, pois eles estavam organizados em inúmeras tribos pequenas, que não costumavam colaborar entre si, quando não guerreavam umas contra as outras. E, material e taticamente, em geral, os Germanos eram bem inferiores aos Romanos.

Todavia, assim como nós mencionamos acima com relação aos Persas e o Império Parta, foram os próprios Romanos que contribuíram para mudar a correlação de forças entre os Germanos.

Com efeito, de modo crescente, a partir de meados do século I A.C., os Romanos vinham empregando como soldados auxiliares tribos inteiras de Germanos. Muitos desses Germanos passavam 20 anos servindo no Exército Romano. Ao final do período, muitos adquiriam a cidadania romana, mas, ao contrário da maioria de outros povos que também forneciam tropas aos Romanos, muitos deles voltavam para as suas terras na Germânia, trazendo armamentos e táticas do exército romano. Com o tempo, os Germanos, que já eram tradicionalmente um povo de índole guerreira, foram adquirindo o conhecimento das táticas romanas e reunindo um grande arsenal de armas romanas, aprendendo também técnicas para o seu fabrico.

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A partir do século II D.C, começou a se observar que os chefes militares germânicos, muitos, provavelmente, egressos do Exército Romano, foram dominando as tribos vizinhas, que começaram a se aglutinar em forma de confederações de tribos.

Os achados arqueológicos, notadamente os provenientes de enterros em pântanos de turfa, mostram que, na virada do século II para o século III D.C., os bandos de guerreiros germânicos já demonstravam um grau de especialização (cavalaria, infantaria e arqueiros) e dispunham de espadas, elmos, armaduras (ao menos os chefes) e lanças que não ficavam a dever a dos Romanos, ou até mesmo eram de fabricação romana. Por sua vez, a nobreza germânica consumia produtos de origem romana e entesourava moedas de ouro romanas. Parece, neste particular, que os Romanos incentivaram a formação de verdadeiros reinos-clientes entre os Germanos.

Feita essa pausa digressiva, com a invasão dos Alamanos, mais uma vez, Severo Alexandre foi obrigado a se deslocar para o front de batalha. As tropas, cuja disciplina, como vimos, era problemática, estavam reclamando, especialmente as oriundas das províncias atacadas, pelo fato de Severo Alexandre tê-las feito lutar a campanha na Pérsia,  o que, no entender deles, provavelmente deve ter facilitado o ataque dos bárbaros germânicos.

Em Mogúncia, base das operações contra os Alamanos, Severo Alexandre, novamente, foi aconselhado por sua mãe a tentar conter a ameaça militar com a diplomacia. Nesse particular, não havia nada de absurdo naquele conselho, pois, há muito tempo, os Romanos costumavam pagar dinheiro aos Germanos para que estes ficassem sossegados e não atacassem o Império.

Não obstante, os militares tinham se acostumado com anos de condescendência, fraqueza e de mão-aberta dos imperadores em relação às suas demandas, e a insatisfação deles ao que parece, foi agravada pelos vexames de Elagábalo e pela falta de aptidão militar de Severo Alexandre, que, para piorar, parece que não era mesmo muito generoso nos donativos, em decorrência da sua política de austeridade fiscal, a qual era atribuída à mãe do imperador.

Assim, quando eles souberam que Severo Alexandre, seguindo as instruções de Júlia Maméia, estava disposto a dar dinheiro aos bárbaros Alamanos, as legiões aclamaram imperador o comandante da Legião IV Italica, Gaius Julius Verus Maximinus (Maximino Trácio).

Maximino era um Trácio da Moesia que quando criança trabalhara como pastor, mas, após entrar no exército romano, foi galgando postos, destacando-se nas batalhas devido a sua incrível força física. Há relatos de que ele teria cerca de 2m 40cm de altura e, de fato, as suas estátuas apresentam caracteristicas físicas de acromegalia. Ironicamente, ele havia sido promovido a comandante pelo próprio Severo Alexandre.

Entretanto, Não podia ser maior o contraste entre a figura frágil do imperador e a virilidade castrense de Maximino, que parecia aos soldados muito mais adequada para comandar o Exército naqueles tempos belicosos.

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Assim, no dia  19 de março de 235 D.C, quando se avistou a coluna de poeira deslocada pelas legiões que aclamaram Maximino, que se aproximavam do quartel-general em Mogúncia, só restou a Severo Alexandre apelar, sem sucesso, à lealdade dos soldados da Legião XII Primigenia,  que logo matariam ele e sua mãe. Era o fim da dinastia dos Severos, que governava Roma, com o breve intervalo de Macrino, desde 193 D.C.

Após saberem da execução de Severo Alexandre e Júlia Maméia, a Guarda Pretoriana também aclamou Maximino imperador e o Senado, constrangido, confirmou o nome dele, apesar de considerá-lo pouco mais do que um camponês bárbaro.

Maximino, sem deixar a Germânia, partiu para enfrentar os Alamanos, os quais conseguiu derrotar, apesar do exército sofrer pesadas baixas, no território romano dos Agri Decumates.

O reinado de Maximino marcaria o início da chamada “Crise do Século III“, o período  de grande instabilidade verificado entre 235 e 284 D.C quando 30 imperadores ocuparam o trono em 49 anos, ou seja, uma média de apenas 18 meses de reinado por imperador. Nesse período, vários imperadores foram assassinados, dois mortos no campo de batalha e um deles capturado vivo pelos Persas. Para se ter uma comparação, entre os reinados de Augusto e de Severo Alexandre, foram 28 imperadores para um período de 266 anos, com uma média de 9 anos e seis meses para cada reinado…

No ano de 238 D.C., ano que Maximino foi assassinado, houve cinco imperadores diferentes no trono, motivo pelo qual ficaria conhecido como “O Ano dos Cinco Imperadores“. E, em um futuro próximo, durante um bom período, a Gália e a Síria ficariam independentes, fazendo parte dos chamados “Império Gaulês” e “Império de Palmira“.

O principal motivo de tudo isso foi a duradoura incapacidade de Roma lidar com pesadelo estratégico da guerra em dois fronts naquele período. Embora haja também causas econômicas (especialmente déficit público causado pelos gastos militares e déficit comercial com a China) e demográficas (diminuição da população notadamente por epidemias).

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(Mapa do Império dividido – Blank map of South Europe and North Africa.svg: historicair

Para terminar nossa narrativa, é interessante citar, com a devida cautela quanto à veracidade do relato, da frequentemente imprecisa História Augusta, e também do historiador cristão Eusébio, ambos os textos datando provavelmente do reinado do imperador Constantino, o Grande, as passagens abaixo, que afirmam que Severo Alexandre era simpático ao Cristianismo.

Segundo Eusébio, no período que passaram em Antióquia, Júlia Maméia, que era muito religiosa, mandou Severo Alexandre estudar com o afamado teólogo cristão Orígenes.

Já a História Augusta (Lampridius) relata que Severo Alexandre colocou em seu “lararium” (oratório doméstico) imagens do patriarca Abraão e de Jesus Cristo, entre outros místicos famosos, como Apolônio de Tiana.

Ainda segundo a História Augusta, Severo Alexandre chegou a pensar em erguer um Templo em honra a Cristo em Roma e teria mandado gravar no Palácio dos Césares “as famosas palavras de Cristo”:

Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem contigo.”

VALENTINIANO I – O ÚLTIMO GRANDE IMPERADOR

Em 26 de fevereiro de 364 D.C, Flavius Valentinianus (Valentiniano I) foi proclamado Augusto (Imperador) por uma assembléia da qual participaram os mais importantes ministros e governadores do Império Romano, reunidos em Nicéia, na Província Romana da Bitínia, na Ásia Menor.

(Solidus de Valentiniano I, foto de Siren-Com )

O motivo desse verdadeiro, embora incomum, conclave foi a morte repentina do imperador Joviano, ocorrida enquanto ele deslocava de Ancyra para Nicéia. Joviano tinha recentemente ascendido ao trono, imediatamente após a desastrosa campanha promovida pelo imperador Juliano, “o Apóstata”, contra a Pérsia Sassânida, a qual culminara com a derrota do exército romano e a morte do próprio Juliano em combate.

Para salvar a própria pele e conseguir retirar o remanescente do Exército Romano da Pérsia, Joviano teve que assinar com os Persas um humilhante tratado de paz, entregando aos inimigos as cinco províncias orientais que haviam sido conquistadas pelo imperador Diocleciano, quase um século antes, além das estratégicas cidades de Nísibis e Síngara, duas praças-fortes que pertenciam a Roma desde o reinado de Septímio Severo, ainda no início do século III D.C.

Contudo, com a morte inesperada de Joviano, que ainda se encontrava a caminho de Constantinopla para consolidar o seu poder, decidiu-se,  pela primeira vez na História de Roma, ao invés de se resolver a  sucessão pela forma mais usual – a vitória militar de um general contra os seus rivais – pela convocação de uma reunião dos mais importantes funcionários civis e militares do Império. Assim, após a análise de várias opções, os participantes escolheram Flávio Valentiniano, o comandante do regimento de infantaria de elite dos “Scuttarii“, uma tropa de elite que fazia parte do séquito pessoal do imperador.

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(Um scutarii deveria se parecer com este soldado do Baixo Império Romano, em 1º plano)

Valentiniano nasceu em 321 D.C, no sul da Província Romana da Panônia, na cidade de Cibalae (hoje Vinkovci, na atual Croácia), filho de um humilde camponês chamado Graciano (não confundir com o imperador homônimo, que era  filho de Valentiniano).

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(Atual cidade de Vinkovci, foto: Frane Lovošević, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons)

O pai de Valentiniano entrou para o Exército Romano e foi galgando postos até ingressar na unidade de elite dos “Protectores domestici“, que eram os guarda-costas do Imperador Constantino I. A partir daí, Graciano foi promovido a general e conseguiu ser nomeado Conde da África, local onde ele foi acusado de enriquecimento ilícito, sendo, por causa disso, afastado. Não obstante, algum tempo depois, Graciano foi reabilitado, chamado de volta e nomeado Conde da Britânia. Finalmente, depois de exercer esse cargo, Graciano retirou-se da vida pública e voltou para suas propriedades em sua terra natal, na Panônia.

Entretanto, o tempo das boas graças de Graciano duraria pouco, pois o Imperador Constâncio II, alegando que Graciano teria hospedado o usurpador Magnêncio quando este esteve na região da Panônia, mandou confiscar as terras dele.

Durante os anos de serviço do pai, Valentiniano entrou para o exército, provavelmente também como “Protector domesticus” e, do mesmo modo que seu pai, foi sendo paulatinamente promovido.

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No reinado de Constâncio II, os bárbaros Alamanos ameaçaram seriamente a Gália, e, aproveitando-se da guerra civil então travada entre o imperador e Magnêncio, cruzaram o Reno e atacaram várias cidades. Valentiniano, agora servindo como tribuno, sob as ordens do César (príncipe-herdeiro) Juliano, foi encarregado de interceptar um bando de Alamanos que havia atacado Lyon, em 355 D.C.

Todavia, para poder cumprir aquela missão com eficiência, Valentiniano dependia do auxílio de Barbatio, um general que estava envolvido em uma conspiração para prejudicar Juliano. E, naturalmente, o conspirador não tinha nenhuma intenção em ajudar Juliano…Assim, sem o apoio de Barbatio, as tropas comandadas por Valentiniano acabaram sendo derrotadas pelos Alamanos, com grandes perdas.

Valentiniano foi, injustamente, considerado responsável pelo fracasso e afastado do Exército, acabando por ter que ir viver em suas terras em Sirmium, cerca de 55 km da atual Belgrado. Nesse período, nasceu seu filho, que recebeu o nome do avô, Graciano (e que também, futuramente, se tornaria imperador).

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(Mapa da Prefeitura de Illyricum, mostrando a localização da cidade de Sirmium)

Para piorar a sua situação, quando Juliano tornou-se imperador, a carreira de Valentiniano correu sério risco, pois o novo monarca, que até então vinha ocultando o seu apreço pelas religiões pagãs tradicionais, rapidamente colocou em prática medidas para enfraquecer o Cristianismo e recolocar o paganismo em proeminência no Estado Romano. Valentiniano, entretanto, era um notório católico devoto,

Não surpreende,p ortanto, o fato que Valentiniano, após se recusar a assistir ou fazer um sacrifício em uma cerimônia pagã da qual estava obrigado a participar, tenha sido exilado, ou, em uma versão mais branda do caso, tenha sido designado para servir numa província distante, talvez o Egito ou a Armênia.

Foi somente quando Juliano, o último integrante da dinastia inaugurada por Constantino I, morreu, em mais uma campanha romana fracassada na Pérsia (363 D.C), e o novo imperador romano cristão Joviano assumiu, que a sorte voltou a sorrir para Valentiniano. Ele conseguiu ser nomeado comandante dos Scuttari e, consequentemente, agora chefiava uma das mais importantes unidades de elite da Guarda Imperial (Scholae Palatinae).

E foi nesse posto que, como vimos, Valentiniano I foi escolhido como novo Imperador Romano, com a idade de 43 anos, no conclave que citamos anteriormente.

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(“Il Colosso” de Barletta, estátua de bronze de um imperador romano, provavelmente trazida para a Itália pelos Cruzados proveniente do Saque de Constantinopla, e que se acredita retratar Valentiniano I). Foto: User:Marcok, CC BY-SA 2.5 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.5, via Wikimedia Commons

Porém, a situação do Império Romano naquele momento era nada menos do que dramática: No front militar, à derrota na Pérsia e à perda de territórios estratégicos, que colocavam pressão sobre as cruciais províncias da Síria e do Egito, no Oriente, somava-se a crescente ameaça das tribos germânicas no Reno e no Danúbio, no Ocidente, as quais, oportunisticamente, sempre aproveitavam qualquer insucesso militar romano para tentar incursões no território do Império, em busca de saques, ou, alternativamente, extorquir algum pagamento em troca de paz.

E o quadro político interno também não era animador. O breve reinado de Juliano contribuíra para aumentar a intolerância religiosa do Cristianismo triunfante. Começava, assim, a aumentar uma fenda entre a elite de Constantinopla, marcadamente cristã ortodoxa, e a elite tradicional romana pagã, ainda muito influente no Ocidente, sobretudo no Senado Romano.

Eram tempos conturbados,  que imploravam por um líder enérgico, resoluto e incansável, mas também consciencioso, e essas seriam justamente as características mais marcantes de Valentiniano I, em seu reinado.

Não obstante, logo em seguida à proclamação de Valentiniano I, o Exército Romano demandou que ele escolhesse um co-imperador. Tendo em vista que, desde Diocleciano, estabelecera-se um quase consenso de que o Império Romano era extenso e complexo demais para ser governado apenas por um imperador em Roma, e, ainda, a premência da situação militar no Ocidente e no Oriente, dificilmente este comportamento dos generais deve ser visto como uma rejeição à Valentiniano, e sim, mais como o requerimento por uma providência julgada indispensável.

Porém, eu também acredito que, provavelmente, essa reivindicação para que Valentiniano I escolhesse um colega deve ser entendida como uma pretensão daqueles que, em Constantinopla, temiam perder poder com uma reunificação administrativa do Império. O fato é que, um mês depois, Valentiniano I nomeou seu irmão, Valente, como Imperador Romano do Oriente.

Valens_medal,_375-78_AD(medalhão de ouro, de Valente, foto de Sandstein

Valente logo teve que lidar com a revolta de Procopius, um parente de Juliano,  a quaL, porém, foi rapidamente debelada. Depois, ele conduziu algumas campanhas no Danúbio contra os Visigodos, do rei Atanarico, obtendo uma paz em termos favoráveis aos romanos, inclusive parando de pagar o subsídio anual que o Império vinha pagando aos visigodos para não ser atacado.

Valentiniano foi dar combate aos Alamanos.que, em 365 D.C,  invadiram novamente a Gália. Ele estabeleceu-se em Augusta Treverorum (atual Trier, na Alemanha) para conduzir a guerra. De lá, Valentiniano comandou a formação de um grande exército para guerrear contra os referidos bárbaros.

O Autor em frente à chamada “Porta Nigra”, em Trier, antiga Augusta Treverorum, em 2009, onde alguns imperadores do Baixo Império Romano estabeleceram-se para lutar contra os Germanos. Era o portão principal das muralhas da cidade e já tinha mais de 200 anos quando Valentiniano o cruzou

Em 367 D.C, Valentiniano e seu exército cruzaram os rios Meno e Reno e invadiram o território inimigo, inicialmente quase sem encontrar resistência, queimando tudo que encontraram em seu caminho. Os Alamanos então resolveram lutar e travou-se a Batalha de Solicinium, provavelmente ocorrida onde hoje fica a cidade de Hechingem (no atual Estado alemão de Baden-Wurttemburg). Essa região tinha sido abandonada pelos romanos fazia cerca de um século antes e uma vez fez parte dos chamados “Agri Decumates” (campos que pagam o dízimo, um território anexado ainda no século I.

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(Provável lugar da Batalha de Solicinium. No reinado de Valentiniano I, os romanos ainda eram capazes de atacar os Germanos à leste do Reno)

A Batalha de Solicinium foi duríssima, com pesadas perdas romanas, mas os Alamanos foram derrotados. Foi a última vez que um imperador comandou um grande exército romano e conduziu com sucesso uma campanha além da margem direita do Reno.

Nesta campanha, Valentiniano fez-se acompanhar do filho Graciano, com apenas 8 anos de idade. Claramente, portanto, o imperador já demonstrava que o queria para sucessor, pois, naquele ano, o menino foi proclamado Augusto, ou seja, co-imperador.

Valentiniano, entrementes, ainda em 367 D.C, também teve que enfrentar uma grande rebelião na Britânia – um ataque combinado das tribos dos Pictos e Escotos, em conjunto com os invasores saxões que assolavam o litoral leste da Ilha (fato que já havia levado os próprios romanos a batizarem aquele trecho como “Costa Saxã“). Essa ameaça só foi derrotada com muito custo, após a chegada do Conde Teodósio, nomeado por Valentiniano para comandar as forças romanas.

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(Portus Adurni, atualmente Portchester Castle, no porto de Portsmouth, na costa oriental da Inglaterra, fortaleza integrante do sistema romano de fortificações da Saxon Shore (Costa Saxã), Foto: ale speeder, CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Commons

Valentiniano  também conduziu um grande programa de reparo e construção de fortificações ao longo da fronteira Reno/Danúbio, o que irritou os bárbaros germanos, dando-lhes o pretexto para novas agressões.

Outra importante iniciativa de Valentiniano foi recompor os efetivos do Exército Romano, não só preenchendo as lacunas decorrentes das recentes derrotas sofridas, mas até aumentando o seu número, procurando cumprir estritamente o recrutamento anual.

Aliás, um fato notável, que demonstra a dificuldade que constituía o recrutamento naquele período turbulento do Império, bem como a medida da determinação de Valentiniano em restaurar o poderio militar romano, foi a redução da altura mínima exigida para os recrutas: de 1,77m para 1,70m, aumentando, deste modo, a massa da população recrutável.

A maior fonte sobre o reinado de Valentiniano I é o historiador Amiano Marcelino, ele mesmo um ex-militar dos Protectores Domestici, e considerado por muitos como o autor romano que melhor escreveu sobre o Baixo Império Romano.

Segundo Amiano, o imperador Valentiniano

detestava as pessoas bem vestidas, cultas, ricas e bem-nascidas“, sendo ele mesmo “rústico, inculto e, frequentemente, violento“.

Realmente, diversas passagens atestam que Valentiniano era dado a acessos de fúria, sobretudo quando se deparava com erros ou irregularidades praticados pelos subordinados. Mas quanto ao ódio às pessoas cultas, ainda que a acusação de Amiano possa ser verdadeira, o fato é que essa alegada antipatia do imperador não se estendia à cultura em si, pois, consta que Valentiniano mandou abrir várias escolas pelo Império Romano.

Sendo ou não exagerada a observação de Amiano acerca do ódio de Valentiniano às classes altas romanas, o fato é que ele foi reconhecido por várias medidas em favor dos mais pobres e inclusive procurou proteger os humildes das arbitrariedades cometidas pelos poderosos.

Neste particular, uma de suas medidas mais meritórias foi instituir em todo o Império o cargo de “Defensor Civitatis“, cuja principal função era ser um advogado público, em prol dos plebeus contra as injustiças dos poderosos. Portanto, atrevemo-nos a dizer que Valentiniano pode ser considerado um dos patronos da moderna Defensoria Pública.

Coube a Valente  implementar essa política de Valentiniano no Oriente. As palavras dele acerca do cargo de Defensor foram preservadas no preâmbulo de um édito:

Nós propiciamos, mediante um útil projeto, que a inocente paz dos camponeses possa gozar do benefício de uma proteção especial, prevenindo que eles sejam prejudicados e molestados pelas artimanhas de uma disputa jurídica, mesmo quando lhes é devida uma reparação;  porque muitas vezes um advogado ganancioso é desidioso, o oficial que guarda as portas do tribunal é amolecido por grandes propinas, as atas do julgamento são vendidas pelos serventuários, e aqueles que administram a justiça cobram mais em taxas do que um litigante bem sucedido receberia da parte contrária“.

Ao contrário de seus predecessores cristãos da dinastia constantiniana, Valentiniano adotou uma postura tolerante com o paganismo e as heresias cristãs. Ele continuou permitindo, por exemplo, a prática de sacrifícios noturnos, a antiga prática de adivinhações pelos harúspices e os antigos mistérios pagãos.

A.H.M Jones cita as seguintes palavras, escritas a esse respeito pelo próprio Valentiniano, em uma carta:

Eu não considero que qualquer rito permitido por nossos ancestrais seja criminoso, As leis editadas por mim no início de meu reinado são testemunhas disso, motivo pelo qual a todos foi concedida a livre escolha de praticar qualquer religião que a sua vontade determinar“.

Uma política sábia que, infelizmente,  não seria seguida por seus sucessores, e que muitos ainda não seguem, mesmo em nossos dias…

Porém, em 374 D.C, chegou a notícia de que os Quados, o povo germânico que era um velho inimigo de Roma e habitava ao longo do Danúbio,  após aliarem-se aos bárbaros sármatas,  tinham derrotado duas legiões romanas. A causa principal do conflito foram as fortalezas romanas que, seguindo a política de Valentiniano, estavam sendo construídas em território bárbaro.

Valentiniano cruzou o Danúbio em Aquincum (localizada dentro da área da atual Budapeste) e devastou o território dos Quados, voltando para Savaria para passar o inverno.

No ano seguinte, Valentiniano recomeçou a campanha e dirigiu-se a Brigetio, também situada na atual Hungria. Lá, em 17 de novembro de 375 D.C, ele recebeu em audiência uma delegação dos Quados.

Durante a audiência, os Quados reclamaram que os romanos eram culpados da guerra, devido à construção dos fortes. Às condições estipuladas para o fim das hostilidades, que previam que eles deveriam fornecer recrutas para o Exército Romano, os Quados retrucaram que os grupos aliados que não estivessem presentes na audiência não estavam obrigadas a respeitá-las, sendo livres para atacar os romanos quando quisessem.

Furioso com a insolência dos embaixadores quados, Valentiniano I ergueu-se de sua cadeira e começou a gritar, censurando duramente os bárbaros. De repente, o rosto rubro do Imperador congelou-se em uma máscara terrível e a voz  tonitruante dele sumiu…Uma artéria no seu crânio acabara de arrebentar e ele tinha sofrido um derrame, tendo que ser retirado do recinto,  completamente imobilizado, falecendo pouco depois.

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Brigetio, atual Komárom/Szőny, na Hungria, não esqueceu que foi palco da morte de um grande imperador romano, como mostra essa placa moderna em homenagem a Valentiniano I

O filho de Valentiniano I, o jovem Graciano, de apenas 16 anos, foi aclamado imperador do Ocidente, permanecendo seu irmão, Valente, como monarca da parte oriental, em Constantinopla.

No ano seguinte, 376 D.C, chegaria ao Danúbio uma grande e perigosa migração dos Godos.

Essa era uma ameça tremenda, mas que poderia ser enfrentada por um líder capaz, e determinado. Infelizmente, nem Graciano e, menos ainda, Valente, mostrariam-se à altura do desafio.

Assim, em 378 D.C, os Godos derrotariam os romanos na Batalha de Adrianópolis e o Império Romano começaria a longa, mas inexorável, trajetória de sua derrocada. Talvez, se Valentiniano I não tivesse se enfurecido tanto com os Quados em Brigetio, e sobrevivido até Adrianópolis, podemos cogitar que ele não cometeria os erros de Valente. Certamente,  Valentiniano I não teria permitido aos Godos cruzarem o Danúbio, e ele teria jogado contra os bárbaros todo o poder combinado do Exército Romano.

Epílogo

Na cidade de Barletta, na Itália, existe uma enorme estátua de bronze, da época romana, datada do século IV D.C, retratando um imperador em tradicional traje romano de general, segurando um crucifixo. Ela é chamada de “Il Colosso“.

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Não se tem certeza absoluta de quem é o Imperador representado, mas o candidato considerado como o mais provável pelos especialistas é Valentiniano I. A expressão dura, fechada, resoluta e de ar implacável daquele rosto de bronze é um perfeito retrato da personalidade e dos tempos de Valentiniano I.

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FIM

Fontes:

1- “Quem foi Quem na Roma Antiga“, Diana Bowder, 1980, Ed. Círculo do Livro

2- “Declínio e Queda do Império Romano“, Edward Gibbon, 1980, Ed. Círculo do Livro

3- “The Later Roman Empire (AD 354-378)“, Ammianus Marcellinus, 1986, Penguin Books

4- “The Later Roman Empire 284-602, vol. 1“, A.H.M. Jones, The John Hopkins Universitary Press, 1986

SEPTÍMIO SEVERO – DÉSPOTA APLICADO

SEPTIMIO SEVERO – DÉSPOTA APLICADO

Em 4 de fevereiro de 211 D.C., morre, aos 65 anos de idade, em Eburacum (atual York, na Inglaterra), o imperador Lucius Septimius Severus Eusebes Pertinax Augustus, mais conhecido como Septímio, Sétimo ou Setímio Severo.

 

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Quando Severo morreu, na longínqua província da Britânia, ele estava no curso de uma operação contra os bárbaros Caledônios, que acossavam a província romana a partir do outro lado da Muralha de Adriano. Esta era mais uma campanha militar de um imperador que, em seus 18 anos de reinado, passara quase todo o tempo incansavelmente em guerra, contra vários inimigos externos, e também alguns internos.

Lucius Septimius Severus nasceu em 11 de abril do ano de 145 D.C, na cidade de Leptis Magna, na Província Romana da Tripolitania (atual Líbia), filho de Publius Septimius Geta e Fulvia Pia. O pai dele era integrante de uma família de ancestralidade púnica, ou seja, ligada aos fundadores de Cartago, que eram oriundos da Fenícia, mas que, provavelmente, tinha também algum sangue berbere, a população nativa da região.

O avô de Severo, também chamado Lucius Septimius, era da classe equestre, o segundo nível da nobreza romana. Já a esposa deste último, e avó paterna de Severo, Victoria, era filha de Marcus Vitorius Marcellus, que foi senador e consul suffectus,  em 105 D.C, e de Hosidia, filha de Gnaeus Hosidius Geta, que também foi general, senador e consul suffectus, no ano de 49 D.C.

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(vista de Leptis Magna, foto de SashaCoachman)

Por sua vez, a mãe de Severo, Fulvia Pia, era de uma antiga família plebéia que, ainda em meados do período republicano, ingressou na nobreza, exercendo, inclusive, vários consulados. Alguns Fúlvios provavelmente se mudaram para Leptis Magna quando a cidade foi reorganizada e recebeu políticas de incentivo por parte de Júlio César, quando este tornou-se Ditador.

Leptis Magna, originalmente fundada pelos Púnicos, ou Cartagineses, no século VII A.C, era uma cidade rica que governava um território fértil, extensamente cultivado. E, portanto, sendo uma das famílias mais ilustres da cidade, certamente os Severos deveriam ser também muito ricos.

Leptis_Magna

Consequentemente, o jovem Severo recebeu a melhor educação que a cidade de Leptis Magna poderia fornecer, tendo sido educado em latim e grego. Entretanto, sabemos que Severo também falava o idioma púnico local, que talvez fosse até a sua língua de infância, pois as fontes relatam que ele falava latim com forte sotaque púnico. Severo deve também com certeza ter aprendido Oratória, pois sabe-se que, em Leptis, ele fez o seu primeiro discurso público, aos 17 anos.

Depois disso, obviamente almejando horizontes maiores na vida do que os que a provinciana Leptis lhe permitia, Severo, por volta de 162 D.C, partiu para Roma, a Meca de todos os jovens bem-nascidos do Império.

E quando Severo chegou a Roma, ele foi recomendado por um parente ilustre ao imperador Marco Aurélio, que, em virtude disso, mandou arrolá-lo, já que era descendente de cônsules, como membro da ordem senatorial, o cume da nobreza romana.

Com isso, abriram-se para Severo as portas do “cursus honorum” – a carreira das magistraturas – e ele foi nomeado um dos “Vigintivir”,  membro de um colégio de 26 magistrados juniores, que cuidavam, entre outras coisas, de casos judiciais menores e também da manutenção de estradas, ruas ou prédios públicos. Posteriormente, Severo foi nomeado advocatus fiscus, uma espécie de procurador público imperial.

Contudo, sendo ainda muito jovem para ocupar cargos mais elevados e,  tendo em vista a chegada a Roma de uma epidemia de peste, Severo resolveu voltar para Leptis Magna.

Entretanto, durante o tempo em que esteve de volta em sua terra natal, Severo completou 25 anos, que era a idade requerida para o cargo de Questor, e, por sorte, a epidemia em Roma abrandou, permitindo que ele voltasse para Roma e assumisse, em 169 D.C, aquele prestigioso cargo.

Então, como Questor, Severo conseguiu, enfim, ingressar legalmente no Senado Romano.

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Vale ressaltar que muitos cargos haviam ficado vagos em função da virulência da referida Peste, que havia ceifado muitas vidas, o que permitiu que Severo progredisse ainda mais no serviço público. Assim, ele foi nomeado Questor pela segunda vez.

Porém, logo após esses progressos, Severo foi surpreendido pelo repentino falecimento de seu pai e ele foi obrigado a voltar para Leptis para resolver assuntos ligados à sucessão e ao inventário do falecido.

Resolvidas as questões sucessórias, Severo foi cumprir o resto do mandato de Questor na ilha da Sardenha, que estava temporariamente sob administração do Senado Romano.

Em seguida, Severo foi servir com seu parente Gaius Septimius Severus, que tinha sido apontado Proconsul da África, na qualidade de Legatus pro Praetor, ou seja, general.

Novamente de volta à Roma, em 174 D.C,  Severo foi escolhido, como candidato do próprio Imperador, Tribuno da Plebe.

Sem dúvida, Severo, até então, estava tendo uma carreira notavelmente promissora: Com efeito, apesar dos relatos dos historiadores de que ele era alvo de piadas em Roma por causa do seu forte sotaque púnico, restava claro que Severo estava sendo visto com simpatia pelos poderosos, e até pelo próprio Imperador, fato que não é de surpreender, pois, como relatamos no início, o seu pedigree genealógico era suficiente para competir com outros candidatos aos cargos mais importantes.

Severo era um homem forte, embora de baixa estatura, e de pele bem morena, como os naturais do Norte da África. E um dos traços mais marcantes da sua personalidade era ser muito supersticioso, acreditando em sonhos premonitórios e astrologia, que frequentemente lhe prediziam um futuro brilhante. Ele também sentia-se muito ligado à sua Leptis Magna natal e por isso, parece natural que, quando Severo resolveu se casar, aos 30 anos de idade, ele tenha escolhido uma esposa natural de Leptis, chamada Paccia Marciana, membro de uma família de origem púnica, como a sua.

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O casamento com Marciana durou dez anos e, se eles tiveram filhos (a História Augusta, considerada pouco confiável, relata duas meninas), os mesmos não sobreviveram até a idade adulta. Marciana morreu por volta de 186 D.C.

Ainda segundo a História Augusta, o sempre supersticioso e agora viúvo Severo, querendo casar-se novamente, recorreu à ajuda de astrólogos para encontrar uma nova esposa. Nessa busca, Severo, então, teria ouvido falar de uma mulher síria acerca de quem se falava da existência de uma previsão de que ela se casaria, um dia, com um rei…

Severo foi até a Província da Síria e encontrou a mulher em questão, Júlia Domna, que era, ela mesma, descendente da casa real dos Sempsiceramidas e Soêmios, reis-sacerdotes da cidade síria de Emesa (atual Homs, na Síria) que era habitada por um povo de origem semítica árabe-beduína que falava aramaico.

Além do incentivo da previsão astrológica, certamente Severo foi incentivado a casar-se com Júlia pelo fato de ser ela muito bonita. E, para completar, Emesa e os seus governantes sempsiceramidas eram riquíssimos…

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 Com a aprovação do pai de Júlia Domna, Julius Bassianus, sumo-sacerdote do Templo do deus El-Gabal (Elagabalus, ou Heliogábalo, em latim), em Emesa, Severo e Júlia casaram -se em 187 D.C, logo seguindo-se o nascimento dos filhos Lucius Septimius Bassianus (que ficaria conhecido como o futuro imperador Caracala), ocorrido em 188 D.C, quando Severo governava a Gália, e Publius Septimius Geta, em 189 D.C.,  já quando Severo era governador da Sicília.

Vale notar que, desde 180 D.C., o imperador era Cômodo, que sucedera o pai, Marco Aurélio, mas, pelo visto, o nome de Severo continuou a gozar de prestígio junto ao trono.

De fato, o casamento parece ter dado uma nova turbinada na carreira de Severo e, em 190 D.C, ele foi nomeado Cônsul, a mais alta magistratura romana, sob recomendação do imperador Cômodo. E, no ano seguinte, Cômodo nomeou Severo governador da importante província da Panônia, na fronteira do rio Danúbio, o que implicava no comando de várias experimentadas legiões do Exército.

Foi nessa privilegiada posição que Severo encontrava-se quando o imperador Cômodo, após anos de tirania e de vários excessos, foi assassinado em um complô palaciano, em 31 de dezembro de 192 D.C.

O ano de 193 D.C começou com um novo imperador, Pertinax (Pertinace). Porém, antes que o ano terminasse, os romanos ainda veriam mais outros quatro ocuparem o trono, motivo pelo qual aquele ano passaria à História como “O Ano dos Cinco Imperadores”…

Assim, o  ambicioso Pertinace, Prefeito Urbano de Roma, ao saber da morte de Cômodo, na qual talvez ele até estivesse implicado, correu para o Quartel da Guarda Pretoriana, prometendo um grande donativo aos soldados, caso o aclamassem imperador. Eles assim o fizeram e o Senado, exultante pelo fim da tirania de Cômodo, imediatamente reconheceu o pretendente como Imperador. Porém, depois de quatro meses de um reinado promissor, um outro grupo dos insaciáveis pretorianos, sequiosos de dinheiro, assassinou Pertinace , que teve a sua cabeça em um poste.

Em um dos episódios mais vergonhosos da História de Roma, os gananciosos Pretorianos abordaram na rua o rico senador Dídio Juliano e insistiram para que ele aceitasse ser aclamado imperador, obviamente em troca do pagamento de uma grande soma de dinheiro. Ato contínuo, os soldados levaram Dídio Juliano para o Quartel da Guarda Pretoriana, onde, para a surpresa do pretendente, lá já estava outro candidato à púrpura imperial, Flávio Sulpiciano. Na presença dos dois, os Pretorianos promoveram um infame leilão do trono, que, após vários lances, foi ganho por Juliano, que ofereceu a cada soldado a quantia de 25 mil sestércios.

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(Busto de Dídio Juliano)

 Aproveitando-se da debilidade do novo imperador, uma série de governadores de província, rebelaram-se, incluindo o próprio Severo, que foi aclamado imperador pelas próprias tropas, em 14 de abril de 193 D.C.

Antecipando-se aos seus rivais na sucessão, Severo, prometendo vingar a ignominiosa morte de Pertinax, marchou contra Roma, não sem antes assegurar-se de que um potencial rival, Clódio Albino (também ele um romano nascido na África, em Hadrumeto), o governador da Britânia, não reivindicasse o trono. Para obter a lealdade de Albino, Severo ofereceu-lhe o título de “César” (que equivalia, grosso modo, ao de príncipe-herdeiro), que foi aceito.

Entretanto, as legiões do Oriente  também aclamaram o seu comandante, Pescenius Niger (Pescênio Nigro), governador da Síria, imperador.

Antes de Severo chegar à Roma, contudo, boa parte do Senado já o estava apoiando. Assim, em 1º de junho, Dídio Juliano foi destituído pelo Senado e condenado à morte, após reinar por meros 66 dias. Esta sentença foi prontamente executada pelos próprios Pretorianos, aterrorizados com a aproximação das experimentadas legiões de Severo, as quais eles bem sabiam que não tinham a menor condição de enfrentar em batalha.

Desse modo, Severo entrou em Roma sem oposição, no dia 9 de junho de 193 D.C.

Cumprindo a sua promessa, Severo imediatamente puniu os pretorianos, mas de uma forma sorrateira: ele convidou a guarda pretoriana a um banquete no seu acampamento. Porém, quando os pretorianos chegaram, eles foram desarmados por uma força de soldados de Severo, que executaram os assassinos de Pertinace. Mais tarde, Severo substituiu os pretorianos por soldados originários da Panônia.

No Oriente,  Pescênio Nigro, governador da província da Síria, recusou aceitar Severo como imperador e ainda obteve o apoio da província do Egito. Severo marchou imediatamente para o leste e esmagou o indisciplinado exército de Nigro. A batalha decisiva aconteceu em Issos, na primavera de 194 D.C, e Nigro foi morto em Antióquia. A cabeça dele foi enviada à Severo, que estava instalado em Bizâncio.

Outra característica marcante de Severo era ser implacável com os inimigos, e isso se aplicava às províncias e cidades que haviam apoiado Nigro, que foram severamente punidas.

Em 195 D.C, Severo iniciou uma campanha contra o Império Parta e invadiu a Mesopotâmia, subjugando os árabes osroenes, adiabenes e cenitas, no que também era um acerto de contas pelo fato destes terem apoiado Nigro. Em um gesto simbólico de afirmação de sua origem púnica, Severo, nessa passagem pelo Oriente, mandou reformar com mármore o túmulo de Aníbal Barca, o grande general cartaginês e inimigo mortal de Roma, mas também o seu mais ilustre conterrâneo, que morreu exilado na Bitínia, no longínquo ano de 183 A.C.

Enquanto isso,  Clódio Albino, levando a sério o seu título de César,  começou a cunhar moedas como se fosse imperador, autointitulando -se Augusto.

Severo, que provavelmente sempre teve a intenção de se livrar do rival, deu a seu filho Lucius Septimius Bassianus, conhecido como Caracala ( um apelido dado pelo fato dele usar, costumeiramente, um manto de origem gaulesa, que tinha esse nome) o mesmo título de César, o que, na prática, significava a cassação do status de Albino, que, em seguida, foi declarado “Inimigo Público”.

Foi também 195 D.C que Severo proclamou que era filho do imperador Marco Aurélio, mudando o nome de seu filho Caracala para Marcus Aurelius Severus Antoninus Augustus, numa tentativa de se legitimar como continuador da bem-sucedida dinastia dos Antoninos, que terminara com o assassinato de Cômodo.

De fato, bem antes disso, Severo havia feito circular uma estória de que ele mesmo seria filho ilegítimo de Marco Aurélio, e era por esse motivo que ele fazia questão de se apresentar com corte de barba e cabelo idêntico ao utilizado por aquele finado imperador, sendo que os bustos de Severo mostram claramente essa semelhança (mas também devemos notar que barba e cabelo encaracolados eram a moda do período). Porém, esta pretensão de Severo nunca foi considerada  pela maioria dos historiadores antigos e modernos.

Em verdade, Severo e Albino, desde a revolta contra Dídio Juliano, provavelmente sempre estiveram tentando ganhar tempo até terem todas as condições de eliminarem um ao outro. Quando chegou a notícia de sua proscrição pelo Senado, em 196 D.C, Albino já estava preparado para invadir a Gália e, após derrotar o legado de Severo, Vinius Lupus, assumiu o controle da importante província, instalando-se em Lugdunum (Lyon).

Na inevitável guerra que se seguiu, Severo conseguiu derrotar Albino, na Batalha de Lugdunum, em 19 de fevereiro de 197 D.C. Foi uma batalha duríssima, segundo Dio Cassio, envolvendo 150 mil soldados de cada lado (número provavelmente exagerado). Severo ganhou o dia utilizando a sua cavalaria. Albino se matou ou foi capturado e executado, não se sabe ao certo. Porém, as fontes narram que Severo dispensou um tratamento cruel ao cadáver, que foi exposto nu e pisoteado pelo seu cavalo. A cabeça do rival foi decepada e enviada à Roma, como um alerta para futuros pretendentes. Por sua vez, a desafortunada Lyon, como punição pelo apoio a Albino, foi saqueada.

Entre 197 e 199 D.C, foram travadas com sucesso uma série de campanhas contra o Império Parta que derivaram no estabelecimento da nova província da Mesopotâmia.

Após a conquista de Ctesifonte, a capital dos Partas, em cujo cerco faleceram cerca de 100 000 pessoas, os romanos apoderaram-se dos tesouros inimigos.

Em seguimento à vitória, Severo dedicou os cinco anos posteriores a organizar a administração da nova província, cuja existência, entretanto, jamais seria pacífica e teria curta duração, fadada a ser retomada pelos persas sassânidas, que destronariam os partas arsácidas, fundando um novo império.

Não obstante, as vitórias de Severo na região asseguraram o controle das estratégicas cidades de Nísibis e Síngara e a supremacia regional de Roma até o ano de 251 D.C, ou seja, por quase 50 anos. Ficaria, como testemunho dessa campanha, o Arco do Triunfo de Setímio Severo, no Fórum Romano, ainda existente.

Com efeito, a preocupação com o Exército e as questões militares foram o cerne da política governamental de Severo.

Severo começou por extinguir a Guarda Pretoriana e dispensar, com desonra, os seus integrantes. Em substituição, ele formou uma guarda com 10 coortes (cerca de 10 mil homens), com seus veteranos da Panônia. Depois, o imperador ainda acantonou, nas cercanias de Roma, uma legião. Na prática, com essas últimas iniciativas, a Guarda acabou sendo reconstituída.

Depois, Severo decretou um aumento de um terço para o salário dos soldados, o qual passou de 300 para 400 denários e aumentou o número de legiões de 30 para 33, medidas que, entretanto, provocaram um grande déficit público, causando inflação e prejudicando a economia imperial..

Severo também ampliou a “Anona” militar, organizando-a oficialmente como uma instituição permanente de previdência social dos soldados.

O imperador reformou, ainda, o estatuto civil dos militares:

De fato, até o reinado de Cláudio, os soldados não podiam deixar os quartéis enquanto duravam os seus anos de serviço. Consequentemente, exigia-se que eles não tivessem família por um número determinado de anos, variando o tempo em função da unidade a que pertenciam: os Pretorianos durante 15 anos, os legionários durante 20 anos e os auxiliares durante 30 anos.

Cláudio reformara o sistema a fim de permitir aos soldados saírem do acampamento quando não estivessem de serviço, facilitando-lhes assim fundarem uma família; porém, ainda assim, até o reinado de Severo, eles não tinham direito a casar-se legalmente e reconhecer os seus filhos antes de concluir o seu tempo de serviço militar. Então, Severo autorizou que os militares oficializassem a sua vida conjugal.

Como consequência dessa política, aumentou-se o número de cidadãos romanos, pois, com o status de casamento legal, os filhos dos soldados com as mulheres não-romanas que habitavam as proximidades dos acampamentos podiam aspirar à cidadania romana. Desse modo, podemos entender a “Constitutio Antoniniana” – lei editada pelo filho de Severo, Caracala, estendendo a cidadania romana a todo homem livre nascido no Império – como uma continuação desta política de Severo.

Severo também estabeleceu novas honras militares, autorizando aos oficiais portar um anel de ouro, privilégio até então reservado aos cavaleiros.

Além dos assuntos militares, Severo também dedicou-se aos assuntos administrativos e civis.

Vale citar que Severo tinha como seu principal auxiliar o seu primo, Gaius Fulvius Plautianus, Prefeito Pretoriano, e era também assessorado por juristas célebres, como Ulpiano e Papiniano,

Na Síria, de onde era natural a sua esposa, Severo criou duas novas províncias, para facilitar a administração local e, não menos importante, diminuir o poder do seu respectivo governador, que comandava várias legiões, as quais foram divididas entre as duas novas unidades político-administrativas.

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Depois de concluir a campanha no Oriente,  Severo visitou o Egito, onde ele rendeu homenagem ao corpo de Alexandre o Grande, e, depois, ele navegou o rio Nilo até Tebas. Em seguida, ele dedicou-se aos assuntos de sua África natal, onde as tribos nativas dos Garamantes estavam causando problemas. Derrotados os inimigos, com a expansão do Limes Africanus, Severo pode estabelecer oficialmente a província da Numídia, separada da África, e, finalmente após esse périplo pelo Oriente e África, o imperador retornou  Roma, em 203 D.C.

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(Painel de madeira pintada, com as figuras de um Severo já grisalho, da imperatriz Júlia Domna e de seus filhos Caracala e Geta (rosto apagado). A pintura é proveniente do Egito e provavelmente foi pintada quando da viagem da família imperial pela Província, por volta do ano 200 D.C. Posteriormente, quando Caracala sucedeu ao pai e assassinou Geta, foi decretada a “damnatio memoriae” deste e, obedientemente, a imagem de Geta foi apagada dos monumentos públicos, bem como deste painel. É o único retrato pintado de um imperador e ele é valiosíssimo pois nos permite ver as cores das vestimentas e dos ornamentos imperiais, inclusive o cetro e a coroa, além da tez da pele e dos cabelos.)

 

Na capital do Império, Septímio Severo erigiu uma série de importantes construções: ele embelezou o lado sul do Palatino mediante a construção de uma monumental fonte chamada Septizódio, dedicada aos sete principais astros. Além disso, foi ampliado o palácio imperial, com a construção de uma nova ala (Domus Severiana), e ele também começou a construção dos banhos públicos que seriam conhecidos depois como Termas de Caracala, já que terminados no reinado de seu filho. Foram, ainda, restaurados muitos edifícios danificados pelos incêndios que decorreram no final do reinado de Cômodo, entre os que se encontravam: o Templo da Paz, o Teatro de Pompeu, o Pórtico de Otávia e o Arco de Nero.

(O Septizódio, cujas ruínas ainda podiam ser vistas no século XVI, e vista do Palatino, mostrando a Domus Severiana, na extrema direita – imagem de Cassius Ahenobarbus)

A cidade natal de Severo, Leptis Magna, também beneficiou-se amplamente em seu reinado, sendo embelezada com vários monumentos suntuosos: o Fórum de Severo, a Basílica de Severo, o Mercado e  grandes instalações portuárias.

(Arco, Anfiteatro, Mercado e Basílica de Leptis Magna, construídos durante o reinado de Severo. Fotos de SashaCoachman)

 Septímio Severo tomou, ainda, algumas  significativas medidas judiciárias e assistenciais: A Presidência dos tribunais de apelação foi transferida aos Prefeitos Pretorianos, função antes realizada pelo imperador,  e foi instituída a distribuição gratuita de azeite de oliva, que se unia à tradicional repartição de trigo para a plebe.

A fim de consolidar a sua sucessão, Severo casou o seu filho Caracala com Plautilla, filha do Prefeito Pretoriano Plautianus (Plauciano). Esse casamento arranjado, porém, foi o início da discórdia entre Severo e seu antigo amigo e parente.

De fato, Caracala odiava Plauciano, e, após o casamento, ele recusou-se a ter qualquer relacionamento com a esposa. Na verdade, consta que Caracala prometeu que, quando se tornasse imperador, daria cabo de ambos, esposa e sogro, o que pode ter levado Plauciano a conspirar contra Severo, ou, ao menos, este foi o pretexto que Caracala usou para conseguir a queda e execução do sogro. Plautiano foi acusado de traição por alguns centuriões em 205 D.C, subornados provavelmente por Caracala. Severo mandou executá-lo e Plautilla foi exilada na ilha de Lipari.

As relações de Severo com o Senado nunca foram boas, devido ao caráter marcadamente ditatorial do seu reinado. O imperador mandou executar dúzias de senadores sob variadas acusações de corrupção e conspiração, substituindo-os por homens fiéis ao trono.

Não obstante, entre a plebe romana, Septímio Severo gozava de popularidade, devido às medidas que ele tomou contra a corrupção generalizada que havia aumentado durante o reinado de Cômodo, e Severo ganhou a boa reputação de ter restabelecido a moralidade pública após os anos de decadência do governo anterior.

Contudo, o aumento vertiginoso das despesas militares, obrigou Severo a promover a maior desvalorização do denário desde o reinado de Nero, o que causaria uma grande inflação.

Nos anos finais do reinado de Severo, ocorreram muitos ataques das tribos caledônias que viviam além da Muralha de Adriano, que foram estimuladas pelo fato de Albino, quando da disputa com Severo pelo trono, haver zarpado para a Gália com praticamente todo o efetivo militar da Britânia.
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Em 207 D.C, o incansável Septímio Severo foi para a Britânia combater os Caledônios, levando consigo a esposa e os dois filhos, realizando várias campanhas no norte da Muralha de Adriano, que foi reforçada por ele. Todavia, esse esforço não foi suficiente para subjugar aquelas ferozes tribos, antepassadas dos escoceses.

As fontes narram que, preocupado com a instabilidade mental demonstrada por Caracala, Severo nomeou, em 209 D.C, seu filho mais novo, Geta, como “César”.

A campanha contra os Caledônios prosseguiu, com resistência maior do que se poderia supor, e a saúde do já sexagenário Severo não aguentou o tranco. Ele caiu gravemente enfermo, e, pressentindo que ia morrer, mandou chamar Caracala e Geta, para dar-lhes um último conselho, em seu leito leito de morte, o qual ficaria célebre:

Não briguem entre si, deem dinheiro aos soldados e desprezem todos os outros“.

No dia 4 de fevereiro de 211 D.C, em Eboracum(York), aos 65 anos de idade,  Setímio Severo morreu e Caracala e Geta foram aclamados imperadores pelas tropas. Ambos decidiram interromper imediatamente a campanha e voltar para Roma.

Nove meses depois, Caracala mataria seu irmão Geta,  que se refugiara nos braços da mãe de ambos no próprio palácio, para reinar sozinho. Portanto, Caracala somente seguiria fielmente o segundo e o terceiro conselhos de seu pai…

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(Busto de Caracala, o sucessor de seu pai Severo, cuja expressão corresponde ao seu caráter violento)

CONCLUSÃO

Septímio Severo é um imperador controverso e o seu reinado é um dos mais difíceis de avaliar:  por um lado, ninguém pode negar que ele foi um servidor público incansável e muito dedicado aos assuntos públicos, tarefa que jamais foi por ele deixada de lado em prol dos prazeres e lazeres que Roma oferecia. De fato, Severo expandiu as fronteiras do Império Romano, visitou inúmeras províncias, venceu guerras e construiu importantes monumentos.

Mas Severo falhou em fazer uma reforma administrativa e tributária capaz de sustentar o aumento no efetivo e no orçamento militar, sendo que o aumento dos soldos acentuou uma tendência que comprometeria as finanças públicas dos reinados que se seguiram. E, ironicamente, tantas benesses dadas aos soldados podem ter comprometido a disciplina militar, estimulando os vários episódios de insubordinação que seriam observados durante os reinados da dinastia inaugurada por ele.

Outra medida  que se considera negativa foi a proibição de que os senadores exercessem comandos militares. Essa vedação, que seria reforçada nos reinados seguintes, afastou a elite romana do serviço militar e acabou contribuindo para criar ou ampliar um estranhamento entre o Exército e o Senado, afastando completamente a aristocracia da carreira das armas, o que no futuro se revelaria nocivo.

E Severo falhou mais amplamente em seguir os quase cem anos de boa política sucessória dos Antoninos, dinastia que ele tinha a pretensão de fazer parte, ao escolher os incompetentes e despreparados Caracala e Geta como herdeiros, mas este, diga-se de passagem, foi um erro no qual o próprio “imperador-filósofo e déspota esclarecido” Marco Aurélio também incorreu.

Quanto às numerosas execuções de senadores e rivais, talvez Severo não tenha sido tão diferente da maior parte de seus antecessores e sucessores. O fato é que ser imperador romano, especialmente no século III, como logo seria constatado, era uma das profissões mais perigosas do mundo.

CLEÓPATRA – RAINHA DE REIS

A beleza dela, de acordo com o que nos foi dito, em si mesma não era de todo incomparável, nem tanta que impactasse aqueles que a viam, mas a sua presença tinha um charme irresistível, e havia uma atração na sua pessoa e na sua conversa, que, junto com a peculiar força de sua personalidade, em cada palavra ou gesto, deixavam todos que se envolvessem com ela enfeitiçados. Apenas escutar o som da voz dela já era um prazer, e a sua língua, como se fosse um instrumento de muitas cordas, podia passar de um idioma para outro, conforme ela desejasse, de modo que havia poucas nações bárbaras para as quais ela precisava de um intérprete, respondendo-lhes pessoalmente e sem auxílio.”

Plutarco, Vida de Antônio, 27,2

Genealogia, infância e juventude

Kleopatra VII Thea Philopator (Cleópatra) nasceu no início do ano de 69 A.C., em Alexandria, a capital do Egito. Ela era filha do faraó Ptolomeu XII Auletes e, provavelmente, não se tem uma certeza exata, da rainha Cleópatra V Triphaena. Kleopatra quer dizer, em grego: “A glória do pai“, e  “Thea Philopator ” significa: “Deusa que ama o pai“.

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Busto de Cleopatra VII – Altes Museum – Berlin – Germany 2017.jpg

Cleópatra e sua família eram descendentes diretos do nobre macedônio Ptolomeu,  um general que foi um dos auxiliares mais próximos do rei da Macedônia, Alexandre, o Grande.

(Busto de Ptolomeu I Soter, foto de Marie-Lan Nguyen )

Quando Alexandre morreu, em 323 A.C, os generais mais próximos de Alexandre estabeleceram-se, inicialmente, como “sátrapas” (governadores) das terras que tinham sido anexadas pelo rei macedônio, e a Ptolomeu coube governar o Egito. Em 305 A.C., Ptolomeu, da mesma forma que os outros sátrapas, após uma série de conflitos entre os sátrapas e diversos pretendentes à sucessão de Alexandre, denominada de Guerra dos Diádocos, autoproclamou-se rei do Egito, com o nome de Ptolomeu I Soter.

Mapa dos territórios controlados pelos sucessores de Alexandre, foto Fabienkhan, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons

No Egito, os sucessores e descendentes de Ptolomeu rapidamente assumiram os títulos e ornamentos milenares dos faraós, e, para se legitimarem perante os súditos nativos, adotaram também muitos dos costumes da realeza nativa, entre os quais estavam os casamentos endogâmicos, entre irmão e irmã, que tinham o objetivo de preservar o caráter divino da linhagem sanguínea dos faraós.

Ptolomeu XII Auletes, pai de Cleópatra, retratado em um relevo no templo de Kom Ombo, foto By Hedwig Storch – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5930892

Por outro lado, culturalmente e em suas relações com o mundo mediterrâneo, a corte ptolomaica reconhecia a si mesma e comportava-se como os outros reinos helenísticos surgidos a partir do falecimento de Alexandre, o Grande. A língua da corte era o grego koine e em Alexandria foram erguidos templos, monumentos e palácios em estilo arquitetônico clássico. Entretanto, os ptolomaicos continuaram construindo templos e monumentos no estilo egípcio, inclusive ostentando inscrições em hieróglifos e participando do culto às divindades egípcias tradicionais.

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Farol de Alexadnria, por Stella maris, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

O Egito Ptolomaico experimentou tempos prósperos e chegou mesmo a ser um reino muito poderoso; porém, quando Cleópatra nasceu, o país estava em franca decadência política, em boa parte devido a disputas sucessórias e incompetência dos governantes, tornando-se praticamente um protetorado da grande potência do mundo mediterrâneo, Roma, que vinha paulatinamente anexando todos os reinos helenísticos. Na verdade, então, o único estado digno de nota no Mediterrâneo, além da República Romana, era o Egito, que, apesar de conflagrado e desorganizado, era bastante rico, graças aos abundantes excedentes de trigo gerados produzidos pela fertilidade oriunda do ciclo das enchentes do rio Nilo e ao comércio com a Índia.

Cleópatra recebeu uma educação clássica esmerada. O seu tutor foi Philostratos, provavelmente um filósofo, com o qual aprendeu Filosofia e Oratória. De fato, desde ja infância, a jovem princesa deve ter demonstrado uma notável inteligência, pois ela aprendeu a falar nove línguas: grego, egípcio, latim, persa, etíope (amárico), aramaico, siríaco, troglodita e a língua dos Medos. Segundo nos conta o historiador antigo Plutarco:

“Era um prazer somente escutar o som da voz dela, com a qual, como se fosse um instrumento de muitas cordas, ela podia passar de uma língua para outra, de modo que havia poucas nações bárbaras para as quais ela precisava de um intérprete para responder.”

Plutarco, Vida de Antônio, 27,3

O reinado do pai de Cleópatra foi marcado pelo aumento da dependência política e econômica do Egito para com Roma. Muitas dívidas foram contraídas junto aos banqueiros romanos e o Senado Romano chegou a cogitar a anexação do reino, acarretando que humilhantes concessões aos romanos tivessem que ser feitas. Obviamente, que isso desagradou à população egípcia e aos influentes sacerdotes.

Assim, em 58 A.C., as tensões políticas internas do Egito levaram a uma revolta popular que resultou no exílio de Ptolomeu XII, após a anexação da ilha de Chipre, que era domínio ptolemaico, pelos romanos. O faraó acabou indo morar na Villa do triúnviro Pompeu, na colinas albanas, próximo à cidade de Roma, levando consigo a sua filha Cleópatra, que tinha onze anos de idade (os dois filhos homens de  Ptolomeu XII: Ptolomeu XIII Theos Philopator e Ptolomeu XIV, ainda tinham somente quatro e dois anos de idade).

Contudo, o levante nacionalista, que colocou como governante do Egito a irmã mais velha de Cleópatra, Berenice IV, em conjunto com rainha Cleópatra VI Triphaena, (que não se tem certeza se era outra irmã das duas ou a esposa de Ptolomeu XII), teria vida curta. Os banqueiros romanos,  grandes credores de Ptolomeu XII, tinham todo interesse em sua restauração. Assim, Pompeu ofereceu uma grande soma em dinheiro ao governador romano da Síria, Aulus Gabinius, para ele invadir o Egito e recolocar Ptolomeu XII  no trono.

No início de 55 A.C., Gabinius invadiu o Egito e Ptolomeu XII e Cleópatra acompanharam a expedição. Entre os oficiais de Gabinius, estava o jovem Marco Antônio, que inclusive impediu um massacre de civis na cidade greco-egípcia de Pelousium. Anos mais tarde, Marco Antônio contaria que foi durante a invasão que ele conheceu, e se apaixonou, pela jovem princesa egípcia de apenas 14 anos de idade…

Em pouco tempo, apoiado pela vitoriosa expedição, Ptolomeu XII já reinava de novo sobre o Egito. Ele executou a sua filha Berenice IV e vários de seus apoiadores, apoiado por dois mil soldados e mercenários romanos, que foram apelidados de “Gabinianos“. Percebendo a aptidão de Cleópatra para governar, e provavelmente já percebendo os primeiros sinais de doença, Ptolomeu XII, em 31 de maio de 52 A.C, a nomeou Regente do Egito, como atesta uma inscrição no Templo de Hator, em Dendera.

Rainha do Egito

Nos primeiros meses de 51 A.C., Ptolomeu XII morreu, nomeando como herdeiros e sucessores, em seu testamento, a sua filha Cleópatra e o seu filho Ptolomeu XIII, que deveriam reinar em conjunto. Para serem os executores deste testamento, Ptolomeu encarregou, expressamente, o  “Senado e Povo Romanos”…

Rainha aos dezoito anos de idade, Cléopatra casou-se, como impunha o costume real egípcio, com seu irmão e agora colega Ptolomeu XIII, que tinha somente doze anos. Ele foi reconhecido oficialmente como governante, mas, na prática, quem atuava como o seu regente era o eunuco Pothinus (ou Potheinos).

(Dracma de Cléopatra VII. Podemos ver  nesta moeda, que foi cunhada no reinado dela, todos os elementos convencionais da iconografia da rainha: O diadema real dos Ptolomeus, o cabelo fatiado no estilo “melão”, o coque, o nariz ligeiramente aquilino ou adunco e o queixo proeminente Foto By Hedwig Storch – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5930892

O fato é que, sendo mais velha e muito mais preparada do que o irmão, Cléopatra governava como se fosse a única soberana. A partir de agosto de 51 A.C, ela começou a cunhar moedas apenas com a sua efígie como rainha, e os documentos oficiais não mencionavam mais Ptolomeu XIII. A situação econômica, porém, continuava difícil, pois ela herdara a grande dívida que o pai contraíra junto aos romanos.

Pothinus e outros conselheiros de Ptolomeu XIII persuadiram-no a reagir contra a predominância da irmã no reino. Eles urdiram uma conspiração que foi bem sucedida e que foi ganhando o apoio de pessoas importantes, pois tudo indica que, antes do final de 50 A.C., Ptolomeu passou a controlar o governo, já que os documentos oficiais, a partir de então, ostentam o nome dele antes do nome da irmã.

Havia uma guerra surda não-declarada dentro de Alexandria entre as cortes de Ptolomeu XIII e Cleópatra quando, no verão de 49 A.C., chegou à cidade Gnaeus Pompeius, o filho de Pompeu, o Grande, que tinha sido obrigado a fugir para a Grécia após Júlio César invadir a Itália e tomar Roma, dando início à Grande Guerra Civil. Pompeu pedia ao Egito auxílio financeiro e tropas para ajudar as forças leais aos Optimates na guerra contra César e os Populares.

Cleópatra e Ptolomeu XIII concordaram e assinaram um último decreto conjunto enviando a Pompeu 60 navios de guerra e 500 soldados egípcios, além dos Gabinianos“.

Deposição e  luta pelo poder

Nesse meio tempo, os partidários de Ptolomeu conseguiram prevalecer sobre a facção que apoiava Cleópatra e ela foi obrigada a fugir do palácio, indo se refugiar em Tebas, mais ao sul, subindo o Nilo.

Agora, o Egito também estava vivendo uma guerra civil aberta. Assim, Cleópatra, acompanhada de sua meia-irmã Arsinoe IV, viajou para a Síria, e lá ela conseguiu reunir um exército para tentar recuperar Alexandria, porém, o avanço do seu exército foi barrado nas cercanias de Pelousium.

Em 9 de agosto de 48 A.C.,  Pompeu foi derrotado na Batalha de Farsália, e, com o remanescente de seu exército, ele fugiu para a cidade de Tiro, no atual Líbano. Lá, Pompeu decidiu que valia a pena ele viajar até o Egito, tendo em vista as boas relações que ele sempre manteve com Ptolomeu XII, pai dos atuais governantes do país, os quais, inclusive, haviam atendido o seu pedido anterior de ajuda, e onde ele esperava obter um valioso apoio para continuar a luta contra César.

Quando o navio de Pompeu chegou próximo a Pelousium, ele foi abordado por galeras da frota egípcia, que aderira a Ptolomeu XIII. O jovem rei foi aconselhado por Pothinus a não ajudar Pompeu, e, em uma armadilha idealizada pelo seu auxiliar Theodotus, Pompeu foi atraído para desembarcar e morto no próprio bote em que ele estava sendo transportado, tendo a sua cabeça sido cortada, fato ocorrido em 29 de setembro de 48 A.C.. Este assassinato ocorreu porque Ptolomeu e Pothinus acreditavam que, assim, eles estariam agradando a César, o qual poderia seria ser simpático à causa do primeiro na disputa contra a irmã.

Porém, ao contrário do que os egípcios esperavam, César ficou consternado e enfurecido com o assassinato de Pompeu. Além da afronta que representava o assassinato de um cônsul ao prestígio romano, ele certamente pretendia utilizara captura de Pompeu politicamente, talvez perdoando-o, como era do seu costume, para angariar simpatia perante a opinião pública. Assim, César ordenou que Ptolomeu XIII e Cleópatra desmobilizassem os seus exércitos e fossem encontrá-lo em Alexandria, onde ele resolveria a disputa entre os irmãos à luz dos interesses de Roma.

Julius Caesar Aghast at Soldier Holding Pompey's Head
1820 — Theodatus, the rhetorician, shows Caesar the head of Pompey. Etching, 1820. — Image by © Bettmann/CORBIS

Todavia, Ptolomeu XIII não obedeceu a ordem de César e chegou a Alexandria à testa de seu exército, que ficou acampado nas cercanias da cidade, enquanto ele e seus auxiliares mais diretos, instalados na mesma,  aguardavam a audiência como o líder romano.  Já César ficou  instalado no palácio real, situado em uma península.

Amante de Júlio César, restauração do trono e maternidade

Para a surpresa de Ptolomeu XIII, a sua irmã/esposa e rival dele conseguiu furar o cerco que o exército dele fazia à cidade e penetrar no palácio, chegando até os aposentos de César. A ser verdadeiro o célebre relato de Plutarco, foi uma aparição espetacular: Cleópatra entrou no palácio escondida dentro de um tapete enrolado, que estava sendo levado como presente para César!

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Cleópatra ante César, óleo de Jean-Léon Gérôme, 1866, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Acho altamente provável que, já naquela noite, César tenha dormido com Cleópatra, conforme o relato de Plutarco deixa transparecer. Ela tinha entre 20 e 21 anos e era bonita, inteligente e sedutora. Ele tinha 52 e era famoso por ter casos com mulheres ilustres, incluindo algumas rainhas. E é até possível que César tenha sido o primeiro homem na vida de Cleópatra. Ela certamente não deve ter tido relações sexuais com o irmão bem mais novo.

(Busto de Tusculum, considerado o único que foi feito enquanto César era vivo, por volta dos 50 anos de idade, mostrando a aparência que ele deveria ter quando conheceu Cleópatra, Museum of antiquities, Public domain, via Wikimedia Commons)

A versão do historiador romano Dião Cássio, embora um pouco diferente nos detalhes, e sem mencionar a rocambolesca entrada em um tapete, é no mesmo sentido:

“Cleópatra, ao que parece, tinha, inicialmente, exposto a César o seu pleito contra o irmão por meio de emissários, porém, assim que ela descobriu as inclinações dele (que era muito suscetível, a tal ponto de ter tido casos com tantas outras mulheres –  indubitavelmente, com todas que por acaso tivessem passado pelo seu caminho), ela o avisou de que estava sendo traída pelos amigos dela, e pediu permissão para defender a sua causa em pessoa. Pois ela era uma mulher de beleza transcendente, e, naquela época, quando ela estava na flor da sua idade, ela estava ainda mais impactante; ela também possuía uma voz muito charmosa, e sabia como se fazer ainda mais agradável a todos. Sendo deslumbrante tanto para ser vista como para ser ouvida, e com o poder de conquistar a qualquer um, e até mesmo um homem saciado de amor que já tinha ultrapassado o auge da idade, ela achou que era o seu papel encontrar César e escorar em sua beleza todas as suas reivindicações ao trono. Ela, consequentemente, pediu para ser admitida à presença dele, e, obtendo essa permissão, ela se enfeitou e se arrumou de modo a aparecer perante ele com a aparência mais majestosa, e, ao mesmo tempo, inspiradora de pena. Quando ela aprontou esse esquema, ela entrou na cidade (pois ela estava vivendo fora dela) e, à noite, sem o conhecimento de Ptolomeu, entrou no Palácio. César, ao vê-la e ouvi-la dizer algumas palavras,  imediatamente ficou tão cativado por ela que, antes da alvorada, mandou buscar Ptolomeu e tentou reconciliá-los, agindo assim como advogado daquela mesma mulher da qual ele tinha decidido ser o juiz.”

Cássio Dião, História de Roma, Livro LII, 34, 4 – 35, 1

Furiosos com a intimidade que agora César e Cleópatra demonstravam ter, há até quem diga que ele, ao chegar no palácio para falar com César, encontrou a irmã no quarto do romano,  Ptolomeu XIII e  os seus partidários resolveram partir para o confronto direto com o futuro Ditador romano. Eles correram até a multidão, denunciando que Cleópatra iria entregar o Egito aos romanos e a turba, revoltada, cercou o palácio. Entretanto, embora César tivesse entrado em Alexandria com poucas soldados, o número era suficiente para conter a multidão e ele não se abalou: o líder romano mandou ler em público o testamento de Ptolomeu XII e afirmou que a vontade do falecido rei seria respeitada, devendo Ptolomeu XIII e Cleópatra governarem o Egito juntos.

O eunuco Potheinus não se conformou com a decisão de César e secretamente mandou uma mensagem para o general egípcio Achillas, o assassino de Pompeu e comandante militar de Ptolomeu XIII, instando-o a ordenar um ataque aos romanos em Alexandria. Ele estava confiante que César, contando com apenas quatro mil soldados, não conseguiria resistir ao exército do faraó, que era muito maior, de cerca de vinte mil homens. Mas, após o envio do recado, o ardil de Pothinus foi descoberto e ele acabou sendo executado por ordem de César. Diante da situação, o líder romano até tentou negociar um acordo com Achillas, mas este executou os emissários romanos, e, em seguida, marchou contra Alexandria, sitiando César e Cleópatra no palácio.

Arsinoe IV, a jovem e ambiciosa irmã de Cleópatra,  que tinha  entre cerca de 15 ou 20 anos de idade (não se sabe exatamente quando ela nasceu), aproveitou para fugir do palácio, auxiliada pelo eunuco Ganymedes, e se juntou a Achillas, proclamando-se rainha do Egito, já que o seu irmão Ptolomeu XIII encontrava-se sob a custódia de César. Em seguida, Arsinoe ordenou a execução de Achillas e nomeou Ganymedes no lugar dele, como comandante do exército.

Em 23 de junho de 47 A.C., Cleópatra deu a luz a seu primeiro filho, que se chamou Ptolemaios XV Philopator Philometor Caesar. Ela anunciou que o menino, que receberia o apelido de Caesarion (Cesárion ou Cesarião), era fruto do seu relacionamento com Júlio César, que, aliás, nunca negou publicamente a paternidade, apesar de, igualmente, jamais ter reconhecido oficialmente a criança. A cronologia do nascimento de Caesarion, estimando-se que ele tenha nascido com 9 meses, aponta para uma concepção por volta de outubro de 48 A.C., mais ou menos a data em que deve ter ocorrido o primeiro encontro entre Júlio César e Cleópatra, ou, então, somente um punhado de dias depois.

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(Cabeça que se acredita retratar Caesarion como Faraó. Os traços faciais lembram muito os das imagens de Cleópatra; Sdwelch1031, CC0, via Wikimedia Commons

Com muita dificuldade, César conseguiu resistir ao cerco até que reforços chegassem, em março de 47 A.C. O exército egípcio, agora comandado por Arsinoe IV e Ptolomeu XIII, que tinha conseguido autorização de César para sair de Alexandria, para servir de negociador, recuou para o Nilo, onde foram derrotados por César, na chamada Batalha do Nilo. O barco de Ptolomeu XIII, na fuga, virou, e ele acabou se afogando no rio, em janeiro ou fevereiro de 47 A.C., morrendo com 15 anos de idade, aproximadamente. Arsinoe foi capturada e, mais tarde, seria exibida na procissão triunfal de César pelas ruas de Roma.

Em seguida, César designou o irmão mais novo de Cleópatra, Ptolomeu XIV, que tinha doze anos de idade, para reinar ao lado dela, como faraó, e, como previa o costume, irmão e irmã se casaram. Não obstante, Cleópatra e César continuaram morando juntos, no palácio, em Alexandria. Como presente, César também devolveu ao Egito o governo da ilha de Chipre, que tinha sido tomada pelos romanos em 58 A.C.

Se a posição de Cleópatra no Egito parecia assegurada., no entanto, a de César, na República Roman, certamente estava longe disso, pois ainda havia consideráveis forças dos Optimates na África e na Espanha, onde os seus adversários estavam firmes e resolutos no prosseguimento da guerra civil. Além disso, havia assuntos políticos urgentes a decidir em Roma, já que ele havia sido, recentemente, nomeado Ditador.

Por isso mesmo, até hoje é motivo de espanto entre os analistas o fato de César, deixando de lado a sua premente situação, ter ficado até abril de 47 A.C. no Egito, ou seja, mais de dois meses. E, segundo a narrativa de Suetônio, os amantes aproveitaram esse tempo para fazer um idílico cruzeiro romântico e turístico pelo Nilo, visitando os antigos monumentos da milenar civilização egípcia na barcaça real de Cleópatra, que se chamava Thalamegos e tinha remos de prata. Este inusitado interlúdio amoroso somente foi interrompido pelo fato dos soldados romanos que acompanhavam César terem se recusado a continuar até a Etiópia:

“Ele também teve casos com rainhas, incluindo Eunoe, a Moura, esposa de Bogudes, para quem, e também ao marido, ele deu vários presentes esplêndidos, como escreve Naso; Mas, acima de todas, com Cleópatra, com quem ele frequentemente festejava até o amanhecer, e com quem ele teria ido até a Etiópia, atravessando o Egito, na barcaça real dela, se os seus soldados não tivessem se recusado a segui-lo. No final, ele chamou-a para Roma, e não deixou-a ir até que ele a cobrisse de honrarias e de ricos presentes; E ele até permitiu que ela desse o seu nome à criança que ela carregava. De fato, de acordo com certos autores gregos, essa criança parecia muito com César, fisicamente e no jeito de andar. Marco Antônio declarou ao Senado que César tinha realmente reconhecido o menino, e que Gaius Matius, Gaius Oppius, e outros amigos de César, sabiam disso”.

Suetônio, Vida de Júlio César, 52, 1-2
Barcaça de Cleópatra, de Henri Pierre Picou, 1891, foto Internet Archive Book Images, No restrictions, via Wikimedia Commons
Detalhe do famoso mosaico romano retratando cenas do rio Nilo, no Museu Nacional de Palestrina, por amelia.boban, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

Em abril de 47 A.C., César foi para a Capadócia lutar contra o rei Farnaces II, que havia se aproveitado da guerra civil romana para invadir a região e tentar retomar o antigo reino de seu pai, o Ponto, deixando no Egito quatro legiões para apoiar Cleópatra e vigiar eventuais ações contra os interesses romanos. Em 2 de agosto de 47 A.C., essa guerra na Ásia já estava terminada, com a vitória romana na Batalha de Zela. A campanha foi tão rápida, que levou César a dizer uma de suas frases célebres: “Veni, vidi, vinci” (Vim, vi e venci).

De fato, o tempo ocioso passado no Egito dera tempo às forças remanescentes do falecido Pompeu e do Senado de se reorganizarem na Áfric, obrigando César a ter que se deslocar para lá, mas, mesmo assim, ele conseguiu vencer as Batalhas de Ruspina, em 04 de janeiro de 46 A.C. e de Tapsos, em 6 de abril de 46 A.C., na qual foram eliminados seus grandes opositores, Catão, o Jovem, e Metelo Cipião.

A Guerra Civil  ainda não estava terminada, já que restava um importante foco de resistência na  Hispânia, centrado em Córdoba, que era liderado pelos filhos de Pompeu. Por sua vez,  nessa campanha, os exércitos de César  eram comandados pelos seus lugar-tenentes, Quinto Fábio Máximo e Quinto Pédio. Não obstante, Cleópatra e César julgaram a situação suficientemente segura para que a rainha fizesse uma espetacular visita à Roma, no final de 46 A.C, acompanhada de Ptolomeu XIV, para assistirem ao Triunfo de César.

Cleópatra em Roma. Grandes esperanças e decepções.

Em Roma, Cleópatra foi recebida por César com toda a pompa que os monarcas helenísticos estavam acostumados a ter. Mas, para manter as aparências, uma vez que ele era casado com a sua esposa romana Calpúrnia, a rainha e o seu irmão-consorte ficaram hospedados nos Horti Caesaris, a propriedade com grandes jardins que o Ditador possuía do lado de fora das muralhas de Roma, às margens do rio Tibre. Lá, ela era visitada pelos mais ilustres membros da sociedade romana, incluindo Cícero, que se queixou da rainha egípcia em uma carta. a seu amigo Atticus. Nesta missiva, o célebre político e orador romano confessa que detestava Cleópatra, de quem não suportava a arrogância, e se queixa de que a rainha não teria cumprido uma promessa relativa a “assuntos literários” (talvez, quem sabe, algum livro raro da Biblioteca de Alexandria no qual Cícero estaria interessado?).

Dião Cássio afirma que essa recepção à Cleópatra comprometeu a imagem de César perante a opinião pública, o que tanto pode se referir apenas à classe senatorial, como à população em geral. Ciente, ou não disso, durante a estadia de Cleópatra e Ptolomeu, César providenciou para que eles recebessem o título de “Amigos e Aliados do Povo Romano“.

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Estátua de Cleópatra, no Museo Pio Clementino, parte dos chamados Musei Vaticani. A imagem possui o diadema real, o penteado “melão”, o nariz adunco e outros traços faciais correspondentes às de outros retratos identificados como o da rainha. É, indiscutivelmente, uma estátua de Cleópatra. Foto:.Vatican Museums, Public domain, via Wikimedia Commons

Em setembro de 46 A.C., César celebrou o seu grande triunfo pelas ruas de Roma, celebrando suas vitórias desde a Gália até o Egito, e que durou espantosos dez dias. Nessas procissões triunfais, foram exibidos, como cativos, o chefe gaulês Vercingetórix, e Arsinoe IV,  a irmã de Cleópatra. Porém, Dião Cássio menciona que a visão da jovem Arsinoe sendo levada acorrentada em um carro inspirou compaixão na multidão, que ficou com pena da menina de apenas 17 anos de idade (estimativa mais baixa). Essa inesperada reação do público forçou César a poupar a vida de Arsinoe, contrariamente á tradição de executar o líder inimigo cativo após o evento, e então ela foi enviada para residir no Templo de Artémis, em Éfeso, um tradicional santuário para perseguidos políticos e fugitivos da justiça.

No dia 26 de setembro, último dia de seu triunfo, César inaugurou o chamado Fórum de César, próximo ao Fórum Romano, cujo espaço já estava ficando insuficiente para abrigar o público. E dentro do Fórum de César foi erguido o Templo de Vênus Genitrix (Vênus Genitora), divindade que ele associava ao culto da sua  própria genealogia, pois os Júlios alegavam ser descendentes de Enéas, que, segundo a mitologia romana, era filho da deusa. E, no precinto do templo, César mandou colocar várias obras de arte, incluindo uma estátua de ouro de Cleópatra, caracterizada como se fosse a deusa egípcia Ísis.

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(Fórum de César, com o Templo de Vênus Genitrix, onde ficava a estátua de Cleópatra

Porém, no início de 45 A.C., Fábio Máximo e Quinto Pédio pediram a intervenção de César, pois eles estavam em situação difícil na Espanha, sitiados pelos exércitos dos Optimates, liderados por Cneu e Sexto Pompeu, além de Labieno, um general ex-partidário de César. Assim, César deixou Roma às pressas e foi para a Espanha. Não sabemos se Cleópatra e o irmão voltaram para o Egito, mas após derrotar definitivamente os adversários na Batalha de Munda, em 17 de março de 45 A.C., o último conflito da Guerra Civil, César retornou para Roma.

Em fevereiro de 44 A.C., na celebração do festival das Lupercais, Marco Antônio tentou, por 3 vezes, colocar um diadema de ouro na cabeça de César. O diadema era um tipo de coroa em forma de aro que simbolizava a realeza nos reinos helenísticos, como era o caso do Egito. Com efeito, Cleópatra, inclusive, assim como os seus antepassados ptolomaicos e os seus congêneres macedônios, selêucidas, atálidas, etc., era quase sempre retratada usando um diadema.

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Portanto, além de parecer uma óbvia manifestação de um projeto monárquico, seja de César ou de seus partidários, o gesto de Antônio, ao menos indiretamente, pode muito bem ter sido associado à relação de César com Cleópatra: Tencionariam ambos reinar sobre o mundo como um casal real? Seria aquela união uma repetição da política de Alexandre, o Grande, que costumava casar-se com as rainhas dos países que ele conquistava? Sintomaticamente, Cícero, que estava presente na ocasião, desconfiado, chegou a perguntar “de onde teria vindo aquele diadema”…

O fato é que o incidente com o diadema nas Lupercais sem dúvida desencadeou, ou ao menos apressou, a execução da conspiração para assassinar César.

Quando, em 15 de março de 44 A.C., César foi assassinado na Cúria de Pompeu, por um grupo 60 senadores, Cleópatra e seu filho Caesarion ainda estavam em Roma. E, certamente, no grande caos que se seguiu ao assassinato, a rainha egípcia deve ter temido pela segurança de ambos, mas, mesmo assim, ela ainda ficaria em Roma até meados de abril.

Teria sido esse período de aproximadamente um mês que Cleópatra ficou em Roma após o assassinato de César decorrente da sua esperança de que Caesarion obtivesse algo de grande monta no testamento do Ditador falecido? Quem sabe o esperado reconhecimento póstumo da paternidade do menino, ou, ao menos, quem sabe, algum grande legado. Porém, segundo as fontes, o testamento não continha nenhuma menção a Caesarion, mas, ao contrário, a última vontade de César oficializava a adoção do sobrinho-neto dele, Gaius Octavius Thurinus (ou Otaviano, como ele passou a ser chamado, que mais tarde se tornaria o futuro imperador Augusto), que, além de filho adotivo, tornou-se o herdeiro político de César e, além disso, recebeu dois terços da imensa fortuna do tio-avô.

De volta ao Egito e reinado “junto “com Caesarion.

Otaviano, que estava na Ilíria recebendo treinamento militar para participar, junto com César, na planejada campanha contra a Pártia, chegou à Roma em 06 de maio de 44 A.C., ocasião em que Cleópatra já tinha voltado para o Egito. Aliás, essa missão de Otaviano, juntamente com outras ações do Ditador em favor do sobrinho neto, não deixam muitas dúvidas de que César jamais planejou tornar o filho de Cleópatra seu herdeiro.

De volta ao Egito, Cleópatra passou a reinar sozinha, e o seu irmão e marido oficial, Ptolomeu XIV, era faraó apenas no papel. Mas, em algum momento, entre o final de julho e o final de agosto de 44 A.C., Ptolomeu XIV morreu. Suspeita-se, com boa dose de probabilidade, que ele tenha sido assassinado por ordem de sua irmã e consorte.

Assim, em 02 de setembro de 44 A.C., com a tenra idade de três anos Caesarion foi coroado Faraó do Egito, com o nome oficial de Ptolemaios XV Philopator Philometor Caesar, passando a reinar oficialmente ao lado da mãe, que, obviamente, era quem detinha todo o poder.

Relevo no Templo de Dendera, retratando Cleópatra, personificada como Ísis., e Caesarion, como faraó. Foto de Olaf Tausch, CC BY 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by/3.0, via Wikimedia Commons

Cleópatra iniciou a construção de um templo em honra de César, o Caesareum, em Alexandria. Ela mandou retirar quatro imensos obeliscos erguidos por faraós das 18ª e 19ª dinastias do Antigo Egito para decorar o templo. Aliás, um destes obeliscos, conhecido como a “Agulha de Cleópatra“, foi doado pelo Quediva do Egito aos Estados Unidos, no século XIX e encontra-se no Central Park, em Nova York. Cleópatra construiu também outros templos e até uma sinagoga para os judeus, em Alexandria (estima-se que mais de 100 mil habitantes da cidade eram judeus).

Reconstituição do Caesareum de Alexandria, com o obelisco ao fundo, por Franck devedjian, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Enquanto isso, a situação política em Roma permanecia confusa: Marco Antônio e Otaviano apresentavam-se como herdeiros políticos de César, cada um tendo seus partidários e exércitos. No início, houve confronto entre ambos, e o Senado tentou se aproveitar disso para reassumir o controle do Estado, aliando-se aos assassinos de César. Todavia, os numerosos veteranos de Júlio César não gostaram nem um pouco disto. Assim, Antônio e Otaviano se associaram a outro correligionário de César, o general Marco Emílio Lépido e os três assumiram o governo, formando o chamado “Segundo Triunvirato“, em 43 A.C.. O Senado, acuado, assentiu com o governo dos três pelo prazo de cinco anos, mas, neste ínterim, os assassinos de César, que se autoentitulavam Liberatores (“Os Libertadores”), tinham conseguido fugir da Itália e levantar alguns exércitos, encontrando apoio entre alguns governadores simpáticos à causa deles, conseguindo, com isso, controlar a Grécia a Macedônia e a Síria.

Começava, assim, uma nova guerra civil romana e, como não era de surpreender, em pouco tempo chegaram ao Egito duas mensagens pedindo o apoio militar de Cleópatra: uma delas enviada pelo governador da Síria, Públio Cornélio Dolabela, um ex-partidário de César, que, tendo inicialmente aderido à causa dos Liberatores, e assim obtido a sua nomeação, resolveu mudar de lado novamente e apoiar o Segundo Triunvirato; a outra, de Caio Cássio Longino (Cássio), o principal líder, juntamente com Bruto, da conspiração que assassinara César. Inclusive Cássio, que conseguira apoio na Síria, tinha sido designado pelo Senado para substituir Dolabela, em uma decisão tomada antes do reconhecimento do Segundo Triunvirato. Agora, ambos lutavam pelo controle da Síria.

Cleópatra respondeu a Cássio que o seu reino estava mergulhado em problemas internos. Porém, ela permitiu que as quatro legiões que César tinha deixado no Egito se juntassem à Dolabela, além de lhe fornecer alguns navios. Em troca, Dolabela conseguiu que o Senado, agora controlado pelos Triúnviros, reconhecesse Caesarion como rei do Egito.  Entretanto, não só as legiões que Cleópatra enviou do Egito foram capturadas por Cássio, como Serapion, o governador que Cleópatra havia nomeado para o Chipre, resolveu se juntar a ele, fornecendo-lhe vários navios. Este último fato talvez seja um indício de que a estratégia de Cleópatra era a de tentar ficar bem com os dois lados, e esperar para ver quem iria prevalecer.

Então, na Batalha de Fílipos, travada em duas etapas, em 03 e 23 de outubro de 42 A.C., Marco Antônio e Otaviano derrotaram os exércitos de  Bruto e Cássio, que se suicidaram.

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(Mapa do mundo romano, após a Batalha de Fílipos, por ColdEel)

Romance com Marco Antônio

Após a Batalha de Fílipos, Antônio passou a controlar a maior parte das províncias orientais da República Romana, enquanto Otaviano passou a mandar no Ocidente. Porém, dentre as suas primeiras medidas, Antônio resolveu apurar as responsabilidades daqueles que tinham apoiado Bruto e Cássio contra o Segundo Triunvirato. Assim, de acordo com o relato de PlutarcoAntônio mandou convidar Cleópatra para uma audiência em Tarsos, na Cilícia, parte da atual Turquia, onde ele estava aquartelado, no verão de 41 A.C.,  já que ela tinha sido acusada de ter fornecido dinheiro e navios a Cássio. Como a rainha não respondeu às várias cartas remetidas, Antônio enviou um assessor, Quintus Dellius,  para tentar convencer Cleópatra a se encontrar com ele em Tarsos. Então, segundo, Plutarco:

“Ela foi  convencida por Dellius, e, levando em consideração as evidências que, antes disso, ela tinha percebido acerca do efeito que a beleza dela teve sobre Júlio César e Cneu, o filho de Pompeu, ela esperava que Antônio cairia mais facilmente aos pés dela. Pois, César e Pompeu a tinham conhecido quando ela ainda era uma garota inexperiente nas coisas, mas agora ela iria visitar Antônio exatamente na idade em que a beleza das mulheres é mais brilhante e elas estão no pico da sua capacidade intelectual. Consequentemente, ela levou consigo muitos presentes, dinheiro e ornamentos que, naturalmente, a sua alta posição e o seu reino próspero tornavam possível, porém, ela partiu colocando a maior confiança em si mesma, e no charme e no feitiço de de sua própria pessoa.”

Plutarco, Vida de Antônio, 25, 3

E Cleópatra não estava errada.  Ela chegou a Tarsos de forma arrasadora e deslumbrante, na sua barcaça-real Thalamegos, a mesma embarcação que a levara junto com César no cruzeiro romântico pelo Nilo. Plutarco descreve a cena:

“Ela muito  menosprezou e se riu daquele homem, ao ponto de subir o rio Cydnus em uma barcaça de proa dourada, cujas velas abertas tinham cor púrpura e cujos remadores remavam com remos de prata. ao som de flautas misturados com órgãos de tubo e alaúdes. Ela própria ia reclinada sob um toldo salpicado de ouro, adornada como Vênus em uma pintura, enquanto meninos, também como Amores em uma pintura, ficavam de cada lado abanando-a. Da mesma forma, as mais belas criadas, vestidas como Nereidas e Graças, estavam a postos, algumas nas voltas dos lemes, e o outras nas cordas esticadas. Maravilhosos odores de incontáveis incensários se espalhavam ao longo das margens do rio. Alguns dos habitantes acompanhavam-na em cada margem do rio desde a embocadura, enquanto outros desceram da cidade para observar aquela cena. Então, a multidão no mercado gradualmente foi se dispersando, até que o próprio Antônio, sentando no seu tribunal,  ficou sozinho. E um rumor se espalhou por toda parte de que Vênus tinha vindo para se divertir com Baco pelo bem da Ásia.”

Plutarco, Vida de Antônio, 26,1-3
Cleópatra navegando pelo rio Cygnus para encontrar Marco Antõnio, 1892, Óleo de Henryk Siemiradzki, Public domain, via Wikimedia Commons

Antônio foi jantar na barcaça de Cleópatra, toda iluminada, e foi recebido com todo o luxo e sofisticação decorrentes de  séculos de refinamento egípcio e grego, os quais faziam os romanos parecerem rudes camponeses. No dia seguinte, o triúnviro tentou retribuir, em terra, o banquete, mas, segundo Plutarco, ele não conseguiu nem chegar perto. Vale a pena, contudo, transcrever, nesse episódio, mais uma descrição da rainha:

“Cleópatra via nos gracejos de Antônio muito de soldado e de plebeu, e ela também adotou esses modos com ele, sem hesitar e audaciosamente. A beleza dela, de acordo com o que nos foi dito, em si mesma não era de todo incomparável, nem tanta que impactasse aqueles que a viam, mas a sua presença tinha um charme irresistível, e havia uma atração na sua pessoa e na sua conversa, que, junto com a peculiar força de  sua personalidade, em cada palavra ou gesto, deixavam todos que se envolvessem com ela enfeitiçados.”

Plutarco, Vida de Antônio, 27, 1

Não surpreende, assim, que a acusação contra Cleópatra tenha sido descartada; Antônio, inclusive, entregou-lhe Serapion, o ex-governador egípcio de Chipre que ajudara Cássio, e a rainha mandou imediatamente executá-lo. Mas Antônio também atendeu a um outro pedido de Cleópatra, este muito mais sombrio: Ele mandou executar a irmã dela, Arsinoe IV, que, como vimos, estava custodiada no Templo de Artémis, em Éfeso, apesar de este ser um santuário reconhecido por todo o mundo helenístico (e listado entre as Sete Maravilhas). Com efeito, a execução da jovem, de apenas 22 anos de idade, morta nas próprias escadarias do templo, em desrespeito à santidade do santuário, foi considerada um grande escândalo em Roma, e este fato mancharia as reputações de Antônio e Cleópatra.

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Reconstrução do Templo de Artémis, em Éfeso, uma das 7 maravilhas do mundo antigo e local da execução de Arsinoe. Por Zee Prime at cs.wikipedia, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons

Nota: Hilke Thür, uma arqueóloga austríaca, afirmou que os vestígios de uma tumba descoberta há várias décadas, em Éfeso, continham restos mortais que poderiam ser de Arsinoe. A tese decorre do fato da tumba ser octogonal, lembrando o formato do célebre Farol de Alexandria, e da data estimada da construção bater com o período em que Arsinoe viveu em Éfeso. Todavia, a análise do esqueleto mostrou que tratava-se de uma jovem cuja idade estava entre 15 e 18 anos na data da morte, um tanto jovem demais para ser Arsinoe, de acordo com os historiadores (ver https://www.livescience.com/27459-cleopatra-sister-discovery-controversy.html).

Os “Inimitáveis Viventes

Em novembro de 41 A.C., Antônio visitou Alexandria, a convite de Cleópatra, e o caso entre os dois não era mais segredo para ninguém. Eles passavam o tempo em fantásticos banquetes, rindo e se divertindo, entre eles e com amigos. Plutarco conta que os dois amantes fundaram uma espécie de sociedade, que eles batizaram de “Os Inimitáveis Viventes“, o que por si só dá uma ideia do prazer que ambos estavam tendo na companhia um do outro (É interessante observar que, em sua “Vida de Antônio“, Plutarco menciona que ouviu esses relatos de seu próprio avô, que conviveu com uma testemunha ocular).

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Cleópatra e Antônio passavam o dia e a noite inteira juntos, e nem mesmo as brincadeiras e arruaças que eles costumavam cometer pelas ruas de Alexandria pareciam deixá-los mal com a população da cidade. Plutarco:

“Ela jogava dados com ele, bebia com ele, caçava com ele e o assistia enquanto ele treinava com armas; e, quando à noite, ele se postava nas portas ou janelas da gente comum da cidade e zombava daqueles que se encontravam dentro das casas, ela ia junto, nessas suas sessões de maluquices, vestindo um traje de serva, porque Antônio também tentava se disfarçar de servo. Por conta disso, ele sempre recebia uma batelada de insultos, e, frequentemente, de pancadas, antes de voltar para casa, embora a maioria das pessoas suspeitasse quem ele era. Entretanto, os alexandrinos adoravam os modos  engraçados e civilizados deles; Eles gostavam dele, e diziam que ele usava uma máscara de teatro trágica com os romanos, porém,  quando estava com eles, ele punha uma máscara de comédia“.

Afresco da Casa dos Amantes Castos, em Pompéia, por WolfgangRieger, Public domain, via Wikimedia Commons

Entre as estórias deliciosas do romance entre os dois, Plutarco conta que Antônio, incomodado pelo fato de Cleópatra estar assistindo uma pescaria na qual ele não havia conseguido pescar nada, certa vez mandou que um pescador mergulhasse e prendesse um peixe enorme, mas já pescado, na linha dele para impressionar a amante. Cleópatra percebeu a trapaça, mas não deu recibo, fingindo ficar admirada com a destreza de Antônio. Na pescaria seguinte, ela convidou todos os amigos do casal e mandou que outro mergulhador prendesse um arenque defumado no anzol de Antônio, e quando ele puxou a linha, todos caíram na gargalhada.

Mas toda essa diversão não significa que Cleópatra descurasse dos assuntos de governo. No início do reinado dela, por exemplo, ela ordenou que os grãos armazenados nos celeiros reais fossem distribuídos para aliviar os efeitos da seca. E, no decorrer de seu governo, ela decretou uma reforma monetária e promulgou leis instituindo monopólios e de controle de preços, pois o Egito vivia em duradoura crise econômica decorrente de problemas climáticos e do pagamento das dívidas com Roma.

Inclusive, chegou até os nossos dias um papiro, datado de 33 A.C., registrando uma isenção de impostos dada a um romano relacionado a Antônio, assinado pela própria Cleópatra, que constitui um dos raríssimos casos de escrita manuscrita de um governante da antiguidade. O texto com a parte dispositiva do papiro foi produzido por um escriba, mas, no final do documento, a rainha escreveu, de próprio punho: “Faça-se com que aconteça“.

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Ancient Ptolemaic-period scribe(s) as well as Cleopatra VII of Egypt who offered her signature on the document, Public domain, via Wikimedia Commons

Todavia, Marco Antônio era casado com a rica e poderosa Fúlvia, que naquele momento não apenas representava os interesses do marido em Roma, mas agia e dava as cartas na política romana por conta própria, pois herdara as conexões políticas de seu ex-marido, o populista e demagogo Clódio. Inclusive, para selar a aliança do Segundo Triunvirato, Otaviano casou-se com Clódia, filha de Clódio e de Fúlvia. Mesmo assim, Fúlvia se opôs a algumas medidas de Otaviano e conseguiu reunir oito legiões para defender os interesses de Antônio. Então, houve um conflito armado na Itália, no final de 41 A.C, entre as tropas de Otaviano e essas legiões reunidas por Fúlvia, comandadas por Lúcio Antônio, irmão caçula de seu marido, que acabaram sendo sitiadas na cidade de Perugia. Mas, em fevereiro do ano seguinte, Lúcio Antônio acabou se rendendo e Fúlvia foi obrigada a fugir da Itália para a Grécia, levando junto os seus filhos. Por isso, Antônio, já no ano seguinte, foi encontra-la em Atenas, onde ele censurou a esposa por ter desencadeado o conflito.

Segundo o historiador Apiano, o motivo principal para Fúlvia ter provocado a guerra contra Otaviano teria sido o desejo dela de obrigar Marco Antônio a deixar Cleópatra e voltar para a Itália. Esse motivo, entre outros, também é mencionado por Plutarco, mas o mais provável é que a motivação tenha sido política.

Entretanto, ainda em 40 A.C., Fúlvia morreu, próximo a Corinto, aparentemente de alguma doença, e isso foi um pretexto para Antônio e Otaviano reconciliarem-se publicamente, na Itália, alegando que as suas desavenças tinham sido provocadas pela falecida. Então, para selar essa reconciliação, Antônio casou-se, em outubro de 40 A.C, com Otávia, a Jovem, a bela irmã mais velha de Otaviano (ela, aliás, nasceu no mesmo ano que Cleópatra). Pouco depois, em Brundisium (Brindisi), os Triúnviros dividiram formalmente entre eles o território romano, celebrando o chamado Tratado de Brundisium.

Sintomaticamente, Dião Cássio faz questão de observar que, durante as negociações, em que as partes se ofereceram banquetes, Otaviano se apresentava vestido com uniforme romano de general, enquanto que Antônio  vestia trajes egípcios e orientais, mas, segundo Plutarco, embora, nessa época, Antônio estivesse apaixonado pela rainha egípcia, ele ainda não admitia a possibilidade de tê-la como esposa, mostrando que, ao menos politicamente, a sua razão continuava a prevalecer sobre a emoção. 

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Busto de Otávia, a Jovem, irmã de Otaviano, foto de Giovanni Dall’Orto

No final de 40 A.C., Cleópatra deu a luz a um casal de gêmeos, que receberam os nomes de Alexandre e Cleópatra. As crianças eram filhas naturais de Antônio, mas, legalmente para os romanos, era preciso que Antônio reconhecesse as crianças, para que o fato gerasse efeitos jurídicos relevantes.

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Busto de Cleópatra |Selene II, filha de Cleópatra e Marco Antônio, no Museu de Cherchell, Argélia. Por PericlesofAthens, CC0, via Wikimedia Commons

Nessa período, Antônio estava envolvido com assuntos importantes: primeiro com o conflito de Fúlvia contra Otaviano e, em seguida, com a invasão da Síria pelos Partos, liderados por Pacorus, filho do rei Orodes. Contudo, sabe-se que, no intervalo dessas guerras, Antônio passou o início do ano de 40 A.C. em Alexandria, que deve ter sido quando Cleópatra engravidou dos gêmeos.

De qualquer forma, pouco tempo antes ou depois dos gêmeos de Cleópatra nascerem, conforme já mencionamos, Antônio já estava morando com sua nova esposa, Otávia em Atenas, cidade em que o casal foi residir depois da celebração do Tratado de Brundisium. Sabemos que, em agosto ou setembro de 39 A.C., nasceu a primeira filha do casal, Antônia, a Velha. Sem dúvida, Antônio não negligenciava os deveres de amante, e muito menos os de marido…O seu comportamento, contudo, continuava a escandalizar os romanos: ele se autodenominou “Dionísio” e promovia festas em que se apresentava vestido como este deus.

Como não deve causar espanto, tudo indica que a relação entre Cleópatra e Antônio esfriou a partir do nascimento da filha dele com Otávia. O romano, agora, governava a partir do lar conjugal deles, em Atenas, o que, sem dúvida, enfraquecia os projetos mais ambiciosos de Cleópatra, pois, desse modo, Alexandria deixava de ser o centro do Mundo Helenístico.

Não obstante, o fato das atenções de Antônio, e de Roma, no Oriente estarem totalmente voltadas para a guerra contra os Partas, enquanto que Otaviano tinha que lidar com a oposição armada de Sexto Pompeu, o filho de Pompeu, o Grande, que controlava a Sicília, ao Segundo Triunvirato, deixava a rainha com considerável margem de atuação política.

Com efeito, Cleópatra já podia se orgulhar dela não só ter mantido a independência do Egito ante Pompeu e César, durante a Guerra Civil romana, mas também de ter persuadido Antônio de restaurar vários territórios que historicamente fizeram parte do império ptolomaico, tais como Chipre e a Cilícia.

Também sob Cleópatra, o Egito havia voltado a ser um ator influente na política do mediterrâneo oriental: De fato, em dezembro de 40 A.C., ela recebeu como refugiado o tetrarca e futuro rei Herodes, o Grande, da Judéia, um aliado de Antônio, mas que tinha sido obrigado a se exilar pelo rival Antigonos II Mattathias, que tomou o trono apoiado pelos Partas. Mas Cleópatra nunca escondeu que o seu desejo era restaurar o império ptolomaico em sua máxima extensão, o que incluía a Judéia. Assim, Herodes acabou indo procurar ajuda em Roma.

Por outro lado, quando a relação entre Antônio e Otaviano voltou a ficar conflituosa, Otávia foi fundamental para apaziguar o marido e o irmão. e até conseguiu convencer este a ceder tropas para a campanha de Antônio contra os Partas. Esta campanha estava sendo bem conduzida pelo lugar-tenente de Antônio, que, entre 39 e 38 A.C., obteve várias vitórias, culminando com a derrota e morte de Pacorus. E a morte do príncipe parta causou muita instabilidade na Pártia, resultando que o rei Orodes acabasse sendo assassinado, junto com boa parte da sua família, pelo próprio filho, Fraates IV, que assumiu o trono. Este era um nítido sinal de fraqueza que estimularia Antônio a buscar a glória de anexar o Império dos Partas, que, menos de duas décadas antes, tinha infligido dura derrota aos romanos, aniquilando as legiões de Crasso, em Carras.

Ao mesmo tempo, estava chegando ao fim o mandato de cinco anos que o Senado dera aos Triúnviros para governar a República, que ia até 31 de dezembro de 38 A.C.. Em um encontro intermediado por Otávia, Otaviano e Marco Antônio se encontraram em Tarento, já em 37 A.C., e concordaram em impor a renovação da aliança até 33 A.C. Entre as cláusulas do chamado Tratado de Tarento estava o fornecimento por parte de Otaviano de duas legiões completas, mais auxiliares, cerca de 20 mil homens, para a planejada campanha de Antônio contra os Partas.

Antônio voltou para o Oriente ainda em 37 A.C., deixando, na Itália, Otávia, grávida da segunda filha deles, Antônia, a Jovem, que nasceria em 31 de janeiro de 36 A.C. Na narrativa sobre o Tratado de Tarento, Plutarco menciona passagens que denotam que Otávia de fato amava o marido.

Porém, Otaviano deixou de cumprir o compromisso de fornecer as prometidas tropas a Antônio para a campanha contra os Partas. Em vez de 20 mil, só foram enviados 2 mil, dez por cento do prometido e que não representavam grande ajuda.

Busto de Antônia, a Jovem, na Ny Carlsberg Glyptotek, Public domain, via Wikimedia Commons

Consequentemente, precisando de soldados, e também de dinheiro, Antônio, por conveniência ou não, lembrou-se de sua rica e poderosa amante em Alexandria. Instalado em Antioquia, quartel-general das operações, Antônio mandou chamar Cleópatra para uma conferência. A rainha chegou, como sempre, em grande estilo, e desta vez trazendo os gêmeos Alexandre Helios (Sol) e Cleópatra Selene (Lua), que, pela primeira vez, iriam ser apresentados ao pai. As crianças estavam com três anos de idade e, provavelmente, foi nesta ocasião que elas receberam os seus segundos nomes e foram reconhecidas oficialmente por Antônio. E esses nomes denotam, sem dúvida, que os pais delas tinham planos bem elevados para o futuro deles…

Em Antioquia, Cleópatra obteve de Antônio importantes concessões: O Egito receberia todo o território da Fenícia, exceto Tiro e Sidon, e a cidade de Ptolemais Akko, fundada pelo seu antepassado Ptolomeu II. Cleópatra também recebeu a região da Síria-Coele, uma parte do reino dos Nabateus (parte da atual Jordânia), a cidade de Cyrene, na atual Líbia e duas cidades na ilha de Creta. Em troca, Cleópatra financiaria à campanha de Antônio na Pártia, além de fornecer boa parte do exército egípcio. Isso possibilitou a Antônio armar o que talvez fosse o maior exército jamais reunido pelos romanos, que alguns estimam, provavelmente com algum exagero, em 200 mil homens.

Fazer tantas concessões à Cleópatra, sendo cristalino que elas seriam repudiadas pela opinião pública romana, foi uma aposta muito arriscada de Antônio (e outras concessões ainda maiores seriam feitas no futuro!): Em uma justificativa racional dessa cartada, Antônio deve ter ficado impressionado com os recursos materiais e financeiros que o Egito podia lhe proporcionar e pensou que, com os mesmos, se ele derrotasse o Império Parta, o caminho de eliminar Otaviano e assumir o poder unipessoal em Roma estaria pavimentado. Sem dúvida, Antônio deve ter se sentido próximo de emular a carreira quase mitológica de Alexandre, o Grande, e tanto mais próximo disso ele não estaria, quem sabe, unindo-se matrimonialmente à última remanescente do império macedônio que aquele fundara?

Seja como for, os relatos das principais fontes, notadamente Plutarco e Dião Cássio, dão conta de que, em Antioquia, Cleópatra e Antônio reataram a sua união amorosa. E, dali em diante, eles não se separaram mais, exceto quando chegou o crepúsculo de suas vidas.

Cleópatra chegou a acompanhar Antônio no início da campanha, que começou pela invasão da Armênia, em 36 A.C., mas voltou para Alexandria, já que agora ela estava grávida do seu terceiro filho com Antônio, que nasceu entre agosto e setembro de 36 A.C. O menino recebeu o nome de Ptolomeu Philadelphus.

A campanha de Antônio contra os Partas estava enfrentando altos e baixos. Os romanos até ganharam alguns confrontos, mas sofreram várias emboscadas e foram cercados algumas vezes. Mas a maior causa de baixas foram doenças e o frio do inverno que chegava. As perdas já alcançavam cerca de 30 mil homens, quando Antônio resolveu suspendê-la e retirar-se para a cidade de Leukokome, próximo à Beirute, no atual Líbano.

Quando a notícia da volta de Antônio e do insucesso da sua expedição chegou em Alexandria, Cleópatra partiu para o Líbano, levando mantimentos e dinheiro para pagar as tropas, e lá encontrou Antônio abatido e entregue à bebida., em dezembro de 36 A.C. Em seguida,ambos voltaram para Alexandria, onde ele finalmente pode conhecer o seu segundo filho homem, Ptolomeu Philadelphus.

As Doações de Alexandria

O ano de 35 A.C., começou com Antônio planejando retomar a campanha na Armênia. Otávia, que soube do insucesso da expedição do marido, se propôs a viajar para Atenas levando os dois mil soldados para ajudá-lo na continuação da guerra. Segundo as fontes, esta foi uma tentativa da esposa romana de tentar contrabalançar a influência de Cleópatra e afastar o marido da presença da amante. Consta que seu irmão, Otaviano, permitiu a viagem da irmã e forneceu os soldados, já prevendo que poderia utilizar o episódio como propaganda contra Antônio.

E Otaviano estava certo: Antônio não só não foi ao encontro da sua fiel e dedicada esposa, como ainda lhe deu ordens para que não deixasse Atenas para encontrá-lo no meio trajeto da expedição; todavia, sem demonstrar nenhum constrangimento, Antônio aceitou os soldados que Otávia lhe trouxera. Foi um ultraje para a distinta Otávia, uma ofensa que até justificaria, aos olhos da opinião pública romana,  uma resposta de Otaviano.

Segundo Plutarco, sentindo a ameaça que a volta de Otávia a Atenas e a aparente determinação dela em reconquistar Antônio representavam, Cleópatra valeu-se de vários artifícios românticos e dramáticos para seduzi-lo e mantê-lo preso a ela. O autor narra, entre outros exemplos, que a rainha chegou a fazer um regime para emagrecer, além de passar a usar roupas sensuais e a simular choros. Fantasioso ou não o relato, o fato é que Antônio  adiou por algum tempo a expedição à Armênia e continuou em Alexandria.

Enquanto isso, a quase repudiada Otávia retornou para Roma. Otaviano, como se esperava, utilizou a humilhação da irmã o máximo possível contra a reputação de Antônio. Ele chamou Otávia para morar em sua casa, como uma mostra de que sua irmã não podia mais contar com a proteção do marido. Porém, para a surpresa de muitos. Otávia recusou e foi morar na residência de Antônio, em Roma. Lá, ela continuou cuidando não só das filhas que tinha com ele, mas também dos filhos de Antônio e Fúlvia, demonstrando publicamente que ainda se considerava a legítima esposa do marido. Não é impossível, contudo, que tudo isso também tenha sido combinado com Otaviano, para vitimizá-la ainda mais perante o público romano.

Mas foi o próprio Antônio, estimulado por Cleópatra, quem daria o maior golpe na própria reputação, dando a Otaviano um trunfo gigantesco na disputa entre ambos pelo poder supremo:

No outono de 34 A.C., retornando de uma, enfim, moderadamente bem sucedida campanha na Armênia, Antônio e Cleópatra organizaram em Alexandria uma parada triunfal, sendo que Antônio conduzia o carro vestido de deus Dionísio-Osíris, e na qual a família real armênia foi exibida pelas ruas da cidade, até dois tronos dourados, um para Antônio, outro para Cleópatra. Em seguida, ao povo reunido no Gymnasium , Antônio proclamou solenemente que Cleópatra, que na ocasião  estava vestida como a deusa Ísis, era a “Rainha dos Reis” e “Rainha do Egito, Chipre, Líbia e Sìria-Coele“, junto com seu filho, Caesarion, o “Rei dos Reis“. Alexandre Helios foi nomeado “Rei da Armênia, da Média e da Pártia“. Já Ptolomeu Philadelphus foi designado “Rei da Cilícia e da Síria”, e Cleópatra Selene, por sua vez, a “Rainha de Creta e de Cyrene“. Na cerimônia, Antônio também fez questão de proclamar que Cleópatra tinha sido esposa de Júlio César,  e que o seu filho Caesarion, era o filho legítimo de César.

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Tudo aquilo representava, sem dúvida nenhuma, uma declaração de rompimento com Otaviano e com o próprio Senado Romano. Na verdade, aquela era uma iniciativa que  seria recebida em Roma quase que como uma declaração de guerra, pois, doando-os à amante e aos filhos, abria mão de territórios que faziam parte da esfera de influência de Roma, alguns até já controlados diretamente, ainda que não formalmente anexados.

Essa distribuição de territórios feita por Antônio à Cleópatra e aos seus filhos, um ato que, já naquele tempo, recebeu o nome de “As Doações de Alexandria“, era tão impactante e inacreditável, que, quando a mensagem que Antônio enviara comunicando o decreto ao Senado Romano chegou à Roma, já no ano seguinte, os futuros cônsules Gnaeus Domitius Aehonabarbus e Gaius Sosius, que eram partidários de Antônio, recusaram-se a tornar o documento público, resistindo aos insistentes pedidos de Otaviano!

A “Guerra Fria” entre Antônio e Otaviano

O prazo renovado do Segundo Triunvirato expirou em 31 de dezembro de 33 A.C, não havendo interesse em nova prorrogação. Otaviano e Antônio, então, começaram uma guerra aberta de propaganda, cada um expondo episódios de má conduta, traições, ultrajes, etc., contra o outro, pois já anteviam o conflito que estava por vir e, por antecipação, ambos queriam justificar perante a opinião pública o motivo da  iminente guerra civil, colocando a culpa pelo início da mesma no adversário. E não causou espécie a ninguém que o motivo mais grave alegado por Otaviano foi o fato de Antônio ter reconhecido oficialmente Caesarion como o filho legítimo e herdeiro de Júlio César

Por sua vez, Cleópatra também foi apontada pelos propagandistas de Otaviano como a principal responsável pelas causas do conflito, acusando-se a egípcia ter seduzido Antônio para satisfazer as suas ambições dinásticas. De modo muito parecido com o que acontece hoje, políticos, poetas e escritores divulgavam verdadeiras “fake news“, como por exemplo a de que Cleópatra teria usado de bruxaria para enfeitiçar Antônio. Este também foi acusado de ter doado à amante todos os livros da biblioteca de Éfeso, uma acusação que, posteriormente, mostrou-se inverídica. Da sua parte, Antônio chegou a afirmar que Otaviano somente teria sido adotado por César porque este costumava possuir sexualmente o sobrinho-neto…

Denário de prata de Cleópatra e Antônia, c. 32 A.C. por Classical Numismatic Group, Inc. http://www.cngcoins.com, CC BY-SA 2.5 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.5, via Wikimedia Commons

Havia outras acusações tão ou mais sérias, segundo a lei romana, que incluíam o fato de Antônio ter iniciado a guerra contra a Armênia e a Pártia sem a necessária autorização do Senado (não ficando claro, contudo, se o mandato como Triúnviro lhe dava poderes para tanto) e ter executado Sexto Pompeu sem julgamento. Por sua vez, Antônio acusou Otaviano de ter removido ilegalmente Lépido da posição de Triunviro (o que ele realmente fez) e se apossado do território que este controlava, a Sicília.

A versão de Otaviano, obviamente, foi aquela que, mais tarde, prevaleceria. Mas o fato é que, naquele momento, Antônio ainda tinha muitos simpatizantes em Roma, inclusive no Senado. De acordo com Dião Cássio, em 1º de janeiro de 32 A.C., primeiro dia de sessão do ano, por exemplo, o cônsul e aliado de Antônio, Gaius Sosius, proferiu um discurso no Senado atacando violentamente Otaviano e propondo a aprovação de uma legislação contrária aos interesses deste.

Otaviano resolveu, então, abandonar os escrúpulos de legalidade e, na sessão seguinte do Senado, no outro dia, compareceu à Cúria acompanhado de sua guarda pessoal e de partidários armados com adagas escondidas sob as togas. Como Otaviano controlava as legiões da Itália, bem como do Ocidente em geral, nos dias seguintes os cônsules Gaius Sosius e Domitius Ahenobarbus, intimidados, abandonaram Roma e partiram para se unir a Antônio na Grécia, sendo acompanhados por mais de duzentos senadores que também apoiavam Antônio.

Fachada da Curia Julia, no Fórum Romano,em Roma, onde o funcionava o Senado Romano. Foto de Thorvaldsson, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

A situação era um tanto parecida com a que deflagrara a Primeira Guerra Civil, de César contra Pompeu. Este fugiu para o Oriente, junto com os senadores partidários dos Optimates. Agora, eram os partidários de Antônio que fugiam para encontrá-lo no Leste. E, assim como os historiadores militares consideram que abandonar a Itália foi um grande erro de Pompeu, eu, igualmente, acredito que também foi um grande erro de Antônio ter deixado Otaviano ter o controle total da Itália.  A Itália ainda era o esteio militar do mundo romano, mesmo que o oriente helenístico fosse mais rico e mais populosos, e isso seria mais uma vez demonstrado na nova guerra civil que estava por vir.

Já preparando-se para a guerra, Cleópatra providenciou duzentos navios de guerra para a frota de oitocentas naves que Antônio estava reunindo, além, naturalmente, de muito dinheiro para o esforço bélico. O casal reuniu-se em Éfeso para organizar a campanha contra Otaviano. Segundo as fontes, alguns senadores correligionários de Antônio, sobretudos os amigos dele, Titius e Munatius Plancus, mostraram-se contrariados pela proeminência que Cleópatra demonstrava ter em todas as decisões, e, por sua vez, resolveram partir e aderir a Otaviano.

De acordo com Plutarco, Titius e Lucius Munatius Plancus conheciam os termos do testamento de Antônio, que, conforme o costume, havia sido depositado lacrado em poder das Virgens Vestais, e contaram tudo para Otaviano. Ciente, assim, dos termos da última vontade do rival, Otaviano, ilegalmente, conseguiu se apossar do testamento, que foi aberto e lido por ele em uma sessão do Senado. Entre suas cláusulas, segundo consta, havia a recomendação de Antônio para que o seu corpo fosse entregue à Cleópatra e sepultado em Alexandria. Essa disposição muito convenientemente ia de encontro ao boato que os partidários de Otaviano andavam espalhando por Roma: a de que Antônio, caso vencedor,  pretendia transformar Alexandria na capital do território romano!

A “Guerra contra Cleópatra”

Engenhosamente, o Senado Romano, agora controlado por Otaviano, não declarou guerra a Antônio, apesar dele ser o alvo principal da medida – Preocupados com a opinião pública, e com a posteridade, os senadores formalmente votaram pela declaração de guerra contra Cleópatra, a rainha do Egito, e, assim, todos os tradicionais ritos previstos para uma guerra contra inimigos estrangeiros puderam ser celebrados. Além disso, tal circunstância impedia que os senadores partidários de Antônio fossem considerados desertores ou criminosos, deixando uma porta aberta para o seu retorno. Não obstante, foi decretada expressamente a retirada de todos os poderes que Antônio ainda detinha. Essa preocupação com as aparências, e a necessidade de justificar a guerra pelo poder como um conflito contra uma governante estrangeira, mostra também que o povo devia estar indeciso sobre quem tinha razão no conflito entre os dois líderes romanos.

Se ainda havia alguma dúvida de que o rompimento era definitivo, ainda em 32 A.C, Antônio divorciou-se de Otávia. A partir daquele momento, Cleópatra não precisaria mais temer a rival e, aparentemente, a opinião dela prevaleceria em todos os aspectos, incluindo a estratégia que seria adotada para a guerra…

Contrariando os conselhos dos seus assessores militares mais próximos, que defendiam uma guerra terrestre, já que, nominalmente, eles possuíam mais tropas do que Otaviano (aproximadamente cerca de 100 mil homens, contra 80 mil de Otaviano), Antônio seguiu a vontade de Cleópatra, que defendia que Otaviano deveria ser derrotado no mar, pela frota composta, em parte apreciável, pelos navios egípcios. E os navios da frota de Antônio, de fato, eram mais numerosos e maiores do que os de Otaviano.

Mas o motivo principal da estratégia proposta por Cleópatra, na visão de muitos historiadores, era o fato de que uma vitória no mar, travada na Grécia ou na Turquia, protegeria melhor o Egito de um ataque romano, pois nesta batalha, boa parte da frota romana seria destruída. De todo modo, ainda que mais numerosos, os navios de Antônio e Cleópatra tinham um considerável déficit em suas tripulações, em alguns casos havendo menos da metade dos remadores previstos. Além disso, em virtude dessa deficiência, muitos deles não eram remadores experientes, e sim tropeiros, fazendeiros e até meninos.

Os historiadores antigos criticam Antônio por ter cedido às intenções de Cleópatra, mas o mais provável é que ele conhecesse as deficiências do seu efetivo militar. De fato, as próprias fontes dão a entender que o exército de Otaviano era melhor treinado. Não que Antônio não tivesse um núcleo de tropas romanas experimentadas com ele, mas o número de legiões essencialmente romanas de Otaviano parece que era maior. Por outro lado, os recursos financeiros à disposição de Antônio parecem ser ter sido bem maiores, pois as fontes relatam que ele chegou a enviar dinheiro para a Itália para tentar subornar partidários de Otaviano, que realmente ficou bem preocupado com essa possibilidade.

A Batalha de Actium

Consta que Antônio chegou a tentar um avanço naval até Corcyra, atual Corfu, na fronteira da atual Grécia com a Albânia, o que o colocaria bem próximo de poder atacar a costa italiana, mas, ao encontrar unidades navais da frota de Otaviano, ele desistiu e voltou para o Golfo Ambraciano, ou Golfo de Actium, na costa setentrional da Grécia, no final de 32 A.C.. Assim, quem tomou a iniciativa foi Otaviano. Ele zarpou para a Grécia e se dirigiu para Actium, local onde, agora, Antônio e Cleópatra tinham estabelecido o seu quartel-general das operações e reunido sua imensa frota. Enquanto isso, seu almirante, Marcus Vipsanius Agrippa (Agripa), tomou Corcyra e lá instalou uma base para as operações contra Antônio.

Otaviano desembarcou suas tropas no lado oposto do Golfo Ambraciano e enviou emissários aos comandantes de Antônio propondo uma negociação, proposta esta que foi recusada. Porém, nas escaramuças que se seguiram com as tropas de Antônio, estacionadas ao longo de Actium, as forças de Otaviano levaram a melhor. Começaram, então, a pipocar deserções entre os aliados de Antônio, que incluíam quase todos os reinos-clientes de Roma no Oriente, tais como Amynthas, da Galatia, e Deiotarus, da Paflagônia, além de amigos romanos de longa data, como Quintus Dellius, que fugiu e foi se juntar a Otaviano, fornecendo a este informações valiosas sobra o estado da frota e os preparativos de Antônio.

De acordo com o relato de Dião Cássio, nessa fase da campanha, Cleópatra fez prevalecer a opinião dela de que as posições mais defensáveis deveriam ser ocupadas por guarnições militares, mas que ela e Antônio, juntamente com o grosso das tropas, deveriam rumar para o Egito. Assim, parece realmente que o que importava mesmo para a rainha era a defesa do Egito e, para Antônio, que ele pudesse continuar contando com o suporte financeiro e militar de Cleópatra, dinheiro que, cada vez mais, aparentava ser o elemento fundamental para a coesão do seu exército.

Tendo em vista que o número de marinheiros era insuficiente para tripular adequadamente todos os navios da sua frota, Antônio ordenou que aqueles em mau estado fossem queimados, e selecionou os melhores. Ele e Cleópatra também ordenaram que, secretamente, todo o tesouro fosse embarcado neles.

No dia 02 de setembro de 31 A.C, Antônio ordenou que os navios zarpassem e se colocassem de costas para o promontório de Actium, ao pé do qual suas sete legiões estavam acampadas, e de onde podiam assistir às manobras. Sua frota agora era composta de 230 grandes galeras.

Segundo os relatos, a nau-capitânia de Antônio zarpou com as velas abertas, o que não era comum em ordem de batalha, levantando a suspeita entre alguns historiadores de que, desde o início, a intenção dele era chegar ao mar aberto e, aproveitando-se do vento noroeste que soprava a seu favor, fugir em direção à Alexandria. Ele formou seus três esquadrões em duas linhas, à frente dos navios mercantes que levavam o tesouro e dos navios que escoltavam Cleópatraque seguia, atrás, embarcada em sua nau-capitânia, batizada de “Antonias“.

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(Mapa de Future Perfect at Sunrise, on the basis of work by User:Lencer and User:Leo2004)

Comandada por Agripa, a frota de Otaviano tinha 250 quinquerremes, navios menores, porém mais rápidos e manobráveis do que os da frota de Antônio. Graças às informações fornecidas por Quintus Dellius, entretanto,  Otaviano e Agripa tinham ciência dos planos de Antônio, e estavam preparados, esperando a frota inimiga.

Ao meio-dia, Antônio deu ordem de avançar. Sua ala esquerda deu a impressão de querer empurrar à ala direita da frota de Otaviano para o norte e abrir um caminho em direção ao sul (bombordo), que poderia levar ao Egito, porém, Otaviano, parecendo estar ciente desse propósito, mandou os navios manterem distância, atraindo mais o inimigo para o alto-mar.

Quando ambas as frotas ficaram mais próximas, começaram os disparos de artilharia e flechas. Agripa ordenou que os navios de sua segunda linha se estendessem mais para o norte e para o sul, visando cercar o inimigo em menor número, sendo que Antônio, ao perceber isso, tirou navios do seu centro e esticou a sua linha, deixando no centro os navios mais pesados, que estavam resistindo bem e se dirigindo à direita (estibordo) e ao norte para combater o esquadrão comandado por Agripa. Isso acabou abrindo espaços no centro da sua formação.

Relevos retratando a Batalha de Actium descobertos em Avellino. Por Carole Raddato, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

Foi então que, em um movimento inesperado, os navios comandados por Cleópatra, aproveitando um buraco no centro da linha da frota comandada por Antônio, e o súbito vento que soprava favoravelmente, ultrapassaram as suas linhas à toda velocidade, e, deixando para trás o resto da frota, rumaram em direção ao Egito, levando consigo todo o tesouro.

Não se sabe com exatidão os motivos pelos quais Cleópatra tomou essa decisão. Alguns acreditam que ela, inexperiente na guerra, interpretou equivocadamente o fato de Antônio ter deixado o centro da linha deles e rumado para o norte. De fato, a rainha pode ter perdido contato visual com o navio do companheiro e pensado que ele tinha sido afundado, capturado ou fugido.

O fato é que Antônio, quando viu os navios de Cleópatra se afastando, resolveu ele também fugir, embarcando em outro navio mais veloz e deixando para trás o restante da frota, que ficou lutando acéfala, exceto por cerca de 60 navios egípcios que conseguiram acompanhar a fuga deles. Mesmo assim, os combates duraram até a madrugada do dia seguinte, mas, no final, toda a frota remanescente de Antônio acabou sendo destruída por Otaviano. A grande duração dos combates ao nosso ver mostra que, sem a fuga de Antônio e Cleópatra, o resultado da Batalha de Actium poderia ter sido outro.

Nesse sentido, vale notar que, mesmo após a derrota, 19 de suas legiões e 12 mil cavaleiros mantiveram-se aquartelados por uma semana, esperando o aparecimento de Antônio, mas, passado esse tempo, os soldados desistiram e se renderam. Com isso, todos os reis aliados abandonaram a causa de Antônio e entraram em acordo com Otaviano, sendo um destes o rei Herodes, o Grande, da Judéia.

Embora, mesmo com a derrota naval na Batalha de Actium, Antônio e Cleópatra ainda comandassem, ao menos no papel, um numeroso exército, o fato é que o custo moral da derrota foi muito alto.

Assim, Cleópatra e Antônio e seus navios remanescentes navegaram até o Peloponeso, conseguindo se evadir à breve perseguição dos navios de Otaviano. Consta que durante a viagem, que durou três dias, ambos não se falaram. De lá, Cleópatra resolveu partir o mais rápido possível para o Egito, temendo que a notícia da derrota chegasse à Alexandria primeiro do que ela, o que poderia desencadear uma rebelião. Por isso, ela mandou decorar as proas dos seus navios de modo a que parecessem estar chegando ao porto em triunfo pela vitória inexistente.

Antônio foi para a Líbia, pensando em trazer as legiões que ele tinha deixado ali para a defesa da fronteira ocidental do Egito. Porém, o governador de Cyrene e comandante daquelas legiões, Lucius Pinarius Scarpus, que tinha sido apontado por ele, mas também era primo de Otaviano, recusou-se a entregá-las. Percebendo que tudo estava desmoronando, Plutarco conta que Antônio tentou  o suicídio, mas foi impedido pelos amigos. Ele então partiu para o Egito, para reencontrar Cleópatra.

Chegando no Egito, Antônio encontrou Cleópatra organizando um plano ousado: transportar por terra os trezentos navios da frota egípcia para o Mar Vermelho, através da península do Sinai, com o objetivo de colocá-los à salvo da frota de Otaviano. Contudo, este plano foi por água baixo quando os primeiros navios que chegaram próximo à cidade de Petra foram queimados pelos Nabateus, instigados pelo governador da Síria, Quintus Didius, partidário de Otaviano. Este é mais um exemplo de que a linha mestra da rainha egípcia sempre fora a manutenção da independência do Egito e a sobrevivência da dinastia ptolomaica.

Os “Parceiros na Morte”

Inicialmente, Cleópatra e Antônio mantiveram-se afastados em Alexandria, ele vivendo em uma mansão à beira-mar, e ela no palácio. Porém, quando chegou a idade de inscrever Caesarion na lista dos efebos (evento que marcava o fim da infância no mundo grego) e de Anthilyus, o filho de Antônio e Fúlvia, vestir a toga virilisAntônio passou os dias na companhia de Cleópatra, comendo e bebendo nos suntuosos banquetes comemorativos do evento.

Le repas de Cléopâtre et de Marc-Antoine, 1754, por Charles-Joseph Natoire, Public domain, via Wikimedia Commons

Foi durante esses eventos que, segundo Plutarco, Cleópatra e Antônio resolveram dissolver a sociedade dos “Inimitáveis Viventes” e fundar outra em seu lugar, a qual batizaram de “Sociedade dos Parceiros na Morte“, nome que certamente demonstra a consciência que os dois tinham de que a cortina estava se fechando para eles e de que estava chegando ao fim a brilhante trajetória que tinham percorrido juntos…

Os autores antigos afirmam que, nessa época, Cleópatra começou a testar venenos em prisioneiros condenados, inclusive submetendo-os a picadas de serpentes, com o objetivo de encontrar algum que causasse a morte mais rápida e indolor possível.

Cleópatra e Marco Antônio supervisionando a morte de conspiradores, 1866, quadro de Antoine Van Hammée, Public domain, via Wikimedia Commons

Parece que a sobrevivência da dinastia dos Ptolomeus agora era a única preocupação de Cléopatra: Segundo Dião Cássio, ela enviou uma correspondência secreta para Otaviano, contendo uma coroa e um cetro, que foram aceitos por ele. Assim, em público, Otaviano teria continuado a dar ultimatos para que ela abandonasse as armas e renunciasse ao trono, mas, secretamente, mandou mensagens prometendo que, se Cleópatra mandasse matar Antônio, ela seria perdoada e mantida como soberana.

Enquanto isso, Antônio também enviou correspondências a Otaviano, acompanhadas de muito ouro,  afirmando que ele concordava em largar tudo e ir viver como particular. Já em outra versão, ele propôs a Otaviano que ele se mataria, desde que o rival deixasse Cleópatra viver. Em todo o caso, as fontes concordam que Otaviano somente respondia às mensagens de Cleópatra, ignorando as de Antônio.

As fontes antigas enfatizam que as respostas de Otaviano à Cleópatra visavam três objetivos: incentivá-la a eliminar Antônio, o que encerraria logo a guerra e lhe daria o poder absoluto em Roma; dissuadir que Cleópatra dispersasse ou destruísse o imenso tesouro egípcio, preservando-o para os romanos; e desestimular que a rainha se matasse, para que não lhe fosse roubada a incomensurável glória de exibi-la em triunfo pelas ruas de Roma. Mas parece que os dois primeiros motivos eram os mais prementes para Otaviano, pois, quando ele soube que Cleópatra pretendia levar todo o tesouro do Egito para a tumba que ela estava construindo para si mesma nos jardins do palácio, onde tudo seria queimado, Otaviano mandou Thyrsus, que era seu liberto, levar para Cleópatra cartas na qual ele dizia que estava apaixonado por ela, ao menos segundo a versão de Dião Cássio, na esperança de que a rainha, que se consideraria irresistível, acreditaria nisso e daria cabo de Antônio, mantendo-se viva, e o tesouro, intacto.

O cerco se fecha

Na primavera de 30 A.C., As forças de Otaviano tomaram Pelousium, que, de acordo com Dião Cássio, teria sido entregue sem luta, seguindo ordens de Cleópatra. Porém, segundo Plutarco, essa suspeita parece infundada, pois ela concordou com a execução da esposa e dos filhos de Seleucus, o governador que se rendeu a Otaviano.

O exército de Otaviano, aproximava-se dos muros de Alexandria., na vizinhança do Hipódromo, Antônio comandou um ataque à vanguarda do exército inimigo e conseguiu derrotar a cavalaria de Otaviano, que, já cansada da marcha até a cidade,  foi perseguida até o acampamento. Porém, a inferioridade numérica impediu qualquer exploração desse sucesso, e Antônio retornou ao palácio, onde, vestido de uniforme e couraça, ele beijou Cleópatra e contou sobre a pequena vitória que eles tinham obtido. Ela deu caros presentes para um soldado que havia se destacado na batalha, mas, como um emblema da situação desesperadora em que eles se encontravam, naquela mesma noite o soldado fugiu e desertou para Otaviano, levando consigo os presentes…

No dia seguinte, Antônio tentou um ataque combinado por terra e por mar. Ele próprio cavalgou até próximo das tropas inimigas e desafiou Otaviano para um combate singular, corpo a corpo, entre os dois, um desafio que ele já havia feito anteriormente. Otaviano ignorou e mandou responder que “havia muitos maneiras pelas quais Antônio poderia morrer“.

Quando Antônio ordenou que a frota avançasse, para a sua consternação, os remadores levantaram os remos em sinal de rendição e ele soube que eles tinham aderido à Otaviano, o que, segundo Dião Cássio, teria ocorrido por ordens de Cleópatra, que talvez tivesse resolvido traí-lo para cair nas boas graças de Otaviano, ou, poderia também estar com medo de que Antônio tentasse fugir para a Espanha. É de se notar, contudo, que a cavalaria dele também desertou. Antônio ainda tentou combater com a infantaria que lhe restara, mas foi facilmente derrotado. Naquele momento, então, Antônio não teve dúvidas de que estava tudo acabado. Ele deixou o campo de batalha e correu para o palácio.

Cléopatra foi se esconder no interior do mausoléu que ela havia mandado construir, acompanhada de um eunuco e duas escravas. Quando Antônio chegou, ele foi informado de que Cleópatra havia se matado e estava enterrada na tumba, que havia sido lacrada. Desesperado, Antônio, segundo Plutarco, proferiu as seguintes palavras:

“Por que tu demorastes tanto, Antônio? O Destino levou a tua única desculpa para te agarrares à vida!”

Antônio, então, entrou na antecâmera da tumba, tirou a couraça e, deixando-a de lado, continuou:

“Oh, Cleópatra! Eu não lamento que tu tenhas sido arrancada de mim, pois logo eu me juntarei a ti, mas eu lamento que um comandante tão grande como eu tenha se mostrado menos corajoso do que uma mulher”

Em seguida, Antônio implorou ao seu escravo doméstico, Eros, que o matasse, como ele já o havia anteriormente instruído. Porém, o devotado Eros, ao invés de matar o seu amo, pegou a espada e matou a si mesmo, para não ter que cumprir essa dolorosa ordem. Desesperado, Antônio, então, jogou-se sobre a própria espada apoiada no chão, que penetrou em sua barriga. Porém, esta ferida não foi suficiente para matá-lo imediatamente e, assim, Antônio ficou agonizando na cama, pedindo para que algum dos presentes se dignasse a apressar a sua morte.

Os ruídos e lamentos do agonizante Antônio acabaram sendo ouvidos por Cleópatra, que, observando a cena de dentro da tumba, por uma janela, mandou seu secretário Diomedes trazer Antônio para dentro. Quando Antônio percebeu que Cleópatra estava viva, ele mandou que os servos dele o colocassem de pé. Mas, como a porta do mausoléu estava selada, Antônio teve que ser erguido por cordas até a janela, puxadas pelas escravas de Cleópatra que estavam lá dentro, além da própria rainha, que também ajudava. Segundo o próprio Plutarco, enquanto Antônio era puxado, coberto de sangue, ele estendia os braços e as mãos em direção à Cleópatra, e para o historiador, de acordo com as testemunhas presentes que descreveram a cena, jamais houve cena mais pungente:

E quando Cleópatra dessa forma conseguiu pegá-lo e deitá-lo, ela rasgou suas roupas sobre ele, puxou e socou os seios com as próprias mãos, esfregou um tanto do sangue dele no rosto dela, e o chamou de amo, marido e imperador; De fato, em sua compaixão por ele, ela quase esqueceu a sua própria desgraça. Mas Antônio fez cessar os lamentos dela e pediu uma taça de vinho, tanto por ele estar com sede, como para lhe dar mais rapidamente um alívio. Depois de ter bebido, ele aconselhou-a buscar a sua própria segurança, se ela pudesse fazer isso sem desonra; que, dentre todos os amigos de César (Otaviano), ela deveria confiar em Proculeius; e que ela não lamentasse as últimas adversidades que ele tinha sofrido, mas que o considerasse feliz pelas boas coisas que ele tinha conseguido, uma vez que ele tinha se tornado o mais ilustre dos homens, tinha conquistado o poder supremo; e que, naquele momento, ele não tinha sido derrotado de modo ignóbil, mas em uma luta de romano contra romano“.

Plutarco, Vida de Antônio, 77, 1
Antoine rapporté mourant à Cléopâtre d’Eugène-Ernest Hillemacher (1863), Museu de Grenoble, Eugène Ernest Hillemacher, Public domain, via Wikimedia Commons

Em poucas horas, Antônio morreu nos braços de Cleópatra, em 1º de agosto de 30 A.C. Ele tinha 53 anos de idade. Um dos seus guarda-costas, Dercetaeus, escondeu a espada com a qual ele tinha se suicidado, fugiu do palácio e entregá-la a Otaviano, que, fingidamente ou não, mostrou-se consternado pela morte do rival.

Prisioneira de Otaviano

Verdadeiro ou não o seu lamento, agora a maior preocupação de Otaviano era evitar que Cleópatra cumprisse as ameaças de se suicidar, impedindo-o de exibi-la em seu almejado triunfo pelas ruas de Roma, e de levar consigo todo o tesouro do Egito, para ser incinerado junto com o cadáver dela na tumba real. Assim, ele enviou o seu auxiliar Proculeius para conversar com Cleópatra, que ainda estava encerrada no mausoléu, cujas pesadas portas eram fechadas com poderosos ferrolhos e trancas. Na conversa com Proculeius, do lado de dentro da tumba, Cléopatra fez o pedido para que os filhos dela herdassem o seu trono, enquanto o enviado tentava tranquilizar a rainha, dizendo-lhe que ela podia confiar em Otaviano.

Tumba nas Catacumbas de Kom Al Shuqafa, em Alexandria. Foto Roland Unger, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

Na verdade, Proculeius, agindo bem ao contrário do que o finado Antônio havia mencionado a seu respeito, tinha aproveitado a conversa para fazer um reconhecimento do mausoléu e voltou para contar a Otaviano o que ele tinha visto. Em decorrência, Otaviano mandou Gallus, com o pretexto de fazer uma nova entrevista com Cleópatra. E, então, enquanto Gallus e a rainha conversavam, Proculeius, valendo-se de uma escada, conseguiu entrar na tumba pela janela. Quando notou a invasão, Cleópatra tentou se matar com uma faca, mas Proculeius conseguiu impedir que ela se ferisse, e disse:

Oh, Cleópatra! Você está enganando a si mesma e a César (Otaviano), tentando roubar dele uma oportunidade de mostrar a maior bondade, e pregando nele o estigma de ser implacável e não-confiável“.

Dito isso, ele retirou a faca dela e revistou-a, para certiricar-se de que ela não tinha outra arma escondida. Otaviano, ao saber do que havia sucedido, ordenou que Cleópatra fosse mantida sob estrita vigilância, mas que a rainha deveria ter tudo que fosse necessário para o seu conforto e lazer. A verdade é que, na prática, Cleópatra, agora estava sob prisão domiciliar…

Antes disso, enquanto Otaviano ainda não havia conquistado Alexandria, Cleópatra havia mandado seu filho Caesarion para a Etiópia, junto com um tesouro bem substancial, como ponto de partida para a viagem dele para a Índia, onde o rapaz poderia ficar a salvo da perseguição romana. Era um plano inteligente, mas, que deveria ter sido posto em prática com mais antecedência, pois, tudo indica, Otaviano não demorou a saber disso, e, mais tarde, Caesarion acabaria sendo capturado e morto. Na versão de Plutarco, foram os próprios tutores de Caesarion, Rhodon e Theodorus, certamente a mando de algum emissário de Otaviano, que convenceram o rapaz a voltar para Alexandria, sob o falso pretexto de que Otaviano deixaria que ele continuasse reinando no lugar da mãe. Já segundo Dião Cássio, a caravana de Caesarion foi interceptada ainda na estrada para a Etiópia e o rapaz foi morto ali mesmo, mas, em qualquer caso, isso somente ocorreu após a morte de Cleópatra. A morte de Caesarion teria sido decidida após o filósofo Areius assim ter advertido Otaviano:

“Boa coisa não é que haja muitos Césares!”

Após a morte de Antônio, Otaviano consentiu que Cleópatra sepultasse o corpo de Antônio no mausoléu, em uma cerimônia suntuosa, típica da realeza. Devido ao pesar que ela sentia pela morte de Antônio e pelas dores que ela sentia devido aos golpes que ela mesmo desferira contra os próprios seios, Cleópatra acabou ficando doente após o funeral, e até deixou de comer. Ela ficou aos cuidados do médico Olympus, a quem ela pediu conselhos sobre a melhor forma de cometer suicídio, como o próprio Olympus escreveria mais tarde em um livro, que deve ter sido consultado por Plutarco.

Temendo a morte de Cleópatra, o que esvaziaria o seu triunfo, Otaviano ameaçou-a com relação ao bem-estar dos filhos dela, e, assim, preocupada com o destino deles, a rainha acabou consentindo em receber cuidados médicos.

Mesmo assim, o próprio Otaviano resolveu visitar Cleópatra em pessoa, o que, segundo Dião Cássio, teria ocorrido a pedido dela. Na narrativa deste historiador, Cleópatra mandou arrumar o quarto da forma mais esplêndida e luxuosa, onde foram espalhadas imagens de seu antigo amante Júlio César, o pai adotivo de Otaviano. E Cleópatra também colocou a seu lado, as várias cartas de amor que ela recebera de César. Então, quando Otaviano entrou, ela teria se jogado aos pés dele, em sinal de submissão, e, depois de ter lido trechos ardentes da carta, Cleópatra tentou seduzir Otaviano com olhares lânguidos e voz melosa, terminando por dizer a ele que, se ela o tivesse, seria como se ela tivesse César, e que César viveria nele.

Sobre esse episódio, eu prefiro a narrativa de Plutarco:

“Após alguns dias,o próprio César (Otaviano) veio conversar com ela e confortá-la. Ela estava deitada numa cama simples de estrado, vestida apenas com a sua túnica, mas saltou da cama quando ele entrou e se jogou aos pés dele; o cabelo e o rosto dela estavam terrivelmente desarrumados, sua voz tremia, e os seus olhos tinham olheiras. Havia também muitas marcas visíveis das cruéis pancadas no peito dela: em uma palavra, o corpo dela parecia não estar em melhor estado do que o seu espírito. Apesar disso, o charme pelo qual ela era famosa, e o impacto da sua beleza, não estavam de todo extintos, ao contrário, apesar dela estar naquela situação lamentável, eles resplandeciam e se manifestavam nas expressões dela. Após César (Otaviano) ter rogado para que ela se deitasse e ele próprio  ter se sentado próximo a ela, ela começou a fazer uma espécie de justificativa das suas ações, atribuindo-as à necessidade e ao medo que sentia de Antônio; Contudo, enquanto César (Otaviano) discordava dela e a refutava em cada ponto, ela rapidamente mudou de tom e buscou sensibilizá-lo com as suas preces, como se ela fosse alguém que, acima de todas as coisas, agarrava-se à vida. E, finalmente, ela lhe deu uma lista de todos os tesouros que ela possuía; Nesse momento, quando Seleucus, um dos camareiros dela, demonstrou, conclusivamente, que ela estava escamoteando e escondendo alguns deles, ela saltou da cama, agarrou-o pelos cabelos e despejou uma saraivada de golpes no rosto dele.  E quando César (Otaviano), com um sorriso, fez com que ela parasse, ela disse: “Mas não é uma coisa horrível, Oh, César, que quando tu te dignaste a vir e falar comigo, embora eu esteja nesta situação miserável, os meus escravos me denunciem por separar alguns adornos femininos – não para mim mesma, é claro, mulher infeliz que sou – mas para que eu possa dar alguns presentes insignificantes para Otávia e para tua Lívia, e, mediante a intercessão delas, te fazer mais piedoso e gentil?” Então César (Otaviano) ficou satisfeito com este discurso dela, restando totalmente convencido de que ela queria continuar viva. Consequentemente, ele disse que ele deixaria esses assuntos por conta dela, e que, em todos os outros aspectos, ele lhe daria o tratamento mais esplêndido que ela poderia esperar. Ele, então, saiu do quarto, supondo que a tinha enganado, mas ele é quem seria enganado por ela”.

Uma vitória na morte

Plutarco narra, ainda, que um dos companheiros de Otaviano, chamado Cornelius Dolabella, que tinha uma certa queda por Cleópatra, conseguiu avisá-la de que Otaviano havia mandado as legiões se aprontarem para marchar pela Síria, e que, dentro de três dias, ele iria envia-la para Roma junto com os filhos. Cleópatra agora tinha certeza de que a intenção de Otaviano era exibi-la acorrentada em carro aberto em seu triunfo pelas ruas de Roma, perante o populacho da cidade.

Então, no dia 12 de agosto de 30 A.C. (alguns defendem que foi no dia 10), Cleópatra pediu aos seus captores para que lhe fosse permitido entrar no mausoléu para proceder alguns ritos religiosos em honra de Antônio. Obtida a permissão dos romanos, Cleópatra tomou banho, fez uma suntuosa refeição e mandou as suas duas servas de maior confiança, que se chamavam Charmion e Iras, vestirem-na com os trajes de gala da realeza ptolomaica.

Enquanto isso, chegou na antessala dos aposentos de Cleópatra, um camponês trazendo um cesto. Os guardas perguntaram o que havia dentro dele e o camponês respondeu que eram figos para a rainha, abrindo a tampa. Os guardas olharam e o camponês, sorrindo, disse que eles poderiam ficar com alguns.  Acreditando que não havia motivo para desconfiarem, os guardas deixaram o homem entrar e deixar o cesto no quarto.

Após o banho, Cleópatra chamou um mensageiro e entregou uma mensagem em uma tabuleta selada para que fosse entregue a Otaviano. Depois que o mensageiro saiu, Iras e Charmion trancaram as portas do aposento.

Quando Otaviano abriu a carta e leu o seu conteúdo, o seu rosto deve ter ficado lívido: entre várias lamentações e pedidos, Cleópatra implorava para que ele a enterrasse junto com Antônio. O futuro imperador percebeu imediatamente do que se tratava e mandou que alguns dos seus auxiliares fossem o mais rápido possível até os aposentos de Cleópatra. Todavia, quando os guardas romanos, que ainda não sabiam de nada, abriram as portas, encontraram Cleópatra já sem vida, deitada sobre uma colcha de ouro, vestida com os trajes reais. Eles ainda puderam ver que Iras agonizava,  já sem sentidos, aos pés da sua rainha, e, por sua vez,  Charmion,  também já quase desfalecendo, arrumava o diadema sobre a testa de Cleópatra. Plutarco conta que alguém, indignado, chegou a dizer, em tom de repreensão: “Bela ação, Charmion!“, tendo a serva respondido, antes de também cair morta:

“Sem dúvida, é a mais bela, e condizente com a descendente de tantos reis”

Uma das muitas representações artísticas da morte de Cleópatra está no Museu dde Belas Artes de Toulouse, por Jean-André Rixens (1874), Public domain, via Wikimedia Commons

Tanto Plutarco quanto Dião Cássio afirmam que ninguém soube a causa exata da morte de Cleópatra, mas que havia duas picadas no braço. O primeiro menciona os comentários de que ela foi mordida por uma áspide (serpente) a qual estaria escondida no cesto de figos, e o segundo, que o réptil estaria dentro de um jarro d’água. Mas os dois historiadores também citam que havia quem afirmasse que Cleópatra teria usado um palito ou prendedor de cabelo oco, contendo veneno, para se espetar. Provavelmente, segundo Plutarco, a versão da picada da cobra também era a que Otaviano acreditava, pois, no triunfo que ele celebrou pela vitória sobre Cleópatra, uma imagem da rainha egípcia com uma serpente agarrada nela foi carregada junto com a  procissão. (Nota: falaremos dessa imagem, e da aparência de Cleópatra, em nosso próximo artigo: “O Retrato Perdido de Cleópatra“. Vide https://www.cambridge.org/core/services/aop-cambridge-core/content/view/S0068246200000404).

Ao receber a notícia da morte de Cleópatra, Otaviano ficou consternado, tanto pela grandeza de  espírito  que ela demonstrara, quanto pelo fato de ele ter sentido que ela lhe roubara a glória do seu tão desejado triunfo. Se verdadeiro o relato de Dião Cássio, Otaviano chegou a mandar que fossem administradas drogas e sugado o sangue de Cleópatra por um membro da tribo dos Psylli, especialistas em serpentes, em uma vã tentativa de ressuscitá-la.. Seja como for, ele deu ordens para que o corpo dela fosse sepultado ao lado do de Marco Antônio, com a pompa da realeza. E até Charmion e Iras também tiveram direito a um enterro solene.

EpílogoVitória na “Batalha dos Genes”

Quando morreu, Cleópatra tinha 39 anos de idade. Com a morte dela, o Egito foi incorporado como uma província de Roma (o Império Romano começaria oficialmente em 27 A.C., com Otaviano recebendo o título de “Princeps” e o cognome de Augusto, tornando-se o primeiro imperador).

Os três filhos que  Cleópatra teve com Marco Antônio  foram poupados por Otaviano e, depois deles serem exibidos na procissão triunfal pelas ruas de Roma, foram entregues para serem criados pela irmã dele, Otávia.

Os meninos não atingiriam a idade adulta e não se sabe ao certo o que aconteceu com eles.

Contudo, a menina, Cleópatra Selene, casou-se com o rei Juba II, da Numídia, tornando-se rainha da Mauritânia, e boa parte dos estudiosos acredita que o filho dela, Ptolomeu da Mauritânia, através do casamento com Júlia Urania, teve como filha Drusilla da Mauritânia, que, por sua vez, casou-se, em segundas núpcias, com Gaius Julius Sohaemus Philocaesar Philorhomaeus, membro da família real da cidade síria de Emesa (os Sempseramidas, que também eram sumo-sacerdotes do deus El-Gabal), o qual reinou, como rei-sacerdote, entre 54 e 73 D.C..

Busto de Ptolomdu da Mauritânia, Museu do Louvre, foto de Marie-Lan Nguyen 

Sohaemus e Drusilla tiveram um filho, de nome Gaius Julius Alexion, que também reinou em Emesa, entre 73 e 78 D.C (após o que o reino foi incorporado à Província Romana da Síria) e é mencionado em uma inscrição tumular em Emesa como sendo pai de Gaius Julius Sampsiceramus, que, por sua vez, é considerado por alguns prosopografistas como antepassado de Gaius Julius Bassianus, sumo-sacerdote de El-Gabal.

O motivo pelo qual estamos traçando para o leitor esta talvez tediosa genealogia é porque Gaius Julius Bassianus foi o pai de Júlia Domna, uma integrante da família real de Emesa que casou com o futuro imperador romano Septímio Severo (193-211 D.C.), e foi mãe dos imperadores Geta (209-211 D.C) e Caracala (198-217 D.C). Por sua vez, Júlia Maesa, a outra filha de Bassianus, teve duas filhas, Julia Soemias Bassiana, que foi a mãe do imperador romano Elagábalo (Heliogabalus 218-222 D.C). e Julia Avita Mamea, mãe do imperador romano Severo Alexandre (222-235 D.C).

Busto da imperatriz Julia Domna
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Julia_Domna_(Julia_Pia),inv._2210,_RomanBraccio_Nuovo,_Museo_ChiaramontiVatican_Museums-_DSC00897.jpgna, no Museu Chiaramonti, Vaticano,

Portanto, temos como uma grande ironia do destino o fato de que é altamente provável que Cleópatra seja antepassada direta de quatro imperadores romanos, enquanto que Augusto, o seu algoz, somente teve dois descendentes diretos como imperadores: Calígula e Nero

Vale também citar que, entre os presumidos descendentes de Cleópatra está a célebre rainha Zenóbia, de Palmira, que alegava ser descendente da rainha egípcia, e que, no final do século III D.C chegou a conquistar a Síria e o Egito, ameaçando a própria sobrevivência do Império Romano. Segundo relata a História Augusta, depois de derrotada e levada para Roma, em triunfo, Zenóbia teria se casado com um senador romano e com ele teve filhos. De fato, a efígie da rainha até mostra alguns traços de semelhança com as imagens convencionais de Cleópatra, notadamente o penteado ao estilo “melão. Porém, essa ascendência de Zenóbia é considerada por muitos estudiosos como bem menos provável.

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A rainha Zenóbia, de Palmira, uma possível descendente de Cleópatra, foto Classical Numismatic Group, Inc

CONCLUSÃO

Foi somente graças à Cleópatra que o Egito conseguiu ficar independente por mais 20 anos, depois da grande guerra civil de Roma. Valendo-se apenas de sua inteligência, ela influenciou os dois homens mais poderosos do Império mais poderoso que o Mundo Clássico até então havia conhecido, e, mais do que isso, manobrou-os para conseguir os seus objetivos políticos. E, por pouco, ela não conseguiu, ainda que isso pudesse ter durado apenas alguns anos, tornar Alexandria a capital do mundo romano e governá-lo junto com Marco Antônio, chegando próxima de criar uma dinastia “Júlio-ptolomaica”. Enfim, Cleópatra mostrou ao mundo que uma grande mulher não era inferior aos grandes homens do seu tempo.

Dificilmente um escritor ou roteirista conseguiria imaginar eventos de tamanha dramaticidade como a história de Cleópatra. Episódios como a entrada no palácio enrolada no tapete, o cruzeiro junto com César pelo Nilo, a morte trágica de Antônio e o próprio suicídio dela, caso fossem escritos como ficção, certamente seriam tachados de mirabolantes e até poderiam causar rubor ao seu autor. E, no entanto, tudo isso aconteceu de verdade!

Sem dúvida, Cleópatra foi…uma inimitável vivente!

FIM

©EduardoAndré

MARCO TÚLIO CÍCERO – O PODER DA PALAVRA

#‎cícero‬ ‪#‎cicerus‬ ‪#‎catilinária‬

Em 3 de janeiro de 106 A.C, nascia em Arpinum (atual Arpino, no Lácio), a cerca de 100 km de Roma, Marcus Tullius Cicerus (Cícero), filho de um próspero membro da ordem equestre, e de Helvia, uma dedicada dona de casa.

Arpinum Basolato_romano_-_panoramio.jpg.

(Restos de pavimento romano, em Arpino, foto de Pietro Scerrato)

O nome Cícero, segundo o historiador Plutarco,  vem da palavra romana “cicer“, que significa “grão-de-bico”, aludindo, provavelmente, ao formato da ponta do nariz de um ancestral. Plutarco conta que esse nome era alvo de algumas gozações, mas que o próprio Cícero não dava muita trela para isso, e, mais tarde, quando Questor na Sicília, certa vez, ao fazer uma oferenda de uma baixela de prata a um templo, mandou gravar nela o nome “Marco Túlio”, acompanhado do desenho de um grão-de-bico.

A família de Cícero não fazia parte da aristocracia romana tradicional e nem das gens plebeias romanas ilustres, algo que ele nunca se cansaria de lamentar em seus escritos.  Mas ela tinha recursos suficientes para proporcionar ao menino uma excelente educação e Cícero, ainda durante a infância e adolescência, demonstrou ter um invulgar talento para as letras e para a oratória, bem como para a Poesia.

Admirado pela sua eloquência e pelo profundo conhecimento da língua e filosofia gregas, capacidade que lhe abriu as portas dos círculos da aristocracia romana, Cícero aproximou-se de homens importantes, como, por exemplo, Quintus Mucius Scaevola (Múcio Cévola), ex-Cônsul (no ano de 95 A.C.) e afamado jurista (ele escreveu um tratado sobre o direito civil romano, em 18 volumes, tão importante que, quase 600 anos depois, teve trechos citados no Digesto, publicado pelo imperador Justiniano I).

Tendo Múcio Cévola como mestre, Cícero estudou Direito,  em companhia de jovens aristocratas e filhos de pessoas ricas ou importantes, como Servius Sulpicius Rufus, Titus Pomponius e Caio Mário, o Jovem, sendo que a amizade com os dois primeiros teria longa duração.

Em seguida, Cícero fez o serviço militar, lutando na chamada “Guerra Social“, travada contra os povos aliados italianos de Roma (socii) que demandavam mais direitos. A experiência militar ocorreu especificamente na campanha contra os Marsos, servindo sob as ordens de Cneu Pompeu Estrabão, pai de Pompeu, o Grande (Pompeu)., por volta de 88 A.C.

Finda a campanha contra os Marsos, e tendo muito mais vocação para os estudos do que para a carreira das armas, Cícero buscou enriquecer a sua formação e foi estudar com o filósofo cético Philo (Filão) de Larissa, professor da Academia de Atenas,  fundada por Platão, e que havia se mudado para Roma,  em 87 A.C., durante a Guerra contra Mitridates.

Durante esses anos de estudos, a situação política em Roma complicara-se bastante. O sucesso de Publius Cornelius Sulla (Sila) como comandante na Guerra Social estimulou os conservadores no Senado Romano a nomeá-lo Cônsul para o ano de 88 A.C., visando contrabalançar a influência de Caio Mário, que era apoiado pela facção senatorial dos Populares.  Simultaneamente, o rei Mitridates, do rico reino helenístico do Ponto, decidiu conter a expansão romana no Mediterrâneo Oriental e invadiu a Grécia e massacrou 80 mil cidadãos romanos e italianos que viviam na região.

O comando da Guerra contra Mitridates era o mais importante dos últimos tempos e, por isso, o seu comandante seria o detentor de um grande poder militar, sem falar na perspectiva de polpudos saques. O Senado escolheu Sila para a tarefa, porém  um Tribuno da Plebe, partidário de Mário conseguiu anular a decisão. Enfurecido, Sila invadiu Roma, assumiu o poder e decretou que Mário e os Populares eram “Inimigos do Estado”.

Contudo, quando Sila já estava no Oriente, comandando a Guerra Contra Mitridates, os partidários de Mário conseguiram retomar o poder em Roma e ele foi eleito Cônsul, em 87 A.C., contudo, já velho e doente, este morreu pouco tempo depois e Roma ficou sendo governada pelos partidários de Mário, liderados por Lúcio Cornélio Cina.

Porém, quando Mitridates foi derrotado, Sila marchou novamente sobre a Itália, derrotou as forças dos Populares e foi eleito Ditador, em 81 A.C., iniciando uma grande perseguição contra os adversários políticos, conhecida como “Proscrições”.

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Sila encarregou o seu secretário, o liberto Lucius Cornelius Chrysogonus, de coordenar os processos contra os partidários de Mário, tratando das execuções, exílios e confiscos. Segundo Plutarco, o próprio Chrysogonus adquiriu, em leilão, uma propriedade de um homem que havia sido assassinado e figurava na lista de proscrições ordenadas por Sila, pagando um preço bem abaixo do valor do imóvel. O filho e herdeiro do proscrito, Sextus Roscius, indignado, resolveu contestar o valor nos Tribunais. Sila, porém, quando soube do fato, ficou furioso, e, em retaliação, Chrysogonus, valendo-se de provas falsas, acusou Roscius de ter assassinado o próprio pai.

Desesperado, Roscius procurou um advogado para se defender no processo criminal,  mas nenhum profissional se atrevia a patrocinar a causa, com medo da reação de Sila. Até que ele procurou Cícero, que, incentivado por seus amigos,  aceitou o caso, entre outros motivos, porque eles enfatizaram que, se ele ganhasse o processo, ficaria conhecido do público. Cícero desmontou a tese acusatória com brilhantismo e Roscius foi absolvido, por volta de 80 A.C.

Em 79 A.C., Cícero casou-se com Terentia (Terência), que pertencia a uma rica família de plebeus, mas cujos antepassados tinham conseguido ingressar no Senado Romano (um dos precursores foi o senador e novus homo, Caio Terêncio Varrão, que comandou as tropas romanas na Batalha de Canas). É também possível que Terência fosse parente de Marco Terêncio Varrão, homem de letras considerado o romano mais culto de seu tempo e que era dono de uma propriedade próxima a Arpinum.

No ano seguinte, nasceu Tullia (Túlia), a  filha a quem Cícero seria muito apegado durante toda a vida.

Agora um advogado famoso, ainda em 79 A.C.Cícero resolveu aprofundar os estudos de Filosofia na Grécia, sendo que, de acordo com a narrativa de Plutarco, a viagem também poderia ajudá-lo a ficar longe de uma eventual retaliação de Sila. Em Atenas, Cícero assistiu as aulas do filósofo Antíoco de Ascalon, um filósofo da Academia, ex-discípulo de Filão de Larissa, mas que adotava o Ecleticismo.

A morte de Sila, em 78 A.C., deve ter encorajado Cícero a voltar à advocacia e tentar a carreira pública, em Roma. Mas antes, ele decidiu preparar-se e foi estudar Oratória em Rodes, que era uma espécie de centro de excelência daquela disciplina no Mundo Mediterrâneo. Ali, ele foi estudar com Apolônio Molon, que, alguns anos mais tarde, seria também professor de Júlio César.

O fato é que Terência herdou uma grande fortuna, e o dinheiro da mulher ajudaria Cícero a iniciar sua carreira pública, mas foi o indiscutível brilho dele nos tribunais e nas letras que o fez famoso e o possibilitou progredir  na carreira do serviço público, ocupando as sucessivas magistraturas romanas (o “cursus honorum“).

Assim, Cícero foi Questor na Sicília, em 75 A.C., onde ele chamou a atenção dos locais pela honestidade e integridade  (que por isso, mais tarde o escolheriam para advogar a causa dos provinciais contra Caio Verres, o corrupto governador da Sicília, em 70 A.C., um sucesso retumbante que catapultou a fama de Cícero), Edil em 69 A.C., e Pretor, em 66 A.C., culminando com a sua eleição como Cônsul para o ano de 63 A.C., aos 43 anos de idade.

Cícero, assim, chegou ao Senado como um “novus homo” (homem novo), ou seja, um senador que não provinha de nenhuma das famílias tradicionais da nobreza romana cujos integrantes já tinham sido senadores.

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Marcus Tullius Cicerus Minor (Marco Túlio Cícero, o  Jovem), o único filho homem de Cícero, nasceu em 65 A.C.

No ano de 63 A.C., o grande momento de Cícero como Cônsul  foi expor e debelar uma conspiração para a tomada do poder e derrubada do Senado, liderada pelo também senador e partidário da facção dos  Populares, Lucius Sergius Catilina, que foi denunciada em uma série de discursos que ficariam célebres, conhecidos como “As Catilinárias“. Até hoje, passagens desses discursos são estudadas, e algumas delas até ficaram populares, como, por exemplo:

“Quosque tandem, Catilina, abutere patientia mostra?” (Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?”

“O tempora, O mores” (Ó Tempos, Ó costumes)

Nesse episódio, após a prisão dos conspiradores, ocorreu o primeiro embate entre Cícero e o jovem senador Júlio César, que defendia uma punição mais branda para os acusados – a prisão. Cícero, porém, conseguiu convencer o Senado a condená-los à morte, embora esta Assembleia não fosse um tribunal judiciário, enfatizando motivos ligado à “segurança do Estado”, desenvolvendo, naquele tempo, uma argumentação que soaria familiar aos tempos atuais…

Cicero

(Cícero denuncia Catilina,  quadro de Cesare Maccari, 1882)

Com a destruição da conspiração de Catilina (que talvez não tenha sido tão crucial como Cícero fez parecer nos seus escritos), Cícero atingiu o ápice do seu prestígio entre os nobres (Optimates), recebendo o título honorífico de “Pai da Pátria“.

Em 62 A.C., Cícero teve atuação destacada na investigação do escândalo político ocorrida na cerimônia da Bona Dea, um festejo religioso exclusivo para mulheres que estava sendo celebrado na casa de Júlio César,  que então ocupava o cargo de chefe da religião romana, como Pontífice Máximo.

Na festa da Bona Dea, o jovem e ambicioso político demagogo da facção dos Populares, Publius Clodius Pulcher (Clódio), penetrou na festa disfarçado de mulher, aparentemente com a intenção de seduzir Pompeia, a mulher de César, mas ele logo foi descoberto, aparentemente antes de conseguir o seu suposto intento.

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Mesmo assim, César, com o prestígio político ameaçado pelo caso, acabou divorciando-se da esposa, apesar de ter afirmado que nada tinha acontecido, aceitando as escusas de Clódio.

Todavia, os adversários políticos de Clódio, entre os quais estava Cícero, conseguiram abrir um processo contra ele, sob a acusação de incestum e diversas testemunhas foram ouvidas. Clódio tentou alegar um álibi, mas foi contestado por Cícero, que testemunhou que aquele estava em Roma no dia do fato e, ainda, criticou-o muito duramente, como se vê no trecho abaixo:

“Ó, pródigio extraordinário! Ó, seu monstro! Não estás tu envergonhado pela visão deste templo, e desta cidade, nem por sua vida, nem pela luz do dia? Tu, que estavas vestido de mulher e cuja infame luxúria e adultério, unidos com a impiedade, não foram, nem na ocasião, obstaculizados por testemunhas obstinadas, atreves-te a assumir uma voz máscula para defender a tua absolvição?”

Mas Clódio acabou sendo absolvido, segundo algumas fontes, após subornar os juízes.

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Cícero procurou, em seguida, restaurar a velha ordem republicana, propondo regras para o estabelecimento da harmonia entre as diversas instâncias de poder da nobreza (concordia ordinum), sem, contudo, obter sucesso, sendo que as incessantes disputas políticas entre os políticos partidários da nobreza e da plebe (chamados didaticamente de “partido aristocrático”, ou Optimates, e “partido democrático”, ou “Populares“) desaguaram na aguda crise que resultaria na formação do Primeiro Triunvirato, em 59 A.C., formado por Pompeu, Crasso e César (retratados abaixo, da direita para a esquerda).

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Era um quadro político que não favorecia os políticos tradicionais, mas, ao contrário, beneficiava aqueles que tinham comandos militares. Os Triúnviros não gozavam da simpatia dos Optimates e Cícero, politicamente, alinhava-se com eles.

Já, Clódio, que aliara-se aos Triúnviros, agora era Tribuno da Plebe, tendo sido eleito em 59 A.C., com o apoio de César. No ano seguinte, ele conseguiu aprovar, em plebiscito, uma série de leis no interesse da plataforma dos Populares, entre elas a Lex Clodia de Civibus Romanis Interemptis, uma lei determinando o exílio de todos aqueles que tivessem executado cidadãos romanos sem o devido julgamento. Embora a lei fosse genérica e abstrata, era óbvio que Cícero era o principal alvo da medida, por causa da sua ação contra os partidários de Catilina.

Assim, Cícero, bem que tentou, mas não conseguiu obter o suporte dos Triúnviros para escapar da aplicação da Lex Clodia e ele acabou sendo exilado para a Grécia, em 58 A.C., onde chegou em 23 de maio daquele ano, indo viver na cidade de Tessalonica, local, onde, deprimido, chegou a cogitar o suicídio.

Enquanto isso, Clódio aproveitou para confiscar a magnífica casa que Cícero comprara no Palatino, com vista para o Fórum Romano, a qual foi demolida, e o respectivo terreno consagrado para a construção de um “Templo para a Liberdade”.

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(A casa de Cícero devia ficar em algum lugar do canto superior esquerdo nessa foto da colina do Palatino, que foi totalmente remodelada no período imperial com a construção de diversos palácios – a própria palavra deriva do nome do morro – pelos imperadores)

Todavia, as relações entre os Triúnviros começavam a se esgarçar. Insatisfeito com algumas ações de Clódio, Pompeu aproximou-se de Cícero e, assim, o Tribuno da Plebe Titus Annius Milo (Milão), que era aliado de Pompeu, conseguiu fazer o Senado revogar o exílio de Cícero, em uma eleição cujo único voto contrário foi o de Clódio

Em 5 de agosto de 57 A.C., Cícero retornou à Itália, sendo recebido por uma entusiástica multidão que tinha ido lhe dar as boas-vindas no porto de Brundisium, junto com sua adorada Túlia.

Uma das primeiras ações de Cícero após o retorno do exílio, foi tentar reaver a sua propriedade no Palatino, que havia sido confiscada por Clódio. Para isso, ele precisava obter a revogação da decisão do Colégio dos Pontífices que havia consagrado o terreno. Em sua “Oração por sua Casa aos Pontífices” (Oratio De Domo Sua Ad Pontices), Cícero assim defendeu o seu caso, sem deixar de, en passant,  criticar os Triúnviros:

“A Vós lhes foi dado decidir hoje se vós preferis entrar para a posteridade retirando de magistrados fora-de-si e devassos a condição de cidadãos malvados e sem princípios, ou até mesmo armando-os com o manto da religião e do respeito que é devido aos deuses imortais. Porque, se esta peste e  flagelo da República tiver sucesso em defender o seu próprio tribunato – malicioso e mortîfero, apelando à divina religião, quando ele não consegue sustenta-lo por quaisquer considerações de equidade humana, então nós teremos que procurar outras cerimônias, outros ministros dos deuses imortais, outros intérpretes dos requisitos da religião… Mas, se estas coisas, que a loucura de homens malvados obrou na República, nos tempos em que ela estava oprimida por uma parte, abandonada por outra e traída por uma terceira, forem anuladas pela vossa autoridade e pela vossa sabedoria, Ó Pontífices, então nós teremos motivo para devida e merecidamente saudar a sabedoria de nossos ancestrais em escolher os homens mais ilustres do Estado para o sacerdócio”.

O terreno foi desconsagrado e restituído a Cícero, que reconstruiu nele a sua casa com a ajuda de doações de simpatizantes e de particulares  que  tinham achado a ação de Clódio injusta.

Mas a aproximação com Pompeu e a reafirmação do Primeiro Triunvirato após a Conferência de Lucca, em 56 A.C., que havia sido convocada por César para resolver as diferenças entre os Triúnviros, tornaram qualquer oposição de Cícero inviável e isso forçou-o a  deixar a política em segundo plano, passando a se dedicar mais às obras literárias e à vida intelectual.

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Porém, após a morte de Júlia, esposa de Pompeu e filha de César, em 54 A.C.,  e com a morte de Crasso na Batalha de Carras, contra os Partas, no ano seguinte, o Primeiro Triunvirato terminou, colocando César e Pompeu em rota de colisão. Os Optimates perceberam que, para os interesses da nobreza, Pompeu seria um melhor candidato ao poder supremo do que César  e começaram a se aglutinar  em torno do primeiro.

A situação política deteriorara-se muito, e os bandos armados partidários dos políticos Optimates e Populares enfrentavam-se nas ruas. Inclusive em função da violência, a eleição para o Consulado de 52 A.C. teve que ser adiada. Um dos cargos era disputado por Clódio e Milão (o outro, ninguém tinha dúvida, seria de Pompeu). Em 18 de janeiro de 52 A.C., em mais um desses confrontos, o grupo de gladiadores contratado por Milão para escolta-lo assassinou Clódio, quando ambas as comitivas se cruzaram na Via Ápia, nos arredores de Roma. Como um dos resultados, o Senado resolveu designar Pompeu como único Cônsul para aquele ano.

Os correligionários de Clódio, indignados, protestaram violentamente pelas ruas, chegando a queimar a Cúria Hostília, o prédio do Senado Romano, e Pompeu acabou sendo obrigado a determinar que Milão fosse a julgamento pela morte do rival. No julgamento, que transcorreu sob um clima de tensão e ameaça, Milão foi defendido por Cícero, que, entretanto, intimidado pela turba de aliados de Clódio, não conseguiu fazer o seu discurso de acusação direito, chegando a até a ter a voz comprometida. Milão acabou sendo condenado por 38 votos a 13, a ser exilado em Massilia (Marselha) e a ter os bens confiscados.

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(O prédio da Curia Hostilia, que foi destruído e reconstruído diversas vezes durante a História de Roma. O prédio atual data do reinado do imperador Diocleciano).

Pompeu, em 52 A.C.,  nomeou Cícero para ser Proconsul (Governador) da província romana da Cilícia. para entrar em exercício em 51 A.C. Na Cilícia, onde ele ficou de maio de 51 A.C. a novembro de 50 A.C., consta que Cícero fez uma boa administração, aplicando os princípios ensinados por seu antigo mestre, Múcio Cévola. Ele, por exemplo, restituiu terras e imóveis públicos apropriados indevidamente pelos seus antecessores e foi austero nos gastos.

Cícero também agiu vigorosamente para proteger militarmente a região de um ataque dos partas e marchou à testa de um exército romano de 15 mil homens para socorrer o governador da Síria, Caio Cássio Longino, que estava cercado em Antioquia. obrigando Pacorus, o príncipe parta, a retroceder. Cícero, então, deixou a província a cargo de seu irmão, Quintus Tullius Cicero, já que a situação política na Itália estava se agravando. Mas, antes de retornar para a Itália, aproveitou para parar em Rodes e, depois, em Atenas, onde ficou algum tempo encontrando-se com filósofos de renome.

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Mal Cícero retornara à Roma, eclodiu a Guerra Civil entre César e Pompeu, após o primeiro cruzar o Rio Rubicão e invadir a Itália, em 10 de janeiro de 49 A.C.

Os Optimates já haviam escolhido Pompeu como o campeão dos seus interesses e muitos fugiram com ele para a Grécia, mas Cícero ainda ficou, durante pouco tempo em Roma, aparentemente indeciso sobre o que deveria fazer. Porém, quando César, após alguns dias, resolver ir combater as forças senatoriais na Espanha,  Cícero decidiu fugir de Roma e unir-se às forças de Pompeu na Grécia.

Na Batalha de Dirráquio, e, depois, na Batalha de Farsália, em  9 de agosto de 48 A.C., da qual Cícero não participou alegando estar doente, os Optimates foram derrotados. Após a fuga de Pompeu, cujo último destino seria o Egito, Cícero recusou o comando das forças remanescentes dos Optimates em Dirráquio, que lhe foi oferecido por Catão, o Jovem, o líder moral da facção. Segundo Plutarco, Pompeu, o Jovem, acompanhado de alguns amigos, indignados com o que chamaram de traição, chegaram a desembainhar as espadas para atacar Cícero, mas Catão interveio e mandou Cícero embora, ileso.

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(Busto de Catão, o Jovem, da cidade de Volubilis, foto de Prioryman)

Cícero então voltou para Roma, aceitando o perdão de César, que já havia sido nomeado Ditador e tratou-o de modo cortês e respeitoso. Novamente, sem espaço para atividade política, ele voltou a se dedicar à produção literária, especialmente às obras de Filosofia. Datam desse período (46 a 44 A.C.) as obras  Paradoxa Stoicorum (Paradoxos Estóicos), Hortensius, Lucullus or Academica Priora , Varro or Academica Posteriora, Consolatio (Consolação),  De Finibus Bonorum et Malorum (Sobre os fins do Bem e do Mal),  Tusculanae Quaestiones (Questões Tusculanas),  De Natura Deorum (Sobre a Natureza dos Deuses),  De Divinatione (Sobre a Divinação), De Fato (Sobre o Destino), Cato Maior de Senectute (Catão, o Velho, sobre a Velhice), Laelius de Amicitia (Laelius sobre a Amizade) e  De Officiis (Sobre os Deveres).

Durante esses anos, Cícero e Terência divorciaram-se. Segundo as fontes, o motivo principal para o divórcio foi a insatisfação de Cícero com a forma com que a esposa vinha administrando a economia doméstica, sendo que Terência teria até deixado de lhe enviar dinheiro enquanto ele esteve fora de Roma, além de ter deixado Túlia sem uma escolta apropriada e até mesmo sem meios de subsistência adequados quando esta foi visitar o pai, em Brundisium, durante a Guerra Civil. De qualquer forma, as cartas que Cícero enviou para Terência alguns anos antes já indicavam um esfriamento na relação e um afastamento afetivo do casal.

Em seguida, Cícero, que já tinha, então, sessenta anos de idade, casou-se com uma jovem de apenas 15 anos, Publilia, de quem ele era tutor. Publilia era muito rica, e tudo indica que Cícero estava mesmo era de olho no dote da menina, já que naquela época ele estaria afundado em dívidas, incluindo a obrigação legal de ter que devolver o dote que tinha recebido de Terência.

Pouco tempo depois do divórcio e do novo casamento, Cícero sofreu a grande perda de sua amada filha Túlia, que morreu, em fevereiro de 45 A.C.,  das complicações de um parto, de seu casamento com Públio Cornélio Dolabela, de quem ela havia se divorciado apenas três meses antes. (Dolabela era um partidário de Pompeu que havia aderido a César, que o indicou para ser Cônsul). Em uma carta a um amigo, AtticusCícero desabafou:

Perdi a única coisa que ainda me prendia à vida“.

As cartas denotam que após a morte da filha, Cícero ficou realmente bem deprimido. Os amigos tentaram de várias formas consolá-lo, porém ele só parecia se preocupar em como homenagear a memória de Túlia. Em poucas semanas, ele se divorciou de Publilia, alegando que a esposa teria demonstrado satisfação ou feito pouco caso do falecimento de Túlia.

Em 44 A.C., Cícero foi surpreendido pela ação dos conspiradores no Senado que assassinaram Caio Júlio César, nos idos de Março (dia 15 de março), integrada por cerca de 60 senadores liderados por Marco Júnio Bruto (Bruto) e Caio Cássio Longino (Cássio). Embora ele não tenha participado da trama,  Cícero apoiou publicamente os autodenominados “Libertadores” (Liberatores), os quais também buscavam a sua ilustre aprovação, e ele até conseguiu que o Senado votasse pela anistia deles em uma sessão convocada por Marco Antônio, que, naquele momento, ainda aturdido e amedrontado pelo assassinato do Ditador (No primeiro momento ele chegou a fugir de Roma), visava compor-se com os “Libertadores” e o Senado, em troca da revalidação dos atos praticados por César.

Porém, em poucos dias, essas ações seriam submersas pela maré de indignação popular desencadeada pelo velório de César, quando Antônio exibiu a toga ensanguentada do falecido à multidão. Nos violentos tumultos que imediatamente se seguiram, os conspiradores foram obrigados a fugir de Roma.

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Não obstante, no período que se seguiu à morte de César, Cícero era, indiscutivelmente, o líder do Senado, visto como alguém cujo prestígio pessoal talvez fosse capaz de manter a ordem institucional e confrontar Marco Antônio, o braço-direito do Ditador falecido, que se apresentava como o chefe militar e político dos que apoiaram César, e em quem os Optimates não confiavam, sobretudo depois do seu discurso no Fórum, apesar das tentativas dele de entrar em acordo com os assassinos de César.

Entretanto, quando o testamento de César foi aberto, descobriu-se que o herdeiro escolhido por ele foi o seu sobrinho-neto, Caio Otávio, a quem César adotou postumamente e legou a maior parte da sua  imensa fortuna.  Caio Júlio César Otaviano, como o rapaz, de apenas dezoito anos, passou a ser conhecido,  audaciosamente abandonou seus estudos em Apolônia, na Grécia, e desembarcou na Itália, sendo calorosamente acolhido pelos soldados de César que serviam no porto de Brundisium.

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(Busto de Otaviano jovem, foto de Wolfgang Sauber)

Otaviano chegou em Roma no dia 6 de maio de 44 A.C. Durante os meses que se seguiram, ele procurou se aproximar dos senadores. Enquanto isso, os Optimates e os simpatizantes dos “Libertadores” no Senado tinham-se aglutinado em torno de Cícero contra a crescente truculência e revanchismo de Marco Antônio. A velha raposa política e o surpreendentemente astuto jovem herdeiro perceberam que ambos tinham a ganhar com essa aproximação. Cícero passou a elogiar Otaviano publicamente, reconhecendo a sua posição e parecendo mesmo acreditar que o rapaz se guiaria pelos princípios republicanos caros aos Optimates.

Bruto não concordou com a aproximação de Cícero e Otaviano,  e enviou ao primeiro uma carta, censurando-o por escolher um “tirano gentil” (Otaviano) a um “tirano inimigo” (Antônio).

Em setembro de 44 A.C., Cícero começou a despejar contra Marco Antônio a torrente de discursos históricos que ficaria conhecida como as “Filípicas” (porque inspirados nos discursos congêneres com que o célebre orador grego Demóstenes atacou o rei Filipe II, da Macedônia, que era visto por ele como um tirano).

Antônio,, em novembro de 44 A.C., havia partido para Brundisium para assumir o comando das 4 legiões que ele havia transferido da Macedônia, que iriam se somar a uma outra, que estava estacionada ao longo da Via Ápia, e que formariam um exército para combater Décimo Bruto e assumir o governo da Gália Cisalpina. Porém, as duas melhores dessas legiões, que tinham servido sob Júlio César, amotinaram-se e foram se juntar às forças que Otaviano estava reunindo, muito embora ele ainda fosse apenas um particular, sem autoridade legal para comandar tropas. Mesmo assim, em dezembro, Antônio decidiu marchar contra  Décimo Bruto e, chegando à Gália Cisalpina, cercou-o na cidade de Mutina (atual Modena).

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Cícero conseguiu articular uma votação do Senado para declarar AntônioInimigo Público“, motivada pelo fato dele estar tentando assumir o controle da província da Gália Cisalpina em detrimento do governador Décimo Júnio Bruto, cujo comando tinha sido ratificado pelo Senado, embora ele fosse um dos assassinos de César (não confundi-lo com o líder da conspiração,  Bruto). Mas o Tribuno da Plebe, Salvius, conseguiu adiar essa votação. Na sessão seguinte, os argumentos do senador Lucius Calpurnius Piso Caesoninus, sogro de César e antigo desafeto de Cícero, teriam convencido os senadores a não aprovar, naquele momento, a moção  contra Antônio.

Porém, no decorrer daquela crise, Cícero não teve dificuldade de reapresentar a moção contra o adversário no Senado, na primeira sessão do ano seguinte, em 1º de janeiro de 43 A.C., na qual Antônio foi declarado “Inimigo Público“. Na mesma oportunidade, os novos cônsules Aulus  Hirtius (Hírtio), amigo de Cícero, e  Gaius Vibius Pansa (Pansa), que tinham sido partidários moderados de César (que os havia escolhido para o posto no ano anterior) receberam ordens de partir para Mutina com um exército para levantar o cerco que Antônio estava fazendo contra Décimo Bruto. Finalmente, Otaviano teve reconhecido o comando militar sobre as legiões que lhe apoiavam, com o cargo de propretor e também partiu para Mutina, em apoio ao Senado, para combater Antônio.

Em uma carta enviada a um dos conspiradores, Gaius Trebonius (ele abordou Antônio, impedindo que ele entrasse junto com César na sessão do Senado na qual ele foi assassinado), alguns meses depois do assassinato, e  que resume bem a sua posição no conflito, Cícero, após lamentar não ter sido chamado para se juntar à conspiração, reclama pelo fato deles também não terem matado Antônio em seguida a César (poupá-lo foi uma decisão de Bruto), e elogia Otaviano:

“Como eu queria que você tivesse me convidado para aquele tão glorioso banquete nos Idos de Março! Nós deveríamos não ter deixado restos! Uma vez, como ocorre, nós estamos tendo tantos problemas com eles, que o magnífico serviço que vocês, cavalheiros, fizeram em prol do Estado deixou espaço para algumas queixas.  De fato, por Antônio ter sido desviado do caminho por você – o melhor dos homens – e que tenha sido por sua bondade que essa peste ainda viva, eu algumas vezes me sinto, embora talvez eu não tenha nenhum direito para isso, um pouco zangado com você. Pois você deixou para trás uma quantidade de problema que é maior para mim do que para todos os outros juntos., 

(…)

O jovem César está se comportando de maneira excelente e eu espero que ele continuará assim. Você de qualquer modo, pode estar certo disso – que, se ele não tivesse as duas legiões que foram transferidas do exército de Antônio para o comando dele, e não tivesse Antônio sido confrontado por essa ameaça, não haveria crime ou crueldade que este não deixaria de praticar. (…)”.

Inicialmente, os desígnios de Cícero pareciam estar sendo atendidos: Em 14 de abril de 43 A.C.,  na Batalha de Forum Gallorum, após inicialmente levar vantagem contra as tropas de Pansa, que foi ferido mortalmente, o exército de Antônio foi duramente rechaçado por Hírtio, com a ajuda providencial de Otaviano (cujas tropas envolvidas foram chamadas por Cícero de “legiões celestiais”). Seis dias depois, na Batalha de Mutina, Hírtio e Otaviano atacaram o acampamento de Antônio, contando com a ajuda das forças sitiadas de Décimo Bruto, na cidade de Mutina.  Embora Hírtio tenha sido morto nos combates, Antônio acabou sendo obrigado a suspender o sítio e retirar suas forças, passando por Parma, Piacenza e Tortonia, até a costa da Ligúria, ao oeste de Gênova.

Em um incomum erro de avaliação, talvez motivado por ele ainda ignorar que os dois cônsules haviam morrido, levando-o a acreditar que Antônio estava decisivamente enfraquecido,  Cícero persuadiu o Senado a transferir o comando da guerra contra Antônio para Décimo Bruto, tendo os atos senatoriais imprudentementeminimizado o papel desempenhado por Otaviano na vitória, ainda que parcial. Com efeito, o Senado conferiu a Décimo a honra de celebrar o triunfo pela vitória contra Antônio.

Ademais, Otaviano recusou-se a qualquer tipo de cooperação com Décimo Bruto, um dos assassinos de seu pai adotivo, e que pediu o seu auxílio para interceptar as tropas do general  Públio Ventídio Basso que vinham do Piceno em auxílio de Antônio. Logo em seguida, as legiões de Décimo desertaram em favor de Otaviano. Décimo, então, resolveu fugir de Mutina em direção à Macedônia, visando juntar-se a Bruto e Cássio. Tempos depois, ele seria interceptado por um chefe gaulês aliado de Antônio e assassinado.

Enquanto isso, as três legiões de Ventídio Basso juntaram-se a Antônio, que também recebeu o apoio de Marco Antônio Lépido (Lépido), um dos principais subordinados de César e governador da Hispânia e da Gália Narbonense. Isso colocou sob o comando de Antônio um formidável exército de 17 legiões e 10 mil cavaleiros.

Na prática, após a Batalha de Mutina, após a morte dos cônsules e a fuga de Décimo, o Senado não tinha mais forças militares na Itália à sua disposição. Otaviano era agora o homem mais poderoso na Itália, com oito legiões, mas a sua posição poderia ser colocada em cheque por Antônio, secundado por Lépido, que comandavam forças bem maiores na vizinhança da península.

Neste ocasião, algumas fontes (Apiano e Plutarco) mencionam que Otaviano teria feito uma proposta a Cícero para que este convencesse o Senado a eleger ambos para os cargos de Cônsules, em substituição aos falecidos Hírtio e Pansa, instigando assim, astuciosamente, a conhecida vaidade do velho senador, que, animado, deu andamento à proposta.

O mais provável nessa súbita aliança é que ambos, a velha raposa política e o jovem herdeiro, estivessem tentando aproveitar-se um do outro.  Cícero provavelmente via Otaviano meramente como um instrumento descartável para neutralizar Antônio. E Otaviano sabia disso, mas também via como útil ter a seu lado a legitimá-lo um dos senadores mais ilustres.

Com efeito, os dois certamente sabiam que tratava-se de uma aliança precária e ao sabor das circunstâncias…Em uma carta de Décimo Bruto a Cícero, que sobreviveu, o primeiro escreve que:

“Minha afeição e dever para convosco compelem-me a sentir por vós o que eu nunca senti para comigo: medo. Refiro-me a um boato que eu ouvi várias vezes (e nunca fiz pouco caso), a última vez de Labeo Segullis, que me disse que esteve com Otávio, e que eles conversaram bastante sobre você. Otávio mesmo não reclamou de nada quanto a você, a não ser acerca de uma frase que ele falou que você teria pronunciado, especificamente: “laudandum adolescentem, ornandum, tollendum”. A força nessa sentença é encontrada na última palavra, que tem um duplo sentido, assim a frase pode significar: “o jovem deve ser louvado, homenageado e exaltado”, ou, “o jovem deve ser louvado, homenageado e removido”. Otávio então disse que não daria nenhuma oportunidade para a sua remoção”. (Ad Fam, XI, 21)

Seja como for, em julho de 43 A.C., Otaviano enviou uma delegação de centuriões ao Senado demandando o cargo de Cônsul. Porém, o Senado respondeu com questionamentos acerca da pouca idade de Otaviano para o cargo. Ele então decidiu marchar em direção a Roma com suas oito legiões, sem encontrar oposição. Segundo Apiano Cícero ainda conseguiu um encontro com Otaviano, onde enfatizou suas ações no Senado em apoio da candidatura dele, porém o rapaz apenas respondeu com ironia.

Cícero ainda convocou uma sessão noturna no Senado após circular um boato de que duas legiões de Otaviano tinham desertado e se unido à causa senatorial, mas quando a notícia foi desmentida, ele fugiu.

Como resultado, em 19 de agosto de 43 A.C. Otaviano foi eleito Cônsul, tendo apenas 19 anos de idade. Na ocasião, Cícero não foi visto em Roma.

Ainda no mês de julho, Cícero tinha escrito uma carta a Bruto, tentando explicar os fatos :

“Otávio, que até então vinha sendo governado pelos meus conselhos e mostrou a mais excelente disposição e uma firmeza admirável, foi pressionado por certas pessoas, mediante cartas das mais perversas e falsos relatos e mensagens, a uma expectativa absolutamente segura do Consulado. Tão logo eu soube disso, eu não cessei de adverti-lo, por cartas, quando não estava presente, e de acusar, na presença dos seus amigos, que parecem apoiar as reivindicações dele, nem hesitei em expor no Senado a fonte desses miseráveis desígnios. E eu não lembro de um assunto no qual o Senado tenha demonstrado um melhor espírito.  Porque, anteriormente,  nunca aconteceu, quando se tratasse do caso de conferir uma honraria extraordinária a um homem poderoso, ou melhor, a um homem todo-poderoso (visto que o poder agora reside na força e nas armas), que ninguém, seja Tribuno da Plebe, ou outro magistrado, ou mesmo um particular, erguesse a voz em favor disso. Ainda assim, no meio dessa firmeza e virtude, a Cidade está em um estado de angústia. Nós viramos joguete dos caprichos dos soldados e da insolência do general. Cada um demanda tanto poder na República quanto a força que ele tem para extorqui-lo. Razão, moderação, lei, costume, dever, não valem nada, e nem a consideração pela opinião pública ou a vergonha da posteridade têm qualquer serventia. Foi por ter previsto tudo isso muito tempo atrás que eu fugi da Itália, quando a notícia da vossa proclamação me chamou de volta”.

O fato é que agora Cícero é quem era o descartável. Otaviano estava muito mais preocupado com a aliança entre Antônio e Lépido e com o crescente número de tropas que Bruto e Cássio estavam reunindo na Grécia. Em outubro de 43 A.C.,  os três encontraram-se nos arredores de Bononia (atual Bolonha), onde resolveram formar a aliança política que ficou conhecida como Segundo Triunvirato, ou como eles mesmo batizaram: “Triúnviros com Poderes Consulares para confirmar a República“.

Nessa reunião, os Triúnviros dividiram entre si as províncias romanas e, emulando Sila, decidiram fazer uma lista de proscrições abrangendo mais de 200 cidadãos (Apiano fala em cerca de 300 senadores e 2 mil equestres), sujeitos à serem executados e terem suas propriedades confiscadas (os cofres do tesouro estavam vazios). Antes de publicar os decretos, eles resolveram enviar logo os executores para assassinarem doze ou dezessete (os números variam) desafetos, entre os quais estava Cícero. De acordo com Plutarco, Antônio, inclusive, queria que o nome de Cícero fosse o primeiro da lista, mas Otaviano teria sido contra a execução dele, resistindo em concordar durante dois dias, até que, no terceiro, ele acabou cedendo à vontade do colega. O Cônsul Quintus Pedius acabou, inadvertidamente, publicando a lista dos dezessete no dia seguinte.

Quando soube da sua proscrição, segundo o relato combinado de Plutarco e Apiano, Cícero estava com seu irmão, Quinto, em sua vila próximo à cidade de Tusculum. Eles decidiram fugir e pegar um navio que os levasse até Bruto, que estava resistindo na Macedônia.  Mas, Quinto acabou precisando voltar para a sua própria casa (onde ele e o filho foram mortos) e Cícero partiu sozinho em sua liteira com destino à Fórmia, onde ele tinha outra vila, próxima à costa. Dali, ele foi para o porto de Caieta, onde embarcou em um barco visando ir até a Macedônia. Porém, o mar estava agitado e Cícero ficou mareado, motivo pelo qual resolveu voltar para Fórmia.

Enquanto isso os soldados encarregados da execução de Cícero andavam pelos arredores, procurando-o, mas os locais, simpatizando com a sua causa, negavam saber do seu paradeiro, até que um sapateiro, que fora cliente de Clódio, o velho inimigo de Cícero, informou que ele estava na vila, apontando o caminho.

Em 7 de dezembro de 43 A.C., uma tropa de soldados chegou até o local, mas os escravos de Cícero conseguiram perceber com alguma antecedência a aproximação dos soldados que vinham atrás de seu amo e tentaram alcançar novamente o porto,  levando-o de liteira através de um caminho discreto pela mata.

Quando os soldados, liderados pelo tribuno Popillius Laena e pelo centurião Herennius chegaram na casa, não encontrando Cícero, começaram a interrogar os escravos, que disseram não saber o paradeiro do amo. Porém, um liberto, chamado Philologus, acabou revelando que Cícero tinha saído de liteira por uma trilha que levava ao mar.

Ao perceber a aproximação de Herennius e sua tropa, Cícero ordenou que os servos descessem a liteira, exclamando: “eu decerto fico aqui“,  e colocou a sua cabeça para fora, esticando o pescoço, dizendo:

“O que estás a fazer, soldado, não é nada correto; no entanto, mate-me corretamente”.

Na versão contada por Sêneca, o Velho (Suasoriae, I, 7), as últimas palavras de Cícero teriam sido:

“Vem, veterano, e se ao menos pode fazer isto certo, acerta o pescoço!”

Segundo o relato de Apiano, quem executou Cícero foi Popillius Laena, que por sinal não atendeu o desejo de Cícero, pois precisou de três golpes de espada para decepar a cabeça dele. Já de acordo com Plutarco, quem decepou a cabeça dele foi Herennius.

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(A chamada “Tumba de Cícero”, em um trecho da Via Ápia próximo à Fórmia. Acredita-se que se trata, na verdade, de um monumento erguido na Antiguidade,  no local onde Cícero foi assassinado).

De qualquer modo, os relatos concordam que a cabeça e as mãos de Cícero foram cortadas a mando de Antônio, que, ficou muito satisfeito quando as mesmas foram trazidas à sua presença no momento em que ele estava em um ato público no Fórum. Antônio, então, ordenou que as mesmas ficassem expostas durante vários dias nos Rostra (uma espécie de palanque no Fórum Romano, que tinha esse nome porque era adornado com os esporões dos navios inimigos capturados em batalha), um ato bárbaro que muito horrorizou os cidadãos da Urbs.

Consta que Fúlvia, a esposa de Marco Antônio, segundo o relato do historiador Cássio Dião, odiava tanto Cícero que, ao ver a cabeça decepada dele pregada nos Rostra, desceu de sua liteira, retirou o alfinete de ouro que prendia os seus cabelos e espetou-o na língua do grande Orador. Sem dúvida, esta foi uma abjeta vingança contra a arma mais poderosa do falecido inimigo…

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(Os Rostra, reconstrução virtual e estado atual)

CONCLUSÃO

Muitos anos após a morte de Cícero, de acordo com Plutarco, Otaviano, agora conhecido como o imperador Augusto, certa ocasião fez uma visita à casa de sua irmã Otávia, e encontrou um dos filhos dela lendo uma obra de Cícero. O menino, quando percebeu que Augusto tinha notado quem era o autor do livro, ficou amedrontado e tentou esconder o livro dentro da roupa. Augusto, porém, percebeu e pegou o livro das mãos do rapaz e, por alguns instantes ficou lendo-o. Depois, pensativo, o imperador devolveu o livro ao sobrinho,  dizendo:

“Um homem erudito, minha criança, um homem erudito…e que amava o seu país.”

Não obstante, o fato de Augusto não ter se oposto à decisão de Marco Antônio de incluir Cícero na lista de proscritos pesaria para sempre como um ponto negativo na biografia do primeiro imperador. Sabedor disso,  Augusto apontou Marco Túlio Cícero, o Jovem, filho de Cícero, como Cônsul Suffectus, para o ano de 30 A.C e foi ele quem anunciou ao Senado a derrota de Antônio na Batalha de Actium. Posteriormente, Augusto ainda nomeou-o Governador da Síria e da Ásia, e ali uma das medidas que o rapaz tomou foi ordenar a remoção de todas as estátuas de Antônio daquelas províncias.

A extensa obra literária e filosófica de Cícero é divida em: Poemas, Cartas (sobreviveram 931 cartas de Cícero), Discursos, Tratados de Retórica e de Oratória ( eu um deles, relaciona César como um dos maiores, senão o maior, orador romano) e Obras Filosóficas (entre as quais, “Sobre o Estado e as Leis”, “Sobre os deveres”, “Sobre as finalidades”, “Sobre a velhice”, “Questões Tusculanas”, “A Natureza dos Deuses” e “Sobre o Destino”).

Os autores antigos já reconheciam a importância de Cícero para a cultura latina. Plutarco,  por exemplo, em suas “Vidas Paralelas”, escreveu que:

“O trabalho e o assunto que ele escolheu for compor e traduzir os diálogos filosóficos e adaptar os termos da Lógica e da Física ( gregas) para o idioma romano. Pois, como se diz, ele foi quem primeiro deu nomes latinos para palavras como phantasia, syncatathesis, epokhe, catalepsis, atomon, ameres, kenon e outros termos científicos como esses, que, seja por metáforas ou outras formas de acomodação, ele teve sucesso em fazer inteligíveis e com significado para os Romanos”.

Assim, a influência do pensamento de Cícero perdurou séculos após a sua morte, sobretudo por introduzir os falantes de latim, mesmo após o fim do Império Romano, nos meandros da especulação filosófica grega, influenciando, por exemplo, até Santo Agostinho (o religioso admitiu que a leitura da obra de Cícero, Hortensius, hoje desparecida, foi fundamental para a sua conversão ao Cristianismo).

Com efeito, tamanho foi o volume da produção intelectual de Cícero que sobreviveu até os nossos dias, sobretudo em cartas e discursos, que muitos historiadores consideram que ele é a personalidade romana mais bem conhecida na intimidade, como por exemplo, afirmou a historiadora Mary Beard, da Universidade de Cambridge.

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(No livro SPQR, de Mary Beard, Cícero é o fio-condutor da narrativa sobre a História de Roma)

Até a recente operação da Polícia Federal brasileira, batizada de “Catilinária”, é um exemplo de quão longe chegou a influência da vida e do pensamento de Cícero.

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COSME E DAMIÃO – OS MÉDICOS ROMANOS QUE VIRARAM SANTOS

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#CosmeeDamião #SãoCosmeeSãoDamião

Hoje, dia 27 de setembro de 2018, a Igreja Católica comemora o dia de São Cosme e São Damião.

Os gêmeos Cosme e Damião nasceram em Aegea (agora Ayas, no Golfo do Iskenderun, Cilícia, Ásia Menor), uma cidade portuária da Proví­ncia romana da Sí­ria, em meados do século III D.C.. Os seus nomes verdadeiros eram Acta e Passio. O pai deles, de nome desconhecido, foi martirizado durante a Grande Perseguição dos cristãos na era de Diocleciano e a mãe se chamava Teodata, ela também venerada como santa pelos ortodoxos. A famí­lia seria de origem árabe.

Cosme e Damião praticavam a medicina em Aegea e alcançaram nesta profissão uma grande reputação entre os locais. Eles não aceitavam nenhum pagamento por seus serviços e por isso  eram chamados de anargiras (em grego antigo: anargyroi – isto é, “avessos ao dinheiro”). Dessa forma, eles trouxeram muitos novos adeptos para a fé cristã.

Quando a perseguição decretada pelo imperador Diocleciano começou, o governador da Síria, Lísias mandou prender Cosme e Damião e ordenou-lhes que renegassem sua fé.

Não obstante os suplícios, os gêmeos se mantiveram constantes sob tortura e, segundo a tradição cristã, de forma milagrosa, eles não sofreram nenhum ferimento, seja por água, fogo, ar, e nem mesmo na cruz. Porém, os seus carrascos não desistiram e eles acabaram sendo decapitados por uma espada. Os demais irmãos deles, Antimo, Leôncio e Euprepio, também foram martirizados junto com eles.

A execução de Cosme e Damião ocorreu no dia 27 de setembro, provavelmente entre 287 e 303 D.C. (mais provavelmente nesse último ano).

Mais tarde, começaram a surgir relatos milagrosos sobre os gêmeos ligados às suas relíquias. Os restos mortais dos mártires estavam enterrados na cidade de Ciro, na Síria, por isso, o imperador Justiniano I (527-565 D.C.) suntuosamente restaurou esta cidade em honra dos mesmos, depois dele ter sido curado de uma doença perigosa, cura essa que foi atribuída à intercessão de Cosme e Damião.

Justiniano também reconstruiu e decorou a igreja dedicada aos gêmeos mártires em Constantinopla, que veio a se tornar um lugar famoso de peregrinação. E em Roma, o Papa Félix IV (526-530 D.C) converteu um antigo edifício romano, edificado pelo imperador Maxêncio em honra de seu filho Valerius Romulus, e que por isso era conhecido como “Templo de Rômulo”, em uma igreja em honra de São Cosme e São Damião.

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(“Templo de Rômulo”, atual Igreja de Santi Cosma e Damiano, em Roma, foto de Anthony M. )

Aliás, o culto a São Cosme e São Damião já havia se espalhado pelo Ocidente ainda durante o fim da Antiguidade, fato que muitos atribuem ao sincretismo religioso que os relacionou às figuras mitológicas de Castor e Pólux, que também eram gêmeos.

No Brasil, Cosme e Damião são considerados santos protetores das crianças, motivo pelo qual, no dia que foi consagrado a eles, os fiéis costumam presentear pelas ruas as crianças com sacos de doces e guloseimas.

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CLÁUDIO II GÓTICO

CLÁUDIO II GÓTICO

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(Busto de bronze do imperador Cláudio II Gótico, foto de Ronan.guilloux/gallery )

Marcus Aurelius Valerius Claudius (Cláudio II Gótico) nasceu em 10 de maio de 214 D.C , na região da Dardania, que fazia parte das províncias romanas da Ilíria e Moésia Superior.

Claudio era de origem humilde e o seu prenome denota que, provavelmente, ele foi um dos homens livres nascidos depois do Édito de Caracala, que estendeu a cidadania romana a todos os homens livres do Império Romano (Caracala se chamava Marco Aurélio Antonino Augusto). Acredita-se, assim, que a família de Cláudio seria de Ilírios recentemente absorvidos, e apenas parcialmente romanizados, que, como muitas outras famílias romanas do período, demonstrou o seu agradecimento dando o nome do benfeitor aos filhos.

De qualquer forma, como muitos dos seus conterrâneos Ilírios durante o século III, Cláudio alistou-se no Exército Romano e foi sendo promovido em virtude do seu desempenho. Consta que ele era dotado de tamanha força física que era capaz de arrancar os dentes não apenas de homens, mas também de bestas de carga, como cavalos e mulas, com apenas um soco.

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(O relevo deste sarcófago romano de meados do século III D.C, mostra romanos combatendo bárbaros, possivelmente Godos, tanto a aparência dos soldados como dos bárbaros é bem estilizada, porém o soldado retratado na fileira do meio no canto direito pode ser considerado uma reprodução fidedigna de um soldado da época em que Cláudio serviu ao Exército)

Durante o reinado do imperador Décio Trajano, também ele um natural da Ilíria (porém, este era um integrante da classe senatorial), Cláudio alcançou o posto de Tribuno Militar e, no reinado do imperador Valeriano, ele foi promovido para um importante comando militar em sua província nativa.

Contudo, Valeriano foi capturado pelos persas em 260 D.C. (E ele morreria no cativeiro). O trono, então, foi assumido por seu filho Galieno. Durante o reinado deste último, Cláudio foi nomeado “Hipparchus”, isto é,  comandante da cavalaria de elite dos Comitatenses, recém criada por Galieno.

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Em 268 D.C, o reinado de Galieno se encontrava acossado por várias ameaças externas e internas: Quase toda a Gália, a Espanha e a Bretanha eram controladas pelo usurpador Póstumo, e estas províncias tinham se tornado, na prática, independentes, sob a denominação de “Império Gaulês“. No leste, o rei de Palmira, Odenato, conseguiu derrotar os persas e restaurar a Síria para os romanos, mas tornou-se o governante de fato da região e virtualmente independente de Roma, com a tolerância de Galieno. Para piorar, nas regiões do Danúbio e do mar negro, pipocavam invasões de “Citas” (que era como os autores do período costumavam se referir aos Godos) e dos Hérulos.

Galieno lutou bravamente contra o Império Gaulês e os bárbaros, obtendo sucesso parcial. Ele conseguiu derrotar Póstumo e reconquistar parte da Gália até o Rio Ródano, mas, durante um sítio a uma cidade, o imperador foi ferido e teve que abandonar a campanha.

Após se recuperar, Galieno foi impedido de combater os Hérulos devido a um motim liderado pelo comandante de cavalaria Aureolus, em Milão.

Enquanto se preparava para combater Aureolus, em setembro de 268 D.C, Galieno foi morto por seus próprios homens, em uma conspiração até hoje obscura. Muito provavelmente, foram os comandantes mais importantes do Exército, como o general (e futuro imperador) Aureliano, o Prefeito Pretoriano Heracliano, o poderoso general Lúcio Aurélio Marciano, e, talvez, o próprio Cláudio, todos eles militares de origem ilíria, que decidiram que era hora de se livrar do desafortunado Galieno.

Alguns autores acreditam que Cláudio foi escolhido imperador pelo fato de ser admirado pelos soldados como um colega oriundo da tropa que dera provas de valentia e força. Outro motivo, seria a suposta percepção de que Cláudio, ao contrário de Aureliano, que era outro candidato em potencial,  seria menos rígido no que se refere à disciplina militar.

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(Antoninianus, moeda cunhada por Cláudio II, foto de Rasiel )

A  contestada História Augusta assevera que Cláudio não participou do complô contra Galieno e que foi este quem nomeou-o sucessor em seu leito de morte, mas muitos historiadores põem isto em dúvida, tal como Procópio, que escreveu sobre o período e menciona a participação de Claudio na trama. Acrescente-se, ainda, que a História Augusta notoriamente faz uma apologia da dinastia de Constantino, época em que a mesma foi escrita, e que Constantino alegava ser descendente de Cláudio, motivo pelo qual o seu autor tenderia a “dourar a pílula” dos relatos relativos a este último.

Não obstante, consta que Cláudio realmente mostrou uma índole branda ao pedir ao Senado que os familiares e partidários do odiado Galieno fossem poupados e, inclusive, ele mesmo solicitou ao Senado que o finado imperador fosse deificado. Após sua coroação, Cláudio passou a se chamar oficialmente Marcus Aurelius Valerius Claudius Augustus.

Em seguida, Cláudio sitiou Milão com o objetivo de capturar Aureolo, que se rendeu, mas foi executado pela traição a Galieno.

Porém, Cláudio teve que lidar com a muito mais ameaçadora invasão dos bárbaros Alamanos, que cruzaram os Alpes e entraram no norte da Itália.

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Na Batalha do Lago Benaco (atual Lago Garda), no final de 268 ou início de 269 D.C, os Alamanos foram derrotados, perecendo metade da força invasora no combate. Por essa vitória, Cláudio recebeu o título de “Germanicus Maximus”.

A cronologia dos eventos é incerta, mas mais ou menos na mesma época, Cláudio infligiu uma esmagadora derrota aos Godos, que haviam invadido o Império no reinado de Galieno. Parece que essa campanha foi iniciada por Galieno e não se sabe com certeza se foi Cláudio ou Galieno quem reinava durante a decisiva Batalha de Naissos (atual Nîs, na Sérvia), onde os romanos esmagaram os Godos.

De qualquer forma, Cláudio certamente eliminou os últimos remanescentes da invasão e derrotou uma grande invasão naval dos Godos e capturando muitos deles, que foram incorporados ao Exército.

Entendemos que foi realmente Cláudio quem derrotou os Godos em Naissos, pois ele passou à História com o cognome “Gótico“, sem que houvesse contestação pelos historiadores contemporâneos. Além do mais, dificilmente o vencedor de tão importante vitória seria assassinado semanas ou meses após tão retumbante sucesso, como vimos que ocorreu com Galieno.

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(Mapa das invasões dos Godos durante o final do reinado de Galieno e o reinado de Cláudio II, mapa da lavra de Dipa1965)

Essa vitória foi tão importante que somente um século depois os Godos voltariam a ameaçar para valer o Império Romano. O general Aureliano teve importante participação como comandante da cavalaria romana na batalha, onde foi destruído e capturado o “laager“, o círculo defensivo de carroças tradicionalmente usado como reduto pelos Godos, formação que, na futura Batalha de Adrianópolis, cem anos mais tarde, seria fundamental para a vitória dos bárbaros.

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Cláudio II Gótico então voltou sua atenção para o Império Gaulês e enviou o general Júlio Placidiano para o sul da Gália, onde conseguiu restaurar a Hispânia e o leste do vale do Ródano para o domínio romano.

Porém, em 269 D.C, a viúva de Odenato, a poderosa Zenóbia, rompeu com o Império Romano e atacou com sucesso a Síria e o Egito. Acredita-se que Cláudio chegou a mandar uma força para contra-atacar a invasão de Zenóbia , mas a expedição teria sido derrotada.

Sem condições de intervir mais decisivamente no Oriente, devido a uma nova invasão no Ocidente, agora dos Juthungi, na Rétia, e dos Vândalos, na Panônia, Cláudio, após partir para Sirmium, para enfrentar os últimos, contraiu uma peste, provavelmente varíola, doença que teria sido introduzida no território do Império pelos Godos, e morreu em janeiro de 270 D.C, aos 59 anos de idade, sendo sucedido por Aureliano.

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(Mapa do Império Romano no final do reinado de Cláudio II Gótico, imagem de historicair)

A carreira e reinado de Claudio Gótico são emblemáticos da era dos chamados imperadores-soldados, da segunda metade do século III D.C, todos oriundos dos povos ilírios de índole guerreira,  e que culminou com o reinado de Diocleciano, que, após reformas administrativas, fiscais e militares, conseguiu estabilizar a situação do Império, interna e externamente.

Os imperadores-soldados ilírios, notadamente Cláudio e Aureliano, foram cruciais para construir o terreno sobre o qual Diocleciano reestruturaria o Império Romano. Por isso, todos eles foram responsáveis por garantir a sobrevivência do Império Romano por mais 200 anos, após a crise do século III. Sem eles, a História da humanidade certamente seria muito diferente.

AVE, GEORGIOS!

AVE, GEORGIOS!

Em 23 de abril de 303 D.C, um soldado romano chamado Georgios foi executado por ordens do Imperador Romano Diocleciano.

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Diocleciano havia ordenado que todos os soldados do Exército Romano oferecessem um sacrifício aos deuses do panteão tradicional de Roma e aqueles que se recusassem deveriam ser presos.

Georgios (Jorge), segundo a hagiografia e a tradição cristã seria filho de Gerontius, um oficial romano da ilustre família senatorial dos Anícios, e Pollycronia, uma súdita romana de Lydda, atual Lod, em Israel, então situada na província romana da Síria Palestina. Segundo outro relato, Gerontius seria natural da Capadócia. De qualquer modo, as fontes acordam que Jorge cresceu em Lydda e que sua família era cristã.

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(Mosaico romano descoberto em Lod, Israel)

Seguindo a carreira do pai, Jorge se alistou na guarda imperial, servindo na corte de Diocleciano em Nicomédia (atual Izmit, na Turquia), que havia sido elevada pelo imperador à condição de capital imperial, no recém-criado sistema da Tetrarquia.

Jorge acabou sendo promovido ao posto de Tribuno, posto que hoje seria equivalente ao de coronel. Quando Diocleciano publicou seu Édito exigindo que os soldados cristãos renunciassem ao cristianismo, Jorge anunciou publicamente, perante as tropas formadas na presença do Imperador, sua devoção a Jesus Cristo.

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O Imperador, que apreciava Jorge tentou convencê-lo de várias formas a obedecer o Decreto, até oferecendo-lhe terras, dinheiro e escravos, mas Jorge manteve-se irredutível.

Sentindo-se obrigado a reforçar a obediência ao seu Édito, Diocleciano ordenou que Jorge fosse torturado em uma roda de afiadas espadas. Após este suplício, Jorge foi decapitado em frente às muralhas de Nicomédia, em 23 de abril de 303 D.C. Seu corpo foi levado para Lydda e logo se tornou foco de devoção como relíquia de umt mártir cristão. Ainda segundo a tradição, a imperatriz Alexandra, esposa de Diocleciano, ao assistir o martírio de Diocleciano, converteu-se ao cristianismo, motivo pelo qual ela também foi executada e, posteriormente, canonizada.

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(Panorama de Izmit, a antiga Nicomédia, na Turquia)

A associação de São Jorge ao dragão parece ter sido recolhida e trazida à Europa pelos cruzados no Oriente Médio (algumas populações islamizadas inclusive mantiveram a veneração a São Jorge na região).

Segundo a lenda, na cidade de Sylene (que poderia ser Cirene, na Líbia ou, segundo alguns, seria a própria Lydda), um dragão ( originalmente um crocodilo) viveria na fonte de água potável dos habitantes, que eram obrigados a oferecer ao monstro uma ovelha para sacrifício, até que, na falta dos animais, eles foram forçados a oferecer uma virgem. A donzela orou pedindo proteção e São Jorge apareceu e matou o dragão, motivo pelo qual todos os habitantes se converteram ao cristianismo.

Jorge foi canonizado pelo Papa Gelásio I, em 494 D.C. Embora o santo fosse conhecido no Ocidente, a sua popularidade chegou ao ápice com o retorno à Europa dos cruzados, que atribuíram à intervenção de São Jorge várias vitórias obtidas na Terra Santa. Por influência deles, São Jorge acabou virando o santo patrono da Inglaterra, de Portugal, da Geórgia, da Romênia e de Malta. A imagem de São Jorge matando o dragão também compõe a Cota de Armas da Federação Russa.

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PERTINACE E O ANO DOS CINCO IMPERADORES

Em 28 de março de 193 D.C, o Imperador Romano Pertinace devia estar ansioso para que o mês,  no qual já tinham ocorrido tantos acontecimentos funestos, acabasse logo. Mas, de repente, os pensamentos do imperador foram interrompidos pela gritaria dos servos do Palácio e pelo barulho de sandálias militares, o que só podia significar uma coisa…

Nascido em 1º de agosto de 126 D.C., na cidade de Alba Pompéia, no atual Piemonte, Publius Helvius Pertinax (Pertinace), segundo a História Augusta,  era filho de um escravo liberto da Ligúria, de nome Helvius Successus, que ganhava a vida como comerciante de madeira. O comércio não deve ter deixado Helvius rico, pois, segundo as fontes, seu filho Pertinace teve que trabalhar como “grammaticus” (professor que ensinava literatura e noções de oratória para crianças mais velhas e adolescentes).

Entretanto, sabendo-se que os historiadores que escreveram a História Augusta algumas vezes inventaram detalhes para enriquecer a biografia dos imperadores, esta narrativa deve ser vista com alguma cautela. Cássio Dião, um historiador mais respeitado, por exemplo,  apenas escreveu que o pai de Pertinace não era de origem nobre

Em algum momento de sua juventude, Pertinace deixou a profissão de professor e, com o patrocínio do ex-Cônsul (144 D.C) Lollianus Avitus, de quem seu pai devia ser cliente, entrou para o Exército, alcançando o posto de Prefeito de uma Coorte (unidade que compõe uma legião).

Sabe-se que Pertinace serviu na Síria, onde, inclusive, ele recebeu uma punição pela infração de usar o “cursus publicus” (sistema de estradas e postos de montaria) destinado ao governador daquela província sem autorização, tendo sido lhe aplicada a punição de que voltasse a pé de Antióquia até o local onde sua unidade estava estacionada!

Já segundo a versão de Cássio Dião,  o patrono de Pertinace no Exército teria sido Tibério Cláudio Pompeiano, general e genro do imperador Marco Aurélio. Vale observar que a versão da História Augusta, no que tange à carreira de Pertinace, é mais completa.

Não obstante, o fato é que, na vitoriosa guerra contra os Partas, que ocorreu entre 161 e 166 D.C, no reinado do Imperador Marco Aurélio, servindo sob o comando do co-imperador Lúcio Vero e de Pompeiano, Pertinace se destacou e foi galgando postos no Exército Romano.

Posteriormente, já na década de 170 D.C, Pertinace foi nomeado comandante da Legião XX Valeria Victrix, na Britânia e, depois disso, comandante da Flotilha do Reno e Procurador da Dácia,  cargo equivalente ao de governador.

Foi nessa época que Pertinace também entrou no Senado Romano, onde ele foi alvo de intrigas palacianas que o prejudicaram aos olhos da Corte, mas acabou sendo reabilitado devido à guerra que Marco Aurélio travava com os Marcomanos. E, em decorrência do seu bom desempenho nesta campanha, Pertinace foi nomeado Consul Suffectus em 175 D.C.

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Posteriormente, ainda no reinado de Marco Aurélio, Pertinace foi nomeado governador das províncias da Moésia Inferior, da Dácia e da Síria.  Eu acredito que o motivo de Pertinace ser estimado pelo letrado Marco Aurélio deveu-se não apenas aos talentos militares dele, mas também pela sua formação de professor.

Quando Cômodo tornou-se imperador, porém, Pertinace foi novamente alvo de intrigas, agora por parte do Prefeito da Guarda Pretoriana Tigidius Perennis, que tentou implicá-lo em uma conspiração contra o Imperado. Esse fato levou Pertinace, em 182 D.C, a deixar a vida pública, voltando para a Ligúria, onde o seu pai tinha adquirido uma loja de roupas, lá ficando por 3 anos.

Mais uma vez, contudo, Pertinace conseguiu voltar às boas graças com o monarca reinante e ele foi nomeado, de 185 a 187 D.C, Governador da Britânia. Nesta província, porém, Pertinace teve que enfrentar o motim de uma legião, quando um grupo de soldados atacou os seus guarda-costas e feriu o próprio Pertinace, que chegou a ser dado como morto.

Quando Pertinace conseguiu recuperar-se dos ferimentos, ele reuniu os soldados fiéis e puniu severamente os revoltosos, ganhando a fama de disciplinador implacável. Apesar disso, o clima de tensão com a tropa continuou e, em 187 D.C, Pertinace deixou a Britânia.

No ano seguinte, Pertinace foi nomeado Governador da África.

Já em 189 D.C, Pertinace foi escolhido para ser o Prefeito Urbano de Roma, um cargo muito importante e que o colocava em contato direto com o Imperador Cômodo. Naquele mesmo ano, ele foi nomeado Cônsul, tendo como colega de consulado o próprio imperador, o que era considerado uma grande honraria.

No início da década de 190, estava ficando claro para a elite romana que Cômodo estava perdendo a sanidade mental, pois juízo e compostura sempre lhe faltaram…

De fato, face aos repetidos desmandos de Cômodo, a expectativa era que alguém tomasse a iniciativa de montar uma trama para acabar com os desmandos do imperador.

Assim, segundo a História Augusta,  as pessoas que tomaram para si a tarefa de se livrar de Cômodo foram: o Prefeito Pretoriano Quintus Aemilius Laetus, Márcia, a amante do imperador, e o seu camareiro Eclectus. A urgência surgiu quando eles descobriram que figuravam em uma lista de pessoas a serem executadas a mando de Cômodo,

Assim, os conspiradores assassinaram Cômodo enquanto este tomava banho, em 31 de dezembro de 192 D.C. O nome de Pertinace não é mencionado expressamente na lista de conspiradores, porém, a ação que ele tomaria em seguida, é um indício de que dificilmente ele ignoraria esta trama, e, provavelmente, devia ser participante.

Com efeito, imediatamente após o assassinato de Cômodo, Pertinace se dirigiu ao acampamento da Guarda Pretoriana e prometeu uma doação aos soldados, sendo aclamado imperador. A aclamação dele foi aprovada entusiasticamente pelo Senado, que, tudo indica, também tinha tomado parte na trama.

Consequentemente, em 1º de janeiro de 193 D.C, e, até onde se sabe, pela primeira vez na Historia de Roma, o filho de um liberto se tornava imperador, com o nome de Publius Helvius Pertinax Augustus, aos 66 anos de idade (tornando-se, até então,  a pessoa mais velha a assumir o trono romano, com exceção de Galba).

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Pertinace adotou uma série de medidas populares a partir de sua coroação, revogando algumas leis tirânicas ou insensatas de Cômodo.

Todavia, quando Cômodo morreu, só havia um milhão de sestércios no Tesouro do Estado e Pertinax teve muita dificuldade para pagar o donativo prometido aos Pretorianos. Ele, inclusive, teve que vender várias propriedades e escravos de Cômodo para poder reunir o dinheiro.

Segundo o historiador Cássio Dião, ele mesmo um senador que foi contemporâneo de Pertinace no Senado Romano, o reinado de Pertinace havia começado de modo promissor, porém, ele, esquecendo-se de que seu poder dependia da precária boa-vontade dos Pretorianos, tentou revogar os imensos privilégios que Cômodo havia-lhes conferido durante o seu reinado…

Não obstante, Pertinace deve ter percebido que sua posição no trono não era muito segura, pois ele recusou que a sua esposa, Flávia Titiana, recebesse o título de Augusta e ainda mandou o seu filho ir morar com o avô, e não, como seria de se esperar, com ele, no Palácio.

Pertinace deve ter entendido que o reinado dele deveria seguir a “raison d’etre do principado de Nerva, que não tinha filhos e era idoso ( ele foi coroado com 65 anos), sendo visto por todos como um imperador transitório, originário do Senado, o que explica a sua tentativa de afastar a sua família da Corte. Seja como for, a medida foi sensata, pois essa providência permitiu que, mais tarde, eles fossem poupados.

Contudo, Pertinace nomeou seu sogro, o senador e ex-cônsul Tito Flávio Cláudio Sulpiciano, Prefeito Urbano do Roma.

Nota: Acredita-se que Sulpiciano possa ser filho de Tito Flávio Titianus e de Flávia Domitila. Nesse caso, o pai de Sulpiciano era filho de Tito Flávio Clemente, sobrinho do imperador Vespasiano e primo dos imperadores Tito e Domiciano, e a mãe de Sulpiciano seria neta de Vespasiano.  Vale citar, assim, que o avô  da esposa de Pertinace,  o qual foi executado sob acusação de ateísmo,  pode ter sido cristão e seria, na verdade,  o santo católico conhecido como São Clemente. E a sua mãe,Domitila, seria a Santa Domitila dos cristãos.

O fato é que quando março chegou, sendo este apenas o terceiro mês do reinado de Pertinace,  ele teve que enfrentar a primeira tentativa de golpe. Assim, quando ele  estava no porto de Óstia inspecionando o embarque de grãos para Roma, alguns Pretorianos procuraram o cônsul Quintus Sosius Falco, propondo-lhe o cargo de Imperador caso aceitasse participar de uma conspiração contra Pertinace. Segundo o plano, Falco, após a morte de Pertinace, seria levado ao quartel da Guarda Pretoriana e aclamado. Pertinace, porém, avisado a tempo por um escravo, voltou à Roma e fez um discurso no Senado denunciando a conspiração. Alguns senadores propuseram condenar Falco à morte e declará-lo inimigo público, porém o imperador disse: “Não permitam os céus que algum senador seja executado durante o meu reinado” e Falco foi perdoado. Na História Augusta, é relatada também a versão de que Falco ignoraria a trama dos Pretorianos, que teria sido feita à sua revelia.

De acordo com Cássio Dião, Pertinace, na referida sessão do Senado, teria irritado os Pretorianos quando disse aos senadores que ele havia lhes pago o mesmo donativo que Marco Aurélio tinha pago quando de sua ascensão ao trono. O motivo da indignação seria o fato de que, na verdade, Pertinace tinha dado aos Pretorianos 12 mil sestércios, em comparação com os 20 mil sestércios que os soldados receberam de Cômodo. Além disso, conta-se que Pertinace mandou executar alguns Pretorianos pelo golpe falho envolvendo Falco, o que também desagradou os soldados.

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Seja como for, essa alusão de Pertinace à questão dos donativos em seu discurso acerca da rebelião de Falco, e a reação zangada dos Pretorianos, mostram que eles deviam estar bem insatisfeitos com a recompensa que receberam por terem elevado Pertinace ao trono.

Assim, não deve ter sido surpresa, nem para as mentes mais ingênuas, quando, em 28 de março de 193 D.C, um bando calculado entre 200 e 300 Pretorianos se dirigiu ao Palácio. O Prefeito Pretoriano Laetus não interceptou os soldados e Pertinace, apesar de avisado da aproximação do grupo, decidiu ficar no Palácio, que já estava sendo invadido, sem que nenhum de seus guarda-costas oferecesse qualquer oposição.

Dizem as fontes que Pertinace ainda poderia ter fugido, mas ele preferiu ir em direção ao grupo e fazer-lhes um inflamado discurso reprovando a conduta deles , o que causou um grande efeito, levando a maioria dos soldados a baixarem os olhos.

Porém, um certo Tausius, um soldado de origem germânica, insatisfeito,  gritou com os seus camaradas e atirou uma lança no peito de Pertinace, que caiu e foi golpeado por vários outros soldados. Em seguida, a cabeça de Pertinace foi cortada e desfilada por Roma na ponta de uma lança.

Depois da morte de Pertinace, ocorreu um dos mais vergonhosos episódios da História de Roma: Os Pretorianos saíram pela cidade de Roma em busca de candidatos para quem pudessem vender o trono imperial.

Um grupo de Pretorianos levou para o Quartel da Guarda o Prefeito Urbano Sulpiciano, com quem começaram a negociar o preço. Logo em seguida, trazido por outro grupo, chegou o senador Dídio Juliano, que, ouvindo tudo, começou a fazer, ainda do lado de fora dos muros, as suas ofertas. O triste espetáculo transformou-se em um verdadeiro leilão, no qual Dídio Juliano acabou saindo vitorioso.

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Porém, nem o povo, nem o Senado aceitaram a forma abjeta com que Dídio Juliano havia obtido o trono e ele começou a ser vaiado em público, quando comparecia a jogos, cerimônias ou espetáculos. Em um desses eventos, o povo chegou a aclamar o governador da Síria, o general Pescênio Niger, imperador.

Logo, os generais Clódio Albino, Septímio Severo e Pescênio Niger seriam aclamados imperadores, cada um pelas respectivas legiões, e a Guarda Pretoriana, com medo da punição aos seus crimes, abandonou Dídio Juliano.

Quando Septímio Severo invadiu a Itália, o Senado condenou Dídio Juliano à morte e reconheceu-o como novo imperador. Dídio Juliano foi executado por um soldado, em 1º de junho de 193 D.C., antes mesmo de Severo entrar em Roma

Senhor absoluto de Roma (mais tarde ele se livraria dos rivais Niger e Albino nas províncias), Septímio Severo ordenou a execução dos assassinos de Pertinace e fez com que o Senado  “deificasse” o antecessor. Severo também decretou que as datas de nascimento e de ascensão de Pertinace ao trono fossem incluídas no calendário de festejos romanos (e elas ainda constavam do célebre calendário do ano de 354 D.C, de Filócalo), recuperou a cabeça e o corpo de Pertinace, que foram objeto de um funeral estatal, e, honra suprema, incorporou o nome de “Pertinax” ao seu próprio nome imperial.

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Pertinace, apesar de reinar por apenas 86 dias, havia sido um governante popular e respeitado.

Severo, inicialmente, resolveu compor com Clódio Albino e lhe deu o título de “César”, o que implicava em um reconhecimento do seu direito de herdar o trono.

CONCLUSÃO

Pertinace granjeou a fama de ter sido um bom imperador e que poderia ter restaurado os bons tempos da dinastia dos Antoninos. Parece que o Senado o escolheu com intuito parecido com  o que ensejou a nomeação de Nerva: um senador respeitado e de idade avançada para um reinado de transição,  que não instauraria uma dinastia, pois enquanto Nerva não tinha filhos, Pertinace tinha deixado claro que não associaria o seu filho ao governo.

O exemplo de Nerva foi bem sucedido porque ele soube (ou talvez, mais apropriadamente, não se opôs) escolher um general de prestígio no Exército, com boas conexões com a elite romana e uma boa base de apoio na sua própria província para sucedê-lo (Trajano).

Pertinace não parece ter tido tempo sequer de tratar de sua sucessão, e, de modo imprudente,  para dizer o mínimo, ignorou a precariedade da sua posição, já que de fato ele era um verdadeiro refém da Guarda Pretoriana. Esta,  por sua vez, era incapaz de impor, de modo duradouro, qualquer escolha às legiões das províncias. E o Senado também foi ingênuo em achar que poderia escolher alguém entre os seus pares que não tivesse o apoio do Exército.

Por tudo isso, o ano de 193 D.C ficaria conhecido como “O Ano dos Cinco Imperadores“.

SÃO BENTO DE NÚRSIA – ORA E TRABALHA

 

#SãoBento #SaintBenedictus

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Consta que Benedictus (Bento) nasceu em 02 de março de 480 D.C,  em Nursia, atual Norcia, cidade situada na região da Úmbria, na Itália.

são bento Fra_Angelico_031-001.jpg(Detalhe do São Bento de Núrsia, de Fra Angelico)

Segundo a tradição católica, Bento seria filho de Anicius Eupropius e de Claudia Abondantia e nasceu em Nursia  junto com sua irmã gêmea Scholastica (Escolástica), quem futuramente, também viria a ser canonizada.

Norcia-panorama.jpg(Panorama da atual Norcia, na Itália)

Caso verdadeira a filiação de Bento, ele seria membro de uma das mais ilustres famílias da nobreza senatorial do Baixo Império Romano, os Anícios, e uma das primeiras a abraçarem o Cristianismo, ainda nos tempos de Constantino, o Grande.

 

AlbinusBasilius
(Relevo em marfim de  Anicius Faustus Albinus Basilius, o último Cônsul do Império Romano, no ano de 521 D.C, talvez um parente distante de São Bento de Núrsia)

Durante sua juventude, Bento foi enviado para Roma para estudar retórica e filosofia, como era comum entre integrantes da aristocracia italiana. Ainda segundo a tradição, em Roma, Bento se escandalizou com a decadência moral da Cidade Eterna, que naqueles tempos, era, na prática, governada pelo Senado Romano, desde a Queda do Império Romano, em 476 D.C,  ocorrida com a deposição do último imperador romano, Rômulo Augústulo, pelo chefe bárbaro Odoacro, que se autoproclamou “Rei da Itália”.

Abandonando a corrupta Roma, por volta do ano 500, Bento foi para o vilarejo de Enfide (atual Affile, em Subiaco, na região do Lácio), onde, ajudado por um monge chamado Romanus, foi viver em uma caverna como eremita, uma opção de vida religiosa muito frequente no final do Império Romano. Durante os três anos que passou como eremita, Bento passou a ser referência espiritual para os pastores e habitantes daquela região, sendo que em Affile teria ocorrido o primeiro milagre  a ele atribuído.

Affile-veduta-da-Arcinazzo(Vista da atual Affile, a antiga Enfide, onde teria ocorrido o primeiro milagre de São Bento)

Quando o abade do vizinho monastério de Vicovaro morreu, a comunidade cristã procurou Bento e pediu que ele ocupasse o posto vago. Contudo, como abade, Bento tentou implantar uma estrita disciplina, o que desagradou os monges daquele monastério, que, segundo consta, tentaram até envenená-lo, sem sucesso. Após algumas maquinações do invejoso padre Florentius, Bento  foi forçado a deixar o Monastério, mas, após a sua saída, ele fundou doze outros mosteiros nas vizinhanças de Subiaco.

Em 530 D.C, Bento fundou o grande Monastério de Monte Cassino (que apesar de destruído pelo bombardeio aliado durante a 2ª Guerra Mundial, foi inteiramente reconstruído).

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Foi em Monte Cassino que Bento, aproveitando uma regra anterior, redige a “Regula Monasteriorum“, que ficaria célebre como a “Regra de São Bento“, contendo 73 artigos, os quais regulavam a vida espiritual e terrena dos monges, além de estipularem normas de como administrar um monastério com eficiência,  dispondo até sobre a divisão do tempo diário para os monges: oito horas de descanso, oito horas de oração e oito horas de trabalhos diversos. A regra de ouro, como ficaria conhecida, é “Ora et labora” (reze e trabalhe).

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(Cópia mais antiga da Regula Monasteriorum, de São Bento, datada do início do século VIII D.C.)

 

São Bento morreu em  21  de março  de 543 D.C, em Monte Cassino (há uma versão de que foi no ano de 547 D.C). Tempos depois, Escolástica também seria enterrada no mesmo Monastério que o irmão.

Embora já houvesse vários monastérios nos territórios ocidentais do Império Romano, São Bento é considerado o fundador do Monasticismo Ocidental. O Mosteiro de Monte Cassino, com suas diversas atividades laborativas e o seu “Scriptorium” (sala onde eram produzidos os livros canônicos, e também copiados os textos da literatura latina e grega), bem como a Regra de São Bento, influenciaram os monastérios posteriores da chamada “Ordem Beneditina“, que deve o seu nome a São Bento, e todos teriam capital influência na difusão do Cristianismo pelo Mundo, e, não menos importante, na preservação do conhecimento da Antiguidade Clássica, permitindo que a herança greco-romana fosse transmitida até os nossos dias.

scriptorium gregory(Relevo de marfim do século X, mostrando o que parecem ser monges produzindo ou copiando livros em um Scriptorium – Vienna, Kunsthistorisches Museum).

Aqui vão algumas citações dos ensinamentos de São Bento:

1- O primeiro degrau da humildade é a pronta obediência;

2- O dorminhoco adora se desculpar; 

3- Cuide em ser gentil, a fim de que, ao remover a ferrugem, não se quebre  todo o instrumento;

4- A oração deve ser curta e pura, a não ser que sua duração seja prolongada por inspiração da Graça Divina;

5- Aquele que não para de falar, não consegue evitar de pecar; 

6- O ócio é o inimigo da alma;

7- Está de fato escrito que o vinho de jeito algum é uma bebida para monges, mas, considerando que não se consegue persuadir disto os monges de hoje, pelo menos os deixem beber moderadamente, e não até se saciarem, pois “o vinho faz até o sábio se perder” (Eclesiastes, 19:2);

8- Deixem que todos os hóspedes que chegarem sejam recebidos como se fossem Cristo, pois Ele dirá “Eu vim como hóspede e vocês receberam-Me” (Mateus, 25:35).

No calendário da Igreja Católica, atualmente o dia 11 de julho é o dia de São Bento de Núrsia