O ÉDITO DE TESSALÔNICA

Em 27 de fevereiro de 380 D.C, o imperador romano do Oriente, Teodósio I, promulgou, em conjunto com seus colegas da parte ocidental do Império, Graciano e Valentiniano II, o Decreto de Tessalônica, declarando o Credo Niceno-Trinitário como a única religião legítima do Império Romano e a única passível de ser considerada “católica” (universal), bem como determinando que cessasse todo apoio estatal às demais religiões politeístas.

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Embora décadas antes, o imperador Constantino I tenha favorecido muito a fé cristã e a Igreja Católica, que passou a receber propriedades, verbas e apoio do Estado Romano, é equivocada a ideia de que ele tenha tornado o Cristianismo a religião oficial do Império, pois o chamado Edito de Milão, de 313 D.C., formalmente apenas havia estabelecido a tolerância do Estado em relação a todas as religiões.

Obviamente,  em  uma sociedade que se caracterizava pela opressiva presença do Estado em todos os setores, como era Baixo Império Romano no século IV D.C., a preferência da Corte por uma religião específica e o seu fomento estatal, como ocorreu durante toda a dinastia constantiniana,  a partir do Édito de Milão, com a breve exceção do reinado de Juliano, o Apóstata, só poderia resultar num avanço muito grande dessa religião em detrimento de todas as outras, mais ainda quando essa religião gozava de uma estrutura hierarquizada paralela, que, inclusive, sobrevivera a séculos de clandestinidade.

Outra contribuição fundamental de Constantino I para o Cristianismo foi patrocinar o Concílio de Nicéia, em 325 D.C., o primeiro concílio ecumênico da Igreja, com o objetivo de homogeneizar e unificar o entendimento sobre diversas questões doutrinárias e onde foi chancelada a natureza divina de Cristo como Deus-Filho e sua relação com o Deus-Pai, resultando no chamado Credo Niceno, refutando-se versões alternativas da fé cristã, especialmente o “Arianismo” (assim chamado porque baseado nas doutrinas do bispo Ário), que pregava, a grosso modo, que Cristo tinha sido criado pelo Pai, e portanto, não teria sempre existido (eterno), sendo, por consequência, poderia-se dizer assim, “menos Deus” do que o Pai, do qual derivaria, resultando, por fim, que Ambos não seriam “um só e de mesma substância”.

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O Arianismo chegou a influenciar o imperador Constâncio II e também se espalhou entre os povos bárbaros, especialmente os germânicos Godos, Vândalos e Lombardos, que foram convertidos pelo missionário Ulfilas, um adepto de Ário.

Teodósio era um cristão ortodoxo niceno muito devoto, oriundo da Hispânia, onde o Credo Niceno, como de resto no Ocidente e na importante Igreja de Alexandria, dominava. Já o Arianismo prevalecia no Oriente.  Teodósio foi nomeado imperador do Ocidente pelo imperador Graciano,  também ele um cristão ortodoxo niceno, após a morte do imperador do Ocidente, Valente, na Batalha de Adrianópolis, em 378 D.C,  sendo que Valente  foi um adepto do Arianismo.

Teodósio e Graciano, comungando do mesmo Credo, sentiram-se à vontade para favorecer a ortodoxia cristã do Concílio de Nicéia,  e, consequentemente, no dia 27 de fevereiro de 380 D.C, eles promulgaram, juntamente com o colega de Teodósio no Ocidente, Valentiniano II (que tinha apenas 8 anos), o  decreto imperial “Cunctos populos“, chamado de “Édito de Tessalônica, pelo fato de Teodósio se encontrar nessa cidade, quando de sua edição.

O texto, um tanto sombrio, diga-se de passagem, do Decreto é o seguinte:

É nossa vontade que todos os diversos povos que são súditos de nossa Clemência e Moderação devem continuar a professar aquela religião que foi  transmitida aos Romanos pelo divino Apóstolo Pedro, como foi preservada pela tradição fiel, e que agora é professada pelo Pontífice Dâmaso e por Pedro, Bispo de Alexandria, um homem de santidade apostólica. De acordo com os ensinamentos apostólicos e a doutrina do Evangelho, que nós creiamos em uma só divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, em igual majestade e em uma Santíssima Trindade. Nós autorizamos que os que obedecerem essa lei assumam o título de Cristãos Católicos; Porém, para os outros, uma vez que em nossa opinião, são loucos tolos, nós decretamos que recebam o nome ignominioso de heréticos, os quais não deverão ter a  presunção de dar aos seus conventículos o nome de igrejas. Eles irão sofrer em primeiro lugar o castigo da condenação divina e, em segundo lugar, a punição que a nossa autoridade, de acordo com a vontade do Céu,  decidir inflingir.

Publicado em Tessalônica no terceiro dia das calendas de Março, durante o quinto consulado de Graciano Augusto e o primeiro de Teodósio Augusto.”

É importante notar que Teodósio estava gravemente doente em Tessalônica, na Grécia, o que o levou inclusive, como era o costume dos cristãos naquele tempo, a se batizar (o batismo acontecia no leito de morte, já que todos os pecados eram perdoados, ficando mais fácil para o batizado entrar no Céu).

Arc_et_retonde_00274.JPG(Arco do Imperador Galério, em Tessalônica, Grécia, foto de G.Garitan )

Após a edição do Decreto “Cunctos populos“, Teodósio e Graciano lançaram-se em uma campanha de perseguição às heresias cristãs e a tomaram uma série de medidas visando proibir cerimônias e rituais pagãos. Em poucos anos, a  crescente intolerância religiosa por parte do Cristianismo triunfante desaguou na destruição de importantes templos pagãos, como o Serapeum, em Alexandria, entre tumultos que degeneraram em massacres.

Alexandria_-_Pompey's_Pillar_-_view_of_ruins(Ruínas do Serapeum, em Alexandria. A imagem dá uma idéia da escala do templo. Foto Daniel Mayer )

 

Por tudo isso, considera-se o Édito de Tessalônica como o ato que reconheceu o Cristianismo como a religião oficial do Império Romano.

 

 

 

OS PORTÕES DO INFERNO

This Roman ‘gate to hell’ killed its victims with a cloud of deadly carbon dioxide

Fonte: Science Magazine

Cientistas desvendam os mistérios do “Plutonium” , no complexo de templos dedicados ao deus Plutão, na cidade de Hierápolis, na atual Turquia.

O Plutonium era um santuário dedicado a Plutão, deus romano que governava o mundo subterrâneo para onde iam os mortos. No local, sacerdotes castrados traziam animais, geralmente touros, para serem sacrificados, sendo que as vítimas morriam rapidamente sem qualquer intervenção humana, mas os homens que os traziam não sofriam qualquer dano.

Os arqueólogos descobriram que no meio do santuário quadrado, circundado por degraus para os fiéis sentarem-se, ficava uma porta dando para uma pequena gruta, que se comunicava com uma falha geológica que corta a cidade de Hierápolis, em um dos lugares mais geologicamente ativos da região.

Redescoberto a apenas 7 anos atrás, constatou-se que a fissura no solo onde ficava o Plutonium emite constantemente dióxido de carbono vulcânico, que forma uma pequena névoa, que se forma de noite, mas, pela manhã, é dissipada pelos raios de sol. A névoa que se forma no solo é capaz de matar, até a altura de 40 cm, mas acima disso, a concentração de CO² cai rapidamente. Assim, os sacerdotes não eram afetados pelo gás, mas os animais, miraculosamente, morriam asfixiados, ao menos para os antigos, que atribuíam o fato ao poder de Plutão.

AS LUPERCAIS

AS LUPERCAIS

Entre os diversos festivais religiosos celebrados pelos romanos, as Lupercais ou Lupercalia incluem-se entre os mais primitivos, misteriosos e, não obstante, duradouros.

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O festival durava três dias, a partir dos Idos de fevereiro (dia 13) e terminava no dia 15.

A maior parte do que se sabe acerca da Lupercália nos foi transmitido pelo historiador Tito Lívio.

Vale observar, contudo, que é bem provável que o festival seja anterior à fundação de Roma,  incluindo-se entre os costumes dos povos itálicos ancestrais. O seu nome indica uma associação com o animal lobo (lupus) e acredita-se que ele pode ter surgido como um ritual para afastar os lobos,  que no passado remoto infestavam as florestas do Lácio, dos rebanhos dos pastores.

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Depois de dois dias de festa e procissões, no dia 15 de fevereiro, dois grupos de rapazes  que para o evento recebiam o nome de “Luperci“, todos pertencentes a famílias patrícias, partiam para a entrada de uma caverna na colina do Palatino, chamada de “Lupercal“, lugar associado com os lendários gêmeos fundadores de Roma, Rômulo e Remo. No local, eles sacrificavam bodes e um cachorro (vítima inusitada para os romanos).

O sangue que ficava na faca devia ser passado na testa de dois dos Luperci,  bem como em pedaços de lã encharcados de leite. Nesse momento, ambos deveriam rir, ainda que não soubessem o motivo.

Então, os rapazes deveriam entrar na caverna e fazer um banquete, acompanhado de bastante vinho. Ao saírem da caverna, no frio inverno de fevereiro, os rapazes, que desde o início da cerimônia  estavam nus,  a não ser por um cinto de pele de cabra, levavam tiras, também de pele de cabra, passando no meio da multidão reunida para o evento, que os assistia correr ao longo de um percurso marcado no sopé do Palatino, correspondendo a um dos primitivos ajuntamentos romanos.

Na corrida, os jovens açoitavam as pessoas da multidão, especialmente as mulheres, pois acreditava-se que aquelas chicotadas tornavam as mulheres mais férteis, curando as que fossem estéreis. A finalidade da corrida em torno do Palatino também era a de afastar os maus espíritos dos simbólicos limites da antiga povoação.

Provavelmente, os romanos, já no final da República e durante o Império, nem deviam mais saber exatamente a origem da cerimônia, mas a mesma estava tão arraigada na memória coletiva que ela continuou sendo celebrada, até mesmo depois do final do Império Romano, somente tendo sido proibida por um decreto do Papa Gelásio, que reinou entre 492/496 D.C.

Para alguns, as Lupercais teriam sido o embrião do nosso moderno Carnaval.

Consta, inclusive,  que o triúnviro Marco Antônio, quando já era um homem público, uma vez participou da celebração nu, como um Lupercal, sendo muito criticado por isso e inclusive sendo ridicularizado por Cícero. Foi na Lupercália que Antônio também ofereceu uma tiara de ouro a César, por três vezes, sendo recusada pelo Ditador, supostamente sem muita convicção, cena que teria sido um dos pretextos para a conspiração que resultou no seu assassinato, com o objetivo de evitar que ele virasse rei.

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O episódio foi eternizado por Shakespeare. no começo da peça “Júlio Cèsar“, quando César pede a Antônio que chicoteie Calpúrnia para livrá-la da infertilidade.

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CONSTÂNCIO III – O ÚLTIMO IMPERADOR-SOLDADO DO OCIDENTE

Em 8 de fevereiro de 421 D.C., o Comandante em Chefe do Exército do Império Romano do Ocidente, Flávio Constâncio, foi coroado Augusto pelo Imperador Honório, tornando-se, assim, ele também, Imperador Romano do Ocidente, com o nome de Flavius Constantius Augustus, que passou à História como Constâncio III.

 

 

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(Solidus, moeda romana de Constâncio III, foto de http://www.cngcoins.com)

Flávio Constâncio foi um militar de carreira no Exército Romano, e, como tantos outros colegas seus que ingressaram na carreira militar na segunda metade do  século IV, ele nasceu nos Bálcãs, mais especificamente em Naissus (atual Nîs, na Sérvia), cidade natal do imperador Constantino, o Grande, em honra de quem provavelmente foi batizado. Constâncio III, provavelmente , era de origem Trácia e/ou Ilíria

 

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(Ruínas do Palácio de Constantino, nos arredores de Naissus, foto de J tomic m )

Não se sabe a data do nascimento de Flávio Constâncio, mas as fontes nos contam que, durante o reinado do imperador romano do Ocidente, Honório,  ele alcançou o posto de Magister Militum (Marechal do Exército), por volta de 410 D.C ( ou talvez até um pouco antes disso), ocasião em que deveria possuir uma idade entre 40 e 50 anos,  aproximadamente. Portanto, Flávio Constâncio deve ter nascido na década de 350/360 D.C.,  em uma época na qual, provavelmente pela última vez, o Império do Ocidente conseguiu reunir um exército composto de um núcleo principal de romanos,  e não de bárbaros, até a desastrosa Batalha de Adrianópolis, em 378 D.C,  que foi vencida pelos Godos.

Desde o início do  longo, mas fraco, reinado de  Honório – que, tendo apenas 10 anos de idade,  havia assumido o trono do Ocidente após a morte de seu pai, Teodósio  –  o seu tutor, e homem-forte do governo,  foi o general de ascendência vândala (por parte de pai) Estilicão (Stilicho), o comandante-em-chefe do Exército Romano do Ocidente e maior responsável pela estratégia do governo da metade ocidental do Império, no período.

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(um dos dois painéis de um díptico de marfim, representando o general Estilicão)

O maior desafio enfrentado por Estilicão foi a crescente ameaça dos Godos, que após serem assentados em terras romanas e apaziguados por Teodósio, voltaram a agir militarmente contra o Império. Porém, essa ameaça, para ser combatida com eficiência, necessitava da cooperação entre as metades ocidental e oriental do Império Romano, o que Estilicão, visto com suspeitas em Constantinopla, não logrou, tanto pela sua origem semibárbara, como pela suas reiteradas tentativas de intervenção nos assuntos da corte oriental.

O fato é que Estilicão falhara nas duas oportunidades que teve para liquidar os Godos, deixando –  intencionalmente ou não, ninguém pode afirmar – seu rei Alarico escapar.

Para piorar, depois que os Godos invadiram a Itália, Estilicão, sabedor da precariedade da situação militar ocidental, defendeu que as vultosas exigências que os Godos estavam fazendo para deixarem a península italiana fossem atendidas. Os adversários políticos de Estilicão no Senado, integrantes da tradicional nobreza romana,  aproveitaram para estimular um motim do Exército da Itália e Estilicão acabou sendo deposto e executado ordens de Honório, em 408 D.C.  Contudo, a execução de Estílicão teve como único resultado prático fazer desaparecer o exército, majoritariamente de mercenários bárbaros, que ele tinha reunido em razão do seu prestígio militar e político.

Depois de saquearem Roma, em 410 D.C, os Godos continuaram ao largo na Itália, levando, como refém, a irmã de Honório, a princesa Gala Placídia, sem, contudo, lograrem tomar a capital ocidental, Ravenna.  Observe-se que, nessa época, Constâncio já devia ser o Comandante-em-chefe do Exército do Ocidente.

A situação militar do Ocidente se deteriorava rapidamente, valendo lembrar que, em 406 D.C., os bárbaros Vândalos, Alanos e Suevos aproveitaram o congelamento do Reno para invadir a Gália em grande número. O fato de Ravenna não ter sido capaz de organizar nenhuma ação militar em resposta, levou o governador da Britânia, Flavius Claudius Constantinus (Constantino III) a se autoproclamar imperador romano, aproveitando para atravessar o Canal da Mancha e levando consigo todo o exército romano da Britânia, para entrar na Gália, em 407 D.C., bem como estabelecendo a sua capital na cidade de Arles, no ano seguinte.

Flávio Constantino, a seguir,  fez incursões na Hispânia e também conseguiu guarnecer  momentaneamente a fronteira da Gália.  Sem alternativas para combater o usurpador, Honório, ao receber os emissários enviados por Flávio Constantino,  em 409 D.C. reconheceu-o como “Augusto” e, portanto, seu colega imperial, a quem a História daria o nome de Constantino III.

 

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(Solidus de Constantino III, foto de Classical Numismatic Group)

Constantino III , por sua vez, teve que enfrentar uma rebelião do seu general Gerontius, que, na Hispânia, aclamou o usurpador Maximus como imperador. Agora, porém, seus limitados domínios estavam sob ataque por todos os lados: Gerontius, após derrotar as suas tropas em Vienne, sitiou o próprio Constantino III, em Arles,  uma nova onda de bárbaros cruzara o Reno, e a Britânia, agora indefesa, estava sob ataque dos Saxões.

Foi nesse quadro que Flávio Constâncio surgiu em cena como o Comandante em Chefe do Exército Romano do Ocidente e, liderando as tropas da Itália, em 411 D.C., ele entrou na Gália e derrotou Gerontius. Constantino III, todavia, não se beneficiou em nada da derrota de Gerontius, pois, agora, era Constâncio que lhe fazia o cerco em Arles. Constantino III acabou se rendendo e, por um momento, recebeu salvo-conduto para se retirar da cidade e se ordenar padre, mas, pouco depois, acabou sendo executado por ordens de Honório.

De volta à Itália, Flávio Constâncio colocou pressão militar sobre os Godos, que foram obrigados a deixar a Itália, talvez com o incentivo de algum ouro, e foram se instalar no sul da Gália, em 412 D.C. Em recompensa, Constâncio foi nomeado Cônsul para o ano de 413 D.C.

 

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(Relevo em marfim, retratando Flávio Constâncio (Constâncio III), como Cônsul)

Na Gália, após uma breve trégua com Honório, que foi selada pelo casamento do rei visigodo Ataulfo com Gala Placídia (não contra a vontade dela), em 414 D.C.,  Flávio Constâncio, inteligentemente, submeteu a costa da Gália a um bloqueio naval, causando a ocorrência de fome entre os Godos, que foram obrigados a deixar a Gália e ir para a Espanha, onde Ataulfo foi assassinado por um desafeto, em 415 D.C.

Em função da estratégia de Constâncio, o sucessor de Ataulfo, Wallia, aceitou uma paz em termos mais favoráveis à Ravenna, assumindo o compromisso de, em troca de comida,  voltarem ao status de foederati, ou seja,  ficarem os bárbaros obrigados a prestar serviço militar ao Império  e de devolverem a princesa Gala Placídia à Ravenna.

Devido a isso, em 416 D.C., Flávio Constâncio foi novamente recompensado, agora com o título de “Patrício”, o qual, no Baixo Império Romano do Ocidente, significava algo parecido a “Grão-Vizir”,  isto é, uma espécie de misto entre primeiro-ministro e comandante supremo do Exército, e, sem dúvida, a pessoa mais importante depois do Imperador.

Em 1º de janeiro de 417 D.C, Flávio Constâncio e Gala Placídia se casaram, ela, agora, contra a sua própria vontade. Gala Placídia era irmã de Honório, filha de Teodósio, o Grande, e neta de Valentiniano I – o último realmente grande imperador do Ocidente. Assim, podemos afirmar que ela era, naquele momento, a mulher mais ilustre do Império Romano.

Também em 417 D.C. nasceu a primeira filha do casal, Grata Justa Honoria. Flávio Constâncio agora era, formalmente, um membro da família imperial, e da prestigiada Casa de Teodósio.  Além disso, ele foi, novamente, nomeado para um Consulado.

Por sua vez, em 2 de julho de 419 D.C., nasceu, em Ravena, capital do Império Romano do Ocidente, Flavius Placidius Valentinianus, filho de Flávio Constâncio e de Gala Placídia., que, futuramente se tornaria o imperador Valentiniano III.

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(Tradicionalmente, embora não haja evidências concretas, acredita-se que este medalhão de vidro pintado ostente os retratos de Gala Placídia e seus filhos Valentiniano III e Justa Honória)

Em 420 D.C, Constâncio foi  nomeado Cônsul pela terceira vez, juntamente com o imperador do Oriente, Teodósio II, no que parecia um testemunho de que sua pessoa, e, sobretudo, a sua política, deviam estar sendo aprovadas por Constantinopla.
Finalmente, em 8 de fevereiro de 421 D.C, veio o justo reconhecimento do papel crucial que  Flávio Constâncio vinha desempenhando no Ocidente: ele recebeu de Honório o título de “Augusto”, o que significa que ele reinaria junto com Honório, como co-imperador, passando à História como Constâncio III (dessa vez, porém, Constantinopla não reconheceu a nomeação).

Narra uma fonte que Constâncio III,  na época de sua aclamação, teria manifestado pesar pela perda de liberdade pessoal, entendendo que  aquilo era um dos fardos que o título de imperador acarretava.

Entretanto, Constâncio III somente reinaria por 7 meses, vindo a falecer de causas desconhecidas, em 2 de setembro daquele ano de 421. Ele, então,  já devia ter entre 50 e 60 anos, talvez até mais. Há um relato de que ele planejava uma expedição contra o Oriente para forçar o seu reconhecimento.

Gala Placídia e seu ainda bebê Valentiniano,  inclusive, tiveram que se asilar em Constantinopla, devido aos tumultos que se seguiram à morte de Constâncio III. Uma fonte alega que o motivo teria sido o repúdio da massa de Ravenna ao boato de que ela e seu irmão Honório  mantivessem uma suposta relação incestuosa. Vale citar, no entanto, que o historiador Edward Gibbon menciona que os soldados godos, nessa ocasião, ficaram do lado de Placídia.

Diante dessa informação de  que houve manifestações públicas contra a morte do imperador e hostilidade contra a imperatriz-viúva,  pode-se especular que Placídia tenha tido alguma participação na morte de seu marido Constâncio III (não se olvidando que era um casamento forçado), ou, pelo menos,  o povo pode ter pensado assim, já que a massa realmente poderia suspeitar de uma imperatriz que, antes do casamento com Constâncio III, tinha  primeiro sido esposa de um rei Godo…

Seja como for, a verdade é  que, naquele momento, o que Roma mais precisava  era de um imperardor-soldado, e de um com talento militar. Por isso, a morte de Constâncio III veio se somar a uma série de infortúnios que se abateram sobre o Império Romano do Ocidente, em um momento decisivo para a sua sobrevivência.

 

JUSTINO I – DE CRIADOR DE PORCOS A IMPERADOR

JUSTINO I – DE CRIADOR DE PORCOS A IMPERADOR

Em 02 de fevereiro de 450 D.C, na Prefeitura romana de Illyricum, então sob a égide do Império Romano do Oriente , nasceu,  na região chamada de Dardania , um menino chamado Istok, um nome de origem trácia ou ilíria, que foi latinizado  como Justino. A criança nasceu em um vilarejo vizinho à fortaleza de Bederiana, provavelmente o vilarejo de Tauresium, por sua vez situado próximo à cidade de Scupi.

A cidade de Scupi, atual Skopje, capital da moderna República da Macedônia. foi fundada no reinado do imperador Domiciano (81-96 D.C) como uma colônia de veteranos militares. Apesar de estar em uma região sob influência cultural grega, o estabelecimento da colônia de soldados romanos veteranos naquela região contribuiu sobremaneira para a romanização da população local de etnicidade ilíria e trácia, cujo idioma predominante passou a ser o latim.

(Ponte Romana, em Skopje e vista atual da cidade)

 

Após a formalização da divisão do Império Romano em 2 metades, Ocidental e Oriental, esta com capital em Constantinopla, por Constantino I, no início do século IV, a região, devido ao paulatino enfraquecimento do Império Romano do Ocidente ocorrido no século seguinte, passou a ser governada por Constantinopla,  onde o grego era o idioma predominante.

Devido às devastações causadas pelos bárbaros hunos e ostrogodos na península dos Balcãs, entre 450 e 460 D.C, o humilde criador de porcos Justino, junto com seus parentes Zimarchus e Ditivistus, todos reduzidos à extrema pobreza, foi obrigado a abandonar o vilarejo e migrar para a capital Constantinopla. Consta que, em sua bagagem, os jovens levavam apenas roupas esfarrapadas e um saco contendo pedaços de pão, para se alimentarem durante a viagem.

Uns dez anos antes de Justino chegar à Constantinopla, o imperador Leão I criara uma guarda imperial de 300 homens, chamada de “Excubitores”, formada, majoritariamente por vigorosos camponeses da região da Isaúria,  com o objetivo de contrabalançar o poder do comandante do exército (Magister Militum), Áspar,  um chefe militar bárbaro, e de seus soldados Godos.

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(Os Excubitores deveriam se parecer com estes soldados na frente do imperador, em trajes cerimoniais e de campanha)

 

Leão conseguu se livrar de Áspar e seus Godos e, sem filhos, foi sucedido pelo comandante dos Excubitores, o Isáurio Tarasis Kodissa, marido de sua filha Ariadne, e o qual adotou o nome de Zeno, em 474 D.C. Após 17 anos de um reinado conturbado, Zeno foi sucedido por Anastácio, que também não tinha herdeiro vivo, e foi indicado por Ariadne, a imperatriz-viúva, com quem se casou.

Ainda durante o reinado de Leão I, a guarda dos Excubitores precisou de novos recrutas. Justino, que tinha um bom físico e provinha de uma região (Dardania), e de uma gente (Ilírios e Trácios), que durante muito tempo vinha fornecendo soldados para o Império, viu a oportunidade e se alistou,  e, junto com seus companheiros Zimarchus e Ditivistus,  conseguiu entrar para os Excubitores.

Justino foi subindo de posto na guarda imperial e , com o seu sucesso na carreira militar, sua irmã Vigilantia deixou a Dardania e veio morar em Constantinopla, acompanhada de outros parentes e conterrâneos, incluindo seu marido Sabbatius, com quem tinha dois filhos: Petrus Sabbatius (o futuro imperador Justiniano I) e Vigilantia Dulcissima (Sabemos que Justiniano nasceu por volta de 482 D.C, em Tauresium, na Dardânia, pois, quando sua cidade natal foi destruída por um terremoto, ele mandou reconstruir a cidade com o nome de Justiniana Prima).

No tempo em que seu sobrinho Justiniano ainda era criança, Justino já devia ocupar um posto importante na Guarda Imperial. Ele se casou com uma mulher chamada Lupicina. Segundo o historiador Procópio, em sua “História Secreta”, Lupicina seria uma escrava de origem bárbara e ex-concubina do antigo dono dela. Muitos historiadores, porém, veem com suspeita as informações depreciativas de Procópio relativas à origem da dinastia justiniana contidas na História Secreta, obra que, por vezes, parece mais um panfleto contra Justiniano.

Justino e Lupicina não tinham filhos.  Portanto, este foi o principal motivo pelo qual Justino, provavelmente antes de se tornar imperador, resolveu adotar seu sobrinho, Petrus Sabbatius, qu, então, passou a se chamar Flavius Petrus Sabbatius Justinianus. Isso pode ter acontecido até mesmo quando Justiniano ainda era adolescente, pois sabemos que ele foi educado com esmero em Constantinopla, recebendo ensinamentos de jurisprudência, história e teologia.

Durante o reinado de Anastácio, Justino foi nomeado Comandante dos Excubitores (Comes Excubitorum), sendo que o seu sobrinho Justiniano também começou sua carreira servindo nesta unidade da guarda imperial

Em 518 D.C,  o imperador Anastácio morreu,  também sem deixar filhos. Ele tinha sobrinhos, sendo que um destes era um provável pretendente. Os ministros do falecido imperador e o clero estavam indecisos e o povo demandava a escolha de um novo imperador, sem que houvesse uma definição. O fato, porém, é que Justino era o comandante da guarnição da capital e, provavelmente não precisou de muito esforço para se impor ou ser escolhido como o sucessor pelo Senado de Constantinopla, em 9 de julho de 518 D.C., com o nome de Flavius Justinus Augustus, aos 68 anos de idade. Sua esposa Lupicina foi coroada como imperatriz, adotando o nome Eufêmia.

 

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(Tremissis, moeda de ouro, de Justino I)

 

Segundo Procópio, Justino I era analfabeto e falava apenas um grego rudimentar (talvez ele fosse apenas incapaz de ler e escrever em grego). O historiador narra que, em decorrência, seus ministros foram obrigados a mandar fazer placas de madeira com o desenho das palavras habitualmente utilizadas para os despachos do imperador, para que Justino, segurando o estilete, apenas seguisse o contorno das letras pré traçadas com a sua mão, citando-se como exemplo o caso da palavra latina “Fiat” (cumpra-se)!

Entretanto, pouco a pouco, Justiniano, o ambicioso e preparado sobrinho e filho adotivo de Justino, foi se tornando o governante de fato do Império Romano. (O Império do Ocidente havia terminado em 476 D.C, durante o reinado de Zeno). Em 521 D.C, Justiniano foi nomeado Cônsul. Observe-se que Justino tinha outro sobrinho, chamado Germanus, que até se destacou como general, mas parece que este não tinha propensão ou vontade de entrar na política.

O reinado de Justino teve como fato marcante o retorno à ortodoxia do concílio católico de Calcedônia, o que por sua vez, teve consequências nas relações com o reino ostrogodo de Teodorico, na Itália, que então formalmente reinava na Itália em nome do Imperador. Conflitos com a Pérsia e o terremoto que destruiu Antióquia também são dignos de nota.

Porém, indubitavelmente, o maior significado do reinado de Justino foi o fato de ele ter sido sucedido por seu sobrinho Justiniano, cujo reinado foi um divisor de águas na História do Mundo Mediterrâneo, com repercussões até no presente, seja pela reconquista da Itália, do norte da África e do extremo sul da Espanha para o Império, seja pela promulgação do Corpus Juris Civilis, codificação de toda a legislação romana que influenciaria o Direito até os nossos dias.

Justino ficou doente em 527 D.C e o Senado pediu que ele nomeasse Justiniano como co-imperador, o que foi feito em 04 de abril de 527 D.C.

 

Justiniano.

(Justiniano I, mosaico da Igreja de San Vitale, em Ravenna)

 

Em 1º de agosto de 527 D.C, Justino morreu aos 77 anos de idade. Ele foi enterrado ao lado de Eufêmia, que falecera poucos anos antes.