JUSTINO I – DE CRIADOR DE PORCOS A IMPERADOR

JUSTINO I – DE CRIADOR DE PORCOS A IMPERADOR

Em 02 de fevereiro de 450 D.C, na Prefeitura romana de Illyricum, então sob a égide do Império Romano do Oriente , nasceu,  na região chamada de Dardania , um menino chamado Istok, um nome de origem trácia ou ilíria, que foi latinizado  como Justino. A criança nasceu em um vilarejo vizinho à fortaleza de Bederiana, provavelmente o vilarejo de Tauresium, por sua vez situado próximo à cidade de Scupi.

A cidade de Scupi, atual Skopje, capital da moderna República da Macedônia. foi fundada no reinado do imperador Domiciano (81-96 D.C) como uma colônia de veteranos militares. Apesar de estar em uma região sob influência cultural grega, o estabelecimento da colônia de soldados romanos veteranos naquela região contribuiu sobremaneira para a romanização da população local de etnicidade ilíria e trácia, cujo idioma predominante passou a ser o latim.

(Ponte Romana, em Skopje e vista atual da cidade)

 

Após a formalização da divisão do Império Romano em 2 metades, Ocidental e Oriental, esta com capital em Constantinopla, por Constantino I, no início do século IV, a região, devido ao paulatino enfraquecimento do Império Romano do Ocidente ocorrido no século seguinte, passou a ser governada por Constantinopla,  onde o grego era o idioma predominante.

Devido às devastações causadas pelos bárbaros hunos e ostrogodos na península dos Balcãs, entre 450 e 460 D.C, o humilde criador de porcos Justino, junto com seus parentes Zimarchus e Ditivistus, todos reduzidos à extrema pobreza, foi obrigado a abandonar o vilarejo e migrar para a capital Constantinopla. Consta que, em sua bagagem, os jovens levavam apenas roupas esfarrapadas e um saco contendo pedaços de pão, para se alimentarem durante a viagem.

Uns dez anos antes de Justino chegar à Constantinopla, o imperador Leão I criara uma guarda imperial de 300 homens, chamada de “Excubitores”, formada, majoritariamente por vigorosos camponeses da região da Isaúria,  com o objetivo de contrabalançar o poder do comandante do exército (Magister Militum), Áspar,  um chefe militar bárbaro, e de seus soldados Godos.

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(Os Excubitores deveriam se parecer com estes soldados na frente do imperador, em trajes cerimoniais e de campanha)

 

Leão conseguu se livrar de Áspar e seus Godos e, sem filhos, foi sucedido pelo comandante dos Excubitores, o Isáurio Tarasis Kodissa, marido de sua filha Ariadne, e o qual adotou o nome de Zeno, em 474 D.C. Após 17 anos de um reinado conturbado, Zeno foi sucedido por Anastácio, que também não tinha herdeiro vivo, e foi indicado por Ariadne, a imperatriz-viúva, com quem se casou.

Ainda durante o reinado de Leão I, a guarda dos Excubitores precisou de novos recrutas. Justino, que tinha um bom físico e provinha de uma região (Dardania), e de uma gente (Ilírios e Trácios), que durante muito tempo vinha fornecendo soldados para o Império, viu a oportunidade e se alistou,  e, junto com seus companheiros Zimarchus e Ditivistus,  conseguiu entrar para os Excubitores.

Justino foi subindo de posto na guarda imperial e , com o seu sucesso na carreira militar, sua irmã Vigilantia deixou a Dardania e veio morar em Constantinopla, acompanhada de outros parentes e conterrâneos, incluindo seu marido Sabbatius, com quem tinha dois filhos: Petrus Sabbatius (o futuro imperador Justiniano I) e Vigilantia Dulcissima (Sabemos que Justiniano nasceu por volta de 482 D.C, em Tauresium, na Dardânia, pois, quando sua cidade natal foi destruída por um terremoto, ele mandou reconstruir a cidade com o nome de Justiniana Prima).

No tempo em que seu sobrinho Justiniano ainda era criança, Justino já devia ocupar um posto importante na Guarda Imperial. Ele se casou com uma mulher chamada Lupicina. Segundo o historiador Procópio, em sua “História Secreta”, Lupicina seria uma escrava de origem bárbara e ex-concubina do antigo dono dela. Muitos historiadores, porém, veem com suspeita as informações depreciativas de Procópio relativas à origem da dinastia justiniana contidas na História Secreta, obra que, por vezes, parece mais um panfleto contra Justiniano.

Justino e Lupicina não tinham filhos.  Portanto, este foi o principal motivo pelo qual Justino, provavelmente antes de se tornar imperador, resolveu adotar seu sobrinho, Petrus Sabbatius, qu, então, passou a se chamar Flavius Petrus Sabbatius Justinianus. Isso pode ter acontecido até mesmo quando Justiniano ainda era adolescente, pois sabemos que ele foi educado com esmero em Constantinopla, recebendo ensinamentos de jurisprudência, história e teologia.

Durante o reinado de Anastácio, Justino foi nomeado Comandante dos Excubitores (Comes Excubitorum), sendo que o seu sobrinho Justiniano também começou sua carreira servindo nesta unidade da guarda imperial

Em 518 D.C,  o imperador Anastácio morreu,  também sem deixar filhos. Ele tinha sobrinhos, sendo que um destes era um provável pretendente. Os ministros do falecido imperador e o clero estavam indecisos e o povo demandava a escolha de um novo imperador, sem que houvesse uma definição. O fato, porém, é que Justino era o comandante da guarnição da capital e, provavelmente não precisou de muito esforço para se impor ou ser escolhido como o sucessor pelo Senado de Constantinopla, em 9 de julho de 518 D.C., com o nome de Flavius Justinus Augustus, aos 68 anos de idade. Sua esposa Lupicina foi coroada como imperatriz, adotando o nome Eufêmia.

 

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(Tremissis, moeda de ouro, de Justino I)

 

Segundo Procópio, Justino I era analfabeto e falava apenas um grego rudimentar (talvez ele fosse apenas incapaz de ler e escrever em grego). O historiador narra que, em decorrência, seus ministros foram obrigados a mandar fazer placas de madeira com o desenho das palavras habitualmente utilizadas para os despachos do imperador, para que Justino, segurando o estilete, apenas seguisse o contorno das letras pré traçadas com a sua mão, citando-se como exemplo o caso da palavra latina “Fiat” (cumpra-se)!

Entretanto, pouco a pouco, Justiniano, o ambicioso e preparado sobrinho e filho adotivo de Justino, foi se tornando o governante de fato do Império Romano. (O Império do Ocidente havia terminado em 476 D.C, durante o reinado de Zeno). Em 521 D.C, Justiniano foi nomeado Cônsul. Observe-se que Justino tinha outro sobrinho, chamado Germanus, que até se destacou como general, mas parece que este não tinha propensão ou vontade de entrar na política.

O reinado de Justino teve como fato marcante o retorno à ortodoxia do concílio católico de Calcedônia, o que por sua vez, teve consequências nas relações com o reino ostrogodo de Teodorico, na Itália, que então formalmente reinava na Itália em nome do Imperador. Conflitos com a Pérsia e o terremoto que destruiu Antióquia também são dignos de nota.

Porém, indubitavelmente, o maior significado do reinado de Justino foi o fato de ele ter sido sucedido por seu sobrinho Justiniano, cujo reinado foi um divisor de águas na História do Mundo Mediterrâneo, com repercussões até no presente, seja pela reconquista da Itália, do norte da África e do extremo sul da Espanha para o Império, seja pela promulgação do Corpus Juris Civilis, codificação de toda a legislação romana que influenciaria o Direito até os nossos dias.

Justino ficou doente em 527 D.C e o Senado pediu que ele nomeasse Justiniano como co-imperador, o que foi feito em 04 de abril de 527 D.C.

 

Justiniano.

(Justiniano I, mosaico da Igreja de San Vitale, em Ravenna)

 

Em 1º de agosto de 527 D.C, Justino morreu aos 77 anos de idade. Ele foi enterrado ao lado de Eufêmia, que falecera poucos anos antes.

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