TEODORA – DE DANÇARINA A IMPERATRIZ

Em 28 de junho de 548 D.C., morreu, em Constantinopla, a imperatriz Teodora Augusta, esposa do imperador romano do Oriente Justiniano I (Segundo uma fonte, ela tinha  48 anos, enquanto que outra fonte menciona que ela faleceu com 51 anos de idade). A causa da morte foi uma enfermidade que os especialistas modernos identificam como câncer de mama, com base nos relatos antigos).

 

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Nascimento, infância e juventude

 

Nascida por volta do ano 500 D.C., provavelmente na ilha de Chipre (embora outras fontes mencionem a Síria e a Paflagônia como o local de nascimento),  Teodora, era a segunda das três filhas de Acacius, um adestrador de ursos que trabalhava para a facção dos Verdes no Hipódromo de Constantinopla, onde os animais participavam dos espetáculos encenados nos intervalos entre as corridas de quadrigas, para distrair o público.

 

Hippodrome-of-Constantinople.jpg(Reconstituição do Hipódromo de Constantinopla)

 

Nota: As  chamadas “facções” do Hipódromo: os Verdes, os Azuis, os Vermelhos e os Brancos, haviam surgido no Circo Máximo em Roma e, inicialmente, elas constituíam, ao mesmo tempo, uma espécie de equipe e torcida organizada nas corridas de quadrigas de cavalos que ali eram disputadas. Com o passar do tempo, essas facções passaram a adquirir também caráter político e, até mesmo, a participar de disputas teológicas e, por fim, acabaram sendo transplantadas de Roma para Constantinopla, onde os Verdes e os Azuis absorveram as outras duas facções).

 

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Porém, quando Teodora tinha apenas quatro anos, o seu pai, Acacius,  faleceu, e a mãe dela, que era atriz e dançarina (o nome dela não é mencionado), precisou casar-se com outro homem, esperando que este herdasse o posto do seu falecido marido junto aos Verdes.

No entanto, os Verdes escolheram outra pessoa, e a mãe de Teodora, desesperada com a perspectiva da família cair na miséria, ordenou que ela e as irmãs, enfeitadas com guirlandas, fossem ao Hipódromo apresentar-se pessoalmente aos chefes das demais facções, diante dos camarotes que eles ocupavam à beira da pista. Diante dessa cena, o representante da facção dos Azuis, que também estavam precisando de um tratador de animais, ficou com pena das meninas, e resolveu contratar o padrasto de Teodora. Em gratidão, Teodora se manteria fiel e devotada aos Azuis pelo resto da vida.

Ainda assim, desde criança, Teodora teve que trabalhar, junto com a sua irmã mais velha, chamada Comito, no Hipódromo, onde ela se apresentava em números artísticos.

Já adolescente, Teodora notabilizou-se pela performance interpretando “Leda e o Cisne“, uma peça burlesca baseada no célebre mito grego, em que Zeus, transformado em um cisne, seduz e faz amor com a rainha Leda, de Esparta. Em uma das cenas da peça, Teodora apresentava-se praticamente nua e deitada, com grãos de cevada espalhados nas suas virilhas, os quais eram apanhados com o bico por um cisne, em evidente alusão erótica a um objeto fálico.

 

 

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(Afresco recentemente descoberto na Região V de Pompéia, retratando o mito de Leda e o Cisne)

 

Aos 14 anos, Teodora deu à luz a uma menina e foi aproximadamente nessa época que ela fez amizade com Antonina, a filha de um condutor de quadrigas de corrida que competia no Hipódromo e de uma dançarina dos espetáculos teatrais. Essa amizade perduraria por toda a vida das duas, e Antonina, mais tarde, casaria-se com Belisário, o célebre general de Justiniano I.

A maior parte dessas estórias é contada pelo historiador Procópio, em sua obra “A História Secreta”, onde ele afirma que, em adição às performances artísticas no Hipódromo, Teodora também exerceria a prostituição em um bordel.

Procópio chegou, ainda, a escrever, sobre a suposta luxúria desenfreada de Teodora, que certa vez ela teria reclamado que Deus deveria ter feito mais orifícios em seu corpo, “porque somente três não seriam suficientes para satisfazê-la“…

Sabe-se que, de fato, durante o Império Romano, mesmo que no período tardio, não era incomum que a profissão de atriz estivesse ligada á prostituição. Mas os relatos mais exagerados de Procópio sobre Teodora são vistos como suspeitos pelos historiadores: Eles contradizem o que ele próprio escrevera em livros anteriores e, em uma passagem da “História Secreta“, o historiador chega a afirmar que Teodora e Justiniano seriam demônios de verdade.

Enquanto ela ainda trabalhava como atriz e/ou prostituta, Teodora conheceu, em Constantinopla, um certo Hecebolus, que tinha sido nomeado governador do distrito de Pentapolis, supostamente na Líbia, tornando-se amante dele.

Então, com apenas 16 anos de idade, Teodora teria partido, acompanhando Hecebolus, para a África (eu acredito que há uma incorreção aí, pois a reconquista de Justiniano da África para o Império Romano somente ocorreu em 533 D.C., quando Teodora já era imperatriz. Por isso, talvez a Pentapolis mencionada não seja na Líbia, já que vários outros agrupamentos de cinco cidades do mundo helenístico recebiam esse nome). Vale notar que havia, desde 409 D.C.,  uma lei romana em vigor que previa que os atores e atrizes não poderiam mudar-se da cidade onde trabalhavam. Portanto, é provável que Hecebolus deva ter “mexido alguns pauzinhos” para que Teodora pudesse lhe acompanhar…

Entretanto, Procópio narra que Hecebolus logo desinteressou-se de Teodora, chegando até a maltratá-la. Por esse motivo, Teodora deixou-o e foi viver em uma comunidade de religiosos ascetas no deserto próximo à Alexandria, onde ela converteu-se ao credo Monofisita (o Monofisismo é uma doutrina que prega que Jesus Cristo tem apenas uma natureza: a divina), talvez provavelmente por influência do Patriarca de Alexandria, Timóteo III.

Posteriormente, Teodora foi viver em Antioquia, na Síria, onde ela ficou muito amiga de uma  certa  Macedonia, que também era atriz e dançarina na facção dos Azuis. Conta-se que Macedonia também atuava como informante de Flavius Petrus Sabbatius Iustinianus (o futuro imperador Justiniano), sobrinho e filho adotivo do comandante da tropa militar de elite dos ExcubitoresJustino, que procurava saber tudo acerca da posição dos nobres e militares que poderiam apoiar a ascensão de seu pai adotivo ao trono, uma vez que o imperador Anastácio I Dicoro, que já era octogenário, não tinha filhos.

 

Encontro com Justiniano e casamento

 

Aparentemente, foi Macedonia quem  apresentou Teodora a Justiniano, talvez como uma pessoa que lhe pudesse ser útil.  Um traço comum entre os dois era que Justiniano, como Teodora, era partidário da facção dos Azuis. O fato é que, em 522 D.C., aos 21 anos, Teodora retornou à Constantinopla, onde, renegando o passado de atriz, passou a trabalhar como fiadeira de lã, em uma casa próxima ao Palácio Imperial. Nessa época, Justino I já tinha sucedido Anastácio e se tornado imperador, e Justiniano era seu herdeiro e braço-direito.

Não temos muitos detalhes de quando e como o romance entre Teodora e Justiniano começou, mas o certo é que Justiniano tinha encontrado a mulher de sua vida. Todavia, haviadois obstáculos para que os dois contraíssem matrimônio legalmente: a lei que proibia que os integrantes da classe senatorial – a nobreza do império romano – casassem com atrizes, e a oposição da imperatriz Eufêmia, tia de Justiniano, ao casamento do sobrinho com uma mulher de baixa condição social como Teodora (não obstante, ela mesmo, Eufêmia, tivesse nascido bárbara e escrava, e dormido com o seu amo, antes dela casar -se com Justino).

Ocorre que, por volta de 524 D.C, a imperatriz Eufêmia morreu. Pouco tempo depois, o imperador Justino I revogou a lei  proibindo o casamento de nobres com atrizes. Assim, cerca de 525 D.C.,  Justiniano e Teodora puderam casar-se perante o Patriarca Epifânio, em Constantinopla, na primitiva igreja da Santa Sofia.

 

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Em 1º de agosto de 527 D.C., Justino I morreu e Justiniano I foi coroado imperador ao lado de Teodora, que recebeu o título de “Augusta” (imperatriz).

 

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(Reconstituição das feições de Justiniano I, com base em mosaicos e efígies)

 

Os primeiros anos do reinado de Justiniano foram ocupados por duas questões principais:

No plano externo, o conflito com o Império Persa foi marcado por sucessos e reveses. Após a morte do Xá Kavadh, Justiniano assinou, em 532 D.C., o chamado “Tratado da Eterna Paz” com a Pérsia o que lhe asseguraria as condições para as suas campanhas no Ocidente.

E, em casa,  Justiniano iniciou seu reinado colocando em prática o seu imenso projeto de reforma e codificação do Direito romano, que seria coroado pela edição do  Corpus Juris Civilis, nomeando uma comissão composta pelos mais notáveis juristas do Império.

 

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O Corpus Juris Civilis e a provável influência de Teodora em favor dos direitos das mulheres

 

Os estudiosos acreditam que Teodora teve considerável influência em alguns dispositivos do Corpus Juris Civilis que ampliavam os direitos das mulheres, notadamente  nos artigos que protegiam as prostitutas, bem como nos que puniam aqueles que forçassem as mulheres a se prostituírem contra a vontade. Foram, ainda, aumentadas as penas para os estupradores e, finalmente, também previu-se que as mulheres presas, caso não houvesse guardas do sexo feminino, deveriam ficar custodiadas em um convento de freiras.

Em outros artigos, o Código de Justiniano também previu que as mulheres viúvas poderiam ficar com a guarda de seus filhos ou netos. Por sua vez, a prática de exposição de recém-nascidos, fruto de gravidez  não desejada os quais, costumeiramente eram abandonados nas cidades romanas e frequentemente eram do sexo feminino, foi proibida.

Por fim, outra normas instituíram que o costumeiro dote que a família da noiva tinha que dar ao noivo deveria ser restituído à viúva, após a morte do marido, e que o marido necessitava do consentimento da esposa para contrair dívidas de grande valor ( o que pode estar na origem de várias leis semelhantes, tratando do consentimento da esposa para compra e venda de imóveis, que sobreviveram até os nossos dias).

Teodora também apresentava-se como protetora dos desvalidos e há uma grande inscrição na Igreja de São Sérgio e São Baco, em Constantinopla com o seguinte trecho:

“Teodora coroada por Deus cuja mente está adornada com piedade e cujo trabalho incessante repousa em incansáveis esforços para cuidar dos despossuídos”

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(Igreja de São Sérgio e São Baco, construída pelo imperador Justiniano I)

Entre outras ações de Teodora em proteção das mulheres figuram o fechamento de bordéis na capital e o envio das prostitutas para morarem em um convento chamado de Metanoia (Arrependimento).

Por tudo isso, é muito difícil não relacionar essas ações com a própria vida pregressa de Teodora, que deve ter presenciado, senão experimentado na própria carne, as vicissitudes a que estavam sujeitas as prostitutas em Constantinopla, bem como a aflição que a sua própria mãe passou quando perdeu o marido.

 

Iniciativas religiosas

 

Um exemplo da independência com que Teodora agia foi  na questão religiosa: Embora Justiniano fosse adepto do credo do Concílio de Calcedônia, Teodora fundou um monastério Miafisita (uma doutrina parecida com o Monofisismo) em Sycae, uma localidade em frente à Constantinopla e abrigou no próprio Palácio bispos Miafisitas que estavam sendo perseguidos pelos defensores da ortodoxia cristã.

A proteção que Teodora daria ao Miafisismo durante toda a sua vida lhe renderia a crítica de que ela comprometeu a unidade religiosa do Império Romano.

De qualquer forma, Justiniano foi muito influenciado por Teodora, afinal ambos eram interessados nas questões teológicas e conversavam muito sobre esse tema. Assim, no final da sua vida, Justiniano aproximou-se do Monofisismo e tentou conciliar os credos em torno de pontos comuns, visando manter a unidade, embora, como frequentemente acontece, ele tenha acabado por desagradar a todos os envolvidos. Mesmo assim, atendendo aos pedidos de Teodora, após a morte da esposa, Justiniano manteve a proteção aos bispos miafisitas.

Durante a futura campanha de Justiniano na Itália, que culminou com a reconquista da península pelo Império Romano, Teodora conseguiu, em 537 D.C., por meio do general Belisário,  a deposição do Papa Silverius, em Roma, colocando em seu lugar Vigilius, que era Apokrisiarios, em Constantinopla (representante papal junto ao imperador), um prelado que ela tinha compelido a apoiar a causa dos Monofisistas. Ao sentar no trono papal, contudo, o Papa Vigilius não agiu como Teodora esperava e manteve-se fiel ao credo de Calcedônia, que era dominante entre a população italiana.

 

A Revolta Nika

 

Em 13 de janeiro de 532 D.C., estourou um grande tumulto no Hipódromo de Constantinopla. As queixas imediatas da multidão reunida no Hipódromo diziam respeito à prisão de líderes das facções dos Azuis e dos Verdes, por assassinatos cometidos em uma corrida anterior.

Justiniano já tinha comutado as sentenças de morte proferidas contra os acusados pelos assassinatos para penas de prisão, mas isso não satisfez a massa.

É de fato bem provável que houvesse motivos mais profundos para a revolta da turba, já que ambas as facções atuavam como um misto de agremiação política e torcida organizada ligadas a interesses de grupos políticos e eclesiásticos. De fato, entre as reivindicações dos manifestantes, estavam a demissão do influente Prefeito Pretoriano João, o Capadócio, responsável pela cobrança de tributos que desagradaram a plebe e também por coordenar as reformas legais compiladas no Corpus Juris Civilis. E no decorrer da rebelião, os revoltosos chegariam a aclamar o nobre Hypatius, sobrinho do falecido imperador Anastácio I Dicoro, como imperador.

Assim, naquele dia 13 de janeiro, quando Justiniano apareceu no camarote imperial (o  chamado “Khatisma“, no qual o imperador podia assistir as corridas e ser visto pelo público), a multidão começou a insultar o imperador aos gritos. Então, ao começar o páreo de número 22 do programa, os costumeiros gritos de “Azuis” ou de “Brancos” foram substituídos pelo canto de “Nika!“, que quer dizer, em grego, “Vitória!”. Em seguida, a grande massa de espectadores deixou seus assentos e tentou invadir o Palácio, deixando os guardas e os burocratas imperiais estupefactos.

 

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(O imperador (Teodósio II), no Kathisma, o camarote imperial no Hipódromo de Constantinopla)

 

A “Revolta Nika“, como o episódio ficou conhecido, durou cinco dias, no decorrer dos quais Justiniano e Teodora  ficaram sitiados no Palácio. Certa dia, durante uma reunião, o pânico tomou conta do Imperador e de seus ministros, e eles começaram a considerar fugir nos navios que estavam ancorados no cais particular do Palácio. Nesse momento, segundo Procópio (“Guerras”, 1.24.33-37), Teodora levantou-se e fez o seguinte discurso:

“Meus senhores, a ocasião presente é muito grave para me permitir seguir a convenção de que uma mulher não deve falar em uma reunião de homens. Aqueles cujos interesses estão ameaçados pelo perigo extremo, somente devem pensar no curso de ação mais inteligente, e não em convenções. Na minha opinião, fugir não é o caminho correto, mesmo que isso nos deixe em segurança. É impossível que alguém que tenha nascido, não morra, mas, para quem quer que tenha reinado, é intolerável tornar-se um fugitivo. Que eu nunca seja despojada deste manto púrpura, e que eu nunca veja o dia em que eu não seja chamada de Imperatriz! Se tu desejas, meu Senhor, salvar-se, não há dificuldade: nós somos ricos, lá está o mar, e ali estão os navios…No entanto, reflita por um momento se, uma vez que tenhas escapado para um lugar seguro, tu não trocarias alegremente esta segurança pela morte? Quanto a mim, eu concordo como o adágio que diz que a púrpura real é a mais nobre das mortalhas!”

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(Reconstituição da imagem de Teodora em trajes de imperatriz com base no mosaico de San Vitale)

O discurso inspirador de Teodora reacendeu o espírito de luta de Justiniano e ele decidiu agir. O eunuco Narses, que posteriormente se notabilizaria como general na Itália, foi enviado para subornar os líderes da facção dos Azuis, os quais abandonaram a revolta. Em seguida, Justiniano enviou a sua guarda pessoal, comandada pelo leal general Belisário contra os integrantes da facção dos Verdes, que permaneciam rebelados no  Hipódromo.

A repressão foi brutal e estima-se que 30 mil pessoas tenham sido massacradas no Hipódromo e adjacências.

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(O Hipódromo, colado ao complexo do Palácio Imperial, incluindo o porto particular do imperador)

A Revolta Nika provocou um grande incêndio e causou uma grande destruição em Constantinopla, e, entre os prédios afetados, estava a Igreja de Hagia Sophia, fundada por Constantino, o Grande, cuja reconstrução foi encomendada por Justiniano aos arquitetos Antêmio de Trales e Isidoro de Mileto para se tornar em breve o edifício religioso mais impressionante até então construído no Império Romano.

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(A atual Catedral de Santa Sofia, em Constantinopla, erguida por Justiniano I após a Revolta Nika para substituir a anterior que foi queimada por um incêndio)

 

Após a Revolta Nika, o papel de Teodora como virtual co-governante do Império não podia mais ser colocado em dúvida.

Por exemplo, consta que, debelada a revolta,  Justiniano chegou a cogitar em poupar  Hypatius e Pompeius, os sobrinhos de Anastácio I Dicoro, mas Teodora interveio, alegando o risco que isso representaria para o governo, e demandou a punição de ambos, que foram, então, executados.

Teodora também mostrou apetite para as maquinações e intrigas típicas da corte imperial, premiando aliados e perseguindo desafetos: O eunuco Narses era seu protegido, e, com o seu apoio ele se tornaria, decorrido algum tempo, o general mais importante do exército romano. A impertatriz também apoiava o Prefeito Pretoriano Pedro Barsymes.

João, o Capadócio, que tinha sido o antecessor de Barsymes, e gozava de bastante prestígio junto a Justiniano, mas que mostrava pouca deferência para com Teodora,  foi o principal alvo das maquinações da Imperatriz, que,  valendo-se da ajuda de sua velha amiga Antonina, tramou a queda do ministro.

Na trama supracitada, Antonina  enviou a João, o Capadócio a falsa informação de que o marido dela, o general Belisário, estava planejando derrubar o Imperador.  Assim, ela conseguiu atrair João para um encontro em um palácio na cidade de Calcedônia, onde Narses e Marcellus, o comandante da guarda imperial dos Excubitores, estavam escondidos para ouvir a conversa. Os dois tinham ordem de matar o ministro assim que este falasse qualquer coisa que pudesse sugerir sua adesão a traição. Porém, João conseguiu escapar deles e abrigar-se em uma igreja.

Quando o fato chegou ao conhecimento de Justiniano, este, ao contrário do que seria de se esperar, não mandou executar João, mas ordenou que o mesmo fosse exilado para Cyzicus, uma cidade na Anatólia não muito longe de Constantinopla, por volta de 540 D.C.

Em Cyzicus, João, o Capadócio foi obrigado a se ordenar padre. Porém,  quando o bispo da cidade foi assassinado, ele foi implicado na trama e, desta vez, exilado para a distante cidade de Antinoe, antiga Antinoopolis, no Egito.

Evidenciando novamente a enorme influência de Teodora sobre Justiniano é fato que, somente após a morte dela, em 548 D.C., o exílio de  João, o Capadócio foi suspenso pelo imperador, que o chamou de volta à Constantinopla.

Últimos anos e morte de Teodora

Em 547 D.C., foi concluída a Basílica de San Vitale, em Ravenna, antiga capital do Império Romano do Ocidente, que foi reconquistada, juntamente com toda a península italiana, por Justiniano, nas guerras contra o Reino Ostrogodo da Itália, a partir de 535 D.C. (esta guerra teria indas e vindas, e somente acabaria em 554 D.C., com a derrota completa dos Ostrogodos).

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(Basílica de San Vitale, em Ravenna, foto de Madaki)

 

O interior da Basílica de San Vitale (esta igreja não é uma basílica em termos arquitetônicos, pois tem uma planta octogonal) foi adornado com alguns dos mais fabulosos mosaicos produzidos pela arte romano-bizantina, os quais foram concluídos em 547 D.C.

Nas duas paredes laterais da apse da Basílica de San Vitale há dois mosaicos excepcionais, um em cada lado:  O do lado direito ostenta a imagem do imperador Justiniano, vestido com seu manto púrpura e coroa, ladeado pelos seus mais importantes auxiliares, além do bispo Maximiano, que inaugurou a igreja.

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E o mosaico do lado esquerdo da apse ostenta a imagem da imperatriz Teodora, igualmente vestida com seu manto púrpura, coroada e adornada de ricas jóias, ladeada por suas damas e seus eunucos mais chegados.

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Caso ainda persista alguma dúvida de que Teodora dividia o status de governante do Império com Justiniano, basta a mera contemplação dos dois painéis de mosaicos da Basílica de San Vitale para se ter a certeza de que ambos reinaram em pé de igualdade.

Provavelmente, quando da conclusão da Basílica de San Vitale, Teodora já devia estar sofrendo da doença que acabaria causando a sua morte, um ano depois. As fontes usam o termo grego que é traduzido por “câncer”, mas podem também se referir a um tumor ou úlcera que supurava.  A teoria mais aceita é de que se tratava de um câncer de mama.

No dia 28 de junho de 548 D.C., Teodora morreu no Palácio Imperial, em Constantinopla, aos 48 anos de idade (ou aos 51, de acordo com outras fontes). Consta que no velório dela, o imperador Justiniano chorou copiosamente em público a perda da sua esposa, companheira e sócia de uma vida inteira.

Teodora foi sepultada na Igreja dos Santos Apóstolos, que sempre foi o tradicional local de descanso da maior parte dos imperadores romano-bizantinos, desde Constantino I, o Grande,  e era mais uma das igrejas que ela e Justiniano tinham reconstruído na capital. A igreja foi destruída em 1456 pelos turcos,  três anos após a Queda de Constantinopla.

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(Sarcófagos de pórfiro de Imperadores Romanos do Oriente, que ficavam na igreja dos Santos Apóstolos e atualmente estão no exterior do Museu Arqueológico de Istambul)

 

A união de Teodora e Justiniano não gerou filhos e certamente ela muito desejou dar um herdeiro ao esposo. Segundo Procópio (História Secreta), quando Sabas, o Santificado (São Sabas), um venerado eremita e arquimandrita da Palestina, que tinha fama de fazer milagres, esteve em Constantinopla, em 531 D.C., Teodora, apesar do religioso ser um tenaz oponente do Monofisismo, pediu a Sabas que ele rezasse para que ela engravidasse. Entretanto, o velho eremita se recusou, respondendo que qualquer filho que Teodora desse à luz seria uma grande calamidade para o Império.

 

Conclusão

 

Teodora certamente foi uma das mulheres mais poderosas da História Romana. E,  diferentemente de outras detentoras de poder de fato, como Lívia Drusila, Agripina ou Júlia Domna, ela não foi uma eminência parda ou exercia o seu poder na alcova, mas também tinha a sua posição soberana reconhecida oficialmente: ela tinha o seu próprio selo imperial, sua própria corte e corpo de funcionários privativos. Em documentos oficiais, Justiniano chegou a referir-se a Teodora como “minha sócia nas minhas deliberações“. Contrastando, ainda, com as referidas imperatrizes, bem como outras célebres mulheres poderosas do Mundo Helenístico, Teodora não nasceu na realeza nem tinha origem nobre, tendo, ao revés, vindo dos estratos mais baixos da sociedade.

 

F I M

 

 

ANASTÁCIO I DICORO

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(relevo de marfim, provavelmente retratando Anastácio)

Em 11 de abril de 491 D.C. Anastácio I foi coroado em Constantinopla, dois dias após a morte do imperador Zenão I, o seu antecessor.

No dia anterior à coroação, a imperatriz-viúva Ariadne, acompanhada do Senado de Constantinopla, do Grande Camareiro Urbicius, e dos demais ministros de Estado, dirigiu-se para o Hipódromo, onde uma tropa de soldados reunidos na pista, e oitenta mil cidadãos nas arquibancadas, os aguardavam.

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(relevo de marfim de Ariadne)

“-Vida longa à Augusta!”, “Dê ao mundo um imperador ortodoxo!“, gritou a multidão.

Em seguida, um funcionário, em frente ao camarote imperial no Hipódromo (“kathisma“, em grego) começou a ler uma proclamação da imperatriz:

“-Antecipando o Vosso pedido, nós ordenamos aos ilustres Ministros e ao sagrado Senado, com a aprovação do bravo Exército, que selecione um Imperador Romano Cristão, dotado de todas as virtudes imperiais, que não seja escravo do dinheiro, e que seja, tanto quanto um homem pode ser, livre de todos os vícios humanos“.

O povo, em resposta, gritou:

“-Ariadne Augusta, tu venceste! Ó Rei Celestial! Dê ao mundo um Imperador que não seja avarento!

Ariadne:

“-Para que a escolha possa ser pura e agradável a Deus, nós ordenamos que os Ministros e o Senado, com a concordância do Exército, realizem a eleição ante os Evangelhos e na presença do Patriarca, de modo que ninguém seja influenciado por amizade ou inimizade, parentesco, ou qualquer outro motivo particular, senão que vote com a sua consciência limpa. Consequentemente, considerando que o assunto é muito relevante e diz respeito ao bem-estar do mundo, vocês devem aceitar uma pequena pausa, até que os funerais de Zenão, de pia memória, tenham sido devidamente realizados, e, assim, a eleição não seja feita precipitadamente“.

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(O imperador Teodósio, no kathisma, no Hipódromo de Constantinopla, foto Radomil talk)

Segundo o relato acima, feito pelo imperador Constantino IX Porfirogênito, que também era historiador (o qual extraímos do clássico livro “History of the Later Roman Empire“, de John B. Bury), após o discurso no Hipódromo, o Camareiro Urbicius sugeriu ao conselho de ministros que a escolha ficasse a cargo de Ariadne. A sugestão foi acolhida ou, o que é mais provável, apenas formalizou-se algo que já estava definido previamente.

Vale observar que o discurso de Ariadne faz questão de mencionar o que  se considera serem as três fontes do poder na constituição não-escrita do Império Romano: O Senado, que representava a nobreza, os ministros, que representavam a administração civil do Império, e o Exército, que representava os cidadãos armados, todos agindo em nome do Povo, reunido no Hipódromo,  a quem, ainda que apenas cerimonialmente, eles deviam satisfação.

Ariadne escolheu Flavius Anastasius (Anastácio I), que ocupava o cargo de Silentiarius, um alto funcionário do Palácio encarregado de manter a ordem nas audiências do imperador.

Flavius Anastasius (Flávio Anastácio) nasceu por volta de 430 D.C., em Dirráquio (Dyrrachium, atual Durrës, na Albânia), cidade que, desde 229 A.C.,era um dos mais importante portos romanos no mar Adriático e o ponto de partida da Via Egnatia, uma estrada vital que ia até Constantinopla, passando pela Grécia.

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(Ruínas do Anfiteatro de Dyrrachium, foto de Jed Horne )

 

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Flávio Anastácio era filho de um certo Pompeius, que seria um nobre de origem ilíria de Dirráquio, e de Anastasia Constantina, que era neta de Gallus e bisneta de Anastasia. Esta, por sua vez, era filha de Flavius Claudius Constantius Gallus, neto do imperador Constâncio Cloro e sobrinho do imperador Constantino, o Grande.

Portanto, Anastácio I seria, por parte de mãe, descendente do fundador da dinastia Constantiniana e parente do fundador do Império Romano do Oriente.

Devido ao fato de um dos seus olhos ser de cor negra e o outro de cor azul, Anastácio recebeu o apelido de “Dicorus” (Duas cores, uma condição que na medicina é conhecida como “heterocromia”.

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Anastácio era uma figura muito conhecida e respeitada em Constantinopla, sendo uma presença assídua nas missas na Catedral de Santa Sofia, onde ele costumava debater assuntos religiosos,  ocasiões em que manifestava opiniões nem sempre ortodoxas. Esse fato, inclusive, granjeou-lhe a antipatia do Patriarca de Constantinopla, Eufêmio.

Por isso, quando Anastácio foi escolhido por Ariadne para ser imperador, com a aprovação do Senado, Eufêmio exigiu que Anastácio assinasse uma declaração de obediência ao credo ortodoxo, como condição para que ele participasse da cerimônia de coroação.

Dias após a cerimônia, que foi descrita em detalhes por Constantino IX Porfirogênito,  Anastácio I Dicoro e Ariadne casaram-se, em 20 de maio de 491 D.C.

Logo no início do seu reinado, Anastácio I teve que enfrentar a insatisfação que a sua escolha causou entre os militares de origem isáuria.

Os Isáurios eram um povo apenas parcialmente romanizado que habitavam as montanhas Taurus, na atual Turquia. Devido a sua índole guerreira, o imperador Leão I aproveitou para criar uma unidade composta de Isáurios, com o objetivo de se livrar da influência dos bárbaros germânicos no Exército e, em consequência, nos assuntos de Estado.

Apesar disso, os Isáurios eram considerados como sendo semi-bárbaros pelos habitantes de Constantinopla, os quais nunca aceitaram placidamente o fato do chefe dos Isáurios, Tarasis Kodisa, ter se tornado o sucessor de Leão I, com o nome de Zenão I.

Assim, quando Zenão I morreu, os militares Isáurios desejavam que ele fosse sucedido por seu irmão, Longinus, e, obviamente,  ficaram muito contrariados quando Anastácio I foi o escolhido pela imperatriz-viúva, Ariadne.

Culpando os Isáurios por um tumulto no Hipódromo, Anastácio exilou Longinus para a Tebaida, no Egito e revogou vários privilégios concedidos aos Isáurios pelo seu antecessor Zenão.

Em 492 D.C, estourou uma revolta na Isáuria (Guerra contra os Isáurios) e Anastácio enviou um exército para sufocá-la, liderados pelos generais João, o Cita e João, o Corcunda, que derrotaram os rebeldes na Batalha de Cotyaeum, na Frígia. Porém, o restante dos revoltosos se entrincheiraria nas montanhas da Isáuria e somente em 498 D.C. os últimos focos desta rebelião seriam debelados.

Em 493 D.C., aproveitando que o Império estava ocupado com o conflito na Isáuria, uma invasão dos Búlgaros derrotou o exército comandado pelo general Juliano. Esses Búlgaros eram remanescentes do Império de Átila, o Huno.

As invasões búlgaras repetiram-se em  499 D.C e em 502 D.C., levando Anastácio a ordenar a construção da chamada Muralha Anastácia, 64 km a oeste de Constantinopla, a fim de melhor proteger a capital.

Mal as Guerra contra os Isáurios e os Búlgaros acabaram, Anastácio teve que enfrentar, entre 502 e 506 D.C., o Império Persa, que capturou as estratégicas cidades de Teodosiópolis (atual Erzurum, na Turquia, uma cidade armênia que foi ocupada pelos romanos em 387 D.C.) e de Amida, na Mesopotâmia.

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(Muralhas romanas de Amida)

Anastácio conseguiu recuperar Amida e uma paz foi assinada, visando manter o status quo na região. Então, para se proteger de futuras incursões, Anastácio ordenou a construção da impressionante Fortaleza de Dara, próxima à cidade de Nísibis, com o objetivo de colocar em cheque todo e qualquer o movimento de tropas inimigas pela região. Com o mesmo objetivo, foi construído também o Castelo de Dirráquio, em sua cidade natal, na Ilíria.

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(Cisternas da fortaleza romana de Dara)

Os assuntos militares não impediram que, desde o início do seu reinado, Anastácio se dedicasse a importantes reformas monetárias, fiscais e administrativas.

Segundo o historiador romano-bizantino João Lídio (um funcionário público que iniciou sua carreira no reinado de Anastácio), a cuidadosa política econômica do imperador e o seu rigor na observância das finanças públicas salvaram o Império Romano, que, a partir da custosa e mal-sucedida expedição de Leão I contra os Vândalos na África, um quarto de século antes, desde então constantemente estivera à beira da ruína.

Em maio de 498 D.C., valendo-se da entrada de recursos que o confisco das propriedades de Zenão I e de seus protegidos Isáurios permitiu, Anastácio aboliu o odiado imposto denominado de Chrysargiron (aparentemente, este era  um imposto sobre a receita bruta dos comerciantes, ou seja, sobre as vendas, e que obviamente, como sempre acontece, devia  acabar sendo repassado para os consumidores).

Essa medida foi entusiasticamente recebida pelos súditos, sendo objeto de comemorações exaltando o Imperador por todo o Império Romano do Oriente.

Também criou-se o cargo de Conde do Patrimônio Privado, para administrar os bens e receitas da Coroa, que passou a fazer contribuições maiores para o Erário Público.

Mas a medida mais significativa nesse campo foi a mudança na forma de pagamento da Annona, um tributo de gêneros em espécie, que era coletado pelos magistrados das cidades, e que, a partir da reforma, passaria a ser pago em moeda (o que foi estabelecido também para outros tributos) e cobrado por um corpo de oficiais chamados de “Vindices“.  Essa mudança foi idealizada por um conselheiro chamado Marinus, um dos auxiliares mais próximos do imperador e que era um comerciante de origem síria.

Anastácio promoveu também mudanças nos critérios para fixação do módulo rural fiscal (jugera), com vistas a dividir melhor o fardo da obrigação de responder pelos tributos devidos pelas propriedades  abandonadas pelas propriedades maiores, isentando as menores).

Tão importante quanto o aumento das receitas, era, para Anastácio, a redução das despesas. De fato, ele se notabilizou por diminuir os gastos da Corte, o que lhe angariou, entre a nobreza de Constantinopla, acostumada com o luxo e o fausto, a fama de avarento.

Finalmente, outra medida positiva do reinado foi a introdução de uma nova moeda de cobre, o follis, que era utilizada principalmente pela população mais pobre para pequenas transações e que estava completamente desmoralizada pela péssima qualidade. E as moedas de ouro, que também tinham sofrido muito durante a crise das últimas décadas, foram revitalizadas e divididas em três tipos, e, de fato, moedas cunhadas durante o reinado de Anastácio seriam encontradas até na China.

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(Semissis de Anastácio I, foto de Classical Numismatic Group, Inc)

No campo religioso, área que, em Constantinopla, ocupava o centro da vida política do Império, Anastácio não obteve tanto sucesso.

Anastácio, apesar do compromisso de fé ortodoxa que ele assinou por exigência do Patriarca  Eufêmio, era Miafisita

Nota: o Miafisismo acredita que na pessoa una de Jesus Cristo,  a Divindade e a Humanidade estão reunidas em uma única ou singular natureza – “physis” – sem separação, sem confusão e sem alteração. E, ainda hoje, essa doutrina é professado em algumas igrejas orientais. A diferença entre o Miafisismo e o Credo Niceno-Ortodoxo é um tanto difícil de perceber para nós, modernos, e não é a toa que, hoje, uma discussão sobre detalhes complicados e pouco relevantes é chamada de “discussão bizantina”…

Assim, quando Anastácio I depôs Eufêmio, após uma controvérsia religiosa envolvendo os patriarcas de Alexandria e Jerusalém, que repudiavam o Concílio de Calcedônia, a população de Constantinopla ocupou o Hipódromo exigindo a restauração do seu Patriarca.

Um tumulto ainda mais sério ocorreu em 498 D.C., novamente no Hipódromo, após a prisão de membros da facção dos Verdes (os espectadores das corridas de cavalos em Roma, e depois, em Constantinopla, se reuniam em 4 facções, Verdes, Vermelhos, Azuis e Brancos, que depois, com o tempo, passaram também a expressar posições políticas e também religiosas).

Nesse episódio, um partidário dos Verdes chegou a arremessar uma pedra contra Anastácio, que escapou por pouco. Durante a repressão levada a cabo pelos soldados dos Excubitores, a turba ateou fogo ao Portão de Bronze do Hipódromo e o fogo se alastrou até o Fórum de Constantino.

Mosaico del circo MCGR 2285 by QuartierLatin1968 - Own work. Licensed under CC BY-SA 3.0 via Commons - httpscommons.wikimedia.orgwikiFileMosaico_del_circo_MCGR_2285.jpg#mediaFileMosaico_

 

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(Reconstrução virtual do Hipódromo de Constantinopla, © 2010 byzantium1200.com)

Em 499 D.C., Anastácio proibiu os combates de homens contra feras, que ainda sobreviviam como reminiscência dos antigas lutas na arena que os romanos tanto apreciavam. E, em 501 D.C, após um filho ilegítimo seu morrer em um tumulto, ele proibiu o festival pagão das Brytae, no qual as danças, muito apreciadas pelo povo, frequentemente degeneravam em distúrbios.

Até, então, apesar de tudo, Anastácio vinha demonstrando uma considerável neutralidade nas  disputas eclesiásticas, respeitando o seu compromisso e a política conciliatória do “henotikon“, estabelecida por seu antecessor Zenão I, de não adotar expressamente nenhuma das teorias sobre a natureza de Cristo.

Porém, em 511 D.C., quando ele depôs o Patriarca de Calcedônia, substituindo-o por um bispo adepto do Monofisismo (onde Cristo somente teria uma natureza, a divina), iniciou-se uma crise que resultou, no ano seguinte, em uma revolta, onde a multidão adepta da ortodoxia aclamou como imperador o general Aerobindus, casado com Juliana Anicia, neta do falecido imperador romano do Ocidente, Valentiniano III e, portanto, integrante da dinastia Teodosiana.

Anastácio, então, mandou informar ao povo que iria abdicar e compareceu ao Hipódromo, sem a coroa, e, surpreendentemente, com esse gesto inesperado, a multidão acabou se acalmando e se contentou em pedir a punição de alguns ministros.

As inflamadas querelas religiosas, porém, continuaram a afligir o reinado, e elas foram um dos pretextos para uma revolta muito mais séria, comandada pelo general Vitaliano, que comandava uma tropa de soldados federados búlgaros na província da Trácia (O outro motivo foram as queixas dos soldados contra o comandante militar daquela província, Hypathius, que, incapaz de debelar a revolta, fugiu para Constantinopla).

Vitaliano e seu exército rebelde marcharam até os muros de Constantinopla, onde os oficiais de Vitaliano foram recebidos em audiência pelo Imperador e Anastácio conseguiu convencê-los a retornar para a Trácia, sob as promessas de donativos, da demissão de Hypathius e da devida solução para as controvérsias religiosas em favor da ortodoxia calcedônica.

De volta à Trácia, porém, Vitaliano desconfiou do novo comandante que Anastácio enviara para chefiar o exército naquela província, Cirilo, e assassinou o general. Reiniciada a rebelião, Anastácio teve que enviar um grande exército para a Trácia para combater Vitaliano,  a quem o Senado de Constantinopla, seguindo a antiga tradição romana, declarara “Inimigo Público“.

Vitaliano, contudo, em 513 D.C., obteve uma grande vitória contra as tropas do imperador e voltou a ameaçar Constantinopla, agora também com uma frota de 200 navios. Mais uma vez, Anastácio teve que negociar, dando dinheiro a Vitaliano e prometendo  restaurar os bispos adeptos do Concílio de Calcedônia e até mesmo a realização de um novo Concílio.

Como nada foi feito, no final de 515 D.C., Vitaliano voltou a sitiar Constantinopla, porém, desta vez, a sua frota foi destruída, pela utilização de uma arma química que prenunciava o célebre “Fogo Grego de Bizâncio” que seria adotado alguns séculos mais tarde, e o seu exército  foi derrotado pelo exército imperial comandado por Marinus. Em decorrência, Vitaliano fugiu e ficaria desaparecido por três anos.

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A imperatriz Ariadne morreu no mesmo ano de 515 D.C.

Anastácio viveu, como governante indisputado do Império Romano, por mais três anos. Consta que ele, sem conseguir decidir-se sobre qual dos seus três sobrinhos o sucederiam, resolveu esconder uma mensagem embaixo de uma almofada de um dos três sofás que ficavam em uma sala onde ele costumava recebê-los (um tradicional triclínio romano, tudo indica), para que aquele que sentasse na almofada sobre o bilhete fosse o escolhido.

Porém, dois dos sobrinhos teriam sentado em um sofá, o terceiro em outro e o sofá que escondia o bilhete acabou ficando vazio…

Então, assim frustrada a primeira tentativa, Anastácio teria decidido que o novo imperador seria a primeira pessoa que, no dia seguinte, entrasse no aposento. E, na manhã seguinte, Justino, o comandante da guarda imperial dos Excubitores foi o primeiro a entrar naquele cômodo…

 

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Anastácio não tinha filhos homens, apenas uma filha, Juliana, que mais tarde se casaria com o futuro imperador Justino II. Ele morreu com a avançada idade de 87 anos, em 9 de julho de 518 D.C. 

O escolhido para sucedê-lo foi Justino I, o Comandante dos Excubitores.t

CONCLUSÃO

Como resultado da sua boa administração econômica, quando Anastácio I morreu, havia no Tesouro Imperial 23 milhões de solidi, ou seja, 320 mil libras de ouro. Seu longo reinado de 27 anos e as muitas medidas sensatas que ele adotou foram muito importantes para assegurar a sobrevivência do Império e prepararam o terreno para o renascimento do poder imperial no reinado de Justiniano I, filho de seu sucessor.

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ZENÃO I – O BÁRBARO QUE VIROU IMPERADOR

ZENÃO I – O BÁRBARO QUE VIROU IMPERADOR

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Em 9 de fevereiro de 474 D.C, em Constantinopla, Zenão I é coroado Imperador Romano do Oriente, juntamente com seu pequeno filho, Leão II.

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(Tremissis, moeda de ouro do imperador Zenão, foto Classical Numismatic Group)

Nascido em 425 D.C,  na cidade de Rusumblada (que depois seria rebatizada de Zenopolis), com o nome de Tarasicodissa, ou Tarasis Kodisa, Zenão I era chefe de uma tribo de Isáurios, um povo que, de vez em quando, era recrutado para lutar no exército do Império Romano do Oriente.

Assim, em 461 D.C, o imperador Leão I alistou os Isáurios para servirem na sua recém-formada guarda imperial, chamada de “Excubitores” – expressão que  tinha o significado de “sentinelas” ( literalmente, em latim, quer dizer “os do lado de fora da cama”).

Posteriormente, nos séculos VI e VII, os Excubitores seriam responsáveis por elevar vários imperadores ao trono, e, mais que isso, muitos Comes Excubitorii (Condes dos Exubitores) tornariam-se imperadores bizantinos, tais como Justino I,  o filho dele,  Justiniano I, Tibério II e Maurício.

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(Excubitores, em trajes de gala e de combate, protegendo o imperador)

A iniciativa de Leão de criar uma guarda composta por Isáurios visava diminuir a opressiva influência que os bárbaros germânicos, chefiados pelo  general bárbaro Áspar, exerciam desde o início do século V no governo oriental, pois, naquele momento, os germanos constituíam o esteio militar de Constantinopla.

Os Isáurios eram um povo de índole guerreira que habitava a Província romana da Cilícia, na Ásia Menor (dentro do território da atual Turquia). Apesar da região ter sido conquistada pelos romanos no século I D.C, os Isáurios nunca chegaram a ser totalmente subjugados. Em verdade, ao longo de  séculos de domínio nominal romano, eles foram apenas parcialmente romanizados, mas adotaram o cristianismo ortodoxo (Niceno), um fato que, naquele final do século V, os fazia bem mais aceitáveis para os cidadãos romanos do que os Godos ou Alanos ( os quais professavam a heresia ariana). Apesar disso, os Isáurios ainda eram considerados bárbaros pela maioria dos habitantes do Império.

(Mapa da Isáuria, Montanhas Atlas, que dominam a antiga região da Isáuria -foto de Zeynel Cebeci e o rio Göksu, na região – foto de Klaus-Peter Simon)

Em 466 D.C, marcando uma reviravolta no jogo do poder, Tarasis Kodisa, comandante isáurio dos Excubitores, acusou Ardabur, o filho mais velho do general Áspar de trair o império em favor dos velhos inimigos persas, o que contribuiu para piorar as relações entre Áspar e o Imperador.

Leão I, em 467 D.C, recompensou Tarasis Kodisa pelos seus bons serviços, dando-lhe em casamento a sua filha, a princesa Ariadne, e também reforçando a aliança com o militar isáurio, que, para se fazer mais aceitável para a Corte e para o povo, mudou seu nome para o de origem grega Zeno (ou Zenão). Antes que o casamento completasse um ano, Ariadne deu a luz ao filho de Zeno, que recebeu o mesmo nome do seu avô, o imperador Leão.

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(relevo de Ariadne, em marfim)

Enquanto isso, Áspar tentou recuperar sua posição na Corte persuadindo Leão a nomear seu filho mais novo, chamado Patrício, como “César” (título que na época do Baixo Império correspondia ao de príncipe-herdeiro) e a casá-lo com a outra filha do Imperador, Leôncia. Porém, o clero e a população de Constantinopla se opuseram veementemente às pretensões de Áspar, inclusive promovendo um grande tumulto no Hipódromo da capital, tendo em vista que o general bárbaro e o filho eram cristãos arianos. Assim, devido ao clamor público, Áspar, teve que se comprometer que ele se converteria ao credo niceno, antes que o casamento fosse realizado.

Contudo, após a  pretendida nomeação de Patrício, mas ainda antes do seu casamento, já em 471 D.C.., uma trama urdida por Leão I e Zenão conseguiu assassinar Áspar e seu filho mais velho, Ardabur, no interior do próprio Palácio Imperial. Algumas fontes informam que Patrício também foi morto,  e outras que, ferido, ele conseguiu sobreviver. Devido ao massacre, ocorrido em pleno Palácio, Leão foi apelidado de “O Açougueiro“…

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(Áspar, ostentando o traje e postura tradicional de Cônsul Romano, cargo que ele efetivamente ocupou, junto com seu filho Ardabur, retratado como Pretor – foto de Sailko)

Quando Leão morreu, em 18 de janeiro de 474 D.C,  sem conseguir gerar um filho varão, o  neto dele, e filho de Zenão, com o nome de Leão II, foi coroado imperador, com apenas 7 anos de idade. Porém,  ninguém tinha dúvida de que o homem-forte do Império era Zenão.

E, poucos dias mais tarde, também ninguém ficou surpreso, quando, não dando importância para as aparências, em 9 de fevereiro de 474 D.C, Zenão  foi nomeado Augusto, e, portanto, co-imperador,  junto com o filho.

O reinado de Leão II duraria apenas 10 meses, pois o menino contraiu uma enfermidade não-identificada e morreu em 17 de novembro de 474 D.C., deixando seu pai Zenão I como Imperador Romano de fato e de direito.

Quase dois anos depois, em 4 de setembo de 476 D.C, Rômulo Augústulo, o Imperador Romano do Ocidente, na verdade um mero fantoche do general bárbaro Orestes, foi deposto pelo chefe da tribo dos mercenários hérulos,  Odoacro.

Odoacro, ao invés de arranjar outro nobre romano para ser sua marionete, surpreendentemente resolveu se nomear ‘Rei da Itália” (Rex) e, valendo-se de um dócil Senado Romano ( que, aparentemente, detestava mais ainda Constantinopla do que os bárbaros) enviou as insígnias imperiais* do Imperador do Ocidente para o imperador Zenão, em Constantinopla.

O fato é que Zenão e a corte de Constantinopla, na verdade, entendiam que Rômulo Augústulo era um usurpador, pois Leão I tinha nomeado Júlio Nepos, que ainda estava vivo e controlava a região da Dalmácia, como Imperador do Ocidente.

Assim, Zenão aceitou as insígnias imperiais de volta, mas recomendou a Odoacro que reconhecesse a autoridade de Júlio Nepos. E, diga-se de passagem, o chefe bárbaro,  agindo de modo conciliador, até cunhou moedas em nome de Nepos, como imperador, porém sem jamais permitir o retorno dele à Itália.

Juridicamente, assim, Zenão agora era o único Imperador Romano, soberano das metades oriental e ocidental do Império Romano. Contudo, a realidade fática era outra:  em verdade, ele não era capaz de projetar poder sobre as províncias do Ocidente, já que a última província ocidental efetivamente governada por Ravena – a capital do Ocidente- era a Itália controlada por Odoacro, sendo a única exceção um enclave romano na Gália, governado pelo chefe militar romano Siágrio, que, no entanto,  em breve seria aniquilado pelos Francos.

Por tudo isso, a data de 476 D.C é considerada pela maioria dos estudiosos como a da Queda do Império Romano do Ocidente que, além disso, marca o início oficial da Idade Média.

Desde o inicio, o reinado de Zenão foi abalado por revoltas e conspirações para derrubá-lo, pois sua origem bárbara tornava-o impopular junto ao Senado e ao povo de Constantinopla.

Assim, em 475 D.C, durante a revolta de Basilisco, o incompetente, porém ambicioso cunhado de Leão I, Zenão até teve que fugir da capital,. Mas o Isáurio conseguiria derrotar todas as revoltas, inclusive a de Marciano, em 479 D.C, e a de Illus, em 484-489 D.C).

Porém, naquele momento, a principal ameaça ao Império vinha dos Godos estabelecidos nos Bálcãs. Mas, para sorte dos romano-bizantinos, os bárbaros estavam divididos e Zenão, valendo-se disso, atuou para fomentar ainda mais a discórdia entre eles.

Com efeito, Zenão conseguiu persuadir Odorico, o novo rei dos Ostrogodos, ramo dos Godos que permanecia nos Bálcãs, a invadirem a Itália, visando a destronar Odoacro.

E esta talvez tenha sido a maior contribuição de Zenão ao Império do Oriente, pois, com a saída de Teodorico e seus Ostrogodos, a ameaça germânica foi afastada do Oriente.

Zenão I morreu em 9 de abril de 491 D.C., e seu sucessor, Anastácio, teve o o apoio da Imperatriz-viúva Ariadne, que se casaria com ele logo depois. Longinus, irmão de Zenão I, que tinha pretensões a suceder o irmão falecido no trono, instigou uma revolta na Isáuria, a qual, contudo, não teve sucesso, e ele acabou sendo exilado da Corte, no sul do Egito.

Leão I, Zenão e Anastácio foram importantes para assegurar a sobrevivência do Império do Oriente, livrando-o das maiores ameaças externas e assegurando uma estabilidade e continuidade administrativa, inclusive devido a longa duração dos três reinados.

*Acredita-se que as insígnias imperiais fossem um conjunto de objetos utilizados pelo imperador ou que o acompanhavam nas cerimônias públicas, tais como uma tiara ou coroa, um cetro,  um esfera, um estandarte, possivelmente com uma águia e/ou o monograma chi-ro, o manto imperial púrpura e os seu broche.

(Objetos como o cetro de Maxêncio, encontrado há alguns anos no Palatino, em Roma, ou aqueles retratados no calendário de Filócalo, de 354 D.C., ou, ainda, na pintura de Septímio Severo, de cerca de 200 D.C., deviam estar entre os objetos enviados por Odoacro a Zenão I, quando o primeiro destronou Rômulo Augústulo, o último imperador romano do Ocidente)

EUDÓCIA – MULHER, ATENIENSE E IMPERATRIZ

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(Mosaico da Catedral Alexander Nevsky, em Sófia, Bulgária, retratando Eudócia, foto de Elena Chochkova )

 

Em 7 de junho de 421 D.C, o jovem Imperador Teodósio II, casou-se com a sua belíssima noiva, Élia Eudócia.  O imperador,  quando ainda tinha apenas 7 anos de idade, havia sucedido a seu pai, Honório,  no trono do Império Romano do Oriente, em 408 D.C.

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(Cabeça de Teodósio II)

A jovem imperatriz escolheu o nome de Élia Eudócia (Aelia Eudocia), certamente para homenagear a falecida mãe do imperador de Teodósio II (que se chamava Élia Eudóxia, uma cristã muito devota), mas, não menos importante, para marcar sua conversão ao cristianismo.

Nascida em Atenas, o verdadeiro nome de Eudócia era Athenais,  nome que foi escolhido pelo pai dela em honra à divindade protetora da cidade, a deusa Palas Atena. Athenais era filha de um filósofo chamado Leontius, um professor de retórica na célebre Academia, aonde vinham estudar ou ensinar, ainda no final do século V, estudantes ou intelectuais de todo o mundo mediterrâneo (Vale citar que, não obstante ela ser de Atenas, há indícios de que parte da  sua linhagem, paterna ou materna  era originária da grande cidade de Antióquia).

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(Caminho que levava até a Academia de Atenas, foto de Tomisti )

Quando a mãe de Athenais morreu,  ela, com a idade de apenas 12 anos, ficou não apenas encarregada de criar os seus irmãos, mas teve ainda que assumir também a direção dos negócios e da casa de seu rico pai,  a qual ficava situada na própria Acrópole!

Leontius, agradecido, ensinou à Athenais os fundamentos da Retórica, da Filosofia e da Literatura Gregas, e  a menina, que demonstrava ter memória excepcional, aprendeu a poesia completa de Homero e de Píndaro. Athenais, assim, cresceu mergulhada na cultura clássica, no centro intelectual do Helenismo, em um dos últimos redutos da tradicional religião pagã.

Porém, em 420 D.C, Leontius morreu e, para o desalento de Athenais,  ele deixou todos os seus bens para Gessius e Valerius, que eram os filhos homens, recebendo a injustiçada irmã, a título de legado, apenas 100 moedas de ouro, constando do testamento, a seguinte afirmação do agora finado pai:

O suficiente para Athenais é o seu destino, que será maior do que o de qualquer outra mulher”.

Athenais, ante a insensibilidade dos irmãos, que se recusaram a lhe dar maior quinhão na herança, foi viver com uma tia, a qual lhe aconselhou a “ir para Constantinopla, para pedir justiça ao Imperador”.

A comovente história de Athenais já estava circulando nas cidades da Grécia, e, quando ela chegou à Constantinopla, acabou levada à presença da imperatriz Pulquéria, a influente irmã de Teodósio II.

Sendo a irmã mais velha do impeador, Pulquéria, também ela uma cristã devota, tomou para si a tarefa de cuidar e educar o menino Teodósio II, quando ele ascendeu ao trono, motivo pelo qual ela fez até um voto de castidade.

Após o afastamento do Prefeito Pretoriano Antêmio, homem-forte no início do reinado de Teodósio II (foi ele quem mandou construir as poderosas muralhas de Constantinopla), Pulquéria tornou-se a pessoa mais influente da Corte, possuindo forte ascendência sobre o irmão.

Em um relato meio ao estilo de Cinderela, uma fonte conta que, no momento em que Athenais chegou à Constantinopla, Teodósio II estava querendo se casar. Quando, na audiência em que Athenais expunha o seu caso da herança, Pulquéria colocou os olhos na jovem,  ficou impressionada com a beleza dela e, mais ainda, com o talento e eloquência com a qual a moça apresentou o seu pleito. Em vista disso, Pulquéria teria dito a Teodósio II:

Encontrei uma jovem, uma donzela grega, muito bonita, pura e refinada, e além disso, eloquente! A filha de um filósofo!”.

Exagerado ou não o relato, o fato é que, pouco tempo depois da chegada de Athenais à Constantinopla, Teodósio II casou-se com ela, no dia 7 de junho de 421 D.C., e, como parte das celebrações, foram oferecidas ao povo da capital várias corridas de quadrigas no Hipódromo.

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(Tremissis, moeda de Aelia Eudocia Augusta, foto de beastcoins.com)

 

Athenais adotou o nome de Élia Eudócia  e se converteu ao Cristianismo.

E a jovem imperatriz logo demonstraria que sabia praticar a virtude cristã do perdão, uma vez que os seus irmãos, Géssio e Valério, foram chamados para comparecerem a Constantinopla, onde foram nomeados , respectivamente, para os importantes cargos de Prefeito da Ilíria e Magister Officiorum, equivalente ao de Ministro.

Eudócia deu à luz, em 422 D.C, a uma menina chamada Licínia Eudóxia, que, futuramente, seria esposa do Imperador Romano do Ocidente, Valentiniano III. Durante o casamento, Eudócia e Teodósio II ainda gerariam mais dois filhos, que morreram ainda crianças.

No ano seguinte, Eudócia recebeu o título de Augusta (Imperatriz), assumindo, assim, estatura igual a de Pulquéria, com quem passou, de fato, a disputar a influência sobre Teodósio II.  Com o passar do tempo, as duas cunhadas cada vez mais se tornariam rivais.

Um dos campos onde a rivalidade entre as duas Augustas se desenvolveu foram as questões religiosas. Ambas mostravam-se devotas, interessadas nas disputas teológicas e patrocinavam a construção de igrejas.

Porém, enquanto Pulquéria apresentava-se mais ortodoxa, especialmente contra a heresia nestoriana e, também,  demonstrava hostilidade aos judeus, Eudócia mostrava-se conciliadora em relação ao judaísmo, e tolerante em relação às religiões pagãs, inclusive tentando protegê-las das perseguições.

Entre 438 D.C e 439 D.C, Eudócia fez uma famosa peregrinação a Jerusalém e à Terra Santa, de onde trouxe as relíquias de Santo Estevão, para as quais mandou construir uma basílica.

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(Basílica de Santo Estevão em Jerusalém, construída no terreno da igreja originalmente construída por Eudócia, foto de RonAlmog )

Nessa época, em momento anterior ou posterior à viagem à Terra Santa, as relações entre Eudócia e seu esposo Teodósio II começaram a se deteriorar, culminando com o exílio dela de Constantinopla,  de 442 D.C. Segundo algumas fontes, a causa do exílio foi uma acusação de adultério que ela teria cometido com um amigo do imperador.

Eudócia voltou para Jerusalém, onde ela passou o resto de sua vida, vindo a falecer em 20 de outubro de 460 D.C, sendo enterrada na mesma Basílica de Santo Estevão que ela havia construído.

Durante o tempo que passou em Jerusalém, Eudócia escreveu uma uma volumosa obra poética na qual compôs versos em hexâmetros ao estilo clássico grego, combinando temas homéricos e bíblicos.

 Conclusão

Eudócia foi sem dúvida uma grande e fascinante mulher tanto por ter se destacado pelos méritos literários, em uma sociedade misógina e patriarcal, como por ter sido uma das últimas representantes da civilização helenística que sucumbia face ao novo mundo cristão-ortodoxo, um mundo no qual ela também conseguiu ser uma personalidade destacada.

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O “BOLSA-FAMÍLIA” DE ROMA

 

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Em 18 de maio de 332 D.C., o Imperador Constantino, o Grande, anunciou que o povo de Constantinopla também receberia a “Cura Annonae“, a distribuição gratuita de grãos que era feita aos cidadãos livres da cidade de Roma.

Tal medida colocava a população pobre da “Nova Roma Constantinopolitana” (nome oficial da nova capital) no mesmo plano de sua irmã mais velha e ilustre, a velha Roma, onde essa política era exercida desde a velha República, variando ao longo do tempo entre a distribuição gratuita de trigo (e de outros gêneros alimentícios, como carne salgada e azeite) e a venda a preços subsidiados. 

Oitenta mil cidadãos de Constantinopla faziam jus ao donativo (em Roma eram 200 mil).

Em Roma,  a existência de uma ração de trigo fornecida pelo Estado remonta a 440 A.C., com a instituição de um Prefeito da Anona (Praefectus Annonae). Mas durante muito tempo, esta era somente uma medida emergencial, para fornecer alimentação em tempos de secas ou crises excepcionais de abastecimento. A Anona era personificada como uma deusa,  e a distribuição dos grãos era feita no vetusto Templo de Ceres, de 493 A.C., na colina do Aventino, próxima ao Circo Máximo.

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(Templo de Ceres, no sopé do monte Aventino)

Posteriormente, com a progressiva concentração da terra nas mãos de grandes latifundiários, enriquecidos pelas conquistas romanas (um fenômeno que contribuiu para o aumento do proletariado e o decorrente crescimento da população urbana de Roma), a facção dos Populares no Senado Romano passou a apoiar o fornecimento de grãos aos cidadãos livres de Roma a preços subsidiados.

Assim, a Prefeitura da Anona ficou encarregada de coletar os tributos pagos em gêneros, como era o caso do trigo, e vendê-las a preço baixo para a população pobre da cidade.  Os irmãos Graco defenderam essa política, e Caio Graco fez promulgar, em 123 A.C., uma  lei específica nesse sentido.

A Anona passou a ser, a partir de então, um elemento praticamente obrigatório na plataforma de todos os políticos que pretendiam os votos do cada vez mais numeroso proletariado romano com direito ao voto.

Em 58 A.C., Clodius Pulcher (Clódio), talvez o mais populistas de todos os integrantes da facção dos Populares, após ser eleito Tribuno da Plebe, conseguiu aprovar uma lei instituindo o fornecimento gratuito de trigo para praticamente todos os plebeus de Roma, o que implicou em grande aumento das despesas públicas.

Já o Ditador Júlio César, após assumir o poder supremo, legislou de modo a tornar a Cura Annonae mais restrita e organizada. Assim, o número de beneficiários foi recenseado, arrolando-se um número menor de beneficiários em relação aos tempos de Clódio. Por sua vez, o Imperador Augusto reduziu ainda mais o número de beneficiários da Anona, fixando-o em duzentos mil cidadãos.

Durante o início do Império Romano, o responsável pela administração da Anona era o “Curator Alimentorum“, que era um dos mais importantes postos da nova burocracia imperial, encarregados da execução de uma dos pilares da política dos imperadores, que ficaria conhecida como Política do “Pão e Circo“,  inspirada na expressão utilizada pelo poeta Juvenal, que criticava a tática de usurpar a soberania popular em troca de comida e de espetáculos.

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A partir do imperador Septímio Severo, foi incluída na Anona a distribuição de azeite grátis. Posteriormente, o imperador Aureliano passou a distribuir, em vez de trigo, os próprios pães já assados, juntamente com rações de sal, carne de porco, na forma de toucinho,  e de vinho, por um preço baixo (mas, às vezes, estes também eram distribuídos gratuitamente).

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(Denário de Nero, mostrando a figura simbólica da Anona, foto de Classical Numismatic Group, Inc)

Para o sucesso e continuidade da Cura Anonnae era fundamental a existência de excedentes agrícolas, bem como de uma rede logística adequada. Note-se que os arredores da cidade de Roma, e mesmo a península italiana como um todo, não geravam excedentes para alimentar a população de Roma, que nos tempos de Augusto já tinha cerca de um milhão de habitantes.

Além disso, a tecnologia romana de transporte de carga por animais por via terrestre não permitia que a quantidade necessária fosse transportada pelas estradas. Com efeito, os Romanos não conheciam o arnês de coleira, de modo que o sistema de arreios que eles usavam não permitia que os bois levassem muita carga, pois eram sufocados pelo tipo de cangas que eles usavam.

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Todavia, as regiões que produziam abundante excedente agrícola, inicialmente a Sicília e, tempos depois, o Egito e a África do Norte, eram todas ligadas à Roma por via marítima. Desse modo, o Império Romano organizou um sistema complexo de armadores e afretadores marítimos e fluviais (navicularii), que eram empresários particulares, mas rigidamente controlados pelo Estado,  construiu gigantescos portos, tais como o de Óstia, e também armazéns para possibilitar o transporte e a armazenagem dos grãos, além de muitos moinhos.

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Estima-se que a Anona, em Roma, requeria o fornecimento  da descomunal quantidade de 600 milhões de libras de trigo, que deveria ser transportada, armazenada e distribuída na Cidade.

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(Porto de Óstia, na foz do Rio Tibre, reconstituição e foto aérea das ruínas)

VALENTINIANO I – O ÚLTIMO GRANDE IMPERADOR

VALENTINIANO I – O ÚLTIMO GRANDE IMPERADOR

 

Solidus_de_Valentinien_MAN(Solidus de Valentiniano I, foto de Siren-Com )

 

Em 26 de fevereiro de 364 D.C, Flavius Valentinianus (Valentiniano I) foi proclamado Augusto (Imperador) por uma assembléia da qual participaram os mais importantes ministros e governadores do Império Romano, reunidos em Nicéia, na Província Romana da Bitínia, na Ásia Menor.

O motivo desse verdadeiro conclave foi a morte repentina do imperador Joviano,  ocorrida quando  ele deslocava de Ancyra para Nicéia. Joviano tinha recentemente ascendido ao trono,  imediatamente após a desastrosa campanha promovida pelo imperador Juliano, “o Apóstata”, contra a Pérsia Sassânida,  a qual culminou com a derrota do exército romano e a morte de Juliano, em combate.

Para salvar a própria pele e conseguir retirar o remanescente do Exército Romano da Pérsia, Joviano teve que assinar com os Persas um humilhante tratado de paz, entregando cinco províncias orientais que haviam sido conquistadas pelo imperador Diocleciano, quase um século antes, além das estratégicas cidades de Nísibis e Síngara, praças-fortes que pertenciam a Roma desde o reinado de Septímio Severo, ainda no início do século III D.C.

Contudo, com a morte inesperada de Joviano,  que ainda se encontrava a caminho de Constantinopla para consolidar o seu poder, preferiu-se,  pela primeira vez na História de Roma, ao invés de se resolver a  sucessão pela forma mais usual – a vitória militar de um general contra os seus rivais – realizar uma reunião dos mais importantes funcionários civis e militares do Império. Assim, após a análise de várias opções, eles escolheram Flávio Valentiniano, comandante do regimento de infantaria de elite dos “Scuttarii“, tropas de elite que faziam parte do séquito pessoal do imperador.

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(Um scutarii deveria se parecer com este soldado do Baixo Império Romano, em 1º plano)

Valentiniano nasceu em 321 D.C, no sul da Província Romana da Panônia, na cidade de Cibalae (hoje Vinkovci), parte da atual Croácia, filho de um humilde camponês chamado Graciano (não confundir com o imperador homônimo,  filho de Valentiniano).

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(Atual cidade de Vinkovci)

O pai de Valentiniano entrou para o Exército e foi galgando postos até ingressar na unidade de elite dos “Protectores domestici“,  que eram os guarda-costas do Imperador Constantino I. A partir daí,  Graciano foi promovido a general e conseguiu ser nomeado Conde da África, local onde ele foi acusado de enriquecimento ilícito, sendo, por causa disso, afastado. Não obstante, algum tempo depois, Graciano foi reabilitado, chamado de volta e nomeado Conde da Britânia. Depois de exercer esse cargo, ele se retirou da vida pública e voltou para suas propriedades em sua terra natal, na Panônia.

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Entretanto, o tempo das boas graças de Graciano duraria pouco, pois o Imperador Constâncio II, alegando que Graciano teria hospedado o usurpador Magnêncio quando este esteve na região da Panônia, mandou confiscar as terras dele.

Durante os anos de serviço do pai, Valentiniano entrou para o exército, provavelmente também como “protector domesticus” e também foi sendo paulatinamente promovido.

No reinado de Constâncio II, os bárbaros Alamanos ameaçaram seriamente a Gália, e, aproveitando-se da guerra civil entre o imperador e Magnêncio, cruzaram o Reno e atacaram várias cidades. Valentiniano, então servindo como tribuno, sob as ordens do César (príncipe-herdeiro) Juliano, foi encarregado de interceptar um bando de Alamanos que havia atacado Lyon, em 355 D.C.

Todavia, para poder cumprir essa missão com eficiência, Valentiniano dependia do auxílio de Barbatio, um general que estava envolvido em uma conspiração para prejudicar Juliano.  E, naturalmente,  o conspirador não tinha nenhuma intenção em ajudar Juliano…Assim, sem o apoio de Barbatio, as tropas comandadas por Valentiniano acabaram sendo derrotadas pelos Alamanos, com grandes perdas.

Valentiniano foi, injustamente, considerado responsável pelo fracasso e afastado do Exército, acabando por ter que ir viver em suas terras em Sirmium, cerca de 55 km da atual Belgrado. Nesse período, nasceu seu filho, que recebeu o nome do avô, Graciano (e que também, futuramente, se tornaria imperador).

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(Mapa da Prefeitura de Illyricum, mostrando a localização da cidade de Sirmium)

Quando Juliano tornou-se imperador, a carreira de Valentiniano correu sério risco, pois Juliano, que até então escondia o seu apreço pelas religiões pagãs tradicionais, rapidamente colocou em prática medidas para enfraquecer o cristianismo e recolocar o paganismo em proeminência no Estado. Valentiniano, todavia, era um notório católico devoto, Não surpreende, portanto, que Valentiniano, após se recusar a assistir ou fazer um sacrifício em uma cerimônia pagã,  tenha sido exilado, ou, em uma versão mais branda do caso, sido designado para servir numa província distante, talvez o Egito ou a Armênia.

Foi somente quando Juliano, o último representante da dinastia inaugurada por Constantino, morreu, em outra campanha fracassada na Pérsia (363 D.C), e o cristão Joviano assumiu, que a sorte voltou a sorrir para Valentiniano. Ele conseguiu ser nomeado comandante da importante unidade de infantaria de elite dos Scuttari e, consequentemente, agora chefiava  uma unidade da Guarda Imperial (Scholae Palatinae).

E foi nesse posto que, como vimos, Valentiniano I foi escolhido como novo Imperador, com a idade de 43 anos.

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(“Il Colosso” de Barletta, estátua de bronze de um imperador romano, provavelmente trazida para a Itália pelos Cruzados proveniente do Saque de Constantinopla, e que se acredita retratar Valentiniano I)

Porém, a situação do Império Romano  naquele momento era dramática: No front militar, à derrota na Pérsia e à perda de territórios estratégicos, que colocavam pressão sobre as cruciais províncias da Síria e do Egito, no Oriente, somava-se a crescente ameaça das tribos germânicas no Reno e no Danúbio, no Ocidente, as quais, oportunisticamente, sempre aproveitavam qualquer insucesso militar romano para tentar incursões no território do Império, em busca de saques, ou, alternativamente, extorquir algum pagamento em troca de paz.

O quadro interno também não era animador. O breve reinado de Juliano contribuíra para aumentar a intolerância religiosa do cristianismo triunfante. Começava a aumentar uma fenda entre a elite de Constantinopla, marcadamente cristã ortodoxa, e a elite tradicional pagã, ainda muito influente no Ocidente, sobretudo no Senado Romano.

Eram tempos conturbados,  que imploravam por um líder enérgico, resoluto e incansável, mas também consciencioso, e essas seriam justamente as características mais marcantes de Valentiniano I, em seu reinado.

Logo em seguida à proclamação de Valentiniano I, o Exército demandou que ele escolhesse um co-imperador. Tendo em vista que, desde Diocleciano, estabelecera-se um quase consenso de que o Império Romano era extenso e complexo demais para ser governado apenas por um imperador em Roma, e, ainda, a premência da situação militar no Ocidente e no Oriente, dificilmente esse comportamento dos generais deve ser visto como uma rejeição à Valentiniano.

Eu também acredito que, muito mais provavelmente,  essa imposição de que Valentiniano I escolhesse um colega deve ser entendida como uma pretensão daqueles que, em Constantinopla, temiam perder poder com uma reunificação administrativa do Império. O fato é que, um mês depois, Valentiniano I nomeou seu irmão, Valente, como Imperador Romano do Oriente.

Valens_medal,_375-78_AD(medalhão de ouro, de Valente, foto de Sandstein

Valente logo teve que lidar com a revolta de Procopius, um parente de Juliano,  a quaL, porém, foi rapidamente debelada. Depois, ele conduziu algumas campanhas no Danúbio contra os Visigodos, do rei Atanarico, obtendo uma paz em termos favoráveis aos romanos, inclusive parando de pagar o subsídio anual que eles vinham pagando aos visigodos para não serem atacados.

Valentiniano foi dar combate aos Alamanos.que, em 365 D.C,  invadiram novamente a Gália. Ele estabeleceu-se em Augusta Treverorum (atual Trier, na Alemanha) para conduzir a guerra. De lá, ele comandou a formação de um grande exército para guerrear contra aqueles bárbaros.

Porta_Nigra_BW_1(A chamada “Porta Nigra”, em Trier, antiga Augusta Treverorum, onde alguns imperadores do Baixo Império Romano estabeleceram-se para lutar contra os Germanos. Era o portão principal das muralhas da cidade e já tinha mais de 200 anos quando Valentiniano o cruzou)

Em 367 D.C, Valentiniano e seu exército cruzaram os rios Meno e Reno e invadiram o território inimigo, inicialmente quase sem encontrar resistência, queimando tudo que encontraram em seu caminho. Os Alamanos então resolveram lutar e travou-se a Batalha de Solicinium,  provavelmente ocorrida onde hoje fica a cidade de Hechingem (no atual Estado alemão de Baden-Wurttemburg). Essa região tinha sido abandonada pelos romanos fazia cerca de um século antes e uma vez fez parte dos chamados “Agri Decumates” (campos que pagam o dízimo).

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(Provável lugar da Batalha de Solicinium. No reinado de Valentiniano I, os romanos ainda eram capazes de atacar os Germanos à leste do Reno)

A batalha foi duríssima, com pesadas perdas romanas, mas os Alamanos foram derrotados. Foi a última vez que um imperador comandou um grande exército romano e conduziu com sucesso uma campanha além da margem direita do Reno.

Nesta campanha, Valentiniano fez-se acompanhar do filho Graciano, com apenas 8 anos de idade. Claramente, o imperador já demonstrava que o queria para sucessor, pois, naquele ano, o menino foi proclamado Augusto, ou seja, co-imperador.

Valentiniano, entrementes, ainda em 367 D.C, também teve que enfrentar uma grande rebelião na Britânia – um ataque combinado das tribos dos Pictos e Escotos, em conjunto com os invasores saxões que assolavam o litoral leste da Ilha (o que já havia levado os próprios romanos a batizarem aquele trecho como “Costa Saxã“). Essa ameaça só foi derrotada com muito custo, após a chegada do Conde Teodósio, nomeado por Valentiniano para comandar as forças romanas.

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(Portus Adurni, atualmente Portchester Castle, no porto de Portsmouth, na costa oriental da Inglaterra, fortaleza integrante do sistema romano de fortificações da Saxon Shore (Costa Saxã)

Valentiniano  também conduziu um grande programa de reparo e construção de fortificações ao longo da fronteira Reno/Danúbio, o que irritou os bárbaros germanos, dando-lhes o pretexto para novas agressões.

Outra iniciativa sua foi recompor os efetivos do Exército Romano, não só preenchendo as lacunas decorrentes das recentes derrotas, mas até aumentando o seu número, procurando cumprir estritamente o recrutamento anual.

Aliás, um fato notável, que demonstra a dificuldade que constituía o recrutamento naquele período turbulento do Império, bem como a medida da determinação de Valentiniano em restaurar o poderio militar romano, foi a redução da altura mínima exigida para os recrutas, de  1 m e 77cm para 1m e 70 cm, aumentando, desse modo, a massa recrutável.

A maior fonte sobre o reinado de Valentiniano I é o historiador Amiano Marcelino, ele mesmo um ex-militar dos Protectores Domestici, e considerado por muitos como aquele que melhor escreveu sobre o Baixo Império Romano.

Segundo Amiano, Valentinianodetestava as pessoas bem vestidas, cultas, ricas e bem-nascidas“, sendo ele mesmo “rústico, inculto e, frequentemente, violento“.

Realmente, diversas passagens atestam que Valentiniano era dado a acessos de fúria, sobretudo quando se deparava com erros ou irregularidades praticados pelos subordinados. Mas quanto ao ódio às pessoas cultas, ainda que a acusação de Amiano fosse verdadeira, o fato é que a alegada antipatia dele não se estendia à cultura em si, pois, consta que Valentiniano mandou abrir várias escolas pelo Império Romano.

Sendo ou não exagerada a observação de Amiano acerca do ódio de Valentiniano às classes altas romanas, o fato é que ele foi reconhecido por várias medidas em favor dos mais pobres e inclusive procurou proteger os humildes das arbitrariedades cometidas pelos poderosos.

Nesse particular, uma de suas medidas mais meritórias foi instituir em todo o Império o cargo de “Defensor Civitatis“, cuja principal função era ser um advogado público, em prol dos plebeus contra as injustiças dos poderosos. Portanto, atrevemo-nos a dizer que Valentiniano pode ser considerado um dos patronos da moderna Defensoria Pública.

Coube a Valente  implementar essa política de Valentiniano no Oriente. As palavras dele acerca do cargo de Defensor foram preservadas no preâmbulo de um édito:

Nós propiciamos, mediante um útil projeto, que a inocente paz dos camponeses possa gozar do benefício de uma proteção especial, prevenindo que eles sejam prejudicados e molestados pelas artimanhas de uma disputa jurídica, mesmo quando lhes seja devida uma reparação,  pois muitas vezes um advogado ganancioso é desidioso, o oficial que guarda as portas do tribunal é amolecido por grandes propinas, as atas do julgamento são vendidas pelos serventuários, e aqueles que administram a justiça cobram mais em taxas do que um litigante bem sucedido receberia da parte contrária“.

Ao contrário de seus predecessores cristãos da dinastia constantiniana, Valentiniano adotou uma postura tolerante com o paganismo e as heresias cristãs. Ele continuou permitindo, por exemplo, a prática de sacrifícios noturnos, a antiga prática de adivinhações pelos harúspices e os antigos mistérios pagãos.

A.H.M Jones cita as seguintes palavras,  escritas a esse respeito pelo próprio Valentiniano, em uma carta:

Eu não considero que qualquer rito permitido por nossos ancestrais seja criminoso, As leis editadas por mim no início de meu reinado são testemunhas disso, motivo pelo qual a todos foi concedida a livre escolha de praticar qualquer religião que a sua vontade determinar“.

Uma política sábia que, infelizmente,  não seria seguida por seus sucessores, e que  muitos contrariam, mesmo em nossos dias…

Em 374 D.C, chegou a notícia de que os Quados, velho povo germânico inimigo de Roma que habitava ao longo do Danúbio,  agora aliados aos bárbaros sármatas,  tinham derrotado duas legiões romanas. A causa principal do conflito foram as fortalezas que, seguindo a política de Valentiniano, estavam sendo construídas em território bárbaro.

Valentiniano cruzou o Danúbio em Aquincum (localizada dentro da área da atual Budapeste) e devastou o território dos Quados, voltando para Savaria para passar o inverno.

No ano seguinte, Valentiniano recomeçou a campanha e dirigiu-se a Brigetio, também situada na atual Hungria. Lá, em 17 de novembro de 375 D.C, ele recebeu em audiência uma delegação dos Quados.

(Ruínas do forte militar romano, em Brigetio, e reconstituição moderna)

Durante a audiência, os Quados reclamaram que os romanos eram culpados da guerra, devido à construção dos fortes. Às condições estipuladas para o fim das hostilidades, que previam que eles deveriam fornecer recrutas para o Exército Romano, os Quados retrucaram que os grupos aliados que não estivessem presentes na audiência não estavam obrigadas a respeitá-las, sendo livres para atacar os romanos quando quisessem.

Furioso com a insolência dos embaixadores quados, Valentiniano I ergueu-se de sua cadeira e começou a gritar, censurando duramente os bárbaros. De repente, o rosto rubro do Imperador congelou-se em uma máscara terrível e a voz  tonitruante dele sumiu…Uma artéria no seu crânio acabara de arrebentar e ele tinha sofrido um derrame, tendo que ser retirado do recinto,  completamente imobilizado, falecendo pouco depois.

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(Brigetio, atual Komárom/Szőny, na Hungria, não esqueceu que foi palco da morte de um grande imperador romano, como mostra essa placa moderna em homenagem a Valentiniano I)

O filho de Valentiniano IGraciano, com apenas 16 anos, foi aclamado imperador do Ocidente, permanecendo seu irmão, Valente, como monarca da parte oriental, em Constantinopla.

No ano seguinte, chegaria ao Danúbio a grande e perigosa migração dos Godos.

Essa era uma ameça tremenda, mas que poderia ser enfrentada por um líder capaz, e determinado. Infelizmente, nem Graciano e, menos ainda, Valente, mostrariam-se à altura do desafio.

Em 378 D.C, os Godos derrotariam os romanos na Batalha de Adrianópolis e o Império Romano começaria a longa, mas inexorável, trajetória de sua derrocada. Talvez,  se Valentiniano I não tivesse se enfurecido tanto com os Quados em Brigetio,  e sobrevivido até Adrianópolis, podemos cogitar que ele não cometeria os erros de Valente. Certamente,  Valentiniano I não teria permitido aos Godos cruzarem o Danúbio, e ele teria jogado contra os bárbaros todo o poder combinado do Exército Romano.

Na cidade de Barletta, na Itália, existe uma enorme estátua de bronze, da época romana, datada do século IV D.C, retratando um imperador em tradicional traje romano de general, segurando um crucifixo. Ela é chamada de “Il Colosso“.

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Não se tem certeza de quem é o Imperador representado, mas um dos candidatos considerados mais prováveis pelos especialistas é Valentiniano I. A expressão dura, fechada, resoluta e de ar implacável daquele rosto de bronze é um perfeito retrato da personalidade e dos tempos de Valentiniano I.

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JUSTINO I – DE CRIADOR DE PORCOS A IMPERADOR

JUSTINO I – DE CRIADOR DE PORCOS A IMPERADOR

Em 02 de fevereiro de 450 D.C, na Prefeitura romana de Illyricum, então sob a égide do Império Romano do Oriente , nasceu,  na região chamada de Dardania , um menino chamado Istok, um nome de origem trácia ou ilíria, que foi latinizado  como Justino. A criança nasceu em um vilarejo vizinho à fortaleza de Bederiana, provavelmente o vilarejo de Tauresium, por sua vez situado próximo à cidade de Scupi.

A cidade de Scupi, atual Skopje, capital da moderna República da Macedônia. foi fundada no reinado do imperador Domiciano (81-96 D.C) como uma colônia de veteranos militares. Apesar de estar em uma região sob influência cultural grega, o estabelecimento da colônia de soldados romanos veteranos naquela região contribuiu sobremaneira para a romanização da população local de etnicidade ilíria e trácia, cujo idioma predominante passou a ser o latim.

(Ponte Romana, em Skopje e vista atual da cidade)

 

Após a formalização da divisão do Império Romano em 2 metades, Ocidental e Oriental, esta com capital em Constantinopla, por Constantino I, no início do século IV, a região, devido ao paulatino enfraquecimento do Império Romano do Ocidente ocorrido no século seguinte, passou a ser governada por Constantinopla,  onde o grego era o idioma predominante.

Devido às devastações causadas pelos bárbaros hunos e ostrogodos na península dos Balcãs, entre 450 e 460 D.C, o humilde criador de porcos Justino, junto com seus parentes Zimarchus e Ditivistus, todos reduzidos à extrema pobreza, foi obrigado a abandonar o vilarejo e migrar para a capital Constantinopla. Consta que, em sua bagagem, os jovens levavam apenas roupas esfarrapadas e um saco contendo pedaços de pão, para se alimentarem durante a viagem.

Uns dez anos antes de Justino chegar à Constantinopla, o imperador Leão I criara uma guarda imperial de 300 homens, chamada de “Excubitores”, formada, majoritariamente por vigorosos camponeses da região da Isaúria,  com o objetivo de contrabalançar o poder do comandante do exército (Magister Militum), Áspar,  um chefe militar bárbaro, e de seus soldados Godos.

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(Os Excubitores deveriam se parecer com estes soldados na frente do imperador, em trajes cerimoniais e de campanha)

 

Leão conseguu se livrar de Áspar e seus Godos e, sem filhos, foi sucedido pelo comandante dos Excubitores, o Isáurio Tarasis Kodissa, marido de sua filha Ariadne, e o qual adotou o nome de Zeno, em 474 D.C. Após 17 anos de um reinado conturbado, Zeno foi sucedido por Anastácio, que também não tinha herdeiro vivo, e foi indicado por Ariadne, a imperatriz-viúva, com quem se casou.

Ainda durante o reinado de Leão I, a guarda dos Excubitores precisou de novos recrutas. Justino, que tinha um bom físico e provinha de uma região (Dardania), e de uma gente (Ilírios e Trácios), que durante muito tempo vinha fornecendo soldados para o Império, viu a oportunidade e se alistou,  e, junto com seus companheiros Zimarchus e Ditivistus,  conseguiu entrar para os Excubitores.

Justino foi subindo de posto na guarda imperial e , com o seu sucesso na carreira militar, sua irmã Vigilantia deixou a Dardania e veio morar em Constantinopla, acompanhada de outros parentes e conterrâneos, incluindo seu marido Sabbatius, com quem tinha dois filhos: Petrus Sabbatius (o futuro imperador Justiniano I) e Vigilantia Dulcissima (Sabemos que Justiniano nasceu por volta de 482 D.C, em Tauresium, na Dardânia, pois, quando sua cidade natal foi destruída por um terremoto, ele mandou reconstruir a cidade com o nome de Justiniana Prima).

No tempo em que seu sobrinho Justiniano ainda era criança, Justino já devia ocupar um posto importante na Guarda Imperial. Ele se casou com uma mulher chamada Lupicina. Segundo o historiador Procópio, em sua “História Secreta”, Lupicina seria uma escrava de origem bárbara e ex-concubina do antigo dono dela. Muitos historiadores, porém, veem com suspeita as informações depreciativas de Procópio relativas à origem da dinastia justiniana contidas na História Secreta, obra que, por vezes, parece mais um panfleto contra Justiniano.

Justino e Lupicina não tinham filhos.  Portanto, este foi o principal motivo pelo qual Justino, provavelmente antes de se tornar imperador, resolveu adotar seu sobrinho, Petrus Sabbatius, qu, então, passou a se chamar Flavius Petrus Sabbatius Justinianus. Isso pode ter acontecido até mesmo quando Justiniano ainda era adolescente, pois sabemos que ele foi educado com esmero em Constantinopla, recebendo ensinamentos de jurisprudência, história e teologia.

Durante o reinado de Anastácio, Justino foi nomeado Comandante dos Excubitores (Comes Excubitorum), sendo que o seu sobrinho Justiniano também começou sua carreira servindo nesta unidade da guarda imperial

Em 518 D.C,  o imperador Anastácio morreu,  também sem deixar filhos. Ele tinha sobrinhos, sendo que um destes era um provável pretendente. Os ministros do falecido imperador e o clero estavam indecisos e o povo demandava a escolha de um novo imperador, sem que houvesse uma definição. O fato, porém, é que Justino era o comandante da guarnição da capital e, provavelmente não precisou de muito esforço para se impor ou ser escolhido como o sucessor pelo Senado de Constantinopla, em 9 de julho de 518 D.C., com o nome de Flavius Justinus Augustus, aos 68 anos de idade. Sua esposa Lupicina foi coroada como imperatriz, adotando o nome Eufêmia.

 

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(Tremissis, moeda de ouro, de Justino I)

 

Segundo Procópio, Justino I era analfabeto e falava apenas um grego rudimentar (talvez ele fosse apenas incapaz de ler e escrever em grego). O historiador narra que, em decorrência, seus ministros foram obrigados a mandar fazer placas de madeira com o desenho das palavras habitualmente utilizadas para os despachos do imperador, para que Justino, segurando o estilete, apenas seguisse o contorno das letras pré traçadas com a sua mão, citando-se como exemplo o caso da palavra latina “Fiat” (cumpra-se)!

Entretanto, pouco a pouco, Justiniano, o ambicioso e preparado sobrinho e filho adotivo de Justino, foi se tornando o governante de fato do Império Romano. (O Império do Ocidente havia terminado em 476 D.C, durante o reinado de Zeno). Em 521 D.C, Justiniano foi nomeado Cônsul. Observe-se que Justino tinha outro sobrinho, chamado Germanus, que até se destacou como general, mas parece que este não tinha propensão ou vontade de entrar na política.

O reinado de Justino teve como fato marcante o retorno à ortodoxia do concílio católico de Calcedônia, o que por sua vez, teve consequências nas relações com o reino ostrogodo de Teodorico, na Itália, que então formalmente reinava na Itália em nome do Imperador. Conflitos com a Pérsia e o terremoto que destruiu Antióquia também são dignos de nota.

Porém, indubitavelmente, o maior significado do reinado de Justino foi o fato de ele ter sido sucedido por seu sobrinho Justiniano, cujo reinado foi um divisor de águas na História do Mundo Mediterrâneo, com repercussões até no presente, seja pela reconquista da Itália, do norte da África e do extremo sul da Espanha para o Império, seja pela promulgação do Corpus Juris Civilis, codificação de toda a legislação romana que influenciaria o Direito até os nossos dias.

Justino ficou doente em 527 D.C e o Senado pediu que ele nomeasse Justiniano como co-imperador, o que foi feito em 04 de abril de 527 D.C.

 

Justiniano.

(Justiniano I, mosaico da Igreja de San Vitale, em Ravenna)

 

Em 1º de agosto de 527 D.C, Justino morreu aos 77 anos de idade. Ele foi enterrado ao lado de Eufêmia, que falecera poucos anos antes.

ROMA E SEUS MUROS

Os muros voltaram!

Em pleno século XXI, governantes voltam a investir na construção de muros. Nos Estados Unidos, o polêmico e contestado Presidente Trump elegeu-se tendo com uma de suas promessas a construção de um muro na fronteira dos Estados Unidos com o México. Israel constrói muros separando o país e o território controlado pela Autoridade Palestina; na Hungria, o governo está construindo um muro na fronteira sul do país para impedir a entrada de refugiados  vindos do Oriente Médio…

 

 

A construção de barreiras contra inimigos, reais ou ilusórios, é uma medida recorrente na história dos povos através dos tempos, com maior ou menor sucesso.

Quase todas as cidades do Velho Mundo, e até mesmo do Novo Mundo, tiveram muralhas. Até o século XIX, elas faziam parte da paisagem urbana européia: é verdade que Londres, a precursora, derrubou as suas por volta de 1760, mas as de Viena duraram até 1857. Paris as teve até 1860 e Madri, até 1868.

Em Roma, as primeiras muralhas teriam sido construídas pelo seu sexto rei, Sérvio Túlio, que reinou de 575 a 535 A.C. Essas muralhas provavelmente foram destruídas ou abandonadas durante o domínio etrusco, sendo que, após a invasão gaulesa e o saque de Roma, em 390 A.C, foram levantados novos muros.

Os soldados romanos, normalmente, estavam acostumados a estarem do lado de fora das muralhas, na posição de atacantes,  tentando ultrapassá-las para conquistar uma cidade inimiga cercada: uma das mais importantes condecorações militares romanas era a “corona muralis” – uma coroa de ouro com o formato de um muro que era concedida ao primeiro soldado romano que conseguisse galgar uma muralha.

Impérios em expansão geralmente não necessitam e não dão importância a muralhas. De fato, após a “pax romana”, quando Roma dominou todo o Mediterrâneo e não tinha inimigos à altura, as cidades romanas passaram a negligenciar o reparo e a construção de muralhas, chegando muitas a desmoronarem ou terem o seu perímetro ultrapassado pela expansão urbana, sem que novas fossem edificadas.

Por outro lado, no plano externo, após a derrota das legiões de Varo, na Germânia, que significou o abandono do projeto de incorporação daquele território e de expansão romana além do Reno, houve a necessidade de se estabelecer uma linha de fortificações, torres de vigilânciae paliçadas para prevenir incursões dos bárbaros germânicos, o “limes germanicus”, que, porém, não chegou a ser uma muralha em termos clássicos.

Depois de invadirem a Grã-Bretanha, os romanos perceberam que os custos econômicos e militares de uma expansão até ao norte da ilha também não se justificavam, face a resistência das tribos dos Pictos e Escotos, antepassados dos escoceses. O imperador romano Adriano, que era avesso à política expansionista de seu antecessor Trajano, construiu a primeira muralha fronteiriça contínua de Roma, a chamada “Muralha de Adriano”, no século II D.C.

 

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Porém, mais do que uma estrutura defensiva, a Muralha de Adriano era uma declaração política e uma exibição de poder. Com efeito, além de significar que a expansão romana terminava ali naquele lugar,  pela vontade do imperador, ela servia também como propaganda da divisão do mundo entre civilização e barbárie: de fato, estudos mostram que a muralha era coberta de argamassa caiada de branco, para parecer mais vistosa e impressionante para os bárbaros do outro lado.

Para muitos estudiosos militares, muralhas, entretanto, são uma declaração de fraqueza: nações poderosas não precisam de muralhas, pois seus exércitos são poderosos e temidos o suficiente para intimidar e derrotar os seus vizinhos, invadindo o território inimigo quando for necessário.

Quando o Império Romano passou a ser alvo frequente das invasões germânicas, em meados do século III D.C, as muralhas voltaram à moda: Por todo o Império, as cidades começaram a reparar os seus muros ou a construir novas muralhas.

A própria Roma não escapou. Após a invasão dos Vândalos, que saquearam a cidade de Placência, no norte da Itália, o imperador Aureliano ordenou a construção das impressionantes muralhas que levam o seu nome, com 19 km de extensão, construídas entre 271 e 275 D.C.

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Reforça a tese dos especialistas antipáticos à estratégia militar baseada em muralhas, o fato de que, durante toda a existência das suas muralhas anteriores, ditas Servianas, a cidade de Roma passou 800 anos sem ser invadida por inimigos estrangeiros. Contudo, apenas 140 anos após a construção das Muralhas Aurelianas, Roma foi invadida e saqueada pelos Godos, em 410 D.C.  E, apenas 45 anos depois disso, a Cidade Eterna seria saqueada, ainda mais brutalmente, pelos Vândalos, 455 D.C.

Por outro lado, agora como um caso de sucesso de uma muralha, a nova capital do Império, Constantinopla, que, em 405 D.C recebeu as formidáveis Muralhas Teodosianas, resistiu por mais de mil anos ao cerco dos mais variados inimigos, somente vindo a cair em 1453 D.C, quando os Turcos empregaram os mais poderosos canhões da época.

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Enquanto isso, no moribundo Império do Ocidente, começava uma tendência que se acentuaria na Idade Média:  a população civil circunvizinha , para se proteger, se mudou para quartéis militares fortificados (castra),  para pequenos fortes militares (castellum) ou para pequenos povoados situados em colinas e morros (oppidae). Com a Queda do Império, essas posições fortificadas, agora ocupadas principalmente pelos nobres germânicos vitoriosos, passaram a ser a controlar as terras e a população rural vizinhas, dando origem aos onipresentes castelos que dominaram a paisagem européia medieval.

No século XX, entretanto, o conceito de estratégia militar baseada em muralhas recebeu dois grandes baques: a) a humilhante inutilidade da “Linha Maginot”, contornada com facilidade pelo exército alemão na 2º Guerra Mundial; e b) a queda do “Muro de Berlim”, abatida a golpes de picareta pelos próprios cidadãos da Alemanha Oriental.

E você, leitor, o que acha das muralhas?

LEÃO I – A ÚLTIMA CARTADA NO OCIDENTE

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(Busto do imperador Leão I, foto de Marie-Lan Nguyen)

 

Em 18 de janeiro de 474 D.C, falece, em Constantinopla, o Imperador Romano do Oriente, Leão I, após uma crise de uma doença cujos sintomas assemelhavam-se à disenteria.

De origem Trácia e nascido em 401 D.C, nesta província, ou, segundo outras fontes, na Diocese da Dácia Aureliana (compreendendo partes das atuais Bulgária e Sérvia), Leo Marcellus foi um militar que ascendeu até o posto de Tribuno dos Mattiari (regimento do exército romano cujos soldados eram especializados no uso da “mattea”, ou seja, maça), cargo em que ficou diretamente subordinado à Áspar, comandante em chefe do Exército Romano do Oriente e homem forte do Império.

Áspar era um prestigiado general de etnia alana que chefiava as tropas germânicas que, naquele momento, constituíam o esteio do exército oriental (cujo efetivo tradicionalmente romano havia sido virtualmente eliminado entre 363 e 378 D.C, na Pérsia e em Adrianópolis). Devido a isso, Áspar  havia sido o “padrinho” do então Imperador Romano do Oriente, Marciano, coroado em 450 D.C.

Marciano era também um soldado que progrediu sob o comando do generalíssimo Áspar e seu reinado caracterizou-se pelo fim do pagamento do subsídio anual aos Hunos de Átila, que, percebendo que Constantinopla era inexpugnável, se voltou contra o Império Romano do Ocidente, por reformas econômicas e pelo Concílio de Calcedônia, que tratou da ortodoxia cristã.

Marciano morreu subitamente em 27 de janeiro de 457 D.C., após uma crise de gangrena. Áspar precisava por um substituto no trono e pensou que a melhor alternativa era repetir a fórmula que adotara com Marciano: colocar no trono um subordinado de sua confiança.

Assim, em 07 de fevereiro de 457 D.C.,  Leo Marcellus (Leão) foi coroado imperador do Império Romano do Oriente, em Constantinopla.

Segundo as fontes, Leão I foi o primeiro imperador romano cuja coroação teve a participação do Patriarca de Constantinopla, ritual que depois se tornaria costumeiro na Europa Medieval.

Áspar pensava que Leão seria mais um imperador-fantoche, porém Leão tinha outros planos para o seu reinado… Paulatinamente, ele foi firmando a sua autoridade e, engenhosamente, aproximou-se de alguns militares de origem isáuria, inclusive o chefe isáurio Tarasicodissa, ou Tarasis Kodisa, que depois mudaria o seu nome para Zenão (ou Zeno).

Em 461 D.C, Leão recrutou os Isáurios para servirem na sua recém-formada Guarda Imperial, chamada de “Excubitores“, expressão que significava, os “Sentinelas” (literalmente, “os do lado de fora da cama”). Posteriormente, nos séculos VI e VII, valendo-se dos Excubitores, vários imperadores seriam elevados ao trono, e muitos Comes Excubitorii (Condes dos Excubitores) se tornariam imperadores bizantinos, tais como: Justino I, pai do grande imperador Justiniano I, Tibério II e Maurício.

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(possível traje de um excubitor oriundo da Isáuria)

Os Isáurios eram um povo montanhês de índole guerreira que habitava a Província romana da Cilícia, na Ásia Menor (dentro do território da atual Turquia). Apesar da regiao ter sido conquistada pelos romanos no século I D.C, os Isáurios nunca chegaram a ser totalmente subjugados. Ao longo dos séculos, eles foram apenas parcialmente romanizados, mas adotaram o cristianismo ortodoxo (Niceno), fato que, naquele final do século V, fazia-lhes parecer mais aceitáveis para os cidadãos de Constantinopla do que os godos ou alanos (que professavam a heresia ariana), muito embora os Isaúrios ainda fossem considerados bárbaros por muitos romanos.

Em 466 D.C, Tarasis Kodisa (Zenão), oficial Isáurio dos Excubitores, acusou o filho do general Áspar de traição, o que azedou as relações entre este e o Imperador.

Leão I, em 467 D.C, recompensou Tarasis Kodisa dando-lhe em casamento a sua filha Ariadne, e também reforçando a aliança com o militar isáurio, que mudou seu nome Natal para o grego Zenão. Antes que o casamento completasse um ano, Ariadne deu a luz ao filho de Zenão, que recebeu o nome do avô, Leão. Zenão também foi nomeado para o importante posto de Magister Militum per Thracias.

Ao contrário de seu antecessor Marciano, Leão I demonstrou bastante interesse nos assuntos do Império Romano do Ocidente. Ele por duas vezes interveio na sucessão do trono ocidental, nomeando para ser imperador do Ocidente, em 467 D.C, Antêmio, que ocupara importantes cargos administrativos e militares e era membro de uma influente família da nobreza de Constantinopla, parente distante do próprio Constantino, o Grande, Mais tarde, em 473 D.C , Leão nomeou Júlio Nepos, Imperador do Ocidente.

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A primeira cartada de Leão I na sucessão ocidental, nomeando Antêmio foi brilhante.

O trono ficara vago com a morte de Líbio Severo, em 465 D.C, que foi mais um dos imperadores-fantoches que o general de origem Goda e Sueva, Ricimer, que mandava no Ocidente desde 456 D.C, tinha colocado no trono imperial , já que sua origem bárbara o impedia de assumir a coroa ele mesmo.

Leão nomeou Antêmio Imperador do Ocidente. Ele era, um experiente homem público de origem tão ilustre (seus antepassados eram parentes de Constantino, fundador do Império Romano do Oriente) que chegou até ser considerado um candidato potencial ao trono. Leão, assim, astutamente, enviou-o para a Itália, com um exército, para fazer valer os interesses de Constantinopla no Ocidente. Antêmio foi proclamado Imperador em 12 de abril de 467 D.C.

Com isso, Leão impediu que Geiserico, rei dos Vândalos, colocasse no trono ocidental o seu próprio fantoche, Olíbrio, valendo lembrar que os Vândalos haviam invadido e conquistado a rica província da África, em 439 D.C, e, partindo dessa base, saqueado Roma, em 455 D.C. No ano anterior, o último general capaz do Ocidente, Aécio, que passaria à História como “O Último dos Romanos”, fora assassinado, esfaqueado pessoalmente pelo Imperador Valentiniano III.

Aécio habilmente conseguira reunir um pequeno exército romano coligado com contingentes bárbaros “federados” (foederati), notadamente visigodos, francos, saxões e alanos. Porém, essa aliança baseava-se no prestigio de Aécio. Morto o Generalíssimo, as tropas e os aliados sumiram. Por isso, consta que um membro da corte, ao saber do assassinato de Aécio, teria dito a Valentiniano III: “Vossa Majestade cortou sua mão direita com a esquerda”…

Em 455 D.C, dois soldados bárbaros leais à Aécio vingaram a sua morte e assassinaram Valentiniano III. O vândalo Geiserico agora era o monarca mais poderoso do Ocidente e aproveitou a oportunidade para saquar Roma, sem qualquer oposição militar. Ele levou para Cartago quase tudo que havia de valor na Cidade Eterna, incluindo o candelabro de sete braços do Templo de Jerusalém, que havia sido capturado por Tito e, não menos importante, a viúva e as duas filhas de Valentiniano III, aproveitando-se para, alguns anos depois, casar seu filho, Hunerico, com Eudocia, a mais velha.

Os Vândalos agora eram a principal ameaça ao Império do Ocidente. Desde 439 D.C, eles controlavam a melhor parte da África, que havia se tornado a principal fornecedora de cereais para Roma (o Egito fazia parte do Império do Oriente) e, partindo de Cartago,invadido à Sicília, chegando até mesmo a atacar cidades na Grécia, domínios do trono oriental.

A perda da África fora um duro golpe sofrido pelo Império Romano do Ocidente. Os impostos africanos, seja em moeda ou em produtos agrícolas, constituíam grande parte da receita ocidental e a capacidade de Ravenna pagar os seus soldados foi drasticamente reduzida. Como o Exército Ocidental, naquele momento, era praticamente composto por tribos germânicas à serviço do Império, além das desmoralizadas e maltratadas guarnições de tropas fronteiriças (limitanei), o fato é que, sem dinheiro, O Império do Ocidente não tinha muito a oferecer às tropas, fossem elas romanas ou bárbaras, a não ser, para estas últimas, a sua condição de presa fácil para saques e pilhagens.

Quem dava as cartas no Ocidente era Ricímer. Quando o seu imperador-fantoche Líbio Severo morreu, Ricímer, acossado pela real possibilidade de Geiserico colocar a sua própria marionete, Olíbrio, no trono, foi obrigado a referir a sucessão ao legítimo Imperador do Oriente, Leão, que nomeou Antêmio. Para selar a aliança, Antêmio deu a Ricimer a mão da própria filha, Alípia, em casamento.

Para que qualquer arranjo no Ocidente desse certo, no entanto, era necessário eliminar a ameaça vândala.

Leão planejou uma gigantesca operação militar combinada visando a esmagar os Vândalos para sempre: 1.113 navios zarpariam de Constantinopla, transportando forças estimadas em 100 mil homens (há controvérsias sobre esse número), sob o comando de seu cunhado Basilisco, para atacar diretamente Cartago. Concomitantemente, o general Heráclio deveria zarpar do Egito com direção à Tripolitana, e dali, marchar por terra contra Cartago. Enquanto isso, o general Marcellinus atacaria a Sicília e, após derrotar os invasores Vândalos lá instalados, rumaria também para Cartago.

A operação tinha começado bem, pois Heráclio conseguiu desembarcar em Tripolitana e Marcellinus dominou os Vândalos na Sicília. Porém, o grande erro de Leão foi ter escolhido o seu incompetente cunhado Basilisco, irmão da Imperatriz Verina, como comandante da principal ponta do ataque. Basilisco após conseguir dispersar a frota vândala na Sicília, facilmente fundeou na Baía de Cartago, mas, ao invés de imediatamente atacar Geiserico, inexplicavelmente, ele aceitou um pedido de trégua de 5 dias pedido pelo rei bárbaro. Geiserico aproveitou o refresco para construir novos barcos e balsas incendiárias, Como normalmente a sorte não ajuda a incompetência, no final da trégua, fortes ventos lançaram as balsas vândalas em chamas contra a frota romana e metade dela foi incendiada. Basilisco teve que fugir com os remanescentes para a Sicília, visando se juntar a Marcellinus. Este porém, foi assassinado, suspeita-se, a mando de Ricimer. Heráclio, quando soube da derrota em Cartago, resolveu recuar de volta para o Egito. Foi esse o final desastroso da campanha que poderia ter salvo o Império do Ocidente.

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O custo para o Tesouro do Império do Oriente foi imenso: toda a reserva de 100 mil libras de ouro foi gasta no custeio da expedição. Para resumir, Constantinopla agora estava quebrada.

Logo se seguiu um motim das tropas estacionadas na Trácia que quase conseguiram matar o seu comandante Zenão. As suspeitas da instigação da revolta recaíram sobre Áspar. Os Vândalos também aproveitaram a sua vitória e resolveram atacar diversas cidades costeiras na Grécia, devastando-as.

Zenão, porém, conseguiu sobreviver e quando voltou, teve a alegria de conhecer o filho que Ariadne lhe havia dado. A criança recebeu o nome do avô, Leão, que, agradecido, nomeou Zenão como Cônsul para o ano de 469 D.C., além de ser nomeado “Magister Militum per Orientem

Áspar sentindo a sua posição cada vez mais ameaçada, tentou recompor sua posição persuadindo Leão a nomear seu filho mais novo, Patrício, como “César” (título que na época do Baixo Império correspondia ao de príncipe-herdeiro) e a casá-lo com a outra filha do Imperador, Leôncia. Porém o clero e a população de Constantinopla se opuseram veementemente às pretensões de Áspar (promovendo um tumulto no Hipódromo), tendo em vista que ele e o filho eram cristãos arianos. Áspar, inclusive, teve que prometer que se converteria ao credo niceno, antes que o casamento fosse realizado.

Contudo, após a nomeação de Patrício, mas antes do casamento, Leão I e Zenão armaram uma cilada e conseguiram, em 471 d.C., assassinar Áspar e seu filho nais velho, Ardabur, no interior do Palácio Imperial. Algumas fontes contam que Patrício também foi morto, e outras que ele foi ferido, mas conseguiu sobreviver. Os soldados godos estacionados em Constantinopla tentaram vingar a morte do chefe atacando o Palácio, mas foram derrotados pelos Excubitores.

Com a morte de Áspar, o Império do Oriente diminuiu bastante a sua dependência dos chefes militares de origem germânica, que logo deixaram de ter ingerência nos assuntos internos imperiais, muito embora os Godos continuassem ocupando partes da Trácia e da Macedônia, agora governados pelo seu recém-eleito rei, Teodorico. Leão concordou também em pagar cerca de 1000 quilos de ouro aos bárbaros. Porém, um grupo de Ostrogodos, que não eram governados por Teodorico, resolveu atacar o Império do Oriente, saqueando a Dácia e a Macedônia.

Governando um estado falido pelo custo assombroso da expedição contra os Vândalos, Leão foi obrigado a espremer os já exaustos contribuintes romanos até o talo para conseguir administrar o Império.

Leão I faleceu em 18 de janeiro de 474 D.C, aparentemente de disenteria, aos 73 anos de idade, sendo sucedido, por um breve período, pelo seu neto, Leão II, de apenas 7 anos. O menino, porém, morreria, morreria em 17 de novembro daquele mesmo ano, de uma doença desconhecida, dando combustível a rumores de que teria sido envenenado para que fosse sucedido por seu poderoso pai, Zenão.

O reinado de Leão acabou sendo marcado pelo desastre da expedição africana. Podemos, é certo, culpar o imperador pela escolha de seu incompetente cunhado como comandante. Mas devemos observar que, frente a seus colegas imperiais do século V, Leão merece reconhecimento por ter tomado uma iniciativa muito ousada que, se tivesse sido bem sucedida, teria uma boa probabilidade de permitir a existência de um Império Romano do Ocidente viável, compreendendo a Itália, o sul da Gália e a África, o que teria mudado a História Mundial. Nesse caso, sem dúvida, o nome de Leão deveria ser incluído entre os grandes imperadores romanos.

Devemos também dar crédito à sua iniciativa de criar os Excubitores e afastar os soldados germânicos de Constantinopla, o que contribuiu para a sobrevivência e posterior grandeza do Império Romano do Oriente, ou Bizantino.