OTÃO

1- Antecedentes familiares, infância e juventude

Em 28 de abril de 32 D.C, nasceu Marcus Salvius Otho (Otão), no seio de uma família da antiga nobreza etrusca, originária de Ferentium, uma cidade da Etrúria. O avô de Otão, de nome idêntico ao seu, foi alçado ao Senado Romano por influência da influente imperatriz Lívia Drusila, na casa de quem inclusive, este avô havia crescido. Já o pai de Otão, Lucius Salvius Otho, gozava da intimidade do imperador Tibério, e, segundo as fontes, era tão parecido com este, que muitos suspeitavam de que ele fosse filho ilegítimo dele.

Detalhe da cabeça de Otho de uma estátua do acervo do Louvre. Foto Fred Romero from Paris, France, CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Commons

Por sua vez, Alba Terentia, mãe de Otão, vinha de uma família romana ilustre.

Não obstante, dada a proximidade da família de Otão com a dinastia dos Júlios-Cláudios, não surpreende que o seu pai tenha, desde cedo, conseguido seguir uma carreira pública: ele ocupou algumas magistraturas menores em Roma, foi nomeado Procônsul da África e, no reinado do imperador Cláudio, exerceu comandos militares na Ilíria, onde ele se notabilizou pela extrema severidade com relação à disciplina dos soldados, inclusive punindo com a morte legionários que haviam matado seus comandantes, não obstante estes tenham aderido a uma revolta contra o citado imperador, em 42 D.C., motivo pelo qual acabou incorrendo no desagrado da Corte.

Posteriormente, contudo, Lucius Salvius Otho recuperou seu prestígio após descobrir uma suposta conspiração de um integrante da classe Equestre que planejava assassinar Cláudio. Em reconhecimento, o Senado Romano decretou uma rara homenagem: que uma estátua de Otão deveria ser colocada no Palácio imperial.

Quando Otão nasceu, seu pai já tinha dois outros filhos: um chamado Lucius Salvius Otho Titianus, e uma filha de nome Salvia, que foi prometida a Drusus Caesar, filho do popular Germânico, morto em 19 D.C, que por sua vez tinha sido adotado por Tibério por determinação de Augusto. Este casamento, entretanto, não aconteceu, seja porque a menina morreu antes de atingir a idade para casar, seja pelo fato da família de Germânico ter caído em desgraça após a morte dele, sendo provavelmente esta a hipótese mais provável, pois as fontes relatam que, antes de morrer, Otão escreveu uma carta de despedida para uma irmã, ainda que não nominada. Suetônio menciona, ainda, que Otão, sua irmã e seu irmão mais velho eram todos filhos de Alba Terentia, mas considerando o cognomen do primogênito e a distância de idade entre Titianus e Otão, que devia ser de cerca de 20 anos, é bem possível que aquele fosse filho de um casamento anterior do pai deles.

Durante a infância e juventude precoce, segundo Suetônio, cujo relato é a base deste artigo, Otão não tinha bom comportamento, manifestando um temperamento turbulento e extravagante, chegando a obrigar seu pai a chicoteá-lo como castigo. O historiador conta, ainda, que Otão era dado a saídas noturnas pelas ruas de Roma junto com alguma turma de rapazes, ocasiões em que costumavam agarrar qualquer transeunte que aparentasse estar bêbado ou doente, jogá-lo em um cobertor, e sacudir e arremessar o pobre coitado para cima (em um procedimento algo similar ao “manteamento” tão bem descrito por Cervantes, em Dom Quixote).

Quanto à sua aparência e modos, assim Otão foi descrito por Suetônio:

Suetônio, “Vida dos Césares”; “Vida de Otão”, 12, 1

Esses obsessivos cuidados com a aparência e excessiva vaidade levaram o poeta romano Juvenal a mencionar expressamente Otão na sua Sátira de número 2, cujo título é “Moralistas sem Moral”, onde o poeta critica a decadência da elite romana e ridiculariza a efeminação de homens públicos:

Juvenal, “Sátiras”, Sátira 2

2- Ingresso no círculo imperial e carreira pública

O fato é que a personalidade e os modos de Otão acabariam aproximando-o do imperador Nero. Após cortejar uma liberta influente na corte imperial, apesar dela ser, nas palavras de Suetônio, “velha e quase decrépita“, ele conseguiu ingressar no círculo mais íntimo do imperador e, em pouco tempo, tornou-se o amigo mais próximo de Nero. De acordo com Suetônio, circularam relatos de que a amizade entre os dois pode ter ido além e envolvido “relações imorais“…

Provavelmente o boato nasceu do fato de que Nero e Otão tornaram-se tão íntimos a ponto de terem partilhado a mesma mulher, a rica Popeia Sabina, neta de um Cônsul, segundo os relatos de Suetônio, Tácito e Cássio Dião.

Cassius Dio, “Epitome of Book LXII”, 11,2

Os relatos dos três historiadores romanos acima citados acerca desse “affair” divergem apenas em poucos pontos: Segundo Suetônio e Cássio Dião, foi Nero, de quem Popeia já seria amante, que a ofereceu a Otão para que os dois celebrassem um casamento forjado, com a finalidade que Nero pudesse desfrutar dela com mais facilidade. Já de acordo com Tácito, o que ocorreu foi o contrário: Otão seduziu Popéia, casou-se com ela e, de tanto ele exaltar as qualidades da esposa para o imperador, Nero acabou interessando-se por Popeia. Mas todos convergem para o fato de que tudo se passou de acordo com a vontade da ambiciosa Popeia, que voluntariamente instigou a paixão do imperador por ela, não se afastando a hipótese de que ela tenha se casado com Otão já com este objetivo em mente.

Cabeça de Popeia

Nota: Popeia Sabina, com base em consideráveis evidências arqueológicas e epigráficas, pode ter nascido na cidade de Pompéia (não por causa do seu prenome), e certamente ela e sua família eram muito ligados à cidade e sua região, onde tinham propriedades, incluindo a fabulosa “Villa de Popeia”, na cidade vizinha de Oplontis, cujas ruínas foram admiravelmente preservadas pela erupção do Vesúvio, em 79 D.C.

Vista da Villa Poppea, em Oplontis

Essas fontes relatam que Popeia, após conseguir se fazer desejada por Nero, teria fingido relutância em trair Otão, ou, de outro modo, este, não suportando mais ter o imperador como rival, começou a dificultar o encontro entre este e a esposa.

Seja como for, o resultado foi que Nero, agora contrariado com as dificuldades que Otão, ou Popeia, ou estes dois juntos, estavam colocando em sua paixão pela última, decidiu, entre 58 e 59 D.C, nomear Otão para ser o governador da longínqua província da Lusitânia, uma designação que, na verdade, visaria acobertar do público o virtual exílio do antigo amigo e agora rival amoroso.

Para surpresa de muitos, Otão fez uma boa administração na Lusitânia, ficando lá por longos e incomuns dez anos. Nesse meio tempo, em 65 D.C, Popeia faleceu, provavelmente de complicações decorrentes de um parto ou aborto. Segundo boatos que circularam, registrados por Suetônio, Tácito e Cássio Dião, essas complicações teriam ocorrido por causa de um chute que Popeia teria levado de Nero no abdômen, segundo os dois primeiros historiadores, ou porque o imperador teria pulado sobre a barriga dela.

3- Atuação durante a aclamação e reinado de Galba

Quando a rebelião de Gaius Julius Vindex na Gália, no início de 68 D.C, pôs em marcha os eventos que resultaram na aclamação de Sérvio Sulpício Galba, governador da Hispânia, inicialmente por Vindex e, em seguida, por várias legiões, Otão imediatamente apoiou o governador da província vizinha a sua, tendo sido ele um dos primeiros a fazê-lo.

Abandonado pelo Prefeito Pretoriano, Ninfídio Sabino, que aderiu a Galba, e declarado inimigo público pelo Senado, que reconheceu a aclamação de Galba, Nero cometeu suicídio, em 09 de junho de 68 D.C.

Durante a marcha de Galba em direção à Roma, sabe-se que Otão teve participação ativa no avanço.

Em outubro de 68 D.C, Galba entrou na capital do Império e assumiu de fato as rédeas do governo. Porém, embora sua aclamação tenha sido recebida com algum entusiasmo, logo o novo reinado mostrou-se falho em manter a popularidade.

De fato, Galba, ao longo de sua carreira, sempre mostrou ser um chefe extremamente severo e, especialmente, um homem sovina. Os súditos e, especialmente, os militares, haviam se acostumado aos excessos de Nero quanto às benemerências e gratificações, e à condescendência quanto à disciplina. Também não ajudou o fato de Galba ser um homem já idoso e sem o “glamour” que envolvia os Júlio-Cláudios. Além disso, os cortesãos e os grupos que giravam em torno de Nero temiam as punições que já estavam ocorrendo. E os soldados esperavam recompensas.

Busto de Galba, foto: Gfawkes05, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

As fontes relatam que Galba, velho e atacado pela gota, deixava boa parte das questões de governo por conta de dois apoiadores de primeira hora: Titus Vinius, general que fazia parte do seu staff militar na Hispânia, um homem alegadamente corrupto, e que foi nomeado por Galba para servir como seu colega no primeiro consulado como imperador; e Cornelius Laco, o novo Prefeito Pretoriano, além de seu liberto, Icelus Martianus.

Com o objetivo de acalmar as legiões da Germânia e, talvez, de afastar um possível concorrente para o trono ou para a sua sucessão, Galba enviou o dissoluto e, aparentemente inofensivo, Aulo Vitélio, um notório glutão, para ser o governador da província, no final de 68 D.C. É bem possível que essa indicação tenha tido a influência de Vinius, que era amigo de Vitélio pelo fato de ambos apoiarem a facção dos Azuis nas corridas do Circo Máximo.

Entretanto, no dia em que Galba e Vinius assumiram o Consulado, em 1º de janeiro de 69 D.C, as legiões da Germânia se revoltaram e aclamaram Vitélio como novo imperador. As legiões estavam insatisfeitas com Galba porque esperavam recompensas pelo fato de terem debelado a rebelião de Julius Vindex. Segundo Tácito, as tropas também temiam alguma punição pelo fato de terem apoiado Nero contra Vindex e não terem declarado apoio a Galba na ocasião em que ele foi aclamado. Um emissário foi despachado imediatamente por Pompeius Propinquus, um agente imperial na vizinha província da Gália Bélgica levando a mensagem para Roma (Tácito).

Certamente percebendo a fragilidade de seu estado de saúde e, especialmente, a nova rebelião na Germânia, que sucedia alguns episódios prévios de indisciplina militar em seu reinado, fortaleceu-se em Galba, que não tinha filhos, a percepção de que era necessário nomear um sucessor, na esperança de que o estabelecimento de uma linha dinástica fortaleceria a sua posição e traria mais estabilidade ao governo.

Titus Vinius apoiava o nome de Otão para ser ungido como o herdeiro de Galba. Vale observar que Otão, segundo consta, estimulado por profecias de astrólogos, já vinha aproveitando, desde o início do reinado, toda oportunidade para se tornar o escolhido por Galba, alternando entre a descarada adulação ao imperador e a prestação de favores a qualquer pessoa que pudesse ter alguma influência, incluindo os militares da Guarda Pretoriana.

Todavia, para o grande desapontamento de Otão, prevaleceu a opinião de Cornelius Laco e de Icelus, que apoiavam Lucius Calpurnius Piso Frugi Licinianus. Sem dúvida, Piso Licinianus possuía um nome muito mais ilustre do que o do Otão. A gens Licínia era uma das famílias mais ilustres de Roma, embora inicialmente de origem plebeia, tendo gerado vários cônsules e um triúnviro. Além disso, por parte de mãe, Licinianus era descendente direto do triúnviro Pompeu, o Grande, e seu irmão foi marido de Cláudia Antônia, filha do imperador Cláudio. Não obstante, para Galba, o que teria pesado mesmo contra Otão era a associação dele com o reinado de Nero

Assim, em 10 de janeiro de 69 D.C, Lucius Calpurnius Piso Frugi Licinianus foi oficialmente adotado por Galba, em uma cerimônia realizada no Quartel da Guarda Pretoriana, em Roma, passando o herdeiro a adotar o nome de Servius Sulpicius Galba Caesar.

Vestígios do muro do Quartel da Guarda Pretoriana (Castra Pretoria), em Roma. Foto; Gustavo La Pizza, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

4- Ascensão ao trono

Ao receber a notícia da adoção de Lúcio Calpúrnio Pisão Licianiano por Galba, o ambicioso Otão não perdeu tempo de passar da decepção para a ação. Valendo-se de uma propina que obteve ao extorquir um liberto do imperador, no montante de um milhão de sestércios, Otão começou a subornar alguns guarda-costas do imperador. Vale observar que alguns desses pretorianos eram ligados a Tigellinus, o infame Prefeito Pretoriano de Nero, e eles sentiam-se ainda ligados a esse finado imperador, de cujo círculo íntimo Otão chegara a fazer parte. Tudo isso deu-se em um contexto de insatisfação geral da Guarda com a intensificação da disciplina e a falta de pagamento do donativo verificados no reinado de Galba.

Então, no dia 15 de janeiro de 69 D.C, enquanto Galba realizava um sacrifício ritual em frente ao Templo de Apolo, no Fórum Romano, acompanhado de Otão e vários senadores, os fatos foram precipitados pela predição de um advinho ao interpretar os presságios como indicando a existência de um plano para matar Galba. Premido pela revelação do plano, ou acreditando, por sua vez, que se tratava de um presságio favorável à conspiração, Otão deu uma desculpa para deixar a cerimônia e foi ao encontro dos guarda-costas que apoiavam o seu plano, que eram em número de vinte e três, próximo ao Marco Miliário de Ouro e ao Templo de Saturno, também no Fórum Romano.

Localização do Marco Miliário de Outro e do Templo de Saturno no Fórum Romano. Foto: Public Domain Book: Christian Hülsen, Bretschneider und Regenberg, 1904. Author Christian Hülsen died in 1935., Public domain, via Wikimedia Commons

Os 23 guarda-costas saudaram Otão como imperador e logo um número semelhante de Pretorianos se juntou ao grupo, que ergueu Otão em uma cadeira e dirigiram-se ao Quartel da Guarda Pretoriana, onde os oficiais e o resto dos soldados, confusos e cautelosos em tomar partido, não tomaram nenhuma atitude contra os revoltosos, no que provavelmente também contribuiu a antipatia geral que a tropa nutria contra Galba.

Entretanto, Galba prosseguia na realização da cerimônia religiosa, momento em que chegaram os rumores de que Otão estava sendo aclamado pela Guarda Pretoriana.

Galba e seu círculo íntimo resolveram que o mais adequado à situação era verificar se os guardas do palácio no Palatino continuavam leais. Assim, o seu herdeiro, Lúcio Calpúrnio Pisão Licianiano, foi até lá e fez um discurso conclamando-os a defenderem o seu imperador.

Assim que foi terminado o discurso, os integrantes do corpo de guarda-costas pessoais do imperador desapareceram, mas parte do corpo de pretorianos que estava no Palácio permaneceu em formação, atrás dos seus estandartes. Dois oficiais foram enviados ao Quartel da Guarda Pretoriana para se inteirar do ânimo da tropa, e lá chegando foram hostilizados e detidos pelos soldados. Para piorar, o destacamento de soldados-marinheiros da Frota Imperial, que ficava aquartelado em Roma aderiu aos revoltosos (eles haviam sido alvo de um banho de sangue perpetrado pelas tropas leais à Galba, quando estas entraram em Roma nos primeiros dias do reinado dele).

Uma turba invadiu as ruas do Fórum Romano, inicialmente clamando pela punição dos revoltosos.

Dois cursos de ação foram recomendados à Galba: a) Titus Vinius aconselhou que o imperador se entrincheirasse no Palácio e resistisse até que forças leais mais numerosas pudessem alcançar Roma e combater a Revolta; b) Cornelius Laco e Icelus defendiam que Galba fosse imediatamente ao encontro dos revoltosos com os poucos guardas que lhe eram leais enquanto a rebelião ainda estava incipiente e retomasse o controle das tropas.

Galba preferiu seguir o conselho de Laco e Icelus, talvez reforçado pelo falso boato de que Otão teria sido executado no Quartel da Guarda Pretoriana. O idoso imperador, então, vestiu uma couraça e, enquanto deixava o Palácio sendo carregado em uma cadeirinha, foi abordado por um pretoriano, que lhe disse que ele mesmo havia matado Otão, chegando a mostrar a espada ensanguentada. A resposta do severo e inflexível imperador foi:

Tácito, “Histórias”, Livro I, 35

Enquanto isso, o movimento no Quartel da Guarda Pretoriana transformou-se em rebelião generalizada, com os soldados aclamando Otão, vestindo suas armaduras e brandindo suas espadas, lanças e escudos com intenção de defendê-lo pela força das armas.

Logo os sons da rebelião e, em seguida, os primeiros destacamentos de revoltosos começaram a se aproximar do Fórum Romano, por onde trafegava a pequena comitiva de Galba, observada pela multidão espalhada pelas ruas, nos templos e nos edifícios públicos.

Todos puderam ter um prenúncio do que iria ocorrer quando o porta-estandarte do pelotão que escoltava Galba, ao perceber a chegada dos primeiros pretorianos amotinados, arrancou a efígie de Galba do estandarte. A multidão, ameaçada pelos soldados, e ciente do iminente desfecho, tentou fugir por onde fosse possível.

Alguns soldados de infantaria e cavalaria rebeldes aproximaram-se mais do cortejo imperial e um deles lançou um dardo, que acertou Galba sentado na cadeirinha em que era carregado. O imperador, ferido, caiu e rolou pelo chão, ocasião em que alguns relataram ter ouvido ele dizer:

Cássio Dião, “Epítome do Livro LXIV”, 5

Os soldados impiedosamente feriram várias partes do corpo de Galba, terminando por decapitá-lo. Durante todo o selvagem episódio, apenas um Guarda Pretoriano, um centurião de nome Semprônio Denso, tentou defender o imperador, conseguindo evitar a morte dele durante alguns momentos, lutando contra vários atacantes. A história pode ser consultada no artigo que escrevemos sobre Galba. Graças à ação de Semprônio, momentaneamente, Lúcio Calpúrnio Pisão Licianiano conseguiu escapar e se refugiar no Templo de Vesta, apenas para, um pouco mais tarde, ser capturado por ordens de Otão e terminar executado na frente do santuário. Já Titus Vinius, que acompanhava Galba, vendo a morte do imperador, tentou escapar, mas foi atingido por uma lança, e, em seguida, também foi executado no ato.

Reencenação de um centurião romano. Foto: I, Luc Viatour, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons

5- Reinado de Otão

No fim daquele dia de 15 de janeiro de 69 D.C, após ser aclamado pelos Pretorianos e pelos soldados-marinheiros da Frota Imperial no Quartel, que, naquele momento, eram os verdadeiros senhores da situação, Otão foi até o Senado Romano, onde os senadores imediatamente confirmaram a sua elevação, votando pela concessão de todos os poderes inerentes ao Principado.

Todavia, naquele momento a anarquia e a indisciplina dos Pretorianos era tanta que foram eles próprios que não apenas escolheram os seus novos comandantes, o simples soldado Plotius Firmus e Licininus Proculus, ambos ligados a Otão, mas também o novo Prefeito Urbano, escolha que recaiu sobre Flávio Sabino, que anteriormente havia sido escolhido por Nero para ocupar esse cargo (relato de Tácito, em suas “Histórias”. Sabino era irmão do respeitado general Vespasiano, que na ocasião conduzia a campanha romana contra a Grande Revolta dos Judeus, na província da Judéia. Laco e Icelus, ligados ao finado Galba, foram imediatamente executados, e Tigellinus forçado a cometer suicídio.

Nesse ínterim, a rebelião dos partidários de Vitélio ganhava adesões na Gália e no norte da Itália. Otão tentou fazer um acordo com o rival, enviando emissários com promessas de dinheiro e salvo-conduto para ir viver a salvo onde quer que ele escolhesse. Vitélio, por sua vez, também enviou uma mensagem de teor semelhante. Os generais partidários de ambos também enviaram ou tentaram enviar mensageiros às legiões controladas pelo oponente imperial. Inclusive, Fábio Valente, general de Vitélio, enviou emissários à Guarda Pretoriana, em Roma, oferecendo negociações e argumentando que Vitélio tinha sido aclamado primeiro que Otão.

Mensagens mais animadoras chegaram da Dalmácia, da Panônia e da Moésia haviam jurado lealdade a Otão. Entretanto, a boa nova foi contrabalançada pela informação que as legiões da Hispânia aderiram à causa de Vitélio. O substancial contingente de legiões estacionadas na Judéia, sob o comando de Vespasiano, juraram lealdade a Otão.

O novo imperador tentou alguns gestos conciliadores em relação a pessoas ilustres. algumas inclusive punidas nos reinados anteriores. Após exercer o consulado do ano de sua elevação juntamente com seu irmão, Salvius Titianus, até o mês de março, Otão, para os meses posteriores, nomeou uma série de senadores, no número total de 15, para serem Cônsules daquele ano. Ele também concedeu direito de cidadania romana a algumas cidades.

Aureus de Otão. Foto: Antiksikkeler, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Outras medidas, como o soerguimento de estátuas de Nero e da falecida imperatriz Popeia Sabina, parecem ter visado a agradar os partidários de Nero e o populacho da Cidade, no seio do qual o tresloucado imperador ainda gozava de bastante estima. Ele também reabilitou vários dos libertos que faziam parte do círculo íntimo do referido antecessor. Aparentemente, Otão pretendia, e assim o seu reinado estaria sendo percebido, como uma restauração do reinado de Nero. Sintomaticamente, o povo começou a chamá-lo de “Nero Otão“, um nome que, embora ele não tenha assumido oficialmente, também não consta ter proibido ou manifestado contrariedade.

Algo que contribuiu para reforçar o sentimento de continuidade em relação ao reinado de Nero, embora tenha sido considerado desabonador pelos historiadores romanos, foi o fato dele ter trazido para perto de si o escravo Sporus (Esporo), um rapaz que, devido a grande semelhança dele com a imperatriz Popeia Sabina, seguindo as ordens de Nero, foi castrado e passou a ser tratado por este imperador como se fosse a sua própria esposa.

Finalmente, de acordo com Suetônio, o imperador Otão destinou 50 milhões de sestércios para a conclusão da Domus Aurea, o suntuoso e espetacular palácio que Nero havia começado a construir em Roma, que ainda estava por ser terminado.

Alguns bárbaros, percebendo a turbulência política no seio do Império, aproveitaram para fazer incursões no território romano. Assim, os Roxolanos invadiram a província da Moésia com nove mil guerreiros montados. Porém, a Legião III, alerta e preparada para a ação, derrotou a tribo sármata com facilidade.

Todavia, na cidade de Roma, a indisciplina dos soldados permanecia: Em certa ocasião, os Pretorianos, da qual boa parte encontrava-se embriagada no Quartel, interpretou erroneamente uma movimentação de tropas e víveres e, acreditando que se tratava de uma tentativa de destronar Otão, um bando deles, após matar um dos seus comandantes, dirigiu-se ao Palácio e invadiu um banquete que estava sendo dado pelo imperador, que mostrou-se fraco e indulgente na ocasião. Nenhum soldado foi punido pelo episódio e eles ainda receberam uma gratificação de cinco mil sestércios para comprar a sua obediência. Para finalizar, os líderes da rebelião só foram punidos porque os próprios soldados assim o demandaram.

Em seguida, em meio aos preparativos para a expedição contra Vitélio, houve uma grande cheia do rio Tibre que inundou boa parte de Roma.

Tomadas as providências para minorar os danos da inundação, Otão retomou os planos para o confronto contra o rival: Ele enviou a frota para atacar a Gália Narbonense, um dos redutos de Vitélio e reforçou as tropas aquarteladas na cidade, predominantemente componentes da Guarda Pretoriana, com alguns outros contingentes. Julgando que os preparativos eram suficientes e tomando como exemplo negativo a postura passiva de Nero ante à rebelião que lhe custou a vida e o trono, Otão, em 14 de março de 69 D.C, partiu de Roma em direção ao norte da Itália.

No meio dessas ações iniciais, dois episódios merecem nota: Tito, o filho de Vespasiano, que havia sido enviado da Judéia pelo pai para prestar homenagens a Galba, ao saber que este havia sido assassinado, e que Otão assumira o trono tendo como contestantes Vitélio e suas legiões, achou mais prudente voltar e expor a situação ao pai, a fim de ver qual curso de ação tomar. Concomitantemente, apareceu na Ásia um impostor dizendo que ele era Nero, que teria conseguido escapar da Itália, conseguindo enganar e atrair um bom número de apoiadores. Mas a farsa não perdurou muito e o farsante foi capturado e morto.

A força militar à disposição de Otão foi reforçada com a chegada de quatro legiões: a VII, XI, XIII Gemina e XIV Gemina. Nero havia conferido a esta última muitas distinções e, por causa disso, esses soldados aderiram entusiasticamente à causa de Otão, que, envergando uma couraça de metal, marchava à frente de sua tropa citadina, majoritariamente composto de Pretorianos e dos Soldados-Marinheiros, aos quais se somaram algumas tropas esparsas, incluindo uma constituída de dois mil gladiadores. A pressa se justificava, pois parte do exército de Vitélio, comandado por Aulus Caecina Alienus, já tinha atravessado os Alpes, cujas passagens haviam sido asseguradas pela adesão de um contingente de cavalaria chamado de Sílios, e chegado à Itália. Por sua vez, o envio da frota mostrou-se frutífero e assegurou o controle da costa italiana até os Alpes Marítimos (cadeia de montanhas no litoral do Mediterrâneo que separa a Itália da França).

Otão enviou um destacamento avançado de suas forças para atacar a região dos Alpes Marítimos, tendo essas tropas causado grande dano aos habitantes locais, com saques e destruição de propriedades. O governador da província tentou defendê-la mediante o recrutamento dos aguerridos povos montanheses, mas estes, devido à falta de treinamento militar, foram facilmente subjugados.

No litoral da Gália, Fábio Valente, general de Vitélio, temendo a ameaça de um desembarque da frota próximo à importante cidade de Forum Julii (atual Fréjus, na França), enviou doze esquadrões de cavalaria, acompanhado de uma coorte auxiliar (unidade com cerca de 800 soldados) de Lígures (povo que habitava o sopé e a parte mais baixa dos Alpes) e 500 auxiliares Panônios.

As tropas de Otão ocuparam posições elevadas junto à costa e contavam com a proteção da frota no litoral adjacente. A batalha seguiu-se imediatamente e, devido à ação conjunta dos pretorianos, de camponeses recrutados para atirar pedras (talvez usando fundas) e das tropas embarcadas, resultou favorável ao exército de Otão. Em decorrência, as tropas de Vitélio foram obrigadas a recuar. Contudo, o sucesso distraiu as tropas de Otão, e, aproveitando-se disso, o exército de Vitélio atacou o acampamento adversário de surpresa, mas acabaram sendo repelidos.

Não tendo nenhum dos lados obtido uma vitória decisiva, os dois exércitos retiraram-se: o de Vitélio para Antipolis (atual Antibes, França) e o de Otão para Albingaunum (atual Albenga, Itália).

Não obstante, a maior ameaça para Otão era o fato de que um exército de Vitélio, comandado por Aulus Caecina, já havia descido os Alpes e ocupado a fértil planície do rio Pó, cruzando este mesmo rio e ameaçando a cidade de Placentia (atual Piacenza). Observe-se que a junção dessa força com aquela comandada por Fábio Valente poderia colocar o exército de Otão em perigosa desvantagem.

Spurinna, o comandante da guarnição de Placentia, leal a Otão, mandou fortificar as defesas da cidade, que foi atacada por Caecina, mas conseguiu resistir bravamente ao cerco que se seguiu. Assim, o general de Vitélio foi obrigado a recuar, cruzar de volta o rio Pó e buscar abrigo na cidade de Cremona. Durante esta retirada, positiva para a causa de Otão, contudo, algumas tropas desertaram e juntaram-se a Caecina.

A Legião I Adiutrix, uma legião recém-formada, comandada por Annius Gallus, que marchava em direção a Placentia para ajudar a guarnição da cidade na resistência ao cerco, ao saber da retirada de Caecina, entusiasmou-se e, mesmo sem que houvesse ordem de seu comandante, marchou em direção à Cremona, somente parando, após retomada a disciplina, na cidade de Bedriacum (Bedríaco, atual Calvatone), que ficava a meio caminho.

Nesse ínterim, uma ação inusitada, segundo Tácito, acirraria a falta de confiança e entusiasmo das forças partidárias de Otão: a força de dois mil gladiadores comandada por Marcius Macer logrou atravessar o rio Pó e atacou com sucesso unidades de auxiliares do exército de Vitélio, tendo parte conseguido fugir para Cremona e outra parte sido aniquilada. Apesar do sucesso, Macer ordenou que seus homens não explorassem esse sucesso, temeroso de enfrentar inimigos em maior número. Em seguida, o general Suetônio Paulino comandou outra ação bem-sucedida na localidade chamada de Locus Castorum, porém, da mesma forma e pelo mesmo motivo, decidiu interromper o avanço. Essas hesitações acabaram acarretando a desconfiança do grosso das tropas de Otão em seus comandantes. Em decorrência, o imperador foi obrigado a designar seu irmão, Titianus, como o comandante geral do seu exército, preterindo talentosos generais que já comandavam suas legiões no teatro de batalha, como era o caso de Suetônio Paulino (que havia derrotado com sucesso a grande revolta da rainha Boudica, na Britânia).

Após controlar um perigoso motim em suas tropas, Fábio Valente conseguiu unir-se ao exército comandado por Caecina, em Cremona, ocasião em que a rivalidade entre os dois ficou evidente.

6- Primeira Batalha de Bedríaco

A junção dos dois exércitos de Vitélio tornava urgente a definição de uma estratégia por parte de Otão. Os seus generais mais experientes, como Suetônio Paulino, cientes da inferioridade numérica, recomendaram evitar uma batalha e esperar que os suprimentos das forças de Vitélio se esgotassem, já que estes não controlavam o resto da Itália e nem as rotas marítimas. O rio Pó configurava uma barreira favorável à defesa e, portanto, manter as posições defensivas em cidades fortificadas ao longo do rio propiciaria que com a passagem do tempo, as tropas de Vitélio começassem a sofrer os efeitos da carência de víveres.

Entretanto, prevaleceram as opiniões de Titianus e do Prefeito Pretoriano Proculus, que defendiam um ataque imediato, porém recomendando que o imperador e sua guarda ficassem na retaguarda, aquartelados na cidade de Brixellum (atual Brescello), para a proteção de Otão e como reserva.

Alguns desertores, espiões ou ambos, levaram as resoluções do comando das forças de Otão ao conhecimento de Valente e Caecina, que planejaram um ataque simulado aos gladiadores de Otão. Seguiu-se um combate em que os gladiadores acabaram levando a pior, o que gerou mais insatisfação das tropas com o comandante deles, Macer, que foi substituído por Tito Flávio Sabino, sobrinho de Vespasiano (não confundir com o irmão deste, mencionado anteriormente).

Finalmente, em 14 de abril de 69 D.C, Titianus, o comandante do exército de Otão, decidiu atacar Cremona e forçar o engajamento decisivo.

Mesmo assim, durante o avanço para Cremona, os generais de Otão estavam relutantes e, sentindo as tropas fatigadas pela marcha e decidiram acampar em um trecho da Via Postumia, próximo a Bedríaco (atual Calvatone).

Local da Batalha de Bedríaco. Foto: Hannibal21, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

Segundo Suetônio, enquanto isso, dois centuriões das coortes pretorianas pediram para serem recebidos por Caecina, com o objetivo de entabular negociações. Antes que o real propósito dos pretorianos fosse conhecido, o comandante percebeu que seu colega Valente havia ordenado que suas tropas entrassem em formação de batalha, dando o respectivo sinal.

Então, a cavalaria do exército de Vitélio avançou, mas, surpreendentemente, ela foi repelida por um pequeno contingente das tropas de Otão. Mesmo assim, as forças de Vitélio se posicionaram em boa ordem, enquanto que as tropas de Otão se dispuseram em certa confusão, aparentando nervosismo e insatisfação com seus comandantes.

Para piorar a situação, espalhou-se entre as tropas de Otão um boato de que o exército de Vitélio havia desertado, não se sabe se propositalmente ou por acaso. Em decorrência, baixou sobre as primeiras um estado de desânimo, chegando os homens a saudarem os inimigos, que, mesmo assim, continuavam demonstrando animosidade contra eles.

Foi neste momento que o grosso do exército de Vitélio atacou.

Apesar de sua inferioridade numérica, desorganização e estado de ânimo, o exército de Otão ofereceu uma corajosa resistência. Como o campo de batalha era, em alguns trechos, entremeado de árvores e vinhedos, a luta adquiriu uma característica ora de combate homem a homem, ora de combate entre formações. As ações ofensivas foram feitas basicamente com espadas e machados, sem o arremesso de dardos.

Em outra parte do campo de batalha, entre o rio e a estrada, onde o terreno era plano e aberto, a experimentada Legião XXI Rapax de Vitélio engajou a Legião I Adiutrix de Otão, que nunca tinha visto combate real antes. Apesar disso, a Adiutrix, lutando com entusiasmo, conseguiu capturar a o estandarte-águia da Rapax. Porém, isto acabou inflamando os soldados da legião de Vitélio, e eles conseguiram matar em combate o comandante da Adiutrix, Orfidius Benignus, e capturar vários estandartes.

Ponte sobre o rio Oglio, afluente do Pó, em Calvatone (antiga Bedríaco). Alguns dos combates descritos no texto podem ter tido esse local como cenário. Foto: Massimo Telò, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

Enquanto isso, outra legião de Vitélio, a V Alaudae, conseguiu desbaratar a Legião XIII, de Otão, tendo outra legião “Otoniana”, a Legião XIV, experimentado o mesmo revés. Nesta altura do combate, os generais de Otão abandonaram o campo de batalha. A situação do exército de Otão piorou quando a temível unidade dos Batavos, que integrava as forças de Vitélio, chegou ao campo de batalha e conseguiu destroçar o contingente de gladiadores de Otão que havia atravessado o rio.

O símbolo da Legião V Alaudae era um elefante. Foto: CatMan61, Public domain, via Wikimedia Commons

Em franca desvantagem, o restante do exército de Otão foi obrigado a fugir em desordem e procurar abrigo em Bedríaco. Os seus comandantes foram recebidos com hostilidade pelos soldados no acampamento. Não obstante, parte dos soldados, inclusive dos Pretorianos, ainda considerava que eles poderiam continuar a luta.

O exército de Vitélio avançou até o marco de cinco milhas da que partia de Bedríaco e decidiu esperar. No dia seguinte, a disposição dos soldados no acampamento mudou e eles resolveram enviar uma delegação para negociar com os generais de Vitélio. Após alguma hesitação, esta delegação voltou acompanhada de uma enviada pelo exército de Vitélio, a qual foi recebida com emoção pelos acampados.

Nesse meio tempo, Otão aguardava com ansiedade as novas da batalha em Brixellum. Ele ainda tinha consigo uma quantidade apreciável de tropas e sabia que havia outras legiões que, formalmente, ainda lhe eram leais que poderiam chegar de outros pontos do Império. As lideranças dos soldados que estavam com ele manifestaram o desejo de continuar lutando, tendo Plotius Firmus, Prefeito da Guarda Pretoriana sido vocal neste sentido. Inclusive, integrantes de destacamentos das legiões da Moésia que se encontravam no acampamento, afirmaram que as tropas desta província já teriam alcançado a cidade de Aquileia, e em breve reforçariam o exército de Otão.

Naquele momento, de acordo com o relato do historiador Tácito (Nota: o nosso relato da batalha é praticamente uma transcrição do texto deste historiador), o imperador Otão fez o seguinte discurso aos seus soldados:

Tácito, Histórias, Livro II, 46

O historiador Suetônio transcreve um discurso de teor semelhante, embora com texto diferente. Sabemos que os historiadores antigos usavam como recurso narrativo inventar discursos de pessoas célebres em momentos decisivos. Tácito é considerado um historiador mais confiável em relação às fontes, mas ele também costumava inventar discursos. O certo é que todos os historiadores que relataram esses fatos concordam que Otão se dirigiu aos soldados e fez um discurso declarando o desejo de interromper a guerra civil e tirar a própria vida, para evitar mais derramamento de sangue.

7- Morte de Otão

Após o discurso, Otão mandou queimar documentos que poderiam comprometer os seus partidários e distribuiu dinheiro para algumas pessoas. Alguns militares chegaram a ameaçar um motim, mas o imperador conseguiu demovê-los. Ele tinha a seu lado seu jovem sobrinho, Lucius Salvius Otho Cocceianus, filho de seu irmão Titiano, a quem ele tranquilizou, dizendo que não tivesse medo (de fato, o rapaz foi poupado por Vitélio e viveu até o reinado de Domiciano, quando chegou a ser Cônsul, no ano de 82 D.C.., mas, segundo consta, este imperador o teria executado pelo simples fato dele haver comemorado o aniversário de Otão).

Então, Otão retirou-se para sua tenda, despediu seus amigos e apanhou duas adagas que lhe tinham sido trazidas. Após matar a sede com um tanto de água fria, o imperador dormiu um pouco. Quando o dia 16 de abril de 69 D.C. raiou, finalmente, ele se jogou sobre uma das adagas e morreu, faltando onze dias para completar 37 anos de idade.

Em obediência às suas instruções, o cadáver de Otão foi rapidamente cremado em uma pira, sendo que, durante a cremação, alguns soldados, emocionados, cometeram suicídio. Os seus restos foram sepultados em um modesto mausoléu, contendo apenas uma inscrição com o seu nome.

Mesmo após a morte de Otão, seus soldados chegaram a se amotinar e obrigar o general Lucius Verginius Rufus a aceitar ser aclamado como imperador, mas este se recusou (como já havia ocorrido quando ele derrotou a rebelião de Gaius Julius Vindex).

Os soldados, então, aceitaram a realidade e enviaram uma delegação composta por alguns generais, que submeteram aos generais de Vitélio a capitulação e o reconhecimento deste como novo imperador.

De acordo com o historiador romano Cássio Dião, quarenta mil soldados pereceram nos combates em Bedríaco.

8 – Epílogo

Em 19 de abril de 69 D.C, o Senado Romano formalmente declarou Vitélio imperador. Este, quando recebeu a notícia da vitória de suas tropas e da morte da Otão, prontamente dirigiu-se para Roma, onde fez uma entrada triunfal. Os homens fortes do novo reinado eram, obviamente, os generais Caecina e Valente. O novo imperador tentou, inutilmente, como seus predecessores, contentar a ganância dos soldados, sem conseguir discipliná-los. Para isso contribuiu o comportamento desregrado e a sua falta de compostura, que naturalmente não estimulava o respeito dos militares nem o suporte por parte da elite senatorial. Como seu predecessor, Vitélio parece ter procurado demonstrar que seu reinado manteria a orientação favorável a Nero.

Porém, em julho de 69 D.C., os exércitos do Oriente aclamaram como imperador o respeitado general Vespasiano, que comandava a campanha contra a Revolta dos Judeus. A situação de Vitélio piorou quando as legiões da Panônia, sob o comando de Antonius Primus, e da Ilíria, sob o comando de Cornelius Fuscus, declararam-se a favor de Vespasiano e marcharam para invadir a Itália. Em breve, os exércitos dos rivais encontrariam-se novamente nas proximidades de Cremona, e travariam a Segunda Batalha de Bedríaco.

9- Conclusão

A despeito de seus vícios tão enfatizados pelas fontes antigas, Otão não parece ter sido pior do que alguns de seus antecessores ou sucessores. Devemos, então, nos debruçar mais sobre os aspectos estruturais, sem deixar de relacioná-los com as ações do próprio Otão. A crônica da vida e do reinado dele demonstra a disfuncionalidade que havia quanto ao Principado no que se refere à natureza do regime e ao princípio da sucessão, algo que já abordamos no nosso artigo sobre Nero. Essa disfuncionalidade foi herdada da crise do final da República, em que o poder político se sustantava nas legiões recrutadas por generais-políticos ambiciosos. Augusto foi bem-sucedido em cooptar a elite senatorial sob uma aparência de manutenção de seus privilégios na ordem republicana, mas não conseguiu estabelecer um princípio sucessório que assegurasse a continuidade de sua dinastia. A queda de Nero reabriu a oportunidade para que aventureiros ambiciosos aliassem-se à ganância dos soldados, resultando em imperadores fracos, com pouca autoridade sobre os militares, e em um regime instável. O capítulo final da vida de Otão, e a nobreza demonstrada em sua morte, mostra que ele não era um romano tão degenerado como se supunha. Mas somente um governante com autoridade moral, comportamento respeitável, sensatez e ascendência sobre as tropas, como Vespasiano, conseguiria restaurar a estabilidade do regime imperial.

FIM

Fontes:

1- Suetônio, “Vida dos Doze Césares”; “Vida de Otão”, em https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Suetonius/12Caesars/Otho*.html

2- Tácito, “Histórias”, Livros I e II, começa em https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Tacitus/Histories/1B*.html

3- Cássio Dião,Epítome dos Livro LXIII e LXIV“, em https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Cassius_Dio/63*.html

4-Juvenal, Sátiras, Sátira 2, em https://www.tertullian.org/fathers/juvenal_satires_02.htm

AVE, GEORGIOS!

Em 23 de abril de 303 D.C, um soldado romano chamado Georgios foi executado por ordens do Imperador Romano Diocleciano.

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Diocleciano havia ordenado que todos os soldados do Exército Romano oferecessem um sacrifício aos deuses do panteão tradicional de Roma e aqueles que se recusassem deveriam ser presos.

Georgios (Jorge), segundo a hagiografia e a tradição cristã seria filho de Gerontius, um oficial romano da ilustre família senatorial dos Anícios, e Pollycronia, uma súdita romana de Lydda, atual Lod, em Israel, então situada na província romana da Síria Palestina. Segundo outro relato, Gerontius seria natural da Capadócia. De qualquer modo, as fontes acordam que Jorge cresceu em Lydda e que sua família era cristã.

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(Mosaico romano descoberto em Lod, Israel)

Seguindo a carreira do pai, Jorge se alistou na guarda imperial, servindo na corte de Diocleciano em Nicomédia (atual Izmit, na Turquia), que havia sido elevada pelo imperador à condição de capital imperial, no recém-criado sistema da Tetrarquia.

Jorge acabou sendo promovido ao posto de Tribuno, que hoje seria equivalente ao de coronel. Quando Diocleciano publicou seu Édito exigindo que os soldados cristãos renunciassem ao cristianismo, Jorge anunciou publicamente, perante as tropas formadas na presença do Imperador, sua devoção a Jesus Cristo.

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O Imperador, que apreciava Jorge tentou convencê-lo de várias formas a obedecer o Decreto, até oferecendo-lhe terras, dinheiro e escravos, mas Jorge manteve-se irredutível.

Sentindo-se obrigado a reforçar a obediência ao seu Édito, Diocleciano ordenou que Jorge fosse torturado em uma roda de afiadas espadas. Após este suplício, Jorge foi decapitado em frente às muralhas de Nicomédia, em 23 de abril de 303 D.C. Seu corpo foi levado para Lydda e logo se tornou foco de devoção como relíquia de umt mártir cristão. Ainda segundo a tradição, a imperatriz Alexandra, esposa de Diocleciano (segundo as fontes históricas, o nome da esposa dele era Prisca), ao assistir o martírio de Diocleciano, converteu-se ao cristianismo, motivo pelo qual ela também foi executada e, posteriormente, canonizada.

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(Panorama de Izmit, a antiga Nicomédia, na Turquia)

A associação de São Jorge ao dragão parece ter sido recolhida e trazida à Europa pelos cruzados no Oriente Médio (algumas populações islamizadas inclusive mantiveram a veneração a São Jorge na região).

Segundo a lenda, na cidade de Sylene (que poderia ser Cirene, na Líbia ou, segundo alguns, seria a própria Lydda), um dragão ( originalmente um crocodilo) viveria na fonte de água potável dos habitantes, que eram obrigados a oferecer ao monstro uma ovelha para sacrifício, até que, na falta dos animais, eles foram forçados a oferecer uma virgem. A donzela orou pedindo proteção e São Jorge apareceu e matou o dragão, motivo pelo qual todos os habitantes se converteram ao cristianismo.

Jorge foi canonizado pelo Papa Gelásio I, em 494 D.C. Embora o santo fosse conhecido no Ocidente, a sua popularidade chegou ao ápice com o retorno à Europa dos cruzados, que atribuíram à intervenção de São Jorge várias vitórias obtidas na Terra Santa. Por influência deles, São Jorge acabou virando o santo patrono da Inglaterra, de Portugal, da Geórgia, da Romênia e de Malta. A imagem de São Jorge matando o dragão também compõe a Cota de Armas da Federação Russa.

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MACRINO

Segundo o historiador Cássio Dião (Epítome do Livro 79, Marcus Opellius Macrinus (Macrino) nasceu na cidade de Caesarea (atual Cherchell, na Argélia), na província romana da Mauritania Caesariensis, estima-se que por volta do ano de 165 D.C.

Cássio Dião descreve Macrino como sendo um “Mouro”, o que significa que provavelmente ele era de origem berbere. Já os pais dele, por sua vez, ainda de acordo com o relato do referido historiador, seriam de “origem obscura”, significando que não se sabia nada sobre a condição social deles. Como evidência de sua origem Moura, o texto menciona que Macrino tinha uma de suas orelhas furada, presumivelmente para usar um brinco ou outro adorno, no que seria um costume característico dos Mouros.

Busto de Macrino, Palazzo Nuovo, Roma. Aumentando-se a foto nota-se parece haver algo no lóbulo da orelha direita. Seria um brinco? Pretendo inspecionar de perto quando voltar à Roma. foto: <a href=”https://www.flickr.com/photos/mumblerjamie/, CC BY-SA 2.0 https://www.flickr.com/photos/mumblerjamie/, CC BY-SA 2.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0&gt;, via Wikimedia Commons

As fontes romanas relatam que, em algum momento de sua vida, Macrino adquiriu um respeitável conhecimento da legislação e jurisprudência romanas, chegando a exercer a advocacia, uma atuação que chamou a atenção de Plautianus, o desafortunado sogro do imperador Caracala, que o contratou para ser ser seu secretário particular. Conseguindo escapar da desgraça de Plautianus, que foi executado ainda durante o reinado de Septímio Severo, o promissor Macrino foi nomeado Superintendente (Curator) da Via Flamínia, uma estrada importante estrada que ligava Roma à cidade de Rimini. Certamente, este era um posto que dava visibilidade política e também permitia ao seu titular amealhar bastante dinheiro, uma prática bem comum entre os homens públicos romanos.

Durante o reinado de Caracala, a carreira de Macrino continuou em ascensão e ele foi nomeado para um cargo não especificado de Procurador, muito provavelmente um cargo de Procurator Augusti, administrando a arrecadação de tributos ou Fiscus (rendas e patrimônio da casa imperial). Também sabemos que Macrino recebeu o anel de ouro que simbolizava o pertencimento à classe dos Equestres (status social que vinha abaixo da nobreza senatorial), uma vez que os referidos cargos eram exclusivos deste grupo. De acordo com Cássio Dião, essas funções foram exercidas por Macrino com eficiência e correção.

Contudo, a História Augusta, uma coleção de biografias imperiais escrita por volta do século IV D.C. (e considerada não muito confiável pelos historiadores modernos, devido aos seus vários erros factuais e algumas contradições), apresenta uma versão mais deletéria da vida de Macrino, citando outros autores, não obstante, no próprio texto, o autor faça questão de advertir que são relatos duvidosos.

Assim, de acordo com a História Augusta, referindo afirmações feitas por um suposto historiador chamado Aurelius Victor, Macrino, durante o reinado de Cômodo (180-192 D.C.), era um escravo liberto e teria sido um “prostituto público”, encarregado de tarefas servis no Palácio, sendo, além disso, corrupto. Posteriormente, já no reinado de Septímio Severo, Macrino teria sido banido para a África por aquele imperador, província onde ele se dedicou a estudar, começando por defender pequenas causas perante os tribunais, dedicando-se à Oratória, após o que, finalmente teria conseguido tornar-se um magistrado. Então, Festus, um outro liberto que tinha sido colega de Macrino, conseguiu que este recebesse o anel de Equestre e, no reinado do imperador Verus Antoninus*, ele foi nomeado Procurador do Fisco.

*Nota: Esta referência é considerada um erro crasso do autor da História Augusta, já que Macrino seria no máximo uma criança de tenra idade quando Lucius Verus foi imperador, sendo que o autor provavelmente quis se referir a Caracala, cujo nome oficial era Marcus Aurelius Antoninus)

E a História Augusta ainda cita outras passagens sobre a vida de Macrino, provenientes de outros autores não identificados, os quais mencionaram que ele teria chegado a lutar na arena como gladiador-caçador (isto é, um venator, tipo de gladiador que capturava feras e outros animais selvagens na arena, além de se apresentar como domador, fazendo-os performar truques) sendo que, após receber o diploma honorário de dispensa da profissão, ele mudou-se para a Província Romana da África.

De qualquer modo, as fontes concordam que Macrino exerceu o cargo de Procurador com zêlo e confiabilidade suficiente para fazer com que Caracala o nomeasse Prefeito Pretoriano, em 214 D.C., tornando-se um dos comandantes da Guarda Pretoriana. Este era um posto que inicialmente compreendia apenas o comando da Guarda, mas que, no decorrer do período imperial foi sendo expandido para abranger também o comando das tropas da Itália e outras unidades mais próximas ao imperador. Posteriormente, tornaria-se um dos cargos mais importantes da administração civil, de certa forma análogo ao de um primeiro-ministro ou grão-vizir. Normalmente, eram dois os Prefeitos Pretorianos, mas, sob Caracala, chegaram a haver três simultaneamente, sendo, um deles, Macrino. O outro era Marcus Oclatinius Adventus, que também havia sido anteriormente Procurator Augusti, algo que talvez demonstre um padrão nas nomeações de Caracala. Observe-se que, pela tradição, o cargo de Prefeito Pretoriano também era destinado à homens pertencentes à Classe Equestre.

Busto de Caracala

Apesar da nomeação, Macrino parece não ter gozado da estima do imperador, que, segundo Herodiano, chegou a criticá-lo por ser adepto demais da boa mesa e também por ser efeminado.

Para não nos alongarmos muito, cumpre relatar que Macrino, na condição de Prefeito Pretoriano, acompanhou, juntamente com seu colega Adventus, Caracala na expedição contra os Partas. Durante a expedição, Flavius Maternianus, que havia ficado em Roma para comandar os Guardas durante a campanha, teria enviado uma carta a Caracala relatando que um vidente teria tido uma visão em que Macrino seria o novo imperador. Entretanto, Macrino, que já estava preocupado com a má disposição que o imperador vinha demonstrando contra ele, teve acesso primeiro à correspondência e, após ler a carta, removendo-a do malote, compreendeu que certamente seria executado se a profecia chegasse ao conhecimento de Caracala.

Assim, visando salvar a própria vida, Macrino abordou o soldado Julius Martialis, integrante da guarda pessoal do imperador, com quem ele tinha uma ligação próxima, o qual estava insatisfeito com Caracala pelo fato deste ter mandado executar injustamente o irmão dele, também soldado e convenceu-o a executar o imperador, da maneira já narrada no tópico antecedente.

No dia 8 de abril de 217 D.C, quando a caravana de Caracala se dirigia da cidade de Edessa para Carras (atual Harran, na Turquia) parou pelo simplório motivo dele fazer suas necessidades no mato, Martialis, que o seguia de perto, atravessou Caracala com sua espada e, em seguida, tentou fugir, sendo morto por um arqueiro.

Localização de Carras (Harran). Foto:Attar-Aram syria, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Em 11 de abril de 217 D.C., três dias após o assassinato, e sob a iminência do exército ser atacado pelos Partas, as tropas aclamaram Macrino imperador. Vale observar que, antes, a coroa foi oferecida a Marcus Adventus, porém este recusou, alegando estar muito velho.

Importante notar que Macrino foi o primeiro imperador romano não oriundo da classe senatorial, em quase 250 anos de período imperial. Em uma sociedade marcadamente classista e estratificada como a romana, certamente era uma condição capaz de diminuir a legitimidade do imperador. Não obstante, Caracala era tão detestado pelo Senadores que a notícia da aclamação de Macrino foi bem recebida e confirmada pelo Senado Romano.

Em seguida, Macrino concluiu uma paz com os Partas, mas, ao invés de desmobilizar o Exército reunido para a campanha, mandando-o de voltas para os seus quartéis nas fronteiras, e voltar para Roma, ele preferiu ficar em Antióquia, decisão que foi considerada um erro pelos autores antigos. Ali, Macrino ficou um tempo desfrutando de luxo e prazeres, vestido com roupas luxuosas e extravagantes, o que, aparentemente, nos dá uma pista de que as anteriormente mencionadas críticas de Caracala não seriam infundadas.

Então, os soldados passaram a sentir nostalgia de Caracala, que se comportava como um deles. Além disso, a crise fiscal ocasionada pelo aumento dos gastos militares necessitava de medidas urgentes. Macrino, então, decidiu que os novos recrutas do Exército receberiam um soldo menor do que os já engajados. A ideia era não desagradar os soldados já em exercício, mas isso acabou sendo percebido como uma antecipação de futuros cortes nos soldos deles.

A insatisfação das tropas com Macrino não passou despercebida às influentes mulheres da família de Caracala. A imperatriz Júlia Domna havia morrido, de câncer no seio, pouco depois dele assumir o trono. Macrino, então, ordenou que a irmã dela, Júlia Maesa, deixasse Roma e voltasse para a cidade natal delas, Emesa, na Síria, junto com suas filhas, Júlia Soêmia e Júlia Maméia, e seu neto, Sextus Varius Avitus Bassianus, que ficaria conhecido como Elagábalo (ou Heliogábalo), filho da primeira.

Moeda com a efígie de Júlia Maesa. Foto: Bibliothèque nationale de France, Public domain, via Wikimedia Commons

Ocorre que Macrino permitiu que Júlia Maesa mantivesse com ela a imensa fortuna que a família, que já era riquíssima pelo fato de governarem a cidade e chefiarem o culto ao deus El-Gabal, tinha amealhado durante mais dos 20 anos em que fizeram parte da família imperial. Certamente, este dinheiro facilitou que Júlia Maesa convencesse os soldados da III Legião Gallica, cujo quartel ficava próximo à Emesa, que seu neto, considerado um adolescente muito bonito, chamado Elagábalo, em homenagem ao referido deus, era filho ilegítimo de Caracala, a quem as tropas tanto adoravam. Assim, em 16 de maio de 218 D.C, o comandante da Legião, Publius Valerius Comazon, aclamou Elagábalo imperador.

A reação de Macrino, que aparentemente não deu a importância devida à rebelião, foi nomear seu filho, Diadumeniano, de dez anos de idade, como co-imperador e enviar um destacamento comandado pelo novo Prefeito Pretoriano, Ulpius Julianus. Porém, ao chegarem ao acampamento dos rebeldes, os soldados de Ulpius, ao verem Elagábalo nos muros e os soldados revoltosos com suas bolsas cheias de dinheiro, desertaram e aderiram à rebelião. A cabeça de Ulpius foi cortada e enviada a Macrino.

Áureo de Diadumeniano. Foto Numismatica Ars Classica NAC AG, CC BY-SA 3.0 CH https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/ch/deed.en, via Wikimedia Commons

Em 8 de junho de 218 D.C, uma força comandada pelo tutor de Elagabálo aproximou-se de Antióquia. Macrino decidiu dar combate ao exército rebelde, mas, durante os combates, o imperador, descrente do resultado, abandonou o campo de batalha e voltou para Antióquia. Na cidade, contudo, estouraram tumultos e Macrino resolveu fugir em direção à Roma, despachando Diadumeniano para que este encontrasse abrigo entre os Partas.

Ao chegar à cidade de Calcedônia, Macrino foi reconhecido e capturado, sendo mantido em cativeiro. Por sua vez, a caravana conduzindo Diadumeniano foi interceptada na cidade de Zeugma e o menino assassinado. Quando a notícia chegou ao conhecimento de Macrino, ele tentou fugir, sem sucesso, terminando por ser também executado, ainda durante o mês de junho de 218 D.C. A cabeça dele foi enviada à Elagábalo, o novo imperador.

FIM

CARACALA – UM IMPERADOR PARA OS SOLDADOS

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Nascido a 4 de abril de 188 D.C, em Lugdunum, na província da Gália (atual Lyon), com o nome de Lucius Septimius BassianusCaracala era o filho mais velho do imperador Septímio Severo e da imperatriz Júlia Domna.

Severo foi o primeiro imperador romano que não descendia de uma família de origem italiana (ao menos por parte de pai,) pois a sua tinha origem púnica ou berbere, nativa da cidade de Leptis Magna, na atual Líbia. Porém, a família ascendera à classe Equestre, e dois primos de Severo já tinham ocupado o consulado durante o reinado do imperador Antonino Pio.

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(Septímio Severo, pai de Caracala)

Já a mãe de Caracala, a imperatriz Júlia Domna, uma mulher admirada por sua beleza e inteligência, era filha de Julius Bassianus, sumo-sacerdote do Templo do deus Elagábalo (El-Gabal), em Emesa (moderna Homs), na Síria, e membro da dinastia dos Sempseramidas, governantes daquela cidade, que era a capital de um reino-cliente de Roma, que depois foi anexada pelo Império.

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(Júlia Domna, mãe de Caracala)

Cinco anos após o nascimento de Caracala, em 193 D.C, seu pai Septímio Severo se tornaria imperador e reinaria até 211 D.C. Severo queria fazer crer que era filho ilegítimo do finado imperador Marco Aurélio e, por isso, além  de acrescentar o nome deste imperador ao seu, mudou o nome de Caracala para Marcus Aurelius Severus Antoninus Augustus, numa tentativa de legitimar a si e a sua prole como continuadores da bem-sucedida dinastia dos Antoninos, que terminara de fato com o assassinato do imperador Cômodo.

O apelido Caracala surgiu porque Lucius Septimius Bassianus gostava muito de usar um manto com capuz, de origem gaulesa, chamado de “Caracalla“.

Severo, desde cedo, demonstrou que não iria reviver o costume dos Antoninos, que fora interrompido com a nomeação de Cômodo por seu pai, Marco Aurélio, de se escolher, como herdeiro e sucessor do imperador, o homem público  mais apto, e não o próprio filho biológico.

Assim, em 196 D.C, Caracala foi nomeado “César” (título equivalente ao de príncipe-herdeiro) e, em 28 de janeiro de 198 D.C, ele seria reconhecido como “Augusto“, tornando-se de direito co-imperador junto com seu pai, embora ele tivesse apenas 9 anos de idade.

Em 202 D.C, Severo concordou em casar Caracala com Plautila, filha do seu primo e conterrâneo, o poderoso Prefeito Pretoriano Plauciano.

Caracala odiava o sogro e a esposa e, após o seu casamento, recusou-se a ter qualquer relacionamento com Plautila. Na verdade, consta que Caracala teria chegado a prometer que, quando se tornasse imperador, daria cabo de ambos, o que pode ter levado Plauciano a conspirar contra Severo, ou, ao menos, esse foi o pretexto que Caracala usou para conseguir a queda e execução do sogro e o exílio de Plautila, em 205 D.C.

Parece que Severo pretendia ser sucedido, após a sua morte, conjuntamente por Caracala e por seu filho mais novo, Geta, que era um ano mais novo do que o irmão e foi nomeado César em 198 D.C e, posteriormente, Augusto em 209 D.C.

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(Uma das poucas imagens de Geta que sobreviveram à Damnatio Memoriae ordenada por Caracala)

Os dois irmãos destacavam-se pela dissolução dos costumes, promovendo orgias, e, igualmente, pelo ciúme e ódio que nutriam um pelo outro.

Segundo as fontes antigas, Severo, enquanto encontrava-se em campanha contra os Caledônios na Britânia, caiu gravemente enfermo, e, pressentindo que ia morrer, mandou chamar Caracala e Geta, para dar-lhes a notícia e um derradeiro conselho para o futuro reinado de ambos, que foi este:

Não briguem entre si, deem muito dinheiro aos soldados e desprezem todos os outros“.

No dia 4 de fevereiro de 211 D.C, em Eboracum (atual York), Severo morreu. No mesmo dia, Caracala e Geta foram aclamados imperadores pelas tropas. Ambos decidiram imediatamente interromper a campanha e voltar para Roma.

Porém, a animosidade entre os irmãos-imperadores era tanta que o Palácio teve que ser dividido em dois, e, mesmo assim, não satisfeitos, eles chegaram a cogitar seriamente em dividir o Império Romano em duas metades, cem anos antes de Constantino, que tomou a medida por motivos muito mais relevantes.

Não demorou muito para que Caracala colocasse em prática um plano para se livrar do irmão.  Assim, simulando um falso desejo de reconciliação, ele persuadiu Júlia Domna a convocar um encontro ente ele e Geta. Quando Geta chegou na ala do Palácio ocupada pela mãe,  um grupo de membros da Guarda Pretoriana fiéis a Caracala esfaquearam-no, e Geta morreu nos braços de Júlia Domna, em dezembro de 211 D.C.

Não satisfeito em mandar matar Geta, Caracala quis também eliminar qualquer referência histórica ao irmão, ordenando a sua “Damnatio Memoriae“. Em decorrência, a imagem de Geta deveria ser apagada de qualquer monumento público, o que efetivamente foi feito, como se pode ver em uma famosa pintura que chegou até os nossos dias,  proveniente do Egito, onde o retrato de Geta, ainda criança, junto da família imperial, foi apagado.

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(Painel de madeira pintada com os retratos de Septímio Severo, Júlia Domna e Caracala, ainda criança. A imagem de Geta foi apagada, em obediência à Damnatio Memoriae).

Caracala, que, logo no primeiro ano de reinado, decidira não obedecer o primeiro conselho do pai, matando o irmão, entretanto seguiria à risca o segundo conselho, aumentando em 50% o soldo dos legionários. Não satisfeito, o imperador foi além e passou a cortejar os soldados, marchando junto com eles, comendo com eles o mesmo rancho, e até mesmo moendo grãos para fazer a farinha para o rancho.

Também no início do seu reinado, Caracala ordenou a construção de um gigantesco complexo de banhos públicos, que ficariam conhecidos como as “Termas de Caracala” e seriam as maiores já construídas em Roma,  até a construção das Termas de Diocleciano, 90 anos mais tarde.

Em 213 D.C., Caracala teve que deixar Roma para ir combater os bárbaros Alamanos, que ameaçavam a fronteira da Raetia (província que fazia fronteira com a Germânia, compreendendo parte da atual Suíça e do estado alemão da Baviera, entre outras regiões). Os bárbaros foram contidos e Caracala aproveitou para reforçar as defesas do território romano dos Agri Decumates).

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(Reconstrução em maquete das Termas de Caracala)

Porém, os gastos com os soldados e com as Termas obrigariam Caracala a desvalorizar o denário e a aumentar os tributos, tornando a sua figura, que já era antipática por natureza, detestada pela maioria do povo, e,  sobretudo, pelo Senado, que também frequentemente era desrespeitado por ele. Portanto, podemos dizer que o terceiro conselho de Severo: “desprezar todos os outros‘”, também estava sendo obedecido por Caracala

A principal medida legal do reinado de Caracala foi a promulgação da “Constitutio Antoniniana“, em 212 D.C,  lei também conhecida como Édito de Caracala, concedendo a cidadania romana a todos os homens livres do Império Romano. Contudo, mais do que uma medida democrática ou inclusiva, o real objetivo de Caracala era aumentar a base tributária, já que alguns tributos somente incidiam sobre cidadãos romanos.

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(Papiro com o texto da Constitutio Antoniniana, que sobreviveu até os nossos dias)

Segundo Cássio Dio, para inspirar temor nos seus súditos, Caracala gostava que a propaganda imperial  divulgasse uma imagem dele como um governante temível e implacável , e, de fato, todos os retratos que sobreviveram dele mostram exatamente essa expressão.

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Caracala admirava muito Alexandre, o Grande e, tentando emular o seu ídolo, o imperador promoveu uma campanha contra os Partos. E a fascinação de Caracala com o rei da Macedônia foi tanta que ele chegou a criar uma unidade militar com o nome de Phalangiari, imitando as falanges macedônicas que tinham dado tantas vitórias a Alexandre.

Enquanto Caracala, ausente de Roma, conduzia a campanha contra os Partos, quem se tornou a virtual governante da Cidade foi sua mãe, Júlia Domna. Com ela, começaria uma tendência que caracterizaria a dinastia dos Severos: a predominância das mães dos imperadores como eminências pardas e governantes de fato do Império, o que se acentuou durante os reinados de Elagábalo e de Severo Alexandre.

Entretanto, no dia 8 de abril de 217 D., o Imperador Caracala mandou parar sua comitiva, que marchava da cidade de Edessa para dar andamento à guerra contra a Pártia.

A parada, que ocorreu próximo à cidade de Carras (atual Harran, no sul da Turquia), tinha um motivo bem prosaico: o imperador estava com vontade de urinar…

Caracala afastou-se da comitiva, seguido, apenas, de seu guarda-costas Julius Martialis, que, aparentemente, guardava a distância necessária à privacidade do imperador.

De repente, o líquido amarelo que escorria pelo chão em decorrência do alívio da necessidade fisiológica do imperador, começou a ficar vermelho…

Martialis tinha acabado de atravessar o corpo de Caracala com o seu gládio com um golpe mortal. Os outro guardas perceberam o crime e Martialis tentou fugir, mas foi abatido por uma flecha de um arqueiro. Acredito que esta ação foi uma queima de arquivo, já que o principal suspeito de ter sido o mandante do crime era o Prefeito da Guarda Pretoriana, Macrino, que acabou se tornando o sucessor de Caracala no trono.

Todavia, Macrino logo seria substituído pelo primo de Caracala, Elagábalo, em uma revolta urdida pela sua tia, Júlia Maesa, que se valeu da enorme riqueza e dos contatos dos Sempseramidas na Síria, uma das províncias mais ricas do Império, para subornar o poderoso exército romano naquela província.

Caracala é considerado um dos muitos “maus imperadores” romanos, não apenas para os historiadores antigos, mas também por Edward Gibbon e a maioria dos historiadores modernos. Após a sua morte, ele continuaria popular entre os soldados, os únicos romanos que ele se preocupou em agradar.

FIM

SANTO AMBRÓSIO – UM BISPO TEMIDO ATÉ PELOS IMPERADORES

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Em 4 de abril de 397 D.C, morre, em Milão, cidade que então era a capital do Império Romano do Ocidente, Aurelius Ambrosius, mais conhecido como Santo Ambrósio.

Nascido por volta do ano 340 D.C, na cidade de Augusta Treverorum (atual Trier, na província da Germânia), Ambrósio era filho do Prefeito Pretoriano da Gália, que também se chamava Aurelius Ambrosius. A mãe de Ambrósio era uma cristã devota, e assim, ele e seus irmãos, Satyro e Marcellina, foram criados como cristãos (Posteriormente, os dois últimos também seriam venerados como santos católicos).

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(Porta Nigra, em Trier, portão das muralhas romanas da cidade onde Ambrósio nasceu)

Graças à posição de seu pai, Ambrósio recebeu uma esmerada educação em Roma,  sendo versado em latim, grego, filosofia e direito, e, concluídos os seus estudos, ele seguiu a carreira pública, chegando a ser nomeado governador da Ligúria-Emília, região onde ficava a cidade de MIlão, em 372 D.C.

Em 374 D.C, Ambrósio foi escolhido para ser o Bispo de Milão, por aclamação dos fiéis, embora ele não fosse ainda batizado (era então costume dos cristãos leigos se batizar apenas no fim da vida, mas para os bispos isso era requerido) e, muito menos, ordenado. Apesar de inicialmente recusar a escolha da comunidade, Ambrósio acabou cedendo e, em uma semana, ele foi batizado, ordenado padre e nomeado Bispo!

A Sé de Milão vivia uma disputa entre os devotos que esposavam o Credo Niceno, estabelecido no Concílio de Nicéia, e os que seguiam a doutrina do Bispo Ário, chamados de “Arianos” (nada a ver com o suposto grupo étnico).

Ambrósio uniu a experiência administrativa civil no serviço público, que ele tinha adquirido no cargo de governador, a uma grande eloquência e força de caráter, e, por isso, ele logo atraiu uma enorme legião de seguidores entre os fiéis. Os seus sermões eram famosos e faziam encher a catedral de Milão com uma multidão. Foi durante uma dessas homilias de Ambrósio que um jovem inseguro e  indeciso em sua fé tornou-se um fervoroso convertido: era o futuro Santo Agostinho, que seria batizado por Ambrósio, em 387 D.C.

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(Santo Agostinho, seu retrato mais antigo, do séc. V,  existente na Basílica Laterana, em Roma).

Em 380 D.C., os imperadores Teodósio I, Graciano e Valentiniano II publicaram o Édito de Tessalônica, tornando o Cristianismo a religião oficial do Império Romano.

No Concílio de Aquiléia, em 381 D.C, Ambrósio destituiu os bispos arianos, apesar dos mesmos terem o apoio do imperador Valentiniano II, o colega do imperador Graciano no Ocidente.

Mais tarde, quando o imperador cristão Graciano, em 382 D.C, ordenou a retirada do venerável Altar da Vitória, o santuário com a estátua dourada da deusa que, havia séculos, ficava na Cúria do Senado em Roma. Ambrósio foi o principal responsável por  impedir que esse altar fosse restaurado, apesar dos insistentes pedidos da influente facção de senadores pagãos.

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Interior da Cúria Júlia, sede do Senado Romano. O Altar da Vitória provavelmente ficava no fundo do edifício, no centro, onde está a base de mármore).

Outro episódio em que  Ambrósio teve destacada atuação na defesa da ortodoxia católica, ocorreu quando a imperatriz Justina, mãe de Valentiniano II, exigiu que a Basílica Portia, na cidade de Milão, fosse destinada ao culto dos cristãos arianos. Nessa ocasião, Ambrósio colocou barricadas em torno da mesma e encheu-a de partidários da ortodoxia nicena preparados para resistir, o que acabou levando a imperatriz a desistir do seu intento, em 386 D.C

Em 390 D.C., o imperador do Oriente, Teodósio I, massacrou sete mil pessoas em Tessalônica, ordenando uma brutal represália de uma revolta contra a guarnição de Godos estacionada na cidade. Considerando a ação um grave pecado, Ambrósio excomungou o imperador, que, depois de alguns meses, foi obrigado a fazer uma penitência pública, somente após a qual Ambrósio admitiu que Teodósio pudesse comungar. Esse gesto foi um precursor de uma tendência que se repetiria algumas vezes na Idade Média – o reconhecimento da supremacia do poder espiritual, detido pelo clero, sobre o poder temporal . Após este episódio, Teodósio tornou-se muito mais intolerante com o paganismo, proibindo, em 393 D.C, a celebração de qualquer ritual pagão, incluindo a proibição tácita da realização dos Jogos Olímpicos.

Assim,  Santo Ambrósio foi uma figura fundamental para que o cristianismo se tornasse a religião oficial do Império Romano, sob a direção da Igreja Católica, o que teria influência duradoura na História do Mundo.

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(Foto: Corpo de Santo Ambrósio, preservado ao lado de dois outros mártires, na Catedral de Milão)