(Cabeça de Diocleciano, foto de Giovanni Dall’Orto)
Origem
Em 22 de Dezembro de 244 D.C., nasceu, em Salona, na província romana da Dalmácia, próximo à atual cidade de Split, na Croácia, Gaius Aurelius Valerius Diocletianus(Diocleciano).
(Ruínas romanas de Salona)
O nome verdadeiro de nascença de Diocleciano era Diocles Valerius e ele era filho de um humilde escriba de um senador chamado Anulinnus. Com efeito, acredita-se que o pai de Diocleciano era provavelmente um escravo liberto ou então filho de um liberto.
Embora não saibamos nada sobre a infância e juventude de Diocleciano, é certo que ele alistou-se no Exército Romano e, como muitos conterrâneos de origem ilíria, foi sendo promovido até as mais altas patentes.
Assim, quando a História começa a mencionar a carreira de Diocleciano, ele já ocupava o importante posto militar de Duque da Moésia (Dux Moesiae), no baixo Danúbio.
Ascensão
Em 282 D.C., Diocleciano foi promovido pelo imperador Caro ao prestigioso posto de Comandante dos “Protectores Domestici”, o corpo de cavalaria de elite que funcionava como uma espécie de Guarda Imperial. Nesta condição, Diocleciano acompanhou Caro na guerra contra a Pérsia.
Aclamação
Após a morte de Caro no Oriente, em 283 D.C. (segundo consta, ele foi atingido por um raio enquanto travava a bem sucedida campanha contra os Persas), os seus filhos Carino e Numeriano, assumiram o trono, sendo que o primeiro assumiu, informalmente, o governo da metade ocidental do Império, e o último, o do Oriente.
Porém, no decorrer do ano seguinte, Numeriano morreu, acometido de uma misteriosa inflamação nos olhos, quando voltava da Pérsia (algumas fontes levantem a suspeita de que ele foi assassinado pelo Prefeito Pretoriano, Lucius Flavius Aper (Áper).
Verdadeira ou não a participação de Áper na morte de Numeriano, o seu suposto crime não lhe trouxe o proveito esperado, pois, quando o exército imperial alcançou os subúrbios de Nicomédia (atual Izmir, na Turquia), um conselho de generais escolheu Diocleciano como sucessor, em 20 de novembro de 284 D.C.
Na presença das tropas reunidas para a sua aclamação, Diocleciano imediatamente acusou Áper de ter assassinado Numeriano e, em seguida, executou-o com a própria espada, na frente dos soldados estupefatos (há quem defenda que Diocleciano estava implicado na trama que assassinou o imperador e a morte de Áper teria sido na verdade uma “queima de arquivo”).
Eliminando o rival
Ao assumir o seu primeiro consulado, Diocleciano escolheu como colega Lúcio Cesônio Basso, um experiente político de uma ilustre família romana, e, não, como seria natural, o outro imperador, Carino, o filho de Numeriano que reinava em Roma. Este ato representava uma na prática uma declaração de rompimento com Carino, prenunciando uma guerra civil.
Todavia, a disputa entre Carino e Diocleciano foi breve: Diocleciano avançou para o Oeste em direção à Itália e foi confrontado pelas forças de Carino na província da Moésia, no rio Margus, próximo a Viminacium, que ficava no território vizinho à atual Belgrado. No começo da batalha, Aristóbulo, o prefeito pretoriano de Carino desertou para o campo inimigo. Antecipando a derrota, os próprios soldados de Carino, mataram o seu imperador e aclamaram Diocleciano, em julho de 285 D.C.
Consolidando o poder
Contrariando o que se esperava de um imperador romano do século III D.C, o vitorioso Diocleciano não perseguiu os partidários de Carino, mantendo nos cargos muitos dos auxiliares deste, o que emulava, de certa forma a célebre clemência de Júlio César. Por sua vez, Aristóbulo foi mantido como Prefeito Pretoriano e Basso foi nomeado Prefeito Urbano de Roma.
Um dos primeiros atos de Diocleciano no trono foi escolher um colega para governar em conjunto com ele e o escolhido foi seu velho amigo e companheiro de armas, o general e conterrâneo de origem ilíria, Marcus Aurelius Valerius Maximianus (Maximiano). Embora os amigos compartilhassem a origem humilde, Maximiano, ao contrário de Diocleciano, era um homem muito mais áspero e implacável. Não obstante, Diocleciano mantinha sobre o amigo uma perceptível ascendência moral e intelectual. Assim,em 1º de abril de 286 D.C., Maximiano foi elevado do posto de “César” para o de “Augusto”, que correspondia ao de Imperador.
(Cabeça de Maximiano
Sintomaticamente, os dois Augustos concederam-se os títulos de “Júpiter” (Diocleciano) e de “Hércules”(Maximiano). Com efeito e não por acaso, os títulos e os atributos das divindades escolhidas visavam ilustrar o papel de ambos no Império Romano, onde Diocleciano aparecia como o sábio pai dos deuses e chefe do Olimpo e Maximiano como o guerreiro encarregado das tarefas militares. Desse modo, embora os dois fossem juridicamente iguais, Diocleciano mantinha para si, na prática, o status de “imperador sênior”.
Campanhas internas e externas
Diocleciano, desde logo o início do seu reinado, demonstrou uma certa rejeição à cidade de Roma. Muitos historiadores até acreditam que ele sequer chegou a visitar a velha capital quando de sua ascensão ao trono, ou, segundo outros, ele passou por lá tão brevemente que, em novembro de 285 D.C., ele já estava nos Bálcãs em campanha contra os Sármatas, os quais foram batidos, embora não esmagados.
Enquanto isso, Maximiano lidava com os bandos de fora-da-lei conhecidos como bagaudas, no norte da Gália. Submetidos estes, foi a vez dele combater a insurreição de seu subordinado Caráusio, o comandante da frota do Mar do Norte, que chegou a ser aclamado “Imperador da Britânia”. Porém, Caráusio estava firmemente estabelecido na Ilha e lá ele conseguiu resistir por sete anos, cunhando moedas em que ostentava o título de imperador e “irmão” de Diocleciano e Maximiano e louvava a concórdia (paz) entre eles.
Maximiano resolveu lutar contra os Alamanos, na fronteira do Reno, os quais ele combateu inicialmente sozinho, recebendo, posteriormente, a ajuda do colega Diocleciano. Essa campanha foi bem sucedida, e Diocleciano pode voltar sua atenção para o Oriente, onde os Persas criavam problemas crescentes.
Estabelecido em Nicomédia, as iniciativas de Diocleciano asseguraram a assinatura de um tratado de paz com os persas bastante favorável a Roma, que conseguiu instalar um rei-cliente no trono da Armênia. No Oriente, Diocleciano ainda combateu invasores árabes (sarracenos) na Palestina.
Na virada do ano de 290 D.C para 291 D.C, Diocleciano voltou para a Itália, onde encontrou com seu colega Maximiano em Milão, que tinha passado a ser a capital do Ocidente.
Outras questões externas que ocupariam Diocleciano foram novos ataques dos Sármatas, um povo de origem iraniana, em 294 D.C., que foram derrotados de modo mais duradouro. O imperador decidiu reforçar a fronteira do Danúbio construindo uma cadeias de fortes abrangendo as cidades de Aquincum (atual Budapeste), Bononia (atual Vidin, na Bulgária), Ulcisia Vetera, Castra Florentium, Intercisa (atual Dunaújváros, na Hungria) e Onagrinum (atual, Begec, na Sérvia), que se tornaram parte de uma nova linha defensiva chamada de Ripa Sarmatica. Em 295 e 296 D.C., foi a vez dele dar combate à tribo bárbara dos Carpi, os quais também foram derrotados.
A Tetrarquia
A vivência da eclosão de crises simultâneas em diferentes partes do Império certamente contribuiu para estimular Diocleciano a idealizar a medida mais revolucionária do seu reinado: a chamada Tetrarquia, em 293 D.C.
Em 1º de março de 293 D.C., Diocleciano resolveu nomear o general Flávio Constâncio “Cloro”, genro de Maximiano e Prefeito Pretoriano da Gália, e recentemente encarregado da campanha contra Caráusio, como “César“, o que caracterizava, na prática, o posto de imperador “júnior”, e de herdeiro de Maximiano. Provavelmente, na mesma data ou um pouco depois, Diocleciano nomeou seu genro, o general Galério, marido de sua filha Valéria (Diocleciano não teve filhos homens), para o posto de César, passando a ser o seu herdeiro.
Bloco de pórfiro entalhado com a representação dos Tetrarcas, trazido de Constantinopla pelos venezianos e colocado na lateral da Basílica de San Marco
Diocleciano considerava o Império Romano grande demais para ser governado por apenas um monarca, motivo pela qual instituiu a Tetrarquia, onde ele seria administrado por quatro governantes imperiais, sendo dois mais graduados, que teriam o título de “Augusto“, inicialmente com as respectivas capitais em Milão e Nicomédia, e dois, em plano um pouco inferior e subordinados a eles, nomeados “César“, instalados em Trier e Sirmium. A escolha dos “Césares”, pelos “Augustos”, visava assegurar uma sucessão tranquila e automática, teoricamente baseada no mérito, sendo que, quando o trono ficasse vago, o “César”, já previamente nomeado e experimentado na tarefa de governar, assumiria o posto vago de “Augusto” e, por sua vez, este escolheria o novo “César”.
(Embora a ilustração retrate Maxêncio, os trajes dele certamente são os mesmos que os tetrarcas deviam usar, incluindo o tradicional gorro ilírio, costumeiramente utilizado pelos militares originários daquela região e que também foi retratado na escultura existente na Basílica de São Marcos).
Reformando o Império
Outra grande reforma administrativa promovida por Diocleciano foi a redivisão das cerca de 50 províncias romanas em 100 unidades menores, agrupadas em doze “Dioceses”, governadas por “Vigários”(Vicarii). Esses Vigários deixaram de ter funções militares, que foram transferidas para dezenas de “Duques” (Duces), mas retendo funções administrativas, judiciárias e fiscais. Dessa forma, Diocleciano tencionava diminuir a possibilidade de revoltas, tão frequentes durante o período imperial, dividindo e diminuindo o poder de que disporiam esses administradores.
Diocleciano também praticamente dobrou o número de funcionários públicos civis e também os efetivos do Exército Romano.
O consequente aumento da despesa pública gerado pelo aumento do tamanho do funcionalismo público e dos militares foi enfrentado com uma grande reforma no sistema tributário imperial. Após a realização de um abrangente e detalhado censo, foram estabelecidas duas unidades fiscais chamadas de “jugum” e de “caput”, a primeira levando em consideração uma determinada área de terra em função do tipo e da quantidade de produção agrícola que ela seria capaz de sustentar, num conceito um tanto parecido com o do módulo rural, e a segunda, o número de pessoas que neles viviam, podendo variar em função do sexo e idade. Em decorrência, os impostos passaram a serem calculados em função da quantidade de “jugera” e “capita” atribuídos a cada região ou cidade integrante do Império. E os impostos agora passavam a ser pagos não apenas em dinheiro, mas também em gêneros (conferir a esse respeito a obra The Later Roman Empire, de A.H.M. Jones)
Para combater a crescente inflação, Diocleciano determinou duas medidas:
1- Uma reforma monetária, estabelecendo três tipos de moeda: de ouro (aureus), de prata (argenteus) e de cobre (follis), fixando os percentuais de metais nas ligas com as quais elas seriam cunhadas.
(Um “Antoniniano” de Diocleciano, moeda anterior a reforma monetária, foto de Sosius11)
2- Entretanto, como a inflação não cedia, Diocleciano baixou o seu célebre “Édito de Preços Máximos”, em 301 D.C., que se tratava de uma verdadeira lei de congelamento de preços, bem similar às tão conhecidas dos brasileiros em tempos não tão distantes e que, da mesma maneira que as leis brasileiras, não deu certo, gerando desabastecimento…
(lápide contendo parte do Édito de Preços Máximos, de Diocleciano)
Uma outra medida de Diocleciano, e que, para muitos historiadores, teria influência duradoura na Europa Medieval, foi a lei que obrigava aos camponeses e seus descendentes a trabalharem permanentemente nas terras agrícolas, tornando compulsória e hereditária esta atividade, além de outras profissões, entre as quais as de soldado, padeiro e até mesmo a função de membros das câmaras municipais, uma política que muitos veem como uma das origens do sistema feudal.
Diocleciano procurou assegurar a estabilidade política do trono promovendo uma verdadeira sacralização da pessoa do imperador, algo que ele fez, não por vaidade, mas para impedir as reiteradas conspirações para derrubar os imperadores romanos, tão comuns ao longo da história imperial. Assim, o cerimonial da corte tornou-se altamente ritualístico, estabelecendo-se como dever de todos que chegassem à presença do imperador prostrar-se no solo (“adoratio”), como se estivessem na presença de um deus. Do mesmo modo, somente o monarca poderia usar a cor púrpura. O título imperial de “Príncipe”, que tinha origem na expressão “primeiro senador”, foi substituído pelo de “Dominus” (Senhor).
O Conselho do Imperador (“Consilium”), que tradicionalmente tinha entre seus componentes algum senador ou figura pública, foi substituído pelo Consistório, um nome que denotava uma assembleia particular e privada.
A ênfase no culto ao imperador, decorrente da política acima citada, levou inevitavelmente à exigência de demonstrações públicas de devoção. Não surpreende, assim, que os Cristãos, que admitiam adorar apenas um Deus, tenham sido alvo de uma perseguição implacável por Diocleciano, decretada em 303 D.C, e que seria batizada pela Igreja Católica como “A Grande Perseguição”. Não obstante, não se pode afirmar que Diocleciano, pessoalmente, nutrisse ódio ou inimizade pelo Cristianismo.
Com efeito, as medidas de Diocleciano contra a fé cristã parecem decorrer mais de sua vontade dele ser o restaurador da velha grandeza do Império Romano, o que também incluía o fortalecimento da religião tradicional romana, do que a um ódio particular contra esta religião. Consta que o seu colega Galério é que era radicalmente avesso aos cristãos. Curiosamente, vale notar que, segundo algumas fontes, Valéria, filha de Diocleciano e esposa de Galério, era simpatizante do Cristianismo ou seria até mesmo cristã, o mesmo ocorrendo com sua mãe, Prisca.
Abdicação e aposentadoria
Em 20 de novembro de 303 D.C., Diocleciano finalmente visitou Roma para comemorar o vigésimo aniversário do seu reinado. Foi uma breve estadia, pois o imperador não gostou das maneiras pouco deferentes dos romanos. Um mês depois, ele viajou para Ravena, de onde partiu para uma campanha no Danúbio. Porém, a saúde de Diocleciano começou a piorar e ele resolveu voltar para Nicomédia, onde ficou recluso no palácio, o que fez circular o boato de que ele havia morrido.
Em março de 305 D.C., Diocleciano reapareceu em público. Poucos dias depois, Galério chegou à Nicomédia. Então, em 1º de maio do mesmo ano, Diocleciano reuniu os generais do Exército e anunciou que ele estava doente e que precisava descansar. E, num gesto inédito na história do Império Romano, o imperador comunicou que iria abdicar em favor de um herdeiro mais capaz: Com base no sistema da Tetrarquia, Galério o sucederia como Augusto e Maximiano também abdicaria, fiel e obedientemente, do trono, sendo sucedido por Constâncio Cloro.
A grande surpresa, porém, foi quando se anunciaram quem seriam os novos Césares…Com efeito, todos pensavam que Maxêncio, filho de Maximiano, e Constantino, filho de Constâncio Cloro, seriam os novos Césares. Porém, os escolhidos foram Maximino Daia, sobrinho de Galério, e Severo, este um velho amigo de Galério. Portanto, a Tetrarquia, que mal começara, já nascia, assim, ameaçada em sua estabilidade pelo preterimento de dois candidatos naturais à sucessão. Tudo indica que isso decorreu da vontade de Galério, que era agora o verdadeiro homem-forte da Tetrarquia.
Diocleciano, após a abdicação, foi viver em seu espetacular palácio-fortaleza na cidade de Salona, em sua terra natal. Boa parte deste palácio ainda existe e, em seu vasto interior, nasceu a atual cidade de Split, na Croácia.De fato, Diocleciano parece ter encontrado a verdadeira felicidade cuidando de suas hortas e jardins. Assim, consta que, durante a guerra civil que logo eclodiu entre os seus sucessores e precipitou o fim da Tetrarquia, Diocleciano foi instado por populares a reassumir o trono, ao que ele teria respondido:
“Se vocês pudessem mostrar ao imperador os repolhos que eu plantei com minhas próprias mãos, ele definitivamente jamais sugeriria que eu trocasse a paz e a felicidade deste lugar pelas tormentas de uma insaciável ambição”.
Morte
Diocleciano morreu em 03 de dezembro de 312 D.C., aos 67 anos de idade, em seu palácio em Split, sendo sepultado em um mausoléu octogonal que ele havia mandado construir no interior do mesmo.
Reconstituição da aparência do Palácio de Diocleciano, em Split
Legado
O principal feito de Diocleciano foi conseguir dar estabilidade ao Império após um século de crises, guerras civis, derrotas militares e tumultos. Efetivamente, fazia mais de cem anos que um imperador não conseguia reinar 20 anos: A média no período tinha sido de cerca de três anos de reinado para cada imperador em 100 anos. Para isso contribuiu, certamente, a sacralização da imagem do Imperador, oficialmente estabelecida como “Dominus et Deos” (Senhor e Deus). Por isso, o reinado de Diocleciano é considerado um marco que divide a História do Império Romano entre os períodos do “Principado” ( a partir de Augusto, o primeiro imperador) e do “Dominado” (a partir de Diocleciano).
As linhas estabelecidas por Diocleciano, foram em grande parte mantidas por Constantino, que derrotou os demais contendores pelo espólio da Tetrarquia (sendo a mais notável exceção a política religiosa) e elas duraram até o final do Império do Ocidente, cerca de 200 anos mais tarde.
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Segundo as fontes, Antínoo (Antinous) nasceu no mês de novembro (no dia 27, dia do festival em sua honra, segundo uma inscrição), provavelmente por volta do ano de 111 ou 112 D.C., na cidade de Claudiopolis (atual Bolu no noroeste da Turquia), na província romana da Bitínia. Embora a cidade fosse bem antiga e tivesse feito parte do Império Hitita, ela foi helenizada e reconstruída por colonos gregos vindos da cidade de Mantinea (antes da conquista romana, a cidade chamava-se Bithynium).
Em junho de 123 D.C., o imperador Adriano, então com 47 anos de idade, que se notabilizou por viajar por todo o Império Romano, chegou à cidade de Claudiopolis e, em algum momento de sua estadia, notou o ainda pré-adolescente Antínoo, atraído pela beleza do menino.
Deixando Claudiopolis, Adriano continuou seu tour pelas províncias orientais do Império, mas deve ter providenciado para que Antínoo fosse enviado para Roma, provavelmente para ser educado no Paedagogium, a escola existente no Palácio de Domiciano, no monte Palatino, destinada à instrução dos pajens imperiais.
(Ruínas do Peadagogium, no Palatino, em Roma)
Adriano voltou para Roma em setembro de 125 D.C., e, em algum momento nos anos seguintes, ele reencontrou Antínoo e ambos tornaram-se amantes. Três anos depois, quando Adriano partiu para nova viagem para a Grécia, Antínoo acompanhou-o, integrando a comitiva imperial.
Os historiadores concordam que Adriano tinha nítida inclinação homossexual e que o casamento dele com a imperatriz Sabina seria apenas por conveniências políticas e manutenção de uma imagem pública.
De qualquer forma, os costumes gregos estavam disseminados pela elite romana e o fato do imperador ter como amante um garoto inseria-se dentro da prática helênica da “pederastia“, onde se admitia que o mestre, mais velho (erastes), iniciasse sexualmente o discípulo (eromenos), aceitando-se que mantivessem relações sexuais até que o segundo saísse da puberdade e entrasse na idade adulta. Portanto, a opinião pública não deve ter dado muita importância ao relacionamento sexual entre o imperador e seu jovem pajem.
(Busto da imperatriz Sabina, cujo casamento com Adriano foi notoriamente infeliz)
Consta que Adriano elogiava a inteligência de Antínoo. Ele escreveu poemas em homenagem ao amante, que infelizmente, não chegaram até os nossos dias. Por sua vez, não há nenhum indício de que Antínoo tenha se valido de sua privilegiada posição para obter algum ganho pessoal ou influência política.
Não se sabem muitos detalhes do relacionamento entre Adriano e Antínoo, mas é certo que as caçadas eram um dos divertimentos que eles faziam juntos, de acordo com o relato de um incidente, ocorrido em setembro de 130 D.C., durante uma viagem pelo norte da África, na Líbia, no qual os dois decidiram caçar um leão que estava atacando a população da região. Nessa caçada, Adriano teria salvo a vida de Antínoo e o incidente foi também imortalizado em um relevo circular (tondo), que sobreviveu até nossos dias, por ter sido posteriormente afixado no Arco de Constantino, em Roma (à esquerda, abaixo, foto de Radomil).
No decorrer dessa viagem pela África, Adriano e Antínoo chegaram ao Egito, por volta do início de outubro de 130 D.C., parando na antiquíssima cidade sagrada de Heliopolis, de onde eles partiram para um cruzeiro pelo Nilo, navegando até a cidade de Hermopolis Magna. Nas proximidades da referida cidade, as fontes, sem entrar em detalhes, contam que Antínoo caiu no Nilo e morreu, ao que tudo indica, afogado, no dia em que se celebravam antigos festivais em homenagem ao deus egípcio Osíris.
(Vista das ruínas de Hermopolis, foto de Roland Unger)
As principais fontes antigas assim relatam a morte de Antínoo:
Dião Cássio
“Antinous era de Bithynium, uma cidade da Bitínia, a qual nós também chamamos Claudiopolis; ele foi um favorito do imperador e morreu no Egito, seja por ter caído no Nilo, como escreve Adriano, ou, mais verdadeiro, por ter sido oferecido em sacrifício. Pois Adriano, como eu sempre afirmei, sempre se interessou por adivinhações e encantamentos de todo o tipo. Então, Adriano homenageou Antinous – seja devido ao amor que sentia por ele, ou porque o jovem voluntariamente aceitou morrer (sendo necessário que uma vida fosse livremente oferecida para atingir os fins que Adriano tinha em vista) -com a construção de uma cidade no local onde ele sofreu o seu destino, dando-lhe o seu nome; e Adriano também ergueu estátuas, ou imagens sagradas, dele, praticamente por todo o mundo. Finalmente, Adriano declarou que ele tinha avistado uma estrela que ele entendeu ser de Antinous, e alegremente emprestou seus ouvidos a estórias fictícas tecidas por seus adeptos no sentido de que a estrela havia nascido do espírito de Antinous e, assim, tinha aparecido pela primeira vez. No que se refere a isso, então, ele se tornou objeto de certo ridículo, e também porque, quando a sua irmã Paulina morreu, ele, na oportunidade, não fizera nenhuma homenagem.”
História Augusta
“Ele (Adriano) perdeu Antinous, seu favorito, durante uma viagem pelo Nilo, e por este jovem ele chorou como uma mulher. Com relação a este incidente, houve vários rumores: alguns defendem que ele teria se entregado à morte por Adriano, e outros, aquilo que a sua própria beleza, e a sensualidade de Adriano, sugerem…”
Aurelius Victor
“Outros defendem que este sacrifício de Antinous foi pio e religioso, pois, quando Adriano estava desejoso de prolongar a sua vida, e os feiticeiros demandaram que uma vítima voluntária fosse dedicada, diz-se que, após todos recusarem, Antinous ofereceu a si próprio”
Obviamente que não podemos excluir a hipótese de que a morte de Antínoo tenha sido acidental, segundo a versão dada pelo próprio Adriano, nem provar que os outros motivos alegados pelos autores antigos são inverídicos, muito embora tenham se registrado muitos episódios nos quais o o referido imperador mostrou-se explicitamente contrário à prática de sacrifícios humanos. Também não é impossível que, conforme a última passagem da História Augusta acima transcrita alude, a morte do rapaz tenha involuntariamente resultado de algum ato sexual, ou que a queda no rio tenha sido decorrente da embriaguez de ambos os amantes.
Entretanto, é fato que Antínoo estava no limiar de atingir a idade em que o seu relacionamento amoroso com Adriano (que estava com 54 anos de idade) tornaria-se extremamente embaraçoso para o imperador, pois o mesmo não mais poderia se dar sob o manto da pederastia. O relacionamento sexual entre homens adultos livres não era admissível segundo a moral romana, e a chegada da maturidade sexual de Antínoo, que já estava com 18 ou 19 anos de idade, poderia expor o imperador à execração por parte da sociedade romana, especialmente na Itália, e, mais importante, a perda do seu prestígio entre os militares.
Desse modo, ainda que não se possa acusar Adriano, ou seus cortesãos, pelo assassinato de Antínoo, o fato é que a morte dele foi muito conveniente para o trono.
O que ninguém contesta é que Adriano ficou devastado com a morte de Antínoo e ordenou que homenagens inauditas fossem conferidas ao seu falecido amante.
Assim, ainda em outubro de 130 D.C., Adriano proclamou que Antínoo era um deus. A “deificação” já tinha se tornado comum para os imperadores falecidos e até algumas imperatrizes ou pessoas da família imperial já tinha sido tornados divinos, mas era a primeira vez que um simples pajem recebia essa distinção.
Adriano também fundou, no local onde Antínoo morreu, a cidade de Antinopolis, em 30 de outubro de 130 D.C..
O imperador também ordenou a construção de um santuário dedicado a Antínoo no interior de sua fabulosa Villa Adriana, em Tívoli, onde é provável que o falecido amante tenha sido enterrado (talvez depois de ser mumificado no Egito), conforme sugere o texto em hieróglifos no obelisco que foi erguido ali e hoje encontra-se no Monte Pinciano, em Roma (vide https://followinghadrian.com/2016/10/02/the-obelisk-of-antinous/)
A deificação de Antínoo foi seguida pela organização formal de seu culto, patrocinado pelo Estado, em diversas cidades, construindo-se templos e nomeando-se sacerdotes.
Embora, inicialmente, a criação e a adesão ao culto a Antínoo decorresse amplamente do patrocínio imperial e do desejo de adular Adriano (ou, igualmente, do temor em desagradá-lo), certamente a extraordinária beleza do rapaz, bem como as circunstâncias trágicas de sua morte e, principalmente, a similitude da forma e do lugar onde ele morreu com o mito de Osíris (que também morreu afogado no Nilo e depois foi ressuscitado pela mulher, Ísis), contribuíram para a popularização do novo deus, que no Egito, passou a ser associado a Osíris, recebendo o nome de Osirantinous.
Em algumas outras regiões, Antínoo foi considerado um herói mítico, como Hércules, um humano que superou a morte e pode transitar entre o mundo dos mortos e o dos vivos.
Estátuas de Antínoo foram espalhadas por todo o Império Romano, aparentemente baseadas em modelos produzidos em Roma, por ordem de Adriano, uma vez que todas observam os mesmos padrões e contribuíram para popularizar o seu culto..
Foram identificados até hoje 28 templos dedicados a Antínoo e encontrados vestígios de seu culto em pelos menos 70 cidades ao longo do Império Romano. No mundo grego, Antínoo também foi associado aos deuses Hermes e Dionísio. Os centros do culto eram as cidades de Antinopolis, Claudiopolis (local de nascimento de Antínoo) e Mantinea (De onde os seus ancestrais, fundadores de Claudiopolis, teriam vindo). Nessas cidades, também eram celebrados jogos em homenagem ao novo deus, o que ocorreu pelo menos até o início do século III, que também ocorriam em Atenas e Eleusis, tendo estes durado pelo menos até 267 D.C.
De fato, o culto a Antínoo perdurou por séculos após a morte de Adriano. Um papiro do final do século III preserva um poema em homenagem a Antínoo, mencionado a famosa caçada,, o Nilo, sua apoteose e a fundação da cidade em sua honra.
Os bispos e doutores da nascente Igreja também sentiram a necessidade de fazer invectivas contra o culto a Antínoo, No final do século II, Clemente de Alexandria escreveu:
“Outra nova divindade foi criada no Egito – e muito próxima aos Gregos também – que foi solenemente elevada pelo imperador à categoria de deus – o seu favorito cuja beleza era inigualável, Antinous. Ele consagrou Antinous da mesma maneira que Zeus consagrou Ganimedes. Pois a luxúria não é facilmente contida, quando não há medo, e mesmo agora o povo observa as noites sagradas de Antinous, que são realmente vergonhosas, como o amante que as passava junto com ele bem sabia. Por que, eu pergunto, vocês consideram um deus alguém que foi homenageado pela fornicação? Por que vocês ordenaram que ele fosse pranteado como um filho? Por que, igualmente, vocês narram as estórias da beleza dele? A beleza é algo vergonhoso quando manchada pelo ultraje. Não sejam tiranos da beleza, nem ultrajem aquele que está na flor de sua juventude. Guarde-a na pureza, para que permaneça bela. Tornem-se reis da beleza, não tiranos. Deixem-na livre. Quando vocês deixarem a imagem dela pura, então eu reconhecerei a vossa beleza. Então eu irei reverenciar a beleza, quando for o verdadeiro arquétipo das coisas belas. Agora nós temos uma tumba do amante, um templo e uma cidade de Antinous. (Exortação ao Gregos, 4.49.1-3)
O supracitado texto de Clemente de Alexandria também sugere que o culto de Antínoo poderia incluir alguma celebração orgiástica.
Por volta do ano 250 D.C., outro doutor da Igreja, Orígenes, em sua obra “Contra Celso”, refuta os argumentos do filósofo Celso contra a fé cristã (que comparou, entre outros, Jesus Cristo a Antínoo). Nesse texto, Orígenes chega a reconhecer a existência de prodígios atribuídos a Antínoo, mas considera-os obra de um daimon (espírito) ou de mágicos.
Somente com o triunfo do Cristianismo, após a proibição das cerimônias públicas pagãs por Teodósio e a destruição de incontáveis templos, o culto a Antínoo desaparece da História, tendo o culto durado pelo menos uns duzentos e cinquenta anos.
LEGADO
No século XIX, a revalorização do classicismo elegeu as estátuas de Antínoo como o último suspiro da arte clássica greco-romana e símbolo de beleza masculina. Ele também acabou inspirando vários escritores como Oscar Wilde, Fernando Pessoa e Marguerite Yourcenar.
Para saber mais: Lambert, Royston (1984). Beloved and God: The Story of Hadrian and Antinous. George Weidenfeld & Nicolson
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Em 1º de agosto de 10 A.C., nasceu, em Lugdunum, na Gália (atual Lyon), Tiberius Claudius Nero Germanicus (Cláudio), filho de Nero Claudius Drusus (Druso) e de Antônia, a Jovem, filha do casamento do triúnviro Marco Antônio com Otávia, a irmã de Augusto.
Assim, pela linha materna, Cláudio era parente deJúlio César, uma vez que a sua mãe era neta de Júlia, a Jovem, irmã de César, e sobrinho-neto do imperador Augusto (que também era sobrinho-neto de César).
Por sua vez, pela linha paterna, Cláudio era neto da imperatrizLívia Drusila (Júlia Augusta), a esposa do primeiro imperador romano, Augusto, pois seu pai era o segundo filho do primeiro casamento de Lívia com Tibério Cláudio Nero, de quem ela se separou já grávida do caçula para se casar com Otaviano, antes deste tornar-se imperador e passar a ser chamado de Augusto.
O Pai de Cláudio, Druso, devido às suas importantes vitórias contra os bárbaros germânicos, recebeu o cognome “Germanicus”, e ele era também o irmão mais novo de Tibério, que seria o sucessor de Augusto no trono.
Antes de Cláudio nascer, Druso e Antônia já haviam concebido Germanicus Julius Caesar(Germânico), que se tornaria um célebre general e cairia nas graças de Augusto (e também da plebe romana). E quando o velho imperador adotou Tibério como herdeiro, ele exigiu que este, por sua vez, adotasse Germânico, pelo fato de que, após as mortes de seus netos Caio e Lúcio César, tirando o rapaz, Augusto não tinha mais nenhum outro parente consanguíneo do sexo masculino capaz de dar continuidade à linhagem dos Júlios (com exceção do seu jovem neto sobrevivente, Agripa Póstumo, que o próprio Augusto havia exilado em uma ilha remota, possivelmente por traição).
Porém, ao contrário do seu irmão mais velho, Cláudio passaria a sua infância, adolescência e toda a juventude em completa obscuridade, expressamente por determinação de Augusto e de Lívia, com os quais ele viveu durante um bom tempo, e, depois deles, pela vontade de seu tio Tibério, ficando, assim, afastado das aparições públicas da família imperial e sem ter qualquer papel público, ainda que cerimonial, a desempenhar.
Os motivos do ostracismo a que Cláudio foi relegado no seio da família imperial, segundo os autores antigos, seriam os distúrbios físicos e mentais que ele manifestava desde menino, considerados por Augusto e Lívia como comprometedores da dignidade da dinastia dos Júlio-Cláudios. E a própria mãe de Cláudio, segundo Suetônio, referia-se ao filho como sendo “um monstro“.
O diagnóstico da doença de Cláudio não é preciso nas fontes, mas elas mencionam o fato dele mancar, gaguejar, ser acometido por tremores e ter corrimentos no nariz. Por isso, alguns acreditam que Cláudio pode ter contraído poliomielite na infância, ou, o que parece mais provável, que ele tenha sofrido algum tipo de paralisia cerebral na infância. Alguns defendem, ainda, que a doença dele seria a Síndrome de Tourette, uma desordem neuropsiquiátrica que causa tiques nervosos.
No entanto, o próprio Augusto, em uma carta à Lívia, citada por Suetônio, certa vez observou que Cláudio era mais inteligente do que ele aparentava, tendo ficado impressionado com a sua boa declamação. Mesmo assim, Cláudio seria mantido afastado de qualquer cargo ou função oficial durante todo o reinado do tio, ao contrário do irmão dele, Germânico.
A sociedade romana, como a maior parte das civilizações da Antiguidade, não tinha muita compaixão pelos deficientes físicos, e a família entendia que os sintomas da enfermidade de Cláudio eram causados por desvios de caráter e deveriam ser corrigidos pela disciplina e castigos.
O próprio Cláudio, na autobiografia que ele escreveria anos mais tarde, e que não chegou até os nossos dias, contou que a sua família contratou um bárbaro que era condutor de mulas para ser o seu tutor, com o objetivo de que este se valesse da mais férrea disciplina e castigos severos para tentar melhorar a sua condição.
Assim, até mesmo em sua cerimônia da assunção da toga virilis (que simbolizava a passagem da infância para a idade adulta para os rapazes romanos, normalmente aos 14 anos de idade), que era um evento público marcante para os jovens da família imperial, Cláudio foi escondido dos olhares do público, pois ela ocorreu durante a noite, com ele sendo carregado oculto no interior de uma liteira.
Como não tinha um papel público a desempenhar, Cláudio então tomou interesse pelo estudo de História e pela Literatura. O grande historiador romano Tito Lívio foi contratado para ser seu professor e ele também foi aluno do filósofo estoico Atenodoro.
E tudo indica que Cláudio se tornou um leitor voraz. Ainda muito jovem ele estudaria obras históricas sobre vários povos e, segundo as fontes antigas, ele foi a última pessoa capaz de ler a língua escrita etrusca em Roma, idioma que até hoje não foi completamente decifrado.
Começando ainda na juventude, ao longo da vida, Cláudio escreveria 43 livros sobre a História de Roma, a Thyrrenica, contendo 21 livros sobre a História dos Etruscos, além da Carthagenica, uma História de Cartago contendo 8 livros, um livro sobre filologia e uma defesa das acusações de Asinio Polião contra Cicero, além da sua própria autobiografia em 8 volumes. Infelizmente, nenhuma destas obras sobreviveu, mas algumas foram citadas por autores antigos.
(Tabula Cortonensis, contendo um texto em etrusco)
Outra obra que é mencionada pelas fontes é um tratado sobre jogos de dados. Segundo as fontes, Cláudio era fanático por este tipo de jogos, o que seria motivo de alfinetadas dos historiadores e objeto de muitas sátiras.
Cláudio também era interessado em linguística e escreveu um livro defendendo a introdução de três novas letras no latim, ““, “Ↄ” e ““, duas delas equivalentes ao Y e ao W. Mais tarde, após se tornar imperador, ele, no exercício do cargo de Censor, determinou que essas letras fossem adotadas oficialmente, mas isso não perdurou por muito tempo (na foto abaixo, uma raríssima inscrição contendo uma delas).
Quando Augusto morreu, em 19 de agosto de 14 D.C., Cláudio, que já tinha 23 anos de idade, sentiu-se confiante em pedir ao sucessor, o seu tio, Tibério, que lhe fosse permitido começar a trilhar o cursus honorum, a carreira pública das magistraturas. Contudo, Tibério preferiu dar apenas a Cláudio os ornamentos consulares, o que podemos considerar como uma mera consolação, já que isso significava na prática apenas uma condecoração honorífica, permanecendo Cláudio afastado de qualquer cargo ou função pública.
Eu creio que o motivo de Tibério continuar negando ao sobrinho qualquer papel público tinha a ver com o fato da família de Cláudio estar no centro das intrigas dinásticas dos Júlio-Cláudios referentes à posição de herdeiro de Tibério. Com efeito, o seu irmão, Germânico, era visto como potencial rival de Tibério ao trono. E sua irmã, Livilla, que, reportadamente, desprezava Cláudio, era esposa do filho de Tibério, Druso, o Jovem.
Não obstante, as fontes relatam que, durante o reinado de Tibério, com o passar do tempo, o público passou a ter uma boa impressão de Cláudio, que começou a receber algum reconhecimento.
Por exemplo, a classe dos Equestres escolheu-o duas vezes para liderar uma delegação para apresentar uma petição ao imperador. O Senado Romano também votou que Cláudio fosse nomeado como membro especial dos sacerdotes do culto a Augusto, e, mais importante, os senadores pediram a Tibério que Cláudio pudesse participar das sessões do Senado, o que, entretanto foi negado.
Tudo isso mostra que a exclusão de Cláudio da carreira política decorria de decisão direta do trono, e não de alguma incapacidade física ou mental dele ou do repúdio por parte da população.
Em 19 D.C., Germânico morreu em Antioquia, em circunstâncias suspeitas. Historiadores antigos, como Tácito, dão crédito à tese de que ele foi envenenado a mando de Lívia e Tibério.
Na época em que Germânico morreu, já se notava o grande poder que o comandante da Guarda Pretoriana, Lúcio Élio Sejano exercia em Roma. Ele expandira a guarnição dos pretorianos, que foi centralizada em um grande quartel fortificado, adjunto às muralhas da cidade.
O poder de Sejano era tanto que Tibério, certa vez referiu-se a ele como “meu sócio-trabalhador“. E Sejano, de fato, tinha altas pretensões…
Em 20 D.C., Sejano arranjou o casamento de sua filha, Junilla, com o filho de Cláudio, Claudius Drusus, ocasião em que as duas crianças tinham apenas quatro anos de idade. Porém, os planos de Sejano foram por água baixo, porque, poucos dias depois deste arranjo, o menino morreu engasgado com uma pera.
Claudius Drusus era o filho mais velho de Cláudio com sua primeira esposa, Plautia Urgulanilla, filha de Marcus Plautius Silvanus, um grande amigo da imperatriz Lívia e que era de origem etrusca. É bem possível que daí tenha vindo o interesse de Cláudio pela civilização etrusca. Cláudio e Urgulanilla se casaram por volta do ano 9 D.C., quando ele tinha dezoito anos de idade.
Contudo, o primeiro casamento de Cláudio já ficaria marcado pela suspeita de má conduta da esposa, algo que se repetiria nas suas uniões posteriores. Ele, assim, divorciou-se de Urgulanilla, que, cinco meses depois, deu a luz a uma filha, chamada de Cláudia. Suspeitava-se até que a menina fosse filha do liberto Boter. Por isso, Cláudio repudiou também a criança e mandou depositá-la, nua, na soleira da porta da casa onde a ex-mulher fora morar.
Passado esse escândalo, Cláudio deve ter se sentido muito ameaçado quando Druso, o Jovem, o filho e herdeiro oficial de Tibério, morreu, em 14 de setembro de 23 D.C., de uma misteriosa enfermidade, fato que ocorreu pouco tempo após uma séria desavença dele com Sejano. Para alguns historiadores antigos, como Tácito e Dião Cássio, Sejano foi o responsável pela morte de Druso por envenenamento, empresa na qual ele teria sido auxiliado pela esposa do falecido e irmã de Cláudio, Livilla, que teria sido seduzida pelo Prefeito Pretoriano e dele se tornara amante.
Em 25 D.C., Sejano pediu formalmente a Tibério permissão para se casar com Livilla, o que foi recusado pelo velho imperador, que, após exaltar os méritos do subordinado, observou, candidamente, que Sejano, tendo nascido na classe Equestre, estava abaixo da posição social de Livilla, uma integrante da família imperial.
Mesmo assim, no ano seguinte, Tibério foi viver na ilha de Capri, em um auto-exílio voluntário que duraria onze anos, deixando, informalmente, o governo nas mãos de Sejano.
Em 28 D.C., Cláudio casou-se com Aelia Petina, que era irmã de criação de Sejano, pois havia sido criada pelo pai dele, Lucius Seius Strabo, um dos primeiros comandantes da Guarda Pretoriana, e antecessor do filho neste comando.
O casamento de Cláudio e Aelia Petinacertamente deve ter sido por influência de Sejano. Um indício é o fato de que, assim que assim que este foi demitido do cargo e executado por ordens de Tibério, em 31 D.C., Cláudio imediatamente divorciou-se de sua segundo esposa, alegando motivos insignificantes. Mesmo assim, eles tiveram uma filha, Claudia Antonia, que seria criada pela mãe de Cláudio, Antônia, a Jovem.
(Estátua de Cláudia Antònia, filha de Cláudio.
Antes da queda, contudo, Sejano, que controlava toda informação entre Roma e Capri e agia como virtual governante de Roma, começara a eliminar os seus desafetos e adversários políticos. E seu alvo preferencial foi Agripina, a Velha, a esposa do falecido Germânico, irmão de Cláudio, que foi exilada em 30 D.C. Ela vinha acusando publicamente Tibério e Lívia de serem os mandantes da morte do esposo. O filho de Agripina, Nero Julius Caesar Germanicus (não confundir com o futuro imperador Nero) também foi exilado e morreria no ano seguinte.
Já o filho homem mais novo de Agripina e sobrinho de Cláudio, Gaius Caesar, de 18 anos, que tinha o apelido de Calígula, foi poupado, mas passou a morar com Tibério, em Capri.
(Busto de Agripina, a Velha)
Anos mais tarde, Cláudio mencionaria, em uma ocasião, que, durante esses anos de intrigas palacianas e de terror pela eliminação dos seus parentes, ele costumava exagerar os seus problemas físicos e passou a fingir ser um completo idiota, com o objetivo de parecer inofensivo a todos, tentando manter-se vivo.
Enquanto isso, após a queda de Sejano, como vimos, Cláudio divorciou-se da irmã de criação do Prefeito Pretoriano caído em desgraça e continuou vivendo na obscuridade até a morte de Tibério, que faleceu com 77 anos de idade, em Capri, em 16 de março de 37 D.C..
Dois dias depois, Tibério foi oficialmente sucedido por Calígula, que era sobrinho de Cláudio. E foi Calígula quem deu a Cláudio o primeiro cargo público que ele ocuparia na vida, o de Cônsul Suffectus, em 37 D.C, com 46 anos de idade!
Apesar da nomeação para o cargo de Cônsul, a condição de Cláudio não melhorou muito, pois Calígula logo mostrou-se um monarca cruel e incontrolável, e o seu tio Cláudio era um dos alvos preferidos de suas pilhérias e deboches, inclusive infligidos algumas vezes perante o Senado Romano.
Em 38 D.C., Cláudio casou-se, pela terceira vez, com Valeria Messalina, integrante de uma ilustre família senatorial, e também sua prima em 2º grau, pois ela era neta da irmã de sua mãe, Antônia, a Velha. No ano seguinte, Messalina deu a Cláudio mais uma filha, que recebeu o nome de Claudia Octavia.
(Cabeça de Claudia Octavia, filha de Cláudio)
No entanto, o reinado de Calígula seria curto. Fartos de seus desmandos e desacatos, alguns senadores e membros da Guarda Pretoriana, estes liderados pelo tribuno Cássio Queréa, urdiram uma conspiração e assassinaram Calígula, durante uns jogos que eram celebrados no Palatino, em 24 de janeiro de 41 D.C.
A conspiração parece, à primeira vista, ter sido motivada primordialmente pelo desejo de algumas pessoas influentes de se livrar de um governante ensandecido, que ameaçava os que estavam próximos do poder, e foi executada por pretorianos que tinham sido humilhados pelo imperador. Se o assassinato de Calígula fazia parte de um plano maior, de restaurar a República, nós não sabemos, mas as fontes relatam que, inicialmente, alguns senadores perceberam essa oportunidade.
Segundo os relatos das fontes, após o assassinato, os guarda-costas germânicos de Calígula entraram em um frenesi de violência e começaram a massacrar quem encontravam pela frente. Cláudio fugiu para o Palácio (ou para a sua casa, a narrativa variam em função da fonte).
Enquanto isso, os guardas pretorianos, também fora de controle, invadiram os aposentos imperiais para saqueá-los. Foi durante essa invasão que um dos guardas, que se chamava Gratus, notou alguém escondido atrás de uma cortina. Ao puxá-la, ele encontrou Cláudio e arrancou-o do seu esconderijo, ocasião em que perceberam que aquele homem assustado era ninguém menos do que o tio do imperador falecido. Ato contínuo, os soldados aclamaram Cláudio, “Princeps“, e o levaram até o quartel da Guarda Pretoriana.
Grato proclama Cláudio imperador. Tela de Sir Lawrence Alma-Tadema, 1871
Dião Cássio e Flávio Josefo narram que Cláudio, sincera ou fingidamente, tentou recusar a púrpura imperial, mas acabou cedendo à pressão dos guardas para que ele assumisse o trono. Eles também mencionam que chegou a haver alguns senadores, especialmente Sentius Saturninus (que fez no Senado um discurso neste sentido), e, até mesmo, alguns pretorianos, que cogitaram de acabar com o Principado e restaurar a República Romana, tal como ela era nos tempos anteriores aos Césares.
E de fato, consta que o Senado, cogitando enfrentar os partidários de Cláudio, chegou a mobilizar na oportunidade os parcos recursos armados que a cidade de Roma dispunha. Porém, este contingente, composto apenas por alguns soldados, vigiles (espécie de bombeiros), gladiadores e até escravos libertos dos senadores, logo debandou para o lado dos Pretorianos que apoiavam Cláudio.
Esse estado de indefinição entre a aclamação de Cláudio e a restauração da democracia, segundo Suetônio, durou dois dias, ao final dos quais o historiador narra que teria ocorrido a crucial intervenção de uma massa de populares gritando pela elevação de Cláudio, que também teria prometido quinze mil sestércios como donativo aos soldados que o aclamaram imperador.
Realmente, não há como ter certeza se Cláudio foi um mero espectador da conspiração que assassinou Calígula, ou se ele sabia e concordou com o plano. Não obstante, os guardas liderados por Lupus, seguindo ordens de Queréa, após liquidarem Calígula, e, aparentemente, não de imediato, dirigiram-se até o Palácio e executaram a imperatriz Cesônia e a filha de Calígula, de apenas dois anos de idade, que teve a cabeça esmagada contra uma parede. Eu acredito que dificilmente os militares ousariam cometer tal atrocidade sem que eles tenham tido a aprovação de alguém poderoso, quem sabe algum senador disposto a restaurar a República, ou, o que é mais provável, de algum pretendente ao trono…
Assim, aos cinquenta anos de idade, Cláudio foi oficialmente aclamado pelo Senado, com o nome deTiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus e ele em seguida perdoou oficialmente todos os senadores e pretorianos que tinham conspirado para assassinar o seu antecessor, bem como aqueles que haviam se manifestado pelo fim do Principado (considera-se que o seu reinado começou no dia da morte de Calígula, 24 de janeiro de 41 D.C., quando ele foi aclamado imperador pelos soldados que o encontraram no esconderijo).
Sintomaticamente, contudo, Queréa e Lupus foram imediatamente executados…
Nota: Cláudio, ao incorporar o nome “Caesar“, apesar de ele não ter sido adotado como herdeiro por Calígula (havia uma linha de adoção formal ligando respectivamente cada um dos imperadores romanos a Júlio César, desde Augusto até Calígula), iniciou a transformação do nome do antigo Ditador em um título imperial.
Poucas semanas depois da aclamação de Cláudio, Messalina deu à luz ao seu primeiro herdeiro, que se chamou Tibério Cláudio Germânico.
A imperatriz (Messalina, com o filho Britânico em seu colo)
O nascimento do filho foi muito comemorado por Cláudio, que com orgulho passou a levar o bebê para exibi-lo em cerimônias e espetáculos públicos. Moedas foram cunhadas para comemorar o nascimento, com a inscrição “esperança augusta” (spes augusta – vide foto abaixo).
No ano seguinte, 42 D.C., ocorreu a única revolta séria contra o governo de Cláudio: uma rebelião liderada pelos senadores Lucius Arruntius Camillus Scribonianus, Governador da Dalmácia, e Lucius Annius Vinicianus, um participante do complô que assassinou Calígula, sendo que ambos chegaram a ser cogitados para suceder o finado imperador, durante o impasse que antecedeu a aclamação de Cláudio. Consta que ambos os líderes rebeldes informaram aos senadores em Roma que o motivo da revolta era devolver o poder ao Senado, mas depois de cinco dias, as tropas deles se recusaram a segui-los e eles acabaram cometendo suicídio.
Dião Cássio narra que Cláudio ficou tão assustado quando soube dessa rebelião que ele cogitou abdicar em favor de Camillus, mas acabou afinal recobrando a coragem e se preparou para enfrentar os rebeldes, o que, como visto, acabou não sendo necessário.
Aparentemente tentando trazer o Senado para o seu lado, Cláudio tentou, ao menos no início do reinado, prestigiar esta assembleia. Ele devolveu ao controle dos senadores as provínicias da Macedônia e da Acaia, que tinham sido retiradas da relação de províncias administradas pelo Senado pelo imperador Tibério.
(Nota: Augusto dividiu as províncias romanas em imperiais, cujo governador era apontado pelo imperador entre os integrantes da classe equestre, e senatoriais, cujo governador era apontado pelo Senado dentre os pares).
Outra exemplo disso, foi a postura que Cláudio adotou de se sentar entre os senadores, aguardando a sua vez de falar nos debates. De certa forma, era uma retomada da acepção inicial do termo Princeps (Príncipe), que, originalmente era o senador mais velho que tinha a prerrogativa de falar primeiro, e fora adotada por Augusto para manter as aparências de que a República permanecia).
Não obstante, a forma comoCláudioascendeu ao trono, elevado pelos soldados da Guarda Pretoriana, expôs escancaradamente o que já se percebia desde o início da crise que levou às guerras civis dos Triunviratos, cem anos antes: que a real fonte de poder residia nas forças militares, cabendo ao Senado apenas legitimar o nome que fosse escolhido pelas tropas.
Por isso, Cláudio, logo no início do reinado, saiu a procura de glórias militares que reforçassem a sua posição de líder militar, aumentando o seu prestígio junto às legiões, as quais, caso lideradas por algum general de renome, poderiam muito bem abraçar a sua “candidatura” e facilmente derrotar os Pretorianos.
E, de fato, no plano militar, o reinado de Cláudio começou bem: O general Gabinius Secundus, comandante das legiões da Germânia Inferior moveu uma guerra bem sucedida contra a tribo germânica dos Chauci, hostil aos romanos desde os tempos em que aqueles bárbaros lutaram ao lado do líder germânico Arminius, na emboscada que resultou no Desastre de Varo, na Batalha de Teutoburgo, em 9 D.C., com a destruição de três legiões romanas e a captura dos seus estandartes-águia (aquila), símbolos que eram religiosamente cultuados pelos romanos e cuja perda em batalha era considerada uma grande humilhação.
Gabiniusconseguiu derrotar os Chauci e recuperar a terceira águia das legiões de Varo, que estava em poder deles (As duas outras haviam sido recuperadas por Germânico, irmão de Cláudio, em 16 D.C.). Certamente, este deve ter sido um momento de exultação para Cláudio, não apenas por ter recebido o título de Imperator pela vitória de seu general, mas por ter, de certa forma, igualado o feito de seu falecido irmão, que fora tão admirado pelos romanos.
(moeda mostrando um estandarte-águia no templo de Marte Vingador, talvez uma das perdidas por Crasso em Carras contra os Partas, recuperada por Augusto)
Escolheu-se, em seguida, a Britânia como o alvo de uma grande expedição. Esta ilha já havia, quase cem anos antes, sofrido a invasão de Júlio César, que, com apenas o objetivo de fazer propaganda pessoal, ficou ali alguns dias em campanha e retornou para o continente. Vale observar que aquele território era, notadamente, um objetivo militar muito mais fácil que a Germânia ou a Pártia, adversários muito mais poderosos e aguerridos que, de vez em quando, infligiam pesadas derrotas aos exércitos romanos.
Assim, no verão de 43 D.C., quatro legiões desembarcaram na Britânia, comandadas pelo general Aulus Plautius, e avançaram pela maior parte da ilha. O pretexto da invasão, como em muitas outras guerras travadas pelos Romanos, foi o pedido de auxílio de um rei cliente de Roma, da tribo bretã dos Atrebates, de nome Verica, que havia sido expulso por adversários. O próprio Cláudio participou da campanha, ficando na Britânia por cerca de duas semanas, promovendo, no final, uma grande parada em Camulodunum (atual Colchester, na Inglaterra), onde começou a ser construído um grande templo dedicado ao seu “gênio”.
A Britânia foi anexada e permaneceria uma província romana até o início do século V. A vitória rendeu a Cláudio o título de Britannicus, que foi estendido a seu filho, que passou a se chamar Tiberius Claudius Caesar Britannicus. O menino passaria, então, a ser conhecido como “Britânico“.
(Cabeça de bronze de uma estátua de Cláudio encontrada no rio Alde, na Inglaterra)
Talvez , pelo motivo de Cláudio perceber que tinha poucos aliados no Senado, ou, ainda, porque ele nunca tinha exercido algum cargo público, exceto o breve consulado extraordinário, ou também devido ao fato da sua pessoa ter sido imposta ao Senado pelos Pretorianos, ou, finalmente, talvez porque ele possa ter assim concluído dos seus estudos aprofundados sobre o governo de Júlio César, o período das guerras civis e sobre o reinado de Augusto, o principado de Cláudio notabilizou-se pela implantação de um corpo de funcionários do Palácio encarregado da administração de funções governamentais que, anteriormente, eram exercidas pelos magistrados tradicionais da República, cargos ocupados primordialmente por senadores, magistraturas essas que foram em grande parte mantidas pelos seus antecessores no trono com suas funções executivas.
Já os funcionários palacianos eram diretamente indicados pelo imperador, sem mediação do Senado, e, quase sempre, ainda que extremamente preparados, eles eram escravos libertos que pertenciam ao próprio Imperador.
No reinado de Cláudio, esse secretariado foi dividido em escritórios que funcionavam como verdadeiros ministérios. Assim, o liberto Narcissus foi escolhido como Secretário da Correspondência Imperial (cargo importante, pois controlava toda a comunicação oficial do imperador, seja como emitente ou destinatário, redigindo e enviando despachos, comunicados ou correspondências e recebendo petições, denúncias, notícias de fatos, etc. O liberto Pallas* foi nomeado Secretário do Tesouro Imperial (fiscus) e o liberto Callistus, um influente ex-escravo de Calígula que havia participado da conspiração para assassiná-lo, foi escolhido para ser Secretário de Justiça, responsável, inicialmente, pelos recursos das decisões dos tribunais que eram dirigidos ao imperador.
Podemos, então, considerar que, embora os seus antecessores já utilizassem os seus libertos como auxiliares, Cláudio foi o primeiro organizador sistemático da burocracia imperial, esboçando uma forma que perduraria por muitos séculos.
*NOTA: Como curiosidade, mas também como uma mostra do prestígio que os funcionários libertos gozaram a partir do governo de Cláudio, observamos que o irmão de Pallas, Marcus Antonius Felix, foi nomeado para ser o Procurador da Judeia, um cargo formalmente reservado aos integrantes da classe Equestre. Foi este Felix que procedeu ao julgamento do apóstolo Paulo, em Cesareia, sendo nominalmente citado em Atos, 24.
Não surpreende, assim, que Cláudio tenha sido visto com antipatia pelos Senadores, que, além de deixarem de ter voz em setores importantes da administração pública, ainda tinham que tratar em pé de igualdade com ex-escravos, o que afetava o sabidamente delicado senso de dignidade da classe senatorial… E essa antipatia da classe senatorial de Roma por Cláudio transborda abundante nas narrativas do seu governo, feitas por historiadores oriundos do Senado, tais como Tácito e Dião Cássio, ou então equestres ligados aos senadores, como Suetônio. Além disso, como resultado do grande poder que eles agora detinham, todos esses secretários libertos tornaram-se imensamente ricos, rivalizando em fortuna com os próprios senadores…
Claramente, a tentativa de aproximação que ele tentou no início do governo falhou e, diante desse quadro, Cláudio acabaria exilando ou mandando executar vários senadores, embora não se possa dizer que todos as citados tenham de fato conspirado para derrubá-lo – e alguns dos supostos conspiradores talvez nem tenham sido de fato executados por ordens dele. Não obstante, consta que, durante o seu reinado, Cláudio mandou executar 35 senadores e centenas de membros da classe Equestre.
Por exemplo, em 46 D.C., o senador Lucius Asinius Gallus foi acusado de conspirar contra Cláudio e foi exilado, sendo que o imperador chegou até a ser elogiado pela moderação quanto à pena aplicada. Em 47 D.C., o senador de antiga origem gaulesa, Decimus Valerius Asiaticus, por sua vez, foi alvo de acusações vagas de traição (e também de cometer adultério com uma aristocrata) e ele foi julgado, nos aposentos do Palácio (in camera), em julgamento fechado, pelo imperador e seu conselho privado, e não perante um tribunal público, um procedimento que se tornou costumeiro durante o principado de Cláudio. Segundo uma fonte, o verdadeiro motivo desta inquisição foi a cobiça que a imperatriz Messalina nutria pelos belos Jardins de Lúculo, em Roma, que pertenciam a Asiaticus, que acabou compelido a se suicidar. Outra fonte alude ao fato de Asiaticus possivelmente ter participado da conspiração contra Calígula e ter insinuado a pretensão de suceder o falecido imperador. De qualquer forma, existiu algum pretexto sério, verdadeiro ou fictício, para Cláudio não gostar de Asiaticus, já que o imperador, no ano seguinte, fez questão de se referir a ele como “um gaulês bandido e patife cujo nome eu não devo sequer mencionar neste discurso“, em uma sessão do Senado cujos debates foram preservados na Tábua de Lyon, à qual mais tarde aludiremos.
Outro senador executado foi Gnaeus Pompeius Magnus, um descendente do Triúnviro Pompeu, o Grande, e que era casado com Claudia Antonia, a filha mais velha do próprio Cláudio, que teria participado de uma conspiração contra o imperador.
Muitas dessas perseguições são atribuídas às maquinações da imperatriz Messalina, acerca de quem há relatos de que ela se aproveitava de uma certa credulidade e ingenuidade que Cláudio repetidamente demonstrou ter em relação a todas as mulheres que ele teve em sua vida.
Aliás, a se acreditar nos relatos dos historiadores antigos, Messalina seria uma verdadeira ninfomaníaca, que não apenas teria tido inúmeros amantes enquanto esteve casada com Cláudio, mas, entre outras coisas, teria chegado até a participar de uma competição contra uma prostituta, em que aquela que tivesse mais parceiros sexuais na mesma noite ganharia (sendo que Messalina teria ganho a aposta, com um total de 25 parceiros, um caso citado por Plínio, o Velho, em sua “História Natural”)…Ela teria, ainda, segundo o poeta Juvenal, trabalhado, enquanto imperatriz, em um bordel, sob o pseudônimo de “Loba”.
Os historiadores antigos afirmam que Cláudio desconhecia as infidelidades de Messalina, seja por ele se dedicar às questões administrativas e jurídicas do Império, seja por confiar demais na esposa, muito embora as fofocas sobre o assunto circulassem pela cidade de Roma, até o dia em que seu liberto Narcissus lhe contou que Messalina, enquanto Cláudio estava em Óstia, organizou uma festa no Palácio, e, durante a mesma, ela teria se casado, em uma cerimônia, real ou encenada, com seu amante Gaius Silius, um belo jovem que tinha sido designado para ser Cônsul em 48 D.C.. Poderia até ser uma brincadeira infeliz, mas, para piorar, a versão que chegou a Cláudio é a de que o casamento fazia parte de um plano de Messalina e Silius para assassiná-lo.
Messalina acabou sendo executada em 48 D.C., apesar de constar que Cláudio, cujo coração já estava amolecendo em favor da esposa, não se resolvia a dar a ordem expressa, tendo a decisão fatal sido ordenada por Narcissus, à revelia do imperador.
Em 47 D.C., Cláudio assumiu o cargo de Censor, que tinha sido relegado a uma certa insignificância, junto com Lucius Vitellius, um dos poucos amigos de sua infância, pois conviveram juntos na casa de sua mãe, Antônia, a Jovem, a volta de quem havia um círculo de nobres orientais, devido ao fato dela ter herdado do seu pai, MarcoAntônio, as conexões políticas e numerosas propriedades no Oriente. Outra amizade desses tempos de juventude era o príncipe judeu conhecido como Herodes Agripa, que ajudou Cláudio durante o impasse da sucessão de Calígula.
NOTA: Vitellius havia sido Cônsul e governador da Síria durante o final do reinado de Tibério. Foi ele, inclusive quem demitiu Pôncio Pilatos do cargo de Prefeito da Judeia. Durante o reinado de Cláudio, ele seria Cônsul outras duas vezes, um fato incomum para quem não fosse da família imperial, durante o Império Romano). Ele era pai do futuro imperador Vitélio.
Talvez como um agrado a Herodes Agripa, Cláudio deu ao amigo o título de Rei da Judeia, restaurado como reino-cliente de Roma, dando-lhe o governo do respectivo território, que tinha sido incorporado ao Império Romano (Herodes já governava a Galileia). Cláudio também reconheceu o direito de liberdade de culto dos Judeus no Império Romano. Um exemplo dessa política está registrado na “Carta aos Alexandrinos”, onde Cláudio ordena aos habitantes gregos de Alexandria que respeitem os direitos da grande colônia judaica que existia na cidade, fonte frequente de diversos conflitos étnicos e religiosos.
Porém, quando Herodes Agripa morreu, em 44 D.C., todo o seu reino foi reincorporado ao Império Romano. Nessa mesmo período, outros reinos-clientes de Roma foram anexados formalmente, tais como a Trácia, Noricum, Panfília e a Lícia, que se tornaram províncias. A Mauritânia, cujo processo de anexação fora iniciado por Calígula, teve a anexação concluída sob Cláudio, em 44 D.C., cujas tropas derrotaram os últimos focos de resistência armada. Essas medidas estão de acordo com a tônica geral de seu reinado em direção à centralização de poder e expansão da burocracia imperial.
Seguindo a linha geral de seu governo, Cláudio utilizou o cargo de Censor para intervir na composição das classes senatorial e equestre, pois o Censor tinha o poder de verificar os requisitos para a inscrição dos cidadãos nas respectivas listas. Assim, Cláudio mandou excluir o nome de vários senadores e equestres cuja renda não mais atendia o requisito mínimo estipulado pela lei para integrar a classe.
Constatando que havia muitos assentos vagos no Senado, devido a décadas de execuções e proscrições pelos imperadores que o antecederam, além da diminuição do número de famílias da classe senatorial, Cláudio, seguindo o exemplo de Júlio César, antepassado que ele muito admirava, e aproveitando o cargo de Censor, mandou arrolar novas famílias nas listas de patrícios e abriu o Senado para nobres e pessoas ilustres nascidas nas províncias, especialmente da Gália, fato que ficou registrado na chamada Tábua de Lyon, que contém a interessante transcrição do discurso do imperador na sessão do Senado Romano, ocorrida em 48 D.C., na qual Cláudio propõe a admissão ao Senado de homens ilustres de origem gaulesa, habitantes da Gália Lugdunense (centrada em Lugdunum, atual Lyon, cidade natal do próprio Cláudio).
A Tábua de Lyon, em bronze, que foi encontrada em um vinhedo nos arredores de Lyon, provavelmente foi feita a mando desses mesmos senadores gauleses agradecidos, beneficiados pela aprovação da proposta de Cláudio. Além de confirmar o relato desse fato histórico, citado por Tácito, a Tábua de Lyon contém, tudo indica, a transcrição literal do discurso do imperador no Senado, inclusive transcrevendo as interrupções questionadoras de alguns senadores contrários à medida. E o discurso de Cláudio, cheio de digressões históricas e certo pedantismo, combina perfeitamente com a descrição de sua personalidade feita pelos historiadores antigos.
Tanto isso é verdade, que a sessão preservada na Tábua de Lyon, com notável fidelidade, transcreve até o apelo de um senador para que Cláudio fosse direto ao ponto! (vide: https://sourcebooks.fordham.edu/ancient/48claudius.asp)
( A Tábua de Lyon)
Neste mesmo ano de 48 D.C., realizou-se por ordens de Cláudio um grande Censo da população de todo Império Romano, que contou o número de 5.984.072 cidadãos romanos, ou seja, homens livres que gozavam do direito de cidadania romana, excluindo, portanto, mulheres, crianças, escravos e habitantes que não tinham cidadania. Isso aponta para uma população que se estima estivesse entre 50 e 70 milhões de habitantes.
Após a execução de Messalina, os seus libertos, visando cada um a aumentar a sua influência sobre o imperador, se revezaram em apresentar candidatas a se tornarem a nova imperatriz, sendo que Lollia Paulina, que havia sido esposa de Calígula, e a ex-esposa de Cláudio, Aelia Petina, chegaram a ser cogitadas.
A pretendente cuja “candidatura” era defendida pelo secretário Pallas acabou sendo a escolhida: Agripina, A Jovem, que, sendo filha de Germânico, era nada menos do que a sobrinha do próprio Cláudio. Além disso, Agripina também era irmã do antecessor dele, Calígula.
Segundo as leis romanas, essa união era considerada incesto, mas, em tempos de Principado, obviamente que mudar a lei não foi difícil…
Há relatos de que Agripina teria seduzido o tio Cláudio, mas, provavelmente, o que pesou mesmo na sua escolha foram considerações políticas: Cláudio já estava com 58 anos de idade, sendo que seu, Britânico, tinha apenas sete. Caso Cláudio, que nunca havia sido uma pessoa muito saudável, morresse, ou ficasse incapacitado, era grande o perigo de que a dinastia dos Júlio-Cláudios terminasse, pois Britânico ainda estava longe de despir a toga pretexta e tornar-se maior de idade, quando poderia assumir cargos públicos.
O Principado ainda estava nas primeiras décadas e, ainda que apenas no aspecto formal, o imperador era considerado o primeiro-magistrado. A transição legal e cultural para uma monarquia ainda não havia sido feita, e a sucessão de Calígula mostrara que ainda havia anseios republicanos no Senado…
Assim, Cláudio precisava de um arranjo que lhe permitisse garantir, na sua falta, a continuidade da dinastia no governo, esperançosamente, até que seu filho estivesse apto a governar. Esta era, inclusive, uma situação pela qual Augusto já tinha passado (Com efeito, já idoso, e após o falecimento de vários herdeiros de sangue, sobrinhos e netos, tais como Marcelo, Lúcio e Caio César, ele havia sido obrigado a adotar Tibério, filho de sua esposa Lívia).
Em 1º de janeiro de 49 D.C., Cláudio e Agripina se casaram. No ano seguinte, em 25 de fevereiro de 50 D.C., Cláudio a adotou o filho dela, Lucius Domitius Ahenobarbus, que passou a se chamar “Nero Claudius Caesar Drusus Germanicus” (Nero).
(Busto de Agripina, a Jovem)
Ainda em 50 D.C.., Agripina conseguiu que Cláudio persuadisse o Senado a dar-lhe o título de Augusta, honraria que somente Lívia Drusila, a esposa de augusto, havia recebido em vida, e, mesmo assim, somente após a morte do marido.
Todos logo perceberam o tamanho da influência de Agripina sobre Cláudio e, pouco a pouco, o nome dela começou a aparecer em inscrições em monumentos, moedas e documentos. Consta que ela recebia embaixadores estrangeiros sentada em seu próprio tribunal e vestia um manto militar com bordados de ouro em cerimônias oficiais. O prestígio dela era tanto que o povoado em que ela nasceu, na Germânia, às margens do rio Reno, onde seu pai estava aquartelado, recebeu, em 50 D.C., o nome de Colonia Claudia Ara Agrippinensium, que é a atual cidade de Colônia, na Alemanha.
(Reconstrução da Colonia Claudia Ara Agrippinensium – atual Colônia, no século I D.C.)
Em 51 D.C., Nero vestiu a toga virilis, alguns meses antes da idade costumeira, pouco antes de completar 14 anos. No mesmo ano ele recebeu o título de Princeps Iuventutis, um título que surgira no reinado de Augusto para honrar os jovens considerados como potenciais herdeiros do trono.
Para a surpresa geral, parecia que Nero estava tomando a preferência de Cláudio para ser o seu sucessor. E Agripina começou a eliminar todos que representassem uma ameaça à trajetória de seu filho rumo ao trono. Em 51 D.C, ela ordenou a execução de Sosibius, o tutor de Britânico, que andava reclamando da preferência que vinha sendo dada ao filho de Agripina.
Em 9 de junho de 53 D.C, certamente com a intermediação de Agripina, Cláudio concordou com o casamento entre Nero e sua filha, Claudia Octavia.
Britânico agora já tinha doze anos e o motivo de Cláudio continuar tomando medidas que favoreciam a posição de seu enteado Nero como herdeiro preferido, em detrimento do próprio filho natural, continua sendo algo que intriga os historiadores.
Porém, a maioria das fontes narra que, nos meses que se seguiram, Cláudio, um tanto descuidadamente, começou a fazer comentários, aqui e ali, lamentando o fato dele ter casado com Agripina e adotado Nero.
Em meados de 54 D.C., faltava menos de um ano para Britânico atingir a idade em que poderia vestir a toga virilis e ser considerado adulto. Suetônio cita que Cláudio mencionou publicamente em algum evento a intenção de antecipar a cerimônia, devido à altura de Britânico, chegando a dizer, na ocasião:
“Para que o Povo de Roma finalmente possa ter um genuíno César“.
Era uma clara advertência de que ele não considerava mais Nero como sucessor. Agora, o ano de 54 D.C. entrava em seus últimos meses e, pela primeira vez, em um discurso no Senado, Cláudio se referiu a Nero e Britânico como iguais em precedência.
Em 13 de outubro de 54 D.C., pela manhã, foi anunciado que Cláudio morreu, após um banquete. Nas fontes antigas há um quase consenso de que ele foi envenenado a mando de Agripina, ou até mesmo por ela pessoalmente. Agripina, teria se aproveitado do fato do onipresente Narcissus, partidário de Britânico, estar descansando em sua villa na Campânia, e contratou a célebre envenenadora Locusta, para preparar o veneno, o qual teria sido administrado em um prato de cogumelos, iguaria muito apreciada por Cláudio. Os detalhes variam. Segundo uma versão, Cláudio ao comer os cogumelos, acabou vomitando, e uma segunda dose lhe foi administrada, agonizando durante um tempo, e, após ele ter morrido, o seu falecimento ainda foi escondido por um curto período de tempo, durante o qual todos preparativos necessários foram feitos para assegurar a sucessão em favor de Nero, inclusive a destruição do último testamento de Cláudio, no qual ele teria reconhecido Britânico como sucessor.
A aclamação de Nero foi tranquila: O Senado sabidamente odiava Cláudio e, ainda em 51 D.C., Agripina havia indicado o nome de Sextus Afranius Burrus (Burro) para ser o novo Prefeito da Guarda Pretoriana, e com cuja lealdade ela pôde contar na hora da sucessão.
(Relevo de Agripina coroando seu filho Nero. A cena não deixa margem a dúvidas…)
Nero fez a eulogia (oração fúnebre) em honra de Cláudio, que depois foi “deificado” pelo Senado, isto é, após a sua morte, decretou-se que ele tinha sido elevado ao panteão dos deuses a serem cultuados pelos romanos (apotheosis).
(Camafeu do século I, retratando a apoteose de Cláudio. Uma águia o leva até os céus)
A deificação, ou apoteose, de Cláudio, embora oficial, foi objeto de sátiras e pilhérias pelos integrantes da classe senatorial. Um deles, o filósofo e escritor Sêneca, o Jovem, escreveu uma célebre sátira chamada de “Apocolocyntosis” (literalmente, “aboborificação”, processo no qual Cláudio, na narrativa, tranformaria-se em uma abóbora após a morte), ridicularizando a apoteose do imperador. Na obra, a deificação dele é julgada em um tribunal do deuses no Monte Olimpo, e o próprio imperador falecido Augusto discursa aos deuses enumerando os defeitos físicos, as idiossincrasias, gafes, assassinatos de Cláudio, cuja sentença é ser enviado a penar nas profundezas do Hades, condenado pela eternidade a trabalhar como funcionário de um tribunal, e, ironicamente, sendo dado como escravo a um liberto…
O destino no Hades ao qual Cláudio foi condenado na Apocolocyntosis é claramente uma crítica mordaz a uma das atividades a que o imperador mais se dedicou durante o reinado: os processos judiciários (Ele, de fato, costumava comparecer quase que diariamente ao tribunal, julgando processos). Além disso, é uma crítica à preferência que ele deu aos libertos durante o seu governo.
Embora Cláudio fosse diligente e dedicado no exame da maior parte dos casos judiciais que lhe eram submetidos, ele, às vezes, costumava desprezar os princípios processuais estabelecidos no Direito Romano, proferindo sentenças sem ouvir a parte contrária, violando o princípio do contraditório, ou, como já apontamos, realizando sessões fechadas no palácio, o que era contrário ao princípio da publicidade dos julgamentos, muito caro aos Romanos.
Por exemplo, as fontes citam que Cláudio, certa vez, agiu como um verdadeiro rei Salomão, da Bíblia judaica, julgando um processo no qual uma mãe se negava a reconhecer o filho, decretando que ela se casasse com o rapaz, para forçá-la a confessar a maternidade.
E a estupefação dos litigantes com essas bizarrices de Cláudio era tanta, que Suetônio narra, observando que o fato era de conhecimento geral, um caso em que um réu, falsamente acusado de conduta imprópria contra uma mulher, ao ver que Cláudio decidira, contrariamente à praxe processual romana, ouvir algumas prostitutas como testemunhas, exasperou-se e atirou a tábua e o estilete de escrita em cima do imperador, conseguindo até ferir a bochecha de Cláudio!
Outra faceta de Cláudio era o amor que ele tinha pelos espetáculos públicos, especialmente os combates de gladiadores e contra feras. Durante seu reinado ele promovou várias exibições, culminando com um combate naval simulado, no qual Suetônio registrou que os combatentes saudaram Cláudio com a frase: “Ave, Imperador, Aqueles que irão morrer te saúdam“. É a única vez que a História registra essa frase, que não sabemos se ela era padrão nos jogos de gladiadores ou se somente foi utilizada naquela ocasião (Cássio Dião também a menciona no mesmo episódio, mas a narrativa deve ter sido obtida na obra de Suetônio). A nota satírica, frequentemente presente nas estórias sobre Cláudio, marcando um tom depreciativo sobre a sua suposta estupidez, é que, àquela saudação, o imperador teria respondido: “Ou não…!“, ao que os combatentes entenderam, induzidos a erro, que eles tinham sido perdoados e assim se recusaram, inicialmente, a lutar, para desespero do próprio Cláudio, preocupado com a reação dos espectadores frustrados.
O amor pelos jogos de gladiadores e combates na arena parece combinar com uma outra faceta sombria da personalidade de Cláudio: a curiosidade excessiva, ou mesmo o prazer mórbido, que ele tinha de assistir pessoalmente as execuções de condenados, à tortura de testemunhas ou à morte dos gladiadores.
A política religiosa de Cláudio caracterizou-se pela tentativa de revitalizar as tradições e reviver aspectos antigos dos cultos romanos, como era de se esperar de um amante da história antiga e dos etruscos. Um episódio interessante que ocorreu em seu governo foi a expulsão dos judeus, narrada por Suetônio, que teria sido motivada por tumultos causados “por instigação de Chrestus“.
Muitos especialistas acreditam que essa passagem reflete a chegada dos primeiros pregadores cristãos a Roma, que entraram em conflito com a numerosa comunidade judaica lá instalada, ao pregarem o Evangelho. Obviamente que os romanos ainda não deviam distinguir os cristãos dos judeus ( e note-se que essa divisão ainda não estava pacífica entre os próprios cristãos), e a expulsão não parece ter tido motivos religiosos, mas de manutenção da ordem pública. Não deve, contudo, ter sido uma expulsão em massa. Acredita-se que o episódio narrado por Suetônio é o mesmo que aparece em Atos, 18, 2., quando São Paulo encontra em Corinto um judeu chamado Aquila, que tinha sido expulso de Roma por Cláudio. Estima-se que essa expulsão narrada por Suetônio e em Atos tenha ocorrido por volta de 50 D.C.
Um campo onde Cláudio se destacou como imperador foi no das obras publicas, construindo várias de grande utilidade, como por exemplo dois importantes aquedutos: o Aqua Claudia, cuja construção havia sido iniciada por Caligula, e o Anio Novus, completados em 52 D.C.. Cláudio financiou a construção de ambos com recursos oriundos do tesouro privado do imperador (fiscus).
(A Porta Maggiore, era uma porta monumental no trajeto da junção dos aquedutos da Aqua Claudia e da Aqua Novis, construída por Cláudio)
Fora de Roma, no reinado de Cláudio foram construídos um canal ligando o Reno ao mar, um canal ligando o rio Tibre a Portus, o porto marítimo que ele mandou construir ao norte de Óstia. Além de possibilitar o aumento do volume de transporte de grãos e outras mercadorias para Roma, essa obra útil reduziu as enchentes do rio Tibre.
Ao menos como construtor de grandes obras de utilidade pública, o sempre crítico Suetônio fez justiça a Cláudio, reconhecendo:
“Suas obras públicas foram mais grandiosas e necessárias do que numerosas”.
Conclusão
Assim, o imperador Cláudio é uma figura ambígua para a História de Roma. Se formos considerar apenas a opinião dos Senadores, classe de onde saíram aqueles que registraram o seu reinado na História, ele teria sido um idiota que lhes foi imposto pela guarda pretoriana, e, durante o seu reinado, mostrou-se um governante tirânico, porém medroso e manipulável pelas suas esposas e seus libertos. Porém, mesmos nesses textos críticos, transparece que Cláudio era um monarca dedicado ao ofício de governar e que ele tomou uma série de medidas úteis e sensatas.
A figura de Cláudio é muito bem retratada no best-seller “Eu, Claudius, Imperador“, do escritor inglês Robert Graves, que foi escrito como se fosse a autobiografia perdida do imperador.
Em 06 de outubro de 105 A.C., em um local situado entre o povoado celta de Arausio (onde mais tarde seria fundada uma cidade romana com o mesmo nome – a atual Orange, no sul da França) e o Rio Ródano, dois exércitos consulares romanos, incluindo tropas auxiliares, foram fragorosamente derrotados pelas tribos bárbaras dos Cimbros e Teutões.
(A invasão dos Cimbros e Teutóes e as batalhas travadas contra os Romanos, mapa de Pethrus )
Quem eram os Cimbros e Teutões?
Segundo as fontes romanas (Estrabão e Tácito), o povo dos Cimbros, que era liderado pelo rei Boiorix, juntamente com os Teutões, sob o comando do rei Teutobod, teria migrado da península da Jutlândia, situada na atual Dinamarca, para o sul, em busca de um novo lar, movimento que provocou, tal como se veria séculos mais tarde, o deslocamento de outros povos, como por exemplo, os Helvécios, que entraram em conflito com os romanos.
Alguns estudiosos acreditam que o motivo da migração dos Cimbros e dos Teutões foi o aumento do nível do mar na região da Jutlândia, que teria ocorrido na mesma época, o que acabou inundando as terras ocupadas pelas duas tribos (esse motivo é relatado pelo historiador antigo Floro).
Há, todavia, certa controvérsia acerca da etnicidade dessas duas tribos:
Para as fontes antigas e vários estudiosos modernos, elas seriam tribos germânicas. No entanto, ao menos quanto aos Cimbros, o nome da tribo e dos personagens dá substrato à tese de que eles poderiam ser um povo celta. Com efeito, Boiorix, o nome que consta nas fontes como sendo o do rei deles, parece ser relacionado com a palavra celta ‘‘boii” (que por sua vez, está na origem da nossa palavra “boi”, com o mesmo significado de bovino). E, de fato, o historiador antigo Políbio relata que a riqueza dos celtas costumava ser contada em gado e ouro.
Para outros estudiosos, a palavra boii também significaria “guerreiro” na língua proto-indo-européia, vocábulo que estaria na origem de nomes como Boêmia ( Bohemia = Terra dos Boii), Beócia e Baviera (Bayern).
Por outro lado, as fontes atestam que, na verdade, os Cimbros e Teutões entraram em conflito com os Boii, quando eles invadiram seu território situado no norte da Itália, durante a migração que resultou na guerra contra os Romanos, o que parece fortalecer a ideia de que eles seriam mesmo germânicos.
Para tornar mais instigante essa nossa breve digressão acerca da origem dos Cimbros e Teutões, a Arqueologia obteve um objeto que também permite conclusões variadas: o chamado “Caldeirão de Gundestrup“, artefato que foi encontrado exatamente na Dinamarca, de onde as fontes antigas relatam que os Cimbros e Teutões seriam originários. Este magnífico caldeirão de prata, que é datado aproximadamente do mesmo período da migração dos Cimbros e Teutões, ostenta motivos típicos da arte celta, mas foi produzido com técnicas de ourivesaria (trabalho em metal com ouro e prata) característicos da Trácia. Assim, já se levantou até a hipótese do Caldeirão de Gundestrup ser o produto de saque ou do comércio dos povos da Jutlândia com a tribo celta dos Scordisci, os quais teriam encomendado o caldeirão aos Trácios, com quem aqueles tinham relações.
Seja como for, o mais provável é que os Cimbros e os Teutões devem ter começado a migrar da Jutlândia na direção do sudeste europeu na penúltima década do século II A.C e, após diversas lutas com tribos celtas, eles chegaram até Noricum, uma região celta que, séculos mais tarde seria incorporada pelo Império Romano e que abrange parte das atuais Áustria e Eslovênia, sendo cortada pelo rio Danúbio (vale notar que esse seria um caminho parecido ao que seria percorrido pelas futuras invasões germânicas, 350 anos depois).
Em Noricum, os Cimbros e Teutões invadiram as terras ocupadas pelos Taurisci, um grupo de tribos celtas aliadas dos Romanos, em 113 A.C. Quando o cônsul Cneu Papírio Carbo chegou com seu exército para auxiliar os aliados celtas , ele intimou os invasores germânicos a abandonarem o território dos Taurisci, sendo, inicialmente, obedecido.
Todavia, Carbo resolveu emboscar os bárbaros em Noreia, entre as atuais Eslovênia e Áustria, mas eles perceberam a tempo a armadilha e conseguiram derrotar as forças romanas, na chamada Batalha de Noreia. Carbo e os remanescentes das tropas que tinham sobrevivido à derrota conseguiram escapar, mas o comandante foi destituído do cargo pelo Senado e ele acabou se suicidando para não ter que suportar essa desonra.
Roma, então, preparou-se para o pior…Porém, ao invés de invadir a Itália, a horda germânica preferiu seguir em direção à Gália, no Oeste.
Em 109 A.C, os Cimbros e Teutões, seja porque a resistência encontrada na Gália foi grande, seja porque eles esgotaram os recursos daquela região, pediram permissão para se assentarem em território romano, o que lhes foi negado pelo Senado. Os bárbaros, então, invadiram a província romana da Gália Narbonense.
O cônsul Marco Júlio Silano partiu para interceptar os Cimbros e os Teutões, e, novamente, os bárbaros derrotaram os romanos. O Cônsul conseguiu escapar com vida. As fontes dão poucos detalhes, mas parece que as sucessivas derrotas dos romanos colocaram em risco a própria província da Gália Narbonense, atiçando as tribos gaulesas já submetidas pelos romanos a se rebelarem. Inclusive a tribo helvética dos Tigurini, que se aliara aos Cimbros e Teutões, venceu completamente as legiões do cônsul Lúcio Cássio Longino, na Batalha de Burdigala (atual Bordeaux), em 107 A.C.. O general Caio Popílio Lenas conseguiu escapar com sua legião, mas teve que abandonar todo o seu equipamento.
Nessa época os romanos estavam envolvidos em uma cruenta guerra contra o rei da Numídia, Juba, situação que levou o Senado a nomear como cônsul o militar mais respeitado de Roma, o general Caio Mário, muito embora ele fosse da classe equestre e viesse de uma família da qual nenhum antepassado jamais tinha sido senador, sendo, assim, considerado um “homem novo” (novus homo).
A derrota na Batalha de Burdigala obrigou, em 106 A.C., o Senado a mandar mais um exército para a Gália, para prevenir a revolta da cidade de Tolosa (atual Toulouse), sob o comando do cônsul Quinto Servílio Cépio. Quando capturou Tolosa, Cépio saqueou os altares gauleses que guardavam o célebre “Ouro de Tolosa“, que seria proveniente do saque que os gauleses promoveram no santuário do deus Apolo, em Delfos, na Grécia. Entretanto, o ouro capturado desapareceu enquanto estava sendo transportado para Massília (Marselha) e as suspeitas de seu desvio recaíram sobre Cépio.
Mesmo assim, no ano seguinte, para lidar com a ameaça dos Cimbros e Teutões, que agora estavam se movendo em direção sudeste, o Senado prorrogou o comando de Cépio para a Gália, agora nomeando-o procônsul, e a ele se juntou o cônsul Cneu Mallius Máximo, que também era um “homem novo”.
Em tese, Cneu Máximo, como cônsul, ocuparia um posto superior ao de Cépio. Este, porém, sendo de família nobre, não gostou nada do fato, e as fontes relatam que esta foi a principal razão de ambos não terem cooperado em face da mais séria ameaça que pairava sobre Roma desde o fim da Segunda Guerra Púnica. Além disso, consta que Máximo não tinha muita experiência militar. Por esta razão, quando Cneu Máximo acampou seu exército em um dos lados do rio Ródano, próximo a Arausio, Cépio decidiu acampar na margem oposta…mesmo tendo recebido chamados para atravessar o rio e se juntar ao colega…
Quando os Cimbros e Teutões se aproximaram do rio, um destacamento romano de cavalaria, sob o comando do general Marco Aurélio Escauro, encontrou a vanguarda bárbara, mas foi completamente derrotado. Escauro, capturado, foi levado à presença do rei Boiorix. Inabalável, o romano exortou Boiorix a dar meia-volta e partir, a fim de que os bárbaros não fossem destruídos. Escauro acabou sendo morto e queimado vivo em uma gaiola de madeira.
Boiorix, agora, podia avistar os dois exércitos acampados, um de cada lado do rio, sendo que Máximo estava do mesmo lado que os Cimbros. Segundo as fontes antigas, o total de bárbaros seria de 200 mil, mas devemos notar que se tratava de um povo em migração, incluindo, assim, homens, mulheres e crianças. Assim, o número de guerreiros deveria ser, no máximo, de 80 mil, mais provavelmente de 60 mil.
Em 6 de outubro de 105 A.C., Cépio, não querendo dividir a glória da vitória com Máximo, decidiu atravessar o rio e atacar sozinho o acampamento dos Cimbros, Porém, valendo-se do fato deles estarem acampados em terreno mais favorável, os bárbaros conseguiram aniquilar completamente o exército do Procônsul, que conseguiu fugir. Mais tarde, ele sofreria a pena de exílio por isso.
Agora, Máximo teria que enfrentar o ataque dos Cimbros, em inferioridade numérica e, pior, com o rio Ródano às suas costas. Os soldados do exército romano remanescente, porém, quando viram a enorme massa de bárbaros, entraram em pânico e muitos tentaram fugir nadando, ma terminaram por morrer afogados.
A derrota foi um massacre e as mortes romanas são estimadas pelas fontes antigas em 80 mil. Alguns acreditam que, se forem contadas as baixas entre os auxiliares e os civis que costumeiramente acompanhavam as legiões, as perdas romanas teriam sido de 120 mil pessoas! Portanto, em números, a Batalha de Arausio teria sido a pior derrota sofrida pelos romanos em toda a sua história. Aliás, o número de mortos romanos na Batalha de Arausio seguramente é um dos maiores já sofridos em um único dia por um exército em qualquer conflito, em todos os tempos e lugares.
Importante observar que o número de mortos na Batalha de Arausio é mencionado por Tito Lívio com base no relato do obscuro historiador Valerius Antius, de quem o próprio Lívio desconfiava, considerando que às vezes ele inflaria os números de combatentes e mortos nos eventos que relatou. Portanto, devemos ler esses números com um grão de sal…
Dada a magnitude da derrota e do perigo, o Senado Romano resolveu abandonar qualquer preciosismo legal e resolveu conceder a Mário o privilégio de obter um consulado apenas três anos após o seu primeiro, o que era vedado por lei. Além disso, durante a Guerra Contra os Cimbros e Teutões, o Senado, de maneira também sem precedentes, nomeou Mário como “Cônsul Sênior“, por mais quatro anos sucessivos.
Mário acabaria derrotando definitivamente os Cimbros e Teutões, em 102 A.C., na Batalha de Aqua Sextia e em 101 A.C, na Batalha de Vercellae. As pesadas baixas sofridas pelos romanos contra esses bárbaros, com a morte de milhares de aristocratas e cidadãos proprietários de terras, contribuíram para que Mário implementasse as suas cruciais reformas militares, as quais mudariam a composição, a estrutura e a organização do Exército Romano para sempre, possibilitando a criação de um exército profissional baseado na classe dos proletários.
Em 18 de abril de 359 D.C., nasceu, em Sirmium, capital da província romana da Panônia, a cerca de 55 km da atual Belgrado, Sérvia, Flavius Gratianus (Graciano), filho do general Flávio Valentiniano e da esposa dele, Marina Severa. Graciano recebeu este nome em homenagem ao avô, Graciano, o Velho, também natural da Panônia, que, depois de ganhar a vida como vendedor ou fabricante de cordas, entrou no Exército Romano, na unidade de elite dos “Protectores domesticus” e chegou ao posto de general e governador da África e da Britânia.
Quando Graciano tinha cinco anos, em 364 D.C., o pai dele foi aclamado imperador romano, tornando-se Valentiniano I, considerado o último grande Imperador Romano do Ocidente.
Já em 366 D.C., Graciano, ainda uma criança pequena, foi nomeado Cônsul. E, no ano seguinte, enquanto Valentiniano I encontrava-se em campanha contra os bárbaros Alamanos, na Gália e ficou seriamente doente, Graciano foi nomeado “Augusto”, tornando-se, portanto, formalmente, coimperador junto com o pai.
O motivo da nomeação de Graciano foi o fato de que, percebendo o estado de saúde grave de Valentiniano I, cortesãos começaram um movimento para nomear o ministro Rusticus Julianus como sucessor, enquanto que, no exército, os militares apoiavam o general Severus. Desse modo, ao nomear precocemente o filho como Augusto, Valentiniano I tentou garantir o trono para a sua descendência.
Porém, tanto os ministros da Corte como o Exército tinham lá seus motivos para apoiarem outros candidatos ao trono pois, mesmo sendo uma criança, Graciano não demonstrava nenhum pendor para os assuntos militares, preferindo se dedicar à Retórica e à Literatura. Consta, inclusive, segundo o historiador Amiano Marcelino, que Valentiniano chegou a ter que mencionar expressamente, em discursos às tropas, que Graciano, apesar de não ser muito afeto às artes militares, seria um governante justo e capaz, e que ele, com o tempo, iria se tornar um bom comandante .
Não obstante, a educação de Graciano ficou a cargo de Ausonius, um famoso poeta e professor de Retórica de origem galo-romana.
Por volta do ano de 370 D.C., Valentiniano I se divorciou da mãe de Graciano, Martina Severa e se casou com Justina. Há uma versão tardia, do historiador Sócrates de Constantinopla, de que Valentiniano na verdade passou a ter duas esposas, desejo que teria motivado inclusive a edição de uma lei autorizando a bigamia, embora isto seja altamente improvável e não se tenha preservado nenhuma legislação relativa a isso.
Na verdade, é provável que Sócrates estivesse fazendo alusão a algum decreto de Valentiniano autorizando o divórcio, expressamente proibido pela Igreja Católica, que já dominava a Corte Imperial. Como o casamento era, e até hoje continua sendo, indissolúvel para a Igreja, o casamento de um divorciado poderia muito bem ter sido equiparado à bigamia.
De qualquer forma, é interessante transcrever essa passagem um tanto picante, relativa à relação entre a mãe e a madrasta de Graciano, e, ainda, à suposta lei de Valentiniano I, por Sócrates de Constantinopla:
“Justina tendo, assim, perdido o pai, ainda continuava virgem. Tempos depois ela conheceu Severa, esposa do imperador Valentiniano, e conversava frequentemente com a imperatriz, até que a intimidade delas chegou a tal ponto que elas costumavam tomar banho juntas. Quando Severa viu Justina tomando banho ela ficou bastante impressionada com a beleza da virgem, e falou dela para o imperador, dizendo que a filha de Justus era uma criatura tão adorável e possuía tal simetria de formas que ela mesma, embora fosse uma mulher, estava completamente encantada com ela. O imperador, guardando aquela descrição pela esposa em sua própria mente, pensou consigo mesmo como ele poderia casar com Justina, sem repudiar Severa, já que ela tinha lhe gerado Graciano, a quem ele tinha nomeado Augusto pouco tempo antes. Ele por conseguinte editou uma lei, e a fez publicar por todas as cidades, pela qual seria permitido a qualquer homem ter duas esposas legítimas“.
Graciano foi nomeado Cônsul pela segunda vez em 371 D.C. e, novamente, em 374 D.C.
Também em 374 D.C., Graciano casou-se com Flavia Maxima Constantia, filha do imperador do imperador Constâncio II, falecido em 361 D.C.
Em 17 de novembro de 375 D.C., Valentiniano I morreu, provavelmente de um derrame, durante um ataque de fúria causado pelo comportamento insolente de emissários bárbaros contra os quais ele se encontrava em campanha.
Graciano se encontrava em Trier, na fronteira com a Germânia e esperava-se que a sucessão fosse tranquila. Porém, o general Merobaudes, o Comandante da Infantaria de origem franca, alegou que as tropas apoiavam a nomeação do irmão mais novo de Graciano, Flávio Valentiniano, de apenas quatro anos de idade, como imperador. Graciano, por sua vez, tinha dezesseis anos quando o seu pai morreu.
As fontes divergem sobre a reação de Graciano. Para Sócrates de Constantinopla, Graciano ficou furioso, já para Amiano Marcelino, uma fonte mais confiável, ele aceitou de bom grado a exigência das tropas. Seja como for, o fato é que Graciano teve que aceitar dividir o trono com o irmão mais novo, que foi coroado como Valentiniano IIe passou a reinar sobra as províncias da Gália, da Hispânia e da Britânia, enquanto Graciano governaria a Ilíria, a África e a Itália.
O principal problema enfrentado por Graciano foram os crescentes ataques dos Alamanos, que devem ter se sentido incentivados pela morte de Valentiniano I, reconhecidamente um imperador enérgico e um competente comandante militar.
Em maio de 378 D.C., o exército comandado pelo general Mallobaudes, outro franco à serviço de Roma, derrotou os Lentienses, bárbaros germânicos que constituíam um ramo meridional dos Alamanos, na Batalha de Argentovaria, próximo à atual cidade de Colmar, na Alsácia. Cerca de trinta mil bárbaros foram dizimados. Graciano, depois disso, sentiu-se encorajado a liderar a fase final da campanha contra os Lentienses e recebeu a rendição daqueles que tinham sobrevivido à derrota anterior. Essa seria a última vez que os romanos levariam uma campanha além da linha de fortificações do Reno/Danúbio (limes germanicus). Em razão disso, Graciano recebeu o título de Alemannicus Maximus.
Porém, cerca de três meses depois, o colega de Graciano no Oriente, o Imperador Romano do Oriente, seu tio Valente, seria morto na desastrosaBatalha de Adrianópolis, ocorrida em 9 de agosto de 378 D.C.
Os Godos tinham migrado para a fronteira do Império Romano no Danúbio, dentro de um quadro migratório mais amplo de povos germânicos, entre outros motivos, pela pressão dos Hunos, e, em 376 D.C., duzentos mil Godos foram autorizados a atravessar a fronteira, porém, logo em seguida eles se revoltaram na Trácia. Graciano, em resposta a um pedido de auxílio de seu colega Valente, chegou a enviar algumas unidades estacionadas na Panônia, sob o comando do dux Frigeridus e outras, da Gália, sob o comando do Comes Richomeres, mas o general Merobaudes, desobedecendo ao imperador, as reteve para a defesa da fronteira do Reno contra os Alamanos.
Sabedor da urgência que a rebelião dos Godos na Trácia representava, Graciano, que, antes de ter que lidar com os Alamanos, já estava marchando para a região, enviou emissários ao imperador Valente pedindo que aguardasse a sua chegada, quando então os exércitos do Ocidente e do Oriente, combinados, poderiam liquidar os bárbaros.
Porém, Valente, ciumento do prestígio que Graciano recém conquistara contra os Alamanos, resolveu atacar os Godos sozinho. Eles eram um adversário formidável, e, liderados pelo hábil chefeFritigern conseguiram derrotar Valente, que perdeu a vida na Batalha de Adrianópolis, perecendo junto com dois terços do seu exército, sendo as perdas romanas estimadas em 40 mil soldados.
Agora Graciano, após a morte do tio, aos dezenove anos, tornara-se, de direito, o único imperador das duas metades do Império Romano. Entretanto, segundo as fontes, percebendo que a situação depois de Adrianópolis era grave demais para que ele desse conta, Graciano não hesitou um momento em nomear um sucessor para Valente, escolhendo, em 19 de janeiro de 379 D.C., o general Teodósio, um militar de prestígio que fora afastado por Valentiniano I e se retirado da vida pública para suas propriedades na Espanha, e tinha sido convocado após Adrianópolis para assumir o comando do Exército oriental.
Provavelmente, assim como ocorrera com a nomeação de Valentiniano II, a designação de Teodósio deve ter sido uma imposição dos comandantes do Exército Romano a Graciano.
As duas derrotas fragorosas sofridas pelo exército oriental entre 361 e 378 D.C., na Pérsia e em Adrianópolis, e a incessante luta contra os bárbaros germânicos no Ocidente parece que drenaram a maior parte do efetivo militar recrutado entre os cidadãos romanos natos.
Com efeito, a reiterada presença de nomes de oficiais germânicos, mencionados nas fontes sobre os reinados de Juliano e Valentiniano, mostra que o emprego de contingentes de origem germânica já estava se generalizando antes do reinado de Graciano. O próprio Valentiniano já tinha sido obrigado a reduzir a altura mínima exigida para os soldados, como modo de aumentar a massa recrutável. Esse era um problema que, além das perdas sofridas em batalhas, tinha também causas sócio-econômicas, como o aumento do instituto do colonato entre os agricultores livres (que alguns consideram precursor da servidão medieval), cada vez mais concentrados nos latifúndios da aristocracia senatorial (que normalmente conseguia eximir do recrutamento os seus trabalhadores colonos), além de um declínio populacional que transparece em diversas leis promulgadas pelos imperadores.
Teodósio e Graciano tentaram aplicar com rigor as leis que tratavam da conscrição de recrutas entre os cidadãos romanos e até conseguiram alistar filhos de veteranos, mas claramente o número foi insuficiente. Valendo-se largamente de bárbaros germânicos recrutados mediante termos generosos, o que acabou comprometendo a disciplina do Exército, Teodósio, entre 379 e 382 D.C., conseguiu conter os Godos, ainda que sem obter nenhuma vitória decisiva, assinando com eles um tratado de paz em 3 de outubro de 382 D.C., no qual os Godos eram reconhecidos como “Federados” (Foederati), nominalmente sob a autoridade do Imperador e obrigados a fornecer tropas quando requisitados, todavia, sendo-lhes granjeado o direito de se estabelecer em território romano liderados por seu chefe, um fato inédito na História de Roma e que teria consequências funestas em um futuro próximo.
Enquanto isso, Graciano parecia justificar as dúvidas sobre a sua falta de pendor para os assuntos militares. Sob a influência de Ausônio, os retóricos e gramáticos de ascendência galo-romana passaram a dominar a Corte. Em 381 D.C., Graciano resolveu mudar a sua capital de Trier, onde ficara para supervisionar a defesa do Reno, para Milão, em uma demonstração tácita de que sua atenção agora voltava-se para outros assuntos e, de fato, Amiano Marcelino relata que o imperador, que era um tipo atlético, chegou a dedicar-se a provas de habilidade na arena, emulando o malsinado imperador Cômodo.
Em Milão, Graciano também ficou sob a influência do enérgico e carismático Bispo da cidade, Ambrósio (Santo Ambrósio) e tornou-se um fervoroso patrono da ortodoxia cristã na forma do Credo Niceno. Essa influência foi decisiva para que Graciano abandonasse a prudente política de tolerância imperial ao Paganismo e aos demais credos cristãos concorrentes adotada sobretudo por seu pai, Valentiniano I.
Tudo o que o Império Romano mais precisava naquele momento era unidade e estabilidade internas para enfrentar a terrível ameaça representada pelos bárbaros, externa e internamente (Godos). No entanto, as perseguições religiosas teriam como efeito a alienação de uma boa parte da aristocracia senatorial do Ocidente, degenerando na escolha de um usurpador pagão, guerra civil, ausência de cooperação entre as Cortes de Constantinopla e Milão, tumultos e massacres e até mesmo impossibilidade de composição com bárbaros germânicos que professavam o Arianismo, considerado uma heresia cristã, em alguma ocasiões cruciais.
Seguindo essa política de intolerância, Graciano, em 382 D.C, atendendo aos apelos de Santo Ambrósio, determinou a remoção do Altar da Vitória da Cúria do Senado no Fórum Romano, além de retirar os subsídios estatais para os cultos pagãos. Os senadores pagãos chegaram a protestar, lembrando que Graciano, na condição de Pontifex Maximus, era o chefe da tradicional religião pagã. Em resposta, Graciano renunciou ao título e devolveu os robes e insígnias cerimoniais ligados aos cultos pagãos.
Graciano também conseguiu irritar os comandantes e tropas do Exército Romano que tinham sobrevivido ao influxo de tropas bárbaras ao escolher como guarda-costas um contingente de bárbaros Alanos e, ainda, ao aparecer em público vestido como um guerreiro godo.
Assim, no início de 383 D.C., quando Graciano teve que se deslocar para a Gália para combater uma nova incursão dos Alamanos, o Governador militar da Britânia, o general Magnus Maximus (Máximo), um nativo da província da Espanha, aproveitou o sentimento de insatisfação das tropas para se autoproclamar imperador e invadir a Gália.
O imperador Graciano encontrava-se em Paris e, quando as tropas de Máximo aproximaram-se da cidade, após breves escaramuças, as tropas dele desertaram, deixando o imperador sozinho. Graciano, então, fugiu para Lugdunum (Lyon). Porém, o governador da cidade o entregou ao general Andragathius, um dos comandantes de Máximo.
Então, em 25 de agosto de 383 D.C., Graciano foi assassinado por ordens de Andragathius. Ele tinha 24 anos de idade.
CONCLUSÃO
Talvez, se Graciano fosse melhor dotado de astúcia e determinação, ele poderia ter sido um imperador melhor, mas ele teve o azar de ser coroado muito jovem. Em seu favor, reconhecemos que a maior parte das vicissitudes que o Império enfrentou durante o seu reinado não podem lhe ser atribuídas e, de fato, antecediam ao seu reinado, mas a intolerância religiosa e a preferência pelas tropas bárbaras (sendo que esse último problema praticamente lhe foi imposto pelas circunstâncias) dão um viés negativo ao mesmo.
Em 22 de agosto de 408 D.C, o Comandante-em-chefe do Exército Romano do Ocidente, Marechal Flávio Estilicão, foi executado em Ravena, sete dias após sua prisão, por ordem do Imperador Romano do Ocidente, Honório.
Flávio Estilicão (Flavius Stilicho) nasceu por volta de 359 D.C., filho de um guerreiro da tribo germânica dos Vândalos, provavelmente um chefe que deve ter servido ao império romano durante o final da dinastia constantiniana (305 – 363 D.C.) e que se casou com uma cidadã romana. Por isso, algumas fontes se referem a Estilicão como “meio-vândalo”.
Seguindo a carreira do pai, Estilicão entrou no exército romano e, ainda jovem, deve ter se destacado bastante durante o início do reinado do imperadorTeodósio, o Grande, pois, já em 383 D.C., ele foi enviado como embaixador à corte de Sapor III, rei do Império dos Persas Sassânidas, para tratar da partilha da Armênia. Note-se que uma das características marcantes do reinado de Teodósio foi a preferência pelo emprego de contingentes bárbaros em detrimento dos remanescentes do exército romano tradicional.
De volta da Pérsia, Estilicão foi promovido a Conde dos Estábulos (“Comes Stabuli”), responsável pelos estábulos imperiais. um título que foi preservado durante o reino dos Francos e sobreviveria até nossos dias sob a forma inglesa “constable” (Chefe de Polícia) (ou, ainda, “condestável”, em português).
Pouco depois, Estilicão seria promovido a marechal (“Magister Militum”), e, como prova da sua alta consideração na Corte, em 384 D.C., ele se casaria com Serena, sobrinha de Teodósio, que lhe daria um filho, Euquério, e duas filhas, Maria e Termântia. Esse fato mostra que, ao contrário da maioria dos Vândalos, que professavam a heresia ariana, Estilicão era cristão ortodoxo-niceno, credo professado pela casa de Teodósio.
Depois disso, Estilicão, como general, participou das vitórias contra os bárbaros Visigodos e Bastarnae, em 391 D.C.
Em 394 D.C, Estilicão, combatendo junto com o rei Godo Alarico, foi o principal comandante na importante Batalha do Rio Frígido, combate no qual derrotou o o usurpador Eugênio, que havia sido colocado no trono, em 392 D.C., pelo general franco Arbogaste, o homem-forte do Império do Ocidente, ambos os quais esposavam a causa do renascimento pagão, apoiado pela facção mais tradicional do Senado Romano. Com a vitória, Teodósio passou a reinar sobre as duas metades do Império, mas não por longo tempo, pois ele morreria no ano seguinte, em 395 D.C.
Em seu leito de morte, Teodósio legou o Império Romano aos seus dois filhos: Honório, que ficaria com a Parte Ocidental e que tinha 8 anos quando na morte do pai; e Arcádio, de 12 anos, que reinaria sobre a Parte Oriental. Como tutores dos garotos e, na prática, regentes de fato do Império, o imperador agonizante nomeou, em relação a Honório, o marechal Estilicão, e, para tutelar Arcádio, foi nomeado Rufino, um alto funcionário palaciano e homem de Estado.
Entrementes, após a Batalha do Rio Frígido, o rei Alarico, convicto de que os seus guerreiros eram os que mais tinham se sacrificado pela vitória de Teodósio naquela ocasião, a partir da morte deste imperador passou a exigir altas recompensas para si e para o seu povo, não obtendo, todavia, o reconhecimento pretendido. Eleito formalmente Rei pelos visigodos (relatando-se o célebre costume germânico de erguer o novo rei em cima de um escudo) – e valendo ressalvar que alguns historiadores consideram que a aclamação dele teria ocorrido anteriormente, em 391 D.C), Alarico liderou uma revolta dos Godos contra o Império Romano, chegando, inicialmente, a marchar até os muros de Constantinopla, desistindo, entretanto, de sitiar a capital em função da solidez dos seus muros. Em seguida, os Visigodos devastaram a Macedônia e a Grécia, saqueando e destruindo as históricas cidades de Corinto, Mégara. Argos e Esparta, porém poupando Atenas.
Essa incursão foi facilitada pelo fato do Exército do Oriente estar ocupado com uma incursão dos primeiros grupos de Hunos que começavam a chegar e que, décadas mais tarde, assolariam o Império unidos sob o comando de Átila.
Diante disso, Rufino, o Prefeito Pretoriano e Regente do Império Romano do Oriente, tentou negociar em pessoa com Alarico. Ocorre que, naquele momento, Estilicão dirigia-se, através da Ilíria em direção à Grécia, para dar combate aos Visigodos de Alarico. Porém, por manipulação de Rufino, o jovem imperador Arcádio ordenou que Estilicão desse meia-volta e abandonasse com seu exército o território do Oriente. E isto era tudo o que Alarico precisava no momento, já que o exército de Estilicão no momento era mais poderosos do que o dos Godos. O motivo mais provável para a atitude de Rufino seria impedir que o regente do Ocidente aproveitasse a oportunidade para se tornar também o governante de fato do Oriente, e, ainda, para evitar que ele auferisse os louros da vitória.
No entanto, o comportamento traiçoeiro de Rufino foi tão mal-recebido pelos militares orientais que os próprios soldados da sua escolta o assassinaram. Livre, assim, da má influência de seu tutor, e, momentaneamente, bem assessorado por outros oficiais, o imperador Arcádio chamou Estilicão de volta para auxiliar Constantinopla na luta contra os Visigodos.
O leal e patriota general acedeu prontamente e, entrando na Grécia com seu exército, conseguiu, em 397 D.C, cercar Alarico nas montanhas do Peloponeso, de onde somente os bárbaros conseguiram escapar com muita dificuldade. Em verdade, os Visigodos estavam em uma posição tão vulnerável que Estilicão, na época, foi acusado de ter deixado intencionalmente eles escaparem e esse fato é objeto de discussões até os dias de hoje: Alguns historiadores acreditam que Estilicão recebeu novamente de Constantinopla ordens de partir; já para Zósimo, historiador romano do período, isso deveu-se ao excesso de confiança por parte do general romanos, que também gostaria demasiadamente de luxo e mulheres. Outros, ainda, acreditam que as tropas de Estilicão, compostas de contingentes majoritariamente germânicos, não seriam confiáveis, e teriam deliberadamente poupado os seus “compatriotas”. E há também quem diga que Estilicão ficou impossibilitado de liquidar os bárbaros porque teve que lidar com a revolta de Gildo, na África, que estourou no mesmo ano.
Seja como for, o fato é que Alarico e seus Visigodos conseguiram escapar em direção ao norte, cruzando e pilhando o Épiro e chegando até a Ilíria, levando consigo o produto do saque à Grécia.
Mais grave, entretanto, para os romanos, foi o fato de Alarico, no final dessa campanha, ter conseguido fazer o fraco Imperador Romano do Oriente nomeá-lo Marechal das Forças Armadas (“Magister Utriusque Militiae“), fato que permitiu aos Visigodos ter acesso aos arsenais e fábricas militares do Império Romano na Ilíria.
Não obstante, em 398 D.C., o imperador Honório casou-se com Maria, a filha mais velha de Estilicão, que tinha apenas 14 anos, selando a sua posição de homem-forte do Império Romano do Ocidente. Isto tornava o general de origem vândala membro da família imperial, até então uma posição inaudita para alguém de sangue bárbaro.
O assoberbado Estílicão, contudo, não pôde desfrutar de seu novo status, porque, além de ter de lidar com a revolta do Conde da África, Gildo, e ainda teve que combater uma guerra na Britânia.
Diante das vicissitudes enfrentadas por Estilicão, o insaciável Alarico, percebendo a fraqueza da parte ocidental, deu início à sua 1ª invasão da Itália, em 401 D.C. Assim, no ano seguinte, os Visigodos alcançaram Milão, a então já centenária capital do Império Romano do Ocidente, e, desafiadoramente, ali sitiaram o próprio imperador Honório. Contudo, mesmo após armarem-se nos arsenais imperiais da Ilíria, aos bárbaros ainda faltava o “know-how” para o assédio às muralhas de Milão.
Mais uma vez, a situação foi salva por Estilicão, que derrotou Alarico em Polentia, no Piemonte, capturando, inclusive a esposa do rei bárbaro. Alarico então deixou a região, mas, perseguido pelas tropas romanas, ele foi novamente derrotado por Estilicão nas cercanias de Verona, em 403 D.C., resolvendo voltar para a Ilíria.
A grande consequência dessa incursão de Alarico foi convencer o imperador Honório a deixar Milão e estabelecer a sua Corte na cidade de Ravena. O motivo desta escolha é que Ravena era uma cidade cujo acesso por terra somente poderia ser feito cruzando-se extensos pântanos que faziam parte de uma laguna e, portanto, ela era muito difícil de ser invadida pelos bárbaros. Além disso, a cidade poderia ser abastecida pelo mar, em caso de cerco, através do Porto de Classe.
Entretanto, a mudança da capital para Ravena teria influência decisiva na estratégia imperial adotada nos futuros cercos de Alarico a Roma…enquanto isso, uma catástrofe tomava vulto…
Com efeito, infelizmente, para os romanos, durante o inverno rigorosíssimo do ano de 406 D.C. o rio Reno congelou. E este não muito frequente fenômeno foi prontamente aproveitado por um grande número de tribos bárbaras que tinham migrado para a margem oriental do Rio fugindo dos Hunos. Estes povos eram sobretudo Vândalos, Suevos e Alanos. Para piorar esta situação, quando essa horda começou a atravessar para o lado ocidental, controlado pelos romanos, não havia nenhuma tropa romana suficiente para resistir, pois, justamente naquele mês, Estilicão tinha sido compelido a deslocar as tropas romanas estacionadas na Gália para enfrentar a segunda invasão de Alarico à Itália.
Como resultado imediato, a Gália foi severamente devastada pelos invasores, os quais, desta vez, tinham vindo para ficar. Ela era a província mais rica do Ocidente e nunca mais se recuperou; E, não muito tempo depois viriam os Francos, os Alamanos e os Burgúndios.
Por incrível que possa parecer, em meio a esse caos, os romanos ainda gastavam seus parcos recursos em lutas internas. De fato, logo após a invasão da Gália e o desaparecimento do exército local, o comandante da última legião da Britânia, Flávio Constantino, foi aclamado imperador romano do Ocidente pelas suas tropas, em 407 D.C. Adotando o nome de Constantino III, ele deixou a ilha e desembarcou na Gália para tentar defender esta importante província das incursões bárbaras.
O fato é que o caos resultante da travessia do Reno pelos bárbaros era uma oportunidade que Alarico não poderia desperdiçar e ele intensificou a ofensiva contra Honório. Estilicão, dessa vez, concordou em pagar 4 mil libras de ouro a Alarico e o visigodo, aceitando, deu meia-volta e tirou as suas tropas da Itália.
Para a surpresa geral, o Senado Romano sentiu-se ultrajado pelo pagamento do “resgate” do Ocidente a Alarico, tendo um senador inclusive assinalado, em um discurso indignado:
“Isto não é um tratado de paz, mas um pacto de servidão!”.
Esse fato, mais a invasão da Gália e a revolta de Constantino III minaram o prestígio de Estilicão na Corte de Honório, E o general ainda continuava enredado nas intrigas da Corte e absorvido nas disputas entre Oriente e Ocidente.
Em 408 D.C, Estilicão conseguiu casar sua segunda filha, Termântia, com o próprio Imperador Honório, recém viúvo de Maria (ela morrera no ano anterior), mantendo-se, assim, como membro da família imperial. Cresceram na Corte as suspeitas que o romano metade vândalo aspirava o trono para si. Essas suspeitas cresceram quando Arcádio, o imperador do Oriente, morreu: Honório, como imperador romano, planejou ir à Constantinopla tratar da sucessão do irmão falecido, mas foi aconselhado a não ir por Estilicão, que se ofereceu para ir em lugar dele.
No início de agosto, algumas tropas se rebelaram na Itália, provavelmente instigadas por adversários políticos de Estilicão. Ameaçado, o general refugiou-se em Ravenna, onde ele acabou sendo preso.
Então, Olímpio, um ministro da corte de Honório, convenceu o jovem imperador que Estilicão planejava usurpar o trono do Oriente. Honório, indignado, ordenou a morte do fiel e valoroso general.
Consta que Estílicão poderia ter facilmente resistido à sua sentença de morte, pois eram muitos os soldados que lhe eram fiéis, mas ele aceitou resignada e obedientemente o seu fim. Estilicão foi executado em 22 de agosto de 408D.C. Pouco depois, executaram seu filho, Euquério.
Muitos consideram que a execução de Estilicão foi um golpe que Honório deu no próprio Império Romano: Logo após a execução do infeliz general, alguns populares romanos atacaram famílias de soldados bárbaros federados que formavam o exército de Estilicão e cerca de 30.000 soldados desse exército desertaram e fugiram, juntando-se a ninguém menos do que Alarico!
Em consequência, a Itália ficou indefesa, iniciando-se a cadeia de eventos que resultaria no dramático Saque de Roma por Alarico e seus Visigodos, em 410 D.C.
Em 19 de agosto de 232 D.C., nasceu, na cidade de Sirmium (atual Sremska Mitrovica, na Vojvodina, Sérvia)que, então, ficava na província romana da Panônia Inferior), Marcus Aurelius Probus (Probo), filho de um certo Dalmatius, que seria um simples jardineiro, ou hortelão.
Há uma versão alternativa, segundo a História Augusta, de que o pai de Probo, se chamava Maximus, um comandante que, após deixar o exército, foi morar no Egito com a família. Porém, é quase certo que aqui a História Augusta faz confusão com Tenagino Probus, que foi governador da Numídia e do Egito durante os reinados dos imperadores Cláudio Gótico e Aureliano. Note-se que as inscrições encontradas mencionando Tenagino Probus tornam cronologicamente improvável (embora não impossível), que este tenha sido o pai de Marco Aurélio Probo (a quem, aliás, a História Augusta também atribui erroneamente alguns feitos de Tenagino Probus, que ocorreram nas referidas províncias).
De qualquer modo, sabe-se que a região da Ilíria, na segunda metade do século III D.C., era o esteio militar do Império Romano (efetivamente, dez imperadores romanos nasceram em Sirmium, quase todos eles militares de carreira). Assim, como tantos de seus compatriotas, Probo entrou no Exército Romano no início da década de 250 D.C.
(Elmo romano do início do século IV, do tipo “Berkasovo”, assim chamado porque foi achado na cidade do mesmo nome, próxima a Sirmium)
Durante os reinados dos imperadores da dinastia dos Severos, tudo indica que o excesso de privilégios e benesses dados aos soldados comprometeu a disciplina do Exército, justamente quando o ressurgimento do poder persa no Oriente, sob a dinastia dos Sassânidas, começava a colocar Roma no desafio estratégico de enfrentar conflitos em três fronts, já que as fronteiras ocidentais dos rios Reno e Danúbio começavam a ser pressionadas pelo deslocamento de povos germânicos.
Foi de fato um período de frequentes rebeliões e assassinatos de imperadores, muitos, diga-se de passagem, incompetentes para enfrentar aqueles desafios, seguindo-se, assim, repetidas derrotas para os Persas e Germânicos, no período de 238/260 D.C, sendo as mais dignas de nota as catastróficas derrotas na Batalha de Abritus, em 251 D.C., para os Godos, com a morte do imperador Trajano Décio no campo de batalha, onde ocorreu a provável perda de todo o tesouro imperial, e a humilhante captura do imperador Valeriano pelos Persas, em 260 D.C.
(Relevo do Imperador Sapor I capturando Valeriano, na necrópole persa de Naqsh-e Rustam, foto de Diego Delso)
Enquanto isso, a Gália, o norte da Itália, a Ilíria, a Trácia e a Grécia, entre outras províncias, eram devastadas por invasões bárbaras. Foi nesse contexto dramático que os soldados provenientes da Ilíria foram recrutados e progrediram no Exército Romano, como foram os casos de Cláudio Gótico, Aureliano e Probo, todos eles Ilírios nativos de Sirmium (Obs: há uma certa dúvida quanto a Cláudio Gótico, que pode também ter nascido em Naissus, na Dardânia, mas com certeza ele era Ilírio).
Todos os três imperadores supracitados serviram durante o reinado do imperador Galieno, o filho e sucessor de Valeriano (260-268 D.C.), sendo que Cláudio Gótico chegou a comandante dos Comitatenses, a cavalaria de elite que Galieno criou (hipparchos). Por sua vez, Probo, apesar de ser bem mais jovem que os outros dois, chegou a ser mencionado em cartas dos referidos imperadores como sendo responsável por várias façanhas militares, motivo pelo qual ele foi promovido a Tribuno, segundo a História Augusta, .
(Busto de Galieno)
Apesar dos esforços de Galieno, que venceu algumas batalhas contra os bárbaros, a caótica situação militar entre 251 e 260 D.C., acabou acarretando a secessão da província da Gália, que se autoproclamou “Império Gaulês”, e, posteriormente, a perda da província da Síria que passou a fazer parte do chamado “Império de Palmira”. Estas secessões foram, de fato, um acontecimento devastador, pois a Gália e a Síria eram, juntamente com o Egito, as duas províncias mais ricas do Império. Porém, ao contrário do que possa parecer, a separação destas duas províncias ocorreu muito mais em função da incapacidade de Roma defendê-las dos bárbaros e dos Persas, do que devido a algum sentimento nacionalista anti-romano.
A gravidade da situação, como não poderia deixar de ser, minou a reputação de Galieno, que acabou sendo assassinado, em 268 D.C., em mais uma conspiração perpetrada pela Guarda Pretoriana, mas que muito provavelmente teve a participação de Cláudio Gótico, que foi proclamado imperador, e de Aureliano, que foi nomeado Comandante da Cavalaria. Havia chegado, portanto, a vez dos soldados ilírios governarem o Império. Se a História Augusta está correta, com a chegada dos seus dois compatriotas ao poder, Probo foi nomeado comandante de uma legião.
CláudioGótico obteve importante vitórias contra os Alamanos e esmagou os Godos, porém, em 270 D.C., ele morreu vítima da Peste que grassava no Império, sendo sucedido por Aureliano, que, sucessivamente, conseguiu derrotar o Império Gaulês e Palmira e recuperar a Gália e a Síria, reunificando o Império Romano, motivo pelo qual recebeu do Senado o título de “Restaurador do Mundo” (Restitutor Orbis).
(Moeda romana. Aureliano “restitui” o mundo (orbis) à deusa Roma”)
Aureliano, apesar desses sucessos retumbantes, acabou sendo assassinado pelas próprias tropas em 275 D.C, segundo consta, pelo motivo dele ser muito severo com os soldados. Então, o Senado Romano, em um arranjo que talvez emulasse o que ocorreu com Nerva, quase dois séculos antes, escolheu, em 25 de setembro daquele ano, o velho senador Tácito, de 75 anos de idade, como novo imperador. Aliás, esta seria a última vez que o Senado elegeria um imperador romano por iniciativa própria.
Tácito (não confundir com o historiador homônimo), segundo consta, teria nomeado Probo, “governador do Oriente”. Em seguida, o referido imperador, apesar de sua já provecta idade, partiu para enfrentar, com sucesso, os mercenários hérulos que devastavam as províncias orientais, acompanhado de seu meio-irmão, Floriano. Todavia, enquanto retornava para lutar contra uma invasão dos Francos e Alamanos, Tácito contraiu uma febre e morreu, em junho de 276 D.C, (vale citar que, segundo uma versão menos aceita, do historiador Zózimo, a morte de Tácito teria sido por assassinato).
Quando a notícia da morte de Tácito circulou, as tropas de Probo o aclamaram imperador, o mesmo ocorrendo com Floriano, que foi reconhecido no Ocidente, mas não no Oriente, que somente apoiou Probo. Assim, os dois imperadores rumaram para decidir a sucessão em uma batalha, perto de Tarso, na atual Turquia. Floriano até tinha superioridade numérica, mas as suas tropas não estavam acostumadas ao calor que fazia na região. Probo, cautelosamente, evitou um engajamento e o relato é de que as tropas de Floriano, impacientes com o sol inclemente, assassinaram o seu imperador, em setembro de 276 D.C. O motivo mais provável, contudo, é que as tropas, certamente compostas por muitos Ilírios, devem ter preferido tomar partido de um compatriota oriundo, como eles, da caserna.
Com o seu trono agora inconteste, uma das primeiras medidas de Probo foi punir os assassinos de Aureliano e de Tácito que ainda estavam impunes.
Imediatamente após sua ascensão, Probo teve que se deslocar para o Ocidente para enfrentar uma invasão dos Godos na Ilíria, os quais ele derrotou, recebendo o titulo de Gothicus Maximus, em 277 D.C. Nessa altura, Probo já tinha sido reconhecido pelo Senado. Depois disso, Probo rumou para a Gália, onde, em 278 DC., ele obrigou os bárbaros Francos, Longiones e Alamanos a cruzarem de volta o Reno (feito pelo qual ganhou o título de Germanicus Maximus), capturando Semnon, chefe dos Longiones, e o filho deste, que foram poupados. Finalmente, Probo derrotou os Burgúndios, capturando um grande número deles, que foram incorporados ao exército romano.
Com a derrota dos bárbaros na fronteira renana, Probo adotou a estratégia de construir alguns fortes na margem oriental do rio, nos pontos em que o mesmo podia ser cruzado, além de depósitos de suprimentos.
Em seguida, Probo conseguiu pacificar a província da Récia e, após, ele voltou para a Ilíria, agora para reprimir uma invasão dos Vândalos, em 279 D.C. A persistência dessas invasões mostra que, provavelmente, nenhuma dessas vitórias foi conclusiva, ou, então, que tais incursões bárbaras não eram massivas. Não obstante, esses sucessos mostraram que o Império recuperara a capacidade de defender as fronteiras.
Com a estabilização da situação na Gália e no Danúbio, Probo adotou a benéfica política de utilizar o exército parar plantar vinhedos na Gália e na Panônia, o que era, sem dúvida uma medida inteligente, tendo em vista a devastação que essas províncias tinham sofrido nos últimos 20 anos, causando sua decadência econômica. Nas províncias mais despovoadas pelas seguidas invasões, Probo decidiu assentar algumas das tribos germânicas pacificadas, política que, entretanto, apresentava alguns riscos à segurança do império.
É interessante observar que, dentre os lugares nos quais Probo ordenou que fossem plantados os vinhedos, está a região do antigo Monte Alba, próximo à cidade natal de Probo, Sirmium, onde, segundo a História Augusta, o imperador plantou o primeiro vinhedo com as próprias mãos, sendo que esta região é conhecida atualmente como as montanhas Fruska-Gora, na região sérvia da Vojvodina, e ainda hoje constitui uma conceituada região vinícola!
(A região vinícola de Fuska-Gora, onde Probo ordenou o plantio de vinhedos)
Em 280 D.C., Probo enviou os seus generais para comandar uma campanha contra os Blemmyes, um reino tribal de populações da etnia Beja, que viviam na antiga Núbia, correspondendo à região onde hoje é o Sudão, e que vinham atacando a província romana do Egito.
Derrotados os Blemmyes, Probo, seguindo a política de recuperação econômica que adotara no Ocidente, determinou ao Exército a reconstrução de diques, de canais de irrigação e de pontes ao longo do Nilo, medidas que eram relevantes para estimular a produção agrícola de uma província que era a grande fonte de cereais para a Itália.
Lamentavelmente, a praga das rebeliões militares não deixava de assolar o Império e, entre 280 D.C. e 281 D.C., Probo teve que enfrentar as revoltas dos usurpadores Júlio Saturnino, na Síria, e de Próculo e Bonosus, em Lugdunum (atual Lyon) e Colônia, nas províncias da Gália e na Germânia, os quais se declararam co-imperadores. Logo Saturnino acabou sendo morto pelos seus próprios soldados. Já a revolta dos dois últimos citados é um tanto obscura, e tanto pode ter sido fruto de algum resquício do “Império Gaulês”; ou talvez fruto de alguma insatisfação mais generalizada, já que inscrições com o nome de Probo também foram apagadas na Hispânia, na mesma época. Vale citar que Próculo tinha ligações com os Francos. Por sua vez, Bonosus, consta, teria se revoltado por medo de ser punido pelo incêndio da flotilha romana do Reno, pelos bárbaros germanos. O fato é que ambas as rebeliões foram derrotadas, sendo Próculo executado após ser entregue a Probo pelos seus aliados Francos, para onde ele fugira após a chegada do exército do imperador. E Bonosus, se matou após perder o combate com as tropas imperiais. Probo, dando uma prova do seu temperamento moderado, poupou as famílias dos usurpadores.
Somente em 281 D.C., Probo conseguiu celebrar em Roma o seu merecido Triunfo pelas vitórias contra os bárbaros. Nessa estadia na capital, ele aproveitou para completar as imponentes muralhas iniciadas por seu antecessor Aureliano (e que por isso são chamadas de Muralhas Aurelianas, as quais ainda existem).
Segundo a História Augusta, Probo tentou devolver algumas prerrogativas ao Senado Romano, como o de ser a instância máxima para julgar as apelações das decisões dos tribunais superiores, a competência para designar os Procônsules e os legados dos Procônsules e de conferir aos governadores as prerrogativas e os poderes de Pretor. Isso é considerado duvidoso por alguns historiadores, mas, se for verdade, pode bem ser uma das causas de alguma insatisfação do Exército com o imperador, já que cada vez mais aquela corporação estava se acostumando a ser a principal instância de poder.
Em 282 D.C., Probo partiu para a sua cidade natal de Sirmium, que, segundo parece, iria servir como ponto de partida para uma futura campanha contra a Pérsia. Há o relato de que ele teria, mais uma vez, determinado aos soldados que trabalhassem em obras públicas para o benefício da província, fato que acabou causando uma rebelião. Acuado, Probo teve que se refugiar em uma fortificação chamada de “Torre de Ferro”, onde ele acabou sendo morto. Em outra versão, de acordo com o relato de Zózimo, a qual muitos estudiosos acham mais crível, as tropas proclamaram imperador Marco Numério Caro (Caro), o Prefeito Pretoriano de Probo, ocasião em que o contingente enviado por Probo para reprimir o levante aderiu à revolta, e, em função disso, os próprios soldados da escolta imperial acabaram assassinando o imperador, em setembro de 282 D.C.
CONCLUSÃO
Os combativos imperadores-ilírios Cláudio Gótico, Aureliano e Probo, no período entre 268 D.C e 282 D.C contribuíram decisivamente para conter as ameaças dos Germanos e dos Persas, nos fronts ocidental e oriental do Império Romano. Contudo, persistiram os graves problemas da instabilidade política e econômica e da insubordinação militar a comprometerem a sobrevivência do Império, problemas que seriam mais bem enfrentados pelos seus sucessores Ilírios,Diocleciano e Constantino.
Em 10 de abril de 401 D.C., nasceu Flavius Theodosius Junior(Teodósio II), em Constantinopla , filho do Imperador Romano do Oriente Arcádio, e neto de Teodósio, o Grande, o último imperador a reinar sobre as duas metades do Império Romano.
A mãe de Teodósio II, Aelia Eudoxia (Eudóxia), era filha de Flávio Bauto, um general Franco, na verdade, um chefe bárbaro assimilado à serviço de Roma, que chegou ao posto máximo de Magister Militum (Comandante do Exército), durante o reinado do imperador Graciano, e foi Cônsul em 385 D.C.
A ancestralidade germânica por parte de mãe parece que não retirou o “pedigree” dinástico de Teodósio II como descendente de Teodósio, o Grande, apesar de Eudóxia ter sido rotulada como possuindo “um grau não desprezível de arrogância bárbara” pelo historiador eclesiástico Philostorgius.
Antes mesmo de completar um ano de idade, Teodósio II foi nomeado Augusto, e, portanto, formalmente, co-imperador, por seu pai Arcádio, em 402 D.C, sendo, assim, o imperador mais jovem em toda a História do Império Romano.
Em 1º de maio de 408 D.C, o imperador Arcádio morreu e Teodósio II foi reconhecido como Imperador Romano do Oriente, tendo apenas sete anos de idade.
Consequentemente, quem exerceu de fato o poder na qualidade de regente foi o Prefeito Pretoriano Antêmio, que foi o responsável pela construção da grande obra que marcaria o reinado de Teodósio: as espetaculares Muralhas Teodosianas de Constantinopla, completadas em 413 D.C , as quais garantiriam a sobrevivência do Império Romano do Oriente por mais de mil anos, até serem penetradas pelos turcos otomanos, em 1453 D.C. Entretanto, pouco depois da conclusão dessa impressionante obra, Antêmio não seria mais mencionado nas fontes, não se sabendo se ele morreu de causas naturais, se foi demitido ou executado.
Enquanto isso, Teodósio II recebia esmerada educação em grego e latim, além de aulas de Gramática e Retórica, e treinamento em equitação, esgrima e arco e flecha.
Durante o início do reinado de Teodósio II, contudo, aprofundou-se a divisão e a rivalidade entre as duas metades do Império Romano, ou, para sermos mais precisos, entre a Corte de Constantinopla e a aristocracia senatorial da velha Roma, concentrada no Senado Romano.
Com efeito, o regente Antêmio vinha adotando uma política anti-germâmica e de intervenção nos assuntos do Ocidente, e por isso, ele entrava frequentemente em choque com a sua contra-parte na corte ocidental, o general Estilicão, que, por sua vez, exercia o poder de fato por trás do Imperador Honório, irmão de Arcádio.
Entretanto, após a execução de Estilicão, em 408 D.C., o qual teve seu prestígio solapado junto a Honório devido à grande invasão bárbara que atravessou o Reno em 406 D.C. e pelo insucesso dele em lidar com os Godos alojados no interior do Império, houve, enfim, uma reaproximação política entre Constantinopla e Ravenna.
Em 414 D.C, Pulquéria, a irmã mais velha de Teodósio II, foi proclamada “Augusta” e assumiu a regência do Império do Oriente, bem como a tutela e criação do imperador, que estava ainda em sua pré-adolescência. Cristã devota, Pulquéria tomou voto de castidade perpétua e esta condição, provavelmente fruto de um cálculo político, assegurou-lhe autoridade moral para adotar uma política de promoção da ortodoxia católica, a qual resultou também na perseguição do paganismo, das heresias cristãs e do judaísmo, mas que acabou acirrando as disputas religiosas no seio do Império do Oriente, degenerando no brutal assassinato da filósofa pagã Hypathia, em Alexandria.
(Estudiosos acreditam que o relevo de marfim representa Teodósio II e Pulquéria em procissão trazendo relíquias para Constantinopla)
Graças à intervenção de Pulquéria, Teodósio II conheceu a jovem grega Athenais, uma brilhante filha de um filósofo de Atenas, originalmente pagã, que se tornaria a sua esposa, adotando como imperatriz o nome deEudocia. Não obstante, Eudocia se tornaria no futuro a grande rival de Pulquéria e ambas disputariam o posto de maior influência sobre Teodósio II. O casal imperial teve três filhos, porém somente a mais velha, Licínia Eudocia, chegaria à idade adulta e se casaria com os imperadores romanos do Ocidente, Valentiniano III e Petrônio Máximo.
(Eudócia é retratada neste mosaico do séc. XIX, em Sófia, Bulgária)
No plano externo, o reinado de Teodósio II caracterizou-se pela tentativa de conter as ameaças representadas pelo Império Persa e pelos Hunos. Com os Sassânidas, o Império Romano, após uma guerra inconclusiva, conseguiu celebrar um tratado de paz duradouro, que ficaria conhecido como a “Paz dos Cem Anos“.
Durante seu reinado, Teodósio II também procurou auxiliar militarmente o Império do Ocidente contra os Vândalos, infelizmente, sem sucesso
Tentou-se uma política de apaziguamento dos Hunos mediante o pagamento de tributos, com sucesso limitado, já que periodicamente os bárbaros exigiam o aumento do valor, que começou em 350 libras de ouro, aumentou para 700 libras com a ascensão de Átila e Bleda, em 433 D.C e passou para 2.100 libras, em 443 D.C., após os Hunos derrotarem dois exércitos romanos. Mesmo assim, em 447 D.C., os Hunos devastariam os Bálcãs e chegariam aos subúrbios de Constantinopla.
Relativamente às relações com o Império do Ocidente, Teodósio II apoiou seu tio Honório e defendeu a causa do sucessor deste, seu primo Valentiniano II, chegando a abrigá-lo, acompanhado de sua mãe Gala Placídia, em Constantinopla, e depois ajudando-os a reinstalá-los em Ravena, com o auxílio de um pequeno exército oriental.
.Em 425 D.C., Teodósio II fundou o Pandidakterion, que mais tarde seria considerada como a “Universidade de Constantinopla,” uma precursora das universidades medievais europeias, situada na Magna Aula do Palácio (Magnaura).
O outro grande legado de Teodósio II, além das Muralhas de Constantinopla e da Universidade, foi o seu “Código Teodosiano“, uma grande compilação e sistematização do Direito Romano produzido até então e que, cem anos mais tarde, seria a base para o “Código de Justiniano”, contribuindo, assim, para a preservação da herança jurídica romana até os nossos dias. Os trabalhos foram iniciados por ordem de Teodósio II em 429 D.C. e, após muitos anos de trabalhos e a nomeação de duas comissões de juristas, o Código foi promulgado em 438 D.C.
Em 28 de julho de 450 D.C, Teodósio II sofreu uma queda de cavalo enquanto caçava. Ele foi levado para Constantinopla, mas não resistiu e morreu naquele mesmo dia. Segundo a versão oficial, ele teria indicado o general Marciano como seu sucessor, já que não tinha mais nenhum filho do sexo masculino. Na verdade, o nome de Marciano foi imposto pelo marechal Áspar, um militar de origem bárbara (Alano-Gótica) que era o comandante-em-chefe do Exército e homem forte do Império Romano do Oriente, desde meados da década de 20 do século V D.C.
Trinta dias após a morte de Teodósio II, Marciano foi reconhecido como imperador e se casou com Pulquéria, que, contudo, manteve o seu voto de castidade.
CONCLUSÃO
Em tempos mais amenos, Teodósio II poderia ter sido um bom imperador, mas a sua época demandava um governante mais enérgico e determinado, que possuísse mais aptidões e meios militares, coisas das quais ele não dispunha.
Em 24 de janeiro de 76 D.C, nasceu Publius Aelius Hadrianus (Adriano), em Roma, ou, segundo algumas fontes, em Itálica, uma cidade na província romana da Hispania Betica, a 9 km da atual Sevilha, que foi fundada por Cipião, o Africano ainda durante a 2ª Guerra Púnica, onde foram assentados colonos romanos de origem italiana, entre os quais provavelmente estava a família dos Élios.
O pai de Adriano, Publius Aelius Hadrianus Afer, era um senador romano e primo de Marcus Ulpius Trajanus, seu conterrâneo de Itálica que se tornaria, em 98 D.C, o imperador Trajano (o primeiro imperador nativo de uma província fora da Itália;) já a sua mãe, Domícia Paulina, também vinha de uma família da classe senatorial radicada na Espanha.
Quando Adriano tinha apenas 10 anos de idade, no ano de 86 D.C, os seus pais faleceram e ele ficou sob a tutela de Trajano e de Publius Acilius Attianus, um conterrâneo de seu pai.
Aos 14 anos de idade, Adriano, que estava em Itálica, foi chamado para ir morar em Roma por Trajano. Na capital do Império, Adriano recebeu uma esmerada educação, em companhia de outros rapazes da alta aristocracia romana.
Consta que, ainda na infância, chamava a atenção o grande interesse de Adriano pela cultura grega, chegando ele a receber o apelido de”graeculus” (“greguinho”), não se olvidando que esse termo também era, entre os romanos, por vezes usado como uma forma jocosa de chamar alguém de efeminado ou “gay”.
Com cerca de 18 anos, Adriano entrou para o serviço militar na condição de tribuno, mas sem muito destaque. Ele serviu por cerca de três anos em legiões na Mésia, na Dácia e na Germânia.
INGRESSO NA FAMÍLIA IMPERIAL DE TRAJANO E INÍCIO DA CARREIRA PÚBLICA
Em 98 D.C, o imperadorNerva (que, ao assumir o trono, havia adotado Trajano como sucessor), faleceu. Adriano, assim que soube da notícia, fez questão de ser o primeiro a comunicar o momentoso fato a Trajano, que estava em campanha, e, cavalgando com velocidade espantosa para a época, conseguiu chegar na frente do emissário oficial. Trajano ficou muito grato e, assim, a carreira de Adriano começou a decolar.
Fortalecendo seus laços com a casa imperial, Adriano, em 100 D.C, casou-se com Víbia Sabina, que era filha de Matídia, a sobrinha de Trajano, que foi criada como se fosse filha do imperador (que, aliás, nunca teve filhos naturais). Este foi um casamento arranjado por Matídia e pela própria imperatriz Plotina, duas mulheres que sempre demonstraram um grande afeto por Adriano. E, com efeito, os estreitos laços emotivos entre Plotina e Adriano ainda favoreceriam muito o jovem no futuro…
(Busto da Imperatriz Plotina, a protetora de Adriano)
Pouco depois do casamento, Adriano acompanhou Trajano na primeira grande empreitada militar deste imperador: A Primeira Guerra contra a Dácia(101-102 D.C).
Contudo, no decorrer desta campanha, Adriano foi dispensado para assumir os cargos de Questor, em 101 D.C, e, posteriormente, de Tribuno da Plebe, em 105 D.C., seguindo os passos da tradicional carreira das magistraturas romana (cursus honorum).
E, na Segunda Guerra contra os Dácios (105-106 D.C), Adriano também integrou a comitiva de Trajano e recebeu o comando da I Legião Minervia.
Novamente, Adriano deixou essa campanha em seu desenrolar e foi para a Roma assumir o cargo de Pretor, em 106 D.C. Em seguida, Adriano foi nomeado governador da Panônia Inferior. Não obstante, Adriano recebeu menções honrosas do Imperador pelo seu desempenho na referida segunda campanha na Dácia.
Posteriormente, em 108 D.C, Adriano foi nomeado cônsul suffectus (equivalente a cônsul substituto), um posto somente inferior ao consulado ordinário (Um cônsul suffectus era designado para completar o período do consulado ordinário quando este ficava vago).
(Relevo da Coluna de Trajano, em Roma, com cena da Guerra contra os Dácios)
Depois do consulado, Adriano integrou os colégios sacerdotais dos setêmviros e dos sodalis augustales, este último um prestigiado ofício religioso encarregado do culto a Augusto.
Nos anos seguintes, que parecem ter sido “sabáticos”, sabemos que Adriano viajou para a sua adorada Grécia, onde ele estudou com o filósofo estóico Epicteto, na Hélade. Nesse período, em mais um exemplo do seu amor pela civilização grega, Adriano conseguiu ser eleito cidadão de Atenas e ocupou o cargo de Archon, uma magistratura ateniense, entre 112 e 113 D.C.
(Arco de Adriano, em Atenas, foto de Carole Raddato)
Nesse ponto, certos historiadores questionam por que a carreira pública de Adriano ficou em segundo plano em relação à sua viagem existencial pela Grécia.
Eles acreditam que Trajano nunca tenha tido muito entusiasmo pela possibilidade de Adriano tornar-se seu sucessor: Se por um lado, a sucessão de cargos ocupados por ele (bem como o seu casamento com Sabina) demonstra que Adriano era bem considerado e próximo ao Imperador, por outro é certo que até então ele ainda não tinha recebido nenhuma distinção inegável para que fosse considerado um herdeiro escolhido, tal como, por exemplo, o Poder Tribunício, a adoção oficial ou, mesmo, a designação para sucessivos consulados ordinários.
Nessa linha de raciocínio, até se cogita que o fato de Adriano ter ficado tanto tempo em Atenas para se dedicar a estudos filosóficos, quando já tinha mais de 35 anos de idade e sem ocupar nenhum cargo de cúpula, equivaleria à nossa expressão: “ficar na geladeira”…
Não obstante, eu entendo que não há dúvidas de que Adriano jamais deixou de gozar da confiança de Trajano, pois, quando, em 114 D.C. este embarcou em sua campanha contra a Pártia, ele integrou a comitiva imperial, e, no decorrer da guerra, foi nomeado governador da importantíssima província da Síria. Esse cargo tornava Adriano virtualmente o comandante militar do Exército Romano no Oriente, pois Trajano, gravemente doente, teve que deixar a campanha e partir para Roma, em 117 D.C.
ASCENSÃO AO TRONO
Assim, foi enquanto era governador da Síria que Adriano recebeu, em Antióquia, a notícia de que Trajano havia falecido, na viagem de retorno à Roma, em Selinos, na Cilícia, ainda na Ásia Menor, em 8 de agosto de 117 D.C, nomeando-lhe como sucessor.
As fontes antigas atribuem a investidura de Adriano à imperatriz Plotina, que, contando também como o auxílio de seu velho tutor Attianus, teriam mantido a morte de Trajano em segredo por alguns dias, aproveitando para forjar os documentos em que Trajano designava Adriano como o herdeiro que deveria sucedê-lo no trono do Império Romano. A História Augusta até menciona que Trajano pretendia nomear o famoso jurista Neratius Priscus como sucessor, mas isso é altamente improvável, até porque, posteriormente, Priscus ocupou importantes cargos durante o reinado de Adriano e foi encarregado de várias reformas legais. Ocorre que certamente Priscus teria sido logo eliminado por Adriano, caso a escolha dele por Trajano como sucessor tivesse mesmo ocorrido.
O fato é que Adriano era o parente vivo mais próximo de Trajano e ocupava o importante governo da Síria, o que o colocaria, mesmo na ausência de testamento, como o comandante militar mais poderoso do Império naquele momento.
Assim, ainda que Trajano não tenha expressamente designado Adriano como sucessor, essa condição era natural pelas circunstâncias, e não se pode condenar a “interpretação” que, supostamente, Plotina deu à vontade do marido falecido…
REINADO
Uma das primeiras ações de Adriano após assumir o trono foi livrar-se de quatro importantes senadores, que tinham sido grandes colaboradores de Trajano. Contudo, as fontes relatam que ele depois sempre se ressentiria dessa “mancha” na sua, em geral, reputação de monarca tolerante e ilustrado.
A desagradável tarefa foi executada pelo seu ex-tutor Attianus, que havia sido nomeado Prefeito Pretoriano, ainda por Trajano, em Roma. Adriano sempre colocaria a culpa desses assassinatos políticos em Attianus, alegando que ele mesmo de nada sabia, chegando até a removê-lo do cargo, mas essa alegação não se coaduna com com o fato de, logo após a essa “punição”, Adriano ter nomeado Attianus para o Senado Romano e lhe honrado com os ornamentos consulares…
Entrementes, logo ficou claro que Adriano promoveria uma guinada de 180° em relação à política exterior de Trajano.
Todas as conquistas no Oriente duramente obtidas por Trajano, mas onde já espoucavam revoltas, foram abandonadas, inclusive a província da Mesopotâmia, o que gerou certa insatisfação na opinião pública. Esse sentimento é compreensível, sobretudo porque o domínio romano na Mesopotâmia evocava de certo modo as conquistas de Alexandre, o Grande na Pérsia, mas as evidências são de que esta decisão de Adriano foi correta, pois dificilmente os romanos conseguiriam mantê-la, já que a revolta dos locais havia se iniciado ainda no reinado de seu antecessor.
Adriano entendia que o Império devia fortalecer as fronteiras estabelecidas na época de Augusto, com exceção a rica Dácia, que também estabelecia um colchão de segurança para a estratégica fronteira do Danúbio.
O Império, assim, embarcou na construção de uma rede de muralhas, torres fortificadas, quartéis e paliçadas visando assegurar essas fronteiras. O exemplo mais famoso desse programa são as Muralhas de Adriano, na Grã-Bretanha (construída entre 122 e 125 D.C – vide foto abaixo).
Não obstante, Adriano cuidou para que o Exército Romano fosse cuidadosamente mantido em estado de excelência, seja em equipamentos, disciplina e prontidão, tendo este sido extensivamente empregado em projetos de construção e manobras militares constantes. Com efeito, uma das grandes preocupações de Adriano era o evidente relaxamento da disciplina militar pelo excesso de confortos e luxos nos quartéis, situação que ele combateu.
Já na esfera social, Adriano expandiu o programa dos “Alimenta” (fornecimento gratuito de gêneros alimentícios aos cidadãos pobres da Itália), implantado por Trajano.
Adriano declarou publicamente que seu propósito era visitar todas as províncias do Império Romano, a fim de verificar pessoalmente as condições dos cidadãos romanos, conhecer os problemas das províncias e fiscalizar a administração regional.
E com efeito, Adriano visitou a Gália e o Reno (120-121 D.C), a Bretanha (121-122 D.C), a Espanha (122 D.C), a Ásia (123 D.C), a Grécia (125D.C), e, após voltar à Roma, a África (128D.C), novamente a sua amada Grécia (Atenas, 128D.C), a Cária, Cilícia, Capadócia e Sìria (129D.C) e o Egito (130 D.C), voltando à Roma em 131 D.C.
Todas essas viagens, a nosso ver, demonstravam uma visão do Império Romano como uma comunidade de povos que compartilhavam a civilização helenística, ao invés de ser meramente um território conquistado pelos romanos e governado por Roma para os de origem italiana.
Aliás,foi muito provavelmente durante a estadia de Adriano na Bitínia que ele conheceu o belo adolescenteAntinoos, ou Antinous, que foi enviado para Roma para ser educado como pajem e que se tornaria seu notório amante.
Outra reforma importante implementada por Adriano foi a designação de integrantes da classe equestre para os cargos da burocracia imperial (Trajano, ao contrário, deu preferência aos membros da classe senatorial), assegurando-lhes, a partir daí, a promoção para os mais altos cargos da magistratura. Esse passo foi seguido pela profissionalização do Conselho do Imperador (Consilia Princeps), corpo consultivo que passaria a ser integrado por conselheiros pagos e não mais por libertos ou servos domésticos do Imperador.
No campo do Direito, Adriano foi o primeiro a editar um Código de Leis publicado para ser conhecido para todos os cidadãos. Esse Código, elaborado pelo célebre jurtsta Sálvio Juliano, chamado de Édito do Pretor (depois conhecido com Editum Perpetuum), marcou uma profunda alteração no sistema jurídico-legal romano, pois, até então, tradicionalmente, os juízes (pretores) publicavam seus éditos com a sua interpretação jurídica das leis e costumes romanos, que era considerada como uma fonte do Direito.
Agora, todos os éditos anteriores ao Editum Perpetuum estavam sendo fixados no Código e, a partir daí, somente o Imperador poderia alterar a legislação mediante a expedição de decretos ou de leis ratificadas pelo Senado. Esta era uma mudança revolucionária: do sistema de direito de precedente judiciário e judge men’s law (direito dos juízes) para o direito codificado ou legislado, que, ainda hoje, marca a divisão entre os sistemas jurídicos existentes no mundo.
Adriano foi também um grande construtor, e os edifícios mais famosos em Roma construídos durante o seu reinado foram: o Templo de Vênus e Roma, o seu próprio Mausoléu (que ainda existe, na forma do Castelo de Santo Ângelo), e o muito bem preservado Pantheon, no qual, pretendendo demonstrar humildade, Adriano manteve a inscrição ostentada na fachada do prédio antecessor, que havia sido destruído havia tempos, declarando que havia sido construído por Marcus Agrippa. Espetacular também foi a sua Villa, em Tìvoli, que constituía praticamente um grande parque temático sobre o mundo helenístico.
(Pantheon e Templo de Vênus e Roma – este reconstituído por Franck devedjian)
PERSONALIDADE
A personalidade de Adriano era certamente refinada, complexa e contraditória. Ele queria ser visto como, e, tudo indica, se esforçava mesmo para ser, um monarca esclarecido, humano, tolerante, pio e dedicado ao serviço público, mas Adriano também era excessivamente vaidoso, de temperamento colérico e emotivo.
Os seguintes casos preservados pelas fontes podem dar uma idéia:
Sabe-se que Adriano publicou leis visando melhorar a condição dos escravos. Contudo, consta que certa vez, irritado com um seu escravo doméstico, Adriano cravou o seu estilete de escrita no olho do infeliz escravo. Logo depois, tomado de remorso, Adriano pediu perdão ao escravo e, visando reparar essa violência, disse que o escravo poderia pedir qualquer coisa que quisesse, que ele, Adriano, lhe daria. Resposta do escravo: “Só quero o meu olho de volta“.
Outra vez, quando Adriano viajava, uma mulher abordou a comitiva imperial para fazer um pedido, ao que ele respondeu: “Não tenho tempo para te ouvir“. A mulher então, ousadamente, replicou: “então, não seja imperador!“. Adriano, envergonhado, parou e ouviu o requerimento da mulher .
Cássio Dião descreve Adriano como sendo um homem agradável de se encontrar e dotado de um certo charme. Segundo a História Augusta, ele tinha muito interesse em poesia e nas letras e era expert em aritmética, geometria e pintura. Adriano sabia tocar bem a flauta e cantar. Porém, ele excedia-se ao satisfazer seus desejos e escreveu muitos versos aos objetos de suas paixões. Adriano também sabia manejar diversas armas.
Ainda, segundo Cássio Dião, Adriano:
“na mesma pessoa, era austero e genial, solene e brincalhão, ativo e preguiçoso, sovina e generoso, dissimulado e direto, cruel e compassivo e, sempre, em todas as coisas, volúvel“.
Certamente, Adriano era muito vaidoso intelectualmente, o que deu margem a algumas estórias sobre a inveja que sentiria de outros homens admirados pelo talento. Consta que até que ele teria mandado matar o arquiteto Apolodoro de Damasco porque este debochara de seus desenhos e desdenhara das suas sugestões para o Pantheon e o Templo de Vênus e Roma. Mas alguns duvidam que essa narrativa seja verdadeira.
Sobre a vida afetiva de Adriano, parece que o casamento com a imperatriz Sabina era de fachada, Ela inclusive teria tido um relacionamento amoroso com o célebre historiador Suetônio. Em todo caso, o casamento imperial não gerou filhos e ela morreu um pouco antes do imperador, em 136 ou 137 D.C.
(Busto da imperatriz Víbia Sabina)
O relacionamento amoroso mais conhecido de Adriano foi com o belo jovem bitínio Antínoo, natural da cidade de Claudiópolis, que ele deve ter conhecido em 123 D.C, durante a sua viagem pelas províncias da Ásia. O menino deveria ter, então, cerca de 13 anos e foi levado para Roma para ser educado. Sendo ele grande admirador da cultura grega, é provável que a relação íntima de Adriano com o rapaz tenha se desenvolvido como a relação entre as figuras do “eraster” e do “eromenos“, onde um homem adulto assume o papel de mentor educacional de um pupilo, ocasião em que se admitia, na Grécia, o relacionamento sexual entre eles (pederastia). Considerando que a elite romana, no período, era fortemente influenciada pelo helenismo, provavelmente a relação entre Adriano e Antinoos, naquele momento, não foi considerada escandalosa, ao menos enquanto o rapaz era adolescente.
Porém, em 130 D.C, durante a viagem de Adriano pelo Egito, quando eles navegavam pelo Nilo, a flotilha imperial parou na cidade de Hermópolis e durante essa parada, Antinoos afogou-se no rio. Consta que Adriano chorou copiosamente a perda do amante. Pouco depois, Adriano conseguiu que os gregos deificassem Antinoos e ordenou que uma cidade no Egito fosse construída no local da morte do amante, batizando-a de Antinoopolis. Inúmeras estátuas do jovem foram espalhadas pelo Império (muitas ainda existem).
As fontes antigas divergem sobre a causa da morte de Antinoos. As versões variam entre suicídio, assassinato, sacrifício e acidente. Para alguns, o próprio rapaz, percebendo que em breve a relação terminaria devido á sua condição de homem adulto, já que a relação amorosa aberta entre homens adultos livres não era aceita pela sociedade romana, teria se matado. Esse também seria o motivo pelo qual ele poderia ter sido assassinado. Para outros, Antínoo teria se oferecido voluntariamente para ser sacrificado em prol da vida ou saúde de seu amante, em algum misterioso ritual religioso, ou, ainda, ele teria sido apenas vítima de um infeliz acidente. O fato é que as homenagens prestadas pelo imperador a Antinoo foram consideradas excessivas e expuseram Adriano ao ridículo, ao menos segundo nos conta a História Augusta.
O conflito militar mais importante do reinado de Adriano foi a revolta judaica liderada por Simão Bar-kohba, entre 132 e 136 D.C, que foi implacavelmente reprimida, com a destruição de Jerusalém, a morte estimada de 580 mil judeus e a deportação de grande parte da população judaica , vendida como escrava, episódio chamado pelo povo hebreu de “A Grande Diáspora“. Sobre as ruínas de Jerusalém, Adriano ordenou a construção de uma nova cidade, batizando-a de Élia Capitolina.
MORTE
O final da vida de Adriano foi atormentado por uma grave doença que lhe causou muito sofrimento, ao ponto de seus assessores mais íntimos se preocuparem em evitar que ele tivesse qualquer instrumento potencialmente letal à sua disposição, por medo de que ele se matasse.
Adriano escolheu como sucessor Lucius Ceionus Commodus, em 136 D.C, um senador que era filho de um dos quatro consulares que ele havia executado no início do seu reinado. Porém, Lucius, que adotou o nome de Lucius Aelius Caesar, morreu no início de 138 D.C. Adriano, então, adotou Titus Aurelius Fulvus Boionius Arrius Antoninus (o futuro imperador Antonino Pio), que era casado com Faustina, uma sobrinha da imperatriz Sabina e filha de Marco Ânio Vero, grande amigo de Adriano e membro de uma família conterrânea da Hispânia, como novo herdeiro.
Segundo a História Augusta, em seu leito de morte, Adriano compôs o célebre poema Anima, Vagula, Blandula (Pequena alma terna e flutuante), uma belíssima peça lírica que ilustra a riqueza do espírito do moribundo Imperador:
“Pequena alma terna e flutuante,
hóspede e companheira de meu corpo,
vais descer a lugares pálidos, duros, nús,
onde renunciarás aos jogos de outrora.“
(Lápide moderna em mármore com o poema de Adriano em latim, colocada no interior do seu Mausoléu, hoje Castello Sant’Angelo, em Roma. Foto: Carole Raddato)
Em 10 de julho de 138 D.C., o coração de Adriano parou de bater em sua villa no tradicional balneário de Baiae. Ele tinha 62 anos de idade e seu reinado durou 21 anos, um dos mais longos da História, então somente superado por seus predecessores Augusto e Tibério. Adriano inicialmente foi sepultado em uma villa que havia pertencido a Cícero, e depois seus restos foram trasladados para Roma, onde foram cremados e depositados no seu magnífico Mausoléu de Adriano, juntamente com os de sua esposa Sabina e seu filho adotivo Lúcio Élio, pelo seu sucessor Antonino, que, por ter conseguido convencer o relutante Senado Romano a deificar Adriano, recebeu o cognome de “Pio“.
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Em 53 A.C., o Triúnviro Marco Licínio Crasso (Crasso), governava a província romana da Síria, como resultado do acordo político firmado entre ele, Pompeu Magno e CaioJúlio César, que resultou no chamado Primeiro Triunvirato, o pacto político que acomodou temporariamente os interesses entre os três homens mais poderosos da Roma Republicana e o Senado.
(Cabeça de estátua de Crasso)
Ciente de que, no que se refere aos louros obtidos nos campos de batalha, ele era inferior aos seus dois colegas, Crasso ansiava por uma conquista militar que lhe pusesse em pé de igualdade a Pompeu e César.
Sendo o homem mais rico de Roma, e conhecido por sua ganância, Crasso acreditava que seu caminho para a glória militar estava em atacar a Pártia, império que disputava com Roma a influência sobre o Oriente Médio e, principalmente, sobre o Reino da Armênia.
Note-se que a presença romana na Síria era um foco de tensão entre ambos os impérios e isso continuaria assim até o século VII D.C, quando o Imperador romano-bizantino Heráclio esmagou a Pérsia Sassânida, sucessora da Pártia, apenas alguns anos antes de toda a região ser varrida pela expansão dos árabes muçulmanos.
A BATALHA DE CARRAS
Crasso, então, decidiu invadir a Pártia, cruzando a fronteira com a Mesopotâmia, comandando 7 legiões em um total de 43 mil homens, sendo 35 mil legionários, 4 mil tropas leves e 4 mil cavaleiros.
Ao longo da História, as rotas de expedições militares contra a Mesopotâmia partiam da Armênia, montanhosa e menos árida e, mesmo quando eram originárias da Síria, costumavam seguir o curso do rio Tigre ou do Eufrates, porém, Crasso, ignorando os conselhos do rei armênio Artavasdes, aliado de Roma, decidiu cruzar o deserto visando um ataque direto às principais cidades partas.
O rei Orodes II, da Pártia, decidiu enviar uma expedição punitiva contra os Armênios, e outro contingente, menor, com o objetivo de atrasar o avanço romano, contendo dez mil cavaleiros, sendo 9 mil deles arqueiros montados e mil cavaleiros couraçados, chamados de catafractos, comandados pelo general Surena.
Um chefe aliado de Roma, do reino de Osroene, chamado Ariamnes, provavelmente de origem aramaica ou árabe, instigou Crasso a avançar contra o contingente comandado por Surena, guiando-o para uma região árida e desolada do deserto. O que Crasso não sabia é que Ariamnes havia sido subornado pelos Partas.
Então, quando os romanos estavam já no deserto, próximo à cidade de Carras, os Partas cercaram os romanos, em 9 de junho de 53 A.C. (data apontada no poema “Os Fastos”, de Ovídio).
(Estátua do general Surena, no Museu Mevlana, em Konya, na Turquia)
Embora em menor número no quantitativo total de tropas, os Partas se aproveitaram do fato de que a cavalaria romana era pouco numerosa e, valendo-se disso, eles conseguiam aproximar-se para atacar os romanos despejando torrentes de flechas, mas sem precisar entrar em combate direto com os legionários, que eram sabidamente superiores neste quesito.
Os romanos tentaram se proteger das flechas inimigas com os escudos, entrando na formação conhecida como “quadrado”. Porém, o calor do deserto e o aumento das baixas começaram a enfraquecer o moral dos legionários.
No início, a tática dos romanos era esperar até que os arqueiros inimigos ficassem sem flechas, mas Surena, habilmente, conseguiu remuniciá-los usando camelos.
Incomodados com as incessantes descargas de flechas, os legionários, então, recorreram à mais defensiva de todas as formações, a tartaruga (testudo), que, no entanto, praticamente impedia qualquer contra-ataque romano.
Crasso ordenou que um destacamento de 1300 cavaleiros gauleses, secundados por 500 arqueiros e oito coortes de infantaria (cerca de 4 mil soldados), comandados por seu próprio filho, Públio Cornélio Crasso, saíssem da formação e atacassem os cavaleiros partas, que fingiram uma retirada, visando afastar o destacamento do grosso das tropas romanas.
Enquanto as tropas comandadas por Públio avançavam, Surena ordenou que o seu contingente de arqueiros montados desse a volta e se colocasse na retaguarda do inimigo, enquanto os catafractos atacavam a cavalaria gaulesa.
Os gauleses lutaram bravamente, mas, sem armadura e com armamento leve, não eram páreo para os pesados cavaleiros partas. Finalmente, todo o contingente, acossados pelas flechas, foi obrigado a se refugiar em uma colina, onde Públio, sem alternativas à rendição, resolveu cometer suicídio. Sobraram apenas 500 combatentes vivos de sua tropa, que foram capturados.
Enquanto isso, Crasso havia ordenado que o restante das tropas avançasse contra os Partas. No entanto, ao se aproximar dos inimigos, ele foi confrontado com a cabeça de seu filho espetado na lança de um catafracto.
Os ataques dos arqueiros partas, agora sem qualquer temor de contraataque por parte da cavalaria romana, recrudesceram e continuaram até a caída da noite, até o ponto em que Crasso, muito abalado pelo destino do filho, ordenou uma retirada total para a cidade de Carras.
(Representação da Batalha de Carras, por piojote (Ferdinand Von Nielsen)
Os romanos deixaram no campo de batalha cerca de 4 mil soldados feridos, que foram prontamente mortos pelos Partas. Para piorar, durante a retirada para Carras, 4 coortes (cerca de 2 mil soldados) perderam-se na escuridão do deserto, sendo cercadas e liquidadas pelos inimigos.
Surena, então, ofereceu aos romanos uma trégua, que foi inicialmente recusada. Porém, os já desesperados soldados romanos ameaçaram fazer um motim e, assim, Crasso foi obrigado a negociar.
Quando Crasso e sua escolta foram ao encontro dos Partas para tratar dos termos do armistício, ocorreu um entrevero, após um soldado parta puxar as rédeas do cavalo do comandante romano e Crasso foi capturado.
Consta que os Partas, sabedores do já notório apreço de Crasso por dinheiro, teriam derramado ouro derretido pela sua garganta, matando-o dessa forma.
O exército romano, agora sem seu comandante, tentou romper o cerco, mas acabou sendo derrotado.
Apenas 10 mil soldados romanos conseguiram escapar e chegar à Síria, sendo, do exército original, 20 mil morreram e 10 mil foram capturados pelos Partas. As águias-estandartes das legiões também foram levadas pelos Partas como despojos, um fato considerado humilhante pelos romanos. Elas somente seriam devolvidas quase 30 anos mais tarde, graças a um grande esforço diplomático do imperador Augusto.
CONSEQUÊNCIAS DA BATALHA
Os Partas, fortalecidos foram bem-sucedidos na invasão da Armênia, que passou, momentaneamente a ser sua aliada, complicando a situação estratégica de Roma no Oriente. Porém, ao tentar atacar a Síria, eles foram repelidos pelos sobreviventes da Batalha de Carras, comandados por Caio Cássio Longino (que depois seria um dos assassinos de Júlio César).
Muitos estudiosos entendem que a morte de Crasso, que resultou na dissolução do Primeiro Triunvirato, precipitou as tensões que resultaram na Guerra Civil entre os partidários da facção senatorial dos nobres (Optimates), liderados por Pompeu e a facção dos Populares, cujo líder era Júlio César.
(A famosa estátua de Prima Porta, do imperador Augusto, em cuja couraça estão relevos retratando a devolução dos estandartes romanos capturados em Carras)
QUAL O DESTINO DOS SOLDADOS ROMANOS CATIVOS?
O rei Orodes II da Pártia, enviou os prisioneiros romanos capturados em Carras para o leste do seu território, usando-os como mão de obra para construções, pois os legionários romanos eram hábeis construtores.
Em 1941, o professor universitário de sinologia norte-americano Homer Dubs, da Universidade de Oxford, e profundo conhecedor da história da China, notou que muitos habitantes da região onde ficava a antiga cidade de Liqian, na província chinesa de Gansu, tinham olhos claros e traços caucasianos. Homer Dubs relacionou esse fato com um antigo relato histórico chinês da Batalha de Zhizhi, ocorrida em 36 A.C., quando o exército Han atacou uma fortaleza controlada pelo chefe da tribo Xiongnu (ou Hsiung-nu), oriunda das estepes asiática, próxima a Taraz, no atual Casaquistão.
Segundo os relatos, no ataque, os Han teriam lutado contra um grupo de soldados que lutavam em uma formação de “escamas de peixe”, que relembraria a “tartaruga” dos romanos. Assim, Dubs teorizou que os soldados da formação “escama de peixe” seriam os legionários romanos de Crasso, que foram feitos prisioneiros em 53 B.C., e que, depois de serem levados para a fronteira oriental da Pártia, teriam conseguido escapar e virado mercenários à serviço dos Xiongnu.
Finalmente, segundo Dubs, os legionários capturados na Batalha de Zhizhi teriam sido assentados pelos Han em Liqian, o que explicaria os traços caucasianos dos seus habitantes. Vale observar, contudo, que o lugar onde ocorreu a referida batalha fica quase à meio-caminho entre Carras e Liqian…
O problema é que jamais se encontrou qualquer vestígio de artefato de origem ou de inspiração romana em Liqian. Testes de DNA também não encontraram marcadores específicos da Itália (origem da maior parte das legiões de Crasso).
(A prefeitura da Liqian não perdeu tempo e construiu esse monumento à “herança romana” da cidade. Note-se o legionário romano à direita).
Embora metade da população atual da antiga Liqian tenha DNA caucasiano, isso se coaduna com o fato de o local encontrar-se na Rota da Seda, milenar via de contato entre a China e a Ásia Central. Acrescente-se que, durante muito tempo, desde 2 mil A.C e até antes disso, houve um influxo de povos indo-arianos para a China, como, por exemplo, os Tocarianos, que são caucasianos. Vale observar, por sinal, que as múmias de Tarim, encontradas em território chinês e datadas de 2000 A.C, são de pessoas de cabelos louros e traços ocidentais (vide foto de algumas das múmias abaixo)