ELE, CLÁUDIO, IMPERADOR

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Em 1º de agosto de 10 A.C., nasce, em Lugdunum, na Gália (atual Lyon),  Tiberius Claudius Nero Germanicus (Cláudio), filho de Nero Claudius Drusus (Druso), que era filho da imperatriz Lívia Drusila (Júlia Augusta), a esposa do primeiro imperador romano, Augusto, e de Antônia, a Jovem,  que era filha do casamento do triúnviro Marco Antônio com Otávia, a irmã de Augusto.

Assim, pela linha materna, Cláudio era parente de Júlio César, pois a sua mãe era neta de Júlia, a Jovem, irmã de César.

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O Pai de Cláudio, Druso,  devido às suas importantes vitórias contra os bárbaros germânicos, recebeu o cognome “Germanicus”, sendo também o irmão mais novo de Tibério, que sucederia Augusto no trono.

Antes de Cláudio nascer, Druso e Antônia já haviam concebido Germanicus Julius Caesar (Germânico), que também seria um célebre general e que cairia nas graças de Augusto (e também da plebe romana). Quando o velho imperador adotou Tibério como herdeiro, ele exigiu que este, por sua vez, adotasse Germânico, pois, além dele, Augusto não tinha mais outro parente consanguíneo do sexo masculino capaz de dar continuidade à linhagem dos Júlios.

Porém, ao contrário do seu irmão mais velho, Cláudio passaria a sua infância, adolescência e toda a juventude em completa obscuridade, expressamente por determinação de Augusto e de Lívia, com os quais ele viveu durante um bom tempo, e, depois deles, pela vontade de seu tio Tibério, ficando afastado das aparições públicas da família imperial e sem ter qualquer papel público, ainda que cerimonial, a desempenhar.

Os motivos do ostracismo a que Cláudio foi relegado no seio da família imperial, segundo os autores antigos, seriam os distúrbios físicos e mentais que ele apresentava desde menino, considerados por Augusto e Lívia como comprometedores da dignidade da dinastia dos Júlio-Cláudios. E a própria mãe de Cláudio, segundo  Suetônio, referia-se ao filho como sendo “um monstro“.

O diagnóstico da doença de Cláudio não é preciso nas fontes, mas elas mencionam o fato dele mancar, gaguejar, ser acometido por tremores e ter corrimentos no nariz. Por isso, alguns acreditam que Cláudio pode ter contraído poliomielite, ou, mais provável, dele ter sofrido algum tipo paralisia cerebral na infância. Alguns defendem, ainda, que a doença dele seria a Síndrome de Tourette, uma desordem neuropsiquiátrica que causa tiques nervosos.

No entanto, o próprio Augusto, em uma carta à Lívia, citada por Suetônio, observou que Cláudio era mais inteligente do que ele aparentava, tendo ficado impressionado com a sua boa declamação. Não obstante, Cláudio seria mantido afastado de qualquer cargo ou função oficial durante todo o reinado do tio, ao contrário do irmão dele, Germânico.

A sociedade romana, como a maior parte das civilizações da Antiguidade, não tinha muita compaixão pelos deficientes físicos, e a família entendia que os sintomas da enfermidade de Cláudio eram desvios de caráter e deveriam ser corrigidos pela disciplina e castigos.

O próprio Cláudio, na autobiografia que ele escreveria anos mais tarde, e que não chegou até os nossos dias, contou que a sua família contratou um bárbaro que era condutor de mulas para ser o seu tutor, com o objetivo de que este se valesse da mais férrea disciplina e castigos severos para tentar melhorar a sua condição.

Assim, até mesmo em sua cerimônia da assunção da toga virilis (que simbolizava a passagem da infância para a idade adulta para os rapazes romanos, normalmente aos 14 anos de idade), que era um evento público marcante para  os jovens da família imperial, Cláudio foi escondido dos olhares do público, pois ela ocorreu durante a noite, com ele sendo carregado oculto no interior de uma liteira.

Não tendo um papel público a desempenhar, ou por causa disso mesmo, Cláudio tomou interesse pelo estudo de História e pela Literatura. O grande historiador romano Tito Lívio foi contratado para ser seu professor e ele também foi aluno do filósofo estoico Atenodoro.

E tudo indica que Cláudio se tornou um leitor voraz. Ainda muito jovem ele estudaria obras históricas sobre vários povos e, segundo as fontes antigas, ele foi a última pessoa capaz de ler a escrita etrusca em Roma, que até hoje não foi completamente decifrada.

Começando ainda na juventude, ao longo da vida, Cláudio escreveria 43 livros sobre a História de Roma, a Thyrrenica, contendo 21 livros sobre a História dos Etruscos, a Carthagenica, contendo 8 livros sobre a História de Cartago, um livro sobre filologia e uma defesa das acusações de Asinio Polião contra Cicero, além da sua autobiografia em 8 volumes. Infelizmente, nenhuma delas sobreviveu, mas algumas foram citadas por autores antigos.

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(Tabula Cortonensis, contendo um texto em etrusco)

Outra obra que é mencionada é um tratado sobre jogos de dados. Segundo as fontes, Cláudio era fanático por este tipo de jogos, o que seria motivo de alfinetadas dos historiadores e objeto de muitas sátiras.

Cláudio também era interessado em linguística e escreveu um livro defendendo a introdução de três novas letras no latim, “A Claudian letter“, “” e “A Claudian letter“, duas delas equivalentes ao Y e ao W. Mais tarde, após se tornar imperador, ele, no exercício do cargo de Censor, determinou que essas letras fossem adotadas oficialmente, mas isso não perdurou por muito tempo (na foto abaixo, uma raríssima inscrição contendo uma delas).

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Quando Augusto morreu, em 19 de agosto de 14 D.C., Cláudio, que já tinha 23 anos de idade, sentiu-se confiante em pedir ao sucessor, o seu tio, Tibério, que lhe fosse permitido começar a trilhar o cursus honorum, a carreira pública das magistraturas. Contudo, Tibério preferiu dar apenas a Cláudio os ornamentos consulares, o que podemos considerar como uma mera consolação, já que isso significava na prática apenas uma condecoração honorífica, permanecendo Cláudio afastado de qualquer cargo ou função pública.

Eu creio que o motivo de Tibério continuar negando ao sobrinho qualquer papel público tinha a ver com o fato da família de Cláudio estar no centro das intrigas dinásticas dos Júlio-Cláudios referentes à posição de herdeiro de Tibério. Com efeito, o seu irmão, Germânico, era visto como potencial rival de Tibério ao trono. E sua irmã, Livilla, que, reportadamente, desprezava Cláudio, era esposa do filho de Tibério, Druso, o Jovem.

Não obstante, as fontes relatam que,  durante o reinado de Tibério, com o passar do tempo, o público passou a ter uma boa impressão de Cláudio, que começou a receber algum reconhecimento.

Por exemplo, a classe dos Equestres escolheu-o duas vezes para liderar uma delegação para apresentar uma petição ao imperador. O Senado votou que ele  seria um membro especial dos sacerdotes do culto a Augusto, e, sobretudo, os senadores pediram a Tibério que Cláudio pudesse participar das sessões do Senado, o que, entretanto foi negado.

Tudo isso mostra que a exclusão de Cláudio da carreira política decorria de decisão direta do trono, e não de alguma incapacidade dele ou do repúdio da população.

Em 19 D.C., Germânico morreu em Antioquia, em circunstâncias suspeitas. Historiadores antigos, como Tácito, dão crédito à tese de que ele foi envenenado a mando de Lívia e Tibério.

Na época em que Germânico morreu, já se notava o grande poder que o comandante da Guarda Pretoriana, Lúcio Élio Sejano exercia em Roma. Ele expandira a guarnição dos pretorianos, que foi centralizada em um grande quartel fortificado, adjunto às muralhas da cidade.

O poder de Sejano era tanto que Tibério, certa vez referiu-se a ele como “meu sócio-trabalhador“. E Sejano, de fato, tinha altas pretensões…

Em 20 D.C., Sejano  arranjou o casamento de sua filha, Junilla,  com o filho de Cláudio, Claudius Drusus, época em que as crianças tinham apenas quatro anos de idade. Porém, os planos de Sejano foram por água baixo, porque, poucos dias depois do arranjo, o menino morreu engasgado com uma pera.

Claudius Drusus era o filho mais velho de Cláudio com sua primeira esposa, Plautia Urgulanilla, filha de Marcus Plautius Silvanus, um grande amigo da imperatriz Lívia e que era de origem etrusca. É bem possível que daí tenha vindo o interesse de Cláudio pela civilização etrusca. Cláudio e Urgulanilla se casaram por volta do ano 9 D.C., quando ele tinha uns dezoito anos de idade.

O primeiro casamento de Cláudio já ficaria marcado pela suspeita de má conduta da esposa, algo que se repetiria nas suas uniões posteriores. Ele  se divorciou de Urgulanilla, que, cinco meses depois, deu a luz a uma filha, chamada de Cláudia. Suspeitava-se que a menina era filha do liberto Boter. Por isso, Cláudio repudiou também a criança e mandou depositá-la, nua, na soleira da porta da casa onde a ex-mulher fora morar.

Depois disso, Cláudio deve ter se sentido muito ameaçado quando Druso, o  Jovem, o filho e herdeiro oficial de Tibério, morreu,  em 14 de setembro de 23 D.C., de uma misteriosa enfermidade, fato que ocorreu pouco tempo após uma séria desavença dele com Sejano. Para alguns historiadores antigos, como Tácito e Dião CássioSejano foi o responsável pela morte de Druso por envenenamento, empresa na qual ele teria sido auxiliado pela esposa do falecido e irmã de Cláudio, Livilla, que teria sido seduzida pelo Prefeito Pretoriano e dele se tornara amante.

Em 25 D.C., Sejano pediu formalmente a Tibério permissão para se casar com Livilla, o que foi recusado pelo velho imperador, que, após exaltar os méritos do subordinado, ressaltou, suavemente, que ele, tendo nascido na classe Equestre, estava abaixo da posição social de Livilla, uma integrante da família imperial.

No ano seguinte, Tibério foi viver na ilha de Capri, em um auto-exílio voluntário que duraria onze anos, deixando, informalmente, o governo nas mãos de Sejano.

Em 28 D.C., Cláudio casou-se com  Aelia Petina, que era irmã de criação de Sejano, pois havia sido cirada pelo pai dele, Lucius Seius Strabo, um dos primeiros comandantes da Guarda Pretoriana, e antecessor do filho neste comando.

O casamento de Cláudio e Aelia Petina claramente deve ter sido por influência de Sejano. Um indício é o fato de que, assim que este foi demitido do cargo e executado por ordens de Tibério, em 31 D.C., Cláudio divorciou-se de sua segundo esposa, alegando motivos insignificantes. Mesmo assim, eles tiveram uma filha, Claudia Antonia, que seria criada pela mãe de Cláudio, Antônia, a Jovem.

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(Estátua de Cláudia Antònia, filha de Cláudio.

Antes da queda, contudo, Sejano, que controlava toda informação entre Roma e Capri e agia como virtual governante de Roma, começara a eliminar os seus desafetos e adversários políticos. E seu alvo preferencial foi Agripina, a Velha,  a esposa do falecido Germânico, irmão de Cláudio, que foi exilada em 30 D.C. Ela vinha acusando publicamente Tibério e Lívia de serem os mandantes da morte do esposo. O filho de AgripinaNero Julius Caesar Germanicus (não confundir com o futuro imperador Nero) também foi exilado e morreria no ano seguinte.

Porém, o filho homem mais novo de Agripina e sobrinho de Cláudio, Gaius Caesar, de 18 anos, que tinha o apelido de Calígula, foi viver com Tibério, em Capri.

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(Busto de Agripina, a Velha)

Anos mais tarde, Cláudio mencionaria, em uma ocasião, que, durante esses anos de intrigas palacianas e de terror pela eliminação dos seus parentes, ele costumava exagerar os seus problemas físicos e fingir ser um completo idiota, com o objetivo de parecer inofensivo a todos, tentando manter-se vivo.

Enquanto isso, após a queda de Sejano, como vimos, Cláudio divorciou-se da irmã de criação do Prefeito Pretoriano caído em desgraça e continuou vivendo na obscuridade até a morte de Tibério, com 77 anos de idade, em Capri, em 16 de março de 37 D.C..

Dois dias depois, Tibério foi oficialmente sucedido por Calígula, que era sobrinho de Cláudio.  E foi Calígula quem deu a Cláudio o primeiro cargo público que ele ocuparia na vida, o de Cônsul Suffectus, em 37 D.C, aos 46 anos de idade!

Apesar do cargo de Cônsul, a situação de Cláudio não melhorou muito. Calígula logo mostrou-se um monarca cruel e incontrolável, e o seu tio Cláudio era um dos alvos preferidos de suas pilhérias e deboches, inclusive algumas vezes perante o Senado Romano.

Em 38 D.C., Cláudio casou-se, pela terceira vez, com Valeria Messalina, integrante de uma ilustre família senatorial, e sua prima em 2º grau, pois ela era neta da irmã de sua mãe, Antônia, a Velha. No ano seguinte, Messalina deu a Cláudio mais uma filha, que recebeu o nome de Claudia Octavia.

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(Cabeça de Claudia Octavia, filha de Cláudio)

No entanto, o reinado de Calígula seria curto. Fartos de seus desmandos e desacatos, alguns senadores e membros da Guarda Pretoriana, estes liderados pelo tribuno Cássio Queréa, urdiram uma conspiração e assassinaram Calígula, durante uns jogos que eram celebrados no Palatino, em 24 de janeiro de 41 D.C.

A conspiração parece, à primeira vista, ter sido motivada primordialmente pelo desejo de alguns de se livrar de um governante ensandecido, que ameaçava os que estavam próximos do poder, e executada por pretorianos humilhados pelo imperador. Se o assassinato de Calígula fazia parte de um plano maior, de restaurar a República, nós não sabemos, mas as fontes relatam que, inicialmente, alguns senadores perceberam essa oportunidade.

Segundo os relatos das fontes, após o assassinato, os guarda-costas germânicos de Calígula entraram em um frenesi de violência e começaram a massacrar quem encontravam pela frente. Cláudio fugiu para o Palácio (ou para a sua casa, a narrativa varia).

Enquanto isso, os guardas pretorianos, também fora de controle, invadiram os aposentos imperiais para saqueá-los. Foi durante essa invasão que um dos guardas, que se chamava Gratus, notou alguém escondido atrás de uma cortina. Ao puxá-la,  ele encontrou Cláudio e arrancou-o do seu esconderijo, ocasião em que perceberam que aquele homem era o tio do imperador. Ato contínuo, os soldados aclamaram Cláudio,Princeps“, e o levaram até o quartel da Guarda Pretoriana.

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Dião Cássio e Flávio Josefo narram que Cláudio, sincera ou fingidamente, tentou recusar a púrpura imperial, mas acabou cedendo à pressão dos guardas para que ele assumisse o trono.  Eles também mencionam que chegou a haver alguns senadores, especialmente Sentius Saturninus (que fez no Senado um discurso neste sentido), e,  até mesmo, alguns pretorianos, que cogitaram de acabar com o Principado e restaurar a República Romana, tal como ela era nos tempos anteriores aos Césares.

E de fato, consta que o Senado, cogitando enfrentar os partidários de Cláudio, chegou a mobilizar na oportunidade os parcos recursos armados que a cidade de Roma dispunha.  Porém, essa força, composta por alguns soldados, vigiles (espécie de bombeiros), gladiadores e até escravos libertos dos senadores, logo debandou para o lado dos Pretorianos que apoiavam Cláudio.

Esse estado de indefinição entre a aclamação de Cláudio e a restauração da democracia, segundo Suetônio, durou dois dias, ao final dos quais o historiador narra  que teria ocorrido uma crucial intervenção de uma massa de populares gritando pela elevação de Cláudio, que também teria prometido quinze mil sestércios como donativo aos soldados que o aclamaram imperador.

Realmente, não há como ter certeza se Cláudio foi um mero espectador da conspiração que assassinou Calígula, ou se ele sabia e concordou com o plano. Não obstante, os guardas liderados por Lupus, seguindo ordens de Queréa, após finalizarem Calígula,  e, ao que parece não imediatamente, dirigiram-se até o Palácio e executaram a imperatriz Cesônia e a filha de Calígula , de apenas dois anos de idade, que teve a cabeça esmagada contra uma parede. Eu acredito que dificilmente os militares ousariam fazer isso se não tivessem a aprovação de alguém poderoso, talvez algum senador disposto a restaurar a República ou algum pretendente ao trono…

Aos cinquenta anos de idade, Cláudio foi oficialmente aclamado pelo Senado, com o nome de Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus e ele perdoou oficialmente todos os senadores e pretorianos que tinham conspirado para assassinar o seu antecessor, bem como aqueles que haviam se manifestado pelo fim do Principado. (considera-se que o seu reinado começou no dia da morte de Calígula, 24 de janeiro de 41 D.C., quando ele foi aclamado imperador pelos soldados que o encontraram no esconderijo).

Sintomaticamente, contudo, Queréa e Lupus foram imediatamente executados…

Nota: Cláudio, ao incorporar o nome “Caesar“, apesar de ele não ter sido adotado como herdeiro por Calígula (havia uma linha de adoção formal ligando respectivamente cada um dos imperadores romanos a Júlio César, desde Augusto até Calígula), iniciou a transformação do referido nome em um título imperial.

Poucas semanas depois da aclamação de Cláudio, Messalina deu à luz ao seu primeiro herdeiro, que se chamou Tibério Cláudio Germânico.

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A imperatriz (Messalina, com o filho Britânico em seu colo)

O nascimento do filho foi muito comemorado por Cláudio, que com orgulho passou a levar o bebê para exibi-lo em  cerimônias e espetáculos públicos. Moedas foram cunhadas para comemorar o nascimento, com a inscrição “esperança augusta” (spes augusta – vide foto abaixo).

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No ano seguinte, 42 D.C., ocorreu a única revolta séria contra o governo de Cláudio: uma rebelião liderada pelos senadores Lucius Arruntius Camillus Scribonianus, Governador da Dalmácia, e Lucius Annius Vinicianus, um participante do complô que assassinou Calígula, sendo que ambos chegaram a ser cogitados para suceder o finado imperador, durante o impasse que antecedeu a aclamação de Cláudio. Consta que ambos os líderes rebeldes informaram aos senadores em Roma que o motivo da revolta era devolver o poder ao Senado, mas depois de cinco dias, as tropas deles se recusaram a segui-los e eles acabaram cometendo suicídio.

Dião Cássio narra que Cláudio ficou tão assustado quando soube dessa rebelião que ele cogitou abdicar em favor de Camillus, mas acabou afinal recobrando a coragem e se preparou para enfrentar os rebeldes, o que, como visto, acabou não sendo necessário.

Aparentemente tentando trazer o Senado para o seu lado, Cláudio tentou, ao menos no início do reinado, prestigiar esta assembleia. Ele devolveu ao controle dos senadores as provínicias da Macedônia e da Acaia, que tinham sido retiradas da relação de províncias administradas pelo Senado pelo imperador Tibério (Nota: Augusto dividiu as províncias romanas em imperiais, cujo governador era apontado pelo imperador entre os integrantes da classe equestre, e senatoriais, cujo governador era apontado pelo Senado dentre os pares).

Outra exemplo disso, foi a postura que Cláudio adotou de se sentar entre os senadores, aguardando a sua vez de falar nos debates  (de certa forma, era uma retomada da acepção inicial do termo Princeps (Príncipe), que, originalmente era o senador mais velho que tinha a prerrogativa de falar primeiro, e fora adotada por Augusto para manter as aparências de que a República permanecia).

Não obstante, a forma como Cláudio ascendeu ao trono, elevado pelos soldados da Guarda Pretoriana, expôs escancaradamente o que já se percebia desde o início da crise que levou às guerras civis dos Triunviratos, cem anos antes: que a real fonte de poder residia nas forças militares, cabendo ao Senado apenas legitimar o nome que fosse escolhido pelas tropas.

Por isso, Cláudio, logo no início do reinado, saiu a procura de glórias militares que reforçassem a sua posição de líder militar, aumentando o seu prestígio junto às legiões, as quais, caso  lideradas por algum general de renome, poderiam muito bem abraçar a sua “candidatura” e facilmente derrotar os Pretorianos.

E, de fato, no plano militar, o reinado de Cláudio começou bem: O general Gabinius Secundus, comandante das legiões da Germânia Inferior moveu uma guerra bem sucedida contra a tribo germânica dos Chauci, hostil aos romanos desde os tempos em que aqueles bárbaros lutaram ao lado do líder germânico Arminius, na emboscada que resultou no Desastre de Varo, na Batalha de Teutoburgo, em 9 D.C., com a destruição de três legiões romanas e a captura dos seus estandartes-águia (aquila), símbolos que eram religiosamente cultuados pelos romanos e cuja perda em batalha era considerada uma grande humilhação.

Gabinius conseguiu derrotar os Chauci e recuperar a terceira águia das legiões de Varo, que estava em poder deles (As duas outras haviam sido recuperadas por Germânico, irmão de Cláudio, em 16 D.C.). Certamente, este deve ter sido um momento de exultação para Cláudio, não apenas por ter recebido o título de Imperator pela vitória de seu general, mas por ter, de certa forma, igualado o feito de seu falecido irmão, que foi tão admirado pelos romanos.

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(moeda mostrando um estandarte-águia no templo de Marte Vingador, talvez  uma das perdidas por Crasso em Carras contra os Partas, recuperada por Augusto)

Escolheu-se, em seguida,  a Britânia como o alvo de uma grande expedição. Esta ilha já havia, cem anos antes, sofrido a invasão de Júlio César, que, com apenas o objetivo de fazer propaganda pessoal, ficou ali alguns dias em campanha e retornou para o continente. Vale observar que aquele território era, notadamente,  um objetivo militar muito mais fácil que a Germânia ou a Pártia, adversários muito mais poderosos e aguerridos que, de vez em quando, infligiam pesadas derrotas aos exércitos romanos.

Assim, no verão de 43 D.C., quatro legiões desembarcaram na Britânia, comandadas pelo general Aulus Plautius, e avançaram pela maior parte da ilha.  O pretexto da invasão, como em muitas outras guerras travadas pelos Romanos, foi o pedido de auxílio de um rei cliente de Roma,  da tribo bretã dos Atrebates, de nome Verica, que havia sido expulso por adversários. O próprio Cláudio participou da campanha, ficando na Britânia por cerca de duas semanas, promovendo, no final, uma grande parada em Camulodunum (atual Colchester, na Inglaterra), onde começou a ser construído um grande templo dedicado ao seu “gênio”.

A Britânia foi anexada e permaneceria uma província romana até o início do século V. A vitória rendeu a Cláudio o título de Britannicus, que foi estendido a seu filho, que passou a se chamar Tiberius Claudius Caesar Britannicus. O menino passaria, então, a ser conhecido como “Britânico“.

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(Cabeça de bronze de uma estátua de Cládio encontrada no rio Alde, na Inglaterra)

Talvez , pelo motivo de Cláudio perceber que tinha poucos aliados no Senado, ou, ainda,  porque ele nunca tinha exercido algum cargo público, exceto o breve consulado extraordinário, ou também devido ao fato da sua pessoa ter sido imposta ao Senado pelos Pretorianos,  ou, finalmente, talvez  porque ele possa ter assim concluído dos seus estudos aprofundados sobre o governo de Júlio César, o período das guerras civis e sobre o reinado de Augusto, o principado de Cláudio notabilizou-se pela implantação de um corpo de funcionários do Palácio encarregado da administração de funções governamentais que, anteriormente, eram exercidas pelos magistrados tradicionais da República,  cargos ocupados primordialmente por senadores, magistraturas essas que foram em grande parte mantidas pelos seus antecessores no trono com suas funções executivas.

Já os funcionários palacianos eram diretamente indicados pelo imperador, sem mediação do Senado, e, quase sempre, ainda que extremamente preparados, eles eram escravos libertos que pertenciam ao próprio Imperador.

No reinado de Cláudio, esse secretariado foi dividido em escritórios que funcionavam como verdadeiros ministérios. Assim, o liberto Narcissus foi escolhido como Secretário da Correspondência Imperial (cargo importante, pois controlava toda a comunicação oficial do imperador, seja como emitente ou destinatário, redigindo e enviando despachos, comunicados ou correspondências e recebendo petições, denúncias, notícias de fatos,  etc.  O liberto Pallas* foi nomeado Secretário do Tesouro Imperial (fiscus) e o liberto Callistus, um  influente ex-escravo de Calígula que havia participado da conspiração para assassiná-lo, foi escolhido para ser Secretário de Justiça, responsável, inicialmente, pelos recursos das decisões dos tribunais que eram dirigidos ao imperador.

Podemos, então, considerar que, embora os seus antecessores já utilizassem os seus libertos como auxiliares, Cláudio foi o primeiro organizador sistemático da burocracia imperial, esboçando uma forma que perduraria por muitos séculos.

*Como curiosidade, mas também como uma mostra do prestígio que os funcionários libertos gozaram a partir do governo de Cláudio, observamos que o irmão de Pallas, Marcus Antonius Felix, foi nomeado para ser o Procurador da Judeia, um cargo formalmente reservado aos integrantes da classe Equestre. Foi esse Felix que procedeu ao julgamento do apóstolo Paulo, em Cesareia, sendo nominalmente citado em Atos, 24.

Não surpreende, assim, que Cláudio tenha sido visto com antipatia  pelos Senadores, que, além de deixarem de ter voz em setores importantes da administração pública, ainda tinham que tratar em pé de igualdade com ex-escravos, o que afetava o sabidamente delicado senso de dignidade da classe senatorial… E essa antipatia da classe senatorial de Roma por Cláudio transborda abundante nas narrativas do seu governo, feitas por historiadores oriundos do Senado, tais como TácitoDião Cássio, ou então equestres ligados aos senadores, como Suetônio. Além disso, como resultado do grande poder que eles agora detinham, todos esses secretários libertos tornaram-se imensamente ricos, rivalizando em fortuna com os próprios senadores…

Claramente, a tentativa de aproximação que ele tentou no início do governo falhou e, diante desse quadro, Cláudio  acabaria exilando ou mandando executar vários senadores, embora não se possa dizer que todos as citados tenham de fato conspirado para derrubá-lo – e alguns dos supostos conspiradores talvez nem tenham sido de fato executados por ordens dele. Não obstante, consta que, durante o seu reinado, Cláudio mandou executar 35 senadores e centenas de membros da classe Equestre.

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Por exemplo, em 46 D.C., o senador Lucius Asinius Gallus foi acusado de conspirar contra Cláudio e foi exilado, sendo que o imperador chegou até a ser elogiado pela moderação quanto à pena aplicada. Em 47 D.C., o senador de antiga origem gaulesa, Decimus Valerius Asiaticus, por sua vez, foi alvo de acusações vagas de traição (e também de cometer adultério com uma aristocrata) e ele foi julgado, nos aposentos do Palácio (in camera), em julgamento fechado, pelo imperador e seu conselho privado, e não perante um tribunal público, um procedimento que se tornou costumeiro durante o principado de Cláudio. Segundo uma fonte, o verdadeiro motivo desta inquisição foi a cobiça que a imperatriz Messalina nutria pelos belos Jardins de Lúculo, em Roma,  que pertenciam a Asiaticus, que acabou compelido a se suicidar. Outra fonte alude ao fato de Asiaticus possivelmente ter participado da conspiração contra Calígula e ter insinuado a pretensão de suceder o falecido imperador. De qualquer forma, existiu algum pretexto sério, verdadeiro ou fictício, para Cláudio não gostar de Asiaticus, já que o imperador, no ano seguinte, fez questão de se referir a ele como “um gaulês bandido e patife cujo nome eu não devo sequer mencionar neste discurso“, em uma sessão do Senado cujos debates foram preservados na Tábua de Lyon,  à qual mais tarde aludiremos.

Outro senador executado foi Gnaeus Pompeius Magnus, um descendente do Triúnviro Pompeu, o Grande, e que era casado com Claudia Antonia, a filha mais velha do próprio Cláudio, que teria participado de uma conspiração contra o imperador.

Muitas dessas perseguições são atribuídas às maquinações da imperatriz Messalina, acerca de quem há relatos de que ela se aproveitava de uma certa credulidade e ingenuidade que Cláudio repetidamente demonstrou ter em relação a todas as mulheres que ele teve em sua vida.

Aliás, a se acreditar nos relatos dos historiadores antigos, Messalina seria uma verdadeira ninfomaníaca, que não apenas teve inúmeros amantes enquanto esteve casada com Cláudio, mas, entre outras coisas, chegou até a participar de uma competição contra uma prostituta, em que a que tivesse mais parceiros sexuais na mesma noite ganharia (sendo que Messalina ganhou a aposta, com um total de 25 parceiros,  caso citado por Plínio, o Velho, em sua “História Natural”)…Ela teria, ainda, segundo o poeta Juvenal, trabalhado, enquanto imperatriz, em um bordel, sob o pseudônimo de “Loba”.

Os historiadores antigos afirmam que Cláudio desconhecia as infidelidades de Messalina, seja por ele se dedicar às questões administrativas e jurídicas do Império, seja por confiar demais na esposa, muito embora as fofocas sobre o assunto circulassem pela cidade de Roma, até o dia em que  seu liberto Narcissus lhe contou que Messalina, enquanto Cláudio estava em Óstia, organizou uma festa no Palácio, e, durante a mesma, ela teria se casado, em uma cerimônia, real ou encenada, com seu amante Gaius Silius, um belo jovem que tinha sido designado para ser Cônsul em 48 D.C.. Poderia até ser uma brincadeira infeliz, mas, para piorar, a versão que chegou a Cláudio é a de que o casamento fazia parte de um plano de Messalina e Silius para assassiná-lo.

Messalina acabou sendo executada em 48 D.C., apesar de constar que Cláudio, cujo coração já estava amolecendo em favor da esposa, não se resolvia a dar a ordem expressa, tendo a decisão fatal sido ordenada por Narcissus, à revelia do imperador.

Em 47 D.C., Cláudio assumiu o cargo de Censor,  que andava sendo relegado a uma certa insignificância, junto com Lucius Vitellius, um dos poucos amigos de sua infância, pois conviveram juntos na casa de sua mãe, Antônia, a Jovem, a volta de quem havia um círculo de nobres orientais, devido ao fato dela ter herdado do seu pai, Marco Antônio, as conexões políticas e numerosas propriedades no Oriente. Outra amizade desses tempos de juventude era o príncipe judeu conhecido como Herodes Agripa, que ajudou Cláudio durante o impasse da sucessão de Calígula.

Nota: Vitellius havia sido Cônsul e governador da Síria durante o final do reinado de Tibério. Foi ele, inclusive quem demitiu Pôncio Pilatos do cargo de Prefeito da Judeia. Durante o reinado de Cláudio, ele seria Cônsul outras duas vezes, um fato incomum para quem não fosse da família imperial, durante o Império Romano). Ele era pai do futuro imperador Vitélio.

Talvez como um agrado a Herodes Agripa, Cláudio deu ao amigo o título de Rei da Judeia, restaurado como reino-cliente de Roma, dando-lhe o governo do respectivo território, que tinha sido incorporado ao Império Romano (Herodes já governava a Galileia). Cláudio também reconheceu o direito de liberdade de culto dos Judeus no Império Romano. Um exemplo dessa política está registrado na “Carta aos Alexandrinos”, onde Cláudio ordena aos habitantes gregos de Alexandria que respeitem os direitos da grande colônia judaica que existia na cidade, fonte frequente de diversos conflitos étnicos e religiosos.

Porém, quando Herodes Agripa morreu, em 44 D.C., todo o seu reino foi reincorporado ao Império Romano.  Nessa mesmo período, outros reinos-clientes de Roma foram anexados formalmente, tais como a Trácia, Noricum, Panfília e a Lícia, que se tornaram províncias. A Mauritânia, cujo processo de anexação fora iniciado por Calígula, teve a anexação concluída sob Cláudio, em 44 D.C., cujas tropas derrotaram os últimos focos de resistência armada. Essas medidas estão de acordo com a tônica geral de seu reinado em direção à centralização de poder e expansão da burocracia imperial.

Seguindo a linha geral de seu governo, Cláudio utilizou o cargo de Censor para intervir na composição das classes senatorial e equestre, pois o Censor tinha o poder de verificar os requisitos para a inscrição dos cidadãos nas respectivas listas. Assim, Cláudio mandou excluir o nome de vários senadores e equestres cuja renda não mais atendia o requisito mínimo estipulado pela lei para integrar a classe.

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Constatando que havia muitos assentos vagos no Senado, devido a décadas de execuções e proscrições pelos imperadores que o antecederam, além da diminuição do número de famílias da classe senatorial, Cláudio, seguindo o exemplo de Júlio César, antepassado que ele muito admirava, e aproveitando o cargo de Censor, mandou arrolar novas famílias nas listas de patrícios e abriu o Senado para nobres e pessoas ilustres nascidas nas províncias, especialmente da Gália,  fato que ficou registrado na chamada Tábua de Lyon, que contém a interessante transcrição do discurso do imperador na sessão do Senado Romano, ocorrida em 48 D.C.,  na qual Cláudio propõe a admissão ao Senado de homens ilustres de origem gaulesa, habitantes da Gália Lugdunense (centrada em Lugdunum, atual Lyon, cidade natal do próprio Cláudio).

A Tábua de Lyon, em bronze, que foi encontrada em um vinhedo nos arredores de Lyon, provavelmente foi feita a mando desses mesmos senadores gauleses agradecidos, beneficiados pela aprovação da proposta de Cláudio. Além de confirmar o relato desse fato histórico, citado por Tácito, a Tábua de Lyon contém, tudo indica, a transcrição literal do discurso do imperador no Senado, inclusive transcrevendo as interrupções questionadoras de alguns senadores contrários à medida. E o discurso de Cláudio, cheio de digressões históricas e certo pedantismo, combina perfeitamente com a descrição de sua personalidade feita pelos historiadores antigos.

Tanto isso é verdade, que a sessão preservada na Tábua de Lyon, com notável fidelidade, transcreve até o apelo de um senador para que Cláudio fosse direto ao ponto! (vide:  https://sourcebooks.fordham.edu/ancient/48claudius.asp)

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( A Tábua de Lyon)

Neste mesmo ano de 48 D.C., realizou-se por ordens de Cláudio um grande Censo da população de todo Império Romano, que contou o número de 5.984.072 cidadãos romanos, ou seja, homens livres que gozavam do direito de cidadania romana, excluindo, portanto, mulheres, crianças, escravos e habitantes que não tinham cidadania. Isso aponta para uma população que se estima estivesse entre 50 e 70 milhões de habitantes.

Após a execução de Messalina,  os seus libertos, visando cada um a aumentar a sua influência sobre o imperador, se revezaram em apresentar candidatas a se tornarem a nova imperatriz, sendo que Lollia Paulina, que havia sido esposa de Calígula, e a ex-esposa de Cláudio, Aelia Petina, chegaram a ser cogitadas.

A pretendente cuja “candidatura” era defendida pelo secretário Pallas acabou sendo a escolhida: Agripina, A Jovem, que, sendo filha de Germânico, era nada menos do que a sobrinha do próprio Cláudio. Além disso, Agripina também era irmã do antecessor dele, Calígula.

Segundo as leis romanas, essa união era considerada incesto, mas, em tempos de Principado, obviamente que mudar a lei não foi difícil…

Há relatos de que Agripina teria seduzido o tio Cláudio, mas, provavelmente, o que pesou mesmo na sua escolha foram considerações políticas: Cláudio já estava com 58 anos de idade, sendo que seu, Britânico, tinha apenas sete. Caso Cláudio, que nunca havia sido uma pessoa  muito saudável, morresse, ou ficasse incapacitado, era grande o perigo de que a dinastia dos Júlio-Cláudios terminasse, pois Britânico ainda estava longe de despir a toga pretexta e tornar-se maior de idade, quando poderia assumir cargos públicos.

O Principado ainda estava nas primeiras décadas e, ainda que apenas no aspecto formal, o imperador era considerado o primeiro-magistrado. A transição legal e cultural para uma monarquia ainda não havia sido feita, e a sucessão de Calígula mostrara que ainda havia anseios republicanos no Senado…

Assim, Cláudio precisava de um arranjo que lhe permitisse garantir, na sua falta, a continuidade da dinastia no governo,  esperançosamente, até que seu filho estivesse apto a governar. Esta era, inclusive, uma situação pela qual Augusto já tinha passado (Com efeito, já idoso, e após o falecimento de vários herdeiros de sangue, sobrinhos e netos, tais como Marcelo, Lúcio e Caio César, ele havia sido obrigado a adotar Tibério, filho de sua esposa Lívia).

Em 1º de janeiro de 49 D.C., Cláudio e Agripina se casaram. No ano seguinte, em 25 de fevereiro de 50 D.C., Cláudio a adotou o filho dela, Lucius Domitius Ahenobarbus, que passou a se chamar “Nero Claudius Caesar Drusus Germanicus” (Nero).

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(Busto de Agripina, a Jovem)

Ainda em 50 D.C.., Agripina conseguiu que Cláudio persuadisse o Senado a dar-lhe o título de Augusta, honraria que somente Lívia Drusila, a esposa de augusto, havia recebido em vida, e, mesmo assim, somente após a morte do marido.

Todos logo perceberam o tamanho da influência de Agripina sobre Cláudio e, pouco a pouco, o nome dela começou  a aparecer em inscrições em monumentos, moedas e documentos. Consta que ela recebia embaixadores estrangeiros sentada em seu próprio tribunal e vestia um manto militar com bordados de ouro em cerimônias oficiais. O prestígio dela era tanto que o povoado em que ela nasceu, na Germânia, às margens do rio Reno, onde seu pai estava aquartelado, recebeu, em 50 D.C., o nome de Colonia Claudia Ara Agrippinensium, que é a atual cidade de Colônia, na Alemanha.

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(Reconstrução da Colonia Claudia Ara Agrippinensium – atual Colônia, no século I D.C.)

Em 51 D.C., Nero vestiu a toga virilis, alguns meses antes da idade costumeira, pouco antes de completar 14 anos. No mesmo ano ele recebeu o título de Princeps Iuventutis, um título que surgira no reinado de Augusto para honrar os jovens considerados como potenciais herdeiros do trono.

Para a surpresa geral, parecia que Nero estava tomando a preferência de Cláudio para ser o seu sucessor. E Agripina começou a eliminar todos que representassem uma ameaça à trajetória de seu filho rumo ao trono. Em 51 D.C, ela ordenou  a execução de Sosibius, o tutor de Britânico, que andava reclamando da preferência que vinha sendo dada ao filho de Agripina.

Em 9 de junho de 53 D.C, certamente com a intermediação de Agripina, Cláudio concordou com o casamento entre Nero e sua filha, Claudia Octavia.

Britânico agora já tinha doze anos e o motivo de Cláudio continuar tomando medidas que favoreciam a posição de seu enteado Nero como herdeiro preferido, em detrimento do próprio filho natural, continua sendo algo que intriga os historiadores.

Porém, a maioria das fontes narra que, nos meses que se seguiram, Cláudio, um tanto descuidadamente, começou a fazer comentários, aqui e ali, lamentando o fato dele ter casado com Agripina e adotado Nero.

Em meados de 54 D.C., faltava menos de um ano para Britânico atingir a idade em que poderia vestir a toga virilis e ser considerado adulto. Suetônio cita que Cláudio mencionou publicamente em algum evento a intenção de antecipar a cerimônia,  devido à altura de Britânico, chegando a dizer, na ocasião:

Para que o Povo de Roma finalmente possa ter um genuíno César“.

Era uma clara advertência de que ele não considerava mais Nero como sucessor. Agora, o ano  de 54 D.C. entrava em seus últimos meses e, pela primeira vez, em um discurso no Senado, Cláudio se referiu a Nero e Britânico como iguais em precedência.

Em 13 de outubro de 54 D.C., pela manhã, foi anunciado que Cláudio morreu, após um banquete. Nas fontes antigas há um quase consenso de que ele foi envenenado a mando de Agripina, ou até mesmo por ela pessoalmente. Agripina, teria se aproveitado do fato do onipresente  Narcissus, partidário de Britânico,  estar descansando em sua villa na Campânia, e contratou a célebre envenenadora Locusta, para preparar o veneno. o qual teria sido administrado em um prato de cogumelos, iguaria muito apreciada por Cláudio. Os detalhes variam. Segundo uma versão, Cláudio ao comer os cogumelos, acabou vomitando,  e uma segunda dose lhe foi administrada, agonizando durante um tempo, e, após ele ter morrido, o seu falecimento ainda foi escondido por um curto período de tempo,  durante o qual todos preparativos  necessários foram feitos para assegurar a sucessão em favor de Nero, inclusive a destruição do último testamento de Cláudio, no qual ele teria reconhecido Britânico como sucessor.

A aclamação de Nero foi tranquila: O Senado sabidamente odiava Cláudio e, ainda em 51 D.C., Agripina  havia indicado o nome de Sextus Afranius Burrus (Burro) para ser o novo Prefeito da Guarda Pretoriana, e com cuja lealdade ela pôde contar na hora da sucessão.

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(Relevo de Agripina coroando seu filho Nero. A cena não deixa margem a dúvidas…)

Nero fez a eulogia (oração  fúnebre) em honra de Cláudio, que depois foi “deificado” pelo Senado, isto é, após a sua morte, decretou-se que ele tinha sido elevado ao panteão dos deuses a serem cultuados pelos romanos (apotheosis).

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(Camafeu do século I, retratando a apoteose de Cláudio. Uma águia o leva até os céus)

A deificação, ou apoteose, de Cláudio, embora oficial, foi objeto de sátiras e pilhérias pelos integrantes da classe senatorial. Um deles, o filósofo e escritor Sêneca, o Jovem, escreveu uma célebre sátira chamada de “Apocolocyntosis” (literalmente, “aboborificação”, processo no qual Cláudio, na narrativa, tranformaria-se em uma abóbora após a morte), ridicularizando a apoteose do imperador. Na obra, a deificação dele é  julgada em um tribunal do deuses no Monte Olimpo, e o próprio imperador falecido Augusto discursa aos deuses enumerando os defeitos físicos, as idiossincrasias,  gafes, assassinatos de Cláudio, cuja sentença é ser enviado a penar nas profundezas do Hades, condenado pela eternidade a trabalhar como funcionário de um tribunal, e, ironicamente, sendo dado como escravo a um liberto…

O destino no Hades ao qual Cláudio foi condenado na Apocolocyntosis é claramente uma crítica mordaz a uma das atividades a que o imperador mais se dedicou durante o reinado: os processos judiciários (Ele, de fato, costumava comparecer quase que diariamente ao tribunal, julgando processos). Além disso, é uma crítica à preferência que ele deu aos libertos durante o seu governo.

Embora Cláudio fosse diligente e dedicado no exame da maior parte dos casos judiciais que lhe eram submetidos, ele, às vezes, costumava desprezar os princípios processuais estabelecidos no Direito Romano, proferindo sentenças sem ouvir a parte contrária, violando o princípio do contraditório, ou, como já apontamos, realizando sessões fechadas no palácio, o que era contrário ao princípio da publicidade dos julgamentos, muito caro aos Romanos.

Por exemplo, as fontes citam que Cláudio, certa vez, agiu como um verdadeiro rei Salomão, da Bíblia judaica, julgando um processo no qual uma mãe se negava a reconhecer o filho,  decretando que ela se casasse com o rapaz, para forçá-la a confessar a maternidade.

E a estupefação dos litigantes com essas bizarrices de Cláudio era tanta, que Suetônio narra, observando que o fato era de conhecimento geral, um caso em que um réu, falsamente acusado de conduta imprópria contra uma mulher, ao ver que Cláudio decidira, contrariamente à praxe processual romana, ouvir algumas prostitutas como testemunhas, exasperou-se e  atirou a tábua e o estilete de escrita em cima do imperador, conseguindo até ferir a bochecha de Cláudio!

Outra faceta de Cláudio era o amor que ele tinha pelos espetáculos públicos, especialmente os combates de gladiadores e contra feras. Durante seu reinado ele promovou várias exibições, culminando com um combate naval simulado, no qual Suetônio registrou que os combatentes saudaram Cláudio com a frase: “Ave,  Imperador, Aqueles que irão morrer te saúdam“. É a única vez que a História registra essa frase, que não sabemos se ela era padrão nos jogos de gladiadores ou se somente foi utilizada naquela ocasião (Cássio Dião também a menciona no mesmo episódio, mas a narrativa deve ter sido obtida na obra de Suetônio). A nota satírica, frequentemente presente nas estórias sobre Cláudio, marcando um tom depreciativo sobre a sua suposta estupidez, é que, àquela saudação, o imperador teria respondido: “Ou não!“, ao que os combatentes entenderam, induzidos a erro, que eles tinham sido perdoados e assim se recusaram, inicialmente, a lutar, para desespero do próprio Cláudio, preocupado com a reação dos espectadores frustrados.

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O amor pelos jogos de gladiadores e combates na arena parece combinar com uma outra faceta sombria da personalidade de Cláudio: a curiosidade excessiva, ou mesmo o prazer mórbido, que ele tinha de assistir pessoalmente as execuções de condenados, à tortura de testemunhas ou à morte dos gladiadores.

A política religiosa de Cláudio caracterizou-se pela tentativa de revitalizar as tradições e reviver aspectos antigos dos cultos romanos, como era de se esperar de um amante da história antiga e dos etruscos. Um episódio interessante que ocorreu em seu governo foi a expulsão dos judeus, narrada por Suetônio, que teria sido motivada por tumultos causados “por instigação de Chrestus“.

Muitos especialistas acreditam que essa passagem reflete a chegada dos primeiros pregadores cristãos a Roma, que entraram em conflito com a numerosa comunidade judaica lá instalada, ao pregarem o Evangelho. Obviamente que os romanos ainda não deviam distinguir os cristãos dos judeus ( e  note-se que essa divisão ainda não estava pacífica entre os próprios cristãos), e a expulsão não parece ter tido motivos religiosos, mas de manutenção da ordem pública. Não deve, contudo, ter sido uma expulsão em massa. Acredita-se que o episódio narrado por Suetônio é o mesmo que aparece em Atos, 18, 2., quando São Paulo encontra em Corinto um judeu chamado Aquila, que tinha sido expulso de Roma por Cláudio. Estima-se que essa expulsão narrada por Suetônio e em Atos tenha ocorrido por volta de 50 D.C.

Um campo onde Cláudio se destacou como imperador foi no das obras publicas, construindo várias de grande utilidade, como por exemplo dois importantes aquedutos: o Aqua Claudia, cuja construção havia sido iniciada por Caligula, e o  Anio Novus, completados em 52 D.C.. Cláudio financiou a construção de ambos com recursos oriundos do tesouro privado do imperador (fiscus).

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(A Porta Maggiore, era uma porta monumental no trajeto  da junção dos aquedutos da Aqua Claudia e da Aqua Novis, construída por Cláudio)

Fora de Roma, no reinado de Cláudio foram construídos um canal ligando o Reno ao mar, um canal ligando o rio Tibre a Portus, o porto marítimo que ele mandou construir ao norte de Óstia. Além de possibilitar o aumento do volume de transporte de grãos e outras mercadorias para Roma, essa obra útil reduziu as enchentes do rio Tibre.

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Ao menos como construtor de grandes obras de utilidade pública, o sempre crítico Suetônio fez justiça a Cláudio, reconhecendo:

“Suas obras públicas foram mais grandiosas e necessárias do que numerosas”.

Conclusão

Assim, o imperador Cláudio é uma figura ambígua para a História de Roma. Se formos considerar apenas a opinião dos Senadores, classe de onde saíram aqueles que registraram o seu reinado na História, ele teria sido um idiota que lhes foi imposto pela guarda pretoriana, e, durante o seu reinado, mostrou-se um governante  tirânico, porém medroso e manipulável pelas suas esposas e seus libertos. Porém, mesmos nesses textos críticos, transparece que Cláudio era um monarca dedicado ao ofício de governar e que ele tomou uma série de medidas úteis e sensatas.

A figura de Cláudio é muito bem retratada no best-sellerEu, Claudius, Imperador“, do escritor inglês Robert Graves, que foi escrito como se fosse a autobiografia perdida do imperador.

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PROBO – IMPERADOR-SOLDADO DA ILÍRIA

Probus_Musei_Capitolini_MC493(Cabeça de Probo)

Em 19 de agosto de 232 D.C., nasceu, na cidade de Sirmium (atual Sremska Mitrovica, na Vojvodina, Sérvia), que, então, ficava na província romana da Panônia Inferior, Marcus Aurelius Probus (Probo), filho de um certo Dalmatius, que seria um simples jardineiro, ou hortelão .

Há uma versão alternativa, segundo a História Augusta, de que o pai de Probo, se chamava Maximus, um comandante que, após deixar o exército, foi morar no Egito com a família. Porém, é quase certo que aqui a História Augusta faz confusão com Tenagino Probus, que foi governador da Numídia e do Egito durante os reinados dos imperadores Cláudio Gótico e Aureliano. Note-se que as inscrições encontradas mencionando Tenagino Probus tornam cronologicamente improvável (embora não impossível), que este  tenha sido o pai de Marco Aurélio Probo (a quem, aliás, a História Augusta também atribui erroneamente alguns feitos de Tenagino Probus, que ocorreram nas referidas províncias).

De qualquer modo, sabe-se que a região da Ilíria, na segunda metade do século III D.C., era o esteio militar do Império Romano (efetivamente, dez imperadores romanos nasceram em Sirmium, quase todos eles militares de carreira). Assim, como tantos de seus compatriotas, Probo entrou no Exército Romano no início da década de 250 D.C.

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(Elmo romano do início do século IV, do tipo “Berkasovo”, assim chamado porque foi achado na cidade do mesmo nome, próxima a Sirmium)

Durante os reinados dos imperadores da dinastia dos Severos, tudo indica que o excesso de privilégios e benesses dados aos soldados comprometeu a disciplina do Exército, justamente quando o ressurgimento do poder persa no Oriente, sob a dinastia dos Sassânidas, começava a colocar Roma no desafio estratégico de enfrentar conflitos em três fronts, já que as fronteiras ocidentais dos rios Reno e Danúbio começavam a ser pressionadas pelo deslocamento de povos germânicos.

Foi de fato um período de frequentes rebeliões e assassinatos de imperadores, muitos, diga-se de passagem, incompetentes para enfrentar aqueles desafios, seguindo-se, assim, repetidas derrotas para os Persas e Germânicos, no período de 238/260 D.C, sendo as mais dignas de nota as catastróficas derrotas na Batalha de Abritus, em 251 D.C., para os Godos, com a morte do imperador Trajano Décio no campo de batalha, onde ocorreu a provável perda de todo o tesouro imperial, e a humilhante captura do imperador Valeriano pelos Persas, em 260 D.C.

Naghsh-e_rostam,_Irán,_2016-09-24,_DD_12.jpg(Relevo do Imperador Sapor I capturando Valeriano, na necrópole persa de Naqsh-e Rustam, foto de Diego Delso)

Enquanto isso, a Gália, o norte da Itália, a Ilíria, a Trácia e a Grécia, entre outras províncias, eram devastadas por invasões bárbaras. Foi nesse contexto dramático que os soldados provenientes da Ilíria foram recrutados e progrediram no Exército Romano, como foram os casos de Cláudio Gótico, Aureliano e Probo, todos eles Ilírios nativos de Sirmium (Obs: há uma certa dúvida quanto a Cláudio Gótico, que pode também ter nascido em Naissus, na Dardânia, mas com certeza ele era Ilírio).

Todos os três imperadores supracitados serviram durante o reinado do imperador Galieno, o filho e sucessor de Valeriano (260-268 D.C.), sendo que Cláudio Gótico chegou a comandante dos Comitatenses, a cavalaria de elite que Galieno criou (hipparchos).  Por sua vez, Probo, apesar de ser bem mais jovem que os outros dois, chegou a ser mencionado em cartas dos referidos imperadores como sendo responsável por várias façanhas militares, motivo pelo qual ele foi promovido a Tribuno, segundo a História Augusta, .

Gallienus_monochrome(Busto de Galieno)

Apesar dos esforços de Galieno, que venceu algumas batalhas contra os bárbaros, a caótica situação militar entre 251 e 260 D.C., acabou acarretando a secessão da província da Gália, que se autoproclamou “Império Gaulês”, e, posteriormente, a perda da província da Síria que passou a fazer parte do chamado “Império de Palmira”. Essas secessões foram, de fato, um acontecimento devastador, pois a Gália e a Síria eram, juntamente com o Egito, as duas províncias mais ricas do Império. Porém, ao contrário do que possa parecer, a separação das duas províncias ocorreu muito mais em função da incapacidade de Roma defendê-las dos bárbaros e dos Persas, do que devido a algum sentimento nacionalista anti-romano.

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A gravidade da situação, como não poderia deixar de ser, minou a reputação de Galieno, que acabou sendo assassinado, em 268 D.C., em mais uma conspiração perpetrada pela Guarda Pretoriana, mas muito provavelmente com a participação de Cláudio Gótico, que foi proclamado imperador, e de Aureliano, que foi nomeado Comandante da Cavalaria.  Havia chegado, portanto, a vez dos soldados ilírios governarem o Império. Se a História Augusta está correta,com a chegada dos seus compatriotas ao poder, Probo foi nomeado comandante de uma legião.

Cláudio Gótico obteve importante vitórias contra os Alamanos e esmagou os Godos, porém, em 270 D.C., ele morreu vítima da Peste que grassava no Império, sendo sucedido por Aureliano, que, sucessivamente,  conseguiu derrotar o Império Gaulês e Palmira e recuperar a Gália e a Síria, reunificando o Império Romano, motivo pelo qual recebeu do Senado o título de “Restaurador do Mundo(Restitutor Orbis).

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(Moeda romana. Aureliano “restitui” o mundo (orbis) à deusa Roma”)

Aureliano, apesar desses sucessos retumbantes, acabou sendo assassinado pelas próprias tropas em 275 D.C, segundo consta, pelo motivo dele ser muito severo com os soldados. Então, o Senado Romano, em um arranjo que talvez emulasse o que ocorreu com Nerva, quase dois séculos antes, escolheu, em 25 de setembro daquele ano, o velho senador Tácito, de 75 anos de idade, como novo imperador. Aliás, esta seria a última vez que o Senado elegeria um imperador romano por iniciativa própria.

Tácito (não confundir com o historiador homônimo), segundo consta, teria nomeado Probo, “governador do Oriente”. Em seguida, o imperador, apesar de sua já provecta idade, partiu para enfrentar, com sucesso, os mercenários hérulos que devastavam as províncias orientais, acompanhado de seu meio-irmão, Floriano,  todavia, quando enquanto retornava para lutar contra uma invasão dos Francos e Alamanos, Tácito contraiu uma febre e morreu, em junho de 276 D.C, (vale citar que, segundo a versão minoritária do historiador Zózimo, a morte de Tácito teria sido assassinato).

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(Busto de Tácito,  Photo © Roby 9 janvier 2005)

Quando a notícia da morte de Tácito circulou, as tropas de Probo o aclamaram imperador, o mesmo ocorrendo com Floriano, que foi reconhecido no Ocidente, mas não no Oriente, que apoiou Probo. Assim, os dois imperadores rumaram para decidir a sucessão em uma batalha, perto de Tarso, na atual Turquia. Floriano até tinha superioridade numérica, mas as suas tropas não estavam acostumadas ao calor que fazia na região. Probo, cautelosamente, evitou um engajamento e o relato é de que as tropas de Floriano, incomodadas com a sua aflitiva situação, assassinaram o seu imperador, em setembro de 276 D.C. O mais provável, contudo, é que as tropas, certamente compostas por muitos Ilírios, preferissem ser governadas por um compatriota, e oriundo, como eles, da caserna.

Com o seu trono agora inconteste, uma das primeiras medidas de Probo foi punir os assassinos de Aureliano e de Tácito que ainda estavam impunes.

probus 6nxAX9s9e57GSp38LM3c5gaRw4YE2b.jpgImediatamente após sua ascensão, Probo teve que se deslocar para o Ocidente para enfrentar uma invasão dos Godos na Ilíria, os quais derrotou, recebendo o titulo de Gothicus Maximus, em 277 D.C. Nessa altura, Probo já tinha sido reconhecido pelo Senado. Depois disso, Probo rumou para a Gália, onde, em 278 DC., ele obrigou os bárbaros Francos, Longiones e Alamanos a cruzarem de volta o Reno (feito pelo qual ganhou o título de Germanicus Maximus), capturando Semnon, chefe dos Longiones, e o filho deste, que foram poupados. Finalmente, Probo derrotou os Burgúndios, capturando um grande número deles, que foram incorporados ao exército romano.

Probo_-_Foto_Giovanni_Dall'Orto,_25_Giu_2011(Cabeça de uma estátua dourada de Probo, foto de Giovanni Dall’Orto)

Com a derrota dos bárbaros na fronteira renana, Probo adotou a estratégia de construir alguns fortes na margem oriental do rio, nos pontos em que o mesmo podia ser cruzado, além de depósitos de suprimentos.

Em seguida, Probo conseguiu pacificar a província da Récia e, após, ele voltou para a Ilíria, agora para reprimir uma invasão dos Vândalos, em 279 D.C. A persistência dessas invasões mostra que, provavelmente, nenhuma dessas vitórias foi conclusiva, ou, então, que tais incursões bárbaras não eram massivas. Não obstante, esses sucessos mostraram que o Império recuperara a capacidade de defender as fronteiras.

Com a estabilização da situação na Gália e no Danúbio, Probo adotou a benéfica política de utilizar o exército parar plantar vinhedos na Gália e na Panônia, o que era, sem dúvida uma medida inteligente, tendo em vista a devastação que essas províncias tinham sofrido nos últimos 20 anos, causando sua decadência econômica. Nas províncias mais despovoadas pelas seguidas invasões, Probo decidiu assentar algumas das tribos germânicas pacificadas, política que, entretanto, apresentava alguns riscos à segurança do império.

É interessante observar que, dentre os lugares nos quais Probo ordenou que fossem plantados os vinhedos, está a região do antigo Monte Alba, próximo à cidade natal de Probo, Sirmium, onde, segundo a História Augusta, o imperador plantou o primeiro vinhedo com as próprias mãos (essa região é conhecida atualmente como as montanhas Fruska-Gora, na região sérvia da Vojvodina, e ainda hoje é uma conceituada região vinícola!).

fruska-vino222.jpg(A região vinícola de Fuska-Gora, onde Probo ordenou o plantio de vinhedos)

Em 280 D.C., Probo enviou os seus generais para comandar uma campanha contra os Blemmyes, um reino tribal de populações da etnia Beja, que viviam na antiga Núbia, correspondendo à região onde hoje é o Sudão, e que vinham atacando a província romana do Egito.

Derrotados os Blemmyes, Probo, seguindo a política de recuperação econômica que adotara no Ocidente, determinou ao Exército a reconstrução de diques, de canais de irrigação e de pontes ao longo do Nilo, medidas que eram relevantes para estimular a produção agrícola de uma província que era a grande fonte de cereais para a Itália.

Lamentavelmente, a praga das rebeliões militares não deixava de assolar o Império e, entre 280 D.C. e 281 D.C., Probo teve que enfrentar as revoltas dos usurpadores Júlio Saturnino, na Síria, e de Próculo e Bonosus, em Lugdunum (atual Lyon) e Colônia, nas províncias da Gália e na Germânia, os quais se declararam co-imperadores. Logo Saturnino acabou sendo morto pelos seus próprios soldados. Já a revolta dos dois últimos citados é um tanto obscura, e tanto pode ter sido fruto de algum resquício do “Império Gaulês”; ou talvez fruto de alguma insatisfação mais generalizada, já que inscrições com o nome de Probo também foram apagadas na Hispânia, na mesma época. Vale citar que Próculo tinha ligações com os Francos. Por sua vez, Bonosus, consta, teria se revoltado por medo de ser punido pelo incêndio da flotilha romana do Reno, pelos bárbaros germanos. O fato é que ambas as rebeliões foram derrotadas, sendo Próculo executado após ser entregue a Probo pelos seus aliados Francos, para onde ele fugira após a chegada do exército do imperador. E Bonosus, se matou após perder o combate com as tropas imperiais. Probo, dando uma prova do seu temperamento moderado, poupou as famílias dos usurpadores.

Somente em 281 D.C., Probo conseguiu celebrar em Roma o seu merecido Triunfo pelas vitórias contra os bárbaros. Nessa estadia na capital, ele aproveitou para completar as imponentes muralhas iniciadas por seu antecessor Aureliano (e que por isso são chamadas de Muralhas Aurelianas, as quais ainda existem).

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Segundo a História Augusta, Probo tentou devolver alguns privilégios ao Senado Romano, como o de ser a instância máxima para julgar as apelações das decisões dos tribunais superiores, o de designar os Procônsules e os Legados dos Procônsules e o de conferir aos governadores as prerrogativas e os poderes dos Pretores. Isso é considerado duvidoso por alguns historiadores, mas, se for verdade, pode bem ser uma das causas da crescente insatisfação do Exército, que havia se tornado a principal instância de poder.

Em 282 D.C., Probo partiu para a sua cidade natal de Sirmium, que, segundo parece, iria servir como ponto de partida para uma futura campanha contra a Pérsia. Há o relato de que ele teria, mais uma vez, determinado aos soldados que trabalhassem em obras públicas para o benefício da província, fato que acabou causando uma rebelião. Acuado, Probo teve que se refugiar em uma fortificação chamada de “Torre de Ferro”, onde ele acabou sendo morto. Em outra versão, de acordo com o relato de Zózimo,  o qual muitos estudiosos acham mais crível, as tropas proclamaram imperador Marco Numério Caro (Caro), o Prefeito Pretoriano de Probo, ocasião em que o contingente enviado por Probo para reprimir o levante aderiu à revolta, e os próprios soldados remanescentes de Probo mataram o imperador, em setembro de 282 D.C.

CONCLUSÃO

Os combativos imperadores-ilírios Cláudio Gótico, Aureliano e Probo, no período entre 268 D.C e 282 D.C contribuíram decisivamente para conter as ameaças dos Germanos e dos Persas, nos fronts ocidental e oriental do Império Romano. Contudo, persistiram os graves problemas da instabilidade política e econômica e da insubordinação militar a comprometerem a sobrevivência do Império, problemas que seriam mais bem enfrentados pelos seus sucessores Ilírios, Diocleciano e Constantino.

EUDÓCIA – MULHER, ATENIENSE E IMPERATRIZ

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(Mosaico da Catedral Alexander Nevsky, em Sófia, Bulgária, retratando Eudócia, foto de Elena Chochkova )

 

Em 7 de junho de 421 D.C, o jovem Imperador Teodósio II, casou-se com a sua belíssima noiva, Élia Eudócia.  O imperador,  quando ainda tinha apenas 7 anos de idade, havia sucedido a seu pai, Honório,  no trono do Império Romano do Oriente, em 408 D.C.

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(Cabeça de Teodósio II)

A jovem imperatriz escolheu o nome de Élia Eudócia (Aelia Eudocia), certamente para homenagear a falecida mãe do imperador de Teodósio II (que se chamava Élia Eudóxia, uma cristã muito devota), mas, não menos importante, para marcar sua conversão ao cristianismo.

Nascida em Atenas, o verdadeiro nome de Eudócia era Athenais,  nome que foi escolhido pelo pai dela em honra à divindade protetora da cidade, a deusa Palas Atena. Athenais era filha de um filósofo chamado Leontius, um professor de retórica na célebre Academia, aonde vinham estudar ou ensinar, ainda no final do século V, estudantes ou intelectuais de todo o mundo mediterrâneo (Vale citar que, não obstante ela ser de Atenas, há indícios de que parte da  sua linhagem, paterna ou materna  era originária da grande cidade de Antióquia).

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(Caminho que levava até a Academia de Atenas, foto de Tomisti )

Quando a mãe de Athenais morreu,  ela, com a idade de apenas 12 anos, ficou não apenas encarregada de criar os seus irmãos, mas teve ainda que assumir também a direção dos negócios e da casa de seu rico pai,  a qual ficava situada na própria Acrópole!

Leontius, agradecido, ensinou à Athenais os fundamentos da Retórica, da Filosofia e da Literatura Gregas, e  a menina, que demonstrava ter memória excepcional, aprendeu a poesia completa de Homero e de Píndaro. Athenais, assim, cresceu mergulhada na cultura clássica, no centro intelectual do Helenismo, em um dos últimos redutos da tradicional religião pagã.

Porém, em 420 D.C, Leontius morreu e, para o desalento de Athenais,  ele deixou todos os seus bens para Gessius e Valerius, que eram os filhos homens, recebendo a injustiçada irmã, a título de legado, apenas 100 moedas de ouro, constando do testamento, a seguinte afirmação do agora finado pai:

O suficiente para Athenais é o seu destino, que será maior do que o de qualquer outra mulher”.

Athenais, ante a insensibilidade dos irmãos, que se recusaram a lhe dar maior quinhão na herança, foi viver com uma tia, a qual lhe aconselhou a “ir para Constantinopla, para pedir justiça ao Imperador”.

A comovente história de Athenais já estava circulando nas cidades da Grécia, e, quando ela chegou à Constantinopla, acabou levada à presença da imperatriz Pulquéria, a influente irmã de Teodósio II.

Sendo a irmã mais velha do impeador, Pulquéria, também ela uma cristã devota, tomou para si a tarefa de cuidar e educar o menino Teodósio II, quando ele ascendeu ao trono, motivo pelo qual ela fez até um voto de castidade.

Após o afastamento do Prefeito Pretoriano Antêmio, homem-forte no início do reinado de Teodósio II (foi ele quem mandou construir as poderosas muralhas de Constantinopla), Pulquéria tornou-se a pessoa mais influente da Corte, possuindo forte ascendência sobre o irmão.

Em um relato meio ao estilo de Cinderela, uma fonte conta que, no momento em que Athenais chegou à Constantinopla, Teodósio II estava querendo se casar. Quando, na audiência em que Athenais expunha o seu caso da herança, Pulquéria colocou os olhos na jovem,  ficou impressionada com a beleza dela e, mais ainda, com o talento e eloquência com a qual a moça apresentou o seu pleito. Em vista disso, Pulquéria teria dito a Teodósio II:

Encontrei uma jovem, uma donzela grega, muito bonita, pura e refinada, e além disso, eloquente! A filha de um filósofo!”.

Exagerado ou não o relato, o fato é que, pouco tempo depois da chegada de Athenais à Constantinopla, Teodósio II casou-se com ela, no dia 7 de junho de 421 D.C., e, como parte das celebrações, foram oferecidas ao povo da capital várias corridas de quadrigas no Hipódromo.

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(Tremissis, moeda de Aelia Eudocia Augusta, foto de beastcoins.com)

 

Athenais adotou o nome de Élia Eudócia  e se converteu ao Cristianismo.

E a jovem imperatriz logo demonstraria que sabia praticar a virtude cristã do perdão, uma vez que os seus irmãos, Géssio e Valério, foram chamados para comparecerem a Constantinopla, onde foram nomeados , respectivamente, para os importantes cargos de Prefeito da Ilíria e Magister Officiorum, equivalente ao de Ministro.

Eudócia deu à luz, em 422 D.C, a uma menina chamada Licínia Eudóxia, que, futuramente, seria esposa do Imperador Romano do Ocidente, Valentiniano III. Durante o casamento, Eudócia e Teodósio II ainda gerariam mais dois filhos, que morreram ainda crianças.

No ano seguinte, Eudócia recebeu o título de Augusta (Imperatriz), assumindo, assim, estatura igual a de Pulquéria, com quem passou, de fato, a disputar a influência sobre Teodósio II.  Com o passar do tempo, as duas cunhadas cada vez mais se tornariam rivais.

Um dos campos onde a rivalidade entre as duas Augustas se desenvolveu foram as questões religiosas. Ambas mostravam-se devotas, interessadas nas disputas teológicas e patrocinavam a construção de igrejas.

Porém, enquanto Pulquéria apresentava-se mais ortodoxa, especialmente contra a heresia nestoriana e, também,  demonstrava hostilidade aos judeus, Eudócia mostrava-se conciliadora em relação ao judaísmo, e tolerante em relação às religiões pagãs, inclusive tentando protegê-las das perseguições.

Entre 438 D.C e 439 D.C, Eudócia fez uma famosa peregrinação a Jerusalém e à Terra Santa, de onde trouxe as relíquias de Santo Estevão, para as quais mandou construir uma basílica.

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(Basílica de Santo Estevão em Jerusalém, construída no terreno da igreja originalmente construída por Eudócia, foto de RonAlmog )

Nessa época, em momento anterior ou posterior à viagem à Terra Santa, as relações entre Eudócia e seu esposo Teodósio II começaram a se deteriorar, culminando com o exílio dela de Constantinopla,  de 442 D.C. Segundo algumas fontes, a causa do exílio foi uma acusação de adultério que ela teria cometido com um amigo do imperador.

Eudócia voltou para Jerusalém, onde ela passou o resto de sua vida, vindo a falecer em 20 de outubro de 460 D.C, sendo enterrada na mesma Basílica de Santo Estevão que ela havia construído.

Durante o tempo que passou em Jerusalém, Eudócia escreveu uma uma volumosa obra poética na qual compôs versos em hexâmetros ao estilo clássico grego, combinando temas homéricos e bíblicos.

 Conclusão

Eudócia foi sem dúvida uma grande e fascinante mulher tanto por ter se destacado pelos méritos literários, em uma sociedade misógina e patriarcal, como por ter sido uma das últimas representantes da civilização helenística que sucumbia face ao novo mundo cristão-ortodoxo, um mundo no qual ela também conseguiu ser uma personalidade destacada.

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POMPEU, O GRANDE

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(Excelente humanização de um dos muitos bustos de mármore de Pompeu)
 

1 – Nascimento, juventude e início da carreira militar e política

Em 29 de setembro de 106 A.C, nasceu, em Piceno, na Itália, Gnaeus Pompeius (Pompeu), membro de uma família bem situada de proprietários rurais da Itália Central, uma gente que, apesar de estar totalmente integrada à República e gozar de cidadania plena há centenas de anos, ainda enfrentava algumas barreiras para ingressar no seio da elite romana.

Assim, o pai de Pompeu, Gnaeus Pompeius Strabo (Cneu Pompeu Estrabão), foi o primeiro de sua família a ascender ao Senado Romano, na condição de “homem novo” (novus homo, ou seja, um senador que não tinha antepassados senadores), chegando até o cargo de Cônsul, no ano de 89 A.C, graças aos seus feitos militares, especialmente durante a chamada “Guerra Social” (conflito que recebeu esse nome porque se tratava de uma insurreição dos povos italianos aliados, ou “socii“, em latim, de Roma, que queriam os mesmos direitos dos cidadãos romanos).

Quando Pompeu Estrabão morreu, em 87 A.C, vítima de uma epidemia, ele deixou ao seu jovem filho Pompeu, de apenas 20 anos de idade, a sua vasta fortuna e, talvez mais importante do que isso, uma numerosa clientela.

Então, o jovem Pompeu logo mostrou que também tinha grandes aspirações políticas quando, em 83 A.C, aproveitando-se da herança do pai, ele formou um pequeno exército e aliou-se a Lucius Cornelius Sulla (Sila), o poderoso general que atuava como defensor dos interesses da facção aristocrática do Senado Romano (“Optimates“), na acirrada disputa que esta travava contra os sucessores do falecido general Mário, que, por sua vez, durante vários anos vinha sendo o campeão da facção dos Populares, e que tinha se aproveitado da ausência de Sila da Itália (devido à guerra de Roma contra o rei Mitridates, na Ásia) para tomar novamente o poder (porém, Mário acabou morrendo pouco depois de assumir o seu sétimo e último consulado).

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(cabeça de Sila)

Tendo ajudado Sila a derrubar o governo dos Populares, em Roma, Pompeu  passou a gozar da simpatia deste, que, naquela oportunidade, foi nomeado “Ditador”. Sila, inclusive, ofereceu a Pompeu a mão da sua enteada, Emília Scaura. Este casamento, porém, seria breve, pois Emília, que já estava grávida de seu casamento anterior, acabou morrendo no parto, em 82 A.C.

Em seguida, Pompeu foi enviado para combater as forças dos partidários de Mário que haviam fugido para Sicília e para a África, campanha na qual ele ficou conhecido pela repressão brutal aos inimigos, que devido à isso deram-lhe o apelido de “açougueiro adolescente“…

De volta a Itália, Pompeu não recebeu, todavia, o Triunfo que ele esperava, pois a lei romana somente permitia tal honraria fosse concedida aos detentores do cargo de Pretores ou Cônsules. Não obstante, Sila ordenou que Pompeu deveria receber o cognome de “Magno” (Magnus, que em latim quer dizer, o Grande), em função das suas façanhas militares, tendo ele apenas 25 anos de idade. Ocorreu que, apesar dos impedimentos, Pompeu insistiu em realizar o triunfo ilegal que ele tanto ansiava, e, como Sila não o proibiu, a procissão triunfal acabou sendo realizada, em 81 A.C.

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Naquele mesmo ano de 81 A.C., Sila renunciou ao cargo de Ditador, restaurando o governo consular eletivo, cargo para o qual ele concorreu nas eleições para o ano seguinte. Enquanto isso, Sila também patrocinou o novo casamento de Pompeu, agora com Múcia Tércia, que era víúva do filho do grande rival de Sila, Caio Mário, o Jovem, que se suicidou após ser derrotado quando Sila tomou Roma.

Para a eleição do consulado do ano de 79 A.C, Pompeu, contra a vontade de Sila, apoiou a candidatura de Marco Antônio Lépido (pai do futuro Triúnviro) que era integrante da facção dos Populares, e foi devido a este desagrado que, quando Sila morreu, no ano seguinte, ele não mencionou Pompeu em seu testamento.

Porém, a morte de Sila não abrandou o conflito entre os Optimates e os Populares. Com efeito, em Roma, Lépido procurava revogar os atos de Sila contra a facção democrática, e ele até chegou a negar ao falecido Ditador um funeral público, sendo, todavia, impedido por Pompeu, que, apesar de não ocupar nenhum cargo público, continuava mantendo um exército particular, no qual baseava a sua influência nos assuntos do Estado. Usando esse trunfo, Pompeu conseguiu intimidar um exército aliado de Lépido, que tentava garantir a este um segundo consulado. Assim, Lépido foi obrigado a fugir para Sicília, onde acabou falecendo.

Enquanto isso, na Hispânia, um partidário dos Populares, o general Quinto Sertório havia se rebelado, em 80 A.C., contra o governo de Sila, assumindo o governo daquela província como Procônsul. Sertório, cujo governo favorecia os chefes celtiberos e os cidadãos romanos nativos da Província, recebeu o apoio entusiasmado de várias tribos hispânicas, sobretudo do aguerrido povo dos Lusitanos. Essa rebelião política acabou se transformando também em uma guerra de guerrilha de cunho nativista e autonomista, na qual Sertório e os seus aliados derrotaram várias legiões romanas enviadas por Sila.

2 – Sucesso na Hispânia

Em 77 A.C., Pompeu conseguiu obter do Senado a missão de ir combater a rebelião de Sertório na Hispânia, juntando-se às forças de Quinto Cecílio Metelo Pio, que comandava as forças romanas nesta campanha há 3 anos. Juntos, Metelo Pio e Pompeu conduziram uma campanha extremamente difícil contra as forças de Sertório, alternando vitórias e derrotas. Contudo, em 72 A.C., Sertório foi assassinado em uma trama urdida por outro general rebelde, Perpena. Assim, boa parte das tropas celtiberas, incluindo os Lusitanos desistiram de lutar após a morte do admirado Sertório. Metelo Pio, então, resolveu deixar a cargo de Pompeu a tarefa de lidar com as forças remanescentes de Perpena, que foram derrotadas com facilidade por Pompeu, ainda em 72 A.C.

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Pompeu capturou e executou Perpena, mas ele foi muito criticado por ter queimado as cartas existentes no arquivo pessoal de Sertório. Acredita-se, por isso, que essa correspondência poderia guardar fatos comprometedores contra pessoas influentes em Roma…

O fato é que a luta contra Sertório deu grande prestígio popular a Pompeu, que levou a fama de haver vencido a guerra, apesar dele ter dividido o comando da parte mais difícil da campanha com Metelo Pio. Além disso, em 71 A.C., Pompeu aproveitou para aumentar a sua já vasta clientela na Hispânia e recompensou os seus soldados veteranos, dando-lhes terras na província.

3 – Aproveitando a vitória contra a Rebelião de Espártaco

De volta à Itália com seu exército,  a carreira de Pompeu seria novamente bafejada pela sorte: Os remanescentes da célebre rebelião de Espártaco (Terceira Guerra Servil), que havia sido derrotada pelo general Crasso, ainda vagavam pela Itália. Assim, Pompeu recebeu do Senado a missão de combatê-los e, sem muita dificuldade, ele derrotou os últimos 6 mil escravos rebeldes, recebendo, mais uma vez, a maior parte do crédito que, na verdade, deveria ser dado com mais propriedade aos seus antecessores.

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4 – Primeiro Consulado

A vitória na guerra contra Sertório deu a Pompeu, em 29 de dezembro de 71 A.C., o seu segundo Triunfo, igualmente contrário às leis da República, e pelo mesmo motivo anteriormente citado. Em seguida, numa uma prova cabal de que a República era, agora, mais um regime de fachada, onde o verdadeiro poder estava com os generais, Pompeu conseguiu ser eleito Cônsul para o ano de 70 A.C., apesar dele não ter percorrido a “Carreira das Magistraturas” (Cursus Honorum) e de ter apenas 35 anos de idade, não perfazendo, portanto, os requisitos legais. O seu colega de consulado seria Marco Licínio Crasso, o vencedor de Espártaco e que era o homem mais rico de Roma.

5 – Aproximação com a facção dos Populares

Em um sinal do tenso clima reinante, os dois homens fortes da República não dispensaram seus exércitos após o conflito. A bem da verdade, Pompeu e Crasso nunca digeririam a disputa sobre a quem cabiam os louros pela vitória na Guerra Servil. Não obstante, os dois concordaram em uma medida que certamente desagradou a facção dos Optimates: a restauração dos poderes e privilégios dos Tribunos da Plebe, os quais haviam sido revogados por Sila.

6 –  A Guerra Contra os Piratas

Após exercer o consulado, Pompeu manobrou para obter, em 67 A.C., com a duração de 3 anos, o importante comando da Guerra contra os Piratas, os quais, centrados na região da Cilícia, infestavam o Mediterrâneo, atacando e saqueando os navios comerciais romanos. Para isso,  ele contaria, entre outros, com o apoio de um jovem e promissor Senador, integrante dos Populares: Caio Júlio Cesar

A Guerra contra os Piratas seria uma campanha gigantesca, que envolveria cerca de 100 mil soldados e 250 navios de guerra, e que certamente representava uma grande oportunidade de fama e poder para os políticos ambiciosos…

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Muito mais do que em suas campanhas anteriores, Pompeu, na Guerra contra os Piratas, teve um desempenho brilhante e decisivo, derrotando os inimigos em apenas 3 meses. De fato, nesta guerra, Pompeu demonstrou um grande talento de estrategista, dividindo o Mediterrâneo em setores, cada um a cargo de um almirante, que ficava encarregado de patrulhar as respectivas águas, enquanto, por terra, Pompeu destruía, uma a uma, as bases dos piratas.

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7 – A Guerra contra Mitridates e os sucessos no Oriente

Com seu prestígio nas alturas devido á vitória contra os piratas, Pompeu recebeu, em 66 A.C., em substituição à Lúculo, e, novamente com o apoio do jovem Júlio César e, igualmente, do conservador Cícero, o comando da Terceira Guerra contra Mitridates, o rei do Ponto ( Nota: o Ponto era um reino originariamente surgido de uma satrapia, ou província, do Império Persa que se tornou helenizado e que, durante um quarto de século, vinha opondo-se fortemente à expansão romana pelo Mediterrâneo Oriental).

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(A campanha de Pompeu contra Mitridates)

No Oriente, Pompeu fez muito mais do que derrotar Mitridates, em 65 A.C., combatendo também os aliados deste na Armênia e até na atual República da Geórgia. Assim, com a vitória, além do Ponto, que foi unido à Bitínia, Pompeu anexou a Capadócia e a rica Síria, que se tornaram províncias romanas, apesar da relutância do Senado em autorizar isso. Pompeu também aproveitou-se das dissensões que grassavam no reino da Judéia para sitiar Jerusalém e invadir o Templo (respeitando, todavia, os objetos sagrados, que não foram saqueados) e, por último, ele atacou o reino dos Nabateus, em Petra. Concluindo sua jornada oriental, em 62 A.C., Pompeu transformou a Judeia em um estado-cliente, dependente da recém anexada Província da Síria.

Depois dessas façanhas militares, Pompeu passou a ser considerado no Oriente um personagem de uma estatura próxima a de Alexandre, o Grande. Já para os cidadãos romanos, que eram bem mais comedidos em colocar seus grandes homens no pedestal de heróis Pompeu foi reconhecido por haver contribuído como poucos para aumentar o território e, sobretudo, a arrecadação da República Romana, incorporando como contribuintes as ricas cidades helenizadas da Anatólia e do Levante.

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(Em 62 A.C., após as campanhas de Pompeu, a República Romana anexa o Ponto e a Síria, alargando os seus domínios e a sua área de influência na Ásia)

8 – Triunfo em Roma e intrigas políticas

Assim, em seu trajeto de retorno vitorioso para Roma, Pompeu passou pela Grécia, onde ele foi homenageado como se fosse um verdadeiro Rei. Neste momento, muitos acreditaram que ele tomaria o poder pela força. Porém, contrariando todas as expectativas, Pompeu dispensou o seu exército antes de entrar na Cidade, como mandava a Lei Romana, para celebrar o seu terceiro Triunfo, no dia do seu aniversário, em 61 A.C., que, desta vez, foi a mais suntuosa e magnífica procissão triunfal jamais vista em Roma.

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(” Triunfo de Pompeu”, de Gabriel de Saint-Aubin Metropolitan Museum of Art)

Certamente, dispensar o exército e entrar em Roma como simples cidadão foi um gesto calculado de Pompeu para obter o apoio do Senado e do povo, demonstrando ser ele um cidadão cumpridor da lei e dos costumes tradicionais, imitando, deste modo, Sila, que, ao meu ver, parece ter sido o modelo no qual Pompeu baseava todo o seu projeto pessoal de ascensão ao poder…

Contudo, no Senado Romano, Pompeu não gozava nem da simpatia dos conservadores, ofendidos pelo apoio que ele havia dado à revogação das leis de Sila que restringiam o poder tribunício, e nem dos Populares, tendo em vista o seu histórico de lutas contra os mesmos. E Pompeu ficou ainda mais contrariado quando o Senado decidiu não recompensar os seus soldados veteranos com doações de lotes de terras públicas.

9 – Aliança com César e Crasso e o Primeiro Triunvirato

Enquanto isso, durante o afastamento de Pompeu de Roma para comandar as campanhas no Oriente, Júlio César ascendera como a grande liderança da facção dos Populares (César era sobrinho da mulher de Mário). Assim, quando César voltou à Roma, no ano 60 A.C., após governar a Hispânia, ele viu a oportunidade de conjugar a sua ambição política com as dos dois homens mais poderosos de Roma: Pompeu e Crasso, ambos insatisfeitos com os Optimates, que controlavam o Senado. Os três líderes então decidiram formar a aliança batizada de Primeiro Triunvirato.

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(César, Crasso e Pompeu)

A aliança política do Primeiro Triunvirato foi cimentada pelo casamento de Pompeu com Júlia, a filha única de César. Vale observar que, mesmo tratando-se de um casamento arranjado, e apesar da diferença de idade entre os noivos (Pompeu tinha 47 anos e Júlia, 24), não obstante, acredita-se que os esposos acabaram se afeiçoando e, anos mais tarde, Pompeu sofreria muito com a morte de Júlia, no parto de uma menina que também não sobreviveu.

César foi eleito Cônsul em 59 A.C., com o apoio de Pompeu, e o Triunvirato assumiu o poder de fato em Roma. Apesar da violenta oposição dos Optimates, liderados por Catão, o Jovem, e também do seu colega de consulado, Bíbulo, César, entre outras medidas defendidas pelos Populares, conseguiu aprovar uma legislação dando terras na Campânia para os veteranos de Pompeu. Na mesma toada, Clódio, um correligionário de César, conseguiu aprovar uma lei especial (Lex Clodia) determinando o exílio de Cícero, como pena pelo fato deste ter ordenado a execução dos envolvidos na Conspiração de Catilina sem julgamento. Essa lei também designou o adversário Catão para governar a distante Chipre, o que, na prática, também equivalia a um exílio, afastando-o do Senado.

Em seguida, os Triúnviros decidiram dividir o governo das províncias romanas entre si, e César escolheu controlar as Gálias Cisalpina e Narbonense, além da Ilíria, autonomeando-se Procônsul, com mandato de 5 anos, a partir de 58 A.C. Em breve, ficaria claro que o propósito de César na Gália era conseguir uma conquista militar que o igualasse em prestígio a Pompeu

10 – Crise do Primeiro Triunvirato

Todavia, as fontes relatam que os repetidos sucessos de César na Gália começaram a amargurar Pompeu, em Roma, pois eles ameaçavam ofuscar os seus próprios. Também por isso, Pompeu manobrou para trazer o influente Cícero de volta para Roma e, graças à revogação do exílio, os dois políticos se aproximaram.

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Em 57 A.C., Pompeu recebeu poderes extraordinários do Senado para cuidar do abastecimento de cereais de Roma, onde a fome grassava, um encargo que o colocava em uma excepcional posição em relação aos outros dois colegas no que tange à capacidade de angariar as simpatias da Plebe.

Enquanto isso, as relações entre Crasso e Pompeu também iam mal e, diante de tudo isso, o Triunvirato começava a soçobrar…Os nobres conservadores Optimates logo perceberam este esgarçamento e, aproveitando as dissensões entre os Triúnviros, conseguiram eleger um dos seus integrantes como Cônsul para o ano de 56 A.C. Por sua vez, Cícero questionou a legalidade da nomeação de César para o governo da Gália.

Percebendo o risco ao Triunvirato e a sua própria vulnerabilidade política, César deixou o comando da campanha da Gália com seus lugares-tenentes e convocou Pompeu e Crasso para uma reunião em Lucca, cidade situada na fronteira da Itália com a Gália Cisalpina, em abril de 56 A.C. Nesse encontro, que passaria à História como a “Conferência de Lucca“, César, Pompeu e Crasso acertaram as suas diferenças, estabelecendo que os dois últimos seriam candidatos a Cônsul no ano seguinte, com o apoio de César. Assegurada a eleição, os novos cônsules promulgariam uma lei prorrogando o mandato do proconsulado de César na Gália por mais cinco anos, sendo que, após o término do consulado de Pompeu e Crasso, eles seriam designados procônsules, respectivamente, da Hispânia e da Síria, também pelo prazo de cinco anos.

O adversário de Crasso e Pompeu na eleição para o consulado de 55 A.C., Lúcio Domício Enobarbo, um fervoroso membro da facção dos Optimates, e que era casado com a irmã do líder deles, Catão, o Jovem, prometeu proibir a prática da compra de votos dos eleitores e revogar o comando de César na Gália.

Porém, no dia da eleição, Enobarbo foi expulso à força do Campo de Marte pelos partidários dos Triúnviros, incluindo mil soldados enviados por César, uma coação que garantiu a vitória de Crasso e Pompeu.

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Seguindo o combinado, os novos cônsules executaram os termos do acordo da Conferência de Lucca, através da “Lex Pompeia Licínia“, garantindo a recondução de César para a Gália e os proconsulados da Síria e da Hispânia para Crasso e Pompeu.

11 –  O fim do Primeiro Triunvirato e a reaproximação com os Optimates

O destino, porém, abalaria a recém obtida estabilidade do Primeiro Triunvirato: no ano de 54 A.C., Júlia, a filha de César e esposa de Pompeu, morreu no parto e, em 53 A.C., Crasso, também ele sedento de obter a glória militar contra os Partos, foi capturado e morto por estes, após a desastrosa Batalha de Carras, em uma das piores derrotas militares sofridas pelos romanos desde a Segunda Guerra Púnica, 150 anos antes…

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Logo ficou claro para os Optimates no Senado que César era uma ameaça muito maior do que Pompeu à supremacia que eles detinham no Estado Romano, e, assim, eles passaram a cortejar o último, que, na verdade, sempre havia ansiado pelo reconhecimento dos nobres.

Com efeito, reconciliado com os conservadores, Pompeu já não tinha se oposto à eleição de Lúcio Domício Enobarbo, ferrenho opositor de César, para cônsul, no ano de 54 A.C. Na verdade, o segundo até havia se tornado sogro do filho de Pompeu, que se casou com a filha de Enobarbo.

Sintomaticamente, Pompeu recusou a proposta de César para uma nova aliança matrimonial entre as famílias deles, na qual Otávia, a sobrinha-neta de César (e irmã do futuro imperador Otávio Augusto) lhe foi oferecida em casamento. Para reforçar ainda mais o seu  distanciamento de César, Pompeu, em completa oposição à proposta de renovação dos laços matrimoniais com a família do seu colega, casou-se, em 52 A.C., com Cornélia Metela, que era filha de Quinto Cecílio Metelo Cipião, um dos mais empedernidos membros da facção dos Optimates e, portanto, um inimigo figadal de César.

Ainda em 52 A.C, as lutas políticas na cidade de Roma degeneraram em anarquia, com repetidos motins nas ruas, culminando no assassinato do ex-Tribuno da Plebe e membro dos Populares, Clódio, e que resultaram inclusive no incêndio do edifício da Cúria do Senado, terminando por impedir a eleição dos cônsules naquele ano. Essa situação caótica obrigou o Senado à medida extrema de nomear Pompeu como único Cônsul para aquele ano. Assim empoderado, Pompeu prontamente agiu, convocando os seus soldados e, com eles, restaurou a ordem na Cidade.

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Evidenciando sua aproximação com os Optimates, Pompeu então nomeou o seu sogro Metelo Cipião como seu colega para o Consulado de 52 A.C.

Diante deste quadro, ainda que para os observadores externos Pompeu ainda resistisse a tomar a iniciativa do rompimento com César, qualquer um que tivesse o mínimo discernimento político perceberia que isso era apenas uma questão de tempo.

Na verdade, naquele momento, Pompeu e o Senado somente não tentaram tomar alguma medida mais efetiva contra César porque, ainda naquele ano de 52 A.C., estourou uma rebelião geral das tribos gaulesas, recém-conquistadas, um fato apto a colocar em risco à segurança da própria Roma.

Com efeito, unidos e liderados pelo chefe Vercingetórix, os gauleses tentaram um confronto definitivo na cidade fortificada de Alésia, onde, no entanto, eles foram definitivamente derrotados naquela que foi talvez a vitória militar mais brilhante de toda carreira de César.

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Terminada a luta na Gália, a facção dos Optimates no Senado tratou de tentar fazer o mesmo com o comando de César para aquela campanha. Tanto os senadores conservadores quanto César sabiam que, despido da condição de governador e sem cargo público, ele perderia a imunidade, não faltando pretextos para processá-lo e condená-lo, na mais branda das hipóteses, ao exílio.

O confronto entre César e os Optimates tornou-se, então, dramático, com várias manobras políticas visando substituir o primeiro, cassando-lhe a imunidade ou, pelo lado dos seus correligionários Populares, tentando prolongar-lhe o mandato ou elegê-lo para outra magistratura capaz de manter César fora do alcance das retaliações dos adversários.

Assim, em 50 A.C., enquanto ainda estava na Gália, César tentou, sem sucesso, concorrer ao cargo de Cônsul, sem, contudo, abandonar o Proconsulado da Gália e continuando naquela Província, o que era proibido por lei. César, porém, contava com o apoio do Tribuno da Plebe Caio Escribônio Curião, que, segundo alegou-se, teria sido subornado mediante o pagamento de suas dívidas por César. Curião vetava todos os projetos de lei que pretendiam substituir César na Gália ou revogar o seu mandato. Curião, inclusive, chegou a propor uma solução conciliatória entre os partidários de César e a facção dos Optimates: César renunciaria ao comando da Gália desde que: ele recebesse a permissão para concorrer às eleições para o Consulado de 49 A.C. e Pompeu também renunciasse ao seu comando militar. Essa proposta até encontrou simpatia do grupo de senadores moderados, mas o núcleo conservador do Senado, liderado pelo Cônsul Caio Cláudio Marcelo, se opôs ferozmente a ela e eles obstruíram a votação de qualquer proposta naquele sentido.

Com certeza, os senadores mais sensatos percebiam o risco iminente da guerra civil e, por isso, eles apoiavam uma solução de compromisso. Assim, quando, na Sessão do Senado do dia 1º de dezembro de 50 A.C., o Cônsul Cláudio Marcelo reapresentou a proposta de substituição de César na Gália, eles, que inicialmente haviam aprovado a remoção dele, acabaram aprovando, por 370 votos a favor e apenas 22 contra, a emenda substitutiva apresentada por Curião, que estabelecia que também o comando de Pompeu deveria ser encerrado. Porém, Marcelo recusou-se a aceitar o resultado da votação da emenda de Curião e, alegando que César havia cruzado os Alpes com 10 legiões para invadir a Itália, ele declarou dissolvida a Sessão, antes da aprovação do texto.

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12 – Rompimento com César

Em seguida, rompendo com a ordem institucional, Marcelo e alguns integrantes da facção conservadora partiram para a residência de Pompeu para tentar convencê-lo a assumir o comando de todas as tropas na Itália e fizesse o necessário para “salvar a República“. Pompeu, demonstrando alguma relutância, real ou fingida, concordou, ressalvando que ele faria isso

“a não ser que fosse encontrado um caminho melhor”.

Curião, cujo mandato de Tribuno e a sua consequente inviolabilidade pessoal terminariam em poucos dias, decidiu fugir de Roma e ir ao encontro de César, que se encontrava em Ravena, fora dos limites da Itália Romana, acompanhado apenas da XIII Legião. Apesar de instado por Curião a marchar sobre Roma, César decidiu, entretanto, fazer uma nova proposta de acordo: Ele seria nomeado governador da Ilíria e manteria sob seu comando uma legião, até a eleição para o consulado de 49 A.C. Esta proposta foi, contudo, terminantemente recusada pelos Cônsules.

No dia 1º de janeiro de 49 A.C., César tentou a sua última cartada no Senado para manter a sua carreira política: Valendo-se do novo Tribuno da Plebe, Marco Antônio, que, da mesma forma que o outro Tribuno, Cássio Longino, era seu fiel colaborador, César enviou, através de Curião, uma carta ao Senado para ser lida em sessão, por Antônio. Contudo, quando Antônio começou a ler a carta, após o trecho em que César reiterava a disposição dele de somente deixar a Gália e desmobilizar o seu exército caso Pompeu fizesse o mesmo, ele foi interrompido aos gritos pelos senadores conservadores, e não conseguiu prosseguir. No decorrer desta tumultuada sessão, Metelo Cipião, o sogro de Pompeu, propôs que fosse fixada uma data para que César fosse demitido do comando na Gália e dispensasse suas tropas, após o que ele seria declarado “Inimigo Público“. A moção foi aprovada, e somente houve dois votos contrários: os de Curião e do senador Célio.

Muito provavelmente, a explicação para tamanha diferença entre esta votação e aquela ocorrida um mês antes era a maciça presença das tropas de Pompeu nas cercanias de Roma…

Não obstante, o Tribuno Marco Antônio vetou a moção de Metelo Cipião e apresentou uma nova proposta para que fosse incluído na lei que o comando de Pompeu também se encerraria na mesma data, sendo esta proposta conciliatória bem recebida. Porém, novamente, o cônsul Lúcio Cornélio Lêntulo, apoiado por Metelo Cipião, dissolveu a Sessão antes que o projeto de lei contendo as modificações de Antônio fosse aprovado.

Em 7 de janeiro de 49 A.C., o Senado Romano aprovou o “Senatus Consultum Ultimus” declarando a Lei Marcial e nomeando Pompeu como “Protetor de Roma“, equivalendo, na prática, ao cargo de Ditador. Como era esperado, essa lei também declarou o término do mandato de César na Gália, ordenando que ele entregasse o comando das tropas. Em seguida, os soldados de Pompeu ocuparam Roma. Pompeu, agora mais incisivo, expediu uma sugestiva nota dizendo que:

“Ele não poderia garantir a segurança dos Tribunos”.

Marco Antônio e Cássio entenderam bem o recado e fugiram de Roma, indo ao encontro de César. Quando eles chegaram, César percebeu que não havia mais espaço para manobras políticas ou negociações. Ele teria agora que optar entre obedecer o Senatus Consultum Ultimus e arriscar a sorte como um cidadão comum exposto à sede de vingança dos inimigos, ou ignorar a mesma e tornar-se um rebelde e um fora-da-lei.

 

13 – Começa a Guerra Civil

No dia 10 de janeiro de 49 A.C., César, comandando apenas a XIII Legião, cruzou o riacho chamado Rubicão, que marcava a fronteira da Itália com a Gália Cisalpina. Ao entrar na Itália à testa de um exército, ele violara a lei romana e era, tecnicamente, autor de um crime de alta traição. Em suas próprias palavras:

“A sorte está lançada”.

Começava a Guerra Civil.

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O Senado ficou chocado com a rapidez com que César conseguiu invadir a Itália e pela ousadia de tê-lo feito com apenas uma legião.

O fato é que, pouco antes Pompeu já havia recebido a autorização do Senado, agora inteiramente controlado pelos Optimates, para recrutar um exército de 130 mil homens na Itália, o qual eles achavam que estaria pronto quando César chegasse. Entretanto, ao contrário do esperado, ao invés de ser recebido como fora-da-lei pelos italianos, praticamente todas as cidades no caminho aclamavam César como um herói e o campeão da causa dos Plebeus.

Pompeu também imediatamente compreendeu que qualquer tropa que estivesse a sua disposição não seria páreo para os calejados legionários de César, que naquele momento eram provavelmente os melhores soldados do Mundo…

Para compensar, durante o avanço de César para Roma, Pompeu recebeu um alento: um dos mais importantes comandantes de César, o hábil general Labieno, desertou e uniu-se às forças de Pompeu.

Em função de sua inciativa e do apoio popular, César tomou Roma sem precisar lutar, pois os senadores conservadores, apavorados, fugiram para as propriedades deles fora da Cidade, deixando boa parte do Tesouro do Estado à disposição dele.

E sobretudo porque Pompeu havia concluído que a melhor estratégia era fugir para a Campânia, onde as tropas senatoriais ainda estavam sendo recrutadas.

Nesse meio tempo, Lúcio Domício Enobarbo, que fora apontado pelo Senado como o sucessor de César para a Gália e recebera 4 mil homens para tentar impedir o avanço dele para Roma, foi detido enquanto tentava escapar da cidade de Corfinium, pelos próprios habitantes e entregue a César, que já vinha em sua perseguição. Os soldados que Enobarbo comandava aderiram a César, enfraquecendo, assim, a perspectiva de uma resistência senatorial na Itália.

14- Retirada estratégica para a Grécia

Pompeu decidiu, então, partir para a Grécia, onde, explorando o seu prestígio e sua vasta clientela existente na região, ele poderia reunir um grande exército. Além disso, ele ainda tinha sob seu comando uma considerável frota romana, ao contrário de César, cujos poucos navios disponíveis  tornavam difícil perseguir Pompeu, ainda mais agora que a chegada do inverno estava próxima, impedindo por alguns meses os transportes marítimos. Finalmente, Pompeu tinha mais chances de interceptar os carregamentos de cereais para Roma, onde a fome resultante seria responsabilidade de César, enfraquecendo-o perante a Plebe.

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Embora o plano supracitado não fosse uma estratégia ruim, o fato de Pompeu ter tido que abandonar a Itália, demostra o despreparo com que ele foi pego pela rápida ação de César. E isto apesar de terem sido Pompeu e os Optimates que deram o ultimato ao adversário, tendo um bom tempo para se prepararem…

Acompanharam Pompeu em sua retirada estratégica da Itália a maior parte da facção dos Optimates. Assim, ao contrário de César, que era o comandante supremo de suas forças, Pompeu, por diversas vezes, tinha que escutar e levar em consideração os palpites militares dos senadores mais proeminentes, muitos deles com pouca ou nenhuma experiência bélica.

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César, devido à impossibilidade de perseguir Pompeu até a Grécia, decidiu partir para enfrentar os exércitos do rival que se encontravam baseados na Hispânia. Isso motivou o famoso comentário de César:

“Parto para a Espanha para enfrentar um exército sem general e logo seguirei para enfrentar um general sem exército.”

Chegando em Ilerda, após mais uma impressionante marcha forçada, César cercou o exército de Pompeu, que se rendeu em 02 de julho de 49 A.C., De volta à Roma, César, em apenas 11 dias de estadia na capital, foi nomeado Ditador por um curto período e, após editar uma série de decretos implementando políticas de interesse dos Populares, conseguiu que Pompeu fosse declarado “fora-da-lei”.

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Em 28 de novembro de 49 A.C., após conseguir os navios necessários, César partiu de Brundisium e cruzou o mar Adriático em direção ao Épiro, na atual Albânia. Se o inverno era insatisfatório para transportar as tropas via marítima, era muito mais para as instáveis galeras de patrulha da frota de Pompeu, assim, a cartada de César inicialmente foi um sucesso e ele conseguiu desembarcar metade de suas forças.

Porém o comandante da frota de Pompeu, ancorada em Corfu, Marco Calpúrnio Bíbulo, que tinha sido pego de surpresa pelo desembarque repentino de César, agora  estava alerta e decidiu bloquear a costa do Épiro, impedindo a chegada de reforços e de provisões para César. E, para a animar o ânimo de Pompeu, o seu outro comandante, Lúcio Escribônio Libo,  conseguiu a capturar as ilhas que dominavam a entrada do porto de Brundisium.

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Agora parecia que a audácia de César o tinha levado longe demais. Pompeu tinha muito mais legiões do que ele no Épiro e agora, além da inferioridade numérica, o exército do rival não poderia mais receber suprimentos nem reforços.

Enquanto isso, Pompeu, estabelecido em Tessalonica, na Macedônia, montou um verdadeiro governo romano no exílio, rodeado por tantos senadores fugitivos, cerca de duzentos, que eles passaram a se reunir em sessão naquela cidade grega, como se estivessem no Senado, em Roma. Em Tessalonica, Pompeu recebeu Rufo, um general partidário seu a quem César havia capturado na Hispânia, que lhe foi enviado por César como um emissário levando uma  proposta de acordo de paz, onde ambos desmobilizariam seus exércitos e submeteriam seus pleitos ao Senado e ao Povo de Roma. Essa proposta de César foi motivada pela situação desfavorável em que ele se encontrava no Épiro.

Pompeu, diante das notícias, recusou a oferta e decidiu que era hora dele se mexer e marchar em Direção à Apolônia, na costa do Épiro. Porém, César chegou ali antes e o povo da cidade, surpreendentemente, o recebeu de braços abertos, e o governador romano da cidade, Straberius, que tinha sido apontado por Pompeu, teve que fugir.

15-  Vitória tática, mas derrota estratégica na Batalha de Dirráquio

Quando ficou sabendo da perda de Apolônia, Pompeu decidiu fazer uma marcha forçada para uma boa posição defensiva na cidade de Dirráquio (atual Durres, na Albânia, ou, ainda, Durazzo, em italiano), local que ele alcançou em 3 de dezembro de 49 A.C. Porém, essa marcha forçada não foi um bom prenúncio para os partidários de Pompeu. Nela ficou patente que o grande general já estava ficando velho, e que as tropas por ele recrutadas estavam despreparadas e desanimadas.

Agora, os exércitos estavam separados pelo rio Apsus, o de Pompeu acampado nas cercanias de Dirráquio, e o de César nos arredores de Apolônia. Entretanto, Pompeu, apesar do seu exército ser muito mais numeroso, dando uma demonstração de falta de combatividade, ou talvez por ele não confiar na capacidade do seu exército, ao invés de atacar César, ficou acampado por dois meses em atitude de espera…

Nesse meio tempo, César vinha requisitando aos seus correligionários em Roma o envio de reforços com urgência, e, para a sua felicidade, Marco Antônio, o seu braço-direito, conseguiu despistar o bloqueio naval de Libo, que havia perdido um pouco da eficiência depois da morte de Bíbulo, e desembarcou mais 4 legiões na cidade de Nympheum, em fevereiro de 48 A.C.

A notícia do desembarque de Antônio chegou, quase ao mesmo tempo, aos dois acampamentos. Pompeu decidiu, então, interceptar os recém-chegados reforços  antes que eles se unissem a César. Ele tinha a vantagem de não ter que cruzar o rio e na verdade começara a marcha um pouco antes. Assim, Pompeu escolheu um ponto para tentar emboscar as legiões de Antônio que avançavam. Antônio, porém, foi avisado por simpatizantes gregos da armadilha e decidiu permanecer acampado, protegido de um ataque pela paliçada, fosso e torres. Pompeu logo percebeu que, agora, ele corria o risco de ficar entre uma posição fortificada inimiga e o exército de César e ele, então, achou mais prudente voltar para Dirráquio, onde se entrincheirou de vez. Ele foi seguido por César, que também começou a construir uma cadeia de paliçadas, fossos e torres de fortificação, de modo que ambos os líderes foram tornando o campo de batalha de certa forma parecido com o que se veria, quase dois mil anos depois, na 1ª Guerra Mundial.

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Permitir a junção das reforços de Antônio às legiões de César com certeza foi uma derrota tática de Pompeu. Se antes, quando tinha superioridade de 3 para 1, ele não atacara César, agora seria muito mais difícil… A sua estratégia reduziu-se, então, a esperar que César ficasse sem suprimentos, já que ele poderia recebê-los da Grécia. César, por sua vez, como demonstram os trabalhos de fortificação que ordenou, também esperava proteger as únicas linhas que tinha de suprimentos por terra, no Épiro, província que estava longe de ser abundante em recursos, já bem exauridos pelos recentes combates, e, sobretudo, se proteger dos ataques do inimigo muito mais numeroso.

Curiosamente, à medida que o tempo foi passando, o trigo dos campos que se encontravam dentro do perímetro fortificado de César começou a crescer. Já Pompeu passou a ter problemas de escassez de água, e, assim,  invertendo-se a situação, ele é que passou a ficar na condição de sitiado. Essa situação em breve obrigaria Pompeu a ter que atacar para romper as linhas de César. Mas, nessa premência, Pompeu seria beneficiado por um golpe de sorte: Dois comandantes de cavalaria da tribo gaulesa dos Allobroges, que serviam como auxiliares no exército de César,  acusados de desviarem o soldo das suas tropas, desertaram e foram se unir a Pompeu. Os desertores contaram detalhes acerca das posições defensivas de César, sobretudo algumas posições no sul das linhas, que não tinham ficado prontas.

 Vislumbrando uma boa oportunidade para a ação, Pompeu, em 10 de julho de 48 A.C., ordenou um ataque de seis legiões contra o ponto fraco, onde a paliçada de César chegava até o mar, inclusive utilizando tropas ligeiras desembarcando diretamente da água, naquele ponto. Com superioridade numérica esmagadora, as legiões de Pompeu conseguiram romper o perímetro defensivo, fazendo recuar a IX Legião Cesarista, com pesadas perdas. Contudo, César deslocou 4 mil homens para o ponto fraco, sob o comando de Marco Antônio e contra-atacou, fazendo as tropas de Pompeu se refugiarem em um pequeno forte que havia sido abandonado pelos soldados de César. Este resolveu desalojá-los de lá enviando 33 Cohortes de infantaria, apesar desse número ser metade do das legiões que estavam sendo atacadas.

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Ao contrário do que se esperava, as tropas de Pompeu resistiram tenazmente e ainda foram auxiliadas por um destacamento misto de cavalaria e infantaria que o experiente general enviou no calor da batalha para flanquear a retaguarda da ala direita dos soldados de César. Ameaçado pelo contra-ataque de Pompeu, César tentou organizar uma retirada ordenada mas os soldados dele entraram em pânico e correram para se proteger atrás dos muros de seu próprio acampamento. César perdeu mil homens no ataque fracassado.

Mais uma vez, contudo, Pompeu hesitou no momento crucial e deixou de ordenar um ataque generalizado ao exército de César, o qual teria grande probabilidade de lhe dar a vitória completa. Parece que ele, erroneamente, suspeitou que a retirada do rival era uma armadilha ou, então, que a parada já estava ganha, mas o fato é que ele acabou não fazendo nada, o que motivou o impiedoso comentário de César:

“Hoje a vitória teria sido do Inimigo, se houvesse entre eles alguém que soubesse ganhá-la”.

César, então, decidiu se retirar do campo da Batalha de Dirráquio e marchar para a Tessália, local para onde ele já tinha enviado umas legiões sob o comando de Cneu Domício Calvino para confrontar o resto do exército de Pompeu que ali era lideradas por Cipião Násica

Da mesma forma, seguindo a uma distância prudente o inimigo, Pompeu deixou o campo de batalha e seguiu para a Tessália. Embora cautelosamente ele achasse que ainda não chegara a hora de lutar uma batalha decisiva, Pompeu acabou sendo convencido pelo seu séquito de influentes senadores Optimates a perseguir César e seu exército para forçar uma batalha decisiva. .E o cenário escolhido para isso foi a planície de Farsália (Pharsalos), onde os exércitos inimigos acamparam.

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Pompeu tinha entre cerca de 60 mil soldados e 45 mil soldados e César, entre 30 mil e 22 mil (as fontes variam). E o contingente de cavalaria à disposição de Pompeu era esmagadoramente superior: 7 mil contra mil. Os acampamentos dos dois exércitos ficavam distantes cerca de 9 km um do outro.

 César, com certeza, não tivera sua confiança abalada pela derrota na Batalha de Dirráquio e ele deve, como em tantas vezes anteriores, ter conseguido motivar suas tropas. Por isso, todo dia ele mandava o exército entrar em formação de combate à vista do inimigo, tentando atrair Pompeu para o campo de batalha. Mas o máximo que Pompeu fazia era formar seu exército no topo da colina em que ele acampara, na improvável esperança de que César atacasse em um terreno que lhe era francamente desfavorável.

Enquanto isso, no quartel de Pompeu, os senadores exigiam que ele liquidasse logo o assunto. Após o desempenho razoável em Dirráquio, a confiança dos Optimates era tanto que eles chegaram até a fazer uma divisão prévia dos cargos no governo, para ser implementada quando do que julgavam ser o iminente retorno vitorioso deles à Roma.

16- Derrota na Batalha de Farsália

Assim, em 9 de agosto de 48 A.C., todo o exército de Pompeu desceu da colina e se colocou em ordem de batalha, disposto em três linhas com profundidade de dez homens cada. Novamente, porém, a iniciativa seria deixada ao adversário. O plano era esperar que César atacasse, já que se esperava que suas tropas ficariam cansadas pela marcha. E, desta vez, as linhas de César, comandadas por Marco Antônio e Domício Calvino avançaram, não sem antes pararem no meio do caminho para descansar e se reagrupar, até que elas se chocaram com o centro da primeira linha de Pompeu, que resistiu ao ataque.

 

 

Então, ambos os exércitos ficaram se empurrando e tentando abrir espaços entre os caídos, sem sucesso, como era característico dos combates da Antiguidade. Entretanto, quando Labieno, obedecendo as ordens de Pompeu, lançou a sua cavalaria do flanco esquerdo, que superava a de César por 7×1, visando esmagar a a cavalaria inimiga, é que se percebeu que César, discretamente, havia formado uma quarta linha, por trás das 3 primeiras, que tinham sido formadas para serem mais finas dos que as de Pompeu ( 6 homens),  a qual composta com elementos da terceira linha (8 coortes) misturados com seus mil cavaleiros.

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Os cavaleiros de Pompeu, surpresos pelo tamanho da formação, que eles esperavam que fosse bem menor, quando se depararam com a quarta fileira de tropas de César, entraram em pânico e dispersaram-se, quando os legionários, ao invés de atirarem os seus dardos (pila), usaram-nos como lanças, apontadas para os cavalos.

Em seguida, a quarta linha de infantaria de César aproveitou-se de que o flanco esquerdo de Pompeu estava desprotegido, após a fuga da cavalaria, e atacou aquele ponto, que, em pouco tempo, começou a perder a coesão, e  com o pânico espalhando-se entre os soldados.

Aproveitando o momento adequado, César lançou a sua terceira linha sobre a linha de frente do inimigo, que foi rompida. Assistindo seu exército ser envolvido, Pompeu decidiu voltar para o seu acampamento, deixando as tropas no campo de batalha, que, ao se verem sem o seu comandante supremo, começaram um debandada geral. Quando César conseguiu alcançar o acampamento inimigo, que, diga-se de passagem, foi galantemente defendido pelos auxiliares trácios, Pompeu já tinha fugido.

De acordo com os “Comentários sobre a Guerra Civil“, obra atribuída ao próprio César, ele perdeu apenas 30 centuriões e 200 legionários na Batalha de Farsália.

17 – Pompeu foge para o Egito

O objetivo de César agora era perseguir e capturar Pompeu para impedir que ele reunisse um novo exército. De fato, Pompeu tinha parado em Amfípolis e publicado um decreto conclamando todos os homens da província da Macedônia a se juntarem a sua causa. Porém, quando se César aproximava-se daquela cidade, ele resolveu fugir, embarcou em um navio e, no trajeto, apanhou sua esposa, Cornélia, e o seu filho, para se juntar aos remanescentes de sua frota. Contudo, em todo lugar que Pompeu atracava, ficava claro que ele ali não era bem-vindo.

Como o grande aliado de Pompeu na guerra contra César e os Populares, Catão, o Jovem, o líder intelectual dos Optimates, já tinha fugido para a África para tentar organizar a resistência aos inimigos, Pompeu foi aconselhado a fazer uma parada no Egito. Parecia, de fato, uma boa ideia, já que o pai do atual faraó Ptolomeu XIII tinha mantido com Pompeu uma relação de quase-clientela, a quem, inclusive, o faraó pagou uma grande soma em dinheiro para ser reconhecido por Roma.

Ptolomeu XIII, que ainda era um menino de cerca de 14 anos, no início parecia disposto a receber Pompeu, porém, ele foi alertado pelo eunuco Potheinus, por seu tutor, Teódoto de Chios, e por Achillas, o comandante do exército egípcio, de que, uma vez no Egito, Pompeu poderia tentar governar o país, já que muitos dos mercenários romanos que compunham o exército egípcio tinham servido sob as ordens de Pompeu. O jovem faraó foi também aconselhado que tudo indicava que César seria o vencedor da Guerra Civil e o melhor seria não desagradá-lo.

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18 – A triste morte de Pompeu

Assim, quando a pequena frota de Pompeu chegou próximo à cidade egípcia de Pelousium, local onde Ptolomeu XIII travava uma guerra pela sucessão com sua irmã Cleópatra VII, o general Achillas foi, juntamente com Septimius, que tinha sido um antigo oficial de Pompeu, foram ao encontro dele em um barco de pesca, dando a entender que tinham vindo buscar o romano para desembarca-lo em terra.

Os acompanhantes de Pompeu, porém, quando viram o pequeno barco de pesca aproximar-se, ficaram desconfiados e o aconselharam de que eles não deviam se aproximar da outra embarcação. Achillas, então,  gritou que o motivo deles estarem usando um barco tão pequeno era a pequena profundidade da água, apesar de alguns navios egípcios estarem próximos. Nesse momento, Cornélia teve um pressentimento de que o seu marido ia ser morto e lhe disse para não embarcar. Pompeu, todavia, ignorou as suspeitas da esposa e embarcou.

À bordo do pesqueiro, Pompeu, achando a fisionomia de Septimius familiar, perguntou se ele tinha sido seu camarada de exército. Naquele instante, Septimius, sem nada responder, enfiou a espada dele em Pompeu, sendo que Achillas e um certo romano de nome Savius, que acompanhavam tudo, também aproveitaram para esfaquear Pompeu com as suas adagas.

Assistindo a tudo, horrorizados, os tripulantes do navio de Pompeu, aproveitando o vento favorável, fugiram. Enquanto isso, a cabeça de Pompeu foi cortada, e o corpo dele, jogado ao mar.

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Pompeu morreu em 28 de setembro de 48 A.C., um dia antes do seu aniversário, no qual ele completaria 60 anos de idade. Quando, apenas dois dias após, César chegou à Alexandria, em perseguição ao rival, Teódoto lhe presenteou com o anel-selo de Pompeu e um recipiente, do qual foi retirada a cabeça de Pompeu. As fontes contam que César chocado, chorou o trágico fim do rival e amaldiçoou Teódoto, que teve que fugir para não ser executado.

Os restos de Pompeu foram entregues a Cornélia e enterrados na Vila de Pompeu, em Alba, na Itália.

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19 – Conclusão

Pompeu acabou se tornando um personagem que goza de uma certa simpatia pelo público amante da História de Roma. Apesar dele ter sido muito ambicioso, ele preferiu, quando teve condições de tentar a conquista do poder absoluto, obter a chancela do Senado e respeitar a Constituição. Parece-nos que o fato dele não pertencer a uma família da nobreza tornou-o excessivamente sequioso da aprovação dos nobres, dos quais, embora ele tenha se afastado temporariamente, acabou se reaproximando.

Na verdade, mesmo que Pompeu tivesse ganho a Guerra Civil, a República já estava ferida de morte e provavelmente ele seguiria a trajetória de Sila, ou, caso a sua ambição falasse mais alto, a que o próprio César trilharia, após ter vencido a Guerra Civil. Em qualquer dos casos, acredito que os Populares acabariam encontrando um outro campeão, talvez os mesmos Marco Antônio e Otaviano.

A relação pessoal amistosa de Pompeu com César, durante a maior parte da carreira dele, parece ter sido genuína, e os relatos deixam transparecer que os dois grandes homens da República no período efetivamente admiravam-se e respeitavam-se mutuamente. O casamento de Pompeu e Júlia, embora tenha sido arranjado com finalidades políticas, acabou se transformando em uma união de verdadeiro amor conjugal, e tudo isso contribuiu para melhorar a imagem de Pompeu para a posteridade.

FIM

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A BATALHA DO RIO FRÍGIDO

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(Batalha do Rio Frígido, ilustração de Angus McBride)

Em 05 de setembro de 394 D.C, o exército do Imperador Romano do Oriente, Teodósio, o Grande,  após marchar pela província da Ilíria e atravessar os Alpes Julianos, chegou no Rio Frigidus (que separa o que hoje é a Eslovênia da Itália ). Quando o exército oriental chegou, já estavam acampadas no local as tropas do usurpador Eugênio, comandadas pelo general de origem franca, Arbogaste, o homem-forte do Império Romano do Ocidente, e padrinho da nomeação de Eugênio, com o objetivo de darem combate a Teodósio.

A cadeia de eventos que levou ao conflito começa em 383 D.C,com a morte do imperador Graciano, que foi assassinado em Lyon, após não conseguir debelar a revolta do general da Britânia, Magnus Maximus,

Valentiniano II, o jovem meio-irmão de Graciano, que  por este foi reconhecido como co-imperador por pressão dos generais francos, seria o próximo alvo de Maximus. assim, Teodósio, pressionado pelas circunstâncias, acabou concordando em reconhecer Maximus como novo imperador das províncias ocidentais que até então tinham sido governadas por Graciano, sob  a condição de que Maximus reconhecesse Valentiniano II como co-imperador no Ocidente. Continuaria a haver, portanto, dois imperadores no Ocidente.

Esse acerto durou até 387 D.C, quando Maximus resolveu invadir a Itália para derrubar Valentiniano II e, assim, assumir o controle total do Ocidente. Dessa vez, contudo, Teodósio resolveu intervir e, após reunir as suas tropas com as de Valentiniano II, as quais eram comandadas pelo general Arbogaste, e também valendo-se da ajuda dos seus aliados visigodos e mercenários hunos,  ambos conseguiram derrotar Maximus, na Batalha de Siscia, em 388 D.C.

Oficialmente, porém, o novo imperador único do Ocidente passara a ser Valentiniano II,  que tinha apenas 17 anos de idade. Porém, o poder de fato no Ocidente estava nas mãos do general Arbogaste, que ocupava o cargo de Comandante-em-chefe da Infantaria (Magister Peditum Praesentalis).

Ainda durante o reinado de Graciano, havia sido ordenada a retirada do ancestral altar da deusa Vitória da cúria do Senado, em Roma, sob protestos dos senadores pagãos, que ainda eram muito influentes na antiga capital do Império. Quando estes apelaram a Valentiniano II para que o altar fosse restaurado, Ambrósio, o poderoso bispo de Milão, que instigara aquela medida, convenceu o jovem imperador a negar o pedido senatorial.

A tensão entre o imperador e seu comandante-em-chefe aumentou quando Valentiniano II resolveu demitir Arbogaste do cargo de Marechal da Infantaria do Ocidente. Consta que ao receber do imperador a ordem escrita, Arbogaste, teria respondido: “Não foi você quem me deu o meu comando e tampouco é você quem pode tirá-lo de mim”, após o que ele jogou a carta no chão, dando as costas ao imperador perplexo, e  retirou-se do recinto!

Pouco tempo depois, Valentiniano II foi encontrado morto em seus aposentos imperiais, tendo as suspeitas recaído sobre Arbogaste, embora uma fonte relate que o imperador pode ter se suicidado, deprimido pela impossibilidade de confrontar o general.

O fato é que Arbogaste conseguiu fazer nomear o inexpressivo Eugênio, um funcionário palaciano que era professor de Retórica,  como Imperador do Ocidente pelo Senado Romano. Esta nomeação foi, inicialmente, tolerada por Teodósio. Não obstante, à míngua de um reconhecimento formal, Eugênio é considerado pelos historiadores como um usurpador.

Entretanto, Eugênio e Arbogaste aproximaram-se da influente facção pagã do Senado Romano,  que vinha patrocinando um renascimento do paganismo em Roma, autorizando, inclusive, a reabertura dos templos e a celebração de rituais pagãos em Roma, culminando com a restauração do Altar da Vitória na Cúria do Senado, o que enfureceu Ambrósio e também deixou Teodósio em uma posição politicamente difícil na ortodoxa Constantinopla. Esta, de fato,  seria a última tentativa de se restaurar a proeminência do paganismo no Império Romano.

Assim, em 393 D.C, Teodósio concedeu oficialmente ao seu filho, Honório o título de Augusto no Ocidente, isto é, reconhecendo-o como Imperador, o que significava, obviamente, o rompimento com Arbogaste e o seu imperador-fantoche, Eugênio.

A partir daí, o devoto Imperador Romano do Oriente decidiu acabar com o renascimento pagão e começou a se preparar para invadir o Ocidente e entrar na Itália para derrubar Eugênio e Arbogaste.  Teodósio iniciou os preparativos formando um exército, recrutando e reinando romanos, o que não ocorria desde a destruição do exército do Oriente pelos visigodos na Batalha de Adrianópolis, 15 anos antes.

Em 394 D.C., o novo exército romano do Oriente estava pronto e, sob o comando deo próprio Teodósio e do fiel general Estilicão, ele deixou Constantinopla rumo à fronteira do Oriente com o Ocidente, que ficava na Ilíria (o território ocidental começava no que hoje é a Sérvia).

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O rei Alarico recebeu ordens para que os seus visigodos, que viviam nas terras do Império do Oriente sob a condição de foederati (federados) juntassem-se à ofensiva.

O avanço pelas províncias limítrofes foi fácil, assim como a passagem pelos Alpes Julianos, pois Arbogaste decidiu esperar o ataque próximo à cidade de Aquileia, no norte da península.  Ao realizarem os preparativos para a batalha, ficou claro que o renascimento pagão era a mola inspiradora da campanha: Eugênio e Arbogaste ordenaram que uma estátua do deus Júpiter fosse colocado nos limites do acampamento, e que os estandartes das tropas ostentassem imagens de Hércules.

Assim que alcançou o Rio Frigidus, no dia 05 de setembro de 394 D.C., Teodósio viu as tropas ocidentais acampadas e mandou os visigodos atacarem. Entretanto, o terreno era desfavorável e metade dos soldados bárbaros morreu neste ataque ( totalizando cerca de 10 mil baixas). Muitos acreditam que Teodósio intencionalmente quis enfraquecer os visigodos, para diminuir a grande e duradoura ameaça que eles vinham representando ao Império, apesar deles,  momentaneamente,  estarem do seu lado.

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(Rio Vipava, na Eslovênia, chamado pelos romanos de rio Frigidus, foto de Johann Jaritz )

No dia seguinte, 06 de setembro de 394 D.C.,, Arbogaste, achando que o exército de Teodósio não se recuperaria do revés sofrido, mandou uns destacamentos atacarem o acampamento oriental, Porém, o que ele não esperava, é que o matreiro Teodósio subornou os soldados enviados para essa ataque, os quais acabaram se juntando ao exército oriental.

Em seguida, enquanto Teodósio deslocava o seu exército por uma passagem estreita, Arbogaste ordenou  um ataque de emboscada Porém, no exato momento em que os soldados dele iriam atacar, soprou com força de tempestade o característico vento daquela região, chamado até hoje de Bora, jogando grande quantidade de poeira nos olhos dos atacantes, atrapalhando-os de tal forma que eles foram desbaratados pelos soldados orientais.

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Assim, as tropas de Teodósio, com seus escudos decorados com o monograma chi-ro (XP), iniciais em grego de “Cristo” derrotaram o exército de Eugênio, com seus escudos com a imagem de Hércules, fato que os propagandistas cristãos fartariam-se de cantar em prosa e verso.

O próprio Eugênio foi capturado e implorou clemência. Porém, após ser exibido em várias cidades como troféu de guerra, ele foi decapitado. Já Arbogaste,  conseguiu fugir por alguns dias, vagando pelos Alpes, mas, desesperançado, ele acabou cometendo suicídio.

Como resultado da batalha, Teodósio passou a reinar sobre as duas metades do Império Romano, mas não por longo tempo, pois ele morreria no ano seguinte, de causas naturais, em 395 D.C, sendo sucedido por seu filho, Arcádio, no trono oriental. No trono do Ocidente, Teodósio, após a vitória no rio Frígido, instalou Honório, no lugar de Eugênio.

Alarico, convicto de que os godos eram os que mais tinham se sacrificado pela vitória de Teodósio na Batalha do Rio Frígido, após a morte deste imperador passou a exigir altas recompensas para si e para o seu povo, mas não obteve o reconhecimento pretendido. Ele seria duramente confrontado por Estilicão, que durante muito tempo foi o homem-forte do Império Romano, nos anos que se seguiram, mas, após a execução deste,  o rei visigodo acabou dando aos romanos um golpe terrível, quando liderou o Saque de Roma, em 410 D.C.

RÔMULO AUGÚSTULO E O FIM DO IMPÉRIO ROMANO DO OCIDENTE

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Em 04 de setembro de 476 D.C., o  bárbaro Odoacro, chefe militar dos Hérulos, e comandante de um exército de mercenários a serviço de Roma, depôs o jovem Imperador do Ocidente, Rômulo Augústulo, em sua capital Ravena, enviando-o para viver em paz próximo a Nápoles, e com o direito de receber uma pensão anual.

Em seguida, Odoacro, ao invés de escolher um fantoche para ser o novo Imperador Romano do Ocidente, como vinha ocorrendo nos últimos 20 anos, devolveu as insígnias imperiais ao Imperador Romano do Oriente, Zenão I, em Constantinopla, gesto que caracterizou o  que a maioria dos historiadores considera como o fim do Império Romano do Ocidente  (27 A.C – 476 D.C.). Porém, Zenão, embora tenha aceitado as insígnias, nunca reconheceu Rômulo Augustúlo como imperador legítimo, mas sim Júlio Nepos, que, naquele momento, controlava a Dalmácia, e ali se manteve até  480 D.C., quando foi assassinado.

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Assim, a data de 04 de setembro de 476 D.C. tradicionalmente marca o fim da Antiguidade e o começo da Idade Média, muito embora discuta-se, e muito, se efetivamente ela representa o fim do Império do Ocidente, sendo que há várias opiniões respeitáveis defendendo que o que se chama de Queda do Império Romano não teria sido um evento, mas um processo, o qual  havia começado muito antes da referida data, e, igualmente, não estava terminado em 476 D.C, pensamento que também se aplica a própria Era Antiga.

Flavius Romulus (Rômulo Augústulo) era filho do general e político romano Orestes,  um cidadão romano natural da Panônia, que ascendeu no serviço público graças às suas ligações com os Hunos (ele chegou a ser notarius (secretário) de Átila, o Huno).

Orestes foi nomeado Comandante do Exército Romano do Ocidente (Magister Militum) por Júlio Nepos, que por sua vez havia sido nomeado Imperador Romano do Ocidente por Leão I, o Imperador Romano do Oriente que reinava em Constantinopla, no início de 474 D.C.,  para substituir Glicério, um governante que era considerado um usurpador pela corte oriental.

Porém, Orestes tinha outros planos e,  aproveitando-se do fato do Império Romano do Oriente estar conflagrado pela luta entre Zenão I, o sucessor de Leão I, e o usurpador Basilisco, o general,  valendo-se das tropas bárbaras que comandava,  depôs Júlio Nepos,  o qual teve que fugir para a Dalmácia.

No lugar de Júlio Nepos, Orestes, em 31 de outubro de 475 D.C., proclamou imperador o seu próprio filho, que adotou o nome de Flavius Romulus Augustus. Porém, como o rapaz somente tinha 15 anos de idade, ele logo ficaria conhecido como Romulus Augustulus, ou seja, “Rômulo, o Pequeno Augusto“, que foi reconhecido pelo Senado Romano. De fato, naquele momento, os senadores italianos pareciam mais satisfeitos em manter-se livres da influência da corte de Constantinopla do que livrar-se da ameaça dos bárbaros germânicos..

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Contudo, quando da aclamação de Rômulo Augústulo, os únicos territórios que o Império do Ocidente controlava, além da Itália, eram alguns  pequenos enclaves na Gália e na Ilíria.  Consequentemente, um dos principais problemas causados pela exiguidade desse território apresentou-se de imediato: a completa insuficiência de arrecadação…Assim, não tendo dinheiro para pagar os bandos de bárbaros que constituíam o que ainda se chamava de Exército Romano, uma revolta contra o novo imperador não tardou a acontecer.

Sem pagamento, uma coalizão de mercenários germânicos, majoritariamente Hérulos e Scirii exigiram que lhes fossem dadas terras correspondentes a um terço do território da Itália, aclamando o seu comandante, Odoacro, como “Rex Italiae” (Rei da Itália). Orestes, cujo poder e reconhecimento dependiam do apoio e do reconhecimento do Senado Romano, recusou.

Em 28 de agosto de 476 D.C. Orestes foi capturado pelas tropas comandadas por Odoacro e executado, próximo à Piacenza. Os mercenários avançaram contra Ravena, a capital do Império do Ocidente, que, apesar de uma breve resistência dos poucos soldados romanos que restavam, caiu, em 2 de setembro de 476 D.C.

Dois dias depois, Odoacro compeliu o jovem Rômulo Augustúlo a abdicar. Consta, todavia, que Odoacro, tomado de pena e também impressionado com a beleza do rapaz, decidiu poupar o imperador deposto e enviou-o para viver em uma vila romana fortificada no que hoje é a cidade de Nápoles, recebendo uma pensão de seis mil solidii de ouro. Essa villa, que havia pertencido ao riquíssimo aristocrata romano Lucius Licinius Lucullus (Lúculo), no século I A.C., hoje é o medieval Castello dell’Ovo (na foto abaixo)

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Em seguida Odoacro, marcando uma ruptura com uma prática de décadas, ao invés de colocar um fantoche seu no trono do Império Romano do Ocidente, resolveu aceitar o título de Rei da Itália, com o apoio implícito do Senado Romano.

Com efeito, Odoacro mandou devolver ao Imperador Romano do Oriente as insígnias imperiais, que acredita-se compunham-se principalmente do cetro e da coroa. Uma embaixada de senadores levou os objetos enviados por Odoacro até Constantinopla, acompanhada da mensagem do Senado Romano :

” A majestade de um monarca único é suficiente para proteger, ao mesmo tempo, o Mundo”

Ao aceitar as insígnias, consta que Zenão I respondeu aos senadores italianos, não sem um tom de reprimenda:

“Que os romanos do Ocidente tinham recebido dois homens enviados pelo Império do Oriente, expulsando um e matando o outro, Antêmio…”

Odoacro, entretanto, agiu de modo prudente e respeitoso para com o trono oriental, e continuou mantendo as aparências externas de que ele, no máximo,  se tornara um rei-cliente do Império Romano do Oriente…Ele até cunhou moedas ostentando o nome do Imperador Zenão I. Porém, Odoacro ignorou solenemente o mais importante dos pedidos do Imperador: a de que ele reconhecesse Júlio Nepos como o legítimo Imperador Romano do Ocidente. Nisso, com certeza, ele teve o apoio do Senado de Roma, que passou a cooperar intimamente com ele na administração da Itália.

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As evidências indicam que, em 507 D.C., Rômulo Augústulo ainda recebia uma pensão, que teria sido mantida pelo rei ostrogodo Teodorico, o Grande, que havia conquistado a Itália, após derrotar Odoacro, fundando o Reino Ostrogodo, que duraria até a reconquista da Itália pelo imperador Justiniano I, em 554 D.C.

Em uma grande ironia do destino, o jovem soberano, que tanto tinha o nome do lendário fundador de Roma, Rômulo, como também o do fundador do Império Romano, Augusto, terminou sendo o último soberano do Império Romano do Ocidente…

O SAQUE DE ROMA

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Em 24 de agosto de 410 D.C., começava o Saque de Roma pelos Visigodos

Foi um evento que chocou os contemporâneos, romanos e bárbaros, e até mesmo estados inimigos, como os persas sassânidas. Enfim, por todo o Mundo Mediterrâneo o fato ecoou  como se prenunciasse o fim dos tempos.

A última vez que invasores estrangeiros haviam andado pelas ruas da  antiga capital do Império Romano havia sido em 390 A.C, ou seja, 800 anos antes! Foram os gauleses, chefiados por Breno, que, naqueles longínquos tempos, queimaram toda Roma, exceto a colina do Capitólio, onde os romanos se refugiaram.

Para os cristãos, o Saque de Roma, em 410 D.C, foi considerado um castigo divino, consequência da impiedade e arrogância da Cidade, que era dominada por uma classe senatorial ainda majoritariamente pagã.

Inspirado pela catástrofe, Santo Agostinho escreveu sua obra fundamental “A Cidade de Deus” (Civitas Dei), uma das pedras angulares da filosofia católica.

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Já para os pagãos, o acontecimento foi uma punição dos deuses pelo fato dos imperadores terem abandonado o culto aos deuses ancestrais..

Aliás, durante o cerco de trinta dias, de fato houve um renascimento do paganismo na cidade, citando-se como exemplo, a permissão imperial para que a estatueta dourada da deusa Vitória fosse reinstalada na Cúria do Senado Romano, no Fórum.

Consta que a má fama do mês de agosto teria começado a partir desses funestos dias…

Prelúdio

Como foi possível que essa tragédia romana ocorresse?

O Império Romano passou por profundas transformações nos 100 anos anteriores ao saque visigodo.

Durante 350 anos, começando com Augusto, o primeiro imperador ( e cujo nome, coincidentemente batiza o mês de agosto), que reinou entre 27 A.C e 14 D.C., a estratégia militar romana consistia na disposição de suas principais forças militares nas fronteiras, organizadas em 28 legiões (esse número se manteve relativamente estável durante esse período). Essas legiões eram, de início, formadas por legionários recrutados entre os cidadãos romanos que fossem italianos ou oriundos de colônias de italianos estabelecidas em territórios conquistados.

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Cada legião tinha cerca de 5 mil homens e ela consistia em uma unidade virtualmente autônoma, com seus quartéis, estábulos, fábricas de armas, corpos de engenheiros, etc. (Note-se que, com o tempo, muitos dos quartéis das legiões dariam origem a várias cidades europeias atuais). E o Exército Romano também recrutava contingentes da população que habitava as localidades nas quais as legiões estavam situadas, os quais formavam regimentos de Auxiliares (Auxilia). Tradicionalmente, havia um corpo de auxiliares para cada legião, com o mesmo número de soldados que os legionários.

Basicamente, esses Auxiliares eram utilizados como tropas de patrulha, empregados em escaramuças, ou então como tropas especializadas, como, por exemplo, arqueiros, fundibulários (fundas), cavalaria ligeira, etc., sempre de acordo com as habilidades guerreiras de cada povo. Após servirem pelo prazo de 20 anos, um Auxiliar ganhava o direito de pleitear a cidadania romana (que era conferida por decreto do próprio imperador – aliás, muitos desses diplomas de bronze sobreviveram e foram encontrados em escavações, os quais, certamente, foram guardados com muito orgulho pelos agraciados).

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Como resultado positivo dessa estratégia, denominada de “defesa estática“, o estabelecimento das legiões nas fronteiras acarretou a “romanização” daquelas populações fronteiriças, Assim, pouco a pouco,  as legiões também começaram a recrutar localmente as suas tropas. Vale lembrar que o recrutamento de soldados sempre foi um problema que afligiu os romanos, já que, desde as reformas de Caio Mário, por volta de 100 A.C, o Exército Romano deixara de ser uma milícia de cidadãos que prestavam serviço militar, para se transformar no primeiro exército verdadeiramente profissional da História.

Entretanto, esse sistema demonstrou ser um fator de instabilidade política: Com efeito, após a derrubada e suicídio de Nero (68 D.C.), quando três generais comandantes de legiões disputaram o trono, tornou-se cada vez mais frequente, em tempos de crise, o surgimento de rebeliões daquelas legiões estacionadas nas fronteiras do Império. Na verdade, o próprio regime do Principado, que substituíra a República, descendia de um longo processo de tomada do poder pela força por políticos que também eram generais. Não é a toa que o título “Imperator” significava, na origem, ‘Comandante”…

Consequentemente, na prática, quase todo general à testa de uma legião era um candidato em potencial a Imperador,  e, ao menor sinal de fraqueza do imperador reinante, poderia ser aclamado como tal por suas tropas. E tal comportamento, sem dúvida, era decorrente do costume de se recompensar regiamente os legionários que serviam na legião, quando o seu comandante conseguia ser vitorioso na disputa (inclusive, houve vários casos em que toda a tropa, ávida pelas polpudas gratificações, aclamava o seu general imperador. mesmo contra a vontade deste! Ironicamente, isso tornava-se caso a rebelião fracassasse, uma sentença de morte para o coitado do general…).

Essa instabilidade militar chegou ao máximo durante o período que se denomina “Crise do Século III“, onde a média de duração de um reinado era pouco mais de um ano, e, algumas vezes, havia vários Imperadores rivais.

A reforma militar de Constantino

Finalmente, em 312 D.C.,, após mais uma dessas incontáveis rebeliões, Constantino, um general romano de origem ilíria, filho de um dos 4 co-imperadores nomeados por Diocleciano, no fracassado projeto de divisão racional do poder que este instituíra, chamado de “Tetrarquia”, derrotou o rival Maxêncio e se tornou Imperador.

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Constantino foi o responsável por  duas mudanças radicais, no campo político-administrativo e militar, que impactariam decisivamente o Império Romano nas décadas seguintes:

1) Reconhecendo que o território romano era grande demais para ser administrado por um imperador somente, instalado em apenas uma capital, resolveu, inspirado no precedente tentado por Diocleciano (tetrarquia), instituir uma divisão político-administrativa do império em duas metades – Ocidental e Oriental (Pars Occidens e Pars Oriens). A capital ocidental, predominantemente de fala latina, a princípio, continuou sendo Roma, mais tarde substituída, sucessivamente, por Milão e Ravena. Porém, para capital da parte oriental, onde se falava majoritariamente o idioma grego, ele escolheu a antiga cidade grega de Bizâncio, notória por suas qualidades defensivas (basicamente um triângulo de terra cercado de água em dois lados), que recebeu o nome oficial de “Nova Roma que é Constantinopolis“,  mais conhecida como Constantinopla;

2) Constantino também resolveu instituir um “Exército Central Móvel“, que ficaria sob o comando direto do Imperador, formado com os melhores contingentes das 28 legiões espalhadas pelo Império Romano. A elite do exército eram as tropas de cavalaria couraçada (Scholae Palatina). E os soldados desse exército central ficariam conhecidos como Comitatenses (literalmente, aqueles que fazem parte da “Comitiva” imperial). Esses soldados receberiam pagamento maior e melhores uniformes e equipamento do que os do restante do Exército Romano. Já as antigas legiões não seriam extintas, mas de certa forma, elas foram rebaixadas. Os seus integrantes passaram a ser denominados de “Limitanei” (isto é, os “fronteiriços”, ou “da fronteira”), que recebiam pagamento menor. Como o tempo demonstraria, essas tropas, paulatinamente, acabaram definhando e virando uma espécie de guarda provincial de fronteira.

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A maior parte dos estudiosos acredita que, mais do que preocupação com a estratégia militar defensiva imperial, o grande objetivo de Constantino era assegurar a estabilidade de seu trono e continuidade da sua própria dinastia., no que, aliás, ele foi bem sucedido, pois ele mesmo reinou 25 anos e a sua dinastia duraria 50 anos.

A criação de um Exército Central Móvel, na forma adotada por Constantino, consagrou a adoção do que se chama, em ciência militar, de estratégia de “defesa em profundidade“, cuja principal característica é o reconhecimento de que os inimigos atacantes não poderão ser detidos nas fronteiras, e, inevitavelmente, eles penetrarão o território do império, devendo as tropas fronteiriças apenas retardar ou atrapalhar o avanço do exército inimigo em solo pátrio, até que o mesmo seja engajado e derrotado pelo exército principal do país, onde for mais recomendável.

O problema é que essa mudança estratégica romana ocorria em meio a dois acontecimentos ocorridos no exterior que teriam consequências gravíssimas: o primeiro, já do conhecimento dos romanos, era o renascimento de um império persa nacionalista e militarmente agressivo, que 40 anos antes, tinha-lhes infligido duras derrotas, inclusive com a captura, pela primeira vez, de um imperador romano em campo de batalha (Valeriano, em 260 D.C.), que havia imprudentemente invadido a Mesopotâmia.

Em 363 D.C., o último integrante da dinastia de Constantino, o Imperador Juliano (denominado de “O Apóstata”, pois ele renunciou à fé cristã e tentou restaurar os deuses pagãos) sofreu nova derrota desastrosa na Pérsia, onde ele morreu após ser ferido em batalha. O sucessor, dele, Joviano, teve que negociar um tratado humilhante para conseguir sair da Pérsia com o que sobrou do exército romano de 90 mil homens, um dos maiores já reunidos em toda história do império. Amiano Marcelino foi um historiador romano que participou dessa campanha como soldado e deixou um relato excepcional da campanha. Sobre Juliano, vale a pena ler o livro homônimo, do escritor americano Gore Vidal, um romance histórico magistralmente escrito).

Mas foi o segundo fato, ocorrido na longínqua China e então desconhecido dos romanos, que causaria uma sucessão de eventos que redundaria, décadas mais tarde, no Saque de Roma: a migração dos Hunos.

Derrotados após uma tentativa de conquistar o Império Chinês, os Hunos se voltaram para o Ocidente. Atravessando a Ásia Central, em hordas invencíveis de milhares de arqueiros montados, os hunos foram empurrando povos e mais povos, em um verdadeiro efeito dominó, em direção ao Oeste, gerando o aumento dos conflitos na fronteira romana do Reno/Danúbio.

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Assim, o cenário militar romano em meados do século IV era aquele que assombra o imaginário de qualquer líder militar: o de uma guerra em dois fronts!

Um dos povos que foram desalojados pelos hunos eram os Godos, um povo germânico de origem escandinava que havia migrado para a região do Danúbio, estabelecendo-se nas proximidades da antiga província romana da Dácia (aproximadamente a Romênia atual).

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Em 376 D.C., uma vasta migração dos Godos Thervingi, liderados pelo chefe Fritigern, totalizando cerca de 200 mil pessoas, pediu autorização ao Imperador Romano do Oriente, Valente, para cruzar o rio Danúbio e se instalar na província romana da Moesia, no que, na verdade, era quase um pedido de asilo. Foi dada a permissão, sob a condição de que eles entrariam desarmados, mas ficariam sujeitos ao serviço militar (os romanos sempre costumavam empregar bárbaros como tropas, e durante a dinastia de Constantino, o emprego de tropas germânicas tinha aumentado bastante, ao ponto de influenciar o equipamento, vestuário e até o grito de guerra dos soldados romanos)

Em geral, a História e os achados arqueológicos demonstram que os povos germânicos, ao longo dos quase 400 anos que separam o ano de 100 A.C, quando as fontes romanas pela primeira vez mencionam a invasão da Itália pelos povos denominados de Cimbros e Teutões ( invasão derrotada por Mário), do aparecimento dos Godos na fronteira do Danúbio, no final do século III, vinham sendo influenciados pelo Império Romano, mas sempre mantendo uma consciência que poderíamos chamar de “étnico-cultural” ou nativista muito forte ( o que ficou demonstrado na resistência comandada por Arminius – ou Herrmann, o Germânico – à penetração romana na Germânia, em 9 D.C, infligindo aos romanos a destruição de três legiões e o abandono definitivo do projeto romano de transformar a região em província romana, com consequências duradouras para a história dos dois povos no futuro).

A mudança mais importante observada na sociedade germânica ao longo desses séculos de contato com os romanos, foi a tendência à aglutinação das antes isoladas tribos em grandes confederações, como por exemplo, a dos Alamanos, que em sua origem etimológica, quer dizer “All men” (todos os homens), e acabaria dando nome a um futuro país (Alemanha), e a dos Francos (que, curiosamente, daria nome ao maior rival da Alemanha, a França).

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Outra mudança notada entre os povos germânicos, que, para alguns estudiosos, foi consequência do contato com os romanos, foi a crescente sofisticação e especialização militar dos contingentes armados, em contraste com os grupos mais primitivos de guerreiros no início da era cristã. Para saber mais sobre todos esses fenômenos envolvendo as tribos germânicas, recomendamos a leitura do livro “The Fall of the Roman Empire, a New History of Rome and the Barbarians“, do historiador Peter Heather).

É certo que essas confederações germânicas cooperavam entre si no embate contra os romanos. Assim, ataques na fronteira do Reno eram combinados com ataques no Danúbio. E sabe-se que, algumas vezes, quando chegava a notícia de uma derrota militar romana na Pérsia, desencadeava-se uma série de ataques germânicos oportunistas.

Por outro lado, ficou evidenciado que, ao longo dos séculos, os germanos passaram a apreciar mercadorias produzidas no Império Romano, como demonstram os achados arqueológicos de sepulturas germânicas do período.

Note-se que, durante muito tempo, inúmeros germanos serviam no exército romano, mas depois eles voltavam para viver junto ao seu povo, trazendo consigo a expertise militar romana (Arminius, inclusive, havia sido um precursor disso, pois ele comandava um contingente de Auxiliares do Exército Romano).

Desde o século IV, os Godos haviam se convertido ao Cristianismo, embora o professassem sob a doutrina denominada de Arianismo, considerada heresia pela Igreja Católica (porque idealizada pelo bispo Ário – nome que nada tem a ver com “raça ariana”, por favor!).

A História conta que, após entrarem no Império Romano, os Godos foram muito maltratados pelos governadores das províncias romanas onde se estabeleceram. Grassava a fome entre eles e os oficiais romanos cobravam preços extorsivos pelos grãos estocados nos celeiros do Estado. Alguns chegaram até a escravizar alguns godos.

Os germanos não podiam mais tolerar isso e se rebelaram. E acabaram derrotando as tropas que inicialmente foram enviadas para reprimi-los.

A Batalha de Adrianópolis

Assim, em 378 D.C, o Imperador Romano do Oriente, Valente, decidiu  marchar e comandar em pessoa o Exército Central e esmagar os Godos. O imperador do Ocidente, Graciano, já havia se comprometido a enviar também o seu Exército, porém, de acordo com a versão mais prevalente, Valente,  querendo os louros da vitória somente para si, resolveu fazer uma marcha forçada e dar combate aos Godos sem esperar os reforços ocidentais.

Fritigern, que era um hábil comandante, sabedor que não poderia enfrentar os 40 mil soldados de Valente em campo aberto, resolveu “entrincheirar-se” e mandou que os carroções em que o seu povo, homens, mulheres e crianças, moravam e viajavam (parecidos com aqueles que os pioneiros americanos usaram na Conquista do Oeste) formassem um círculo protetor (laager) em uma colina, próxima a Adrianópolis, na Trácia. E mandou que a sua cavalaria, que tinha um efetivo estimado entre 10 e 20 mil homens ficasse ao largo. Dentro do laager, talvez estivessem 20 mil guerreiros, além de muitos milhares de mulheres, que talvez ajudassem nos combates. Quando viu os romanos se aproximando, Fritigern mandou atear fogo ao campo na planície em volta da colina e enviou mensageiros para atrasar os romanos e outros para chamar a cavalaria.

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Em 9 de agosto de 378 D.C.,  os romanos chegaram ao campo de batalha após uma marcha forçada de sete horas e, sem descanso, eles preparam-se para atacar os godos.

Amiano Marcelino conta que uma unidade romana, demonstrando falta de disciplina, acabou atacando sem esperar as ordens e precipitando o avanço. Enquanto isso, a cavalaria goda chegou e atacou o flanco direito  dos romanos, prevalecendo sobre a cavalaria romana, que fugiu. A visibilidade era ruim, devido a fumaça e a poeira e o calor do verão era grande. Os romanos não perceberam que sua cavalaria tinha sido dispersada e avançaram colina acima em direção ao laager.

Os guerreiros godos, saindo do círculo de carroções, atacaram o lado esquerdo dos romanos que, por sua vez, foram atacados pela retaguarda pela cavalaria goda que havia dado a volta. Os romanos foram obrigados a avançar para a base da colina.

Valente percebeu o movimento e avançou, porém,  a massa compacta de soldados não conseguia mais manobrar. Os romanos foram completamente envolvidos e acabaram sendo massacrados. O imperador, segundo relatos, morreu lutando, e o seu corpo nunca foi encontrado, perdido entre a massa de 40 mil soldados romanos caídos.

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Amiano Marcelino encerra a sua História com o relato sombrio e emocionante da Batalha de Adrianópolis. É expresso o reconhecimento do desastre: Dois terços do Exército Romano do Oriente foram eliminados em uma tarde. Ele relaciona com tristeza o número imenso de generais e oficiais romanos que morreram na Batalha.

Assim, o Império Romano sofrera duas derrotas humilhantes no espaço de 15 anos. o historiador Arther Ferril (“A Queda do Império Romano – a Explicação Militar”) compara essa situação ao clima que se abateu sobre o exército americano após a derrota para o Vietnã.

Após a Batalha de Adrianópolis, na prática, não havia mais exército romano no Oriente. Os Godos, imediatamente apos a vitória, tentaram saquear Adrianópolis, mas, desprovidos de máquinas de assédio, e ignorantes da arte da guerra de sítio, não conseguiram. Mas eles pilharam toda a província e, mais importante, saquearam os arsenais do exército.

Durante os próximos 30 anos, os romanos teriam que enfrentar um fato que não acontecia na história romana desde a  Segunda Guerra Púnica, entre 220 a 202 A.C: Um exército estrangeiro armado movendo-se e vivendo em solo romano. Só que agora porém,  era um povo inteiro que demandava um pedaço de território romano para viver!

Após a derrota romana na Batalha de Adrianópolis, com a morte em combate de Valente, o sobrinho deste, Graciano, que já era o Imperador Romano do Ocidente. virou, por direito, o soberano das duas metades do Império Romano.

Ocorre que Graciano só tinha 19 anos na ocasião e já estava suficientemente assoberbado com as invasões dos Alamanos e outros povos germânicos na Gália, sendo, portanto, incapaz de lidar com os invasores godos na parte oriental.

Teodósio e a “barbarização” do Exército Romano

Assim, Graciano convidou o prestigiado general espanhol Teodósio para governar o Império Romano do Oriente.

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Para lidar com o problema dos bárbaros, dentro e fora das fronteiras do Império, Teodósio precisava de soldados. Porém, quinze anos de combates, e de várias derrotas, contra germânicos e persas tinham exaurido as fileiras dos exércitos romanos.

Muitos, como eu, creem (embora a questão seja controversa) que o negligenciamento das legiões das fronteiras, em detrimento do exército central móvel, como decorrência das reformas de Constantino, foi uma das causas da decadência da capacidade de recrutamento militar, que era o maior problema nesta área, no final do Império Romano, embora outras causas, tais como o provável decréscimo populacional no século III devido a pestes, a disseminação do instituto do colonato e as próprias perdas em batalhas certamente tiveram grande peso.

As fontes e a arqueologia dão a entender que cada legião era um pólo de romanização das fronteiras onde estavam aquarteladas, e que eram elas que cuidavam de recrutar e preencher as suas fileiras ao longo do tempo. Quando elas foram transformadas em tropas de segunda linha, o recrutamento começou a diminuir, e isso piorou ainda mais quando os bárbaros passaram a devastar as regiões fronteiriças, o que era propiciado pela nova estratégia de defesa em profundidade adotada a partir do século IV.

A solução de Teodósio para o problema foi recrutar os únicos guerreiros que mais facilmente estavam à disposição: os próprios bárbaros germânicos…Teodósio concedeu a várias populações germânicas, inclusive aos próprios Godos Thervingi (Visigodos), o direito de se estabelecerem no Império em áreas pré-determinadas na Dácia e na Trácia na condição de povos confederados do Império Romano (foederati), em troca do alistamento deles no Exército Romano.

Não obstante, em 382 D.C, valendo-se de seus contingentes marcadamente bárbaros, Teodósio conseguiu conter a ameaça resultante da invasão dos Godos. E, para a sorte dele, Fritigern, o chefe visigodo vitorioso em Adrianópolis, morreu naquele mesmo ano de 382. Como resultado, a situação romana parecia estar melhorando…

Com o emprego de seu exército romano barbarizado, Teodósio conseguiu derrotar vários usurpadores nas províncias e, até mesmo, conter outras invasões bárbaras, o que lhe valeu na época o cognome de “O Grande”.

Para muitos historiadores militares, a preferência de Teodósio por tropas germânicas foi a pá de cal no que ainda sobrava dos contingentes romanos tradicionais. Parece que, a partir de então, a única diferença digna de nota entre um exército romano e um germânico seria os estandartes imperiais e os motivos pintados nos escudos. Mesmo que se considere isso um exagero, o fato é que essa preferência pelos germânicos, sem dúvida, deve ter solapado a moral do resquício de tropas genuinamente romanas.

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Teodósio era um cristão devoto e seu reinado foi marcado pelo fortalecimento da igreja Católica e por medidas contra o paganismo. A mais notável foi o Edito de Tessalônica, que institui o Credo Cristão Niceno Trinitariano do Concílio de Niceia (Santíssima Trindade) como a religião oficial do império Romano.

Seguindo essa política, Teodósio extinguiu o Culto das Virgens Vestais, que datava desde o nascimento de Roma, com mais de mil anos de tradição, e proibiu a realização de cerimônias pagãs em público, o que acarretou, inclusive, o fim dos Jogos Olímpicos. Sentindo-se estimulados pelo apoio imperial, multidões de cristãos enfurecidos arrasaram os célebres templos de Serápis, em Alexandria, e de Apolo, em Delfos, este lar do famoso Oráculo, onde profetizava a Pitonisa.

O fato é que o momento pedia união e concórdia entre os romanos, e, certamente, as disputas religiosas não contribuíam para isso…

Entretanto, uma novidade, em 391 D.C, viria abalar a precária estabilidade aparentemente conquistada por Teodósio: os visigodos escolheram como o seu rei, Alarico (alguns consideram que foi em 395). Alarico entendia que os Godos poderiam conseguir arrancar muito mais do que os romanos até então tinham dado e resolveu fazer uma nova excursão fora do território que lhes fora concedido.

Enquanto Teodósio foi vivo, o prestígio desse imperador, de personalidade dominante e hábil estrategista, havia mantido Alarico relativamente obediente.

Todavia, em 395 D.C, Teodósio morreu em Milão (fazia já um século que a cidade substituíra Roma como a capital do Ocidente).

Teodósio foi o último imperador a governar ambas as metades do Império Romano e com a sua morte o seu exército central, que na verdade, em boa parte consistia de tribos de guerreiros bárbaros comandadas por chefes leais a ele, se dispersou.

Antes de morrer, Teodósio legou o Império aos seus dois filhos: Honório, que ficaria com a Parte Ocidental e que tinha apenas 8 anos quando na morte do pai; e Arcádio, de 12 anos, que reinaria sobre a Parte Oriental.

Como tutores dos garotos e verdadeiros regentes do Império, Teodósio nomeou dois homens de sua confiança: para Honório, o marechal Flávio Estilicão (Flavio Stilicho), um militar romano, filho de pai vândalo e mãe romana. E para Arcádio, foi nomeado Rufino, um alto funcionário palaciano e homem de Estado que já ocupara inclusive o cargo de cônsul.

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Ocorre que Rufino odiava Estilicão, E as muitas intrigas e sabotagens que o primeiro urdiria contra o segundo, nos anos vindouros, as quais ocorreram em um quadro de extrema gravidade, quando mais se exigia colaboração estreita entre as duas metades do Império, acabaram contribuindo para a ruína de Roma.

Estilicão era um hábil militar e extremamente devotado à casa de Teodósio. O seu último grande serviço a Teodósio, antes deste morrer, havia sido a derrota do usurpador Eugênio, que havia sido colocado no trono, em 392 D.C., pelo general franco Arbogaste, que era o homem-forte do Império do Ocidente e que só não se auto proclamou imperador, após a morte de Valentiano II (o colega de Teodósio no Ocidente), porque ele era bárbaro e, portanto, um monarca inaceitável para a sociedade romana.

Faremos agora uma pausa para recapitular alguns fatos verificados nos anos que antecederam a morte de Teodósio, importantes para o contexto:

Valentiniano II era um mero fantoche nas mãos de Arbogaste, como demonstra o registro histórico que conta que, certo dia, aquele imperador comunicou ao general franco que o mesmo estava demitido, ao que este teria respondido: “Você não me deu o meu cargo e nem pode tirá~lo“…

Quando Valentiniano II morreu, oficialmente por suicídio, mas provavelmente assassinado a mando de Arbogaste, a relação, já conflituosa, entre o Ocidente e o Oriente piorou, pois Eugênio, o novo imperador-fantoche, e seu “padrinho” Arbogaste passaram a apoiar nitidamente a corrente simpática ao paganismo revitalizado que dominava o Senado de Roma, inclusive reinstalando na Cúria o Altar da Vitória (que tinha sido erigido por Otávio, após derrotar Marco Antônio e Cleópatra, em Actium, em 29 A.C., .e ostentava uma bela estátua alada de ouro da deusa, que tinha sido capturada dos epirotas na Guerra contra Pirro, em 272 A.C.

A Batalha do Rio Frigidus

Isso foi mais do que Teodósio podia suportar. O devoto Imperador Romano do Oriente decidiu acabar com o renascimento pagão e começou a se preparar para invadir o Ocidente e entrar na Itália para derrubar Eugênio e Arbogaste. Ele formou um exército recrutando e treinando romanos de nascença, fato que não ocorria desde a destruição do Exército do Oriente pelos visigodos em Adrianópolis, 15 anos antes.

Em 394 D.C,, o novo exército romano do Oriente estava pronto e deixou Constantinopla rumo à fronteira com o Ocidente (em Ilyricum – o território ocidental começava no que hoje é a Sérvia).

Alarico recebeu ordens para que os visigodos também participassem da ofensiva, devendo juntarem-se ao exército comandado em pessoa pelo Imperador Teodósio, que teria, sob suas ordens, o general Estilicão e o próprio Alarico.

O avanço pelas províncias limítrofes foi fácil, assim como a passagem pelos Alpes Julianos (que separam o que hoje é a Itália da Eslovênia), pois Arbogaste decidiu esperar o ataque próximo à cidade de Aquileia, no norte da península.

Quando, em setembro de 394, chegou no Rio Frigidus e viu as tropas ocidentais aquarteladas, Teodósio mandou os visigodos atacarem. O terreno era desfavorável e metade dos soldados visigodos morreu neste ataque (cerca de 10 mil homens). Inclusive, muitos acreditam que Teodósio intencionalmente quis enfraquecer os bárbaros, para diminuir a eterna ameaça que eles representavam ao Império, apesar deles, momentaneamente ,estarem do seu lado.

Porém, no dia seguinte, quando Arbogaste, achando que o exército de Teodósio não se recuperaria do revés sofrido, mandou uns destacamentos atacarem o acampamento oriental, Porém, o matreiro imperador subornou os soldados inimigos e acabou ganhando esse inesperado reforço. Em seguida, quando Tedoósio deslocava o exército por uma passagem estreita, Arbogaste ordenou novo ataque de emboscada Porém, no exato momento em que eles iriam atacar, soprou com força de tempestade o característico vento daquela região, chamado até hoje de Bora, jogando grande quantidade de poeira nos olhos dos atacantes, atrapalhando-os de tal forma que foram desbaratados pelos soldados orientais.

Após a derrota, Eugênio, foi exibido em várias cidades como troféu de guerra, e, em seguida, ele foi decapitado; Arbogaste, após fugir e vagar uns dias pelos Alpes, cometeu suicídio.

Voltou, assim, Teodósio, como já observado, a reinar sobre as duas metades do Império, porém não por longo tempo, pois morreria no ano seguinte, em 395 D.C.

Alarico, convicto de que os godos eram os que mais tinham se sacrificado pela vitória de Teodósio na Batalha do Rio Frígido, após a morte deste imperador passou a exigir altas recompensas para si e para o seu povo, mas não obteve o reconhecimento pretendido.

O rei Alarico x Estilicão

Desapontado, ainda em 395 D.C, Alarico foi eleito formalmente Rei pelos Visigodos (alguns historiadores consideram que isso ocorreu em 391) e liderou uma revolta do seu povo contra o Império, chegando, inicialmente, a se dirigira aos muros de Constantinopla, desistindo apenas em função da solidez dos muros da capital. Em seguida, os Visigodos devastam a Macedônia e a Grécia, saqueando e destruindo as históricas cidades de Corinto, Mégara. Argos e Esparta, porém poupando Atenas.

Enquanto isso, o exército do Oriente estava ocupado com uma incursão dos primeiros grupos de Hunos que começavam a chegar às fronteiras do Império e que, décadas mais tarde, assolariam Roma, unidos sob o comando de Átila.

Por isso, Rufino, o prefeito pretoriano do Leste e regente do Império do Oriente, tentou negociar em pessoa com Alarico. E. concomitantemente, Estilicão dirigia-se, através da Ilíria em direção à Grécia, para dar combate aos Visigodos. Porém, manipulado pelo seu rival Rufino, o jovem imperador Arcádio ordenou que Estilicão desse meia-volta e abandonasse o território do Oriente, que era tudo o que Alarico precisava no momento, já que o exército de Estilicão no momento era mais poderosos do que o dos Visigodos.

O comportamento traiçoeiro de Rufino foi tão mal recebido pelos romanos, que os próprios soldados da sua escolta o assassinaram. Livre, assim, da má influência de Rufino, Arcádio chamou Estilicão de volta.

O leal e patriota general acedeu prontamente e, entrando na Grécia com seu exército, conseguiu, em 397 D.C., cercar Alarico nas montanhas do Peloponeso, de ele onde somente conseguiram escapar com muita dificuldade. Na verdade, naquele momento, os Visigodos ficaram numa posição tão difícil que Estilicão, na época, foi acusado de ter deixado intencionalmente eles escaparem e tal acusação é objeto de debates até hoje. Para alguns, Estilicão teria recebido, novamente ,ordens de partir e por isso não liquidou Alarico; para Zózimo, historiador romano do período, o general romano seria confiante em excesso, além de gostar demasiadamente de luxo e mulheres. Outros acreditam que as tropas de Estilicão, de contingentes majoritariamente germânicos, não eram confiáveis e relutaram em dar cabo dos seus “primos”. E há quem diga que Estilicão teve que lidar com a revolta de Gildo, na África, que estourou no mesmo ano.

O fato é que Alarico e seus visigodos conseguiram escapar em direção ao norte, cruzando e pilhando o Épiro e chegando à Ilíria, e ainda levando consigo o produto do saque à Grécia.

Mais grave, para os romanos contudo, foi o fato de Alarico, no final dessa campanha, ter conseguido fazer o fraco Arcádio nomeá-lo Marechal das Forças Armadas (Magister Utriusque Militiae) do Oriente, o que permitiu aos visigodos ter acesso aos arsenais e fábricas militares do Estado Romano em Ilyricum.

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Nesse meio tempo, Estílicão, além de ter de lidar com a revolta na África, ainda teve que combater uma guerra na Britânia.

Percebendo a fraqueza da parte ocidental, o insaciável Alarico voltou a sua cobiça para a Itália, cujas regiões central e sul, intocadas por invasores estrangeiros fazia mais de 600 anos, ofereciam a perspectiva de polpudos saques…

Em 402 D.C, Alarico conduziu seu exército para Milão, a então já centenária capital do Império Romano do Ocidente, e, desafiadoramente, sitia o próprio imperador Honório.

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Contudo, mesmo após se armar nos arsenais imperiais da Ilíria, aos bárbaros ainda faltava o necessário  “know-how” para o assédio às poderosas muralhas de Milão.

Mais uma vez, a situação foi salva por Estilicão, que derrotou Alarico em Polentia, no Piemonte, capturando, inclusive a esposa do rei bárbaro. Alarico, foi obrigado a abandonara a região, e, em 403 D.C., ele foi novamente derrotado por Estilicão nas cercanias de Verona, decidindo voltar para a Ilíria.

Ravena, a nova capital do Império

A grande consequência dessa incursão de Alarico foi convencer o imperador Honório a deixar Milão e estabelecer a Corte em Ravena. O motivo da escolha é que Ravena era uma cidade cujo acesso por terra somente poderia ser feito cruzando-se extensos pântanos que faziam parte de uma laguna e, portanto, ela era muito difícil de ser invadida pelos bárbaros. Além disso, a cidade poderia se comunicar por mar com todo o império, valendo-se do porto militar fortificado de Classe.

Ravena seria a capital do Império Romano do Ocidente até a queda deste, em 476 D.C e , posteriormente, seria o centro da Itália bizantina, de 540 a 751 D.C. Pretendo, um dia, conhecer essa cidade, onde ficam várias igrejas e construções que guardam os mais belos mosaicos da arte bizantina.

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E a mudança da capital do Império para Ravena teria influência decisiva na estratégia imperial que seria adotada  nos cercos  que Alarico viria a submeter Roma…

A invasão da Gália – a queda da fronteira do Reno

Infelizmente, para os romanos, o inverno rigorosíssimo do ano de 406 D.C contribuiria para um fato desastroso, que, para boa parte dos estudiosos, teve consequências irreversíveis que levaram o declínio do Império Romano do Ocidente a um “ponto-de-não-retorno” :

O rio Reno marcava, desde a Conquista de Gália, por Júlio César, em 52 A.C., a fronteira entre a civilização mediterrânea e o mundo dito bárbaro germânico.

Essa fronteira não era protegida por muros de pedra, como a Muralha de Adriano, na Grã-Bretanha, que separava a província romana de Britânia das terras habitadas pelos bárbaros pictos e escotos – De fato, a fronteira da Gália com a Germânia era guardada por uma série de torres de vigia fortificadas e quartéis situados em pontos estratégicos. Em algumas partes mais vulneráveis, onde o Rio Reno poderia ser mais facilmente atravessado, os romanos construíram também longas paliçadas de troncos.

Mas a grande proteção contra invasores era fornecida em si mesma pela largura do Reno.

Entretanto, naquele rigoroso inverno, aconteceu do Reno congelar. E isso foi aproveitado por um grande número de tribos bárbaras que tinham migrado para a margem oposta do Rio fugindo dos hunos. Eram sobretudo Vândalos, Suevos e Alanos. Para piorar a situação, quando essa horda passou o lado romano, não havia nenhuma tropa romana suficiente para resistir, pois, justamente naquele mês, Estílicão necessitara deslocar as tropas romanas na Gália para enfrentar a segunda invasão de Alarico à Itália.

A Gália foi, em seguida, devastada pelos invasores, que, desta vez, tinham vindo para ficar. Era a província mais rica do Ocidente e ela nunca mais se recuperaria; não muito tempo depois, viriam os Francos, os Alamanos e os Burgúndios. Aliás,, seguindo-se à invasão de 406 D.C., os Suevos e Alanos só foram parar em Portugal, onde os primeiros se estabeleceram até o século VI, quando seriam derrotados e incorporados pelos Visigodos.

Por incrível que possa parecer, em meio a esse caos, os generais romanos ainda gastavam seus parcos recursos para disputar o trono. De fato, logo após a invasão da Gália e o desaparecimento do exército local, o comandante da ultima legião da Britânia vislumbrou uma oportunidade e se proclamou imperador romano do Ocidente. Adotando o nome de Constantino III, ele deixou a ilha e desembarcou na Gália para tentar conquistar essa importante província.

O “reinado” dele consistiria em vagar pela Gália e pela Hispânia, lutar algumas pequenas batalhas e, finalmente, ser reconhecido por Honório como co-imperador, pelo simples fato dele ser, no final de 408 D.C., o único romano que comandava alguma tropa no Ocidente, após o triste fim de Estilicão, que veremos adiante. Constantino III somente seria morto em 411 D.C.

O caos resultante da travessia do Reno pelos bárbaros era uma oportunidade que Alarico não poderia desperdiçar e ele intensificou a ofensiva contra Honório. Estilicão, dessa vez, premido pelas circunstâncias, concordou em pagar 4 mil libras de ouro a Alarico e o Visigodo, aceitando, deu meia-volta e retirou as suas tropas da Itália.

Para a surpresa geral, o Senado Romano sentiu-se ultrajado pelo pagamento do “resgate” do Ocidente a Alarico, tendo um senador inclusive assinalado, em um discurso indignado: “Isso não é um tratado de paz, mas um pacto de servidão!“. Talvez ele tenha se iludido de que os romanos ainda viviam os tempos gloriosos dos Cipiões, César ou Trajano.

Esse fato, mais a invasão da Gália e a revolta de Constantino III, minaram o prestígio de Estilicão na Corte de Honório, E o general ainda continuava enredado nas intrigas da Corte e concentrado nas disputas entre Oriente e Ocidente.

Em 408 D.C., Estilicão conseguira casar a sua filha, Thermantia, com o próprio Imperador Honório, que recém tinha ficado viúvo, tornando-se, assim, um membro da família imperial. Cresceram as suspeitas que o romano metade vândalo aspirava o trono para si. As suspeitas cresceram quando Arcádio, o imperador do Oriente, morreu. Honório, como imperador romano, planejou ir à Constantinopla tratar da sucessão do irmão falecido, mas foi aconselhado a não ir por Estilicão, que se ofereceu para ir no lugar dele.

No início de agosto de 408 D.C., algumas tropas se rebelaram na Itália, provavelmente instigadas pelos adversários políticos de Estilicão. O general se refugiou em Ravena.

Olímpio, um ministro da corte de Honório, convenceu o jovem imperador que Estilicão planejava usurpar o trono do Oriente. Honório, indignado, ordenou a morte do fiel e valoroso general. Consta que Estílicão poderia ter facilmente resistido à sua sentença de morte, pois eram muitos os soldados fiéis a ele, mas o relato é que ele aceitou, resignada e obedientemente, o seu fim. Ele foi executado em 22 de agosto de 408 D.C. Pouco depois, o seu filho, Euquério, também seria executado.

A execução de Estilicão foi uma flechada que Honório deu no próprio peito. Logo após a execução do infeliz general, alguns populares romanos atacaram as famílias de soldados bárbaros federados que formavam o exército de Estilicão e cerca de 30.000 soldados desse exército desertaram e fugiram, juntando-se a ninguém menos do que…Alarico!

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O primeiro cerco de Roma

Em setembro de 408 D.C., um mês após a morte do seu maior adversário, Alarico e seu exército, agora reforçado, já estavam às portas de Roma. Começava o Primeiro Cerco de Roma.

Alarico esperava subjugar a Cidade pela fome, já que tentar invadi-la sem máquinas de assédio seria muito difícil e arriscado. Ela era protegida por imponentes muralhas e a sua população, para a época,  é estimada entre 600 mil a 800 mil habitantes. De qualquer modo, o pânico se instalou em Roma. Havia 800 anos desde a última vez que algo assim tinha ocorrido. Mesmo o temível Aníbal não chegara a sitiar Roma. Os que professavam o paganismo pediram autorização para celebrar os ritos pagãos pedindo proteção aos antigos deuses. Consultado, o Papa Inocêncio concordou, sob a condição de que as cerimônias fossem celebradas em particular.  Contudo, os sacerdotes pagãos desistiram, pois os ritos tinham que ser celebrados no Fórum Romano.

Uma delegação do Senado foi negociar com o rei visigodo. Os senadores perguntaram quais eram as exigências de Alarico. Este exigiu que os romanos entregassem “todo o ouro, toda a prata, todos os utensílios domésticos e todos os escravos germânicos que existiam na Cidade“. Os senadores, sarcasticamente, replicaram: ” E o que você pretende deixar conosco? Alarico respondeu:

“Vossas vidas”.

Insistindo, os senadores, tentaram blefar e afirmaram que as centenas de milhares de cidadãos de Roma tinham recebido treinamento militar e estavam preparados para luta. O bárbaro riu e afirmou:

Quanto mais grossa é a grama, mais fácil cortá-la…”

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Quando a fome começou a incomodar demais (Roma dependia dos suprimentos de grãos que subiam o Rio Tibre, agora bloqueado pelos godos, que vinham transportados do Egito e do Norte da África, via Mediterrâneo), Roma finalmente cedeu e entregou a Alarico 5,000 libras de ouro, 30,000 libras de prata, 4,000 túnicas de seda, 3,000 peles tingidas de escarlate e 3,000 libras de pimenta. Milhares de escravos fugiram da cidade e se juntaram a Alarico, estimando-se que isso aumentou as suas fileiras para 40 mil homens. Momentaneamente saciado, Alarico levantou o sítio e foi para o norte, na região da Etrúria, em dezembro de 408 D.C.

Convém ressaltar que, embora possa parecer que assistir imóvel o cerco a Roma fosse uma covardia, ou algo inaceitável, o comportamento de Honório nesse episódio tinha bastante racionalidade: O Imperador e sua Corte estavam seguros em Ravena, onde os Visigodos não se atreveriam a atacá-los. Ele, de fato, não tinha mais um exército, mas havia uma chance de receber alguma ajuda de Constantinopla. Honório poderia esperar que Alarico e suas forças fossem diminuídas pela peste ou até mesmo pela fome, já que os bárbaros não eram muito versados em logística. Enquanto isso, ele tinha a frota romana no Porto de Classe e podia controlar o suprimento de grãos africanos.

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O segundo cerco de Roma

E foi isso que aconteceu quando Alarico sitiou Roma pela segunda vez.

Em 409 D.C, os senadores romanos mandaram duas delegações à Ravena para pedir a Honório para assinar um tratado de paz com Alarico. Nesta segunda vez, até o Papa Inocêncio foi junto! Nesse ínterim, Ataulfo, o cunhado de Alarico, comandando um grande contingente de Godos, cruzou os Alpes Julianos com o objetivo de se juntar ao último. Honório ordenou que Olímpio e 300 soldados hunos da guarda imperial interceptassem Ataulfo. Eles teriam conseguido matar mais de mil godos, mas acabaram sendo forçados a se retirar para Ravena. Olímpio caiu em desgraça, foi demitido e fugiu para não ser executado. Foi substituído por Jovius, que tinha boas relações com Alarico.

Jovius se encontrou com Alarico e este lhe passou suas novas exigências: um pagamento anual em ouro e mais terras para os Godos, em várias províncias. Jovius transmitiu tudo ao imperador e sugeriu que fosse dado a Alarico o cargo de Comandante das Forças Armadas do Ocidente (Magister Utriusque Militae). Honório não só recusou, como ainda enviou uma carta a Alarico, cujos termos foram considerados por ele insultuosos.

Furioso, Alarico rompeu com as negociações. Parece que a súbita coragem de Honório devia-se ao fato de ter em perspectiva receber o reforço de 10 mil mercenários hunos. Honório, inclusive, exigiu que Jovius e o seu staff jurassem pela saúde do imperador que eles fariam guerra aos Godos. Quando soube desse rumor, Alarico “baixou a bola” e reduziu suas exigências. agora propondo que os godos recebessem terras na Nórica e um suprimento anual de trigo, o que chegou a ser considerado uma demanda razoável pelos contemporâneos. Mas mesmo esses termos mais suaves foram negados pelo Imperador.

Com isso, Alarico resolveu sitiar Roma novamente pela segunda vez, no final de 409 D.C. Temendo a volta da fome, o Senado foi negociar com Alarico. Desta vez, o rei visigodo procurou obter concessões que lhe dessem poder político e enfraquecessem Honório. Ele exigiu que o Senado apontasse um senador das suas fileiras e o proclamassem imperador. Mesmo depois de quatro séculos e meio do fim da República, o reconhecimento pelo Senado era uma formalidade essencial para a legitimação de um pretendente ao trono imperial. O Senado acedeu e escolheu Prisco Átalo, que, prontamente, nomeou Alarico Magister Utriusque Militae, e Ataulfo, Comes Domesticorum Equitum (Conde da Cavalaria da Guarda do Imperador). Obtidas essas concessões, o cerco, mais uma vez, foi levantado.

O “reinado” de Prisco Átalo durou só alguns meses, sendo ele dispensado pelo próprio Alarico, pois, esse usurpador fantoche estava atrapalhando as possibilidades de um acordo com Honório. Com efeito, a situação deste tinha ficado bem difícil porque o primeiro vinha assediando o governador da África, Heracliano, para que este abandonasse a Honório, inclusive enviando uma expedição para lá para forçá-lo. Por sua vez, Jovius havia desertado e se juntado a Prisco Átalo. Tudo isso fazia parecer bem provável que Honório acabaria cedendo às exigências de Alarico.

Na verdade,  Honório, em pânico, já fazia planos para fugir de Ravena e se abrigar em Constantinopla. Foi quando chegaram nas docas 4 mil soldados enviados pelo Imperador Romano do Oriente, Teodósio II, sucessor de Arcádio, com o objetivo de defender Ravena das forças de Alarico. Agora, realmente, a sorte de Honório parecia estar mudando, pois também chegou a notícia de que Heracliano havia derrotado as forças enviadas por Prisco Átalo e se mantinha fiel ao Imperador, inclusive mandando cortar o envio de grãos à Roma, devido à traição do Senado em dar suporte ao último.

Alarico tentou mais uma vez um acordo e acertou um encontro em pessoa com Honório, a 12 km de Ravena. O imperador mandou dizer que concordava. Na data marcada, enquanto esperava a chegada de Honório, Alarico foi atacado por Sarus, um chefe militar godo, que era um grande rival e inimigo de Alarico e de Ataulfo, e estava a serviço da corte imperial, mas eles conseguiram escapar. Em suma: o encontro tinha sido uma armadilha tramada pelo Imperador.

O terceiro cerco – O Saque de Roma

Alarico, cansado das trapaças romanas, marchou em direção à Roma, já que Ravena era inexpugnável. Começava o terceiro cerco.

O cerco durou cerca de um mês. Honório confiava que a Cidade resistiria por um tempo suficiente para enfraquecer os sitiantes godos. Então, o seu pequeno, porém renovado exército teria uma chance de derrotar os bárbaros. Porém, a verdade é que Roma já estava bem enfraquecida pelos dois cercos anteriores. Restava agora confiar nas Muralhas Aurelianas.

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Quem já visitou Roma certamente passou pelas suas bem preservadas muralhas, erguidas pelo Imperador Aureliano, entre 271 e 275 D.C, como resposta à grave crise militar do final da 2ª metade do século III. Ainda hoje, elas são bem imponentes e, há 1600 anos atrás, elas deveriam ser mais impressionantes ainda.

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Contudo, não há muralha nem fortificação que resista se quem abre o portão está do lado de dentro…

E, no dia 24 de agosto de 410 D.C.,  alguém, nunca se saberá quem, abriu a Porta Salaria, um dos inúmeros portões de acesso à cidade,  no caso um portão secundário, para que os Godos entrassem.

Os Godos permaneceram apenas três dias dentro da Cidade Eterna. Eles não tiveram nem tempo suficiente para promover uma destruição geral. Mas eles queimaram as Basílicas Emília e Júlia, esta erguida por Júlio César, que eram grandes salas de tribunais judiciários no Fórum Romano. O incêndio foi tão intenso que, até hoje, se vêem grudadas no piso moedas romanas, que derreteram pelo forte calor. As moedas são do reinado de Honório.

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Os Jardins de Salústio também foram destruídos. Os Godos saquearam alguns monumentos públicos e mausoléus, como os de Augusto e de Adriano. As cinzas desses grandes imperadores ali guardadas foram dispersadas.

Quem sofreu bastante foram os moradores ricos de Roma. Aqueles que não mostrassem onde estavam os seus bens valiosos eram torturados. Muitos morreram.

Alarico era cristão, embora do credo Ariano, e poupou as Igrejas, mas do Palácio Laterano, a residência do Papa, ele roubou um grande vaso cerimonial de prata, pesando 2.200 libras.

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Mas talvez a maior presa de Alarico tenha sido Galla Placidia, a filha do grande Teodósio I, e irmã do Imperador Honório, na flor dos seus 20 anos, uma das personagens femininas mais fascinantes da história romana.

Após três dias, Alarico, sabiamente deixou Roma rapidamente, provavelmente para poupar seu exército do risco de contrair doenças ou, com menor probabilidade, de ser apanhado por Honório dentro de Roma.

O rei visigodo dirigiu-se, em seguida, para o Sul, em direção as ricas e antigas cidades da Campânia, que por também estarem a 800 anos livres de invasores, ofereciam a perspectiva de generosas pilhagens.

Todavia, ainda no final daquele ano de 410 D.C, Alarico ficou doente e morreu. Consta que os Visigodos o enterraram no leito do rio Busento, próximo à cidade de Cosenza. Para tanto, eles teriam desviado o curso do rio, cavado a tumba e sepultado o rei com o seu tesouro, e, depois, restituído o rio ao seu curso normal. Os escravos que fizeram o trabalho foram mortos, para que o local exato nunca fosse revelado.

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Se isso for mesmo verdade e, um dia, esse tesouro, que deve conter muitos objetos romanos de ouro e prata saqueados, for achado, de certa forma, Alarico, ironicamente, terá dado uma grande contribuição para a preservação da arte romana…

Após a morte de Alarico, o seu irmão Ataulfo foi escolhido Rei dos Visigodos. A história conta que ele se apaixonou profundamente por Galla Placidia, casando-se com ela.

O saque de Roma ecoou pelo mundo com uma intensidade que somente podemos avaliar comparando-o com o ataque de 11/9 ao World Trade Center!

                                                                                    FIM

SEVERO, O TETRARCA

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Em 16 de setembro de 307 D.C., o Imperador Romano Flávio Severo foi executado por ordens do seu colega Galério, na estalagem chamada Tres Tabernae, que era um tradicional ponto de pernoite na Via Ápia para os viajantes que rumavam em direção à Roma,  que ficava a 50 km de distância.

Flavius Valerius Severus (Severo) era mais um dos muitos oficiais de origem ilíria que, durante a segunda metade do século III D.C. e o início do século seguinte, assumiram o comando do Exército Romano e,  valendo-se desta posição, alcançaram o trono imperial. O mais importante dos generais desse período foi Diocleciano, que reorganizou militar e administrativamente o Império Romano, a partir da sua coroação, em 284 D.C.

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Entre as inovações introduzidas por Diocleciano no Império estava a divisão do poder imperial,  que costumava ficar centralizado na pessoa de um só monarca, que governava a partir da cidade de Roma, entre quatro governantes: dois deles mais graduados, que detinham o título de “Augustos“, com as respectivas capitais em Milão e Nicomédia, e os outros dois, situados em plano um pouco inferior e subordinados aos primeiros, intitulados “Césares“, instalados em Trier e Sirmium. Esse novo regime de quatro governantes imperiais recebeu o nome de “Tetrarquia“.

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De acordo com o plano de Diocleciano, a sucessão dos Augustos deveria ocorrer-automaticamente, com a substituição deles pelos Césares que lhes eram subordinados, motivada pela morte, incapacidade ou aposentadoria dos primeiros sendo que, em seguida, os novos Augustos nomeariam dois novos Césares, e assim por diante.

Inicialmente, as coisas ocorreram de acordo com o plano de  Diocleciano (que já havia escolhido seu amigo e colega de generalato, Maximiano, como Augusto, em 286 D.C.)., e os dois, por sua vez indicaram, em 293 D.C, outros dois generais, Galério e Constâncio Cloro, para o posto de Césares.

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Assim, garantida pela incansável energia e o enorme prestígio de Diocleciano, a Tetrarquia, aparentemente, estreara bem.

Porém, em 305 D.C., Diocleciano,  aos 60 anos de idade, doente e sentindo-se cansado, resolveu se aposentar, abdicando em favor de Galério.  Essa era a primeira vez, após mais de três séculos de Império Romano, que um imperador abdicava voluntariamente do trono.

Diocleciano foi viver em seu espetacular palácio-fortaleza construído na cidade de Salona, em sua terra natal, na Dalmácia. Boa parte desse palácio ainda existe e em seu vasto interior nasceu a atual cidade de Split, na Croácia.

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Seguindo, naquela oportunidade, as regras da Tetrarquia, o colega de Diocleciano, Maximiano, também abdicou em favor de Constâncio Cloro.  A grande expectativa agora era em relação a quem seriam os novos Césares

A maioria do público achava que Maxêncio, o filho de Maximiano, e Constantino, o filho de Constâncio Cloro, seriam os prováveis escolhidos.

Porém, grande foi a surpresa quando os nomes de Maximino Daia, que era sobrinho de Galério, e do general Flávio Severo, que era um velho camarada de armas e amigo de Galério, foram anunciados. A Tetrarquia, que mal havia começado, já nascia, assim, ameaçada em sua estabilidade pelo preterimento de dois candidatos naturais à sucessão.

No caso de Severo, o espanto da sua coroação foi  ainda maior, diga-se de passagem, pelo fato dele ser um notório beberrão.

Os primeiros a transformarem em ações a sua insatisfação com a sucessão ‘tetrárquica” foram Constantino e seu pai., que se encontravam em campanha na Britânia (Constantino, que vivia na condição de virtual refém de Galério, em Nicomédia, havia conseguido arrancar deste imperador uma autorização relutante para auxiliar Constâncio Cloro, que estava muito doente).

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Em 25 de julho de 306 D.C., na cidade de Eburacum (atual York), Constâncio Cloro  morreu, não sem antes dar o sinal verde ao filho para lutar pelo trono. Imediatamente, Constantino foi aclamado Augusto pelos soldados, por iniciativa do chefe germânico Chrocus, um bárbaro alamano a serviço de Roma, que,  à maneira dos Germanos, mandou os seus homens erguerem Constantino em cima de um escudo.

Quando a notícia chegou à Nicomédia, Galério ficou enfurecido, mas premido pelas circunstâncias, ele acabou reconhecendo  a aclamação de Constantino, mas conferindo-lhe o posto menor de César.

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Porém, para suceder o falecido pai de Constantino na posição de Augusto do Ocidente, Galério, nomeou o César de Constâncio Cloro, o seu velho amigo Severo , ainda durante o verão daquele ano de 306 D.C, o que  ainda estava de acordo com as regras da Tetrarquia.

Entretanto, em Roma, a Tetrarquia logo sofreria um novo abalo, em adição à aclamação de Constantino, uma vez que, em Roma, Maxêncio também se revoltou terminando por ser aclamado imperador pelas tropas remanescentes da Guarda Pretoriana, em 28 de outubro de 306 D.C. (estava nos planos de Galério extinguir a Guarda).

Ao saber da nova revolta, Galério ordenou que Severo deixasse a sua capital em Milão e marchasse com o seu exército até Roma para sufocar a rebelião. Ocorre que a maior parte das tropas do exército de Severo  tinha sido comandada anteriormente pelo imperador-aposentado Maximiano, que era ninguém menos do que pai do revoltoso Maxêncio

Maxêncio mandou emissários ao pai propondo dividir com ele o posto de Augusto do Ocidente. Assim, quando Severo alcançou as muralhas de Roma, as tropas dele desertaram e se uniram ao seu antigo comandante e a Maxêncio.

Sem alternativa, Severo fugiu para Ravena, onde ele entrincheirou-se atrás dos impenetráveis pântanos que circundavam a posição da cidade (uma característica estratégica que influenciaria muitos acontecimentos durante a História do Baixo Império Romano e  até na Idade Média)

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Sabendo da dificuldade de tomar Ravena, Maximiano ofereceu a Severo a proposta de que a sua vida seria poupada e ele receberia um tratamento digno caso ele se rendesse pacificamente. Severo, provavelmente por julgar que sua situação já estava muito enfraquecida, aceitou. Porém, quando ele se entregou a Maximiano, por volta de abril de 307 D.C., foi preso e enviado para a estalagem de Três Tabernas, na Via Ápia.

Quando Galério, conduzindo o seu exército, finalmente invadiu a Itália para combater a rebelião dos usurpadores, o seu amigo Severo foi assassinado, em 16 de setembro de 307 D.C.. por ordens de Maxêncio (Em outra versão, Severo teria sido forçado a cometer suicí­dio).

O filho de Severo, Flávio Severiano, conseguiu escapar e foi se refugiar na corte de Galério, em Nicomédia, na Bití­nia (atual Izmir, na Turquia).

Galério, contudo, não conseguiu fazer uma campanha bem sucedida contra Maximiano e Maxêncio, e, temendo a falta de víveres, ele teve que se retirar da Itália.

Em 308 D.C., Galério, contando com a ajuda de Diocleciano,  preocupados com a situação caótica em que a Tetrarquia se encontrava,  convocou os rivais para uma conferência em Carnuntum, cidade fortificada situada no sudeste da atual Áustria.

Conderência de Carnuntum resultou em um acordo que estabelecia um equilíbrio precário: Maximiano, que agora estava rompido com   Maxêncio, pelo fato dele ter censurado a conduta  que o filho vinha tendo como governante em Roma, e tinha ido se refugiar junto a Constantino, na Gália, foi compelido a se aposentar novamente. Maxêncio foi declarado um usurpador. Constantino, que tinha se aliado com Maximiano e Maxêncio,  teve o seu posto de “César” confirmado, o mesmo ocorrendo com Maximino Daia, no Oriente (para o desagrado de ambos, que reivindicavam o tí­tulo de Augusto, o que eles acabariam conseguindo, em 310 D.C.).

Para aumentar os fatores de instabilidade, Galério nomeou Licínio, que era outro amigo e companheiro de armas seu, para ser o Augusto do Ocidente.

Quando Galério morreu, em 5 de maio de 311 D.C., Maximino e Licí­nio dividiram entre si as províncias do Oriente. Esse acordo, porém,  teve vida curta, porque Licí­nio preferiu aliar-se a Constantino, e Maximino Daia, a Maxêncio, que foi derrotado e morto por Constantino em Roma, na Batalha de Ponte Mílvio, em 28 de outubro de 312 D.C.

Quando Licínio atacou e derrotou Maximino Daia, em 30 de abril de 313 D.C, Flávio Valeriano, o filho de Severo, que tinha sido nomeado por Maximino governador da Isáuria, foi considerado por Licínio como uma ameaça à sua legitimidade ao trono e, em decorrência disso, ele foi executado.

A Tetrarquia havia durado apenas 20 anos e falhara em seu principal propósito de dar estabilidade ao Império Romano e resolver o problema da sucessão.

TIBÉRIO – UM IMPERADOR RELUTANTE

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Tiberius,_Romisch-Germanisches_Museum,_Cologne foto Carole Raddato(Cabeça de Tibério, Museu Romano-Germânico, Colônia, foto de Carole Raddato)

NASCIMENTO, INFÂNCIA E JUVENTUDE

Em 16 de novembro de 42 A.C., nasceu Tiberius Claudius Nero (Tibério), membro de uma das famílias mais tradicionais da nobreza romana, cujos ancestrais tinham ocupado os mais importantes postos desde o início da República, desde o longínquo ano de 494 A.C.. O menino recebeu o mesmo nome de seu pai, que havia sido Cônsul, no ano de 50 A.C.

Tibério era filho de Lívia Drusila, que, poucos anos após se divorciar de seu pai, mesmo estando grávida de seu irmão, Druso, o Velho, casou-se, em 39 A.C, com Otaviano, o herdeiro de Júlio César, sendo que seu novo marido, em uma década, tornaria-se o primeiro imperador romano, com o nome de Augusto.

Em 33 A.C., o pai de Tibério faleceu e foi ele quem fez o discurso fúnebre na tribuna dos Rostra, no fórum romano, diante da multidão, quando tinha apenas 9 anos de idade.

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(Cabeça de Lívia Drusila, molde do original da Glipoteca Ny Carlsberg, foto de Giovanni Dall’Orto)

O casamento de Lívia com Augusto fez Tibério entrar no círculo familiar do imperador, e, após a morte do pai dele, ele passou a viver na casa de Otaviano e Lívia, no Palatino, onde recebeu esmerada educação dos melhores tutores, como por exemplo, Teodoro de Gadara, que lhe ensinou Retórica.

Quando Otaviano celebrou o triunfo pela vitória contra Cleópatra (e Marco Antônio) pelas ruas de Roma, em 29 A.C., o menino Tibério, então com cerca de doze anos, recebeu a distinção de conduzir, ao lado de Marcelo,  a quadriga triunfal na qual ia o seu padastro.

A posição de Tibério na família imperial foi ainda mais reforçada quando ele casou-se com Vipsânia Agripina, filha do maior colaborador e amigo de Augusto, o general Marco Vipsânio Agripa, então cotado para ser o sucessor. Arranjado ou não este casamento, o fato é que Tibério e a esposa apaixonaram-se. Eles tiveram dois filhos: Druso, o Jovem, em 14 A.C., e uma outra criança, que morreu precocemente.

 (Tibério e Vipsânia Agripina)

Por sua vez, Augusto e Lívia não tiveram filhos e a única descendente do imperador era sua filha Júlia, nascida do seu casamento anterior com Escribônia, e que havia se casado com Agripa.

Porém, Agripa morreria em 12 A.C., deixando Júlia viúva com dois filhos pequenos, Caio César e Lúcio César, que já haviam sido adotados por Augusto em 17 A.C., fato que colocou os meninos na condição de prováveis sucessores do trono. Vale notar que essa adoção ocorreu após a morte do sobrinho e predileto de Augusto, Marcelo,  filho de sua irmã, Otávia, a  Jovem, ocorrida em 23 A.C., o que também demonstra como Augusto ia lidando com a questão da sucessão, em função dos imprevistos.

A condição de enteado do imperador fez com que que Tibério, aos 17 anos de idade, inciasse a sua carreira pública como Questor, apesar de não ter a idade legalmente exigida para o cargo. Nessa função, Tibério demonstrou competência para lidar com um problema de abastecimento de grãos, em Óstia.

O progresso de Tibério na carreira das magistraturas foi rápido e, em 13 A.C., novamente antes de ter a idade legal, ele foi escolhido Cônsul.

ASCENSÃO DE TIBÉRIO

Em 11 A.C, Augusto, chegou à conclusão que seu enteado Tibério, em caso de uma eventualidade (o já quinquagenário imperador tinha ficado gravemente doente onze anos antes), seria um bom candidato para ocupar o trono, pelo menos até a maioridade dos seus netos, Caio César e Lúcio César. Com essa finalidade, e provavelmente incentivado por Lívia, Augusto “pediu” (na verdade, provavelmente, ele deve ter ordenado) que Tibério se divorciasse de  sua adorada Vipsânia e se casasse com sua filha viúva,  Júlia.

Tibério, contrariado, teve que obedecer e casou-se com Júlia, tornando-se, agora, além de enteado, genro do imperador. Porém, segundo as fontes, certa vez, após o divorciar-se de Vipsânia, Tibério encontrou-a em algum evento social, ocasião em que copiosas lágrimas desceram pelo rosto dele, obrigando-o a se retirar do local e ir para casa.  E, ainda de acordo com o relato, algumas testemunhas teriam ouvido, no trajeto, Tibério implorar  aos céus, insistentemente, pelo perdão da ex-mulher. Foi uma cena  que certamente inspirou preocupação na família imperial, pois Suetônio conta que “foram tomadas precauções para que Tibério nunca mais tivesse a oportunidade de encontrar a ex-mulher novamente“.

Enquanto isso, Tibério prosseguiu a sua carreira no serviço público como advogado, atuando em defesa de diversas cidades gregas no Senado e também como acusador público de um senador que havia conspirado contra Augusto.

Depois disso, Tibério destacou-se na carreira militar e acabou se revelando um grande general. Ele comandou campanhas bem sucedidas na Panônia e na Germânia, estas muito bem descritas pela historiador Veléio Patérculo, que serviu sob as ordens dele. Foi Tibério o primeiro romano a descobrir a nascente do Rio Danúbio e ele também marchou à testa de seu exército até o Rio Elba, um feito notável. Assim, as vitórias de Tibério, na Germânia, abriram o terreno para estabelecer esta região como província romana, um projeto que, contudo, seria interrompido pelo Desastre de Varo, que narramos em uma das primeiras postagens de nossa página.

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(Campanha de Tibério na Germânia)

Graças a essas vitórias, Tibério foi o primeiro romano a receber os “ornamentos triunfais“, inaugurando esta nova forma de reconhecimento aos generais vitoriosos, já que os Triunfos, agora, passavam a ser reservados apenas ao Imperador, em pessoa. E, em 7 A.C., Tibério foi designado Cônsul e recebeu, em 6 A.C., o “Poder Tribunício” (Poder que conferia ao magistrado o poder de vetar todos os atos dos demais magistrados, transferido do cargo de Tribuno da Plebe ao Imperador, por Augusto, e que, ao longo dos anos, se tornara praticamente um reconhecimento da posição do receptor como a pessoa mais importante no Império, depois do Imperador).

Com os despojos obtidos na guerra contra os Germanos, Tibério encarregou-se de restaurar o Templo da Concórdia, no Fórum Romano, que só seria completado em 10 D.C.

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(Reconstrução do Templo da Concórdia, no Fórum, restaurado por Tibério – autor Lasha Tskhondia)

TIBÉRIO NA BERLINDA

Porém, foi após receber essas honrarias e liderar outra bem sucedida campanha, contra os Marcomanos, que Tibério, em 6 A.C, inusitadamente auto-exilou-se na ilha de Rodes. Há muitos debates sobre este misterioso exílio:

Em primeiro lugar, parece claro que Augusto nunca simpatizou muito com o reservado e frio Tibério, somente tendo-o favorecido por instigação da mãe dele, a sua influente esposa Lívia, e pela necessidade de ter um sucessor da família à mão, em caso de imprevisto.

Em segundo lugar, mas talvez mais importante, Caio César e Lúcio César, os já mencionados netos de Augusto,  estavam crescendo. O primeiro, inclusive, já havia sido designado, naquele ano, para ser cônsul quando alcançasse os 20 anos, embora ele ainda tivesse apenas 14 anos na ocasião.

Assim, Tibério provavelmente deve ter sentido a sua posição na sucessão imperial enfraquecida e decidiu retirar-se voluntariamente das intrigas pela sucessão do já quase sexagenário Augusto. Segundo Suetônio, essa explicação teria sido dada, posteriormente, pelo próprio Tibério, porém atribuindo-a ao nobre propósito de não ofuscar  e deixar o terreno livre para os dois rapazes.

Outro motivo que se cogita para o auto-exílio de Tibério em Rodes é o fato de que ele poderia estar se sentindo humilhado pela notória infidelidade da sua esposa Júlia,  a quem se atribuía publicamente a participação em vários episódios de adultério e até de orgias.

Consta que Augusto, sincera ou fingidamente, tentou impedir Tibério de partir, somente permitindo a viagem após uma curta greve de fome do genro.  Entretanto, depois da chegada de Tibério à ilha, o imperador passou a preferir que ele permanecesse longe de Roma e a situação de Tibério passou a ser a de um exilado de facto. Há até relatos de que ele chegou a ser hostilizado por algumas pessoas, que percebiam a situação dele como a de alguém que caiu em desgraça.

Para piorar, Augusto baniu Júlia de Roma, por causa dos adultérios, e decretou, em nome de Tibério, o divórcio de ambos.

Mas o destino,  que, segundo a suspeita de muitos, de vez em quando era ajudado por sua mãe Lívia,  parecia sorrir para Tibério, pois Caio César e Lúcio César morreriam no espaço de dois anos, entre 2 e 4 D.C.: Lúcio, por doença, aos 18 anos de idade, e  Caio, por ferimentos recebidos em batalha, na Armênia, aos 23 anos.

Consta que logo depois da morte de Lúcio César, ocorrida em 20 de agosto de 2 D.C., Augusto acabou cedendo aos apelos da imperatriz Lívia, e os do próprio Tibério, e, depois de oito anos de exílio, autorizou a volta do seu enteado para Roma, onde, após o retorno, ele se manteve como um cidadão privado, afastado de qualquer função pública.

Segundo uma passagem citada por Cássio Dião, em Rodes, Tibério estava acompanhado do famoso astrólogo Trasyllas, que, ao ver no horizonte um navio, teria previsto que ele trazia a mensagem de Augusto e Lívia chamando Tibério de volta à Roma. Prestigiado com o acerto da sua previsão, Trasyllas acompanharia Tibério, que acreditava piamente nos seus poderes de adivinhação, durante boa parte da sua existência.

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(Cabeça de Lúcio César)

Em  21 de fevereiro de 4 D.C., Caio César morreu na província romana da Lícia, no Oriente, após uma prolongado agravamento de sua saúde decorrente de um ferimento sofrido no final do ano 2 D.C., em um ataque traiçoeiro na Armênia, quando ele liderava uma campanha visando pacificar o referido reino-cliente de Roma. Alguns historiadores, como Tácito e Dião Cássio, suspeitam de que Lívia estaria por trás da morte dos dois rapazes, com o objetivo de afastá-lo do caminho de seu filho Tibério ao trono.

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(cabeça de Caio César)

HERDEIRO DO TRONO

Agora sem os seus dois herdeiros consanguíneos mais próximos, Augusto, naquele mesmo  ano de 4 D.C., no dia 26 de junho, adotou formalmente Tibério como herdeiro e sucessor, juntamente com seu último neto vivo, Agripa Póstumo, que era o irmão mais novo dos falecidos e tinha 16 anos de idade. E Tibério também recebeu, mais uma vez, o Poder Tribunício.

Augusto, contudo, ainda não havia abandonado totalmente a esperança de que um parente de sangue da gens Julia viesse a herdar o trono, pois o imperador exigiu, ao adotar Tibério, que este, por sua vez, adotasse o jovem Germânico, que era neto de sua irmã, Otávia, a  Jovem, fruto do casamento desta com o Triúnviro Marco Antônio.

Porém, em uma clara demonstração de que a posição de Tibério agora era inconteste,  em 7 D.C., Augusto ordenou o banimento de Agripa Póstumo, que foi exilado para a remota ilha de Planásia, na costa italiana. Vale citar que, de acordo com alguns relatos, o rapaz tinha o temperamento inconstante e era dado a ataques de fúria, um indício de que ele não estava apto para ser imperador.

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(Cabeça de bronze de Agripa Póstumo, Louvre, foto de Mbzt)

 

Depois disso, Tibério recebeu comandos militares proconsulares (imperium) para combater os inimigos do império na Panônia e na Germânia (ele teve que lutar contra os bárbaros germânicos que haviam destruído as 3 legiões de Varo). Em 13 D.C., Tibério recebeu poder consular compartilhado com Augusto, tornando-se, na prática, coimperador.

TIBÉRIO IMPERADOR

Assim, com a morte de Augusto, ocorrida um mês antes dele completar a avançada idade de 76 anos, em 19 de agosto de 14 D.C, a sucessão em favor de Tibério foi praticamente “automática”.

Mesmo assim, algumas fontes relatam que Lívia teria escondido a morte do imperador, até que Tibério, que estaria na Dalmácia, chegasse à Roma. Já outras fontes, segundo Cássio Dião, narram que Tibério chegou a receber pessoalmente algumas instruções e conselhos para o seu governo do próprio Augusto, em seu leito de morte.

Concomitantemente ou logo depois da morte de Augusto, Agripa Póstumo foi prontamente assassinado em Planásia. Tibério foi acusado de ser o mandante, mas negou veementemente essa acusação no Senado. Até hoje há discussão se ele de fato foi o responsável, ou se isso ocorreu por alguma ordem anterior de Augusto. Seja como for, essa medida extrema logo demonstrou ter alguma razoabilidade, pois, pouco tempo depois do fato, apareceu um impostor fazendo-se passar por Póstumo, e o tratante chegou a angariar algum apoio entre o populacho, causando tumulto, até ser capturado e executado.

Contudo, não havia precedentes para regular as relações do Príncipe com o Senado, já que Augusto, em seu longo reinado de quarenta anos, sem contar o tempo em que ele esteve à frente da República como Triúnviro, e período durante a guerra civil contra Marco Antonio ( cerca de 56 anos ), sempre fizera questão de se apresentar como um magistrado da antiga República que somente ocupou uma posição excepcional em decorrência de crises e guerras civis.

O fato é que o já citado temperamento frio, desconfiado, introvertido e orgulhoso de Tibério não facilitou em nada a tarefa de conciliar-se aquilo que, na prática, era uma monarquia, com uma assembléia representativa de uma elite aristocrática que  acreditava ter direito a administrar o Estado.

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Um episódio, relatado pelo historiador Tácito, já demonstra essas dificuldades:

Em uma das primeiras sessões do Senado após a sucessão , quando os senadores discutiam quais os cargos, títulos, poderes e províncias, entre todos aqueles que Augusto tinha paulatinamente reunido sob o seu cetro, iriam ser conferidos a Tibério, o futuro imperador fingia não querer tamanho fardo sobre suas costas, insinceramente recusando alguns deles, que sugeria que fossem conferidos ao Senado. Porém, essa relutância de Tibério, que foi considerada por muitos apenas uma atuação teatral, alongou-se por tanto tempo que o senador Asínio Galo, já impaciente com a encenação, perguntou, com ironia:

“Que parte do Império, então, ó César, vós quereis que vos seja confiada?”

Esse impasse durou praticamente um mês. Somente na sessão do dia 18 de setembro de 14 D.C., Tibério seria oficialmente aclamado imperador, sendo a demora devida não à resistência do Senado, mas à bizarra relutância do próprio imperador. Ele, por exemplo, recusou os títulos de “Augusto” e de “Pai da Pátria“.

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Ao contrário de Augusto, que, sabia muito bem manobrar seus apoiadores no Senado para que a vontade dele fosse imposta sob uma aparência de naturalidade e de preservação das tradições republicanas, Tibério demonstrou não ter tato nem astúcia para as sutilezas da política. De fato, ele quase sempre mostrava-se ambíguo e enigmático para os senadores, parecendo esperar que os mesmos adivinhassem o que ele realmente queria. Todavia, Tibério não assimilava bem quando havia oposição aos seus desígnios e isso, pouco a pouco, foi criando uma atmosfera de intrigas e de suspeita.

Uma passagem de Tácito exemplifica o desconforto e o desprezo que Tibério parecia sentir com relação ao cargo de imperador e às maneiras dos senadores. Certa vez, ao deixar um evento, ele foi cercado por senadores, que começaram a fazer reverências e pedidos. Tibério, então, teria comentado com um de seus acompanhantes:

“Que homens tão bem apropriados para serem escravos!”

MOTIM NA GERMÂNIA

Logo no início do reinado, estourou uma séria revolta entre as legiões da Germânia e da Panônia, as tropas mais numerosas e bem preparadas do Império, que estavam ocupadas lutando contra os bárbaros germânicos. Os soldados cobravam uma gratificação que tinha sido prometida por Augusto e não havia ainda sido paga por Tibério.

Germânico e o filho do imperador, Druso, o Jovem, foram enviados para lidar com os revoltosos e o primeiro, que chegou a correr risco à sua integridade física, conseguiu debelar a revolta. Em seguida, Germânico liderou essas tropas contra a coalizão de tribos germânicas que havia massacrado as legiões de Varo, invadiu a Germânia e conseguiu várias vitórias, recuperando duas das três águias-estandarte perdidas, até ser chamado de volta à Roma por Tibério para celebrar um grande triunfo, em 17 D.C. .Para o historiador Tácito, o temor em relação ao grande prestígio popular que essas vitórias deram a Germânico foi o verdadeiro motivo para que Tibério ordenasse a interrupção da campanha.

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Depois do triunfo, Tibério conferiu à Germânico autoridade sobre as províncias orientais do Império Romano, com objetivo de organizá-las e estabelecer as relações com diversos reinos-clientes, e nomeou-o Cônsul para o ano de 18 D.C., ao lado do próprio imperador. Tais medidas pareciam uma demonstração, ao menos  publicamente, de que Tibério prestigiava a posição de Germânico como seu sucessor.

MORTE DE GERMÂNICO

No Oriente, contudo, Germânico entrou em atrito com o  governador da Síria designado por Tibério, Caio Calpúrnio Pisão. Além de visitar o Egito sem a permissão expressa de Tibério (esta província estava sob a autoridade direta do imperador e, com base em uma lei de Augusto, nenhum senador podia visitá-la sem autorização imperial), Germânico demitiu Pisão e ordenou que este se apresentasse em Roma.

Todavia, enquanto ainda estava em Antióquia, Germânico adoeceu sem causa aparente. Desconfiado de que tivesse sido vítima de feitiçaria ou veneno por parte do governador, Germânico enviou uma carta a Pisão, renunciando formalmente à amizade entre ambos. Logo em seguida, Germânico faleceu, em 10 de outubro de 19 D.C.

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Quando a notícia da morte de Germânico chegou à Roma, houve comoção popular e muitos suspeitaram de que Tibério, ou sua mãe, Lívia, que era amiga de Plancina, a  esposa de Pisão, poderiam estar por trás do suposto envenenamento. Tibério ordenou uma breve investigação e Pisão foi preso e enviado para ser julgado pelo Senado. A acusação de envenenamento foi logo arquivada, mas a de traição foi mantida. Durante o julgamento, Pisão foi encontrado morto em sua cela, supostamente tendo cometido suicídio. Obviamente, o fato contribuiu para aumentar as suspeitas sobre Tibério e muitos consideraram que a morte de Pisão teria sido uma “queima de arquivo”.

Apesar do suicídio de Pisão, o julgamento dele prosseguiu e o veredito foi a sua condenação pelo crime de “maiestas“, em 20 D.C., que, pela primeira vez em Roma, foi considerado como abrangendo o imperador e a casa imperial, já que Germânico, enquanto membro desta, teria tido a autoridade desobedecida por Pisão. Essa mudança mostra que a transição da República para a Monarquia estava bem avançada, apesar das aparências que Augusto e Tibério procuraram manter..

O caso da morte de Germânico mobilizou tanto a opinião pública romana- segundo Suetônio, vários muros foram pichados com a frase: “Dê-nos Germânico de volta!” – que Tibério foi obrigado a tornar públicas as atas do julgamento de Pisão, o que hoje sabemos graças à descoberta, nos anos 80 do século XX,  próximo à Sevilha, na atual Espanha, de tábuas de bronze contendo o texto do Senatus Consultum de Gn. Pisone Patre, que, basicamente, vem a ser um decreto do Senado Romano contendo a versão oficial sobre o assunto (cf. https://scholar.princeton.edu/sites/default/files/SCCPP_0.pdf). Entre outras coisas, o texto confirma o relato de Tácito de que a imperatriz Lívia intercedeu para que sua amiga Plancina fosse perdoada.

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Apesar das suspeitas de que Tibério estaria implicado na morte de Germânico, até este evento as ações do  imperador tinham sido marcantemente em favor da manutenção do status do falecido como o primeiro na linha de sucessão imperial. Porém, a viúva de Germânico, Agripina, a Velha, não escondia de ninguém que suspeitava de Tibério e Lívia. Sintomaticamente, os dois não compareceram ao funeral de Germânico.

Consta, inclusive que, certa vez, Tibério, ouvindo Agripina queixar-se do assassinato do marido, teria recitado, em grego, para ela o seguinte verso de um então famoso poema clássico:

Porque não és rainha, eu te fiz algum mal?

Morto Germânico, Tibério  passou a investir somente em seu único filho natural, Druso, o  Jovem, que era cerca de um ano mais novo do que o falecido, e cuja carreira pública progredia junto com a do irmão adotivo (parece que Tibério copiou Augusto e planejou a sua sucessão de modo semelhante a do que o seu antecessor havia tentado em relação a Caio e Lúcio César: ou que ambos reinassem em conjunto, ou que um servisse como substituto no caso do outro morrer antes da sucessão).

Assim, em 22 D.C., Druso recebeu o Poder Tribunício, demonstrando que ele estava sendo preparado para suceder o pai.

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(Busto de Druso, o Jovem)

Enquanto isso, aparentemente Tibério ressentiu-se com o aumento de sua impopularidade causada pela morte de Germânico e começou, paulatinamente, a se ausentar mais e mais de Roma, passando temporadas na Campânia, região que, desde a República, era considerada como um balneário de luxo para a elite romana.

SEJANO E MORTE DE DRUSO

Na época em que Germânico morreu, já se notava o grande poder que o Comandante da Guarda Pretoriana, Lúcio Élio Sejano exercia em Roma. Ele expandiu a guarnição dos pretorianos para um efetivo de cerca de nove mil homens, os quais, durante o reinado de Augusto, estavam espalhados em várias cidades nos arredores de Roma, e que por iniciativa de Sejano foram centralizados em um grande quartel fortificado, adjunto às muralhas da cidade, por volta de 18 D.C.

Sejano era membro da classe equestre, e sucedera o seu pai,  Lucius Seius Strabo, como comandante dos pretorianos. A família de Sejano era bem relacionada com a classe senatorial, seu avô paterno foi casado com a filha de Caio Mecenas, o rico e influente amigo de Augusto, e o próprio Sejano foi adotado por Caio Élio Galo, que foi governador do Egito no reinado de Augusto. Acredita-se que a esposa de Sejano, Apicata, era filha do rico e famoso gourmet Marcus Gavius Apicius (Apício). Segundo as más línguas, antes de se casar com Apicata, Sejano havia funcionado como amante do sogro. Não obstante, Sejano tornou-se amigo íntimo de Caio César, o neto de Augusto, e, portanto, apesar de ocupar uma posição social inferior à da alta aristocracia, ele acabou ficando próximo da casa imperial.

O poder de Sejano tornou-se tão destacado que Tibério, nessa época, referiu-se a ele como meu sócio-trabalhador” (socius laborum). E Sejano, de fato, tinha altas pretensões. Em 20 D.C., ele  arranjou uma promessa de casamento de sua filha, Junilla,  com o filho do sobrinho do imperador, Cláudio, quando as duas crianças tinham apenas quatro anos de idade. Porém, os planos de Sejano ingressar na família imperial foram por água baixo, porque, poucos dias depois do arranjo, o menino morreria engasgado com uma pera.

Porém, Druso, o Jovem não tinha boas relações com Sejano e certa vez, segundo Tácito, ele chegou a dar um soco no Prefeito Pretoriano, sendo que, em outra ocasião, ele teria reclamado que:

“um estranho tenha sido convidado para auxiliar no governo enquanto o filho do imperador estava vivo” 

Mais grave do que tudo isso foi o fato de Sejano ter seduzido Livilla, a esposa de Druso, de quem ele havia se tornado amante.

Porém, em  14 de setembro de 23 D.C., Druso, o Jovem morreu, aos 36 anos de idade, de causa ignorada. Para alguns historiadores antigos, como Tácito e Dião CássioSejano foi o responsável pela morte de Druso por envenenamento, empresa na qual ele teria sido auxiliado por Livilla, que também era irmã do finado Germãnico.

De acordo com Dião Cássio, oito anos após a morte de Druso, a esposa de Sejano, Apicata, teria enviado uma carta a Tibério, revelando que o marido e Livilla teriam envenenado o herdeiro. A acusação não parece muito plausível e o fato é que, se o adultério de Sejano e Livilla realmente ocorreu, e se a morte de Druso alguma vez lhe pareceu suspeita,  Tibério continuou, durante muitos anos, a confiar em Sejano, e não demonstrou suspeitar da participação do auxiliar na morte do filho.

Seja como for, em 25 D.C., Sejano pediu formalmente a Tibério permissão para se casar com Livilla, o que foi recusado pelo velho imperador, que, após exaltar os méritos do subordinado, ressaltou, suavemente, que ele, tendo nascido na classe Equestre, estava abaixo da posição social de Livilla, uma integrante da família imperial.

Com a morte de Druso, o Jovem, os jovens filhos de GermânicoAgripina, a Velha: Nero Julius Caesar Germanicus e Drusus Julius Caesar Germanicus, foram adotados por Tibério e adquiriram a condição de sucessores naturais dele, o que colocaria todos na alça de mira de Sejano.

AUTO-EXÍLIO EM CAPRI 

No ano seguinte, 26 D.C.Tibério foi viver na Ilha de Capri, em um novo auto-exílio voluntário que, desta vez, duraria onze anos, deixando, informalmente, o governo imperial nas mãos de Sejano, aparentemente a pessoa em quem ele mais confiava. A  confiança que o imperador depositava em Sejano aumentou ainda mais após o incidente no qual o teto da gruta (grotto) da Villa de Tibério, em Sperlonga, adornada por primorosas esculturas, onde ele costumava fazer banquetes, desabou e Sejano protegeu Tibério com o próprio corpo, das rochas que caíam.

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(1- Grotto da Villa de Tibério, em Sperlonga, e 2- parte das esculturas restauradas, foto: Carole Radatto)

Não obstante, durante algum tempo, Tibério chegou a deixar Capri e ele viajou até as cercanias de Roma, talvez, quem sabe, com a intenção de deixar os senadores em suspense, pois ele, em certas ocasiões, enviava despachos informando que estava vindo à Cidade.

Certamente, a conhecida misantropia do imperador foi um dos motivos que o levou a se retirar de Roma e ir viver na maravilhosa Villa Jovis, que ele mandou construir em Capri. O outro teria sido a tristeza causada pela morte do filho.

Em Capri, o avanço da senilidade – ele tinha 68 anos de idade – e uma misteriosa doença que lhe cobria o rosto e o corpo de feridas (alguns a comparam à sífilis, e, embora a ciência tradicional considere que essa doença não era conhecida na Europa naquela época, estudos recentes parecem indicar que ela ali já circulava durante o Império Romano) aos poucos deram vazão a uma personalidade paranóica, cruel e devassa. Se for verdade o que Suetônio conta, em Capri aconteceram atos os mais tenebrosos de depravação sexual e assassinatos.

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villa jovisUnknown_d_0_0_800.20170804192902(Villa Jovis, Capri, 1- maquete e 2- estado atual)

MORTE DE LÍVIA

Em 29 de setembro de 29 D.C., com a provecta idade de 87 anos, morreu Lívia Drusila. a mãe de Tibério, que, por disposição testamentária de Augusto, recebera o nome de Júlia Augusta. Lívia permaneceu detentora de grande poder durante boa parte do reinado de Tibério, que passou a se ressentir da ascendência pessoal e da influência excessiva da mãe nos negócios do Estado. Houve até quem dissesse que o principal motivo da ida de Tibério para Capri foi o fato dele não suportar mais a personalidade dominadora da mãe.

Consta que, ao ser informado da morte de Lívia e dos preparativos para o funeral, Tibério não viajou, permanecendo em Capri por vários dias, até que os encarregados da cerimônia desistiram de esperar a chegada dele, tendo em vista que o corpo da falecida já estava apodrecendo. Então, Tibério acabou enviando seu sobrinho-neto, Gaius Julius Caesar Germanicus, apelidado Calígula”, o filho mais novo de Germânico e Agripina, a Velha,  para fazer a oração fúnebre. E o imperador também vetou que o Senado divinizasse a mãe.

Livia_y_Tiberio_M.A.N._01 foto Miguel Hermoso Cuesta

(Estátuas de Lívia e de Tibério, lado a lado)

“REGÊNCIA” DE SEJANO

Enquanto isso, Sejano, que controlava toda informação entre Roma e Capri, agia como virtual governante de Roma, ainda mais agora que a intimidadora presença de Lívia desaparecera, e começou a eliminar os seus desafetos e adversários políticos. Um alvo preferencial de Sejano foi Agripina, a Velha,  a esposa do falecido Germânico, que foi exilada em 30 D.C. Ela vinha acusando publicamente Tibério e Lívia de serem os mandantes da morte do esposo e reuniu em torno de si um grupo de senadores que faziam oposição a Sejano.

Sejano parece ter instigado Tibério para que este escrevesse uma carta ao Senado denunciando Agripina e seu filho primogênito, Nero Julius Caesar Germanicus (não confundir com o futuro imperador Nero), de conspiração. Após bastante relutância (Tibério teve que renovar as acusações), o Senado acabou banindo os dois, declarando-os “inimigos públicos”.

(Cabeças de Agripina, a Velha e de seu filho Nero Julius Caesar Germânico, National Archaeological Museum of Tarragona )

Agripina foi  exilada para a ilha de Pandatária e lá, após sofrer maus-tratos, morreu de inanição voluntária, em 33 D.C..  Nero Julius Caesar Germanicus também foi exilado, no mesmo ano que a mãe, para a ilha de Pontia, e lá morreria no ano seguinte, compelido a se suicidar,  em 31 D.C..

Por sua vez, o filho do meio de Agripina, Drusus Julius Caesar Germanicus, foi acusado por um senador de estar tramando contra Tibério. Consta que foi Amelia, a esposa de Drusus, quem o denunciou para Sejano,  que a teria seduzido. Ele foi preso e confinado a uma cela no Palatino, também em 30 D.C.

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(Possível estátua de Drusus Julius Caesar, foto Sailko)

Em 31 D.CCalígula, que estava morando junto com sua avó Antônia, foi residir com Tibério na Villa Jovis em Capri.

A julgar pelo relato de SuetônioCalígula habilmente soube fingir ser inofensivo e servil a Tibério e, graças a isso teria conseguido sobreviver ao destino da sua família. Se os relatos do citado historiador forem verdadeiros, em Capri,  Calígula deve ter sofrido a influência maléfica dos inúmeros atos de perversão sexual e crueldade relatados na “Vida de Tibério“, livro integrante da coletânea de biografias conhecida como “Os doze Césares“.

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(Cabeça de Calígula, com as cores originais que recobriam o mármore)

QUEDA DE SEJANO

Parecia que Sejano nessa época estava no auge de seu poder: o aniversário dele foi incluído no calendário como uma data a ser comemorada e várias estátuas foram erguidas em sua homenagem.  Em 30 D.C., ele conseguiu finalmente a tão almejada conexão familiar com a família imperial, a autorização para o casamento com Livilla, E, no ano seguinte, ele foi designado Cônsul, na companhia de Tibério. Naquele momento, segundo as palavras de Dião Cássio,parecia que Sejano era o Imperador, e Tibério, o governante de uma ilha.

Então, naquele mesmo ano, Tibério começou a tomar atitudes ambíguas em relação à Sejano. Ele nomeou seu sobrinho Calígula para um prestigioso posto de sacerdote, gesto que foi recebido com entusiasmo pela Plebe, e insinuou que o rapaz poderia ser o seu sucessor.

Sejano ficou desconfiado até que o Senado Romano recebeu um despacho oficial de Tibério convocando uma sessão para o dia 18 de outubro de 31 D.C.,  na qual  Sejano receberia o Poder Tribunício, acompanhado de uma carta de Tibério que deveria ser lida na sessão, ambos entregues por Névio Sutório Macro, que até pouco tempo era chefe dos Vigiles, o corpo de guardas-bombeiros criado por Augusto. Seguindo as ordens de Tibério, Macro informou o teor da carta a Memmius Regulus, que havia sucedido Sejano como Cônsul (Tibério pouco tempos antes havia renunciado ao cargo, forçando Sejano a segui-lo).

No dia designado, Sejano compareceu ao Templo de Apolo Palatino, onde, naquela ocasião, o Senado estava se reunindo, lotado de Senadores, que imediatamente o cercaram com bajulações. Enquanto a longa carta era lida, contendo uma introdução sobre  assuntos variados e algumas menções lacônicas de Tibério ao seu “sócio“, o edifício foi cercado pelos vigiles, comandados por Graecinus Laco

A leitura da carta prosseguiu e, para a surpresa de todos, o tom inicialmente amistoso de Tibério, transformou-se na acusação de vários crimes contra Sejano, terminando por ordenar a sua prisão.

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(Templo de Apolo Palatino,  acima à esquerda, nesta reconstrução do complexo de palácios e prédios imperiais  a maioria construídos posteriormente na Colina do Palatino)

O espanto logo se transformou em comoção, e os senadores que estavam sentados próximos a Sejano, afastaram-se dele correndo. Sejano continuou sentado, imóvel -ele somente levantou-se quando Regulus, pela terceira vez, ordenou que ele ficasse de frente para a assembléia.

Quando a carta terminou de ser lida, Regulus perguntou se algum senador se opunha à prisão de Sejano, mas ninguém teve coragem de se manifestar contra. Ele, então, foi levado para a prisão por Laco.

No caminho para a prisão, Sejano foi hostilizado pelo populacho, que zombou acerbamente das suas supostas pretensões ao trono. Naquele mesmo dia, o Senado, ao saber da reação da Plebe e perceber que nenhum soldado pretoriano aparecera para defender o chefe, votou pela condenação de Sejano à morte, decretando também a damnatio memoriae (destruição de todas as estátuas e supressão do seu nome dos registros públicos).

O que muitos senadores ainda ignoravam, enquanto hesitavam temendo alguma reação de soldados fiéis a Sejano, é que Tibério havia dado à Macro um documento nomeando-o novo comandante da Guarda Pretoriana, quando despachou-o para Roma para convocar o Senado. Assim, enquanto Laco cercava o Senado e a carta era lida, Macro já havia assumido o comando no quartel da Guarda Pretoriana.

Sejano foi executado e seu corpo atirado para rolar pelas “Escadas Gemônias“, onde ficou por três dias sendo vilipendiado pela turba (Parece que essa forma de punição foi inaugurada no reinado do próprio Tibério).  Os filhos de Sejano: Lúcio Seio Estrabão, Capito Elano e Junilla, também seriam executados, o primeiro em 24 de outubro, e os outros em  dezembro de 31 D.C., pelo simples fato de serem filhos dele. A ainda adolescente Junilla, antes de ser estrangulada, foi estuprada pelo carrasco, pois o costume proibia executar uma virgem).

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(Escadaria que leva ao Capitólio, em Roma, talvez construída sobre as Escadarias Gemônias)

De acordo com o historiador Flávio Josefo, foi Antônia, a Jovem, cunhada de Tibério e mãe do falecido Germânico, quem denunciou Sejano a Tibério. Ela teria enviado uma carta ao imperador, que estava em Capri, e, supostamente, ignorava as ações do subordinado, contando dos planos dele para tomar o poder, nos quais estaria sendo auxiliado pela amante, Livilla, filha da própria Antônia.

Livilla foi poupada de ser executada, mas foi entregue à mãe, em cuja casa ficou em prisão domiciliar, segundo consta, trancada em um quarto sem receber alimentação, até morrer de inanição.

Quando Apicata, a viúva de Sejano, soube da execução do filho, ela enviou, antes de se suicidar, uma carta a Tibério, acusando Livilla de ter envenenado o próprio marido, e filho do imperador, Druso, o Jovem, em conluio com seu amante Sejano. Muitos historiadores não dão crédito a essa acusação de Apicata, atribuindo-a à vingança de uma esposa traída contra a amante que estava em vias de substituí-la como esposa.

O fato é que a descoberta da conspiração instaurou um frenesi persecutório em Roma e vários senadores que tinham relacionamento com Sejano foram executados.

Tibério mais tarde declararia ao Senado que decidiu remover Sejano quando soube da participação dele na perseguição à Agripina e na morte do filho dela, mas essa explicação não convenceu nem os contemporâneos, nem os historiadores modernos, uma vez que Agripina continuou exilada, até morrer, em 33 D.C, de inanição. quase dois anos após a execução de Sejano, o mesmo ocorrendo com o filho dela, Drusus Julius Caesar, que também morreu de inanição, em sua cela no Palatino, em 33 D.C., igualmente de inanição (consta que ele, famélico, chegou a comer o colchão em que dormia). A coincidência no ano e forma das mortes é um forte indício de que as mortes deles foram ordenadas por Tibério.

TIBÉRIO COMO GOVERNANTE

Tibério era estóico e, durante a juventude e parte da sua vida adulta,  ele parece ter se conduzido pelos rígidos padrões morais dessa corrente filosófica. Talvez por isso, a marca do seu reinado tenha sido a de uma austeridade nos gastos públicos, política que acarretou um grande superávit no tesouro do Estado. Consequentemente, em termos econômicos, houve grande prosperidade no Império. Assim, quando morreu, Tibério deixou nos cofres do Tesouro a formidável quantia de três bilhões e setecentos milhões de sestércios.

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(Aureus de Tibério, c. 27/30 D.C., foto cgb)

Por outro lado, a falta de espetáculos públicos e de outras formas de propaganda tornou-o antipático para a plebe romana.

Procurou-se controlar os excessos dos governadores das províncias e nomear homens capazes e de boa reputação para administrá-las. Ficou famoso o episódio em que o governador do Egito, Aemilius Rectus, enviou à Roma um volume de tributos maior do que o normal, e recebeu de Tibério a seguinte advertência:

“Eu quero minhas ovelhas tosquiadas,  mas não depiladas!”

A cidade de Tiberias, na Galiléia, um reino-cliente de Roma, foi fundada pelo tetrarca Herodes Antipas, em 20 D.C., e foi assim batizada em homenagem a Tibério.

Outro motivo que contribuiu para a grande prosperidade econômica experimentada durante o reinado de Tibério foi o fato dele ter evitado travar campanhas militares, após as campanhas de Germânico, valendo-se precipuamente da diplomacia nas questões de interesse do Estado. Entre as poucas ocorrências bélicas estão a supressão de uma revolta gaulesa liderada por Julius Sacrovir, em 21 D.C., a vitória final contra uma rebelião berbere na Numídia, comandada pelo chefe Tacfarinas, que, após dez anos, foi finalmente derrotado, em 24 D.C. e uma vitória contra tribos montanhesas insubmissas na Trácia, em 26 D.C.

Em 28 D.C., um forte romano foi cercado pela tribo germânica dos Frísios, na Floresta Baduhenna, na atual Holanda. Os Frísios estavam insatisfeitos com o tributo que pagavam como clientes de Roma e mataram os coletores de impostos romanos. Destacamentos da V Legião, após um duro combate, conseguiram repelir os bárbaros, mas 900 soldados romanos morreram. Seguindo política de Tibério de evitar guerras custosas, não houve nenhuma represália e, de acordo com Tácito, o assunto foi deixado de lado.

Politicamente, o reinado de Tibério foi um reinado de perseguições e de julgamentos de senadores por traição (maiestas), instalando-se uma cultura de delações e do uso de informantes.

Segundo Dião Cássio, Tibério também baniu praticantes de religiões estrangeiras que residiam em Roma, inclusive muitos judeus, no caso destes, supostamente motivado pelo fato de que eles estariam fazendo muitas conversões entre os habitantes da cidade. Curiosamente, muitos estudiosos acreditam que provavelmente, foi o seu braço-direito Sejano quem nomeou Pôncio Pilatos  governador da Judéia, entre 26 e 36 D.C, sendo que Jesus Cristo  foi crucificado por volta do ano 30 D.C.

FINAL DO REINADO E MORTE DE TIBÉRIO

Após a queda de Sejano, parece que Tibério desiludiu-se e desinteressou-se por completo do cargo de imperador e permaneceu em Capri, deixando a administração do Império por conta dos funcionários da casa imperial e dos governadores das províncias. Segundo os relatos, ele sequer deu-se o trabalho de preencher os cargos que iam ficando vagos, e o Senado, por temor de desagradá-lo, ficava de mãos atadas.

Em 33 D.C., Tibério nomeou seu sobrinho, Gaius Julius Ceasar Germanicus (Calígula), Questor honorário, e, cerca de dois anos depois, em 35 D.C., ele fez um testamento no qual Calígula, então com 23 anos de idade, junto com e seu neto, Tibério Gemelo, filho de Druso, o Jovem, que tinha apenas 15 ou 16 anos, eram designados como herdeiros de suas propriedades. Segundo Tácito, nessa ocasião, quando os dois rapazes estavam em Capri, Tibério abraçou Gemelo e, em lágrimas, disse para Calígula:

“Você o matará, e um outro irá te matar”

 

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(Raríssima moeda com a efígie de Tiberius Gemellus, cunhada em 37 D.C., foto Classical Numismatic Group)

Tibério nunca mais voltou à Roma e a sua reclusão em Capri aumentou os boatos sobre o que ele fazia na ilha. A sua saúde  foi dando sinais de que estava indo embora, mas o velho imperador, temendo, talvez, que a sua fraqueza física incentivasse alguma tentativa de assassinato, fazia o possível para não demonstrá-la em público e até evitava que o seu médico lhe medisse o pulso na frente dos outros.

Em 16 de março de 37 D.C., Tibério agonizava em sua outra Villa, em Misenum, e a sua morte era iminente. Em certo momento, ele parou de respirar e os presentes logo foram congratular Calígula como o novo imperador. Porém, segundo Tácito, o imperador moribundo voltou a respirar, o que deixou a todos aterrorizados. Então, naquele mesmo dia, Macro teria entrado no quarto e sufocado Tibério, usando a a colcha e os lençóis. No relato de Dião Cássio, Macro teria sido ajudado por Calígula. Já Suetônio, embora narre fatos semelhantes, adiciona que antes Calígula teria envenenado Tibério  e que, aquele, ao tentar tirar o anel com o selo do imperador do dedo do tio, ao perceber que esse resistia, sufocou-o com o travesseiro.

Assim morreu Tibério, aos 78 anos de idade. O Senado e Povo Romano (pelo menos o de Roma e parte da Itália) comemoraram a morte do antipático imperador e consta que, quando o cortejo fúnebre trazendo o cadáver de Tibério chegou à Cidade, a plebe nas ruas, ameaçando jogar o corpo dele nas água do rio, gritava:

“Tibério ao Tibre!”

O Senado recusou-se a divinizar Tibério, mas ele foi sepultado no Mausoléu de Augusto,  tendo um funeral apropriado e com seu sucessor, Calígula, fazendo a oração fúnebre (eulogia).

 

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CONCLUSÃO

Na opinião dos historiadores romanos antigos, com exceção de Veleio Patérculo, não há dúvida de que Tibério faz parte do time dos “maus imperadores”.

Porém, mesmo a leitura dos textos desses membros da classe senatorial, não permite um julgamento tão fácil.

Só o fato de Tibério ter reinado durante quase 23 anos já foi um feito importante. O seu reinado serviu para consolidar a maior parte das instituições e práticas político-administrativas forjadas por Augusto.

Em seus primeiros anos, parece que Tibério efetivamente procurou dividir o poder com o Senado, participando ativamente das sessões desta assembleia e tentando fazer com que os senadores assumissem diversas tarefas. Ele escolheu bons administradores para as províncias e a manutenção da paz, e a parcimônia com os gastos públicos assegurou uma grande prosperidade econômica, com grande valorização da moeda.

Porém, a sua personalidade fria e distante e a falta de tato político não criaram empatia com a classe senatorial. Talvez a sua relutância em assumir totalmente os poderes de Augusto seja fruto da consciência de sua incapacidade para o jogo político. Mas pode também ter sido apenas uma maneira desastrada e inábil de imitar o primeiro imperador. De qualquer modo, a postura de Tibério contribuiu para agravar o grande problema enfrentado durante boa parte do período imperial: a não-aceitação do caráter monárquico do regime pelo próprio regime, bem como por sua elite política e a consequente ambiguidade na delimitação dos papéis do imperador e do Senado

O grande divisor de águas no reinado de Tibério parece ter sido a morte de Germânico, que, designado como seu sucessor ainda durante a vida de Augusto (que obrigou Tibério a adotá-lo), sempre foi uma sombra capaz de ofuscá-lo e uma opção de governante muito mais querida pela população. Diga-se, como atenuante da suposta responsabilidade de Tibério pela morte do filho adotivo, que, em vários episódios da vida de Germânico, transparece que este realmente cortejava a população e os senadores e agia com demasiada independência em relação a Tibério.

A forma como Tibério lidou com a hostilidade da viúva de Germânico, Agripina, a Velha, que sem dúvida reuniu em torno de si um núcleo de oposição ao imperador, também parece excessiva, já que importou na destruição quase que total da própria dinastia, somente deixando vivo Calígula e as irmãs dele, logo ele que, depois, se tornaria o pior dos Júlio-Cláudios, e cuja personalidade doentia pode muito bem ter sido gerada no clima de terror que a sua família viveu sob Tibério.

A ida de Tibério para Capri pode denotar um traço de misantropia em sua personalidade, mas também pode ter sido uma maneira de lidar com a desilusão e o desânimo que ele sentia pela função de monarca. É difícil compreender como ele pode ter deixado que Sejano concentrasse tanto poder e porque ele depositou em Sejano tanta confiança. Tanto pode ter sido um sinal de fraqueza psicológica após a morte do filho, como pode ter sido também uma forma maquiavélica de instaurar um reinado de terror, usando Sejano como instrumento, para depois botar a culpa no subordinado. Mas isso se houve mesmo um “reinado de terror”, pois, em 23 anos de governo, as execuções nem foram tantas, comparadas com as que ocorreriam nos reinados posteriores. De qualquer forma, Tibério fica com a má distinção de ter sido o primeiro imperador a recorrer aos processos de lesa-majestade (maiestas).

Porém, a facilidade com que Tibério prendeu e executou Sejano mostra que o Principado estava consolidado como instituição, e  o prestígio que a dinastia dos Júlio-Cláudios gozava entre a população civil e o Exército, mesmo quando o seu representante era antipático e pouco querido.

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SIDÔNIO APOLINÁRIO

Em  5 de novembro de 432 D.C., nasceu Gaius Sollius Sidonius Apollinaris (Sidônio Apolinário),  famoso poeta e missivista romano, em Lyon, antiga Lugdunun, na província romana da Gália, no seio de uma tradicional família da classe senatorial daquela província, sendo ele filho e neto de prefeitos pretorianos da Gália.

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(Ruínas do anfiteatro romano de Lyon)

As Cartas escritas por Sidônio constituem a fonte histórica contemporânea mais importante, não apenas sobre a situação da província da Gália no final do século V, mas também nos fornecem um panorama do Baixo Império Romano em seus últimos anos de agonia.

E Sidônio encontrava-se em uma posição de espectador privilegiado para legar essa contribuição, pois, em 452 D.C., ele casou com Papianilla, que era filha de Avito, que logo seria aclamado Imperador Romano do Ocidente (Avito, que também era um influente senador galo-romano, reinaria de julho de 455 a outubro de 456).

As cartas de Sidônio nos mostram que ele teve uma esmerada educação na cultura clássica greco-romana, talento que lhe granjeou o respeito dos seus contemporâneos e, sem dúvida, ele utilizou em seu próprio benefício, ao compor panegíricos em honra de seu sogro, Avito, e também dos imperadores Majoriano, que destronou o primeiro, e reinou de 457 D.C. a 461 D.C. e lhe nomeou Conde (Comes) de Auvergne, e Antêmio, que reinou de 467 D.C. a 472  D.C. – sendo que este último, em reconhecimento, presenteou Sidônio com o prestigioso cargo de Prefeito Urbano de Roma, em 467 D.C.

Sidônio voltou para a Auvergne em 469 D.C. e aproveitou para publicar o restante dos seus poemas. Logo depois, ele foi escolhido como Bispo da atual cidade de Clermont-Ferrand, graças muito mais às suas conexões políticas e prestígio do que pelos seus méritos teológicos, já que ele mesmo duvidava de usa capacidade para ocupar o cargo. Nessa função, Sidônio tentou defender a cidade dos  ataques dos bárbaros visigodos.

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Quando Clermont finalmente se rendeu aos Visigodos, em 474 D.C., Sidônio  foi exilado para Carcassone, mas, depois de muito suplicar a Eurico, rei dos germânicos, ele foi autorizado a reassumir suas funções de bispo em Clermont.

Não obstante, pouco após a sua morte, ocorrida em 21 de agosto, provavelmente do ano de 486 D.C., Sidônio Apolinário foi canonizado pela Igreja Católica e virou um santo, cujo dia de veneração é o dia do seu falecimento, que ocorreu quando ele tinha cerca de 45 anos de idade.

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(Pedaço da estela funerária de Sidônio Apolinário, com fragmentos do texto do seu epitáfio)