PAPAI NOEL É ROMANO!

Ícone de São Nicolau, provavelmente bizantino, Public domain, via Wikimedia Commons

Em 15 de novembro de 270 D.C, na província romana da Lícia e Panfília, nasceu Nicolau (Nikolaos), filho de Epifânio (ou Téofano) e Joana (ou Nona), um casal de cristãos abastados da cidade de Patara, na atual província turca da Antalya. Tendo nascido livre e filho de romanos livres, Nicolau era também cidadão romano, de acordo com a lei promulgada pelo imperador Caracala, em 212 D.C .

Os pais de Nicolau morreram enquanto ele era ainda muito jovem e o menino foi criado por seu tio, também chamado Nicolau, que era o Bispo de Patara e logo fez o menino entrar na Igreja como coroinha, e, quando o sobrinho tornou-se adulto, ordenou-o padre.

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Portão da cidade de Patara, By Bjørn Christian Tørrissen – Own work by uploader, http://bjornfree.com/travel/galleries/, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=81819539

Ainda em Patara, Nicolau ficou conhecido pelos atos de caridade, como quando certa vez, sabedor que as 3 filhas de um homem que havia caído na miséria iriam se prostituir para poder sobreviver, ele atirou três bolsinhas contendo moedas de ouro pela janela da casa da família.

Foi durante a Grande Perseguição dos Cristãos, decretada em 303 D.C, pelo imperador Diocleciano, que Nicolau, como tantos outros prelados cristãos, foi preso e, segundo relatos, espancado na prisão. Ele deve ter ficado preso, contínua ou intermitentemente, pelo menos até o Édito de Tolerância baixado pelo imperador Galério, em 311 D.C, também conhecido como Édito de Sérdica, e que tornou o Cristianismo uma religião lícita (este decreto antecedeu o famoso Édito de Milão, publicado dois anos depois).

Cabeça do imperador Diocleciano

Entre os anos 312 e 315 D.C, Nicolau peregrinou pela Terra Santa e viveu em uma pequena comunidade de monges que viviam em cavernas em Beit Jala, nas montanhas do deserto próximo à Belém, onde, séculos mais tarde seria construída a igreja ortodoxa grega de São Nicolau, porém, em 317 D.C, Nicolau voltou para a sua província e foi consagrado bispo da cidade de Mira, atual Demre, na Turquia.

Na condição de bispo de Mira, Nicolau participou do fundamental Concílio de Nicéia, convocado pelo 1º imperador romano cristão, Constantino I, em 325 D.C, sendo listado como participante de número 151: “Nicolau de Mira da Lícia”. Nicolau foi, assim, um dos signatários do “Credo Niceno”, que até hoje é o cerne dogmático do cristianismo católico romano e ortodoxo.

Vários milagres foram atribuídos a Nicolau, sendo que muitos teriam ocorridos em navios, motivo pelo qual ele virou padroeiro de várias cidades portuárias e, inclusive, da Marinha da Grécia moderna.

Nicolau faleceu em 6 de dezembro de 343 D.C, com 73 anos de idade. Ele foi enterrado em Mira.

Sarcófago original de Nicolau na Igreja de São Nicolau, em Demre (Mira), Turquia. By The original uploader was Sjoehest at German Wikipedia. – Transferred from de.wikipedia to Commons., CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1422675

Durante as invasões turcas ao Império Bizantino, no século XI, a cristandade passou a implorar que as relíquias de São Nicolau fossem transferidas para um local mais seguro e os seus restos mortais quase completos foram transferidos para a cidade de Bari, na Itália, por piratas. Posteriormente, marinheiros venezianos levaram o restante dos ossos de Nicolau de Mira para Veneza. Exames forenses modernos confirmaram que ambos os restos pertencem ao mesmo esqueleto. Não obstante, alguns ossos ou fragmentos ósseos de São Nicolau foram sendo espalhados por várias igrejas da Europa.

Igreja de  San Nicolò al Lido , em Veneza, que guarda cerca de 500 fragmentos de ossos de São Nicolau. By Didier Descouens – Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=42306590

Em 2004 foi feita uma autópsia no esqueleto pelo professor de Patologista Forense da Universidade de Bari, Francesco Introna, e uma reconstrução facial do crânio pela perita antropologista facial Caroline Wilkinson, da Universidade de Manchester. Verificou-se que Nicolau sofreu uma fratura grave em vida no nariz, provavelmente devido aos maus tratos sofridos durante a Grande Perseguição. A sua altura foi estimada em 1,68 m. Posteriormente, em 2014, Wilkinson produziu uma nova versão da reconstrução facial do Santo. Tudo isto pode ser conferido no link https://www.stnicholascenter.org/who-is-st-nicholas/real-face

Mas como São Nicolau inspirou a figura do Papai Noel?

A tradição cristã registra que Nicolau, além de devotar especial cuidado para com as crianças, era conhecido pelo costume de dar secretamente presentes, colocados nos sapatos das pessoas que ele visitava. Atualmente, no Calendário Gregoriano seguido pela Igreja Católica Romana, o dia festivo de Nicolau é 6 de dezembro. Todavia, na Igreja Ortodoxa, que segue o Calendário Juliano o Dia de São Nicolau cai no dia 6 de janeiro, e, em sua homenagem, nos países ortodoxos nasceu o costume das pessoas se darem presentes, considerando que a data também coincidia com o dia de natal para os cristãos ortodoxos (atualmente é dia 7 de janeiro).

Atribuido a Antonino Giuffré o a Giovanni Antonio Marchese ,cópia do original de Antonello da Messina, c.1465, Public domain, via Wikimedia Commons

Entre as nações européias ocidentais cristãs que herdaram o culto a São Nicolau, ele passou a ser especialmente reverenciado durante a Idade Média na Holanda, como “SinterClaes“, forma que evoluiu para “Sinterklaas”, sendo representado com as roupas vermelhas comuns a um bispo católico. Inclusive, São Nicolau, ou Sinterklaas, passou a ser o santo padroeiro da Amsterdam.

Essa casa em Amsterdam, datada do século XVI traz um relevo do padroeiro da cidade,SInterClaesç By Aloxe – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=3138918

Quando os Holandeses estabeleceram sua primeira colônia na América do Norte, batizada de Nova Amsterdam, em 1624. Sinterklaas, ou seja, São Nicolau, igualmente foi escolhido como padroeiro da cidade, que, quarenta anos depois, seria conquistada pelos ingleses e rebatizada de “Nova York”. Assim, Sinterklaas acabou sendo transliterado no idioma inglês como “Santa Claus” e no século XIX começou a ser associado nos Estados Unidos a uma figura tradicional do folclore anglo-saxão medieval tardio e seiscentista associada ao Natal, o “Father Christmas”, que, em português, pode ser traduzido como “Papai Noel“.

Engraving
“Father Christmas”, ilustração de Josiah King no panfleto The Examination and Tryal of Old Father Christmas (1687). By Josiah King – Folger Shakespeare Library, Washington, D.C., Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=457834

Progressivamente, durante o século XIX, a figura de Santa Claus foi ganhando personalidade própria em relação a São Nicolau na majoritariamente protestante costa leste dos EUA, perdendo seu traje de bispo católico (como ele sempre foi retratado), embora mantendo a cor vermelha, ganhando suas feições e silhueta roliças, e incorporando-se à sua iconografia os trenós, as renas e outras características típicas do inverno nas latitudes mais extremas da Europa Setentrional.

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Azulejo de Sâo Nicolau que se acredita ter vindo de uma igreja em Constantinopla, datado do século X. Walters Art Museum, Public domain, via Wikimedia Commons

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Feliz Natal!

OTÃO

1- Antecedentes familiares, infância e juventude

Em 28 de abril de 32 D.C, nasceu Marcus Salvius Otho (Otão), no seio de uma família da antiga nobreza etrusca, originária de Ferentium, uma cidade da Etrúria. O avô de Otão, de nome idêntico ao seu, foi alçado ao Senado Romano por influência da influente imperatriz Lívia Drusila, na casa de quem inclusive, este avô havia crescido. Já o pai de Otão, Lucius Salvius Otho, gozava da intimidade do imperador Tibério, e, segundo as fontes, era tão parecido com este, que muitos suspeitavam de que ele fosse filho ilegítimo dele.

Detalhe da cabeça de Otho de uma estátua do acervo do Louvre. Foto Fred Romero from Paris, France, CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Commons

Por sua vez, Alba Terentia, mãe de Otão, vinha de uma família romana ilustre.

Não obstante, dada a proximidade da família de Otão com a dinastia dos Júlios-Cláudios, não surpreende que o seu pai tenha, desde cedo, conseguido seguir uma carreira pública: ele ocupou algumas magistraturas menores em Roma, foi nomeado Procônsul da África e, no reinado do imperador Cláudio, exerceu comandos militares na Ilíria, onde ele se notabilizou pela extrema severidade com relação à disciplina dos soldados, inclusive punindo com a morte legionários que haviam matado seus comandantes, não obstante estes tenham aderido a uma revolta contra o citado imperador, em 42 D.C., motivo pelo qual acabou incorrendo no desagrado da Corte.

Posteriormente, contudo, Lucius Salvius Otho recuperou seu prestígio após descobrir uma suposta conspiração de um integrante da classe Equestre que planejava assassinar Cláudio. Em reconhecimento, o Senado Romano decretou uma rara homenagem: que uma estátua de Otão deveria ser colocada no Palácio imperial.

Quando Otão nasceu, seu pai já tinha dois outros filhos: um chamado Lucius Salvius Otho Titianus, e uma filha de nome Salvia, que foi prometida a Drusus Caesar, filho do popular Germânico, morto em 19 D.C, que por sua vez tinha sido adotado por Tibério por determinação de Augusto. Este casamento, entretanto, não aconteceu, seja porque a menina morreu antes de atingir a idade para casar, seja pelo fato da família de Germânico ter caído em desgraça após a morte dele, sendo provavelmente esta a hipótese mais provável, pois as fontes relatam que, antes de morrer, Otão escreveu uma carta de despedida para uma irmã, ainda que não nominada. Suetônio menciona, ainda, que Otão, sua irmã e seu irmão mais velho eram todos filhos de Alba Terentia, mas considerando o cognomen do primogênito e a distância de idade entre Titianus e Otão, que devia ser de cerca de 20 anos, é bem possível que aquele fosse filho de um casamento anterior do pai deles.

Durante a infância e juventude precoce, segundo Suetônio, cujo relato é a base deste artigo, Otão não tinha bom comportamento, manifestando um temperamento turbulento e extravagante, chegando a obrigar seu pai a chicoteá-lo como castigo. O historiador conta, ainda, que Otão era dado a saídas noturnas pelas ruas de Roma junto com alguma turma de rapazes, ocasiões em que costumavam agarrar qualquer transeunte que aparentasse estar bêbado ou doente, jogá-lo em um cobertor, e sacudir e arremessar o pobre coitado para cima (em um procedimento algo similar ao “manteamento” tão bem descrito por Cervantes, em Dom Quixote).

Quanto à sua aparência e modos, assim Otão foi descrito por Suetônio:

Suetônio, “Vida dos Césares”; “Vida de Otão”, 12, 1

Esses obsessivos cuidados com a aparência e excessiva vaidade levaram o poeta romano Juvenal a mencionar expressamente Otão na sua Sátira de número 2, cujo título é “Moralistas sem Moral”, onde o poeta critica a decadência da elite romana e ridiculariza a efeminação de homens públicos:

Juvenal, “Sátiras”, Sátira 2

2- Ingresso no círculo imperial e carreira pública

O fato é que a personalidade e os modos de Otão acabariam aproximando-o do imperador Nero. Após cortejar uma liberta influente na corte imperial, apesar dela ser, nas palavras de Suetônio, “velha e quase decrépita“, ele conseguiu ingressar no círculo mais íntimo do imperador e, em pouco tempo, tornou-se o amigo mais próximo de Nero. De acordo com Suetônio, circularam relatos de que a amizade entre os dois pode ter ido além e envolvido “relações imorais“…

Provavelmente o boato nasceu do fato de que Nero e Otão tornaram-se tão íntimos a ponto de terem partilhado a mesma mulher, a rica Popeia Sabina, neta de um Cônsul, segundo os relatos de Suetônio, Tácito e Cássio Dião.

Cassius Dio, “Epitome of Book LXII”, 11,2

Os relatos dos três historiadores romanos acima citados acerca desse “affair” divergem apenas em poucos pontos: Segundo Suetônio e Cássio Dião, foi Nero, de quem Popeia já seria amante, que a ofereceu a Otão para que os dois celebrassem um casamento forjado, com a finalidade que Nero pudesse desfrutar dela com mais facilidade. Já de acordo com Tácito, o que ocorreu foi o contrário: Otão seduziu Popéia, casou-se com ela e, de tanto ele exaltar as qualidades da esposa para o imperador, Nero acabou interessando-se por Popeia. Mas todos convergem para o fato de que tudo se passou de acordo com a vontade da ambiciosa Popeia, que voluntariamente instigou a paixão do imperador por ela, não se afastando a hipótese de que ela tenha se casado com Otão já com este objetivo em mente.

Cabeça de Popeia

Nota: Popeia Sabina, com base em consideráveis evidências arqueológicas e epigráficas, pode ter nascido na cidade de Pompéia (não por causa do seu prenome), e certamente ela e sua família eram muito ligados à cidade e sua região, onde tinham propriedades, incluindo a fabulosa “Villa de Popeia”, na cidade vizinha de Oplontis, cujas ruínas foram admiravelmente preservadas pela erupção do Vesúvio, em 79 D.C.

Vista da Villa Poppea, em Oplontis

Essas fontes relatam que Popeia, após conseguir se fazer desejada por Nero, teria fingido relutância em trair Otão, ou, de outro modo, este, não suportando mais ter o imperador como rival, começou a dificultar o encontro entre este e a esposa.

Seja como for, o resultado foi que Nero, agora contrariado com as dificuldades que Otão, ou Popeia, ou estes dois juntos, estavam colocando em sua paixão pela última, decidiu, entre 58 e 59 D.C, nomear Otão para ser o governador da longínqua província da Lusitânia, uma designação que, na verdade, visaria acobertar do público o virtual exílio do antigo amigo e agora rival amoroso.

Para surpresa de muitos, Otão fez uma boa administração na Lusitânia, ficando lá por longos e incomuns dez anos. Nesse meio tempo, em 65 D.C, Popeia faleceu, provavelmente de complicações decorrentes de um parto ou aborto. Segundo boatos que circularam, registrados por Suetônio, Tácito e Cássio Dião, essas complicações teriam ocorrido por causa de um chute que Popeia teria levado de Nero no abdômen, segundo os dois primeiros historiadores, ou porque o imperador teria pulado sobre a barriga dela.

3- Atuação durante a aclamação e reinado de Galba

Quando a rebelião de Gaius Julius Vindex na Gália, no início de 68 D.C, pôs em marcha os eventos que resultaram na aclamação de Sérvio Sulpício Galba, governador da Hispânia, inicialmente por Vindex e, em seguida, por várias legiões, Otão imediatamente apoiou o governador da província vizinha a sua, tendo sido ele um dos primeiros a fazê-lo.

Abandonado pelo Prefeito Pretoriano, Ninfídio Sabino, que aderiu a Galba, e declarado inimigo público pelo Senado, que reconheceu a aclamação de Galba, Nero cometeu suicídio, em 09 de junho de 68 D.C.

Durante a marcha de Galba em direção à Roma, sabe-se que Otão teve participação ativa no avanço.

Em outubro de 68 D.C, Galba entrou na capital do Império e assumiu de fato as rédeas do governo. Porém, embora sua aclamação tenha sido recebida com algum entusiasmo, logo o novo reinado mostrou-se falho em manter a popularidade.

De fato, Galba, ao longo de sua carreira, sempre mostrou ser um chefe extremamente severo e, especialmente, um homem sovina. Os súditos e, especialmente, os militares, haviam se acostumado aos excessos de Nero quanto às benemerências e gratificações, e à condescendência quanto à disciplina. Também não ajudou o fato de Galba ser um homem já idoso e sem o “glamour” que envolvia os Júlio-Cláudios. Além disso, os cortesãos e os grupos que giravam em torno de Nero temiam as punições que já estavam ocorrendo. E os soldados esperavam recompensas.

Busto de Galba, foto: Gfawkes05, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

As fontes relatam que Galba, velho e atacado pela gota, deixava boa parte das questões de governo por conta de dois apoiadores de primeira hora: Titus Vinius, general que fazia parte do seu staff militar na Hispânia, um homem alegadamente corrupto, e que foi nomeado por Galba para servir como seu colega no primeiro consulado como imperador; e Cornelius Laco, o novo Prefeito Pretoriano, além de seu liberto, Icelus Martianus.

Com o objetivo de acalmar as legiões da Germânia e, talvez, de afastar um possível concorrente para o trono ou para a sua sucessão, Galba enviou o dissoluto e, aparentemente inofensivo, Aulo Vitélio, um notório glutão, para ser o governador da província, no final de 68 D.C. É bem possível que essa indicação tenha tido a influência de Vinius, que era amigo de Vitélio pelo fato de ambos apoiarem a facção dos Azuis nas corridas do Circo Máximo.

Entretanto, no dia em que Galba e Vinius assumiram o Consulado, em 1º de janeiro de 69 D.C, as legiões da Germânia se revoltaram e aclamaram Vitélio como novo imperador. As legiões estavam insatisfeitas com Galba porque esperavam recompensas pelo fato de terem debelado a rebelião de Julius Vindex. Segundo Tácito, as tropas também temiam alguma punição pelo fato de terem apoiado Nero contra Vindex e não terem declarado apoio a Galba na ocasião em que ele foi aclamado. Um emissário foi despachado imediatamente por Pompeius Propinquus, um agente imperial na vizinha província da Gália Bélgica levando a mensagem para Roma (Tácito).

Certamente percebendo a fragilidade de seu estado de saúde e, especialmente, a nova rebelião na Germânia, que sucedia alguns episódios prévios de indisciplina militar em seu reinado, fortaleceu-se em Galba, que não tinha filhos, a percepção de que era necessário nomear um sucessor, na esperança de que o estabelecimento de uma linha dinástica fortaleceria a sua posição e traria mais estabilidade ao governo.

Titus Vinius apoiava o nome de Otão para ser ungido como o herdeiro de Galba. Vale observar que Otão, segundo consta, estimulado por profecias de astrólogos, já vinha aproveitando, desde o início do reinado, toda oportunidade para se tornar o escolhido por Galba, alternando entre a descarada adulação ao imperador e a prestação de favores a qualquer pessoa que pudesse ter alguma influência, incluindo os militares da Guarda Pretoriana.

Todavia, para o grande desapontamento de Otão, prevaleceu a opinião de Cornelius Laco e de Icelus, que apoiavam Lucius Calpurnius Piso Frugi Licinianus. Sem dúvida, Piso Licinianus possuía um nome muito mais ilustre do que o do Otão. A gens Licínia era uma das famílias mais ilustres de Roma, embora inicialmente de origem plebeia, tendo gerado vários cônsules e um triúnviro. Além disso, por parte de mãe, Licinianus era descendente direto do triúnviro Pompeu, o Grande, e seu irmão foi marido de Cláudia Antônia, filha do imperador Cláudio. Não obstante, para Galba, o que teria pesado mesmo contra Otão era a associação dele com o reinado de Nero

Assim, em 10 de janeiro de 69 D.C, Lucius Calpurnius Piso Frugi Licinianus foi oficialmente adotado por Galba, em uma cerimônia realizada no Quartel da Guarda Pretoriana, em Roma, passando o herdeiro a adotar o nome de Servius Sulpicius Galba Caesar.

Vestígios do muro do Quartel da Guarda Pretoriana (Castra Pretoria), em Roma. Foto; Gustavo La Pizza, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

4- Ascensão ao trono

Ao receber a notícia da adoção de Lúcio Calpúrnio Pisão Licianiano por Galba, o ambicioso Otão não perdeu tempo de passar da decepção para a ação. Valendo-se de uma propina que obteve ao extorquir um liberto do imperador, no montante de um milhão de sestércios, Otão começou a subornar alguns guarda-costas do imperador. Vale observar que alguns desses pretorianos eram ligados a Tigellinus, o infame Prefeito Pretoriano de Nero, e eles sentiam-se ainda ligados a esse finado imperador, de cujo círculo íntimo Otão chegara a fazer parte. Tudo isso deu-se em um contexto de insatisfação geral da Guarda com a intensificação da disciplina e a falta de pagamento do donativo verificados no reinado de Galba.

Então, no dia 15 de janeiro de 69 D.C, enquanto Galba realizava um sacrifício ritual em frente ao Templo de Apolo, no Fórum Romano, acompanhado de Otão e vários senadores, os fatos foram precipitados pela predição de um advinho ao interpretar os presságios como indicando a existência de um plano para matar Galba. Premido pela revelação do plano, ou acreditando, por sua vez, que se tratava de um presságio favorável à conspiração, Otão deu uma desculpa para deixar a cerimônia e foi ao encontro dos guarda-costas que apoiavam o seu plano, que eram em número de vinte e três, próximo ao Marco Miliário de Ouro e ao Templo de Saturno, também no Fórum Romano.

Localização do Marco Miliário de Outro e do Templo de Saturno no Fórum Romano. Foto: Public Domain Book: Christian Hülsen, Bretschneider und Regenberg, 1904. Author Christian Hülsen died in 1935., Public domain, via Wikimedia Commons

Os 23 guarda-costas saudaram Otão como imperador e logo um número semelhante de Pretorianos se juntou ao grupo, que ergueu Otão em uma cadeira e dirigiram-se ao Quartel da Guarda Pretoriana, onde os oficiais e o resto dos soldados, confusos e cautelosos em tomar partido, não tomaram nenhuma atitude contra os revoltosos, no que provavelmente também contribuiu a antipatia geral que a tropa nutria contra Galba.

Entretanto, Galba prosseguia na realização da cerimônia religiosa, momento em que chegaram os rumores de que Otão estava sendo aclamado pela Guarda Pretoriana.

Galba e seu círculo íntimo resolveram que o mais adequado à situação era verificar se os guardas do palácio no Palatino continuavam leais. Assim, o seu herdeiro, Lúcio Calpúrnio Pisão Licianiano, foi até lá e fez um discurso conclamando-os a defenderem o seu imperador.

Assim que foi terminado o discurso, os integrantes do corpo de guarda-costas pessoais do imperador desapareceram, mas parte do corpo de pretorianos que estava no Palácio permaneceu em formação, atrás dos seus estandartes. Dois oficiais foram enviados ao Quartel da Guarda Pretoriana para se inteirar do ânimo da tropa, e lá chegando foram hostilizados e detidos pelos soldados. Para piorar, o destacamento de soldados-marinheiros da Frota Imperial, que ficava aquartelado em Roma aderiu aos revoltosos (eles haviam sido alvo de um banho de sangue perpetrado pelas tropas leais à Galba, quando estas entraram em Roma nos primeiros dias do reinado dele).

Uma turba invadiu as ruas do Fórum Romano, inicialmente clamando pela punição dos revoltosos.

Dois cursos de ação foram recomendados à Galba: a) Titus Vinius aconselhou que o imperador se entrincheirasse no Palácio e resistisse até que forças leais mais numerosas pudessem alcançar Roma e combater a Revolta; b) Cornelius Laco e Icelus defendiam que Galba fosse imediatamente ao encontro dos revoltosos com os poucos guardas que lhe eram leais enquanto a rebelião ainda estava incipiente e retomasse o controle das tropas.

Galba preferiu seguir o conselho de Laco e Icelus, talvez reforçado pelo falso boato de que Otão teria sido executado no Quartel da Guarda Pretoriana. O idoso imperador, então, vestiu uma couraça e, enquanto deixava o Palácio sendo carregado em uma cadeirinha, foi abordado por um pretoriano, que lhe disse que ele mesmo havia matado Otão, chegando a mostrar a espada ensanguentada. A resposta do severo e inflexível imperador foi:

Tácito, “Histórias”, Livro I, 35

Enquanto isso, o movimento no Quartel da Guarda Pretoriana transformou-se em rebelião generalizada, com os soldados aclamando Otão, vestindo suas armaduras e brandindo suas espadas, lanças e escudos com intenção de defendê-lo pela força das armas.

Logo os sons da rebelião e, em seguida, os primeiros destacamentos de revoltosos começaram a se aproximar do Fórum Romano, por onde trafegava a pequena comitiva de Galba, observada pela multidão espalhada pelas ruas, nos templos e nos edifícios públicos.

Todos puderam ter um prenúncio do que iria ocorrer quando o porta-estandarte do pelotão que escoltava Galba, ao perceber a chegada dos primeiros pretorianos amotinados, arrancou a efígie de Galba do estandarte. A multidão, ameaçada pelos soldados, e ciente do iminente desfecho, tentou fugir por onde fosse possível.

Alguns soldados de infantaria e cavalaria rebeldes aproximaram-se mais do cortejo imperial e um deles lançou um dardo, que acertou Galba sentado na cadeirinha em que era carregado. O imperador, ferido, caiu e rolou pelo chão, ocasião em que alguns relataram ter ouvido ele dizer:

Cássio Dião, “Epítome do Livro LXIV”, 5

Os soldados impiedosamente feriram várias partes do corpo de Galba, terminando por decapitá-lo. Durante todo o selvagem episódio, apenas um Guarda Pretoriano, um centurião de nome Semprônio Denso, tentou defender o imperador, conseguindo evitar a morte dele durante alguns momentos, lutando contra vários atacantes. A história pode ser consultada no artigo que escrevemos sobre Galba. Graças à ação de Semprônio, momentaneamente, Lúcio Calpúrnio Pisão Licianiano conseguiu escapar e se refugiar no Templo de Vesta, apenas para, um pouco mais tarde, ser capturado por ordens de Otão e terminar executado na frente do santuário. Já Titus Vinius, que acompanhava Galba, vendo a morte do imperador, tentou escapar, mas foi atingido por uma lança, e, em seguida, também foi executado no ato.

Reencenação de um centurião romano. Foto: I, Luc Viatour, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons

5- Reinado de Otão

No fim daquele dia de 15 de janeiro de 69 D.C, após ser aclamado pelos Pretorianos e pelos soldados-marinheiros da Frota Imperial no Quartel, que, naquele momento, eram os verdadeiros senhores da situação, Otão foi até o Senado Romano, onde os senadores imediatamente confirmaram a sua elevação, votando pela concessão de todos os poderes inerentes ao Principado.

Todavia, naquele momento a anarquia e a indisciplina dos Pretorianos era tanta que foram eles próprios que não apenas escolheram os seus novos comandantes, o simples soldado Plotius Firmus e Licininus Proculus, ambos ligados a Otão, mas também o novo Prefeito Urbano, escolha que recaiu sobre Flávio Sabino, que anteriormente havia sido escolhido por Nero para ocupar esse cargo (relato de Tácito, em suas “Histórias”. Sabino era irmão do respeitado general Vespasiano, que na ocasião conduzia a campanha romana contra a Grande Revolta dos Judeus, na província da Judéia. Laco e Icelus, ligados ao finado Galba, foram imediatamente executados, e Tigellinus forçado a cometer suicídio.

Nesse ínterim, a rebelião dos partidários de Vitélio ganhava adesões na Gália e no norte da Itália. Otão tentou fazer um acordo com o rival, enviando emissários com promessas de dinheiro e salvo-conduto para ir viver a salvo onde quer que ele escolhesse. Vitélio, por sua vez, também enviou uma mensagem de teor semelhante. Os generais partidários de ambos também enviaram ou tentaram enviar mensageiros às legiões controladas pelo oponente imperial. Inclusive, Fábio Valente, general de Vitélio, enviou emissários à Guarda Pretoriana, em Roma, oferecendo negociações e argumentando que Vitélio tinha sido aclamado primeiro que Otão.

Mensagens mais animadoras chegaram da Dalmácia, da Panônia e da Moésia haviam jurado lealdade a Otão. Entretanto, a boa nova foi contrabalançada pela informação que as legiões da Hispânia aderiram à causa de Vitélio. O substancial contingente de legiões estacionadas na Judéia, sob o comando de Vespasiano, juraram lealdade a Otão.

O novo imperador tentou alguns gestos conciliadores em relação a pessoas ilustres. algumas inclusive punidas nos reinados anteriores. Após exercer o consulado do ano de sua elevação juntamente com seu irmão, Salvius Titianus, até o mês de março, Otão, para os meses posteriores, nomeou uma série de senadores, no número total de 15, para serem Cônsules daquele ano. Ele também concedeu direito de cidadania romana a algumas cidades.

Aureus de Otão. Foto: Antiksikkeler, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Outras medidas, como o soerguimento de estátuas de Nero e da falecida imperatriz Popeia Sabina, parecem ter visado a agradar os partidários de Nero e o populacho da Cidade, no seio do qual o tresloucado imperador ainda gozava de bastante estima. Ele também reabilitou vários dos libertos que faziam parte do círculo íntimo do referido antecessor. Aparentemente, Otão pretendia, e assim o seu reinado estaria sendo percebido, como uma restauração do reinado de Nero. Sintomaticamente, o povo começou a chamá-lo de “Nero Otão“, um nome que, embora ele não tenha assumido oficialmente, também não consta ter proibido ou manifestado contrariedade.

Algo que contribuiu para reforçar o sentimento de continuidade em relação ao reinado de Nero, embora tenha sido considerado desabonador pelos historiadores romanos, foi o fato dele ter trazido para perto de si o escravo Sporus (Esporo), um rapaz que, devido a grande semelhança dele com a imperatriz Popeia Sabina, seguindo as ordens de Nero, foi castrado e passou a ser tratado por este imperador como se fosse a sua própria esposa.

Finalmente, de acordo com Suetônio, o imperador Otão destinou 50 milhões de sestércios para a conclusão da Domus Aurea, o suntuoso e espetacular palácio que Nero havia começado a construir em Roma, que ainda estava por ser terminado.

Alguns bárbaros, percebendo a turbulência política no seio do Império, aproveitaram para fazer incursões no território romano. Assim, os Roxolanos invadiram a província da Moésia com nove mil guerreiros montados. Porém, a Legião III, alerta e preparada para a ação, derrotou a tribo sármata com facilidade.

Todavia, na cidade de Roma, a indisciplina dos soldados permanecia: Em certa ocasião, os Pretorianos, da qual boa parte encontrava-se embriagada no Quartel, interpretou erroneamente uma movimentação de tropas e víveres e, acreditando que se tratava de uma tentativa de destronar Otão, um bando deles, após matar um dos seus comandantes, dirigiu-se ao Palácio e invadiu um banquete que estava sendo dado pelo imperador, que mostrou-se fraco e indulgente na ocasião. Nenhum soldado foi punido pelo episódio e eles ainda receberam uma gratificação de cinco mil sestércios para comprar a sua obediência. Para finalizar, os líderes da rebelião só foram punidos porque os próprios soldados assim o demandaram.

Em seguida, em meio aos preparativos para a expedição contra Vitélio, houve uma grande cheia do rio Tibre que inundou boa parte de Roma.

Tomadas as providências para minorar os danos da inundação, Otão retomou os planos para o confronto contra o rival: Ele enviou a frota para atacar a Gália Narbonense, um dos redutos de Vitélio e reforçou as tropas aquarteladas na cidade, predominantemente componentes da Guarda Pretoriana, com alguns outros contingentes. Julgando que os preparativos eram suficientes e tomando como exemplo negativo a postura passiva de Nero ante à rebelião que lhe custou a vida e o trono, Otão, em 14 de março de 69 D.C, partiu de Roma em direção ao norte da Itália.

No meio dessas ações iniciais, dois episódios merecem nota: Tito, o filho de Vespasiano, que havia sido enviado da Judéia pelo pai para prestar homenagens a Galba, ao saber que este havia sido assassinado, e que Otão assumira o trono tendo como contestantes Vitélio e suas legiões, achou mais prudente voltar e expor a situação ao pai, a fim de ver qual curso de ação tomar. Concomitantemente, apareceu na Ásia um impostor dizendo que ele era Nero, que teria conseguido escapar da Itália, conseguindo enganar e atrair um bom número de apoiadores. Mas a farsa não perdurou muito e o farsante foi capturado e morto.

A força militar à disposição de Otão foi reforçada com a chegada de quatro legiões: a VII, XI, XIII Gemina e XIV Gemina. Nero havia conferido a esta última muitas distinções e, por causa disso, esses soldados aderiram entusiasticamente à causa de Otão, que, envergando uma couraça de metal, marchava à frente de sua tropa citadina, majoritariamente composto de Pretorianos e dos Soldados-Marinheiros, aos quais se somaram algumas tropas esparsas, incluindo uma constituída de dois mil gladiadores. A pressa se justificava, pois parte do exército de Vitélio, comandado por Aulus Caecina Alienus, já tinha atravessado os Alpes, cujas passagens haviam sido asseguradas pela adesão de um contingente de cavalaria chamado de Sílios, e chegado à Itália. Por sua vez, o envio da frota mostrou-se frutífero e assegurou o controle da costa italiana até os Alpes Marítimos (cadeia de montanhas no litoral do Mediterrâneo que separa a Itália da França).

Otão enviou um destacamento avançado de suas forças para atacar a região dos Alpes Marítimos, tendo essas tropas causado grande dano aos habitantes locais, com saques e destruição de propriedades. O governador da província tentou defendê-la mediante o recrutamento dos aguerridos povos montanheses, mas estes, devido à falta de treinamento militar, foram facilmente subjugados.

No litoral da Gália, Fábio Valente, general de Vitélio, temendo a ameaça de um desembarque da frota próximo à importante cidade de Forum Julii (atual Fréjus, na França), enviou doze esquadrões de cavalaria, acompanhado de uma coorte auxiliar (unidade com cerca de 800 soldados) de Lígures (povo que habitava o sopé e a parte mais baixa dos Alpes) e 500 auxiliares Panônios.

As tropas de Otão ocuparam posições elevadas junto à costa e contavam com a proteção da frota no litoral adjacente. A batalha seguiu-se imediatamente e, devido à ação conjunta dos pretorianos, de camponeses recrutados para atirar pedras (talvez usando fundas) e das tropas embarcadas, resultou favorável ao exército de Otão. Em decorrência, as tropas de Vitélio foram obrigadas a recuar. Contudo, o sucesso distraiu as tropas de Otão, e, aproveitando-se disso, o exército de Vitélio atacou o acampamento adversário de surpresa, mas acabaram sendo repelidos.

Não tendo nenhum dos lados obtido uma vitória decisiva, os dois exércitos retiraram-se: o de Vitélio para Antipolis (atual Antibes, França) e o de Otão para Albingaunum (atual Albenga, Itália).

Não obstante, a maior ameaça para Otão era o fato de que um exército de Vitélio, comandado por Aulus Caecina, já havia descido os Alpes e ocupado a fértil planície do rio Pó, cruzando este mesmo rio e ameaçando a cidade de Placentia (atual Piacenza). Observe-se que a junção dessa força com aquela comandada por Fábio Valente poderia colocar o exército de Otão em perigosa desvantagem.

Spurinna, o comandante da guarnição de Placentia, leal a Otão, mandou fortificar as defesas da cidade, que foi atacada por Caecina, mas conseguiu resistir bravamente ao cerco que se seguiu. Assim, o general de Vitélio foi obrigado a recuar, cruzar de volta o rio Pó e buscar abrigo na cidade de Cremona. Durante esta retirada, positiva para a causa de Otão, contudo, algumas tropas desertaram e juntaram-se a Caecina.

A Legião I Adiutrix, uma legião recém-formada, comandada por Annius Gallus, que marchava em direção a Placentia para ajudar a guarnição da cidade na resistência ao cerco, ao saber da retirada de Caecina, entusiasmou-se e, mesmo sem que houvesse ordem de seu comandante, marchou em direção à Cremona, somente parando, após retomada a disciplina, na cidade de Bedriacum (Bedríaco, atual Calvatone), que ficava a meio caminho.

Nesse ínterim, uma ação inusitada, segundo Tácito, acirraria a falta de confiança e entusiasmo das forças partidárias de Otão: a força de dois mil gladiadores comandada por Marcius Macer logrou atravessar o rio Pó e atacou com sucesso unidades de auxiliares do exército de Vitélio, tendo parte conseguido fugir para Cremona e outra parte sido aniquilada. Apesar do sucesso, Macer ordenou que seus homens não explorassem esse sucesso, temeroso de enfrentar inimigos em maior número. Em seguida, o general Suetônio Paulino comandou outra ação bem-sucedida na localidade chamada de Locus Castorum, porém, da mesma forma e pelo mesmo motivo, decidiu interromper o avanço. Essas hesitações acabaram acarretando a desconfiança do grosso das tropas de Otão em seus comandantes. Em decorrência, o imperador foi obrigado a designar seu irmão, Titianus, como o comandante geral do seu exército, preterindo talentosos generais que já comandavam suas legiões no teatro de batalha, como era o caso de Suetônio Paulino (que havia derrotado com sucesso a grande revolta da rainha Boudica, na Britânia).

Após controlar um perigoso motim em suas tropas, Fábio Valente conseguiu unir-se ao exército comandado por Caecina, em Cremona, ocasião em que a rivalidade entre os dois ficou evidente.

6- Primeira Batalha de Bedríaco

A junção dos dois exércitos de Vitélio tornava urgente a definição de uma estratégia por parte de Otão. Os seus generais mais experientes, como Suetônio Paulino, cientes da inferioridade numérica, recomendaram evitar uma batalha e esperar que os suprimentos das forças de Vitélio se esgotassem, já que estes não controlavam o resto da Itália e nem as rotas marítimas. O rio Pó configurava uma barreira favorável à defesa e, portanto, manter as posições defensivas em cidades fortificadas ao longo do rio propiciaria que com a passagem do tempo, as tropas de Vitélio começassem a sofrer os efeitos da carência de víveres.

Entretanto, prevaleceram as opiniões de Titianus e do Prefeito Pretoriano Proculus, que defendiam um ataque imediato, porém recomendando que o imperador e sua guarda ficassem na retaguarda, aquartelados na cidade de Brixellum (atual Brescello), para a proteção de Otão e como reserva.

Alguns desertores, espiões ou ambos, levaram as resoluções do comando das forças de Otão ao conhecimento de Valente e Caecina, que planejaram um ataque simulado aos gladiadores de Otão. Seguiu-se um combate em que os gladiadores acabaram levando a pior, o que gerou mais insatisfação das tropas com o comandante deles, Macer, que foi substituído por Tito Flávio Sabino, sobrinho de Vespasiano (não confundir com o irmão deste, mencionado anteriormente).

Finalmente, em 14 de abril de 69 D.C, Titianus, o comandante do exército de Otão, decidiu atacar Cremona e forçar o engajamento decisivo.

Mesmo assim, durante o avanço para Cremona, os generais de Otão estavam relutantes e, sentindo as tropas fatigadas pela marcha e decidiram acampar em um trecho da Via Postumia, próximo a Bedríaco (atual Calvatone).

Local da Batalha de Bedríaco. Foto: Hannibal21, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

Segundo Suetônio, enquanto isso, dois centuriões das coortes pretorianas pediram para serem recebidos por Caecina, com o objetivo de entabular negociações. Antes que o real propósito dos pretorianos fosse conhecido, o comandante percebeu que seu colega Valente havia ordenado que suas tropas entrassem em formação de batalha, dando o respectivo sinal.

Então, a cavalaria do exército de Vitélio avançou, mas, surpreendentemente, ela foi repelida por um pequeno contingente das tropas de Otão. Mesmo assim, as forças de Vitélio se posicionaram em boa ordem, enquanto que as tropas de Otão se dispuseram em certa confusão, aparentando nervosismo e insatisfação com seus comandantes.

Para piorar a situação, espalhou-se entre as tropas de Otão um boato de que o exército de Vitélio havia desertado, não se sabe se propositalmente ou por acaso. Em decorrência, baixou sobre as primeiras um estado de desânimo, chegando os homens a saudarem os inimigos, que, mesmo assim, continuavam demonstrando animosidade contra eles.

Foi neste momento que o grosso do exército de Vitélio atacou.

Apesar de sua inferioridade numérica, desorganização e estado de ânimo, o exército de Otão ofereceu uma corajosa resistência. Como o campo de batalha era, em alguns trechos, entremeado de árvores e vinhedos, a luta adquiriu uma característica ora de combate homem a homem, ora de combate entre formações. As ações ofensivas foram feitas basicamente com espadas e machados, sem o arremesso de dardos.

Em outra parte do campo de batalha, entre o rio e a estrada, onde o terreno era plano e aberto, a experimentada Legião XXI Rapax de Vitélio engajou a Legião I Adiutrix de Otão, que nunca tinha visto combate real antes. Apesar disso, a Adiutrix, lutando com entusiasmo, conseguiu capturar a o estandarte-águia da Rapax. Porém, isto acabou inflamando os soldados da legião de Vitélio, e eles conseguiram matar em combate o comandante da Adiutrix, Orfidius Benignus, e capturar vários estandartes.

Ponte sobre o rio Oglio, afluente do Pó, em Calvatone (antiga Bedríaco). Alguns dos combates descritos no texto podem ter tido esse local como cenário. Foto: Massimo Telò, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

Enquanto isso, outra legião de Vitélio, a V Alaudae, conseguiu desbaratar a Legião XIII, de Otão, tendo outra legião “Otoniana”, a Legião XIV, experimentado o mesmo revés. Nesta altura do combate, os generais de Otão abandonaram o campo de batalha. A situação do exército de Otão piorou quando a temível unidade dos Batavos, que integrava as forças de Vitélio, chegou ao campo de batalha e conseguiu destroçar o contingente de gladiadores de Otão que havia atravessado o rio.

O símbolo da Legião V Alaudae era um elefante. Foto: CatMan61, Public domain, via Wikimedia Commons

Em franca desvantagem, o restante do exército de Otão foi obrigado a fugir em desordem e procurar abrigo em Bedríaco. Os seus comandantes foram recebidos com hostilidade pelos soldados no acampamento. Não obstante, parte dos soldados, inclusive dos Pretorianos, ainda considerava que eles poderiam continuar a luta.

O exército de Vitélio avançou até o marco de cinco milhas da que partia de Bedríaco e decidiu esperar. No dia seguinte, a disposição dos soldados no acampamento mudou e eles resolveram enviar uma delegação para negociar com os generais de Vitélio. Após alguma hesitação, esta delegação voltou acompanhada de uma enviada pelo exército de Vitélio, a qual foi recebida com emoção pelos acampados.

Nesse meio tempo, Otão aguardava com ansiedade as novas da batalha em Brixellum. Ele ainda tinha consigo uma quantidade apreciável de tropas e sabia que havia outras legiões que, formalmente, ainda lhe eram leais que poderiam chegar de outros pontos do Império. As lideranças dos soldados que estavam com ele manifestaram o desejo de continuar lutando, tendo Plotius Firmus, Prefeito da Guarda Pretoriana sido vocal neste sentido. Inclusive, integrantes de destacamentos das legiões da Moésia que se encontravam no acampamento, afirmaram que as tropas desta província já teriam alcançado a cidade de Aquileia, e em breve reforçariam o exército de Otão.

Naquele momento, de acordo com o relato do historiador Tácito (Nota: o nosso relato da batalha é praticamente uma transcrição do texto deste historiador), o imperador Otão fez o seguinte discurso aos seus soldados:

Tácito, Histórias, Livro II, 46

O historiador Suetônio transcreve um discurso de teor semelhante, embora com texto diferente. Sabemos que os historiadores antigos usavam como recurso narrativo inventar discursos de pessoas célebres em momentos decisivos. Tácito é considerado um historiador mais confiável em relação às fontes, mas ele também costumava inventar discursos. O certo é que todos os historiadores que relataram esses fatos concordam que Otão se dirigiu aos soldados e fez um discurso declarando o desejo de interromper a guerra civil e tirar a própria vida, para evitar mais derramamento de sangue.

7- Morte de Otão

Após o discurso, Otão mandou queimar documentos que poderiam comprometer os seus partidários e distribuiu dinheiro para algumas pessoas. Alguns militares chegaram a ameaçar um motim, mas o imperador conseguiu demovê-los. Ele tinha a seu lado seu jovem sobrinho, Lucius Salvius Otho Cocceianus, filho de seu irmão Titiano, a quem ele tranquilizou, dizendo que não tivesse medo (de fato, o rapaz foi poupado por Vitélio e viveu até o reinado de Domiciano, quando chegou a ser Cônsul, no ano de 82 D.C.., mas, segundo consta, este imperador o teria executado pelo simples fato dele haver comemorado o aniversário de Otão).

Então, Otão retirou-se para sua tenda, despediu seus amigos e apanhou duas adagas que lhe tinham sido trazidas. Após matar a sede com um tanto de água fria, o imperador dormiu um pouco. Quando o dia 16 de abril de 69 D.C. raiou, finalmente, ele se jogou sobre uma das adagas e morreu, faltando onze dias para completar 37 anos de idade.

Em obediência às suas instruções, o cadáver de Otão foi rapidamente cremado em uma pira, sendo que, durante a cremação, alguns soldados, emocionados, cometeram suicídio. Os seus restos foram sepultados em um modesto mausoléu, contendo apenas uma inscrição com o seu nome.

Mesmo após a morte de Otão, seus soldados chegaram a se amotinar e obrigar o general Lucius Verginius Rufus a aceitar ser aclamado como imperador, mas este se recusou (como já havia ocorrido quando ele derrotou a rebelião de Gaius Julius Vindex).

Os soldados, então, aceitaram a realidade e enviaram uma delegação composta por alguns generais, que submeteram aos generais de Vitélio a capitulação e o reconhecimento deste como novo imperador.

De acordo com o historiador romano Cássio Dião, quarenta mil soldados pereceram nos combates em Bedríaco.

8 – Epílogo

Em 19 de abril de 69 D.C, o Senado Romano formalmente declarou Vitélio imperador. Este, quando recebeu a notícia da vitória de suas tropas e da morte da Otão, prontamente dirigiu-se para Roma, onde fez uma entrada triunfal. Os homens fortes do novo reinado eram, obviamente, os generais Caecina e Valente. O novo imperador tentou, inutilmente, como seus predecessores, contentar a ganância dos soldados, sem conseguir discipliná-los. Para isso contribuiu o comportamento desregrado e a sua falta de compostura, que naturalmente não estimulava o respeito dos militares nem o suporte por parte da elite senatorial. Como seu predecessor, Vitélio parece ter procurado demonstrar que seu reinado manteria a orientação favorável a Nero.

Porém, em julho de 69 D.C., os exércitos do Oriente aclamaram como imperador o respeitado general Vespasiano, que comandava a campanha contra a Revolta dos Judeus. A situação de Vitélio piorou quando as legiões da Panônia, sob o comando de Antonius Primus, e da Ilíria, sob o comando de Cornelius Fuscus, declararam-se a favor de Vespasiano e marcharam para invadir a Itália. Em breve, os exércitos dos rivais encontrariam-se novamente nas proximidades de Cremona, e travariam a Segunda Batalha de Bedríaco.

9- Conclusão

A despeito de seus vícios tão enfatizados pelas fontes antigas, Otão não parece ter sido pior do que alguns de seus antecessores ou sucessores. Devemos, então, nos debruçar mais sobre os aspectos estruturais, sem deixar de relacioná-los com as ações do próprio Otão. A crônica da vida e do reinado dele demonstra a disfuncionalidade que havia quanto ao Principado no que se refere à natureza do regime e ao princípio da sucessão, algo que já abordamos no nosso artigo sobre Nero. Essa disfuncionalidade foi herdada da crise do final da República, em que o poder político se sustantava nas legiões recrutadas por generais-políticos ambiciosos. Augusto foi bem-sucedido em cooptar a elite senatorial sob uma aparência de manutenção de seus privilégios na ordem republicana, mas não conseguiu estabelecer um princípio sucessório que assegurasse a continuidade de sua dinastia. A queda de Nero reabriu a oportunidade para que aventureiros ambiciosos aliassem-se à ganância dos soldados, resultando em imperadores fracos, com pouca autoridade sobre os militares, e em um regime instável. O capítulo final da vida de Otão, e a nobreza demonstrada em sua morte, mostra que ele não era um romano tão degenerado como se supunha. Mas somente um governante com autoridade moral, comportamento respeitável, sensatez e ascendência sobre as tropas, como Vespasiano, conseguiria restaurar a estabilidade do regime imperial.

FIM

Fontes:

1- Suetônio, “Vida dos Doze Césares”; “Vida de Otão”, em https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Suetonius/12Caesars/Otho*.html

2- Tácito, “Histórias”, Livros I e II, começa em https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Tacitus/Histories/1B*.html

3- Cássio Dião,Epítome dos Livro LXIII e LXIV“, em https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Cassius_Dio/63*.html

4-Juvenal, Sátiras, Sátira 2, em https://www.tertullian.org/fathers/juvenal_satires_02.htm

AVE, GEORGIOS!

Em 23 de abril de 303 D.C, um soldado romano chamado Georgios foi executado por ordens do Imperador Romano Diocleciano.

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Diocleciano havia ordenado que todos os soldados do Exército Romano oferecessem um sacrifício aos deuses do panteão tradicional de Roma e aqueles que se recusassem deveriam ser presos.

Georgios (Jorge), segundo a hagiografia e a tradição cristã seria filho de Gerontius, um oficial romano da ilustre família senatorial dos Anícios, e Pollycronia, uma súdita romana de Lydda, atual Lod, em Israel, então situada na província romana da Síria Palestina. Segundo outro relato, Gerontius seria natural da Capadócia. De qualquer modo, as fontes acordam que Jorge cresceu em Lydda e que sua família era cristã.

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(Mosaico romano descoberto em Lod, Israel)

Seguindo a carreira do pai, Jorge se alistou na guarda imperial, servindo na corte de Diocleciano em Nicomédia (atual Izmit, na Turquia), que havia sido elevada pelo imperador à condição de capital imperial, no recém-criado sistema da Tetrarquia.

Jorge acabou sendo promovido ao posto de Tribuno, que hoje seria equivalente ao de coronel. Quando Diocleciano publicou seu Édito exigindo que os soldados cristãos renunciassem ao cristianismo, Jorge anunciou publicamente, perante as tropas formadas na presença do Imperador, sua devoção a Jesus Cristo.

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O Imperador, que apreciava Jorge tentou convencê-lo de várias formas a obedecer o Decreto, até oferecendo-lhe terras, dinheiro e escravos, mas Jorge manteve-se irredutível.

Sentindo-se obrigado a reforçar a obediência ao seu Édito, Diocleciano ordenou que Jorge fosse torturado em uma roda de afiadas espadas. Após este suplício, Jorge foi decapitado em frente às muralhas de Nicomédia, em 23 de abril de 303 D.C. Seu corpo foi levado para Lydda e logo se tornou foco de devoção como relíquia de umt mártir cristão. Ainda segundo a tradição, a imperatriz Alexandra, esposa de Diocleciano (segundo as fontes históricas, o nome da esposa dele era Prisca), ao assistir o martírio de Diocleciano, converteu-se ao cristianismo, motivo pelo qual ela também foi executada e, posteriormente, canonizada.

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(Panorama de Izmit, a antiga Nicomédia, na Turquia)

A associação de São Jorge ao dragão parece ter sido recolhida e trazida à Europa pelos cruzados no Oriente Médio (algumas populações islamizadas inclusive mantiveram a veneração a São Jorge na região).

Segundo a lenda, na cidade de Sylene (que poderia ser Cirene, na Líbia ou, segundo alguns, seria a própria Lydda), um dragão ( originalmente um crocodilo) viveria na fonte de água potável dos habitantes, que eram obrigados a oferecer ao monstro uma ovelha para sacrifício, até que, na falta dos animais, eles foram forçados a oferecer uma virgem. A donzela orou pedindo proteção e São Jorge apareceu e matou o dragão, motivo pelo qual todos os habitantes se converteram ao cristianismo.

Jorge foi canonizado pelo Papa Gelásio I, em 494 D.C. Embora o santo fosse conhecido no Ocidente, a sua popularidade chegou ao ápice com o retorno à Europa dos cruzados, que atribuíram à intervenção de São Jorge várias vitórias obtidas na Terra Santa. Por influência deles, São Jorge acabou virando o santo patrono da Inglaterra, de Portugal, da Geórgia, da Romênia e de Malta. A imagem de São Jorge matando o dragão também compõe a Cota de Armas da Federação Russa.

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IO, SATURNALIA!

A Saturnália era um festival da Antiga Roma em honra ao deus Saturno, que ocorria em 17 de dezembro no Calendário juliano. Mais tarde, as festividades foram estendidas até 23 de dezembro.

Saturno na mitologia romana foi o deus responsável por ensinar a agricultura aos homens, inaugurando uma “Era de Ouro”, de abundância e igualdade, por isso a divindade é habitualmente representada com uma foice na mão. Vale observar, inclusive, que o nome “Saturno” está ligado a raiz da palavra “semear”, em latim.

Afresco do deus Saturno, proveniente da Casa dos Dioscuros, em Pompéia. Carole Raddato from FRANKFURT, Germany, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

Era a Saturnália uma das festas religiosas romanas ancestrais, ligada ao fim da sementeira de outono, quando dezembro ainda era para os Romanos o décimo e último mês do ano, antes da adoção do citado Calendário Juliano, que foi implantado pelo Ditador Júlio César e que era baseado no movimento de translação da Terra em torno do Sol durante um ano de 365 dias, dividido em 12 meses.

Com o fim da sementeira, para os agricultores romanos, terminava mais um ano de trabalho, o que era para eles, assim como até hoje é para nós, motivo para celebração e alegria.

Porém, com o passar do tempo e o progressivo distanciamento dos Romanos da Urbe das atividades agrícolas, o sentido inicial do Festival caiu no esquecimento, e a Saturnália transformou-se na prática em um animado Festival de Inverno.

O Feriado era celebrado com um sacrifício no Templo de Saturno, no Fórum Romano, seguido de um banquete público e da troca de presentes nas residências, fazendo-se festa contínua em uma atmosfera semelhante ao carnaval, onde se derrubavam as convenções sociais romanas: por exemplo, os escravos podiam ser servidos à mesa pelos seus senhores, e jogos de dados e outros tipos de jogos de azar eram permitidos em público. A Saturnália era uma das poucas datas festivas em que realmente quase ninguém trabalhava. As ruas da Cidade ficavam cheias de gente e os celebrantes cumprimentavam-se uns aos outros, dizendo: “Io, Saturnalia!”

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O Tempço de Saturno, no Fórum Romano Chabe01, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

O poeta Catulo chamava a Saturnália de “o melhor dos dias“.(Da Wikipedia).

Muitos estudiosos acreditam que a Saturnália está na origem do costume das pessoas darem-se presentes no Natal e ela teria, até mesmo, influenciado a própria existência desta festividade cristã em si.

Fontes:

  1. Gods and Myths of the Romans, Mary Barnett, Grange Books, 1999
  2. Roma, Biblioteca dos Grandes Mitos e Lendas Universais, Stewart Perowne, Verbo, 1987
  3. Saturnalia, verbete Wikipedia, inglês

SANTO AGOSTINHO

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Infância e juventude

No dia 13 de novembro de 354 D.C., nasceu, na cidade de Taghaste (atual Souk Ahras, na Argélia), na província romana da Numídia, Aurelius Augustinus, filho de um pequeno proprietário rural e de sua esposa Mônica, cristã fervorosa e mãe possessiva (que, posteriormente, assim como o próprio filho, seria canonizada como Santa Mônica).

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(Os locais acreditam que essa oliveira, na atual Souk Ahras foi plantada por Santo Agostinho)

Augustinus, que ficaria conhecido como Santo Agostinho, seria o principal filósofo cristão durante o Império Romano, e a influência do seu pensamento moldaria não só a doutrina da Igreja Católica até os nossos dias, mas a própria civilização ocidental.

Agostinho estudou em Cartago, o maior centro urbano do Norte da África (sem contar o Egito). Financiado a duras penas pelo pai, o jovem cursou retórica, visando obter um cargo público. Mas, embora ele se aprofundasse nos autores latinos, sobretudo Cí­cero (Inclusive, Agostinho foi muito influenciado pela obra de CíceroHortensius“, que não sobreviveu até os nossos dias), Agostinho detestava estudar grego, língua que  ele não conseguiu aprender, e este fato prejudicou consideravelmente o seu desempenho acadêmico.

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Mas Agostinho também se negava a ler a Bí­blia, apesar de muita insistência da mãe. Tudo isso, somado às suas travessuras de jovem, suas dúvidas, paixões e ansiedades, e também a sua contí­nua aventura intelectual, é narrado magistralmente, de forma autobiográfica, em suas “Confissões“.

Após a morte do pai, Agostinho voltou para Thagaste, com o encargo de, agora na condição de chefe da famí­lia, administrar a propriedade paterna. Todavia,  no lugar dessas tarefas mais mundanas, Agostinho resolveu abrir uma escola.

Primeiras influências

Enfim, depois de resolvidas as questões sucessórias,  Agostinho voltou para Cartago para assumir um cargo de professor de retórica. Durante esse tempo, ele leu a obra de Aristóteles, traduzida para o latim.

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(Vista atual de Souk Ahras, antiga Tagaste, foto de Omaislam)
 

Por volta dessa época, Agostinho teve contato com os ensinamentos do sábio persa Mani, que afirmava ser o universo governado pelo conflito entre dois princí­pios: a Luz ( o Bem) e a Escuridão (o Mal), uma doutrina que ficaria conhecida pelo nome de Maniqueí­smo.

Em 384 D.C., sentindo-se limitado pela estreiteza da vida intelectual na província, Agostinho, contra a vontade da mãe, que fez de tudo para demovê-lo, decidiu ir para Roma. Porém, naquele tempo, as melhores oportunidades para  jovens ambiciosos estavam em Milão, que era a capital do Império Romano do Ocidente e onde ficava a corte imperial.  Ali, Agostinho conseguiu um cargo de professor de retórica.

No entanto, agora, Agostinho estava imerso em indagações intelectuais e à procura de um sentido para as questões existenciais.  Ele flertou por algum tempo com o Ceticismo platônico, até conhecer o Neoplatonismo, através dos discí­pulos de Plotino, cuja doutrina era, então, popular entre os católicos em Milão, porque lhes parecia conferir uma base argumentativa racional para a fé cristã.

Agostinho tinha se aproximado dos católicos após conhecer (Santo) Ambrósio, o célebre bispo da cidade, uma pessoa que lhe causaria forte impressão e que já era idolatrado pela sua mãe.

Não obstante, Agostinho não escondeu o entusiasmo que ele teve ao ler a filosofia de Plotino, um filósofo de origem greco-egí­pcia, cujo cerne era a prática da ascensão da alma ao Uno – o princí­pio único, eterno, indivisí­vel, imutável e transcendente que era a fonte de todas as coisas – pela contemplação interior. Segundo este filósofo,  a partir do Uno a realidade fluiria constantemente, como a água de uma fonte, e as  suas principais emanações seriam o Intelecto e a Alma. Consta que as últimas palavras de Plotino antes de morrer foram:

Estou tentando devolver o Divino que há em mim para o Divino que há em Tudo“.

Coincidentemente ou não, o Uno de Plotino era bem parecido com o Deus Cristão descrito no Novo Testamento…

Conversão

Até que um dia, em agosto de 386 D.C., em um momento de grande angústia pessoal, para a qual certamente contribui o fato dele ter sido obrigado a se separar da mulher que ele amara desde a juventude na África, que lhe dera um filho, chamado Adeodato, e com a qual ele vivera em concubinato, Agostinho contou que ouviu uma voz infantil repetindo como um mantra as palavras:

tolle, lege, telle lege” (“pega e lê, pega e lê”).

Assim, ele levantou-se e viu um livro caído aberto. Imediatamente,  Agostinho pegou o volume e leu o seguinte texto da Carta de São Paulo aos Romanos:

Andemos honestamente como de dia, não em orgias e bebedices, não em impudicí­cias e dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não vos preocupeis com a carne para não excitardes as suas cobiças”).

Livre da angústia e com o rosto iluminado, Agostinho foi contar a boa nova à sua mãe. Eu não tenho dúvidas que este deve ter sido o dia mais feliz da existência de Mônica: Após 32 anos de continuados esforços maternos, Agostinho tinha se convertido ao Cristianismo! Logo em seguida, Agostinho pediu demissão do cargo de professor e saiu de Milão para um retiro na fazenda do amigo Verecundo, junto com a mãe, o filho e  os seus grandes amigos Nebrí­dio e Alí­pio.

Então, na páscoa de 387 D.C., o poderoso bispo de Milão, Ambrósio, batizou Agostinho e Adeodato, como era costume entre os cristãos. Poucos meses depois, Mônica, finalmente realizada por ter atingido o seu maior objetivo, a conversão do filho, faleceria em Óstia.

Em seguida, Agostinho decidiu voltar para Thagaste, vender as terras que herdara do pai e fundar uma comunidade religiosa, para viver em recolhimento e dedicar-se aos estudos teológicos na casa em que nascera.

Entretanto, a já famosa trajetória de Agostinho como religioso não lhe permitiria viver muito tempo em retiro e ele acabou sendo eleito assistente do Bispo de Hippo Regius (Hipona), cidade que ficava na atual Argélia. Quatro anos depois, em 395 D.C., Agostinho foi consagrado Bispo de Hipona, cargo que ele ocuparia pelos próximos 35 anos, até o fim de sua vida.

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(Ruínas de Hippo Regius (Hipona), foto de Oris)

A função de bispo, no final do Império Romano, combinava a atuação pastoral, com atribuições administrativas, notadamente a gestão do crescente patrimônio das sés católicas, e também assistenciais e judiciárias, as quais vinham sendo atribuí­das à Igreja Católica desde o reinado de Constantino I, o primeiro imperador cristão (Não é a toa que, até hoje, o organograma da Igreja Católica reproduz, em boa parte, a divisão do Baixo Império Romano, com as suas dioceses). Para Agostinho, porém, essas tarefas constituíam um fardo pesado, que competia com a sua atividade intelectual intensa e a produção literária. Não obstante, Agostinho foi um assíduo pregador no púlpito – sobreviveram, até os dias de hoje, cerca de 500 homilias ou sermões que ele ministrou em Hipona.

Foi como Bispo de Hipona que Agostinho escreveu as suas maiores obras: De Trinitate, Contra os Acadêmicos, Solilóquios, Do Livre-Arbítrio, De Magistro, Confissões, Espírito e Letra, A Cidade de Deus e Retratações.

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Obra

Antes de Agostinho, o Cristianismo era uma religião revelada pela vida e pelos ensinamentos legados por Jesus Cristo, considerado pelos seus seguidores o Messias previsto pela Bíblia Judaica, que, contudo se apresentara e por eles fora percebido, não como o santo rei de Israel, mas como o filho do deus único, Jeová, adorado pelos hebreus. Agostinho, porém, pode ser considerado o fundador de uma filosofia cristã – um termo que ele mesmo criou – e, ainda que se discorde disso, de fato ele dotou o Cristianismo de uma coerência lógica que pela primeira vez foi sistematizada em bases racionais que poderiam inserir-se na especulação filosófica greco-romana. E embora esse fato talvez não significasse muito para o homem simples do campo, foi algo muito importante para  atrair para a Igreja os membros da elite romana.

Entre as contribuições filosóficas de Agostinho ao Cristianismo, está o conceito de Beatitude, entendida como o estado de felicidade plena, somente encontrável em Deus. Agostinho tentou conciliar a fé e a razão, sendo a fé a forma de se atingir a verdade eterna, a qual, não sendo demonstrável pela razão, somente através da fé podemos demonstrar, a nós e aos outros, a certeza de acreditar:

“intellige ut credas, crede ut intelligas” (É preciso compreender para crer, e crer para compreender“).

Contra os céticos, Agostinho afirmou que a percepção através dos sentidos não era falsa ou imperfeita (motivo pelo qual aqueles acreditavam que não era possível conhecer de forma absoluta ou indiscutível, sendo todo o conhecimento imperfeito e passível apenas de afirmar uma verdade provável). Para o Bispo de Hipona, a sensação sempre é verdadeira, o erro pode estar no juízo que se extrai das sensações. Assim, a sensação é absoluta. Ninguém pode dizer que o sujeito não sentiu, a sensação é uma verdade interna ao sujeito. Assim, em certo grau, na obra “Cidade de Deus“, Agostinho antecipou o pensamento de Descartes:

“Se eu me engano, eu sou, pois aquele que não é não pode ser enganado”.

O pensamento, assim, era uma realidade em si mesma e uma prova da existência – não só do homem, mas de Deus.

Não obstante, para ele, a inefável natureza divina não poderia ser compreendida pelo homem, transcendendo ao pensamento, como bem exemplifica a resposta de Jeová a Moisés: “Eu sou o que sou” (IHVH), assemelhando-se, assim, em sua imutabilidade, inamovibilidade, indivisibilidade e eternidade, ao Uno de Plotino.

Para Agostinho, Deus é perfeito e toda a criação é perfeita, pois tudo o que existe foi criado por Deus. O mal, portanto, somente pode consistir no oposto do bem, ou seja, no “não-ser“. Portanto, para o filósofo cristão, onde houver mal, não há Deus. O pecado, por via de consequência, é o afastar-se de Deus e é possibilitado pelo livre-arbítrio com que Ele dotou o Homem à Sua imagem e semelhança.

Nessa linha, Agostinho também elaborou sobre o insondável mistério da multiplicidade das 3 pessoas na unidade da Santíssima Trindade, iguais e consubstanciais, sendo o Pai, a essência divina; o Filho, o Verbo e a Razão, através da qual Deus se manifesta; e o Espírito Santo, de onde flui o amor que tudo criou:

“Onde existe o Amor existe a Trindade: Um que ama, Um que é amado e uma Fonte de Amor”.

Na concepção de Agostinho, a criação do universo coincide com a criação do tempo, antecipando intuitivamente o próprio Einstein, ao demonstrar que tempo e espaço são uma mesma dimensão. De fato, para Agostinho, tudo no universo teria sido criado simultaneamente, isto é, de uma só vez e não em 6 dias, como escrito na Bíblia, que. neste particular, para ele não deveria ser entendida em sentido literal. Da mesma forma, o conceito de Agostinho sobre o Pecado Original, a Graça e Predestinação influenciaram a Teologia desde o século V D.C. até o presente.

Com efeito, a concepção de Agostinho sobre o Pecado Original, por exemplo, influenciou posteriormente o Protestantismo. Ele o via como resultado da influência de Satã sobre os os sentidos e carne (“a semente do mal“), afetando a inteligência e o livre-arbítrio do homem, decorrente da concupiscência e libido.

Para rebater a acusação dos pagãos de que o Saque de Roma, ocorrido em 24 de agosto de 410 D.C, devia-se ao abandono pelos romanos dos deuses pagãos e à corrupção das virtudes romanas pelo Cristianismo, Agostinho escreveu a obra Civitas Dei (“A Cidade de Deus”), onde, desenvolvendo todos as suas ideias, ele elabora a história da Humanidade como sendo a da “Cidade dos Homens”, terrena e fadada à destruição pelos pecadores, que eram continuamente castigados através dos tempos, e da “Cidade de Deus”, a ser erguida pelos cristãos.

Porém, em 430 D.C, chegara a vez de Hipona ser destruída pelos bárbaros Vândalos, que cruzaram o Estreito de Gibraltar e invadiram a rica África romana, até então poupada dos saques e da destruição das incursões germânicas.

Assim, em 28 de agosto de 430 D.C., durante o primeiro cerco vândalo, Santo Agostinho morreu, aos 75 anos de idade.

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(Afresco do século VI da Basílica de Laterano, em Roma, a mais antiga representação de Agostinho)

CONCLUSÃO

Santo Agostinho foi um dos intelectuais romanos mais importantes e influentes, cujas obras repercutem até o século XXI, e certamente ecoarão muito além. O seu pensamento representa uma ligação intelectual do mundo helenístico greco-romano, que agonizava, com a civilização cristã-ocidental que, da reciclagem das cinzas do primeiro, se desenvolveria na Idade Média. A obra dele também demonstra a força do Cristianismo em atrair não só os excluídos materiais da civilização greco-romana, mas também os exilados espirituais daquela sociedade, para quem a velho modo de vida pagão não oferecia mais respostas adequadas às inquietações existenciais.

FIM

SÃO CRISPIM E SÃO CRISPINIANO

Crispinus e Crispinianus, segundo a hagiografia cristã, seriam dois irmãos, provavelmente gêmeos, provenientes de uma ilustre família da nobreza romana, que se converteram ao Cristianismo, na segunda metade do século III D.C. Após sua conversão, os dois irmãos foram morar na província romana da Gália Bélgica, na cidade de Augusta Suessionum (atual Soissons), com o objetivo de converter os habitantes locais. Ali, eles exerceram com sucesso a profissão de sapateiro, para se manter e também ajudarem os pobres da região.

No reinado do imperador Diocleciano, antes mesmo que fosse iniciada a chamada Grande Perseguição, Crispinus e Crispinianus foram trazidos à presença do colega dele, o Imperador do Ocidente Maximiano, que lhes exortou a renunciar à fé cristã, mediante ameaças e promessas de vantagens.

Ante a negativa veemente dos dois irmãos, Maximiniano enviou-os para o governador da província, um certo Rictiovarus, que os fez torturar e, após, ordenou que ambos fossem jogados ao rio Aisne com pedras de moinho amarradas ao pescoço. Não obstante, Crispinus e Crispinianus conseguiram nadar até a margem do rio, apenas para serem novamente capturados e decapitados por ordem do imperador, em 25 de outubro de 286 D.C.

Martírio de São Crispim e São Crispiniano (1494), Aert van den Bossche, Public domain, via Wikimedia Commons

A estória de Crispinus e Crispinianus basicamente repete a de muitos outros mártires cristãos do período: soldados ou romanos nobres que se convertem à religião cristã, são perseguidos, resistem à renegar Cristo e são executados, não sem antes resistir milagrosamente aos castigos ou formas de execução inicialmente aplicados. Que houve uma grande perseguição no reinado de Diocleciano e Maximiano é um fato inconteste, e não há porque duvidar que houve muitas execuções de cristãos que se recusaram a cumprir a exigência de que fizessem sacrifícios ao culto imperial. Presumivelmente, a crença inabalável de tantos mártires parece ter tido efeito contrário ao desejado pelos imperadores, inspirando a conversão de muitos pagãos. Já os relatos de ocorrências milagrosas consistem mais em uma questão de fé e não há como comprová-los.

Uma grande basílica foi erguida em Soissons em homenagem a São Crispim e São Crispiniano no século VI D.C., supostamente sobre as sepulturas dos dois mártires. Durante a Idade Média, eles tornaram-se os santos padroeiros dos sapateiros, dos curtidores e dos que trabalham com couro e selaria, que eram artesãos importantes no período pré-industrial. Com a Revolução Industrial, o culto aos dois santos perdeu um pouco a popularidade, mas a festa dos Santos Crispim e Crispiniano continua sendo comemorada em 25 de outubro.

Em 25 de outubro de 1415 foi travada a Batalha de Agincourt, entre os exércitos do rei Henrique V e do rei Carlos VI, da França, estas comandadas pelo condestável Carlos D’Albret. Embora inferiorizados numericamente, os ingleses infligiram uma terrível derrota aos franceses. O epísódio foi imortalizado por William Shakespeare, na peça Henrique V.

Em uma das peças mais célebres da literatura da língua inglesa, na véspera da Batalha de Agincourt, o rei Henrique V da Inglaterra faz o famoso discurso de motivação às suas tropas, conhecido como “‘Discurso do Dia de São Crispim (também chamado de “Discurso do Bando de Irmãos” ou “Band of Brothers Speech“). Vou transcrever aqui em inglês mesmo, porque sinceramente acho que nenhuma tradução em português consegue transmitir a força do original, mas o leitor pode utilizar qualquer ferramenta online para traduzir:

Westmoreland:
O that we now had here
But one ten thousand of those men in England
That do no work to-day!

King:
What’s he that wishes so?
My cousin, Westmoreland? No, my fair cousin;
If we are mark’d to die, we are enough
To do our country loss; and if to live,
The fewer men, the greater share of honour.
God’s will! I pray thee, wish not one man more.
By Jove, I am not covetous for gold,
Nor care I who doth feed upon my cost;
It yearns me not if men my garments wear;
Such outward things dwell not in my desires.
But if it be a sin to covet honour,
I am the most offending soul alive.
No, faith, my coz, wish not a man from England.
God’s peace! I would not lose so great an honour
As one man more methinks would share from me
For the best hope I have. O, do not wish one more!
Rather proclaim it, Westmoreland, through my host,
That he which hath no stomach to this fight,
Let him depart; his passport shall be made,
And crowns for convoy put into his purse;
We would not die in that man’s company
That fears his fellowship to die with us.
This day is call’d the feast of Crispian.
He that outlives this day, and comes safe home,
Will stand a tip-toe when this day is nam’d,
And rouse him at the name of Crispian.
He that shall live this day, and see old age,
Will yearly on the vigil feast his neighbours,
And say “To-morrow is Saint Crispian.”
Then will he strip his sleeve and show his scars,
And say “These wounds I had on Crispin’s day.”
Old men forget; yet all shall be forgot,
But he’ll remember, with advantages,
What feats he did that day. Then shall our names,
Familiar in his mouth as household words—
Harry the King, Bedford and Exeter,
Warwick and Talbot, Salisbury and Gloucester
Be in their flowing cups freshly rememb’red.
This story shall the good man teach his son;
And Crispin Crispian shall ne’er go by,
From this day to the ending of the world,
But we in it shall be rememberèd—
We few, we happy few, we band of brothers;
For he to-day that sheds his blood with me
Shall be my brother; be he ne’er so vile,
This day shall gentle his condition;
And gentlemen in England now a-bed
Shall think themselves accurs’d they were not here,
And hold their manhoods cheap whiles any speaks
That fought with us upon Saint Crispin’s day.

A peça Henrique V e o discurso foram admiravelmente filmados por Kenneth Branagh no filme homônimo, que pode ser visto abaixo (enquanto o youtube permitir):

AS FABULOSAS PORTAS ROMANAS

Dos objetos romanos que chegaram até os nossos dias, um dos que mais me fascinam são as portas de bronze romanas: além de artisticamente belíssimas, elas transmitem majestade e solidez, conferindo um aspecto digno e solene aos edifícios que elas ainda guardam. E, provavelmente, embora pudessem ter sido originalmente douradas ou dotadas de ornamentos dourados, o fato é que o envelhecimento típico do bronze lhes cai muito bem. E também são tecnicamente muito bem feitas. De fato, até onde eu sei, as portas romanas que descreveremos neste artigo são as mais antigas ainda em funcionamento no Mundo (há portas mais antigas, como a que selava a tumba do faraó Tutankhamun, ou outras até mais antigas, de pedra, mas não podemos dizer que elas ainda sejam portas funcionais).

Sem mais delongas, vamos então às mais antigas portas romanas:

1- Portas da Cúria do Senado Romano (Curia Julia)

Estas portas guardavam a Cúria do Senado Romano, que começou a ser erguida pelo Ditador Júlio César em 44 A.C., no lugar da Curia Hostilia, incendiada nos tumultos que sucederam ao assassinato do político Clódio, em 52 A.C. Mas os trabalhos só foram concluído pelo herdeiro de César, Otaviano, em 29 A.C. Após a Queda do Império Romano do Ocidente, o edifício foi transformado em uma igreja, em 630 D.C, permanecendo nesta função até o governo de Benito Mussolini, em 1938, quando o templo foi desconsagrado, sendo todos os acréscimos posteriores ao período romano removidos, revelando o piso de mármore no padrão opus sectile original e as arquibancadas onde ficavam os bancos de madeira dos senadores. Assim, o prédio da Curia Julia, que sofreu várias restaurações ainda durante o Império Romano, sobrevive no Fórum Romano, sendo a mais importante delas a efetuada pelo Imperador Diocleciano, que resultou no prédio que atualmente podemos visitar hoje. Porém, as magníficas portas de bronze que o guarneciam, medindo imponentes 5,9 m de altura, foram colocadas entre 81 e 96 D.C, durante o reinado do imperador Domiciano. Elas permaneceram na Curia até 1660, quando foram retiradas e instaladas na Basílica Católica de São João de Latrão (San Giovanni Laterano), em Roma, onde se encontram até hoje, em perfeito funcionamento. Durante os trabalhos de restauração realizados no governo de Mussolini, foram instaladas reproduções fiéis das portas originais. Como a própria Basílica de San Giovanni Laterano, apesar de muito reformulada ao longo dos séculos, foi construída e consagrada no reinado do imperador Constantino, o Grande, em 324 D.C, sem dúvida as suas portas merecem o título de portas romanas mais antigas em funcionamento (e talvez do mundo). Finalmente, é fascinante pensar que por essas portas, sem sombra de dúvida passaram ao longo dos séculos vários imperadores e inúmeros senadores romanos.

antmoose, CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Commons
~Visão interna, com as trancas. Foto Tomk2ski, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

2 Portas do Pantheon

As portas de bronze do Pantheon são as mais antigas que ainda permanecem no seu local original de instalação. O icônico edifício foi construído no reinado do imperador Adriano, e dedicado em 126 D.C., sendo provavelmente concebido pelo grande arquiteto Apolodoro de Damasco. A opinião prevalente é que essas portas são as originais da construção do prédio atual, embora alguns defendam que possam ser anteriores, até mesmo contemporâneas de um edifício anterior, de mesmo nome e no mesmo local, erguido por Marco Vipsânio Agripa, no governo do imperador Augusto (como gesto de modéstia, Adriano quis que a inscrição dedicatória em nome de Agripa fosse mantida no frontão do novo edifício). Mas há opiniões minoritárias alegando que essas portas seriam medievais ou até mesmo modernas. As portas medem 7,53 m de altura por 4,45 m de largura e cada porta pesa 8 toneladas e meia, totalizando 17 toneladas no total. Durante 241 anos a porta direita não abria, mas trabalhos de restauração no umbral e/ou na soleira, bem como nos pinos, realizados em 1998, restauraram a sua funcionalidade. Assim, ambas as portas, apesar do peso descomunal, podem ser abertas por apenas uma pessoa, graças à perfeição do mecanismo criado pelos Romanos.

Ank Kumar, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

3- Portas do Templo de Rômulo

Estas foram as primeiras portas romanas que eu vi pessoalmente, quando da primeira vez eu estive em Roma, no Fórum Romano e o seu formato sóbrio e vetusto e o verde marcante da pátina em seu bronze me fascinaram instantaneamente.

Segundo a teoria mais aceita, este templo foi dedicado a Valério Rômulo, filho do imperador Maxêncio, que morreu ainda adolescente em 309 D.C., sendo divinizado por ordem de seu pai, sendo o único templo romano, além do acima referido Pantheon, que ainda tem as suas portas de bronze originais, inclusive com a fechadura, também autêntica, ainda funcionando perfeitamente! Em 527 D.C, o Templo de Rômulo, durante o reinado de Teodorico, o Grande, rei dos Ostrogodos, foi doado ao Papa, tornando-se, então, o vestíbulo da Basílica de São Cosme e São Damião, no Fórum Romano.

Foto do autor (2000)
Amphipolis, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons
A fechadura romana original funcionando. Talvez a mais antiga do mundo ainda operacional. Foto By MumblerJamie – https://www.flickr.com/photos/184393744@N06/49355439643/, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=118275303

4- Portas da Igreja de Santa Sabina

A Basílica de Santa Sabina é um local que eu recomendo muito a todo o viajante que quiser viver uma experiência diferente e mais imersiva na Roma Antiga. Ela fica no topo da colina do Aventino, uma zona residencial chique, desde os tempos do Império Romano, que não é um local tão frequentado por turistas. O templo católico foi construído em 432 D.C, durante o reinado do imperador Valentiniano III, no terreno onde ficava a casa da aristocrata romana Sabina, cristã martirizada em 126 D.C, e, ao contrário de muitas igrejas antigas romanas, não foi alvo de restaurações ou reconstruções em estilo renascentista ou barroco, ao contrário, Santa Sabina conserva a sua arquitetura original do estilo do Baixo Império Romano, da qual é um dos exemplos mais representativos. As portas da basílica são as únicas incluídas neste artigo que são feitas de madeira (cipreste). E, comprovadamente, mediante testes de dendrocronologia e de rádio-carbono realizados, essas portas são originais, datadas do século V D.C. ( vide https://journals.ub.uni-heidelberg.de/index.php/rihajournal/article/download/69927/version/60257/63277?inline=true#page=1&search=%22sabina%20santa%22.

Dezoito dos painéis decorativos esculpidos em relevo são também originais e trazem algumas das mais antigas representações do Novo Testamento, inclusive uma das primeiras reproduções conhecidas da cena da crucificação de Jesus Cristo.

Finalmente, ainda que não diga respeito ao nosso tema, o leitor que visitar Santa Sabina não pode deixar de conhecer o Giardino degli Aranci, um jardim que fica ao lado da igreja, com lindas e antigas laranjeiras que, na estação apropriada, ficam carregadas de laranjas exalando um cheiro delicioso. O jardim também oferece vistas magníficas do rio Tibre e de parte da cidade de Roma e, se tudo der certo e o ambiente estiver calmo, propiciará uma experiência inesquecível, sobretudo para quem se lembrar do famoso afresco da Villa de Lívia, em Prima Porta, retratando um jardim com laranjais.

By Peter1936F – Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=58188414
Painel de madeira da porta de Santa Sabina, com relevo retratando a Crucificação de Jesus Cristo ao lado dos ladrões (século V). Foto CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1880569
MumblerJamie, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

5- Portão Esplêndido de Hagia Sophia

O chamada “Portão Esplêndido” ou “Porta Bonita” é uma porta interna de bronze instalada na Igreja de Santa Sofia (Hagia Sophia), em Constantinopla (atual Istambul, na Turquia). A imponente igreja foi construída pelo imperador romano do Oriente Justiniano, no século VI D.C. Porém, a porta em questão foi removida de um templo pagão, que ficava na ilha de Cnido, na Grécia, provavelmente o Templo de Afrodite (embora não se possa afirmar com certeza) e trazidas para Santa Sofia pelo imperador bizantino Teófilo , provavelmente em 838 D.C, tendo em vista uma inscrição com esta data nela aposta. As portas, em duas folhas, nitidamente foram adaptadas para caberem no interior da igreja, provavelmente cortando-se alguma parte delas e davam acesso à nave principal da construção a partir de um vestíbulo no nártex, utilizado pelo imperador e seu círculo íntimo. Considerando o estilo e outras características, especialistas avaliam que as portas foram fabricadas por artesãos gregos, antes ou durante o período romano, por volta do século II A.C, o que as tornariam as mais antigas existentes.

Dosseman, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

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Sebah & Joaillier, photographer, Public domain, via Wikimedia Commons

https://web.archive.org/web/20181229231848/http://ayasofyamuzesi.gov.tr/en/door-nice-door

O CONCÍLIO DE NICÉIA E O CREDO NICENO

O CREDO NICENO

Em 19 de junho de 325 D.C., bispos cristãos reunidos no Primeiro Concílio Ecumênico da Igreja, realizado na cidade romana de Nicéia, aprovaram o chamado Credo Niceno.

O Concílio de Nicéia foi o primeiro concílio ecumênico da Igreja Cristã (isto é, uma assembleia que se propunha a congregar o maior número de bispos existentes e reuni-los para definir uma doutrina unificada para o Cristianismo), tendo sido convocado pelo próprio imperador Constantino, o Grande, que até então, embora tivesse tomado uma série de medidas favoráveis à Igreja e ao Cristianismo, ainda não havia sido batizado e se convertido oficialmente à fé cristã.

A iniciativa de Constantino foi fundamental para a realização do Concílio, uma vez que ele colocou todo o sistema de correio, transporte e estalagens imperiais à disposição dos bispos, sem o que dificilmente teria sido possível que eles se reunissem em Nicéia (atual Iznik, na Turquia).

Oficialmente, 318 bispos teriam comparecido ao Concílio de Nicéia, mas acredita-se que o número real tenha sido de pouco mais de 250 bispos, a esmagadora maioria da parte oriental do Império Romano (Somente cinco bispos seriam provenientes das sés do Império Romano do Ocidente, além de dois legados enviados pelo Bispo de Roma, o Papa Silvestre I). Entre os participantes, estavam expoentes importantes da Igreja, como Eusébio de Cesaréia, e, provavelmente, Nicolau de Mira (São Nicolau).

O grande motivo que levou Constantino a convocar o Concílio (seguindo recomendações de um sínodo presidido pelo bispo Hosius de Córdoba), foi a disputa teológica acirrada que estava sendo travada entre os defensores da doutrina pregada pelo diácono Ário de Alexandria (que veio a receber o nome de “Arianismo“) e o clero adepto da doutrina ortodoxa tradicional que vinha sendo elaborada desde os primórdios do Cristianismo. Basicamente, Ário reconhecia que Jesus era filho de Deus, mas tinha natureza essencialmente humana. Assim, por ter sido criado, necessariamente Cristo teria vindo depois de Deus (e portanto, não seria Eterno), bem como estaria, de certa forma, “abaixo” de Deus, embora acima de todos os outros seres.

Desnecessário dizer que as ideias de Ário abalavam o dogma da Santíssima Trindade, que já estava disseminado junto ao clero e aos fiéis ortodoxos.

Acredita-se que a principal motivação de Constantino para decidir concordar com a convocação do Concílio foi o fato de que as disputas teológicas entre os seguidores de Ário e da doutrina ortodoxa já estavam causando tumultos nas ruas de Alexandria, e esta divisão ameaçava se espalhar pelo Império, não tendo o imperador demonstrado ter interesse na prevalência de uma ou outra corrente.

Então, Constantino apenas declarou que aquele bispo que não seguisse a orientação que fosse tomada no Concílio seria passível de exílio.

O Concílio iniciou-se em 20 de maio de 325 D.C, sendo que em 14 de junho, o imperador compareceu em pessoa para formalmente presidir os trabalhos, mas ele não interferiu nem participou das discussões. No início, cerca de 22 bispos mostraram-se partidários da doutrina de Ário.

Em 19 de junho, após um mês de debates, as teses de Ário foram rejeitadas, sem qualquer conciliação, tendo apenas dois bispos da Líbia se recusado a adotar a profissão de fé estabelecida pela esmagadora maioria, tendo o chamado Credo Niceno ficado assim redigido:

“Cremos em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis.

Ε em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado unigênito do Pai, isto é, da substância do Pai;

Deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial ao Pai;

por quem foram feitas todas as coisas que estão no céu ou na terra.

O qual por nós homens e para nossa salvação, desceu, se encarnou e se fez homem.

Padeceu e ressuscitou ao terceiro dia e subiu aos céus

Ele virá para julgar os vivos e os mortos.

E no Espírito Santo.

E quem quer que diga que houve um tempo em que o Filho de Deus não existia, ou que antes que fosse gerado ele não existia, ou que ele foi criado daquilo que não existia, ou que ele é de uma substância ou essência diferente (do Pai), ou que ele é uma criatura, ou sujeito à mudança ou transformação, todos os que falem assim, são anatematizados pela Igreja Católica.”

Não obstante, o Arianismo prosperou e os dois sucessores de Constantino no trono, seu filho Constâncio II, e Valente, seriam Cristãos Arianos. O próprio Constantino, em seu leito de morte, foi batizado por um bispo adepto do Arianismo, Eusébio de Nicomédia, que também esteve presente no Concílio de Nicéia.

Foto: Ícone retratando o Concílio de Nicéia, com Ário sendo condenado no centro. Monastério Megalo Meteoron, Grécia. Foto: By Jjensen – Own work, CC BY-SA 3.0,

Além disso, bispos arianos cristianizaram os bárbaros Godos, que dentro de cinquenta anos invadiriam o Império Romano e, cerca de trinta anos mais tarde, estabeleceriam seu reino na Hispânia romana.

Ao contrário do que muitos teóricos da conspiração e publicações sensacionalistas propagam, no Concílio de Nicéia não houve deliberações acerca de quais seriam os textos bíblicos aceitos como cânone da Igreja, nem proibição de textos evangélicos apócrifos, e muito menos qualquer intervenção do imperador Constantino no que se refere a tais questões.

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VESTA E A VESTALIA

Foto Acediscovery, CC BY 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by/4.0, via Wikimedia Commons

Entre os dias 7  (ante dies VII idus junias) e 15 de junho (ante dies XVII Kalendas Iulias ou, antes do Calendário Juliano, ante dies XVI Kalendas Quinctilis), ocorria a Vestalia, que  era a nundina (período  de 9 dias que no calendário romano tradicional tinha a mesma função da atual semana)  de festejos e cerimônias em honra à deusa Vesta, uma das divindades mais antigas e tradicionais do Panteão romano, tão ancestral que inicialmente não era personalizada e nem antropomorfizada, de acordo com o regular padrão evolutivo  da religiosidade humana. Mais tarde, e com a crescente influência da cultura grega em Roma, Vesta foi incluída entre os doze “Deuses Consentes“, como filha de Saturno e Ops, e irmã de Júpiter, Netuno, Plutão, Juno e Ceres.

Vesta era uma divindade originalmente ligada ao lar e à família, sendo que o lugar mais importante da casa romana ancestral era a lareira (focus), que protegia os moradores do frio e permitia cozinhar os alimentos, e de onde se originou não só a nossa palavra “fogo”, mas também a palavra “foco” (ponto central). Próximo à lareira, na casa romana, ficava um armário ou dispensa, chamado de “penus“. Os romanos acreditavam que esses armários eram guardados por espíritos, que recebiam o nome de “Penates” que ajudavam outros espíritos que cuidavam da totalidade do lar (os “Lares“), e eram cultuados em um altar próprio dentro da casa, chamado de lararium (e que, curiosamente, deram origem a nossa palavra “lareira”, pois ambas as divindades se tornaram, desde tempos ancestrais, associadas).

Vale mencionar que, segundo uma lenda, já no início do período monárquico de Roma, o rei Sérvio Túlio seria filho de um desses “Lares”, que, transformado em pênis “(phallus), escondeu-se entre os carvões da lareira da casa do rei Tarquínio e teve relações sexuais com Ocresia, escrava (serva) da rainha Tanaquil.

Acredito, com base na filologia linguística, que Vesta pode ser uma das divindades ancestrais de um hipotético panteão proto indo-europeu, e portanto, muito anterior à fundação de Roma. De fato, segundo o filólogo francês Georges Dumézil, o nome da deusa Vesta deriva da raiz da língua proto-indoeuropeia *h₁eu-, através do derivativo *h₁eu-s- ou *h₁w-es-, que evoluiu para os radicais  εὕειν heuein,, em grego,  ustio, no latim e no védico osathi  todos com o significado de queima, sendo que o vocábulo latino está presente em Vesta. Na língua gaulesa, havia a palabra visc, que significa “fogo”.

Havia também uma divindade similar à Vesta entre os gregos, chamada Hestia, que, segundo Cícero, teria originado o nome Vesta.

Segundo a tradição, quando Roma foi fundada, Vesta já era cultuada na cidade de Lavinium, no Lácio, que segundo a lenda teria sido fundada pelo próprio Enéias, herói troiano mítico que, fugindo da queda de Tróia, teria trazido com ele para a Itália o culto aos Penates, entre os quais se incluía Vesta (conforme mencionado por Virgílio na Eneida, II, 293) e por Macrobius, na Saturnalia, III, 4). Posteriormente, Ascânio que seria filho de Enéias e Lavínia (em nome de quem Enéias batizou Lavinium), filha do rei Latinus, fundou a cidade de Alba Longa, levando para lá o culto a Vesta.

Séculos após a fundação de Alba Longa, segundo as narrativas em boa parte míticas preservadas pelo historiador Tito Lívio, depois da morte do rei albano, Proca, o seu filho mais velho, Numitor, que seria o seu sucessor, foi deposto pelo irmão mais novo, Amulius, que mandou matar os sobrinhos do sexo masculino. Já a filha de Numitor, Rhea Silvia, foi poupada pelo tio e nomeada Virgem Vestal, que era o nome e condição das sacerdotisas que cuidavam do culto a Vesta.

Porém, ainda segunda a lenda da fundação de Roma, Rhea Silvia foi estuprada pelo deus Marte, engravidou dele e deu à luz aos gêmeos Rômulo e Remo, que, tendo a sua morte ordenada por Amulius, foram abandonados nas margens do rio Tibre, sendo salvos e alimentados por um loba. Mais tarde, os irmãos cresceram, e, após matar Amulius e instalar Numitor no trono de Alba Longa, eles deixaram esta cidade e saíram para fundar a cidade de Roma. o que seria feito por Rômulo, após matar o seu irmão, em 21 de abril de 753 A.C.

Segundo Macrobius, os primeiros magistrados de Roma, ao serem empossados, deviam ir até Lavinium e fazer um sacrifício a Vesta.

Por sua vez, de acordo com Dioníso de Helicarnasso (Antiguidades Romanas, II, 66), o segundo rei de Roma, Numa Pompílio (tradicionalmente, ele teria reinado de 715 A.C. a 673 A.C), o primeiro monarca romano que se dedicou a organizar e consolidar a religião romana, decidiu estabelecer um altar a Vesta na Cidade, comum para todo o povo, situado entre as colinas do Capitólio e de Palatino, ou seja, na área que se tornaria o Fórum Romano. Este altar ou Templo de Vesta, tinha de fato o propósito de ser o “focus” comum de toda Roma e do povo romano, e, por isso Cícero se referia a ele como “focum urbis” e “focum publicus“.

Sendo Vesta uma divindade ligada ao lar, nada mais natural que, na sociedade patriarcal latina, as mulheres fossem as principais responsáveis pelo seu culto. E, em sendo verdadeiras as lendas, mesmo antes da fundação de Roma, já existiam sacerdotisas encarregadas do culto a Vesta, das quais se exigia serem virgens, como mostra a fábula de Rhea Silvia.

Entretanto, a criação do Colégio das Virgens Vestais, em Roma, é atribuída, igualmente, ao rei Numa Pompílio. Foi providenciada uma habitação custeada pelo Estado (Casa das Vestais), que também deveria sustentar as sacerdotisas, que eram escolhidas pelo próprio rei, na condição de chefe da religião romana, talvez, inicialmente entre as suas próprias filhas (atribuição que, depois, no período republicano, passou a ser do Pontifex Maximus, cargo que, mais tarde, já durante o Império, passou a ser privativo do Imperador).

A principal tarefa das Virgens Vestais era cuidar para que o fogo sagrado de Vesta, mantido no interior do seu respectivo Templo, jamais se apagasse, e os romanos acreditavam que quando isso acontecia, grandes tragédias se abatiam sobre a cidade e sobre o Estado.

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(Estátua de uma Virgem Vestal, encontrada na Casa das Vestais, em Roma)

Acredita-se que a exigência da virgindade como condição inerente às Vestais estava ligada à pureza que os romanos atribuíam ao fogo sagrado de Vesta e à própria deusa, que, naturalmente também era virgem. Assim, dentro dessa concepção romana, para garantir que as encarregadas de velar pelo fogo sagrado não conspurcassem a pureza do mesmo, somente meninas entre seis e dez anos de idade poderiam ser escolhidas para serem Virgens Vestais e, obviamente, elas deveriam permanecer virgens e celibatárias enquanto estivessem a serviço do deus, sendo que a Vestal que violasse o dever de castidade com a perda da virgindade era punida com a terrível pena de ser enterrada viva.

Ainda ligado ao desejo de assegurar pureza ou perfeição, as escolhidas não podiam ser filhas de pais divorciados, de libertos ou escravos, ou daqueles que tivessem profissões consideradas inferiores ou degradantes. E também não podiam ter defeitos físicos ou problemas mentais.

Essa extrema preocupação com a pureza do fogo de Vesta era tal que, de acordo com Plutarco (Vidas Paralelas”, “Vida de Numa”, IX, 6–7), caso a chama guardada no seu templo se extinguisse por algum motivo, ela não poderia ser acesa por outro fogo iniciado diretamente pela mão do homem, mas somente por meio de espelhos especiais, amplificando a fonte impoluta vinda do próprio sol:

E, se por alguma eventualidade ele (o fogo sagrado) se apague, como ocorreu em Atenas, durante a tirania de Ariston, como contam que a lâmpada sagrada foi apagada, e em Delfos, quando o templo foi incendiado pelos Persas, e também durante as Guerras contra Mitridates e as Guerras Civis Romanas, quando o altar foi demolido e o fogo extinto, então eles afirmam que o fogo não deverá ser aceso novamente com outro fogo, mas sim criado fresco e novo, pelo acendimento de uma chama pura e não poluída vinda dos raios do Sol. E isso eles geralmente conseguem por meio de espelhos metálicos, a concavidade dos quais é feita seguindo os lados de um triângulo isósceles retangular e que convergem da sua circunferência até um único ponto no centro. Quando, por conseguinte, aqueles são colocados contra o Sol, de modo que os raios dele, enquanto eles incidem sobre eles de todos os lados, são coletados e concentrados no centro, o próprio ar fica ali rarefeito, e substâncias muito leves e secas ali colocadas rapidamente inflamam-se – os raios solares adquirindo a forma e a substância do fogo“.

Observe-se que não há consenso, mesmo entre os autores antigos, de que essa forma de acender o fogo fosse a única ou mesmo que ela fosse a utilizada no Templo de Vesta. Outros relatos referem-se ao uso do método ancestral de esfregar um pedaço de madeira em outro. Portanto, parte do treinamento das Virgens Vestais era destinado a aprender as técnicas de acender e manter o fogo sagrado. E, de fato, todo dia 1º de março – primeiro dia do ano do primitivo calendário romano – o fogo deveria ser renovado.

A escolha das “noviças” que se tornariam Virgens Vestais, feita pelo rei ou pelo Pontífice Máximo, era compulsória, ou seja, em caso de recusa, estes tinham o poder de capturar a virgem escolhida e levá-la para a Casa das Vestais, mas, felizmente, raramente isso se mostrou necessário.

Como reconhecimento do fardo pessoal que a condição de Virgem Vestal acarretava às escolhidas, o período de sacerdócio obrigatório era de trinta anos, após o que a mulher poderia voltar à vida normal, casando e tendo filhos. Não obstante, inúmeras Vestais optavam por continuar servindo como tal pelo resto de suas vidas, muitas certamente incentivadas pelos privilégios legais que lhes eram concedidos, como ter os seus próprios litores, que lhes abriam caminhos pelas ruas, e de se sentarem em lugares de honra nas cerimônias e espetáculos públicos (e muitas também por devoção religiosa).

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(Ruínas da Casa das Vestais, no fórum romano)

Os relatos preservaram o nome das primeiras 4 virgens vestais encarregadas de velar pelo fogo sagrado de Vesta no Templo: Gegânia, Verênia, Canuleia e Tarpeia. Posteriormente, o número de quatro virgens (parece que inicialmente eram duas às quais o próprio Numa Pompílio acresceu mais duas) foi aumentado para seis, durante o reinado de Sérvio Túlio.

O Templo de Vesta

Ao contrário dos outros templos etruscos ou romanos, que eram quadrados ou retangulares, o Templo de Vesta era redondo. Para muitos estudiosos, a explicação para isso é que o formato do templo imitava o desenho das habitações primitivas dos latinos, que era circular, como demonstram, inclusive, os achados arqueológicos no Palatino, onde foram encontrados os buracos em que foram fincados os postes de madeira das cabanas, dispostos em círculo (tugurium romuli).

Como as cabanas primitivas, o templo tinha uma abertura circular no teto, para permitir que a fumaça do fogo sagrado, que ficava queimando no centro, saísse e a luz solar entrasse. Além do fogo, que provavelmente ficava em uma espécie de dispositivo à guisa de braseiro no chão, e não em uma lâmpada suspensa, havia no interior do templo um armário fechado (penus Vestae) e umas estátuas ou efígies, uma delas o célebre Palladium, uma estátua de madeira da deusa Pallas Athena, que teria sido trazida de Tróia para a Itália pelo próprio Enéias.

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(Afresco da Casa de Menandro, em Pompéia, retratando a cena em que Ajax arrasta Cassandra que se agarra ao Palladium)

Não obstante, passagens no poema de Ovídio, no livro de Plutarco, sobre a vida de Numa Pompílio e. ainda, passagens de Dionísio de Helicarnasso, associam Vesta, bem como o fogo que a representa, ou no qual ela mesma consiste, à própria Terra, ou ao menos, ao fogo que existe no interior do planeta (uma associação que não chega a surpreender vinda de um povo que vivia em uma península onde o vulcanismo era bem presente e visível, sobretudo no sul) e, assim, o formato do templo evocaria a do próprio planeta.

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Por sua vez, segundo Plutarco (“Vidas Paralelas“, “Vida de Numa“, VIII, 6-7), o Templo de Vesta foi construído por Numa Pompílio em forma circular para simbolizar o Universo, de acordo com a doutrina dos filósofos pitagóricos (não obstante o próprio historiador reconheça uma disparidade cronológica entre os períodos em que Numa e Pitágoras viveram):

“Além disso, conta-se que Numa construiu o Templo de Vesta, onde o fogo perpétuo era guardado, em forma circular, imitando não a forma da Terra, acreditando-se que Vesta seja a Terra, mas de todo Universo, no centro do qual os Pitagóricos colocam o elemento do fogo, e o chamam focus (Vesta?) ou ponto cardeal. E eles sustentam que a Terra não é imóvel, e nem se situa no centro do espaço circundante, mas que se move em círculo em torno do fogo central, não sendo ela nem o mais importante e nem mesmo um dos componentes principais do Universo. Este é o conceito, segundo nos foi contado, que também Platão, em sua velhice, tinha da Terra, nomeadamente, que ela está situada em um espaço secundário, e que a posição central e mais importante está reservada para outro corpo superior e mais nobre.”

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(Ruínas do Templo de Vesta, no Fórum Romano, foto de Wknight94 )

É, muito interessante constatar, portanto, observando toda essa simbologia contida no seu Templo, como uma divindade originalmente primitiva e animista como Vesta pode permitir uma sofisticada elaboração filosófica em seu culto: Substitua-se Vesta e seu fogo pelo Sol, ou pelo descomunal buraco negro existente no centro da Via Láctea, ou, até mesmo, pela singularidade nua que originou o “big-bang“, de acordo com a teoria da Física de que toda a matéria e energia que nos move aqui na Terra provêm deles, que, ainda nos dias atuais, aquela divindade poderia perfeitamente adquirir uma ressignificação.

Vestalia

O festival em honra a deusa Vesta – a Vestalia – começava no dia 9 de junho, com a abertura do penus Vestae, o armário e despensa do templo, evocando os que existiam em toda residência romana, e que, no caso dela ficava fechado o ano inteiro. Neste dia, as mães de família podiam vir ao templo descalças trazendo oferendas de comidas

Ainda no dia 9 de junho, um burro, animal consagrado à Vesta, era coroado com guirlandas de flores e colares contendo pedaços dos pães salgados que eram preparados pelas Virgens Vestais. Por isso, esse dia também era consagrado aos padeiros.

Para alguns, a presença do burro seria uma evidência de que o culto de Vesta teria origem nas populações mediterrâneas mais antigas, antes  da chegada dos indo-europeus à Itália (porque nas culturas indo-europeias o cavalo é o animal mais importante), mas não podemos esquecer que se a divindade Vesta tiver mesmo vindo da Anatólia para a Itália, como dizem as lendas, poderia ter sido trazida por povos indo-europeus que se assentaram originalmente no Levante, como é o caso dos Luvianos, povo indo-europeu que vivia  na esfera de influência dos Hititas e parece ter habitado a cidade de Willusa, que alguns estudiosos acreditam ser a Tróia mencionada na Ilíada de Homero. E nessa região, o burro já estava presente, inclusive sendo ela próxima a região onde a criação de burros estava mais desenvolvida no período que se estima que a Guerra de Tróia teria ocorrido – a Mesopotâmia. De qualquer forma, o burro já era conhecido dos gregos desde o segundo milênio A.C.

O dia 15 de junho era o último dia da Vestalia, ocasião em que as Virgens Vestais deveriam proceder à limpeza do penus Vestae e do recinto do templo, procedimento de purificação chamado de stercoratio. A sujeira era levada em procissão para ser jogada no rio Tibre. Feito isso, o penus Vestae e o sancta sanctorum do Templo – o recinto interior mais sagrado, onde ficavam o fogo, o armário e o Palladium, eram cerimonialmente fechados.

Fontes:

1- “On the Worship of Vesta, and the Holy Fire, in Ancient Rome, with an account of the Vestal Virgins“,  The Classical Journal, disponível em PDF, na internet).

2- “Gods and Miths of the Romans“, Mary Barnett, ed. Grange Books.

3- “Bibilioteca dos Grandes Mitos e Lendas Universais“, Roma, Stewart Perowne, Ed.Verbo.

4- Wikipédia, verbetes “Vestalia” e “Temple of Vesta“.

O ÉDITO DE TESSALÔNICA

Em 27 de fevereiro de 380 D.C, o imperador romano do Oriente, Teodósio I, promulgou, em conjunto com seus colegas da parte ocidental do Império, Graciano e Valentiniano II, o Decreto de Tessalônica, declarando o Credo Niceno-Trinitário como a única religião legítima do Império Romano e a única passível de ser considerada “católica” (universal), bem como determinando que cessasse todo apoio estatal às demais religiões politeístas.

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Embora décadas antes, o imperador Constantino I tenha favorecido muito a fé cristã e a Igreja Católica, que passou a receber propriedades, verbas e apoio do Estado Romano, é equivocada a ideia de que ele tenha tornado o Cristianismo a religião oficial do Império, pois o chamado Edito de Milão, de 313 D.C., formalmente apenas havia estabelecido a tolerância do Estado em relação a todas as religiões.

Obviamente,  em  uma sociedade que se caracterizava pela opressiva presença do Estado em todos os setores, como era Baixo Império Romano no século IV D.C., a preferência da Corte por uma religião específica e o seu fomento estatal, como ocorreu durante toda a dinastia constantiniana,  a partir do Édito de Milão, com a breve exceção do reinado de Juliano, o Apóstata, só poderia resultar num avanço muito grande dessa religião em detrimento de todas as outras, mais ainda quando essa religião gozava de uma estrutura hierarquizada paralela, que, inclusive, sobrevivera a séculos de clandestinidade.

Outra contribuição fundamental de Constantino I para o Cristianismo foi patrocinar o Concílio de Nicéia, em 325 D.C., o primeiro concílio ecumênico da Igreja, com o objetivo de homogeneizar e unificar o entendimento sobre diversas questões doutrinárias e onde foi chancelada a natureza divina de Cristo como Deus-Filho e sua relação com o Deus-Pai, resultando no chamado Credo Niceno, refutando-se versões alternativas da fé cristã, especialmente o “Arianismo” (assim chamado porque baseado nas doutrinas do bispo Ário), que pregava, a grosso modo, que Cristo tinha sido criado pelo Pai, e portanto, não teria sempre existido (eterno), sendo, por consequência, poderia-se dizer assim, “menos Deus” do que o Pai, do qual derivaria, resultando, por fim, que Ambos não seriam “um só e de mesma substância“.

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O Arianismo chegou a influenciar o imperador Constâncio II e também se espalhou entre os povos bárbaros, especialmente os germânicos Godos, Vândalos e Lombardos, que foram convertidos pelo missionário Ulfilas, um adepto de Ário.

Teodósio era um cristão ortodoxo niceno muito devoto, oriundo da Hispânia, onde o Credo Niceno, como de resto no Ocidente e na importante Igreja de Alexandria, dominava. Já o Arianismo prevalecia no Oriente.  Teodósio foi nomeado imperador do Ocidente pelo imperador Graciano, também ele um cristão ortodoxo niceno, após a morte do imperador do Ocidente, Valente, na Batalha de Adrianópolis, em 378 D.C, sendo que Valente foi um adepto do Arianismo.

Teodósio e Graciano, comungando do mesmo Credo, sentiram-se à vontade para favorecer a ortodoxia cristã do Concílio de Nicéia, e, consequentemente, no dia 27 de fevereiro de 380 D.C, eles promulgaram, juntamente com o colega de Teodósio no Ocidente, Valentiniano II (que tinha apenas 8 anos), o decreto imperial “Cunctos populos“, chamado de “Édito de Tessalônica, pelo fato de Teodósio se encontrar nessa cidade, quando de sua edição.

O texto, um tanto sombrio, diga-se de passagem, do Decreto é o seguinte:

É nossa vontade que todos os diversos povos que são súditos de nossa Clemência e Moderação devem continuar a professar aquela religião que foi transmitida aos Romanos pelo divino Apóstolo Pedro, como foi preservada pela tradição fiel, e que agora é professada pelo Pontífice Dâmaso e por Pedro, Bispo de Alexandria, um homem de santidade apostólica. De acordo com os ensinamentos apostólicos e a doutrina do Evangelho, que nós creiamos em uma só divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, em igual majestade e em uma Santíssima Trindade. Nós autorizamos que os que obedecerem a essa lei assumam o título de Cristãos Católicos; Porém, para os outros, uma vez que em nossa opinião, são loucos tolos, nós decretamos que recebam o nome ignominioso de heréticos, os quais não deverão ter a presunção de dar aos seus conventículos o nome de igrejas. Eles irão sofrer em primeiro lugar o castigo da condenação divina e, em segundo lugar, a punição que a nossa autoridade, de acordo com a vontade do Céu, decidir infligir.

Publicado em Tessalônica no terceiro dia das calendas de março, durante o quinto consulado de Graciano Augusto e o primeiro de Teodósio Augusto.”

É importante notar que Teodósio estava gravemente doente em Tessalônica, na Grécia, o que o levou inclusive, como era o costume dos cristãos naquele tempo, a se batizar (o batismo acontecia no leito de morte, já que todos os pecados eram perdoados, ficando mais fácil para o batizado entrar no Céu).

Arc_et_retonde_00274.JPG(Arco do Imperador Galério, em Tessalônica, Grécia, foto de G.Garitan )

Após a edição do Decreto “Cunctos populos“, Teodósio e Graciano lançaram-se em uma campanha de perseguição às heresias cristãs e a tomaram uma série de medidas visando proibir cerimônias e rituais pagãos. Em poucos anos, a crescente intolerância religiosa por parte do Cristianismo triunfante desaguou na destruição de importantes templos pagãos, como o Serapeum, em Alexandria, entre tumultos que degeneraram em massacres.

Alexandria_-_Pompey's_Pillar_-_view_of_ruins(Ruínas do Serapeum, em Alexandria. A imagem dá uma idéia da escala do templo. Foto Daniel Mayer )

Por tudo isso, considera-se o Édito de Tessalônica como o ato que reconheceu o Cristianismo como a religião oficial do Império Romano.

FIM