BATALHA DE PYDNA – O ROUND DECISIVO DO CONFRONTO ENTRE A LEGIÃO ROMANA E A FALANGE MACEDÔNICA (E AS GUERRAS MACEDÔNICAS)

Em 22 de junho de 168 A.C, no sopé do Monte Olocrus, próximo à cidade de Pydna, situada no nordeste da Grécia, o exército romano de 29 mil homens comandado pelo general Lúcio Emílio Paulo, derrotou, em pouco mais de uma hora, um exército de 44 mil homens liderados pelo rei Perseu, da Macedônia.

Morreram na batalha cerca de 20 mil macedônios, tendo sido capturados vivos cerca de 6 mil soldados e o resto do efetivo conseguiu fugir. Já do lado romano, as baixas totalizaram apenas 100 mortos e cerca de 500 feridos…

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A acachapante vitória de Roma selou o fim da chamada Terceira Guerra Macedônica : O próprio rei Perseu foi capturado em Pydna e levado para Roma, em cujas ruas ele seria exibido como cativo na procissão triunfal (Depois, o Senado decretou que o rei vencido ficaria custodiado em prisão domiciliar na Cidade).

A Macedônia foi dividida em quatro repúblicas, estabelecendo-se várias restrições à sua autonomia, uma medida que, na prática, decretou o fim da sua longa história como estado independente, condição essa que efetivamente cessaria cerca de 20 anos mais tarde.

Qual a origem deste conflito?

PRIMEIRA GUERRA MACEDÔNICA

A animosidade entre Roma e Macedônia data da 2ª Guerra Púnica, quando o rei Filipe V, da Macedônia firmou uma aliança com Aníbal, líder militar de Cartago, por volta de 215 A.C., momento em que Roma lutava pela sua própria sobrevivência, um ano após a esmagadora vitória do general cartaginês,  na Batalha de Canas.

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(Moeda da Macedônia cunhada com a efígie de Filipe V)

Em decorrência, e mesmo tendo que lutar contra o grande exército de Aníbal na Itália, Roma conseguiu despachar um pequeno contingente militar para a Ilíria, onde a presença das tropas macedônias do outro lado do Mar Adriático representava uma ameaça estratégica à faixa costeira já controlada por Roma e à própria costa oriental da Itália.

Esse deslocamento de tropas romanas para os Bálcãs foi, ainda, motivado pelo conflito já existente entre a Macedônia e a Liga Etólia, que disputava com a primeira e com a Liga Acaia a supremacia na Grécia. Os Etólios aliaram-se aos Romanos e, juntos, eles, inicialmente, conseguiram impedir a invasão da Ilíria pelos Macedônios, após algumas escaramuças.

Porém, os Macedônios acabaram levando a melhor, forçando Romanos e Etólios a assinarem com eles o Tratado de Phoenice, em 205 A.C, onde as partes reconheceram que algumas cidades da Ilíria ficariam sobre o controle da Macedônia. Em contrapartida, Filipe V aceitou renunciar à sua aliança com Aníbal, o que satisfez, momentaneamente, os Romanos.

O Tratado de Phoenice encerrou o conflito entre Roma e a Macedônia, que, embora tenha ocorrido em escala bem limitada, ficaria conhecido como a “Primeira Guerra Macedônica“.

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Porém, pouco tempo depois da assinatura do Tratado, algumas iniciativas de Filipe V alarmaram o Senado Romano, sobretudo quando a Macedônia assinou um tratado de não-agressão com o Império Selêucida, que era governado pelo rei Antíoco III, o Grande, em 204 A.C.

Esse tratado alterou a correlação de forças no mediterrâneo oriental, onde os três reinos remanescentes do grande Império de Alexandre, o Grande: o Egito Ptolemaico, o Império Selêucida, baseado na Síria, e a própria Macedônia, contrabalançavam-se como potências dominantes da região, tentando incorporar os pequenos reinos e as velhas Cidades-Estado helenísticas ainda independentes, sobretudo na Grécia, onde a maior parte das últimas tinham se reunido nas Ligas Etólia e Acaia.

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(Cabeça de Antíoco III, o Grande)

Mais do que tudo, o fato dos dois pretendentes ao trono do Egito estarem travando uma guerra civil no momento da assinatura do tratado despertou as suspeitas romanas de que os seus outros dois rivais, os Macedônios e Selêucidas, tinham firmado a aliança com o objetivo de dividir entre si os domínios ptolemaicos que, inclusive, iam além das fronteiras do Egito, daí resultando uma provável partilha de todo o espólio resultante das conquistas de Alexandre entre os dois.

E, de fato, Filipe V iniciou uma campanha na Ásia Menor, sitiando a cidade ptolemaica de Samos e também a cidade de Mileto. Isso, por sua vez, colocou a Macedônia em conflito com o Reino de Pérgamo e a rica Ilha de Rodes, que enviaram embaixadores à Roma, protestando contra a Macedônia. O Senado Romano, então, assim provocado, mandou embaixadores à Grécia para investigar os assuntos gregos e, quando estes chegaram à Atenas, lá encontraram o próprio rei Átalo, de Pérgamo, e outra delegação de embaixadores ródios.

Foi dentro deste quadro que os Atenienses decidiram declarar guerra à Macedônia.

Julgando que a aliança entre Macedônia e o Império Selêucida arranhava o seu prestígio junto aos seus novos protegidos gregos, o Senado Romano decidiu enviar um ultimato à Filipe V, ordenando que o rei se abstivesse de manobras hostis contra os recém aliados dos Romanos: Atenas, Rodes, Pérgamo, e, ainda, contra os seus antigos amigos da Liga Etólia.

Ocorre que fazia muito pouco tempo que Roma havia vencido, de maneira terrivelmente custosa e sangrenta, a Segunda Guerra Púnica, em 202 A.C. Por isso, Filipe V deve ter se sentido encorajado a desafiar os Romanos, e, simplesmente, resolveu ignorar o ultimato senatorial.

Outro motivo para a confiança de Filipe V era o prestígio militar que a Falange Macedônia, a tradicional formação de batalha empregada pelos Macedônios, gozava no Mundo Mediterrâneo da época.

Com efeito, os Macedônios, desde o governo de Filipe II, pai de Alexandre, o Grande, tinham desenvolvido a tática de empregar fileiras cerradas de infantaria armada com longas lanças, de cerca de 6 metros de comprimento (sarissas), empregadas por soldados altamente treinados, tornando praticamente impossível penetrar nas formações, que, além disso, eram protegidas pelo comprimento das lanças dos ataques frontais de cavalaria e, até mesmo, das descargas de flechas, pois as lanças das fileiras posteriores às de frente ficavam erguidas, como espinhos eriçados, à frente e por cima dos soldados.

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Foi empregando a Falange Macedônia que Alexandre, o Grande havia derrotado os rivais gregos remanescentes, conquistado o Império Persa e invadido até mesmo a Índia, tudo sem conhecer derrota. Note-se, contudo, que, somada à falange, Alexandre também empregou brilhantemente a sua cavalaria pesada, conhecida como os “Companheiros”.

Então, um segundo ultimato foi enviado pelo Senado a Filipe V, que respondeu que não entendia o motivo da atitude romana, já que ele não havia violado nenhum dos termos do Tratado de Phoenice.

SEGUNDA GUERRA MACEDÔNICA

Porém, antes mesmo de Filipe V receber a resposta à sua indagação, Roma já havia enviado um exército para a Ilíria, em 200 A.C, começando, dessa forma, as hostilidades.

No entanto, os dois primeiros anos desta campanha foram infrutíferos, devido à falta de iniciativa do comandante Públio Sulpício Galba. Para piorar,  agora já sob o comando de Públio Vílio, as tropas romanas chegaram até a se amotinar!

Tudo mudaria, contudo, em 198 A.C, quando o recém-eleito Cônsul Tito Quíncio Flaminino, que tinha apenas 30 anos de idade, mas era um veterano da 2ª Guerra Púnica, assumiu o comando da campanha contra Filipe V.

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(cabeça da estátua do grande general e estadista romano Flaminino encontrada em Delfos)

Flaminino, que era um grande admirador da cultura grega (philohelennes), fez saber aos gregos que, agora, ao invés de exigir apenas que Filipe V cessasse os ataques aos aliados romanos,  Roma demandava também que ele retirasse as tropas macedônias da Grécia e restaurasse a antiga liberdade das Cidades-Estado. Com isso, o romano obteve a simpatia dos gregos.

Em pouco tempo, Flaminino conseguiu expulsar os Macedônios de quase toda Grécia, obrigando-os a se refugiar na Tessália. Filipe V tentou, então, entrar em acordo com Flaminino, mas os seus aliados gregos, inicialmente, opuseram-se à iniciativa..

Com o insucesso das negociações, a guerra continuou, desenrolando-se a favor dos romanos, e, assim, mudando de postura, os aliados gregos de Filipe V começaram a abandoná-lo.

Mas, quando o exército de Flaminino e de seus aliados da Liga Etólia marchou em direção à cidade de Pherae, o exército macedônio, reforçado por um contingente de mercenários, foi obrigado a oferecer combate.

A BATALHA DAS CINOSCÉFALAS

Em 197 A.C, nas colinas Cinoscéfalas, ocorreu o primeiro encontro em larga escala entre as legiões romanas e a falange macedônia, onde cerca de 25 mil romanos lutaram contra cerca de 27 mil macedônios.

Havia muita neblina no começo da batalha, que acabou se desenvolvendo em um terreno escarpado, prejudicial à formação rígida da falange. A má visibilidade também prejudicava as manobras dos manípulos (unidades de 120 soldados, usualmente dispostas em 3 linhas de 40 homens, que podiam ser movimentados com mais flexibilidade).

No início, a cavalaria e a infantaria leve de ambos foi envolvida no combate e os Romanos foram obrigados a recuar, ordenadamente, o mesmo ocorrendo com os Macedônios, ambos em sua ala esquerda. Filipe mandou metade da falange descer a colina. A ala direita dos Macedônios começou a empurrar os Romanos para trás; porém, enquanto a ala esquerda da falange ainda estava marchando para se posicionar em linha com a direita que avançava, foi atacada pela ala direita dos Romanos, reforçada por elefantes de campanha.

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A batalha, assim, naquele momento encontrava-se em um impasse, com o lado direito de cada exército levando vantagem sobre o esquerdo, o qual recuava, até que um tribuno romano, a quem as fontes antigas não deram o nome, tomou a iniciativa de retirar 20 manípulos (cerca de três mil legionários) da ala direita romana, que estava obtendo sucesso e lançá-los contra a retaguarda da ala esquerda da falange, que por sua vez estava prevalecendo sobre a outra ala romana.

A rígida ala esquerda dos Macedônios, pega por trás,  era uma presa fácil devido ao tamanho das suas lanças que dificultavam qualquer manobra, e começou a ser dizimada. Os infantes falangistas, então, ergueram as lanças, o que significava um sinal de rendição. Porém os Romanos, ignorantes dessa convenção militar grega, prosseguiram na matança.

Os Macedônios perderam 8 mil homens e 5 mil foram feitos prisioneiros. Os romanos perderam somente mil homens.

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Terminava assim a Segunda Guerra Macedônica.

Filipe V conseguiu escapar e continuou reinando sobre a Macedônia, cujo território original e independência foram mantidos intactos. Porém, o reino foi obrigado a pagar uma vultosa indenização e a assinar um acordo retirando o seu exército da Grécia e devolvendo as suas conquistas na Ásia Menor. Além disso, Filipe V teve que enviar o seu filho mais novo, Demétrio, à Roma, como refém.

Flaminino, nos Jogos Ístmicos de 196 A.C, fez a sua famosa proclamação de “Liberdade para a Grécia”, sendo entusiasticamente aclamado pelos Gregos, que até chegaram a divinizá-lo e erguer uma estátua homenageando o general romano na sagrada cidade de Delfos.

Guarnições romanas, contudo, foram aquarteladas nas principais cidades gregas que. antes eram dominadas pela Macedônia, até 194 A.C, quando elas foram evacuadas por ordens do galante Flaminino, empenhado em manter a sua promessa, apesar da oposição do Senado Romano.

Nesse ínterim, em 195 A.C., as tropas de Flaminino derrotaram o tirano-usurpador Nábis, de Esparta, que havia se aproveitado da 2ª Guerra Macedônica para tomar a cidade de Argos.

(Nota: três anos mais tarde, Nábis seria derrotado pelo chefe da Liga Acaia, Filopêmene, em um conflito em que Nábis seria traiçoeiramente morto pelos seus próprios aliados da Liga Etólia, tornando-se, assim, o último governante independente da célebre cidade-estado de Esparta).

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(Moeda cunhada por Nabis, autoentitulando-se rei de Esparta. Ele seria o último governante da célebre Cidade-Estado grega)

Nos anos seguintes, Filipe V manteve-se, cautelosamente, nos limites do tratado assinado com os romanos e até os ajudou na campanha contra Nábis.

E ele também ficou do lado dos romanos quando estes tiveram que voltar sua atenção para o Império Selêucida, do rei Antíoco III, o Grande, permitindo até que as tropas romanas marchassem através da Macedônia.

Em retribuição, os romanos abriram mão da indenização devida por Filipe V e libertaram o seu filho, Demétrio.

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(Mapa geopolítico do Mediterrâneo Oriental após a guerra contra Nábis)

Antíoco III, contudo, não se sentiu intimidado pela reação dos romanos à política expansionista de Filipe V, que era boa parte decorrente do tratado de não agressão que ele próprio tinha celebrado com os Macedônios, e continuou anexando territórios controlados pelo Egito Ptolemaico, inclusive a Judéia.

Essa expansão levou a cidade helenística de Smyrna, na Ásia Menor a também pedir ajuda à Roma. E, para piorar as coisas, Aníbal, o grande inimigo figadal de Roma, deixou Cartago e recebeu o caloroso asilo de Antíoco III, na cidade de Éfeso, na Turquia.

Consta que Aníbal, constatando a iminência da guerra entre Antíoco III e Roma, chegou a se oferecer para comandar uma expedição militar ao sul da Itália, julgando essa alternativa bem melhor do que os planos para a invasão da Grécia pelos Selêucidas. E esta invasão de fato foi um fracasso, pois o exército selêucida foi derrotado pelos romanos nas Termópilas, em 191 A.C., e, novamente, em 190 A.C., na Batalha de Magnésia.

Por sua vez, a frota selêucida, sob o comando de Aníbal, foi derrotada naquele mesmo ano, mas o velho general cartaginês conseguiu um novo asilo com o rei Prúsias, da Bitínia…

(Nota: anos mais tarde, por volta de 182 A.C., quando Prúsias estava em guerra contra Eumenes II, de Pérgamo, os romanos exigiram que Aníbal lhes fosse entregue, mas o cartaginês, quando soube que Prúsias tinha concordado, preferiu se suicidar antes a cair nas mãos dos odiados romanos).

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(Aníbal, o velho general cartaginês e inimigo nº 1 de Roma, mesmo no final da vida não perdeu a oportunidade de lutar pelo Império Selêucida contra a sua odiada adversária)

Com a derrota, Antíoco III teve que assinar o Tratado de Apamea, abrindo mão das cidades e territórios que havia conquistado, sendo alguns deles entregues a Pérgamo. Ele morreu em 187 A.C., sendo sucedido por seu filho,  Seleuco IV Filopator.

Entretanto, as relações entre Roma e a Macedônia em breve voltariam a azedar, pois Filipe V aproveitou o período de paz com Roma para reforçar a sua economia e o seu exército, e tentou novamente exercer influência juntos aos vizinhos, especialmente nos Bálcãs.

Como resultado do ressurgimento das iniciativas geopolíticas de Filipe V, as cidades gregas aliadas de Roma ficaram alarmadas e queixaram-se ao Senado.

Enquanto isso, Demétrio, durante sua estadia em Roma, tornara-se simpatizante dos Romanos e tentou interferir junto ao pai em favor dos interesses da República.

Parece que Roma, percebendo as vantagens de plantar um aliado no trono da Macedônia, incentivaram Demétrio a articular suas pretensões à sucessão, em detrimento de seu irmão mais velho, Perseu.

Essas intrigas acabaram levando Filipe V a mandar executar o próprio filho, em 180 A.C., sob a acusação de traição. Foi uma decisão dolorosa e que certamente abalou a saúde do rei macedônio, que morreu no ano seguinte.

Perseu, agora rei da Macedônia, continuou a política de reerguimento da Macedônia. Ele casou-se com Laodice, filha de Seleuco IV Filopator, o que, sem dúvida, caracterizou uma renovação da aliança da Macedônia com o Império Selêucida, um lá circunstância que,  precisamente, tinha sida uma das principais causas da 2ª Guerra Macedônica. E ele também firmou uma aliança com Cótis IV, rei dos Odrísios, um dos mais poderosos reinos da Trácia.

Tudo isso acontecia sob o pano de fundo do polarizado quadro político na Grécia, onde, cada vez mais, acentuava-se uma divisão entre os partídários de Roma e os partidários de Perseu e da Macedônia, sobre quem deveria liderar a Grécia.

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(Tetradracma de Perseu, último rei da outrora poderosa Macedônia)

A tensão política foi exacerbada quando o rei Eumenes II, de Pérgamo, fiel aliado de Roma e velho inimigo da Macedônia, fez um discurso no Senado Romano, por volta de 172 A.C., denunciando as intenções bélicas de Perseu.

Pouco tempo depois, quando visitava Delfos, Eumenes II foi vítima de uma tentativa de assassinato, e as suspeitas recaíram sobre Perseu, que foi declarado “Inimigo Público” pelo Senado Romano, o que, na prática, equivalia a uma declaração de guerra.

TERCEIRA GUERRA MACEDÔNICA

Em 171 A.C., os cônsules Públio Lícino Crasso e Caio Cássio Longino deram início aos preparativos para a Terceira Guerra Macedônica : O primeiro foi encarregado da expedição à Macedônia. A força expedicionária romana tinha cerca de 40 mil homens, sendo esperados reforços dos aliados gregos quando desembarcassem.

Por sua vez, Perseu também conseguiu reunir cerca de 40 mil homens, além de aliados trácios e gauleses.

Porém, os dois primeiros anos da guerra seguiram sem combates decisivos, sendo que, em vários deles, os romanos levaram a pior, o que ia diminuindo os efetivos da força expedicionária. O Senado, preocupado, chegou a enviar uma delegação para examinar a gravidade da situação.

No terceiro ano, a campanha continuou inconclusiva, sendo que ainda ocorreram dissensões entre o comandante da frota romana e o rei Eumenes II de Pérgamo, cujo real empenho na guerra suscitava dúvidas entre os aliados romanos.

Em 168 A.C., contudo, o cônsul Lúcio Emílio Paulo, um militar veterano de 60 anos de idade, assumiu o comando da campanha na Macedônia. Chegando à Grécia, Emílio Paulo tomou pé da situação e restaurou a disciplina das tropas romanas, dedicando tempo para o seu treinamento, além de mandar fazer um relatório de inteligência sobre o ânimo dos aliados gregos, as características do território inimigo e as condições do exército macedônio.

Enquanto isso, Perseu havia se entrincheirado no sopé do Monte Olimpo, atrás do Rio Elpeus, com o mar à sua esquerda e o Monte à sua direita, em uma posição que tornava difícil um ataque frontal à falange. Emílio Paulo planejou, então, atrair os Macedônios para fora desta posição através de uma manobra diversionista – um ataque de um destacamento comandado por Públio Cornélio Cipião Násica Cóculo, que simularia a intenção de cruzar o rio costeando o mar, pelo leste. Já Emílio Paulo rumaria para o sul, e, então, passando através da elevação montanhosa, atacaria Perseu pelo oeste, visando pegar os macedônios pela retaguarda.

Porém, um desertor das forças romanas alertou Perseu e este enviou um contingente de 12 mil homens, comandados por Milo, para bloquear o caminho. O encontro entre os dois destacamentos forçou os Macedônios a recuarem de volta para o acampamento de Perseu, que decidiu abandoná-lo e se reposicionar mais ao norte, nas cercanias da vila de Katerini, ao sul de Pydna. Este era um terreno razoavelmente plano e adequado para a formação da falange.

Por sua vez, a força comandada por Cipião Násica reuniu-se às legiões de Emilio Paulo e este ordenou uma marcha forçada na direção norte, para tentar interceptar Perseu em posição favorável aos romanos.

Porém, quando os romanos conseguiram avistar os Macedônios, a falange já estava completamente disposta em formação de batalha. Emílio Paulo, então, julgou mais conveniente não arriscar o combate, tendo em vista a cansativa marcha, e ordenou que o tradicional acampamento fortificado dos romanos fosse construído no sopé do Monte Olocrus.

Naquele noite, houve um eclipse,  fato que foi interpretado como um presságio favorável aos romanos por ambos os lados uma vez que, na superstição dos antigos, normalmente isto significava a morte de um rei (muito embora Plutarco tenha ressalvado que o cônsul romano conhecia que aquele sinal era um fenômeno astronômico que ocorria a intervalos regulares).

A BATALHA DE PYDNA

No dia seguinte, a batalha somente começaria à tarde, segundo alguns, pelo fato de Emílio Paulo ter esperado o sol se colocar atrás dos romanos, para ofuscar os macedônios.

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Assim, a primeira fileira da falange avançou e colidiu com os manípulos romanos às 15h. Algumas dezenas de metros antes das lanças macedônias encontrarem os escudos romanos, a falange foi atingida pela descarga de “pila” (dardos pesados) romanos, que deve ter aberto alguns espaços nas cerradas fileiras (Mais tarde, o próprio Emílio Paulo confessaria que “a visão da falange em formação completa lhe inspirou ansiedade e admiração”).

Não obstante, os legionários logo perceberam que raramente eles conseguiam atingir os macedônios, enquanto eram empurrados pelas pontas das compridas “sarissas”, o que levou alguns a começaram a se desesperar.

Tentando pôr fim ao impasse, os mais destemidos dos soldados romanos, à maneira dos futuros “kamikazes” japoneses, começaram a correr e saltar, arremessando-se por cima das lanças inimigas, apenas para serem varados pelas pontas das lanças das fileiras posteriores.

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(legionário arremessando um pilum – o dardo foi concebido para ser arremessado, para que acertasse o inimigo ou ficasse cravado no escudo dele, obrigando o oponente a descartá-lo. O pila era também projetado para se deformar com o impacto, para que não pudesse ser reutilizado pelo inimigo. Os romanos esperavam se aproveitar dos espaços que poderiam ser abertos nas fileiras do inimigo, quando os pila arremessados atingiam o objetivo. Um soldado treinado podia arremessar um pilum até 60 metros de distância. Normalmente, os legionários carregavam dois pila, um leve e outro mais pesado, que podia ser usado também como lança de combate).

Nesse momento, a férrea disciplina dos romanos e a existência de um corpo de oficiais subalternos (centuriões) distribuídos entre as duas centúrias (80 homens) que compunham os manípulos mostrou a sua eficiência. Orientados pelos centuriões, que obedeciam aos comandos dos tribunos transmitidos por trombetas, a legião, como um todo, apesar da intensa pressão, conseguiu recuar ordenadamente, em direção ao terreno mais irregular do sopé do monte Olocrus, atrás de si.

Foi então que a grande fragilidade da falange ficou exposta: a medida que o terreno ficava mais acidentado, a falange não conseguiu manter o seu alinhamento perfeito e brechas começaram a surgir em sua formação. Imediatamente, Emílio Paulo deu a ordem para os tribunos para que, abandonando a coesão da linha de batalha romana, autorizassem os manípulos a explorarem, ao seu bel prazer, as brechas na falange.

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Atacados pelos flancos, os hoplitas não eram páreo para os legionários armados de gládios, que os golpeavam pelo lado desprotegido. Eles foram obrigados a largar as sarissas e assim, em pouco tempo, a falange começou a se desintegrar. A ala esquerda romana aproveitou-se para envolver completamente a ala direita dos macedônios que começava a ser atacada pelos legionários que haviam se infiltrado pelas brechas da sua desagregada ala esquerda.

Vendo o exército se dissolver, Perseu resolveu fugir com a cavalaria, cerca de 4 mil cavaleiros, incluindo o seu “Esquadrão Sagrado”, equivalente aos “Companheiros” (hetairoi), de Alexandre, motivo pelo qual ele seria acusado de covardia pelos seus compatriotas. Porém, os 3 mil integrantes da Guarda do rei, cercados, lutaram até praticamente o último homem. Era 22 de junho de 168 A.C.

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EPÍLOGO

Perseu acabou sendo capturado na ilha de Samotrácia, para onde ele havia fugido buscando asilo no Templo dos Dióscuros, e seria exibido acorrentado no Triunfo de seu vencedor, Lúcio Emílio Paulo, nas ruas de Roma, morrendo no cativeiro, em 165 A.C..

O Senado Romano debateu como proceder com a Macedônia e seus aliados gregos. Em um decreto muito parecido com o discurso das atuais potências ocidentais, os senadores decretaram que os Macedônios e os Ilírios deveriam ficar livres, assinalando o motivo:

Para que fique claro para o mundo inteiro que os exércitos de Roma não trazem a escravidão para os homens livres, mas, ao contrário, levam a liberdade para os escravizados, e que, entre as nações que gozam de liberdade, a segurança e a permanência dessa liberdade repousam sob a proteção de Roma”…

Sem dúvida, foi um pronunciamento que hoje não ficaria mal nos lábios de um Porta-voz da Casa Branca…

Não obstante as elevadas intenções senatoriais , o fato é que a Macedônia foi dividida em quatro partes,  e todas elas obrigadas a pagar tributo a Roma, e as suas ricas minas de ouro ficaram sob administração romana…

CONCLUSÃO

Roma agora era a indiscutível senhora dos assuntos da Grécia e maior potência do Mundo Mediterrâneo. Em sua orla, somente restavam três Estados ainda independentes de alguma importância: O Egito Ptolemaico, o enfraquecido Império Selêucida e Cartago.

Podemos imaginar como o mundo teria mudado para um cidadão romano que tivesse nascido em 220 A.C, dois anos antes de quando Aníbal cruzou os Alpes no início da 2ª Guerra Púnica…

Nessa época, a República Romana sequer dominava a Península Italiana inteira, estando o norte ainda dominado por tribos celtas e tendo que dividir o sul e a Sicília com uma série de cidades-estado independentes, culturalmente gregas.

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O nosso hipotético cidadão teria, ainda bebê, talvez percebido o terror de seus pais quando chegou a notícia da travessia dos Alpes por Aníbal.

Ainda uma criança pequena, será que o nosso personagem já teria podido compreender o choque que foi o massacre das legiões romanas em Canas? É possível, mas certamente ele cresceu acompanhando, atento, os relatos da virada da maré da guerra em favor dos seus compatriotas.

Já mocinho de 18 anos, o nosso romano poderia ter participado como um recruta do exército comandado por Públio Cornélio Cipião, na vitória final em Zama, na África, em 202 A.C.. Agora, o jovem romano poderia se orgulhar de que sua República controlava territórios na Espanha e no sul da França.

Na virada do século, o calejado jovem teria visto Roma cada vez mais se envolver nos assuntos da Grécia, lugar de onde vinham tantas ideias novas. Quem sabe não teria ele também entabulado negócios nas diversas cidades-estado gregas, agora que milhares de mercadores romanos pululavam na Hélade?

Finalmente, nosso romano, agora já entrado na maturidade de seus cinquenta anos, poderia muito bem ter acompanhado, agora comandando algum destacamento, o cônsul Lúcio Emílio Paulo, e participado da vitória definitiva contra a outrora tão temida Macedônia, a temida pátria do guerreiro mais famoso da civilização helenística – o quase divino Alexandre, o Grande.

Junto a Emílio Paulo, nosso romano poderia ter visto a inauguração do espetacular monumento equestre (cuja imponente base ainda existe) ao grande vencedor da Batalha de Pydna, o último dos troféus erguidos na sacrossanta cidade de Delfos, sede do famigerado Oráculo, onde todas as cidades gregas, durante séculos, vinham prestar homenagens ao deus Apolo, competindo para ver quem erguia o monumento mais suntuoso.

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(Monumento a Lúcio Emílio Paulo pela vitória em Pydna, erguido em Delfos)

Nosso personagem talvez tivesse retornado a tempo de participar do triunfo do seu comandante Lúcio Emílio Paulo, que agora ajuntara ao nome dele o cognomen de “Macedonicus”, e constatar que o grande espólio de guerra por ele conquistado na Macedônia, escrupulosamente depositado no Tesouro da República Romana, havia permitido ao Estado deixar de cobrar impostos durante algum tempo. Talvez ele tenha até comparecido ao funeral do grande general, quando este morreu em 160 A.C., em relativa pobreza, testemunhando essa última grande prova da proverbial honestidade do comandante falecido.

FIM

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JUNHO

Foto: Ad Meskens, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

No primitivo calendário romano, que tinha dez meses no total e começava em março, junho era o quarto mês do ano. Depois, com a introdução dos meses de janeiro e fevereiro, por volta do século II A.C., o mês passou a ocupar a sexta posição no calendário, que mantém até hoje.

Desde os primórdios de Roma até quase o fim do período republicano, o mês de junho tinha 29 dias, até a reforma do calendário romano instituída pelo Ditador Caio Júlio César. A partir de então, com a adoção do chamado Calendário Juliano, que começou a vigorar em 1º de janeiro de 45 A.C., o mês passou a ter 30 dias.

Segundo o poeta romano Ovídio, em seu famoso poema “Fasti“, versando sobre o calendário romano, haveria três explicações para a origem do nome Junho, ou Iunius, em latim:

Segundo a primeira delas, o nome seria uma homenagem a deusa Juno, a esposa de Júpiter e deusa protetora do Estado Romano, bem como das mulheres, do parto e do casamento. De acordo com a segunda tese contida nos versos, o nome do mês decorreria da deusa Juventus, ou Juventude, que no poema afirma que o junho é o mês dos jovens (iuniores) em contraposição ao mês anterior, maio, que é dedicado aos velhos (maiores). E Ovídio ainda cita no poema uma terceira alternativa para o nome junho: uma homenagem a Marco Junius Brutus, o fundador da República Romana e que fez o primeiro sacrifício a Deusa Carna (Dea Carna), em 1º de junho, embora esta última explicação seja improvável.

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Estátua da deusa Juno

Importantes datas cerimoniais romanas aconteciam em junho.

Nas calendas de junho (primeiro dia do mês, segundo o método romano de contagem dos dias dos meses), ocorria o já mencionado Festival de Carna, chamado de “Calendas do Feijão (ou favas)” (Kalendae fabariae). Carna era uma divindade que Ovídio associou à Carda, a deusa das dobradiças das portas (Nota:Os romanos davam tanta importância religiosa às portas das casas e aos portões dos celeiros que havia três divindades específicas para cada um dos seus componentes: um para o umbral, um para a porta propriamente dita e outra para as dobradiças…).

Nas Calendas do Feijão que se incluía entre os dias “nefastos” (ou seja, um feriado em que não podia ocorrer nenhum tipo de sessão pública, seja audiência judiciária, reunião política ou assembléia), era oferecido à deusa Carna um prato de feijões (ou favas) cozidos e fritos em banha de porco.

Entre os dias 7  (ante dies VII idus junias) e 15 de junho (ante dies XVII Kalendas Iulias ou, antes do Calendário Juliano, ante dies XVI Kalendas Quinctilis), ocorria a Vestalia, que  era a nundina (período  de 9 dias que no calendário romano tradicional tinha a mesma função da atual semana)  de festejos e cerimônias em honra `deusa Vesta, uma das divindades mais antigas e tradicionais do Panteão romano (leia nosso artigo específico sobre Vesta).

OUTRAS FESTIVIDADES EM JUNHO

Uma data importante, e que parece ter significado mais universal do que o culto à  Vesta, embora não estivesse totalmente divorciado deste, era o dia 24 de junho – o Dies Lampadarum, que marcava o solstício de verão no hemisfério norte, ou seja, dia em que o sol atingia o seu ponto máximo no firmamento e a sua luz tinha o máximo de duração (o dia mais longo e a noite mais curta do ano). Tradicionalmente, o solstício de verão nas sociedades agrícolas setentrionais marca o período da colheita, e por isso a limpeza do armário, ou penus de Vesta, era tão relevante, significando a limpeza da despensa da casa para receber os frutos da nova colheita.

Por isso, a maior parte das representações iconográficas romanas do mês de junho, inclusive a do célebre Calendário de Filócalo, de 354 D.C., apresentava um homem ou divindade carregando uma tocha, próximo a um cesto de frutas ou cereais. (vide foto abaixo)

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O “BOLSA-FAMÍLIA” DE ROMA

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Em 18 de maio de 332 D.C., o Imperador Constantino, o Grande, anunciou que o povo de Constantinopla também receberia a “Cura Annonae“, isto é, os moradores fariam jus à distribuição gratuita de grãos que já era feita aos cidadãos livres da cidade de Roma.

Tal medida colocava a população pobre da “Nova Roma Constantinopolitana” (nome da nova capital) no mesmo plano de sua irmã mais velha e ilustre, a velha Roma, onde essa política era exercida desde a velha República, variando, ao longo do tempo, entre a distribuição gratuita de trigo (e de outros gêneros alimentícios, como carne salgada e azeite) e a venda desses itens a preços subsidiados. 

Oitenta mil cidadãos de Constantinopla ganharam o direito ao donativo (em Roma eram 200 mil).

Na cidade de Roma, a existência de uma ração de trigo fornecida pelo Estado remonta a 440 A.C., quando foi nomeado um Prefeito da Anona (Praefectus Annonae).

Observe-se, contudo, que durante muito tempo, a Anona foi somente uma medida emergencial, para fornecer alimentação em tempos de secas ou crises excepcionais de abastecimento.

A Anona era personificada como uma deusa e a distribuição dos grãos era feita no vetusto Templo de Ceres, construído em 493 A.C., na colina do Aventino, próxima ao Circo Máximo.

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(Templo de Ceres, no sopé do monte Aventino)

Posteriormente, com a progressiva concentração da terra nas mãos de grandes latifundiários, enriquecidos pelas conquistas romanas (um fenômeno que contribuiu para o aumento do proletariado e o decorrente crescimento da população urbana de Roma), a facção dos Populares no Senado Romano passou a defender o fornecimento permanente de grãos aos cidadãos livres de Roma, vendidos a preços subsidiados.

Assim, a Prefeitura da Anona ficou encarregada de coletar os tributos pagos em gêneros, como era o caso do trigo, e vendê-las a preço baixo para a população pobre da cidade.  Os irmãos Graco, que ocuparam o cargo de Tribuno da Plebe, defenderam essa política, e Caio Graco fez promulgar, em 123 A.C., uma  lei específica nesse sentido.

A Anona passou a ser, a partir de então, um elemento praticamente obrigatório na plataforma de todos os políticos que pretendiam os votos do cada vez mais numeroso proletariado romano com direito ao voto.

Em 58 A.C., o político Clodius Pulcher (Clódio), talvez o mais populista de todos os integrantes da facção dos Populares, após ser eleito Tribuno da Plebe, conseguiu aprovar uma lei instituindo o fornecimento gratuito de trigo para praticamente todos os plebeus de Roma, o que implicou em grande aumento das despesas públicas.

Já o Ditador Júlio César, após assumir o poder supremo, legislou de modo a tornar a Cura Annonae mais restrita e organizada. Assim, ele ordenou a realização de um censo, e o número de beneficiários foi recalculado, arrolando-se um número menor de beneficiários em relação ao que tinha sido estabelecido por Clódio. Por sua vez, o Imperador Augusto reduziu ainda mais o número de beneficiários da Anona, fixando-o em duzentos mil cidadãos.

Durante o início do Império Romano, o responsável pela administração da Anona era o “Curator Alimentorum“, que era um dos mais importantes postos da nova burocracia imperial, encarregado da execução de uma dos pilares da política dos imperadores, que inclusive ficaria conhecida como Política do “Pão e Circo“, inspirada na expressão utilizada pelo poeta Juvenal, que criticava a estratégia dos Césares ao usurparem a soberania popular em troca de comida e de espetáculos.

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A partir do reinado do imperador Septímio Severo, foi incluída na Anona a distribuição de azeite grátis. Posteriormente, o imperador Aureliano passou a distribuir, em vez de trigo, os próprios pães já assados, juntamente com rações de sal, carne de porco, na forma de toucinho,  e de vinho, por um preço baixo (mas, às vezes, estes também eram distribuídos gratuitamente).

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(Denário de Nero, mostrando a figura simbólica da Anona, foto de Classical Numismatic Group, Inc)

Para o sucesso e continuidade da Cura Anonnae era fundamental a existência de excedentes agrícolas, bem como de uma rede logística adequada. Note-se que os arredores da cidade de Roma, e mesmo a península italiana como um todo, não geravam excedentes para alimentar a população de Roma, que nos tempos de Augusto já tinha cerca de um milhão de habitantes.

Além disso, a antiga tecnologia romana de transporte de carga por animais por via terrestre não permitia que a quantidade necessária fosse transportada pelas estradas. Com efeito, os Romanos não conheciam o arnês de coleira, de modo que o sistema de arreios que eles usavam não permitia que os bois levassem muita carga, pois eram sufocados pelo tipo de cangas que eles usavam.

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Todavia, as regiões que produziam abundante excedente agrícola, inicialmente a Sicília e, tempos depois, o Egito e a África do Norte, eram todas ligadas à Roma por via marítima. Desse modo, o Império Romano organizou um sistema de armadores e afretadores marítimos e fluviais (navicularii), que eram empresários particulares, mas rigidamente controlados pelo Estado, construiu gigantescos portos, tais como o de Óstia, e também armazéns para possibilitar o transporte e a armazenagem dos grãos, além de grandes complexos de moinhos.

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Estima-se que a Anona, em Roma, requeria o fornecimento  da descomunal quantidade de 600 milhões de libras de trigo, que deveria ser transportada, armazenada e distribuída na Cidade.

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(Porto de Óstia, na foz do Rio Tibre, reconstituição e foto aérea das ruínas)

ANASTÁCIO I DICORO

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(relevo de marfim, provavelmente retratando Anastácio)

Em 11 de abril de 491 D.C. Anastácio I foi coroado em Constantinopla, dois dias após a morte do imperador Zenão I, o seu antecessor.

No dia anterior à coroação, a imperatriz-viúva Ariadne, acompanhada do Senado de Constantinopla, do Grande Camareiro Urbicius, e dos demais ministros de Estado, dirigiu-se para o Hipódromo, onde uma tropa de soldados reunidos na pista, e oitenta mil cidadãos nas arquibancadas, os aguardavam.

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(relevo de marfim de Ariadne)

“-Vida longa à Augusta!”, “Dê ao mundo um imperador ortodoxo!“, gritou a multidão.

Em seguida, um funcionário, em frente ao camarote imperial no Hipódromo (“kathisma“, em grego) começou a ler uma proclamação da imperatriz:

“-Antecipando o Vosso pedido, nós ordenamos aos ilustres Ministros e ao sagrado Senado, com a aprovação do bravo Exército, que selecione um Imperador Romano Cristão, dotado de todas as virtudes imperiais, que não seja escravo do dinheiro, e que seja, tanto quanto um homem pode ser, livre de todos os vícios humanos“.

O povo, em resposta, gritou:

“-Ariadne Augusta, tu venceste! Ó Rei Celestial! Dê ao mundo um Imperador que não seja avarento!

Ariadne:

“-Para que a escolha possa ser pura e agradável a Deus, nós ordenamos que os Ministros e o Senado, com a concordância do Exército, realizem a eleição ante os Evangelhos e na presença do Patriarca, de modo que ninguém seja influenciado por amizade ou inimizade, parentesco, ou qualquer outro motivo particular, senão que vote com a sua consciência limpa. Consequentemente, considerando que o assunto é muito relevante e diz respeito ao bem-estar do mundo, vocês devem aceitar uma pequena pausa, até que os funerais de Zenão, de pia memória, tenham sido devidamente realizados, e, assim, a eleição não seja feita precipitadamente“.

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(O imperador Teodósio, no kathisma, no Hipódromo de Constantinopla, foto Radomil talk)

Segundo o relato acima, feito pelo imperador Constantino IX Porfirogênito, que também era historiador (o qual extraímos do clássico livro “History of the Later Roman Empire“, de John B. Bury), após o discurso no Hipódromo, o Camareiro Urbicius sugeriu ao conselho de ministros que a escolha ficasse a cargo de Ariadne. A sugestão foi acolhida ou, o que é mais provável, apenas formalizou-se algo que já estava definido previamente.

Vale observar que o discurso de Ariadne faz questão de mencionar o que  se considera serem as três fontes do poder na constituição não-escrita do Império Romano: O Senado, que representava a nobreza, os ministros, que representavam a administração civil do Império, e o Exército, que representava os cidadãos armados, todos agindo em nome do Povo, reunido no Hipódromo,  a quem, ainda que apenas cerimonialmente, eles deviam satisfação.

Ariadne escolheu Flavius Anastasius (Anastácio I), que ocupava o cargo de Silentiarius, um alto funcionário do Palácio encarregado de manter a ordem nas audiências do imperador.

Flavius Anastasius (Flávio Anastácio) nasceu por volta de 430 D.C., em Dirráquio (Dyrrachium, atual Durrës, na Albânia), cidade que, desde 229 A.C.,era um dos mais importante portos romanos no mar Adriático e o ponto de partida da Via Egnatia, uma estrada vital que ia até Constantinopla, passando pela Grécia.

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(Ruínas do Anfiteatro de Dyrrachium, foto de Jed Horne )

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Flávio Anastácio era filho de um certo Pompeius, que seria um nobre de origem ilíria de Dirráquio, e de Anastasia Constantina, que era neta de Gallus e bisneta de Anastasia. Esta, por sua vez, era filha de Flavius Claudius Constantius Gallus, neto do imperador Constâncio Cloro e sobrinho do imperador Constantino, o Grande.

Portanto, Anastácio I seria, por parte de mãe, descendente do fundador da dinastia Constantiniana e parente do fundador do Império Romano do Oriente.

Devido ao fato de um dos seus olhos ser de cor negra e o outro de cor azul, Anastácio recebeu o apelido de “Dicorus” (Duas cores, uma condição que na medicina é conhecida como “heterocromia”.

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Anastácio era uma figura muito conhecida e respeitada em Constantinopla, sendo uma presença assídua nas missas na Catedral de Santa Sofia, onde ele costumava debater assuntos religiosos,  ocasiões em que manifestava opiniões nem sempre ortodoxas. Esse fato, inclusive, granjeou-lhe a antipatia do Patriarca de Constantinopla, Eufêmio.

Por isso, quando Anastácio foi escolhido por Ariadne para ser imperador, com a aprovação do Senado, Eufêmio exigiu que Anastácio assinasse uma declaração de obediência ao credo ortodoxo, como condição para que ele participasse da cerimônia de coroação.

Dias após a cerimônia, que foi descrita em detalhes por Constantino IX Porfirogênito,  Anastácio I Dicoro e Ariadne casaram-se, em 20 de maio de 491 D.C.

Logo no início do seu reinado, Anastácio I teve que enfrentar a insatisfação que a sua escolha causou entre os militares de origem isáuria.

Os Isáurios eram um povo apenas parcialmente romanizado que habitavam as montanhas Taurus, na atual Turquia. Devido a sua índole guerreira, o imperador Leão I aproveitou para criar uma unidade composta de Isáurios, com o objetivo de se livrar da influência dos bárbaros germânicos no Exército e, em consequência, nos assuntos de Estado.

Apesar disso, os Isáurios eram considerados como sendo semi-bárbaros pelos habitantes de Constantinopla, os quais nunca aceitaram placidamente o fato do chefe dos Isáurios, Tarasis Kodisa, ter se tornado o sucessor de Leão I, com o nome de Zenão I.

Assim, quando Zenão I morreu, os militares Isáurios desejavam que ele fosse sucedido por seu irmão, Longinus, e, obviamente,  ficaram muito contrariados quando Anastácio I foi o escolhido pela imperatriz-viúva, Ariadne.

Culpando os Isáurios por um tumulto no Hipódromo, Anastácio exilou Longinus para a Tebaida, no Egito e revogou vários privilégios concedidos aos Isáurios pelo seu antecessor Zenão.

Em 492 D.C, estourou uma revolta na Isáuria (Guerra contra os Isáurios) e Anastácio enviou um exército para sufocá-la, liderados pelos generais João, o Cita e João, o Corcunda, que derrotaram os rebeldes na Batalha de Cotyaeum, na Frígia. Porém, o restante dos revoltosos se entrincheiraria nas montanhas da Isáuria e somente em 498 D.C. os últimos focos desta rebelião seriam debelados.

Em 493 D.C., aproveitando que o Império estava ocupado com o conflito na Isáuria, uma invasão dos Búlgaros derrotou o exército comandado pelo general Juliano. Esses Búlgaros eram remanescentes do Império de Átila, o Huno.

As invasões búlgaras repetiram-se em  499 D.C e em 502 D.C., levando Anastácio a ordenar a construção da chamada Muralha Anastácia, 64 km a oeste de Constantinopla, a fim de melhor proteger a capital.

Mal as Guerra contra os Isáurios e os Búlgaros acabaram, Anastácio teve que enfrentar, entre 502 e 506 D.C., o Império Persa, que capturou as estratégicas cidades de Teodosiópolis (atual Erzurum, na Turquia, uma cidade armênia que foi ocupada pelos romanos em 387 D.C.) e de Amida, na Mesopotâmia.

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(Muralhas romanas de Amida)

Anastácio conseguiu recuperar Amida e uma paz foi assinada, visando manter o status quo na região. Então, para se proteger de futuras incursões, Anastácio ordenou a construção da impressionante Fortaleza de Dara, próxima à cidade de Nísibis, com o objetivo de colocar em cheque todo e qualquer o movimento de tropas inimigas pela região. Com o mesmo objetivo, foi construído também o Castelo de Dirráquio, em sua cidade natal, na Ilíria.

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(Cisternas da fortaleza romana de Dara)

Os assuntos militares não impediram que, desde o início do seu reinado, Anastácio se dedicasse a importantes reformas monetárias, fiscais e administrativas.

Segundo o historiador romano-bizantino João Lídio (um funcionário público que iniciou sua carreira no reinado de Anastácio), a cuidadosa política econômica do imperador e o seu rigor na observância das finanças públicas salvaram o Império Romano, que, a partir da custosa e mal-sucedida expedição de Leão I contra os Vândalos na África, um quarto de século antes, desde então constantemente estivera à beira da ruína.

Em maio de 498 D.C., valendo-se da entrada de recursos que o confisco das propriedades de Zenão I e de seus protegidos Isáurios permitiu, Anastácio aboliu o odiado imposto denominado de Chrysargiron (aparentemente, este era  um imposto sobre a receita bruta dos comerciantes, ou seja, sobre as vendas, e que obviamente, como sempre acontece, devia  acabar sendo repassado para os consumidores).

Essa medida foi entusiasticamente recebida pelos súditos, sendo objeto de comemorações exaltando o Imperador por todo o Império Romano do Oriente.

Também criou-se o cargo de Conde do Patrimônio Privado, para administrar os bens e receitas da Coroa, que passou a fazer contribuições maiores para o Erário Público.

Mas a medida mais significativa nesse campo foi a mudança na forma de pagamento da Annona, um tributo de gêneros em espécie, que era coletado pelos magistrados das cidades, e que, a partir da reforma, passaria a ser pago em moeda (o que foi estabelecido também para outros tributos) e cobrado por um corpo de oficiais chamados de “Vindices“.  Essa mudança foi idealizada por um conselheiro chamado Marinus, um dos auxiliares mais próximos do imperador e que era um comerciante de origem síria.

Anastácio promoveu também mudanças nos critérios para fixação do módulo rural fiscal (jugera), com vistas a dividir melhor o fardo da obrigação de responder pelos tributos devidos pelas propriedades  abandonadas pelas propriedades maiores, isentando as menores).

Tão importante quanto o aumento das receitas, era, para Anastácio, a redução das despesas. De fato, ele se notabilizou por diminuir os gastos da Corte, o que lhe angariou, entre a nobreza de Constantinopla, acostumada com o luxo e o fausto, a fama de avarento.

Finalmente, outra medida positiva do reinado foi a introdução de uma nova moeda de cobre, o follis, que era utilizada principalmente pela população mais pobre para pequenas transações e que estava completamente desmoralizada pela péssima qualidade. E as moedas de ouro, que também tinham sofrido muito durante a crise das últimas décadas, foram revitalizadas e divididas em três tipos, e, de fato, moedas cunhadas durante o reinado de Anastácio seriam encontradas até na China.

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(Semissis de Anastácio I, foto de Classical Numismatic Group, Inc)

No campo religioso, área que, em Constantinopla, ocupava o centro da vida política do Império, Anastácio não obteve tanto sucesso.

Anastácio, apesar do compromisso de fé ortodoxa que ele assinou por exigência do Patriarca  Eufêmio, era Miafisita

Nota: o Miafisismo acredita que na pessoa una de Jesus Cristo,  a Divindade e a Humanidade estão reunidas em uma única ou singular natureza – “physis” – sem separação, sem confusão e sem alteração. E, ainda hoje, essa doutrina é professado em algumas igrejas orientais. A diferença entre o Miafisismo e o Credo Niceno-Ortodoxo é um tanto difícil de perceber para nós, modernos, e não é a toa que, hoje, uma discussão sobre detalhes complicados e pouco relevantes é chamada de “discussão bizantina”…

Assim, quando Anastácio I depôs Eufêmio, após uma controvérsia religiosa envolvendo os patriarcas de Alexandria e Jerusalém, que repudiavam o Concílio de Calcedônia, a população de Constantinopla ocupou o Hipódromo exigindo a restauração do seu Patriarca.

Um tumulto ainda mais sério ocorreu em 498 D.C., novamente no Hipódromo, após a prisão de membros da facção dos Verdes (os espectadores das corridas de cavalos em Roma, e depois, em Constantinopla, se reuniam em 4 facções, Verdes, Vermelhos, Azuis e Brancos, que depois, com o tempo, passaram também a expressar posições políticas e também religiosas).

Nesse episódio, um partidário dos Verdes chegou a arremessar uma pedra contra Anastácio, que escapou por pouco. Durante a repressão levada a cabo pelos soldados dos Excubitores, a turba ateou fogo ao Portão de Bronze do Hipódromo e o fogo se alastrou até o Fórum de Constantino.

Mosaico del circo MCGR 2285 by QuartierLatin1968 - Own work. Licensed under CC BY-SA 3.0 via Commons - httpscommons.wikimedia.orgwikiFileMosaico_del_circo_MCGR_2285.jpg#mediaFileMosaico_

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(Reconstrução virtual do Hipódromo de Constantinopla, © 2010 byzantium1200.com)

Em 499 D.C., Anastácio proibiu os combates de homens contra feras, que ainda sobreviviam como reminiscência dos antigas lutas na arena que os romanos tanto apreciavam. E, em 501 D.C, após um filho ilegítimo seu morrer em um tumulto, ele proibiu o festival pagão das Brytae, no qual as danças, muito apreciadas pelo povo, frequentemente degeneravam em distúrbios.

Até, então, apesar de tudo, Anastácio vinha demonstrando uma considerável neutralidade nas  disputas eclesiásticas, respeitando o seu compromisso e a política conciliatória do “henotikon“, estabelecida por seu antecessor Zenão I, de não adotar expressamente nenhuma das teorias sobre a natureza de Cristo.

Porém, em 511 D.C., quando ele depôs o Patriarca de Calcedônia, substituindo-o por um bispo adepto do Monofisismo (onde Cristo somente teria uma natureza, a divina), iniciou-se uma crise que resultou, no ano seguinte, em uma revolta, onde a multidão adepta da ortodoxia aclamou como imperador o general Aerobindus, casado com Juliana Anicia, neta do falecido imperador romano do Ocidente, Valentiniano III e, portanto, integrante da dinastia Teodosiana.

Anastácio, então, mandou informar ao povo que iria abdicar e compareceu ao Hipódromo, sem a coroa, e, surpreendentemente, com esse gesto inesperado, a multidão acabou se acalmando e se contentou em pedir a punição de alguns ministros.

As inflamadas querelas religiosas, porém, continuaram a afligir o reinado, e elas foram um dos pretextos para uma revolta muito mais séria, comandada pelo general Vitaliano, que comandava uma tropa de soldados federados búlgaros na província da Trácia (O outro motivo foram as queixas dos soldados contra o comandante militar daquela província, Hypathius, que, incapaz de debelar a revolta, fugiu para Constantinopla).

Vitaliano e seu exército rebelde marcharam até os muros de Constantinopla, onde os oficiais de Vitaliano foram recebidos em audiência pelo Imperador e Anastácio conseguiu convencê-los a retornar para a Trácia, sob as promessas de donativos, da demissão de Hypathius e da devida solução para as controvérsias religiosas em favor da ortodoxia calcedônica.

De volta à Trácia, porém, Vitaliano desconfiou do novo comandante que Anastácio enviara para chefiar o exército naquela província, Cirilo, e assassinou o general. Reiniciada a rebelião, Anastácio teve que enviar um grande exército para a Trácia para combater Vitaliano,  a quem o Senado de Constantinopla, seguindo a antiga tradição romana, declarara “Inimigo Público“.

Vitaliano, contudo, em 513 D.C., obteve uma grande vitória contra as tropas do imperador e voltou a ameaçar Constantinopla, agora também com uma frota de 200 navios. Mais uma vez, Anastácio teve que negociar, dando dinheiro a Vitaliano e prometendo  restaurar os bispos adeptos do Concílio de Calcedônia e até mesmo a realização de um novo Concílio.

Como nada foi feito, no final de 515 D.C., Vitaliano voltou a sitiar Constantinopla, porém, desta vez, a sua frota foi destruída, pela utilização de uma arma química que prenunciava o célebre “Fogo Grego de Bizâncio” que seria adotado alguns séculos mais tarde, e o seu exército  foi derrotado pelo exército imperial comandado por Marinus. Em decorrência, Vitaliano fugiu e ficaria desaparecido por três anos.

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A imperatriz Ariadne morreu no mesmo ano de 515 D.C.

Anastácio viveu, como governante indisputado do Império Romano, por mais três anos. Consta que ele, sem conseguir decidir-se sobre qual dos seus três sobrinhos o sucederiam, resolveu esconder uma mensagem embaixo de uma almofada de um dos três sofás que ficavam em uma sala onde ele costumava recebê-los (um tradicional triclínio romano, tudo indica), para que aquele que sentasse na almofada sobre o bilhete fosse o escolhido.

Porém, dois dos sobrinhos teriam sentado em um sofá, o terceiro em outro e o sofá que escondia o bilhete acabou ficando vazio…

Então, assim frustrada a primeira tentativa, Anastácio teria decidido que o novo imperador seria a primeira pessoa que, no dia seguinte, entrasse no aposento. E, na manhã seguinte, Justino, o comandante da guarda imperial dos Excubitores foi o primeiro a entrar naquele cômodo…

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Anastácio não tinha filhos homens, apenas uma filha, Juliana, que mais tarde se casaria com o futuro imperador Justino II. Ele morreu com a avançada idade de 87 anos, em 9 de julho de 518 D.C. 

O escolhido para sucedê-lo foi Justino I, o Comandante dos Excubitores.t

CONCLUSÃO

Como resultado da sua boa administração econômica, quando Anastácio I morreu, havia no Tesouro Imperial 23 milhões de solidi, ou seja, 320 mil libras de ouro. Seu longo reinado de 27 anos e as muitas medidas sensatas que ele adotou foram muito importantes para assegurar a sobrevivência do Império e prepararam o terreno para o renascimento do poder imperial no reinado de Justiniano I, filho de seu sucessor.

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LUCANO

Em 30 de abril de 65 D.C., morreu, em Roma, o poeta Lucano.

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Nascido em 3 de novembro de 39 D.C., em Corduba (atual Córdoba, na Espanha), na província romana da Hispania Betica, Marcus Annaeus Lucanus era sobrinho do grande filósofo estoico Sêneca, o Jovem, que foi o seu tutor, e neto do retórico, orador e escritor Sêneca, o Velho.

A família de Lucano fazia parte da classe Equestre (2º nível da nobreza romana) e vários dos seus membros se destacaram nas artes literárias.

Assim, Lucano estudou retórica em Atenas e aprendeu filosofia com seu tio,Sêneca.

Durante o reinado de Nero, Lucano se destacou e ficou amigo íntimo do imperador, que era muito afeito à arte em geral. Nero, inclusive, chegou a nomear o poeta para o cargo de Questor, apesar de Lucano ainda não ter a idade mínima exigida para exercer aquela magistratura.

Em 60 D.C, Lucano recebeu um prêmio por declamar os poemas Orpheus e Laudes Neronis, nos jogos quinquenais comemorativos do 5º ano do reinado de Nero. Foi nessa época que Lucano publicou o primeiro dos três livros de seu poema épico Pharsalia ou De Bello Civili, contando a estória da guerra civil entre Júlio César e Pompeu. A esposa de Lucano, Polla Argentaria teria ajudado Lucano a escrever este poema.

A grandeza precipita-se sobre si mesma: esse limite foi imposto pelos deuses ao crescer da prosperidade“.

Contudo, provavelmente devido a inveja que Nero, segundo o relato de Tácito, costumava sentir do talento de vários artistas, ou, de acordo com Suetônio, pelo desinteresse que o imperador passou a demonstrar pela obras do poeta, Lucano e Nero se afastaram. Lucano então escreveu alguns poemas ofensivos a Nero e a publicação de suas obras foi proibida.

De fato, Lucano teria escrito um poema, chamado “De Incendio Urbis” (Do Incêndio da Cidade), descrevendo como “as indescritíveis chamas do criminoso tirano vagaram pelas colinas de Remo“, em uma óbvia alusão aos rumores de que Nero teria sido o responsável pelo grande incêndio de Roma, ocorrido em 64 D.C.

Entretanto, em 65 D.C., Lucano seria implicado na chamada Conspiração Pisoniana, uma trama para derrubar Nero liderada pelo senador Caio Calpúrnio Pisão. Quanto a informação chegou ao imperador, este mandou que o poeta se suicidasse, provavelmente como condição para que a sua esposa (não sabemos se ele tinha filhos) fosse poupada. Consta que Lucano, na esperança de obter perdão, teria incriminado outras pessoas, incluindo a sua mãe, o que para muitos estudiosos parece duvidoso, já que ela não foi condenada.

Lucano então, cortou as próprias veias e entrou em uma banheira de água quente, para acelerar a hemorragia. Enquanto sangrava na banheira, Lucano, segundo Tácito, começou a recitar uns versos que, tempos atrás, ele havia composto sobre a morte de um soldado ferido, sendo essas as suas últimas palavras. Lucano tinha apenas 25 anos de idade.

Uma cena semelhante à que foi imortalizada no filme “Quo Vadis“, onde o personagem “Petronius” tem as veias cortadas e morre lentamente em uma banheira, para salvar os seus entes queridos da punição de Nero.

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Sabemos que Polla Argentaria sobreviveu ao marido, pois o poeta Estácio, no dia do aniversário de Lucano, escreveu um poema em sua homenagem, dedicando-o à viúva do poeta, já no reinado de Domiciano (81-96 D.C.).

Lucano escreveu pelo menos quinze obras conhecidas, mas somente o épico Farsália sobreviveu até os nossos dias.

MARCO AURÉLIO – O IMPERADOR-FILÓSOFO

Em 26 de abril de 121 D.C., nasceu, em Roma, Marcus Annius Verus (Marco Aurélio), filho de Marcus Annius Verus (III) e Domitia Lucilla, a Jovem.

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Por parte de pai, Marco Aurélio era integrante de uma distinta família da classe senatorial, originária da Hispânia, mais especificamente da cidade de Ucubi, próximo à Corduba (Córdoba), uma região que enriquecera graças à plantação de oliveiras e produção de azeite. O seu bisavô, também chamado Marcus Annius Verus (I), chegou até a ser Pretor e Senador, mas a família ascendeu mesmo a partir da chegada de seu conterrâneo Adriano ao trono, em companhia de outras famílias aristocráticas daquela província, que, em sua grande maioria tinham parentesco, consanguíneo ou por afinidade, com Adriano e também com o seu antecessor, Trajano.

Em suas raízes ancestrais, acredita-se que a família de Marco Aurélio fosse um ramo da originalmente plebeia gens Annia, de Setia (atual Sezze), no Lácio, cidade fundada pelo povo itálico dos Volscos  e que se tornou colônia de Roma em 382 A.C. Os Ânios  devem ter chegado ao Senado no final do século III A.C. e, no século seguinte, alguns de seus membros conseguiram ser eleitos Cônsules, a mais alta magistratura da República Romana.

O avô de Marco Aurélio, igualmente de nome Marcus Annius Verus (II), foi nomeado Cônsul Suffectus (isto é, substituto ou extraordinário) para o ano de 97 D.C., ainda durante o reinado de Trajano. Este Annius Verus era amigo pessoal do imperador Adriano e, graças a isso, ele foi nomeado Prefeito de Roma e, por duas vezes, Cônsul ordinário, nos anos de 121 e 126 D.C.

Já  a mãe de Marco Aurélio, Domitia Lucilla, era filha de Publius Domitius Calvisius Tullus Ruso e de Domitia Lucilla, a Velha, esta, por sua vez, filha adotiva de Lucius Catilius Severus, que foi Cônsul nos reinados de Trajano (110 D.C.) e Adriano (120 D.C.).

Domitia Lucilla era uma mulher riquíssima, que herdou de sua mãe um grande complexo de olarias e fábricas de tijolos nas cercanias de Roma, as quais forneceram boa parte dos tijolos para a construção de grandes monumentos tais como o Coliseu, o Mercado de Trajano e o Pantheon.

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(um dos tijolos da fábrica dos Domitii, como diz a estampa)

Marcus Annius Verus (III) e Domitia Lucilla, a Jovem também tiveram, por volta de 122 D.C, uma filha, que recebeu o nome de Annia Cornificia Faustina.

Quando Marco Aurélio tinha apenas três anos, o pai dele morreu e ele passou ao pátrio poder do seu avô, que passou a criá-lo. Não obstante, apesar de pouco ter convivido com o  pai, anos mais tarde, em sua obra “Meditações“, Marco Aurélio escreveria que foi através das memórias e da reputação paterna que ele aprendeu a ter “modéstia e hombridade“.

Igualmente, no que se refere à mãe, Domitia Lucilla, Marco Aurélio menciona que ela lhe ensinou a ter “devoção religiosa e simplicidade na dieta” e a “evitar as manias dos ricos“.

Efetivamente, Marco Aurélio nasceu em um ambiente de afluente riqueza, crescendo na elegante casa de seus pais, no Monte Célio, bairro aristocrático de Roma coalhado de mansões. Em seus escritos, ele se refere carinhosamente ao bairro como “Meu Célio“.

Caelian_Hill foto de Roundtheworld(Panorama do Monte Célio, em Roma)

Ao avô, Marco Aurélio também se mostra agradecido, por ele lhe ter ensinado “a ter bom caráter e evitar o mau gênio

Como todo bom jovem aristocrata romano, a educação básica de  Marco Aurélio, dos sete aos onze anos, ficou a cargo de tutores, sabendo-se que dois deles se chamavam Euphoric e Geminus.

Com doze anos, a educação de Marco Aurélio passou para dois grammatici, e ele também foi introduzido ao estudo de ciências e artes, sob a responsabilidade de Andros, um professor de geometria e música, e de Diognetus, um mestre de pintura e professor de filosofia. Este último teve grande influência sobre Marco Aurélio, ensinando-o a pensar filosoficamente, a não acreditar em superstições ou dar atenção exagerada aos esportes de luta. Influenciado pelas lições de Diognetus, que parece ter sido estoico, Marco Aurélio adotou, ainda adolescente, o costume de se vestir como um filósofo grego e até o de dormir no chão, para o desespero de sua mãe.

Deram continuidade à educação de Marco Aurélio os tutores Alexandre de Cotiaeum, Trosius Aper e Tuticius Proculus, os dois últimos, professores de latim. Vale citar que Alexandre era o maior especialista romano em Homero e, segundo o próprio Marco Aurélio, ele o ensinou a dar ênfase ao conteúdo sobre o estilo.

Com apenas seis anos de idade, Marco Aurélio foi incluído na Ordem Equestre, o segundo nível da nobreza romana, por ordem do imperador Adriano. Segundo as fontes, este imperador sempre simpatizou com Marco Aurélio, e assegurou ao menino a participação em vários postos prestigiosos para a juventude aristocrática romana, como o colégio de sacerdotes juvenis dos “Sálios”.

De fato, Adriano costumava chamar Marco Aurélio de “Verissimus“, fazendo uma brincadeira com o nome do menino (que, então, ainda se chamava “Marcus Annius Verus”), palavra que significa “muito verdadeiro” e “confiabilíssimo”.

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Depois de ficar um longo período afastado de Roma, viajando, Adriano retornou à Cidade em 135 D.C. Porém, no ano seguinte, ele ficou muito doente e, após uma crise de hemorragia, achando que ia morrer, consciente do fato que não tinha filhos, Adriano adotou como herdeiro Lucius Ceionus Commodus, que passou a se chamar Lucius Aelius Caesar.

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(Busto de Lucius Aelius Caesar, foto de Jastrow)

Naquele mesmo ano de 136 D.C., Marco Aurélio assumiu a “toga virilis“, veste que simbolizava a sua chegada à idade adulta. Como prova da estima e do favor que o rapaz gozava junto ao imperador, Adriano arranjou o casamento de Marco Aurélio com Ceionia Fabia, filha de Lucius Ceionus Commodus (Lucius Aelius Caesar), o herdeiro imperial.

Contudo, em 1º de janeiro de 138 D.C., Lucius Aelius Ceasar morreu subitamente de hemorragia (é bem possível que estivesse grassando alguma febre hemorrágica na região).

Necessitando de um novo herdeiro, Adriano, no dia 24 do mesmo mês, escolheu oficialmente Titus Aurelius Fulvus Boionius Arrius Antoninus (Antonino Pio) como seu sucessor, com a condição de que este, por sua vez, adotasse Marco Aurélio e Lúcio Vero (filho de Lucius Aelius Caesar), como seus herdeiros. Em virtude dessa adoção por Antonino, Marco Aurélio passou a se chamar Marcus Aelius Aurelius Verus.

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(Busto de Antonino Pio)

Note-se que Antonino era casado com Annia Galeria Faustina (Faustina, a Velha), tia de Marco Aurélio, que era sobrinha da imperatriz Vibia Sabina, esposa de Adriano.

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(Busto de Faustina, a Velha)

Em 10 de julho de 138 D.C., Adriano faleceu em Baiae, um balneário chique na costa da Campânia, após uma prolongada agonia. A sua sucessão foi tranquila e Antonino assumiu imediatamente o trono, mantendo os principais magistrados e auxiliares de Adriano nos cargos, e tranquilizando o Senado Romano de que os seus privilégios seriam respeitados.

A privilegiada posição na Corte Imperial do jovem Marco Aurélio, que naquele momento tinha apenas 17 anos, foi reafirmada pelo fato da Antonino ter pedido que ele rompesse o compromisso com Ceionia Fabia e se comprometesse a casar-se com a filha dele, Annia Galeria Faustina Minor (Faustina, a Jovem), o que foi prontamente aceito.

Faustine_la_Jeune_01(Busto de Faustina, a Jovem)

No início do pacífico e estável reinado de Antonino Pio, Marco Aurélio continuou seu aprimoramento intelectual tornando-se aluno de Marco Cornélio Frontão, um famoso gramático, retórico e advogado, que se tornaria um de seus amigos mais íntimos e era considerado um dos maiores oradores romanos. A correspondência entre Marco Aurélio e Frontão foi preservada e é muito útil para demonstrar a evolução do pensamento do primeiro e o ambiente no círculo imperial.

Marco Aurélio também estudou com Herodes Ático, um influente e riquíssimo aristocrata ateniense, que também era um reconhecido filósofo sofista e foi convidado por Antonino para residir em Roma, com o propósito específico de ser professor dos herdeiros Marco Aurélio e Lúcio Vero. Outro importante integrante do círculo de professores de Marco Aurélio foi o filósofo grego Apolônio de Calcedônia, com quem ele se aprofundou no estudo do Estoicismo.

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(Busto de Herodes Ático)

O treinamento público de Marco Aurélio para suceder Antonino começou assim que este assumiu o trono. De fato, ainda com 18 anos de idade, o jovem herdeiro passou a participar das reuniões do Conselho Imperial. Assim, em 140 D.C, Marco Aurélio, foi nomeado Cônsul pela primeira vez, e, novamente, em 145 D.C.

Neste mesmo ano, ele se casou com Faustina, a Jovem. Curiosamente, como Marco Aurélio era filho adotivo de Antonino, tratava-se, legalmente, de uma união incestuosa com a sua irmã. Assim, foi preciso que Antonino revogasse expressamente o seu pátrio poder sobre o noivo, para que o casamento pudesse se realizar.

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(O jovem Marco Aurélio, em uniforme de general)

Vale citar que o casamento de Marco Aurélio e Faustina, a Jovem seria um dos mais prolíficos, senão o mais fértil, dentre todos os casamentos imperiais da História de Roma. Eles teriam treze filhos, nascidos no decorrer de vinte e três anos! A primeira filha, Antonina Faustina, nasceu em  30 de novembro de 147 D.C. Contudo, a maioria dessa prole morreria na infância, de doenças variadas. Porém, em 31 de agosto de 161 D.C., durante os primeiros meses do futuro reinado de Antonino, nasceu Lucius Aurelius Commodus (Cômodo), que sucederia o pai no trono.

Embora Lúcio Vero também estivesse recebendo educação esmerada, tudo indica que Antonino considerava Marco Aurélio a opção preferencial para ser o sucessor dele, ou talvez, um “herdeiro-sênior”. Com efeito, em 146 D.C., Marco Aurélio recebeu o “Poder Tribunício” e o “Imperium Proconsular“, atributos que somente o Imperador podia deter.

Em 160 D.C., ficou claro que a saúde de Antonino Pio, aos 70 anos de idade, estava ruim. Neste  mesmo ano, Marco Aurélio e Lúcio Vero foram nomeados Cônsules.

No ano seguinte, em 07 de março de 161 D.C, em sua propriedade familiar situada em Lorium, na Etrúria, Antonino Pio convocou o Conselho Imperial e comunicou-lhes que entregava o Império e sua filha a Marco Aurélio. Horas depois, o imperador faleceu.

Novamente, a sucessão foi pacífica. Notavelmente, Marco Aurélio, ao receber todos os títulos, poderes e honrarias imperiais, solicitou ao Senado que Lúcio Vero, respeitando a vontade de Adriano, também deveria ser aclamado Imperador, o que foi obedecido.

Marco Aurélio manteve o costume de dar um donativo à Guarda Pretoriana, quando da ascensão de um novo imperador. Porém, a gratificação foi o dobro do que tinha sido dado em ocasiões anteriores, já que formalmente eram dois os príncipes que ascenderam ao trono.

Todavia, embora a Guarda tenha se mantido fiel durante o seu longo reinado, no futuro, a ganância dos Guardas em assegurar novos donativos seria causa de inúmeros assassinatos de imperadores. Assim, se por um lado podemos conjecturar  que Marco Aurélio tenha sido sábio em agradar a Guarda e assegurar a fidelidade dos soldados, por outro lado não é absurdo pensar que ele pode, impensadamente, ter estimulado futuras e reiteradas conspirações deles.

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(Busto de Lúcio Vero)

Logo no início do seu reinado, Marco Aurélio teve que desvalorizar o denário, reduzindo o percentual de prata na moeda. Não se sabe o motivo exato, mas é possível isso tenha sido causado pela necessidade de fazer frente aos crescentes gastos com campanhas militares.

Com efeito, desde o princípio, o reinado de Marco Aurélio seria afligido pela necessidade de travar guerras quase contínuas nas fronteiras, e, em pouco tempo, por uma terrível peste.

Os antigos acreditavam que os Deuses se divertiam com as agruras humanas e, depois de vinte anos de reinado calmo e pacífico de Antonino Pio, agora o Império Romano seria governado por um imperador adepto do Estoicismo, corrente filosófica que acreditava que a virtude era a única fonte de felicidade e que, por isso,  o homem-sábio deveria suportar as adversidades e tentar fazer aquilo que era o seu dever. E isso foi justamente o que Marco Aurélio nunca deixou de fazer enquanto imperador.

Ainda durante os últimos dias do reinado de Antonino Pio, o rei Vologeses IV, da Pártia, havia invadido a Armênia, que então era um reino-cliente de Roma, depondo o monarca e instalando no trono um aliado seu, Pacorus, no que constituía um evidente ato de hostilidade ao Império Romano. O governador da Síria, Severianus pensou que podia conter sozinho a ameaça e invadiu a Armênia, mas ele acabou sendo derrotado e morto pelo exército Parta, que dizimou a IX Legião Hispana. Naquela ocasião, Marco Aurélio já tinha assumido o trono.

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(Este grafito de um catafracto, um cavaleiro couraçado, o principal elemento das tropas do Império Parta, foi encontrado na cidade de Dura-Europos)

Diante da seriedade da ameaça, Marco Aurélio resolveu mandar seu colega Lúcio Vero em pessoa para assumir nominalmente o comando do Exército Romano na região, bem como dos reforços que foram enviados para a província ameaçada. Observe-se que, embora Lúcio Vero não tivesse qualquer experiência militar, a sua presença em Antióquia, que seria o quartel-general das operações, era uma afirmação imperial da importância da campanha.

Assim, Lúcio Vero, que, diga-se de passagem, durante a guerra pareceu mais preocupado em desfrutar os prazeres de Antióquia, estava assessorado pelos melhores generais de Roma, incluindo Avídio Cássio e Marco Cláudio Frontão.

Então, Marco Cláudio Frontão, comandando a  Legião I Minervia, em conjunto com a Legião V Macedonica, comandada por Públio Mátio Vero, conseguiu tomar a capital armênia, Artabata, em 163 D.C, e destronar Pacorus, reinstalando o aristocrata romano Gaius Julius Soahemus, um membro da elite senatorial romana, que tinha origem armênia e parta e também era membro da dinastia arsácida, no trono.

A capital da Armênia foi transferida, em 164 D.C., para a cidade de Kaine Polis, a apenas 50 km da fronteira romana. Em consequência, Lúcio Vero e Marco Aurélio foram saudados pelas tropas como Imperatores, o primeiro recebendo o título de “Armeniacus“.

Os Partas, enquanto isso, intervieram em Osroene, outro reino-cliente de Roma, na Alta Mesopotâmia, onde também instalaram outro aliado, mas o Exército Romano da Síria, reforçado por legiões do Danúbio, conseguiu igualmente expulsa-los, entre 164 D.C. e 165 D.C., capturando a capital de Osroene, a cidade de Edessa.

Os romanos começaram, em seguida, os preparativos para a invasão da Mesopotâmia, o coração do Império Parta.

Avançando pela Mesopotâmia, durante o ano de 165 D.C, os Romanos impuseram várias derrotas aos Partas, que recuaram para a estratégica cidade de Nisibis, que, no entanto, foi sitiada e capturada pelo Império Romano, na posse de quem ficaria durante várias décadas. Enquanto isso, a outra ala do Exército Romano, comandada por Avídio Cássio, infligiu outra derrota aos Partas na cidade de Dura-Europos.

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(Panorama da cidade de Dura-Europos, conquistada pelos Romanos)

No final do ano de 165 D.C., o exército de Avídio Cássio avançou pela Mesopotâmia e sitiou as cidades de Seleucia e Ctesifonte, a capital do Império Parta, que ficavam nas margens opostas do rio Tigre. Seleucia, cuja população era em grande parte de origem grega, abriu as portas para os Romanos, o que não os impediu de saqueá-la, para indignação de muitos contemporâneos . Já Ctesifonte foi tomada após um cerco, após o qual foi queimado o  palácio real dos Partas. Pela segunda vez, Lúcio Vero e Marco Aurélio foram saudados como Imperatores, e o primeiro recebeu o título de “Parthicus“.

A campanha prosseguiu e o exército romano invadiu a parte nordeste do Império Parta, com a invasão da Média e, por esse motivo, no ano seguinte, houve nova aclamação dos dois imperadores, tendo Lúcio Vero sido agraciado com o título de “Medicus“.

Todavia, a grande vitória obtida por Marco Aurélio Lúcio Vero no Oriente teria um imprevisível e terrível custo: As tropas romanas contraíram, segundo as fontes, na cidade de Seleucia, a chamada “Peste Antonina” (moléstia provavelmente originária da China e que hoje acredita-se ter sido uma epidemia de varíola ou de sarampo), trazendo a doença para o seio do Império Romano.

Em decorrência da Peste Antonina, que, acredita-se, tinha uma taxa de mortalidade de 25%, estima-se que 5 milhões de romanos morreram, sendo que, em alguns lugares, metade da população pereceu. E dentre os infectados estaria o próprio Lúcio Vero, que, no fim do ano de 168 D.C, teria contraído a doença, morrendo em 23 de janeiro de 169 D.C.

Mas outra campanha sangrenta, e muito mais prolongada, iniciou-se quando a guerra contra os Partas ainda não havia sequer se encerrado:

Já em 162 D.C., bárbaros germânicos das tribos dos Chauci e dos Catos tentaram invadir as províncias da Rétia e da Germânia Superior, sendo repelidos.

No final do ano de 166 D.C. e no início do ano seguinte, invasores Lombardos (lungobardi) cruzaram o Danúbio e invadiram a província da Panônia, mas também foram contidos por destacamentos da Legião I Adiutrix. Então, o governador da Panônia tentou negociar uma trégua com os representantes de onze tribos germânicas. Porém, naquele mesmo ano, os Vândalos, que faziam a sua primeira aparição na História Romana, e que ficariam célebres quase três séculos mais tarde, junto com os Iáziges, invadiram a província da Dácia e mataram o governador romano.

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A repentina pressão militar dos bárbaros germânicos nas fronteiras romanas, relativamente pacificadas, tinha como motivo uma onda migratória vinda do Báltico e da região do Vístula, quando os  belicosos Godos começaram a migrar para o sudeste da Europa, empurrando os povos daquela região em direção à fronteira romana do Reno/Danúbio.

O fato é que somente com o fim da campanha contra o Império Parta, Marco Aurélio e Lúcio Vero tiveram condições de organizar uma resposta compatível com a ameaça germânica, e, em 167 D.C, os romanos, com duas novas legiões formadas para a campanha, a Legião II Italica e a Legião III Italica, realizaram uma expedição punitiva na Panônia.

Entretanto, os bárbaros germânicos não paravam de chegar e, entre 167 e 168 D.C., um grande número de Marcomanos (literalmente, os “homens da fronteira”, na língua germânica), chefiados pelo líder Ballomar, acompanhados da tribo dos Quados, cruzaram o Danúbio, derrotaram um exército de 20 mil romanos em Carnuntum, e, rapidamente, chegaram ao norte da Itália, destruindo a cidade de Opitergium e sitiando a importante cidade de Aquileia.

Essa invasão foi um choque para os Romanos. Era a primeira vez, desde a incursão dos bárbaros Cimbros e Teutões, no final do século II A.C. (que, a muito custo, foram derrotados por Caio Mário,  em 101 A.C.), que a Itália era invadida por inimigos estrangeiros.

Nota: Os Marcomanos inicialmente viviam próximo à fronteira do Reno. Porém, com a expansão romana para a Gália e para a própria Germânia, a partir da época de Júlio César e, especialmente, depois da reação romana ao Desastre de Varo, no reinado de Tibério, aquele povo migrou para a região do Danúbio.  Então, no período dos Antoninos (Nerva – Marco Aurélio), começou a se verificar entre os Marcomanos, bem como em outros povos germânicos, o fenômeno da formação de confederações de tribos, com o consequente aumento do tamanho das forças militares e de sua efetividade contra as forças romanas.

Prosseguindo a narrativa, agora fazia-se necessária uma grande mobilização de tropas, que, contudo, seria dificultada pela falta de recrutas decorrente da Peste Antonina, que também grassava no exército, e a persistente necessidade de conter os Partas no Oriente.

Mas, enquanto pessoalmente liderava a resposta aos Marcomanos e Quados, junto com Lúcio Vero, Marco Aurélio teve que voltar para Roma para tratar do funeral do colega que, como vimos, morreu em janeiro de 169 D.C, provavelmente da Peste.

Já no outono de 169 D.C.,  Marco Aurélio, acompanhado de seu genro, Tibério Cláudio Pompeiano, retornou para a região do Danúbio para enfrentar os bárbaros Iáziges, uma tribo sármata, de origem iraniana, os quais haviam derrotado e matado o general Marco Cláudio Frontão, o herói da Guerra contra os Partas.

Entrementes, os Costoboci, um povo das montanhas dos Cárpatos, que viviam nas fronteiras da Dácia, também cruzaram a extensa fronteira do Danúbio e invadiram a província romana da Trácia, chegando até Eleusis, próximo a Atenas, onde destruíram o afamado templo dos Mistérios Eleusinos.

Assim, entre 170 e 171 D.C, todos os esforços de Marco Aurélio concentraram-se em expulsar os Marcomanos do território romano. Ele determinou a criação da Prefeitura da Itália e dos Alpes, com o objetivo de melhorar a defesa das passagens alpinas para a Itália e reforçou a frota fluvial do Danúbio. As tropas foram comandadas por Pompeiano e por Pertinace (que, muitos anos mais tarde seria imperador).

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Começaram então os preparativos para uma grande ofensiva contra os Marcomanos, que, inclusive, compreendeu a formação de alianças com outras tribos germânicas, como foi o caso dos Vândalos.

Em 172 D.C, os Romanos cruzaram o Danúbio e atacaram os Marcomanos em seu próprio território. No espaço de um ano os bárbaros foram subjugados e Marco Aurélio recebeu o titulo “Germanicus“.  Esta campanha está retratada nos relevos da famosa Coluna de Marco Aurélio. erguida em comemoração da vitória no Campo de Marte, em Roma.

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(Os soldados romanos cruzando o Danúbio sobre uma ponte de barcos, como retratado na Coluna de Marco Aurélio)

No ano de  173 D.C, o Exército Romano se voltou contra os Quados, que tinham apoiado os Marcomanos. Foi nesta campanha que ocorreu o chamado “milagre da chuva”, também retratado na Coluna de Marco Aurélio, ocasião em que as tropas romanas, cercadas pelos Quados em uma posição sem acesso à água, na época da seca, estavam passando muita sede, mas acabaram sendo salvas por uma súbita chuvarada.

O fato é que somente no final do ano seguinte os Quados seriam subjugados.

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(O “milagre da chuva”, retratado na Coluna de Marco Aurélio – a chuva aparece na forma de uma divindade antropomórfica)

Naquele mesmo ano de 173 D.C.,, Dídio Juliano, o comandante militar na Germânia que, bem mais tarde, também seria imperador, derrotou uma invasão dos Catos e Hermunduri na fronteira do Reno.

Ainda m 174 D.C, chegou a vez dos Iáziges, uma tribo sármata, experimentarem a vingança romana. Após uma campanha vitoriosa, os bárbaros assinaram um tratado de paz no ano seguinte, devolvendo os prisioneiros romanos e concordando em fornecer um contingente de oito mil cavaleiros para o Exército Romano, dos quais 5.500 foram assentados na Britânia. Por isso, Marco Aurélio recebeu o título de “Sarmaticus

Nota: Esse contingente de cavalaria sármata utilizava como estandarte uma cabeça de dragão estilizada, presa numa espécie de biruta de pano, chamada de “draconarius“. Segundo uma tese, esta seria a origem do sobrenome Pendragon, do lendário rei britânico Arthur, que muitos estudiosos defendem que teria sido na verdade um chefe militar romano que resistiu às invasões dos Anglos e Saxões, no século V D.C.

Aproveitando o sucesso da reação romana, parece que Marco Aurélio planejava instituir duas novas províncias romanas na região, que se chamariam “Marcomannia” e “Sarmatia“, após a derrota final dos bárbaros. E, de fato, ele vinha sendo bem sucedido na estratégia de isolar e derrotar as tribos uma a uma, não ostante tal estratégia demandasse mais tempo e consumisse mais recursos.

De qualquer modo, os planos de Marco Aurélio foram por água baixo quando chegou a notícia de que o general Avídio Cássio , comandante do  Exército Romano no Oriente havia se autodeclarado imperador , em maio de 175 D.C.

Avídio Cássio foi incentivado a tentar usurpar o trono quando ele recebeu a falsa notícia de que Marco Aurélio teria morrido de doença na campanha do Danúbio. Aliás, tudo indica que este boato foi aceito como verídico em boa parte do Império e Avídio Cássio, inicialmente,  recebeu o apoio das províncias orientais e do Egito. Há até uma versão de que Cássio teria sido incentivado a se rebelar pela própria imperatriz Faustina, que também havia acreditado no boato e temia pela sorte de seu filho Cômodo, que não havia completado 14 anos e portanto ainda não era legalmente adulto.

Marco Aurélio, que ao tomar ciência da rebelião estava acompanhado de Cômodo, a quem estava começando a introduzir nos assuntos de Estado, teve que abandonar a campanha contra os germânicos e rumar para o Leste.

Entretanto, a notícia de que o imperador estava vivo chegou primeiro às províncias orientais, e foi o próprio exército de Avídio Cássio que espontaneamente executou o seu comandante, com as tropas preferindo não embarcar em uma aventura incerta contra um imperador de tanto prestígio.

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(Cabeça de Cômodo adolescente)

O Imperador aproveitou a estadia no Oriente para visitar Atenas, onde ele e Cômodo se iniciaram nos Mistérios Eleusinos, Depois, Marco Aurélio visitou o Egito e voltou para Roma para celebrar seu muito merecido Triunfo, em 23 de dezembro de 176 D.C., na companhia do filho, ocasião em que, provavelmente, a Coluna de Marco Aurélio foi dedicada.

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Os problemas na fronteira do Danúbio, contudo, ainda não tinham sido completamente resolvidos e, em 177 D.CMarco Aurélio teve que retornar à região.

Ao contrário do que é retratado em filmes como “Gladiador” e “A Queda do Império Romano“, Marco Aurélio sempre pretendeu que Cômodo, o seu único filho homem sobrevivente, herdasse o trono. Ainda em 166 D.C., Cômodo havia recebido o titulo de “César’, que segundo os costumes imperiais significava algo próximo a “príncipe-herdeiro”.

Em 177 D.C., para não restar nenhuma dúvida a quem quer que fosse, sobretudo após a rebelião de Avídio Cássio, Marco Aurélio deu a Cômodo o título de “Augusto”, tornando-o, de direito, Co-Imperador. Seria apenas a segunda vez, na História do Império Romano, que um filho natural sucederia ao pai no trono imperial, tendo sido Tito o primeiro.

Durante o ano de 178 D.C.,  o Exército Romano obteve diversas vitórias no Danúbio e o ano de 179 D.C. parece ter sido dedicado a uma grande preparação para uma ofensiva decisiva contra os bárbaros da região.

Infelizmente, em 17 de março de 180 D.C., aos 58 anos de idade, Marco Aurélio faleceu, provavelmente de uma enfermidade relacionada à Peste Antonina, na cidade de Vindobona (atual Viena, na Áustria). Ele passara os últimos 10 anos lutando contra os Marcomanos, Quados e outros bárbaros na fronteira do Danúbio.

Mesmo admitindo-se que tenha sido providenciado a Marco Aurélio todo o conforto a que um imperador romano fazia jus, ninguém discute que ter passado esse tempo todo afastado de Roma, na fria, inóspita e distante província da Panônia, foi uma prova de dedicação e amor ao dever impressionante para um homem cuja aptidão maior sempre tinha sido a filosofia e a literatura (Não é a toa que a representação mais famosa de Marco Aurélio, a sua soberba estátua equestre originalmente dourada, hoje guardada no Museu Capitolino, em Roma, mostre o imperador em trajes civis).

Não obstante, na Coluna de Marco Aurélio, o imperador é retratado recebendo a submissão de bárbaros derrotados ou observando suas cabeças decepadas.. Certamente, Marco Aurélio deve ter se valido dos ensinamentos estoicos para suportar cenas tão díspares do seu jeito afável de ser.

Para Marco Aurélio, antes de tudo vinha o dever.

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Foi durante o período em que ele liderou a Guerra contra os Marcomanos que Marco Aurélio escreveu, em grego, a sua obra mais famosa, as “Meditações“,  em 12 livros, enquanto residia em Aquincum (cidade romana fortificada, no perímetro urbano da atual Budapeste, Hungria) e Carnuntum, local de uma fortaleza romana, na atual Áustria. Esse clima é, de fato,  muito bem retratado nos filmes “Gladiador” e “A Queda do Império Romano“.

O nome da obra foi dado posteriormente, sendo que o melhor título, segundo o que se depreende do que Marco Aurélio escreveu nos seus cadernos, seria “Pensamentos para mim mesmo“.

A linha mestra que conduziu as Meditações, segundo o próprio Marco Aurélio, foi a ideia de que a pessoa “tem o poder de se despir de vários problemas superficiais localizados inteiramente na mente dela e de possuir um grande espaço para ela mesma abraçar em pensamento todo o Cosmos, de levar em consideração a eternidade, de pensar nas rápidas mudanças nas partes de cada coisa e de quão pouco tempo há do nascimento até a morte, e de como o vazio que existe antes do nascimento e depois da morte é igualmente infinito“.

Cássio Dião,  que, juntamente com a História Augusta e as cartas de Frontão, é a melhor fonte sobre o reinado de Marco Aurélio, ao terminar o seu texto sobre este imperador, escreveu:

Marcus não encontrou a boa sorte que ele merecia, pois ele  não era dotado de um físico vigoroso e se viu envolvido em um turbilhão de problemas durante praticamente todo o seu reinado. Mas, na parte que me toca, eu o admiro ainda mais por essa razão, já que, em meio a dificuldades incomuns e extraordinárias, ele conseguiu sobreviver e preservar o Império. Somente uma coisa o impediu de ser completamente feliz, nomeadamente, que, após cuidar e educar o seu filho da melhor forma possível, ele tenha se decepcionado tanto com ele. Esse assunto será nosso próximo tópico; pois agora nossa História desce de um reinado de ouro para um de ferro e ferrugem, como as coisas se tornariam para os Romanos daqueles dias.

Com efeito, das poucas críticas que os historiadores antigos e modernos fizeram a Marco Aurélio, encontra-se a escolha de Cômodo como sucessor. Porém eu entendo a crítica como injusta. Não há muitos indícios de que Cômodo, antes de assumir o trono, tenha dado demonstrações de que ele fosse incapaz para governar. Aos 18 anos, o mais provável é que Marco Aurélio esperasse que bons conselheiros e professores dessem ao rapaz a orientação necessária para ser um bom imperador e um bom homem, como tinha ocorrido com ele próprio, Marco Aurélio.

Escolher uma outra pessoa, como por exemplo, um general capaz como Tibério Cláudio Pompeiano, que, aliás, foi a maior inspiração para o personagem fictício Maximus Decimus Meridius, do filme “Gladiador” (leia nosso artigo sobre o filme, onde traçamos uma detalhada biografia de Pompeiano), no lugar de Cômodo, além de significar, na prática, condenar o próprio filho à morte, significaria, caso este não fosse executado pelo sucessor, uma perpétua fonte de potenciais guerras civis, enfraquecendo ainda mais o Império em um momento crucial.

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Infelizmente, Cômodo realmente mostrou-se não ser o governante talhado para a situação corrente do Império Romano. Com efeito, assim que o pai morreu, ele negociou uma paz com as tribos do Danúbio e voltou às pressas para Roma, onde ele celebrou um imerecido Triunfo, em outubro de 180 D.C. Cômodo negligenciaria os assuntos militares e a política externa durante todo o seu reinado e isso contribuiria, décadas mais tarde, para as catástrofes que se abateriam sobre o Império, no século III D.C.

A outra crítica foi feita pelos historiadores cristãos, que denunciaram as perseguições ocorridas no reinado de Marco Aurélio. Quanto a isso, não parece ter havido mudança na política seguida pelo Império com relação ao Cristianismo. O que pode ter havido é o aumento de processos e prisões em virtude do aumento do número de cristãos. O Estado Romano intervinha nessas questões muito por demanda dos cidadãos espalhados pelas cidades. A principal preocupação era a manutenção da ordem, que, de quando em quando era afetada pelos conflitos entre as autoridades locais e os cristãos, entre estes e outras religiões ou entre os próprios cristãos. Como normalmente não participavam dos cultos públicos ligados à Roma e ao Imperador, as autoridades romanas normalmente tomavam partido contra os cristãos. E no reinado de Marco Aurélio não foi diferente.

É instigante verificar que os problemas enfrentados por Marco Aurélio foram muito semelhantes aos que se abateriam sobre o Império Romano durante a “Crise do Século III“, sendo o principal deles a guerra em dois fronts, contra germanos e partas/persas. Há vários indícios de que ambos os antagonistas, ocidentais e orientais, tenham se tornado mais temíveis 50 anos após o reinado dele: Godos, Alamanos, Saxões, etc.,  seriam mais numerosos e militarmente capazes do que Marcomanos e Quados, o mesmo aplicando-se aos Persas Sassânidas, mais coesos, treinados e determinados que os Partas.

Fosse Marco Aurelio imperador no século III será que ele teria conseguido conter essa ameaça? É difícil afirmar.

E se Cômodo tivesse seguido o exemplo do pai e tivesse concluído a campanha no Danúbio, será que isso teria contribuído para evitar ou atenuar a Crise do Século III? São questões que merecem nossa reflexão. Logicamente, prever as migrações germânicas estava fora do alcance dos romanos e Marco Aurélio experimentou apenas o inicio dessa avalanche. Mas, certamente, a chegada de novas tribos não importava na eliminação total daquelas já estacionadas na fronteira e, segundo algumas evidências, com a passagem do tempo ocorria a fusão delas ou, ainda, a absorção de umas pelas outras. Então, se os Romanos tivessem mantido o controle da região e assimilado ou exterminado Marcomanos e Quados naquele momento, isto poderia ter mudado a correlação de forças no futuro, quando os Godos chegassem, podemos conjecturar. Haveria, neste caso, algumas décadas para que ocorresse uma “romanização” daquelas tribos.

Seja como for, o retrato de Marco Aurélio que sobreviveu para a posteridade foi a de um genuíno imperador-filósofo, como preconizado por Platão, no livro VI da “República“.

FIM

FELIZ ANIVERSÁRIO, ROMA!

21 de abril de 753 A.C. é a data lendária da fundação de Roma por Rômulo, que, segundo o mito, traçou o sulco que delimitava o perímetro da cidade.

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Instalada entre sete colinas facilmente defensáveis, situada estrategicamente no meio da península italiana, banhada pelo rio Tibre, que permitia acesso ao mar sem estar perto demais da costa, fazendo-a vulnerável a ataques de piratas ou invasores, Roma prosperou.

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A data mítica parecia confirmada pelas escavações no Monte Palatino, inclusive com o achado das fundações de cabanas circulares, datadas do século VIII A.C. Porém, achados recentes parecem indicar que a ocupação do local recua ainda mais, para cerca de 900 A.C. Alguns estudiosos também sustentam que a toponímia indicaria que Roma teria sido um povoado de origem etrusca, e não uma aldeia latina que foi dominada por algum tempo pelos etruscos, o que contraria a versão mais aceita de que Roma foi uma aldeia latina que os etruscos conquistaram e dominaram por um período.

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O fato é que desde o início, como nos mostra a semilendária estória do Rapto das Sabinas, os romanos demonstraram notável capacidade de absorver e aglutinar os diversos povos itálicos e sua cultura..

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Após ser saqueada pelos gauleses em 390 A.C, Roma iniciou uma notável expansão, incialmente pela Itália, depois pela orla do Mediterrâneo e, finalmente, adentrando o norte da Europa, levando a civilização helenística a lugares até então a ela alheios, como as ilhas Britânicas, a margem oriental do rio Reno e a margem setentrional do rio Danúbio.

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Somente após 800 anos de acumulação de incomensuráveis riquezas, a Cidade Eterna foi saqueada novamente, em 410 D.C.

Começava , então, a Roma dos Césares a se reinventar como a Roma dos Papas.

Roma, então, já havia deixado de ser uma cidade para se converter no cerne da civilização ocidental, e, ainda, em um ideal de uma civilização universal, Urbi et Orbi.

FELIX DIES NATALIS!

MASADA – A FORTALEZA QUE NUNCA SE RENDEU

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Em 16 de abril de 73 D.C. (ou de 74 D.C, segundo alguns estudiosos), os legionários da X Legião Fretensis, após três meses de um difícil cerco, conseguiram penetrar nas muralhas da Fortaleza de Masada, no Deserto da Judéia.

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Masada era o  último foco de resistência da Grande Revolta Judaica contra a dominação romana, iniciada em 66 D.C., sendo controlada por um grupo de rebeldes chamados Sicários.

Dentre as várias facções que compunham o movimento nacionalista dos judeus, a mais fanática era a dos Sicários  e eles conseguiram tomar a Fortaleza de Masada, situada em um platô que ficava em cima de um escarpado monte de cerca de 400 metros de altura. Noventa anos antes, o local tinha sido transformado pelo rei Herodes, o Grande, em um luxuoso palácio fortificado, entre 37 e 31 A.C.

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*Reconstituição do palácio de Herodes, em Masada)

Após a queda de Jerusalém, em função do grande cerco comandado pelo futuro imperador Tito, em 70 D.C., que resultou na destruição do Segundo Templo, também erigido por Herodes, restavam alguns poucos focos de resistência na Judéia, sendo o mais importante deles a Fortaleza de Masada, controlada pelos Sicários.

Os Sicários provavelmente eram um subgrupo ou uma facção extremista dos nacionalistas judeus Zelotes, que haviam liderado a revolta contra os romanos. O nome do grupo deriva da palavra “sicae“, que significa “adaga” – a arma característica do grupo, a qual era escondida sob as vestes deles para cometer assassinatos políticos. Assim, os Sicários podem ser considerados precursores da seita dos hashshin islâmicos (de onde deriva a palavra “assassino”) e, mais remotamente, de organizações de resistência judaica modernas, como a Irgun e a Haganah, que lutavam pela criação do Estado de Israel.

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Quando a X Legião Fretensis chegou a Masada, reforçada por algumas unidades auxiliares e prisoneiros judeus, totalizando 15 mil homens, o número de Sicários e de suas famílias entrincheirados na Fortaleza era de 960 pessoas.

Os romanos eram comandados pelo general  Lucius Flavius Silva (Flávio Silva), comandante da X Legião e governador da Judéia, que ordenou que todo o perímetro fosse cercado por uma circunvalação (fosso), para evitar que os revoltosos conseguissem abastecimento ou fugissem.  Em vários pontos, foram construídos acampamentos de legionários os quais, juntamente com o fosso, sobreviveram até os nossos dias (vide foto abaixo).

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Porém, não havia como a tropa toda subir a montanha pelos estreitos e sinuosos caminhos que levavam até o topo, ainda mais levando máquinas de assédio. Por isso, Flávio Silva ordenou a construção de uma impressionante rampa, feita de pedras e terra batida(que também ainda existe – cf. na foto abaixo). Quando a rampa ficou pronta, os legionários começaram a subir, empurrando uma enorme torre de assédio munida de um poderoso aríete.

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Finalmente, quando chegaram até as muralhas no topo, os Romanos não tiveram muita dificuldade em abrir uma brecha e os soldados invadiram o interior da cidadela.

Para a surpresa dos Romanos, que esperavam que se repetisse o tipo de resistência encarniçada que eles enfrentaram no Cerco a Jerusalém e a outras cidades judaicas, ao atravessarem as muralhas de Masada eles não encontraram nenhum rebelde,  mas apenas a fumaça e o fogo de várias construções incendiadas pelos revoltosos, tudo em completo e inquietante silêncio…

Os romanos, intrigados, gritaram exortações para que os rebeldes se rendessem, as quais ecoaram pelo platô deserto, até que 2 mulheres e cinco crianças apareceram. Interrogadas, as mulheres disseram que o pequeno grupo era tudo o que restava dos rebeldes.

Mas a explicação dada pelas mulheres para o acontecido parecia absurda demais e os romanos, com todo o cuidado necessário de quem esperava alguma armadilha, adentraram o Palácio situado na outra extremidade do platô.

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Quando o portão foi transposto, já no átrio, os Romanos depararam-se com uma cena macabra, que confirmava o relato das mulheres: centenas de corpos ensanguentados jaziam sem vida:  a conclusão era óbvia – os Sicários tinham se matado uns aos outros.

Segundo o relato do historiador Flávio Josefo, ele mesmo originalmente um participante da Grande Revolta Judaica que durante a revolta aderiu aos romanos, os Sicários, na noite anterior, fizeram um pacto pelo suicídio coletivo como ato de derradeira resistência aos Romanos.

Como a religião judaica repudia o suicídio, os Sicários resolveram então sortear dez companheiros para que executassem todo o resto, e, feito isso, os outros, divididos em grupos de dois, se matariam, até que restasse somente um, que seria o único suicida.

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(Os cacos de cerâmica, costumeiramente utilizados na Antiguidade para fazer sorteios, inscritos com os nomes dos Sicários, enconrados em Masada pela arqueólogo israelense Ygael Yadin)

Flávio Josefo, em sua obra, “A Guerra dos Judeus“, transcreve o último discurso do líder dos Sicários, Eleazar ben Ya’ir, antes do dramático desfecho, que teria sido contado aos romanos por uma das mulheres sobreviventes:

Desde que nós, há muito tempo atrás, resolvemos jamais sermos escravos dos Romanos, e nem de quaisquer outros,  a não ser do próprio Deus, quem, somente ele, é o verdadeiro e justo Senhor da humanidade, chegou o momento que nos obriga a transformar aquela decisão em verdade prática. Nós fomos os primeiros que se revoltaram e somos os últimos a lutar contra eles; e eu não posso senão apreciar isto como um favor que Deus nos concedeu: o de que ainda podemos morrer bravamente e na condição de homens livres.

Hoje, Masada é um dos pontos turísticos mais visitados de Israel e palco de cerimônias anuais, sendo considerada parte importante do sentimento de identidade  nacional israelense.

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BATALHA DE POLLENTIA

Em 6 de abril de 402 D.C, em Pollentia, próximo à atual Asti, no norte da Itália, o exército visigodo do rei Alarico celebrava o domingo de Páscoa. Os Visigodos eram cristãos que professavam a “heresia” ariana,  e, por conta disso, eles fizeram uma pausa na luta contra o exército romano do general Stilicho (Estilicão), para festejar o dia santo, e, certamente, acreditaram que os romanos fariam o mesmo…

Os Godos vinham sendo um espinho na carne do Império desde 378 D.C, quando, em uma das maiores catástrofes militares sofridas pelos romanos, um exército de cerca de 20 mil Godos, liderados pelo Chefe Fritigern, de um total de 200 mil que tinham cruzado o Danúbio e se refugiado no Império Romano do Oriente, entrincheiraram-se próximo à cidade de Adrianópolis e derrotaram o exército romano comandado pelo imperador Valente, matando cerca de 40 mil soldados romanos, na chamada Batalha de Adrianópolis, incluindo o próprio imperador.

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A horda goda vagou pela Trácia e outras províncias orientais causando muito estrago, mas acabou sendo contida pelo imperador Teodósio I, que com eles celebrou um tratado de paz, em 382 D.C. Pela primeira vez, na História de Roma, um povo bárbaro inteiro foi admitido como foederati (aliados) dentro das fronteiras do Império Romano. Embora os Visigodos estivessem formalmente obrigados a prestar serviço militar à Roma, eles podiam fazê-lo sob o comando de seus próprios chefes. Os Godos, então, receberam autorização para se assentar na província da Mésia.

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Teodósio, dessa forma, conseguira o seu objetivo de conter a ameaça goda, pois, durante o resto do seu reinado, os Godos respeitaram o tratado. Assim, quando, no final de seu reinado, em 394 D.C, na Batalha do Rio Frígido, Teodósio teve que combater o usurpador Eugênio, que havia sido colocado no trono como fantoche pelo general de origem franca Arbogaste, vinte mil visigodos combateram ao lado de Teodósio, e foram eles quem suportaram o maior castigo.

As derrotas militares sofridas na Pérsia, em 363 D.C, e nos confrontos com os Godos em Adrianópolis, em 378 D.C e no período logo a seguir, tinham destroçado boa parte do efetivo militar romano, e Teodósio preferiu, ou foi forçado pelas circunstâncias, a recrutar bárbaros para completar as fileiras desfalcadas do Exército.

Entretanto, logo após a Batalha do Rio Frígido, Teodósio morreu, deixando como sucessores, seus filhos Honório, na metade ocidental do Império, cuja capital era Milão, e Arcádio, na metade oriental, cuja capital era Constantinopla.

Os dois novos imperadores eram ainda crianças, e assim, Honório teve como tutor e virtual regente do Império do Ocidente o vencedor na Batalha do Rio Frígido, o general Flávio Estilicão, filho de pai Vândalo e de mãe romana; já Arcádio, seria tutelado pelo ministro Rufino.

Com a morte de Teodósio, os Visigodos sentiram-se estimulados a exigir grandes recompensas pelo sacrifício que tinham feito no Rio Frígido. Seu rei agora era o astuto e competente Alarico, que ambicionava nada menos do que o cargo de Magister Militum per Illyricum, ou seja, marechal do exército da Ilíria, o que obteve após devastar a província da Grécia.

Alarico aproveitou o cargo, que lhe dava acesso aos arsenais romanos, para equipar o seu exército e saquear até a exaustão, durante cerca de cinco anos, as províncias da Dácia e da Macedônia.

Procurando novas regiões que oferecessem a perspectiva de mais e polpudos saques, mas, considerando que a capital do Oriente, Constantinopla, era inexpugnável para os bárbaros, Alarico voltou sua atenção para o Ocidente e dirigiu-se para a capital Milão.

A corte de Honório, julgando Milão vulnerável, resolveu se mudar para Arles, na Gália, contudo Alarico mandou ocupar os passos alpinos com sua cavalaria e ao mesmo tempo cercou Milão, obrigando Honório a se refugiar na cidade fortificada de Hasta (a moderna Asti, na Liguria).

Fazendo um movimento que denotava que ele visava capturar o próprio imperador, Alarico partiu para sitiar Hasta, iniciando o cerco em fevereiro de 402 D.C. Porém, mesmo após  terem se equipado com armas romanas, os visigodos ainda não dominavam a arte da guerra de sítio e Honório tinha uma boa expectativa de que os bárbaros suspenderiam o cerco devido à fome ou doenças.

O general Estilicão, enquanto isso, estava ocupado com a luta contra incursões bárbaras dos Vândalos e dos Alanos nas fronteiras da província da Récia. Quando a notícia do cerco chegou ao seu conhecimento, Estilicão conseguiu reunir tropas romanas do Reno e da Britânia e também recrutou os próprios guerreiros alanos e vândalos que ele estava combatendo, para vir em socorro do Imperador.

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Assim, quando Estilicão e seus homens chegaram, os Visigodos foram forçados a recuar para Pollentia (Polenza),

Estilicão chegou a Pollentia no dia 06 de abril e hesitou em lutar no domingo de páscoa, um dia sagrado para os soldados cristãos. Porém os homens, especialmente os aliados alanos, queriam lutar imediatamente e Estilicão resolveu aproveitar o élan deles para fazer um ataque da cavalaria alana sobre os desatentos visigodos.

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O ataque foi repelido, mas Estilicão acudiu com a infantaria e os Alanos se reanimaram. Na confusão, os Visigodos acabaram deixando o seu acampamento exposto e Estilicão conseguiu capturar a esposa de Alarico e seus filhos. Todavia, as indisciplinadas e barbarizadas tropas que agora constituíam agora o exército romano, ao invés de perseguirem os Visigodos, entregaram-se a pilhagem do acampamento inimigo, que estava repleto do produto dos saques que aqueles bárbaros haviam feito desde Adrianópolis, mais de 20 anos antes.

Após a Batalha de Pollentia, Alarico reagrupou suas forças e recuou para Verona, onde, em junho de 402 D.C, seria novamente derrotado, porém, mais uma vez, Estilicão falharia em destruir o rei visigodo e seu exército. Ele seria criticado duramente pelos historiadores por ter deixado Alarico escapar e, em vista disso, até a sua lealdade ao Império Romano seria questionada, o que parece duvidoso considerando toda a sua trajetória. Ele, por exemplo, não resistiu quando, anos mais tarde, foi preso em um motim fomentado por seus adversários na Corte e aceitou resignadamente a sua sentença de morte, executada em 22 de agosto de 408 D.C.

A principal consequência dos eventos narrados foi a mudança da capital do Império Romano do Ocidente de Milão para Ravenna, fato que facilitaria o posterior saque de Roma, em 410 D.C, por Alarico e seus visigodos. Essa mudança, segundo muitos historiadores, foi uma decisão errada, pois ocorreu em detrimento da defesa da fronteira do Reno, o que expôs a Gália, a maior e mais rica província do Ocidente, a mais ataques dos bárbaros. Para Arther Ferril (“A Queda do Império Romano, a Explicação Militar”), naquele momento, para o Império Romano do Ocidente o mais importante estrategicamente era a defesa da Gália, o que recomendaria até a instalação da capital em Arles).

TERMINÁLIA

No dia 23 de fevereiro, o último dia do ano no calendário romano primitivo, celebrava-se o festival em honra do deus Terminus (Término), a divindade que zelava pelas fronteiras e pelos limites das propriedades particulares e, naturalmente, pela harmonia entre os vizinhos.

Ao contrário da maior parte dos deuses do panteão romano, Término não era representado por estátuas antropofórmicas, e sim pelos marcos de pedras que marcavam os limites dos terrenos. Alguns séculos mais tarde, ele passou a ser representado por uma cabeça humana com corpo em forma de marco de limites.

Grey2, Public domain, via Wikimedia Commons

Essas pedras eram ungidas solenemente e adornadas com coroas de flores e encravadas em um buraco, o qual também tinha sido consagrado com o sangue de um animal sacrificado, e onde se colocavam vinho e outras oferendas.

Então, todo dia 23 de fevereiro, os vizinhos cujas propriedades eram delimitadas por Término encontravam-se e sacrificavam um porco ou um cordeiro, cujo sangue era utilizado para salpicar os marcos de limites.

SARosser1954, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Em Roma, a Terminália, que era como se chamava o festival público em homenagem a Término, tinha como local de celebração o sexto marco da estrada para Laurentum, cidade próxima à Óstia, que nos primórdios da fundação da Cidade, marcava o seu limite.

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Marco miliário romano