OVÍDIO – O POETA SEDUTOR

#Ovídio

Em 20 de março de 43 A.C, nasce, na cidade de Sulmo (atual Sulmona, na região de Abruzzo, Itália), Publius Ovidius Naso (Ovídio), no seio de uma próspera família da classe Equestre.

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(Estátua de Ovídio, em Sulmona)

O pai de Ovídio queria que ele seguisse a carreira jurídica, o que lhe poderia abrir as portas para importantes cargos públicos. Por isso, Ovídio foi para Roma estudar Retórica com o famoso orador Aurellius Fuscus, que, dentre outros, foi professor de Plínio, o Velho.  Mas, como ele nos conta em seu poema que seria escrito no exílio, “Tristeza” (Tristia), desde jovem o que lhe encantava mesmo era fazer versos (Deixo aqui o link para a tradução, em inglês, do poema, no livro em que Ovídio conta a sua biografia, vide https://www.poetryintranslation.com/PITBR/Latin/OvidTristiaBkFour.php)

Após a morte do seu irmão, que tinha apenas 20 anos de idade, o abalado Ovídio viajou para Atenas e algumas cidades gregas da Ásia Menor, passando algum tempo também em uma região italiana de cultura grega, a Sicília, em um périplo comum aos jovens romanos que pretendiam fazer uma espécie de pós-graduação em Retórica e Oratória.

De volta a Roma, Ovídio chegou a exercer cargos de juiz nos tribunais de Centúnviros e Decênviros, que julgavam causas cíveis e criminais. Assim, em tese, Ovídio tinha abertas diante de si a possibilidade de, no futuro, aspirar entrar no Cursus Honorum, que dava acesso às magistraturas maiores, tais como Edil, Questor, Pretor e Cônsul.

Todavia, por volta do ano de 23 A.C., Ovídio decidiu largar a magistratura e se dedicar à poesia, decisão que, evidentemente, deve ter desagradado muito o seu pai. Por essa época, ele já tinha feito sua primeira récita em público e ingressado no círculo literário patrocinado por Marcus Valerius Messalla Corvinus, um general e aristocrata ilustre, que foi Cônsul Suffectus no ano de 31 A.C. Isso permitiu a Ovídio conhecer e fazer amizade com os poetas  Propércio e Horácio, este já consagrado como um dos maiores poetas latinos e patrocinado por Mecenas.

O estilo poético que Ovídio escolheu foi a Elegia, caracterizada por hexâmetros seguidos por pentâmetros, mas com um toque de paródia do estilo convencional de outros poetas.

Sua primeira série de poesias conhecidas foram “os Amores“, poemas dedicados ao amor, dedicados a uma namorada, Corinna (que não é o nome verdadeiro dela) com inspiração erótica, como por exemplo, na Elegia I, 5:

Calor intenso, já passara o meio-dia;
Deitei-me ao leito, os membros repousando.
Em parte aberta, em parte cerrada a janela;
Luz como a que costumam ter os bosques,
qual reluz o crepúsculo, ausente já Febo,
quando a noite foge e o dia hesita.
Tal luz é a que convém às moças tímidas,
nela o pudor espera achar abrigo.
Eis que Corina vem, com a túnica entreaberta,
em desalinho a cabeleira sobre a nuca…

 

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A série de poemas chamada “A Arte de Amar” (Ars Amatoria) continha instruções de como encontrar, conquistar e manter um amor, tanto para os homens como para as mulheres, uma espécie de manual, sarcástico, irônico e cheio de alusões ao ato sexual, mas sem ser jamais pornográfico.

Entre os conselhos de Ovídio aos amantes do sexo masculino, destacam-se:

não esquecer o aniversário dela“, “deixá-la com saudade de você, mas não por muito tempo“, e “jamais perguntar a idade dela“. Lições, como se vê, ainda bem atuais…Já às mulheres, Ovídio aconselha: “maquiar-se, mas nunca na presença dele” e “experimentar os amantes jovens e os maduros“. Ele assim introduz o livro contendo os conselhos para o público feminino: “Eu acabei de armar os Gregos contra as Amazonas, agora, Pentesiléia (Obs: rainha das Amazonas), resta-me  armar-te contra os Gregos“.

 Logo no início, Ovídio dá algumas instruções para se escolher uma amante  bonita:

“Nós frequentemente perdemos a cabeça por uma linda garota em um jantar. Sem dúvida, Juntar amor e vinho é  como colocar combustível na fogueira. Não avalie uma mulher à luz dos candelabros, é enganoso! Se você realmente quiser saber qual a aparência dela, olhe-a de dia e quando estiver sóbrio! Foi ao ar livre, e durante um dia claro, que Páris viu as três deusas e disse para Vênus: “você é mais bonita do que suas duas rivais”. A noite cobre um sem-número de defeitos e imperfeições. À noite, não há mulher feia! Quando você quer ver pedras preciosas ou roupas coloridas, você as leva para a luz do sol, e é de dia que você deve julgar o rosto e a aparência de uma mulher“.

 Depois, o Poeta nos ensina a conservá-la:

Então, quem quer que você seja, não ponha muita confiança no enganoso charme da formosura. Cuide de possuir algo mais do que mera beleza física. O que funciona espantosamente com as mulheres é um jeito insinuante. Brusquidão e palavras rudes só promovem desaprovação. Nós odiamos o falcão porque ele passa a sua vida brigando; e nós odiamos o lobo que se lança sobre os tímidos rebanhos, mas o Homem não captura a andorinha porque ela é mansa e atura o pombo fazer sua casa nas torres que ele construiu. Longe toda discórdia e amargura na fala. Palavras suaves são o alimento do amor. É pelas discussões que a mulher estranha o marido e o marido a sua esposa. Eles imaginam que agindo dessa forma , eles estão pagando um ao outro em sua própria moeda.  Deixe isso para os casados. Brigas são o dote que os casados dão um ao outro. Mas uma amante deve ouvir apenas palavras agradáveis. Não foram as Leis que colocaram vocês na cama. A SUA lei, a LEI para você e para ela, é o Amor. Nunca a aborde senão com carinhos suaves e palavras que acariciem o ouvido dela, de modo que ela sempre se alegre com a sua chegada.

As festejadas “Metamorfoses” estão contidas em 15 livros e são um épico sobre o tema das transformações da mitologia greco-romana, da Criação à deificação de Júlio César.

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Outras obras do poeta são as “Cartas das Heroínas“, os “Remédios para o Amor” e “Calendários” e uma tragédia, Medéia, que infelizmente não chegou até os nossos dias, mas que foi muito apreciada na Antiguidade.

Nos “Remédios para o Amor“, Ovídio escreveu esse verso, em resposta aos seus críticos:

Exploda, Inveja voraz: o meu nome já é bem conhecido; E será ainda mais, se meus pés viajarem pela estrada que eles iniciaram; Mas você está muito apressada – se eu viver, você ficará mais do que arrependida: Muitos poemas, de fato, estão se formando na minha mente.”

Em 8 D.C.,  o imperador Augusto determinou que Ovídio fosse exilado para a longínqua cidade de Tomis, que os romanos recém tinham conquistado do reino trácio dos Odrísios. A cidade ficava onde hoje é a cidade de Constança, na Romênia.

 

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(Ruínas de Tomis, foto de Postoiu Roxana )

 

O motivo real do exílio de Ovídio não é conhecido, embora ele mencione que foi devido a um “carmen” (poema) e a um “error” (deslize ou engano), na sua obra “Tristeza” (Tristis), escrita em Tomis.

 

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Muitos estudiosos acreditam que a poesia de Ovídio estava em choque com a política moralizante de Augusto, que estabelecia penas severas para o crime de adultério.

Porém esses poemas foram escritos bem antes do seu banimento. Sabe-se, entretanto, que Júlia, a Jovem, neta de Augusto, foi exilada por  trair o seu marido com o senador Décimo Júnio Silano, também em 8 D.C, o  mesmo ano do exílio de Ovídio. O marido de Júlia foi executado por envolvimento em uma conspiração contra Augusto, em data indeterminada, mas que pode ter sido também em 8 D.C.. É possível que o poeta ou sua obra tenha de alguma forma se relacionado com este incidente, não sabemos.

No poema Tristeza, Ovídio lamenta o exílio distante, extravasando sua saudade da esposa e da pátria, e apela ao senso de justiça do imperador, sem sucesso. Ele morreria em Tomis, já no reinado do sucessor de Augusto, Tibério, em 17 ou 18 D.C., com aproximadamente 60 anos de idade. Ele teve uma filha que lhe deu dois netos.

 

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