LUCANO

Em 30 de abril de 65 D.C., morreu, em Roma, o poeta Lucano.

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Nascido em 3 de novembro de 39 D.C., em Corduba (atual Córdoba, na Espanha), na província romana da Hispania Betica, Marcus Annaeus Lucanus era sobrinho do grande filósofo estoico Sêneca, o Jovem, que foi o seu tutor, e neto do retórico, orador e escritor Sêneca, o Velho.

A família de Lucano fazia parte da classe Equestre (2º nível da nobreza romana) e vários dos seus membros se destacaram nas artes literárias.

Assim, Lucano estudou retórica em Atenas e aprendeu filosofia com seu tio,Sêneca.

Durante o reinado de Nero, Lucano se destacou e ficou amigo íntimo do imperador, que era muito afeito à arte em geral. Nero, inclusive, chegou a nomear o poeta para o cargo de Questor, apesar de Lucano ainda não ter a idade mínima exigida para exercer aquela magistratura.

Em 60 D.C, Lucano recebeu um prêmio por declamar os poemas Orpheus e Laudes Neronis, nos jogos quinquenais comemorativos do 5º ano do reinado de Nero. Foi nessa época que Lucano publicou o primeiro dos três livros de seu poema épico Pharsalia ou De Bello Civili, contando a estória da guerra civil entre Júlio César e Pompeu. A esposa de Lucano, Polla Argentaria teria ajudado Lucano a escrever este poema.

“A grandeza precipita-se sobre si mesma: esse limite foi imposto pelos deuses ao crescer da prosperidade“.

Contudo, provavelmente devido a inveja que Nero, segundo o relato de Tácito, costumava sentir do talento de vários artistas, ou, de acordo com Suetônio, pelo desinteresse que o imperador passou a demonstrar pela obras do poeta, Lucano e Nero se afastaram. Lucano então escreveu alguns poemas ofensivos a Nero e a publicação de suas obras foi proibida.

De fato, Lucano teria escrito um poema, chamado “De Incendio Urbis” (Do Incêndio da Cidade), descrevendo como “as indescritíveis chamas do criminoso tirano vagaram pelas colinas de Remo“, em uma óbvia alusão aos rumores de que Nero teria sido o responsável pelo grande incêndio de Roma, ocorrido em 64 D.C.

Entretanto, em 65 D.C., Lucano seria implicado na chamada Conspiração Pisoniana, uma trama para derrubar Nero liderada pelo senador Caio Calpúrnio Pisão. Quanto a informação chegou ao imperador, este mandou que o poeta se suicidasse, provavelmente como condição para que a sua esposa (não sabemos se ele tinha filhos) fosse poupada. Consta que Lucano, na esperança de obter perdão, teria incriminado outras pessoas, incluindo a sua mãe, o que para muitos estudiosos parece duvidoso, já que ela não foi condenada.

Lucano então, cortou as próprias veias e entrou em uma banheira de água quente, para acelerar a hemorragia. Enquanto sangrava na banheira, Lucano, segundo Tácito, começou a recitar uns versos que, tempos atrás, ele havia composto sobre a morte de um soldado ferido, sendo essas as suas últimas palavras. Lucano tinha apenas 25 anos de idade.

Uma cena semelhante à que foi imortalizada no filme “Quo Vadis“, onde o personagem “Petronius” tem as veias cortadas e morre lentamente em uma banheira, para salvar os seus entes queridos da punição de Nero.

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Sabemos que Polla Argentaria sobreviveu ao marido, pois o poeta Estácio, no dia do aniversário de Lucano, escreveu um poema em sua homenagem, dedicando-o à viúva do poeta, já no reinado de Domiciano (81-96 D.C.).

Lucano escreveu pelo menos quinze obras conhecidas, mas somente o épico Farsália sobreviveu até os nossos dias.

MARCO AURÉLIO – O IMPERADOR-FILÓSOFO

Em 26 de abril de 121 D.C., nasceu, em Roma, Marcus Annius Verus (Marco Aurélio), filho de Marcus Annius Verus (III) e Domitia Lucilla, a Jovem.

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Por parte de pai, Marco Aurélio era integrante de uma distinta família da classe senatorial, originária da Hispânia, mais especificamente da cidade de Ucubi, próximo à Corduba (Córdoba), uma região que enriquecera graças à plantação de oliveiras e produção de azeite. O seu bisavô, também chamado Marcus Annius Verus (I), chegou até a ser Pretor e Senador, mas a família ascendeu mesmo a partir da chegada de seu conterrâneo Adriano ao trono, em companhia de outras famílias aristocráticas daquela província, que, em sua grande maioria tinham parentesco, consanguíneo ou por afinidade, com Adriano e também com o seu antecessor, Trajano.

Em suas raízes ancestrais, acredita-se que a família de Marco Aurélio fosse um ramo da originalmente plebeia gens Annia, de Setia (atual Sezze), no Lácio, cidade fundada pelo povo itálico dos Volscos  e que se tornou colônia de Roma em 382 A.C. Os Ânios  devem ter chegado ao Senado no final do século III A.C. e, no século seguinte, alguns de seus membros conseguiram ser eleitos Cônsules, a mais alta magistratura da República Romana.

O avô de Marco Aurélio, igualmente de nome Marcus Annius Verus (II), foi nomeado Cônsul Suffectus (isto é, substituto ou extraordinário) para o ano de 97 D.C., ainda durante o reinado de Trajano. Este Annius Verus era amigo pessoal do imperador Adriano e, graças a isso, ele foi nomeado Prefeito de Roma e, por duas vezes, Cônsul ordinário, nos anos de 121 e 126 D.C.

Já  a mãe de Marco Aurélio, Domitia Lucilla, era filha de Publius Domitius Calvisius Tullus Ruso e de Domitia Lucilla, a Velha, esta, por sua vez, filha adotiva de Lucius Catilius Severus, que foi Cônsul nos reinados de Trajano (110 D.C.) e Adriano (120 D.C.).

Domitia Lucilla era uma mulher riquíssima, que herdou de sua mãe um grande complexo de olarias e fábricas de tijolos nas cercanias de Roma, as quais forneceram boa parte dos tijolos para a construção de grandes monumentos tais como o Coliseu, o Mercado de Trajano e o Pantheon.

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(um dos tijolos da fábrica dos Domitii, como diz a estampa)

Marcus Annius Verus (III) e Domitia Lucilla, a Jovem também tiveram, por volta de 122 D.C, uma filha, que recebeu o nome de Annia Cornificia Faustina.

Quando Marco Aurélio tinha apenas três anos, o pai dele morreu e ele passou ao pátrio poder do seu avô, que passou a criá-lo. Não obstante, apesar de pouco ter convivido com o  pai, anos mais tarde, em sua obra “Meditações“, Marco Aurélio escreveria que foi através das memórias e da reputação paterna que ele aprendeu a ter “modéstia e hombridade“.

Igualmente, no que se refere à mãe, Domitia Lucilla, Marco Aurélio menciona que ela lhe ensinou a ter “devoção religiosa e simplicidade na dieta” e a “evitar as manias dos ricos“.

Efetivamente, Marco Aurélio nasceu em um ambiente de afluente riqueza, crescendo na elegante casa de seus pais, no Monte Célio, bairro aristocrático de Roma coalhado de mansões. Em seus escritos, ele se refere carinhosamente ao bairro como “Meu Célio“.

Caelian_Hill foto de Roundtheworld(Panorama do Monte Célio, em Roma)

Ao avô, Marco Aurélio também se mostra agradecido, por ele lhe ter ensinado “a ter bom caráter e evitar o mau gênio“

Como todo bom jovem aristocrata romano, a educação básica de  Marco Aurélio, dos sete aos onze anos, ficou a cargo de tutores, sabendo-se que dois deles se chamavam Euphoric e Geminus.

Com doze anos, a educação de Marco Aurélio passou para dois grammatici, e ele também foi introduzido ao estudo de ciências e artes, sob a responsabilidade de Andros, um professor de geometria e música, e de Diognetus, um mestre de pintura e professor de filosofia. Este último teve grande influência sobre Marco Aurélio, ensinando-o a pensar filosoficamente, a não acreditar em superstições ou dar atenção exagerada aos esportes de luta. Influenciado pelas lições de Diognetus, que parece ter sido estoico, Marco Aurélio adotou, ainda adolescente, o costume de se vestir como um filósofo grego e até o de dormir no chão, para o desespero de sua mãe.

Deram continuidade à educação de Marco Aurélio os tutores Alexandre de Cotiaeum, Trosius Aper e Tuticius Proculus, os dois últimos, professores de latim. Vale citar que Alexandre era o maior especialista romano em Homero e, segundo o próprio Marco Aurélio, ele o ensinou a dar ênfase ao conteúdo sobre o estilo.

Com apenas seis anos de idade, Marco Aurélio foi incluído na Ordem Equestre, o segundo nível da nobreza romana, por ordem do imperador Adriano. Segundo as fontes, este imperador sempre simpatizou com Marco Aurélio, e assegurou ao menino a participação em vários postos prestigiosos para a juventude aristocrática romana, como o colégio de sacerdotes juvenis dos “Sálios”.

De fato, Adriano costumava chamar Marco Aurélio de “Verissimus“, fazendo uma brincadeira com o nome do menino (que, então, ainda se chamava “Marcus Annius Verus”), palavra que significa “muito verdadeiro” e “confiabilíssimo”.

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Depois de ficar um longo período afastado de Roma, viajando, Adriano retornou à Cidade em 135 D.C. Porém, no ano seguinte, ele ficou muito doente e, após uma crise de hemorragia, achando que ia morrer, consciente do fato que não tinha filhos, Adriano adotou como herdeiro Lucius Ceionus Commodus, que passou a se chamar Lucius Aelius Caesar.

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(Busto de Lucius Aelius Caesar, foto de Jastrow)

Naquele mesmo ano de 136 D.C., Marco Aurélio assumiu a “toga virilis“, veste que simbolizava a sua chegada à idade adulta. Como prova da estima e do favor que o rapaz gozava junto ao imperador, Adriano arranjou o casamento de Marco Aurélio com Ceionia Fabia, filha de Lucius Ceionus Commodus (Lucius Aelius Caesar), o herdeiro imperial.

Contudo, em 1º de janeiro de 138 D.C., Lucius Aelius Ceasar morreu subitamente de hemorragia (é bem possível que estivesse grassando alguma febre hemorrágica na região).

Necessitando de um novo herdeiro, Adriano, no dia 24 do mesmo mês, escolheu oficialmente Titus Aurelius Fulvus Boionius Arrius Antoninus (Antonino Pio) como seu sucessor, com a condição de que este, por sua vez, adotasse Marco Aurélio e Lúcio Vero (filho de Lucius Aelius Caesar), como seus herdeiros. Em virtude dessa adoção por Antonino, Marco Aurélio passou a se chamar Marcus Aelius Aurelius Verus.

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(Busto de Antonino Pio)

Note-se que Antonino era casado com Annia Galeria Faustina (Faustina, a Velha), tia de Marco Aurélio, que era sobrinha da imperatriz Vibia Sabina, esposa de Adriano.

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(Busto de Faustina, a Velha)

Em 10 de julho de 138 D.C., Adriano faleceu em Baiae, um balneário chique na costa da Campânia, após uma prolongada agonia. A sua sucessão foi tranquila e Antonino assumiu imediatamente o trono, mantendo os principais magistrados e auxiliares de Adriano nos cargos, e tranquilizando o Senado Romano de que os seus privilégios seriam respeitados.

A privilegiada posição na Corte Imperial do jovem Marco Aurélio, que naquele momento tinha apenas 17 anos, foi reafirmada pelo fato da Antonino ter pedido que ele rompesse o compromisso com Ceionia Fabia e se comprometesse a casar-se com a filha dele, Annia Galeria Faustina Minor (Faustina, a Jovem), o que foi prontamente aceito.

Faustine_la_Jeune_01(Busto de Faustina, a Jovem)

No início do pacífico e estável reinado de Antonino Pio, Marco Aurélio continuou seu aprimoramento intelectual tornando-se aluno de Marco Cornélio Frontão, um famoso gramático, retórico e advogado, que se tornaria um de seus amigos mais íntimos e era considerado um dos maiores oradores romanos. A correspondência entre Marco Aurélio e Frontão foi preservada e é muito útil para demonstrar a evolução do pensamento do primeiro e o ambiente no círculo imperial.

Marco Aurélio também estudou com Herodes Ático, um influente e riquíssimo aristocrata ateniense, que também era um reconhecido filósofo sofista e foi convidado por Antonino para residir em Roma, com o propósito específico de ser professor dos herdeiros Marco Aurélio e Lúcio Vero. Outro importante integrante do círculo de professores de Marco Aurélio foi o filósofo grego Apolônio de Calcedônia, com quem ele se aprofundou no estudo do Estoicismo.

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(Busto de Herodes Ático)

O treinamento público de Marco Aurélio para suceder Antonino começou assim que este assumiu o trono. De fato, ainda com 18 anos de idade, o jovem herdeiro passou a participar das reuniões do Conselho Imperial. Assim, em 140 D.C, Marco Aurélio, foi nomeado Cônsul pela primeira vez, e, novamente, em 145 D.C.

Neste mesmo ano, ele se casou com Faustina, a Jovem. Curiosamente, como Marco Aurélio era filho adotivo de Antonino, tratava-se, legalmente, de uma união incestuosa com a sua irmã. Assim, foi preciso que Antonino revogasse expressamente o seu pátrio poder sobre o noivo, para que o casamento pudesse se realizar.

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(O jovem Marco Aurélio, em uniforme de general)

Vale citar que o casamento de Marco Aurélio e Faustina, a Jovem seria um dos mais prolíficos, senão o mais fértil, dentre todos os casamentos imperiais da História de Roma. Eles teriam treze filhos, nascidos no decorrer de vinte e três anos! A primeira filha, Antonina Faustina, nasceu em  30 de novembro de 147 D.C. Contudo, a maioria dessa prole morreria na infância, de doenças variadas. Porém, em 31 de agosto de 161 D.C., durante os primeiros meses do futuro reinado de Antonino, nasceu Lucius Aurelius Commodus (Cômodo), que sucederia o pai no trono.

Embora Lúcio Vero também estivesse recebendo educação esmerada, tudo indica que Antonino considerava Marco Aurélio a opção preferencial para ser o sucessor dele, ou talvez, um “herdeiro-sênior”. Com efeito, em 146 D.C., Marco Aurélio recebeu o “Poder Tribunício” e o “Imperium Proconsular“, atributos que somente o Imperador podia deter.

Em 160 D.C., ficou claro que a saúde de Antonino Pio, aos 70 anos de idade, estava ruim. Neste  mesmo ano, Marco Aurélio e Lúcio Vero foram nomeados Cônsules.

No ano seguinte, em 07 de março de 161 D.C, em sua propriedade familiar situada em Lorium, na Etrúria, Antonino Pio convocou o Conselho Imperial e comunicou-lhes que entregava o Império e sua filha a Marco Aurélio. Horas depois, o imperador faleceu.

Novamente, a sucessão foi pacífica. Notavelmente, Marco Aurélio, ao receber todos os títulos, poderes e honrarias imperiais, solicitou ao Senado que Lúcio Vero, respeitando a vontade de Adriano, também deveria ser aclamado Imperador, o que foi obedecido.

Marco Aurélio manteve o costume de dar um donativo à Guarda Pretoriana, quando da ascensão de um novo imperador. Porém, a gratificação foi o dobro do que tinha sido dado em ocasiões anteriores, já que formalmente eram dois os príncipes que ascenderam ao trono.

Todavia, embora a Guarda tenha se mantido fiel durante o seu longo reinado, no futuro, a ganância dos Guardas em assegurar novos donativos seria causa de inúmeros assassinatos de imperadores. Assim, se por um lado podemos conjecturar  que Marco Aurélio tenha sido sábio em agradar a Guarda e assegurar a fidelidade dos soldados, por outro lado não é absurdo pensar que ele pode, impensadamente, ter estimulado futuras e reiteradas conspirações deles.

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(Busto de Lúcio Vero)

Logo no início do seu reinado, Marco Aurélio teve que desvalorizar o denário, reduzindo o percentual de prata na moeda. Não se sabe o motivo exato, mas é possível isso tenha sido causado pela necessidade de fazer frente aos crescentes gastos com campanhas militares.

Com efeito, desde o princípio, o reinado de Marco Aurélio seria afligido pela necessidade de travar guerras quase contínuas nas fronteiras, e, em pouco tempo, por uma terrível peste.

Os antigos acreditavam que os Deuses se divertiam com as agruras humanas e, depois de vinte anos de reinado calmo e pacífico de Antonino Pio, agora o Império Romano seria governado por um imperador adepto do Estoicismo, corrente filosófica que acreditava que a virtude era a única fonte de felicidade e que, por isso,  o homem-sábio deveria suportar as adversidades e tentar fazer aquilo que era o seu dever. E isso foi justamente o que Marco Aurélio nunca deixou de fazer enquanto imperador.

Ainda durante os últimos dias do reinado de Antonino Pio, o rei Vologeses IV, da Pártia, havia invadido a Armênia, que então era um reino-cliente de Roma, depondo o monarca e instalando no trono um aliado seu, Pacorus, no que constituía um evidente ato de hostilidade ao Império Romano. O governador da Síria, Severianus pensou que podia conter sozinho a ameaça e invadiu a Armênia, mas ele acabou sendo derrotado e morto pelo exército Parta, que dizimou a IX Legião Hispana. Naquela ocasião, Marco Aurélio já tinha assumido o trono.

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(Este grafito de um catafracto, um cavaleiro couraçado, o principal elemento das tropas do Império Parta, foi encontrado na cidade de Dura-Europos)

Diante da seriedade da ameaça, Marco Aurélio resolveu mandar seu colega Lúcio Vero em pessoa para assumir nominalmente o comando do Exército Romano na região, bem como dos reforços que foram enviados para a província ameaçada. Observe-se que, embora Lúcio Vero não tivesse qualquer experiência militar, a sua presença em Antióquia, que seria o quartel-general das operações, era uma afirmação imperial da importância da campanha.

Assim, Lúcio Vero, que, diga-se de passagem, durante a guerra pareceu mais preocupado em desfrutar os prazeres de Antióquia, estava assessorado pelos melhores generais de Roma, incluindo Avídio Cássio e Marco Cláudio Frontão.

Então, Marco Cláudio Frontão, comandando a  Legião I Minervia, em conjunto com a Legião V Macedonica, comandada por Públio Mátio Vero, conseguiu tomar a capital armênia, Artabata, em 163 D.C, e destronar Pacorus, reinstalando o aristocrata romano Gaius Julius Soahemus, um membro da elite senatorial romana, que tinha origem armênia e parta e também era membro da dinastia arsácida, no trono.

A capital da Armênia foi transferida, em 164 D.C., para a cidade de Kaine Polis, a apenas 50 km da fronteira romana. Em consequência, Lúcio Vero e Marco Aurélio foram saudados pelas tropas como Imperatores, o primeiro recebendo o título de “Armeniacus“.

Os Partas, enquanto isso, intervieram em Osroene, outro reino-cliente de Roma, na Alta Mesopotâmia, onde também instalaram outro aliado, mas o Exército Romano da Síria, reforçado por legiões do Danúbio, conseguiu igualmente expulsa-los, entre 164 D.C. e 165 D.C., capturando a capital de Osroene, a cidade de Edessa.

Os romanos começaram, em seguida, os preparativos para a invasão da Mesopotâmia, o coração do Império Parta.

Avançando pela Mesopotâmia, durante o ano de 165 D.C, os Romanos impuseram várias derrotas aos Partas, que recuaram para a estratégica cidade de Nisibis, que, no entanto, foi sitiada e capturada pelo Império Romano, na posse de quem ficaria durante várias décadas. Enquanto isso, a outra ala do Exército Romano, comandada por Avídio Cássio, infligiu outra derrota aos Partas na cidade de Dura-Europos.

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(Panorama da cidade de Dura-Europos, conquistada pelos Romanos)

No final do ano de 165 D.C., o exército de Avídio Cássio avançou pela Mesopotâmia e sitiou as cidades de Seleucia e Ctesifonte, a capital do Império Parta, que ficavam nas margens opostas do rio Tigre. Seleucia, cuja população era em grande parte de origem grega, abriu as portas para os Romanos, o que não os impediu de saqueá-la, para indignação de muitos contemporâneos . Já Ctesifonte foi tomada após um cerco, após o qual foi queimado o  palácio real dos Partas. Pela segunda vez, Lúcio Vero e Marco Aurélio foram saudados como Imperatores, e o primeiro recebeu o título de “Parthicus“.

A campanha prosseguiu e o exército romano invadiu a parte nordeste do Império Parta, com a invasão da Média e, por esse motivo, no ano seguinte, houve nova aclamação dos dois imperadores, tendo Lúcio Vero sido agraciado com o título de “Medicus“.

Todavia, a grande vitória obtida por Marco Aurélio e  Lúcio Vero no Oriente teria um imprevisível e terrível custo: As tropas romanas contraíram, segundo as fontes, na cidade de Seleucia, a chamada “Peste Antonina” (moléstia provavelmente originária da China e que hoje acredita-se ter sido uma epidemia de varíola ou de sarampo), trazendo a doença para o seio do Império Romano.

Em decorrência da Peste Antonina, que, acredita-se, tinha uma taxa de mortalidade de 25%, estima-se que 5 milhões de romanos morreram, sendo que, em alguns lugares, metade da população pereceu. E dentre os infectados estaria o próprio Lúcio Vero, que, no fim do ano de 168 D.C, teria contraído a doença, morrendo em 23 de janeiro de 169 D.C.

Mas outra campanha sangrenta, e muito mais prolongada, iniciou-se quando a guerra contra os Partas ainda não havia sequer se encerrado:

Já em 162 D.C., bárbaros germânicos das tribos dos Chauci e dos Catos tentaram invadir as províncias da Rétia e da Germânia Superior, sendo repelidos.

No final do ano de 166 D.C. e no início do ano seguinte, invasores Lombardos (lungobardi) cruzaram o Danúbio e invadiram a província da Panônia, mas também foram contidos por destacamentos da Legião I Adiutrix. Então, o governador da Panônia tentou negociar uma trégua com os representantes de onze tribos germânicas. Porém, naquele mesmo ano, os Vândalos, que faziam a sua primeira aparição na História Romana, e que ficariam célebres quase três séculos mais tarde, junto com os Iáziges, invadiram a província da Dácia e mataram o governador romano.

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A repentina pressão militar dos bárbaros germânicos nas fronteiras romanas, relativamente pacificadas, tinha como motivo uma onda migratória vinda do Báltico e da região do Vístula, quando os  belicosos Godos começaram a migrar para o sudeste da Europa, empurrando os povos daquela região em direção à fronteira romana do Reno/Danúbio.

O fato é que somente com o fim da campanha contra o Império Parta, Marco Aurélio e Lúcio Vero tiveram condições de organizar uma resposta compatível com a ameaça germânica, e, em 167 D.C, os romanos, com duas novas legiões formadas para a campanha, a Legião II Italica e a Legião III Italica, realizaram uma expedição punitiva na Panônia.

Entretanto, os bárbaros germânicos não paravam de chegar e, entre 167 e 168 D.C., um grande número de Marcomanos (literalmente, os “homens da fronteira”, na língua germânica), chefiados pelo líder Ballomar, acompanhados da tribo dos Quados, cruzaram o Danúbio, derrotaram um exército de 20 mil romanos em Carnuntum, e, rapidamente, chegaram ao norte da Itália, destruindo a cidade de Opitergium e sitiando a importante cidade de Aquileia.

Essa invasão foi um choque para os Romanos. Era a primeira vez, desde a incursão dos bárbaros Cimbros e Teutões, no final do século II A.C. (que, a muito custo, foram derrotados por Caio Mário,  em 101 A.C.), que a Itália era invadida por inimigos estrangeiros.

Nota: Os Marcomanos inicialmente viviam próximo à fronteira do Reno. Porém, com a expansão romana para a Gália e para a própria Germânia, a partir da época de Júlio César e, especialmente, depois da reação romana ao Desastre de Varo, no reinado de Tibério, aquele povo migrou para a região do Danúbio.  Então, no período dos Antoninos (Nerva – Marco Aurélio), começou a se verificar entre os Marcomanos, bem como em outros povos germânicos, o fenômeno da formação de confederações de tribos, com o consequente aumento do tamanho das forças militares e de sua efetividade contra as forças romanas.

Prosseguindo a narrativa, agora fazia-se necessária uma grande mobilização de tropas, que, contudo, seria dificultada pela falta de recrutas decorrente da Peste Antonina, que também grassava no exército, e a persistente necessidade de conter os Partas no Oriente.

Mas, enquanto pessoalmente liderava a resposta aos Marcomanos e Quados, junto com Lúcio Vero, Marco Aurélio teve que voltar para Roma para tratar do funeral do colega que, como vimos, morreu em janeiro de 169 D.C, provavelmente da Peste.

Já no outono de 169 D.C.,  Marco Aurélio, acompanhado de seu genro, Tibério Cláudio Pompeiano, retornou para a região do Danúbio para enfrentar os bárbaros Iáziges, uma tribo sármata, de origem iraniana, os quais haviam derrotado e matado o general Marco Cláudio Frontão, o herói da Guerra contra os Partas.

Entrementes, os Costoboci, um povo das montanhas dos Cárpatos, que viviam nas fronteiras da Dácia, também cruzaram a extensa fronteira do Danúbio e invadiram a província romana da Trácia, chegando até Eleusis, próximo a Atenas, onde destruíram o afamado templo dos Mistérios Eleusinos.

Assim, entre 170 e 171 D.C, todos os esforços de Marco Aurélio concentraram-se em expulsar os Marcomanos do território romano. Ele determinou a criação da Prefeitura da Itália e dos Alpes, com o objetivo de melhorar a defesa das passagens alpinas para a Itália e reforçou a frota fluvial do Danúbio. As tropas foram comandadas por Pompeiano e por Pertinace (que, muitos anos mais tarde seria imperador).

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Começaram então os preparativos para uma grande ofensiva contra os Marcomanos, que, inclusive, compreendeu a formação de alianças com outras tribos germânicas, como foi o caso dos Vândalos.

Em 172 D.C, os Romanos cruzaram o Danúbio e atacaram os Marcomanos em seu próprio território. No espaço de um ano os bárbaros foram subjugados e Marco Aurélio recebeu o titulo “Germanicus“.  Esta campanha está retratada nos relevos da famosa Coluna de Marco Aurélio. erguida em comemoração da vitória no Campo de Marte, em Roma.

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(Os soldados romanos cruzando o Danúbio sobre uma ponte de barcos, como retratado na Coluna de Marco Aurélio)

No ano de  173 D.C, o Exército Romano se voltou contra os Quados, que tinham apoiado os Marcomanos. Foi nesta campanha que ocorreu o chamado “milagre da chuva”, também retratado na Coluna de Marco Aurélio, ocasião em que as tropas romanas, cercadas pelos Quados em uma posição sem acesso à água, na época da seca, estavam passando muita sede, mas acabaram sendo salvas por uma súbita chuvarada.

O fato é que somente no final do ano seguinte os Quados seriam subjugados.

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(O “milagre da chuva”, retratado na Coluna de Marco Aurélio – a chuva aparece na forma de uma divindade antropomórfica)

Naquele mesmo ano de 173 D.C.,, Dídio Juliano, o comandante militar na Germânia que, bem mais tarde, também seria imperador, derrotou uma invasão dos Catos e Hermunduri na fronteira do Reno.

Ainda m 174 D.C, chegou a vez dos Iáziges, uma tribo sármata, experimentarem a vingança romana. Após uma campanha vitoriosa, os bárbaros assinaram um tratado de paz no ano seguinte, devolvendo os prisioneiros romanos e concordando em fornecer um contingente de oito mil cavaleiros para o Exército Romano, dos quais 5.500 foram assentados na Britânia. Por isso, Marco Aurélio recebeu o título de “Sarmaticus“

Nota: Esse contingente de cavalaria sármata utilizava como estandarte uma cabeça de dragão estilizada, presa numa espécie de biruta de pano, chamada de “draconarius“. Segundo uma tese, esta seria a origem do sobrenome Pendragon, do lendário rei britânico Arthur, que muitos estudiosos defendem que teria sido na verdade um chefe militar romano que resistiu às invasões dos Anglos e Saxões, no século V D.C.

Aproveitando o sucesso da reação romana, parece que Marco Aurélio planejava instituir duas novas províncias romanas na região, que se chamariam “Marcomannia” e “Sarmatia“, após a derrota final dos bárbaros. E, de fato, ele vinha sendo bem sucedido na estratégia de isolar e derrotar as tribos uma a uma, não ostante tal estratégia demandasse mais tempo e consumisse mais recursos.

De qualquer modo, os planos de Marco Aurélio foram por água baixo quando chegou a notícia de que o general Avídio Cássio , comandante do  Exército Romano no Oriente havia se autodeclarado imperador , em maio de 175 D.C.

Avídio Cássio foi incentivado a tentar usurpar o trono quando ele recebeu a falsa notícia de que Marco Aurélio teria morrido de doença na campanha do Danúbio. Aliás, tudo indica que este boato foi aceito como verídico em boa parte do Império e Avídio Cássio, inicialmente,  recebeu o apoio das províncias orientais e do Egito. Há até uma versão de que Cássio teria sido incentivado a se rebelar pela própria imperatriz Faustina, que também havia acreditado no boato e temia pela sorte de seu filho Cômodo, que não havia completado 14 anos e portanto ainda não era legalmente adulto.

Marco Aurélio, que ao tomar ciência da rebelião estava acompanhado de Cômodo, a quem estava começando a introduzir nos assuntos de Estado, teve que abandonar a campanha contra os germânicos e rumar para o Leste.

Entretanto, a notícia de que o imperador estava vivo chegou primeiro às províncias orientais, e foi o próprio exército de Avídio Cássio que espontaneamente executou o seu comandante, com as tropas preferindo não embarcar em uma aventura incerta contra um imperador de tanto prestígio.

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(Cabeça de Cômodo adolescente)

O Imperador aproveitou a estadia no Oriente para visitar Atenas, onde ele e Cômodo se iniciaram nos Mistérios Eleusinos, Depois, Marco Aurélio visitou o Egito e voltou para Roma para celebrar seu muito merecido Triunfo, em 23 de dezembro de 176 D.C., na companhia do filho, ocasião em que, provavelmente, a Coluna de Marco Aurélio foi dedicada.

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Os problemas na fronteira do Danúbio, contudo, ainda não tinham sido completamente resolvidos e, em 177 D.C,  Marco Aurélio teve que retornar à região.

Ao contrário do que é retratado em filmes como “Gladiador” e “A Queda do Império Romano“, Marco Aurélio sempre pretendeu que Cômodo, o seu único filho homem sobrevivente, herdasse o trono. Ainda em 166 D.C., Cômodo havia recebido o titulo de “César’, que segundo os costumes imperiais significava algo próximo a “príncipe-herdeiro”.

Em 177 D.C., para não restar nenhuma dúvida a quem quer que fosse, sobretudo após a rebelião de Avídio Cássio, Marco Aurélio deu a Cômodo o título de “Augusto”, tornando-o, de direito, Co-Imperador. Seria apenas a segunda vez, na História do Império Romano, que um filho natural sucederia ao pai no trono imperial, tendo sido Tito o primeiro.

Durante o ano de 178 D.C.,  o Exército Romano obteve diversas vitórias no Danúbio e o ano de 179 D.C. parece ter sido dedicado a uma grande preparação para uma ofensiva decisiva contra os bárbaros da região.

Infelizmente, em 17 de março de 180 D.C., aos 58 anos de idade, Marco Aurélio faleceu, provavelmente de uma enfermidade relacionada à Peste Antonina, na cidade de Vindobona (atual Viena, na Áustria). Ele passara os últimos 10 anos lutando contra os Marcomanos, Quados e outros bárbaros na fronteira do Danúbio.

Mesmo admitindo-se que tenha sido providenciado a Marco Aurélio todo o conforto a que um imperador romano fazia jus, ninguém discute que ter passado esse tempo todo afastado de Roma, na fria, inóspita e distante província da Panônia, foi uma prova de dedicação e amor ao dever impressionante para um homem cuja aptidão maior sempre tinha sido a filosofia e a literatura (Não é a toa que a representação mais famosa de Marco Aurélio, a sua soberba estátua equestre originalmente dourada, hoje guardada no Museu Capitolino, em Roma, mostre o imperador em trajes civis).

Não obstante, na Coluna de Marco Aurélio, o imperador é retratado recebendo a submissão de bárbaros derrotados ou observando suas cabeças decepadas.. Certamente, Marco Aurélio deve ter se valido dos ensinamentos estoicos para suportar cenas tão díspares do seu jeito afável de ser.

Para Marco Aurélio, antes de tudo vinha o dever.

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Foi durante o período em que ele liderou a Guerra contra os Marcomanos que Marco Aurélio escreveu, em grego, a sua obra mais famosa, as “Meditações“,  em 12 livros, enquanto residia em Aquincum (cidade romana fortificada, no perímetro urbano da atual Budapeste, Hungria) e Carnuntum, local de uma fortaleza romana, na atual Áustria. Esse clima é, de fato,  muito bem retratado nos filmes “Gladiador” e “A Queda do Império Romano“.

O nome da obra foi dado posteriormente, sendo que o melhor título, segundo o que se depreende do que Marco Aurélio escreveu nos seus cadernos, seria “Pensamentos para mim mesmo“.

A linha mestra que conduziu as Meditações, segundo o próprio Marco Aurélio, foi a ideia de que a pessoa “tem o poder de se despir de vários problemas superficiais localizados inteiramente na mente dela e de possuir um grande espaço para ela mesma abraçar em pensamento todo o Cosmos, de levar em consideração a eternidade, de pensar nas rápidas mudanças nas partes de cada coisa e de quão pouco tempo há do nascimento até a morte, e de como o vazio que existe antes do nascimento e depois da morte é igualmente infinito“.

Cássio Dião,  que, juntamente com a História Augusta e as cartas de Frontão, é a melhor fonte sobre o reinado de Marco Aurélio, ao terminar o seu texto sobre este imperador, escreveu:

“Marcus não encontrou a boa sorte que ele merecia, pois ele  não era dotado de um físico vigoroso e se viu envolvido em um turbilhão de problemas durante praticamente todo o seu reinado. Mas, na parte que me toca, eu o admiro ainda mais por essa razão, já que, em meio a dificuldades incomuns e extraordinárias, ele conseguiu sobreviver e preservar o Império. Somente uma coisa o impediu de ser completamente feliz, nomeadamente, que, após cuidar e educar o seu filho da melhor forma possível, ele tenha se decepcionado tanto com ele. Esse assunto será nosso próximo tópico; pois agora nossa História desce de um reinado de ouro para um de ferro e ferrugem, como as coisas se tornariam para os Romanos daqueles dias.“

Com efeito, das poucas críticas que os historiadores antigos e modernos fizeram a Marco Aurélio, encontra-se a escolha de Cômodo como sucessor. Porém eu entendo a crítica como injusta. Não há muitos indícios de que Cômodo, antes de assumir o trono, tenha dado demonstrações de que ele fosse incapaz para governar. Aos 18 anos, o mais provável é que Marco Aurélio esperasse que bons conselheiros e professores dessem ao rapaz a orientação necessária para ser um bom imperador e um bom homem, como tinha ocorrido com ele próprio, Marco Aurélio.

Escolher uma outra pessoa, como por exemplo, um general capaz como Tibério Cláudio Pompeiano, que, aliás, foi a maior inspiração para o personagem fictício Maximus Decimus Meridius, do filme “Gladiador” (leia nosso artigo sobre o filme, onde traçamos uma detalhada biografia de Pompeiano), no lugar de Cômodo, além de significar, na prática, condenar o próprio filho à morte, significaria, caso este não fosse executado pelo sucessor, uma perpétua fonte de potenciais guerras civis, enfraquecendo ainda mais o Império em um momento crucial.

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Infelizmente, Cômodo realmente mostrou-se não ser o governante talhado para a situação corrente do Império Romano. Com efeito, assim que o pai morreu, ele negociou uma paz com as tribos do Danúbio e voltou às pressas para Roma, onde ele celebrou um imerecido Triunfo, em outubro de 180 D.C. Cômodo negligenciaria os assuntos militares e a política externa durante todo o seu reinado e isso contribuiria, décadas mais tarde, para as catástrofes que se abateriam sobre o Império, no século III D.C.

A outra crítica foi feita pelos historiadores cristãos, que denunciaram as perseguições ocorridas no reinado de Marco Aurélio. Quanto a isso, não parece ter havido mudança na política seguida pelo Império com relação ao Cristianismo. O que pode ter havido é o aumento de processos e prisões em virtude do aumento do número de cristãos. O Estado Romano intervinha nessas questões muito por demanda dos cidadãos espalhados pelas cidades. A principal preocupação era a manutenção da ordem, que, de quando em quando era afetada pelos conflitos entre as autoridades locais e os cristãos, entre estes e outras religiões ou entre os próprios cristãos. Como normalmente não participavam dos cultos públicos ligados à Roma e ao Imperador, as autoridades romanas normalmente tomavam partido contra os cristãos. E no reinado de Marco Aurélio não foi diferente.

É instigante verificar que os problemas enfrentados por Marco Aurélio foram muito semelhantes aos que se abateriam sobre o Império Romano durante a “Crise do Século III“, sendo o principal deles a guerra em dois fronts, contra germanos e partas/persas. Há vários indícios de que ambos os antagonistas, ocidentais e orientais, tenham se tornado mais temíveis 50 anos após o reinado dele: Godos, Alamanos, Saxões, etc.,  seriam mais numerosos e militarmente capazes do que Marcomanos e Quados, o mesmo aplicando-se aos Persas Sassânidas, mais coesos, treinados e determinados que os Partas.

Fosse Marco Aurelio imperador no século III será que ele teria conseguido conter essa ameaça? É difícil afirmar.

E se Cômodo tivesse seguido o exemplo do pai e tivesse concluído a campanha no Danúbio, será que isso teria contribuído para evitar ou atenuar a Crise do Século III? São questões que merecem nossa reflexão. Logicamente, prever as migrações germânicas estava fora do alcance dos romanos e Marco Aurélio experimentou apenas o inicio dessa avalanche. Mas, certamente, a chegada de novas tribos não importava na eliminação total daquelas já estacionadas na fronteira e, segundo algumas evidências, com a passagem do tempo ocorria a fusão delas ou, ainda, a absorção de umas pelas outras. Então, se os Romanos tivessem mantido o controle da região e assimilado ou exterminado Marcomanos e Quados naquele momento, isto poderia ter mudado a correlação de forças no futuro, quando os Godos chegassem, podemos conjecturar. Haveria, neste caso, algumas décadas para que ocorresse uma “romanização” daquelas tribos.

Seja como for, o retrato de Marco Aurélio que sobreviveu para a posteridade foi a de um genuíno imperador-filósofo, como preconizado por Platão, no livro VI da “República“.

FIM

FELIZ ANIVERSÁRIO, ROMA!

21 de abril de 753 A.C. é a data lendária da fundação de Roma por Rômulo, que, segundo o mito, traçou o sulco que delimitava o perímetro da cidade.

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Instalada entre sete colinas facilmente defensáveis, situada estrategicamente no meio da península italiana, banhada pelo rio Tibre, que permitia acesso ao mar sem estar perto demais da costa, fazendo-a vulnerável a ataques de piratas ou invasores, Roma prosperou.

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A data mítica parecia confirmada pelas escavações no Monte Palatino, inclusive com o achado das fundações de cabanas circulares, datadas do século VIII A.C. Porém, achados recentes parecem indicar que a ocupação do local recua ainda mais, para cerca de 900 A.C. Alguns estudiosos também sustentam que a toponímia indicaria que Roma teria sido um povoado de origem etrusca, e não uma aldeia latina que foi dominada por algum tempo pelos etruscos, o que contraria a versão mais aceita de que Roma foi uma aldeia latina que os etruscos conquistaram e dominaram por um período.

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O fato é que desde o início, como nos mostra a semilendária estória do Rapto das Sabinas, os romanos demonstraram notável capacidade de absorver e aglutinar os diversos povos itálicos e sua cultura..

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Após ser saqueada pelos gauleses em 390 A.C, Roma iniciou uma notável expansão, incialmente pela Itália, depois pela orla do Mediterrâneo e, finalmente, adentrando o norte da Europa, levando a civilização helenística a lugares até então a ela alheios, como as ilhas Britânicas, a margem oriental do rio Reno e a margem setentrional do rio Danúbio.

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Somente após 800 anos de acumulação de incomensuráveis riquezas, a Cidade Eterna foi saqueada novamente, em 410 D.C.

Começava , então, a Roma dos Césares a se reinventar como a Roma dos Papas.

Roma, então, já havia deixado de ser uma cidade para se converter no cerne da civilização ocidental, e, ainda, em um ideal de uma civilização universal, Urbi et Orbi.

FELIX DIES NATALIS!

MASADA – A FORTALEZA QUE NUNCA SE RENDEU

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Em 16 de abril de 73 D.C. (ou de 74 D.C, segundo alguns estudiosos), os legionários da X Legião Fretensis, após três meses de um difícil cerco, conseguiram penetrar nas muralhas da Fortaleza de Masada, no Deserto da Judéia.

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Masada era o  último foco de resistência da Grande Revolta Judaica contra a dominação romana, iniciada em 66 D.C., sendo controlada por um grupo de rebeldes chamados Sicários.

Dentre as várias facções que compunham o movimento nacionalista dos judeus, a mais fanática era a dos Sicários  e eles conseguiram tomar a Fortaleza de Masada, situada em um platô que ficava em cima de um escarpado monte de cerca de 400 metros de altura. Noventa anos antes, o local tinha sido transformado pelo rei Herodes, o Grande, em um luxuoso palácio fortificado, entre 37 e 31 A.C.

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*Reconstituição do palácio de Herodes, em Masada)

Após a queda de Jerusalém, em função do grande cerco comandado pelo futuro imperador Tito, em 70 D.C., que resultou na destruição do Segundo Templo, também erigido por Herodes, restavam alguns poucos focos de resistência na Judéia, sendo o mais importante deles a Fortaleza de Masada, controlada pelos Sicários.

Os Sicários provavelmente eram um subgrupo ou uma facção extremista dos nacionalistas judeus Zelotes, que haviam liderado a revolta contra os romanos. O nome do grupo deriva da palavra “sicae“, que significa “adaga” – a arma característica do grupo, a qual era escondida sob as vestes deles para cometer assassinatos políticos. Assim, os Sicários podem ser considerados precursores da seita dos hashshin islâmicos (de onde deriva a palavra “assassino”) e, mais remotamente, de organizações de resistência judaica modernas, como a Irgun e a Haganah, que lutavam pela criação do Estado de Israel.

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Quando a X Legião Fretensis chegou a Masada, reforçada por algumas unidades auxiliares e prisoneiros judeus, totalizando 15 mil homens, o número de Sicários e de suas famílias entrincheirados na Fortaleza era de 960 pessoas.

Os romanos eram comandados pelo general  Lucius Flavius Silva (Flávio Silva), comandante da X Legião e governador da Judéia, que ordenou que todo o perímetro fosse cercado por uma circunvalação (fosso), para evitar que os revoltosos conseguissem abastecimento ou fugissem.  Em vários pontos, foram construídos acampamentos de legionários os quais, juntamente com o fosso, sobreviveram até os nossos dias (vide foto abaixo).

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Porém, não havia como a tropa toda subir a montanha pelos estreitos e sinuosos caminhos que levavam até o topo, ainda mais levando máquinas de assédio. Por isso, Flávio Silva ordenou a construção de uma impressionante rampa, feita de pedras e terra batida(que também ainda existe – cf. na foto abaixo). Quando a rampa ficou pronta, os legionários começaram a subir, empurrando uma enorme torre de assédio munida de um poderoso aríete.

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Finalmente, quando chegaram até as muralhas no topo, os Romanos não tiveram muita dificuldade em abrir uma brecha e os soldados invadiram o interior da cidadela.

Para a surpresa dos Romanos, que esperavam que se repetisse o tipo de resistência encarniçada que eles enfrentaram no Cerco a Jerusalém e a outras cidades judaicas, ao atravessarem as muralhas de Masada eles não encontraram nenhum rebelde,  mas apenas a fumaça e o fogo de várias construções incendiadas pelos revoltosos, tudo em completo e inquietante silêncio…

Os romanos, intrigados, gritaram exortações para que os rebeldes se rendessem, as quais ecoaram pelo platô deserto, até que 2 mulheres e cinco crianças apareceram. Interrogadas, as mulheres disseram que o pequeno grupo era tudo o que restava dos rebeldes.

Mas a explicação dada pelas mulheres para o acontecido parecia absurda demais e os romanos, com todo o cuidado necessário de quem esperava alguma armadilha, adentraram o Palácio situado na outra extremidade do platô.

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Quando o portão foi transposto, já no átrio, os Romanos depararam-se com uma cena macabra, que confirmava o relato das mulheres: centenas de corpos ensanguentados jaziam sem vida:  a conclusão era óbvia – os Sicários tinham se matado uns aos outros.

Segundo o relato do historiador Flávio Josefo, ele mesmo originalmente um participante da Grande Revolta Judaica que durante a revolta aderiu aos romanos, os Sicários, na noite anterior, fizeram um pacto pelo suicídio coletivo como ato de derradeira resistência aos Romanos.

Como a religião judaica repudia o suicídio, os Sicários resolveram então sortear dez companheiros para que executassem todo o resto, e, feito isso, os outros, divididos em grupos de dois, se matariam, até que restasse somente um, que seria o único suicida.

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(Os cacos de cerâmica, costumeiramente utilizados na Antiguidade para fazer sorteios, inscritos com os nomes dos Sicários, enconrados em Masada pela arqueólogo israelense Ygael Yadin)

Flávio Josefo, em sua obra, “A Guerra dos Judeus“, transcreve o último discurso do líder dos Sicários, Eleazar ben Ya’ir, antes do dramático desfecho, que teria sido contado aos romanos por uma das mulheres sobreviventes:

“Desde que nós, há muito tempo atrás, resolvemos jamais sermos escravos dos Romanos, e nem de quaisquer outros,  a não ser do próprio Deus, quem, somente ele, é o verdadeiro e justo Senhor da humanidade, chegou o momento que nos obriga a transformar aquela decisão em verdade prática. Nós fomos os primeiros que se revoltaram e somos os últimos a lutar contra eles; e eu não posso senão apreciar isto como um favor que Deus nos concedeu: o de que ainda podemos morrer bravamente e na condição de homens livres.“

Hoje, Masada é um dos pontos turísticos mais visitados de Israel e palco de cerimônias anuais, sendo considerada parte importante do sentimento de identidade  nacional israelense.

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BATALHA DE POLLENTIA

Em 6 de abril de 402 D.C, em Pollentia, próximo à atual Asti, no norte da Itália, o exército visigodo do rei Alarico celebrava o domingo de Páscoa. Os Visigodos eram cristãos que professavam a “heresia” ariana,  e, por conta disso, eles fizeram uma pausa na luta contra o exército romano do general Stilicho (Estilicão), para festejar o dia santo, e, certamente, acreditaram que os romanos fariam o mesmo…

Os Godos vinham sendo um espinho na carne do Império desde 378 D.C, quando, em uma das maiores catástrofes militares sofridas pelos romanos, um exército de cerca de 20 mil Godos, liderados pelo Chefe Fritigern, de um total de 200 mil que tinham cruzado o Danúbio e se refugiado no Império Romano do Oriente, entrincheiraram-se próximo à cidade de Adrianópolis e derrotaram o exército romano comandado pelo imperador Valente, matando cerca de 40 mil soldados romanos, na chamada Batalha de Adrianópolis, incluindo o próprio imperador.

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A horda goda vagou pela Trácia e outras províncias orientais causando muito estrago, mas acabou sendo contida pelo imperador Teodósio I, que com eles celebrou um tratado de paz, em 382 D.C. Pela primeira vez, na História de Roma, um povo bárbaro inteiro foi admitido como foederati (aliados) dentro das fronteiras do Império Romano. Embora os Visigodos estivessem formalmente obrigados a prestar serviço militar à Roma, eles podiam fazê-lo sob o comando de seus próprios chefes. Os Godos, então, receberam autorização para se assentar na província da Mésia.

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Teodósio, dessa forma, conseguira o seu objetivo de conter a ameaça goda, pois, durante o resto do seu reinado, os Godos respeitaram o tratado. Assim, quando, no final de seu reinado, em 394 D.C, na Batalha do Rio Frígido, Teodósio teve que combater o usurpador Eugênio, que havia sido colocado no trono como fantoche pelo general de origem franca Arbogaste, vinte mil visigodos combateram ao lado de Teodósio, e foram eles quem suportaram o maior castigo.

As derrotas militares sofridas na Pérsia, em 363 D.C, e nos confrontos com os Godos em Adrianópolis, em 378 D.C e no período logo a seguir, tinham destroçado boa parte do efetivo militar romano, e Teodósio preferiu, ou foi forçado pelas circunstâncias, a recrutar bárbaros para completar as fileiras desfalcadas do Exército.

Entretanto, logo após a Batalha do Rio Frígido, Teodósio morreu, deixando como sucessores, seus filhos Honório, na metade ocidental do Império, cuja capital era Milão, e Arcádio, na metade oriental, cuja capital era Constantinopla.

Os dois novos imperadores eram ainda crianças, e assim, Honório teve como tutor e virtual regente do Império do Ocidente o vencedor na Batalha do Rio Frígido, o general Flávio Estilicão, filho de pai Vândalo e de mãe romana; já Arcádio, seria tutelado pelo ministro Rufino.

Com a morte de Teodósio, os Visigodos sentiram-se estimulados a exigir grandes recompensas pelo sacrifício que tinham feito no Rio Frígido. Seu rei agora era o astuto e competente Alarico, que ambicionava nada menos do que o cargo de Magister Militum per Illyricum, ou seja, marechal do exército da Ilíria, o que obteve após devastar a província da Grécia.

Alarico aproveitou o cargo, que lhe dava acesso aos arsenais romanos, para equipar o seu exército e saquear até a exaustão, durante cerca de cinco anos, as províncias da Dácia e da Macedônia.

Procurando novas regiões que oferecessem a perspectiva de mais e polpudos saques, mas, considerando que a capital do Oriente, Constantinopla, era inexpugnável para os bárbaros, Alarico voltou sua atenção para o Ocidente e dirigiu-se para a capital Milão.

A corte de Honório, julgando Milão vulnerável, resolveu se mudar para Arles, na Gália, contudo Alarico mandou ocupar os passos alpinos com sua cavalaria e ao mesmo tempo cercou Milão, obrigando Honório a se refugiar na cidade fortificada de Hasta (a moderna Asti, na Liguria).

Fazendo um movimento que denotava que ele visava capturar o próprio imperador, Alarico partiu para sitiar Hasta, iniciando o cerco em fevereiro de 402 D.C. Porém, mesmo após  terem se equipado com armas romanas, os visigodos ainda não dominavam a arte da guerra de sítio e Honório tinha uma boa expectativa de que os bárbaros suspenderiam o cerco devido à fome ou doenças.

O general Estilicão, enquanto isso, estava ocupado com a luta contra incursões bárbaras dos Vândalos e dos Alanos nas fronteiras da província da Récia. Quando a notícia do cerco chegou ao seu conhecimento, Estilicão conseguiu reunir tropas romanas do Reno e da Britânia e também recrutou os próprios guerreiros alanos e vândalos que ele estava combatendo, para vir em socorro do Imperador.

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Assim, quando Estilicão e seus homens chegaram, os Visigodos foram forçados a recuar para Pollentia (Polenza),

Estilicão chegou a Pollentia no dia 06 de abril e hesitou em lutar no domingo de páscoa, um dia sagrado para os soldados cristãos. Porém os homens, especialmente os aliados alanos, queriam lutar imediatamente e Estilicão resolveu aproveitar o élan deles para fazer um ataque da cavalaria alana sobre os desatentos visigodos.

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O ataque foi repelido, mas Estilicão acudiu com a infantaria e os Alanos se reanimaram. Na confusão, os Visigodos acabaram deixando o seu acampamento exposto e Estilicão conseguiu capturar a esposa de Alarico e seus filhos. Todavia, as indisciplinadas e barbarizadas tropas que agora constituíam agora o exército romano, ao invés de perseguirem os Visigodos, entregaram-se a pilhagem do acampamento inimigo, que estava repleto do produto dos saques que aqueles bárbaros haviam feito desde Adrianópolis, mais de 20 anos antes.

Após a Batalha de Pollentia, Alarico reagrupou suas forças e recuou para Verona, onde, em junho de 402 D.C, seria novamente derrotado, porém, mais uma vez, Estilicão falharia em destruir o rei visigodo e seu exército. Ele seria criticado duramente pelos historiadores por ter deixado Alarico escapar e, em vista disso, até a sua lealdade ao Império Romano seria questionada, o que parece duvidoso considerando toda a sua trajetória. Ele, por exemplo, não resistiu quando, anos mais tarde, foi preso em um motim fomentado por seus adversários na Corte e aceitou resignadamente a sua sentença de morte, executada em 22 de agosto de 408 D.C.

A principal consequência dos eventos narrados foi a mudança da capital do Império Romano do Ocidente de Milão para Ravenna, fato que facilitaria o posterior saque de Roma, em 410 D.C, por Alarico e seus visigodos. Essa mudança, segundo muitos historiadores, foi uma decisão errada, pois ocorreu em detrimento da defesa da fronteira do Reno, o que expôs a Gália, a maior e mais rica província do Ocidente, a mais ataques dos bárbaros. Para Arther Ferril (“A Queda do Império Romano, a Explicação Militar”), naquele momento, para o Império Romano do Ocidente o mais importante estrategicamente era a defesa da Gália, o que recomendaria até a instalação da capital em Arles).

TERMINÁLIA

No dia 23 de fevereiro, o último dia do ano no calendário romano primitivo, celebrava-se o festival em honra do deus Terminus (Término), a divindade que zelava pelas fronteiras e pelos limites das propriedades particulares e, naturalmente, pela harmonia entre os vizinhos.

Ao contrário da maior parte dos deuses do panteão romano, Término não era representado por estátuas antropofórmicas, e sim pelos marcos de pedras que marcavam os limites dos terrenos. Alguns séculos mais tarde, ele passou a ser representado por uma cabeça humana com corpo em forma de marco de limites.

Grey2, Public domain, via Wikimedia Commons

Essas pedras eram ungidas solenemente e adornadas com coroas de flores e encravadas em um buraco, o qual também tinha sido consagrado com o sangue de um animal sacrificado, e onde se colocavam vinho e outras oferendas.

Então, todo dia 23 de fevereiro, os vizinhos cujas propriedades eram delimitadas por Término encontravam-se e sacrificavam um porco ou um cordeiro, cujo sangue era utilizado para salpicar os marcos de limites.

SARosser1954, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Em Roma, a Terminália, que era como se chamava o festival público em homenagem a Término, tinha como local de celebração o sexto marco da estrada para Laurentum, cidade próxima à Óstia, que nos primórdios da fundação da Cidade, marcava o seu limite.

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Marco miliário romano

AS LUPERCAIS

Entre os diversos festivais religiosos celebrados pelos romanos, as Lupercais (ou Lupercalia) incluem-se entre os mais primitivos, misteriosos e, não obstante, duradouros.

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Circle of Adam Elsheimer (1578-1610), Public domain, via Wikimedia Commons

O festival durava três dias, a partir dos Idos de fevereiro (dia 13) e terminava no dia 15.

A maior parte do que se sabe acerca da Lupercalia nos foi transmitido pelo historiador romano Tito Lívio. Vale observar, contudo, que é bem provável que o festival seja anterior à fundação de Roma, fazendo parte dos costumes dos povos itálicos ancestrais. O seu nome indica uma associação com o animal lobo (lupus, em latim) e acredita-se que ele pode ter surgido como um ritual para afastar os lobos, que no passado remoto infestavam as florestas do Lácio, dos rebanhos dos pastores. Posteriormente, os Romanos associaram o ritual com a lenda da Fundação de Roma, em que os gêmeos recém-nascidos Rômulo e Remo, filhos de Reia Sílvia, filha do rei deposto de Alba Longa, Numitor, engravidada pelo deus Marte, após serem jogados no Rio Tibre, sobrevivem e são amamentados por uma loba, em uma caverna.

Fragmentos do relevo reconstituído da fachada da Ara Pacis, mostrando cena relacionadas com lenda de Rômulo e Remo, que estão sendo amamentados pela loba na Lupercal. Foto: Amphipolis, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

Depois de dois dias de festa e procissões, no dia 15 de fevereiro, dois grupos de rapazes, que recebiam o nome de “Luperci“, membros das famílias patrícias da Cidade, partiam para a entrada de uma caverna na colina do Palatino, chamada de “Lupercal“, que, acreditava-se, seria a referida caverna onde a loba cuidou dos lendários fundadores de Roma, Rômulo e Remo. Neste local, eles sacrificavam bodes e um cachorro (que era uma vítima inusitada para os romanos).

Teto decorado da caverna Lupercal, no Palatino, em Roma, descoberta em 2007, em http://news.nationalgeographic.com/news/2007/11/071120-rome-grotto.html

O sangue que ficava na faca devia ser passado na testa de dois dos Luperci, bem como em pedaços de lã encharcados de leite. Nesse momento, ambos deveriam rir, ainda que não soubessem o motivo.

Então, os dois rapazes deveriam entrar na caverna e fazer um banquete, acompanhado de bastante vinho. Ao saírem da caverna, nus, a não ser por um cinto de couro de cabra, apesar de estarem no frio inverno de fevereiro, os rapazes carregavam tiras, também de couro de cabra, e passavam no meio da multidão reunida para o evento, que os assistia correr ao longo de um percurso marcado no sopé do Palatino, correspondendo a um dos primitivos ajuntamentos romanos.


Durante a corrida, os jovens açoitavam as pessoas da multidão com as tiras de couro, mirando especialmente as mulheres, porque acreditava-se que essas chicotadas tornariam as mulheres mais férteis e curariam as que fossem estéreis. A finalidade da corrida em torno do Palatino também era a de afastar os maus espíritos dos antigos limites sagrados da cidade de Roma (Pomerium).

Andrea Camassei, (1635) Public domain, via Wikimedia Commons


É bem possível que os romanos, já no final da República e durante o Império, nem soubessem mais exatamente a origem da cerimônia, mas as Lupercais estavam tão arraigadas na memória coletiva que elas continuaram sendo celebradas, inclusive mesmo depois da Queda do Império Romano do Ocidente, somente tendo sido proibidas por um decreto do Papa Gelásio, que cujo pontificado durou de 492 a 496 D.C.


Para alguns, as Lupercais teriam sido o embrião do nosso moderno Carnaval.

Em um episódio célebre da História de Roma, o triúnviro Marco Antônio, quando já era um homem público, uma vez participou da celebração, nu como um Lupercal, sendo muito criticado por isso e inclusive sendo ridicularizado por Cícero. Foi, aliás, nesta Lupercalia que Antônio ofereceu uma tiara de ouro ao Ditador Júlio César, por três vezes, tendo esta sido recusada pelo Ditador em todas as oportunidades, encenação que teria sido um dos pretextos para a conspiração senatorial que resultou no seu assassinato, com o objetivo de evitar que ele se tornasse rei.

John Clark Ridpath (1894), Public domain, via Wikimedia Commons

O episódio foi eternizado por Shakespeare, no começo da peça “Júlio César“, quando o Ditador pede a Marco Antônio que chicoteie sua esposa Calpúrnia, com o fim de livrá-la da infertilidade.

Anunciou-se, em 2007, que a caverna Lupercal foi redescoberta em Roma, na colina do Palatino, exatamente sob as ruínas da residência erguida no local pelo imperador Augusto, que provavelmente pretendeu com isso ligar o seu nome ao de Rômulo, o mítico fundador de Roma (vide link abaixo).

http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/7104330.stm

CONSTÂNCIO III – O ÚLTIMO IMPERADOR-SOLDADO DO OCIDENTE

Em 8 de fevereiro de 421 D.C., o Comandante em Chefe do Exército do Império Romano do Ocidente, Flávio Constâncio, foi coroado Augusto pelo Imperador Honório, tornando-se, assim, ele também, Imperador Romano do Ocidente, com o nome de Flavius Constantius Augustus, tendo passado à História como Constâncio III.

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(Solidus, moeda romana de Constâncio III, foto de http://www.cngcoins.com)

Flávio Constâncio foi um militar de carreira no Exército Romano, e, como tantos outros colegas seus que ingressaram na carreira militar na segunda metade do  século IV, ele nasceu nos Bálcãs, mais especificamente em Naissus (atual Nîs, na Sérvia), cidade natal do imperador Constantino, o Grande, em honra de quem, provavelmente, ele foi batizado. Constâncio devia ser de origem Trácia e/ou Ilíria.

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(Ruínas do Palácio de Constantino, nos arredores de Naissus, foto de J tomic m )

Não se sabe a data do nascimento de Flávio Constâncio, mas as fontes nos contam que, durante o reinado do Imperador Romano do Ocidente, Honório, ele alcançou o posto de Magister Militum (Marechal do Exército), por volta de 410 D.C (ou talvez até um pouco antes disso), ocasião em que ele deveria possuir uma idade entre 40 e 50 anos,  aproximadamente. Portanto, Flávio Constâncio deve ter nascido na década de 350/360 D.C., em uma época na qual, provavelmente pela última vez, o Império do Ocidente conseguiu reunir um exército composto de um núcleo principal de romanos,  e não de bárbaros, até a desastrosa Batalha de Adrianópolis, em 378 D.C,  que foi vencida pelos Godos.

Ele é descrito como sendo um homem de olhos grandes, cabeça larga e pescoço comprido, que, em público, mantinha uma expressão sisuda, mas em particular tinha um comportamento afável.

No início do seu longo (393 a 423 D.C), mas fraco, reinado, Honório (que aos 9 anos de idade, havia sido elevado a  co-imperador, cerca de dois anos antes da morte de seu pai, Teodósio), teve como tutor – e homem-forte do governo – o general de ascendência vândala (por parte de pai) Estilicão (Stilicho), o comandante-em-chefe do Exército Romano do Ocidente, e maior responsável pela estratégia defensiva da metade ocidental do Império, no período.

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(um dos dois painéis de um díptico de marfim, representando o general Estilicão)

O maior desafio enfrentado por Estilicão foi a crescente ameaça dos Godos, que após serem assentados em terras romanas e apaziguados por Teodósio, voltaram a agir militarmente contra o Império. Porém, para ser combater essa ameaça com eficiência, ele necessitava da cooperação entre as metades ocidental e oriental do Império Romano, o que Estilicão, que era visto com suspeitas em Constantinopla, não conseguiu lograr, tanto devido à rejeição de sua origem semi-bárbara, como também por causa das suas reiteradas tentativas de intervenção nos assuntos da corte oriental.

O fato é que Estilicão falhou nas duas oportunidades que teve para liquidar os Godos no campo de batalha, deixando –  intencionalmente ou não, ninguém pode afirmar –  o rei deles, Alarico, escapar.

Para piorar a situação, depois que os Godos invadiram a Itália, Estilicão, sabedor da precariedade da situação militar ocidental, defendeu que as vultosas exigências que os Godos estavam fazendo para deixarem a península italiana fossem atendidas. Daí, os adversários políticos de Estilicão no Senado, integrantes da tradicional nobreza romana, pretextando indignação, aproveitaram a contemporização defendida pelo general para estimular um motim do Exército da Itália, razão pela qual  Estilicão acabou sendo deposto e executado ordens de Honório, em 408 D.C.  Contudo, a execução de Estílicão teve como único resultado prático fazer minguar as fileiras do exército ocidental, majoritariamente compostas de mercenários bárbaros, que ele tinha reunido em razão do seu prestígio militar e político.

A situação militar do Ocidente se deteriorava rapidamente, valendo lembrar que, em 406 D.C., os bárbaros Vândalos, Alanos e Suevos aproveitaram o congelamento do Reno para invadir a Gália em grande número. O fato de Ravenna não ter sido capaz de organizar nenhuma ação militar em resposta, levou o governador da Britânia, Flavius Claudius Constantinus (Constantino III) a se autoproclamar imperador romano, para, em seguida, atravessar o Canal da Mancha, levando consigo todo o exército romano da Britânia e desembarcando na Gália, em 407 D.C., sendo que, no ano seguinte, ele conseguiu estabelecer a sua capital na cidade de Arles.

Flávio Constantino conseguiu guarnecer durante algum tempo a fronteira da Gália e exercer autoridade sobre a Hispânia,  mas ali teve que lidar com uma incursão de Visigodos liderados por Sarus,  agindo a serviço do imperador Honório, e, apesar de ter sido sitiado por Sarus em Valência, os bárbaros foram obrigados a se retirar ante a chegada de um contingente comandado por Gerontius e Edobichus, dois generais subordinados a Flávio Constantino. Não possuindo outras alternativas militares para combater o usurpador, Honório, ao receber os emissários enviados por Flávio Constantino, em 409 D.C. reconheceu-o como “Augusto” e, portanto, seu colega imperial,  ficando ele conhecido como Constantino III. Este, em seguida,  também elevou seu próprio filho à condição de Augusto, que reinou com ele adotando o nome de Constante II (não confundir com o imperador bizantino do mesmo nome)

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(Solidus de Constantino III, foto de Classical Numismatic Group)

Entretanto, Constantino III,  logo  em seguida, teve que enfrentar uma rebelião do seu próprio subordinado, o general Gerontius, que, provavelmente insatisfeito o envio de Constante II para a Hispânia, ali aclamou o usurpador Maximus como imperador. Desse modo, os reduzidos domínios de Constantino III ficaram sob ataque por todos os lados, pois, Gerontius, após derrotar as tropas de Constante II, na cidade de Vienne, em 410 D.C, matando este, sitiou o próprio Constantino, em Arles. Simultaneamente, uma nova horda de bárbaros cruzou o Reno, enquanto a Britânia, que havia ficado indefesa, estava sob ataque dos Saxões. A ilha nunca mais voltaria ao controle do Império e, em resposta a uma petição dos cidadãos romanos locais, suplicando por tropas para a sua defesa, Honório respondeu que eles deveriam procurar se defender valendo-se dos próprios meios…

Enquanto isso, depois de saquearem Roma, também em 410 D.C, os Godos permaneceram ao largo na Itália, levando com eles, como refém, a irmã de Honório, a princesa Gala Placídia, sem, contudo, serem capazes de tomar a capital ocidental, Ravenna.

Foi nesse quadro que Flávio Constâncio surgiu em cena como o Comandante em Chefe (Magister Militum) do Exército Romano do Ocidente e, liderando as tropas da Itália, em 411 D.C., ele entrou na Gália e alcançou Arles, onde, ao constatarem a sua chegada, a maior parte das tropas de Gerontius desertou e se juntou a ele, obrigando Gerontius a fugir para a Espanha, onde mais tarde ele seria cercado e cometeria suicídio. Contudo, Constantino III, não se beneficiou em nada da desgraça de Gerontius, pois, imediatamente, Flávio Constâncio passou a sitiar Constantino III, em Arles. Após Flávio Constâncio derrotar um contingente liderado por Edobichus, que tentou inutilmente levantar o cerco, Constantino III, constatando que era inútil a resistência, acabou se rendendo e, inicialmente, ele recebeu salvo-conduto para se retirar da cidade, sob a condição de se ordenar padre. Porém, pouco depois,  ele acabou sendo executado por ordens de Honório, quando já se encontrava próximo à Ravenna.

Os bárbaros Burgúndios e Alanos, aproveitando a divisão entre os Romanos, juntaram-se a alguns nobres galo-romanos que apoiaram Constantino III e aclamaram Jovinus, um senador da Gália, como imperador. Com isso, os Burgúndios, liderados pelo rei Gundahar (ou Gunther), conseguiram se estabelecer também na margem ocidental do rio Reno (eles já controlavam um trecho do outro lado do rio), na região onde ficavam as cidades de Vormatia (atual Worms), Noviomagus (atual Speyer) e Argentorarum (atual Estrasburgo), que posteriormente ficaria conhecida como Borgonha, em função do nome da tribo,  fundando o Reino da Borgonha, que seria incorporado pelo Reino dos Francos, em 534 D.C.

Enquanto isso, de volta à Itália, após derrotar Gerontius, Flávio Constâncio aumentou a pressão militar sobre os Godos, que foram obrigados a deixar a Itália, possivelmente com o incentivo de alguma quantidade de ouro, e foram se instalar no sul da Gália, em 412 D.C.

Não obstante, Jovinus seria derrotado pelos Visigodos liderados pelo rei Ataulfo,  que chegou na Gália, tencionando, a princípio, aliar-se a Jovinus. Porém, concomitantemente, seu inimigo mortal,  o Godo Sarus, que havia rompido com Honório, também ingressara na Gália, com o mesmo propósito.  Na primeira oportunidade que teve de alcançar o inimigo, Ataulfo atacou e matou Sarus.  Nâo se sabe ao certo, mas a ação de Ataulfo de alguma forma deve ter contribuído para atrapalhar sua aproximação com Jovinus. Quando este nomeou seu próprio irmão, Sebastianus, como Augusto, Ataulfo, que provavelmente estava de olho no posto para ali colocar algum fantoche, entrou em contato com Dardanus,  o Prefeito Pretoriano da Gàlia, que ainda se mantinha fiel a Honório, e este enviou uma mensagem ao seu imperador, informando que Ataulfo propunha uma aliança contra Jovinus, mediante certos termos. Aceita a proposta, Ataulfo atacou e derrotou Sebastianus e Jovinus fugiu para Valência, mas foi capturado e enviado a Dardanus, em Narbonne, onde foi executado e decapitado, em 413 D.C. As cabeças dele e de Sebastianus foram enviadas à Ravenna. Honório depois as mandou para Cartago, para advertir outros usurpadores, como veremos a seguir.

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(Relevo em marfim, retratando Flávio Constâncio (Constâncio III), como Cônsul)

Em recompensa aos seus bons serviços, Flávio Constâncio foi nomeado Cônsul para o ano de 413 D.C.

O motivo pelo qual Constâncio não enfrentou diretamente a rebelião de Jovinus foi devido ao fato de que, em 412 D.C, outro usurpador, Heraclianus, o Conde da África, insatisfeito com a nomeação de Flávio Constâncio como Magister Militum, revoltou-se e declarou-se imperador. Em seguida, ele suspendeu o envio de grãos da África para Roma (como o Egito fazia parte do Império Romano do Oriente, a província era a principal fonte de trigo para a cidade de Roma) e armou uma frota, com a qual desembarcou na Itália, no comando de seu exército.

Provavelmente, Heraclianus agiu dessa forma por acreditar que Honório não dispunha mais de tropas suficientes, pois as fontes relatam que ele ficou espantado quando percebeu o tamanho do exército comandado por Flávio Constâncio, que o interceptou em Utriculum, possivelmente na Úmbria. Seguiu-se uma encarniçada batalha, onde Heraclianus foi derrotado e fugiu de volta para a África, onde, no entanto, foi preso e executado no Templo da Memória, em Cartago.

Na Gália, após uma breve trégua com Honório, que foi selada pelo casamento do rei visigodo Ataulfo com Gala Placídia (aparentemente, não contra a sua vontade), em 414 D.C., Flávio Constâncio, inteligentemente, submeteu a costa da Gália a um bloqueio naval, causando a ocorrência de fome entre os Godos, que, enfraquecidos, foram obrigados a deixar a Gália e ir para a Espanha, onde o seu rei Ataulfo acabaria sendo assassinado por um desafeto, em 415 D.C.

Em função da inteligente estratégia de Constâncio, o sucessor de Ataulfo, Wallia, teve que celebrar uma paz em termos mais favoráveis ao Império Romano, assumindo o compromisso de, em troca de comida,  os Godos voltarem ao status de foederati, o que implicava na obrigação de prestar serviço militar ao Império, além de terem que devolver a princesa Gala Placídia  à Corte de Ravenna.

Em razão de mais este sucesso, Flávio Constâncio foi novamente recompensado, em 416 D.C., agora com o título de “Patrício”, distinção que, no Baixo Império Romano do Ocidente, significava algo parecido a “Grão-Vizir”, ou seja, uma espécie de misto entre primeiro-ministro e comandante supremo do Exército, e que era, sem dúvida, a pessoa mais importante depois do Imperador.

Selando a  ascensão de Flávio Constâncio, em 1º de janeiro de 417 D.C,  o general e Gala Placídia casaram-se, a princesa, tudo indica, contra a vontade dela.Provavelmente o motivo da insatisfação era o fato de Gala Placídia ser irmã de Honório, filha de Teodósio, o Grande, e neta de Valentiniano I – o último realmente grande imperador do Ocidente, e, portanto, naquele momento, a mulher de nobreza mais ilustre do Império Romano, obrigada a se casar com um general de origem obscura.

Ainda em 417 D.C. nasceu a primeira filha do casal, Grata Justa Honoria. Assim, Flávio Constâncio era, formalmente, um membro da família imperial, e da prestigiada Casa de Teodósio e ele foi, novamente, nomeado para um Consulado.

O sucesso da estratégia empregada contra os Godos, permitiu que Flávio Constâncio conseguisse, em 417 D.C.,  por fim à prolongada Revolta dos Bagaudas, a qual durava desde 409 D.C. Tratava-se de um conflito ocasionado pelo colapso da autoridade romana na Gália após a invasão bárbara de 406 D.C, em que uma grande quantidade de habitantes da província, forçados pela violência e miséria, tornaram-se foras-da-lei, formando verdadeiras milícias que, inicialmente orientadas para o combate aos bárbaros, reverteram ao banditismo, voltando-se contra as autoridades romanas.

Em 2 de julho de 419 D.C., nasceu, em Ravena, capital do Império Romano do Ocidente, Flavius Placidius Valentinianus, o primeiro filho varão de Flávio Constâncio e de Gala Placídia., que, futuramente se tornaria o imperador Valentiniano III.

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(Tradicionalmente, embora não haja evidências concretas, acredita-se que este medalhão de vidro pintado ostente os retratos de Gala Placídia e seus filhos Valentiniano III e Justa Honória)

Novamente, em 420 D.C, Constâncio foi nomeado Cônsul, pela terceira vez, juntamente com o imperador do Oriente, Teodósio II, no que parecia um testemunho de que sua pessoa, e, sobretudo, a sua política, deviam estar sendo aprovadas pela Corte de Constantinopla.

Finalmente, em 8 de fevereiro de 421 D.C, viria o justo reconhecimento do papel crucial que Flávio Constâncio vinha desempenhando no Ocidente: ele recebeu de Honório o título de “Augusto“, o que significa que ele reinaria junto com Honório, como co-imperador, passando à História como Constâncio III. Entretanto, Teodósio II, em Constantinopla não reconheceu a nomeação dele.

Narra uma fonte que Constâncio III, na época de sua aclamação, teria manifestado pesar pela perda de liberdade pessoal, entendendo que  aquilo era um dos fardos que o título de imperador acarretava.

Entretanto, Constâncio III somente reinaria por 7 meses, vindo a falecer de causas desconhecidas, em 2 de setembro daquele ano de 421. Ele, então,  já devia ter entre 50 e 60 anos, ou talvez até mais. Há um relato de que ele planejava uma expedição contra o Oriente para forçar o seu reconhecimento.

Gala Placídia e seu ainda bebê Valentiniano, inclusive, tiveram que se asilar em Constantinopla, devido aos tumultos que se seguiram à morte de Constâncio III. Uma fonte alega que o motivo teria sido o repúdio da massa de Ravenna ao boato de que ela e seu irmão Honório mantivessem uma suposta relação incestuosa. Vale citar, no entanto, que o historiador Edward Gibbon menciona que os soldados godos, nessa ocasião, ficaram do lado de Placídia.

Diante dessa informação de  que houve manifestações públicas contra a morte do imperador e hostilidade contra a imperatriz-viúva, pode-se especular que Placídia tenha tido alguma participação na morte de seu marido Constâncio III (não se olvidando que este foi um casamento forçado), ou, pelo menos,  o povo pode ter pensado assim, já que a massa realmente poderia ter motivos para suspeitar de uma imperatriz que, antes do casamento com Constâncio III, tinha  primeiro sido esposa de um rei Godo…

Seja como for, a verdade é  que, naquele momento, o que Roma mais precisava  era de um imperardor-soldado, e de um com talento militar. Por isso, a morte de Constâncio III veio se somar a uma série de infortúnios que se abateram sobre o Império Romano do Ocidente, em um momento decisivo para a sua sobrevivência.

FIM

Os 10+ Filmes sobre Roma

Desde os primórdios da arte cinematográfica, isto é, a partir da invenção do cinema pelos irmãos Lumiére, em 1895, histórias tendo como pano de fundo Roma e o Império Romano têm sido temas de roteiros de filmes.

Com efeito, já em 1899, o grande pioneiro francês da Sétima Arte, George Mélies, filmou “Cleópatra“; em 1907, os norte-americanos produziram a primeira versão de “Ben-Hur“; e, em 1910, os italianos lançaram o filme “Agripinna“, sobre a vida atribulada da célebre mãe do imperador Nero. Quatro anos depois, em 1914, o filme “Gaius Julius Caesar“, baseado na obra de Shakespeare foi produzido também na Itália.

Mas, indubitavelmente, os anos 50 e 60 foram o auge do tema “Roma”na telona, tendo a indústria cinematográfica vivido uma verdadeira “Romamania” (inserindo-se em uma moda, assim apelidada pela crítica especializada de sword-and-sandals, ou, em português, “espada e sandálias”) lançando películas que iam de grandes superproduções hollywoodianas, como “Ben-Hur” (versão de 1959), “Quo Vadis“, “Manto Sagrado“, “Spartacus” e “Cleópatra” (1963), e até mesmo uma febre de filmes sobre gladiadores, notadamente de produção italiana, abrindo um filão que foi aproveitado por atores musculosos e inclusive fisiculturistas que viraram atores (além de filmes sobre personagens mitológicos).

Não obstante, pesquisando os registros disponíveis na internet sobre filmes abordando a temática sobre Roma, podemos constatar que eles se dividem nos seguintes grandes grupos (devendo ser notado que frequentemente vários desses temas apareçam entrelaçados nos respectivos enredos):

1- Filmes sobre a vida de uma grande figura histórica romana ou ligada à História de Roma, sobressaindo, em indisputado primeiro lugar, Cleópatra, a rainha do Egito, seguida por Júlio César e por Espártaco (vale notar que filmes sobre este último também se incluem no tema “gladiadores”). Vindo bem mais atrás, aparecem Cipião, o Africano, Messalina, Agripina, a Jovem, e alguns poucos imperadores, como Calígula e Nero. Observe-se que alguns grandes inimigos de Roma também foram temas de filmes, como Aníbal e Átila, o Huno;

2- Filmes com temática central focada nos primórdios do Cristianismo, envolvendo passagens da vida de Jesus Cristo, dos Apóstolos ou de personagens fictícios, mas vivendo em ambiência romana, como “Ben Hur“, “Quo Vadis“, “O Manto Sagrado“, “Barrabás” (estes dois últimos também abarcam o tema “gladiadores”) e o “Cálice Sagrado“;

3- Filmes sobre a erupção do Vesúvio e a destruição de Pompéia, existindo vários exemplos, como “Os Últimos Dias de Pompéia“, que por si só já teve quatro refilmagens;

4- Filmes sobre gladiadores, sendo o exemplo mais famoso, o “Gladiador” (2000), de Riddley Scott, valendo citar “Demetrius e os Gladiadores“, de 1954, um precursor em Hollywood neste tema (o filme é uma continuação de “O Manto Sagrado“) e cuja temática também aborda o Cristianismo;

5- Filmes sobre a decadência e queda do Império Romano, cujo exemplo mais significativo é “A Queda do Império Romano” (1964), mas esta temática também abrange filmes mais recentes como “A Última Legião” (2007) e “Rei Arthur” (2004), com Clive Owen. Também podemos incluir o excelente “Alexandria” (2009), estrelando Rachel Weisz, nesta subcategoria.

Há também alguns filmes sobre batalhas importantes travadas pelos romanos (embora elas não estejam entre os temais mais recorrentes na telona), como por exemplo, sobre a Batalha da Floresta Teutoburgo, e o cerco à Masada. Aliás, um tema que vem tendo crescente interesse pela indústria cinematográfica, são os conflitos de romanos contra bárbaros, valendo como exemplo os dois filmes recentemente produzidos sobre o suposto desaparecimento da IX Legião na Britânia: ”Centurião” (2010) e ”A Legião Perdida” (2011) e a minissérie “Bárbaros“, da Netflix (embora a rigor, esta não seja uma produção cinematográfica, hoje em dia tal distinção está cada vez mais fluida).

Praticamente todos esses filmes (eu não me lembro de nenhum que não o tenha feito) repetem algumas idiossincrasias que são praticamente convenções na filmografia envolvendo Roma, embora sejam historicamente incorretas:

a) Soldados romanos envergando armaduras de placas articuladas (lorica segmentata) e escudos retangulares seja qual for a época: As primeiras começaram a ser usadas por volta de 9 D.C, e praticamente abandonadas por volta 250 D.C; já os segundos começaram a ser usados também por volta do início do reinado de Augusto e abandonados por volta de 250/300 D.C, no entanto, quase sempre se vê nos filmes os soldados romanos usando esses modelos em períodos anteriores ou posteriores aos mencionados (diga-se de passagem, os elmos quase sempre também são historicamente imprecisos).

b) Romanos usando uma espécie de munhequeira de couro ou de metal nos pulsos ou punhos: Não há sequer uma imagem ou estátua sobrevivente da Roma Antiga que mostre que os romanos envergassem tal ornamento nos pulsos, seja qual for o período (Alguns acham que o motivo disso seria esconder marcas deixadas pelo uso de relógio de pulso pelos atores, mas o mais provável é que seja apenas pura repetição de filmes anteriores)

c) Romanos em suas casas comendo sentados em cadeiras em torno de uma mesa: Os Romanos comiam reclinados ou mesmo deitados em triclínios, como era de costume, ao menos na elite e classes médias.

d) Gladiadores profissionais lutando até a morte sem a presença de um árbitro: Gladiadores profissionais podiam ocasionalmente morrer repentinamente em função de um golpe recebido, seja na arena ou posteriormente, mas, quando isso não ocorria, cabia ao patrocinador, ou à autoridade mais elevada presente, decidir se o perdedor seria morto (às vezes eles deixavam que o público decidisse) – algo que, no caso de lutadores profissionais não era comum. Essas lutas mais qualificadas não devem ser confundidas com aquelas travadas por condenados à morte obrigados a lutarem entre si. Na verdade, sabemos que os combates travados entre profissionais sempre tinham um árbitro que intervinha em determinadas situações, como um juiz de luta moderno.

e) Soldados romanos cavalgando cavalos com estribos: Os estribos só foram introduzidos na Europa e no Mediterrâneo entre os séculos VI e VII D.C, e somente no período do Império Romano do Oriente, chamado de Império Bizantino, quando o Império do Ocidente já havia caído. Os romanos antes disso utilizavam um tipo de sela com quatro protuberâncias, que ajudavam a dar um apoio melhor ao cavaleiro.

f) Templos e estátuas romanas de mármore imaculadamente brancos, sem qualquer pintura ornamental: As Estátuas e os detalhes arquitetônicos dos templos greco-romanos, como frisos, relevos, capitéis das colunas, entre outros, eram pintados, frequentemente, em cores vivas.

Assim, sem mais delongas, vamos aos dez filmes sobre Roma que eu considero (é uma avaliação pessoal e discricionária minha, mas claro que apreciaríamos sugestões nos comentários) os mais interessantes (atenção! contém “spoilers“):

1 – BEN-HUR (1959)

Baseado no livro de ficção “Ben-Hur, a Tale of Christ“, escrito por Lew Wallace, que já havia sido filmado em 1907 e 1925, e, no total, pelo que pude apurar na internet, teve cinco versões produzidas no total. A versão do filme dirigido por William Wyler, um dos maiores cineastas de todos os tempos (diretor de clássicos como “A Princesa e o Plebeu”, “Da Terra Nascem os Homens”, “Jezebel”, o “Morro dos Ventos Uivantes”, entre outros), foi durante muito tempo, com onze estatuetas, o longa-metragem recordista isolado em premiações do Oscar, que até hoje não foi superado (“Titanic” e o “Senhor dos Anéis, o Retorno do Rei”, posteriormente, o igualaram). Trata-se de um história em sua maior parte ambientada na Jerusalém da época do ministério público e martírio de Jesus Cristo, no início do século I D.C, durante o período romano e centrada no antagonismo entre o nobre judeu Judá Ben-Hur e o comandante da guarnição romana, Messala, que foram amigos durante a infância e adolescência de ambos, passada na aristocrática residência da família de Ben-Hur. O roteiro e a bela atuação de Charlton Heston no papel principal conseguem expressar bem a tensão existente entre uma elite judaica – já um tanto romanizada (ou, mais propriamente, helenizada) e relativamente submissa ao domínio romano, da qual faziam parte o protagonista do filme e sua família – e os anseios pela independência da Judéia, inspirados pelo patriotismo e sentimento nativista judaico, dois pólos entre os quais eles parecem oscilar. Um atentado ao novo governador da Judéia, ao qual Ben-Hur é injustamente vinculado, fazem com que ele e sua família caiam em desgraça e, em virtude disto, várias vicissitudes o fazem entrar em contato com Jesus Cristo e seus ensinamentos, afetando decisivamente a vida dele. Uma passagem não muito citada nas críticas, mas que me agrada muito, é a relação afetuosa criada entre Ben-Hur e o Comandante da Frota Romana, Cônsul Quintus Arrius, que Ben-Hur salva do naufrágio da galera onde ele havia sido condenado a servir como remador, terminando por ser adotado como filho pelo Romano, assumindo o seu nome e posição social, enquanto vivia na própria Roma. Embora haja algumas impropriedades um tanto irrelevantes no que se refere a uniformes militares, vestuário e estilos arquitetônicos, “Ben-Hur” é uma superprodução primorosa, e a trilha sonora (Miklos Rozsa), na minha opinião, é simplesmente fantástica. A cena mais eletrizante do filme é uma sensacional corrida de quadrigas, no que seria o Hipódromo de Jerusalém .

Trailer oficial de Ben-Hur

2- GLADIADOR (2000)

Dirigido pelo consagrado cineasta inglês Ridley Scott (“Alien, o 8º Passageiro”, “Blade Runner”, “Cruzada”, “Thelma & Louise”, “Napoleão”, etc), Gladiador pode ser considerado o filme que, após algumas décadas de ostracismo, ressuscitou a onda de filmes épicos com temática da Antiga Roma. Fizemos uma análise detalhada desta produção, sob o aspecto da historicidade, em nosso artigo MAXIMUS DECIMUS MERIDIUS-GLADIADOR-O QUE É FATO E O QUE É FICÇÃO?, onde apontamos algumas inconsistências e inverossimilhanças. Mesmo assim, Gladiador é seguramente um dos melhores filmes sobre Roma. O prezado leitor, caso os tenha assistido, perceberá que Ridley Scott sem sombra de dúvidas procurou inspiração em “A Queda do Império Romano“, “Spartacus” e “Ben-Hur” e, de certa forma, o filme pode ser considerado uma mistura bem-sucedida dos três filmes citados: A trama centrada no homem que cai em desgraça, tem sua família destruída e volta para se vingar no Circo ou na Arena é nitidamente inspirada em “Ben-Hur“; Já o contexto envolvendo o fim do reinado do imperador romano Marco Aurélio (Richard Harris), sua suposta preferência em entregar o poder a um general de caráter reto e confiável (Maximus, interpretado por Russell Crowe), com a finalidade de restaurar um governo republicano, em vez de ser sucedido pelo filho Cômodo (Joaquin Phoenix), que o assassina (passagem sem suporte histórico) e se torna o novo imperador, instaurando um governo inepto e corrupto, bem como o envolvimento amoroso de Lucilla (Connie Nielsen), irmã de Cômodo, com Maximus e o combate de gladiadores entre o imperador e o general foram extraídos diretamente de “A Queda do Império Romano“; E a trajetória da transformação e treinamento do general Maximus para virar gladiador ecoa claramente esta mesma parte do filme “Spartacus“. A reconstituição do Coliseu é de tirar o fôlego. O filme teve uma sequência lançada em 2024, “Gladiador 2”, que a crítica considerou bem inferior, mesma avaliação que eu tive ao assisti-lo.

Gladiador, Trailer oficial

3- A QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO (1964)

O enredo do filme, de 1964, foi, conforme declarou seu próprio diretor, Anthony Mann (“El Cid”, “O Homem do Oeste”, “Winchester ’73”, etc.), inspirado no clássico livro “A História do Declínio e Queda do Império Romano“, de Edward Gibbon, escrito no século XVIII e até hoje uma das obras mais influentes sobre o tema, fruto de uma copiosa leitura sobre praticamente todas as fontes antigas existentes sobre o Império Romano, e cuja tese central é que este caiu pela corrupção interna agravada pela ação conjunta dos bárbaros e do Cristianismo. Assim como no livro, a trama se inicia no final do reinado do imperador Marco Aurélio, quando, nas palavras do historiador romano Cássio Dião: o Império regrediu “de uma época de ouro para uma de ferro e ferrugem“. No filme, assistimos o velho imperador-filósofo (interpretado por Alec Guiness), após externar o seu desejo de entregar o trono a um fiel auxiliar, o honesto general Lívio, que também era amante de sua filha, Lucilla, esperando que este implante um bom governo em prol de todos os habitantes do Império, em detrimento de seu próprio filho Cômodo (Christopher Plummer), que, transtornado, assassina o pai. Como já dissemos, as cenas iniciais do filme, retratando a sombria fronteira do Danúbio, bem como a trama central, certamente inspiraram o “Gladiador“, de Ridley Scott, mais de 45 anos depois. O ponto alto do filme, além do bom desempenho dos atores, incluindo Sophia Loren, no auge da beleza, no papel de Lucilla, é a excelente reconstituição cênica de ambientes externos e internos, destacando-se o que talvez seja a mais exata reprodução do Fórum Romano já feita nas telas (veja vídeo abaixo). Um personagem importante do filme é o liberto de origem grega Timonides (James Mason), filósofo estoico e homem de confiança de Marco Aurélio, que, junto com Lívio e Lucilla, tentam, inutilmente, convencer Cômodo a acomodar e integrar os bárbaros derrotados na campanha como cidadãos do Império Romano.

4- QUO VADIS (1951)

Baseada no livro homônimo do escritor polônes Henryk Sienkiewicz, que já havia sido filmado três vezes anteriormente à versão que estamos comentando, sendo a primeira no remoto ano de 1901, ainda na infância da Sétima Arte, a versão dirigida por Mervyn LeRoy talvez seja o maior e melhor exemplo dos filmes de temática cristã em que o cerne é o antagonismo entre a nascente religião e o Império Romano, que tenta, inutilmente, sufocá-la. No enredo, vemos o laureado general Marcus Vinicius (Robert Taylor), retornando de campanha na Britânia, apaixonar-se por Lígia (Deborah Kerr), moça nativa da região da Lygia, na Europa Central, que foi enviada à Roma como refém do Império e acolhida como filha de criação por Aulus Plautius, ex-governador da província e também general aposentado. Lígia e seu pai de criação converteram-se ao Cristianismo e ela, inicialmente, embora sinta-se atraída por ele, reluta em aceitar as investidas de Marcus, que apela a seu tio, o famoso novelista Petronius, amigo do imperador Nero, para que este intervenha junto ao imperador e ordene que a refém lhe seja entregue como esposa. Lívia acaba se apaixonando por Marcus, mas tenta convertê-lo à fé cristã, com o auxílio do apóstolo Paulo, que frequentava a casa de Aulus, mas o romano resiste. Durante o romance, acontece o terrível Grande Incêndio de Roma (64 D.C.). Nero coloca a culpa nos cristãos e ordena que sejam presos para serem executados, o que acarreta a prisão de Lígia e de seu pai de criação, que também havia se convertido. Marcus tenta salvá-los, mas também é preso. Todos deverão ser executados no Circo. Na prisão, Lígia e Marcus, que começa a aceitar a fé da amada, casam-se, em uma cerimônia celebrada pelo apóstolo Pedro, preso com eles na mesma cela, e que havia retornado à Roma, de onde havia fugido da Perseguição movida por Nero, após ouvir a voz de Jesus Cristo, quando ele já estava na Via Ápia, perguntar: “Aonde vais” (Quo Vadis?), um episódio narrado nos Atos dos Apóstolos. A imperatriz Popéia, enciumada por ter tido suas investidas sexuais rejeitadas por Marcus em razão de seu amor por Lígia, arquiteta uma maneira de executá-los com requintes de crueldade no Circo, mas a Plebe se toma de simpatia por eles, os antigos soldados subordinados de Marcus aderem, e daí a trama se entrelaça com os eventos que culminaram no suicídio de Nero e sua sucessão por Galba, que se encontrava a caminho de Roma.

Sem dúvida, a atuação brilhante de Peter Ustinov como o imperador Nero contribuiu decisivamente para tornar “Quo Vadis” um dos melhores filmes sobre o Império Romano. Ele conseguiu incorporar e transmitir vários traços da personalidade de Nero que brotam das fontes antigas: mimado, vaidoso, dramático, licensioso, inseguro, etc. Outro ponto marcante é a cena inicial do filme, onde Nero, cercado de seus cortesãos, ensaia uma ode sobre a Queda de Tróia, que na verdade se aplicaria à destruição da própria Roma: embora a letra da canção seja fictícia, a melodia que a acompanha é da única música autêntica do período romano que chegou até os nossos dias – Trata-se do “Epitáfio de Seikilos“, que foi descoberto em um mausoléu aproximadamente do século I D.C, na Turquia, onde foram gravados os versos, acompanhados da notação musical que permitiu a reconstrução da música. O belíssimo texto em grego, que, aliás constitui uma perfeita expressão da filosofia epicurista, diz:

Enquanto viveres, brilha.

De tudo não te aflijas,

Pois curta é a vida

E o tempo cobra seu tributo

Acima, inserimos um link com o vídeo da execução da canção original. E abaixo, segue o vídeo com a cena do filme:

5- SPARTACUS (1960)

Dirigido pelo magistral Stanley Kubrick (“2001 – Uma Odisséia no Espaço”, “Laranja Mecânica”, “O Iluminado”, etc.), o filme conta a história de um escravo trácio que é treinado como gladiador e lidera uma revolta de escravos que põe em cheque a própria República Romana, constituindo um dos enredos sobre Roma preferidos pelos cineasta (tendo sido filmado duas vezes anteriormente e, no mínimo quatro vezes no total), dando também origem a uma série televisiva já na terceira temporada. Embora, por conveniência, tenhamos incluído o filme dentro do grupo “Gladiadores”, na verdade é um filme que ultrapassa essa temática, adentrando com relativa profundidade (para os padrões da indústria cinematográfica norte-americana) o campo da crítica social. Centrado na história real de Espártaco, o roteiro é consideravelmente baseado nas fontes originais romanas, notadamente Apiano e Plutarco, não obstante, com inclusões de alguns personagens fictícios, como o político Gracchus, a escrava Varínia e o escravo Antoninus. Assim, o filme começa com Espártaco (Kirk Douglas), um escravo trácio capturado em batalha e enviado para trabalhar nas minas, que é condenado à morte por insubmissão e chama a atenção do lanista (empresário dono de uma escola e de uma trupe de gladiadores) Lentulus Batiatus (personagem real mais uma vez brilhantemente interpretado por Peter Ustinov), que o compra e o leva para ser treinado em sua escola de gladiadores, em Cápua, de onde ele acaba fugindo, junto com seus companheiros e sua namorada, a escrava Varínia (Jean Simmons), liderando uma revolta à qual se juntam milhares de escravos da região, no decorrer da qual derrotam várias expedições militares romanas enviadas contra eles, até que o Estado resolve recorrer ao cruel e ambicioso general Marco Licínio Crasso (Sir Lawrence Olivier), que deseja o comando para subverter a democracia e assumir poderes ilimitados, fato que gera grande preocupação em seu inimigo político, Gracchus, um político defensor das liberdades públicas e dos direitos dos plebeus no Senado Romano e que simpatiza com as demandas dos revoltosos. Entre os senadores moderados que os dois rivais políticos tentam atrair para o seu lado está o jovem senador Caio Júlio César (John Gavin), também partidário da plebe, mas que teme o enfraquecimento ao poder romano decorrente da Revolta. Como se sabe, Espártaco e seus companheiros no final são derrotados militarmente, mas não sem antes fazerem um comovente libelo pela Liberdade e Justiça Social. Esta mensagem candente do roteiro escrito por Dalton Trumbo, roteirista perseguido no auge do Macarthismo nos EUA, levou a protestos da extrema-direita e de grupos anticomunistas contra a exibição do filme (Vale observar que a figura de Espártaco inspirou as Olimpíadas do bloco socialista, as chamadas “Espartaquíadas”). Outra polêmica foi causada pelas cenas que apontam a atração homossexual de Crasso pelo escravo Antoninus (Tony Curtis), sugestão também presente, de modo mais sutil, em uma cena entre Crasso e Júlio César nas termas. As cenas de batalha, com milhares de figurantes, são também muito boas (vide vídeo abaixo).

6- JÚLIO CÉSAR (1953)

Nenhuma relação de filmes sobre Roma pode estar completa sem uma película sobre o romano mais famoso que já existiu, e ninguém expressou com mais brilho os eventos dramáticos que culminaram no assassinato do Ditador Caio Júlio César do que o inglês William Shakespeare. Assim é que dos nove filmes que pesquisamos com o título “Júlio César”, pelo menos quatro são baseadas na peça homônima escrita pelo Bardo. E de todos eles, a versão de 1953 é considerada pelos críticos como a melhor. Dirigida pelo medalhão de Hollywood, Joseph L. Mankiewicz, diretor, produtor e roteirista de grandes filmes ( “A Malvada”, “A Condessa Descalça”, “Cleópatra”, etc), traz Marlon Brando, em grande atuação, como Marco Antônio, James Mason como Brutus e Sir John Gielgud como Cássio, e é, basicamente, uma encenação cinematográfica da célebre peça. Brando brilha no famoso discurso de Marco Antônio no funeral de César (vide abaixo).

7- CLEÓPATRA (1963)

A rainha egípcia figura em primeiro lugar entre os personagens da História de Roma levados às telas, com pelo menos 20 películas produzidas, inclusive um filme produzido no Brasil, em que Cleópatra foi interpretada por Alessandra Negrini. A superprodução de 1963, dirigida por Joseph L. Mankiewicz, custou tanto dinheiro que quase quebrou o estúdio Twentieth Century Fox, embora tenha sido um sucesso de público e sido indicada para nove Oscars, sendo vencedora de quatro estatuetas. O roteiro, baseado nos textos de Plutarco e Suetônio, inicia-se com a vitória de Júlio César (Rex Harrison) na Batalha de Farsália, após a qual, ele persegue seu rival Pompeu, o Grande até Alexandria, capital do Egito Ptolemaico. Ao desembarcar na cidade, César toma conhecimento que Pompeu havia sido morto pelos egípcios, e se vê obrigado a intervir na luta pelo trono travada entre o ainda menino Ptolomeu XIII e sua irmã Cleópatra (Elizabeth Taylor, deslumbrante), de quem César toma partido, após eles passarem a noite juntos. Boa parte do filme é centrada na relação amorosa entre Cleópatra e Marco Antônio (Richard Burton), até o trágico fim do casal. Na época, Elizabeth Taylor era a estrela máxima da Fox (ela recebeu pelo papel o maior cachê até então pago para uma atriz) e de certa forma ela se comportava no set quase como se fosse uma Cleópatra renascida (aliás, hoje, a escolha da superstar de pele alva como a neve e olhos azuis-violetas para interpretar Cleópatra certamente geraria polêmica nas redes sociais…), fazendo exigências e intervindo na produção do filme, e também tornou-se lendária a química entre ela e Richard Burton , e, de fato, os dois, apesar de ambos serem casados, iniciaram um tórrido romance durante as filmagens, fato que rendeu bastante publicidade. Mas seria Rex Harrison quem ganharia um Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo papel de Júlio César. Há grandes cenas no filme, como a entrada triunfal de Cleópatra em Roma, como hóspede de César, a barcaça real de Cleópatra, a Batalha de Actium e a cena final, retratando a morte da Rainha.

8- CALÍGULA (1979)

Admitimos que muitos não concordarão com a inclusão desta versão de “Calígula” na nossa lista. De fato, este filme tem uma história conturbada. Ele foi produzido por Bob Guccione, dono e editor da revista masculina “Penthouse” e, inicialmente, parecia que a intenção era realmente produzir um filme épico com atores e roteiristas consagrados. Por exemplo, o roteiro original do filme foi escrito pelo consagrado escritor Gore Vidal, autor de romances bem densos sobre personagens e acontecimentos do Mundo Antigo e da História Americana (“Juliano”, “Criação”, “Império”, “Lincoln”, etc), mas começou sendo dirigido pelo diretor italiano Tinto Brass, que já tinha em sua filmografia filmes com conteúdo erótico. Vários atores consagrados aceitaram o convite e atuaram no filme, tais como Peter O’ Toole (Tibério), Malcolm Mcdowell (Calígula), Helen Mirren (Cesônia) e Sir John Gielgud (Nerva). A grande maioria das cenas desenvolve-se em aposentos fechados, com poucas externas, e, por isso, também não há muitos figurantes (exceto nas cenas de orgias…), mas a cenografia e os figurinos em geral são de ótima qualidade. O enredo segue fielmente o relato da Vida de Calígula escrito pelo historiador romano Suetônio. Então, a nosso ver, os que leram o texto de Suetônio não deveriam se indignar tanto com a quantidade de pornografia presente no filme. O ambiente de medo e apreensão no qual Calígula viveu ainda na adolescência, as atrocidades e a depravação que ele assistiu enquanto morou com seu tio Tibério, em Capri, as circunstâncias que resultaram na sua elevação ao trono, seu envolvimento amoroso com a própria irmã, Drusila, o seu comportamento paranóico e sua progressiva perda de contato com a realidade, resultando em seu reinado tirânico, vida devassa e assassinato, e, finalmente, os episódios de depravação e devassidão, tudo foi descrito com detalhes no livro de Suetônio, e reproduzido no filme. Todavia, o grande problema da obra foi o fato de Bob Guccione, após as filmagens terem sido concluídas, e já em trabalho de pós-produção, ter filmado e incluído várias cenas de sexo explícito encenadas com a participação de algumas “Pets” da Penthouse (como eram chamadas as modelos que posavam nuas na revista), o que, de fato, constituiu, a nosso ver, um motivo justo para os profissionais da indústria cinematográfica “mainstream” terem se sentido enganados. Devido a isso, o filme foi rejeitado por alguns participantes: Gore Vidal já havia abandonado o time durante a produção por discordâncias com Tinto Brass e este proibiu também que seu nome figurasse como diretor, e, finalmente, de modo geral, os atores mostraram contrariados. Helen Mirren, ferina, descreveu o filme como “Uma mistura irresistível de arte e genitais“. O filme também foi alvo de processos em vários países devido ao conteúdo considerado impróprio. Não obstante todas essas polêmicas, eu considero a atuação de Mcdowell no papel principal muito boa (embora muitos possam achar que ele de certa forma reproduz sua interpretação do psicopata personagem central de “Laranja Mecânica”, mesmo assim, esta cai bem em um personagem como Calígula). Para mim, o filme tem uma atmosfera sombria e surrealista que também se amolda bem ao relato de Suetônio.

9- ALEXANDRIA (2004)

Escolhemos “Alexandria“, produção espanhola falada em inglês cujo nome original é “Ágora” porque é um dos poucos filmes que retrata com fidelidade o período do Império Romano Tardio e a ascensão do Cristianismo como religião oficial do Império Romano, em detrimento da civilização clássica greco-romana e do Paganismo, nas décadas que antecederam a Queda do Império do Ocidente. O filme, dirigido por Alejando Amenábar (“Mar Adentro”, “Os Outros”) é centrado na estória da personagem histórica Hipátia de Alexandria, uma filósofa neoplatônica e professora de Filosofia, Matemática e Astronomia na Escola Neoplatônica de Alexandria, que funcionava no Mouseion (Museu), considerado por alguns como uma instituição possivelmente sucessora da famigerada Biblioteca de Alexandria. Hipátia era filha do filósofo Téon, de quem ela herdou a inteligência e o amor pela ciência e cultura clássica greco-romana - que cada vez mais se viam cercadas e atacadas pelo fanatismo das lideranças cristãs – e ela trava uma luta inglória para tentar obter apoio das autoridades seculares romanas e impedir que a Escola seja engolfada pelas disputas entre cristãos e judeus, que assolam a cidade, no final do século IV D.C. Enquanto isso, seus alunos Orestes (Oscar Isaac), que se torna o Prefeito de Alexandria, e Davus (Max Minghella), escravo de Téon, debatem-se entre o amor que eles sentem pela Filósofa e as tensões provenientes da religião a qual se converteram. Hipátia é interpretada, com muita sensibilidade, pela ótima atriz inglesa de beleza suave, Rachel Weisz, e a reconstituição da antiga Alexandria é muito bem feita.

10- RESSURREIÇÃO (2016)

Produção mais recente da nossa lista, é mais um filme passado durante o período do Império Romano que aborda temas cristãos, notadamente a prisão, execução e alegada ressurreição de Jesus Cristo. Mas o interessante neste filme é que esses eventos são vistos pela ótica de um tribuno militar romano, Clavius (Joseph Fiennes), que é encarregado pelo governador romano Pôncio Pilatos (Peter Firth) de investigar o misterioso desaparecimento do corpo de Jesus da tumba onde foi sepultado, em Jerusalém. Clavius fora o encarregado de supervisionar a crucificação de Jesus e guardar o sepulcro, e, portanto, também está diretamente interessado em descobrir e punir os culpados. Entretanto, ao proceder a investigação, entrar em contato com os apóstolos e encontrar o próprio Jesus ressuscitado, Clavius acaba sendo profundamente mudado pelos acontecimentos. Reconhecemos que, de todos os filmes relacionados, este seja o que é menos representativo como obra cinematográfica, mas achamos muito original o enredo que faz torna parte do filme similar a um filme policial ou de detetive. Como curiosidade, observamos que nunca existiu, em Roma ou no Império Romano, uma instituição policial encarregada de investigar crimes comuns. Mas havia, no Exército Romano, tropas chamadas de “speculatores” que funcionavam como batedores e faziam trabalho de reconhecimento, e, ocasionalmente espionavam o território inimigo. Mais tarde, ainda durante o Império, foi criado um corpo de “Frumentarii“, que tinham o seu próprio quartel, em Roma (Castra Peregrina) e eram encarregados de tarefas de inteligência contra opositores internos, funcionando como uma polícia secreta ou polícia política, principalmente investigando indivíduos ou grupos internos considerados perigosos pelo regime imperial. Portanto, uma missão como a dada a Clavius no filme certamente seria executada pelos Frumentarii.

“ROMA” (SÉRIE – 2005/2007) – BÔNUS

Embora, a rigor, não seja uma produção cinematográfica, mas sim uma série televisiva, eu considero impossível para o leitor interessado no tema não mencionar a série da HBO, que, infelizmente, só conseguiu ser produzida para duas temporadas, devido aos custos astronômicos.

E esses custos decorrem, em sua maior parte, da primorosa produção, que, por exemplo, investiu milhões de dólares na construção de cenários grandiosos e muito historicamente acurados nos célebres estúdios Cinecittá, na própria Roma.

Entre os principais motivos que tornam “Roma” uma série imperdível é o fato de ser a única, na minha opinião, que conseguiu chegar mais perto de como seria a Antiga Roma real do século I A.C: Uma cidade enorme para os padrões da Antiguidade, com algumas construções grandiosas, mas que cresceu quase sem planejamento nenhum, onde as multidões se espremiam pelas ruas, frequentemente sujas. Uma cidade ruidosa e multicolorida. Uma cidade onde a maioria comia na rua, em tabernas (termopólios) comidas exóticas, onde ricos aristocratas circulavam em meio a multidão de proletários e escravos tentando ganhar a vida. A série retrata bem uma República estraçalhada por conflitos sociais, corrupção disseminada e disputas políticas resolvidas na base da intimidação e violência, de certa forma como se fosse uma mistura de Washington, Brasília e Mumbai transplantados para a Antiguidade, sendo que muitos estudiosos já disseram que a política no Império Romano seria bem semelhante a de alguns países do que já foi chamado de Terceiro Mundo.

O fio condutor dos episódios são os dois personagens principais, o centurião Lucius Vorenus (Kevin McKidd) e o legionário Titus Pullus (Ray Stevenson), que servem na mesma legião sob o comando de Júlio César, na Gália, sendo que esses dois militares de fato foram expressamente mencionados por César em seus “Comentários sobre as Guerras Gálicas“, em uma passagem. Durante as duas temporadas, os dois participam diretamente de vários episódios históricos no contexto da Guerra Civil do Primeiro (César x Pompeu) e do Segundo Triunvirato (Otávio x Marco Antônio). Realmente, alguns acontecimentos são bem romanceados e outros são simplesmente inventados, mas, no geral, a série retrata bem o contexto histórico em que eles ocorreram. Ciarán Hinds talvez tenha feito a melhor interpretação de Júlio César já filmada. Outros personagens marcantes são: Atia (Polly Walker), mãe de Otávio (Mark Pirkis e Simon Woods, nas fases adolescente e adulta), que era amante de Marco Antônio (James Purefoy) e inimiga figadal de Servília (Lindsay Duncan), que por sua vez, era amante de César e mãe de Brutus (Tobias Menzies), o enteado e assassino do Ditador; Marco Túlio Cícero (David Bamber); e também: Posca (Nicholas Woodeson), escravo de César; Níobe (Indira Varma), esposa de Vorenus; e Cleópatra (Lindsay Marshal).

Os 10+ (Arcos do Triunfo)

Os arcos do triunfo são uma criação romana*, um monumento normalmente isolado (isto é, que não está ligado a outros edifícios ou inserido em uma muralha ou parede), e cujo elemento principal é a existência de uma passagem sob uma ou mais arcadas, atravessadas por uma estrada ou via (quando o arco do triunfo é em formato cúbico e apresenta um arco em cada um dos seus lados, é chamado de “Tetrápilo“, do grego Tetrapylon).

Assim, basicamente, os arcos do triunfo são estruturas retangulares ou quadradas, com um ou mais arcos em suas fachadas, decoradas com relevos e ostentando uma inscrição comemorativa no ático (parte superior de uma construção, que fica acima das cornijas, na frente do telhado, ocultando este) erguidos sobre caminhos que os atravessavam, e em cujo topo havia um grupo de estátuas. A criação dos arcos do triunfo decorre do antigo costume romano de realizar uma procissão triunfal (Triunfo) pelas ruas da cidade de Roma, por ocasião das vitórias militares obtidas contra seus inimigos, onde desfilavam o general vitorioso e suas tropas vitoriosas, acompanhadas do produto do saque e dos chefes inimigos eventualmente capturados. Essa procissão também tinha um caráter religioso.

Mais tarde, durante o Império, arcos do triunfo também foram erguidos para homenagear a pessoa do imperador, não necessariamente em função do sucesso em alguma guerra (vale citar que, a partir de Augusto, os Triunfos eram exclusivos dos imperadores). Durante a República, os arcos do triunfo não eram erguidos para serem permanentes, e geralmente, no início, eram feitos de madeira (e eram então chamados de “fornices”, plural de “fornix“). Os arcos em alvenaria, revestidos de mármore, que chegaram aos dias de hoje, são do período imperial. 

A construção de arcos do triunfo espalhou-se por todo o Império e praticamente toda cidade que se prezasse construiu um. Após a Queda do Império Romano, a prática reviveu durante o período carolíngio e, principalmente, durante a Renascença. Depois disso, quase todos governantes que se propuseram a exaltar a sua própria grandeza ou a de seu país ergueram arcos do triunfo ao redor do mundo, sendo o mais famoso, o Arco do Triunfo de Paris, erguido por Napoleão, mas eles existem também, entre outros inúmeros lugares, como Moscou, Berlim, Londres, Nova York e até em Pyongyang, na Coréia do Norte.

*Nota: Os romanos não inventaram o arco e provavelmente o assimilaram da arquitetura etrusca, mas não há registro de algum povo que os tenha precedido ao construí-los do mesmo modo e com o mesmo propósito dos seus arcos triunfais.

Dito isso, sem mais delongas, vamos àqueles que eu considero os arcos do triunfo romanos sobreviventes mais bem preservados e/ou impressionantes (OBS: trata-se de uma seleção discricionária minha, e a posição na lista não indica primazia. Aceitamos outras sugestões nos comentários).

1- Arco de Tito, em Roma

Foto Jebulon, CC0, via Wikimedia Commons

Decidimos começar nossa relação pelos três arcos mais importantes sobreviventes na cidade de Roma, e destes, o Arco de Tito é o mais antigo.

O Arco de Tito foi erguido após a morte deste imperador, cujo reinado foi pelo seu irmão e sucessor, Domiciano, em 81 D.C, no Fórum Romano, para comemorar tanto a deificação do querido e finado Tito (que reinou por menos de dois anos e cuja morte foi muito pranteada pelo Senado e pelo povo), quanto a vitória que este obteve ao conquistar Jerusalém, ainda durante o reinado do pai de ambos, Vespasiano, na Guerra da Judéia, em 70 D.C.

Composto por um arco singelo, ladeado por quatro colunas coríntias, é uma construção elegante, com cerca de 15 m de altura e 13 metros de largura. Uma de suas características mais notáveis são os painéis de relevo nas paredes sob o arco, retratando a procissão triunfal com os despojos do Templo de Jerusalém, incluindo o célebre candelabro de sete braços (Menorá).

A inscrição original diz: 

“SENATVS POPVLVSQVE ROMANVS . DIVO TITO · DIVI · VESPASIANI · F(ILIO) VESPASIANO · AVGVSTO”

(“O Senado e o Povo de Roma (ao) Divino Tito Vespasiano Augusto, filho do divino Vespasiano Augusto”)

2- Arco de Septímio Severo, em Roma

Foto A. Hunter Wright, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons

Este arco foi construído no Fórum Romano, quase na frente à Cúria do Senado, em 203 D.C, e dedicado à vitória do imperador Septímio Severo, e seus filhos, Caracala e Geta, na campanha contra os Partas.

O Arco de Septímio Severo tem cerca de 23 m de altura e 25 m de largura, e é composto de um arco central maior ladeado por dois arcos laterais menores, entremeados por quatro colunas em estilo compósito, e tem sua fachada, bem como as paredes interiores dos arcos, ricamente decoradas por relevos retratando a campanha, sendo que nos ‘tímpanos” (espaços triangulares entre a moldura quadrada onde o arco se insere e este) foram esculpidas vitórias aladas carregando trófeus de despojos dos inimigos. Infelizmente, os relevos externos encontram-se bastante erodidos pelo tempo e pelas intempéries.

Como curiosidade, nota-se que as efígies retratando Geta, o filho mais novo de Septímio Severo, foram intencionalmente apagadas em função da “damnatio memoriae” (condenação de uma pessoa a ter sua imagem excluída dos registros e monumentos públicos) decretada pelo Senado Romano por ordem de seu irmão e assassino, Caracala.

A inscrição dedicatória existente no ático deste arco diz:

“IMP · CAES · LVCIO · SEPTIMIO · M · FIL · SEVERO · PIO · PERTINACI · AVG · PATRI PATRIAE PARTHICO · ARABICO · ET PARTHICO · ADIABENICO · PONTIFIC · MAXIMO · TRIBUNIC · POTEST · XI · IMP · XI · COS · III · PROCOS · ET IMP · CAES · M · AVRELIO · L · FIL · ANTONINO · AVG · PIO · FELICI · TRIBUNIC · POTEST · VI · COS · PROCOS · (P · P · OPTIMIS · FORTISSIMISQVE · PRINCIPIBUS) OB · REM · PVBLICAM · RESTITVTAM · IMPERIVMQVE · POPVLI · ROMANI · PROPAGATVM · INSIGNIBVS · VIRTVTIBVS · EORVM · DOMI · FORISQVE · S · P · Q · R.“

(“Ao Imperador César Lúcio Septímio Severo Pio Pertinax Augusto Pártico Arábico Adiabênico, filho de Marco, Pais da Pátria, Pontífice Máximo, no décimo-primeiro ano do seu Poder Tribunício, no décimo-primeiro ano de seu governo, Cônsul por três vezes, e Procônsul, e ao Imperador César Marco Aurélio Antonino Augusto Pio Feliz, filho de Lúcio, no sexto ano de seu Poder Tribunício, Cônsul e Procônsul, Pais da Pátria, melhores e mais fortes Príncipes, por conta da restauração da República e extensão do Império do Povo Romano propagados pela sua insigne virtude, em casa e no exterior, o Senado e Povo Romano (dedicam este monumento”).

3- Arco de Constantino, em Roma

Foto Paris Orlando, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Foi dedicado em 25 de julho de 315 D.C para comemorar a vitória do imperador Constantino sobre seu rival Maxêncio, na Batalha da Ponte Mílvio, em 312 D.C., entre o Coliseu, o sopé da colina do Palatino e o Templo de Vênus e Roma. Segue o estilo arquitetônico do Arco de Septímio Severo, com um arco principal ladeado por dois arcos menores, só que entremeados por quatro colunas em estilo coríntio. Alguns estudiosos sugerem que este arco teria sido construído por Adriano ou Maxêncio, e remodelado após a vitória de Constantino, para homenageá-lo. Embora seja um dos mais imponentes (e bem preservados) arcos do triunfo que sobreviveram, na verdade o Arco de Constantino foi decorado com relevos e estátuas retiradas de monumentos mais antigos, erguidos pelos imperadores Trajano, Adriano e Marco Aurélio, tendo algumas cabeças sido retrabalhadas para representar Constantino. Um elemento notável que foi reutilizado neste Arco, que já referimos em nosso artigo sobre Antínoo é o “tondo” (painel circular) retratando uma caçada a um leão realizada por Adriano e seu amante, um episódio real no qual Adriano salvou a vida de Antínoo. Para muitos estudiosos, a necessidade de retirar peças de monumentos antigos seria uma prova do declínio da arte da escultura ocorrida no período do Império Romano Tardio, dentro de um quadro geral de decadência técnica e artística, o que para outros seria um tanto discutível, já que grandes obras arquitetônicas e artísticas foram produzidas nesta época, ainda que abandonando os canônes da arte clássica.

O Arco de Constantino tem cerca de 21m de altura e 26 de largura.

A inscrição dedicatória existente no ático deste arco, originalmente feita com letras de bronze, está escrita assim:

“IMP(eratori) · CAES(ari) · FL(avio) · CONSTANTINO · MAXIMO · P(io) · F(elici) · AVGVSTO · S(enatus) · P(opulus) · Q(ue) · R(omanus) · QVOD · INSTINCTV · DIVINITATIS · MENTIS · MAGNITVDINE · CVM · EXERCITV · SVO · TAM · DE · TYRANNO · QVAM · DE · OMNI · EIVS · FACTIONE · VNO · TEMPORE · IVSTIS · REMPVBLICAM · VLTVS · EST · ARMIS · ARCVM · TRIVMPHIS · INSIGNEM · DICAVIT”

(“Ao imperador César Flávio Constantino, o maior, pio e bendito Augusto, porque ele, inspirado pelo Divino, e pela grandeza de sua mente, livrou o Estado do tirano e de todos os seus seguidores ao mesmo tempo, com seu Exército e pela força justa das armas, o Senado e o Povo de Roma dedicaram este Arco, decorado com triunfos”).

Muitos estudiosos acreditam que a incomum alusão à inspiração de Constantino pelo “Divino” constituiu já uma alusão sutil â sua devoção ao Cristianismo, ou ao menos, um prenúncio da sua conversão (que somente seria oficializada com seu batismo no leito de morte, em 337 D.C). Outros consideram que a expressão utilizada é propositadamente ambígua, de modo a não desagradar tanto os cristãos como os pagãos. Vale lembrar que as fontes relatam que, antes da Batalha da Ponte Mílvio, Constantino teria tido uma visão ou um sonho no qual uma cruz de luz apareceu no céu, acompanhada da inscrição “In hoc signus vinces” (“Neste sinal, vencerás”).

4- Arco de Trajano, em Benevento, Itália

Foto Decan, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Este arco, um dos mais bem preservados entre todos os arco romanos sobreviventes, foi construído entre 114 e 117 D.C., comemorando as vitórias do imperador Trajano contra os Dácios (provavelmente também adicionando-se posteriormente elementos relativos às suas vitórias contra os Partas), e tem 15,60 m de altura por 8,60 de largura. Podemos considerá-lo um tipo intermediário entre o Arco de Tito e o Arco de Septímio Severo, tendo apenas um grande arco central com a fachada coberta de relevos, dos quais os mais interessantes são os que retratam o imperador distribuindo pães para crianças pequenas nos ombros dos seus pais, uma alusão ao programa dos Alimenta, instituído por Trajano em favor da população pobre da Itália.

Consta de sua inscrição dedicatória o seguinte texto:

“IMP(peratori) CAESARI DIVI NERVAE FILIO NERVAE TRAIANO OPTIMO AUG(usto) GERMANICO DACICO PONTIF(ici) MAX(imo) TRIB(unicia) POTEST(ate) XVIII IMP(eratori) VII CO(n)S(uli) VI P(atri) P(atriae) FORTISSIMO PRINCIPI SENATUS P(opulus) Q(uo) R(omanus)”.

(“Ao Imperador César filho do Divino Nerva, Nerva Trajano, o melhor Augusto, Germânico Dácico, Pontífice Máximo, no décimo oitavo ano de seu Poder Tribunício, sete vezes aclamado imperador, seis vezes escolhido Cônsul, Seis Vezes aclamado Pai da Pátria, Princípe mais forte, o Senado e Povo de Roma (dedicam este monumento”).

5- Arco de Germânico, Saintes, França

Foto By Propre travail – Own work, CC BY-SA 2.5, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1965184

Este é um arco dedicado não apenas a um imperador, mas a um integrante da família imperial, Germânico, o sobrinho-neto de Augusto, que, ao adotar seu enteado Tibério, obrigou este, por sua vez a adotar o primeiro como herdeiro. O arco também é dedicado a este imperador e ao filho deste, Druso, mas estas inscrições encontram-se bem erodidas.

O Arco de Germânico foi construído na cidade de Saintes, França, então conhecida como Mediolanum Santonum, na Província da Gália Aquitânia, entre os anos 18 e 19 D.C, por iniciativa e às custas de um provincial importante, Caius Julius Rufus, e, originalmente, ficava no término da estrada que ligava Saintes a Lugdunum (atual Lyon), às margens do rio Charente. Mede 15 m de altura por 15,9 m de largura e possui dois arcos do mesmo tamanho, lado a lado.

Há uma inscrição dedicatória do monumento e outra inscrição alusiva ao financiador do monumento:

GERMANICO [CAESA]R[I] TI(berii) AUG(usti) F(ilio)
DIVI AUG(usti) NEP(oti) DIVI IULI PRONEP(oti)
[AUGU]RI FLAM(ini) AUGUST(ali) CO(n)S(uli) II IMP(eratori) II

(“A Germânico César, filho de Tibério Augusto, neto do divino Augusto, bisneto do divino Júlio, áugure, sacerdote dos augustais, Duas vezes Cônsul, aclamado imperador duas vezes“).

C(aius) IVLI[us] C(aii) IVLI(i) OTUANEUNI F(ilius) RVFVS C(aii) IVLI(i) GEDOMONIS NEPOS, EPOTSOVIRIDI PRON(epos) [SACERDOS ROMAE ET AUG]USTI [AD A]RAM QU[A]E EST AD CONFLUENT[E]M, PRAEFECTUS [FAB]RUM, D(at).

“(Dado por Caius Julius Rufus, filho de Caius Julius Otuaneunus, neto de Caius Julius Gedemonius, bisneto de Epotsovirid(i)us, sacerdote do Culto de Roma e Augusto no altar de Confluens, prefeito dos trabalhos)”.

Esta é uma inscrição muito interessante porque nela podemos ver uma expressão do processo de romanização da Gália iniciado com a conquista por Júlio César. O bisavô, Epotosvirid, é mencionado com seu nome unicamente gaulês, já o seu filho, provavelmente o primeiro integrante da família a receber a cidadania romana, e seus netos, assumem prenomes romanos e o “nomen” da gens Júlia, em homenagem ao conquistador da Gália, como era comum no Mundo Romano, ainda acompanhados de um gentílico gaulês. Já o bisneto, o doador do monumento, Gaius Julius Rufus é apresentado com os seus três nomes na forma tradicional romana (tri nomina) completamente romanizados. Era característico da colonização romana manter as lideranças locais que aderiam aos conquistadores na condição de magistrados governantes das cidades, por isso, a família de Rufus provavelmente já devia ser da nobreza gaulesa mesmo da Conquista da Gália por César, o que, implicitamente, é orgulhosamente afirmado pela menção ao bisavô. Observe-se que “Confluentem” refere-se à Lugdunum (Lyon), que fica na confluência dos rios Ródano e Saône.

6- Arco dos Sérgios, Pula, Croácia

Foto By Sailko – Own work, CC BY 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=68380995

Escolhemos este arco (que na verdade é um arco funerário), porque ele é um dos raríssimos arcos sobreviventes dedicados não a um imperador ou membro da família imperial, mas a integrantes de uma família da elite, no caso, da cidade de Pola (atual Pula, na Croácia), que foi elevada ao status de colônia entre 45 e 46 A.C., durante a ditadura de Júlio César. Com efeito, as inscrições existentes no arco contam que ele foi erguido às expensas de Sálvia Póstuma Sérgia, provavelmente esposa (ou mãe) de Lúcio Sérgio Lépido, filho de Lúcio, que foi Edil (magistrado da cidade) e Tribuno Militar da Legião XXIX, e que deve ter falecido na Batalha de Actium, em 31 A.C. Poucos anos depois, o imperador Augusto, em 27 A.C., dissolveu a XXIX Legião, dentro do seu projeto de manter apenas 28 legiões compondo o Exército Romano. Portanto, estudiosos estimam que o arco deve datar aproximadamente do ano da dissolução da referida legião. Além dos dois, o Arco dos Sérgios também ostenta inscrições em memória de Lúcio Sérgio e Cneu Sérgio, filhos de Caio Sérgio, sendo o primeiro o pai de Lúcio Sérgio Lépido, e o segundo, tio deste. As inscrições e as marcas existentes no topo do ático implicam que deveria haver estátuas dos quatro indivíduos mencionados dominando o monumento.

Devemos observar que é um fato muito raro a dedicação de um arco do triunfo a alguém que não fosse imperador ou seu familiar, entretanto, no início do reinado de Augusto, sabe-se que houve a construção de arcos dedicados a heróis militares caídos, sendo apontada a existência de um arco erigido em homenagem a Nero Cláudio Druso, morto em campanha contra os bárbaros em 9 A.C, na Germânia (em função da queda do cavalo). Druso era enteado de Augusto e irmão do seu futuro sucessor, Tibério. Neste mesmo ano, o Senado decretou a construção de um arco honorário em sua homenagem (o qual não chegou até os nossos dias). E, de fato, há elementos decorativos no Arco dos Sérgios que denotam que se trata de um monumento a um herói caído em uma batalha vitoriosa. Mais informações sobre este arco podem ser obtidas neste ótimo artigo na revista Histria Archeol., no link https://hrcak.srce.hr/file/390387.

As inscrições existentes no arco são:

Salvia Postuma Sergi (uxor) de sua pecunia

L(ucius) Sergius C(ai) f(ilius), aed(ilis), (duo)
vir (L).
L(ucius) Sergius L(uci) f(ilius) Lepidus, aed(ilis), tr(ibunus)
mil(itum) leg(ionis) XXIX (M).T

Cn(aeus) Sergius C(ai) f(ilius), aed(ilis),
(duo)vir quinq(uennalis) (N).

Salvia Postuma Sergi (uxor)

(Salvia Postuma Sérgia, esposa, com seu (próprio) dinheiro; Lúcio Sérgio, filho de Caio, edis, duúnviros; Lúcio Sérgio Lépido, filho de Lúcio, edis, tribuno militar da XXIX Legião; Cneu Sérgio, filho de Caio, edis, duúnviros quinquenais; Salvia Postuma Sérgia, esposa)

7- Arco de Septímio Severo, Leptis Magna, Líbia

Foto By Daviegunn – self-made by David Gunn, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2217905

Um exemplo de arco do tipo “tetrapylon“, isto é com quatro arcos, um em cada fachada da estrutura quadrada sobre duas passagens em ângulos retos, o Arco de Septímio Severo, com 16 m de altura, foi construído por este imperador (193-211 D.C) em Leptis Magna, sua cidade natal na Província da África, que foi especialmente agraciada por ele com a construção de diversas obras públicas grandiosas. Acredita-se que o arco deve ter sido inaugurado por ocasião da visita que o imperador fez à cidade, em 203 D.C. O monumento comemora a vitória obtida contra os Partas, o que se infere de alguns relevos retratando estes inimigos, mas também homenageia a própria família real. Somente em 1928 o Arco de Septímio Severo foi escavado, em ruínas e com parte de seus relevos dispersos pela cidade, sendo reconstituído com o auxílio dos arqueólogos. Praticamente toda a inscrição dedicatória deste arco se perdeu, remanescendo apenas as palavras “divo” (divino), certamente referente ao próprio imperador Severo, e “diva” (divina), provavelmente alusiva à imperatriz Júlia Domna, esposa dele.

8- Arco de Augusto, Susa, Itália

Foto By Duvilar (Lorenzo Rossetti) – photo taken by Duvilar (Lorenzo Rossetti), CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1138377

Trata-se de um arco do triunfo bem modesto, comparado com os outros de nossa relação, mas muito significativo, pelo motivo que explicaremos abaixo.

O Arco de Augusto foi erguido por Marcus Julius Cottius um líder de várias tribos ou povoados celto-lígures situados nos Alpes Cócios (assim batizados em razão do nome dele), na região do Piemonte, na atual província de Turim, no começo do reinado do imperador Augusto, no final do século I A.C, provavelmente por volta do ano 12 A.C. O Arco mede 11,93 m de altura por 7,3 m de largura.

A inscrição dedicatória do monumento relata:

“IMP · CAESARI · AVGVSTO · DIVI · F · PONTIFICI · MAXVMO · TRIBVNIC · POTESTATE · XV · IMP · XIII · M · IVLIVS · REGIS · DONNI · F · COTTIVS · PRAEFECTVS · CEIVITATIVM · QVAE · SVBSCRIPTAE · SVNT · SEGOVIORVM · SEGVSINORVM · BELACORVM · CATVRIGVM · MEDVLLORVM · TEBAVIORVM · ADANATIVM · SAVINCATIVM · ECDINIORVM · VEAMINIORVM · VENISAMORVM · IEMERIORUM · VESVBIANIORVM · QVADIATIVM · ET · CEIVITATES · QVAE · SVB · EO · PRAEFECTO · FVERVNT“

(“Ao Imperador Augusto, filho do Divino César, Pontífice Máximo, no exercício do Décimo Quinto Ano de seu Poder Tribunício, Treze Vezes Aclamado Imperador, (dedicado) por Marcus Julius Cottius, filho do rei Donnus, Governador das cidades dos Segovii, Segusini, Belaci, Caturiges, Medulli, Tebavii, Adanates, Savincates, Ecdinii, Veaminii, Venisamores, Iemerii, Vesubianii e Quadiates, e pelas cidades acima referidas, sob (a autoridade d)este Governador”)

Eu considero que esta inscrição é que torna o Arco de Augusto tão interessante, uma vez que ela demonstra como foi demorada e complexa a assimilação das tribos alpinas pelo Estado Romano. Sabemos quo rei Donnus,, pai de Marcus Julius Cottius, que dedicou este arco, fez um acordo com Júlio César, para permitir a passagem das tropas dele para a Gália. A inscrição contida no Arco de Augusto corrobora que Marcus Julius Cottius continuou sendo a autoridade na região, agora convertido em governador (Praefectus) romano. Inclusive, o filho dele, Gaius Julius Donnus II, e seu neto, Marcus Julius Cottius II foram seus sucessores (o cargo de governador romano não era hereditário), sendo que a região continuou a ser referida como “Reino dos Cócios” pelos historiadores romanos. E, para consagrar a surpreendente condição autônoma que esta região setentrional da atual Itália, tão próxima de Roma, conseguiu conservar, vale mencionar que, efetivamente, Marcus Julius Cotius II teve restaurado o título de rei, detido por seu mencionado bisavô, durante o reinado do imperador Cláudio.

9- Arco dos Gávios, Verona, Itália

Foto Andrea Bertozzi, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

É, junto com o Arco dos Sérgios, um raríssimo exemplar sobrevivente de um arco que comemora uma família privada. Os Gávios eram uma família proeminente de Verona, provavelmente conectados a gens Gavia, de Roma, que originalmente era de origem plebéia. Em algum momento durante a metade do século I D.C, algum membro da família dos Gávios comissionou a construção do Arco que leva o nome deles, em Verona, ou a Municipalidade o construiu em honra de quatro membros da família cujos nomes foram insculpidos no monumento, afinal, esta obra de fato obedece os 3 atributos que um edifício deveria possuir, segundo Vitrúvio: firmitas (força), utilitas (utilidade) e venustas (beleza)…

O Arco dos Gávios foi construído sobre a Via Postumia, estrada romana que ligava Gênova a Aquileia, passando por Verona, do lado de fora das muralhas da cidade, e mede 12,69 m de altura por 10,96 de largura.

O que torna tão interessante este arco é o fato de ser o único em que consta o nome do seu arquiteto: Lucius Vitruvius Cerdo, liberto de Lucius. Outro Vitrúvio, o célebre arquiteto romano Marcus Vitruvius Pollio escreveu o único tratado de arquitetura sobrevivente da Antiguidade (De architectura), entre 30 e 20 A.C., e é uma possibilidade instigante que Lucius Vitruvius Cerdo possa ter sido um liberto da família do grande arquiteto, que aprendeu com eles o ofício.

O Arco dos Gávios ostenta as seguintes inscrições sobreviventes:

CURATORES L[ARUM] V[ERONENSIUM IN HONOREM …] GAVI CA… DECURIONUM DECRETO.

(“Curadores dos L[ares] de V[erona] em honra…Gávios Ca… (Por) Decreto dos Decuriões”).

Nos pedestais dos nichos existentes no Arco, que originalmente continha estátuas dos homenageados, constam os nomes de quatro membros da família dos Gávios, sendo ainda legíveis os nomes de Caius Gavio Strabo e Marcus Gavio Macrone, filhos de Caius Gavio, e de Gavia, filha de Marcus Gavio.

A outra inscrição, já mencionada, menciona o arquiteto do monumento:

L(UCIUS) VITRUVIUS L(UCI) L(IBERTUS) CERDO ARCHITECTUS.

(“L(ucius) Vitruvius Cerdo, Liberto de Lucius, Arquiteto”)

10- Arco Triunfal de Orange, Orange, França

Foto: Carole Raddato from FRANKFURT, Germany, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

O Arco Triunfal de Orange foi construído provavelmente por ordem do imperador Augusto na cidade romana de Arausio (Colonia Julia Firma Secundanorum Arausio), fundada em 35 A.C para acomodar veteranos da Legião II Sabina, no lugar de um antigo povoado gaulês. Esta Legião teria sido recrutada por Pompeu, o Grande ou por Júlio César, e após o assassinato deste, lutou ao lado do Segundo Triunvirato, terminando por aderir à causa do herdeiro escolhido por César, seu sobrinho-neto Otaviano, o futuro imperador Augusto, que rebatizou-a como Legião II Augusta. Acredita-se que o Arco tenha sido erguido em meados do reinado de Augusto (27 A.C-14 D.C), e, posteriomente, sofrido uma remodelação no reinado de seu sucessor Tibério, em 27 D.C., provavelmente por ter sido danificado, embora não saibamos a causa. O Arco mede 19,22m de altura por 19,57 de largura, e por baixo dele passa a Via Agrippa, construída por Marco Vipsânio Agripa, braço-direito de Augusto, ligando várias cidades romanas da Gália, entre 39 A.C e 13 A.C (as estimativas variam).

Este monumento é caracterizado por elaborados relevos, retratando cenas de batalhas entre romanos e celtas e entre romanos e germanos, e troféus de armas e armaduras bárbaras, muito bem detalhados, obtidos pelos romanos nestes combates, além de elementos alusivos à batalhas navais. Os elementos relativos aos germânicos teriam sido acrescentados para homenagear as vitórias obtidas por Germânico, filho adotivo de Tibério, na Germânia, que morreu em 19 D.C., e os navais seriam originais da construção do monumento e fariam referência à Batalha de Actium, da qual teriam participado os veteranos da Legião II Augusta.

Somente a inscrição dedicatória do reparo ou reconstrução feitos por Tibério sobreviveu, e a mesma diz:

TI • CAESAR • DIVI • AVGVSTI • F • DIVI • IVLI • NEPOTI • AVGVSTO • PONTIFICI • MAXIPOTESTATE • XXVIII • IMPERATORI • IIX • COS • IIII • RESTITVIT • R • P • COLONIAE (or RESTITVTORI • COLONIAE) 

(A Tibério César, filho do Divino Augusto, neto do Divino Júlio, Augusto, Pontífice Máximo, exercendo o Poder Tribunício pela vigésima oitava vez, aclamado Imperador pela oitava vez, em seu quarto consulado, que o restaurou ao patrimônio da Colônia”)

Finalmente, devemos mencionar que o leiaute deste arco possivelmente inspirou o do Arco de Septímio Severo.