Em 4 de janeiro de 46 A.C, as legiões comandadas por Caio Júlio César enfrentaram o exército da facção aristocrática do Senado Romano (Optimates) que vinham combatendo o Ditador da República Romana desde o início da Guerra Civil, em 49 A.C.
Altes Museum, Public domain, via Wikimedia Commons
Após a derrota na Batalha de Farsália e a fuga e assassinato do campeão dos Optimates, Pompeu, o Grande, no Egito, o sucessor deste no comando militar das forças aristocráticas, Cipião Metelo, reuniu um grande exército na África do Norte.
Quando soube dos preparativos de Cipião Metelo, o sempre resoluto César, como era de seu feitio, agiu imediatamente e resolveu desembarcar na costa da Tunísia, próximo ao porte de Sousse, com apenas 3150 soldados, em 28 de dezembro de 47 A.C, sem sequer aguardar que o restante da 10ª Legião, a unidade na qual ele mais confiava, tivesse chegado a Sicília para embarcar rumo à África.
Acredita-se que, naquele momento, César ainda não tivesse reunido o número de navios necessários para transportar todas as suas forças para a África, mas, de qualquer modo, ele entendeu que não valia a pena esperar e resolveu cruzar o Mediterrâneo para derrotar seus oponentes.
[[File:Caesar campaigns from Rome to Thapsus-fr.svg|Caesar_campaigns_from_Rome_to_Thapsus-fr]]
Assim, no dia 1º de janeiro de 46 A.C., o pequeno exército de César acampou próximo à cidade de Ruspina, que seria o seu quartel-general naquela campanha. Para melhorar um pouco a sua situação, em 4 de janeiro, César recebeu reforços (ele tinha agora cerca de 9000 homens) e ordenou que 30 coortes de infantaria (incompletas), apoiadas por 400 cavaleiros e 150 arqueiros saíssem para colher suprimento de trigo nos campos vizinhos.
Porém, enquanto estavam em campo aberto colhendo o cereal, as tropas de César foram engajadas por contingentes de cavalaria comandados por Tito Labieno, um general que, inicialmente, tinha sido um grande auxiliar de César, mas que, por motivos incertos, desertara em favor de Pompeu e que, a partir de então, tornou-se um dos inimigos mais extremados do Ditador. Em minoria, as tropas de César foram cercadas e ele teve que ordenar que formassem um “orbis”, ou seja, uma formação defensiva em formato de círculo.
A 2ª gravura mostra soldados romanos formando uma “tartaruga” e um “orbis”. Foto de Justus Lipsius (1547-1606), Public domain, via Wikimedia Commons
Cavalgando à frente da suas tropas, consta que Labieno chegou a uma certa distância e falou em altos brados para os legionários de César, fixando-se particularmente em um legionário. Travou-se, assim, à distância, um curioso diálogo:
Labieno: “-Recruta! O que você pensa que está fazendo? Você é apenas outro que foi enganado pelas belas palavras de César, não é? Vou ser sincero com você, ele te colocou nesta situação desesperadora e eu sinto muito por você.”
Recruta: “-Eu não sou um recruta inexperiente, Labieno. Eu sou um veterano da 10ª Legião!”
Labieno: “-Da Décima? Eu não estou vendo aqui os estandartes da Décima…Vamos ver do que você é feito!”
Recruta: “-Logo você vai ver do que eu sou feito…”
O recruta tirou o elmo e mostrou o rosto descoberto para Labieno, e completou:
“- Está vendo o meu rosto? Vai se lembrar dele….”
A distância era longa, mas o legionário lançou o seu dardo e, para a surpresa de todos, atingiu o cavalo de Labieno no peito, que caiu ao solo, jogando o general no chão, para delírio dos soldados de César, que vibraram ainda mais quando o legionário assim concluiu:
“-Quem sabe no futuro isso vai te ajudar a reconhecer um soldado da Décima, Labieno!”
Apesar desse episódio, o ataque das tropas de Labieno, que estavam em maior número, chegou bem perto de subjugar completamente o menor exército de César, não fosse pelo tirocínio deste em ordenar que metade dos homens formasse uma linha voltada para um lado e outra metade voltada para a retaguarda, e, imediatamente, ordenado que ambas as linhas avançassem a toda força para romper o cerco.
A manobra de César conseguiu abrir uma lacuna nas tropas inimigas, que foi prontamente explorada por suas forças, que marcharam a toda velocidade em direção ao acampamento. Porém, antes que conseguissem chegar à segurança da sua paliçada, a coluna de César foi atacada novamente pelas forças de Labieno, reforçadas pela cavalaria númida comandada pelo general Marcus Petreius.
Mesmo assim, César conseguiu atingir uma pequena elevação, onde teve que se entrincheirar, sendo cercado por todos os lados. Em determinado ponto, a luta estava tão desesperada que um porta-estandarte (aquilifer) do exército dele tentou fugir, momento em que César, em pessoa, teve que agarrar o pobre soldado e empurrá-lo de volta para a linha de frente, enquanto gritava:
“-Veja, o inimigo fica para lá!”.
Um aquilifer da X Legião, por James William Edmund Doyle, Public domain, via Wikimedia Commons
As fontes não são unânimes, mas Cássio Dião e Apiano narram que a maior parte das tropas de César na Batalha de Ruspina foi morta, ferida ou capturada, mas César conseguiu escapar durante o entardecer com alguns sobreviventes e se juntar ao resto das tropas que ficaram no acampamento.
Segundo Apiano, foi o general Petreius que decidiu mandar parar a ofensiva com o cair da noite, tendo chegado a dizer que não queria roubar a vitória do comandante Cipião Metelo. Só então, os dois exércitos oponentes retiraram-se do campo de batalha. O recrudescimento do inverno interromperia por algum tempo as operações em larga escala, limitando-se ambos a partir de então a escaramuças.
O fato é que César teve sorte em escapar de uma derrota certa, sorte que foi ajudada pela sua indiscutível presença de espírito e capacidade de lidar com as adversidades no campo de batalha. No entanto, a sua legendária audácia e rapidez de movimento, que tanto tinham lhe sido valiosas antes da expedição à África, agora quase lhe custaram a vida.
Três meses mais tarde, César enfrentaria novamente os inimigos, agora já com os reforços enviados da Itália, na Batalha de Tapsos.
Fonte: “Ceasar’s Legion, The Epic Saga of Julius Caesar’s Elite Tenth Legiona and the Armies of Rome“, Stephen Dando-Collins.
(Cabeça de Diocleciano, foto de Giovanni Dall’Orto)
Origem
Em 22 de Dezembro de 244 D.C., nasceu, em Salona, na província romana da Dalmácia, próximo à atual cidade de Split, na Croácia, Gaius Aurelius Valerius Diocletianus(Diocleciano).
(Ruínas romanas de Salona)
O nome verdadeiro de nascença de Diocleciano era Diocles Valerius e ele era filho de um humilde escriba de um senador chamado Anulinnus. Com efeito, acredita-se que o pai de Diocleciano era provavelmente um escravo liberto ou então filho de um liberto.
Embora não saibamos nada sobre a infância e juventude de Diocleciano, é certo que ele alistou-se no Exército Romano e, como muitos conterrâneos de origem ilíria, foi sendo promovido até as mais altas patentes.
Assim, quando a História começa a mencionar a carreira de Diocleciano, ele já ocupava o importante posto militar de Duque da Moésia (Dux Moesiae), no baixo Danúbio.
Ascensão
Em 282 D.C., Diocleciano foi promovido pelo imperador Caro ao prestigioso posto de Comandante dos “Protectores Domestici”, o corpo de cavalaria de elite que funcionava como uma espécie de Guarda Imperial. Nesta condição, Diocleciano acompanhou Caro na guerra contra a Pérsia.
Aclamação
Após a morte de Caro no Oriente, em 283 D.C. (segundo consta, ele foi atingido por um raio enquanto travava a bem sucedida campanha contra os Persas), os seus filhos Carino e Numeriano, assumiram o trono, sendo que o primeiro assumiu, informalmente, o governo da metade ocidental do Império, e o último, o do Oriente.
Porém, no decorrer do ano seguinte, Numeriano morreu, acometido de uma misteriosa inflamação nos olhos, quando voltava da Pérsia (algumas fontes levantem a suspeita de que ele foi assassinado pelo Prefeito Pretoriano, Lucius Flavius Aper (Áper).
Verdadeira ou não a participação de Áper na morte de Numeriano, o seu suposto crime não lhe trouxe o proveito esperado, pois, quando o exército imperial alcançou os subúrbios de Nicomédia (atual Izmir, na Turquia), um conselho de generais escolheu Diocleciano como sucessor, em 20 de novembro de 284 D.C.
Na presença das tropas reunidas para a sua aclamação, Diocleciano imediatamente acusou Áper de ter assassinado Numeriano e, em seguida, executou-o com a própria espada, na frente dos soldados estupefatos (há quem defenda que Diocleciano estava implicado na trama que assassinou o imperador e a morte de Áper teria sido na verdade uma “queima de arquivo”).
Eliminando o rival
Ao assumir o seu primeiro consulado, Diocleciano escolheu como colega Lúcio Cesônio Basso, um experiente político de uma ilustre família romana, e, não, como seria natural, o outro imperador, Carino, o filho de Numeriano que reinava em Roma. Este ato representava uma na prática uma declaração de rompimento com Carino, prenunciando uma guerra civil.
Todavia, a disputa entre Carino e Diocleciano foi breve: Diocleciano avançou para o Oeste em direção à Itália e foi confrontado pelas forças de Carino na província da Moésia, no rio Margus, próximo a Viminacium, que ficava no território vizinho à atual Belgrado. No começo da batalha, Aristóbulo, o prefeito pretoriano de Carino desertou para o campo inimigo. Antecipando a derrota, os próprios soldados de Carino, mataram o seu imperador e aclamaram Diocleciano, em julho de 285 D.C.
Consolidando o poder
Contrariando o que se esperava de um imperador romano do século III D.C, o vitorioso Diocleciano não perseguiu os partidários de Carino, mantendo nos cargos muitos dos auxiliares deste, o que emulava, de certa forma a célebre clemência de Júlio César. Por sua vez, Aristóbulo foi mantido como Prefeito Pretoriano e Basso foi nomeado Prefeito Urbano de Roma.
Um dos primeiros atos de Diocleciano no trono foi escolher um colega para governar em conjunto com ele e o escolhido foi seu velho amigo e companheiro de armas, o general e conterrâneo de origem ilíria, Marcus Aurelius Valerius Maximianus (Maximiano). Embora os amigos compartilhassem a origem humilde, Maximiano, ao contrário de Diocleciano, era um homem muito mais áspero e implacável. Não obstante, Diocleciano mantinha sobre o amigo uma perceptível ascendência moral e intelectual. Assim,em 1º de abril de 286 D.C., Maximiano foi elevado do posto de “César” para o de “Augusto”, que correspondia ao de Imperador.
(Cabeça de Maximiano
Sintomaticamente, os dois Augustos concederam-se os títulos de “Júpiter” (Diocleciano) e de “Hércules”(Maximiano). Com efeito e não por acaso, os títulos e os atributos das divindades escolhidas visavam ilustrar o papel de ambos no Império Romano, onde Diocleciano aparecia como o sábio pai dos deuses e chefe do Olimpo e Maximiano como o guerreiro encarregado das tarefas militares. Desse modo, embora os dois fossem juridicamente iguais, Diocleciano mantinha para si, na prática, o status de “imperador sênior”.
Campanhas internas e externas
Diocleciano, desde logo o início do seu reinado, demonstrou uma certa rejeição à cidade de Roma. Muitos historiadores até acreditam que ele sequer chegou a visitar a velha capital quando de sua ascensão ao trono, ou, segundo outros, ele passou por lá tão brevemente que, em novembro de 285 D.C., ele já estava nos Bálcãs em campanha contra os Sármatas, os quais foram batidos, embora não esmagados.
Enquanto isso, Maximiano lidava com os bandos de fora-da-lei conhecidos como bagaudas, no norte da Gália. Submetidos estes, foi a vez dele combater a insurreição de seu subordinado Caráusio, o comandante da frota do Mar do Norte, que chegou a ser aclamado “Imperador da Britânia”. Porém, Caráusio estava firmemente estabelecido na Ilha e lá ele conseguiu resistir por sete anos, cunhando moedas em que ostentava o título de imperador e “irmão” de Diocleciano e Maximiano e louvava a concórdia (paz) entre eles.
Maximiano resolveu lutar contra os Alamanos, na fronteira do Reno, os quais ele combateu inicialmente sozinho, recebendo, posteriormente, a ajuda do colega Diocleciano. Essa campanha foi bem sucedida, e Diocleciano pode voltar sua atenção para o Oriente, onde os Persas criavam problemas crescentes.
Estabelecido em Nicomédia, as iniciativas de Diocleciano asseguraram a assinatura de um tratado de paz com os persas bastante favorável a Roma, que conseguiu instalar um rei-cliente no trono da Armênia. No Oriente, Diocleciano ainda combateu invasores árabes (sarracenos) na Palestina.
Na virada do ano de 290 D.C para 291 D.C, Diocleciano voltou para a Itália, onde encontrou com seu colega Maximiano em Milão, que tinha passado a ser a capital do Ocidente.
Outras questões externas que ocupariam Diocleciano foram novos ataques dos Sármatas, um povo de origem iraniana, em 294 D.C., que foram derrotados de modo mais duradouro. O imperador decidiu reforçar a fronteira do Danúbio construindo uma cadeias de fortes abrangendo as cidades de Aquincum (atual Budapeste), Bononia (atual Vidin, na Bulgária), Ulcisia Vetera, Castra Florentium, Intercisa (atual Dunaújváros, na Hungria) e Onagrinum (atual, Begec, na Sérvia), que se tornaram parte de uma nova linha defensiva chamada de Ripa Sarmatica. Em 295 e 296 D.C., foi a vez dele dar combate à tribo bárbara dos Carpi, os quais também foram derrotados.
A Tetrarquia
A vivência da eclosão de crises simultâneas em diferentes partes do Império certamente contribuiu para estimular Diocleciano a idealizar a medida mais revolucionária do seu reinado: a chamada Tetrarquia, em 293 D.C.
Em 1º de março de 293 D.C., Diocleciano resolveu nomear o general Flávio Constâncio “Cloro”, genro de Maximiano e Prefeito Pretoriano da Gália, e recentemente encarregado da campanha contra Caráusio, como “César“, o que caracterizava, na prática, o posto de imperador “júnior”, e de herdeiro de Maximiano. Provavelmente, na mesma data ou um pouco depois, Diocleciano nomeou seu genro, o general Galério, marido de sua filha Valéria (Diocleciano não teve filhos homens), para o posto de César, passando a ser o seu herdeiro.
Bloco de pórfiro entalhado com a representação dos Tetrarcas, trazido de Constantinopla pelos venezianos e colocado na lateral da Basílica de San Marco
Diocleciano considerava o Império Romano grande demais para ser governado por apenas um monarca, motivo pela qual instituiu a Tetrarquia, onde ele seria administrado por quatro governantes imperiais, sendo dois mais graduados, que teriam o título de “Augusto“, inicialmente com as respectivas capitais em Milão e Nicomédia, e dois, em plano um pouco inferior e subordinados a eles, nomeados “César“, instalados em Trier e Sirmium. A escolha dos “Césares”, pelos “Augustos”, visava assegurar uma sucessão tranquila e automática, teoricamente baseada no mérito, sendo que, quando o trono ficasse vago, o “César”, já previamente nomeado e experimentado na tarefa de governar, assumiria o posto vago de “Augusto” e, por sua vez, este escolheria o novo “César”.
(Embora a ilustração retrate Maxêncio, os trajes dele certamente são os mesmos que os tetrarcas deviam usar, incluindo o tradicional gorro ilírio, costumeiramente utilizado pelos militares originários daquela região e que também foi retratado na escultura existente na Basílica de São Marcos).
Reformando o Império
Outra grande reforma administrativa promovida por Diocleciano foi a redivisão das cerca de 50 províncias romanas em 100 unidades menores, agrupadas em doze “Dioceses”, governadas por “Vigários”(Vicarii). Esses Vigários deixaram de ter funções militares, que foram transferidas para dezenas de “Duques” (Duces), mas retendo funções administrativas, judiciárias e fiscais. Dessa forma, Diocleciano tencionava diminuir a possibilidade de revoltas, tão frequentes durante o período imperial, dividindo e diminuindo o poder de que disporiam esses administradores.
Diocleciano também praticamente dobrou o número de funcionários públicos civis e também os efetivos do Exército Romano.
O consequente aumento da despesa pública gerado pelo aumento do tamanho do funcionalismo público e dos militares foi enfrentado com uma grande reforma no sistema tributário imperial. Após a realização de um abrangente e detalhado censo, foram estabelecidas duas unidades fiscais chamadas de “jugum” e de “caput”, a primeira levando em consideração uma determinada área de terra em função do tipo e da quantidade de produção agrícola que ela seria capaz de sustentar, num conceito um tanto parecido com o do módulo rural, e a segunda, o número de pessoas que neles viviam, podendo variar em função do sexo e idade. Em decorrência, os impostos passaram a serem calculados em função da quantidade de “jugera” e “capita” atribuídos a cada região ou cidade integrante do Império. E os impostos agora passavam a ser pagos não apenas em dinheiro, mas também em gêneros (conferir a esse respeito a obra The Later Roman Empire, de A.H.M. Jones)
Para combater a crescente inflação, Diocleciano determinou duas medidas:
1- Uma reforma monetária, estabelecendo três tipos de moeda: de ouro (aureus), de prata (argenteus) e de cobre (follis), fixando os percentuais de metais nas ligas com as quais elas seriam cunhadas.
(Um “Antoniniano” de Diocleciano, moeda anterior a reforma monetária, foto de Sosius11)
2- Entretanto, como a inflação não cedia, Diocleciano baixou o seu célebre “Édito de Preços Máximos”, em 301 D.C., que se tratava de uma verdadeira lei de congelamento de preços, bem similar às tão conhecidas dos brasileiros em tempos não tão distantes e que, da mesma maneira que as leis brasileiras, não deu certo, gerando desabastecimento…
(lápide contendo parte do Édito de Preços Máximos, de Diocleciano)
Uma outra medida de Diocleciano, e que, para muitos historiadores, teria influência duradoura na Europa Medieval, foi a lei que obrigava aos camponeses e seus descendentes a trabalharem permanentemente nas terras agrícolas, tornando compulsória e hereditária esta atividade, além de outras profissões, entre as quais as de soldado, padeiro e até mesmo a função de membros das câmaras municipais, uma política que muitos veem como uma das origens do sistema feudal.
Diocleciano procurou assegurar a estabilidade política do trono promovendo uma verdadeira sacralização da pessoa do imperador, algo que ele fez, não por vaidade, mas para impedir as reiteradas conspirações para derrubar os imperadores romanos, tão comuns ao longo da história imperial. Assim, o cerimonial da corte tornou-se altamente ritualístico, estabelecendo-se como dever de todos que chegassem à presença do imperador prostrar-se no solo (“adoratio”), como se estivessem na presença de um deus. Do mesmo modo, somente o monarca poderia usar a cor púrpura. O título imperial de “Príncipe”, que tinha origem na expressão “primeiro senador”, foi substituído pelo de “Dominus” (Senhor).
O Conselho do Imperador (“Consilium”), que tradicionalmente tinha entre seus componentes algum senador ou figura pública, foi substituído pelo Consistório, um nome que denotava uma assembleia particular e privada.
A ênfase no culto ao imperador, decorrente da política acima citada, levou inevitavelmente à exigência de demonstrações públicas de devoção. Não surpreende, assim, que os Cristãos, que admitiam adorar apenas um Deus, tenham sido alvo de uma perseguição implacável por Diocleciano, decretada em 303 D.C, e que seria batizada pela Igreja Católica como “A Grande Perseguição”. Não obstante, não se pode afirmar que Diocleciano, pessoalmente, nutrisse ódio ou inimizade pelo Cristianismo.
Com efeito, as medidas de Diocleciano contra a fé cristã parecem decorrer mais de sua vontade dele ser o restaurador da velha grandeza do Império Romano, o que também incluía o fortalecimento da religião tradicional romana, do que a um ódio particular contra esta religião. Consta que o seu colega Galério é que era radicalmente avesso aos cristãos. Curiosamente, vale notar que, segundo algumas fontes, Valéria, filha de Diocleciano e esposa de Galério, era simpatizante do Cristianismo ou seria até mesmo cristã, o mesmo ocorrendo com sua mãe, Prisca.
Abdicação e aposentadoria
Em 20 de novembro de 303 D.C., Diocleciano finalmente visitou Roma para comemorar o vigésimo aniversário do seu reinado. Foi uma breve estadia, pois o imperador não gostou das maneiras pouco deferentes dos romanos. Um mês depois, ele viajou para Ravena, de onde partiu para uma campanha no Danúbio. Porém, a saúde de Diocleciano começou a piorar e ele resolveu voltar para Nicomédia, onde ficou recluso no palácio, o que fez circular o boato de que ele havia morrido.
Em março de 305 D.C., Diocleciano reapareceu em público. Poucos dias depois, Galério chegou à Nicomédia. Então, em 1º de maio do mesmo ano, Diocleciano reuniu os generais do Exército e anunciou que ele estava doente e que precisava descansar. E, num gesto inédito na história do Império Romano, o imperador comunicou que iria abdicar em favor de um herdeiro mais capaz: Com base no sistema da Tetrarquia, Galério o sucederia como Augusto e Maximiano também abdicaria, fiel e obedientemente, do trono, sendo sucedido por Constâncio Cloro.
A grande surpresa, porém, foi quando se anunciaram quem seriam os novos Césares…Com efeito, todos pensavam que Maxêncio, filho de Maximiano, e Constantino, filho de Constâncio Cloro, seriam os novos Césares. Porém, os escolhidos foram Maximino Daia, sobrinho de Galério, e Severo, este um velho amigo de Galério. Portanto, a Tetrarquia, que mal começara, já nascia, assim, ameaçada em sua estabilidade pelo preterimento de dois candidatos naturais à sucessão. Tudo indica que isso decorreu da vontade de Galério, que era agora o verdadeiro homem-forte da Tetrarquia.
Diocleciano, após a abdicação, foi viver em seu espetacular palácio-fortaleza na cidade de Salona, em sua terra natal. Boa parte deste palácio ainda existe e, em seu vasto interior, nasceu a atual cidade de Split, na Croácia.De fato, Diocleciano parece ter encontrado a verdadeira felicidade cuidando de suas hortas e jardins. Assim, consta que, durante a guerra civil que logo eclodiu entre os seus sucessores e precipitou o fim da Tetrarquia, Diocleciano foi instado por populares a reassumir o trono, ao que ele teria respondido:
“Se vocês pudessem mostrar ao imperador os repolhos que eu plantei com minhas próprias mãos, ele definitivamente jamais sugeriria que eu trocasse a paz e a felicidade deste lugar pelas tormentas de uma insaciável ambição”.
Morte
Diocleciano morreu em 03 de dezembro de 312 D.C., aos 67 anos de idade, em seu palácio em Split, sendo sepultado em um mausoléu octogonal que ele havia mandado construir no interior do mesmo.
Reconstituição da aparência do Palácio de Diocleciano, em Split
Legado
O principal feito de Diocleciano foi conseguir dar estabilidade ao Império após um século de crises, guerras civis, derrotas militares e tumultos. Efetivamente, fazia mais de cem anos que um imperador não conseguia reinar 20 anos: A média no período tinha sido de cerca de três anos de reinado para cada imperador em 100 anos. Para isso contribuiu, certamente, a sacralização da imagem do Imperador, oficialmente estabelecida como “Dominus et Deos” (Senhor e Deus). Por isso, o reinado de Diocleciano é considerado um marco que divide a História do Império Romano entre os períodos do “Principado” ( a partir de Augusto, o primeiro imperador) e do “Dominado” (a partir de Diocleciano).
As linhas estabelecidas por Diocleciano, foram em grande parte mantidas por Constantino, que derrotou os demais contendores pelo espólio da Tetrarquia (sendo a mais notável exceção a política religiosa) e elas duraram até o final do Império do Ocidente, cerca de 200 anos mais tarde.
Siga as atualizações do blog no twitter @aulusmetelus
Nascido por volta de 278 D.C, em local ignorado, Marco Aurélio Valério Maxêncio era filho do ex-Imperador Maximiano e de sua esposa Eutrópia, que tinha origem síria.
Maximiano, era filho do dono de uma pequena venda próximo a Sirmium, na Panônia (atual Sérvia) e, como tantos outros compatriotas ilírios, fez uma brilhante carreira no Exército Romano, ascendendo aos mais altos postos da hierarquia.
O mais importante dos generais ilírios desse período foi Diocleciano, que reorganizou militar e administrativamente o Império Romano, a partir da sua coroação, em 284 D.C. Entre as inovações introduzidas por Diocleciano estava a divisão do poder imperial, antes centralizado na pessoa de um monarca que governava o Império a partir da cidade de Roma, entre quatro governantes, sendo dois mais graduados, com o título de “Augusto”, com as respectivas capitais em Milão e Nicomédia, e dois, em plano um pouco inferior e subordinados a eles, nomeados “César”, instalados em Trier e Sirmium.
Cabeça de Diocleciano
Esse novo regime de quatro governantes imperiais recebeu o nome de “Tetrarquia“. De acordo com o plano de Diocleciano, a sucessão se daria naturalmente entre os Augustos e os Césares que lhes eram subordinados, pela aposentadoria dos primeiros, após o que os novos Augustos nomeariam novos Césares.
Grupo de pórfiro representando os Tetrarcas, hoje inserido na lateral a Catedral de São Marcos, em Veneza
Diocleciano escolheu seu amigo e colega de generalato, Maximiano, como Augusto, ou co-imperador, em 286 D.C. Posteriormente, ele indicou, em 293 D.C,Galério e Constâncio Cloro como Césares. Garantida pela incansável energia e enorme prestígio de Diocleciano, a Tetrarquia, inicialmente, pareceu funcionar bem…
Em um matrimônio arranjado com finalidade política, Maxêncio casou-se com Valéria Maximila, fllha de Galério, também Tetrarca como o seu pai, por volta de 293 D.C. Eles teriam dois filhos, Valério Rômulo, nascido por volta de 295 D.C.,e um outro, cujo nome não é conhecido.
Porém, em 305 D.C,Diocleciano, doente e cansado aos 60 anos de idade, resolveu se aposentar, abdicando em favor de Galério e partindo para viver em seu espetacular palácio-fortaleza na cidade de Salona, em sua terra natal. Boa parte do palácio ainda existe e em seu vasto interior nasceu a atual cidade de Split, na Croácia.
Reconstituição artística do Palácio de Diocleciano, em Split
Maximiano, obediente ao sistema criado por Diocleciano, também abdicou em prol de Constâncio Cloro.
Todos pensavam que Maxêncio, filho de Maximiano, e Constantino, filho de Constâncio Cloro, seriam os novos Césares. Porém, grande foi a surpresa quando Maximino Daia, sobrinho de Galério, e Flávio Valério Severo, este um velho amigo de Galério, foram nomeados. A Tetrarquia, que mal começara, já nascia, assim, ameaçada em sua estabilidade pelo preterimento dos dois candidatos naturais à sucessão.
Segundo o historiador antigo Lactâncio, o imperador Galério, já nessa época, teria passado a detestar Maxêncio, por motivos não muito bem esclarecidos.
Entrementes, em 25 de julho de 306 D.C.,na cidade de Eburacum (atual York), Constâncio Cloro morreu, e seu fiho Constantino foi aclamado Augusto pelas tropas comandadas por ambos, em campanha na Britânia, sendo reconhecido, entretanto, por Galério apenas para o posto menor de César.
Para suceder o falecido Constâncio, Galério nomeou seu amigoSeverocomo Augusto, tornando-o, assim, oficialmente coimperador, ainda durante o verão daquele ano de 306 D.C.
Quando o populacho de Roma soube que Galério planejava acabar com a isenção do imposto pessoal per capita (“capitatio“) de que gozavam os cidadãos da antiga capital, eles se revoltaram e aclamaram Maxêncio, um pretendente óbvio ao trono, Imperador, em 28 de outubro de 306 D.C.
A ascensão de Maxêncio na vetusta Roma foi relativamente pacífica: Apenas o Prefeito da Cidade, Abellius, que se opôs à aclamação, foi assassinado. Dois tribunos militares, Marcellianus e Marcellus, que provavelmente comandavam a Guarda Pretoriana, e, Lucianus, funcionário encarregado da distribuição de carne suína gratuita, apoiaram Maxêncio.
Maxêncio foi reconhecido como imperador pelas províncias da África e na parte central e meridional da Itália, além das ilhas da Córsega, Sardenha e Sicília, mas não no norte da Península, onde ficava Milão, uma das capitais do Império Romano no sistema da Tetrarquia, que era a sede do governo do imperador Severo, o Augusto do Ocidente.
Todavia, Maxêncio inicialmente se absteve de usar os títulos de Augusto ou César e se autodenominou Princeps Invictus (“Príncipe Invicto”), na esperança de obter o reconhecimento de seu reinado pelo imperador sênior, Galério.
Enquanto isso, Galério ordenou que Severo deixasse a sua capital em Milão e fosse com seu exército até Roma para sufocar a rebelião. Ocorre que a maioria dos soldados que compunham este mesmo exército tinham sido comandados anteriormente pelo imperador-aposentado Maximiano, pai do revoltoso Maxêncio…
Premido pelas circunstâncias, Maxêncio, pediu ajuda ao seu ilustre pai e propôs dividir com ele o trono. Então, quando Severo e seu exército chegaram às muralhas de Roma, com a intenção de sitiar a cidade, as tropas dele desertaram e se uniram ao seu antigo comandante e seu filho Maxêncio.
Cabeça de Maximiano
Frustrado, Severo acabou fugindo para Ravena, entregando-se, depois, a Maximiano, terminando por ser executado, segundo consta, por ordens de Maxêncio (Em outra versão, Severo teria sido forçado a cometer suicídio), em 16 de setembro de 307 D.C., na localidade de Tres Tabernae.
Com a morte de Severo, Maxêncio e Maximiano conseguiram estender seus domínios para o norte da Itália até o norte dos Alpes e a Ístria e Maxêncio sentiu-se confiante para reclamar o título de Augusto.
Enquanto isso, vendo o insucesso de seu amigo e colega Severo, Galério tentou intervir na Itália, invadindo a península à frente de seu exército, mas, após alguns de seus homens também desertarem devido ao prestígio de Maximiano, ele acabou sendo obrigado a se retirar da Itália.
Maximiano então, partiu para a Gália para obter o apoio de Constantino. Lá, na capital Trier, um pacto de amizade foi simbolizado pelo casamento de Constantino com Fausta, a filha de Maximiano e irmã de Maxêncio, no final de 307 D.C. Na mesma oportunidade, Maximiano também reconheceu Constantino como o Augusto do Ocidente. Este. contudo, manteria-se neutro no conflito entre Maxêncio e Galério.
Entretanto, com o retorno de Maximiano à Roma, ele e o filho entraram em atrito. No início de 308 D.C, Maximiano atacou Maxêncio perante uma assembleia de soldados, denunciando seus maus atos no governo. Surpreendentemente, os soldados ficaram do lado de Maxêncio e, humilhado, Maximiano foi obrigado a fugir de Roma, indo procurar abrigo na corte de Constantino, em Trier (na atual Alemanha).
Por sua vez, ainda em 308 D.C., Galério, contando com a ajuda de Diocleciano, tendo em vista a situação caótica que a Tetrarquia se encontrava, convocou os rivais para uma conferência, em Carnuntum, no sudeste da atual Áustria.
A Conferência de Carnuntumresultou em um acordo um tanto precário: Maximiano, que formalmente ainda mantinha o título de Augusto, foi compelido a se aposentar novamente, e Maxêncio foi declarado um usurpador. Por sua vez, Constantino, que tinha se aliado com Maximiano e Maxêncio, foi confirmado, apenas com o título de “César”, o mesmo ocorrendo com MaximinoDaia, no Oriente, para o desagrado de ambos, que reivindicavam o título de Augusto (que Constantino considerava já haver conseguido). Todavia, Galério nomeou outro amigo e companheiro de armas seu, Licínio, para ser o Augusto do Ocidente, o que, em vez de dirimir as controvérsias, acabaria aumentando a instabilidade. E somente em 310 D.C, Constantino e Maximino seriam “promovidos” a Augusto.
Para piorar a situação de Maxêncio, uma insurreição militar ocorreu na África, e as tropas aclamaram o vigário (governador) Domício Alexandre como imperador, também em 308 D.C. Esta usurpação, que chegou a controlar além das Dioceses da África, a ilha da Sardenha, durou até 310 D.C. e ameaçou consideravelmente o suprimento de cereais para a cidade de Roma. Ela somente foi debelada com a chegada de tropas comandadas pelo Prefeito Pretoriano Gaius CeioniusRufius Volusianus, que derrotaram e capturaram Domício Alexandre, que foi estrangulado. A província foi impiedosamente pilhada pelas forças de Volusianus e as propriedades dos revoltosos foram confiscadas, propiciando a Maxêncio uma grande soma de recursos. Porém, em 310 D.C, ele perderia também a Ístria para seu rival Licínio.
Em 310 D.C, Maximiano tentou liderar uma rebelião contra seu anfitrião Constantino, que estava em campanha contra os Francos, espalhando a falsa notícia de que este teria morrido e oferecendo suborno aos soldados, que, no entanto, mantiveram-se, em sua maioria, leais. Constantino abandonou a campanha e retornou para a Gália, conseguindo capturar Maximiano. Contudo, devido ao grande prestígio de que Maximiano ainda gozava no Império, ao invés de executá-lo, Constantino perdoou-o publicamente, mas, em segredo, compeliu Maximiano a cometer suicídio, o que ele fez em julho daquele ano, enforcando-se.
Reinado de Maxêncio
Apesar das ameaças de seus rivais imperiais e da insurreição na África, Maxêncio conseguiu construir algumas obras monumentais na cidade de Roma. Ele construiu o Circo de Maxêncio, na Via Ápia, e a Basílica de Maxêncio, no Fórum Romano, que somente seria concluída e inaugurada por seu inimigo Constantino, o Grande.
Ruínas da Basílica de Maxêncio, no Fórum Romano
Um dos monumentos de Maxêncio que sobreviveram em melhor estado até os dias de hoje foi o Templo de Rômulo, no Fórum Romano, dedicado a seu filho Valério Rômulo, que morreu em 309 D.C, com cerca de 14 anos de idade e foi divinizado.
O Templo de Rômulo, no Fórum Romano
Inicialmente, as relações de Maxêncio com o Senado Romano pareciam boas. Mas, devido ao fato dele ter necessitado instituir tributos para financiar suas obras, inclusive na Itália, devido à perda de suas outras províncias, ele acabou ficando mal-visto na classe senatorial.
Parece que Maxêncio também procurou, ao menos inicialmente, ser tolerante com o crescente número de cristãos em Roma, permitindo até que eles elegessem um novo Bispo, o Papa Eusébio.
Quando Galério morreu, em 311 D.C, MaximinoDaia, que já governava o Egito e a Síria, e Licínio, dividiram entre si as províncias do Oriente sobre as quais reinava o falecido. Este pacto contudo, teve vida curta, porque Licínio preferiu aliar-se a Constantino. Esta aliança entre Constantino e Licínio foi reforçada pelo casamento da irmã do primeiro, Constância, com o segundo. Em resposta, Maximino foi obrigado a enviar uma embaixada à Roma oferecendo o reconhecimento de Maxêncio como Augusto, em troca do apoio militar deste a Maximino.
O cenário agora estava armado para o início das guerras civis que colocariam em cheque a Tetrarquia.
Nominalmente, Maxêncio tinha a sua disposição, no Ocidente, um exército maior que o de seu oponente, Constantino, que não podia arregimentar todo o seu exército para uma expedição contra a Itália pelo fato de ter que deixar as fronteiras guarnecidas contra os bárbaros germânicos além do Reno.
Não obstante, Constantino resolveu atacar primeiro e se dirigiu para a Itália, comandando entre 25 mil e 40 mil homens, e atravessou os Alpes, na primavera de 312 D.C.
O primeiro combate sério ocorreu nas cercanias de Augusta Taurinorum (a atual Turim), quando a cavalaria couraçada (clibanários) de Maxêncio tentou cercar a infantaria de Constantino, que habilidosamente alongou sua linha para contê-los e contraatacou com a sua própria cavalaria que, armada de maças, aniquilou o inimigo com poderosos golpes. Ao constatar a derrota das tropas de Maxêncio, a cidade de Turim fechou seus portões, impedindo a entrada dos sobreviventes, e, após estes serem massacrados, recebeu os vitoriosos de portas abertas.
O avanço rápido e bem-sucedido de Constantino fez com que outras cidades do norte italiano, incluindo a capital Milão, aderissem a sua causa. Assim, após passar parte do verão na cidade, Constantino resolveu atacar Maxêncio diretamente em Roma.
A estratégia de se entrincheirar atrás das formidáveis Muralhas Aurelianas havia funcionado para Maxêncio nos conflitos anteriores contra Severo e Galério, entretanto, desta vez, talvez estimulado porque o seu exército era mais numeroso, reforçado pelo fato de que a chegada do exército de Constantino às cercanias de Roma ocorria justamente na data em que ele celebraria o aniversário de seu reinado (dies imperii), Maxêncio resolveu enfrentar o rival em uma batalha campal fora da proteção dos Muros de Roma. Segundo um relato, ele também teria consultado os vetustos Livros Sibilinos, coleção de profecias oraculares da época da monarquia, e obtido um verso profético para o dia 28 do mês de outubro daquele ano, o qual lhe soou como um bom presságio (“O inimigo que atacar Roma morrerá uma morte miserável”).
Trecho das Muralhas Aurelianas, em Roma
Dias antes da Batalha, fontes cristãs relatam que Constantino teria visto um sinal de luz no céu, em forma de cruz, acompanhada dos dizeres : “In hoc signus vinces” (Neste sinal, vencerás) e, após, em um sonho, no dia seguinte, que pode ser o da véspera, o próprio Cristo terai aparecido para ele, em um sonho, e explicado que ele deveria usar aquele sinal contra os seus inimigos.
La Vision de Constantine, de Jacques Punel, séc. XVII, via Wikimedia Commons
A Batalha da Ponte Mílvio
No dia 28 de outubro de 312 D.C, que marcava o sexto aniversário do seu reinado, Maxêncio comandando suas forças deixou as Muralhas de Roma e marchou para enfrentar o exército de Constantino, que se encontrava acampado na Via Flamínia, nos arredores ao norte da Cidade, próximo à Ponte Mílvio. Esta ponte possibilitaria que os inimigos cruzassem o rio Tibre e se dirigissem à cidade, e por isso, havia sido previamente, nesta ou em oportunidades anteriores, construída tendo a parte central feita de madeira, para poder ser recolhida quando necessário, ou, segundo outras fontes, para poder ser preparada para ceder aos pés de um invasor.
A Ponte Mílvio, estado atual
O Exército liderado por Maxêncio cruzou a ponte em direção à margem norte, ficando com o rio às suas costas. O espaço entre as tropas e o rio era estreito, e portanto, em eventual necessidade de recuar, esta seria uma manobra problemática. Na verdade, Maxêncio era 11 anos mais novo que Constantino, que tinha bem mais experiência militar, e isto, mais do que tudo, deve ter influenciado o resultado.
Constantino ordenou que sua cavalaria atacasse a cavalaria de Maxêncio, obtendo sucesso em dispersá-la. A seguir, a infantaria avançou e um combate encarniçado seguiu-se. Maxêncio resolveu ordenar que seu exército recuasse para o lado sul do rio, em direção às muralhas. Porém, quando cruzavam a Ponte Mílvio, ela desabou, caindo todos que nela se encontravam no rio, morrendo muitos afogados, incluindo o próprio Maxêncio, sendo levados pela correnteza. O resto das tropas de Maxêncio, incluindo a Guarda Pretoriana, ainda tentaram resistir bravamente na margem norte, mas, em menor número, acabaram sendo dizimadas.
A Batalha da Ponte Mílvio, por Giulio Romano, c. 1520
Inicialmente, o povo e o senado se recusaram a acreditar nas noticias da derrota de Maxêncio, mas, no dia seguinte, o corpo dele foi encontrado e a sua cabeça exibida aos cidadãos na ponta de uma lança. Depois, ela seria enviada a Cartago, para que os locais tivessem certeza de que o reinado de seu monarca estava acabado. Toda a família de Maxêncio foi prontamente executada.
Ao entrar na Cúria do Senado Romano, Constantino, emulando um gesto que vários dos seus antecessores fizeram ao longo dos séculos anteriores, prometeu que as prerrogativas dos senadores seriam restauradas, e aquela assembleia, também repetindo um antigo costume, declarou a damnatio memoriae de Maxêncio. Com a vitória na Batalha da Ponte Mílvio, Constantino agora se tornara o indisputado Imperador do Ocidente.
As Insígnias Imperiais
Em 2006, arqueólogos italianos anunciaram a descoberta, na colina do Palatino, em Roma, de uma coleção de um cetro e lanças porta-estandarte imperiais, propositalmente depositadas em um buraco escavado no chão, sendo que a datação de carbono, o estilo e o contexto em que os artefatos foram encontrados permitem considerar que se tratam das insígnias imperiais do imperador romano Maxêncio, provavelmente escondidas por partidários fiéis do Imperador, talvez esperançosos de que ele tivesse sobrevivido à Batalha da Ponte Mílvio (leia nosso artigo sobre essa descoberta clicando no link),
Mas, talvez pior que a damnatio memoriae decretada pelo Senado Romano, para o nome de Maxêncio tenha sido a sua imagem como retratada pelos escritores cristãos que escreveram sobre ele estimulados pela conversão de seu rival e sucessor Constantino ao Cristianismo, pintando-o como um tirano sanguinário, brutal e incompetente, que perseguia a Igreja, algo que outras fontes sobreviventes não parecem dar suporte.
O Teatro, em sua acepção como uma manifestação cultural envolvendo declamações de texto, interpretação de papéis e canções, execução de músicas e, às vezes, de danças coreografadas, normalmente seguindo um roteiro, realizadas em um espaço determinado (cena ou palco), frequentemente tendo como pano de fundo imagens pintadas, objetos e esculturas relacionados com a história contada, e performado na presença de espectadores, foi inventado na Grécia Antiga (embora manifestações semelhantes tenham surgido em outras regiões, como a Índia e a China).
“Importante observar, no entanto que a palavra grega “Theatron” não se refere à atividade artística em si, mas sim ao local onde ela era apresentada. Assim, teatro, em grego, significa “lugar de ver”. Portanto, a palavra teatro refere-se, especificamente, ao local onde os espectadores se sentavam, em arquibancadas geralmente escavadas, em formato semicircular, em uma encosta mais alta em relação ao espaço circular onde os artistas encenavam as tragédias gregas (chamado de “orchestra“, ou “orquestra”). Normalmente, atrás da orquestra, ficava uma parede onde se colocavam murais e objetos que ajudavam a contextualizar a ação que os artistas interpretavam, e que recebia o nome de skené, ou “cena”, de onde deriva a palavra “cenário”. E a parede da cena também servia para que os artistas se trocassem atrás dela, escondidos dos olhares do público. Mais tarde, com o aumento da complexidade das peças, os teatros gregos também passaram a ter um muro separando a orquestra da cena, que era chamado de “paraskenia“, normalmente decorado com imagens em relevo. Isso criou um espaço elevado elevado exatamente atrás da orquestra, que recebeu o nome de “proskenium” (proscênio, com o significado literal de “em frente à cena”). Esses, então, eram os componentes básicos da arquitetura de um teatro grego. Vale observar que havia construções similares, porém menores e geralmente fechadas, destinadas a recitais de poesia e exibições de canto ou de instrumentos musicais, chamadas de odeons””Importante observar, no entanto que a palavra grega “Theatron” não se refere à atividade artística em si, mas sim ao local onde ela era apresentada. Assim, teatro, em grego, significa “lugar de ver”. Portanto, a palavra teatro refere-se, especificamente, ao local onde os espectadores se sentavam, em arquibancadas geralmente escavadas, em formato semicircular, em uma encosta mais alta em relação ao espaço circular onde os artistas encenavam as tragédias gregas (chamado de “orchestra“, ou “orquestra”). Normalmente, atrás da orquestra, ficava uma parede onde se colocavam murais e objetos que ajudavam a contextualizar a ação que os artistas interpretavam, e que recebia o nome de skené, ou “cena”, de onde deriva a palavra “cenário”. E a parede da cena também servia para que os artistas se trocassem atrás dela, escondidos dos olhares do público. Mais tarde, com o aumento da complexidade das peças, os teatros gregos também passaram a ter um muro separando a orquestra da cena, que era chamado de “paraskenia“, normalmente decorado com imagens em relevo. Isso criou um espaço elevado elevado exatamente atrás da orquestra, que recebeu o nome de “proskenium” (proscênio, com o significado literal de “em frente à cena”). Esses, então, eram os componentes básicos da arquitetura de um teatro grego.
Vale observar que os gregos também erguiam construções similares, porém menores e geralmente fechadas, destinadas a recitais de poesia e exibições de canto ou de instrumentos musicais, chamadas de “odeons” (do grego, “aeido”, ou seja, canto, de onde surgiu a palavra “ode”).
Os Romanos, ao entrarem em contato com a cultura grega, introduziram o teatro ainda durante os primeiros séculos da República. Lívio Andrônico, um dramaturgo nascido em Tarento, cidade da chamada “Magna Grécia!, no sul da Itália, foi o maior expoente do teatro romano, no século III A.C. Nessa época, Plauto também destacou-se como autor de comédias, tendo algumas peças dele sobrevivido até os nossos dias.. E, já no Império, o filósofo Sêneca, o Jovem, escreveu várias tragédia, que influenciaram até mesmo dramaturgos europeus, como Shakespeare e Racine. Porém, ainda durante o Império, a popularidade de tragédias e comédias elaboradas diminuiu, e o público preferia assistir mimes (comédias burlescas escrachadas).
Após os Romanos conquistarem a maior parte da Grécia, durante os séculos II e I A.C, vários artistas e dramaturgos foram trazidos para Roma. Inicialmente, os teatros romanos eram de madeira e, de acordo com a lei romana, eles destinavam-se a serem estruturas temporárias, mas com o enriquecimento da República, surgiu a necessidade de edifícios permanentes, que foram construídos seguindo o modelo grego, mas adaptado a peculiaridades romanas.
A ausência de colinas com a topografia adequada para abrigar as arquibancadas na cidade de Roma, somada à maestria dos romanos em erguerem construções sobre arcos e à tecnologia do concreto romano permitiram que os engenheiros romanos preferissem construir os teatros romanos sobre uma estrutura apoiada em arcadas.
As arquibancadas, isto é, o setor semicircular elevado onde o público sentava em degraus, era chamado pelos romanos de “cavea“. O fato desta ser construída sobre arcadas favorecia que a cena (em latim, scaenae frons) fosse mais alta que nos teatros gregos, e formasse um espaço fechado com a cavea, resultando que os teatros romanos podiam ser inteiramente contidos dentro de um muro exterior contínuo. E essas são as duas principais características que distinguem os teatros romanos dos gregos, muito embora os romanos, algumas vezes continuassem construindo, quando o terreno permitia, arquibancadas apoiadas em encostas. O muro que separava a orquestra do palco, frequentemente decorado com elaborados relevos, era chamado de “pulpitum“. Era comum que os espectadores sentados na cavea fossem protegidos do sol inclemente por uma estrutura retrátil que estendia uma cobertura de tecido ou lona (velarium), que também era utilizada nos anfiteatros. Outra característica encontrada nos teatros romanos, compartilhada com os anfiteatros, possibilitada pela sua estrutura construída em alvenaria, era que o acesso dos espectadores poderia se dar pelo interior da mesma, com a entrada e saída da cavea por meio de passagens e aberturas, chamadas de “vomitoria“.
Dito isso, sem mais delongas, vamos àqueles que eu considero os templos romanos sobreviventes mais bem preservados e/ou impressionantes (OBS: trata-se de uma seleção discricionária minha, e a posição na lista não indica primazia. Aceitamos outras sugestões nos comentários).
1- Teatro de Aspendos (Aspendos, Turquia)
Considerado por muitos o teatro romano em melhor estado de conservação, o Teatro de Aspendos foi construído durante o reinado do imperador romano Marco Aurélio (161-180 D.C), e a sua construção foi providenciada pelos irmãos Curtius Crispinus e Curtius Auspicatus, que provavelmente deviam ser magistrados integrantes do conselho municipal. O seu arquiteto foi Zenão. Infelizmente, não sabemos mais detalhes sobre os personagens citados. A capacidade do teatro é estimada entre 7 mil e 13 mil espectadores. Parte da cavea repousa sobre uma colina, seguindo o estilo grego, mas toda a construção está dentro de muros de alvenaria, como é característico dos teatros romanos. Sobreviveram alguns orificios onde ficavam os postes para o velarium.
Na minha opinião, o Teatro de Amã disputa com o de Aspendos e o de Bosra o título de teatro romano melhor conservado. Durante o período romano, a cidade tinha o nome de Philadelphia. Ele foi construído durante o reinado do Imperador Antonino Pio (138-161 D.C), em nome de quem foi dedicado. Estima-se sua capacidade em 6 mil lugares. Este teatro foi construído seguindo o modelo grego, e toda a sua cavea assenta-se sobre a colina.
O Teatro de Bosra foi construído no século II D.C, provavelmente durante o reinado do imperador Trajano (98-117 D.C). Aliás, durante o reinado dele, a cidade recebeu o nome de Nova Traiana Bostra. Com capacidade estimada de 17 mil espectadores, é um dos maiores teatros construídos durante o Império Romano. Durante o período islâmico, o teatro foi convertido em uma fortaleza, razão pela qual o seu muro externo foi integrado e envolvido por muralhas e torres. No entanto, o primeiro andar da sua scaenae frons (com três andares) preserva quase que totalmente a colunata decorativa. Infelizmente, consta que o teatro sofreu alguns danos durante a Guerra Civil da Síria, ainda em andamento.
O Teatro de Orange foi construído durante o reinado do imperador Augusto (27 A.C – 14 D.C) e era um dos primeiros teatros romanos a serem construídos na província da Gália, quando a cidade era uma colônia romana de nome Arausio. Estima-se que a sua capacidade variava entre 5.800 e 7.300 espectadores. Vale notar que, em um nicho central em sua cena, uma estátua de Augusto sobreviveu até os nossos dias. O muro externo à cena é construído com uma bela estrutura de alvenaria, fato que levou o rei Luís XIV a considerá-la “O muro mais belo do meu Reino”. Note-se que esse muro preserva as bases onde os postes do velarium eram encravados.
Este teatro foi construído pelo Cônsul Marco Vipsânio Agripa, o braço-direito do imperador Augusto, em Emerita Augusta (atual Mérida), a capital da província da Lusitânia, entre os anos 15 e 15 A.C., mas foi renovado algumas vezes ainda durante o Império Romano. Abrigava cerca de 6 mil espectadores. É um dos teatros romanos sobreviventes cuja scaenae frons está mais bem preservada, com seus dois andares decorados com colunas.
Outro teatro cuja cena frontal está muito bem preservada, incluindo o terceiro andar. o Teatro de Sabratha provavelmente foi construído no período que compreende o reinado dos imperadores Cômodo (180-192 D.C) e Septímio Severo (193-211 D.C), época em que a província romana da África Proconsular desfrutou de sua maior prosperidade. Quando intacto, hospedava cerca de 5 mil espectadores. O pulpitum é um dos mais ricamente ornamentados e bem preservados dos teatros antigos que sobreviveram.
A antiga cidade de Hierapolis é contígua a Pamukkale, destino turístico turco famoso pelos seus terraços de travertino, em intrincadas formações naturais que formam piscinas de águas termais. Acredita-se que o seu teatro romano tenha sido construído durante o reinado do imperador Adriano (117-138 D.C), e ganhado uma grande restauração no reinado do imperador Septímio Severo. Abrigava cerca de 15 mil espectadores. Uma curiosidade é o fato de ser um dos únicos que apresenta, no meio de sua cavea, um camarote imperial em formato semicircular. Há indícios de que foi adaptado, já no período do Baixo Império Romano, para ser palco de espetáculos de caçadas (venationes).
A antiga cidade de Gerasa passou a fazer parte do Império Romano como resultado das campanhas de Pompeu, o Grande, em 63 A.C, inicialmente como uma das dez cidades helenísticas integrantes da chamada Decapolis. Durante os séculos I e II D.C, Gerasa experimentou grande prosperidade, o que lhe possibilitou abrigar três teatros. Os mais notáveis são os assim denominados “Teatro Sul” e “Teatro Norte”. O Teatro Sul começou a ser construído durante o reinado do imperador Domiciano (81-96 D.C) a quem foi dedicado pelo governador Lappius Maximus. Tinha a capacidade de 4.700 lugares. O primeiro andar da sua scaenae frons está bem restaurado, mas resta apenas um pequeno trecho do segundo andar. Já o Teatro Norte data do período entre 135-140 D.C, sendo ampliado no reinado dos imperadores Lúcio Vero e Marco Aurélio (161-169 D.C), quando ele foi remodelado para funcionar como um odeon, com capacidade para 1.600 espectadores. Este odeon foi utilizado até o século VI D.C.
Escolhemos o Teatro de Termessos principalmente pela sua localização fantástica. Termessos foi fundada pelos Pisídios, um povo que habitava a região da Pisídia, na Ásia Menor. A cidade foi construída a mais de 1.000 metros de altitude, encravada no meio de picos integrantes das Montanhas Taurus. Alexandre, o Grande tentou conquistá-la, sem sucesso, mas ela acabou se integrando aos reinos helenísticos que sucederam o conquistador macedônio. Mais tarde, Termessos se tornou aliada de Roma, que, em reconhecimento, concedeu-lhe o status de cidade autônoma. O Teatro de Termessos, em sua forma atual, deve ter sido construído por volta do século II D.C, tendo uma capacidade de 4 mil espectadores, que, das arquibancadas, podem apreciar uma vista maravilhosa da planície da Panfília, centenas de metros abaixo.
A cidade búlgara de Plovdiv teve uma história conturbada, sendo destruída e reconstruída várias vezes. Durante a Antiguidade Clássica, Plovdiv chamava-se Philippopolis, uma vez que foi fundada pelo rei Filipe II, da Macedônia, pai de Alexandre, o Grande, no lugar de um assentamento trácio. Com a derrota da Macedônia pelos Romanos, na Terceira Guerra Macedônica, Philippopolis tornou-se a capital da Província Romana da Trácia. As ruínas soterradas do teatro somente foram descobertas na década de 1970, devido a um deslizamento de terra. Um cuidadoso trabalho arquitetônico usando a técnica da anastilose (na qual utilizam-se todos os elementos originais encontrados, suprindo-se as lacunas com reproduções modernas de partes idênticas às antigas), transformou o Teatro de Plovdiv em um dos mais bem preservados. Estima-se que tinha a capacidade de cerca de 7 mil lugares e que foi construído durante o reinado do imperador Domiciano.
Mesmo após a introdução dos espetáculos teatrais em Roma, os teatros construídos para a sua encenação eram estruturas provisórias de madeira, ainda que elas pudessem acomodar milhares de espectadores. Porém, a construção de teatros permanentes dentro do Pomério (limites sagrados da cidade de Roma) era proibida, refletindo a controvérsia que havia no seio das elites em relação à importação de costumes gregos.
Foi somente em 55 A.C que Pompeu, o Grande inaugurou o primeiro teatro permanente construído em Roma, e que seria o modelo para os demais teatros construídos pelos romanos por todo o Império. Sabe-se que as peças encenadas foram “Clitemnestra“, escrita pelo poeta Ácio, e “O Cavalo de Tróia“, atribuída a Lívio Andrônico. O renomado ator trágico Clódio Esopo, que estava aposentado, foi chamado para atuar na inauguração.
O Teatro de Pompeu prenunciou a prática adotada por seus sucessores imediatos no poder supremo de Roma, Júlio César e Augusto, bem como os imperadores subsequentes, de erguer e dedicar obras monumentais na Cidade de Roma à glória de seu próprio nome. E de fato, podemos considerar que, quando ele começou a ser construído, em 61 A.C, nenhum edifício da Urbe podia ser comparado a ele em tamanho e magnificência. No alto e no centro da cavea foi construído um templo dedicado a Vênus Victrix, o que, inclusive, permitiu a Pompeu contornar a proibição legal acima citada. E o teatro fazia parte de um vasto complexo, estando conectado a um enorme quadripórtico, abrigando entre suas colunas, salas para a exibição dos troféus e obras de arte que Pompeu amealhara no Oriente Grego, o qual rodeava uma praça quadrada adornada por jardins. Na outra extremidade do quadripórtico, ficava um edifício construído para abrigar assembleias e reuniões políticas, denominado Cúria de Pompeu. Aliás, poucos anos depois da sua inauguração, a Cúria Hostília, o prédio do Senado Romano no Fórum Romano, foi incendiado nos tumultos que se seguiram ao assassinato do político demagogo Clódio. Então, o Senado passou a se reunir na Cúria de Pompeu e foi exatamente ali que, no ano de 44 A.C, Júlio César foi assassinado por seus adversários no Senado Romano, falecendo aos pés da estátua do próprio Pompeu, a quem havia derrotado anos antes.
A capacidade do Teatro de Pompeu foi estimada, ainda na Antiguidade, em 22.800 espectadores. A cavea, cujos bancos eram revestidos de mármore, apoiava-se em uma estrutura de concreto. Ao longo dos séculos, o Teatro de Pompeu sofreu incêndios e foi restaurado várias vezes. Após às Guerras Góticas, em meados do século VI, a população de Roma caiu consideravelmente, e o edifício foi abandonado, tornando-se fonte de materiais de construção e sendo transformado em fortaleza. Ao fim da Idade Média, o Teatro já se encontrava coberto por vários edifícios, entretanto, parte da forma semicircular do teatro foi preservada pela Via de Grottapinta e um conjunto de prédios erguidos nesta rua. O artista Piranesi, em meados do século XVIII ainda conseguiu retratar em uma gravura o que restava do Teatro, sob os edifícios.
Modelo do Teatro de Pompeu e seu complexo, com o Templo de Vênus Victrix em primeiro plano e, no extremo do quadripórtico, a Cúria de Pompeu. Foto: A derivative work of a 3D model by Lasha Tskhondia – L.VII.C., CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons
Gravura de Piranesi com os vestígios do Teatro de Pompeu
O vencedor de Pompeu na Guerra Civil do Primeiro Triunvirato, Caio Júlio César, era um notório entusiasta da cultura grega e, por diversas vezes, usa citações de peças gregas em seu discurso. Uma de suas mais famosas frases : “A sorte está lançada“, na verdade foi retirada de uma comédia do autor grego Menandro, chamada “Arrhephoros“.
Por isso, não surpreende o fato de que César também planejou erguer um teatro em Roma. O Ditador inclusive chegou a escolher e mandar limpar o terreno onde seria construído o seu teatro, mas os Idos de Março de 44 A.C vieram e ele foi assassinado antes que pudesse executar o seu projeto.
Augusto, o herdeiro e sucessor de César, resolveu dar andamento à construção do teatro planejado por seu pai adotivo e, no ano de 17 A.C., as obras estavam suficientemente avançadas para que os Jogos Seculares fossem celebrados no teatro, que foi completado em 13 A.C. No ano seguinte, o teatro foi dedicado a Marco Cláudio Marcelo, sobrinho e, inicialmente, o herdeiro escolhido por Augusto, que, infelizmente, havia morrido de doença em 23 A.C., ficando conhecido como “Teatro de Marcelo”.
O Teatro de Marcelo, segundo uma fonte do século IV D.C, tinha capacidade para 17.580 espectadores, sendo o segundo maior de Roma. Deixou de ser utilizado no século IV D.C, e, ainda durante o Império Romano, teve parte de seus blocos de construção retirados para serem utilizados em outros edifícios. Durante a Idade Média, residências foram construídas dentro e acima de suas estruturas e ele foi convertido em uma fortaleza. Graças a isso, parte de sua fachada sobreviveu, podendo se observar dois andares de arcadas, sendo que no primeiro andar, os arcos são separados por colunas dóricas, e, no segundo, por colunas jônicas (e provavelmente o terceiro, desaparecido, tinha colunas coríntias, como ocorre no Coliseu, construído posteriormente).
O Teatro de Marcelo, em 1º plano, na Maquete de E. Gismondi, no Museu da Civilização Romana, Roma. Foto Alessandro57, Public domain, via Wikimedia Commons
Em 13 A.C, o terceiro teatro permanente da cidade de Roma foi inaugurado por Lúcio Cornélio Balbo, o Jovem, um político e general de origem púnica que havia sido partidário de Júlio César na juventude e que exerceu vários cargos importantes durante os primeiros anos do reinado de Augusto. Balbo escreveu um livro e uma peça teatral, e provavelmente era entusiasta de teatro, erguendo o edifício com recursos próprios. No dia da inauguração, as fontes relatam que o rio Tibre transbordou devido a uma enchente e Balbo teve que entrar no teatro de barco. O Teatro de Balbo foi construído próximo ao Teatro de Pompeu e podia abrigar cerca de 8 mil espectadores, sendo que o Teatro de Marcelo também não estava longe. Com isso, a área do Campo de Marte converteu-se em um verdadeiro “Theater District”. Em 1561, alguns restos do teatro ainda podiam ser vistos e foram retratados por Giovanni da Sangallo em uma gravura.
Teatro de Balbo, reconstrução na maquete de Roma de E. Gismondi.
Segundo as fontes, Antínoo (Antinous) nasceu no mês de novembro (no dia 27, dia do festival em sua honra, segundo uma inscrição), provavelmente por volta do ano de 111 ou 112 D.C., na cidade de Claudiopolis (atual Bolu no noroeste da Turquia), na província romana da Bitínia. Embora a cidade fosse bem antiga e tivesse feito parte do Império Hitita, ela foi helenizada e reconstruída por colonos gregos vindos da cidade de Mantinea (antes da conquista romana, a cidade chamava-se Bithynium).
Em junho de 123 D.C., o imperador Adriano, então com 47 anos de idade, que se notabilizou por viajar por todo o Império Romano, chegou à cidade de Claudiopolis e, em algum momento de sua estadia, notou o ainda pré-adolescente Antínoo, atraído pela beleza do menino.
Deixando Claudiopolis, Adriano continuou seu tour pelas províncias orientais do Império, mas deve ter providenciado para que Antínoo fosse enviado para Roma, provavelmente para ser educado no Paedagogium, a escola existente no Palácio de Domiciano, no monte Palatino, destinada à instrução dos pajens imperiais.
(Ruínas do Peadagogium, no Palatino, em Roma)
Adriano voltou para Roma em setembro de 125 D.C., e, em algum momento nos anos seguintes, ele reencontrou Antínoo e ambos tornaram-se amantes. Três anos depois, quando Adriano partiu para nova viagem para a Grécia, Antínoo acompanhou-o, integrando a comitiva imperial.
Os historiadores concordam que Adriano tinha nítida inclinação homossexual e que o casamento dele com a imperatriz Sabina seria apenas por conveniências políticas e manutenção de uma imagem pública.
De qualquer forma, os costumes gregos estavam disseminados pela elite romana e o fato do imperador ter como amante um garoto inseria-se dentro da prática helênica da “pederastia“, onde se admitia que o mestre, mais velho (erastes), iniciasse sexualmente o discípulo (eromenos), aceitando-se que mantivessem relações sexuais até que o segundo saísse da puberdade e entrasse na idade adulta. Portanto, a opinião pública não deve ter dado muita importância ao relacionamento sexual entre o imperador e seu jovem pajem.
(Busto da imperatriz Sabina, cujo casamento com Adriano foi notoriamente infeliz)
Consta que Adriano elogiava a inteligência de Antínoo. Ele escreveu poemas em homenagem ao amante, que infelizmente, não chegaram até os nossos dias. Por sua vez, não há nenhum indício de que Antínoo tenha se valido de sua privilegiada posição para obter algum ganho pessoal ou influência política.
Não se sabem muitos detalhes do relacionamento entre Adriano e Antínoo, mas é certo que as caçadas eram um dos divertimentos que eles faziam juntos, de acordo com o relato de um incidente, ocorrido em setembro de 130 D.C., durante uma viagem pelo norte da África, na Líbia, no qual os dois decidiram caçar um leão que estava atacando a população da região. Nessa caçada, Adriano teria salvo a vida de Antínoo e o incidente foi também imortalizado em um relevo circular (tondo), que sobreviveu até nossos dias, por ter sido posteriormente afixado no Arco de Constantino, em Roma (à esquerda, abaixo, foto de Radomil).
No decorrer dessa viagem pela África, Adriano e Antínoo chegaram ao Egito, por volta do início de outubro de 130 D.C., parando na antiquíssima cidade sagrada de Heliopolis, de onde eles partiram para um cruzeiro pelo Nilo, navegando até a cidade de Hermopolis Magna. Nas proximidades da referida cidade, as fontes, sem entrar em detalhes, contam que Antínoo caiu no Nilo e morreu, ao que tudo indica, afogado, no dia em que se celebravam antigos festivais em homenagem ao deus egípcio Osíris.
(Vista das ruínas de Hermopolis, foto de Roland Unger)
As principais fontes antigas assim relatam a morte de Antínoo:
Dião Cássio
“Antinous era de Bithynium, uma cidade da Bitínia, a qual nós também chamamos Claudiopolis; ele foi um favorito do imperador e morreu no Egito, seja por ter caído no Nilo, como escreve Adriano, ou, mais verdadeiro, por ter sido oferecido em sacrifício. Pois Adriano, como eu sempre afirmei, sempre se interessou por adivinhações e encantamentos de todo o tipo. Então, Adriano homenageou Antinous – seja devido ao amor que sentia por ele, ou porque o jovem voluntariamente aceitou morrer (sendo necessário que uma vida fosse livremente oferecida para atingir os fins que Adriano tinha em vista) -com a construção de uma cidade no local onde ele sofreu o seu destino, dando-lhe o seu nome; e Adriano também ergueu estátuas, ou imagens sagradas, dele, praticamente por todo o mundo. Finalmente, Adriano declarou que ele tinha avistado uma estrela que ele entendeu ser de Antinous, e alegremente emprestou seus ouvidos a estórias fictícas tecidas por seus adeptos no sentido de que a estrela havia nascido do espírito de Antinous e, assim, tinha aparecido pela primeira vez. No que se refere a isso, então, ele se tornou objeto de certo ridículo, e também porque, quando a sua irmã Paulina morreu, ele, na oportunidade, não fizera nenhuma homenagem.”
História Augusta
“Ele (Adriano) perdeu Antinous, seu favorito, durante uma viagem pelo Nilo, e por este jovem ele chorou como uma mulher. Com relação a este incidente, houve vários rumores: alguns defendem que ele teria se entregado à morte por Adriano, e outros, aquilo que a sua própria beleza, e a sensualidade de Adriano, sugerem…”
Aurelius Victor
“Outros defendem que este sacrifício de Antinous foi pio e religioso, pois, quando Adriano estava desejoso de prolongar a sua vida, e os feiticeiros demandaram que uma vítima voluntária fosse dedicada, diz-se que, após todos recusarem, Antinous ofereceu a si próprio”
Obviamente que não podemos excluir a hipótese de que a morte de Antínoo tenha sido acidental, segundo a versão dada pelo próprio Adriano, nem provar que os outros motivos alegados pelos autores antigos são inverídicos, muito embora tenham se registrado muitos episódios nos quais o o referido imperador mostrou-se explicitamente contrário à prática de sacrifícios humanos. Também não é impossível que, conforme a última passagem da História Augusta acima transcrita alude, a morte do rapaz tenha involuntariamente resultado de algum ato sexual, ou que a queda no rio tenha sido decorrente da embriaguez de ambos os amantes.
Entretanto, é fato que Antínoo estava no limiar de atingir a idade em que o seu relacionamento amoroso com Adriano (que estava com 54 anos de idade) tornaria-se extremamente embaraçoso para o imperador, pois o mesmo não mais poderia se dar sob o manto da pederastia. O relacionamento sexual entre homens adultos livres não era admissível segundo a moral romana, e a chegada da maturidade sexual de Antínoo, que já estava com 18 ou 19 anos de idade, poderia expor o imperador à execração por parte da sociedade romana, especialmente na Itália, e, mais importante, a perda do seu prestígio entre os militares.
Desse modo, ainda que não se possa acusar Adriano, ou seus cortesãos, pelo assassinato de Antínoo, o fato é que a morte dele foi muito conveniente para o trono.
O que ninguém contesta é que Adriano ficou devastado com a morte de Antínoo e ordenou que homenagens inauditas fossem conferidas ao seu falecido amante.
Assim, ainda em outubro de 130 D.C., Adriano proclamou que Antínoo era um deus. A “deificação” já tinha se tornado comum para os imperadores falecidos e até algumas imperatrizes ou pessoas da família imperial já tinha sido tornados divinos, mas era a primeira vez que um simples pajem recebia essa distinção.
Adriano também fundou, no local onde Antínoo morreu, a cidade de Antinopolis, em 30 de outubro de 130 D.C..
O imperador também ordenou a construção de um santuário dedicado a Antínoo no interior de sua fabulosa Villa Adriana, em Tívoli, onde é provável que o falecido amante tenha sido enterrado (talvez depois de ser mumificado no Egito), conforme sugere o texto em hieróglifos no obelisco que foi erguido ali e hoje encontra-se no Monte Pinciano, em Roma (vide https://followinghadrian.com/2016/10/02/the-obelisk-of-antinous/)
A deificação de Antínoo foi seguida pela organização formal de seu culto, patrocinado pelo Estado, em diversas cidades, construindo-se templos e nomeando-se sacerdotes.
Embora, inicialmente, a criação e a adesão ao culto a Antínoo decorresse amplamente do patrocínio imperial e do desejo de adular Adriano (ou, igualmente, do temor em desagradá-lo), certamente a extraordinária beleza do rapaz, bem como as circunstâncias trágicas de sua morte e, principalmente, a similitude da forma e do lugar onde ele morreu com o mito de Osíris (que também morreu afogado no Nilo e depois foi ressuscitado pela mulher, Ísis), contribuíram para a popularização do novo deus, que no Egito, passou a ser associado a Osíris, recebendo o nome de Osirantinous.
Em algumas outras regiões, Antínoo foi considerado um herói mítico, como Hércules, um humano que superou a morte e pode transitar entre o mundo dos mortos e o dos vivos.
Estátuas de Antínoo foram espalhadas por todo o Império Romano, aparentemente baseadas em modelos produzidos em Roma, por ordem de Adriano, uma vez que todas observam os mesmos padrões e contribuíram para popularizar o seu culto..
Foram identificados até hoje 28 templos dedicados a Antínoo e encontrados vestígios de seu culto em pelos menos 70 cidades ao longo do Império Romano. No mundo grego, Antínoo também foi associado aos deuses Hermes e Dionísio. Os centros do culto eram as cidades de Antinopolis, Claudiopolis (local de nascimento de Antínoo) e Mantinea (De onde os seus ancestrais, fundadores de Claudiopolis, teriam vindo). Nessas cidades, também eram celebrados jogos em homenagem ao novo deus, o que ocorreu pelo menos até o início do século III, que também ocorriam em Atenas e Eleusis, tendo estes durado pelo menos até 267 D.C.
De fato, o culto a Antínoo perdurou por séculos após a morte de Adriano. Um papiro do final do século III preserva um poema em homenagem a Antínoo, mencionado a famosa caçada,, o Nilo, sua apoteose e a fundação da cidade em sua honra.
Os bispos e doutores da nascente Igreja também sentiram a necessidade de fazer invectivas contra o culto a Antínoo, No final do século II, Clemente de Alexandria escreveu:
“Outra nova divindade foi criada no Egito – e muito próxima aos Gregos também – que foi solenemente elevada pelo imperador à categoria de deus – o seu favorito cuja beleza era inigualável, Antinous. Ele consagrou Antinous da mesma maneira que Zeus consagrou Ganimedes. Pois a luxúria não é facilmente contida, quando não há medo, e mesmo agora o povo observa as noites sagradas de Antinous, que são realmente vergonhosas, como o amante que as passava junto com ele bem sabia. Por que, eu pergunto, vocês consideram um deus alguém que foi homenageado pela fornicação? Por que vocês ordenaram que ele fosse pranteado como um filho? Por que, igualmente, vocês narram as estórias da beleza dele? A beleza é algo vergonhoso quando manchada pelo ultraje. Não sejam tiranos da beleza, nem ultrajem aquele que está na flor de sua juventude. Guarde-a na pureza, para que permaneça bela. Tornem-se reis da beleza, não tiranos. Deixem-na livre. Quando vocês deixarem a imagem dela pura, então eu reconhecerei a vossa beleza. Então eu irei reverenciar a beleza, quando for o verdadeiro arquétipo das coisas belas. Agora nós temos uma tumba do amante, um templo e uma cidade de Antinous. (Exortação ao Gregos, 4.49.1-3)
O supracitado texto de Clemente de Alexandria também sugere que o culto de Antínoo poderia incluir alguma celebração orgiástica.
Por volta do ano 250 D.C., outro doutor da Igreja, Orígenes, em sua obra “Contra Celso”, refuta os argumentos do filósofo Celso contra a fé cristã (que comparou, entre outros, Jesus Cristo a Antínoo). Nesse texto, Orígenes chega a reconhecer a existência de prodígios atribuídos a Antínoo, mas considera-os obra de um daimon (espírito) ou de mágicos.
Somente com o triunfo do Cristianismo, após a proibição das cerimônias públicas pagãs por Teodósio e a destruição de incontáveis templos, o culto a Antínoo desaparece da História, tendo o culto durado pelo menos uns duzentos e cinquenta anos.
LEGADO
No século XIX, a revalorização do classicismo elegeu as estátuas de Antínoo como o último suspiro da arte clássica greco-romana e símbolo de beleza masculina. Ele também acabou inspirando vários escritores como Oscar Wilde, Fernando Pessoa e Marguerite Yourcenar.
Para saber mais: Lambert, Royston (1984). Beloved and God: The Story of Hadrian and Antinous. George Weidenfeld & Nicolson
Me ajude a manter o blog!
Se você gostou do conteúdo, se lhe foi útil, seria de grande ajuda uma doação em qualquer valor. O blog é gratuito, mas pagamos taxas para mantê-lo, apenas por amor ao tema.
Em 11 de março de 222 D.C, no Quartel da Guarda Pretoriana (Castra Pretoria) em Roma, os soldados da Guarda Pretoriana atacaram e mataram o Imperador Romano Elagábalo (Elagabalus, nome às vezes também grafado como Heliogábalo) e a mãe dele, Júlia Soêmia, aclamando o seu primo,Severo Alexandre, presente no local, como novo imperador. Em seguida, os assassinos decapitaram os cadáveres e jogaram os corpos de Elagábalo e de Júlia no rio Tibre.
Nascido com o nome de Varius Avitus Bassianus, na Síria, em 203 D.C, Elagábalo era filho de Sextus Varius Marcellus e de Julia Soemias Bassiana (Júlia Soêmia).
(Detalhe de estátua de Júlia Soêmia, mãe de Elagábalo, foto de Wolfgang Sauber)
O pai de Elagábalo era membro de uma família da classe Equestre, originária da cidade grega de Apamea, na Síria, e que ascendeu durante o reinado do imperador Septímio Severo, período no qual Sextus Varius Marcellus ocupou vários cargos importantes, como Procurador dos Aquedutos em Roma, Procurador Romano da Britânia, Prefeito da Urbe e Prefeito Pretoriano.
Como evidência do seu status na corte de Severo, Sextus Varius Marcellus casou-se com Júlia Soêmia, sobrinha da poderosa imperatriz Júlia Domna, irmã da mãe dela, Júlia Maesa.
(A poderosa, bela e inteligente imperatriz Júlia Domna era tia-avó de Elagábalo)
As duas irmãs, a imperatriz Júlia Domna e a avó de Elagábalo, Júlia Maesa, eram filhas de Julius Bassianus, sumo-sacerdote do Templo do deus Elagábalo (El-Gabal ou Ilāh hag-Gabal, literalmente, “O Deus da Montanha”, em aramaico), situado em Emesa (a moderna Homs), na Síria, e membro da dinastia dos Sempseramidas, os governantes ancestrais daquela cidade, a qual, durante muito tempo, havia sido a capital de um reino-cliente de Roma, até aquela ser anexada pelo Imperador Caracala. O posto de sumo-sacerdote de El-Gabal era hereditário, e foi assumido por Elagábalo.
Emesa era uma cidade próspera e o culto ao Deus-sol se espalhava pelo império romano no século III. O Templo de Elagábalo guardava uma pedra negra cônica sagrada, que muitos acreditavam ter caído do céu, a qual atraía peregrinos e doações de toda a região, Consequentemente, os sumo-sacerdotes de El-Gabal eram riquíssimos.
(Homs, antiga Emesa, no início do século XX)
Vale observar que o culto a El-Gabal não seria primeira, e nem a última, religião oriental a cultuar uma pedra negra supostamente caída do céu…Com efeito, os muçulmanos veneram uma pedra negra chamada de al-Hajar al-Aswad, que se encontra no interior da Caaba, uma construção quadrada em pedra cuja construção é atribuída ao patriarca Abraão, em Meca.
(A Pedra Negra e o Templo de El-Gabal são retratados nessa moeda cunhada por um governante Sempseramida de Emesa, em meados do século III D.C.),
Quando Septímio Severo morreu, em 211 D.C, ele foi imediatamente sucedido por seus dois filhosCaracalae Geta. Porém, no mesmo ano, Caracala matou o seu irmão Geta e assumiu o trono sozinho. A imperatriz viúva, Julia Domna, porém, continuou muito influente na Corte. Após seis anos de um reinado turbulento, Caracala foi assassinado, em 8 de abril de 217 D.C. por um guarda-costas, em uma estada próxima à Carras, na Turquia, onde ele se encontrava em preparativos para uma campanha contra a Pérsia, crime cometido provavelmente à mando do Prefeito Pretoriano Macrino, que, em seguida, assumiu o trono.
Abalada com o fratricídio, Júlia Domna, mãe do imperador assassinado e do assassino, que estava gravemente doente devido a um câncer de mama, suicidou-se, recusando-se a comer.
Então, Macrino exilou o restante da família de Caracala, agora chefiada por sua tia Júlia Maesa, para a sua nativa Emesa. Contudo, esta decisão revelou-se um grande equívoco de Macrino, pois, valendo-se de seu imenso poder e riqueza na região, a influente matriarca síria e suas parentes iniciaram uma conspiração para derrubar Macrino.
Inicialmente, Júlia Soêmia declarou publicamente que seu filho Varius Avitus Bassianus (Elagábalo) era filho ilegítimo de Caracala (consta que, de fato, ambos eram muito parecidos) e, portanto, o legítimo herdeiro do imperador falecido.
Depois, usando seus vastos recursos financeiros, Júlia Maesa conseguiu convencer a III Legião “Gallica“, baseada na Jordânia, e o seu comandante, Publius Valerius Comazon, a aclamarem Elagábalo imperador, em 16 de maio de 218 D.C.
Para piorar, o prestígio de Macrino já estava abalado pelo resultado desfavorável da guerra que ele vinha movendo contra a Pérsia, onde Roma teve que pagar uma indenização para terminar a guerra.
Macrino tentou combater a insurreição, mas as tropas enviadas para suprimi-la aderiram à revolta. Quando ele mesmo entrou em batalha, foi derrotado, em Antióquia, em 8 de junho de 218 D.C e tentou fugir para a Itália, sendo, por´me, interceptado e executado na Capadócia.
O Senado Romano, sem nenhuma alternativa viável, acabou reconhecendo formalmente Elagábalo e ele assumiu o nome oficial de Marco Aurélio Antonino Augusto, nome que representou uma tentativa de legitimar a sua suposta condição de descendente de Caracala (que, por sua vez, também procurara difundir a crença, altamente improvável, de que ele era descendente do imperador Marco Aurélio).
Embora o fato não fosse inédito, tendo-se inaugurado, com Trajano, cidadão romano nativo da Espanha, a possibilidade de que cidadãos nativos de outras províncias que não a Itália assumissem o trono imperial, com certeza a ascensão de Elagábalo deve ter espantado Roma.
Afinal, Elagábalo era sacerdote de uma religião estrangeira de origem semítica (o povo de Emesa falava aramaico, a mesma língua falada por Jesus Cristo). Embora os romanos cultuassem vários deuses estrangeiros, tais como, por exemplo, a egípcia Ísis, estas eram divindades que não entravam em choque com as integrantes do Panteão Romano, não sendo difícil de serem assimiladas ou associadas aos deuses tradicionais.
Antes mesmo que a comitiva de Elagábalo chegasse a Roma, a mãe dele, Júlia Soêmia, já havia mandado para a capital um grande retrato pintado de Elagábalo vestido com os trajes de sumo-sacerdote, o qual foi pendurado em cima do Altar da deusa Vitória, na Cúria do Senado Romano (cujo prédio ainda existe, no Fórum Romano). para que os romanos fossem se acostumando com o fato de serem governados por um sacerdote estrangeiro…
Enquanto isso, a comitiva imperial parou em Nicomédia para passar o inverno. E lá, segundo as fontes, Elagábalo entregou-se à prática de vários rituais orgiásticos característicos de sua religião, os quais desagradaram às tropas, chegando a ocasionar início de uma revolta, que acabou suprimida.
Entretanto, o poder agora baseava-se na riqueza e influência dos sírios, que foram instalados nos postos chaves. Comazon, o correligionário de primeira hora, recebeu o posto de Prefeito Pretoriano e ela ainda seria duas vezes cônsul. A mãe do novo imperador, Júlia Soêmia, e a sua tia, Júlia Maesa, foram declaradas “Augustas”. Mais surpreendente, as duas seriam, um pouco mais tarde, as primeiras e únicas mulheres a serem admitidas no Senado Romano. E Júlia Maesa ainda receberia o título de “Mãe do Senado”.
Elagábalo também trouxe junto com ele da Síria a Pedra Negra do Templo de El-Gabal, transferida de Emesa para Roma, onde, para guardá-la, ele mandou construir um templo, chamado de “Elagabalium“, na colina do Palatino (foram cunhadas moedas mostrando a pedra). Ele também mandou retirar várias relíquias de templos ancestrais da Cidade Eterna e transferi-los para o Elagabalium.
(Ruínas do terraço do Elagabalium, em Roma, e maquete mostrando sua provável aparência)
Para facilitar a sua aceitação pelos Romanos, o deus Elagábalo foi associado ao “Deus Solis Invictus“, identificando-o como o Deus-Sol, cujo culto vinha crescendo desde a virada do século III.
Todavia, em uma grande demonstração de falta de respeito para com a tradicional religião romana, Elagábalo se casou a virgem vestal Aquília Severa, o que muito escandalizou os romanos, já que essas sacerdotisas deveriam permanecer virgens durante os seus 30 anos de serviço. Mais grave ainda, a lei romana previa a pena de morte, tanto para aquele que tivesse deflorado uma virgem vestal, como para esta própria.
(Denário cunhado durante o reinado de Elagábalo, com a efígie de Aquília Severa)
Pressionado pelo escândalo, Elagábalo se divorciou de Aquília e se casou com Anna Aurelia Faustina, uma descendente do imperador Marco Aurélio. E ele teria cinco esposas no total, em sua curta vida (sua primeira esposa foi a aristocrata Júlia Cornélia Paula, um casamento arranjado por sua mãe, após a sua ascensão ao trono, tendo dela se divorciado para se casar com a vestal Aquília).
Entretanto, segundo as fontes, a maior paixão de Elagábalo foi o seu escravo Hierócles, um condutor de carruagens a quem ele chamava de marido. Consta que Elagábalo, certa vez, teria dito, a respeito do rapaz:
“Eu tenho muito prazer em sersua amante, sua esposa e sua rainha“.
Embora alguns historiadores modernos sustentem que as fontes antigas exageraram os relatos acerca dos imperadores romanos, especialmente de Elagábalo, o fato é que Cassius Dio, a História Augusta e Herodiano (os dois últimos, de fato, fontes frequentemente não confiáveis), que são as três fontes principais sobre o seu reinado, convergem para afirmar a ocorrência desses comportamentos de Elagábalo.
Narra-se, por exemplo, que Elagábalo se apresentaria em público vestido de mulher, maquiado e com os olhos pintados. E ele teria também mandado depilar o seu corpo inteiro e até procurado um médico para fazer uma espécie de operação de mudança de sexo, visando fazer um órgão genital feminino em si mesmo, o que o tornaria, até onde se sabe, o primeiro governante transexual da História.
Outro companheiro de Elagábalo teria sido Aurelius Zoticus, no colo de quem, reclinado, o imperador chegava até a fazer as refeições. Todavia, consta que Hierócles, ciumento do rival, conseguiu, através de um médico, um tipo de medicamento que causava impotência, fazendo com que, diluído em alguma bebida, fosse servido a Zoticus, que, sem poder mais satisfazer os desejos do imperador, foi mandado embora do Palácio.
E Elagábalo de fato, segundo as fontes, apreciava ser surpreendido por Hierócles enquanto mantinha relações sexuais com outros homens, ocasião em que se comprazia ao ser castigado fisicamente pelo seu companheiro traído.
Outra prática escandalosa de Elagábalo, relatada pelos historiadores antigos, era o seu costume de se prostituir no próprio Palácio, colocando-se nu atrás de uma cortina, cobrando para praticar sexo com os homens que se deitavam com ele (relato que talvez expresse uma errônea compreensão de um ritual da religião de El-Gabal, pois vários cultos semíticos incluíam a prostituição sagrada).
(Representação artística do rosto de Elagábalo com base nos seus retratos que sobreviveram)
Em algum momento, Júlia Maesa percebeu que a crescente rejeição a Elagábalo pela sociedade romana, e, sobretudo, pelos militares romanos, colocava em perigo a própria posição da dinastia. A matriarca também concluiu que os reiterados excessos sexuais do neto eram encorajados pelo fervor religioso dele e de sua filha, Júlia Soêmia, a mãe do imperador, no culto a El-Gabal.
Júlia Maesa então aproximou-se de sua outra filha, Júlia Maméia, que também tinha um filho, Severo Alexandre, então com 13 anos de idade. A influente Júlia Maesa conseguiu persuadir Elagábalo a nomear seu primo Severo como seu herdeiro, dando-lhe o título de “César”. Naquele mesmo ano, 221 D.C, Elagábalo e Severo exerceram o consulado.
Contudo, percebendo o entusiasmo que a nomeação de Severo Alexandre provocou nos soldados da Guarda Pretoriana, há muito incomodados com os seus excessos, Elagábalo resolveu anular sua decisão e revogar os títulos concedidos ao seu primo. Contudo, essa decisão fez o público e as tropas se alvoraçarem temendo pela vida do menino.
Os Pretorianos demandaram a presença de Elagábalo e Severo no Castra Pretoria, devido aos rumores de que Severo pudesse ter sido assassinado. É possível que o motim tenha sido instigado por Júlia Maesa e Júlia Maméia.
Quando o imperador e seu primo apareceram, os guardas começaram a saudar Severo Alexandre, ignorando Elagábalo, que furioso, teria ordenado a prisão dos simpatizantes do primo. Essa ordem, por sua vez, irritou ainda mais a tropa, que imediatamente atacou o palanque e perseguiu Elagábalo e sua mãe, os quais tentaram fugir. Júlia Soêmia tentou proteger o filho, abraçando-o, mas ambos acabaram mortos e decapitados.
Então, os corpos dos dois foram arrastados pelas ruas, tendo o de Elagábalo sido jogado no Rio Tibre. Nos dias seguintes, várias pessoas associadas a Elagábalo foram mortas, incluindo Hierócles. Seu primo,SeveroAlexandre, que ainda não havia completado 14 anos de idade, foi oficialmente reconhecido como imperador em 13 de março de 222 D.C.
A Pedra Negra foi imediatamente mandada de volta para Emesa, e provavelmente ela só não foi destruída porque os romanos eram notadamente um povo supersticioso, e também para não causar desnecessário descontentamento entre os fiéis de El-Gabal e a população da cidade síria.
(Severo Alexandre, primo de Elagábalo e seu sucessor no trono imperial)
CONCLUSÃO
Elagábalo morreu com a idade de dezoito anos. Com apenas cerca de quinze anos ele fora feito imperador pela mãe e pela avó. Ele é descrito pelos historiadores como travesti, transexual ou mesmo transgênero.
Entendemos que é difícil avaliar o comportamento sexual e a moral dos antigos pelos padrões modernos, e nem devemos utilizar exemplos da antiguidade para justificar ou condenar aspectos das sociedades atuais. Certamente, o que era considerado comportamento “normal” ou padrão socialmente aceito pelos romanos é diferente do vigente nos dias de hoje.
Heterossexualidade e homossexualidade para os romanos eram conceitos vagos comparados com as nossas definições atuais. Imperadores considerados “bons” pelos historiadores romanos, como TrajanoeAdriano, notoriamente sentiam atração e tinham relações sexuais com jovens rapazes, sem que isso tenha comprometido a sua reputação. No máximo, como lemos em Cássio Dião sobre Trajano, o fato era mencionado de passagem, como uma curiosidade e uma ponta muito sutil de ironia.
A censura moral dos autores antigos aos imperadores sobre este tema, é feita muito mais ao desregramento ou à luxúria desenfreada, ou, ainda, à efeminação caricatural, pois eles esperavam de um imperador uma aparência marcial e um comportamento masculino, característica essa que não era manchada pelo fato deles fazerem sexo com rapazes, desde que eles assumissem a posição ativa.
É provável que muitas das passagens sexualmente escandalosas do reinado de Elagábalo, mencionadas nas fontes antigas, estejam relacionadas ao culto de El-Gabal, divindade frequentemente associada à Baal, religião que parece ter incluído ritos de prostituição sagrada masculina (como os kadesh, citados na Bíblia Judaica) e também castração de sacerdotes. Note-se que isso se parece um pouco com os vícios aos quais os autores romanos aludem em suas obras e poderia explicar também a aparência feminina de Elagábalo.
O grande erro que poderia ser imputado a Elagábalo é não ter percebido o choque cultural que a reunião, em uma mesma pessoa, dos papéis de imperador e sumo-sacerdote de uma religião tão estranha aos costumes italianos como era a sua causou na sociedade romana. Convenhamos que esperar essa consciência de um menino sírio que foi feito imperador aos quinze anos pelas manobras da mãe e da avó seria demasiado, mesmo nos tempos atuais.
Em 17 de novembro de 375 D.C, ao receber uma delegação de emissários bárbaros, o imperador romano Valentiniano I, enfureceu-se com a insolência das demandas que lhe eram apresentadas, sofreu um derrame e morreu em seguida, na cidade de Brigetio, situada na atual Hungria.
Flávio Valentiniano nasceu em 321 D.C, no sul da Província Romana da Panônia, na cidade de Cibalae (hoje Vinkovci, na atual Croácia), filho de um humilde camponês chamado Gratianus(não confundir com o imperador homônimo, filho do nosso Valentiniano).
O pai de Valentiniano entrou para o Exército Romano e foi galgando postos até ingressar na unidade de elite dos “Protectores domestici“, que eram os guarda-costas do Imperador Constantino I. A partir daí, Gratianus foi promovido a general e conseguiu ser nomeado Conde da África, local onde ele foi acusado de enriquecimento ilícito, sendo, por causa disso, afastado. Não obstante, algum tempo depois, Gratianus foi reabilitado, chamado de volta e nomeado Conde da Britânia. Finalmente, depois de exercer esse cargo, Gratianus retirou-se da vida pública e voltou para suas propriedades em sua terra natal, na Panônia.
Entretanto, o tempo das boas graças de Gratianus duraria pouco, pois o Imperador Constâncio II, alegando que Gratianus teria hospedado o usurpador Magnêncio quando este esteve na região da Panônia, mandou confiscar as terras dele.
Durante os anos de serviço do pai, Valentiniano entrou para o exército, provavelmente também como “Protector domesticus” e, do mesmo modo que seu genitor foi sendo paulatinamente promovido.
No reinado de Constâncio II, os bárbaros Alamanos ameaçaram seriamente a Gália, e, aproveitando-se da guerra civil então travada entre o imperador e Magnêncio, cruzaram o Reno e atacaram várias cidades. Valentiniano, agora servindo como tribuno, sob as ordens do César (príncipe-herdeiro) Juliano, foi encarregado de interceptar um bando de Alamanos que havia atacado Lyon, em 355 D.C.
Todavia, para poder cumprir aquela missão com eficiência, Valentiniano dependia do auxílio de Barbatio, um general que estava envolvido em uma conspiração para prejudicar Juliano. E, naturalmente, o conspirador não tinha nenhuma intenção em ajudar Juliano…Assim, sem o apoio de Barbatio, as tropas comandadas por Valentiniano acabaram sendo derrotadas pelos Alamanos, com grandes perdas.
Valentiniano foi, injustamente, considerado responsável pelo fracasso e afastado do Exército, acabando por ter que ir viver em suas terras em Sirmium, cerca de 55 km da atual Belgrado. Nesse período, nasceu seu filho, que recebeu o nome do avô, Graciano (e que também, futuramente, se tornaria imperador).
(Mapa da Prefeitura de Illyricum, mostrando a localização da cidade de Sirmium)
Para piorar a sua situação, quando Juliano tornou-se imperador, a carreira de Valentiniano correu sério risco, pois o novo monarca, que até então vinha ocultando o seu apreço pelas religiões pagãs tradicionais, rapidamente colocou em prática medidas para enfraquecer o Cristianismo e recolocar o paganismo em proeminência no Estado Romano. Valentiniano, entretanto, era um notório católico devoto,
Não se mostra surpreendente, portanto, o relato de que Valentiniano, após se recusar a assistir ou fazer um sacrifício em uma cerimônia pagã da qual estava obrigado a participar, tenha sido exilado (ou, em uma versão mais branda do caso, ele tenha sido designado para servir numa província distante, talvez o Egito ou a Armênia).
Foi somente quando Juliano, o último integrante da dinastia inaugurada por Constantino I, morreu, dos ferimentos recebidos em um combate na retirada de mais uma campanha romana fracassada na Pérsia (363 D.C), e o novo imperador romano cristão Joviano assumiu, que a sorte voltou a sorrir para Valentiniano. Ele conseguiu ser nomeado comandante dos Scuttari e, consequentemente, agora chefiava uma das mais importantes unidades de elite da Guarda Imperial (Scholae Palatinae).
(Um scutarii deveria se parecer com este soldado do Baixo Império Romano, em 1º plano)
Para salvar a própria pele e conseguir retirar o remanescente do Exército Romano da Pérsia, Joviano teve que assinar com os Persas um humilhante tratado de paz, entregando aos inimigos as cinco províncias orientais que haviam sido conquistadas pelo imperador Diocleciano, quase um século antes, além das estratégicas cidades de Nísibis e Síngara, duas praças-fortes que pertenciam a Roma desde o reinado de Septímio Severo, ainda no início do século III D.C.
Contudo, enquanto Joviano e sua comitiva deslocavam-se de Ancyra para Nicéia, seguindo a rota para levá-los até a capital Constantinopla, o recém-aclamado imperador faleceu subitamente.
A morte inesperada de Joviano, forçou a cúpula cívico-militar romana, pela primeira vez na História de Roma, a optar pela realização de um inusitado e inaudito conclave para se escolher o seu sucessor.
Assim, ao invés de se resolver a sucessão pela forma mais usual – a vitória militar de um general contra os seus rivais – os chefes militares decidiram convocar uma reunião dos mais importantes funcionários civis e militares do Império. E, após a análise de várias opções, os participantes escolheram Flávio Valentiniano, o comandante do regimento de infantaria de elite dos “Scuttarii“, a tropa de elite que fazia parte do séquito pessoal do imperador.
Em 26 de fevereiro de 364 D.C, Flavius Valentinianus (Valentiniano I), que contava com 43 anos de idade, foi proclamado Augusto (Imperador) por uma assembléia da qual participaram os mais importantes ministros e governadores do Império Romano, reunidos em Nicéia, na Província Romana da Bitínia, na Ásia Menor.
(“Il Colosso” de Barletta, estátua de bronze de um imperador romano, provavelmente trazida para a Itália pelos Cruzados proveniente do Saque de Constantinopla, e que se acredita retratar Valentiniano I). Foto: User:Marcok, CC BY-SA 2.5 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.5, via Wikimedia Commons
Porém, a situação do Império Romano naquele momento era nada menos do que dramática: No front militar, à derrota na Pérsia e à perda de territórios estratégicos, que colocavam pressão sobre as cruciais províncias da Síria e do Egito, no Oriente, somava-se a crescente ameaça das tribos germânicas no Reno e no Danúbio, no Ocidente, as quais, oportunisticamente, sempre aproveitavam qualquer insucesso militar romano para tentar incursões no território do Império, em busca de saques, ou, alternativamente, extorquir algum pagamento em troca de paz.
E o quadro político interno também não era animador. O breve reinado de Juliano contribuíra para aumentar a intolerância religiosa do Cristianismo triunfante. Começava, assim, a aumentar uma fenda entre a elite de Constantinopla, marcadamente cristã ortodoxa, e a elite tradicional romana pagã, ainda muito influente no Ocidente, sobretudo no Senado Romano.
Eram tempos conturbados, que imploravam por um líder enérgico, resoluto e incansável, mas também consciencioso, e essas seriam justamente as características mais marcantes de Valentiniano I, em seu reinado.
Não obstante, logo em seguida à proclamação de Valentiniano I, o Exército Romano demandou que ele escolhesse um co-imperador. Tendo em vista que, desde Diocleciano, estabelecera-se um quase consenso de que o Império Romano era extenso e complexo demais para ser governado apenas por um imperador em Roma, e, ainda, a premência da situação militar no Ocidente e no Oriente, dificilmente este comportamento dos generais deve ser visto como uma rejeição a Valentiniano, e sim, mais como o requerimento por uma providência julgada indispensável.
Porém, eu também acredito que, provavelmente, essa reivindicação para que Valentiniano I escolhesse um colega deve ser entendida como uma pretensão daqueles que, em Constantinopla, temiam perder poder com uma reunificação administrativa do Império. O fato é que, um mês depois, Valentiniano I nomeou seu irmão, Valente, como Imperador Romano do Oriente.
Valente logo teve que lidar com a revolta de Procopius, um parente de Juliano, a qual, porém, foi rapidamente debelada. Depois, ele conduziu algumas campanhas no Danúbio contra os Visigodos, do rei Atanarico, obtendo uma paz em termos favoráveis aos romanos, inclusive parando de pagar o subsídio anual que o Império vinha pagando aos visigodos para não ser atacado.
Já Valentiniano foi dar combate aos Alamanos que, em 365 D.C, invadiram novamente a Gália. Ele estabeleceu-se em Augusta Treverorum (atual Trier, na Alemanha) para conduzir a guerra. De lá, Valentiniano comandou a formação de um grande exército para guerrear contra os referidos bárbaros.
O Autor em frente à chamada “Porta Nigra”, em Trier, antiga Augusta Treverorum, em 2009, onde alguns imperadores do Baixo Império Romano estabeleceram-se para lutar contra os Germanos. Era o portão principal das muralhas da cidade e já tinha mais de 200 anos quando Valentiniano o cruzou
Em 367 D.C, Valentiniano e seu exército cruzaram os rios Meno e Reno e invadiram o território inimigo, inicialmente quase sem encontrar resistência, queimando tudo que encontraram em seu caminho. Os Alamanos então resolveram lutar e travou-se a Batalha de Solicinium, provavelmente ocorrida onde hoje fica a cidade de Hechingem (no atual Estado alemão de Baden-Wurttemburg). Essa região tinha sido abandonada pelos romanos fazia cerca de um século antes, tendo sido parte dos chamados “Agri Decumates” (ou, literalmente, “campos que pagam o dízimo”, um território germânico que havia sido anexado pelos romanos ainda no século I)
(Provável lugar da Batalha de Solicinium. No reinado de Valentiniano I, os romanos ainda eram capazes de atacar os Germanos à leste do Reno)
A Batalha de Solicinium foi duríssima, com pesadas perdas romanas, mas os Alamanos foram derrotados. Foi a última vez que um imperador comandou um grande exército romano e conduziu com sucesso uma campanha além da margem direita do Reno.
Nesta campanha, Valentiniano fez-se acompanhar do filho Graciano, com apenas 8 anos de idade. Claramente, portanto, o imperador já demonstrava que o queria para sucessor, pois, naquele ano, o menino foi proclamado Augusto, ou seja, co-imperador.
Valentiniano, entrementes, ainda em 367 D.C, também teve que enfrentar uma grande rebelião na Britânia – um ataque combinado das tribos dos Pictos e Escotos, em conjunto com os invasores saxões que assolavam o litoral leste da Ilha (fato que já havia levado os próprios romanos a batizarem aquele trecho como “Costa Saxã“). Essa ameaça só foi derrotada com muito custo, após a chegada do Conde Teodósio, nomeado por Valentiniano para comandar as forças romanas.
(Portus Adurni, atualmente Portchester Castle, no porto de Portsmouth, na costa oriental da Inglaterra, fortaleza integrante do sistema romano de fortificações da Saxon Shore (Costa Saxã), Foto: ale speeder, CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Commons
Valentiniano também conduziu um grande programa de reparo e construção de fortificações ao longo da fronteira Reno/Danúbio, o que irritou os bárbaros germanos, dando-lhes o pretexto para novas agressões.
Outra importante iniciativa de Valentiniano foi recompor os efetivos do Exército Romano, não só preenchendo as lacunas decorrentes das recentes derrotas sofridas, mas até aumentando o seu número, procurando cumprir estritamente o recrutamento anual.
Aliás, um fato notável, que demonstra a dificuldade que constituía o recrutamento naquele período turbulento do Império, bem como a medida da determinação de Valentiniano em restaurar o poderio militar romano, foi a redução da altura mínima exigida para os recrutas: de 1,77m para 1,70m, aumentando, deste modo, a massa da população recrutável.
A maior fonte sobre o reinado de Valentiniano I é o historiador Amiano Marcelino, ele mesmo um ex-militar dos Protectores Domestici, e considerado por muitos como o autor romano que melhor escreveu sobre o Baixo Império Romano.
Segundo Amiano, o imperador Valentiniano:
“detestava as pessoas bem vestidas, cultas, ricas e bem-nascidas“, sendo ele mesmo “rústico, inculto e, frequentemente, violento“.
Realmente, diversas passagens atestam que Valentiniano era dado a acessos de fúria, sobretudo quando se deparava com erros ou irregularidades praticados pelos subordinados. Mas quanto ao ódio às pessoas cultas, ainda que a acusação de Amiano possa ser verdadeira, o fato é que essa alegada antipatia do imperador não se estendia à cultura em si, pois, consta que Valentiniano mandou abrir várias escolas pelo Império Romano.
Sendo ou não exagerada a observação de Amiano acerca do ódio de Valentiniano às classes altas romanas, o fato é que ele foi reconhecido por várias medidas em favor dos mais pobres e inclusive procurou proteger os humildes das arbitrariedades cometidas pelos poderosos.
Neste particular, uma de suas medidas mais meritórias foi instituir em todo o Império o cargo de “Defensor Civitatis“, cuja principal função era ser um advogado público, em prol dos plebeus contra as injustiças dos poderosos. Portanto, atrevemo-nos a dizer que Valentiniano pode ser considerado um dos patronos da moderna Defensoria Pública.
Coube a Valente implementar essa política de Valentiniano no Oriente. As palavras dele acerca do cargo de Defensor foram preservadas no preâmbulo de um édito:
“Nós propiciamos, mediante um útil projeto, que a inocente paz dos camponeses possa gozar do benefício de uma proteção especial, prevenindo que eles sejam prejudicados e molestados pelas artimanhas de uma disputa jurídica, mesmo quando lhes é devida uma reparação; porque muitas vezes um advogado ganancioso é desidioso, o oficial que guarda as portas do tribunal é amolecido por grandes propinas, as atas do julgamento são vendidas pelos serventuários, e aqueles que administram a justiça cobram mais em taxas do que um litigante bem sucedido receberia da parte contrária“.
Ao contrário de seus predecessores cristãos da dinastia constantiniana, Valentiniano adotou uma postura tolerante com o paganismo e as heresias cristãs. Ele continuou permitindo, por exemplo, a prática de sacrifícios noturnos, a antiga prática de adivinhações pelos harúspices e os antigos mistérios pagãos.
A.H.M Jones cita as seguintes palavras, escritas a esse respeito pelo próprio Valentiniano, em uma carta:
“Eu não considero que qualquer rito permitido por nossos ancestrais seja criminoso. As leis editadas por mim no início de meu reinado são testemunhas disso, motivo pelo qual a todos foi concedida a livre escolha de praticar qualquer religião que a sua vontade determinar“.
Uma política sábia que, infelizmente, não seria seguida por seus sucessores, e que muitos governos ainda contrariam nos dias atuais…
Porém, em 374 D.C, chegou a notícia de que os Quados, o povo germânico que era um velho inimigo de Roma e habitava ao longo do Danúbio, após aliarem-se aos bárbaros sármatas, tinham derrotado duas legiões romanas. A causa principal do conflito foram as fortalezas romanas que, seguindo a política de Valentiniano, estavam sendo construídas em território bárbaro.
Valentiniano cruzou o Danúbio em Aquincum (localizada dentro da área da atual Budapeste) e devastou o território dos Quados, voltando para Savaria para passar o inverno.
No ano seguinte, Valentiniano recomeçou a campanha e dirigiu-se a Brigetio, também situada na atual Hungria. Lá, em 17 de novembro de 375 D.C, ele recebeu em audiência uma delegação dos Quados.
Ruínas do forte militar romano, em Brigetio, (1)e reconstituição moderna (2)
Durante a audiência, os Quados reclamaram que os romanos eram culpados da guerra, devido à construção dos fortes. Às condições estipuladas para o fim das hostilidades, que previam que eles deveriam fornecer recrutas para o Exército Romano, os Quados retrucaram que os grupos aliados que não estivessem presentes na audiência não estavam obrigadas a respeitá-las, sendo livres para atacar os romanos quando quisessem.
Furioso com a insolência dos embaixadores quados, Valentiniano I ergueu-se de sua cadeira e começou a gritar, censurando duramente os bárbaros. De repente, o rosto rubro do Imperador congelou-se em uma máscara terrível e a voz tonitruante dele sumiu…Uma artéria no seu crânio acabara de arrebentar e ele tinha sofrido um derrame, tendo que ser retirado do recinto, completamente imobilizado, falecendo pouco depois.
Brigetio, atual Komárom/Szőny, na Hungria, não esqueceu que foi palco da morte de um grande imperador romano, como mostra essa placa moderna em homenagem a Valentiniano I
O filho de Valentiniano I, o jovem Graciano, de apenas 16 anos, foi aclamado imperador do Ocidente, permanecendo seu irmão, Valente, como monarca da parte oriental, em Constantinopla.
No ano seguinte, 376 D.C, chegaria ao Danúbio uma grande e perigosa migração dos Godos.
Essa era uma ameça tremenda, mas que poderia ser enfrentada por um líder capaz, e determinado. Infelizmente, nem Graciano e, menos ainda, Valente, mostrariam-se à altura do desafio.
Assim, em 378 D.C, os Godos derrotariam os romanos na Batalha deAdrianópolis e o Império Romano começaria a longa, mas inexorável, trajetória de sua derrocada. Talvez, se Valentiniano I não tivesse se enfurecido tanto com os Quados em Brigetio, e sobrevivido até Adrianópolis, podemos cogitar que ele não cometeria os erros de Valente. Certamente, Valentiniano I não teria permitido aos Godos cruzarem o Danúbio, e ele teria jogado contra os bárbaros todo o poder combinado do Exército Romano.
Epílogo
Na cidade de Barletta, na Itália, existe uma enorme estátua de bronze, da época romana, datada do século IV D.C, retratando um imperador em tradicional traje romano de general, segurando um crucifixo. Ela é chamada de “Il Colosso“.
Não se tem certeza absoluta de quem é o Imperador representado, mas o candidato considerado como o mais provável pelos especialistas é Valentiniano I. A expressão dura, fechada, resoluta e de ar implacável daquele rosto de bronze é um perfeito retrato da personalidade e dos tempos de Valentiniano I.
FIM
Fontes:
1- “Quem foi Quem na Roma Antiga“, Diana Bowder, 1980, Ed. Círculo do Livro
2- “Declínio e Queda do Império Romano“, Edward Gibbon, 1980, Ed. Círculo do Livro
3- “The Later Roman Empire (AD 354-378)“, Ammianus Marcellinus, 1986, Penguin Books
4- “The Later Roman Empire 284-602, vol. 1“, A.H.M. Jones, The John Hopkins Universitary Press, 1986
Templo (em latim templum) originalmente era o espaço consagrado ao culto de uma divindade, compreendendo não apenas o edifício (aedes) onde (quase sempre, pois havia divindades que não tinham uma imagem, como Vesta) era guardada a estátua do deus cultuado, mas também o terreno circundante, ou recinto, onde, geralmente na frente, ficava um altar para sacrifícios e outras cerimônias religiosas (alternativamente, a palavra fanum era utilizada como sinônimo de templum). Portanto, os edifícios que hoje chamamos de templos eram denominados, na maior parte dos textos antigos, “aedes” (havendo também as variações sacellum, termo que era mais específico para denominar santuários menores, semelhantes ao que seria uma pequena capela atual, e delubrum, também com este sentido).
Inicialmente, as evidências indicam que os Romanos não construíam edificações para adorarem os seus deuses, que, inclusive, não eram antropomorfizados. Assim, os primeiros templos surgiram em Roma a partir do contato com os Etruscos, e, provavelmente, durante o período em que estes controlaram a cidade.
Então, naturalmente, os primeiros templos romanos imitaram o estilo etrusco. Este estilo de templo era construído sobre um alto pódio (somente podendo ser acessado mediante uma escadaria frontal com muitos degraus) e encimado por um grande frontão triangular colocado acima do lintel, sendo este sustentado por colunas apenas na frente do edifício (pronaos ou pronau), geralmente bem à frente do edifício, espaçadas, lisas e com capitéis simples que deram origem ao estilo chamado de “toscano” (palavra que, aliás, deriva de “etrusco”). Os Etruscos e, por sua influência, os Romanos, nesses tempos, usavam frequentemente tijolos para fazer as paredes, madeira nas colunas, no lintel e nos telhados, e, ainda, terracota, esta sobretudo nos capitéis das colunas, nas estátuas e outros ornamentos (então, não se utilizavam blocos de pedra ou de mármore, como os egípcios e gregos). Tudo pintado em cores bem vivas. O interior (cella) em muitos casos era dividido em três compartimentos, refletindo a trindade Tinia, Uni e Menrva (Júpiter, Juno e Minerva, para os Romanos). Vale citar que por sua vez, os templos etruscos, assim como os romanos, posteriormente, absorveram muito do estilo grego.
O templo romano mais importante durante toda a sua História, e provavelmente o primeiro de tamanho considerável a ser construído na cidade de Roma foi o Templo deJupiter Optimus Maximus, ou também, Templo de Júpiter Capitolino, situado na colina do Capitólio, que, tendo sido dedicado em 509 A.C, ano da instituição da República em Roma, foi destruído e reconstruído diversas vezes. A sua primeira versão era claramente de influência etrusca, e, inclusive, ele foi construído e decorado por trabalhadores e artistas etruscos, incluindo o grande escultor Vulca de Veios.
Mais tarde, os Romanos entraram em contato mais próximo com as cidades fundadas pelos gregos no Sul da Itália, começando a absorver diretamente a cultura grega, principalmente em sua fase helenística, o que se acentuou mais ainda com a conquista da própria Grécia, a partir do século II A.C, o que, obviamente, se refletiu na arquitetura, inclusive dos templos. Porém, apesar de passarem a construir os templos no estilo da arquitetura clássica grega, adotando os estilos de suas colunas e estatuária, e, agora, usando com mais frequência o mármore, sobretudo como revestimento, os Romanos mantiveram algumas características marcantes do estilo herdado dos Etruscos, notadamente a construção do templo sobre um pódio elevado, o acesso por uma escadaria frontal única e a presença da colunata apenas na parte frontal, com, no máximo, meias colunas decorativas nas paredes laterais (os templos gregos eram quase sempre perípteros, ou seja, inteiramente rodeados de colunas, enquanto que os romanos típicos eram prostilos – com colunas apenas na frente, ou pseudoperípteros, isto é, com colunas na frente e meias colunas ou falsas colunas na lateral. E, nos gregos, o acesso se dava por alguns poucos degraus que rodeavam todo o edifício).
Finalmente, sobre os templos romanos, é bom observar que eles eram construídos de acordo com as necessidades rituais das religiões pagãs: as cerimônias e os rituais públicos ocorriam na parte de fora do templo, normalmente em torno de um altar ou ara que ficava na frente do templo. Os fiéis participavam das cerimônias no recinto, mas não entravam em seu interior. No interior do templo propriamente dito ficavam apenas a estátua da divindade, no espaço delimitado pelas paredes (cella), podendo haver outras câmaras ou antecâmaras em que ficavam guardados objetos do culto e/ou oferendas (muitas delas de grande valor intrínseco, motivo pelo qual às vezes os templos funcionavam também como tesouro do Estado), e aos quais somente tinham acesso os sacerdotes. Nesses dias de cerimônias ou festivais públicos, costumava-se abrir as portas do templo e os fiéis então podiam espiar de fora as estátuas dos deuses.
Dito isso, sem mais delongas, vamos àqueles que eu considero os templos romanos sobreviventes mais bem preservados e/ou impressionantes (trata-se de uma seleção discricionária minha, aceitamos sugestões nos comentários):
1- Maison Carré (Nîmes, antiga Nemausus, França)
Provavelmente, após o Pantheon, é o templo romano em melhor estado de conservação que sobreviveu até os nossos dias (isto porque a decoração e o piso do seu interior não foram preservados). Este templo foi dedicado, entre 4 e 7 D.C., a Caio César e Lúcio César, netos e herdeiros adotivos do imperador Augusto que morreram muito jovens, e servia ao culto ao imperador. O prédio foi convertido em igreja na Idade Média, começando a ser restaurado a partir do século XVIII. É um templo hexastilo (seis colunas na fachada) e pseudoperíptero.
Foto do Autor (2003)O autor em frente à Maison Carré (2003)
2- Templo de Augusto e Lívia (Vienne, antiga Vienna, França)
Outra joia romana preservada na França, o Templo de Augusto e Lívia provavelmente foi construído no início do reinado de Augusto, o primeiro imperador, que começou oficialmente em 27 A.C. Há indícios construtivos que denotam que, por volta do ano 40 D.C, houve a necessidade de reconstruí-lo parcialmente, usando-se novos materiais, por algum incidente ignorado, talvez um incêndio ou terremoto. Assim como a Maison Carré, suas colunas são no estilo coríntio, porém ao contrário do primeiro, elas contornam a cella até mais da metade da lateral do edifício, ao invés das meias-colunas existentes no primeiro. Também foi convertido em Igreja, e, brevemente, após a Revolução Francesa, em “Templo da Razão”. Depois disso, foi usado como câmara de comércio e biblioteca, tendo sido restaurado a partir de 1852. É outro templo hexastilo. .
Disputa com o Templo de Hércules Vencedor o título de templo romano mais antigo relativamente intacto ainda de pé . Foi originalmente erguido entre os séculos IV E III A.C., mas a estrutura atual data de cerca de 100 A.C. Situa-se na área do antigo Forum Boarium, que era antigo mercado de gado da cidade de Roma. Foi convenientemente dedicado ao deus Portunus, o deus dos cadeados, das portas e porteiras, do gado e das pontes (por associação), já que o mercado de gado ficava adjacente ao porto fluvial (Portus Tiberunus) e à ponte de pedra (Pons Aemilius) mais antigos de Roma.
É um pequeno templo, elegante e austero, sendo o único da nossa relação adornado com quatro colunas no estilo jônico, e as paredes laterais com meias-colunas no mesmo estilo. No ano 872 de nossa era foi convertido em igreja católica, devendo sua preservação a este fato. Por isso, seu interior é decorado com valiosos afrescos retratando a vida da Virgem Maria, que foram preservados após a desconsagração do edifício.
Como curiosidade, vale mencionar que, até não muito tempo atrás, este templo era conhecido como “Templo da Fortuna Primigênia”, pelo fato, equivocadamente interpretado, de sua fachada ostentar a inscrição “…ORTUN…”.
Country: Italy
Site: Temple of Portunus
Caption: Exterior from angle
Image Date: April 5, 2014
Photographer: Lisa Ackerman/World Monuments Fund
Provenance: Site Visit
Original: email from Lisa AckermanCountry: Italy
Site: Temple of Portunus
Caption: Side facade
Image Date: September 29, 2011
Photographer: Studio Paolo Soriani/World Monuments Fund
Provenance: Site Visit
Original: Sharefile from Alessandra Peruzzetto
4- Templo de Hercules Victor (Roma, Itália)
Outro sobrevivente da Roma Republicana, este templo redondo circundado de colunas coríntias segue o modelo grego (tipo denominado tholos). O Templo de Hercules Victor (ou Hércules Vencedor) também fica no antigo Forum Boarium (atualmente Piazza della Bocca della Veritá), quase ao lado do Templo de Portunus. Isto não é uma mera coincidência, pois os Romanos acreditavam que havia sido neste local que os bois vermelhos do gigante Gerião, capturados por Hércules após completar o seu décimo trabalho, foram roubados por outro gigante, Cacus. Acredita-se que este templo tenha sido construído em 146 A.C, pelo cônsul Lucius Mummius Achaicus, que conquistou e saqueou a rica cidade grega de Corinto. Em assim sendo, ele seria o templo romano mais antigo sobrevivente em boas condições. Por ser redondo, durante muito tempo acreditou-se erroneamente que ele seria um templo dedicado a Vesta, a quem foi dedicado um templo igualmente circular e situado no Fórum Romano.
Outro exemplar muito bem preservado é o Templo de Augusto, na cidade croata de Pula, que, após ser destruída durante a Guerra Civil do Segundo Triunvirato contra os assassinos de César, e refundada por Augusto com o nome de Colonia Pietas Iulia Pola Pollentia Herculanea, em cujo reinado o templo foi erguido, provavelmente após 2 A.C, data em que o Senado Romano conferiu-lhe o título de Pai da Pátria, que se encontrava afixado em letras de bronze na arquitrave. Originalmente fazia parte de um conjunto de três templos. É mais um templo que deve a sua preservação ao fato de ter sido convertido em igreja cristã.
Este templo foi encontrado em 1882, durante a demolição de um castelo medieval na cidade catalã de Vic, que na época do Império Romano tinha o nome de Auso e também era chamada de Vicus Ausonae (Vicus significa povoado ou bairro urbano, em latim, cuja corruptela acabou virando o nome da cidade). No século XI, o templo, feito de arenito, foi coberto pela estrutura do castelo, que também aproveitou como material fragmentos de colunas, capitéis e outros elementos decorativos. Após a sua descoberta, cidadãos proeminentes de Vic resolveram restaurar o templo, aproveitando o fato de que as fundações, as paredes norte e oeste e a maior parte da arquitrave estavam intactos. A única coluna e o único capitel sobreviventes foram utilizados como modelo para a reconstrução dos demais e reincorporados à estrutura, e, assim, o templo foi reconstituído ao que devia ser o seu aspecto original. Devido ao fato de ser uma reconstrução, ainda que utilizando grande quantidade de elementos autênticos, relutamos um pouco em incluí-lo nesta relação, mas resolvemos mantê-lo, afinal, em maior ou menor grau, todos os templos romanos aqui mencionados sofreram algum tipo de intervenção restauradora. O seu estilo, e os elementos encontrados durante a pesquisa arqueológica, sugerem que o templo data do início do século II D.C. A construção do Templo de Vic é muito semelhante a do Capitólio de Dougga, que veremos a seguir.
Dougga originalmente era um povoado númida, que depois foi controlado pelos Cartagineses, até ser conquistada pelos romanos. Após ser elevada à condição de cidade com direitos iguais às das cidades italianas e colônias romanas gozando de maior autonomia, ela recebeu o nome de Municipium Septimium Aurelium Liberum Thugga. O Capitólio de Dougga é um templo originalmente dedicado à chamada Tríade Capitolina: Jupiter Optimus Maximus, Juno e Minerva, o trio de divindades protetoras de Roma que integrava o culto oficial do Estado Romano e que desde o início eram cultuados no Templo de Júpiter Capitolino, que tinha três cellae separadas para cada uma delas. Com a expansão romana, inúmeras cidades espalhadas pelo Império construíram, em seus centros cívicos, templos similares cultuando a Tríade, chamados de Capitolium (pl. Capitolia). Uma inscrição dedicatória aos imperadores Marco Aurélio e Lúcio Vero indica que o templo deve ter sido construído entre 166 e 167 D.C. Assim como no Templo de Vic, as paredes do Capitólio foram erguidas utilizando-se a técnica conhecida como opus africanus, comum nas províncias romanas do Norte da África e que parece ter origem na arquitetura cartaginesa. Juntamente com os Templos de Portunus e de Pula, é um exemplo de templo tetrastilo (quatro colunas na fachada).
8- Templo de Baco (Baalbek, antiga Heliopolis, Líbano)
O Templo de Baco fazia parte de um colossal complexo religioso que compreendia vários templos erguido na antiga cidade de Heliopolis, na província romana da Síria-Fenícia, depois Síria-Coele. O complexo foi construído pelos romanos a partir do final do século I A.C/Início do Século I D.C, em um lugar onde já existia há bastante tempo um centro de culto a divindades solares semitas, como Baal. Durante o Império, a cidade recebeu o nome de Colonia Julia Augusta Felix Heliopolitana. A construção central do complexo era o Templo de Júpiter (88m x 44m x 44m), que disputa com o Templo de Vênus e Roma, em Roma (110m x 53m x 31m), o título de maior templo religioso pagão já construído pelos Romanos, porém dele somente restaram o enorme pódio e algumas colunas de pé. Já o Templo de Baco (66m x 35m x 31m) era o segundo maior do complexo (e, ainda assim, era um dos maiores dentre todos os templos romanos) e o mais bem conservado, ao menos nas laterais e nos fundos. Ele começou a ser construído no reinado do imperador Antonino Pio e provavelmente ficou pronto no reinado do imperador Septímio Severo. O interior da cella é decorado com elaborados relevos e esculturas, possuindo vários nichos. É octastilo (fachada com oito colunas) e o único exemplo de templo períptero da nossa relação.
Incluímos o Capitólio de Brescia nesta relação pelo fato de, apesar de estruturalmente ele estar bem menos preservado do que os demais, não obstante ele contém elementos de valor artístico e histórico inestimáveis. O Capitólio de Brescia foi construído no reinado do imperador Vespasiano, em 73 D.C, no lugar de um edifício religioso mais antigo da época republicana que possuía a cella dividida em quatro partes. Segundo os estudiosos, este templo republicano foi construído entre 89 A.C e 75 A.C, época em que a cidade foi reconhecida como “Civitas” (Município com mais autonomia e direitos civis para os cidadãos). Quando o Capitólio foi construído aproveitando o templo anterior como fundação, a parte mais baixa das paredes e o piso original deste foram preservados, tornando-se o único exemplo de decoração interna de um templo dos tempos da República Romana que sobreviveu. E o Capitólio de Brescia, em si, também teve partes importantes da sua estrutura e da sua decoração que chegaram até os nossos dias pelo fato dele ter sido soterrado por um deslizamento do morro Cidneo, que ficava atrás do edifício, tendo somente sido redescoberto em 1823. Os elementos arquitetônicos encontrados foram remontados, e o Capitólio de Brescia, em seu estado atual, permite distinguir a concepção arquitetônica e paisagística que nortearam a sua construção, contendo três cellae (cultuando a Tríade Capitolina: Júpiter, Juno e Minerva), colocando-o em posição destacada, em uma parte elevada da cidade e tendo o morro atrás, como moldura. Sobreviveram, ainda boa parte do piso original em mármore policrômico, assentado na técnica conhecida como “opus sectile“, e alguns mosaicos decorativos. Finalmente, também foi encontrada na escavação uma espetacular estátua de bronze de uma Vitória Alada, que provavelmente ficava no topo do frontão. É um templo octastilo e prostilo.
Photo by Wolfgang Moroder-Wikimeida commons
Decoração do templo republicano
Mosaico no pavimento do Capitólio
Pavimento do Capitólio
Estátua da Vitória, Brescia, foto Giovanni Dall’Orto., Attribution, via Wikimedia Commons
10- Templo de Rômulo (Roma, Itália)
Este templo difere de todos os outros que relacionamos pelo fato da sua arquitetura já refletir o estilo do Baixo Império Romano, usando concreto na cúpula de sua rotunda, mas ainda com elementos decorativos clássicos, como colunas e arquitraves, retiradas de prédios mais antigos, dispostas em um formato côncavo. Sem dúvida, é um tipo diferente de todos os outros templos aqui exibidos. No entanto, há controvérsias sobre a real identidade do edifício. O mais aceito é que seria um templo dedicado a Valério Rômulo, filho do imperador Maxêncio, que morreu ainda adolescente em 309 D.C., sendo divinizado por ordem de seu pai. Os elementos que suportam essa tese são o fato de que toda a área foi objeto de construções e renovações por iniciativa de Maxêncio, como os vizinhos Basílica de Maxêncio e Templo de Vênus e Roma. Sobretudo, no local foram encontradas moedas de Maxêncio, inclusive um exemplar com a efígie do rapaz e os dizeres “Divino Rômulo N V Filho do Imperador Maxêncio” no anverso, e, no reverso, uma representação de um edifício com um domo, portas de bronze, quatro colunas, com nichos contendo estátuas entre elas e encimado por uma águia, circundada pelos dizeres: “eterna memória“, um desenho que corresponde exatamente à aparência do Templo. Em outra interpretação, derivada de uma menção do historiador antigo Sexto Aurélio Victor, acredita-se que o edifício seria o “Templum Sacrae Urbis” ou “Urbis Fanum“, que, segundo o relato, teria sido construído por Maxêncio em celebração à deusa Roma. Finalmente, para outros estudiosos, o prédio ocupou o lugar do anterior Templo dos Penates, mas, com o incêndio e demolição deste, foi construído para ser apenas um vestíbulo de entrada monumental da Via Sacra para o Fórum da Paz. De qualquer modo, um fato que nos levou a escolher este templo é porque é o único templo romano (além do Pantheon) que ainda tem a sua porta de bronze original, e funcionando perfeitamente, inclusive com a fechadura original! E, juntamente com o Pantheon, o Templo de Rômulo é o único que continua sendo usado para a mesma finalidade para o qual foi construído: local de culto religioso – uma vez que ele foi convertido, em 527 D.C, em Igreja Católica, durante o reinado de Teodorico, o Grande, rei dos Ostrogodos, a quem a cidade de Roma estava submetida, e que doou o prédio ao Papa, tornando-se, então, o vestíbulo da Basílica de São Cosme e São Damião, no Fórum Romano (que aproveitou outro prédio romano já conectado ao templo, que dava para o Fórum da Paz).
Qualquer relação de templos romanos existentes não pode deixar de mencionar o Pantheon (Panteão, em português). Em termos arquitetônicos, poucos edifícios tiveram tanta influência no mundo quanto ele. Com efeito, é um prédio que foi copiado em vários lugares do planeta e até hoje detém o recorde de ter a maior cúpula (domo) de concreto não reforçado do mundo, com o mesmo diâmetro da rotunda (43,3 metros, ou 150 pés romanos). Aliás, o Pantheon é uma maravilha de engenharia e arquitetura por si só, tanto pelo uso criativo do concreto romano, como por suas proporções perfeitas, sem falar no tamanho do prédio em si e na sua sobrevivência a inúmeros terremotos em quase dois mil anos. A rotunda tem o mesmo diâmetro que a altura do óculo (a abertura no topo do domo por onde entra a luz) até o chão, e assim, se o hemisfério que constitui a cúpula fosse uma esfera perfeita, ela caberia exatamente dentro do espaço interior do Pantheon ou dentro de um cubo perfeito, quase como se fosse uma representação do globo terrestre e da esfera celeste. Internamente, a superfície do domo é recortada por 5 fileiras de 28 quadrados escavados, Esses espaços, chamados de caixotões têm a função prática de aliviar o peso da estrutura do domo, mas não se pode deixar de observar que parecem corresponder aos 28 dias que correspondem ao ciclo lunar. Além disso, 28 é um número em que a soma dos fatores é igual ao próprio número (1+2+4+7+14=28) o que, de acordo com o matemático Pitágoras, expressava a harmonia mística com o Cosmos. Não há registro da existência de um prédio igual ou semelhante ao Pantheon antes ou depois na Arquitetura Romana, com uma cella circular e um pórtico clássico (octastilo) e, portanto, ele é um exemplar único. Curiosamente, este pórtico e a altura de suas colunas e do frontão constituem a única discrepância na perfeição de suas medidas: Originalmente, as colunas teriam 50 pés romanos de altura (14,8 metros), porém, dificuldades logísticas impediram o transporte de colunas desse tamanho (da pedreira de onde de fato vieram as colunas, no Egito) e, mais provavelmente, a colocação das mesmas no local pretendido (talvez devido a limitações dos guindastes), então, os construtores tiveram que usar colunas de 39 pés de altura (o contorno do frontão com a altura originalmente projetada permaneceu na fachada, na parede onde está anexado o pórtico definitivo, mostrando como este é mais baixo do que o planejado. Outras duas características marcantes do Pantheon são o fato dele ser o templo romano com a decoração interior mais bem preservada (e somente algumas residências em Pompéia e Herculano se comparam a ele neste quesito) e de possuir a a porta de bronze romana mais antiga ainda em funcionamento no edifício original. Cada metade da porta, de 4,45 m de altura, pesa 8,5 toneladas, e, mesmo assim, o seu balanceamento é tão perfeito, que, ainda hoje, podem ser abertas por apenas uma pessoa. O Pantheon foi construído no reinado do imperador Adriano, entre 118 e 128 D.C., no lugar de um templo do mesmo nome, erguido por Marco Vipsânio Agripa, no reinado de Augusto, e muitos acreditam, embora não haja prova disto, que ele foi projetado pelo grande arquiteto Apolodoro de Damasco, que concebeu muitos dos grandes projetos de Trajano, o antecessor de Adriano (Embora o significado do seu nome em grego seja “de todos os deuses”, nenhuma fonte antiga afirma que ele fosse de fato um templo onde todos os deuses eram adorados). Contudo, em sinal de modéstia, Adriano manteve a inscrição “M. AGRIPPA, L F COS TERTIUM FECIT” (“Construído por Marco Agripa, filho de Lúcio, Cônsul pela 3ª vez”) no lintel. O Pantheon deve a sua preservação ao fato de ter sido convertido em uma igreja católica em 609 D.C., continuando sendo até hoje a Igreja de Santa Maria e dos Mártires. Mesmo assim, ao longo dos séculos, ele foi despojado do revestimento de mármore das paredes exteriores da cella e de suas telhas de bronze.
CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=389746Interior do Pantheon. O piso (com algumas substituições que mantiveram o padrão original), o revestimento das paredes do 1º estágio, as colunas e os nichos são originais romanos. Algumas das edículas ou capelas, foram alteradas durante a Renascença, tendo suas colunas substituídas, mas no geral mantiveram a originalidade. Já o revestimento das paredes do 2º estágio foram alteradas no século XVIII, mas no lado direito superior da foto pode ser visto um pequeno trecho que foi restaurado no século XX para o padrão original romano. Foto: Macrons, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons
Decidimos criar uma nova categoria no blog, sobre os mais significativos exemplares da Arte e da Arquitetura Romanas, e nessa categoria, inauguramos a série “Os 10+“, começando pelos Anfiteatros Romanos.
Anfiteatro é uma palavra grega que significa “teatro com dois lados” ou “teatro de ambos os lados”, já que, basicamente, um teatro é um semicírculo ou uma meia-lua, e um anfiteatro é um círculo perfeito, ou uma elipse. Apesar disso, todos os anfiteatros antigos que sobreviveram são romanos, e, até onde eu sei, não se conhece nenhum de origem grega, o que dá a entender que de fato eles sejam uma invenção romana.
Os anfiteatros estão diretamente relacionados com os jogos de gladiadores e suas variações, como os espetáculos de caçadas ou lutas contra animais (inclusive como forma de execução de condenados) ou entre as próprias feras (venationes), e até mesmo de batalhas navais (pelo menos a arena do Coliseu podia ser preenchida com água para esse fim).
Segundo o historiador romano Tito Lívio, as lutas de gladiadores seriam um costume iniciado pela tribo dos Campânios, que fazia parte do povo Osco, da região da Campânia. Já para os historiadores modernos, elas seriam um costume fúnebre etrusco. O anfiteatro mais antigo sobrevivente e provavelmente o primeiro a ser construído em pedra é o Anfiteatro de Pompéia. Considerando que Pompéia foi fundada pelos Oscos, e, posteriormente, dominada pelos Etruscos, qualquer que seja a verdadeira origem dos jogos, isto provavelmente explica o fato dela ter sido a primeira cidade que construiu um anfiteatro.
Sem mais delongas, vamos àqueles que eu considero os anfiteatros romanos sobreviventes mais bem preservados e/ou impressionantes:
1- Anfiteatro de Nîmes (antiga Nemausus, França)
O mais bem preservado do mundo, na minha opinião, sua capacidade original era de 20 mil espectadores, construído no início do reinado de Trajano (por volta de 100 D.C). Ainda é utilizado para uma série de espetáculos, incluindo touradas. Tive a oportunidade de visitá-lo em 2003 e recomendo a visita para todos.
2- Anfiteatro de El-Djem (antiga Thysdrus, Tunísia)
O Anfiteatro de El-Djem, que é claramente inspirado no Coliseu, dependendo das fontes, seria o terceiro maior do Império Romano e foi construído por volta de 238 D.C, talvez pelo governador da Província, Gordiano, pouco antes dele ser aclamado imperador. Mas, talvez o mais impressionante quanto a este anfiteatro é a comparação do seu tamanho com o da cidade onde foi construído. Sua capacidade estimada é de 35 mil espectadores, enquanto que El-Djem tem somente 21 mil habitantes. E sabemos que a cidade não era maior do que isso na época do Império Romano. Então, ele só devia ficar cheio em grandes eventos, que provavelmente atraíam aficionados de toda a Província da África e além.
O Anfiteatro de Verona é certamente o mais bem preservado da Itália, e que, assim como os Anfiteatros de Nîmes e de Arles, continua a ser utilizado para espetáculos. É um dos mais antigos existentes, datando de 30 D.C, sendo precedido pelo de Pompéia. Sua capacidade estimada na Antiguidade era de 30 mil lugares. Apesar de seu estado excepcional, ele perdeu o anel externo durante um terremoto no século XII, e por isso, perde para o de Nîmes neste quesito.
É o anfiteatro mais antigo existente, construído em 70 A.C., e é bem possível que ele seja o primeiro anfiteatro de pedra da História (anteriormente os anfiteatros romanos eram construídos de madeira). Como todos os anfiteatros romanos, tinha um setor separado para os cidadãos das classes superiores, mais próximo da arena. Como curiosidade, o historiador romano Tácito relata que, devido a uma briga entre os espectadores que se alastrou pelas ruas da cidade deixando vítimas fatais, envolvendo os moradores locais e os oriundos da cidade vizinha de Nuceria, o imperador Nero, como punição, proibiu durante dez anos a realização de jogos de gladiadores no Anfiteatro (Anais, XIV, 17). O relato é confirmado por um afresco encontrado em Pompéia, retratando exatamente este conflito, mas quando a erupção do Vesúvio ocorreu, em 79 D.C., esse prazo já tinha expirado e várias armas e armaduras de gladiadores foram encontrados nas escavações. Aliás, nessa pintura, é possível ver que o Anfiteatro de Pompéia, assim como o Coliseu e muitos outros de seus congêneres, possuía uma cobertura retrátil de algum tipo de tecido ou de lona, chamada de “velarium“. Sua capacidade estimada situa-se entre 12 e 20 mil lugares (ou seja, acomodaria toda a população provável da cidade). Foi palco de um célebre show da banda Pink Floyd.
5- Anfiteatro de Cápua (atual Santa Maria Capua Vetere), Itália
Este anfiteatro não está bem preservado, mas vale ser mencionado porque, além de ser o segundo maior do Império Romano, em capacidade, acredita-se que ele tenha servido de modelo para o maior e mais famoso anfiteatro de todos, o Coliseu. Além disso, alguns especialistas acreditam que ele seria mais antigo que o de Pompéia, pois teria sido construído em 100 A.C. Mas uma inscrição existente no anfiteatro parece indicar que ele foi construído quando Cápua já tinha o nome de Colonia Julia Felix Augusta Capua, o que só poderia ter ocorrido a partir de 27 A.C. De qualquer modo, mesmo antes disso, Cápua já era afamada como um centro de organização de jogos de gladiadores e escolas de treinamento. Inclusive, o mais famoso gladiador de todos os tempos, Spartacus, treinava e lutava em Cápua, na companhia de gladiadores de propriedade do lanista Lentulus Batiatus. Estima-se que tinha uma capacidade de 45 mil espectadores, embora haja quem calcule que coubessem 60 mil.
Outro anfiteatro que está bem preservado e ainda é utilizado para touradas e outros espetáculos. Construído em 90 D.C., após a Queda do Império Romano o anfiteatro foi utilizado como fortaleza, tendo-lhe sido incorporadas quatro torres medievais, três das quais ainda persistem, sendo este o motivo principal da sua sobrevivência. Tinha capacidade original para 20 mil espectadores.
Embora apenas um pequeno trecho das suas arquibancadas tenha sobrevivido, o Anfiteatro de Pula possui uma das fachadas mais bem preservadas, com a parede exterior completa, incluindo, desde a sua construção, uma característica incomum: quatro projeções externas em formato de torres. Foi construído no reinado do imperador Vespasiano, substituindo dois anfiteatros anteriores, o primeiro de madeira, datado do reinado de Augusto. Originalmente, ele tinha cerca de 22 mil lugares e hoje hospeda shows e concertos musicais.
8- Anfiteatro de Pozzuoli (antiga Puteoli, Itália)
É o terceiro maior anfiteatro da Itália, e, talvez, de todo o Império Romano (disputa esta posição com o de El-Djem, uma vez que as estimativas variam), abrigando talvez até 50 mil espectadores. Situava-se no entroncamento de estradas que levavam a Puteoli vindas de Cápua, Nápoles e Cumas, o que demonstra que a região da Campânia era mesmo um polo irradiador e atrativo de espetáculos de gladiadores. Foi construído no reinado do imperador Vespasiano (quando, tudo indica, houve uma febre de construção de anfiteatros, provavelmente estimulada pela construção do Coliseu, iniciada no reinado dele) e por isso recebeu o nome de Anfiteatro Flaviano. Ainda possui, em bom estado de conservação, os corredores subterrâneos e as aberturas por onde as gaiolas com os animais eram içadas até a arena. Segundo a tradição cristã, em 305 D.C,. os mártires cristãos São Próculo e São Januário foram condenados a serem executados neste anfiteatro, mas como os animais não os atacaram, eles acabaram sendo decapitados em uma localidade próxima.
9- Anfiteatro de Mérida (antiga Emerita Augusta, Espanha)
Não é o maior da Espanha (certamente o de Córdoba e o de Itálica eram maiores) e, em termos de preservação, equivale ao de Itálica, porém escolhemos o Anfiteatro de Mérida pelo fato dele ser datado de 8 A.C, e portanto, ele é um dos mais antigos e provavelmente um dos primeiros construídos pelos romanos fora da Itália. Sua capacidade era de 15 mil espectadores.
Escolhemos o Anfiteatro de Uthina pelo seu bom estado de conservação. É um bom exemplo dos inúmeros anfiteatros espalhados pelas províncias romanas do Norte da África, o que demonstra a sua prosperidade durante o Império. Como a maior parte dos anfiteatros africanos, o de Uthina foi parcialmente escavado no solo e os degraus apoiados na encosta da elevação existente no local. Tinha cerca de 16 mil lugares e foi construído no reinado do imperador Adriano.
A epítome de todas as arenas romanas, frequentemente os historiadores romanos referiam-se ao Coliseu apenas como: “O Anfiteatro” e, obviamente, os seus leitores saberiam imediatamente que eles estavam se referindo ao Anfiteatro Flavio, de Roma (acredita-se que este era o seu nome oficial, embora isto não conste de nenhuma inscrição ou texto antigo), pois a sua construção começou em 72 D.C, no início do reinado do imperador Vespasiano (Tito Flávio Vespasiano), ficando pronto em 80 D.C, no reinado de seu filho, Tito.
O autor, no Coliseu, no ano 2000.
O apelido “Coliseu”, do latim Colosseum, decorre, sim, de um objeto de tamanho monumental, mas não o do próprio anfiteatro, como muitos podem pensar, e sim de uma enorme estátua do imperador Nero, de mais de 30 metros de altura (ou seja, quase do tamanho do Cristo Redentor) ao lado da qual ele foi construído. Provavelmente, a plebe romana passou a dizer que ia assistir as lutas no “anfiteatro do Colosso” e o nome pegou.
Aliás, o local onde o Coliseu foi construído era ocupado antes pelo também colossal palácio construído por Nero, chamado de Domus Aurea. Inclusive, o enorme lago artificial que havia, margeado por colunatas e aposentos, e alimentado pelo aqueduto de Cláudio (Acqua Claudia), foi drenado, e a infraestrutura hidráulica aproveitada para possibilitar uma das características mais incríveis do Anfiteatro: a sua capacidade de sua arena ser enchida com água, transformando-o em uma “Naumaquia“, em que batalhas navais eram simuladas. A escolha do local certamente foi um gesto político de Vespasiano, em que ele devolvia ao povo a área que havia sido apropriada por Nero para o seu prazer pessoal, e os recursos vieram do saque à cidade e ao Templo de Jerusalém, ocorrido em 70 D.C.
A capacidade do Coliseu é estimada entre 55 mil e 70 mil espectadores, alguns falando em 80 mil lugares. As 80 entradas em arco (sendo quatro maiores: uma exclusiva para o imperador e outras três para senadores e outros figurões), as escadarias e os setores eram numerados, assim como em um estádio moderno. O acesso e a saída das arquibancadas se dava, como nos estádios modernos, por túneis e aberturas chamados de vomitórios (vomitoria), e estudos mostram que o Anfiteatro poderia ser esvaziado em poucos minutos, graças ao primoroso projeto arquitetônico. Finalmente, havia um elaborado sistema de cobertura retrátil, o velarium, tão complexo e de fato semelhante aos cabos e velas de um navio, que tinha que ser manejado pelos marinheiros da Frota Imperial de Misenum.
Foto Wikicomons, domínio público
O Coliseu espelhava a estratificação vertical da sociedade romana, pois os lugares eram acessíveis de acordo com a classe social dos espectadores: O Imperador tinha seu camarote exclusivo, os senadores ocupavam os bancos mais próximos da arena (inclusive há vestígios de inscrições contendo nomes individuais de alguns senadores, como se fossem lugares cativos), vindo depois os Equestres, os cidadãos romanos plebeus livres, esses divididos entre ricos e pobres, e, por último, mulheres e escravos.
A fachada do Coliseu, assim como boa parte de todo seu revestimento exterior e interior é de mármore travertino (100 mil m³!), mas a sua estrutura é também em parte feita do resistente concreto romano e de tijolos. Esta fachada é de grande rigor arquitetônico clássico, pois os três andares são decorados por arcos emoldurados por meias-colunas, sendo os capitéis do estilo dórico, no primeiro (onde estão as entradas), jônico, no segundo e coríntio no terceiro. Embaixo de cada um dos arcos do segundo e terceiro andares havia uma estátua, provavelmente de divindades.
Embaixo da arena, havia um imenso labirinto de corredores e de celas para feras, e onde também havia guindastes para içamento de jaulas, constituindo um espaço subterrâneo que era chamado de “Hipogeu” (palavra grega que tem exatamente este significado). Vale citar que o Hipogeu foi construído mais tarde, durante o reinado de Domiciano, e, com isso, o Coliseu não pôde mais ser inundado, perdendo a sua breve funcionalidade como Naumaquia.
Segundo o historiador Cássio Dião, nos jogos inaugurais do Coliseu, em 80 D.C, foram mortos 9 mil animais e um número desconhecido de gladiadores. As lutas de gladiadores foram proibidas pela primeira vez pelo Imperador Romano do Ocidente, o cristão Honório, em 399 D.C, mas há registros de que elas voltaram a ser travadas e, no Coliseu, somente cessaram de vez em 435 D.C. E mesmo após a Queda do Império Romano do Ocidente, em 476 D.C, espetáculos de caçadas e lutas de animas (venationes) continuaram a serem organizados ali pelo menos até 523 D.C.
Em 1º de agosto de 10 A.C., nasceu, em Lugdunum, na Gália (atual Lyon), Tiberius Claudius Nero Germanicus (Cláudio), filho de Nero Claudius Drusus (Druso) e de Antônia, a Jovem, filha do casamento do triúnviro Marco Antônio com Otávia, a irmã de Augusto.
Assim, pela linha materna, Cláudio era parente deJúlio César, uma vez que a sua mãe era neta de Júlia, a Jovem, irmã de César, e sobrinho-neto do imperador Augusto (que também era sobrinho-neto de César).
Por sua vez, pela linha paterna, Cláudio era neto da imperatrizLívia Drusila (Júlia Augusta), a esposa do primeiro imperador romano, Augusto, pois seu pai era o segundo filho do primeiro casamento de Lívia com Tibério Cláudio Nero, de quem ela se separou já grávida do caçula para se casar com Otaviano, antes deste tornar-se imperador e passar a ser chamado de Augusto.
O Pai de Cláudio, Druso, devido às suas importantes vitórias contra os bárbaros germânicos, recebeu o cognome “Germanicus”, e ele era também o irmão mais novo de Tibério, que seria o sucessor de Augusto no trono.
Antes de Cláudio nascer, Druso e Antônia já haviam concebido Germanicus Julius Caesar(Germânico), que se tornaria um célebre general e cairia nas graças de Augusto (e também da plebe romana). E quando o velho imperador adotou Tibério como herdeiro, ele exigiu que este, por sua vez, adotasse Germânico, pelo fato de que, após as mortes de seus netos Caio e Lúcio César, tirando o rapaz, Augusto não tinha mais nenhum outro parente consanguíneo do sexo masculino capaz de dar continuidade à linhagem dos Júlios (com exceção do seu jovem neto sobrevivente, Agripa Póstumo, que o próprio Augusto havia exilado em uma ilha remota, possivelmente por traição).
Porém, ao contrário do seu irmão mais velho, Cláudio passaria a sua infância, adolescência e toda a juventude em completa obscuridade, expressamente por determinação de Augusto e de Lívia, com os quais ele viveu durante um bom tempo, e, depois deles, pela vontade de seu tio Tibério, ficando, assim, afastado das aparições públicas da família imperial e sem ter qualquer papel público, ainda que cerimonial, a desempenhar.
Os motivos do ostracismo a que Cláudio foi relegado no seio da família imperial, segundo os autores antigos, seriam os distúrbios físicos e mentais que ele manifestava desde menino, considerados por Augusto e Lívia como comprometedores da dignidade da dinastia dos Júlio-Cláudios. E a própria mãe de Cláudio, segundo Suetônio, referia-se ao filho como sendo “um monstro“.
O diagnóstico da doença de Cláudio não é preciso nas fontes, mas elas mencionam o fato dele mancar, gaguejar, ser acometido por tremores e ter corrimentos no nariz. Por isso, alguns acreditam que Cláudio pode ter contraído poliomielite na infância, ou, o que parece mais provável, que ele tenha sofrido algum tipo de paralisia cerebral na infância. Alguns defendem, ainda, que a doença dele seria a Síndrome de Tourette, uma desordem neuropsiquiátrica que causa tiques nervosos.
No entanto, o próprio Augusto, em uma carta à Lívia, citada por Suetônio, certa vez observou que Cláudio era mais inteligente do que ele aparentava, tendo ficado impressionado com a sua boa declamação. Mesmo assim, Cláudio seria mantido afastado de qualquer cargo ou função oficial durante todo o reinado do tio, ao contrário do irmão dele, Germânico.
A sociedade romana, como a maior parte das civilizações da Antiguidade, não tinha muita compaixão pelos deficientes físicos, e a família entendia que os sintomas da enfermidade de Cláudio eram causados por desvios de caráter e deveriam ser corrigidos pela disciplina e castigos.
O próprio Cláudio, na autobiografia que ele escreveria anos mais tarde, e que não chegou até os nossos dias, contou que a sua família contratou um bárbaro que era condutor de mulas para ser o seu tutor, com o objetivo de que este se valesse da mais férrea disciplina e castigos severos para tentar melhorar a sua condição.
Assim, até mesmo em sua cerimônia da assunção da toga virilis (que simbolizava a passagem da infância para a idade adulta para os rapazes romanos, normalmente aos 14 anos de idade), que era um evento público marcante para os jovens da família imperial, Cláudio foi escondido dos olhares do público, pois ela ocorreu durante a noite, com ele sendo carregado oculto no interior de uma liteira.
Como não tinha um papel público a desempenhar, Cláudio então tomou interesse pelo estudo de História e pela Literatura. O grande historiador romano Tito Lívio foi contratado para ser seu professor e ele também foi aluno do filósofo estoico Atenodoro.
E tudo indica que Cláudio se tornou um leitor voraz. Ainda muito jovem ele estudaria obras históricas sobre vários povos e, segundo as fontes antigas, ele foi a última pessoa capaz de ler a língua escrita etrusca em Roma, idioma que até hoje não foi completamente decifrado.
Começando ainda na juventude, ao longo da vida, Cláudio escreveria 43 livros sobre a História de Roma, a Thyrrenica, contendo 21 livros sobre a História dos Etruscos, além da Carthagenica, uma História de Cartago contendo 8 livros, um livro sobre filologia e uma defesa das acusações de Asinio Polião contra Cicero, além da sua própria autobiografia em 8 volumes. Infelizmente, nenhuma destas obras sobreviveu, mas algumas foram citadas por autores antigos.
(Tabula Cortonensis, contendo um texto em etrusco)
Outra obra que é mencionada pelas fontes é um tratado sobre jogos de dados. Segundo as fontes, Cláudio era fanático por este tipo de jogos, o que seria motivo de alfinetadas dos historiadores e objeto de muitas sátiras.
Cláudio também era interessado em linguística e escreveu um livro defendendo a introdução de três novas letras no latim, ““, “Ↄ” e ““, duas delas equivalentes ao Y e ao W. Mais tarde, após se tornar imperador, ele, no exercício do cargo de Censor, determinou que essas letras fossem adotadas oficialmente, mas isso não perdurou por muito tempo (na foto abaixo, uma raríssima inscrição contendo uma delas).
Quando Augusto morreu, em 19 de agosto de 14 D.C., Cláudio, que já tinha 23 anos de idade, sentiu-se confiante em pedir ao sucessor, o seu tio, Tibério, que lhe fosse permitido começar a trilhar o cursus honorum, a carreira pública das magistraturas. Contudo, Tibério preferiu dar apenas a Cláudio os ornamentos consulares, o que podemos considerar como uma mera consolação, já que isso significava na prática apenas uma condecoração honorífica, permanecendo Cláudio afastado de qualquer cargo ou função pública.
Eu creio que o motivo de Tibério continuar negando ao sobrinho qualquer papel público tinha a ver com o fato da família de Cláudio estar no centro das intrigas dinásticas dos Júlio-Cláudios referentes à posição de herdeiro de Tibério. Com efeito, o seu irmão, Germânico, era visto como potencial rival de Tibério ao trono. E sua irmã, Livilla, que, reportadamente, desprezava Cláudio, era esposa do filho de Tibério, Druso, o Jovem.
Não obstante, as fontes relatam que, durante o reinado de Tibério, com o passar do tempo, o público passou a ter uma boa impressão de Cláudio, que começou a receber algum reconhecimento.
Por exemplo, a classe dos Equestres escolheu-o duas vezes para liderar uma delegação para apresentar uma petição ao imperador. O Senado Romano também votou que Cláudio fosse nomeado como membro especial dos sacerdotes do culto a Augusto, e, mais importante, os senadores pediram a Tibério que Cláudio pudesse participar das sessões do Senado, o que, entretanto foi negado.
Tudo isso mostra que a exclusão de Cláudio da carreira política decorria de decisão direta do trono, e não de alguma incapacidade física ou mental dele ou do repúdio por parte da população.
Em 19 D.C., Germânico morreu em Antioquia, em circunstâncias suspeitas. Historiadores antigos, como Tácito, dão crédito à tese de que ele foi envenenado a mando de Lívia e Tibério.
Na época em que Germânico morreu, já se notava o grande poder que o comandante da Guarda Pretoriana, Lúcio Élio Sejano exercia em Roma. Ele expandira a guarnição dos pretorianos, que foi centralizada em um grande quartel fortificado, adjunto às muralhas da cidade.
O poder de Sejano era tanto que Tibério, certa vez referiu-se a ele como “meu sócio-trabalhador“. E Sejano, de fato, tinha altas pretensões…
Em 20 D.C., Sejano arranjou o casamento de sua filha, Junilla, com o filho de Cláudio, Claudius Drusus, ocasião em que as duas crianças tinham apenas quatro anos de idade. Porém, os planos de Sejano foram por água baixo, porque, poucos dias depois deste arranjo, o menino morreu engasgado com uma pera.
Claudius Drusus era o filho mais velho de Cláudio com sua primeira esposa, Plautia Urgulanilla, filha de Marcus Plautius Silvanus, um grande amigo da imperatriz Lívia e que era de origem etrusca. É bem possível que daí tenha vindo o interesse de Cláudio pela civilização etrusca. Cláudio e Urgulanilla se casaram por volta do ano 9 D.C., quando ele tinha dezoito anos de idade.
Contudo, o primeiro casamento de Cláudio já ficaria marcado pela suspeita de má conduta da esposa, algo que se repetiria nas suas uniões posteriores. Ele, assim, divorciou-se de Urgulanilla, que, cinco meses depois, deu a luz a uma filha, chamada de Cláudia. Suspeitava-se até que a menina fosse filha do liberto Boter. Por isso, Cláudio repudiou também a criança e mandou depositá-la, nua, na soleira da porta da casa onde a ex-mulher fora morar.
Passado esse escândalo, Cláudio deve ter se sentido muito ameaçado quando Druso, o Jovem, o filho e herdeiro oficial de Tibério, morreu, em 14 de setembro de 23 D.C., de uma misteriosa enfermidade, fato que ocorreu pouco tempo após uma séria desavença dele com Sejano. Para alguns historiadores antigos, como Tácito e Dião Cássio, Sejano foi o responsável pela morte de Druso por envenenamento, empresa na qual ele teria sido auxiliado pela esposa do falecido e irmã de Cláudio, Livilla, que teria sido seduzida pelo Prefeito Pretoriano e dele se tornara amante.
Em 25 D.C., Sejano pediu formalmente a Tibério permissão para se casar com Livilla, o que foi recusado pelo velho imperador, que, após exaltar os méritos do subordinado, observou, candidamente, que Sejano, tendo nascido na classe Equestre, estava abaixo da posição social de Livilla, uma integrante da família imperial.
Mesmo assim, no ano seguinte, Tibério foi viver na ilha de Capri, em um auto-exílio voluntário que duraria onze anos, deixando, informalmente, o governo nas mãos de Sejano.
Em 28 D.C., Cláudio casou-se com Aelia Petina, que era irmã de criação de Sejano, pois havia sido criada pelo pai dele, Lucius Seius Strabo, um dos primeiros comandantes da Guarda Pretoriana, e antecessor do filho neste comando.
O casamento de Cláudio e Aelia Petinacertamente deve ter sido por influência de Sejano. Um indício é o fato de que, assim que assim que este foi demitido do cargo e executado por ordens de Tibério, em 31 D.C., Cláudio imediatamente divorciou-se de sua segundo esposa, alegando motivos insignificantes. Mesmo assim, eles tiveram uma filha, Claudia Antonia, que seria criada pela mãe de Cláudio, Antônia, a Jovem.
(Estátua de Cláudia Antònia, filha de Cláudio.
Antes da queda, contudo, Sejano, que controlava toda informação entre Roma e Capri e agia como virtual governante de Roma, começara a eliminar os seus desafetos e adversários políticos. E seu alvo preferencial foi Agripina, a Velha, a esposa do falecido Germânico, irmão de Cláudio, que foi exilada em 30 D.C. Ela vinha acusando publicamente Tibério e Lívia de serem os mandantes da morte do esposo. O filho de Agripina, Nero Julius Caesar Germanicus (não confundir com o futuro imperador Nero) também foi exilado e morreria no ano seguinte.
Já o filho homem mais novo de Agripina e sobrinho de Cláudio, Gaius Caesar, de 18 anos, que tinha o apelido de Calígula, foi poupado, mas passou a morar com Tibério, em Capri.
(Busto de Agripina, a Velha)
Anos mais tarde, Cláudio mencionaria, em uma ocasião, que, durante esses anos de intrigas palacianas e de terror pela eliminação dos seus parentes, ele costumava exagerar os seus problemas físicos e passou a fingir ser um completo idiota, com o objetivo de parecer inofensivo a todos, tentando manter-se vivo.
Enquanto isso, após a queda de Sejano, como vimos, Cláudio divorciou-se da irmã de criação do Prefeito Pretoriano caído em desgraça e continuou vivendo na obscuridade até a morte de Tibério, que faleceu com 77 anos de idade, em Capri, em 16 de março de 37 D.C..
Dois dias depois, Tibério foi oficialmente sucedido por Calígula, que era sobrinho de Cláudio. E foi Calígula quem deu a Cláudio o primeiro cargo público que ele ocuparia na vida, o de Cônsul Suffectus, em 37 D.C, com 46 anos de idade!
Apesar da nomeação para o cargo de Cônsul, a condição de Cláudio não melhorou muito, pois Calígula logo mostrou-se um monarca cruel e incontrolável, e o seu tio Cláudio era um dos alvos preferidos de suas pilhérias e deboches, inclusive infligidos algumas vezes perante o Senado Romano.
Em 38 D.C., Cláudio casou-se, pela terceira vez, com Valeria Messalina, integrante de uma ilustre família senatorial, e também sua prima em 2º grau, pois ela era neta da irmã de sua mãe, Antônia, a Velha. No ano seguinte, Messalina deu a Cláudio mais uma filha, que recebeu o nome de Claudia Octavia.
(Cabeça de Claudia Octavia, filha de Cláudio)
No entanto, o reinado de Calígula seria curto. Fartos de seus desmandos e desacatos, alguns senadores e membros da Guarda Pretoriana, estes liderados pelo tribuno Cássio Queréa, urdiram uma conspiração e assassinaram Calígula, durante uns jogos que eram celebrados no Palatino, em 24 de janeiro de 41 D.C.
A conspiração parece, à primeira vista, ter sido motivada primordialmente pelo desejo de algumas pessoas influentes de se livrar de um governante ensandecido, que ameaçava os que estavam próximos do poder, e foi executada por pretorianos que tinham sido humilhados pelo imperador. Se o assassinato de Calígula fazia parte de um plano maior, de restaurar a República, nós não sabemos, mas as fontes relatam que, inicialmente, alguns senadores perceberam essa oportunidade.
Segundo os relatos das fontes, após o assassinato, os guarda-costas germânicos de Calígula entraram em um frenesi de violência e começaram a massacrar quem encontravam pela frente. Cláudio fugiu para o Palácio (ou para a sua casa, a narrativa variam em função da fonte).
Enquanto isso, os guardas pretorianos, também fora de controle, invadiram os aposentos imperiais para saqueá-los. Foi durante essa invasão que um dos guardas, que se chamava Gratus, notou alguém escondido atrás de uma cortina. Ao puxá-la, ele encontrou Cláudio e arrancou-o do seu esconderijo, ocasião em que perceberam que aquele homem assustado era ninguém menos do que o tio do imperador falecido. Ato contínuo, os soldados aclamaram Cláudio, “Princeps“, e o levaram até o quartel da Guarda Pretoriana.
Grato proclama Cláudio imperador. Tela de Sir Lawrence Alma-Tadema, 1871
Dião Cássio e Flávio Josefo narram que Cláudio, sincera ou fingidamente, tentou recusar a púrpura imperial, mas acabou cedendo à pressão dos guardas para que ele assumisse o trono. Eles também mencionam que chegou a haver alguns senadores, especialmente Sentius Saturninus (que fez no Senado um discurso neste sentido), e, até mesmo, alguns pretorianos, que cogitaram de acabar com o Principado e restaurar a República Romana, tal como ela era nos tempos anteriores aos Césares.
E de fato, consta que o Senado, cogitando enfrentar os partidários de Cláudio, chegou a mobilizar na oportunidade os parcos recursos armados que a cidade de Roma dispunha. Porém, este contingente, composto apenas por alguns soldados, vigiles (espécie de bombeiros), gladiadores e até escravos libertos dos senadores, logo debandou para o lado dos Pretorianos que apoiavam Cláudio.
Esse estado de indefinição entre a aclamação de Cláudio e a restauração da democracia, segundo Suetônio, durou dois dias, ao final dos quais o historiador narra que teria ocorrido a crucial intervenção de uma massa de populares gritando pela elevação de Cláudio, que também teria prometido quinze mil sestércios como donativo aos soldados que o aclamaram imperador.
Realmente, não há como ter certeza se Cláudio foi um mero espectador da conspiração que assassinou Calígula, ou se ele sabia e concordou com o plano. Não obstante, os guardas liderados por Lupus, seguindo ordens de Queréa, após liquidarem Calígula, e, aparentemente, não de imediato, dirigiram-se até o Palácio e executaram a imperatriz Cesônia e a filha de Calígula, de apenas dois anos de idade, que teve a cabeça esmagada contra uma parede. Eu acredito que dificilmente os militares ousariam cometer tal atrocidade sem que eles tenham tido a aprovação de alguém poderoso, quem sabe algum senador disposto a restaurar a República, ou, o que é mais provável, de algum pretendente ao trono…
Assim, aos cinquenta anos de idade, Cláudio foi oficialmente aclamado pelo Senado, com o nome deTiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus e ele em seguida perdoou oficialmente todos os senadores e pretorianos que tinham conspirado para assassinar o seu antecessor, bem como aqueles que haviam se manifestado pelo fim do Principado (considera-se que o seu reinado começou no dia da morte de Calígula, 24 de janeiro de 41 D.C., quando ele foi aclamado imperador pelos soldados que o encontraram no esconderijo).
Sintomaticamente, contudo, Queréa e Lupus foram imediatamente executados…
Nota: Cláudio, ao incorporar o nome “Caesar“, apesar de ele não ter sido adotado como herdeiro por Calígula (havia uma linha de adoção formal ligando respectivamente cada um dos imperadores romanos a Júlio César, desde Augusto até Calígula), iniciou a transformação do nome do antigo Ditador em um título imperial.
Poucas semanas depois da aclamação de Cláudio, Messalina deu à luz ao seu primeiro herdeiro, que se chamou Tibério Cláudio Germânico.
A imperatriz (Messalina, com o filho Britânico em seu colo)
O nascimento do filho foi muito comemorado por Cláudio, que com orgulho passou a levar o bebê para exibi-lo em cerimônias e espetáculos públicos. Moedas foram cunhadas para comemorar o nascimento, com a inscrição “esperança augusta” (spes augusta – vide foto abaixo).
No ano seguinte, 42 D.C., ocorreu a única revolta séria contra o governo de Cláudio: uma rebelião liderada pelos senadores Lucius Arruntius Camillus Scribonianus, Governador da Dalmácia, e Lucius Annius Vinicianus, um participante do complô que assassinou Calígula, sendo que ambos chegaram a ser cogitados para suceder o finado imperador, durante o impasse que antecedeu a aclamação de Cláudio. Consta que ambos os líderes rebeldes informaram aos senadores em Roma que o motivo da revolta era devolver o poder ao Senado, mas depois de cinco dias, as tropas deles se recusaram a segui-los e eles acabaram cometendo suicídio.
Dião Cássio narra que Cláudio ficou tão assustado quando soube dessa rebelião que ele cogitou abdicar em favor de Camillus, mas acabou afinal recobrando a coragem e se preparou para enfrentar os rebeldes, o que, como visto, acabou não sendo necessário.
Aparentemente tentando trazer o Senado para o seu lado, Cláudio tentou, ao menos no início do reinado, prestigiar esta assembleia. Ele devolveu ao controle dos senadores as provínicias da Macedônia e da Acaia, que tinham sido retiradas da relação de províncias administradas pelo Senado pelo imperador Tibério.
(Nota: Augusto dividiu as províncias romanas em imperiais, cujo governador era apontado pelo imperador entre os integrantes da classe equestre, e senatoriais, cujo governador era apontado pelo Senado dentre os pares).
Outra exemplo disso, foi a postura que Cláudio adotou de se sentar entre os senadores, aguardando a sua vez de falar nos debates. De certa forma, era uma retomada da acepção inicial do termo Princeps (Príncipe), que, originalmente era o senador mais velho que tinha a prerrogativa de falar primeiro, e fora adotada por Augusto para manter as aparências de que a República permanecia).
Não obstante, a forma comoCláudioascendeu ao trono, elevado pelos soldados da Guarda Pretoriana, expôs escancaradamente o que já se percebia desde o início da crise que levou às guerras civis dos Triunviratos, cem anos antes: que a real fonte de poder residia nas forças militares, cabendo ao Senado apenas legitimar o nome que fosse escolhido pelas tropas.
Por isso, Cláudio, logo no início do reinado, saiu a procura de glórias militares que reforçassem a sua posição de líder militar, aumentando o seu prestígio junto às legiões, as quais, caso lideradas por algum general de renome, poderiam muito bem abraçar a sua “candidatura” e facilmente derrotar os Pretorianos.
E, de fato, no plano militar, o reinado de Cláudio começou bem: O general Gabinius Secundus, comandante das legiões da Germânia Inferior moveu uma guerra bem sucedida contra a tribo germânica dos Chauci, hostil aos romanos desde os tempos em que aqueles bárbaros lutaram ao lado do líder germânico Arminius, na emboscada que resultou no Desastre de Varo, na Batalha de Teutoburgo, em 9 D.C., com a destruição de três legiões romanas e a captura dos seus estandartes-águia (aquila), símbolos que eram religiosamente cultuados pelos romanos e cuja perda em batalha era considerada uma grande humilhação.
Gabiniusconseguiu derrotar os Chauci e recuperar a terceira águia das legiões de Varo, que estava em poder deles (As duas outras haviam sido recuperadas por Germânico, irmão de Cláudio, em 16 D.C.). Certamente, este deve ter sido um momento de exultação para Cláudio, não apenas por ter recebido o título de Imperator pela vitória de seu general, mas por ter, de certa forma, igualado o feito de seu falecido irmão, que fora tão admirado pelos romanos.
(moeda mostrando um estandarte-águia no templo de Marte Vingador, talvez uma das perdidas por Crasso em Carras contra os Partas, recuperada por Augusto)
Escolheu-se, em seguida, a Britânia como o alvo de uma grande expedição. Esta ilha já havia, quase cem anos antes, sofrido a invasão de Júlio César, que, com apenas o objetivo de fazer propaganda pessoal, ficou ali alguns dias em campanha e retornou para o continente. Vale observar que aquele território era, notadamente, um objetivo militar muito mais fácil que a Germânia ou a Pártia, adversários muito mais poderosos e aguerridos que, de vez em quando, infligiam pesadas derrotas aos exércitos romanos.
Assim, no verão de 43 D.C., quatro legiões desembarcaram na Britânia, comandadas pelo general Aulus Plautius, e avançaram pela maior parte da ilha. O pretexto da invasão, como em muitas outras guerras travadas pelos Romanos, foi o pedido de auxílio de um rei cliente de Roma, da tribo bretã dos Atrebates, de nome Verica, que havia sido expulso por adversários. O próprio Cláudio participou da campanha, ficando na Britânia por cerca de duas semanas, promovendo, no final, uma grande parada em Camulodunum (atual Colchester, na Inglaterra), onde começou a ser construído um grande templo dedicado ao seu “gênio”.
A Britânia foi anexada e permaneceria uma província romana até o início do século V. A vitória rendeu a Cláudio o título de Britannicus, que foi estendido a seu filho, que passou a se chamar Tiberius Claudius Caesar Britannicus. O menino passaria, então, a ser conhecido como “Britânico“.
(Cabeça de bronze de uma estátua de Cláudio encontrada no rio Alde, na Inglaterra)
Talvez , pelo motivo de Cláudio perceber que tinha poucos aliados no Senado, ou, ainda, porque ele nunca tinha exercido algum cargo público, exceto o breve consulado extraordinário, ou também devido ao fato da sua pessoa ter sido imposta ao Senado pelos Pretorianos, ou, finalmente, talvez porque ele possa ter assim concluído dos seus estudos aprofundados sobre o governo de Júlio César, o período das guerras civis e sobre o reinado de Augusto, o principado de Cláudio notabilizou-se pela implantação de um corpo de funcionários do Palácio encarregado da administração de funções governamentais que, anteriormente, eram exercidas pelos magistrados tradicionais da República, cargos ocupados primordialmente por senadores, magistraturas essas que foram em grande parte mantidas pelos seus antecessores no trono com suas funções executivas.
Já os funcionários palacianos eram diretamente indicados pelo imperador, sem mediação do Senado, e, quase sempre, ainda que extremamente preparados, eles eram escravos libertos que pertenciam ao próprio Imperador.
No reinado de Cláudio, esse secretariado foi dividido em escritórios que funcionavam como verdadeiros ministérios. Assim, o liberto Narcissus foi escolhido como Secretário da Correspondência Imperial (cargo importante, pois controlava toda a comunicação oficial do imperador, seja como emitente ou destinatário, redigindo e enviando despachos, comunicados ou correspondências e recebendo petições, denúncias, notícias de fatos, etc. O liberto Pallas* foi nomeado Secretário do Tesouro Imperial (fiscus) e o liberto Callistus, um influente ex-escravo de Calígula que havia participado da conspiração para assassiná-lo, foi escolhido para ser Secretário de Justiça, responsável, inicialmente, pelos recursos das decisões dos tribunais que eram dirigidos ao imperador.
Podemos, então, considerar que, embora os seus antecessores já utilizassem os seus libertos como auxiliares, Cláudio foi o primeiro organizador sistemático da burocracia imperial, esboçando uma forma que perduraria por muitos séculos.
*NOTA: Como curiosidade, mas também como uma mostra do prestígio que os funcionários libertos gozaram a partir do governo de Cláudio, observamos que o irmão de Pallas, Marcus Antonius Felix, foi nomeado para ser o Procurador da Judeia, um cargo formalmente reservado aos integrantes da classe Equestre. Foi este Felix que procedeu ao julgamento do apóstolo Paulo, em Cesareia, sendo nominalmente citado em Atos, 24.
Não surpreende, assim, que Cláudio tenha sido visto com antipatia pelos Senadores, que, além de deixarem de ter voz em setores importantes da administração pública, ainda tinham que tratar em pé de igualdade com ex-escravos, o que afetava o sabidamente delicado senso de dignidade da classe senatorial… E essa antipatia da classe senatorial de Roma por Cláudio transborda abundante nas narrativas do seu governo, feitas por historiadores oriundos do Senado, tais como Tácito e Dião Cássio, ou então equestres ligados aos senadores, como Suetônio. Além disso, como resultado do grande poder que eles agora detinham, todos esses secretários libertos tornaram-se imensamente ricos, rivalizando em fortuna com os próprios senadores…
Claramente, a tentativa de aproximação que ele tentou no início do governo falhou e, diante desse quadro, Cláudio acabaria exilando ou mandando executar vários senadores, embora não se possa dizer que todos as citados tenham de fato conspirado para derrubá-lo – e alguns dos supostos conspiradores talvez nem tenham sido de fato executados por ordens dele. Não obstante, consta que, durante o seu reinado, Cláudio mandou executar 35 senadores e centenas de membros da classe Equestre.
Por exemplo, em 46 D.C., o senador Lucius Asinius Gallus foi acusado de conspirar contra Cláudio e foi exilado, sendo que o imperador chegou até a ser elogiado pela moderação quanto à pena aplicada. Em 47 D.C., o senador de antiga origem gaulesa, Decimus Valerius Asiaticus, por sua vez, foi alvo de acusações vagas de traição (e também de cometer adultério com uma aristocrata) e ele foi julgado, nos aposentos do Palácio (in camera), em julgamento fechado, pelo imperador e seu conselho privado, e não perante um tribunal público, um procedimento que se tornou costumeiro durante o principado de Cláudio. Segundo uma fonte, o verdadeiro motivo desta inquisição foi a cobiça que a imperatriz Messalina nutria pelos belos Jardins de Lúculo, em Roma, que pertenciam a Asiaticus, que acabou compelido a se suicidar. Outra fonte alude ao fato de Asiaticus possivelmente ter participado da conspiração contra Calígula e ter insinuado a pretensão de suceder o falecido imperador. De qualquer forma, existiu algum pretexto sério, verdadeiro ou fictício, para Cláudio não gostar de Asiaticus, já que o imperador, no ano seguinte, fez questão de se referir a ele como “um gaulês bandido e patife cujo nome eu não devo sequer mencionar neste discurso“, em uma sessão do Senado cujos debates foram preservados na Tábua de Lyon, à qual mais tarde aludiremos.
Outro senador executado foi Gnaeus Pompeius Magnus, um descendente do Triúnviro Pompeu, o Grande, e que era casado com Claudia Antonia, a filha mais velha do próprio Cláudio, que teria participado de uma conspiração contra o imperador.
Muitas dessas perseguições são atribuídas às maquinações da imperatriz Messalina, acerca de quem há relatos de que ela se aproveitava de uma certa credulidade e ingenuidade que Cláudio repetidamente demonstrou ter em relação a todas as mulheres que ele teve em sua vida.
Aliás, a se acreditar nos relatos dos historiadores antigos, Messalina seria uma verdadeira ninfomaníaca, que não apenas teria tido inúmeros amantes enquanto esteve casada com Cláudio, mas, entre outras coisas, teria chegado até a participar de uma competição contra uma prostituta, em que aquela que tivesse mais parceiros sexuais na mesma noite ganharia (sendo que Messalina teria ganho a aposta, com um total de 25 parceiros, um caso citado por Plínio, o Velho, em sua “História Natural”)…Ela teria, ainda, segundo o poeta Juvenal, trabalhado, enquanto imperatriz, em um bordel, sob o pseudônimo de “Loba”.
Os historiadores antigos afirmam que Cláudio desconhecia as infidelidades de Messalina, seja por ele se dedicar às questões administrativas e jurídicas do Império, seja por confiar demais na esposa, muito embora as fofocas sobre o assunto circulassem pela cidade de Roma, até o dia em que seu liberto Narcissus lhe contou que Messalina, enquanto Cláudio estava em Óstia, organizou uma festa no Palácio, e, durante a mesma, ela teria se casado, em uma cerimônia, real ou encenada, com seu amante Gaius Silius, um belo jovem que tinha sido designado para ser Cônsul em 48 D.C.. Poderia até ser uma brincadeira infeliz, mas, para piorar, a versão que chegou a Cláudio é a de que o casamento fazia parte de um plano de Messalina e Silius para assassiná-lo.
Messalina acabou sendo executada em 48 D.C., apesar de constar que Cláudio, cujo coração já estava amolecendo em favor da esposa, não se resolvia a dar a ordem expressa, tendo a decisão fatal sido ordenada por Narcissus, à revelia do imperador.
Em 47 D.C., Cláudio assumiu o cargo de Censor, que tinha sido relegado a uma certa insignificância, junto com Lucius Vitellius, um dos poucos amigos de sua infância, pois conviveram juntos na casa de sua mãe, Antônia, a Jovem, a volta de quem havia um círculo de nobres orientais, devido ao fato dela ter herdado do seu pai, MarcoAntônio, as conexões políticas e numerosas propriedades no Oriente. Outra amizade desses tempos de juventude era o príncipe judeu conhecido como Herodes Agripa, que ajudou Cláudio durante o impasse da sucessão de Calígula.
NOTA: Vitellius havia sido Cônsul e governador da Síria durante o final do reinado de Tibério. Foi ele, inclusive quem demitiu Pôncio Pilatos do cargo de Prefeito da Judeia. Durante o reinado de Cláudio, ele seria Cônsul outras duas vezes, um fato incomum para quem não fosse da família imperial, durante o Império Romano). Ele era pai do futuro imperador Vitélio.
Talvez como um agrado a Herodes Agripa, Cláudio deu ao amigo o título de Rei da Judeia, restaurado como reino-cliente de Roma, dando-lhe o governo do respectivo território, que tinha sido incorporado ao Império Romano (Herodes já governava a Galileia). Cláudio também reconheceu o direito de liberdade de culto dos Judeus no Império Romano. Um exemplo dessa política está registrado na “Carta aos Alexandrinos”, onde Cláudio ordena aos habitantes gregos de Alexandria que respeitem os direitos da grande colônia judaica que existia na cidade, fonte frequente de diversos conflitos étnicos e religiosos.
Porém, quando Herodes Agripa morreu, em 44 D.C., todo o seu reino foi reincorporado ao Império Romano. Nessa mesmo período, outros reinos-clientes de Roma foram anexados formalmente, tais como a Trácia, Noricum, Panfília e a Lícia, que se tornaram províncias. A Mauritânia, cujo processo de anexação fora iniciado por Calígula, teve a anexação concluída sob Cláudio, em 44 D.C., cujas tropas derrotaram os últimos focos de resistência armada. Essas medidas estão de acordo com a tônica geral de seu reinado em direção à centralização de poder e expansão da burocracia imperial.
Seguindo a linha geral de seu governo, Cláudio utilizou o cargo de Censor para intervir na composição das classes senatorial e equestre, pois o Censor tinha o poder de verificar os requisitos para a inscrição dos cidadãos nas respectivas listas. Assim, Cláudio mandou excluir o nome de vários senadores e equestres cuja renda não mais atendia o requisito mínimo estipulado pela lei para integrar a classe.
Constatando que havia muitos assentos vagos no Senado, devido a décadas de execuções e proscrições pelos imperadores que o antecederam, além da diminuição do número de famílias da classe senatorial, Cláudio, seguindo o exemplo de Júlio César, antepassado que ele muito admirava, e aproveitando o cargo de Censor, mandou arrolar novas famílias nas listas de patrícios e abriu o Senado para nobres e pessoas ilustres nascidas nas províncias, especialmente da Gália, fato que ficou registrado na chamada Tábua de Lyon, que contém a interessante transcrição do discurso do imperador na sessão do Senado Romano, ocorrida em 48 D.C., na qual Cláudio propõe a admissão ao Senado de homens ilustres de origem gaulesa, habitantes da Gália Lugdunense (centrada em Lugdunum, atual Lyon, cidade natal do próprio Cláudio).
A Tábua de Lyon, em bronze, que foi encontrada em um vinhedo nos arredores de Lyon, provavelmente foi feita a mando desses mesmos senadores gauleses agradecidos, beneficiados pela aprovação da proposta de Cláudio. Além de confirmar o relato desse fato histórico, citado por Tácito, a Tábua de Lyon contém, tudo indica, a transcrição literal do discurso do imperador no Senado, inclusive transcrevendo as interrupções questionadoras de alguns senadores contrários à medida. E o discurso de Cláudio, cheio de digressões históricas e certo pedantismo, combina perfeitamente com a descrição de sua personalidade feita pelos historiadores antigos.
Tanto isso é verdade, que a sessão preservada na Tábua de Lyon, com notável fidelidade, transcreve até o apelo de um senador para que Cláudio fosse direto ao ponto! (vide: https://sourcebooks.fordham.edu/ancient/48claudius.asp)
( A Tábua de Lyon)
Neste mesmo ano de 48 D.C., realizou-se por ordens de Cláudio um grande Censo da população de todo Império Romano, que contou o número de 5.984.072 cidadãos romanos, ou seja, homens livres que gozavam do direito de cidadania romana, excluindo, portanto, mulheres, crianças, escravos e habitantes que não tinham cidadania. Isso aponta para uma população que se estima estivesse entre 50 e 70 milhões de habitantes.
Após a execução de Messalina, os seus libertos, visando cada um a aumentar a sua influência sobre o imperador, se revezaram em apresentar candidatas a se tornarem a nova imperatriz, sendo que Lollia Paulina, que havia sido esposa de Calígula, e a ex-esposa de Cláudio, Aelia Petina, chegaram a ser cogitadas.
A pretendente cuja “candidatura” era defendida pelo secretário Pallas acabou sendo a escolhida: Agripina, A Jovem, que, sendo filha de Germânico, era nada menos do que a sobrinha do próprio Cláudio. Além disso, Agripina também era irmã do antecessor dele, Calígula.
Segundo as leis romanas, essa união era considerada incesto, mas, em tempos de Principado, obviamente que mudar a lei não foi difícil…
Há relatos de que Agripina teria seduzido o tio Cláudio, mas, provavelmente, o que pesou mesmo na sua escolha foram considerações políticas: Cláudio já estava com 58 anos de idade, sendo que seu, Britânico, tinha apenas sete. Caso Cláudio, que nunca havia sido uma pessoa muito saudável, morresse, ou ficasse incapacitado, era grande o perigo de que a dinastia dos Júlio-Cláudios terminasse, pois Britânico ainda estava longe de despir a toga pretexta e tornar-se maior de idade, quando poderia assumir cargos públicos.
O Principado ainda estava nas primeiras décadas e, ainda que apenas no aspecto formal, o imperador era considerado o primeiro-magistrado. A transição legal e cultural para uma monarquia ainda não havia sido feita, e a sucessão de Calígula mostrara que ainda havia anseios republicanos no Senado…
Assim, Cláudio precisava de um arranjo que lhe permitisse garantir, na sua falta, a continuidade da dinastia no governo, esperançosamente, até que seu filho estivesse apto a governar. Esta era, inclusive, uma situação pela qual Augusto já tinha passado (Com efeito, já idoso, e após o falecimento de vários herdeiros de sangue, sobrinhos e netos, tais como Marcelo, Lúcio e Caio César, ele havia sido obrigado a adotar Tibério, filho de sua esposa Lívia).
Em 1º de janeiro de 49 D.C., Cláudio e Agripina se casaram. No ano seguinte, em 25 de fevereiro de 50 D.C., Cláudio a adotou o filho dela, Lucius Domitius Ahenobarbus, que passou a se chamar “Nero Claudius Caesar Drusus Germanicus” (Nero).
(Busto de Agripina, a Jovem)
Ainda em 50 D.C.., Agripina conseguiu que Cláudio persuadisse o Senado a dar-lhe o título de Augusta, honraria que somente Lívia Drusila, a esposa de augusto, havia recebido em vida, e, mesmo assim, somente após a morte do marido.
Todos logo perceberam o tamanho da influência de Agripina sobre Cláudio e, pouco a pouco, o nome dela começou a aparecer em inscrições em monumentos, moedas e documentos. Consta que ela recebia embaixadores estrangeiros sentada em seu próprio tribunal e vestia um manto militar com bordados de ouro em cerimônias oficiais. O prestígio dela era tanto que o povoado em que ela nasceu, na Germânia, às margens do rio Reno, onde seu pai estava aquartelado, recebeu, em 50 D.C., o nome de Colonia Claudia Ara Agrippinensium, que é a atual cidade de Colônia, na Alemanha.
(Reconstrução da Colonia Claudia Ara Agrippinensium – atual Colônia, no século I D.C.)
Em 51 D.C., Nero vestiu a toga virilis, alguns meses antes da idade costumeira, pouco antes de completar 14 anos. No mesmo ano ele recebeu o título de Princeps Iuventutis, um título que surgira no reinado de Augusto para honrar os jovens considerados como potenciais herdeiros do trono.
Para a surpresa geral, parecia que Nero estava tomando a preferência de Cláudio para ser o seu sucessor. E Agripina começou a eliminar todos que representassem uma ameaça à trajetória de seu filho rumo ao trono. Em 51 D.C, ela ordenou a execução de Sosibius, o tutor de Britânico, que andava reclamando da preferência que vinha sendo dada ao filho de Agripina.
Em 9 de junho de 53 D.C, certamente com a intermediação de Agripina, Cláudio concordou com o casamento entre Nero e sua filha, Claudia Octavia.
Britânico agora já tinha doze anos e o motivo de Cláudio continuar tomando medidas que favoreciam a posição de seu enteado Nero como herdeiro preferido, em detrimento do próprio filho natural, continua sendo algo que intriga os historiadores.
Porém, a maioria das fontes narra que, nos meses que se seguiram, Cláudio, um tanto descuidadamente, começou a fazer comentários, aqui e ali, lamentando o fato dele ter casado com Agripina e adotado Nero.
Em meados de 54 D.C., faltava menos de um ano para Britânico atingir a idade em que poderia vestir a toga virilis e ser considerado adulto. Suetônio cita que Cláudio mencionou publicamente em algum evento a intenção de antecipar a cerimônia, devido à altura de Britânico, chegando a dizer, na ocasião:
“Para que o Povo de Roma finalmente possa ter um genuíno César“.
Era uma clara advertência de que ele não considerava mais Nero como sucessor. Agora, o ano de 54 D.C. entrava em seus últimos meses e, pela primeira vez, em um discurso no Senado, Cláudio se referiu a Nero e Britânico como iguais em precedência.
Em 13 de outubro de 54 D.C., pela manhã, foi anunciado que Cláudio morreu, após um banquete. Nas fontes antigas há um quase consenso de que ele foi envenenado a mando de Agripina, ou até mesmo por ela pessoalmente. Agripina, teria se aproveitado do fato do onipresente Narcissus, partidário de Britânico, estar descansando em sua villa na Campânia, e contratou a célebre envenenadora Locusta, para preparar o veneno, o qual teria sido administrado em um prato de cogumelos, iguaria muito apreciada por Cláudio. Os detalhes variam. Segundo uma versão, Cláudio ao comer os cogumelos, acabou vomitando, e uma segunda dose lhe foi administrada, agonizando durante um tempo, e, após ele ter morrido, o seu falecimento ainda foi escondido por um curto período de tempo, durante o qual todos preparativos necessários foram feitos para assegurar a sucessão em favor de Nero, inclusive a destruição do último testamento de Cláudio, no qual ele teria reconhecido Britânico como sucessor.
A aclamação de Nero foi tranquila: O Senado sabidamente odiava Cláudio e, ainda em 51 D.C., Agripina havia indicado o nome de Sextus Afranius Burrus (Burro) para ser o novo Prefeito da Guarda Pretoriana, e com cuja lealdade ela pôde contar na hora da sucessão.
(Relevo de Agripina coroando seu filho Nero. A cena não deixa margem a dúvidas…)
Nero fez a eulogia (oração fúnebre) em honra de Cláudio, que depois foi “deificado” pelo Senado, isto é, após a sua morte, decretou-se que ele tinha sido elevado ao panteão dos deuses a serem cultuados pelos romanos (apotheosis).
(Camafeu do século I, retratando a apoteose de Cláudio. Uma águia o leva até os céus)
A deificação, ou apoteose, de Cláudio, embora oficial, foi objeto de sátiras e pilhérias pelos integrantes da classe senatorial. Um deles, o filósofo e escritor Sêneca, o Jovem, escreveu uma célebre sátira chamada de “Apocolocyntosis” (literalmente, “aboborificação”, processo no qual Cláudio, na narrativa, tranformaria-se em uma abóbora após a morte), ridicularizando a apoteose do imperador. Na obra, a deificação dele é julgada em um tribunal do deuses no Monte Olimpo, e o próprio imperador falecido Augusto discursa aos deuses enumerando os defeitos físicos, as idiossincrasias, gafes, assassinatos de Cláudio, cuja sentença é ser enviado a penar nas profundezas do Hades, condenado pela eternidade a trabalhar como funcionário de um tribunal, e, ironicamente, sendo dado como escravo a um liberto…
O destino no Hades ao qual Cláudio foi condenado na Apocolocyntosis é claramente uma crítica mordaz a uma das atividades a que o imperador mais se dedicou durante o reinado: os processos judiciários (Ele, de fato, costumava comparecer quase que diariamente ao tribunal, julgando processos). Além disso, é uma crítica à preferência que ele deu aos libertos durante o seu governo.
Embora Cláudio fosse diligente e dedicado no exame da maior parte dos casos judiciais que lhe eram submetidos, ele, às vezes, costumava desprezar os princípios processuais estabelecidos no Direito Romano, proferindo sentenças sem ouvir a parte contrária, violando o princípio do contraditório, ou, como já apontamos, realizando sessões fechadas no palácio, o que era contrário ao princípio da publicidade dos julgamentos, muito caro aos Romanos.
Por exemplo, as fontes citam que Cláudio, certa vez, agiu como um verdadeiro rei Salomão, da Bíblia judaica, julgando um processo no qual uma mãe se negava a reconhecer o filho, decretando que ela se casasse com o rapaz, para forçá-la a confessar a maternidade.
E a estupefação dos litigantes com essas bizarrices de Cláudio era tanta, que Suetônio narra, observando que o fato era de conhecimento geral, um caso em que um réu, falsamente acusado de conduta imprópria contra uma mulher, ao ver que Cláudio decidira, contrariamente à praxe processual romana, ouvir algumas prostitutas como testemunhas, exasperou-se e atirou a tábua e o estilete de escrita em cima do imperador, conseguindo até ferir a bochecha de Cláudio!
Outra faceta de Cláudio era o amor que ele tinha pelos espetáculos públicos, especialmente os combates de gladiadores e contra feras. Durante seu reinado ele promovou várias exibições, culminando com um combate naval simulado, no qual Suetônio registrou que os combatentes saudaram Cláudio com a frase: “Ave, Imperador, Aqueles que irão morrer te saúdam“. É a única vez que a História registra essa frase, que não sabemos se ela era padrão nos jogos de gladiadores ou se somente foi utilizada naquela ocasião (Cássio Dião também a menciona no mesmo episódio, mas a narrativa deve ter sido obtida na obra de Suetônio). A nota satírica, frequentemente presente nas estórias sobre Cláudio, marcando um tom depreciativo sobre a sua suposta estupidez, é que, àquela saudação, o imperador teria respondido: “Ou não…!“, ao que os combatentes entenderam, induzidos a erro, que eles tinham sido perdoados e assim se recusaram, inicialmente, a lutar, para desespero do próprio Cláudio, preocupado com a reação dos espectadores frustrados.
O amor pelos jogos de gladiadores e combates na arena parece combinar com uma outra faceta sombria da personalidade de Cláudio: a curiosidade excessiva, ou mesmo o prazer mórbido, que ele tinha de assistir pessoalmente as execuções de condenados, à tortura de testemunhas ou à morte dos gladiadores.
A política religiosa de Cláudio caracterizou-se pela tentativa de revitalizar as tradições e reviver aspectos antigos dos cultos romanos, como era de se esperar de um amante da história antiga e dos etruscos. Um episódio interessante que ocorreu em seu governo foi a expulsão dos judeus, narrada por Suetônio, que teria sido motivada por tumultos causados “por instigação de Chrestus“.
Muitos especialistas acreditam que essa passagem reflete a chegada dos primeiros pregadores cristãos a Roma, que entraram em conflito com a numerosa comunidade judaica lá instalada, ao pregarem o Evangelho. Obviamente que os romanos ainda não deviam distinguir os cristãos dos judeus ( e note-se que essa divisão ainda não estava pacífica entre os próprios cristãos), e a expulsão não parece ter tido motivos religiosos, mas de manutenção da ordem pública. Não deve, contudo, ter sido uma expulsão em massa. Acredita-se que o episódio narrado por Suetônio é o mesmo que aparece em Atos, 18, 2., quando São Paulo encontra em Corinto um judeu chamado Aquila, que tinha sido expulso de Roma por Cláudio. Estima-se que essa expulsão narrada por Suetônio e em Atos tenha ocorrido por volta de 50 D.C.
Um campo onde Cláudio se destacou como imperador foi no das obras publicas, construindo várias de grande utilidade, como por exemplo dois importantes aquedutos: o Aqua Claudia, cuja construção havia sido iniciada por Caligula, e o Anio Novus, completados em 52 D.C.. Cláudio financiou a construção de ambos com recursos oriundos do tesouro privado do imperador (fiscus).
(A Porta Maggiore, era uma porta monumental no trajeto da junção dos aquedutos da Aqua Claudia e da Aqua Novis, construída por Cláudio)
Fora de Roma, no reinado de Cláudio foram construídos um canal ligando o Reno ao mar, um canal ligando o rio Tibre a Portus, o porto marítimo que ele mandou construir ao norte de Óstia. Além de possibilitar o aumento do volume de transporte de grãos e outras mercadorias para Roma, essa obra útil reduziu as enchentes do rio Tibre.
Ao menos como construtor de grandes obras de utilidade pública, o sempre crítico Suetônio fez justiça a Cláudio, reconhecendo:
“Suas obras públicas foram mais grandiosas e necessárias do que numerosas”.
Conclusão
Assim, o imperador Cláudio é uma figura ambígua para a História de Roma. Se formos considerar apenas a opinião dos Senadores, classe de onde saíram aqueles que registraram o seu reinado na História, ele teria sido um idiota que lhes foi imposto pela guarda pretoriana, e, durante o seu reinado, mostrou-se um governante tirânico, porém medroso e manipulável pelas suas esposas e seus libertos. Porém, mesmos nesses textos críticos, transparece que Cláudio era um monarca dedicado ao ofício de governar e que ele tomou uma série de medidas úteis e sensatas.
A figura de Cláudio é muito bem retratada no best-seller “Eu, Claudius, Imperador“, do escritor inglês Robert Graves, que foi escrito como se fosse a autobiografia perdida do imperador.