Os 10+ (Templos)

Templo (em latim templum) originalmente era o espaço consagrado ao culto de uma divindade, compreendendo não apenas o edifício (aedes) onde (quase sempre, pois havia divindades que não tinham uma imagem, como Vesta) era guardada a estátua do deus cultuado, mas também o terreno circundante, ou recinto, onde, geralmente na frente, ficava um altar para sacrifícios e outras cerimônias religiosas (alternativamente, a palavra fanum era utilizada como sinônimo de templum). Portanto, os edifícios que hoje chamamos de templos eram denominados, na maior parte dos textos antigos, “aedes” (havendo também as variações sacellum, termo que era mais específico para denominar santuários menores, semelhantes ao que seria uma pequena capela atual, e delubrum, também com este sentido).

Inicialmente, as evidências indicam que os Romanos não construíam edificações para adorarem os seus deuses, que, inclusive, não eram antropomorfizados. Assim, os primeiros templos surgiram em Roma a partir do contato com os Etruscos, e, provavelmente, durante o período em que estes controlaram a cidade.

Então, naturalmente, os primeiros templos romanos imitaram o estilo etrusco. Este estilo de templo era construído sobre um alto pódio (somente podendo ser acessado mediante uma escadaria frontal com muitos degraus) e encimado por um grande frontão triangular colocado acima do lintel, sendo este sustentado por colunas apenas na frente do edifício (pronaos ou pronau), geralmente bem à frente do edifício, espaçadas, lisas e com capitéis simples que deram origem ao estilo chamado de “toscano” (palavra que, aliás, deriva de “etrusco”). Os Etruscos e, por sua influência, os Romanos, nesses tempos, usavam frequentemente tijolos para fazer as paredes, madeira nas colunas, no lintel e nos telhados, e, ainda, terracota, esta sobretudo nos capitéis das colunas, nas estátuas e outros ornamentos (então, não se utilizavam blocos de pedra ou de mármore, como os egípcios e gregos). Tudo pintado em cores bem vivas. O interior (cella) em muitos casos era dividido em três compartimentos, refletindo a trindade Tinia, Uni e Menrva (Júpiter, Juno e Minerva, para os Romanos). Vale citar que por sua vez, os templos etruscos, assim como os romanos, posteriormente, absorveram muito do estilo grego.

O templo romano mais importante durante toda a sua História, e provavelmente o primeiro de tamanho considerável a ser construído na cidade de Roma foi o Templo de Jupiter Optimus Maximus, ou também, Templo de Júpiter Capitolino, situado na colina do Capitólio, que, tendo sido dedicado em 509 A.C, ano da instituição da República em Roma, foi destruído e reconstruído diversas vezes. A sua primeira versão era claramente de influência etrusca, e, inclusive, ele foi construído e decorado por trabalhadores e artistas etruscos, incluindo o grande escultor Vulca de Veios.

Reconstituição especulativa do Templo de Júpiter Capitolino, em Roma, foto By Hiro-o at Japanese Wikipedia, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4907957

Mais tarde, os Romanos entraram em contato mais próximo com as cidades fundadas pelos gregos no Sul da Itália, começando a absorver diretamente a cultura grega, principalmente em sua fase helenística, o que se acentuou mais ainda com a conquista da própria Grécia, a partir do século II A.C, o que, obviamente, se refletiu na arquitetura, inclusive dos templos. Porém, apesar de passarem a construir os templos no estilo da arquitetura clássica grega, adotando os estilos de suas colunas e estatuária, e, agora, usando com mais frequência o mármore, sobretudo como revestimento, os Romanos mantiveram algumas características marcantes do estilo herdado dos Etruscos, notadamente a construção do templo sobre um pódio elevado, o acesso por uma escadaria frontal única e a presença da colunata apenas na parte frontal, com, no máximo, meias colunas decorativas nas paredes laterais (os templos gregos eram quase sempre perípteros, ou seja, inteiramente rodeados de colunas, enquanto que os romanos típicos eram prostilos – com colunas apenas na frente, ou pseudoperípteros, isto é, com colunas na frente e meias colunas ou falsas colunas na lateral. E, nos gregos, o acesso se dava por alguns poucos degraus que rodeavam todo o edifício).

Finalmente, sobre os templos romanos, é bom observar que eles eram construídos de acordo com as necessidades rituais das religiões pagãs: as cerimônias e os rituais públicos ocorriam na parte de fora do templo, normalmente em torno de um altar ou ara que ficava na frente do templo. Os fiéis participavam das cerimônias no recinto, mas não entravam em seu interior. No interior do templo propriamente dito ficavam apenas a estátua da divindade, no espaço delimitado pelas paredes (cella), podendo haver outras câmaras ou antecâmaras em que ficavam guardados objetos do culto e/ou oferendas (muitas delas de grande valor intrínseco, motivo pelo qual às vezes os templos funcionavam também como tesouro do Estado), e aos quais somente tinham acesso os sacerdotes. Nesses dias de cerimônias ou festivais públicos, costumava-se abrir as portas do templo e os fiéis então podiam espiar de fora as estátuas dos deuses.

Dito isso, sem mais delongas, vamos àqueles que eu considero os templos romanos sobreviventes mais bem preservados e/ou impressionantes (trata-se de uma seleção discricionária minha, aceitamos sugestões nos comentários):

1- Maison Carré (Nîmes, antiga Nemausus, França)

Provavelmente, após o Pantheon, é o templo romano em melhor estado de conservação que sobreviveu até os nossos dias (isto porque a decoração e o piso do seu interior não foram preservados). Este templo foi dedicado, entre 4 e 7 D.C., a Caio César e Lúcio César, netos e herdeiros adotivos do imperador Augusto que morreram muito jovens, e servia ao culto ao imperador. O prédio foi convertido em igreja na Idade Média, começando a ser restaurado a partir do século XVIII. É um templo hexastilo (seis colunas na fachada) e pseudoperíptero.

Foto do Autor (2003)
O autor em frente à Maison Carré (2003)
Detalhe. Foto do autor (2003)
Após a última restauração em 2011 (foto Aoudot25, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

2- Templo de Augusto e Lívia (Vienne, antiga Vienna, França)

Outra joia romana preservada na França, o Templo de Augusto e Lívia provavelmente foi construído no início do reinado de Augusto, o primeiro imperador, que começou oficialmente em 27 A.C. Há indícios construtivos que denotam que, por volta do ano 40 D.C, houve a necessidade de reconstruí-lo parcialmente, usando-se novos materiais, por algum incidente ignorado, talvez um incêndio ou terremoto. Assim como a Maison Carré, suas colunas são no estilo coríntio, porém ao contrário do primeiro, elas contornam a cella até mais da metade da lateral do edifício, ao invés das meias-colunas existentes no primeiro. Também foi convertido em Igreja, e, brevemente, após a Revolução Francesa, em “Templo da Razão”. Depois disso, foi usado como câmara de comércio e biblioteca, tendo sido restaurado a partir de 1852. É outro templo hexastilo. .

By Jacques MOSSOT – Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=36693887
By Jacques MOSSOT – Own work, CC BY-SA 4.0
By Daniel CULSAN – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=16878505

3- Templo de Portunus (Roma, Itália)

Disputa com o Templo de Hércules Vencedor o título de templo romano mais antigo relativamente intacto ainda de pé . Foi originalmente erguido entre os séculos IV E III A.C., mas a estrutura atual data de cerca de 100 A.C. Situa-se na área do antigo Forum Boarium, que era antigo mercado de gado da cidade de Roma. Foi convenientemente dedicado ao deus Portunus, o deus dos cadeados, das portas e porteiras, do gado e das pontes (por associação), já que o mercado de gado ficava adjacente ao porto fluvial (Portus Tiberunus) e à ponte de pedra (Pons Aemilius) mais antigos de Roma.

É um pequeno templo, elegante e austero, sendo o único da nossa relação adornado com quatro colunas no estilo jônico, e as paredes laterais com meias-colunas no mesmo estilo. No ano 872 de nossa era foi convertido em igreja católica, devendo sua preservação a este fato. Por isso, seu interior é decorado com valiosos afrescos retratando a vida da Virgem Maria, que foram preservados após a desconsagração do edifício.

Como curiosidade, vale mencionar que, até não muito tempo atrás, este templo era conhecido como “Templo da Fortuna Primigênia”, pelo fato, equivocadamente interpretado, de sua fachada ostentar a inscrição “…ORTUN…”.

Country: Italy Site: Temple of Portunus Caption: Exterior from angle Image Date: April 5, 2014 Photographer: Lisa Ackerman/World Monuments Fund Provenance: Site Visit Original: email from Lisa Ackerman
Country: Italy Site: Temple of Portunus Caption: Side facade Image Date: September 29, 2011 Photographer: Studio Paolo Soriani/World Monuments Fund Provenance: Site Visit Original: Sharefile from Alessandra Peruzzetto

4- Templo de Hercules Victor (Roma, Itália)

Outro sobrevivente da Roma Republicana, este templo redondo circundado de colunas coríntias segue o modelo grego (tipo denominado tholos). O Templo de Hercules Victor (ou Hércules Vencedor) também fica no antigo Forum Boarium (atualmente Piazza della Bocca della Veritá), quase ao lado do Templo de Portunus. Isto não é uma mera coincidência, pois os Romanos acreditavam que havia sido neste local que os bois vermelhos do gigante Gerião, capturados por Hércules após completar o seu décimo trabalho, foram roubados por outro gigante, Cacus. Acredita-se que este templo tenha sido construído em 146 A.C, pelo cônsul Lucius Mummius Achaicus, que conquistou e saqueou a rica cidade grega de Corinto. Em assim sendo, ele seria o templo romano mais antigo sobrevivente em boas condições. Por ser redondo, durante muito tempo acreditou-se erroneamente que ele seria um templo dedicado a Vesta, a quem foi dedicado um templo igualmente circular e situado no Fórum Romano.

By ChromosomeGun – Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=79695377

5- Templo de Augusto (Pula, Croácia)

Outro exemplar muito bem preservado é o Templo de Augusto, na cidade croata de Pula, que, após ser destruída durante a Guerra Civil do Segundo Triunvirato contra os assassinos de César, e refundada por Augusto com o nome de Colonia Pietas Iulia Pola Pollentia Herculanea, em cujo reinado o templo foi erguido, provavelmente após 2 A.C, data em que o Senado Romano conferiu-lhe o título de Pai da Pátria, que se encontrava afixado em letras de bronze na arquitrave. Originalmente fazia parte de um conjunto de três templos. É mais um templo que deve a sua preservação ao fato de ter sido convertido em igreja cristã.

By Georg Karl Ell – Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=113360865
By Carole Raddato from FRANKFURT, Germany – The back of the Temple of Augustus, Colonia Pietas Iulia Pola Pollentia Herculanea, HistriaUploaded by Marcus Cyron, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=30139744

6- Templo romano de Vic (antiga Auso, Espanha)

Este templo foi encontrado em 1882, durante a demolição de um castelo medieval na cidade catalã de Vic, que na época do Império Romano tinha o nome de Auso e também era chamada de Vicus Ausonae (Vicus significa povoado ou bairro urbano, em latim, cuja corruptela acabou virando o nome da cidade). No século XI, o templo, feito de arenito, foi coberto pela estrutura do castelo, que também aproveitou como material fragmentos de colunas, capitéis e outros elementos decorativos. Após a sua descoberta, cidadãos proeminentes de Vic resolveram restaurar o templo, aproveitando o fato de que as fundações, as paredes norte e oeste e a maior parte da arquitrave estavam intactos. A única coluna e o único capitel sobreviventes foram utilizados como modelo para a reconstrução dos demais e reincorporados à estrutura, e, assim, o templo foi reconstituído ao que devia ser o seu aspecto original. Devido ao fato de ser uma reconstrução, ainda que utilizando grande quantidade de elementos autênticos, relutamos um pouco em incluí-lo nesta relação, mas resolvemos mantê-lo, afinal, em maior ou menor grau, todos os templos romanos aqui mencionados sofreram algum tipo de intervenção restauradora. O seu estilo, e os elementos encontrados durante a pesquisa arqueológica, sugerem que o templo data do início do século II D.C. A construção do Templo de Vic é muito semelhante a do Capitólio de Dougga, que veremos a seguir.

By Krzysztof Golik – Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=123101614

7- Capitólio de Dougga (Dougga, Tunísia)

Dougga originalmente era um povoado númida, que depois foi controlado pelos Cartagineses, até ser conquistada pelos romanos. Após ser elevada à condição de cidade com direitos iguais às das cidades italianas e colônias romanas gozando de maior autonomia, ela recebeu o nome de Municipium Septimium Aurelium Liberum Thugga. O Capitólio de Dougga é um templo originalmente dedicado à chamada Tríade Capitolina: Jupiter Optimus Maximus, Juno e Minerva, o trio de divindades protetoras de Roma que integrava o culto oficial do Estado Romano e que desde o início eram cultuados no Templo de Júpiter Capitolino, que tinha três cellae separadas para cada uma delas. Com a expansão romana, inúmeras cidades espalhadas pelo Império construíram, em seus centros cívicos, templos similares cultuando a Tríade, chamados de Capitolium (pl. Capitolia). Uma inscrição dedicatória aos imperadores Marco Aurélio e Lúcio Vero indica que o templo deve ter sido construído entre 166 e 167 D.C. Assim como no Templo de Vic, as paredes do Capitólio foram erguidas utilizando-se a técnica conhecida como opus africanus, comum nas províncias romanas do Norte da África e que parece ter origem na arquitetura cartaginesa. Juntamente com os Templos de Portunus e de Pula, é um exemplo de templo tetrastilo (quatro colunas na fachada).

By GIRAUD Patrick – Self-photographed, CC BY 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4546818

By Eric T Gunther – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=18774036

8- Templo de Baco (Baalbek, antiga Heliopolis, Líbano)

O Templo de Baco fazia parte de um colossal complexo religioso que compreendia vários templos erguido na antiga cidade de Heliopolis, na província romana da Síria-Fenícia, depois Síria-Coele. O complexo foi construído pelos romanos a partir do final do século I A.C/Início do Século I D.C, em um lugar onde já existia há bastante tempo um centro de culto a divindades solares semitas, como Baal. Durante o Império, a cidade recebeu o nome de Colonia Julia Augusta Felix Heliopolitana. A construção central do complexo era o Templo de Júpiter (88m x 44m x 44m), que disputa com o Templo de Vênus e Roma, em Roma (110m x 53m x 31m), o título de maior templo religioso pagão já construído pelos Romanos, porém dele somente restaram o enorme pódio e algumas colunas de pé. Já o Templo de Baco (66m x 35m x 31m) era o segundo maior do complexo (e, ainda assim, era um dos maiores dentre todos os templos romanos) e o mais bem conservado, ao menos nas laterais e nos fundos. Ele começou a ser construído no reinado do imperador Antonino Pio e provavelmente ficou pronto no reinado do imperador Septímio Severo. O interior da cella é decorado com elaborados relevos e esculturas, possuindo vários nichos. É octastilo (fachada com oito colunas) e o único exemplo de templo períptero da nossa relação.

By Jan Hilgers – Jan Hilgers, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=15291746
O homem na quina do pódio do Templo de Baco ao fundo dá uma ideia do tamanho da construção. By Lodo from Moscow, Russia – Temple of Bacchus, Baalbek, Lebanon, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=101104227
Interior do Templo de Baco. By © Vyacheslav Argenberg / http://www.vascoplanet.com/, CC BY 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=93337494

9- Capitólio de Bréscia (Antiga Brixia, Itália)

Incluímos o Capitólio de Brescia nesta relação pelo fato de, apesar de estruturalmente ele estar bem menos preservado do que os demais, não obstante ele contém elementos de valor artístico e histórico inestimáveis. O Capitólio de Brescia foi construído no reinado do imperador Vespasiano, em 73 D.C, no lugar de um edifício religioso mais antigo da época republicana que possuía a cella dividida em quatro partes. Segundo os estudiosos, este templo republicano foi construído entre 89 A.C e 75 A.C, época em que a cidade foi reconhecida como “Civitas” (Município com mais autonomia e direitos civis para os cidadãos). Quando o Capitólio foi construído aproveitando o templo anterior como fundação, a parte mais baixa das paredes e o piso original deste foram preservados, tornando-se o único exemplo de decoração interna de um templo dos tempos da República Romana que sobreviveu. E o Capitólio de Brescia, em si, também teve partes importantes da sua estrutura e da sua decoração que chegaram até os nossos dias pelo fato dele ter sido soterrado por um deslizamento do morro Cidneo, que ficava atrás do edifício, tendo somente sido redescoberto em 1823. Os elementos arquitetônicos encontrados foram remontados, e o Capitólio de Brescia, em seu estado atual, permite distinguir a concepção arquitetônica e paisagística que nortearam a sua construção, contendo três cellae (cultuando a Tríade Capitolina: Júpiter, Juno e Minerva), colocando-o em posição destacada, em uma parte elevada da cidade e tendo o morro atrás, como moldura. Sobreviveram, ainda boa parte do piso original em mármore policrômico, assentado na técnica conhecida como “opus sectile“, e alguns mosaicos decorativos. Finalmente, também foi encontrada na escavação uma espetacular estátua de bronze de uma Vitória Alada, que provavelmente ficava no topo do frontão. É um templo octastilo e prostilo.

Photo by Wolfgang Moroder-Wikimeida commons
Decoração do templo republicano
Mosaico no pavimento do Capitólio
Pavimento do Capitólio
Estátua da Vitória, Brescia, foto Giovanni Dall’Orto., Attribution, via Wikimedia Commons

10- Templo de Rômulo (Roma, Itália)

Este templo difere de todos os outros que relacionamos pelo fato da sua arquitetura já refletir o estilo do Baixo Império Romano, usando concreto na cúpula de sua rotunda, mas ainda com elementos decorativos clássicos, como colunas e arquitraves, retiradas de prédios mais antigos, dispostas em um formato côncavo. Sem dúvida, é um tipo diferente de todos os outros templos aqui exibidos. No entanto, há controvérsias sobre a real identidade do edifício. O mais aceito é que seria um templo dedicado a Valério Rômulo, filho do imperador Maxêncio, que morreu ainda adolescente em 309 D.C., sendo divinizado por ordem de seu pai. Os elementos que suportam essa tese são o fato de que toda a área foi objeto de construções e renovações por iniciativa de Maxêncio, como os vizinhos Basílica de Maxêncio e Templo de Vênus e Roma. Sobretudo, no local foram encontradas moedas de Maxêncio, inclusive um exemplar com a efígie do rapaz e os dizeres “Divino Rômulo N V Filho do Imperador Maxêncio” no anverso, e, no reverso, uma representação de um edifício com um domo, portas de bronze, quatro colunas, com nichos contendo estátuas entre elas e encimado por uma águia, circundada pelos dizeres: “eterna memória“, um desenho que corresponde exatamente à aparência do Templo. Em outra interpretação, derivada de uma menção do historiador antigo Sexto Aurélio Victor, acredita-se que o edifício seria o “Templum Sacrae Urbis” ou “Urbis Fanum“, que, segundo o relato, teria sido construído por Maxêncio em celebração à deusa Roma. Finalmente, para outros estudiosos, o prédio ocupou o lugar do anterior Templo dos Penates, mas, com o incêndio e demolição deste, foi construído para ser apenas um vestíbulo de entrada monumental da Via Sacra para o Fórum da Paz. De qualquer modo, um fato que nos levou a escolher este templo é porque é o único templo romano (além do Pantheon) que ainda tem a sua porta de bronze original, e funcionando perfeitamente, inclusive com a fechadura original! E, juntamente com o Pantheon, o Templo de Rômulo é o único que continua sendo usado para a mesma finalidade para o qual foi construído: local de culto religioso – uma vez que ele foi convertido, em 527 D.C, em Igreja Católica, durante o reinado de Teodorico, o Grande, rei dos Ostrogodos, a quem a cidade de Roma estava submetida, e que doou o prédio ao Papa, tornando-se, então, o vestíbulo da Basílica de São Cosme e São Damião, no Fórum Romano (que aproveitou outro prédio romano já conectado ao templo, que dava para o Fórum da Paz).

By Anthony M. from Rome, Italy – Flickr, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1136266
Porta do Templo de Rômulo, foto do Autor

Hors-Concours – Pantheon (Roma, Itália)

Qualquer relação de templos romanos existentes não pode deixar de mencionar o Pantheon (Panteão, em português). Em termos arquitetônicos, poucos edifícios tiveram tanta influência no mundo quanto ele. Com efeito, é um prédio que foi copiado em vários lugares do planeta e até hoje detém o recorde de ter a maior cúpula (domo) de concreto não reforçado do mundo, com o mesmo diâmetro da rotunda (43,3 metros, ou 150 pés romanos). Aliás, o Pantheon é uma maravilha de engenharia e arquitetura por si só, tanto pelo uso criativo do concreto romano, como por suas proporções perfeitas, sem falar no tamanho do prédio em si e na sua sobrevivência a inúmeros terremotos em quase dois mil anos. A rotunda tem o mesmo diâmetro que a altura do óculo (a abertura no topo do domo por onde entra a luz) até o chão, e assim, se o hemisfério que constitui a cúpula fosse uma esfera perfeita, ela caberia exatamente dentro do espaço interior do Pantheon ou dentro de um cubo perfeito, quase como se fosse uma representação do globo terrestre e da esfera celeste. Internamente, a superfície do domo é recortada por 5 fileiras de 28 quadrados escavados, Esses espaços, chamados de caixotões têm a função prática de aliviar o peso da estrutura do domo, mas não se pode deixar de observar que parecem corresponder aos 28 dias que correspondem ao ciclo lunar. Além disso, 28 é um número em que a soma dos fatores é igual ao próprio número (1+2+4+7+14=28) o que, de acordo com o matemático Pitágoras, expressava a harmonia mística com o Cosmos. Não há registro da existência de um prédio igual ou semelhante ao Pantheon antes ou depois na Arquitetura Romana, com uma cella circular e um pórtico clássico (octastilo) e, portanto, ele é um exemplar único. Curiosamente, este pórtico e a altura de suas colunas e do frontão constituem a única discrepância na perfeição de suas medidas: Originalmente, as colunas teriam 50 pés romanos de altura (14,8 metros), porém, dificuldades logísticas impediram o transporte de colunas desse tamanho (da pedreira de onde de fato vieram as colunas, no Egito) e, mais provavelmente, a colocação das mesmas no local pretendido (talvez devido a limitações dos guindastes), então, os construtores tiveram que usar colunas de 39 pés de altura (o contorno do frontão com a altura originalmente projetada permaneceu na fachada, na parede onde está anexado o pórtico definitivo, mostrando como este é mais baixo do que o planejado. Outras duas características marcantes do Pantheon são o fato dele ser o templo romano com a decoração interior mais bem preservada (e somente algumas residências em Pompéia e Herculano se comparam a ele neste quesito) e de possuir a a porta de bronze romana mais antiga ainda em funcionamento no edifício original. Cada metade da porta, de 4,45 m de altura, pesa 8,5 toneladas, e, mesmo assim, o seu balanceamento é tão perfeito, que, ainda hoje, podem ser abertas por apenas uma pessoa. O Pantheon foi construído no reinado do imperador Adriano, entre 118 e 128 D.C., no lugar de um templo do mesmo nome, erguido por Marco Vipsânio Agripa, no reinado de Augusto, e muitos acreditam, embora não haja prova disto, que ele foi projetado pelo grande arquiteto Apolodoro de Damasco, que concebeu muitos dos grandes projetos de Trajano, o antecessor de Adriano (Embora o significado do seu nome em grego seja “de todos os deuses”, nenhuma fonte antiga afirma que ele fosse de fato um templo onde todos os deuses eram adorados). Contudo, em sinal de modéstia, Adriano manteve a inscrição “M. AGRIPPA, L F COS TERTIUM FECIT” (“Construído por Marco Agripa, filho de Lúcio, Cônsul pela 3ª vez”) no lintel. O Pantheon deve a sua preservação ao fato de ter sido convertido em uma igreja católica em 609 D.C., continuando sendo até hoje a Igreja de Santa Maria e dos Mártires. Mesmo assim, ao longo dos séculos, ele foi despojado do revestimento de mármore das paredes exteriores da cella e de suas telhas de bronze.

Por Mariordo (Mario Roberto Durán Ortiz) – Obra do próprio, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=58886212
Foto do Autor
CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=389746
Interior do Pantheon. O piso (com algumas substituições que mantiveram o padrão original), o revestimento das paredes do 1º estágio, as colunas e os nichos são originais romanos. Algumas das edículas ou capelas, foram alteradas durante a Renascença, tendo suas colunas substituídas, mas no geral mantiveram a originalidade. Já o revestimento das paredes do 2º estágio foram alteradas no século XVIII, mas no lado direito superior da foto pode ser visto um pequeno trecho que foi restaurado no século XX para o padrão original romano. Foto: Macrons, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Os 10+ (Anfiteatros)

Olá, amigos do blog!

Decidimos criar uma nova categoria no blog, sobre os mais significativos exemplares da Arte e da Arquitetura Romanas, e nessa categoria, inauguramos a série “Os 10+“, começando pelos Anfiteatros Romanos.

Anfiteatro é uma palavra grega que significa “teatro com dois lados” ou “teatro de ambos os lados”, já que, basicamente, um teatro é um semicírculo ou uma meia-lua, e um anfiteatro é um círculo perfeito, ou uma elipse. Apesar disso, todos os anfiteatros antigos que sobreviveram são romanos, e, até onde eu sei, não se conhece nenhum de origem grega, o que dá a entender que de fato eles sejam uma invenção romana.

Os anfiteatros estão diretamente relacionados com os jogos de gladiadores e suas variações, como os espetáculos de caçadas ou lutas contra animais (inclusive como forma de execução de condenados) ou entre as próprias feras (venationes), e até mesmo de batalhas navais (pelo menos a arena do Coliseu podia ser preenchida com água para esse fim).

Segundo o historiador romano Tito Lívio, as lutas de gladiadores seriam um costume iniciado pela tribo dos Campânios, que fazia parte do povo Osco, da região da Campânia. Já para os historiadores modernos, elas seriam um costume fúnebre etrusco. O anfiteatro mais antigo sobrevivente e provavelmente o primeiro a ser construído em pedra é o Anfiteatro de Pompéia. Considerando que Pompéia foi fundada pelos Oscos, e, posteriormente, dominada pelos Etruscos, qualquer que seja a verdadeira origem dos jogos, isto provavelmente explica o fato dela ter sido a primeira cidade que construiu um anfiteatro.

Sem mais delongas, vamos àqueles que eu considero os anfiteatros romanos sobreviventes mais bem preservados e/ou impressionantes:

1- Anfiteatro de Nîmes (antiga Nemausus, França)

O mais bem preservado do mundo, na minha opinião, sua capacidade original era de 20 mil espectadores, construído no início do reinado de Trajano (por volta de 100 D.C). Ainda é utilizado para uma série de espetáculos, incluindo touradas. Tive a oportunidade de visitá-lo em 2003 e recomendo a visita para todos.

Foto do Autor
Foto By Krzysztof Golik, edited by Janke – This file was derived from: Arenes de Nimes (18).jpg, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=116261573
Arènes de Nîmes (By Herbert Frank from Wien (Vienna), AT – Arènes de Nîmes (1. Jhdt.n.Chr.), CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=77739282

2- Anfiteatro de El-Djem (antiga Thysdrus, Tunísia)

O Anfiteatro de El-Djem, que é claramente inspirado no Coliseu, dependendo das fontes, seria o terceiro maior do Império Romano e foi construído por volta de 238 D.C, talvez pelo governador da Província, Gordiano, pouco antes dele ser aclamado imperador. Mas, talvez o mais impressionante quanto a este anfiteatro é a comparação do seu tamanho com o da cidade onde foi construído. Sua capacidade estimada é de 35 mil espectadores, enquanto que El-Djem tem somente 21 mil habitantes. E sabemos que a cidade não era maior do que isso na época do Império Romano. Então, ele só devia ficar cheio em grandes eventos, que provavelmente atraíam aficionados de toda a Província da África e além.

By Diego Delso, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=51315489

3- Anfiteatro de Verona, Itália

O Anfiteatro de Verona é certamente o mais bem preservado da Itália, e que, assim como os Anfiteatros de Nîmes e de Arles, continua a ser utilizado para espetáculos. É um dos mais antigos existentes, datando de 30 D.C, sendo precedido pelo de Pompéia. Sua capacidade estimada na Antiguidade era de 30 mil lugares. Apesar de seu estado excepcional, ele perdeu o anel externo durante um terremoto no século XII, e por isso, perde para o de Nîmes neste quesito.

Arne Müseler / http://www.arne-mueseler.com, CC BY-SA 3.0 DE https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/de/deed.en, via Wikimedia Commons

4- Anfiteatro de Pompéia, Itália

É o anfiteatro mais antigo existente, construído em 70 A.C., e é bem possível que ele seja o primeiro anfiteatro de pedra da História (anteriormente os anfiteatros romanos eram construídos de madeira). Como todos os anfiteatros romanos, tinha um setor separado para os cidadãos das classes superiores, mais próximo da arena. Como curiosidade, o historiador romano Tácito relata que, devido a uma briga entre os espectadores que se alastrou pelas ruas da cidade deixando vítimas fatais, envolvendo os moradores locais e os oriundos da cidade vizinha de Nuceria, o imperador Nero, como punição, proibiu durante dez anos a realização de jogos de gladiadores no Anfiteatro (Anais, XIV, 17). O relato é confirmado por um afresco encontrado em Pompéia, retratando exatamente este conflito, mas quando a erupção do Vesúvio ocorreu, em 79 D.C., esse prazo já tinha expirado e várias armas e armaduras de gladiadores foram encontrados nas escavações. Aliás, nessa pintura, é possível ver que o Anfiteatro de Pompéia, assim como o Coliseu e muitos outros de seus congêneres, possuía uma cobertura retrátil de algum tipo de tecido ou de lona, chamada de “velarium“. Sua capacidade estimada situa-se entre 12 e 20 mil lugares (ou seja, acomodaria toda a população provável da cidade). Foi palco de um célebre show da banda Pink Floyd.

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O afresco retratando a briga entre os cidadãos de Pompéia e de Nuceria, em torno do Anfiteatro de Pompeia. By U.D.F., Paris – Robert Etienne: Pompeji, die eingeäscherte Stadt, Ravensburg 1991, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=556721

5- Anfiteatro de Cápua (atual Santa Maria Capua Vetere), Itália

Este anfiteatro não está bem preservado, mas vale ser mencionado porque, além de ser o segundo maior do Império Romano, em capacidade, acredita-se que ele tenha servido de modelo para o maior e mais famoso anfiteatro de todos, o Coliseu. Além disso, alguns especialistas acreditam que ele seria mais antigo que o de Pompéia, pois teria sido construído em 100 A.C. Mas uma inscrição existente no anfiteatro parece indicar que ele foi construído quando Cápua já tinha o nome de Colonia Julia Felix Augusta Capua, o que só poderia ter ocorrido a partir de 27 A.C. De qualquer modo, mesmo antes disso, Cápua já era afamada como um centro de organização de jogos de gladiadores e escolas de treinamento. Inclusive, o mais famoso gladiador de todos os tempos, Spartacus, treinava e lutava em Cápua, na companhia de gladiadores de propriedade do lanista Lentulus Batiatus. Estima-se que tinha uma capacidade de 45 mil espectadores, embora haja quem calcule que coubessem 60 mil.

Stanley-goodspeed, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons

6- Anfiteatro de Arles (antiga Arelate, França)

Outro anfiteatro que está bem preservado e ainda é utilizado para touradas e outros espetáculos. Construído em 90 D.C., após a Queda do Império Romano o anfiteatro foi utilizado como fortaleza, tendo-lhe sido incorporadas quatro torres medievais, três das quais ainda persistem, sendo este o motivo principal da sua sobrevivência. Tinha capacidade original para 20 mil espectadores.

By Jmalik at English Wikipedia, CC BY 2.5, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4496808
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7- Anfiteatro de Pula, Croácia

Embora apenas um pequeno trecho das suas arquibancadas tenha sobrevivido, o Anfiteatro de Pula possui uma das fachadas mais bem preservadas, com a parede exterior completa, incluindo, desde a sua construção, uma característica incomum: quatro projeções externas em formato de torres. Foi construído no reinado do imperador Vespasiano, substituindo dois anfiteatros anteriores, o primeiro de madeira, datado do reinado de Augusto. Originalmente, ele tinha cerca de 22 mil lugares e hoje hospeda shows e concertos musicais.

Diego Delso, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

8- Anfiteatro de Pozzuoli (antiga Puteoli, Itália)

É o terceiro maior anfiteatro da Itália, e, talvez, de todo o Império Romano (disputa esta posição com o de El-Djem, uma vez que as estimativas variam), abrigando talvez até 50 mil espectadores. Situava-se no entroncamento de estradas que levavam a Puteoli vindas de Cápua, Nápoles e Cumas, o que demonstra que a região da Campânia era mesmo um polo irradiador e atrativo de espetáculos de gladiadores. Foi construído no reinado do imperador Vespasiano (quando, tudo indica, houve uma febre de construção de anfiteatros, provavelmente estimulada pela construção do Coliseu, iniciada no reinado dele) e por isso recebeu o nome de Anfiteatro Flaviano. Ainda possui, em bom estado de conservação, os corredores subterrâneos e as aberturas por onde as gaiolas com os animais eram içadas até a arena. Segundo a tradição cristã, em 305 D.C,. os mártires cristãos São Próculo e São Januário foram condenados a serem executados neste anfiteatro, mas como os animais não os atacaram, eles acabaram sendo decapitados em uma localidade próxima.

Wojtek-Rajpold, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

9- Anfiteatro de Mérida (antiga Emerita Augusta, Espanha)

Não é o maior da Espanha (certamente o de Córdoba e o de Itálica eram maiores) e, em termos de preservação, equivale ao de Itálica, porém escolhemos o Anfiteatro de Mérida pelo fato dele ser datado de 8 A.C, e portanto, ele é um dos mais antigos e provavelmente um dos primeiros construídos pelos romanos fora da Itália. Sua capacidade era de 15 mil espectadores.

By Daniel Di Palma – Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=134427057

10 – Anfiteatro de Uthina (atual Oudna, Tunísia)

Escolhemos o Anfiteatro de Uthina pelo seu bom estado de conservação. É um bom exemplo dos inúmeros anfiteatros espalhados pelas províncias romanas do Norte da África, o que demonstra a sua prosperidade durante o Império. Como a maior parte dos anfiteatros africanos, o de Uthina foi parcialmente escavado no solo e os degraus apoiados na encosta da elevação existente no local. Tinha cerca de 16 mil lugares e foi construído no reinado do imperador Adriano.

Hublitz, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

Hors-Concours – O Coliseu

A epítome de todas as arenas romanas, frequentemente os historiadores romanos referiam-se ao Coliseu apenas como: “O Anfiteatro” e, obviamente, os seus leitores saberiam imediatamente que eles estavam se referindo ao Anfiteatro Flavio, de Roma (acredita-se que este era o seu nome oficial, embora isto não conste de nenhuma inscrição ou texto antigo), pois a sua construção começou em 72 D.C, no início do reinado do imperador Vespasiano (Tito Flávio Vespasiano), ficando pronto em 80 D.C, no reinado de seu filho, Tito.

O autor, no Coliseu, no ano 2000.

O apelido “Coliseu”, do latim Colosseum, decorre, sim, de um objeto de tamanho monumental, mas não o do próprio anfiteatro, como muitos podem pensar, e sim de uma enorme estátua do imperador Nero, de mais de 30 metros de altura (ou seja, quase do tamanho do Cristo Redentor) ao lado da qual ele foi construído. Provavelmente, a plebe romana passou a dizer que ia assistir as lutas no “anfiteatro do Colosso” e o nome pegou.

Aliás, o local onde o Coliseu foi construído era ocupado antes pelo também colossal palácio construído por Nero, chamado de Domus Aurea. Inclusive, o enorme lago artificial que havia, margeado por colunatas e aposentos, e alimentado pelo aqueduto de Cláudio (Acqua Claudia), foi drenado, e a infraestrutura hidráulica aproveitada para possibilitar uma das características mais incríveis do Anfiteatro: a sua capacidade de sua arena ser enchida com água, transformando-o em uma “Naumaquia“, em que batalhas navais eram simuladas. A escolha do local certamente foi um gesto político de Vespasiano, em que ele devolvia ao povo a área que havia sido apropriada por Nero para o seu prazer pessoal, e os recursos vieram do saque à cidade e ao Templo de Jerusalém, ocorrido em 70 D.C.

FeaturedPics, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

A capacidade do Coliseu é estimada entre 55 mil e 70 mil espectadores, alguns falando em 80 mil lugares. As 80 entradas em arco (sendo quatro maiores: uma exclusiva para o imperador e outras três para senadores e outros figurões), as escadarias e os setores eram numerados, assim como em um estádio moderno. O acesso e a saída das arquibancadas se dava, como nos estádios modernos, por túneis e aberturas chamados de vomitórios (vomitoria), e estudos mostram que o Anfiteatro poderia ser esvaziado em poucos minutos, graças ao primoroso projeto arquitetônico. Finalmente, havia um elaborado sistema de cobertura retrátil, o velarium, tão complexo e de fato semelhante aos cabos e velas de um navio, que tinha que ser manejado pelos marinheiros da Frota Imperial de Misenum.

Foto Wikicomons, domínio público

O Coliseu espelhava a estratificação vertical da sociedade romana, pois os lugares eram acessíveis de acordo com a classe social dos espectadores: O Imperador tinha seu camarote exclusivo, os senadores ocupavam os bancos mais próximos da arena (inclusive há vestígios de inscrições contendo nomes individuais de alguns senadores, como se fossem lugares cativos), vindo depois os Equestres, os cidadãos romanos plebeus livres, esses divididos entre ricos e pobres, e, por último, mulheres e escravos.

A fachada do Coliseu, assim como boa parte de todo seu revestimento exterior e interior é de mármore travertino (100 mil m³!), mas a sua estrutura é também em parte feita do resistente concreto romano e de tijolos. Esta fachada é de grande rigor arquitetônico clássico, pois os três andares são decorados por arcos emoldurados por meias-colunas, sendo os capitéis do estilo dórico, no primeiro (onde estão as entradas), jônico, no segundo e coríntio no terceiro. Embaixo de cada um dos arcos do segundo e terceiro andares havia uma estátua, provavelmente de divindades.

Embaixo da arena, havia um imenso labirinto de corredores e de celas para feras, e onde também havia guindastes para içamento de jaulas, constituindo um espaço subterrâneo que era chamado de “Hipogeu” (palavra grega que tem exatamente este significado). Vale citar que o Hipogeu foi construído mais tarde, durante o reinado de Domiciano, e, com isso, o Coliseu não pôde mais ser inundado, perdendo a sua breve funcionalidade como Naumaquia.

Segundo o historiador Cássio Dião, nos jogos inaugurais do Coliseu, em 80 D.C, foram mortos 9 mil animais e um número desconhecido de gladiadores. As lutas de gladiadores foram proibidas pela primeira vez pelo Imperador Romano do Ocidente, o cristão Honório, em 399 D.C, mas há registros de que elas voltaram a ser travadas e, no Coliseu, somente cessaram de vez em 435 D.C. E mesmo após a Queda do Império Romano do Ocidente, em 476 D.C, espetáculos de caçadas e lutas de animas (venationes) continuaram a serem organizados ali pelo menos até 523 D.C.

Como diria Maximus Decimus Meridius: “Vocês ficaram entretidos?” kkkk

ELE, CLÁUDIO, IMPERADOR

Em 1º de agosto de 10 A.C., nasceu, em Lugdunum, na Gália (atual Lyon),  Tiberius Claudius Nero Germanicus (Cláudio), filho de Nero Claudius Drusus (Druso) e de Antônia, a Jovem, filha do casamento do triúnviro Marco Antônio com Otávia, a irmã de Augusto.

Assim, pela linha materna, Cláudio era parente de Júlio César, uma vez que a sua mãe era neta de Júlia, a Jovem, irmã de César, e sobrinho-neto do imperador Augusto (que também era sobrinho-neto de César).

Por sua vez, pela linha paterna, Cláudio era neto da imperatriz Lívia Drusila (Júlia Augusta), a esposa do primeiro imperador romano, Augusto, pois seu pai era o segundo filho do primeiro casamento de Lívia com Tibério Cláudio Nero, de quem ela se separou já grávida do caçula para se casar com Otaviano, antes deste tornar-se imperador e passar a ser chamado de Augusto.

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O Pai de Cláudio, Druso, devido às suas importantes vitórias contra os bárbaros germânicos, recebeu o cognome “Germanicus”, e ele era também o irmão mais novo de Tibério, que seria o sucessor de Augusto no trono.

Antes de Cláudio nascer, Druso e Antônia já haviam concebido Germanicus Julius Caesar (Germânico), que se tornaria um célebre general e cairia nas graças de Augusto (e também da plebe romana). E quando o velho imperador adotou Tibério como herdeiro, ele exigiu que este, por sua vez, adotasse Germânico, pelo fato de que, após as mortes de seus netos Caio e Lúcio César, tirando o rapaz, Augusto não tinha mais nenhum outro parente consanguíneo do sexo masculino capaz de dar continuidade à linhagem dos Júlios (com exceção do seu jovem neto sobrevivente, Agripa Póstumo, que o próprio Augusto havia exilado em uma ilha remota, possivelmente por traição).

Porém, ao contrário do seu irmão mais velho, Cláudio passaria a sua infância, adolescência e toda a juventude em completa obscuridade, expressamente por determinação de Augusto e de Lívia, com os quais ele viveu durante um bom tempo, e, depois deles, pela vontade de seu tio Tibério, ficando, assim, afastado das aparições públicas da família imperial e sem ter qualquer papel público, ainda que cerimonial, a desempenhar.

Os motivos do ostracismo a que Cláudio foi relegado no seio da família imperial, segundo os autores antigos, seriam os distúrbios físicos e mentais que ele manifestava desde menino, considerados por Augusto e Lívia como comprometedores da dignidade da dinastia dos Júlio-Cláudios. E a própria mãe de Cláudio, segundo  Suetônio, referia-se ao filho como sendo “um monstro“.

O diagnóstico da doença de Cláudio não é preciso nas fontes, mas elas mencionam o fato dele mancar, gaguejar, ser acometido por tremores e ter corrimentos no nariz. Por isso, alguns acreditam que Cláudio pode ter contraído poliomielite na infância, ou, o que parece mais provável, que ele tenha sofrido algum tipo de paralisia cerebral na infância. Alguns defendem, ainda, que a doença dele seria a Síndrome de Tourette, uma desordem neuropsiquiátrica que causa tiques nervosos.

No entanto, o próprio Augusto, em uma carta à Lívia, citada por Suetônio, certa vez observou que Cláudio era mais inteligente do que ele aparentava, tendo ficado impressionado com a sua boa declamação. Mesmo assim, Cláudio seria mantido afastado de qualquer cargo ou função oficial durante todo o reinado do tio, ao contrário do irmão dele, Germânico.

A sociedade romana, como a maior parte das civilizações da Antiguidade, não tinha muita compaixão pelos deficientes físicos, e a família entendia que os sintomas da enfermidade de Cláudio eram causados por desvios de caráter e deveriam ser corrigidos pela disciplina e castigos.

O próprio Cláudio, na autobiografia que ele escreveria anos mais tarde, e que não chegou até os nossos dias, contou que a sua família contratou um bárbaro que era condutor de mulas para ser o seu tutor, com o objetivo de que este se valesse da mais férrea disciplina e castigos severos para tentar melhorar a sua condição.

Assim, até mesmo em sua cerimônia da assunção da toga virilis (que simbolizava a passagem da infância para a idade adulta para os rapazes romanos, normalmente aos 14 anos de idade), que era um evento público marcante para  os jovens da família imperial, Cláudio foi escondido dos olhares do público, pois ela ocorreu durante a noite, com ele sendo carregado oculto no interior de uma liteira.

Como não tinha um papel público a desempenhar, Cláudio então tomou interesse pelo estudo de História e pela Literatura. O grande historiador romano Tito Lívio foi contratado para ser seu professor e ele também foi aluno do filósofo estoico Atenodoro.

E tudo indica que Cláudio se tornou um leitor voraz. Ainda muito jovem ele estudaria obras históricas sobre vários povos e, segundo as fontes antigas, ele foi a última pessoa capaz de ler a língua escrita etrusca em Roma, idioma que até hoje não foi completamente decifrado.

Começando ainda na juventude, ao longo da vida, Cláudio escreveria 43 livros sobre a História de Roma, a Thyrrenica, contendo 21 livros sobre a História dos Etruscos, além da Carthagenica, uma História de Cartago contendo 8 livros, um livro sobre filologia e uma defesa das acusações de Asinio Polião contra Cicero, além da sua própria autobiografia em 8 volumes. Infelizmente, nenhuma destas obras sobreviveu, mas algumas foram citadas por autores antigos.

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(Tabula Cortonensis, contendo um texto em etrusco)

Outra obra que é mencionada pelas fontes é um tratado sobre jogos de dados. Segundo as fontes, Cláudio era fanático por este tipo de jogos, o que seria motivo de alfinetadas dos historiadores e objeto de muitas sátiras.

Cláudio também era interessado em linguística e escreveu um livro defendendo a introdução de três novas letras no latim, “A Claudian letter“, “” e “A Claudian letter“, duas delas equivalentes ao Y e ao W. Mais tarde, após se tornar imperador, ele, no exercício do cargo de Censor, determinou que essas letras fossem adotadas oficialmente, mas isso não perdurou por muito tempo (na foto abaixo, uma raríssima inscrição contendo uma delas).

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Quando Augusto morreu, em 19 de agosto de 14 D.C., Cláudio, que já tinha 23 anos de idade, sentiu-se confiante em pedir ao sucessor, o seu tio, Tibério, que lhe fosse permitido começar a trilhar o cursus honorum, a carreira pública das magistraturas. Contudo, Tibério preferiu dar apenas a Cláudio os ornamentos consulares, o que podemos considerar como uma mera consolação, já que isso significava na prática apenas uma condecoração honorífica, permanecendo Cláudio afastado de qualquer cargo ou função pública.

Eu creio que o motivo de Tibério continuar negando ao sobrinho qualquer papel público tinha a ver com o fato da família de Cláudio estar no centro das intrigas dinásticas dos Júlio-Cláudios referentes à posição de herdeiro de Tibério. Com efeito, o seu irmão, Germânico, era visto como potencial rival de Tibério ao trono. E sua irmã, Livilla, que, reportadamente, desprezava Cláudio, era esposa do filho de Tibério, Druso, o Jovem.

Não obstante, as fontes relatam que, durante o reinado de Tibério, com o passar do tempo, o público passou a ter uma boa impressão de Cláudio, que começou a receber algum reconhecimento.

Por exemplo, a classe dos Equestres escolheu-o duas vezes para liderar uma delegação para apresentar uma petição ao imperador. O Senado Romano também votou que  Cláudio fosse nomeado como membro especial dos sacerdotes do culto a Augusto, e, mais importante, os senadores pediram a Tibério que Cláudio pudesse participar das sessões do Senado, o que, entretanto foi negado.

Tudo isso mostra que a exclusão de Cláudio da carreira política decorria de decisão direta do trono, e não de alguma incapacidade física ou mental dele ou do repúdio por parte da população.

Em 19 D.C., Germânico morreu em Antioquia, em circunstâncias suspeitas. Historiadores antigos, como Tácito, dão crédito à tese de que ele foi envenenado a mando de Lívia e Tibério.

Na época em que Germânico morreu, já se notava o grande poder que o comandante da Guarda Pretoriana, Lúcio Élio Sejano exercia em Roma. Ele expandira a guarnição dos pretorianos, que foi centralizada em um grande quartel fortificado, adjunto às muralhas da cidade.

O poder de Sejano era tanto que Tibério, certa vez referiu-se a ele como “meu sócio-trabalhador“. E Sejano, de fato, tinha altas pretensões…

Em 20 D.C., Sejano arranjou o casamento de sua filha, Junilla, com o filho de Cláudio, Claudius Drusus, ocasião em que as duas crianças tinham apenas quatro anos de idade. Porém, os planos de Sejano foram por água baixo, porque, poucos dias depois deste arranjo, o menino morreu engasgado com uma pera.

Claudius Drusus era o filho mais velho de Cláudio com sua primeira esposa, Plautia Urgulanilla, filha de Marcus Plautius Silvanus, um grande amigo da imperatriz Lívia e que era de origem etrusca. É bem possível que daí tenha vindo o interesse de Cláudio pela civilização etrusca. Cláudio e Urgulanilla se casaram por volta do ano 9 D.C., quando ele tinha dezoito anos de idade.

Contudo, o primeiro casamento de Cláudio já ficaria marcado pela suspeita de má conduta da esposa, algo que se repetiria nas suas uniões posteriores. Ele, assim, divorciou-se de Urgulanilla, que, cinco meses depois, deu a luz a uma filha, chamada de Cláudia. Suspeitava-se até que a menina fosse filha do liberto Boter. Por isso, Cláudio repudiou também a criança e mandou depositá-la, nua, na soleira da porta da casa onde a ex-mulher fora morar.

Passado esse escândalo, Cláudio deve ter se sentido muito ameaçado quando Druso, o Jovem, o filho e herdeiro oficial de Tibério, morreu, em 14 de setembro de 23 D.C., de uma misteriosa enfermidade, fato que ocorreu pouco tempo após uma séria desavença dele com Sejano. Para alguns historiadores antigos, como Tácito e Dião CássioSejano foi o responsável pela morte de Druso por envenenamento, empresa na qual ele teria sido auxiliado pela esposa do falecido e irmã de Cláudio, Livilla, que teria sido seduzida pelo Prefeito Pretoriano e dele se tornara amante.

Em 25 D.C., Sejano pediu formalmente a Tibério permissão para se casar com Livilla, o que foi recusado pelo velho imperador, que, após exaltar os méritos do subordinado, observou, candidamente, que Sejano, tendo nascido na classe Equestre, estava abaixo da posição social de Livilla, uma integrante da família imperial.

Mesmo assim, no ano seguinte, Tibério foi viver na ilha de Capri, em um auto-exílio voluntário que duraria onze anos, deixando, informalmente, o governo nas mãos de Sejano.

Em 28 D.C., Cláudio casou-se com  Aelia Petina, que era irmã de criação de Sejano, pois havia sido criada pelo pai dele, Lucius Seius Strabo, um dos primeiros comandantes da Guarda Pretoriana, e antecessor do filho neste comando.

O casamento de Cláudio e Aelia Petina certamente deve ter sido por influência de Sejano. Um indício é o fato de que, assim que assim que este foi demitido do cargo e executado por ordens de Tibério, em 31 D.C., Cláudio imediatamente divorciou-se de sua segundo esposa, alegando motivos insignificantes. Mesmo assim, eles tiveram uma filha, Claudia Antonia, que seria criada pela mãe de Cláudio, Antônia, a Jovem.

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(Estátua de Cláudia Antònia, filha de Cláudio.

Antes da queda, contudo, Sejano, que controlava toda informação entre Roma e Capri e agia como virtual governante de Roma, começara a eliminar os seus desafetos e adversários políticos. E seu alvo preferencial foi Agripina, a Velha, a esposa do falecido Germânico, irmão de Cláudio, que foi exilada em 30 D.C. Ela vinha acusando publicamente Tibério e Lívia de serem os mandantes da morte do esposo. O filho de AgripinaNero Julius Caesar Germanicus (não confundir com o futuro imperador Nero) também foi exilado e morreria no ano seguinte.

Já o filho homem mais novo de Agripina e sobrinho de Cláudio, Gaius Caesar, de 18 anos, que tinha o apelido de Calígula, foi poupado, mas passou a morar com Tibério, em Capri.

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(Busto de Agripina, a Velha)

Anos mais tarde, Cláudio mencionaria, em uma ocasião, que, durante esses anos de intrigas palacianas e de terror pela eliminação dos seus parentes, ele costumava exagerar os seus problemas físicos e passou a fingir ser um completo idiota, com o objetivo de parecer inofensivo a todos, tentando manter-se vivo.

Enquanto isso, após a queda de Sejano, como vimos, Cláudio divorciou-se da irmã de criação do Prefeito Pretoriano caído em desgraça e continuou vivendo na obscuridade até a morte de Tibério, que faleceu com 77 anos de idade, em Capri, em 16 de março de 37 D.C..

Dois dias depois, Tibério foi oficialmente sucedido por Calígula, que era sobrinho de Cláudio. E foi Calígula quem deu a Cláudio o primeiro cargo público que ele ocuparia na vida, o de Cônsul Suffectus, em 37 D.C, com 46 anos de idade!

Apesar da nomeação para o cargo de Cônsul, a condição de Cláudio não melhorou muito, pois Calígula logo mostrou-se um monarca cruel e incontrolável, e o seu tio Cláudio era um dos alvos preferidos de suas pilhérias e deboches, inclusive infligidos algumas vezes perante o Senado Romano.

Em 38 D.C., Cláudio casou-se, pela terceira vez, com Valeria Messalina, integrante de uma ilustre família senatorial, e também sua prima em 2º grau, pois ela era neta da irmã de sua mãe, Antônia, a Velha. No ano seguinte, Messalina deu a Cláudio mais uma filha, que recebeu o nome de Claudia Octavia.

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(Cabeça de Claudia Octavia, filha de Cláudio)

No entanto, o reinado de Calígula seria curto. Fartos de seus desmandos e desacatos, alguns senadores e membros da Guarda Pretoriana, estes liderados pelo tribuno Cássio Queréa, urdiram uma conspiração e assassinaram Calígula, durante uns jogos que eram celebrados no Palatino, em 24 de janeiro de 41 D.C.

A conspiração parece, à primeira vista, ter sido motivada primordialmente pelo desejo de algumas pessoas influentes de se livrar de um governante ensandecido, que ameaçava os que estavam próximos do poder, e foi executada por pretorianos que tinham sido humilhados pelo imperador. Se o assassinato de Calígula fazia parte de um plano maior, de restaurar a República, nós não sabemos, mas as fontes relatam que, inicialmente, alguns senadores perceberam essa oportunidade.

Segundo os relatos das fontes, após o assassinato, os guarda-costas germânicos de Calígula entraram em um frenesi de violência e começaram a massacrar quem encontravam pela frente. Cláudio fugiu para o Palácio (ou para a sua casa, a narrativa variam em função da fonte).

Enquanto isso, os guardas pretorianos, também fora de controle, invadiram os aposentos imperiais para saqueá-los. Foi durante essa invasão que um dos guardas, que se chamava Gratus, notou alguém escondido atrás de uma cortina. Ao puxá-la,  ele encontrou Cláudio e arrancou-o do seu esconderijo, ocasião em que perceberam que aquele homem assustado era ninguém menos do que o tio do imperador falecido. Ato contínuo, os soldados aclamaram Cláudio,Princeps“, e o levaram até o quartel da Guarda Pretoriana.

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Grato proclama Cláudio imperador. Tela de Sir Lawrence Alma-Tadema, 1871

Dião Cássio e Flávio Josefo narram que Cláudio, sincera ou fingidamente, tentou recusar a púrpura imperial, mas acabou cedendo à pressão dos guardas para que ele assumisse o trono. Eles também mencionam que chegou a haver alguns senadores, especialmente Sentius Saturninus (que fez no Senado um discurso neste sentido), e, até mesmo, alguns pretorianos, que cogitaram de acabar com o Principado e restaurar a República Romana, tal como ela era nos tempos anteriores aos Césares.

E de fato, consta que o Senado, cogitando enfrentar os partidários de Cláudio, chegou a mobilizar na oportunidade os parcos recursos armados que a cidade de Roma dispunha. Porém, este contingente, composto apenas por alguns soldados, vigiles (espécie de bombeiros), gladiadores e até escravos libertos dos senadores, logo debandou para o lado dos Pretorianos que apoiavam Cláudio.

Esse estado de indefinição entre a aclamação de Cláudio e a restauração da democracia, segundo Suetônio, durou dois dias, ao final dos quais o historiador narra que teria ocorrido a crucial intervenção de uma massa de populares gritando pela elevação de Cláudio, que também teria prometido quinze mil sestércios como donativo aos soldados que o aclamaram imperador.

Realmente, não há como ter certeza se Cláudio foi um mero espectador da conspiração que assassinou Calígula, ou se ele sabia e concordou com o plano. Não obstante, os guardas liderados por Lupus, seguindo ordens de Queréa, após liquidarem Calígula, e, aparentemente, não de imediato, dirigiram-se até o Palácio e executaram a imperatriz Cesônia e a filha de Calígula, de apenas dois anos de idade, que teve a cabeça esmagada contra uma parede. Eu acredito que dificilmente os militares ousariam cometer tal atrocidade sem que eles tenham tido a aprovação de alguém poderoso, quem sabe algum senador disposto a restaurar a República, ou, o que é mais provável, de algum pretendente ao trono…

Assim, aos cinquenta anos de idade, Cláudio foi oficialmente aclamado pelo Senado, com o nome de Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus e ele em seguida perdoou oficialmente todos os senadores e pretorianos que tinham conspirado para assassinar o seu antecessor, bem como aqueles que haviam se manifestado pelo fim do Principado (considera-se que o seu reinado começou no dia da morte de Calígula, 24 de janeiro de 41 D.C., quando ele foi aclamado imperador pelos soldados que o encontraram no esconderijo).

Sintomaticamente, contudo, Queréa e Lupus foram imediatamente executados…

Nota: Cláudio, ao incorporar o nome “Caesar“, apesar de ele não ter sido adotado como herdeiro por Calígula (havia uma linha de adoção formal ligando respectivamente cada um dos imperadores romanos a Júlio César, desde Augusto até Calígula), iniciou a transformação do nome do antigo Ditador em um título imperial.

Poucas semanas depois da aclamação de Cláudio, Messalina deu à luz ao seu primeiro herdeiro, que se chamou Tibério Cláudio Germânico.

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A imperatriz (Messalina, com o filho Britânico em seu colo)

O nascimento do filho foi muito comemorado por Cláudio, que com orgulho passou a levar o bebê para exibi-lo em cerimônias e espetáculos públicos. Moedas foram cunhadas para comemorar o nascimento, com a inscrição “esperança augusta” (spes augusta – vide foto abaixo).

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No ano seguinte, 42 D.C., ocorreu a única revolta séria contra o governo de Cláudio: uma rebelião liderada pelos senadores Lucius Arruntius Camillus Scribonianus, Governador da Dalmácia, e Lucius Annius Vinicianus, um participante do complô que assassinou Calígula, sendo que ambos chegaram a ser cogitados para suceder o finado imperador, durante o impasse que antecedeu a aclamação de Cláudio. Consta que ambos os líderes rebeldes informaram aos senadores em Roma que o motivo da revolta era devolver o poder ao Senado, mas depois de cinco dias, as tropas deles se recusaram a segui-los e eles acabaram cometendo suicídio.

Dião Cássio narra que Cláudio ficou tão assustado quando soube dessa rebelião que ele cogitou abdicar em favor de Camillus, mas acabou afinal recobrando a coragem e se preparou para enfrentar os rebeldes, o que, como visto, acabou não sendo necessário.

Aparentemente tentando trazer o Senado para o seu lado, Cláudio tentou, ao menos no início do reinado, prestigiar esta assembleia. Ele devolveu ao controle dos senadores as provínicias da Macedônia e da Acaia, que tinham sido retiradas da relação de províncias administradas pelo Senado pelo imperador Tibério.

(Nota: Augusto dividiu as províncias romanas em imperiais, cujo governador era apontado pelo imperador entre os integrantes da classe equestre, e senatoriais, cujo governador era apontado pelo Senado dentre os pares).

Outra exemplo disso, foi a postura que Cláudio adotou de se sentar entre os senadores, aguardando a sua vez de falar nos debates. De certa forma, era uma retomada da acepção inicial do termo Princeps (Príncipe), que, originalmente era o senador mais velho que tinha a prerrogativa de falar primeiro, e fora adotada por Augusto para manter as aparências de que a República permanecia).

o obstante, a forma como Cláudio ascendeu ao trono, elevado pelos soldados da Guarda Pretoriana, expôs escancaradamente o que já se percebia desde o início da crise que levou às guerras civis dos Triunviratos, cem anos antes: que a real fonte de poder residia nas forças militares, cabendo ao Senado apenas legitimar o nome que fosse escolhido pelas tropas.

Por isso, Cláudio, logo no início do reinado, saiu a procura de glórias militares que reforçassem a sua posição de líder militar, aumentando o seu prestígio junto às legiões, as quais, caso  lideradas por algum general de renome, poderiam muito bem abraçar a sua “candidatura” e facilmente derrotar os Pretorianos.

E, de fato, no plano militar, o reinado de Cláudio começou bem: O general Gabinius Secundus, comandante das legiões da Germânia Inferior moveu uma guerra bem sucedida contra a tribo germânica dos Chauci, hostil aos romanos desde os tempos em que aqueles bárbaros lutaram ao lado do líder germânico Arminius, na emboscada que resultou no Desastre de Varo, na Batalha de Teutoburgo, em 9 D.C., com a destruição de três legiões romanas e a captura dos seus estandartes-águia (aquila), símbolos que eram religiosamente cultuados pelos romanos e cuja perda em batalha era considerada uma grande humilhação.

Gabinius conseguiu derrotar os Chauci e recuperar a terceira águia das legiões de Varo, que estava em poder deles (As duas outras haviam sido recuperadas por Germânico, irmão de Cláudio, em 16 D.C.). Certamente, este deve ter sido um momento de exultação para Cláudio, não apenas por ter recebido o título de Imperator pela vitória de seu general, mas por ter, de certa forma, igualado o feito de seu falecido irmão, que fora tão admirado pelos romanos.

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(moeda mostrando um estandarte-águia no templo de Marte Vingador, talvez  uma das perdidas por Crasso em Carras contra os Partas, recuperada por Augusto)

Escolheu-se, em seguida, a Britânia como o alvo de uma grande expedição. Esta ilha já havia, quase cem anos antes, sofrido a invasão de Júlio César, que, com apenas o objetivo de fazer propaganda pessoal, ficou ali alguns dias em campanha e retornou para o continente. Vale observar que aquele território era, notadamente,  um objetivo militar muito mais fácil que a Germânia ou a Pártia, adversários muito mais poderosos e aguerridos que, de vez em quando, infligiam pesadas derrotas aos exércitos romanos.

Assim, no verão de 43 D.C., quatro legiões desembarcaram na Britânia, comandadas pelo general Aulus Plautius, e avançaram pela maior parte da ilha. O pretexto da invasão, como em muitas outras guerras travadas pelos Romanos, foi o pedido de auxílio de um rei cliente de Roma, da tribo bretã dos Atrebates, de nome Verica, que havia sido expulso por adversários. O próprio Cláudio participou da campanha, ficando na Britânia por cerca de duas semanas, promovendo, no final, uma grande parada em Camulodunum (atual Colchester, na Inglaterra), onde começou a ser construído um grande templo dedicado ao seu “gênio”.

A Britânia foi anexada e permaneceria uma província romana até o início do século V. A vitória rendeu a Cláudio o título de Britannicus, que foi estendido a seu filho, que passou a se chamar Tiberius Claudius Caesar Britannicus. O menino passaria, então, a ser conhecido como “Britânico“.

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(Cabeça de bronze de uma estátua de Cláudio encontrada no rio Alde, na Inglaterra)

Talvez , pelo motivo de Cláudio perceber que tinha poucos aliados no Senado, ou, ainda, porque ele nunca tinha exercido algum cargo público, exceto o breve consulado extraordinário, ou também devido ao fato da sua pessoa ter sido imposta ao Senado pelos Pretorianos, ou, finalmente, talvez  porque ele possa ter assim concluído dos seus estudos aprofundados sobre o governo de Júlio César, o período das guerras civis e sobre o reinado de Augusto, o principado de Cláudio notabilizou-se pela implantação de um corpo de funcionários do Palácio encarregado da administração de funções governamentais que, anteriormente, eram exercidas pelos magistrados tradicionais da República, cargos ocupados primordialmente por senadores, magistraturas essas que foram em grande parte mantidas pelos seus antecessores no trono com suas funções executivas.

Já os funcionários palacianos eram diretamente indicados pelo imperador, sem mediação do Senado, e, quase sempre, ainda que extremamente preparados, eles eram escravos libertos que pertenciam ao próprio Imperador.

No reinado de Cláudio, esse secretariado foi dividido em escritórios que funcionavam como verdadeiros ministérios. Assim, o liberto Narcissus foi escolhido como Secretário da Correspondência Imperial (cargo importante, pois controlava toda a comunicação oficial do imperador, seja como emitente ou destinatário, redigindo e enviando despachos, comunicados ou correspondências e recebendo petições, denúncias, notícias de fatos,  etc.  O liberto Pallas* foi nomeado Secretário do Tesouro Imperial (fiscus) e o liberto Callistus, um influente ex-escravo de Calígula que havia participado da conspiração para assassiná-lo, foi escolhido para ser Secretário de Justiça, responsável, inicialmente, pelos recursos das decisões dos tribunais que eram dirigidos ao imperador.

Podemos, então, considerar que, embora os seus antecessores já utilizassem os seus libertos como auxiliares, Cláudio foi o primeiro organizador sistemático da burocracia imperial, esboçando uma forma que perduraria por muitos séculos.

*NOTA: Como curiosidade, mas também como uma mostra do prestígio que os funcionários libertos gozaram a partir do governo de Cláudio, observamos que o irmão de Pallas, Marcus Antonius Felix, foi nomeado para ser o Procurador da Judeia, um cargo formalmente reservado aos integrantes da classe Equestre. Foi este Felix que procedeu ao julgamento do apóstolo Paulo, em Cesareia, sendo nominalmente citado em Atos, 24.

Não surpreende, assim, que Cláudio tenha sido visto com antipatia  pelos Senadores, que, além de deixarem de ter voz em setores importantes da administração pública, ainda tinham que tratar em pé de igualdade com ex-escravos, o que afetava o sabidamente delicado senso de dignidade da classe senatorial… E essa antipatia da classe senatorial de Roma por Cláudio transborda abundante nas narrativas do seu governo, feitas por historiadores oriundos do Senado, tais como TácitoDião Cássio, ou então equestres ligados aos senadores, como Suetônio. Além disso, como resultado do grande poder que eles agora detinham, todos esses secretários libertos tornaram-se imensamente ricos, rivalizando em fortuna com os próprios senadores…

Claramente, a tentativa de aproximação que ele tentou no início do governo falhou e, diante desse quadro, Cláudio acabaria exilando ou mandando executar vários senadores, embora não se possa dizer que todos as citados tenham de fato conspirado para derrubá-lo – e alguns dos supostos conspiradores talvez nem tenham sido de fato executados por ordens dele. Não obstante, consta que, durante o seu reinado, Cláudio mandou executar 35 senadores e centenas de membros da classe Equestre.

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Por exemplo, em 46 D.C., o senador Lucius Asinius Gallus foi acusado de conspirar contra Cláudio e foi exilado, sendo que o imperador chegou até a ser elogiado pela moderação quanto à pena aplicada. Em 47 D.C., o senador de antiga origem gaulesa, Decimus Valerius Asiaticus, por sua vez, foi alvo de acusações vagas de traição (e também de cometer adultério com uma aristocrata) e ele foi julgado, nos aposentos do Palácio (in camera), em julgamento fechado, pelo imperador e seu conselho privado, e não perante um tribunal público, um procedimento que se tornou costumeiro durante o principado de Cláudio. Segundo uma fonte, o verdadeiro motivo desta inquisição foi a cobiça que a imperatriz Messalina nutria pelos belos Jardins de Lúculo, em Roma,  que pertenciam a Asiaticus, que acabou compelido a se suicidar. Outra fonte alude ao fato de Asiaticus possivelmente ter participado da conspiração contra Calígula e ter insinuado a pretensão de suceder o falecido imperador. De qualquer forma, existiu algum pretexto sério, verdadeiro ou fictício, para Cláudio não gostar de Asiaticus, já que o imperador, no ano seguinte, fez questão de se referir a ele como “um gaulês bandido e patife cujo nome eu não devo sequer mencionar neste discurso“, em uma sessão do Senado cujos debates foram preservados na Tábua de Lyon,  à qual mais tarde aludiremos.

Outro senador executado foi Gnaeus Pompeius Magnus, um descendente do Triúnviro Pompeu, o Grande, e que era casado com Claudia Antonia, a filha mais velha do próprio Cláudio, que teria participado de uma conspiração contra o imperador.

Muitas dessas perseguições são atribuídas às maquinações da imperatriz Messalina, acerca de quem há relatos de que ela se aproveitava de uma certa credulidade e ingenuidade que Cláudio repetidamente demonstrou ter em relação a todas as mulheres que ele teve em sua vida.

Aliás, a se acreditar nos relatos dos historiadores antigos, Messalina seria uma verdadeira ninfomaníaca, que não apenas teria tido inúmeros amantes enquanto esteve casada com Cláudio, mas, entre outras coisas, teria chegado até a participar de uma competição contra uma prostituta, em que aquela que tivesse mais parceiros sexuais na mesma noite ganharia (sendo que Messalina teria ganho a aposta, com um total de 25 parceiros, um caso citado por Plínio, o Velho, em sua “História Natural”)…Ela teria, ainda, segundo o poeta Juvenal, trabalhado, enquanto imperatriz, em um bordel, sob o pseudônimo de “Loba”.

Os historiadores antigos afirmam que Cláudio desconhecia as infidelidades de Messalina, seja por ele se dedicar às questões administrativas e jurídicas do Império, seja por confiar demais na esposa, muito embora as fofocas sobre o assunto circulassem pela cidade de Roma, até o dia em que  seu liberto Narcissus lhe contou que Messalina, enquanto Cláudio estava em Óstia, organizou uma festa no Palácio, e, durante a mesma, ela teria se casado, em uma cerimônia, real ou encenada, com seu amante Gaius Silius, um belo jovem que tinha sido designado para ser Cônsul em 48 D.C.. Poderia até ser uma brincadeira infeliz, mas, para piorar, a versão que chegou a Cláudio é a de que o casamento fazia parte de um plano de Messalina e Silius para assassiná-lo.

Messalina acabou sendo executada em 48 D.C., apesar de constar que Cláudio, cujo coração já estava amolecendo em favor da esposa, não se resolvia a dar a ordem expressa, tendo a decisão fatal sido ordenada por Narcissus, à revelia do imperador.

Em 47 D.C., Cláudio assumiu o cargo de Censor, que tinha sido relegado a uma certa insignificância, junto com Lucius Vitellius, um dos poucos amigos de sua infância, pois conviveram juntos na casa de sua mãe, Antônia, a Jovem, a volta de quem havia um círculo de nobres orientais, devido ao fato dela ter herdado do seu pai, Marco Antônio, as conexões políticas e numerosas propriedades no Oriente. Outra amizade desses tempos de juventude era o príncipe judeu conhecido como Herodes Agripa, que ajudou Cláudio durante o impasse da sucessão de Calígula.

NOTA: Vitellius havia sido Cônsul e governador da Síria durante o final do reinado de Tibério. Foi ele, inclusive quem demitiu Pôncio Pilatos do cargo de Prefeito da Judeia. Durante o reinado de Cláudio, ele seria Cônsul outras duas vezes, um fato incomum para quem não fosse da família imperial, durante o Império Romano). Ele era pai do futuro imperador Vitélio.

Talvez como um agrado a Herodes Agripa, Cláudio deu ao amigo o título de Rei da Judeia, restaurado como reino-cliente de Roma, dando-lhe o governo do respectivo território, que tinha sido incorporado ao Império Romano (Herodes já governava a Galileia). Cláudio também reconheceu o direito de liberdade de culto dos Judeus no Império Romano. Um exemplo dessa política está registrado na “Carta aos Alexandrinos”, onde Cláudio ordena aos habitantes gregos de Alexandria que respeitem os direitos da grande colônia judaica que existia na cidade, fonte frequente de diversos conflitos étnicos e religiosos.

Porém, quando Herodes Agripa morreu, em 44 D.C., todo o seu reino foi reincorporado ao Império Romano.  Nessa mesmo período, outros reinos-clientes de Roma foram anexados formalmente, tais como a Trácia, Noricum, Panfília e a Lícia, que se tornaram províncias. A Mauritânia, cujo processo de anexação fora iniciado por Calígula, teve a anexação concluída sob Cláudio, em 44 D.C., cujas tropas derrotaram os últimos focos de resistência armada. Essas medidas estão de acordo com a tônica geral de seu reinado em direção à centralização de poder e expansão da burocracia imperial.

Seguindo a linha geral de seu governo, Cláudio utilizou o cargo de Censor para intervir na composição das classes senatorial e equestre, pois o Censor tinha o poder de verificar os requisitos para a inscrição dos cidadãos nas respectivas listas. Assim, Cláudio mandou excluir o nome de vários senadores e equestres cuja renda não mais atendia o requisito mínimo estipulado pela lei para integrar a classe.

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Constatando que havia muitos assentos vagos no Senado, devido a décadas de execuções e proscrições pelos imperadores que o antecederam, além da diminuição do número de famílias da classe senatorial, Cláudio, seguindo o exemplo de Júlio César, antepassado que ele muito admirava, e aproveitando o cargo de Censor, mandou arrolar novas famílias nas listas de patrícios e abriu o Senado para nobres e pessoas ilustres nascidas nas províncias, especialmente da Gália,  fato que ficou registrado na chamada Tábua de Lyon, que contém a interessante transcrição do discurso do imperador na sessão do Senado Romano, ocorrida em 48 D.C.,  na qual Cláudio propõe a admissão ao Senado de homens ilustres de origem gaulesa, habitantes da Gália Lugdunense (centrada em Lugdunum, atual Lyon, cidade natal do próprio Cláudio).

A Tábua de Lyon, em bronze, que foi encontrada em um vinhedo nos arredores de Lyon, provavelmente foi feita a mando desses mesmos senadores gauleses agradecidos, beneficiados pela aprovação da proposta de Cláudio. Além de confirmar o relato desse fato histórico, citado por Tácito, a Tábua de Lyon contém, tudo indica, a transcrição literal do discurso do imperador no Senado, inclusive transcrevendo as interrupções questionadoras de alguns senadores contrários à medida. E o discurso de Cláudio, cheio de digressões históricas e certo pedantismo, combina perfeitamente com a descrição de sua personalidade feita pelos historiadores antigos.

Tanto isso é verdade, que a sessão preservada na Tábua de Lyon, com notável fidelidade, transcreve até o apelo de um senador para que Cláudio fosse direto ao ponto! (vide:  https://sourcebooks.fordham.edu/ancient/48claudius.asp)

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( A Tábua de Lyon)

Neste mesmo ano de 48 D.C., realizou-se por ordens de Cláudio um grande Censo da população de todo Império Romano, que contou o número de 5.984.072 cidadãos romanos, ou seja, homens livres que gozavam do direito de cidadania romana, excluindo, portanto, mulheres, crianças, escravos e habitantes que não tinham cidadania. Isso aponta para uma população que se estima estivesse entre 50 e 70 milhões de habitantes.

Após a execução de Messalina, os seus libertos, visando cada um a aumentar a sua influência sobre o imperador, se revezaram em apresentar candidatas a se tornarem a nova imperatriz, sendo que Lollia Paulina, que havia sido esposa de Calígula, e a ex-esposa de Cláudio, Aelia Petina, chegaram a ser cogitadas.

A pretendente cuja “candidatura” era defendida pelo secretário Pallas acabou sendo a escolhida: Agripina, A Jovem, que, sendo filha de Germânico, era nada menos do que a sobrinha do próprio Cláudio. Além disso, Agripina também era irmã do antecessor dele, Calígula.

Segundo as leis romanas, essa união era considerada incesto, mas, em tempos de Principado, obviamente que mudar a lei não foi difícil…

Há relatos de que Agripina teria seduzido o tio Cláudio, mas, provavelmente, o que pesou mesmo na sua escolha foram considerações políticas: Cláudio já estava com 58 anos de idade, sendo que seu, Britânico, tinha apenas sete. Caso Cláudio, que nunca havia sido uma pessoa  muito saudável, morresse, ou ficasse incapacitado, era grande o perigo de que a dinastia dos Júlio-Cláudios terminasse, pois Britânico ainda estava longe de despir a toga pretexta e tornar-se maior de idade, quando poderia assumir cargos públicos.

O Principado ainda estava nas primeiras décadas e, ainda que apenas no aspecto formal, o imperador era considerado o primeiro-magistrado. A transição legal e cultural para uma monarquia ainda não havia sido feita, e a sucessão de Calígula mostrara que ainda havia anseios republicanos no Senado…

Assim, Cláudio precisava de um arranjo que lhe permitisse garantir, na sua falta, a continuidade da dinastia no governo, esperançosamente, até que seu filho estivesse apto a governar. Esta era, inclusive, uma situação pela qual Augusto já tinha passado (Com efeito, já idoso, e após o falecimento de vários herdeiros de sangue, sobrinhos e netos, tais como Marcelo, Lúcio e Caio César, ele havia sido obrigado a adotar Tibério, filho de sua esposa Lívia).

Em 1º de janeiro de 49 D.C., Cláudio e Agripina se casaram. No ano seguinte, em 25 de fevereiro de 50 D.C., Cláudio a adotou o filho dela, Lucius Domitius Ahenobarbus, que passou a se chamar “Nero Claudius Caesar Drusus Germanicus” (Nero).

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(Busto de Agripina, a Jovem)

Ainda em 50 D.C.., Agripina conseguiu que Cláudio persuadisse o Senado a dar-lhe o título de Augusta, honraria que somente Lívia Drusila, a esposa de augusto, havia recebido em vida, e, mesmo assim, somente após a morte do marido.

Todos logo perceberam o tamanho da influência de Agripina sobre Cláudio e, pouco a pouco, o nome dela começou  a aparecer em inscrições em monumentos, moedas e documentos. Consta que ela recebia embaixadores estrangeiros sentada em seu próprio tribunal e vestia um manto militar com bordados de ouro em cerimônias oficiais. O prestígio dela era tanto que o povoado em que ela nasceu, na Germânia, às margens do rio Reno, onde seu pai estava aquartelado, recebeu, em 50 D.C., o nome de Colonia Claudia Ara Agrippinensium, que é a atual cidade de Colônia, na Alemanha.

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(Reconstrução da Colonia Claudia Ara Agrippinensium – atual Colônia, no século I D.C.)

Em 51 D.C., Nero vestiu a toga virilis, alguns meses antes da idade costumeira, pouco antes de completar 14 anos. No mesmo ano ele recebeu o título de Princeps Iuventutis, um título que surgira no reinado de Augusto para honrar os jovens considerados como potenciais herdeiros do trono.

Para a surpresa geral, parecia que Nero estava tomando a preferência de Cláudio para ser o seu sucessor. E Agripina começou a eliminar todos que representassem uma ameaça à trajetória de seu filho rumo ao trono. Em 51 D.C, ela ordenou  a execução de Sosibius, o tutor de Britânico, que andava reclamando da preferência que vinha sendo dada ao filho de Agripina.

Em 9 de junho de 53 D.C, certamente com a intermediação de Agripina, Cláudio concordou com o casamento entre Nero e sua filha, Claudia Octavia.

Britânico agora já tinha doze anos e o motivo de Cláudio continuar tomando medidas que favoreciam a posição de seu enteado Nero como herdeiro preferido, em detrimento do próprio filho natural, continua sendo algo que intriga os historiadores.

Porém, a maioria das fontes narra que, nos meses que se seguiram, Cláudio, um tanto descuidadamente, começou a fazer comentários, aqui e ali, lamentando o fato dele ter casado com Agripina e adotado Nero.

Em meados de 54 D.C., faltava menos de um ano para Britânico atingir a idade em que poderia vestir a toga virilis e ser considerado adulto. Suetônio cita que Cláudio mencionou publicamente em algum evento a intenção de antecipar a cerimônia,  devido à altura de Britânico, chegando a dizer, na ocasião:

Para que o Povo de Roma finalmente possa ter um genuíno César“.

Era uma clara advertência de que ele não considerava mais Nero como sucessor. Agora, o ano  de 54 D.C. entrava em seus últimos meses e, pela primeira vez, em um discurso no Senado, Cláudio se referiu a Nero e Britânico como iguais em precedência.

Em 13 de outubro de 54 D.C., pela manhã, foi anunciado que Cláudio morreu, após um banquete. Nas fontes antigas há um quase consenso de que ele foi envenenado a mando de Agripina, ou até mesmo por ela pessoalmente. Agripina, teria se aproveitado do fato do onipresente  Narcissus, partidário de Britânico,  estar descansando em sua villa na Campânia, e contratou a célebre envenenadora Locusta, para preparar o veneno, o qual teria sido administrado em um prato de cogumelos, iguaria muito apreciada por Cláudio. Os detalhes variam. Segundo uma versão, Cláudio ao comer os cogumelos, acabou vomitando, e uma segunda dose lhe foi administrada, agonizando durante um tempo, e, após ele ter morrido, o seu falecimento ainda foi escondido por um curto período de tempo, durante o qual todos preparativos necessários foram feitos para assegurar a sucessão em favor de Nero, inclusive a destruição do último testamento de Cláudio, no qual ele teria reconhecido Britânico como sucessor.

A aclamação de Nero foi tranquila: O Senado sabidamente odiava Cláudio e, ainda em 51 D.C., Agripina  havia indicado o nome de Sextus Afranius Burrus (Burro) para ser o novo Prefeito da Guarda Pretoriana, e com cuja lealdade ela pôde contar na hora da sucessão.

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(Relevo de Agripina coroando seu filho Nero. A cena não deixa margem a dúvidas…)

Nero fez a eulogia (oração fúnebre) em honra de Cláudio, que depois foi “deificado” pelo Senado, isto é, após a sua morte, decretou-se que ele tinha sido elevado ao panteão dos deuses a serem cultuados pelos romanos (apotheosis).

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(Camafeu do século I, retratando a apoteose de Cláudio. Uma águia o leva até os céus)

A deificação, ou apoteose, de Cláudio, embora oficial, foi objeto de sátiras e pilhérias pelos integrantes da classe senatorial. Um deles, o filósofo e escritor Sêneca, o Jovem, escreveu uma célebre sátira chamada de “Apocolocyntosis” (literalmente, “aboborificação”, processo no qual Cláudio, na narrativa, tranformaria-se em uma abóbora após a morte), ridicularizando a apoteose do imperador. Na obra, a deificação dele é  julgada em um tribunal do deuses no Monte Olimpo, e o próprio imperador falecido Augusto discursa aos deuses enumerando os defeitos físicos, as idiossincrasias, gafes, assassinatos de Cláudio, cuja sentença é ser enviado a penar nas profundezas do Hades, condenado pela eternidade a trabalhar como funcionário de um tribunal, e, ironicamente, sendo dado como escravo a um liberto…

O destino no Hades ao qual Cláudio foi condenado na Apocolocyntosis é claramente uma crítica mordaz a uma das atividades a que o imperador mais se dedicou durante o reinado: os processos judiciários (Ele, de fato, costumava comparecer quase que diariamente ao tribunal, julgando processos). Além disso, é uma crítica à preferência que ele deu aos libertos durante o seu governo.

Embora Cláudio fosse diligente e dedicado no exame da maior parte dos casos judiciais que lhe eram submetidos, ele, às vezes, costumava desprezar os princípios processuais estabelecidos no Direito Romano, proferindo sentenças sem ouvir a parte contrária, violando o princípio do contraditório, ou, como já apontamos, realizando sessões fechadas no palácio, o que era contrário ao princípio da publicidade dos julgamentos, muito caro aos Romanos.

Por exemplo, as fontes citam que Cláudio, certa vez, agiu como um verdadeiro rei Salomão, da Bíblia judaica, julgando um processo no qual uma mãe se negava a reconhecer o filho, decretando que ela se casasse com o rapaz, para forçá-la a confessar a maternidade.

E a estupefação dos litigantes com essas bizarrices de Cláudio era tanta, que Suetônio narra, observando que o fato era de conhecimento geral, um caso em que um réu, falsamente acusado de conduta imprópria contra uma mulher, ao ver que Cláudio decidira, contrariamente à praxe processual romana, ouvir algumas prostitutas como testemunhas, exasperou-se e  atirou a tábua e o estilete de escrita em cima do imperador, conseguindo até ferir a bochecha de Cláudio!

Outra faceta de Cláudio era o amor que ele tinha pelos espetáculos públicos, especialmente os combates de gladiadores e contra feras. Durante seu reinado ele promovou várias exibições, culminando com um combate naval simulado, no qual Suetônio registrou que os combatentes saudaram Cláudio com a frase: “Ave,  Imperador, Aqueles que irão morrer te saúdam“. É a única vez que a História registra essa frase, que não sabemos se ela era padrão nos jogos de gladiadores ou se somente foi utilizada naquela ocasião (Cássio Dião também a menciona no mesmo episódio, mas a narrativa deve ter sido obtida na obra de Suetônio). A nota satírica, frequentemente presente nas estórias sobre Cláudio, marcando um tom depreciativo sobre a sua suposta estupidez, é que, àquela saudação, o imperador teria respondido: “Ou não…!“, ao que os combatentes entenderam, induzidos a erro, que eles tinham sido perdoados e assim se recusaram, inicialmente, a lutar, para desespero do próprio Cláudio, preocupado com a reação dos espectadores frustrados.

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O amor pelos jogos de gladiadores e combates na arena parece combinar com uma outra faceta sombria da personalidade de Cláudio: a curiosidade excessiva, ou mesmo o prazer mórbido, que ele tinha de assistir pessoalmente as execuções de condenados, à tortura de testemunhas ou à morte dos gladiadores.

A política religiosa de Cláudio caracterizou-se pela tentativa de revitalizar as tradições e reviver aspectos antigos dos cultos romanos, como era de se esperar de um amante da história antiga e dos etruscos. Um episódio interessante que ocorreu em seu governo foi a expulsão dos judeus, narrada por Suetônio, que teria sido motivada por tumultos causados “por instigação de Chrestus“.

Muitos especialistas acreditam que essa passagem reflete a chegada dos primeiros pregadores cristãos a Roma, que entraram em conflito com a numerosa comunidade judaica lá instalada, ao pregarem o Evangelho. Obviamente que os romanos ainda não deviam distinguir os cristãos dos judeus ( e  note-se que essa divisão ainda não estava pacífica entre os próprios cristãos), e a expulsão não parece ter tido motivos religiosos, mas de manutenção da ordem pública. Não deve, contudo, ter sido uma expulsão em massa. Acredita-se que o episódio narrado por Suetônio é o mesmo que aparece em Atos, 18, 2., quando São Paulo encontra em Corinto um judeu chamado Aquila, que tinha sido expulso de Roma por Cláudio. Estima-se que essa expulsão narrada por Suetônio e em Atos tenha ocorrido por volta de 50 D.C.

Um campo onde Cláudio se destacou como imperador foi no das obras publicas, construindo várias de grande utilidade, como por exemplo dois importantes aquedutos: o Aqua Claudia, cuja construção havia sido iniciada por Caligula, e o Anio Novus, completados em 52 D.C.. Cláudio financiou a construção de ambos com recursos oriundos do tesouro privado do imperador (fiscus).

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(A Porta Maggiore, era uma porta monumental no trajeto  da junção dos aquedutos da Aqua Claudia e da Aqua Novis, construída por Cláudio)

Fora de Roma, no reinado de Cláudio foram construídos um canal ligando o Reno ao mar, um canal ligando o rio Tibre a Portus, o porto marítimo que ele mandou construir ao norte de Óstia. Além de possibilitar o aumento do volume de transporte de grãos e outras mercadorias para Roma, essa obra útil reduziu as enchentes do rio Tibre.

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Ao menos como construtor de grandes obras de utilidade pública, o sempre crítico Suetônio fez justiça a Cláudio, reconhecendo:

“Suas obras públicas foram mais grandiosas e necessárias do que numerosas”.

Conclusão

Assim, o imperador Cláudio é uma figura ambígua para a História de Roma. Se formos considerar apenas a opinião dos Senadores, classe de onde saíram aqueles que registraram o seu reinado na História, ele teria sido um idiota que lhes foi imposto pela guarda pretoriana, e, durante o seu reinado, mostrou-se um governante  tirânico, porém medroso e manipulável pelas suas esposas e seus libertos. Porém, mesmos nesses textos críticos, transparece que Cláudio era um monarca dedicado ao ofício de governar e que ele tomou uma série de medidas úteis e sensatas.

A figura de Cláudio é muito bem retratada no best-sellerEu, Claudius, Imperador“, do escritor inglês Robert Graves, que foi escrito como se fosse a autobiografia perdida do imperador.

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A BATALHA DE ARAUSIO – A PIOR DERROTA MILITAR SOFRIDA PELOS ROMANOS

Em 06 de outubro de 105 A.C., em um local situado entre o povoado celta de Arausio (onde mais tarde seria fundada uma cidade romana com o mesmo nome – a atual Orange, no sul da França) e o Rio Ródano, dois exércitos consulares romanos, incluindo tropas auxiliares, foram fragorosamente derrotados pelas tribos bárbaras dos Cimbros e Teutões.

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(A invasão dos Cimbros e Teutóes e as batalhas travadas contra os Romanos, mapa de Pethrus )

Quem eram os Cimbros e Teutões?

Segundo as fontes romanas (Estrabão e Tácito), o povo dos Cimbros, que era liderado pelo rei Boiorix, juntamente com os Teutões, sob o comando do rei Teutobod, teria migrado da pení­nsula da Jutlândia, situada na atual Dinamarca, para o sul, em busca de um novo lar, movimento que provocou, tal como se veria séculos mais tarde, o deslocamento de outros povos, como por exemplo, os Helvécios, que entraram em conflito com os romanos.

Alguns estudiosos acreditam que o motivo da migração dos Cimbros e dos Teutões foi o aumento do nível do mar na região da Jutlândia, que teria ocorrido na mesma época, o que acabou inundando as terras ocupadas pelas duas tribos (esse motivo é relatado pelo historiador antigo Floro).

Há, todavia, certa controvérsia acerca da etnicidade dessas duas tribos:

Para as fontes antigas e vários estudiosos modernos, elas seriam tribos germânicas. No entanto, ao menos quanto aos Cimbros, o nome da tribo e dos personagens dá substrato à tese de que eles poderiam ser um povo celta. Com efeito, Boiorix, o nome que consta nas fontes como sendo o do rei deles, parece ser relacionado com a palavra celta ‘‘boii” (que por sua vez, está na origem da nossa palavra “boi”, com o mesmo significado de bovino). E, de fato, o historiador antigo Polí­bio relata que a riqueza dos celtas costumava ser contada em gado e ouro.

Para outros estudiosos, a palavra boii também significaria “guerreiro” na língua proto-indo-européia, vocábulo que estaria na origem de nomes como Boêmia ( Bohemia = Terra dos Boii), Beócia e Baviera (Bayern).

Por outro lado, as fontes atestam que, na verdade, os Cimbros e Teutões entraram em conflito com os Boii, quando eles invadiram seu território situado no norte da Itália, durante a migração que resultou na guerra contra os Romanos, o que parece fortalecer a ideia de que eles seriam mesmo germânicos.

Para tornar mais instigante essa nossa breve digressão acerca da origem dos Cimbros e Teutões, a Arqueologia obteve um objeto que também permite conclusões variadas: o chamado “Caldeirão de Gundestrup“, artefato que foi encontrado exatamente na Dinamarca, de onde as fontes antigas relatam que os Cimbros e Teutões seriam originários. Este magní­fico caldeirão de prata, que é datado aproximadamente do mesmo perí­odo da migração dos Cimbros e Teutões, ostenta motivos tí­picos da arte celta, mas foi produzido com técnicas de ourivesaria (trabalho em metal com ouro e prata) característicos da Trácia. Assim, já se levantou até a hipótese do Caldeirão de Gundestrup ser o produto de saque ou do comércio dos povos da Jutlândia com a tribo celta dos Scordisci, os quais teriam encomendado o caldeirão aos Trácios, com quem aqueles tinham relações.

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Seja como for, o mais provável é que os Cimbros e os Teutões devem ter começado a migrar da Jutlândia na direção do sudeste europeu na penúltima década do século II A.C e, após diversas lutas com tribos celtas, eles chegaram até Noricum, uma região celta que, séculos mais tarde seria incorporada pelo Império Romano e que abrange parte das atuais Áustria e Eslovênia, sendo cortada pelo rio Danúbio (vale notar que esse seria um caminho parecido ao que seria percorrido pelas futuras invasões germânicas, 350 anos depois).

Em Noricum, os Cimbros e Teutões invadiram as terras ocupadas pelos Taurisci, um grupo de tribos celtas aliadas dos Romanos, em 113 A.C. Quando o cônsul Cneu Papí­rio Carbo chegou com seu exército para auxiliar os aliados celtas , ele intimou os invasores germânicos a abandonarem o território dos Taurisci, sendo, inicialmente, obedecido.

Todavia, Carbo resolveu emboscar os bárbaros em Noreia, entre as atuais Eslovênia e Áustria, mas eles perceberam a tempo a armadilha e conseguiram derrotar as forças romanas, na chamada Batalha de Noreia. Carbo e os remanescentes das tropas que tinham sobrevivido à derrota conseguiram escapar, mas o comandante foi destituído do cargo pelo Senado e ele acabou se suicidando para não ter que suportar essa desonra.

Roma, então, preparou-se para o pior…Porém, ao invés de invadir a Itália, a horda germânica preferiu seguir em direção à Gália, no Oeste.

Em 109 A.C, os Cimbros e Teutões, seja porque a resistência encontrada na Gália foi grande, seja porque eles esgotaram os recursos daquela região, pediram permissão para se assentarem em território romano, o que lhes foi negado pelo Senado. Os bárbaros, então, invadiram a proví­ncia romana da Gália Narbonense.

O cônsul Marco Júlio Silano partiu para interceptar os Cimbros e os Teutões, e, novamente, os bárbaros derrotaram os romanos. O Cônsul conseguiu escapar com vida. As fontes dão poucos detalhes, mas parece que as sucessivas derrotas dos romanos colocaram em risco a própria província da Gália Narbonense, atiçando as tribos gaulesas já submetidas pelos romanos a se rebelarem. Inclusive a tribo helvética dos Tigurini, que se aliara aos Cimbros e Teutões, venceu completamente as legiões do cônsul Lúcio Cássio Longino, na Batalha de Burdigala (atual Bordeaux), em 107 A.C.. O general Caio Popí­lio Lenas conseguiu escapar com sua legião, mas teve que abandonar todo o seu equipamento.

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Nessa época os romanos estavam envolvidos em uma cruenta guerra contra o rei da Numí­dia, Juba, situação que levou o Senado a nomear como cônsul o militar mais respeitado de Roma, o general Caio Mário, muito embora ele fosse da classe equestre e viesse de uma família da qual nenhum antepassado jamais tinha sido senador, sendo, assim, considerado um “homem novo” (novus homo).

A derrota na Batalha de Burdigala obrigou, em 106 A.C., o Senado a mandar mais um exército para a Gália, para prevenir a revolta da cidade de Tolosa (atual Toulouse), sob o comando do cônsul Quinto Serví­lio Cépio. Quando capturou Tolosa, Cépio saqueou os altares gauleses que guardavam o célebre “Ouro de Tolosa“, que seria proveniente do saque que os gauleses promoveram no santuário do deus Apolo, em Delfos, na Grécia. Entretanto, o ouro capturado desapareceu enquanto estava sendo transportado para Massí­lia (Marselha) e as suspeitas de seu desvio recaí­ram sobre Cépio.

Mesmo assim, no ano seguinte, para lidar com a ameaça dos Cimbros e Teutões, que agora estavam se movendo em direção sudeste, o Senado prorrogou o comando de Cépio para a Gália, agora nomeando-o procônsul, e a ele se juntou o cônsul Cneu Mallius Máximo, que também era um “homem novo”.

Em tese, Cneu Máximo, como cônsul, ocuparia um posto superior ao de Cépio. Este, porém, sendo de famí­lia nobre, não gostou nada do fato, e as fontes relatam que esta foi a principal razão de ambos não terem cooperado em face da mais séria ameaça que pairava sobre Roma desde o fim da Segunda Guerra Púnica. Além disso, consta que Máximo não tinha muita experiência militar. Por esta razão, quando Cneu Máximo acampou seu exército em um dos lados do rio Ródano, próximo a Arausio, Cépio decidiu acampar na margem oposta…mesmo tendo recebido chamados para atravessar o rio e se juntar ao colega…

Quando os Cimbros e Teutões se aproximaram do rio, um destacamento romano de cavalaria, sob o comando do general Marco Aurélio Escauro, encontrou a vanguarda bárbara, mas foi completamente derrotado. Escauro, capturado, foi levado à presença do rei Boiorix. Inabalável, o romano exortou Boiorix a dar meia-volta e partir, a fim de que os bárbaros não fossem destruídos. Escauro acabou sendo morto e queimado vivo em uma gaiola de madeira.

Boiorix, agora, podia avistar os dois exércitos acampados, um de cada lado do rio, sendo que Máximo estava do mesmo lado que os Cimbros. Segundo as fontes antigas, o total de bárbaros seria de 200 mil, mas devemos notar que se tratava de um povo em migração, incluindo, assim, homens, mulheres e crianças. Assim, o número de guerreiros deveria ser, no máximo, de 80 mil, mais provavelmente de 60 mil.

Em 6 de outubro de 105 A.C., Cépio, não querendo dividir a glória da vitória com Máximo, decidiu atravessar o rio e atacar sozinho o acampamento dos Cimbros, Porém, valendo-se do fato deles estarem acampados em terreno mais favorável, os bárbaros conseguiram aniquilar completamente o exército do Procônsul, que conseguiu fugir. Mais tarde, ele sofreria a pena de exí­lio por isso.

Agora, Máximo teria que enfrentar o ataque dos Cimbros, em inferioridade numérica e, pior, com o rio Ródano às suas costas. Os soldados do exército romano remanescente, porém, quando viram a enorme massa de bárbaros, entraram em pânico e muitos tentaram fugir nadando, ma terminaram por morrer afogados.

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A derrota foi um massacre e as mortes romanas são estimadas pelas fontes antigas em 80 mil. Alguns acreditam que, se forem contadas as baixas entre os auxiliares e os civis que costumeiramente acompanhavam as legiões, as perdas romanas teriam sido de 120 mil pessoas! Portanto, em números, a Batalha de Arausio teria sido a pior derrota sofrida pelos romanos em toda a sua história. Aliás, o número de mortos romanos na Batalha de Arausio seguramente é um dos maiores já sofridos em um único dia por um exército em qualquer conflito, em todos os tempos e lugares.

Importante observar que o número de mortos na Batalha de Arausio é mencionado por Tito Lívio com base no relato do obscuro historiador Valerius Antius, de quem o próprio Lívio desconfiava, considerando que às vezes ele inflaria os números de combatentes e mortos nos eventos que relatou. Portanto, devemos ler esses números com um grão de sal…

Dada a magnitude da derrota e do perigo, o Senado Romano resolveu abandonar qualquer preciosismo legal e resolveu conceder a Mário o privilégio de obter um consulado apenas três anos após o seu primeiro, o que era vedado por lei. Além disso, durante a Guerra Contra os Cimbros e Teutões, o Senado, de maneira também sem precedentes, nomeou Mário como “Cônsul Sênior“, por mais quatro anos sucessivos.

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Mário acabaria derrotando definitivamente os Cimbros e Teutões, em 102 A.C., na Batalha de Aqua Sextia e em 101 A.C, na Batalha de Vercellae. As pesadas baixas sofridas pelos romanos contra esses bárbaros, com a morte de milhares de aristocratas e cidadãos proprietários de terras, contribuí­ram para que Mário implementasse as suas cruciais reformas militares, as quais mudariam a composição, a estrutura e a organização do Exército Romano para sempre, possibilitando a criação de um exército profissional baseado na classe dos proletários.

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(A Derrota dos Cimbros, tela de Alexandre Gabriel Décamps )

E a reforma militar de Mário é uma das causas fundamentais de todo o processo que resultaria no fim da República e no advento do Império.

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A BATALHA DE FÍLIPOS

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Entre 3 e 23 de outubro de 42 A.C., foi travada a Batalha de Fí­lipos, na Macedônia, que terminou com a vitória das tropas lideradas pelos triúnviros Marco Antônio e Otaviano contra o exército leal aos conspiradores e assassinos de Júlio César, Bruto e Cássio, que se suicidaram, um durante e outro após os combates, que se deram em duas fases.

ANTECEDENTES

Marcus Junius Brutus (o Bruto do “Até tu, Brutus“) e Gaius Cassius Longinus (Cássio) foram os líderes da conspiração de senadores conservadores que, em 15 de março de 44 A.C., assassinou César, que havia sido nomeado Ditador Perpétuo pelo Senado Romano no mês anterior. Essa conspiração teve amplo apoio entre os senadores integrantes da facção dos Optimates,, que comungavam da opinião de que César tencionava acabar com a República e tornar-se Rei de Roma. Por isso, os conspiradores acreditavam que teriam, senão o apoio popular, ao menos a sua indiferença ao que eles denominaram o “tiranicí­dio” de César, um fato que além de não ser considerado crime de acordo com a importada cultura polí­tica das polis gregas, seria um ato obrigatório para todos cidadãos amantes da liberdade.

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(Quadro La Mort de César by Jean Léon Gérôme, c. 1859–1867)

A plebe romana, contudo, há muito tempo estava descrente do tipo de “democracia” existente na República Romana, na qual o acesso às magistraturas (cargos públicos) dependia, na prática, de nascimento ilustre e, obrigatoriamente, de muito, mas muito dinheiro. Assim, ao contrário da reação esperada pelos conspiradores, a massa indignou-se com o assassinato de seu amado ditador. Ficariam célebres as passagens da magistral peça de Shakespeare “Júlio César“, quando o discurso de Antônio inflama a turba, e, embora algumas das suas maravilhosas cenas e diálogos decorram do gênio do bardo inglês, a maior parte das situações, como é o caso desta, foi extraí­da dos textos históricos.

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O fato é que a República Romana, há décadas, era, na realidade, um regime onde aristocratas romanos se digladiavam para usufruir de privilégios e de oportunidades de enriquecimento, não raramente chegando ao poder através da força militar obtida com o recrutamento de legiões compostas de trabalhadores empobrecidos, cujos soldados eram mais fiéis ao general que lhes havia recrutado do que ao Estado Romano.

E, embora Roma já dominasse o mundo mediterrâneo, controlando proví­ncias na Espanha, Gália, Grécia, Norte da África, etc., não havia regras na constituição polí­tica romana, que havia sido feita para reger uma Cidade-Estado, que previssem a representatividade dos súditos que não fossem italianos. Assim, as sucessivas crises terminavam em guerras entre as facções, que apelavam aos generais à testa das legiões em campanha, como última alternativa para implementar suas plataformas.

Vivenciando tudo isso, e, como integrante da facção dos Populares, César compreendeu que o Governo de Roma tinha que levar em conta os interesses da plebe de Roma e integrar os provinciais na administração da República. Não é a toa que, no volume sobre “Roma e os Romanos”, da coleção “Rumos do Mundo”, da escola dos Annales, a respeito do assassinato de César, está escrito que “Roma marchava para a unidade. A punhalada em César apunhalou a unidade“.

Antônio, o braço-direito de César que tinha sido nomeado Tribuno da Plebe, efetivamente conseguiu catalisar a comoção popular pelo homicí­dio em favor dos partidários do ditador assassinado. Entretanto, para a sua decepção, o herdeiro polí­tico do falecido ditador, adotado como filho em seu testamento, foi o sobrinho-neto dele, Caio Otávio, que, após a adoção, foi “rebatizado” como “Caio Júlio César Otaviano“. Não obstante, Marco Antônio, que naquele momento era o homem mais poderoso militarmente no Império, tentou entrar em acordo com o Senado, para legitimar a sua posição .

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Assim, devido ao clamor popular, os “tiranicidasCássio e Bruto tiveram que deixar Rom. Contudo, inicialmente, eles não foram detidos, e nem perseguidos.

Antônio também enviou outro partidário de César, Marco Emí­lio Lépido, então governador da Gália Narbonense, para a Espanha, para conter as ações de outro aliado dos conspiradores, Sexto Pompeu, filho do falecido rival de César pelo poder supremo, Pompeu, o Grande, que estava instalado na Sicília.

Naquele ano de 43 A.C, a muitos parecia que Antônio iria conseguir a supremacia política, porém Bruto e Cássio, que agora se autodenominavam “Os Libertadores“, conseguiram chegar à Macedônia, onde eles ganharam o apoio das legiões estacionadas naquela proví­ncia e, valendo-se delas, dominaram o resto da Ásia Menor. Em contrapartida, milhares de soldados veteranos das campanhas de César ofereceram a sua lealdade a Otaviano.

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Aproveitando-se da súbita situação de fraqueza de Antônio, o Senado, que sempre fora hostil a ele, sob a liderança deo prestigiado senador Cícero, passou a apoiar Otaviano. Assim, quando Antônio marchou para combater um dos assassinos de César, Décimo Bruto (ele teria sido o agressor que deu a última facada no Ditador), que era governador da Gália Cisalpina, sitiando-o em Mutina (a atual Modena) o Senado enviou os cônsules Hí­rtio e Pansa e os seus exércitos consulares para auxiliar Décimo Bruto. E Otaviano, que tinha apenas 19 anos de idade, usando dinheiro de suas economias pessoais, reuniu a sua própria tropa de veteranos de César e também se dirigiu à Mutina, como aliado do Senado contra Antônio.

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Seguiu-se uma série de combates acirrados, em que ora as tropas senatoriais, ora as de Antônio levaram vantagem. Porém, nas refregas, os dois cônsules acabaram morrendo em virtude dos ferimentos recebidos em combate. Por sua vez, o acampamento de Antônio quase foi capturado pelos inimigos. Assim, Antônio acabou tendo que levantar o cerco à Mutina, e isso possibilitou a Décimo e suas tropas escaparem.

Segundo o relato das fontes, quando conseguiu cruzar o rio que margeava o campo da batalha, Décimo chegou a acenar para Otaviano e suas tropas, em sinal de agradecimento. Otaviano, contudo, percebendo que o fato poderia manchar sua reputação perante os veteranos de César que o apoiavam, fez questão de declarar que ele “tinha vindo à Mutina lutar contra Antônio, e não para ajudar os assassinos do seu pai adotivo“…

A sorte de Décimo Bruto contudo não durou muito. Confirmado pelo Senado no comando da Gália Cisalpina, as tropas dele, entretanto, desertaram para se juntar a Otaviano e ele teve que fugir em direção à Macedônia, numa tentativa de se juntar a Cássio e Bruto. Porém, no caminho, ele foi assassinado por um chefe gaulês que era simpático a Antônio.

Entretanto, Otaviano, ao invés de perseguir e dar combate a Antônio, voltou para Roma, agora à frente de um poderoso exército. A situação polí­tica instável entre os “cesaristas” somente alcançaria certo equilí­brio quando Antônio, Otaviano e Lépido se encontraram próximo à cidade de Bolonha, e “reorganizaram” o Estado Romano, dividindo o controle do governo e as proví­ncias ocidentais entre si, com o estabelecimento de um “Triunvirato para Confirmação da República com Poder Consular” ( Triumviri Rei Publicae Constituendae Consulari Potestate), formalmente instituído pela Lei Títia, de 43 A.C, arranjo que passaria à História com o nome de “Segundo Triunvirato“).

PRELÚDIO DA BATALHA

Restava dar cabo à tarefa de ajustar as contas com os “LibertadoresBruto e Cássio no Oriente. Os dois, enquanto se desenrolavam as disputas entre os “Cesaristas” , e entre eles e os partidários do Senado, aproveitaram para acumular o máximo de recursos e tropas na região, pilhando boa parte da Lí­cia, não sem antes pedirem muitas desculpas aos infelizes moradores. Cássio inclusive sitiou e saqueou a rica cidade insular de Rodes.

Enquanto isso, as forças de Antônio e Otaviano, num total de 28 legiões, se dirigiram para a Macedônia, enquanto Lépido ficou encarregado de defender a Itália. Os “Cesaristas” contavam com suprimentos que seriam enviados pela frota de Cléopatra, armada esta que, porém, sofreria um grande naufrágio.

Marchando pela Via Egnatia, a importante estrada construí­da pelos romanos, um século antes, para ligar a Ilí­ria a Trácia, cruzando terreno muitas vezes difí­cil e montanhoso, um destacamento de oito legiões enviado pelos Triúnviros para explorar o terreno acampou próximo a cidade de Fí­lipos. entrincheirando-se em uma passagem estreita entre as montanhas. Otaviano, doente, ficara na cidade de Dirráquio, onde a marcha se iniciara.

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Ocorre que, detendo a superioridade naval, os “Libertadores” conseguiram desembarcar as suas tropas na retaguarda das legiões “cesaristas”, acampadas na estrada montanhosa, as quais, porém, alertadas por um chefe trácio amigo, conseguiram retroceder para a cidade de Anfí­polis, antes delas serem cercadas pelos inimigos em maior número.

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Então, as legiões dos “Libertadores“, em um total de 17 legiões, em uma reviravolta da situação, decidiram entrincheirar-se em posições defensivas ao longo da Via Egnatia, mostrando que a estratégia deles, agora, era fazer um bloqueio naval que impedisse o reabastecimento das legiões de Antônio e Otaviano, valendo-se da sua superioridade naval, que era assegurada pela frota de 130 galeras comandadas por Gnaeus Domitius Ahenobarbus, bem superior a dos “Cesaristas”, principalmente após o naufrágio da frota de Cleópatra.

Porém, uma das grandes preocupações que afligia os “Libertadores” era quanto á lealdade de suas tropas, pois muitos dos seus soldados eram veteranos das campanhas de César. Por sua vez, Antônio e Otaviano, após o retorno do destacamento de 8 legiões, tinham agora 19 legiões para alimentar e, por isso, eles sentiam a necessidade premente de forçar um combate decisivo, devido à pressão sobre o seu estoque de suprimentos, bloqueados pela frota inimiga.

Teatro de Operações

Bruto e Cássio ocupavam, cada um, o seu acampamento em uma parte plana da estrada, protegida por montanhas e, em uma parte, por pântanos, reforçada por paliçadas e fossos. Além disso, essa área tinha acesso a um golfo onde as suas galeras podiam ancorar, além de ser servida por um rio, que provia o abastecimento de água. Forçado a agir, Antônio foi ousado e engenhoso e, disfarçadamente, oculto pela vegetação, ele mandou construir uma passagem através do pântano, sem que as forças de Cássio percebessem, no que estava sendo bem sucedido até seus homens serem descobertos pelos inimigos. Cássio, então, ordenou que as suas tropas também construíssem a sua própria passarela suspensa sobre o pântano, visando interceptar o caminho construí­do a mando de Antônio.

PRIMEIRA BATALHA

Em 3 de outubro de 42 A.C., Antônio ordenou um ataque contra o acampamento de Cássio, e suas tropas conseguiram, com o auxí­lio de escadas e mediante o aterramento do fosso e trabalho de sapa, penetrar na paliçada inimiga e tomar o acampamento dele. Enquanto isso, as tropas de Bruto, vendo toda essa movimentação, perceberam uma oportunidade e, sem esperar ordens do seu comandante, elas atacaram o flanco exposto das forças de Antônio, causando pânico na sua retaguarda e alcançando o acampamento de Otaviano, chegando até a capturar a tenda deste, além de três estandartes.

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Mais tarde, Otaviano escreveria que somente conseguiu escapar desse ataque porque ele havia sido alertado do perigo em um sonho. Segundo Plí­nio, o Velho, contudo, Otaviano, na verdade, teve que se esconder no pântano, para evitar a própria captura… Certamente, esse combate foi muito confuso, em virtude do terreno e da péssima visibilidade, sem falar no fato de que não havia muito como distinguir as tropas amigas das inimigas, dada a similaridade de uniformes, escudos e estandartes.

No final da luta, ambos os exércitos voltaram para as posições anteriormente ocupadas, sendo certo, todavia, que os “Libertadores” perderam uma grande oportunidade de liquidar os “Cesaristas”, muito devido ao fato das suas tropas terem parecido, na ocasião, mais interessadas em pilhar e saquear o acampamento inimigo do que em lutar uma batalha decisiva…

Otaviano perdeu cerca de 16 mil soldados e Cássio, a metade disso. Assim, ao menos numericamente, os “Libertadores” levaram vantagem, pois reduziram a inferioridade numérica que seu exército tinha em relação às forças do Triunvirato. Por outro lado, eles jogaram fora a chance de derrotar completamente Otaviano, que conseguiu escapar.

O SUICÍDIO DE CÁSSIO

Por motivos controversos até hoje, nesse mesmo dia 3 de outubro, Cássio cometeu suicí­dio, ajudado por um escravo, apesar do resultado da batalha ter restado indeciso, sem que nenhum lado ainda pudesse celebrar vitória ou lamentar uma derrota.

Entre os prováveis motivos para esse ato extremo, especula-se que Cássio, após ver o seu próprio acampamento ser capturado, confundiu-se ao ver as tropas de Bruto capturaram o acampamento de Antônio e, equivocadamente, pensou que o contrário tinha acontecido, ou seja, que tinha sido o seu colega quem havia sido derrotado.

Outra teoria, esposada por alguns historiadores antigos, é que, na verdade, Cássio teria sido assassinado por seu escravo doméstico, que simulou a cena para parecer suicí­dio.

Quando soube que Cássio havia se suicidado, Bruto, chocado, velou o corpo do colega, a quem ele teria chamado, na ocasião, de “O último dos Romanos“.

Porém, um fato reanimaria as esperanças de Bruto, eis que, naquele mesmo dia, a frota dos “Libertadores” conseguiu interceptar e destruir vários navios que transportavam reforços para os Triúnviros.

Claramente, agora, a melhor estratégia para Bruto era continuar a guerra de atrito entrincheirando-se em posições defensivamente seguras, já que ele dispunha de mais suprimentos, e, também, de superioridade numérica, uma vez que as perdas de Otaviano tinham sido bem maiores na recente batalha. Todavia, Bruto, ao contrário de Cássio, não tinha muito prestí­gio militar, e as suas tropas, estimuladas pela quase vitória no dia 3 de outubro, ansiavam por um engajamento decisivo, ainda mais porque os Triúnviros, sabendo que o tempo corria contra eles, mandaram seus homens, diariamente, irem até a paliçada adversária e provocarem os inimigos.

SEGUNDA BATALHA

Uma oportunidade apareceu quando uma colina próxima ao acampamento das legiões do finado Cássio foi evacuada por Bruto, por acreditar que aquela elevação, por estar ao alcance das flechas dos seus arqueiros, não interessaria às forças de Antônio e Otaviano tomarem. Antônio, todavia, prontamente mandou que quatro de suas legiões ocupassem a posição, a partir da qual, ele mandou construir vários postos fortificados na direção sul até o mar, possibilitando, através dos pântanos, uma nova tentativa de flanqueamento do acampamento de Bruto, que, premido por essa ameaça, teve que construir também os seus bastiões nos pontos vulneráveis.

Entretanto, o moral das tropas de Bruto começou a se deteriorar em função da prolongada inatividade e, sentindo isso, os seus generais começaram a pressioná-lo para que os soldados se engajassem em uma batalha campal definitiva, a despeito da superioridade tática e estratégica de que eles gozavam no momento. Na verdade, vários legionários aliados já estavam até começando a desertar. Nesse momento, consta que Bruto, que, embora inexperiente, estava certo em evitar o combate em escala total, cedendo, teria dito:

“Parece que eu, como Pompeu, o Grande (em Farsália), agora faço a guerra mais sendo comandado do que comandando”.

Assim, no dia 23 de outubro de 42 A.C., Bruto ordenou que suas tropas se apresentem em formação de combate para a batalha campal, como tanto esperavam Antônio e Otaviano, que aceitaram prontamente o desafio.

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Foi uma batalha ao antigo estilo grego, como entre duas linhas de falanges. Não houve sequer a tradicional chuva de dardos com as quais as legiões iniciavam o ataque: Ambas as linhas simplesmente avançaram frontalmente uma contra a outra, com as espadas desembainhadas. Então, os veteranos cascudos de César que lutavam por Otaviano foram gradualmente empurrando a infantaria de Bruto para trás, como se, na descrição do historiador romano Apiano, estivessem “girando a manivela de alguma máquina“.

Consta que, durante a batalha, e inseguro com o seu desfecho, Otaviano fez a promessa de, caso fosse vitorioso, construir um templo em honra ao deus Marte.

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No iní­cio, as tropas de Bruto foram recuando em boa ordem, mas, paulatinamente, buracos foram aparecendo nas fileiras e as linhas foram se misturando. Com a confusão instalada, não demorou a ocorrer uma debandada geral das tropas dos “Libertadores“. As legiões de Otaviano se dirigiram, então, para os portões do acampamento fortificado de Bruto, antes que os soldados fugitivos deste lá conseguissem chegar, apesar deles serem atacados pelos soldados inimigos que guardavam os muros.

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Bruto, por sua vez, conseguiu fugir com cerca de quatro legiões para as montanhas. Ele esperava retornar para o acampamento, mas o seu exército estava muito desmoralizado para tentar romper o cerco que as forças de Otaviano agora faziam em volta de sua praça-forte. Sem alternativa, Bruto resolveu também cometer suicí­dio, matando-se para evitar a captura pelos inimigos. Pouco tempo depois, ao ver o corpo do adversário caído, Antônio cobriu-o com um manto púrpura, em sinal de respeito.

CONCLUSÃO

Após a Batalha de Fí­lipos, o Senado perdeu qualquer esperança de retomar a proeminência no governo de Roma. O cenário estava armado para a luta que, dali a cinco anos, e após Lépido ser destituí­do por Otaviano, seria travada entre o herdeiro de César e Antônio para decidir quem seria o senhor absoluto da “Respublica Romana“.

Otaviano, depois de derrotar as forças de Antônio e Cleópatra, em 31 A.C, e tornar-se o primeiro imperador romano, com o tí­tulo politicamente mais palatável de “Princeps” (“Primeiro Cidadão”), cumpriria sua promessa ao Deus da Guerra feita em Fílipos e construiria, no planejado Fórum que levaria o seu nome, em Roma, o Templo de Mars Ultor (“Marte Vingador” de César), cujas ruí­nas ainda podem ser vistas na Via dei Fori Imperiali.

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A BATALHA DE ACTIUM – O ATO FINAL DA GUERRA CIVIL E O FIM DA REPÚBLICA

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Em 02 de setembro de 31 A.C., ao largo do promontório e da cidade homônima deActium, próxima ao Golfo de Corinto, na Grécia, duas frotas romanas preparavam-se para entrar em combate, mas não, como de hábito, contra um inimigo estrangeiro ou atrás de piratas, mas uma contra a outra.

Nos seis anos anteriores, o Segundo Triunvirato – pacto político que  os dois homens mais poderosos da República, Otaviano e Marco Antônio, juntamente com Lépido, herdeiros políticos do poder do falecido Júlio César celebraram, após o assassinato do Ditador para dominar a República – só fazia se esgarçar, mesmo após a tentativa de união familiar simbolizada pelo casamento de Marco Antônio com a irmã de Otaviano. Todavia, o misto de romance e aliança política entre Marco Antônio e Cleópatra, mãe do único filho natural de César, constituíram, além de uma afronta pessoal ao filho adotivo de César, Otaviano, uma tremenda ameaça política, enfraquecendo a posição deste último como herdeiro reconhecido em testamento pelo Ditador.

As chamadas “Doações de Alexandria” de 34 A.C, onde Antônio e Cleópatra reconheciam Caesarion como o único filho legítimo de César, Rei do Egito e “Rei dos Reis”, além de selarem a ruptura definitiva entre Otaviano e Antônio, foram habilmente aproveitadas pelo primeiro para atacar a popularidade de Antônio, visto agora como hostil aos interesses da República Romana e submisso à vontade de uma rainha estrangeira. Apesar disso, um terço do Senado Romano continuou apoiando Marco Antônio.

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Após várias tentativas dos rivais atraírem o outro para um conflito terrestre, incluindo a teatral proposta de Antônio de enfrentar Otaviano em combate individual para decidir quem deteria o poder supremo, Otaviano acabou conseguindo obter do Senado uma declaração de guerra contra Cleópatra, o que indiretamente significava que Antônio agora era inimigo de Roma. Nesse meio tempo, ambos os contendores se prepararam, ficando claro que a estratégia que prevalecia nas forças de Antônio seria a de uma batalha naval, sob a instigação de Cleópatra, que vinha coletando uma grande frota. Muitos acreditam que o objetivo da rainha era proteger o Egito, pela destruição da frota romana em águas gregas.

Marco Vipsânio Agripa, o fiel amigo e comandante naval supremo de Otaviano, sabendo que sua frota, composta de navios leves do tipo “liburna”, era mais vulnerável às condições de tempo, esperou o verão chegar para se deslocar para a Grécia, onde se encontravam as principais forças de Antônio. Mesmo assim, a chegada da frota pegou Antônio de surpresa, pois ele ainda estava recrutando remadores para seus navios. Desse modo, a iniciativa estava com Agripa, que conseguiu desembarcar tropas que travaram algumas escaramuças com as forças terrestres de Antônio, nas quais estas levaram a pior.

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A longa inatividade já havia deteriorado o moral das tropas de Antônio, e, ele mesmo, também parece ter sido afetado. Porém, quando a frota de Otaviano avançou em direção ao seu quartel-general e ameaçou cercá-lo completamente no Golfo de Corinto, cortando os seus suprimentos vindos do Egito, Antônio resolveu agir.

No dia 02 de setembro de 31 A.C., Marco Antônio ordenou que os navios zarpassem e se colocassem de costas para o promontório de Actium, ao pé do qual sete legiões suas estavam acampadas, e de onde eles podiam assistir às manobras. A sua frota era composta de 230 grandes galeras, a maioria delas com oito bancadas de remadores (octores) e providas de torres armadas com catapultas, sendo que a sua nau-capitânia era uma espetacular “decere” (dez bancos de remadores), assim como a de seus outros almirantes. Os seus enormes navios eram pesadamente couraçados e muito difíceis de afundar por abalroamento com esporão, como era a tática comum nas batalhas navais da época. Porém, o tempo em que ficaram ancorados à espera de ação favoreceu o aparecimento de doenças entre os marinheiros e, por isso, poucas tinham o número ideal de remadores.

Segundo os relatos dos autores antigos, o navio de Antônio zarpou com as velas abertas, o que não era comum em ordem de batalha, levantando a suspeita que, desde o início, a intenção dele era chegar ao mar aberto e, aproveitando-se do vento noroeste que soprava, fugir em direção à Alexandria (os navios de guerra romanos não conseguiam navegar de través). Ele formou seus três esquadrões em duas linhas, à frente dos navios mercantes que levavam o enorme tesouro egípcio, e com os navios que escoltavam Cleópatra atrás.

A frota de Otaviano aproximou-se em duas linhas. Ela compunha-se de cerca de cerca de 250 quinquerremes, navios menores, porém mais rápidos e manobráveis do que os da frota de Antônio, os quais,  além disso, estavam subtripulados. Otaviano esperou, pois se avançasse mais ele corria o risco de ver seus navios ficarem perto de mais da costa e serem atacados pelas forças inimigas em terra. Vale citar que Otaviano tinha a vantagem de ter ciência prévia dos planos de Antônio, pois um importante partidário deste, Quintus Dellius, havia desertado pouco antes e se juntado às forças de Otaviano. Dellius era um notório “vira-casaca”, que já havia desertado duas vezes quando integrava o exército dos assassinos de César contra os triúnviros.

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Ao meio-dia, Antônio deu ordem de avançar. A sua ala esquerda deu a impressão de querer empurrar à ala direita da frota de Otaviano para o norte e abrir um caminho em direção ao sul (bombordo), que poderia levar ao Egito; porém, Otaviano, parecendo estar ciente desse propósito, mandou os seus  navios manterem distância, atraindo mais o inimigo para o alto-mar.

Quando ambas as frotas ficaram mais próximas, começaram os disparos de artilharia e flechas. Agripa ordenou que os navios de sua segunda linha se estendessem mais para o norte e para o sul, visando cercar o inimigo em menor número, sendo que Antônio, ao perceber isso, tirou alguns navios do seu centro e esticou a sua linha, deixando no centro os navios mais pesados, que estavam resistindo bem, e dirigindo-se à direita (estibordo) e ao norte para combater o esquadrão comandado por Agripa. Isso, entretanto, acabou abrindo espaços no centro da sua formação.

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Foi então que, em um movimento inesperado, os navios comandados por Cleópatra, aproveitando um buraco no centro da linha da frota comandada por Antônio e o súbito vento que soprava favoravelmente, ultrapassaram as suas linhas à toda velocidade, e, deixando para trás o resto da frota, rumaram em direção ao Egito, levando consigo todo o tesouro.

Não se sabem os motivos pelos quais Cleópatra tomou essa decisão…Alguns acreditam que ela, inexperiente na guerra, interpretou equivocadamente o fato de Antônio ter deixado o centro e rumado para o norte. É possível que ela tenha perdido contato visual com o navio do companheiro e pensado que ele tinha sido afundado ou fugido.

O fato é que Antônio, quando viu os navios de Cleópatra se afastando, resolveu ele também fugir, embarcando em outro navio mais veloz e deixando o restante da sua frota lutando acéfala (com exceção de cerca de 60 navios que conseguiram acompanhar a fuga). Os combates duraram até a noite, mas toda a frota remanescente de Antônio foi destruída por Otaviano. Isso prova que a fuga foi um momento crucial da Batalha, pois, mesmo sem o seu comandante, a frota de Antônio continuou lutando e vendeu caro a derrota.

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É verdade que, nominalmente, mesmo com a derrota naval na Batalha de Actium, Antônio e Cleópatra ainda comandavam um numeroso exército, mas o custo moral da derrota foi muito alto. Uma semana após a derrota, 19 de suas legiões e 12 mil cavaleiros renderam-se à Otaviano.

Ainda assim, levaria quase um ano até Otaviano conseguir chegar até o Egito. Nesse meio tempo, Cleópatra e Antônio, separadamente, enviaram propostas de rendição, tentando assegurar para si termos mais favoráveis. Otaviano ainda tentou negociar com Cleópatra, mas Antônio foi repelido.

Quando o exército de Otaviano alcançou o Egito, Antônio com as forças de que dispunha tentou oferecer combate, mas a desproporção era enorme. Derrotado, ele conseguiu fugir, mas, pensando que Cleópatra havia sido capturada, tentou se matar com a própria espada, à tradicional maneira romana, Ferido mortalmente, mas ainda vivo, pediu para ser levado ao mausoléu de Cleópatra, onde ela estava escondida, A cena do trágico reencontro dos dois amantes foi dramaticamente descrita por Plutarco (ver nosso post CLEÓPATRA – RAINHA DE REIS). Antônio faleceu nos braços e no colo de Cleópatra, em 1º de agosto de 30 A.C.

As tropas de Otaviano já estavam em Alexandria e foi já como virtual prisioneira que Cleópatra voltou para o palácio, onde obteve a permissão de organizar o funeral de Marco Antônio. Ela ainda tentaria negociar alguma saída honrosa para si e para os seus filhos (consta, inclusive, que ela teria mandado Caesarion para a Índia). Percebendo, porém, que tudo que Otaviano queria era mantê-la viva para abrilhantar a sua iminente parada triunfal em Roma, a Rainha do Egito, após várias tentativas, conseguiu se suicidar, segundo uma das fontes, pela picada de uma serpente no braço., em 12 de agosto de 30 A.C.

Otaviano era agora o senhor de Roma e do Egito. Caesarion, o último faraó do Egito desapareceu da História naquele mesmo mês, executado a mando de Otaviano. Três anos mais tarde, este receberia do Senado Romano o título de Augusto e Princeps, inaugurando oficialmente o período do Império Romano e pondo fim à Roma Republicana.

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De certa forma, Marco Antônio acabou passando para a História como um personagem romântico e heroico, muito em função do romance dele com Cleópatra e o fim trágico de ambos. Apesar disso, ele parece ter sido também um tipo um tanto grosseiro e bronco, como apontado por Cícero (e foi muito bem retratado na minissérie “Roma”). Com efeito, não considerando as razões do coração, a sua decisão de se unir à Cleópatra e se estabelecer em Alexandria foi praticamente um suicídio político: A fonte de todo o poder residia nos exércitos italianos e isso já tinha ficado cabalmente demonstrado durante a Guerra Civil de César contra Pompeu e, novamente, nas guerras do 2º Triunvirato, contra os assassinos de César apoiados pela facção dos Optimates (nobres).

Roman male portrait bust, so-called Marcus Antonius. Fine-grained yellowish marble. Flavian age (69—96 A.D.). Rome, Vatican Museums, Chiaramonti Museum.
Busto romano de mármore, chamado de Marcus Antonius. Período dos Flávios (69-96 A.D.). Rome, Vatican Museums, Chiaramonti Museum.

CURIOSIDADE – Vitória na “Batalha dos Genes”

Ironicamente, seria a descendência de Marco Antônio, e não a de Otaviano, que herdaria o Império. Com efeito, a sua filha Antônia, a Velha, seria avó do futuro Imperador Nero; e a sua outra filha, Antônia, a Jovem, seria mãe do futuro imperador Cláudio, avó do Imperador Calígula e bisavó do Imperador Nero.

Os três filhos que  Marco Antônio teve com Cleópatra foram poupados por Otaviano e criados por sua irma, Otávia, a ex-esposa de Antônio. Uma das meninas, Cleópatra Selene, casou-se com o rei Juba II da Numídia, e dentre seus inúmeros prováveis descendentes que se tornaram reis da cidade síria de Emesa, estaria a célebre rainha Zenóbia, de Palmira, que no século III D.C chegou a conquistar a Síria e o Egito e ameaçar a própria sobrevivência do Império. Depois de derrotada e levada para Roma, Zenóbia teria se casado com um senador romano e tido muitos descendentes.

Outra Antônia, filha de Marco Antônio com sua prima, chamada Antônia Hybrida, casou-se com Phytodorus, um magnata grego, e a filha de ambos, Phytodorida casou-se com o rei do Ponto e da Capadócia, obtendo o título de rainha. Vários descendentes de Phytodorida tornariam-se reis também do Bósforo, da Armênia e da Iberia. Assim, é bem possível que haja por aí milhares, senão milhões, de descendentes de Marco Antônio, que, derrotado nos campos político e militar, pode se considerar vencedor na batalha dos genes…

FIM

SETEMBRO, O NONO

Como já explicamos nos artigos anteriores sobre os meses do calendário, o primitivo calendário romano tinha dez meses e começava no mês de março.

Os quatro primeiros meses foram batizados em homenagem a divindades, e os outros seis eram chamados pelo número que correspondia à posição que ocupavam no calendário: Depois de Março, Abril, Maio e Junho, vinham Quintilis, Sextilis, Septembris, Octobres, Novembris e Decembris, respectivamente, o quinto, o sexto, o sétimo, o oitavo, o novo e o décimo mês do ano.

Mosaico romano dos meses em El Djem, Tunísia, foto By Ad Meskens – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=23222889

Devido a imprecisão desse calendário primitivo, os romanos passaram a adotar um calendário de doze meses, introduzindo-se os meses de janeiro (Ianuarius), que passou a ser o primeiro mês, e de fevereiro (Februarius). Essa reforma é atribuída ao rei Numa Pompílio, o mítico segundo Rei de Roma.

Assim, Septembris passou a ser o nono mês do ano, mas, apesar disso, ele manteve o seu nome, com o qual o povo já estava acostumado e que foi preservado mesmo após a nova reforma instituída pelo Ditador Júlio César, implantando o Calendário Juliano, de 365 dias e doze meses. Contudo, nessa oportunidade, adicionou-se um dia ao mês de setembro, que originalmente tinha 29 dias.

Segundo as fontes antigas (cf. Sexto Aurélio Vítor), o imperador romano Cômodo chegou a rebatizar brevemente o mês de setembro com o seu nome (ou, segundo outras fontes, com o nome de Hércules, sua divindade predileta), mas o nome, obviamente, não pegou e, após a sua morte, setembro logo recuperou o seu nome tradicional. Aliás, antes dele, Tibério já havia recusado essa honra, e Calígula havia sugerido a mesma coisa em relação ao seu próprio nome.

Página do Calendário de Filócalo, cópia medieval de calendário romano, mostrando a personificação do mês de setembro.

Segundo os tratados romanos de agricultura, setembro era o mês em que os agricultores deveriam realizar certas tarefas relativas aos vinhedos, e, muito provavelmente por isso, a maior parte das imagens sobre o mês, em calendários ou mosaicos, mostra vinhas ou uvas

A principal festividade religiosa que acontecia no mês de setembro na Roma Antiga eram os vetustos Jogos Romanos (Ludi Romani), em homenagem ao deus Júpiter, e tradicionalmente instituídos pelo rei Tarquínio Prisco, o legendário quinto Rei de Roma (mas, segundo alguns cronistas antigos, isso teria ocorrido no início da República Romana). A principal competição era uma corrida de quadrigas, embora também houvesse a apresentação de peças teatrais, exibição de danças e até lutas de boxe. Os jogos começavam no dia 5 de setembro e sua duração aumentou ao longo História Romana. Durante os Jogos Romanos, ocorria, nos Idos de Setembro (dia 13), o Epulum Jovis, um suntuoso banquete oferecido em honra de Júpiter, em que até os deuses eram formalmente convidados, e suas estátuas trazidas para comerem, ritualisticamente, as iguarias, que eram provadas antes por sacerdotes especializados na organização desses banquetes (Epulones).

Vários imperadores romanos tinham seus aniversários comemorados no mês de setembro, tais como Augusto, Nerva, Antonino Pio, Trajano e Aureliano (coincidentemente, todos considerados “Bons Imperadores”).

GRACIANO

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Em 18 de abril de 359 D.C., nasceu, em Sirmium,  capital da província romana da Panônia, a cerca de 55 km da atual Belgrado, Sérvia, Flavius Gratianus (Graciano), filho do general Flávio Valentiniano e da esposa dele, Marina Severa. Graciano recebeu este nome em homenagem ao avô, Graciano, o Velho, também natural da Panônia, que, depois de ganhar a vida como vendedor ou fabricante de cordas, entrou no Exército Romano, na unidade de elite dos “Protectores domesticus” e chegou ao posto de general e governador da África e da Britânia.

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Quando Graciano tinha cinco anos, em 364 D.C., o pai dele foi aclamado imperador romano, tornando-se Valentiniano I, considerado o último grande Imperador Romano do Ocidente.

Já em 366 D.C., Graciano, ainda uma criança pequena, foi nomeado Cônsul. E, no ano seguinte, enquanto Valentiniano I encontrava-se em campanha contra os bárbaros Alamanos, na Gália e ficou seriamente doente, Graciano foi nomeado “Augusto”, tornando-se, portanto, formalmente, coimperador junto com o pai.

O motivo da nomeação de Graciano foi o fato de que, percebendo o estado de saúde grave de Valentiniano I, cortesãos começaram um movimento para nomear o ministro Rusticus Julianus como sucessor, enquanto que, no exército, os militares apoiavam o general Severus. Desse modo, ao nomear precocemente o filho como Augusto, Valentiniano I tentou garantir o trono para a sua descendência.

Porém, tanto os ministros da Corte como o Exército tinham lá seus motivos para apoiarem outros candidatos ao trono pois, mesmo sendo uma criança, Graciano não demonstrava nenhum pendor para os assuntos militares, preferindo se dedicar à Retórica e à Literatura. Consta, inclusive, segundo o historiador Amiano Marcelino, que Valentiniano chegou a ter que mencionar expressamente, em discursos às tropas, que Graciano, apesar de não ser muito afeto às artes militares, seria um governante justo e capaz, e que ele, com o tempo,  iria se tornar um bom comandante .

Não obstante, a educação de Graciano ficou a cargo de Ausonius, um famoso poeta e professor de Retórica de origem galo-romana.

Por volta do ano de 370 D.C., Valentiniano I se divorciou da mãe de GracianoMartina Severa e se casou com Justina. Há uma versão tardia, do historiador Sócrates de Constantinopla, de que Valentiniano na verdade passou a ter duas esposas, desejo que teria motivado inclusive a edição de uma lei autorizando a bigamia, embora isto seja altamente improvável e não se tenha preservado nenhuma legislação relativa a isso.

Na verdade, é provável que Sócrates estivesse fazendo alusão a algum decreto de Valentiniano autorizando o divórcio, expressamente proibido pela Igreja Católica, que já dominava a Corte Imperial. Como o casamento era, e até hoje continua sendo, indissolúvel para a Igreja, o casamento de um divorciado poderia muito bem ter sido equiparado à bigamia.

De qualquer forma, é interessante transcrever essa passagem um tanto picante, relativa à relação entre a mãe e a madrasta de Graciano,  e, ainda, à suposta lei de Valentiniano I, por Sócrates de Constantinopla:

Justina tendo, assim, perdido o pai, ainda continuava virgem. Tempos depois ela conheceu Severa, esposa do imperador Valentiniano, e conversava frequentemente com a imperatriz, até que a intimidade delas chegou a tal ponto que elas costumavam tomar banho juntas. Quando Severa viu Justina tomando banho ela ficou bastante impressionada com a beleza da virgem, e falou dela para o imperador, dizendo que a filha de Justus era uma criatura tão adorável e possuía tal simetria de formas que ela mesma, embora fosse uma mulher, estava completamente encantada com ela. O imperador, guardando aquela descrição pela esposa em sua própria mente, pensou consigo mesmo como ele poderia casar com Justina, sem repudiar Severa, já que ela tinha lhe gerado Graciano, a quem ele tinha nomeado Augusto pouco tempo antes. Ele por conseguinte editou uma lei, e a fez publicar por todas as cidades, pela qual seria permitido a qualquer homem ter duas esposas legítimas“.

Graciano foi nomeado Cônsul pela segunda vez em 371 D.C. e, novamente, em 374 D.C.

Também em 374 D.C., Graciano casou-se com Flavia Maxima Constantia, filha do imperador do imperador Constâncio II, falecido em 361 D.C.

Em 17 de novembro de 375 D.C., Valentiniano I morreu, provavelmente de um derrame, durante um ataque de fúria causado pelo comportamento insolente de emissários bárbaros contra os quais ele se encontrava em campanha.

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Graciano se encontrava em Trier, na fronteira com a Germânia e esperava-se que a sucessão fosse tranquila. Porém, o general Merobaudes, o Comandante da Infantaria de origem franca, alegou que as tropas  apoiavam a nomeação do irmão mais novo de Graciano, Flávio Valentiniano, de apenas quatro anos de idade, como imperador. Graciano, por sua vez, tinha dezesseis anos quando o seu pai morreu.

As fontes divergem sobre a reação de Graciano. Para Sócrates de Constantinopla, Graciano ficou furioso, já para Amiano Marcelino, uma fonte mais confiável, ele aceitou de bom grado a exigência das tropas. Seja como for, o fato é que Graciano teve que aceitar dividir o trono com o irmão mais novo, que foi coroado como Valentiniano II e passou a reinar sobra as províncias da Gália, da Hispânia e da Britânia, enquanto Graciano governaria a Ilíria, a África e a Itália.

O principal problema enfrentado por Graciano foram os crescentes ataques dos Alamanos, que devem ter se sentido incentivados pela morte de Valentiniano I, reconhecidamente um imperador enérgico e um competente comandante militar.

Em maio de 378 D.C., o exército comandado pelo general Mallobaudes, outro franco à serviço de Roma, derrotou os Lentienses, bárbaros germânicos que constituíam um ramo meridional dos Alamanos, na Batalha de Argentovaria, próximo à atual cidade de Colmar, na Alsácia. Cerca de trinta mil bárbaros foram dizimados. Graciano, depois disso, sentiu-se encorajado a liderar a fase final da campanha contra os Lentienses e recebeu a rendição daqueles que tinham sobrevivido à derrota anterior. Essa seria a última vez que os romanos levariam uma campanha além da linha de fortificações do Reno/Danúbio (limes germanicus). Em razão disso, Graciano recebeu o título de Alemannicus Maximus.

Porém, cerca de três meses depois, o colega de Graciano no Oriente, o Imperador Romano do Oriente, seu tio Valente, seria morto na desastrosa Batalha de Adrianópolis, ocorrida em 9 de agosto de 378 D.C.

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Os Godos tinham migrado para a fronteira do Império Romano no Danúbio, dentro de um quadro migratório mais amplo de povos germânicos, entre outros motivos, pela pressão dos Hunos, e, em 376 D.C., duzentos mil Godos foram autorizados a atravessar a fronteira, porém, logo em seguida eles se revoltaram na Trácia. Graciano, em resposta a um pedido de auxílio de seu colega Valente, chegou a enviar algumas unidades estacionadas na Panônia, sob o comando do dux Frigeridus e outras, da Gália, sob o comando do Comes Richomeres, mas o general Merobaudes, desobedecendo ao imperador, as reteve para a defesa da fronteira do Reno contra os Alamanos.

Sabedor da urgência que a rebelião dos Godos na Trácia representava, Graciano, que, antes de ter que lidar com os Alamanos, já estava marchando para a região, enviou emissários ao imperador Valente pedindo que aguardasse a sua chegada, quando então os exércitos do Ocidente e do Oriente, combinados, poderiam liquidar os bárbaros.

Porém, Valente, ciumento do prestígio que Graciano recém conquistara contra os Alamanos, resolveu atacar os Godos sozinho. Eles eram um adversário formidável, e, liderados pelo hábil chefe Fritigern conseguiram derrotar Valente, que perdeu a vida na Batalha de Adrianópolis, perecendo junto com dois terços do seu exército, sendo as perdas romanas estimadas em 40 mil soldados.

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Agora Graciano, após a morte do tio,  aos dezenove anos, tornara-se, de direito, o único imperador das duas metades do Império Romano. Entretanto, segundo as fontes, percebendo que a situação depois de Adrianópolis era grave demais para que ele desse conta,  Graciano não hesitou um momento em nomear um sucessor para Valente, escolhendo, em 19 de janeiro de 379 D.C.,  o general Teodósio, um militar de prestígio que fora afastado por Valentiniano I e se retirado da vida pública para suas propriedades na Espanha, e tinha sido convocado após Adrianópolis para assumir o comando do Exército oriental.

Provavelmente, assim como ocorrera com a nomeação de Valentiniano II, a designação de Teodósio deve ter sido uma imposição dos comandantes do Exército Romano a Graciano.

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As duas derrotas fragorosas sofridas pelo exército oriental entre 361 e 378 D.C., na Pérsia e em Adrianópolis, e a incessante luta contra os bárbaros germânicos no Ocidente parece que drenaram a maior parte do efetivo militar recrutado entre os cidadãos romanos natos.

Com efeito, a reiterada presença de nomes de oficiais germânicos, mencionados nas fontes sobre os reinados de Juliano e Valentiniano, mostra que o emprego de contingentes de origem germânica já estava se generalizando antes do reinado de Graciano. O próprio Valentiniano já tinha sido obrigado a reduzir a altura mínima exigida para os soldados, como modo de aumentar a massa recrutável. Esse era um problema que, além das perdas sofridas em batalhas, tinha também causas sócio-econômicas, como o aumento do instituto do colonato entre os agricultores livres (que alguns consideram precursor da servidão medieval), cada vez mais concentrados nos latifúndios da aristocracia senatorial (que normalmente conseguia eximir do recrutamento os seus trabalhadores colonos), além de um declínio populacional que transparece em diversas leis promulgadas pelos imperadores.

Teodósio e Graciano tentaram aplicar com rigor as leis que tratavam da conscrição de recrutas entre os cidadãos romanos e até conseguiram alistar filhos de veteranos, mas claramente o número foi insuficiente. Valendo-se largamente de bárbaros germânicos recrutados mediante termos generosos, o que acabou comprometendo a disciplina do Exército, Teodósio, entre 379 e 382 D.C., conseguiu conter os Godos, ainda que sem obter nenhuma vitória decisiva, assinando com eles um tratado de paz em 3 de outubro de 382 D.C., no qual os Godos eram reconhecidos como “Federados” (Foederati), nominalmente sob a autoridade do Imperador e obrigados a fornecer tropas quando requisitados, todavia, sendo-lhes granjeado o direito de se estabelecer em território romano liderados por seu chefe, um fato inédito na História de Roma e que teria consequências funestas em um futuro próximo.

Enquanto isso, Graciano parecia justificar as dúvidas sobre a sua falta de pendor para os assuntos militares. Sob a influência de Ausônio, os retóricos e gramáticos de ascendência galo-romana passaram a dominar a Corte. Em 381 D.C., Graciano resolveu mudar a sua capital de Trier, onde ficara para supervisionar a defesa do Reno, para Milão, em uma demonstração tácita de que sua atenção agora voltava-se para outros assuntos e, de fato, Amiano Marcelino relata que o imperador, que era um tipo atlético, chegou a dedicar-se a provas de habilidade na arena, emulando o malsinado imperador Cômodo.

Em Milão, Graciano também  ficou sob a influência do enérgico e carismático Bispo da cidade, Ambrósio (Santo Ambrósio) e tornou-se um fervoroso patrono da ortodoxia cristã na forma do Credo Niceno. Essa influência foi decisiva para que Graciano abandonasse a prudente política de tolerância imperial ao Paganismo e aos demais credos cristãos concorrentes adotada sobretudo por seu pai, Valentiniano I.

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Tudo o que o Império Romano mais precisava naquele momento era unidade e estabilidade internas para enfrentar a terrível ameaça representada pelos bárbaros, externa e internamente (Godos). No entanto, as perseguições religiosas teriam como efeito a alienação de uma boa parte da aristocracia senatorial do Ocidente, degenerando na escolha de um usurpador pagão, guerra civil, ausência de cooperação entre as Cortes de Constantinopla e Milão, tumultos e massacres e até mesmo impossibilidade de composição com bárbaros germânicos que professavam o Arianismo, considerado uma heresia cristã, em alguma ocasiões cruciais.

Seguindo essa política de intolerância, Graciano, em 382 D.C, atendendo aos apelos de Santo Ambrósio, determinou a remoção do Altar da Vitória da Cúria do Senado no Fórum Romano, além de retirar os subsídios estatais para os cultos pagãos. Os senadores pagãos chegaram a protestar, lembrando que Graciano, na condição de Pontifex Maximus, era o chefe da tradicional religião pagã. Em resposta, Graciano renunciou ao título e devolveu os robes e insígnias cerimoniais ligados aos cultos pagãos.

Graciano também conseguiu irritar os comandantes e tropas do Exército Romano que tinham sobrevivido ao influxo de tropas bárbaras ao escolher como guarda-costas um contingente de bárbaros Alanos e, ainda, ao aparecer em público vestido como um guerreiro godo.

Assim, no início de 383 D.C., quando Graciano teve que se deslocar para a Gália para combater uma nova incursão dos Alamanos,  o Governador militar da Britânia, o general Magnus Maximus (Máximo), um nativo da província da Espanha, aproveitou o sentimento de insatisfação das tropas para se autoproclamar imperador e invadir a Gália.

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O imperador Graciano encontrava-se em Paris e, quando as tropas de Máximo aproximaram-se da cidade, após breves escaramuças, as tropas dele desertaram, deixando o imperador sozinho. Graciano, então, fugiu para Lugdunum (Lyon). Porém, o governador da cidade o entregou ao general Andragathius, um dos comandantes de Máximo.

Então, em 25 de agosto de 383 D.C., Graciano foi assassinado por ordens de Andragathius. Ele tinha 24 anos de idade.

CONCLUSÃO

Talvez, se Graciano fosse melhor dotado de astúcia e determinação, ele poderia ter sido um imperador melhor, mas ele teve o azar de ser coroado muito jovem. Em seu favor, reconhecemos que a maior parte das vicissitudes que o Império enfrentou durante o seu reinado não podem lhe ser atribuídas e, de fato, antecediam ao seu reinado, mas a intolerância religiosa e a preferência pelas tropas bárbaras (sendo que esse último problema praticamente lhe foi imposto pelas circunstâncias) dão um viés negativo ao mesmo.

FIM

MAXIMUS DECIMUS MERIDIUS-GLADIADOR-O QUE É FATO E O QUE É FICÇÃO?

I- INTRODUÇÃO

Acho que se você, amigo leitor, veio até aqui, é porque já viu o filme “Gladiador“, mas, se por acaso, ainda não o tiver assistido, fique alerta de que esse texto tem “SPOILERS“, e nele contamos o enredo do filme (então, a hora de sair é agora, rs!).

O filme é excelente, mas obviamente, como acontece com quase todos os filmes épicos, especialmente os hollywoodianos, o roteiro nem sempre é inteiramente fiel aos acontecimentos históricos.

Identificar no filme o que é fato ou ficção, em si, não é uma tarefa difícil, mas, vamos também, neste artigo, tentar esclarecer se, mesmo no caso dos personagens e situações fictícios, existe alguma verossimilhança, ou, ao menos, verificar se as cenas apresentadas segundo o enredo seriam plausíveis, dentro do que se conhece da História e dos costumes romanos.

II – ROTEIRO

Vamos à trama:

Estamos em 180 D.C: O imperador romano Marco Aurélio encontra-se em Vindobona, na província romana da Panônia, supervisionando o final da campanha contra bárbaros germânicos instalados nas proximidades da fronteira do Império no rio Danúbio. As tropas são conduzidas pelo general hispânico Maximus Decimus Meridius, o “Comandante dos Exércitos do Norte”. A batalha final é sangrenta, mas os romanos vencem. Entretanto, o imperador está doente, e manda chamar de Roma seu casal de filhos: o jovem Cômodo e sua irmã, Lucilla. Após o combate, o esgotado Marco Aurélio chama Maximus para uma conversa particular em sua tenda e lhe conta que deverá morrer em breve, mas que Cômodo não será o seu sucessor, já que o considera incapaz de governar o Império. Além disso, Roma está mergulhada na corrupção, e para remediar isso, ele pretende devolver o poder ao Senado Romano e restaurar a República. Assim, o imperador pede a Maximus que, após a sua morte, este assuma o Império e cuide para que a República seja restaurada. Maximus, que somente anseia ir cuidar de sua mulher e filho e de sua fazenda em Turgalium (atual Trujillo, na Espanha, pede para ser dispensado, mas Marco Aurélio insiste neste propósito. Ao sair da tenda, Maximus reencontra Lucilla, de quem ele já foi amante, e percebe-se que os dois, aparentemente, ainda sentem algo um pelo outro. Marco Aurélio, em seguida, chama Cômodo e informa ao filho que ele não será o novo imperador, pedindo desculpas por não ter sido um bom pai. Cômodo, transtornado ao receber a notícia, mata o pai, asfixiando-o, e, após, informa a irmã que o pai morreu por causa da doença. Maximus, em seguida, é convocado para jurar lealdade ao novo imperador, mas deixa transparecer a sua suspeita pela morte súbita de Marco Aurélio, com quem ele havia estado pouco tempo atrás, e reluta em fazer o juramento. Então, Cômodo, valendo-se da ajuda de Quintus (lugar-tenente de Maximus), manda a Guarda Pretoriana prender Maximus, que é levado à floresta para ser executado. Ali, ele fica sabendo que Cômodo ordenou também a morte de sua família. Porém, na ocasião, Maximus, mesmo após ser ferido, consegue matar seus carrascos e fugir, capturando um cavalo, e galopa da Panônia até a sua propriedade em Trujillo, apenas para constatar que sua mulher e filho tinham acabado de morrer crucificados. Ele desmaia, exausto e com suas feridas apodrecendo. Então, Maximus é encontrado desfalecido por uma caravana de mercadores de escravos destinados à província da Mauritânia, no Norte da África, onde ele é vendido ao lanista (dono de uma escola de treinamento e fornecedor de gladiadores para espetáculos) Proximo, ele mesmo um ex-gladiador. Em pouco tempo, Maximus começa a se destacar na arena, recebendo o apelido de “Espanhol”, e o sucesso dele como gladiador, acaba levando Proximo a conseguir que sua trupe se apresente no Coliseu, em Roma. Enquanto isso, Cômodo, que havia sido falsamente informado da morte de Maximus por Quintus e seus subordinados, tinha voltado imediatamente para Roma sem concluir a guerra, e, ao longo do tempo, vinha se mostrando mesmo inapto para reinar, preferindo dedicar-se à sua paixão pelas lutas de gladiadores, inclusive treinando como um. Então, a luta de Maximus e da trupe de Próximo no Coliseu resultou em grande sucesso, com o “Espanhol” caindo nas graças do público. Cômodo, que assistiu à luta, desce até a arena e pede que Maximus diga o seu nome e mostre o seu rosto. Este inicialmente se recusa, então o imperador faz um gesto chamando a Guarda Pretoriana para punir a todos. Assim, diante da possibilidade dele e seus companheiros gladiadores serem mortos, Maximus se revela e jura que vingará a mulher e o filho. Cômodo fica chocado com a revelação e faz menção de dar a ordem para os Pretorianos matarem Maximus e os outros gladiadores, mas a multidão implorou em coro pela vida deles e, pressionado pela turba, o imperador desiste momentaneamente de executá-los. Todavia, para a próxima luta de Maximus no Coliseu, Cômodo manda preparar umas armadilhas com tigres. Não obstante, Maximus consegue matar todos eles, e, após derrotar seu oponente, poupa a vida dele, contra a vontade de Cômodo, fato que deixa o imperador possesso, mais ainda após o público de novo ovacionar o “Espanhol”. Na saída do Coliseu, Maximus é abordado por seu ex-ajudante de ordens, Cícero, que lhe conta que seus antigos soldados estão acampados nos arredores de Roma. Lucilla, que vinha sendo alvo de investidas, com caráter sexual pelo seu irmão Cômodo, procura Maximus em sua cela na Escola de Gladiadores do Coliseu (Ludus Maximus), junto com o senador Graco, e ambos tentam convencer Maximus a se juntar a uma rebelião para derrubar Cômodo e devolver o poder ao Senado, como planejava Marco Aurélio. Segundo o plano traçado, Maximus fugiria e iria ao encontro de suas antigas legiões, que ele confiava que se uniriam a ele, e derrubariam Cômodo. Porém, o menino Lucius (filho de Lucilla com seu falecido marido, Lucius Verus), que morava junto com a mãe no Palácio, e que é fã do “Espanhol”, acaba inocentemente deixando escapar uma informação e Cômodo ameaça Lucilla, dizendo que se ela não lhe revelar tudo o que sabe sobre os planos de Graco, matará Lucius. A mãe, desesperada, acaba contando tudo e Cômodo ordena que os Pretorianos prendam Graco e matem Maximus, na Escola de Gladiadores. Porém, com a ajuda de Proximo e seus colegas gladiadores, Maximus consegue fugir e vai ao ponto de encontro previamente marcado com Cícero. Porém, os Pretorianos já tinham capturado Cícero e. antes de matá-lo, usam-no para atrair e prender Maximus. Então, Cômodo resolve matar Maximus em um combate encenado no Coliseu lotado, visando ganhar o amor do público, cuidando antes de esfaquear Maximus no pulmão, para que este entrasse na arena enfraquecido. Mas, mesmo mortalmente ferido, durante o combate, Maximus consegue desarmar e derrotar Cômodo, terminando por matá-lo com o seu próprio punhal, enfiando-o lentamente na garganta do imperador. Os Pretorianos adentram a arena parecendo prontos a matar Maximus, porém, Quintus ordena que os soldados fiquem em posição aguardando as ordens do seu antigo comandante. Agonizando, Maximus proclama que o poder deve retornar para o Senado, na pessoa do senador Graco, e morre nos braços de Lucilla, tendo uma visão de sua esposa e de seu filho. O corpo de Maximus é carregado para fora do Coliseu com honras por Graco e Lucius.

Russell Crowe como Maximus, foto: MohamedShnawa, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Resumido o roteiro, cumpre abordar, em primeiro lugar, os personagens do filme que realmente existiram:

III- PERSONAGENS PRINCIPAIS

A) MARCO AURÉLIO E CÔMODO

O imperador Marco Aurélio de fato morreu em Vindobona (atual Viena), em 17 de março de 180 D.C, durante a fase final da duríssima e prolongada campanha do Império Romano contra os bárbaros Marcomanos e Quados, que assolavam a fronteira romana do rio Danúbio.

Busto do Imperador Marco Aurélio, do acervo do Metropolitan Museum, NY.

Porém, ao contrário do que é mostrado no filme, não há evidências de que o filho de Marco Aurélio, o jovem Cômodo (vivido no filme por Joaquim Phoenix, em grande atuação), então com 18 anos de idade e que estava presente quando ele morreu, tenha matado ou mandado matar o próprio pai.

Todas as fontes antigas mencionam que o imperador contraiu a chamada Peste Antonina, que foi trazida para o Império Romano pelos soldados que participaram da campanha contra o Império Parta no início do reinado dele. Somente o historiador romano Cássio Dião escreve ter ouvido um relato de que a morte de Marco Aurélio teria sido acelerada pelos médicos que pretenderam fazer um favor a Cômodo, mas sem ao menos insinuar que teria sido a pedido deste. A verdade é que, segundo todas as fontes, Cômodo não apreciava muito a tarefa de governar, então é muito improvável que, aos 18 anos, ele tenha querido acelerar a morte do pai. Além disso, faltava pouco mais de um mês para o enfermo Marco Aurélio completar 59 anos quando ele morreu, ou seja, Cômodo não precisaria esperar muito para sucedê-lo.

Marco Aurélio, segundo o consenso dos historiadores antigos e modernos, foi um dos melhores imperadores romanos e, provavelmente, o mais erudito entre todos eles. Ele era adepto do Estoicismo, e tentou viver de acordo com os preceitos dessa corrente filosófica, deixando muitos pensamentos e reflexões profundas por escrito, embora não com o intuito de vê-los publicados. Mesmo assim, sentenças e máximas elaboradas por ele até hoje são citadas. Mais detalhes sobre a vida de Marco Aurélio podem ser consultados em nosso blog, em artigo específico.

A famosa estátua equestre de Marco Aurélio, hoje no Museu Capitolino, em Roma. Foto: Nicholas Hartmann, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Embora as fontes antigas realmente mencionem que Marco Aurélio tinha dúvidas acerca da capacidade do filho para reinar, o fato é que, tecnicamente, Cômodo já era imperador desde meados do ano 177 D.C, pois seu pai fez com que ele fosse proclamado Augusto (título exclusivo dos imperadores romanos) neste ano. Portanto, não há o menor indício de que o imperador agonizante tencionasse que outra pessoa que não o seu filho Cômodo o sucedesse, e, muito menos, devolver o poder ao Senado Romano e reinstalar o regime republicano em Roma, algo que um homem sábio como Marco Aurélio certamente sabia não ser factível. Aproveitamos para transcrever os trechos das histórias escritas pelos historiadores romanos Herodiano e Cássio Dião, além da crônica do reinado de Marco Aurélio constante da Historia Augusta:

“Quando o imperador suspeitou que havia pouca esperança na sua recuperação, e percebeu que seu filho se tornaria imperador enquanto ainda era muito jovem, ele temeu que o jovem indisciplinado, privado do conselho paterno, pudesse negligenciar seus excelentes estudos e bons hábitos, e voltar-se para a bebida e depravação (porque as mentes dos jovens, inclinada aos prazeres, são muito facilmente desviadas das virtudes da Educação), quando ele tivesse o poder absoluto e irrestrito.

(…)

Perturbado por esses pensamentos, Marco convocou seus amigos e parentes (para seu quartel-general em Vindobona). Colocando o filho ao seu lado e erguendo-se um pouco de seu leito, ele começou a falar da seguinte maneira:

“Não é surpreendente que vocês fiquem incomodados em me ver nesta condição. É natural que os homens sofram com o sofrimento de um semelhante, e as desgraças que ocorrem ante os seus próprios olhos suscitam uma compaixão ainda maior. Eu penso, entretanto, que um laço de afeição ainda maior exista entre vocês e eu; e, em troca dos favores que eu fiz a vocês, eu tenho o razoável direito de esperar a vossa boa vontade, em reprocidade.

E agora é para mim chegado o momento adequado de descobrir que eu não derramei por tanto tempo sobre vocês honra e estima em vão, e, para vocês, o de retribuir o favor mostrando que vocês não ignoram os benefícios que receberam de mim: Aqui está meu filho, a quem vocês mesmos educaram, chegando à flor da idade e necessitando de pilotos para os mares tormentosos à frente. Eu temo que ele, jogado para lá e para cá pela ignorância das coisas que ele precisa saber, seja despedaçado nas rochas das práticas ruins.

Consequentemente, vocês, juntos, devem assumir meu lugar como pai, cuidando dele e dando-lhe conselhos sábios…Nenhuma quantia de dinheiro é grande o suficiente para compensar os excessos de um tirano, nem a proteção dos guarda-costas é suficiente para proteger o governante que não goze da boa vontade dos seus súditos”

Herodiano, 1.3.1 a 1.4.4

“Ele morreu da seguinte maneira: Quando a sua doença começou a piorar, ele convocou o seu filho e recomendou a ele, em primeiro lugar, que não fizesse pouco caso do que restava da guerra, a fim de que ele não parecesse um traidor do Estado. E quando seu filho respondeu que o seu primeiro desejo era ter boa saúde, ele (Marco) lhe permitiu que procedesse como desejasse, apenas pedindo que esperasse alguns dias e não partisse imediatamente. Então, estando desejoso de morrer, ele recusou-se a comer e beber, assim agravando a doença. No sexto dia, ele convocou seus amigos, e fazendo pouco caso dos assuntos humanos e desprezando a morte, disse a eles: “Por que vocês choram por mim, em vez de se preocuparem com a Peste e com a morte que é parte comum que nos cabe a todos? E quando eles estavam prestes a se retirar, ele resmungou e disse: “E se vocês me dão licença para ir, eu vos dou adeus e morro antes”. E, quando lhe perguntaram a quem ele confiava o seu filho, ele respondeu: “A vocês, e aos deuses imortais”. O exército, quando soube da doença dele, o pranteou em voz alta, porque eles o amavam especialmente. No sétimo dia, ele estava exaurido e somente recebeu o seu filho, e mesmo este, ele despachou imediatamente, por medo de que ele contraísse a doença. E quando seu filho se foi, ele cobriu sua cabeça como se desejasse dormir e, durante a noite, ele deu o seu último suspiro. Comentou-se que ele previu que, após a sua morte, Cômodo viraria o que se tornou, e expressou o desejo de que este morresse, a fim de que ele não se tornasse um outro Nero, Calígula ou Domiciano.”

(Historia Augusta, Life of Marcus Aurelius, 28)

“Agora, se Marcos tivesse vivido mais tempo, ele teria subjugado a região inteira; mas, do jeito que foi, ele faleceu no dia 17 de março, não como resultado da doença da qual ele ainda padecia, mas pela ação de seus médicos, como me foi dito abertamente, que quiseram fazer a Cômodo um favor.

(…)

Apenas uma coisa o impediu (Marco Aurélio) de ser completamente feliz: nomeadamente, que. após criar e educar seu filho da melhor forma possível, ele ficasse tão imensamente desapontado com ele. Esse assunto será o nosso próximo tópico, porque nossa História agora desce de um reino de ouro para um de ferro e ferrugem, como as coisas se tornaram para os Romanos daquele tempo.”

(Cássio Dião, Epítome,LXII, 33 e Livro LXII, 35)

Relevo da Coluna de Marco Aurélio, em Roma, retratando o início da campanha contra os Marcomanos e Quados. Foto:Barosaurus Lentus, CC BY 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by/3.0, via Wikimedia Commons

Importante observar que a transcrição de discursos de pessoas célebres pelos historiadores antigos, embora fosse um recurso narrativo e estilístico frequentemente usado por eles, quase certamente não é a transcrição exata do que foi dito na ocasião (algo que até podia ocorrer quando eram proferidos em sessões do Senado e transcritos em ata), e visava mais a contextualizar os fatos segundo a opinião ou a visão ideológica do autor.

Assim, o que, ao nosso ver, se extrai do cotejo dos variados relatos, é que Marco Aurélio de fato morreu preocupado com a real capacidade ou com o preparo de Cômodo para ser imperador, e desejava que seus amigos orientassem o filho.

E de fato, os receios de Marco Aurélio quanto à aptidão do filho logo se mostraram justificados:

Em pouco tempo, Cômodo, contrariando o conselho dos amigos de Marco Aurélio, resolveu interromper a campanha contra os bárbaros germânicos e voltou para a Cidade de Roma, onde ele se entregou a uma vida de orgias e à sua paixão pelas lutas de gladiadores. Os assuntos governamentais foram deixados à cargo de seus auxiliares, principalmente seu camareiro, o liberto Saoterus.

Busto de Cômodo, retratado como Hércules. Foto: Capitoline Museums, Public domain, via Wikimedia Commons

Em 182 D.C, entre o segundo e o terceiro ano de seu reinado, Cômodo foi alvo de uma tentativa de assassinato, em uma conspiração da qual a sua irmã Lucilla fez parte, juntamente com alguns senadores, como veremos adiante. No processo de punição aos conspiradores, Saoterus acabou sendo implicado na trama pelo novo Prefeito Pretoriano, Sextus Tigidius Perennis, e assassinado pelo novo camareiro e homem de confiança de Cômodo, o liberto Cleander.

A partir de então, Cômodo deixou de vez às rédeas do governo nas mãos de Cleander e Perennis, que estimularam mais ainda a desconfiança do imperador em relação ao Senado.

O CÔMODO GLADIADOR

Para o leitor que nunca leu sobre a História de Roma, a parte do enredo que talvez pareça mais inverossímil é a de que um imperador romano tenha combatido como gladiador no Coliseu, mas isto realmente aconteceu.

Mesmo assim, o fato do imperador Cômodo ter lutado na arena foi objeto de espanto para os seus contemporâneos e para os historiadores antigos: afinal, a profissão de gladiador era considerada “infamante”, sendo a infamia quase equivalente a uma capitis diminutio (isto é, uma condição que limitava a capacidade civil das pessoas) e aplicável aqueles que praticassem alguma ação ou tivessem alguma profissão, socialmente consideradas como ignomínias (“ignominiosae“), como por exemplo, o fato de ter sido condenado por furto, roubo, bigamia, etc, ou exercício de certas atividades, como a prostituição, a profissão de gladiador e até mesmo a de comediante. Assim, as pessoas consideradas infames não podiam, por exemplo, exercer certos cargos públicos, nem representar alguém em juízo e seu testemunho em juízo tinha valor inferior.

Mosaico Zliten, de Leptis Magna, atual Líbia, mostrando vários tipos de gladiadores e o árbitro das lutas. Foto: By Unknown author – Livius.org, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=3479030

Entretanto, os relatos dos historiadores variam em poucos detalhes em relação à dimensão da atuação de Cômodo, enquanto gladiador:

Vejamos o relato de Herodiano:

“E agora, o imperador, deixando de lado toda discrição, tomou parte nos espetáculos públicos, prometendo matar com suas próprias mãos animais selvagens de todo tipo e lutar em combates gladiatórios contra os jovens mais valentes. Quando essas novas tornaram-se conhecidas, pessoas de toda a Itália e das províncias vizinhas afluíram a Roma para testemunhar o que ninguém até então havia visto ou até mesmo ouvido falar anteriormente.

(…)

No que concerne a estas atividades, entretanto, mesmo se a conduta dele dificilmente pudesse ser considerada apropriada para um imperador, ele ganhou a aprovação da massa pela sua coragem e boa pontaria. Porém, quando ele adentrou o Anfiteatro (Coliseu) nu, empunhando armas e lutando como gladiador, o povo testemunhou um espetáculo vergonhoso: um imperador dos Romanos, de nascimento nobre, cujos pais e antepassados tinham vencido tantas batalhas, entrando no campo de batalha não contra bárbaros ou inimigos dignos dos Romanos, mas desgraçando a sua alta posição mediante exibições degradantes e desagradáveis.”

Herodiano, 1.15.1

O relato de Cássio Dião, por sua vez, é um pouco mais detalhado:

“Além disso, ele costumava combater como um gladiador; e, fazendo isso em sua casa, de tempos e tempos, ele matava um homem, e, ao treinar golpes com outros, tentando cortar um tufo dos cabelos deles, decepou os narizes de uns e as orelhas de outros, e ainda, partes variadas de outros mais; porém, em público, ele se absteve de usar o aço para derramar sangue humano.

(…)

No primeiro dia, ele matou sozinho uma centena de ursos, acertando-os com dardos a partir da balaustrada do Anfiteatro; porque todo o anfiteatro tinha sido dividido por meio da interseção de dois muros cruzados que suportavam a galeria que percorria toda a sua extensão, com o propósito de que as feras, divididas em quatro matilhas, pudessem ser mais facilmente atingidas com a lança de curta distância de qualquer ponto.

(…)

Então, no primeiro dia, os eventos que eu descrevi ocorriam. Nos outros dias ele descia da arena do seu palanque e abatia todos os animais domésticos que se aproximavam dele e também outros que eram levados a ele em redes. Ele matou também um tigre, um hipopótamo e um elefante. Tendo concluído esses feitos, ele se retirava, mas à tarde, depois de almoçar, ele lutaria como gladiador. A modalidade de luta que ele treinava e a armadura que ele usava eram aquelas dos secutores, como eles eram chamados: ele segurava o escudo em sua mão direita e a espada de madeira na sua esquerda, e de fato ele tinha muito orgulho de ser canhoto. O seu adversário seria algum atleta ou, incidentalmente, um gladiador armado com uma vara; algumas vezes, alguém que ele mesmo havia desafiado, outras vezes, algum escolhido pelo povo, pois nisto, assim como em outras questões, ele se colocava no mesmo plano em relação aos demais gladiadores, exceto pelo fato de que estes eram selecionados para atuar por uma quantia bem pequena, enquanto Cômodo recebia um milhão de sestércios pagos pelo Fundo Gladiatório por cada dia.”

Cassius Dio, Epítome do Livro LXXIII

E, finalmente, a versão relatada pela Historia Augusta:

“Ele combateu na arena contra gladiadores inexperientes, mas, às vezes, contra seus camareiros, atuando como gladiadores, usando espadas afiadas.

(…)

Ele participou de combates gladiatórios, e adotou os nomes geralmente dados aos gladiadores com tanta satisfação como se a ele tivessem sido dados ornamentos triunfais. Ele regularmente tomava parte nos espetáculos, e ordenava que esses fatos fossem inscritos nos registros públicos, tantas quantas fossem as vezes que ele o fazia. Conta-se que ele participou de 735 lutas de gladiadores.”

Historia Augusta, “Life of Commodus”, 5, 5

Portanto, os relatos dão conta de que Cômodo, no Coliseu, geralmente participava de combates com espadas de madeira (rudis), ou seja, espadas de treinamento, apresentando-se como secutor (um tipo de gladiador que lutava com um gládio pequeno ou uma adaga e escudo, tendo um dos braços protegidos por uma manica, que era uma proteção de placas de metal circulares e articuladas, presas a tiras de couro, cobrindo o braço e o antebraço, e a cabeça por um elmo ornamentado) e, ocasionalmente, quando os combates eram para valer, ele lutava com espadas de verdade, enfrentando gladiadores inexperientes ou até mesmo seus próprios servos, indicando nestes casos, que provavelmente tratavam-se de lutas arranjadas. Considerando que os secutores vestiam apenas uma subligaculum (ou seja, roupa de baixo, mais especificamente, uma espécie de cueca atada como se fosse um fraldão), o que era inadmissível para um romano distinto fazer em público, não espanta que Herodiano tenha escrito que Cômodo apresentava-se “nu” na arena.

O gladiador da direita é um secutor, o tipo preferido por Cômodo. (foto This site, Public domain, via Wikimedia Commons)

Segundo Cássio Dião, o próprio Marco Aurélio, nos espetáculos em que este imperador comparecia (e portanto, ainda que não os tivesse patrocinado, ele seria considerado como o Editor, isto é, a pessoa que oferecia e pagava o espetáculo, e portanto, determinava quais seriam as regras, inclusive, se os gladiadores lutariam até a morte e, neste caso, se o perdedor seria poupado), exigia que os atletas lutassem usando armas com as pontas protegidas, para que não houvesse derramamento de sangue (Cássio Dião, Epítome, Livro LXII, 29). Aliás, este fato assinala outra pequena impropriedade do roteiro, pois, no filme, ouvimos Proximo, dizer, em um diálogo com Maximus, que Marco Aurélio tinha proibido os jogos de gladiadores em Roma, o que, como se vê, não corresponde aos fatos.

MORTE DE CÔMODO

Cômodo foi assassinado em 31 de dezembro de 192 D.C., por um lutador. Todavia, ao contrário do que poderia parecer por esta curta descrição, isto ocorreu de maneira bem diferente daquela que é retratada no filme. Como não há divergência entre os relatos dos historiadores antigos, vamos deixar de transcrever as passagens, e apenas relatar como ocorreu o evento.

O absenteísmo de Cômodo pelas tarefas governamentais, seu crescente despotismo e a paixão desmedida pela profissão de gladiador tornaram seu comportamento imprevisível e ameaçador até mesmo para seus auxiliares e pessoas mais íntimas, os quais tentavam dissuadi-lo de atos cada vez mais tresloucados.

Assim, após ter sido aconselhado por sua amante, Márcia, pelo Prefeito Pretoriano, Emílio Leto e por seu camareiro, Ecletus, a não comparecer à sessão de abertura anual do Senado Romano vestido como gladiador e acompanhado de outros gladiadores, conforme desejo que ele havia manifestado Cômodo, contrariado por esses apelos, resolveu decretar a morte dos três, escrevendo a ordem para a execução em uma tabuleta de cera.

Porém, enquanto tomava banho, um dos seus favoritos, um menino que tinha o sugestivo nome de Philocommodus (em grego, “aquele que ama Cômodo”), pegou a tabuleta e a mostrou a Márcia, que imediatamente, percebeu do que se tratava e avisou aos dois auxiliares, também condenados.

Então, os três resolveram assassinar Cômodo antes que ele tivesse a chance de matá-los. Márcia se encarregou de arrumar um veneno e servi-lo a Cômodo misturado em uma taça de vinho. Porém, ao ingerir a bebida, após terminar o seu banho, o imperador começou a se sentir mal, e acabou vomitando o veneno. Temerosos de que Cômodo logo descobriria a causa do seu mal estar, os três conspiradores abordaram Narcissus, que era um jovem lutador (provavelmente de pancratium, uma luta que pode ser considerada como precursora da atual MMA) que treinava com Cômodo no Palácio e o subornaram para que ele desse cabo ao imperador. Assim, Narcissus aceitando o encargo, adentrou os aposentos de Cômodo e o estrangulou, sem dificuldade. O imperador tinha, então, 31 anos de idade.

Para saber mais sobre as vidas e os reinados de Marco Aurélio e Cômodo, recomendamos a leitura do nosso artigos sobre esses imperadores (é só clicar nos seus nomes).

B) LUCILLA

Personagem feminina principal do filme, Lucilla é a irmã de Cômodo e ela aparece no filme como a filha predileta de Marco Aurélio, de quem ela compartilha os ideais. De acordo com o roteiro, Lucilla, antes ou depois de ficar viúva de seu marido, Lúcio Vero, manteve um caso de amor com o principal general de seu pai, Maximus. Segundo o enredo, percebendo as intenções tirânicas de Cômodo, Lucilla resolve colaborar com influentes senadores que se opunham ao reinado de seu irmão, e tramam restaurar a República. Ela também é alvo de investidas com fins libidinosos de Cômodo, mas deixa de resistir de maneira mais enfática por medo de que o irmão possa fazer mal ao seu filho, Lucius. No filme, Lucilla é interpretada pela atriz Connie Nielsen, em atuação primorosa.

Estátua de Lucilla, retratada como a deusa Ceres. Foto: Bardo National Museum, Public domain, via Wikimedia Commons

Na vida real, Lucilla, cujo nome completo era Annia Aurelia Galeria Lucilla, de fato era a irmã mais velha de Cômodo e efetivamente ela se casou com Lúcio Vero, que foi aclamado imperador junto com Marco Aurélio, em 161 D.C (o casamento foi celebrado em 164 D.C., ocasião em que ela tinha entre 14 e 16 anos de idade), e o casamento durou até ele morrer vitimado por uma doença, em 169 D.C. Em consequência de seu casamento com Lúcio Vero, Lucilla recebeu o título de Augusta (Imperatriz), a posição máxima que uma mulher romana poderia aspirar na sociedade patriarcal romana, e todos os privilégios associados a esta posição.

Lucilla e Lúcio Vero tiveram três filhos: Aurelia Lucilla, Lucilla Plautia e Lucius Verus, mas a mais velha e o caçula morreram ainda crianças, e somente Lucilla Plautia parece ter alcançado a idade adulta.

O imperador Marco Aurélio, após a morte de Lúcio Vero, decidiu que sua filha viúva deveria casar de novo, e ele escolheu para ser o novo marido de Lucilla, o general Tiberius Claudius Pompeianus, um de seus auxiliares mais próximos, que comandara com sucesso as legiões da província romana da Panônia, no norte do Império, e que também derrotara invasões dos bárbaros germânicos Lombardos e Marcomanos.

O casamento com Lucilla, sem dúvida, foi uma honra imensa para Pompeianus, que era um cidadão oriundo da ordem equestre e nativo de Antióquia, na Síria, mas que, devido aos seus méritos militares, combatendo sob as ordens de Lúcio Vero na campanha contra os Partas, havia ascendido ao Senado (o que o tornava um integrante da nobreza, embora na condição de novus homo – “homem novo” – isto é, alguém que não tinha ascendentes que tivessem sido senadores) e sido nomeado Cônsul Suffectus, em 162 D.C. (o Cônsul Suffectus era designado para atuar por um período inferior a um ano, na falta do Cônsul Ordinário). Posteriormente, em 173 D.C, Pompeianus seria nomeado Cônsul Ordinário.

Entretanto, embora Pompeianus, então, na oportunidade tivesse um status social elevado, este era ainda bem inferior ao de Lucilla, que era filha e descendente de imperadores, situação que desagradou tanto a noiva como a sua mãe, segundo podemos ver nesta passagem da Historia Augusta:

“Justo antes de partir para Guerra Germânica, e antes que o período de luto tivesse terminado, ele (Marco Aurélio) casou sua filha com Claudius Pompeianus, o filho de um Equestre, e já avançado em anos, um nativo de Antióquia, cujo nascimento não era suficiente nobre (embora depois, Marco Aurélio o tenha feito Cônsul duas vezes), uma vez que a filha de Marco Aurélio era uma Augusta e filha de outra Augusta. De fato, tanto Faustina quanto a jovem que foi dada em casamento se opuseram a esta união.”

(Historia Augusta, Life of Marcus Aurelius, 20)

Além disso, Pompeianus, na ocasião do casamento, tinha cerca de 44 anos de idade, enquanto que Lucilla tinha por volta de 21 anos…

Porém, Marco Aurélio tinha boas razões para unir Lucilla a Pompeianus.

Com efeito, quando Lúcio Vero morreu, seu único filho sobrevivente do sexo masculino era Cômodo, mas que tinha apenas 8 anos de idade. Marco Aurélio com toda a certeza entendeu que, caso ele morresse (uma possibilidade nada desprezível, tendo em vista a Peste que grassava no Império), o risco de que algum pretendente ambicioso liderasse uma revolta reclamando o trono era considerável e a melhor garantia para aumentar as chances de seu jovem filho conseguir ser imperador era trazer um general respeitado para o seio da família, considerado o mais leal e confiável possível à dinastia (o que de fato, Pompeianus provaria ser). Observe-se que o primeiro imperador,Augusto, experimentara exatamente este mesmo dilema em relação a dois de seus únicos descendentes de sangue sobreviventes, os infantes Caio e Lúcio César, obrigando-o a casar sua filha Júlia com seu amigo Agripa, também de classe social inferior, mas um comandante respeitado. Dentro dessa mesma lógica, Marco Aurélio confiava que se Pompeianus (assim como Agripa) reinasse, ele reinaria em conjunto com Cômodo ou seria sucedido por este) .

A diferença de idade entre os cônjuges, contudo, não impediu que eles tivessem um filho: por volta de 176 D.C, Lucilla deu a luz a um menino, que recebeu o nome de Lucius Aurelius Commodus Pompeianus.

O historiador Herodiano dá a entender que Marco Aurélio permitiu que Lucilla mantivesse alguns dos privilégios inerentes ao status de imperatriz após a morte de Lúcio Vero, não obstante sua esposa Faustina, a Jovem, a mãe de Lucilla, fosse, desde então, a única Augusta (Imperatriz). Entretanto, conforme já mencionamos, em 177 D.C, Marco Aurélio decidiu que era já hora de nomear Cômodo co-imperador, dando-lhe o título de Augusto, reforçando a posição do filho como seu sucessor natural.

Naturalmente, a elevação de Cômodo afetou diretamente as expectativas que Lucilla pudesse acalentar quanto às chances de seu marido, Pompeianus, vir a suceder Marco Aurélio, e, com isso, ela se tornar novamente a imperatriz-consorte. E quaisquer anseios neste sentido restaram ainda mais enfraquecidos quando, em 178 D.C, seu irmão Cômodo casou-se com a rica aristocrata Bruttia Crispina, que imediatamente recebeu o título de Augusta, tornando-se a única imperatriz romana, tendo em vista que Faustina, a Jovem, morrera em 175 D.C.

Ao contrário do que é retratado no filme, as fontes antigas dão a entender que a verdadeira Lucilla, do mesmo modo que o seu irmão Cômodo, tinha graves falhas de caráter.

Assim, após a morte do pai, e constatando a inaptidão do irmão para governar, a sua ambição e o seu ciúme e orgulho ferido pela posição inferior à da nova imperatriz Bruttia Crispina impeliram Lucilla a participar ativamente da conspiração que, em 182 D.C, tentou assassinar Cômodo.

A conspiração envolveu diretamente familiares e pessoas próximas à Lucilla, como a sua filha Plautia, mas também vários senadores, e o seu objetivo final era assassinar Cômodo e substituí-lo no trono por Tiberius Claudius Pompeianus, o marido de Lucilla, que com isso voltaria à almejada posição de Imperatriz. Segundo o relato de Herodiano, Lucilla instigou seu primo, Marcus Ummidius Quadratus Annianus, de quem ela supostamente seria amante, a dar andamento ao plano. Este, por sua vez, persuadiu um certo Quintianus, jovem senador que seria sobrinho, ou mesmo filho do primeiro casamento de Pompeianus, a ser o executor da trama. Segue o relato:

“Porém, quando Cômodo desposou Crispina, o costume exigia que o primeiro assento no Teatro fosse reservado para a Imperatriz. Lucilla teve dificuldade em suportar isso, e sentia que todas as honras devidas à Imperatriz eram um insulto para ela; No entanto, considerando que ela sabia bem que o seu marido Pompeianus era muito devotado a Cômodo, ela não contou nada a ele sobre os planos dela de tomar o controle do Império. Em vez disso, ela testou os sentimentos de um jovem e rico aristocrata, Quadratus, com quem havia boatos de que ela estivesse dormindo em segredo. Queixando-se constantemente acerca desses assuntos de precedência imperial, ela logo persuadiu o o jovem a dar andamento a conspiração que trouxe destruição sobre si mesma e sobre todo o Senado.”

Herodiano, 1.8.4

Planejou-se, então, que Quintianus, valendo-se de uma adaga escondida sob sua toga senatorial, atacaria Cômodo na ocasião mais propícia. E a ocasião e o local escolhidos foram um dia de espetáculo no Coliseu.

No dia escolhido, Quintianus esperou que Cômodo adentrasse uma passagem onde a luz era escassa, esperando valer-se da escuridão tanto para facilitar a abordagem ao imperador, como a sua fuga. Porém, quando o imperador se aproximou, o jovem, antes de desferir os golpes, resolveu dizer a frase: “Eis a adaga que o Senado vos envia“, alertando os guardas pretorianos, que rapidamente pularam sobre ele e o prenderam.

Com o fracasso do atentado, Quintianus e Quadratus foram imediatamente executados e Lucilla e sua filha foram banidas para a ilha de Capri. Entretanto, antes que o ano de 182 acabasse, Cômodo resolveu mandar executar a irmã e enviou um centurião até a ilha, o qual deu cabo da tarefa e jogou o corpo de Lucilla no mar. Plautia foi poupada.

Surpreendentemente, Tiberius Claudius Pompeianus também foi poupado, dando suporte à versão de Herodiano de que ele, a quem a esposa e os demais conspiradores tencionavam que substituísse Cômodo, ignorava completamente a trama.

Vale citar que Pompeianus foi um dos amigos presentes no leito de morte do pai de Cômodo, aqueles aos quais o moribundo Marco Aurélio pediu que protegessem e guiassem o filho com bons conselhos. Extrai-se do relato dos dias que se seguiram à morte do velho imperador, isto é, os primeiros do reinado de Cômodo, que este ouvia e respeitava Pompeianus, e, seja porque o jovem monarca confiava nele, seja por temer o prestígio dele ou por amor à memória do pai, o fato é que Pompeianus sobreviveu ao próprio Cômodo, morrendo por volta de 193 D.C, quando já tinha quase 70 anos. Inclusive, Pompeianus também entraria para a História Romana, como tendo sido até então a única pessoa que por três vezes teria recusado o trono, que também lhe foi oferecido pelos imperadores Pertinace e Dídio Juliano.

Para finalizar, é altamente improvável que Cômodo tenha tentado se insinuar sexualmente para Lucilla, como aparece no filme. Ela era entre 11 e treze anos mais velha que o irmão. Quando o pai de ambos morreu, ela tinha entre 30 e 32 anos de idade e Cômodo tinha 18 anos.

Assim, falamos sobre os três personagens importantes do filme que realmente existiram. Vamos agora abordar o principal personagem que, contudo, é fictício.

C) MAXIMIS DECIMUS MERIDIUS

Sim, prezado leitor, provavelmente você já sabia disto, mas, caso ainda não saiba, o carismático personagem tão bem interpretado por Russell Crowe jamais existiu.

Para começar, o próprio nome Maximus Decimus Meridius não corresponde ao padrão de nomes adotado pelos romanos: Maximus não era um prenome, mas um cognome, que costumava vir por último, atribuindo uma qualidade ao nomeado, que no caso em questão, seria traduzido como “o maior” ou “enorme”, embora ao longo do tempo tenha virado o sobrenome de algumas famílias romanas ilustres. Assim, o nome correto do nosso herói, de acordo com as convenções romanas seria : Decimus Meridius Maximus, sendo que “Decimus” era um prenome que originalmente significava que alguém seria o décimo filho de determinada pessoa, mas no decorrer da existência de Roma, acabou virando um prenome comum (o mesmo ocorrendo com “Tertius“, “Quintus“, “Sextus” e “Septimus“, por exemplo). Por sua vez, o nome do meio “Meridius“, que seria o nome da gens, ou clã familiar ancestral, a qual o nosso personagem pertenceria, não tem registro nas fontes, sendo provavelmente inventado pelos roteiristas. Traduzido do latim, significaria algo como “do sul”.

IV- A VIDA E A CARREIRA DE MAXIMUS, COMO RETRATADAS NO FILME, SERIAM PLAUSÍVEIS?

Cartaz do filme em baixa resolução, Source: https://en.wikipedia.org/wiki/File:Gladiator_(2000_film_poster).png

É praticamente consenso que o Cônsul e genro do imperador Marco Aurélio, o já mencionado Tiberius Claudius Pompeianus, foi a principal figura histórica que inspirou a personagem Maximus Decimus Meridius, protagonista do roteiro do filme Gladiador.

Vamos às semelhanças:

1) Pompeianus era nativo da rica província da Síria, e, sendo filho de um integrante da classe Equestre (abaixo da classe senatorial), embora sua família pudesse ter dinheiro, isso não lhe assegurava ascensão aos cargos mais importantes do Império. Maximus era oriundo da também próspera província romana da Hispania Lusitania (cuja capital era Emerita Augusta, a atual Mérida, na Espanha), onde ele tinha sua propriedade, ou então das vizinhas Hispania Baetica ou Hispania Tarraconensis), e, da maneira que ele é retratado no filme, também deve ter vindo de uma família relativamente afluente, provavelmente também sendo originalmente um Equestre.

2) Ambos ascenderam socialmente graças a uma carreira militar de sucesso, e chegaram a ser cotados para se tornarem imperadores, sendo que Pompeianus foi nomeado Cônsul pela primeira vez quando tinha cerca de 37 anos, como recompensa pelo desempenho na Guerra contra os Partas. Quando Marco Aurélio morreu, Pompeianus tinha cerca de 55 anos. Podemos estimar a idade de Maximus, na ocasião da morte do imperador, entre 35 e 40 anos de idade (Russell Crowe tinha 36 anos quando o filme foi produzido, e é altamente improvável que alguém atingisse a posição de Maximus antes de completar 35 anos, naquele tempo, em Roma).

3) Os dois personagens, o real e o fictício, ganharam o reconhecimento do imperador Marco Aurélio, de quem se tornaram amigos. Pompeianus casou-se com Lucilla, filha do imperador, após a morte do marido dela, Lucius Verus, e por algum tempo, ainda que de maneira não expressa, ele chegou a ser considerado como sucessor no trono, com o consentimento de Marco Aurélio (consta que este chegou a propor isto ao genro). Já no filme, Maximus não foi casado com Lucilla, mas teve um caso com ela, embora o filme dê a entender que isto tenha ocorrido antes dela se casar.

4) Quando Marco Aurélio morreu, em 180 D.C, no final da campanha contra os Marcomanos no Danúbio, Pompeianus, que era o comandante militar da mesma, estava entre os amigos a quem o imperador moribundo pediu que orientassem o filho Cômodo no comando do Império. Maximus também atingiu alto posto militar, tendo o posto, também fictício, de “Comandante dos Exércitos do Norte“, que, no enredo do filme, também equivaleria ao comando supremo daquela mesma campanha.

5)Maximus, assim como Pompeianus, é um dos poucos amigos chamados por Marco Aurélio para comparecerem ao seu leito de morte, onde Maximus recebe a notícia de que ele será o sucessor, mas com a incumbência de devolver o poder ao Senado. Como vimos, por algum tempo, Marco Aurélio considerou a possibilidade de Pompeianus ser o seu sucessor, embora o tenha feito vários anos antes de sua morte, e com o propósito de assegurar que Cômodo um dia pudesse reinar.

Por sua vez, a fuga, sobrevivência, desaparecimento e mudança de identidade de Maximus como aparecem no filme podem parecer fantasiosas, mas os historiadores romanos por vezes relataram algumas histórias reais semelhantes…Uma que se aproxima bastante de uma trama de Hollywood é a de Sextus Condianus, filho de Sextus Quinctilius Valerius Maximus, que era um senador riquíssimo e muito influente até ser condenado à morte por Cômodo, junto com seu irmão Sextus Quinctilius Condianus, tendo ambos sido Cônsules no ano de 151 D.C. Aliás, talvez (não sabemos) a escolha do nome do personagem do filme tenha sido inspirada por este episódio.

Segundo o relato de Cássio Dião, o Sextus Condianus, filho, ao saber que também havia sido sentenciado à morte por Cômodo junto com seu pai e seu tio, também conseguiu escapar de uma maneira quase tão mirabolante quanto nosso Maximus:

“Sextus Condianus, o filho de Maximus, que superou todos os outros em virtude tanto de sua habilidade inata como de seu treinamento, quando ouviu que a sentença de morte tinha sido pronunciada contra ele também, bebeu o sangue de uma lebre (ele estava morando na Síria na época), e depois montou em uma cavalo, caindo dele de propósito; em seguida, ele vomitou o sangue, que supostamente seria o dele, sendo erguido, aparentemente em vias de morrer, e carregado até o seu quarto. Então, ele mesmo desapareceu, enquanto o corpo de um carneiro foi colocado no seu lugar em um caixão, onde foi cremado. Depois disso, ele vagou por aqui e acolá, constantemente trocando de aparência e de roupas. E quando a sua estória veio à tona (porque é impossível que tais assuntos fiquem ocultos por muito tempo), ele foi procurado diligentemente de cima a baixo. Muitos foram punidos em seu lugar, por conta da semelhança com ele, e também muitos outros que, supostamente teriam lhe dado abrigo em algum lugar; e mais ainda, pessoas que talvez jamais o tenham visto tiveram suas propriedades confiscadas. Mas ninguém sabe se ele realmente foi morto – embora um grande número de cabeças que supostamente seriam a dele tenham sido levadas à Roma – ou se ele conseguiu escapar. Entretanto, outro homem, após a morte de Cômodo, audaciosamente alegou ser Sextus e tentou recuperar a sua riqueza e status. E ele bravamente interpretou esse papel, embora sendo muito questionado por várias pessoas; no entanto, quando Pertinace lhe indagou algo sobre assuntos gregos, com os quais Sextus tinha sido bem familiarizado, ele mostrou o maior embaraço, sendo incapaz até de entender a pergunta. Assim, embora a natureza o tenha feito semelhante a Condianus em aparência, e o treino em outros aspectos, no entanto ele não compartilhava a sua instrução.”

Cassius Dio, Epítome do Livro LXXIII (LXXII), 6

 

E agora, vamos falar sobre as principais inconsistências e inverossimilhanças do roteiro:

1) Embora não seja uma parte fundamental para a trama do filme, vamos começar pela impressionante cena inicial: A batalha na floresta contra os bárbaros germânicos.

O Exército Romano inicia o combate com uma carga de artilharia de onagros, isto é, uma espécie de catapulta que arremessa pedras ou outros materiais pesados, em direção à floresta onde os inimigos estão escondidos. No caso, os projeteis são uma espécie de granada incandescente, com o objetivo de incendiar a floresta.

Ocorre que não há registro do uso desse tipo de arma em batalhas campais. Onagros eram utilizados em sítios ou cercos a muralhas ou posições fortificadas. As máquinas de guerra que os romanos utilizavam em um campo aberto de batalha contra os inimigos eram a ballista e o “escorpião” (scorpio), que atiravam dardos pesados ou pedras, mas não visando uma trajetória parabólica para ultrapassar defesas, e sim um impacto direto e preciso contra alvos. Além disso, vemos que no filme, logo em seguida à barragem de artilharia, o Exército Romano penetra na floresta ainda em chamas, o que, no mínimo, seria uma grande idiotice.

Um onagro romano (foto: Dayot, Armand. Le moyen âge: la Gaule romaine, les invasions, la France féodale, la royauté. (Paris Flammarion 1911), Public domain, via Wikimedia Commons)
Um “escorpião”, em relevo da Coluna de Trajano. Foto: Attributed to Apollodorus of Damascus, Public domain, via Wikimedia Commons
Uma ballista reconstruída. Foto : Rolf Krahl, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

2) Vamos abordar agora um episódio fundamental na vida de Maximus, que é altamente improvável da forma que se vê no filme, bem como juridicamente impossível de acordo com o Direito Romano do período, a não ser que fossem inseridas algumas circunstâncias, que em nenhum momento são mostradas:

Como já mencionamos, e pode ser visto na tela, após conseguir escapar de seu assassinato pelos pretorianos, ainda na Panônia, Maximus, ferido, cavalga até a sua fazenda, na Hispania Lusitania (que ficava a cerca de 2.600 km, em um trajeto terrestre que levaria mais de 40 dias, no mínimo, isso usando-se o Correio Imperial em sua velocidade máxima), apenas para encontrar os cadáveres da esposa e do filho, aparentemente recém mortos.

Maximus então desfalece e é recolhido, agonizante, por mercadores de escravos que se dirigem à província da Mauritania Caesariensis (localizada na atual Argélia), onde ele é vendido ao lanista (empresário que explora lutas de gladiadores) e ex-gladiador, Proximo.

Pois bem, no Direito Romano Clássico (que abrange o período do reinado de Cômodo), as causas de escravidão, ou seja, aquelas pelas quais um ser humano nascia ou se tornava escravo estavam previstas no ius gentium (lit. “Direito das Gentes”, aquele reconhecido pelos romanos como praticado por – e aplicável a – todos os povos) e no ius civile (direitos instituídos diretamente por Roma, e reconhecidos apenas aos cidadãos romanos).

De acordo com o ius gentium, as duas causas de escravidão eram o nascimento (ter nascido como filho de escrava) e a captura na guerra por um inimigo (ou na paz, caso Roma não tivesse tratado de amizade com o Estado ou povo do qual o escravo era oriundo).

Já com base no ius civile, tornavam-se escravos: a) o condenado a morte ou a trabalhos forçados nas minas; b) a mulher livre amante de um escravo, que, notificada três vezes pelo proprietário do escravo para que cessasse a prática, continuasse a manter relações sexuais com este; c) o homem livre, maior de 20 anos, que, fingindo ser escravo, combinava a sua venda para outra pessoa com um comparsa, dividindo o preço com este (um tipo de estelionato que, por incrível que pareça, devia ocorrer com alguma frequência); d) o liberto que demonstrasse ingratidão com seu antigo dono.

Na época de Cômodo, já havia caído em desuso, aliás, desde os tempos da República, a figura do addictus, isto é, aquele devedor que, ao não pagar a dívida, poderia ser “adjudicado” ao credor pelo juiz, e, após 60 dias, caso o débito não fosse pago por ele ou outra pessoa, o credor tinha a faculdade de vendê-lo como escravo no estrangeiro ou até matá-lo.

Dito isto, o leitor deve estar se perguntando: “Mas Maximus não foi condenado a morte por Cômodo?”

De acordo com o que se vê no filme, a eliminação de Maximus claramente não se trata da execução legal de uma sentença de morte, mas de um assassinato (por isso ele é levado secretamente até a floresta). Aliás, o fato da mulher e o filho dele terem sido crucificados é um claro indício disto: de acordo com a lei romana, cidadãos romanos não podiam ser crucificados! (Até os Atos dos Apóstolos ecoam essa regra, quando São Paulo informa ao Governador da Síria que é um cidadão romano da cidade de Tarso, e, após apelar ao Imperador (Provocatio ad Princeps), é levado à Roma e afinal executado por decapitação).

A escravidão era um instituição central na sociedade romana, e juízes, juristas e governantes, mesmo nos reinados de imperadores mais absolutistas, observavam criteriosamente a legislação e os costumes aplicáveis ao instituto. Eu estudo sobre Roma há mais de 40 anos e já li incontáveis relatos sobre atos tirânicos e despóticos atribuídos aos imperadores romanos, incluindo assassinatos, estupros, tortura e massacres, mas não me lembro de nenhum caso em que um deles tenha conscientemente escravizado algum cidadão romano livre sem um processo legal.

Desse modo, Maximus não poderia ter sido vendido como escravo a Proximo.

Assim, a forma pela qual Maximus poderia ter se tornado gladiador seria tornando-se um auctoratus, o homem livre que se compromete ao lanista, mediante contrato por juramento (auctoramentum), a lutar como gladiador, consentindo a “se deixar queimar, prender, açoitar, morrer, etc”. Os juristas a consideravam uma forma de “quase-servidão”, que não retirava do gladiador o status de homem livre, mas que impunha graves restrições à sua capacidade jurídica, sobretudo aquelas decorrentes da condição de infame, inerentes a certas profissões, como a de gladiador.

Entretanto, não há no filme qualquer situação que presuma o auctoramentum de Maximus.

3) Mas, finalmente, talvez a maior inverossimilhança de todas no roteiro do filme tenha sido o propósito manifesto de Marco Aurélio de que Maximus devolvesse o poder ao Senado Romano e restaurasse a República…

Segundo os textos históricos, especialmente os relatos dos historiadores Cássio Dião, Flávio Josefo e Suetônio, a última vez em que isso chegou a ser cogitado seriamente foi em 41 D.C (140 anos antes dos eventos mostrados no filme), após o assassinato do imperador Calígula.

Os guardas pretorianos que mataram Calígula, após encontrarem o tio deste, Cláudio, escondido atrás de uma cortina, o levaram para o quartel da Guarda e o aclamaram imperador.

Cláudio, sincera ou fingidamente, tentou recusar a púrpura imperial, mas acabou cedendo à pressão dos guardas, aceitou. Porém, alguns senadores, especialmente Sentius Saturninus, que fez no Senado um discurso neste sentido, e, até mesmo, alguns outros pretorianos, cogitaram acabar com o Principado e restaurar a República Romana, tal como ela era nos tempos anteriores aos Césares.

Consta até que o Senado, com o objetivo de enfrentar os partidários de Cláudio, chegou a mobilizar na oportunidade os parcos recursos armados que a cidade de Roma dispunha. Porém, este contingente, composto apenas por alguns soldados, vigiles (bombeiros), gladiadores e, mesmo, escravos libertos dos senadores, logo debandou para o lado dos Pretorianos que apoiavam Cláudio.

Esse estado de indefinição entre a aclamação de Cláudio e a restauração da democracia, segundo Suetônio, durou dois dias, ao final dos quais o historiador narra  que teria ocorrido uma crucial intervenção de uma massa de populares gritando pela elevação de Cláudio, que também teria prometido quinze mil sestércios como donativo aos soldados que o aclamaram imperador.

E de fato, em vários outros episódios da Roma Imperial, restaria evidente que a plebe preferia ser governada pelos príncipes em vez dos senadores…

V- CONCLUSÃO

O filme Gladiador é um excelente filme épico sobre a época da Roma Antiga. Como toda superprodução de Hollywood, o roteiro algumas vezes se desvia dos fatos históricos e faz concessões ao drama e ao espetáculo, mas se você chegou até aqui, pôde constatar que ele nem é tão inverossímil e muitas das façanhas e vicissitudes vividas por Maximus e os demais personagens de fato aconteceram ou, ao menos, poderiam ter acontecido como no filme.

Aliás, para nós que amamos o filme, temos uma boa notícia: a estreia de Gladiador 2 esta prevista para novembro de 2024, com Russell Crowe no elenco e novamente dirigido por Ridley Scott!

FIM

Fontes:

Maximus Decimus Meridius

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CESARION – O ÚLTIMO FARAÓ

Em 23 de junho de 47 A.C. nasceu Ptolemaios XV Philopator Philometor Caesar (Cesarion), filho de Cleópatra VII, rainha do Egito, e, segundo a mesma declarou, e foi aceito por várias fontes antigas, de Caio Júlio César, Ditador da República Romana. O nome significa, em grego, “Ptolemeu, filho amado de seu pai, filho amado de sua mãe, César“.

Caesarion

(Acredita-se que esta cabeça de estátua, encontrada no fundo do mar na baía de Alexandria, retrate Cesárion)

Cesárion, como o menino ficaria conhecido, muito provavelmente foi o fruto do relacionamento amoroso que Júlio César manteve com Cleópatra, após o primeiro ter invadido o Egito, intervindo em favor da jovem rainha na disputa sucessória que esta travava pelo trono contra seu irmão, Ptolomeu XIII (e que também, de acordo com o costume faraônico, era marido dela).

Considerando que César, em seguida ao assassinato de seu rival Pompeu, chegou à Alexandria no início de outubro de 48 A.C., Cesárion deve ter sido concebido no primeiro encontro (ou alguns dias depois entre César e Cleópatra, quando, de acordo com o relato do historiador antigo Plutarco, a jovem rainha, iludindo os guardas, conseguiu penetrar no palácio onde César se encontrava, escondida dentro de um tapete enrolado.

Cleopatra_and_Caesar_by_Jean-Leon-Gerome

Vale citar que Suetônio menciona ter lido alguns autores gregos que afirmavam que Cesárion lembrava bastante César em aparência e postura.

Embora César nunca tenha reconhecido oficialmente o menino, em 46 A.CCleópatra e Cesárion foram viver em Roma durante dois anos, hospedados em uma casa de campo de César, até que o Ditador foi assassinado nos idos de março de 44 A.C. Todavia, em seu testamento, César reconheceu Caio Otávio, que era o seu sobrinho-neto, como seu herdeiro e sucessor político, adotando-o, (em virtude disso, Otávio passou a ser conhecido como Caio Júlio César Otaviano). A respeito de Cesárion, porém, o Ditador não escreveu nenhuma palavra.

Como era previsível, Cleópatra e Cesárion voltaram para Alexandria e, em 2 de setembro de 44 A.C., o menino foi coroado Faraó e co-governante do Egito pela mãe.

Denderah3_Cleopatra_Cesarion.jpg

(Relevo no Templo de Dendera, no Egito, retratando Cléopatra e Cesárion como faraó)

A História só volta a mencionar Cesárion novamente em 34 A.C., quando o Triúnviro Marco Antônio  e sua companheira Cleópatra, estabelecem as chamadas “Doações de Antióquia“, doando territórios do anitgo Império Selêucida e na Pártia aos filhos de Cleópatra, incluindo Cesárion, fruto da união dela com Júlio César, e Alexandre Helios e Cleópatra Selene, frutos da união de Cléopatra com o próprio Marco Antônio. Isso se dá no contexto da disputa entre Antônio e Otaviano , no prelúdio da Guerra Civil que pôs fim ao segundo triunvirato.

Após a Guerra Civil, com a vitória de Otaviano sobre as forças de Marco Antônio e Cleópatra, em Actium (31 A.C), e Otaviano invadiu o Egito, no ano seguinte. Pouco tempo depois, após seguidas derrotas, depois, deu-se o suicídio de Antônio, seguido pelo da própria Cleópatra. A partir daí, a sorte de Cesárion estava lançada…

Em 30 A.C, o Egito foi anexado como província romana, significando o fim da história egípcia de mais de três mil anos como ente político independente, provavelmente o primeiro Estado que existiu.

Qual foi o fim de Cesárion?

Há um relato do historiador Plutarco de que Cesárion teria sido enviado por Cleópatra à Índia, através da Etiópia, levando um grande tesouro, para escapar da captura pelos Romanos, ressalvando, contudo, que o rapaz teria sido convencido por auxiliares, incluindo seu tutor, Teodoro, a voltar ao Egito, sob a promessa de que ele seria poupado por Otaviano e mantido no trono.

Segundo esse relato, Otaviano teria chegado a hesitar sobre o destino de Cesárion, mas acabou decidindo mandar matá-lo.

de acordo com a versão de Suetônio, em sua fuga, Cesárion foi interceptado pelos soldados de  Otáviano, trazido de volta ao Egito e executado, provavelmente no final de agosto de 30 A.C. O relato é confirmado por Cassius Dio. Neste caso, não teria havido o ardil de fazer o rapaz desistir da fuga.

Vale citar que, conforme narrado por Plutarco, ao mandar executar Cesárion, Otaviano teria seguido um conselho que o filósofo Areius, havia lhe dado:

“Boa coisa não é que haja muitos Césares”…