Em 24 de janeiro de 41 D.C (segundo Suetônio), após três dias de exibições dos Jogos Palatinos em homenagem ao divino Augusto, os quais estavam sendo realizados em um teatro montado no próprio palácio imperial, o Imperador Romano Gaius Julius Caesar Germanicus Augustus Germanicus, a quem o povo chamava, carinhosamente, de Calígula, sentiu-se fatigado e foi incentivado por cortesãos a ir tomar um banho.
Busto de Calígula, Ny Carlsberg Glyptotek. foto de Louis le Grand
Calígula , então, resolveu deixar o teatro e ir para os seus aposentos através de uma passagem subterrânea coberta (criptopórtico), que ligava as referidas áreas e que era privativa para o imperador.
Eram cerca de 15 horas da tarde e o imperador devia estar com fome, pois assistira todas as performances daquele dia sem se ausentar, exibindo-se à vista de todos, rodeado pela sua devotada guarda particular, composta por guerreiros germânicos e que ficou no teatro para vigiar os espectadores.
No caminho, Calígula parou para inspecionar alguns jovens gregos, bailarinos da chamada “dança pírrica”, que se preparavam para se apresentarem no evento, e tinham sido acomodados naquela passagem.
De repente, um velho oficial da guarda pretoriana se aproximou do Imperador…
Era o centurião Cássio Queréa, um veterano e bastante condecorado soldado que inclusive servira sob o comando do pai de Calígula, o adorado general Germânico, 20 anos antes, durante as campanhas romanas na Germânia, ocasião em que Queréa distinguira-se pelos seus atos de bravura, razão pela qual ele conseguiu ingressar e progredir na Guarda Pretoriana, a guarnição militar de Roma e do Palácio Imperial.
Porém, após Calígula ser sagrado imperador e passar a habitar no Palácio, o jovem imperador escolheu Queréa para ser a vítima frequente de suas zombarias e pilhérias:
Neste particular, conta-se que, pelo fato de Queréa ter o timbre de voz fino, Calígula, quando o Centurião estava de sentinela – ocasião em que os escalados deviam, ao iniciar o serviço, perguntar ao Imperador qual seria a senha – escolhia nomes embaraçosos, tal como “Vênus“, só para que Queréa, com seu peculiar timbre feminino, respondesse na frente dos outros, quando a senha fosse exigida.
Uma outra brincadeira que deleitava ao Imperador era quando ele estendia a sua mão para que o veterano centurião beijasse o anel, ocasião em que Calígula, avançava e retirava o punho da boca de Queréa, aludindo a um gesto pornográfico de felação, humilhando o veterano soldado perante os colegas.
Então, naquele dia 24 de janeiro, entretido com os jovens gregos no criptopórtico, Calígula mal olhou para Queréa quando este, como de costume, perguntou-lhe qual seria a senha do dia. Consta que o Imperador respondeu:
E, já com o seu gládio em punho, Queréa desfechou um tremendo golpe entre o ombro e pescoço de Calígula, o qual penetrou até o osso do peito, mas sem atravessá-lo.
Calígula ficou tão perplexo com o ataque que ele sequer gritou ou esboçou qualquer reação, mas apenas se virou, para receber um novo golpe potente, que, desta vez, praticamente arrancou, de uma só vez, a sua mandíbula inferior, a qual ficou pendendo presa apenas por um fiapo de músculo, deixando o seu rosto com o aspecto de uma máscara grotesca.
Somente então o Imperador começou a correr, somente para ser alcançado por outro conspirador, o tribuno Cornélio Sabino, que lhe acertou um golpe de espada no joelho, levando-o ao chão. A partir daí, Queréa, Sabino, o soldado Áquila e provavelmente outros conspiradores começaram a golpear Calígula, já moribundo, inclusive nos genitais. Assim, ele levou 30 golpes, até morrer. Queréa e os cúmplices conseguiram fugir do Palácio, ironicamente, atravessando a casa de Germânico, o finado pai de Calígula, que tinha sido anexada ao Palácio.
O destacamento de guarda-costas pessoais de Calígula, que, como dito, era composto de bárbaros germânicos, quando percebeu que o imperador tinha sido atacado, tomou-se de um frenesi de vingança e começou a matar todos que viam pela frente no Palácio, inclusive um Senador. Eles logo cercaram o teatro e fizeram menção de massacrar todos os espectadores, até alguém informar que o Imperador estava morto, ocasião os seus líderes devem ter pensado que não havia mais nada o que fazer.
Não satisfeito, Queréa mandou um subordinado, chamado Lupus, de volta ao Palácio, para matar Cesônia e a pequena filha de Calígula, que era ainda apenas um bebê. Assim, Cesônia recebeu, resignadamente, um golpe no pescoço. Já a menina teve a cabeça esmagada contra uma parede.
É difícil achar a explicação para a brutal execução de ambos: Obviamente, não poderia haver pretensão alguma de se ocultar a autoria do assassinato do imperador, cometido à luz do dia e com testemunhas. E não havia a menor chance de Cesônia ou a filha assumirem o governo. Eu posso cogitar de dois motivos: Cesônia saberia de algo que poderia arruinar Queréa, ou, talvez até mesmo ela soubesse o nome de outros conspiradores mais ilustres; como também é possível que a esposa do finado Imperador participasse ativamente das humilhações a que Caligula submetia Queréa.
Muitos, porém, acreditam que Queréa pode ter sido cooptado por senadores que queriam restaurar a República, e por isso, visavam eliminar a descendência de Calígula, para que não houvesse sucessores, porém, para que tal propósito fosse bem sucedido, eles teriam que eliminar também outros integrantes da dinastia Júlio-Cláudia, como o jovem Nero, entre outros…
Com efeito, logo após o assassinato, enquanto o Palácio era vasculhado, um pretoriano chamado Gratus encontrouCláudio, que era tio de Calígula e irmão do pai dele, Germânico, escondido apavorado atrás de uma cortina do Palácio. Uma facção dos pretorianos saudou Cláudio, que até então era tido como imbecil, como o novo imperador, e levou-o para o quartel da Guarda. Lá, ele foi reconhecido e aclamado como o novo Príncipe pelo Senado.
Um Novo Imperador 41 AD, tela de Sir Lawrence Alma-Tadema (1871), foto: Lawrence Alma-Tadema, Public domain, via Wikimedia Commons
Nascimento e caminho para o trono
Nascido em 31 de Agosto do ano 12 D.C., em Anzio, Itália, Gaius Julius Caesar Germanicus (Caio Júlio César Germânico), que se tornaria popularmente conhecido como o imperador romano Calígula, era filho deGermanicus Julius Caesar, cognominado “Germânico” e de Vipsânia Agripina (mais conhecida como Agripina, a “Velha”, para distingui-la de sua filha, do mesmo nome, Agripina, a “Jovem”, mãe do futuro imperador Nero).
Bustos de Germânico e Agripina, a Velha, pais de Calígula
Portanto, por parte de pai, Calígula era sobrinho-bisneto do Imperador Augusto, pois a sua bisavó paterna era Otávia, a irmã do primeiro imperador que se casou com o triúnviro Marco Antônio, em uma união da qual nasceuAntônia, a Jovem, de cujo casamento com Nero Cláudio Druso, por sua vez, nasceu Germânico. E Calígula também era bisneto de Lívia Drusila, a influente esposa de Augusto, avó de seu pai, pois Nero Cláudio Druso era o filho mais novo do primeiro casamento dela com Tibério Cláudio Nero, sendo que o caçula desta união foi o imperador Tibério, irmão de Druso, tendo o primeiro sucedido Augusto como seu herdeiro e filho adotivo, sendo aquele também, portanto, tio-avô de Calígula.
Já pela linha materna, Calígula era bisneto de Augusto, pois sua mãe, Agripina, era filha de Marco Vipsânio Agripa, o grande amigo e braço-direito do primeiro imperador, e de Júlia, “a Velha”, a única filha e descendente de Augusto.
Tal “pedigree” colocava Germânico, o pai de Calígula, como um não-desprezível pretendente à sucessão do próprio Augusto. Aliás, vale observar que todos herdeiros-presuntivos inicialmente favorecidos por Augusto eram seus parentes, tais como seu sobrinho, Marcelo, e seus netos Caio César e Lúcio César. Todos eles, porém, morreram antes do velho imperador, que, muito em função das maquinações de sua esposa Lívia, acabou adotando e nomeando como herdeiro o filho natural desta, o seu enteado Tibério.
Augusto, porém, certamente visando garantir alguma continuidade sanguínea entre si e os seus sucessores, ao adotar Tibério, exigiu que este, por sua vez, da mesma forma adotasse Germânico, como herdeiro.
Ocorre que o pai de Calígula tornou-se um grande general, muito querido pelo Exército e pelo povo. Ele se destacou em campanhas na Panônia e na Dalmácia. Aliás, Germânico e Agripina eram uma espécie de família romana modelo: Eles tiveram nove filhos juntos, seis dos quais atingiram a idade adulta, três meninos, sendo Calígula o mais jovem deles, e três meninas, sendo que a mais velha, Agripina, “a Jovem”, seria mãe do futuro imperador Nero.
Quando Augusto morreu, em 14 D.C., sendo sucedido por Tibério, o sobrinho deste, Germânico, recebeu do novo imperador um comando na Germânia, onde ele comandou uma campanha brilhante na qual conseguiu finalmente, em 16 D.C., vingar a grande derrota sofrida por Varo, sete anos antes (foi por esse motivo que ele recebeu o seu apelido, pois dar ao general um cognome derivado dos inimigos vencidos era uma tradicional honraria romana).
Foi durante esse período que Germânico demonstrou que sabia utilizar sua família como uma ferramenta de propaganda pessoal. Ele residia no acampamento militar, em território inimigo, com toda a sua família e costumava vestir o seu filho mais novo Caio, que tinha entre 3 e 4 anos, com um uniforme militar em miniatura.
E entre as peças de vestuário militar que o pequeno Caio usava, estava uma pequena sandália ou bota militar, “caligae“, em latim. O diminutivo de “caligae” é “caligula” e o menino acabou recebendo da soldadesca esse apelido, que pode ser traduzido como “Botinha” (ou “Sandalinha“), um apelido que “pegou” (e consta que o mesmo era abominado por Calígula, depois de se tornar adulto).
Inclusive, as fontes narram que em certa ocasião, quando uma das legiões comandadas por Germânico se revoltou, a mera sugestão de que o comandante, temendo pela segurança de sua família, estava mandando o adorado “Botinha” para um lugar seguro, longe dos soldados, bastou para acabar espontaneamente com o motim.
Infelizmente, a imensa popularidade de Germânico seria, para muitos, a provável causa de sua morte…
Consta que Lívia, a imperatriz-mãe viúva, muito provavelmente, e não para o desagrado de Tibério, urdiu uma série de intrigas visando afastar Germânico da linha sucessória, a quem percebia como uma ameaça a seu filho. De fato, as fontes do período, como Tácito, apontam Lívia e Tibério como os principais suspeitos pela morte de Germânico, em 19 D.C., acometido de uma misteriosa doença que se assemelhava a um caso de envenenamento, ainda que não haja provas conclusivas disso.
A postura questionadora da mãe de Calígula e viúva de Germânico, Agripina, em relação à morte de seu marido, azedou as relações dela com Tibério e deu início a uma série de desconfiança e intriga entre ambos. Consta que, certa vez, Tibério, notando uma cara de desagrado em Agripina, teria recitado, em grego, para ela o seguinte verso de uma então famosa obra clássica:
“Porque não és rainha, eu te fiz algum mal?“
Assim, em virtude dessa animosidade, e dos efeitos que isso causou na saúde da sua mãe, Calígula acabou indo morar sua bisavó, Lívia, a principal suspeita pelo assassinato de seu pai.
Em 29 D.C, no mesmo ano em que Lívia morreu, Agripina foi presa e exilada para a remota ilha de Pandatária, acusada de traição junto com seus outros filhos Nero e Druso.
Após sofrer vários maus-tratos e provações, Agripina morreu na ilha, em 33 D.C. Antes disso, os irmãos de Calígula também morreriam em função das acusações: Nero (não confundir com o imperador de mesmo nome) morreu de inanição, enquanto preso e Druso se suicidou. Em todos esses fatos esteve implicado o Prefeito Pretoriano Lúcio Élio Sejano, para alguns como instigador, ou ao menos, como o executor da vontade de Tibério.
Então, em 31 D.C, Calígula, que estava morando junto com sua avó Antônia, foi residir com Tibério, que, deixando os assuntos da administração nas mãos de Sejano, havia abandonado Roma e se mudado para Capri, desde o ano de 26 D.C.
Não temos dúvidas de que a situação deve ter sido aterrorizante para Calígula, pois após morar com Lívia, a suposta algoz de seu pai, agora ele iria viver sob a tutela do filho desta, o imperador responsável pelo sofrimento e morte de sua mãe e de seus irmãos. O que ele podia esperar para si senão o pior?
A julgar pelo relato de Suetônio, em Capri, Calígula habilmente soube fingir ser inofensivo e servil a Tibério. Se os escandalosos relatos do citado historiador forem verdadeiros, na paradisíaca ilha, Calígula deve ter sofrido a influência maléfica dos inúmeros atos de perversão sexual e crueldade relatados na “Vida de Tibério“, o livro integrante da coletânea de biografias conhecida como “Os doze Césares“, que teriam ocorrido na espetacular Villa Jovis de Tibério, situada em Capri.
Villa Jovis, maquete e estado atual
No entanto, em 33 D.C, Tibério deu a Calígula seu primeiro cargo público, o de Questor Honorário, e, dois anos mais tarde, Calígula foi nomeado herdeiro do Imperador, juntamente com seu primo, e neto de Tibério, o menino Tibério Gemellus.
Quando Tibério morreu, em 16 de março de 37 D.C, com a avançada idade de 78 anos, Calígula tornou-se o terceiro imperador romano. Suetônio levanta suspeitas sobre a culpa de Calígula na morte do tio, mas o mais provável é que Tibério tenha morrido de velhice.
A morte de Tibério foi recebida com júbilo pelo povo e pelo Senado. De fato, a austeridade de Tibério, que havia acumulado um grande superávit no Tesouro, muito em função dele ser avesso aos gastos públicos, especialmente para com os jogos e corridas tão amados pela plebe, acabou tornando-o consideravelmente impopular, fato que foi reforçado pela sua responsabilização, real ou presumida, pelas mortes dos queridos Germânico e Agripina.
Calígula imperador
Assim, a aprovação entusiasmada do Senado e do Povo de Roma acompanhou a aclamação de Calígula como imperador: Além de suceder um governante antipático, ele era o belo e jovem filho de um herói popular e membro de uma família muito célebre e muito estimada. Para comparar, o clima deve ter sido parecido com o que o Reino Unido atual experimentará quando o príncipe William tornar-se rei da Inglaterra, sucedendo ao pai Charles.
Reprodução de um busto original romano de Calígula, com cores restauradas, obtidas através de processo científico
Parece que, em seus primeiros meses, o reinado de Calígula parecia promissor (aliás, a crônica do seu início pode ser considerada a narrativa-padrão do reinado de todos os “maus” imperadores romanos, tais como Nero, Domiciano e Cômodo). Ele entrou em Roma em 28 de março de 37 D.C, 12 dias após a morte de Tibério, seguindo-se cerca de três meses de verdadeira adoração, em grande parte espontânea, por parte do povo. De fato, inicialmente, Calígula correspondeu mesmo aos anseios dos súditos:
De fato, o novo imperador mandou pagar todos os legados previstos no testamento de Tibério, tanto individuais como coletivos e, mais importante, mandou destruir todos os documentos que estavam nos arquivos imperiais para dar subsídios aos numerosos processos de crime de alta-traição ou de lesa-majestade, que haviam sido tão frequentes no reinado do seu antecessor.
Calígula também inaugurou o costume, que depois se mostraria funesto, de dar um grande donativo à Guarda Pretoriana em comemoração à ascensão de um novo imperador ao trono (prática que estimularia futuros motins dos Guardas visando destronar o monarca reinante, para assim obter recompensas do substituto).
Passados poucos meses, porém, Calígula não titubeou em se livrar de seu primo Gemellus, o neto de Tibério que, com ele, havia recebido em testamento o Império. Na verdade, um dos primeiros atos de Calígula após a sua aclamação oficial havia sido conseguir do Senado a anulação do testamento de Tibério no que se refere à posição de co-herdeiro de Gemellus. Porém, antes que o ano terminasse,Gemellus seria executado sumariamente à mando de Calígula.
As fontes narram que, antes disso, Calígula, em outubro de 37 D.C, ficou seriamente doente, e que foi somente após recuperar-se desta enfermidade que ele começou a praticar os reiterados atos de tirania, crueldade, devassidão e loucura pelos quais tornaria célebre (Suetônio, contudo, aponta que Calígula já demonstrava sua má índole quando adolescente). Infelizmente, os textos antigos não fornecem detalhes precisos sobre a misteriosa doença dele que possam nos dar alguma pista da sua real natureza – isto é, se tratava-se uma doença infecciosa, congênita, física ou mental.
Gastos exorbitantes e deterioração na situação econômica
Um fato que parece incontestável acerca do reinado de Calígula é a rapidez com que a situação financeira do Império se deteriorou. Com efeito, são várias as afirmações nas fontes de que Tibério havia deixado um gigantesco superávit no Tesouro do Estado, apontando-se até a soma precisa de 2,7 bilhões de sestércios, e, portanto, parece certo que o problema fiscal foi causado pela política (ou falta de) determinada por Calígula. A desorganização econômica acarretou, ainda, episódios, relatados pelas fontes, da ocorrência de fome entre a população, algo que não ocorria há tempos.
Com feito, ,as fontes mencionam vários gastos desmedidos ordenados por Calígula:
Relata-se, por exemplo, que ele ordenou a construção de uma ponte flutuante de mais de 4 km entre Baiae e Puteoli, apenas para contrariar uma profecia. Uma outra despesa enorme descrita por Suetônio foi a construção de dois enormes navios, para serem usados como templo e palácio. Esses barcos, que tinham mais de 70 metros de comprimento, foram recuperados no Lago Nemi, durante o governo de Mussolini na Itália, e colocados em um museu especialmente construído. Infelizmente, durante a 2ª Guerra, os barcos foram destruídos. Recentemente, vale citar, foi restituído a Itália um pedaço do magnífico pavimento de mosaico da referida embarcação, retirado em data incerta do fundo do Lago, e que foi parar em um apartamento em Manhattan, Nova York, EUA, transformado em uma mesa de centro! (vide https://olhardigital.com.br/2021/12/06/ciencia-e-espaco/como-um-mosaico-do-lendario-imperador-romano-caligula-virou-tampo-de-mesa-em-ny/
De qualquer modo, a Arqueologia confirmou, mais uma vez, os relatos dos historiadores antigos.
(Foto da escavação de um dos navios de Caligula, no Lago Nemi)
Política Externa
Não obstante, no front externo, Calígula reivindicou a realização de campanhas na Britânia e na Germânia, mas estas teriam, sido, na verdade, na opinião dos historiadores, apenas exercícios ou manobras militares, ou pior, segundo as fontes romanas (cf. Suetônio), uma encenação ridícula. Mas talvez seja provável que essas opiniões tenham exageradas, uma vez que, recentemente, descobriu-se, nas escavações de um forte romano na Holanda, chamado de Velsen-2, indícios de que Calígula pode ter estado realmente nesta região durante o seu reinado, e de que a referida fortificação foi efetivamente construída para viabilizar a invasão da Britânia e conter as tribos germânicas da outra margem do Reno.
Ilustração do Forte Romano em Velsen, extraída da matéria do The Guardian, conforme o link no parágrafo seguinte. Foto de Graham Sumner
Já a decisão de anexar a Mauritânia, um reino-cliente de Roma, foi tomada durante o reinado de Calígula, mas há dúvidas se a execução desta decisão ocorreu quando ele ainda estava vivo ou se foi deixada para o sucessor, Cláudio, que, assim, teria, em seu reinado, na verdade, continuado iniciativas tomadas pelo antecessor.
Desmandos, perversões e crueldades
Vamos aqui deixar a narrativa detalhada dos inúmeros assassinatos, atos de perversão sexual e gestos tresloucados de Calígula para quem se interessar em ler Suetônio. Entre os últimos, podemos citar o desejo manifesto dele nomear seu cavalo Incitatus para o Senado Romano…
Aliás, o filme Calígula, de Bob Guccione, dono da Revista Penthouse, foi muito criticado por ser porno-erótico, mas a película não deixa de ser bem fiel ao relato de Suetônio (com a interpretação magistral de Malcolm Mcdowell no papel do imperador)…
De qualquer forma, a personalidade cada vez mais instável de Calígula inviabilizou politicamente o seu governo. As fontes asseguram que ele efetivamente pensava ser um deus-vivo e exigia o culto que lhe achava devido. O judeu alexandrino Filão deixou um precioso relato da embaixada que ele fez à Roma, onde encontrou pessoalmente Calígula, com o objetivo de tentar demovê-lo do propósito de instalar uma estátua de si mesmo no interior do Templo de Jerusalém. Filão descreve em seu texto que percebeu que o imperador ficava muito agitado em alguns momentos, e ele saiu do encontro com a impressão de que Calígula acreditava que realmente era um ser divino.
Calígula era louco?
Entre os autores antigos há certo consenso de que Calígula era louco, mas, hoje em dia, muitos autores modernos lançam suspeitas sobre esses relatos, atribuindo o tom negativo a uma certa antipatia e animosidade política dos escritores romanos, todos integrantes da classe senatorial, que se julgava preterida e perseguida pelos Césares.
Porém, eu acredito que Calígula era insano mesmo, embora não possamos identificar com precisão que tipo de distúrbio psicológico ele sofria. É quase certo que as provações pelas quais passou na infância e adolescência, como, por exemplo, ter visto a mãe e os irmãos morrerem assassinados e o medo incessante de ser executado por Tibério ou por Sejano, tudo isto deve ter deixado marcas profundas em sua mente e pode ter gerado transtornos de personalidade. Por exemplo, Suetônio narra que Calígula conversava com as estátuas dos deuses, não conseguia dormir à noite e vagava como uma alma penada pelo Palácio. É bem possível, portanto, que ele sofresse de esquizofrenia paranóide.
Dessa forma, ao contrário de outros imperadores que se destacaram pelo comportamento tirânico e bizarro, como Nero, que reinou 14 anos, Domiciano, que reinou 15 anos, e Cômodo, que reinou 13 anos, Calígula, apesar do prestígio quase sacrossanto de sua linhagem entre o Povo e o Exército, foi assassinado antes de completar o quarto ano de seu reinado!
A conspiração
Quando Calígula manifestou a intenção de se mudar para Alexandria, onde poderia ser adorado como Deus, muitos romanos influentes perceberam que havia chegado a hora de se livrar do lunático imperador…
A elite política romana estava farta das insanidades de Calígula. Talvez ela até aguentasse as excentricidades e bizarrices se tais comportamentos não comprometessem a deferência e os privilégios aos quais os senadores se julgavam merecedores, mas esse definitivamente não era o caso, já que Calígula não titubeava em tratar os senadores como súditos e submetê-los a inúmeras humilhações.
Assim, somos da opinião de que quando os senadores perceberam que Calígula também não era benquisto por um bom número de seus próprios guarda-costas, a conspiração para se livrarem do perturbado imperador ganhou corpo, e foi posta em prática no dia 24 de janeiro de 41 D.C., por elementos da Guarda Pretoriana, como relatamos no início do nosso texto.
Contudo, se os conspiradores alguma vez de fato tiveram alguma esperança de restaurar a República, a realidade tratou de sepultar imediatamente suas aspirações, pois a própria Guarda apresentou ao Senado, o tio de Calígula, Cláudio, como sucessor, demonstrando que, após mais de setenta anos de governo de Augusto e de seus sucessores Júlio-Cláudios haviam colocado a ideia de um regime de uma República governada pelo Senado definitivamente nos livros de História.
Em 17 de novembro do ano 9 D.C, nasceu, na cidade de Falacrinae, a sudoeste de Roma (https://phys.org/news/2009-08-archaeologists-unearth-birthplace-roman-emperor.html), Titus Flavius Vespasianus (Vespasiano), integrante de uma família de origem sabina proveniente de Reate (atual Rieti), que, recentemente, havia ingressado na classe Equestre, que era o segundo nível hierárquico da nobreza romana.
Com efeito, Titus Flavius Petro, o avô de Vespasiano havia sido um simples centurião das tropas de Pompeu, em Farsália, durante a guerra civil entre este e Júlio César, que depois virou coletor de impostos. E o pai de Vespasiano, Titus Flavius Sabinus (I), também seria coletor de impostos (publicano), na Província romana da Ásia, e banqueiro. Segundo o historiador Suetônio, na primeira função, Titus Sabinus destacou-se pela retidão, um traço que era tão incomum entre os publicanos romanos, que os provinciais chegaram a erguer uma estátua em sua honra ostentando a inscrição:
“A um coletor de impostos honesto“…
Acredita-se que, devido à ausência dos seus pais enquanto eles serviam na Ásia, Vespasiano deve ter sido educado pela avó, Tertulla, a quem ele ficou muito apegado e de quem se lembraria pelo resto da vida, mesmo depois de virar imperador.
Foi o irmão mais velho de Vespasiano, também chamado de Titus Flavius Sabinus(II)(Sabino), quem realmente começou uma carreira militar e pública de sucesso, sendo nomeado Tribuno na Trácia e, depois, conseguindo eleger-se para os cargos públicos (magistraturas) de Questor, Edil e Pretor.
Vespasiano seguiu os passos do irmão, e até o precedeu no exército romano, sendo nomeado, antes dele, Tribuno, também na Trácia, voltando à Roma por volta do ano 30 D.C.
O primeiro cargo público de Vespasiano, ainda durante o reinado deTibério, no entanto, foi servir como integrante dos Vigintiviratos, um colégio de vinte magistrados menores, encarregados, dentre outras coisas, da limpeza das ruas de Roma.
No início do reinado de Calígula, Vespasiano ainda continuava servindo no Colégio dos Vigintiviratos. Em sua “Vida de Vespasiano“, Suetônio, inclusive, chega a mencionar que aquele imperador, certa vez, insatisfeito com o serviço de limpeza urbana da Cidade, mandou que os seus guardas jogassem lama na toga de Vespasiano, um gesto, sem dúvida, humilhante, mas que poderia até ter terminado pior para Vespasiano, tendo em vista os crescentes episódios de insanidade de Calígula.
Depois disso, Vespasiano serviu como Questor na ilha de Creta, retornando para assumir o cargo de Edil em 38 D.C. Neste mesmo ano, ele se casou com Flávia Domitila, a Velha, nascida na cidade de Sabratha (na atual Líbia) filha de um simples secretário de um Questor, originário da cidade italiana de Ferentium, que servia na província da África.
(Denário de prata com a efígie de Flávia Domitila, a Velha, cunhado após a sua morte e deificação)
II- Sucesso na carreira pública
Mas foi no reinado do sucessor de Calígula, o imperadorCláudio, que a carreira dos irmãos Flávios, sobretudo a de Vespasiano, decolou. Ele seria muito ajudado pelo fato de ser amante de Antonia Caenis, uma mulher muito inteligente que tinha sido escrava, e, depois de, alforriada, já na condição de liberta, virara secretária pessoal da influente Antônia, a Jovem, mãe de Cláudio (Antônia, a Jovem era filha de Marco Antônio e Otávia, irmã de Augusto). Vale citar que, antes de Vespasiano se casar com Domitila, ele e Antonia Caenis viviam em “contubernium“, uma espécie de concubinato admitido pela lei romana).
E foi muito provavelmente por injunção de Antonia Caenis que Vespasiano caiu nas graças de Narcissus, o poderoso liberto de Cláudio, que então ocupava o importante cargo de Secretário de Correspondência Imperial (Praepositus ab Epistulis) na Corte Imperial, e exercia forte influência sobre o imperador.
Assim, Vespasiano foi nomeado general da II Legião Augusta (Legatus Legionis II Augustae), sediada em Argentorarum ,na província da Germânia (a atual Estrasburgo) em preparação para a campanha militar mais importante do reinado de Cláudio: a Conquista da Grã-Bretanha. Nesta guerra, Vespasiano, servindo sob as ordens do comandante-geral Aulus Plautius, ficou responsável por subjugar a maior parte do sul da atual Inglaterra, bem como a Ilha de Wight.
Como recompensa pelas suas vitórias na Britânia, Vespasiano recebeu a honraria dos “ornamentos triunfais“, regalias destinadas aos generais vitoriosos durante o Império e que substituíram os Triunfos, que foram reservados apenas para os Imperadores.
Em 51 D.C, Vespasiano foi escolhido para o cargo de Cônsul, a mais alta magistratura da antiga República, sendo ainda o ápice da carreira política em Roma. Todavia, logo depois disso, a posição dele sofreria uma grande reviravolta, pois Narcissus, o seu protetor, havia conspirado contra Agripina, a Jovem, a poderosa e vingativa nova esposa (e sobrinha) de Cláudio, e seu filho, Lucius Domitius Ahenobarbus (o futuro imperador Nero), que havia sido adotado, em 50 D.C, por Cláudio, em detrimento do seu próprio filho natural, Britânico, que era apoiado por Narcissus.
III- Ostracismo e reabilitação
Cláudio morreu em 54 D.C., provavelmente envenenado por Agripina e o filho, desta, Nero, assumiu como novo Imperador. A seguir, Narcissus e Britânico também foram, no espaço de alguns meses, assassinados.
Assim, prudentemente, Vespasiano passaria os próximos 12 anos na obscuridade.
Esse “retiro” de Vespasiano só terminaria em 63 D.C, quando ele, agora um veterano e respeitável Senador, foi indicado para ser Procônsul na província romana da África. Consta que ali, Vespasiano fez uma boa administração, marcada pela honestidade, numa época em que os governadores romanos só pensavam em espoliar as províncias e encherem a bolsa de dinheiro.
Não demorou muito para que o respeitável senador e general fosse admitido de volta na Corte Imperial, passando a integrar o círculo íntimo de Nero, chegando até a integrar a comitiva do imperador, quando da sua acalentada viagem à Grécia, em 66 D.C, ocasião em que Nero apresentou-se em competições artísticas e esportivas, no seu afã de seguir a trajetória de um herói grego.
(O ator Peter Ustinov foi indicado ao Oscar de melhor ator em 1951 pela sua magistral interpretação de Nero, no filme Quo Vadis)
Contudo, um fato, que hoje para nós soaria cômico, quase acabou com a sorte de Vespasiano: Durante um dos intermináveis recitais de Nero, ele cochilou enquanto o imperador cantava (ou tocava a lira), deixando o vaidoso artista furioso. De acordo com Suetônio, em punição pela afronta, Vespasiano foi excluído da Corte e teve que ir viver em uma cidade pequena, onde ele chegou a temer, justificadamente, pela própria vida.
Foi por volta dessa época que Vespasiano ficou viúvo, após a morte de sua esposa Flávia Domitila, a Velha, que havia lhe dado três filhos: Tito, Flávia Domitila, a Jovem e Domiciano. Ele nunca mais se casaria novamente, mas logo voltou a viver junto com Antonia Caenis, que, nas palavras dos historiadores antigos, “de esposa de Vespasiano só não tinha o nome“.
Domiciano, o filho caçula de Vespasiano, porém, jamais aceitou a madastra.
Por sua vez, Flavia Domitila, a Jovem casou-se com o grande general Quinto Petílio Cereal, mas ela morreria jovem, com pouco mais de vinte anos. O casal teve uma filha, também chamada Flávia Domitila, que, de acordo com a tradição católica, é a Santa Flávia Domitila, que se converteu ao cristianismo e por isso foi banida de Roma, e que também teria sido a responsável pela doação à Igreja das terras onde seriam escavadas as chamadas Catacumbas de Domitila.
(Pintura do “Bom Pastor” existente nas Catacumbas de Domitila)
Mas a aflição de Vespasiano duraria pouco, porque, naquele mesmo ano de 66 D.C, o estouro de uma séria revolta na sempre turbulenta Judéia obrigou Nero a se valer dos seus melhores generais.
Com efeito, começara a Grande Revolta Judaica, com o massacre de toda a guarnição romana de Jerusalém e a destruição da XII Legião Fulminata, que havia sido mandada da Síria para esmagar a rebelião, onde, inclusive esta unidade militar teve o seu icônico estandarte-águia capturado pelos revoltosos. Vespasiano, assim, recebeu de Nero o comando especial do formidável exército de 60 mil soldados que havia sido reunido para para esmagar a rebelião e partiu para a província rebelde. Lá chegando, ele rapidamente conquistou a Galiléia, que era o celeiro da Judéia, e começou os preparativos para o cerco a Jerusalém.
Durante o avanço pela Judéia, Vespasiano tomou a cidade de Jotapata, uma das praças-fortes judaicas, e capturou vivo um dos líderes da defesa da cidade, um judeu que, anos mais tarde, escreveria o relato dessa terrível guerra, e ficaria conhecido como o grande historiador Flávio Josefo. Durante o seu cativeiro, Josefo teria predito que Vespasiano se tornaria Imperador, o que o fez cair nas graças do general.
Enquanto isso, na distante Gália, o governador Gaius Julius Vindex e suas legiões revoltaram-se contra Nero, mas essa insurreição foi rapidamente derrotada pelas legiões da Germânia. Todavia, o governador da Hispânia, Servius Sulpicius Galba, que fora sondado por Vindex para aderir a revolta, não relatou de pronto a conspiração a Nero e, por isso, ele foi condenado pelo imperador à morte. Galba, que pertencia ao ilustre clã dos Sulpícios, então, emitiu uma declaração de que ele estava “à disposição do Senado para restaurar a liberdade“…
Estimulados, os partidários de Galba em Roma conseguiram a adesão do comandante da Guarda Pretoriana, Ninfídio Sabino, que se juntou à rebelião, e, em decorrência disso, os guardas do palácio de Nero debandaram. Circulou a notícia de que o Senado tinha declarado Nero como “Inimigo Público“. Assim, o emotivo imperador, desesperado com a situação, cometeu suicídio, em junho de 68 D.C. Galba foi aclamado o novo imperador. Este foi o fim da dinastia dos Júlio-Cláudios, que fundara o Império e o governava há praticamente um século.
IV- Candidato à sucessão e o “Ano dos Quatro Imperadores”
O reinado de Galba, que já tinha 70 anos de idade, porém, não duraria muito. O seu comportamento extremamente severo desagradou muito aos soldados que o apoiavam, e esperavam polpudas recompensas, bem como a todos aqueles que tinham sido beneficiados durante o reinado anterior e, agora, sentiam-se espoliados.
Assim, passados apenas dois meses da ascensão de Galba, as descontentes legiões da Germânia proclamaram, no dia 2 de janeiro de 69 D.C., o seu comandante Aulus Vitelius (Vitélio), como Imperador. Enquanto isso, em Roma, o rico senador Marcus Salvius Otho (Otão), insatisfeito pelo fato dele não ter sido escolhido como o sucessor de Galba, subornou a Guarda Pretoriana, que, ainda em janeiro de 69 D.C., assassinou o imperador.
O Senado, que não podia confrontar a Guarda Pretoriana, imediatamente reconheceu Otão como o novo Imperador Romano.
Ocorre que Vitélio e suas experimentadas legiões da Germânia já estavam entrando na Itália e marcharam em direção à Roma, derrotando com facilidade as tropas reunidas por Otão, na PrimeiraBatalha de Bedríaco, após o que, este, resignadamente, cometeu suicídio, dois dias depois, em 16 de abril de 69 D.C.. O reinado dele durara apenas três meses.
(Mapa do Império Romano no “Ano dos Quatro Imperadores”, imagem de Steerpike e Andrei nacu)
Enquanto tudo isso ocorria na Europa Ocidental, Vespasiano comandava a campanha contra os Judeus. Quando as notícias da morte de Nero chegaram à Judéia, Vespasiano prontamente declarou lealdade a Galba. Depois, ele chegou a fazer o mesmo quando soube da aclamação de Vitélio. Porém, o caos gerado pela rápida sucessão de deposições violentas e nomeações de imperadores acabou por gerar nos auxiliares de Vespasiano a convicção de que ele tinha melhores qualidades e tropas suficientes para aspirar ao trono imperial.
Assim, Gaius Licinius Mucianus (Muciano), o Governador da Síria, encontrou-se com Vespasiano na fronteira com a Judéia. Provavelmente, nesse encontro, eles decidiram que Vespasiano deveria tentar tomar o cetro imperial para si.
Então, no dia 1º de julho de 69 D.C., as legiões estacionadas em Alexandria, no Egito, instadas pelo Prefeito do Egito, Tiberius Julius Alexander, que era de origem judaica, aclamaram Vespasiano Imperador. Poucos dias depois, elas foram seguidas pelas legiões comandadas pelo próprio Vespasiano, em Cesaréia.
V- O caminho para o trono
Em seguida, os líderes arquitetaram um plano: Muciano se dirigiria para a Itália com um contingente de 20 mil soldados para atacar Vitélio, enquanto Vespasiano iria para o Egito, para ordenar um bloqueio aos vitais carregamentos de trigo egípcio que alimentavam a enorme metrópole de Roma, ação que provavelmente forçaria Vitélio à rendição. No comando das tropas que ficariam na Judéia, para dar prosseguimento à guerra contra a Revolta Judaica e manter o cerco à Jerusalém, Vespasiano deixou o seu filho Tito.
Durante essa incursão no Egito, Suetônio conta uma história curiosa, a de que Vespasiano teria feito dois milagres, bem comparáveis aos das narrativas bíblicas: Segundo o historiador, enquanto estava em Alexandria, Vespasiano teria curado um cego e um aleijado, após os dois, avisados pelo deus Serápis, aproximarem-se dele e pedirem que ele os tocasse. Suetônio também narra a existência de uma profecia entre os Judeus, a de que um homem vindo da Judéia seria o senhor do mundo, concluindo Suetônio que a profecia dizia respeito ao próprio Vespasiano. Esse mesmo episódio, com pequenas diferenças, é relatado por Tácito e Dião Cássio.
Cogito que esses intrigantes relatos talvez já demonstrem a influência das narrativas cristãs nos autores romanos pagãos que escreveram as suas obras entre quarenta (Tácito) e cento e cinquenta anos (Cássio) após os fatos narrados.
Todavia, antes que o citado plano de Vespasiano começasse a ser executado, as legiões da Panônia se declararam em revolta a favor de Vespasiano e partiram por si próprias para invadir a Itália, com 30 mil homens. Vitélio tentou resistir, mas as suas forças foram derrotadas na SegundaBatalha de Bedríaco, em 24 outubro de 69 D.C.. Um outro exército foi enviado por Vitélio, logo em seguida, contudo, ao invés de combater os insurretos, uniu-se a eles. Vitélio, assustado, tentou abdicar, sem sucesso, pois os seus assessores e soldados partidários o proibiram.
Apostando na luta, os soldados leais a Vitélio mataram Sabino, o irmão de Vespasiano, que então era o Prefeito Urbano de Roma e havia tentando tomar o controle da cidade. Porém, quando as tropas leais a Vespasiano começaram a entrar em Roma, Vitélio foi assassinado e o seu corpo, segundo Suetônio, foi jogado ao Tibre, ou, segundo Dião Cássio, ele foi decapitado e a sua cabeça desfilada nas ruas da Cidade.
Vespasiano foi oficialmente reconhecido como imperador pelo Senado em 22 de dezembro de 69 D.C., in absentia, pela “Lex de imperio Vespasiani“. Ele tinha, então, 60 anos de idade. Todos os seus atos foram ratificados, e, portanto, a lei tinha o efeito retroativo de reconhecer a aclamação feitas pelas tropas em 1º de julho.
Terminava, assim, o turbulento ano que ficaria conhecido como “O Ano dos Quatro Imperadores“. O novo imperador somente chegaria a Roma em outubro de 70 D.C. Nesse período, quem administrou o Império em seu nome foram Muciano e Domiciano, o filho mais novo de Vespasiano.
Consta que, durante esses meses, Domiciano agiu com tanto voluntarismo e independência que, Vespasiano, com o seu peculiar senso de humor, teria enviado a ele uma carta na qual constava o seguinte cumprimento:
“Obrigado, meu filho, por me permitir manter o meu cargo e por ainda não ter me destronado”
VI- O reinado de Vespasiano
O reinado de Vespasiano começou com a questão premente de sufocar a perigosa Revolta dos Batavos, na região do Delta do rio Reno, no território da atual Holanda. Os Batavos eram um povo germânico que vinha sendo recrutado como tropas auxiliares do Exército Romano. O comandante desses regimentos, Gaius Julius Civilis, um príncipe batavo, insatisfeito com a conduta dos seus superiores, havia se rebelado e foi preso, mas ele acabou sendo solto por Vitélio, o governador da província da Germânia que havia se rebelado contra Galba e precisava das tropas batavas para invadir a Itália.
Os Batavos lutaram na Primeira Batalha de Bedríaco, mas quando eles voltaram para suas terras e foram novamente convocados, acabaram rebelando-se novamente. Então, encorajados após a notícia da morte de Vitélio, os Batavos chegaram a derrotar duas legiões, fazendo com a revolta se espalhasse por algumas tribos do norte da Gália, onde Julius Sabinus, um nobre gaulês romanizado que se dizia descendente de Júlio César, declarou a independência da Gália, autonomeando-se imperador. Duas legiões romanas, a I Germanica e a XVI Gallica, aderiram à revolta.
Essa rebelião de Sabinus, entretanto, foi facilmente derrotada pela tribo gaulesa romanizada dos Sequanos, aliada dos romanos. Como curiosidade, as fontes relatam a estória de que Sabinus, foragido, ficou nove anos escondido em uma câmara que existia debaixo de um monumento, junto com a mulher, com quem ele chegou a ter dois filhos durante o tempo que ficou no esconderijo.
Para lidar com a Revolta dos Batavos, Vespasiano enviou o general Quintus Petilius Cerealis no comando um exército de oito legiões. A aproximação deste poderoso exército foi o suficiente para dispersar boa parte dos que apoiavam Civilise ele teve que recuar para o território dos Batavos. Ali ele chegou a empregar táticas de guerrilha, porém, quando Civilis soube que Jerusalém foi saqueada e a Revolta Judaica virtualmente derrotada, ele percebeu que em breve todo o peso do Exército Romano voltaria-se contra si e, então, ele decidiu render-se.
Os romanos exigiram que os Batavos cedessem mais tropas para o Exército Romano e destruíram Naviomagus (Nijmegen), a capital batava, no final de 70 D.C.
(Busto de Vespasiano, detalhe, foto Shakko)
O reinado de Vespasiano foi um governo de reconstrução e de reconciliação, característica que foi muito beneficiada pelo seu caráter íntegro, pela sua índole moderada e pelo seu senso de justiça. De certa forma, a sua política marcou uma retomada das linhas estabelecidas por Augusto, onde o Príncipe deveria se pautar pela retidão, moralidade e espírito público, permitindo ao Senado ter algum papel na administração pública e, principalmente, receber alguma deferência do Imperador.
Essas intenções ficaram implícitas na “Lex de Imperio Vespasiani“, que alguns consideram a primeira tentativa de regular por escrito as relações entre o Imperador e o Senado, com base nos precedentes dos reinados anteriores, até Augusto. É interessante notar que, pelo que denota a sua redação, trata-se de um Senatus Consultum (Decreto do Senado) que foi submetido à sanção da Assembleia (ou Comício) das Centúrias (Comitia Centuriata), obedecendo uma formalidade dos tempos da República, ainda que com caráter meramente cerimonial.
(Tábua de bronze contendo o texto da Lex de Imperio Vespasiani, achadas em Roma por Cola de Rienzo em 1347. Hoje as tábuas estão nos Museus Capitolinos).
Após décadas de expurgos e perseguições pelos imperadores Júlio-Cláudios, a aristocracia senatorial romana, que fornecia a maior parte dos quadros do serviço público, havia sido dizimada. Por isso, Vespasiano, valendo-se do cargo de Censor, deu ênfase à recomposição dos quadros da nobreza, conferindo este status a plebeus capazes, de preferência nascidos na Itália.
Foi Vespasiano quem primeiro instituiu a contratação pelo Estado de professores, pagos pelo Erário, para ministrarem o ensino público às crianças romanas, estando entre os primeiros mestres a serem contratados, o grande retórico Quintiliano.
Vespasiano também restaurou as finanças estatais, estabelecendo uma série de novos tributos. Essa medida, que poderia ser tomada como antipática, foi de certo modo contrabalançada pelo estilo de vida frugal e modesto que o imperador adotava, e que bem poderia servir de exemplo aos governantes atuais…
Esse traço austero de Vespasiano, que lhe rendeu em algumas passagens dos historiadores da época a pecha de avaro, é ilustrada por uma historia contada por Dião Cássio:
Certa vez, alguns cidadãos ilustres tomaram a iniciativa de erguer uma estátua de Vespasiano que custaria um milhão de sestércios. Quando eles foram dar a notícia a Vespasiano, o imperador estendeu a sua mão aberta e disse-lhes:
“Deem-me o dinheiro! Aqui está o pedestal!”
A vitória contra a Revolta Judaica e o saque de Jerusalém, especialmente do Segundo Templo, que também funcionava como um verdadeiro tesouro administrado pelo Sinédrio, rendeu um espólio valioso que foi utilizado por Vespasiano para construir várias obras públicas em Roma.
A mais famosa, evidentemente, é o grandioso Anfiteatro Flávio, que ficaria popularmente conhecido como o “Coliseu” (Colosseum), pelo fato de ficar ao lado da enorme estátua dourada do imperador Nero, que era chamada de “Colossus” (Colosso). A espetacular arena começou a ser construída sobre o terreno onde ficava a enorme “Domus Aurea“, o espetacular palácio de Nero, que serviu como fundação para uma parte da construção. Politicamente, isso foi um gesto muito hábil, pois devolvia ao povo da cidade uma área que Nero havia tornado privada.
A construção do Coliseu foi iniciada por volta de 72 D.C., mas somente seria concluída em 80 D.C., já sob o reinado de Tito, que o inaugurou. A sua capacidade é estimada entre 55 mil e 80 mil espectadores. Milhares de cativos judeus, entre os 100 mil capturados e trazidos para Roma, trabalharam como escravos na construção do edifício.
Um ano antes do Coliseu, e também com os recursos provenientes do Saque de Jerusalém, Vespasiano construiu o chamado Templo da Paz, que ficava próximo ao Fórum de Augusto. No Templo da Paz ficavam em exibição os tesouros mais relevantes saqueados do Templo de Jerusalém, como por exemplo o célebre candelabro de 7 braços (Menorah), de ouro puro. O templo era circundado por um grande pórtico que circundava uma área aberta com jardins e fileiras de espelhos d’água retangulares. Parece que a sua função era funcionar como uma área para passear, entre as estreitas e congestionadas ruas que ligavam os apinhados fóruns.
(Foto superior; Maquete do Templo da Paz, de E. Gismondi, no Museu da Civilização Romana; foto inferior: Relevo no Arco de Tito, retratando a chegada em Roma dos despojos do Saque de Jerusalém)
Uma orientação pouco abordada nos livros sobre o seu reinado é a clara política adotada por Vespasiano de racionalização militar e ordenamento das fronteiras do Império Romano:
A importante fronteira com a Germânia Magna, seguia o curso do rio Reno e prosseguia pelo curso do rio Danúbio, formando uma perigosa reentrância ou saliência, como se fosse uma cunha encravada e que facilitava o deslocamento das tribos. Essa área, com tamanho comparável ao da atual Suíça, era conhecida como os “Agri Decumates” (campos que pagam o dízimo). Vespasiano ordenou a ocupação da região, que foi anexada ao Império Romano, e a construção de uma cadeia de fortes para defendê-la.
Na Britânia, o rei Venutius, da tribo celta dos Brigantes, que habitava o norte da atual Inglaterra, aproveitando a convulsão do Império Romano durante o “Ano dos Quatro Imperadores“, iniciou uma rebelião e depôs a sua ex-esposa, e rainha dos Brigantes, Cartimandua, que era aliada dos romanos.
Em 71 D.C., Vespasiano designou o general Quinto Petílio Cereal como novo governador da Britânia, e ele começou o processo de conquista dos Brigantes. Em 74 D.C., Cereal foi substituído por Sextus Julius Frontinus, que subjugou a tribo dos Silures, no sudeste do atual País de Gales. Em 77 D.C., o novo governador, Gnaeus Julius Agricola assumiu e, no ano seguinte, iniciou uma campanha que levaria as legiões romanas até a Caledônia, estabelecendo alguns fortes no Firth of Tay (firth é uma palavra inglesa que denomina estuários escavados que adentram profundamente uma massa de terra), em 79 D.C. que era uma fronteira mais facilmente defensável. Essa campanha comandada por Agricola prosseguiu até 84 D.C., bem depois da morte de Vespasiano, mas o plano geral parece ter sido delineado durante o reinado dele.
Outra importante medida de Vespasiano no campo militar, certamente influenciada pelas já mencionadas rebeliões na Germânia e na Gália, foi a exigência de que os contingentes de tropas auxiliares recrutadas entre os povos estrangeiros não podiam servir na região de origem, devendo serem deslocadas para outros pontos do Império.
Os historiadores preservaram muitos relatos de episódios nos quais Vespasiano demonstrou tolerância com opositores e respeito à posições divergentes dos senadores, mas em pelo menos duas oportunidades, os atritos acabaram degenerando em punições: o primeiro caso foi o do senador Helvídio Prisco, um empedernido republicano que era hostil a Vespasiano, foi exilado, por volta de 75 D.C., e, posteriormente, assassinado, apesar de Vespasiano negar ter ordenado a execução dele. Posteriormente, no final do seu reinado, por volta de 78 D.C., o senador Éprio Marcelo e o general Aulus Caecina Alienus conspiraram contra o principado, aparentemente para evitar que Vespasiano fosse sucedido por Tito, e foram julgados culpados pelo Senado, sendo que o primeiro suicidou-se e o segundo foi executado por Tito.
Vespasiano tinha um grande senso de humor e as suas deliciosas tiradas ficaram célebres:
Ao filho Tito, que lhe repreendera por instituir um tributo sobre as latrinas públicas nas cidades (elas lucravam com a venda de urina para ser usada como alvejante nas lavanderias), algo que estaria abaixo da dignidade do Estado Romano, Vespasiano, então, deu a Tito uma moeda e mandou que o herdeiro a cheirasse e disse o que sentia: “Não cheira” (em latim, “non olet“), respondeu o filho, ao que Vespasiano lhe respondeu que aquela moeda era fruto do imposto questionado. Graças a esse episódio, o princípio tributário que prevê que qualquer tipo de renda, inclusive as oriundas de atos ilícitos, podem ser tributadas pelo Estado foi batizado de “non olet“). Aliás, a criação deste imposto mostraria-se tão marcante que, até hoje, Vespasiano, em italiano, quer dizer “penico” ou “urinol”.
Ao receber uma carta do rei dos Partos, dirigindo-se ao imperador romano dessa forma: “De Vologeso, Rei dos Reis, a Vespasiano“, que foi considerada por todos como uma afronta passível de retaliação. Vespasiano, todavia, achando graça no título grandiloquente do estrangeiro, ao responder a carta, simplesmente endereçou-a assim: “De Vespasiano a Vologeso, Rei dos Reis“.
VII – Morte de Vespasiano
Enquanto estava na Campânia, Vespasiano contraiu uma doença cujo sintoma principal era diarreia. Ele teve que voltar para Roma, mas logo partiu para a estação de águas minerais de Aquae Cutiliae, onde passaria o verão, como era de seu costume, e que ficava em antigo território sabino, na sua região natal de Reate. Lá ele ainda tentou por algum tempo cumprir as obrigações do cargo de imperador, recebendo até embaixadas enquanto estava acamado, mas a crise de diarreia piorou.
Contudo, nem no leito de morte, o humor de Vespasiano se abateu. Quando ele sentiu que as suas forças se esvaíam, ele, fazendo graça com o costume romano de divinizar os imperadores que morriam , disse:
“Oh, penso que agora estou me tornando um Deus!”
No dia 24 de junho de 79 D.C., sentindo que o fim estava realmente próximo, Vespasiano, com muito esforço tentou levantar-se, dizendo:
“Um imperador deve morrer de pé!”
E, assim, acabou falecendo nos braços dos que estavam ao seu redor, tentando ajudá-lo.
(Ruínas da piscina dos Banhos de Vespasiano, 13 km de Rieti, antiga Reate)
VII- Conclusão
Vespasiano foi um governante consciencioso, justo e diligente. As suas numerosas boas medidas poderiam ser condensadas sob o lema “restauração do Império Romano às linhas traçadas por Augusto”. Podemos dizer, assim, que ele consolidou o Principado, cujo prestígio, bem como a confiança (ou, ainda, adesão) da elite naquele sistema de governo, estavam abalados pelos desmandos havidos no final dos reinados de Tibério, Calígula e Nero, pela extinção da dinastia fundadora (Júlio-Cláudios) e pela guerra civil travada durante o “Ano dos Quatro Imperadores“. A economia, sobretudo as finanças públicas, e as fronteiras foram organizadas com coerência e afinco. Por outro lado, ele conseguiu evitar as vicissitudes e ambiguidades que Augusto experimentou quanto à questão da sucessão, que ficou firmemente estabelecida pelo princípio dinástico, nas mãos de seus filhos, Tito, e, depois, Domiciano.
(Excelente humanização de um dos muitos bustos de mármore de Pompeu)
1 – Nascimento, juventude e início da carreira militar e política
Em 29 de setembro de 106 A.C, nasceu, em Piceno, na Itália, Gnaeus Pompeius (Pompeu), membro de uma família bem situada de proprietários rurais da Itália Central, uma gente que, apesar de estar totalmente integrada à República e gozar de cidadania plena há centenas de anos, ainda enfrentava algumas barreiras para ingressar no seio da elite romana.
Assim, o pai de Pompeu, Gnaeus Pompeius Strabo (Cneu Pompeu Estrabão), foi o primeiro de sua família a ascender ao Senado Romano, na condição de “homem novo” (novus homo, ou seja, um senador que não tinha antepassados senadores), chegando até o cargo de Cônsul, no ano de 89 A.C, graças aos seus feitos militares, especialmente durante a chamada “Guerra Social” (conflito que recebeu esse nome porque se tratava de uma insurreição dos povos italianos aliados, ou “socii“, em latim, de Roma, que queriam os mesmos direitos dos cidadãos romanos).
Quando Pompeu Estrabão morreu, em 87 A.C, vítima de uma epidemia, ele deixou ao seu jovem filho Pompeu, de apenas 20 anos de idade, a sua vasta fortuna e, talvez mais importante do que isso, uma numerosa clientela.
Então, o jovem Pompeu logo mostrou que também tinha grandes aspirações políticas quando, em 83 A.C, aproveitando-se da herança do pai, ele formou um pequeno exército e aliou-se a Lucius Cornelius Sulla(Sila), o poderoso general que atuava como defensor dos interesses da facção aristocrática do Senado Romano (“Optimates“), na acirrada disputa que esta travava contra os sucessores do falecido general Mário, que, por sua vez, durante vários anos vinha sendo o campeão da facção dos Populares, e que tinha se aproveitado da ausência de Sila da Itália (devido à guerra de Roma contra o rei Mitridates, na Ásia) para tomar novamente o poder (porém, Mário acabou morrendo pouco depois de assumir o seu sétimo e último consulado).
(cabeça de Sila)
Tendo ajudado Sila a derrubar o governo dos Populares, em Roma, Pompeu passou a gozar da simpatia deste, que, naquela oportunidade, foi nomeado “Ditador”. Sila, inclusive, ofereceua Pompeu a mão da sua enteada, Emília Scaura. Este casamento, porém, seria breve, pois Emília, que já estava grávida de seu casamento anterior, acabou morrendo no parto, em 82 A.C.
Em seguida, Pompeu foi enviado para combater as forças dos partidários de Mário que haviam fugido para Sicília e para a África, campanha na qual ele ficou conhecido pela repressão brutal aos inimigos, que devido à isso deram-lhe o apelido de “açougueiro adolescente“…
De volta a Itália, Pompeu não recebeu, todavia, o Triunfo que ele esperava, pois a lei romana somente permitia tal honraria fosse concedida aos detentores do cargo de Pretores ou Cônsules. Não obstante, Sila ordenou que Pompeu deveria receber o cognome de “Magno” (Magnus, que em latim quer dizer, o Grande), em função das suas façanhas militares, apesar dele ter apenas 25 anos de idade. Não obstante, apesar do impedimento legal, Pompeu insistiu em realizar o triunfo que ele tanto ansiava, e, como Sila não o proibiu, a procissão triunfal acabou sendo realizada, em 81 A.C.
Naquele mesmo ano de 81 A.C., Sila renunciou ao cargo de Ditador, restaurando o governo consula e concorrendo ao cargo de Cônsul nas eleições para o ano seguinte. Enquanto isso, Sila também patrocinou o novo casamento de Pompeu, agora com Múcia Tércia, que era víúva do filho do grande rival de Sila, Caio Mário, o Jovem, que se suicidou após ser derrotado quando Sila tomou Roma.
Para a eleição do consulado do ano de 79 A.C, Pompeu, contra a vontade de Sila, apoiou a candidatura de Marco Antônio Lépido (pai do futuro Triúnviro) que era integrante da facção dos Populares, e foi devido a esta desobediència que, quando Sila morreu, no ano seguinte, ele não mencionou Pompeu em seu testamento.
Porém, a morte de Sila não abrandou o conflito entre os Optimates e os Populares. Com efeito, em Roma, Lépido procurava revogar os atos de Sila contra a facção democrática, e ele até chegou a negar ao falecido Ditador um funeral público, sendo, todavia, impedido por Pompeu, que, apesar de não ocupar nenhum cargo público, continuava mantendo um exército particular, no qual baseava a sua influência nos assuntos do Estado. Usando esse trunfo, Pompeu conseguiu intimidar um exército aliado de Lépido, que tentava garantir a este um segundo consulado. Assim, Lépido foi obrigado a fugir para Sicília, onde acabou falecendo.
Enquanto isso, na Hispânia, um partidário dos Populares, o general Quinto Sertório, havia se rebelado, em 80 A.C., contra o governo de Sila, assumindo o governo daquela província como Procônsul. Sertório, cujo governo favorecia os chefes celtiberos e os cidadãos romanos nativos da Província, recebeu o apoio entusiasmado de várias tribos hispânicas, sobretudo do aguerrido povo dos Lusitanos. Essa rebelião política acabou se transformando também em uma guerra de guerrilha de cunho nativista e autonomista, na qual Sertório e os seus aliados derrotaram várias legiões romanas enviadas por Sila.
2 – Sucesso na Hispânia
Em 77 A.C., Pompeu conseguiu obter do Senado a missão de ir combater a rebelião de Sertório na Hispânia, juntando-se às forças de Quinto Cecílio Metelo Pio, que comandava as forças romanas nesta campanha há 3 anos. Juntos, Metelo Pio e Pompeu conduziram uma campanha extremamente difícil contra as forças de Sertório, alternando vitórias e derrotas. Contudo, em 72 A.C., Sertório foi assassinado em uma trama urdida por outro general rebelde, Perpena. Assim, boa parte das tropas celtiberas, incluindo os Lusitanos desistiram de lutar após a morte do admirado Sertório. Metelo Pio, então, resolveu deixar a cargo de Pompeu a tarefa de lidar com as forças remanescentes de Perpena, que foram derrotadas com facilidade por Pompeu, ainda em 72 A.C.
Pompeu capturou e executou Perpena, mas ele foi muito criticado por ter queimado as cartas existentes no arquivo pessoal de Sertório. Acredita-se, por isso, que essa correspondência poderia guardar fatos comprometedores contra pessoas influentes em Roma…
O fato é que a luta contra Sertório deu grande prestígio popular a Pompeu, que levou a fama de haver vencido a guerra, apesar dele ter dividido o comando da parte mais difícil da campanha com Metelo Pio. Além disso, em 71 A.C., Pompeu aproveitou para aumentar a sua já vasta clientela na Hispânia e recompensou os seus soldados veteranos, dando-lhes terras na província.
3 – Aproveitando a vitória contra a Rebelião de Espártaco
De volta à Itália com seu exército, a carreira de Pompeu seria novamente bafejada pela sorte: Os remanescentes da célebre rebelião de Espártaco (Terceira Guerra Servil), que havia sido derrotada pelo general Crasso, ainda vagavam pela Itália. Assim, Pompeu recebeu do Senado a missão de combatê-los e, sem muita dificuldade, ele derrotou os últimos 6 mil escravos rebeldes, recebendo, mais uma vez, a maior parte do crédito que, na verdade, deveria ter sido dado com mais propriedade aos seus antecessores.
4 – Primeiro Consulado
A vitória na guerra contra Sertório deu a Pompeu, em 29 de dezembro de 71 A.C., o seu segundo Triunfo, igualmente contrário às leis da República, e pelo mesmo motivo anteriormente citado. Em seguida, numa uma prova cabal de que a República era, agora, mais um regime de fachada, onde o verdadeiro poder estava com os generais, Pompeu conseguiu ser eleito Cônsul para o ano de 70 A.C., apesar dele não ter percorrido a “Carreira das Magistraturas” (Cursus Honorum) e de ter apenas 35 anos de idade, não perfazendo, portanto, os requisitos legais. O seu colega de consulado seria Marco Licínio Crasso, o vencedor de Espártaco e que era o homem mais rico de Roma.
5 – Aproximação com a facção dos Populares
Em um sinal do tenso clima reinante, os dois homens fortes da República não dispensaram seus exércitos após o conflito. A bem da verdade, Pompeu e Crasso nunca digeririam bem a disputa sobre a quem cabiam os louros pela vitória na Guerra Servil. Não obstante, os dois concordaram em uma medida que certamente desagradou a facção dos Optimates: a restauração dos poderes e privilégios dos Tribunos da Plebe, os quais haviam sido revogados por Sila.
6 – A Guerra Contra os Piratas
Após exercer o consulado, Pompeu manobrou para obter, em 67 A.C., com a duração de 3 anos, o importante comando da Guerra contra os Piratas, os quais, centrados na região da Cilícia, infestavam o Mediterrâneo, atacando e saqueando os navios comerciais romanos. Para isso, ele contaria, entre outros, com o apoio de um jovem e promissor Senador, integrante dos Populares: Caio Júlio Cesar…
A Guerra contra os Piratas seria uma campanha gigantesca, que envolveria cerca de 100 mil soldados e 250 navios de guerra, e que certamente representava uma grande oportunidade de fama e poder para os políticos ambiciosos…
Muito mais do que em suas campanhas anteriores, Pompeu, na Guerra contra os Piratas, teve um desempenho brilhante e decisivo, derrotando os inimigos em apenas 3 meses. De fato, nesta guerra, Pompeu demonstrou um grande talento de estrategista, dividindo o Mediterrâneo em setores, cada um a cargo de um almirante, que ficava encarregado de patrulhar as respectivas águas, enquanto, por terra, Pompeu destruía, uma a uma, as bases dos piratas.
7 – A Guerra contra Mitridates e os sucessos no Oriente
Com seu prestígio nas alturas devido á vitória contra os piratas, Pompeu recebeu, em 66 A.C., em substituição à Lúculo, e, novamente com o apoio do jovem Júlio César e, igualmente, do conservador Cícero, o comando da Terceira Guerra contra Mitridates, o rei do Ponto ( Nota: o Ponto era um reino originariamente surgido de uma satrapia, ou província, do Império Persa que se tornou helenizado e que, durante um quarto de século, vinha opondo-se fortemente à expansão romana pelo Mediterrâneo Oriental).
(Mapa da campanha de Pompeu contra Mitridates)
No Oriente, Pompeu fez muito mais do que derrotar Mitridates, em 65 A.C., combatendo também os aliados deste na Armênia e até na atual República da Geórgia. Assim, com a vitória, além do Ponto, que foi unido à Bitínia, Pompeu anexou a Capadócia e a rica Síria, que se tornaram províncias romanas, apesar da relutância do Senado em autorizar isso. Pompeu também aproveitou-se das dissensões que grassavam no reino da Judéia para sitiar Jerusalém e invadir o Templo (respeitando, todavia, os objetos sagrados, que não foram saqueados) e, por último, ele atacou o reino dos Nabateus, em Petra. Concluindo sua jornada oriental, em 62 A.C., Pompeu transformou a Judeia em um estado-cliente, dependente da recém anexada Província da Síria.
Depois dessas façanhas militares, Pompeu passou a ser considerado no Oriente um personagem de uma estatura próxima a de Alexandre, o Grande. Já para os cidadãos romanos, que eram bem mais comedidos em colocar seus grandes homens no pedestal de heróis, Pompeu foi reconhecido por haver contribuído como poucos para aumentar o território e, sobretudo, a arrecadação da República Romana, incorporando como contribuintes as ricas cidades helenizadas da Anatólia e do Levante.
(Em 62 A.C., após as campanhas de Pompeu, a República Romana anexa o Ponto e a Síria, alargando os seus domínios e a sua área de influência na Ásia)
8 – Triunfo em Roma e intrigas políticas
Assim, em seu trajeto de retorno vitorioso para Roma, Pompeu passou pela Grécia, onde ele foi homenageado como se fosse um verdadeiro rei. Neste momento, muitos acreditaram que ele tomaria o poder pela força ao voltar para Roma. Porém, contrariando todas as expectativas, Pompeu dispensou o seu exército antes de entrar na Cidade, como mandava a Lei Romana, para celebrar o seu terceiro Triunfo, no dia do seu aniversário, em 61 A.C., que, desta vez, foi a mais suntuosa e magnífica procissão triunfal jamais vista em Roma.
Certamente, dispensar o exército e entrar em Roma como simples cidadão foi um gesto calculado de Pompeu para obter o apoio do Senado e do povo, demonstrando ser ele um cidadão cumpridor da lei e dos costumes tradicionais, imitando, deste modo, Sila, que, ao meu ver, parece ter sido o modelo no qual Pompeu baseava todo o seu projeto pessoal de ascensão ao poder…
Contudo, no Senado Romano, Pompeu não gozava nem da simpatia dos conservadores, ofendidos pelo apoio que ele havia dado à revogação das leis de Sila que restringiam o poder tribunício, e nem dos Populares, tendo em vista o seu histórico de lutas contra os mesmos. E Pompeu ficou ainda mais contrariado quando o Senado decidiu não recompensar os seus soldados veteranos com doações de lotes de terras públicas.
9 – Aliança com César e Crasso e o Primeiro Triunvirato
Enquanto isso, durante o afastamento de Pompeu de Roma para comandar as campanhas no Oriente, Júlio César ascendera como a grande liderança da facção dos Populares (César era sobrinho da mulher de Mário). Assim, quando César voltou à Roma, no ano 60 A.C., após governar a Hispânia, ele viu a oportunidade de conjugar a sua ambição política com as dos dois homens mais poderosos de Roma: Pompeu e Crasso, ambos insatisfeitos com os Optimates, que controlavam o Senado. Os três líderes então decidiram formar a aliança batizada de Primeiro Triunvirato.
(Cabeças de César, Crasso e Pompeu)
A aliança política do Primeiro Triunvirato foi cimentada pelo casamento de Pompeu com Júlia, a filha única de César. Vale observar que, mesmo tratando-se de um casamento arranjado, e apesar da diferença de idade entre os noivos (Pompeu tinha 47 anos e Júlia, 24), não obstante, acredita-se que os esposos acabaram se afeiçoando e, anos mais tarde, Pompeu sofreria muito com a morte de Júlia, no parto de uma menina que também não sobreviveu.
César foi eleito Cônsul em 59 A.C., com o apoio de Pompeu, e o Triunvirato assumiu o poder de fato em Roma. Apesar da violenta oposição dos Optimates, liderados por Catão, o Jovem, e também do seu colega de consulado, Bíbulo, César, entre outras medidas defendidas pelos Populares, conseguiu aprovar uma legislação dando terras na Campânia para os veteranos de Pompeu. Na mesma toada, Clódio, um correligionário de César, conseguiu aprovar uma lei especial (Lex Clodia) determinando o exílio de Cícero, como pena pelo fato deste ter ordenado a execução dos envolvidos na Conspiração de Catilina sem julgamento. Essa lei também designou o adversário Catão para governar a distante Chipre, o que, na prática, também equivalia a um exílio, afastando-o do Senado.
Em seguida, os Triúnviros decidiram dividir o governo das províncias romanas entre si, e César escolheu controlar as Gálias Cisalpina e Narbonense, além da Ilíria, autonomeando-se Procônsul, com mandato de 5 anos, a partir de 58 A.C. Em breve, ficaria claro que o propósito de César na Gália era conseguir uma conquista militar que o igualasse em prestígio a Pompeu…
10 – Crise do Primeiro Triunvirato
Todavia, as fontes relatam que os repetidos sucessos de César na Gália começaram a amargurar Pompeu, em Roma, pois eles ameaçavam ofuscar os seus próprios. Também por isso, Pompeu manobrou para trazer o influente Cícero de volta para Roma e, graças à revogação do exílio, os dois políticos se aproximaram.
Busto de Cícero
Em 57 A.C., Pompeu recebeu poderes extraordinários do Senado para cuidar do abastecimento de cereais de Roma, onde a fome grassava, um encargo que o colocava em uma excepcional posição em relação aos outros dois colegas no que tange à capacidade de angariar as simpatias da Plebe.
Enquanto isso, as relações entre Crasso e Pompeu também iam mal e, diante de tudo isso, o Triunvirato começava a soçobrar…Os nobres conservadores Optimates logo perceberam este esgarçamento e, aproveitando as dissensões entre os Triúnviros, conseguiram eleger um dos seus integrantes como Cônsul para o ano de 56 A.C. Por sua vez, Cícero questionou a legalidade da nomeação de César para o governo da Gália.
Percebendo o risco ao Triunvirato e a sua própria vulnerabilidade política, César deixou o comando da campanha da Gália com seus lugares-tenentes e convocou Pompeu e Crasso para uma reunião em Lucca, cidade situada na fronteira da Itália com a Gália Cisalpina, em abril de 56 A.C. Nesse encontro, que passaria à História como a “Conferência de Lucca“, César, Pompeu e Crasso acertaram as suas diferenças, estabelecendo que os dois últimos seriam candidatos a Cônsul no ano seguinte, com o apoio de César. Assegurada a eleição, os novos cônsules promulgariam uma lei prorrogando o mandato do proconsulado de César na Gália por mais cinco anos, sendo que, após o término do consulado de Pompeu e Crasso, eles seriam designados procônsules, respectivamente, da Hispânia e da Síria, também pelo prazo de cinco anos.
O adversário de Crasso e Pompeu na eleição para o consulado de 55 A.C., Lúcio Domício Enobarbo, um fervoroso membro da facção dos Optimates, e que era casado com a irmã do líder deles, Catão, o Jovem, prometeu proibir a prática da compra de votos dos eleitores e revogar o comando de César na Gália.
Porém, no dia da eleição, Enobarbo foi expulso à força do Campo de Marte pelos partidários dos Triúnviros, incluindo mil soldados enviados por César, uma coação que garantiu a vitória de Crasso e Pompeu.
Seguindo o combinado, os novos cônsules executaram os termos do acordo da Conferência de Lucca, através da “Lex Pompeia Licínia“, garantindo a recondução de César para a Gália e os proconsulados da Síria e da Hispânia para Crasso e Pompeu.
11 – O fim do Primeiro Triunvirato e a reaproximação com os Optimates
O destino, porém, abalaria a recém obtida estabilidade do Primeiro Triunvirato: no ano de 54 A.C., Júlia, a filha de César e esposa de Pompeu, morreu no parto e, em 53 A.C., Crasso, também ele sedento de obter a glória militar contra os Partos, foi capturado e morto por estes, após a desastrosa Batalha de Carras, em uma das piores derrotas militares sofridas pelos romanos desde a Segunda Guerra Púnica, 150 anos antes…
Logo ficou claro para os Optimates no Senado que César era uma ameaça muito maior do que Pompeu à supremacia que eles detinham no Estado Romano, e, assim, eles passaram a cortejar o último, que, na verdade, sempre havia ansiado pelo reconhecimento dos nobres.
Com efeito, reconciliado com os conservadores, Pompeu já não tinha se oposto à eleição de Lúcio Domício Enobarbo, ferrenho opositor de César, para cônsul, no ano de 54 A.C. Na verdade, o segundo até havia se tornado sogro do filho de Pompeu, que se casou com a filha de Enobarbo.
Sintomaticamente, Pompeu recusou a proposta de César para uma nova aliança matrimonial entre as famílias deles, na qual Otávia, a sobrinha-neta de César (e irmã do futuro imperador Otávio Augusto) lhe foi oferecida em casamento. Para reforçar ainda mais o seu distanciamento de César, Pompeu, em completa oposição à proposta de renovação dos laços matrimoniais com a família do seu colega, casou-se, em 52 A.C., com Cornélia Metela, que era filha de Quinto Cecílio Metelo Cipião, um dos mais empedernidos membros da facção dos Optimates e, portanto, um inimigo figadal de César.
Ainda em 52 A.C, as lutas políticas na cidade de Roma degeneraram em anarquia, com repetidos motins nas ruas, culminando no assassinato do ex-Tribuno da Plebe e membro dos Populares, Clódio, e que resultaram inclusive no incêndio do edifício da Cúria do Senado, terminando por impedir a eleição dos cônsules naquele ano. Essa situação caótica obrigou o Senado à medida extrema de nomear Pompeu como único Cônsul para aquele ano.Assim empoderado, Pompeu prontamente agiu, convocando os seus soldados e, com eles, restaurou a ordem na Cidade.
Evidenciando sua aproximação com os Optimates, Pompeu então nomeou o seu sogro Metelo Cipião como seu colega para o Consulado de 52 A.C.
Diante deste quadro, ainda que para os observadores externos Pompeu ainda resistisse a tomar a iniciativa do rompimento com César, qualquer um que tivesse o mínimo discernimento político perceberia que isso era apenas uma questão de tempo.
Na verdade, naquele momento, Pompeu e o Senado somente não tentaram tomar alguma medida mais efetiva contra César porque, ainda naquele ano de 52 A.C., estourou uma rebelião geral das tribos gaulesas, recém-conquistadas, um fato apto a colocar em risco à segurança da própria Roma.
Com efeito, unidos e liderados pelo chefe Vercingetórix, os gauleses tentaram um confronto definitivo na cidade fortificada de Alésia, onde, no entanto, eles foram definitivamente derrotados naquela que foi talvez a vitória militar mais brilhante de toda carreira de César.
‘César depõe suas armas aos pés de Júlico César, pintura de Lionel Royer (1899), Public domain, via Wikimedia Commons
Terminada a luta na Gália, a facção dos Optimates no Senado tratou de tentar fazer o mesmo com o comando de César para aquela campanha. Tanto os senadores conservadores quanto César sabiam que, despido da condição de governador e sem cargo público, ele perderia a imunidade, não faltando pretextos para processá-lo e condená-lo, na mais branda das hipóteses, ao exílio.
O confronto entre César e os Optimates tornou-se, então, dramático, com várias manobras políticas visando substituir o primeiro, cassando-lhe a imunidade ou, pelo lado dos seus correligionários Populares, tentando prolongar-lhe o mandato ou elegê-lo para outra magistratura capaz de manter César fora do alcance das retaliações dos adversários.
Assim, em 50 A.C., enquanto ainda estava na Gália, César tentou, sem sucesso, concorrer ao cargo de Cônsul, sem, contudo, abandonar o Proconsulado da Gália e continuando naquela Província, o que era proibido por lei. César, porém, contava com o apoio do Tribuno da Plebe Caio Escribônio Curião, que, segundo alegou-se, teria sido subornado mediante o pagamento de suas dívidas por César. Curião vetava todos os projetos de lei que pretendiam substituir César na Gália ou revogar o seu mandato. Curião, inclusive, chegou a propor uma solução conciliatória entre os partidários de César e a facção dos Optimates: César renunciaria ao comando da Gália desde que: ele recebesse a permissão para concorrer às eleições para o Consulado de 49 A.C. e Pompeu também renunciasse ao seu comando militar. Essa proposta até encontrou simpatia do grupo de senadores moderados, mas o núcleo conservador do Senado, liderado pelo Cônsul Caio Cláudio Marcelo, se opôs ferozmente a ela e eles obstruíram a votação de qualquer proposta naquele sentido.
Com certeza, os senadores mais sensatos percebiam o risco iminente da guerra civil e, por isso, eles apoiavam uma solução de compromisso. Assim, quando, na Sessão do Senado do dia 1º de dezembro de 50 A.C., o Cônsul Cláudio Marcelo reapresentou a proposta de substituição de César na Gália, eles, que inicialmente haviam aprovado a remoção dele, acabaram aprovando, por 370 votos a favor e apenas 22 contra, a emenda substitutiva apresentada por Curião, que estabelecia que também o comando de Pompeu deveria ser encerrado. Porém, Marcelo recusou-se a aceitar o resultado da votação da emenda de Curião e, alegando que César havia cruzado os Alpes com 10 legiões para invadir a Itália, ele declarou dissolvida a Sessão, antes da aprovação do texto.
12 – Rompimento com César
Em seguida, rompendo com a ordem institucional, Marcelo e alguns integrantes da facção conservadora partiram para a residência de Pompeu para tentar convencê-lo a assumir o comando de todas as tropas na Itália e fizesse o necessário para “salvar a República“. Pompeu, demonstrando alguma relutância, real ou fingida, concordou, ressalvando que ele faria isso
“a não ser que fosse encontrado um caminho melhor”.
Curião, cujo mandato de Tribuno e a sua consequente inviolabilidade pessoal terminariam em poucos dias, decidiu fugir de Roma e ir ao encontro de César, que se encontrava em Ravena, fora dos limites da Itália Romana, acompanhado apenas da XIII Legião. Apesar de instado por Curião a marchar sobre Roma, César decidiu, entretanto, fazer uma nova proposta de acordo: Ele seria nomeado governador da Ilíria e manteria sob seu comando uma legião, até a eleição para o consulado de 49 A.C. Esta proposta foi, contudo, terminantemente recusada pelos Cônsules.
No dia 1º de janeiro de 49 A.C., César tentou a sua última cartada no Senado para manter a sua carreira política: Valendo-se do novo Tribuno da Plebe, Marco Antônio, que, da mesma forma que o outro Tribuno, CássioLongino, era seu fiel colaborador, César enviou, através de Curião, uma carta ao Senado para ser lida em sessão, por Antônio. Contudo, quando Antônio começou a ler a carta, após o trecho em que César reiterava a disposição dele de somente deixar a Gália e desmobilizar o seu exército caso Pompeu fizesse o mesmo, ele foi interrompido aos gritos pelos senadores conservadores, e não conseguiu prosseguir. No decorrer desta tumultuada sessão, Metelo Cipião, o sogro de Pompeu, propôs que fosse fixada uma data para que César fosse demitido do comando na Gália e dispensasse suas tropas, após o que ele seria declarado “Inimigo Público“. A moção foi aprovada, e somente houve dois votos contrários: os de Curião e do senador Célio.
Muito provavelmente, a explicação para tamanha diferença entre esta votação e aquela ocorrida um mês antes era a maciça presença das tropas de Pompeu nas cercanias de Roma…
Não obstante, o Tribuno Marco Antônio vetou a moção de Metelo Cipião e apresentou uma nova proposta para que fosse incluído na lei que o comando de Pompeu também se encerraria na mesma data, sendo esta proposta conciliatória bem recebida. Porém, novamente, o cônsul Lúcio Cornélio Lêntulo, apoiado por Metelo Cipião, dissolveu a Sessão antes que o projeto de lei contendo as modificações de Antônio fosse aprovado.
Em 7 de janeiro de 49 A.C., o Senado Romano aprovou o “Senatus Consultum Ultimus” declarando a Lei Marcial e nomeando Pompeu como “Protetor de Roma“, equivalendo, na prática, ao cargo de Ditador. Como era esperado, essa lei também declarou o término do mandato de César na Gália, ordenando que ele entregasse o comando das tropas. Em seguida, os soldados de Pompeu ocuparam Roma. Pompeu, agora mais incisivo, expediu uma sugestiva nota dizendo que:
“Ele não poderia garantir a segurança dos Tribunos”.
Marco Antônio e Cássio entenderam bem o recado e fugiram de Roma, indo ao encontro de César. Quando eles chegaram, César percebeu que não havia mais espaço para manobras políticas ou negociações. Ele teria agora que optar entre obedecer o Senatus Consultum Ultimus e arriscar a sorte como um cidadão comum exposto à sede de vingança dos inimigos, ou ignorar a mesma e tornar-se um rebelde e um fora-da-lei.
13 – Começa a Guerra Civil
No dia 10 de janeiro de 49 A.C., César, comandando apenas a XIII Legião, cruzou o riacho chamado Rubicão, que marcava a fronteira da Itália com a Gália Cisalpina. Ao entrar na Itália à testa de um exército, ele violara a lei romana e era, tecnicamente, autor de um crime de alta traição. Nas próprias palavras de César:
“A sorte está lançada”.
Começava a Guerra Civil.
O Senado ficou chocado com a rapidez com que César conseguiu invadir a Itália e pela ousadia de tê-lo feito com apenas uma legião.
O fato é que, pouco antes Pompeu já havia recebido a autorização do Senado, agora inteiramente controlado pelos Optimates, para recrutar um exército de 130 mil homens na Itália, o qual eles achavam que estaria pronto quando César chegasse. Entretanto, ao contrário do esperado, ao invés de ser recebido como fora-da-lei pelos italianos, praticamente todas as cidades no caminho aclamavam César como um herói e o campeão da causa dos Plebeus.
Pompeu também imediatamente compreendeu que qualquer tropa que estivesse a sua disposição não seria páreo para os calejados legionários de César, que naquele momento eram provavelmente os melhores soldados do Mundo…
Para compensar, durante o avanço de César para Roma, Pompeu recebeu um alento: um dos mais importantes comandantes de César, o hábil general Labieno, desertou e uniu-se às forças de Pompeu.
Em função de sua iniciativa e do apoio popular, César tomou Roma sem precisar lutar, pois os senadores conservadores, apavorados, fugiram para as propriedades deles fora da Cidade, deixando boa parte do Tesouro do Estado à disposição dele.
E sobretudo porque Pompeu havia concluído que a melhor estratégia era fugir para a Campânia, onde as tropas senatoriais ainda estavam sendo recrutadas.
Nesse meio tempo, Lúcio Domício Enobarbo, que fora apontado pelo Senado como o sucessor de César para a Gália e recebera 4 mil homens para tentar impedir o avanço dele para Roma, foi detido enquanto tentava escapar da cidade de Corfinium, pelos próprios habitantes e entregue a César, que já vinha em sua perseguição. Os soldados que Enobarbo comandava aderiram a César, enfraquecendo, assim, a perspectiva de uma resistência senatorial na Itália.
14- Retirada estratégica para a Grécia
Pompeu decidiu, então, partir para a Grécia, onde, explorando o seu prestígio e sua vasta clientela existente na região, ele poderia reunir um grande exército. Além disso, ele ainda tinha sob seu comando uma considerável frota romana, ao contrário de César, cujos poucos navios disponíveis tornavam difícil perseguir Pompeu, ainda mais agora que a chegada do inverno estava próxima, impedindo por alguns meses os transportes marítimos. Finalmente, Pompeu tinha mais chances de interceptar os carregamentos de cereais para Roma, onde a fome resultante seria responsabilidade de César, enfraquecendo-o perante a Plebe.
Embora o plano supracitado não fosse uma estratégia ruim, o fato de Pompeu ter tido que abandonar a Itália, demostra o despreparo com que ele foi pego pela rápida ação de César. E isto apesar de terem sido Pompeu e os Optimates que deram o ultimato ao adversário, tendo um bom tempo para se prepararem…
Acompanharam Pompeu em sua retirada estratégica da Itália a maior parte da facção dos Optimates. Assim, ao contrário de César, que era o comandante supremo de suas forças, Pompeu, por diversas vezes, tinha que escutar e levar em consideração os palpites militares dos senadores mais proeminentes, muitos deles com pouca ou nenhuma experiência bélica.
César, devido à impossibilidade de perseguir Pompeu até a Grécia, decidiu partir para enfrentar os exércitos do rival que se encontravam baseados na Hispânia. Isso motivou o famoso comentário de César:
“Parto para a Espanha para enfrentar um exército sem general e logo seguirei para enfrentar um general sem exército.”
Chegando em Ilerda, após mais uma impressionante marcha forçada, César cercou o exército de Pompeu, que se rendeu em 02 de julho de 49 A.C., De volta à Roma, César, em apenas 11 dias de estadia na capital, foi nomeado Ditador por um curto período e, após editar uma série de decretos implementando políticas de interesse dos Populares, conseguiu que Pompeu fosse declarado “fora-da-lei”.
Em 28 de novembro de 49 A.C., após conseguir os navios necessários, César partiu de Brundisium e cruzou o mar Adriático em direção ao Épiro, na atual Albânia. Se o inverno era insatisfatório para transportar as tropas via marítima, era muito mais para as instáveis galeras de patrulha da frota de Pompeu, assim, a cartada de César inicialmente foi um sucesso e ele conseguiu desembarcar metade de suas forças.
Porém o comandante da frota de Pompeu, ancorada em Corfu, Marco Calpúrnio Bíbulo, que tinha sido pego de surpresa pelo desembarque repentino de César, agora estava alerta e decidiu bloquear a costa do Épiro, impedindo a chegada de reforços e de provisões para César. E, para a animar o ânimo de Pompeu, o seu outro comandante, Lúcio Escribônio Libo, conseguiu a capturar as ilhas que dominavam a entrada do porto de Brundisium.
Agora parecia que a audácia de César o tinha levado longe demais. Pompeu tinha muito mais legiões do que ele no Épiro e agora, além da inferioridade numérica, o exército do rival não poderia mais receber suprimentos nem reforços.
Enquanto isso, Pompeu, estabelecido em Tessalonica, na Macedônia, montou um verdadeiro governo romano no exílio, rodeado por tantos senadores fugitivos, cerca de duzentos, que eles passaram a se reunir em sessão naquela cidade grega, como se estivessem no Senado, em Roma. Em Tessalonica, Pompeu recebeu Rufo, um general partidário seu a quem César havia capturado na Hispânia, que lhe foi enviado por César como um emissário levando uma proposta de acordo de paz, onde ambos desmobilizariam seus exércitos e submeteriam seus pleitos ao Senado e ao Povo de Roma. Essa proposta de César foi motivada pela situação desfavorável em que ele se encontrava no Épiro.
Pompeu, diante das notícias, recusou a oferta e decidiu que era hora dele se mexer e marchar em Direção à Apolônia, na costa do Épiro. Porém, César chegou ali antes e o povo da cidade, surpreendentemente, o recebeu de braços abertos, e o governador romano da cidade, Straberius, que tinha sido apontado por Pompeu, teve que fugir.
15- Vitória tática, mas derrota estratégica na Batalha de Dirráquio
Quando ficou sabendo da perda de Apolônia, Pompeu decidiu fazer uma marcha forçada para uma boa posição defensiva na cidade de Dirráquio (atual Durres, na Albânia, ou, ainda, Durazzo, em italiano), local que ele alcançou em 3 de dezembro de 49 A.C.Porém, essa marcha forçada não foi um bom prenúncio para os partidários de Pompeu. Nela ficou patente que o grande general já estava ficando velho, e que as tropas por ele recrutadas estavam despreparadas e desanimadas.
Agora, os exércitos estavam separados pelo rio Apsus, o de Pompeu acampado nas cercanias de Dirráquio, e o de César nos arredores de Apolônia. Entretanto, Pompeu, apesar do seu exército ser muito mais numeroso, dando uma demonstração de falta de combatividade, ou talvez por ele não confiar na capacidade do seu exército, ao invés de atacar César, ficou acampado por dois meses em atitude de espera…
Nesse meio tempo, César vinha requisitando aos seus correligionários em Roma o envio de reforços com urgência, e, para a sua felicidade, Marco Antônio, o seu braço-direito, conseguiu despistar o bloqueio naval de Libo, que havia perdido um pouco da eficiência depois da morte de Bíbulo, e desembarcou mais 4 legiões na cidade de Nympheum, em fevereiro de 48 A.C.
A notícia do desembarque de Antônio chegou, quase ao mesmo tempo, aos dois acampamentos. Pompeu decidiu, então, interceptar os recém-chegados reforços antes que eles se unissem a César. Ele tinha a vantagem de não ter que cruzar o rio e na verdade começara a marcha um pouco antes. Assim, Pompeu escolheu um ponto para tentar emboscar as legiões de Antônio que avançavam. Antônio, porém, foi avisado por simpatizantes gregos da armadilha e decidiu permanecer acampado, protegido de um ataque pela paliçada, fosso e torres. Pompeu logo percebeu que, agora, ele corria o risco de ficar entre uma posição fortificada inimiga e o exército de César e ele, então, achou mais prudente voltar para Dirráquio, onde se entrincheirou de vez. Ele foi seguido por César, que também começou a construir uma cadeia de paliçadas, fossos e torres de fortificação, de modo que ambos os líderes foram tornando o campo de batalha de certa forma parecido com o que se veria, quase dois mil anos depois, na 1ª Guerra Mundial.
Ter permitido a junção das reforços de Antônio às legiões de César com certeza foi uma derrota tática de Pompeu. Se antes, quando tinha superioridade de 3 para 1, ele não atacara César, agora seria muito mais difícil… A sua estratégia reduziu-se, então, a esperar que César ficasse sem suprimentos, já que ele poderia recebê-los da Grécia. César, por sua vez, como demonstram os trabalhos de fortificação que ordenou, também esperava proteger as únicas linhas que tinha de suprimentos por terra, no Épiro, província que estava longe de ser abundante em recursos, já bem exauridos pelos recentes combates, e, sobretudo, se proteger dos ataques do inimigo muito mais numeroso.
Curiosamente, à medida que o tempo foi passando, o trigo dos campos que se encontravam dentro do perímetro fortificado de César começou a crescer. Já Pompeu passou a ter problemas de escassez de água, e, assim, invertendo-se a situação, ele é que passou a ficar na condição de sitiado. Essa situação em breve obrigaria Pompeu a ter que atacar para romper as linhas de César. Mas, nessa premência, Pompeu seria beneficiado por um golpe de sorte: Dois comandantes de cavalaria da tribo gaulesa dos Allobroges, que serviam como auxiliares no exército de César, acusados de desviarem o soldo das suas tropas, desertaram e foram se unir a Pompeu. Os desertores contaram detalhes acerca das posições defensivas de César, sobretudo algumas posições no sul das linhas, que não tinham ficado prontas.
Vislumbrando uma boa oportunidadepara a ação, Pompeu, em 10 de julho de 48 A.C., ordenou um ataque de seis legiões contra o ponto fraco, onde a paliçada de César chegava até o mar, inclusive utilizando tropas ligeiras desembarcando diretamente da água, naquele ponto. Com superioridade numérica esmagadora, as legiões de Pompeu conseguiram romper o perímetro defensivo, fazendo recuar a IX Legião Cesarista, com pesadas perdas. Contudo, César deslocou 4 mil homens para o ponto fraco, sob o comando de Marco Antônio e contra-atacou, fazendo as tropas de Pompeu se refugiarem em um pequeno forte que havia sido abandonado pelos soldados de César. Este resolveu desalojá-los de lá enviando 33 Cohortes de infantaria, apesar desse número ser metade do das legiões que estavam sendo atacadas.
Ao contrário do que se esperava, as tropas de Pompeu resistiram tenazmente e ainda foram auxiliadas por um destacamento misto de cavalaria e infantaria que o experiente general enviou no calor da batalha para flanquear a retaguarda da ala direita dos soldados de César. Ameaçado pelo contra-ataque de Pompeu, César tentou organizar uma retirada ordenada mas os soldados dele entraram em pânico e correram para se proteger atrás dos muros de seu próprio acampamento. César perdeu mil homens no ataque fracassado.
Mais uma vez, contudo, Pompeu hesitou no momento crucial e deixou de ordenar um ataque generalizado ao exército de César, o qual teria grande probabilidade de lhe dar a vitória completa. Parece que ele, erroneamente, suspeitou que a retirada do rival era uma armadilha ou, então, que a parada já estava ganha, mas o fato é que ele acabou não fazendo nada, o que motivou o impiedoso comentário de César:
“Hoje a vitória teria sido do Inimigo, se houvesse entre eles alguém que soubesse ganhá-la”.
César, então, decidiu se retirar do campo da Batalha de Dirráquio e marchar para a Tessália, local para onde ele já tinha enviado umas legiões sob o comando de Cneu Domício Calvino para confrontar o resto do exército de Pompeu que ali era lideradas por Cipião Násica.
Da mesma forma, seguindo a uma distância prudente o inimigo, Pompeu deixou o campo de batalha e seguiu para a Tessália. Embora cautelosamente ele achasse que ainda não chegara a hora de lutar uma batalha decisiva, Pompeu acabou sendo convencido pelo seu séquito de influentes senadores Optimates a perseguir César e seu exército para forçar uma batalha decisiva. E o cenário escolhido para isso foi a planície de Farsália (Pharsalos), onde os exércitos inimigos acamparam.
Pompeu tinha entre cerca de 60 mil soldados e 45 mil soldados e César, entre 30 mil e 22 mil (as fontes variam). E o contingente de cavalaria à disposição de Pompeu era esmagadoramente superior: 7 mil contra mil. Os acampamentos dos dois exércitos ficavam distantes cerca de 9 km um do outro.
César, com certeza, não tivera sua confiança abalada pela derrota na Batalha de Dirráquio e ele deve, como em tantas vezes anteriores, ter conseguido motivar suas tropas. Por isso, todo dia ele mandava o exército entrar em formação de combate à vista do inimigo, tentando atrair Pompeu para o campo de batalha. Mas o máximo que Pompeu fazia era formar seu exército no topo da colina em que ele acampara, na improvável esperança de que César atacasse em um terreno que lhe era francamente desfavorável.
Enquanto isso, no quartel de Pompeu, os senadores exigiam que ele liquidasse logo o assunto. Após o desempenho razoável em Dirráquio, a confiança dos Optimates era tanta que eles chegaram até a fazer uma divisão prévia dos cargos no governo, que seria implementada quando do que eles julgavam ser o iminente retorno vitorioso deles à Roma.
16- Derrota na Batalha de Farsália
Assim, em 9 de agosto de 48 A.C., todo o exército de Pompeu desceu da colina e se colocou em ordem de batalha, disposto em três linhas com profundidade de dez homens cada. Novamente, porém, a iniciativa seria deixada ao adversário. O plano era esperar que César atacasse, já que se esperava que suas tropas ficariam cansadas pela marcha. E, desta vez, as linhas de César, comandadas por MarcoAntônio e Domício Calvino avançaram, não sem antes pararem no meio do caminho para descansar e se reagrupar, até que elas se chocaram com o centro da primeira linha de Pompeu, que resistiu ao ataque.
Então, ambos os exércitos ficaram se empurrando e tentando abrir espaços entre os caídos, sem sucesso, como era característico dos combates da Antiguidade. Entretanto, quando Labieno, obedecendo as ordens de Pompeu, lançou a sua cavalaria do flanco esquerdo, que superava a de César por 7×1, visando esmagar a a cavalaria inimiga, é que se percebeu que César, discretamente, havia formado uma quarta linha, por trás das 3 primeiras, que tinham sido formadas para serem mais finas dos que as de Pompeu (6 homens), a qual composta com elementos da terceira linha (8 coortes) misturados com seus mil cavaleiros.
Os cavaleiros de Pompeu, surpresos pelo tamanho da formação, que eles esperavam que fosse bem menor, quando se depararam com a quarta fileira de tropas de César, entraram em pânico e dispersaram-se, quando os legionários, ao invés de atirarem os seus dardos (pila), usaram-nos como lanças, apontadas para os cavalos.
Em seguida, a quarta linha de infantaria de César aproveitou-se de que o flanco esquerdo de Pompeu estava desprotegido, após a fuga da cavalaria, e atacou aquele ponto, que, em pouco tempo, começou a perder a coesão, e com o pânico espalhando-se entre os soldados.
Aproveitando o momento adequado, César lançou a sua terceira linha sobre a linha de frente do inimigo, que foi rompida. Assistindo seu exército ser envolvido, Pompeu decidiu voltar para o seu acampamento, deixando as tropas no campo de batalha, que, ao se verem sem o seu comandante supremo, começaram um debandada geral. Quando César conseguiu alcançar o acampamento inimigo, que, diga-se de passagem, foi galantemente defendido pelos auxiliares trácios, Pompeu já tinha fugido.
De acordo com os “Comentáriossobre a Guerra Civil“, obra atribuída ao próprio César, ele perdeu apenas 30 centuriões e 200 legionários na Batalha de Farsália.
17 – Pompeu foge para o Egito
O objetivo de César agora era perseguir e capturar Pompeu para impedir que ele reunisse um novo exército. De fato, Pompeu tinha parado em Amfípolis e publicado um decreto conclamando todos os homens da província da Macedônia a se juntarem a sua causa. Porém, quando se César aproximava-se daquela cidade, ele resolveu fugir, embarcou em um navio e, no trajeto, apanhou sua esposa, Cornélia, e o seu filho, para se juntar aos remanescentes de sua frota. Contudo, em todo lugar que Pompeu atracava, ficava claro que ele ali não era bem-vindo.
Como o grande aliado de Pompeu na guerra contra César e os Populares, Catão, o Jovem, o líder intelectual dos Optimates, já tinha fugido para a África para tentar organizar a resistência aos inimigos, Pompeu foi aconselhado a fazer uma parada no Egito. Parecia, de fato, uma boa ideia, já que o pai do atual faraó Ptolomeu XIII tinha mantido com Pompeu uma relação de quase-clientela, a quem, inclusive, o faraó pagou uma grande soma em dinheiro para ser reconhecido por Roma.
Ptolomeu XIII, que ainda era um menino de cerca de 14 anos, no início parecia disposto a receber Pompeu, porém, ele foi alertado pelo eunuco Potheinus, por seu tutor, Teódoto de Chios, e por Achillas, o comandante do exército egípcio, de que, uma vez no Egito, Pompeu poderia tentar governar o país, já que muitos dos mercenários romanos que compunham o exército egípcio tinham servido sob as ordens de Pompeu. O jovem faraó foi também aconselhado que tudo indicava que César seria o vencedor da Guerra Civil e o melhor seria não desagradá-lo.
18 – A triste morte de Pompeu
Assim, quando a pequena frota de Pompeu chegou próximo à cidade egípcia de Pelousium, local onde Ptolomeu XIII travava uma guerra pela sucessão com sua irmã Cleópatra VII, o general Achillasfoi, juntamente com Septimius, que tinha sido um antigo oficial de Pompeu, ao encontro dele, em um barco de pesca, dando a entender que tinham vindo buscar o romano para desembarca-lo em terra.
Os acompanhantes de Pompeu, porém, quando viram o pequeno barco de pesca aproximar-se, ficaram desconfiados e o aconselharam de que eles não deviam se aproximar da outra embarcação. Achillas, então, gritou que o motivo deles estarem usando um barco tão pequeno era a pequena profundidade da água, apesar de alguns navios egípcios estarem próximos. Nesse momento, Cornélia teve um pressentimento de que o seu marido ia ser morto e lhe disse para não embarcar. Pompeu, todavia, ignorou o receio da esposa e embarcou.
À bordo do pesqueiro, Pompeu, achando a fisionomia de Septimius familiar, perguntou se ele tinha sido seu camarada de exército. Naquele instante, Septimius, sem nada responder, enfiou a espada dele em Pompeu, sendo que Achillas e um certo romano denome Savius, que acompanhavam tudo, também aproveitaram para esfaquear Pompeu com as suas adagas.
Assistindo a tudo, horrorizados, os tripulantes do navio de Pompeu, aproveitando o vento favorável, fugiram. Enquanto isso, a cabeça de Pompeu foi cortada, e o corpo dele, jogado ao mar.
Pompeu morreu em 28 de setembro de 48 A.C., um dia antes do seu aniversário, no qual ele completaria 60 anos de idade. Quando, apenas dois dias após, César chegou à Alexandria, em perseguição ao rival, Teódoto lhe presenteou com o anel-selo de Pompeu e um recipiente, do qual foi retirada a cabeça de Pompeu. As fontes contam que César chocado, chorou o trágico fim do rival e amaldiçoou Teódoto, que teve que fugir para não ser executado.
Os restos de Pompeu foram entregues a Cornélia e enterrados na Vila de Pompeu, em Alba, na Itália.
19 – Conclusão
Pompeu acabou se tornando um personagem que goza de uma certa simpatia pelo público amante da História de Roma. Apesar de ter sido um homem muito ambicioso, ele preferiu, quando teve condições de tentar a conquista do poder absoluto, obter a chancela do Senado e respeitar a Constituição. Parece-nos que o fato dele não pertencer a uma família da nobreza tornou-o excessivamente sequioso da aprovação dos nobres, dos quais, embora ele tenha se afastado temporariamente, acabou se reaproximando.
Na verdade, mesmo que Pompeu tivesse ganho a Guerra Civil, a República já estava ferida de morte e provavelmente ele seguiria a trajetória de Sila, ou, caso a sua ambição falasse mais alto, a que o próprio César trilharia, após ter vencido a Guerra Civil. Em qualquer dos casos, acredito que os Populares acabariam encontrando um outro campeão, talvez osmesmos Marco Antônio e Otaviano.
A relação pessoal amistosa de Pompeu com César, durante a maior parte da carreira dele, parece ter sido genuína, e os relatos deixam transparecer que os dois grandes homens da República da época efetivamente admiravam-se e respeitavam-se mutuamente. O casamento de Pompeu e Júlia, embora tenha sido arranjado com finalidades políticas, acabou se transformando em uma união de verdadeiro amor conjugal, e tudo isso contribuiu para melhorar a imagem de Pompeu para a posteridade.
FIM
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Em 23 de abril de 303 D.C, um soldado romano chamado Georgios foi executado por ordens do Imperador Romano Diocleciano.
Diocleciano havia ordenado que todos os soldados do Exército Romano oferecessem um sacrifício aos deuses do panteão tradicional de Roma e aqueles que se recusassem deveriam ser presos.
Georgios (Jorge), segundo a hagiografia e a tradição cristã seria filho de Gerontius, um oficial romano da ilustre família senatorial dos Anícios, e Pollycronia, uma súdita romana de Lydda, atual Lod, em Israel, então situada na província romana da Síria Palestina. Segundo outro relato, Gerontius seria natural da Capadócia. De qualquer modo, as fontes acordam que Jorge cresceu em Lydda e que sua família era cristã.
(Mosaico romano descoberto em Lod, Israel)
Seguindo a carreira do pai, Jorge se alistou na guarda imperial, servindo na corte de Diocleciano em Nicomédia (atual Izmit, na Turquia), que havia sido elevada pelo imperador à condição de capital imperial, no recém-criado sistema da Tetrarquia.
Jorge acabou sendo promovido ao posto de Tribuno, que hoje seria equivalente ao de coronel. Quando Diocleciano publicou seu Édito exigindo que os soldados cristãos renunciassem ao cristianismo, Jorge anunciou publicamente, perante as tropas formadas na presença do Imperador, sua devoção a Jesus Cristo.
O Imperador, que apreciava Jorge tentou convencê-lo de várias formas a obedecer o Decreto, até oferecendo-lhe terras, dinheiro e escravos, mas Jorge manteve-se irredutível.
Sentindo-se obrigado a reforçar a obediência ao seu Édito, Dioclecianoordenou queJorge fosse torturado em uma roda de afiadas espadas. Após este suplício, Jorge foi decapitado em frente às muralhas de Nicomédia, em 23 de abril de 303 D.C. Seu corpo foi levado para Lydda e logo se tornou foco de devoção como relíquia de umt mártir cristão. Ainda segundo a tradição, a imperatriz Alexandra, esposa de Diocleciano (segundo as fontes históricas, o nome da esposa dele era Prisca), ao assistir o martírio de Diocleciano, converteu-se ao cristianismo, motivo pelo qual ela também foi executada e, posteriormente, canonizada.
(Panorama de Izmit, a antiga Nicomédia, na Turquia)
A associação de São Jorge ao dragão parece ter sido recolhida e trazida à Europa pelos cruzados no Oriente Médio (algumas populações islamizadas inclusive mantiveram a veneração a São Jorge na região).
Segundo a lenda, na cidade de Sylene (que poderia ser Cirene, na Líbia ou, segundo alguns, seria a própria Lydda), um dragão ( originalmente um crocodilo) viveria na fonte de água potável dos habitantes, que eram obrigados a oferecer ao monstro uma ovelha para sacrifício, até que, na falta dos animais, eles foram forçados a oferecer uma virgem. A donzela orou pedindo proteção e São Jorge apareceu e matou o dragão, motivo pelo qual todos os habitantes se converteram ao cristianismo.
Jorge foi canonizado pelo Papa Gelásio I, em 494 D.C. Embora o santo fosse conhecido no Ocidente, a sua popularidade chegou ao ápice com o retorno à Europa dos cruzados, que atribuíram à intervenção de São Jorge várias vitórias obtidas na Terra Santa. Por influência deles, São Jorge acabou virando o santo patrono da Inglaterra, de Portugal, da Geórgia, da Romênia e de Malta. A imagem de São Jorge matando o dragão também compõe a Cota de Armas da Federação Russa.
Em 15 de dezembro de 37 D.C., nasceu, em Anzio, Itália, Lucius Domitius Ahenobarbus (II), que passaria a História com o nome de Nero, filho de Gnaeus Domitius Ahenobarbus e de Agripina Minor (Agripina, a Jovem).
A gens dos Domícios (Domitii), que nos primórdios da República era plebeia, atingiu, ainda durante a fase de expansão de Roma pela península itálica, uma grande proeminência política, ocupando a magistratura do Consulado e fornecendo ao Estado destacados generais.
Já no final do período republicano, o ramo da gens Domitia dos Ahenobarbus (literalmente, os “barbas ruivas”) apoiou a facção senatorial dos Optimates (nobres) contra Júlio César. E, após o assassinato do Ditador, durante o Segundo Triunvirato, eles estiveram associados com o triúnviro Marco Antônio.
(Busto colorizado de Nero, mostrando os cabelos e a barba ruiva, característica da família dos Ahenobarbus)
Apesar de ter apoiado Marco Antônio, a família acabaria ingressando no círculo familiar do grande rival dele na disputa pelo poder supremo – Otaviano (o futuro imperador Augusto), uma vez que o bisavô de Nero, que também se chamava Lucius Domitius Ahenobarbus (I), casou-se com Antonia Major (Antônia, a Velha) que era filha de Antônio e Otávia, a irmã de Otaviano.
Os laços com a dinastia imperial dos Júlios-Cláudios (nome que deriva do fato de Augusto, sobrinho-neto e herdeiro de Júlio César, ter adotado o filho de sua terceira esposa,Lívia Drusila, e que seria o seu sucessor, Tibério.
Agripina, a Jovem, por sua vez, era neta de Augusto (a mãe dela, Agripina, a Velha, era filha de Júlia, a filha única de Augusto com sua segunda esposa Escribônia). Portanto, Nero era descendente direto do primeiro imperador, por parte de mãe, e também era parente de Augusto, por parte de seu pai, Gnaeus Domitius Ahenobarbus.
Todavia, a despeito de possuir tão ilustre ascendência, a princípio não parecia que o destino de Nero prometia muito. Com efeito, o seu pai, que tinha sido Cônsul em 32 D.C., foi acusado de traição, assassinato e adultério no final reinado de Tibério e ele somente se safou graças à morte do velho imperador, em 37 D.C., alguns meses antes do nascimento do próprio Nero. Todavia, Gnaeus Domitius Ahenobarbus acabaria morrendo poucos anos depois, de um edema, em janeiro de 40 ou 41 D.C.
O historiador romano Suetônio escreveu queGnaeus Domitius Ahenobarbus era um homem cruel e desonesto. Talvez por isso, ao receber os cumprimentos dos amigos pelo nascimento de Nero, o historiador registra que ele teria dito:
“Nada que não seja abominável e uma desgraça pública pode nascer de Agripina e de mim”
A sorte de Agripina, a mãe de Nero, não foi melhor no período. Embora ela fosse irmã do novo imperador, Gaius Julius Caesar Germanicus, mais conhecido como Calígula, (ambos eram filhos de Germânico, o falecido sobrinho e herdeiro de Tibério, adorado pelo povo e supostamente envenenado a mando de Lívia, viúva de Augusto e mãe de Tibério), este logo entrou em um processo de paranoia e loucura que o levou a suspeitar e perseguir de quase todos, inclusive os integrantes de seu círculo mais íntimo.
Assim, em 39 D.C., Agripina foi acusada de fazer parte de uma conspiração, fictícia ou verdadeira, contra o seu irmão, sendo condenada ao exílio nas ilhas Ponzianas, ao largo da Itália. Então, Calígula aproveitou esse pretexto para confiscar a herança do seu jovem sobrinho Nero.
Nero, portanto, no espaço de dois anos, quando ainda era uma criança de tenra idade, além de ter sido afastado do convívio com a mãe, exilada, teve a sua herança confiscada e também perdeu o pai. Ele foi então morar com sua tia, Domícia Lépida, que era irmã de seu pai.
Reabilitação de Agripina e Nero
Todavia, a sorte de Agripina e Nero mudaria com o assassinato de Calígula pelo centurião Cássio Queréa, em 41 D.C., em uma conspiração engendrada pela Guarda Pretoriana. Logo após o tiranicídio, os guardas descobriram, escondido atrás de uma cortina, o tio da imperial vítima, Cláudio, até então tido como imbecil e incapaz de ocupar qualquer cargo público, e o aclamaram como novo Imperador.
Cláudio era irmão de Germânico e, portanto, não surpreende que uma das primeiras medidas de Cláudio tenha sido chamar de volta do exílio a filha deste, Agripina, que era sua sobrinha. Assim reuniram-se, novamente, Nero e sua mãe. O novo imperador mandou também devolver ao seu sobrinho-neto, Nero, a herança confiscada por Calígula.
Ao contrário das expectativas, Cláudio mostrou-se um administrador competente das questões de Estado. Todavia, o mesmo não se pode dizer quanto à sua vida conjugal… Após dois casamentos fracassados, Cláudio casou-se com Valéria Messalina (filha de Domícia Lépida), esposa que se mostrou dominadora e notabilizou-se pela infidelidade e promiscuidade sexual, segundo os relatos antigos, que talvez sejam um tanto exagerados (ver Tácito, Suetônio, Plínio e Juvenal).
O fato importante é que Messalina deu a Cláudio, em 41 D.C., um filho, que recebeu o nome de Britânico, e a nova imperatriz imediatamente percebeu que o jovem Nero era uma ameaça às pretensões do seu filho natural ao trono. Consta, inclusive, que Messalina, certa vez, teria encomendado a morte de Nero a assassinos que chegaram a entrar no quarto do menino, e somente não completaram a tarefa porque se assustaram com o que eles pensaram ser uma cobra.
(Messalina segurando Britânico, estátua no Museu do Louvre, foto de Ricardo André Frantz)
A grande popularidade de Agripina e Nero foi atestada quando, durante os concorridos Jogos Seculares, em 47 D.C., eles foram ovacionados pelo povo, que demonstrou por eles muito mais simpatia do que em relação a Messalina e Britânico, que também estavam presentes no evento.
Se a conduta pretensamente escandalosa de Messalina foi ou não a causa da sua desgraça, o fato é que ela foi sentenciada à morte em 49 D.C., supostamente por ter se casado secretamente com um senador, Gaius Silius, no que seria uma conspiração para assassinar o seu marido e imperador. Há relatos de que, ainda assim, Cláudio teria relutado em ordenar a execução dela, que somente teria sido levada a cabo por iniciativa de seus auxiliares.
Agripina, imperatriz
Naquele mesmo ano de 49 D.C., Cláudio casaria com sua sobrinha, Agripina, a Jovem. Este pode muito bem ter sido um casamento político, já que nenhuma mulher, naquele momento, tinha linhagem mais ilustre. Há, contudo, quem acredite que Agripina, valendo-se da intimidade familiar que a condição de jovem e bonita sobrinha lhe propiciava, tenha astuciosamente seduzido o seu velho tio.
Em verdade, para os romanos, o casamento de Cláudio e Agripina tinha um caráter incestuoso, já que o casamento de tio e sobrinha era quase tão inaceitável como o de um pai com a filha.
Portanto, o custo político dessa união deve ter sido considerável e é possível que somente o fato de Cláudio ter sido seduzido explique ele ter descartado as consequências políticas negativas de mais esse escândalo em sua vida conjugal. O passado do velho imperador nos inclina para essa última hipótese, pois houve episódios anteriores nos quais ele parece ter sido emocionalmente manipulado por mulheres dominadoras…
Seja como for, o fato é que Agripina não titubeou em tratar de se tornar a pessoa mais poderosa na corte imperial, afastando aqueles que não lhe parecessem leais e, sobretudo, os concorrentes de seu filho Nero à sucessão de Cláudio.
Ainda em 49 D.C., a imperatriz Agripina recebeu o título de “Augusta“, sendo esta a primeira vez que esse título era conferido a uma mulher em vida (as suas duas antecessoras, Lívia e Antônia, o receberam como honra fúnebre). Neste mesmo ano, Cláudio batizou em sua homenagem uma cidade recém-fundada na Germânia, que recebeu o nome de Colonia Claudia Ara Agrippinensis ( a atual Colônia, na Alemanha – Agripina nasceu ali, quando o local ainda era um quartel militar comandado por seu pai, Germânico). Vale citar que nunca, antes ou depois na História de Roma, uma cidade romana foi batizada em homenagem a uma mulher.
Nero, herdeiro do trono
Em 50 D.C., Lucius Domitius Ahenobarbus (Nero) foi adotado por Cláudio, tornando-se oficialmente seu herdeiro, passando a se chamar Nero Claudius Caesar Drusus Germanicus. No ano seguinte, Nero, então com 14 anos, foi declarado maior de idade (assumindo a “toga virilis”), foi nomeado Proconsul e entrou para o Senado. A partir daí, ele começou a participar das cerimônias públicas junto com o Imperador, e até moedas foram cunhadas com a efígie de ambos.
Antecipando a necessidade futura de Nero contar com o apoio da Guarda Pretoriana para alcançar o trono, Agripina persuadiu Cláudio a nomear o militar Sextus Afranius Burrus (Burro) como único Prefeito Pretoriano (Comandante), no lugar de Lusius Geta e Rufius Crispinus.
Agripina supervisionava cuidadosamente a preparação de Nero para a futura ascensão ao trono imperial, designando, por exemplo, o afamado filósofo estoico Sêneca, o Jovem para ser o tutor do rapaz. Ela também não poupou esforços para fazer o filho querido pelo populacho. Além disso tudo, Agripina manobrou para que Cláudia Otávia, a filha de Cláudio e irmã de Britânico, e Nero se casassem, em 9 de junho de 53 D.C.
(Cláudia Otávia, primeira esposa de Nero)
A adoção de Nero por Cláudio é um episódio que suscita muita discussão entre os historiadores, já que Cláudio tinha um filho natural do sexo masculino, Britânico, que era apenas quatro anos mais novo do que Nero. E não há nada que indique, fora, obviamente, esse fato, que Cláudio não nutrisse pelo rapaz o amor paternal.
Seja como for, as fontes relatam que, à medida que Britânico ia chegando à idade de assumir a “toga virilis”, Cláudio começou a dar seguidas demonstrações de afeto pelo filho natural. Segundo os historiadores Tácito, Suetônio e Cássio Dião, Cláudio somente estaria esperando a maioridade do filho natural para nomeá-lo como seu novo herdeiro, e ele teria declarado isso na presença de outros, sendo esse o fato que levou Agripina a tramar a sua morte
Cláudio morreu em 13 de outubro de 54 D.C., aos 63 anos – uma idade avançada para a época – no que pareceu ser uma indisposição gástrica após ele ter comido um prato de cogumelos, o qual lhe ocasionou vômitos. As fontes antigas dão crédito a versão de que aqueles cogumelos, comida muito apreciada por Cláudio, teriam sido envenenados, por uma poção preparada pela famosa envenenadora Locusta, que tinha sido contratada por Agripina. O motivo para o assassinato era óbvio: impedir que Britânico fosse nomeado herdeiro pelo pai.
Imperador Nero – primeiros anos
(Agripina, personificada como a deusa Ceres, coroa Nero. A mensagem devia ser evidente para todos)
No mesmo dia em que Cláudio morreu, Nero foi saudado imperador pela Guarda Pretoriana, e, em seguida, ele foi reconhecido como tal pelo Senado Romano. Nero não sabia, mas seria o último imperador da dinastia dos Júlios-Claúdios.
O reinado de Nero começou promissor. Ele tinha apenas 17 anos, mas era aconselhado pelo filósofo Sêneca (que, segundo Cássio Dião), redigiu seu primeiro discurso ao Senado), e por Burro, que foi mantido como Prefeito da Guarda Pretoriana, e, de fato, as suas primeiras medidas como imperador suscitaram aprovação geral.
Vale notar que, ainda durante o reinado de Cláudio, a administração dos assuntos de Estado começou a ser desempenhada cada vez mais pelos escravos libertos do Imperador que trabalhavam nas dependências do Palácio e que passaram a constituir o embrião de verdadeiros ministérios, no sentido administrativo moderno, assumindo tarefas que antes estavam a cargo dos antigos magistrados da República. Nero herdou esse sistema, e muitos libertos de Cláudio continuaram a exercer seus cargos no seu reinado, como por exemplo o liberto Marcus AntoniusPallas, que ocupava um cargo equivalente ao de Secretário do Tesouro, uma circunstância que assegurou certa continuidade administrativa.
Sêneca e Burro, sensatamente, procuraram assegurar que o imperador mantivesse boas relações com o Senado Romano, comparecendo às sessões desta assembleia e levando em consideração as recomendações dos senadores. Os dois preocuparam-se especificamente em abolir o costume implementado por Cláudio, de conduzir julgamentos em sessões privadas realizadas no próprio Palácio (“in camera”), o que era considerado contrário aos princípios jurídicos romanos tradicionais, que previam audiências públicas..
Foram promulgados decretos visando prevenir que os governadores extorquissem demasiadamente as províncias e também outros relativos à ordem pública e urbana. Nero também postulou, sem levar em consideração as despesas públicas, abolir vários tributos, sendo, entretanto, demovido desse propósito pelo Senado. Muitas das medidas de Nero, aliás, demonstravam um grande desejo dele aumentar a sua popularidade.
Os dois conselheiros procuraram, ainda, diminuir a excessiva intervenção de Agripina nos assuntos do governo, e, com esse propósito, eles chegaram até a incentivar a paixão que Nero nutria pela liberta Acte, que virou amante do Imperador. Dessa forma, além de afastar Nero da influência da mãe, eles também visavam diminuir a inclinação ao desregramento sexual que já se percebia no jovem imperador, impulsos que o casamento com a imperatriz Cláudia Otávia parecia incapaz de arrefecer.
Observe-se que Suetônio acusa diretamente Nero e Agripina de manterem uma relação incestuosa, mencionando até que isso costumava ocorrer quando os dois viajavam pelas ruas romanas em liteiras, um comportamento que seria denunciado pelas manchas suspeitas na toga do filho… Outros autores, de fato, também citam este costume que ambos tinham de andar na mesma liteira, mas muitos historiadores consideram que a obra de Suetônio, em muitas passagens, tende a reproduzir e aumentar boatos escandalosos, sem muita preocupação com a verdade histórica.
A tônica, porém, em todas as fontes, é de que Nero não nutria muito entusiasmo pelas tarefas governamentais, preferindo dedicar-se ao canto, ao teatro e às competições esportivas, sobretudo corridas de cavalos. Progressivamente, também, o poder absoluto lhe permitiu experimentar as mais variadas práticas sexuais.
Assim, a falta de aptidão para o cargo, a juventude e a onipotência uniram-se para empurrar Nero para uma ilimitada devassidão. Por outro lado, o avanço dos anos deu-lhe confiança para cada vez mais afirmar a sua vontade e ignorar os conselhos de Sêneca e Burro, ao passo que a repetida intromissão de Agripina em sua vida começou a lhe parecer insuportável, notadamente a oposição que a mãe externava em relação ao seu romance com Acte.
Morte de Britânico e Agripina. Nero governa por conta própria
Outro fator de discórdia entre mãe e filho, e talvez mais importante, foi o fato de Agripina, certa vez, ter insinuado que Britânico aproximava-se da maioridade, dando a entender a Nero que ela poderia apoiar o rapaz como sendo o legítimo herdeiro de Cláudio. Por isso, em 55 D.C., Nero demitiu o liberto Pallas, que tinha sido um fiel aliado de Agripina desde os tempos de Cláudio.
Ainda em 12 de fevereiro de 55 D.C., Britânico morreu, no dia exato em que ele completaria a maioridade. Segundo os autores antigos, ele foi envenenado a mando de Nero, que teria também recorrido aos serviços da envenenadora Locusta.
Mas a relação de Nero com a mãe azedou de vez quando, em 58 D.C., a nobre Popéia Sabina, a Jovem, tornou-se amante dele. Agripina, opondo-se ao romance, aproximou-se da imperatriz Cláudia Otávia, que, em oito anos de casamento com Nero, não tinha gerado filhos, muito em função do desinteresse do marido pela esposa.
(Popéia Sabina, segunda esposa de Nero)
Popéia Sabina, que era casada com Marcus Salvius Otho(o futuro imperador Otão), grande amigo de Nero, em vingança à oposição de Agripina ao seu romance com o imperador, teria aconselhado Nero a assassinar a mãe, segundo Tácito (Nota: Popéia seria natural de Pompéia, e a sua magnífica Villa, na cidade de Oplontis, foi soterrada pela erupção do Vesúvio e descoberta em excelente estado de conservação -vide fotos abaixo).
Os historiadores narram que Nero teria engendrado vários esquemas engenhosos para matar Agripina, que iam desde o naufrágio em um navio previamente sabotado para se desmanchar no mar, ao desabamento provocado do teto de um aposento que ela ocupava, todas sem sucesso.
Finalmente, em 23 de março de 59 D.C., Nero conseguiu que a mãe morresse, embora não seja claro de que forma ela foi morta. Aparentemente, após sobreviver ao naufrágio, Nero enviou assassinos para matar a mãe. Segundo um relato, quando o executor ergueu a espada, Agripina teria dito, como se lamentasse ter parido o filho, apontando para o próprio ventre:
“Fira o meu útero!”
Afastada a influência, diga-se de passagem, raramente benigna, da mãe, Nero sentiu-se livre para fazer tudo o que lhe apetecesse. Ele entregou-se totalmente à sua paixão pelas artes, apresentando-se publicamente cantando e tocando a lira. Ocorre que os recitais dele eram intermináveis, e Tácito comenta que, em algumas ocasiões, mulheres chegaram a dar à luz e pessoas chegaram a falecer enquanto assistiam os longos espetáculos. Ficou famoso o caso do futuro imperador Vespasiano, que, apesar de ser um militar de prestígio, caiu em desgraça após dormir durante um recital de Nero.
É importante ressaltar que, segundo os padrões de conduta morais vigentes na aristocracia romana à época, um nobre apresentar-se publicamente como artista ou esportista era considerado degradante.
Em 62 D.C., Burro faleceu, e Sêneca foi obrigado a se afastar do governo devido a acusações de enriquecimento ilícito (que aparentemente eram verdadeiras), as quais vieram somar-se à suspeita, já existente, de que Sêneca teria mantido relações amorosas com Agripina.
Naquele mesmo ano de 62 D.C., Popéia ficou grávida de Nero, que finalmente decidiu divorciar-se de Cláudia Otávia, sob o pretexto de infertilidade da imperatriz. Assim, doze dias depois do divórcio, Nero casou-se com Popéia.
A infeliz Cláudia Otávia foi exilada na ilha de Pandatária, mas a opinião pública protestou e exigiu que Nero a trouxesse de volta à Roma. Logo em seguida, porém, ela morreria, tendo apenas cerca de 23 anos de idade, assassinada a mando do imperador, embora os executores tenham tentado fazer a morte dela parecer um suicídio.
Em 21 de janeiro de 63 D.C., Popéia deu à luz a uma menina que recebeu o nome de Cláudia Augusta e ela seria o único descendente que Nero teria na vida. Porém, a menina morreria com somente quatro meses de idade.
Conflitos nas fronteiras
Nos assuntos de política exterior, o principal desafio enfrentado pelo Império no reinado de Nero foi a disputa pela Armênia com a Pártia. O general Gnaeus Domitio Corbulo(Corbulão) obteve inicialmente sucesso militar, mas a campanha não foi concluída. Em 63 D.C., porém, o Império obteve um bom acordo com a Pártia, em que Roma teria a palavra final sobre a escolha do rei da Armênia, Foi um bom tratado e que garantiria a paz na região até 114 D.C.
Nero também teve que enfrentar a séria revolta da rainha dos Icenos, Boudica(Boadicéia), na Britânia, que foi derrotada pelo general Gaius Suetonius Paulinus (Suetônio Paulino), em 61 D.C.
(Estátua da rainha Boudica, dos Icenos, em Londres)
O Grande Incêndio de Roma
Em julho de 64 D.C., ocorreu o Grande Incêndio de Roma, que durou seis dias e causou uma grande destruição. Com efeito, dos 14 distritos de Roma, somente 4 foram poupados do fogo.
A responsabilidade de Nero pelo incêndio é muito debatida. Algumas fontes antigas citam boatos de que Nero teria mandado provocar o incêndio, visando sobretudo reconstruir a cidade de acordo com a sua vontade, e, especialmente, para possibilitar a construção de sua espetacularmente enorme e suntuosa “Domus Aurea“, cujas ruínas ainda hoje impressionantes dão uma ideia do seu esplendor.
Consta que Nero, após o palácio ficar pronto, teria dito :
“Finalmente, agora eu posso morar como um ser humano”
(Domus Aurea, reconstituição)
Tácito e Cássio Dião também relatam, o primeiro expressamente como sendo um boato, que, enquanto Roma queimava, Nero teria subido no telhado do Palácio e cantado a ode grega “A Destruição de Tróia“.
Porém, eu acredito que, provavelmente, essa tragédia foi apenas o mais catastrófico dos frequentes e periódicos incêndios que assolavam uma Roma que havia crescido demasiada e desordenadamente.
Diga-se de passagem, os posteriores decretos assinados por Nero relativos ao ordenamento urbano, especialmente visando evitar a repetição de incêndios, descritos por Tácito e Suetônio, são muito razoáveis, na verdade, excelentes até (eles dispõem sobre o espaço entre os prédios de apartamentos, do uso de materiais de construção resistentes ao fogo e da previsão de reservatórios de água, entre outras coisas).
Após o incêndio, Tácito relata que Nero abriu os jardins dos palácios para abrigar os flagelados pelo incêndio, em abrigos temporários. Vale a pena citar o seguinte trecho do historiador:
“Nero, naquele momento, estava em Antium, e não retornou à Roma até o fogo aproximar-se de sua casa, que ele havia construído para conectar o palácio com os jardins de Mecenas. Não foi possível, entretanto, impedir o fogo de devorar o palácio, a casa e tudo em volta deles. Todavia, para aliviar o povo, que tinha sido expulso desabrigado, ele mandou que fossem abertos para eles o Campo de Marte e os edifícios públicos de Agripa, e até mesmo os seus próprios jardins, e ergueu estruturas temporárias para receber a multidão despossuída. Suprimentos de comida foram trazidos de Óstia e das cidades vizinhas, e o preço do grão foi reduzido para três sestércios. Essas ações, embora populares, não produziram nenhum resultado, uma vez que espalhou-se por todo lugar um rumor de que, enquanto a cidade estava em chamas, o imperador apresentou-se em um palco particular e cantou a destruição de Tróia, comparando os infortúnios presentes com as calamidades da antiguidade”. (Anais, XV, 39)
Um episódio notório, ainda relativo ao incêndio, foi o martírio da nascente comunidade cristã de Roma, que teria sido apontada oficialmente como bode expiatório pelo incêndio. Hoje, há opiniões de que esta perseguição não teria ocorrido, a despeito dela também fazer parte da tradição cristã. Há, no entanto, uma bem fundamentada tese de que o número 666, que seria o nome da besta do Apocalipse citado no Evangelho, seria o código alfanumérico relativo ao nome de Nero, de acordo com um antigo jogo comum na época romana, numa vinculação que o evangelista João poderia ter feito em função da referida perseguição.
(Tela de Henryk Siemiradzki, retratando o martírio dos cristãos, que, segundo o relato de Tácito, foram utilizados como tochas humanas)
O fato é que as excentricidades e os crimes de Nero, somados à desconfiança pública de que o incêndio estava relacionada à construção da magnífica Domus Aurea, começaram a minar o reinado dele.
Some-se a isso a morte de Popéia, ocorrida em 65 D.C., tendo se espalhado o boato de que a morte dela fora causada após a imperatriz levar um pontapé de Nero na barriga, quando estava grávida, o que causou indignação no povo (curiosamente, a mesma acusação seria feita, milênios mais tarde, ao imperador D. Pedro I, e, igualmente, ela contribuiu para agravar o clima que resultou na abdicação de nosso primeiro imperador)
A Conspiração Pisoniana
Ignorando todo esse quadro de insatisfação, Nero começou a retirar o que restava das prerrogativas do Senado. Isso deflagrou, também em 65 D.C., a denominada “Conspiração Pisoniana“, assim chamada porque liderada pelo respeitado senador Gaius Calpurnius Piso, e que visava derrubar o imperador. Porém, essa conspiração, que envolvia senadores e membros da guarda pretoriana, foi denunciada a tempo, e Nero mandou executar os participantes. Entre os punidos, estava o seu ex-tutor e conselheiro, o filósofo Sêneca, apesar de não haver certeza se ele estava mesmo envolvido.
Outro que teria sido executado na repressão à Conspiração foi o poeta Lucano. Mas a morte mais sentida pela aristocracia romana foi a do senador Públio Clódio Trásea Peto, um crítico contumaz do reinado de Nero, que também foi obrigado a cometer suicídio, em 66 D.C., após ser condenado pelo Senado com base em acusações vagas em uma sessão de julgamento na qual a Cúria foi cercada pelos Pretorianos.
Para poupar Sêneca, e a própria imagem do imperador, perante a opinião pública, do embaraço de uma execução, Nero ordenou que ele cometesse suicídio. O mesmo ocorreu com outro implicado no esquema, o escritor satírico Petrônio (A cena da morte de Petrônio, em uma banheira, com o sangue esvaindo-se das veias cortadas enquanto conversava rodeado dos seus melhores amigos, está brilhantemente retratada no filme “Quo Vadis“).
(O Suicídio de Sêneca, tela de Manuel Domínguez Sánchez (1871), no Museu do Prado)
Quem teve atuação implacável na repressão à referida conspiração foi Ofonius Tigellinus, o sucessor de Burro como Prefeito da Guarda Pretoriana, que era um amigo e parceiro de Nero no desfrute de corridas de carros e orgias, e que fora nomeado para o cargo em 62 D.C.
O início do fim
Em 66 D.C., Nero casou-se com sua terceira esposa, Statilia Messalina (não confundir com a esposa de Cláudio).
(Statilia Messalina, terceira esposa de Nero)
A Conspiração Pisoniana, não obstante tenha sido debelada, marcou o início da queda de Nero. Deve ter havido uma percepção geral entre as lideranças do Senado e do Exército de que o reinado dele não iria durar muito e que o caos se aproximava. As despesas com a reconstrução de Roma tinham exaurido o Tesouro do Estado e, em decorrência, a moeda teve que ser desvalorizada e os impostos aumentados.
Ainda em 66 D.C., estourou uma grande revolta na Judéia, No meio dessa grave crise, Nero resolveu fazer uma excursão triunfal pela Grécia, visitando os pontos turísticos mais célebres, apresentando-se como artista e participando dos Jogos Olímpicos de 67 D.C., como competidor. Para os gregos, a visita foi um sucesso, pois Nero chegou a proclamar a liberdade das cidades gregas, mas para a elite em Roma, ela deve ter sido percebida como mais uma prova da insanidade do Imperador.
Logo, outras rebeliões começariam a pipocar nas províncias…
Em 67 D.C., Nero enviou o respeitado general Titus Flavius Vespasianus (o futuro imperadorVespasiano) para combater a Grande Revolta Judaica. Nessa ocasião, suspeitando da lealdade do general Corbulão, o imperador o convocou-o à sua presença na Grécia, e ordenou que ele cometesse suicídio para não ser executado, sendo fiel e surpreendentemente obedecido.
Porém, em março de 68 D.C., o governador da importante província da Gália Lugdunense, Gaius Julius Vindex, revoltou-se contra os pesados tributos impostos à província. Em seguida, Vindextentou, sem êxito, convencer o governador da Hispânia, Servius Sulpicius Galba (o futuro imperador Galba), a se juntar à rebelião. No decorrer da rebelião, em maio, as legiões da Germânia, sob o comando de Lucius Verginius Rufo, seguindo as ordens de Nero, derrotaram Vindex, na Batalha de Vesontio (atual Besançon), que, em razão disso, cometeu suicídio.
Todavia, as legiões vitoriosas imediatamente declararam-se em rebelião contra Nero, embora Rufo tenha permanecido leal ao imperador, recusando-se a aderir ao movimento. Parece que nesse momento, os soldados já começavam a farejar a oportunidade de, como em ocasiões anteriores, obterem polpudas recompensas caso um novo imperador assumisse o trono.
Enquanto isso, Nero, que havia voltado para Roma em janeiro de 68 D.C., recebeu a notícia de que, além das legiões de Vindex, as legiões da África também tinham se revoltado.
Galba, entretanto, aguardava cautelosamente o desenrolar dos acontecimentos, mas os seus partidários em Roma não ficaram imóveis. Assim, em algum momento entre maio e junho de 68 D.C., o outro Prefeito da Guarda Pretoriana, Ninfídio Sabino (consta que Tigellinus estaria doente naquele mometo), persuadiu os pretorianos em Roma a se declararem a favor de Galba. Para o azar de Nero, isso ocorreu antes da chegada da notícia da vitória de Rufo contra Vindex, o que daria ao imperador certa esperança de readquirir o controle da situação.
A morte de Nero
Em 9 de junho de 68 D.C., em uma villa suburbana, situada a apenas 6 km de Roma, chegou um mensageiro galopando à toda velocidade. O cavaleiro desmontou e entrou no luxuoso átrio da propriedade, sendo recebido por Phaon, um liberto do Imperador Nero que exercia o cargo de Secretário de Finanças imperial.
Acompanhado de outros três homens, Phaon ingressou na área privada da residência e, pouco tempo depois, ouviu-se um um grito desesperado, acompanhado da frase:
“Que grande artista o mundo irá perder!”
Um dos homens pergunta que notícia o mensageiro havia trazido e o outro respondeu que o Senado Romano havia declarado Nero era um “Inimigo Público“.
Aquele era, sem dúvida, o ponto culminante da tensão que Nero vinha vivendo nas últimas semanas, desde que soube que Julius Vindex havia sido aclamado imperador pelas tropas dele, em março, e iniciara sua marcha para a Itália, e o Prefeito Pretoriano Ninfídio Sabino manifestara o seu apoio a Galba, deixando o imperador totalmente indefeso dentro da Capital.
Ao saber da adesão de Ninfídio Sabino ao general Galba, Nero chegou a deixar o Palácio e tentar fugir para o porto de Óstia, onde ele planejava embarcar em um navio da frota, que ele esperava que tivesse se mantido leal, e partir para as províncias do Oriente, onde ele tinha certeza de que ainda era muito popular e poderia organizar um contra-ataque.
Todavia, Nero, temeroso, concluiu que era grande a possibilidade dele não conseguir chegar ao porto ileso, e, assim, deu meia-volta e voltou para o Palácio, onde ele até tentou dormir um pouco. O sono contudo, seria breve. Com efeito, durante a meia-noite, já na virada do dia 08 para o dia 09 de junho de 68 D.C., o Imperador acordou e, aterrorizado, constatou que não havia sequer um guarda na porta dos aposentos imperiais.
Nero percorreu, então, esbaforido, os corredores desertos do palácio, sem encontrar viva alma, gritando:
“Não terei eu amigos ou inimigos?
Até que, alertados pela gritaria, finalmente acudiram os mais próximos e fiéis libertos de Nero: Epafrodito,Phaon, Neophytus e Esporo (Nota: Esporo (Sporus) era um garoto que se tornou favorito de Nero por ter uma notável semelhança com a falecida imperatriz Popéia Sabina. Segundo Suetônio, Nero mandou castrar Esporo e chegou até a casar com o rapaz, por volta de 67 D.C.).
Phaon, então, ofereceu a Nero a sua villa nos arredores de Roma, para que o imperador se escondesse lá, pois ainda havia a esperança de que o Senado não reconhecesse os usurpadores, tendo em vista que outros comandantes ainda não haviam aderido à rebelião. A villa não era longe e o grupo deve ter chegado lá ainda antes do amanhecer.
Porém, no decorrer do dia 09 de junho, a referida chegada do mensageiro tirou todas as esperanças de Nero. Ele, então, implorou que um dos quatro fiéis libertos tirasse a própria vida primeiro, alegando que isso lhe daria coragem para fazer o mesmo, além de lhe ensinar o método, mas nenhum deles topou a proposta.
Então, enquanto o imperador relutava, ouviu-se o galopar de vários cavalos, e, premido pelo temor da chegada da tropa que estava vindo para lhe prender ou executar, Nero ordenou que Epafrodito o ajudasse a se matar. Assim, Nero, com a ajuda de Epafrodito, enfiou uma faca na própria garganta.
Quando os cavaleiros entraram no aposento, Nero já havia perdido muito sangue. Um dos soldados tentou colocar um pano na garganta dele, à guisa de estancar o sangue, e Nero ainda teve forças para balbuciar, dramático como ele sempre fora durante toda a vida:
“Tarde demais. Isso é que é fidelidade!”
Nero morreu aos 30 anos de idade. O corpo dele foi cremado à maneira tradicional romana e as cinzas depositadas no Mausoléu dos Domícios, então situado nos limites da cidade de Roma e onde hoje, ironicamente, fica um templo da arte, a Galeria Borghese.
(Villa Borghese, que hospeda a Galeria Borghese e onde ficava o Mausoléu dos Domícios, lugar do sepultamento das cinzas de Nero)
As fontes relatam que, várias décadas depois de sua morte, pessoas do povo ainda adornavam a tumba de Nero com flores…
Conclusão
A ascensão e queda de Nero são expressões gritantes das contradições do sistema inaugurado por Augusto.
Com efeito, o Império nasceu como fruto da incapacidade das instituições republicanas de moderar os conflitos de poder e as disputas políticas decorrentes da tensão entre a defesa da manutenção dos privilégios da nobreza (facção política dos “Optimates“) e a afirmação das vontades e consideração das necessidades dos cidadãos plebeus livres, mal arbitradas por regras criadas originalmente para se gerir uma Cidade-Estado, sem contudo, adaptar-se à existência de um crescente proletariado não-proprietário em Roma, e que também eram inapropriadas para acomodar os anseios de uma enorme população de colonos romanos e cidades aliadas, muitos dos quais estavam espalhadas por um enorme território fora da Itália, (anseios e interesses esses que encontravam algum acolhimento na facção senatorial dos chamados “Populares“).
Essas crises degeneraram na resolução das disputas pela guerra entre generais-políticos filiados as referidas facções representadas no Senado, que recrutavam cidadãos entre o proletariado, os quais eram mais leais aos seus comandantes do que ao Estado. O conflito parecia ter se resolvido na concentração de poderes em torno do vencedor da guerra civil, o líder dos Populares, Caio Júlio César, que, contudo, foi assassinado antes de poder implementar uma nova constituição politica (se é que ele tinha mesmo essa intenção), tarefa esta que foi retomada por seu sucessor Augusto.
Como se fosse uma “marca de nascença” do principado, o assassinato de César sempre pairou sobre o regime imperial. César, alegadamente, foi morto por se acreditar que ele queria ser rei e os seus assassinos, integrantes dos Optimates, reivindicaram a restauração da República. Vencidos os Optimates por Augusto, herdeiro de César, ele, por sua vez, da mesma forma se apresentou como o “Restaurador da República“.
Desse modo, o Império por séculos seria assombrado pelo paradoxo de ser uma “Monarquia que não ousa dizer o seu nome“.
Contudo, a constituição não-escrita elaborada por Augusto padecia de duas graves contradições:
1) A ambiguidade de, formalmente, querer-se restaurar a República, concentrando as mais importante das antigas magistraturas republicanas nas mãos do “Princeps“, mas dividindo, ao menos na aparência, o governo do Estado com o Senado, sem contudo, jamais delimitar precisamente qual o papel e o poder desta assembleia. Isto se tornaria um grande fator de instabilidade.
A prática inaugurada por Augusto, e seguida em parte e confusamente por Tibério, de simular que o poder continuava com o Senado, sendo o poder de fato exercido no Palácio, propiciava que, quando personalidades imperiais menos afetas às aparências e deferências devidas ao Senado ocupassem o trono, eles fossem percebidas como tiranos, situação que deu margens a inúmeras conspirações, reais ou imaginárias.
2) A já aludida “marca de nascença” (assassinato de César), que expressava a prevalência da tradicional repulsa cultural romana à monarquia, impediu que Augusto estabelecesse uma regra clara quanto à sucessão imperial. Como o regime não podia e não devia ser considerado uma monarquia, jamais o princípio dinástico foi formalmente estabelecido. Embora o costume fosse que o imperador escolhesse o seu herdeiro, a existência de descendentes ou parentes próximos ameaçava a legitimidade do escolhido, sendo isso uma nova fonte de conspirações, e de temor da existência delas por parte do imperador.
A incerteza quanto ao critério sucessório também gerava instabilidade. Os imperadores Júlios-Cláudios costumavam nomear os parentes sanguíneos ou afins mais velhos como herdeiros formais ou presumidos, quando aqueles mais próximos ainda eram muito jovens. Mas, quando estes iam crescendo, os títulos e honrarias que caracterizavam a condição de herdeiro eram retirados dos primeiros e conferidas aos mais novos. O temor ou a insatisfação dos inicialmente escolhidos normalmente resultava na eliminação dos rivais mais novos ou na do próprio imperador. Tal fato ocorreu com Augusto, com Tibério e com Cláudio, e somente não ocorreu com Calígula devido ao seu reinado ter sido muito curto, e com Nero, porque ele não tinha herdeiros.
Somente a partir do reinado de Nervacomeçou a ser implantada uma regra consuetudinária, com bases filosóficas, de que o governante deveria adotar como sucessor o melhor homem público, ainda que este fosse seu parente, de quem se esperava que demonstrasse a sua competência, costume que também não sobreviveu à morte de Marco Aurélio.
A avaliação do reinado de Nero é controversa na visão dos historiadores. A visão tradicional, de de que ele seria um louco e um monstro, hoje é temperada pela leitura crítica que se faz dos historiadores Tácito e Suetônio, tidos como membros da classe senatorial, nostálgica da República e antipática ao Principado, dando destaque às perseguições do monarca contra os senadores e enfatizando boatos ou, mesmo, fofocas, de teor escandaloso sobre os hábitos privados dos imperadores.
Sintomaticamente, essas mesmas fontes relatam que, para uma boa parte da massa de cidadãos pobres e das províncias, a imagem de Nero era diferente. Como já observamos, Suetônio narra que, décadas após a morte de Nero, populares adornavam a sua tumba com flores e que, nas províncias, chegou a surgiu uma lenda, ao estilo de Dom Sebastião de Portugal, de que Nero, um dia, iria retornar.
Essa também é a opinião de muitos historiadores, valendo transcrever as palavras da historiadora clássica Mary Beard (“SPQR”, pág. 398):
“Vários historiadores modernos têm apresentado Nero, particularmente, mais como uma vítima da propaganda da dinastia Flaviana, que começa com Vespasiano, seu sucessor, do que como um piromaníaco assassino da própria mãe, a quem se atribui ter iniciado o grande incêndio de 64 D.C., não só para apreciar o espetáculo, mas também para limpar a área e poder construir seu novo palácio, a Casa Dourada (Domus Aurea). Mesmo Tácito admite, apontam os reabilitadores, que Nero foi o patrocinador de medidas de ajuda efetivas para os desabrigados após o incêndio; (…). Além disso, nos vinte anos após a morte e Nero, em 68 D.C., pelo menos três falsos Neros, com lira e tudo, apareceram nas regiões orientais do Império, reivindicando o poder e apresentando-se como o imperador em pessoa, ainda vivo, apesar de todas as notícias do seu suicídio. Foram todos rapidamente eliminados, mas o engodo sugere que, em algumas áreas do mundo romano, Nero era lembrado afetuosamente: Ninguém buscaria alcançar o poder fingindo ser um imperador odiado por todos.”
FIM
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Em 8 de dezembro de 65 A.C, nasceu, em Venusia (atual Venosa), no sul da Itália, Quintus Horatius Flaccus(Horácio), filho de um escravo liberto que conseguiu tornar-se leiloeiro público. A cidade ficava na região do Samnium, que deu nome ao povo itálico dos Samnitas.
Embora tivesse origem humilde, o pai de Horácio conseguiu amealhar dinheiro suficiente para lhe dar uma esmerada educação, inclusive propiciando que ele fosse estudar em Roma.
Horácio nunca deixou de demonstrar sua extrema gratidão à formação que seu pai lhe proporcionou, referindo-se a ele afetuosamente na sua obra Sátiras:
“Se meu caráter é maculado por algumas pequenas falhas, mas, fora isso, é decente e moral, se tu podes apontar apenas algumas manchas numa superfície que, de resto, é imaculada, se ninguém pode me acusar de cobiça, lascívia ou desregramento, se vivo eu uma vida virtuosa, livre de corrupção (perdoem-me, por um instante, a minha auto emulação), e se sou eu para meus amigos, um bom amigo, meu pai merece todo o crédito…Como agora ele merece de mim irrestrita gratidão e exaltação. Eu jamais poderei me envergonhar de tal pai, nem sinto eu qualquer necessidade, como tanta gente sente, de me desculpar por ser filho de um liberto” (Sátiras, 1.6.65-92).
Depois de estudar em Roma, onde o pai havia se juntado a ele, Horácio foi completar a sua formação em Atenas, estudando na famosa Academia, fundada por Platão. Ali, ele foi influenciado pela escola filosófica de Epicuro e também pelos filósofos estoicos. É provável que, antes ou durante a viagem, o pai de Horácio tenha falecido, deixando-lhe uma boa herança.
Em seguida, Horácio alistou-se, entre 44 e 42 A.C., no exército de Marcus Junius Brutus (Bruto), o líder dos conspiradores e assassinos do Ditador Júlio César, e que se autointitulavam “Os Libertadores” (Bruto após o assassinato tinha fugido para a Grécia, onde procurou angariar adeptos para a causa dos Optimates – a facção dos partidários da nobreza no Senado Romano que se opunha ao Ditador).
Tendo sido nomeado para o alto posto de tribuno militar, normalmente reservado para jovens da nobreza romana, Horácio chegou a combater na Batalha de Fílipos, travada em outubro de 42 A.C. contra os sucessores políticos de César, integrantes do Segundo Triunvirato, Otaviano, Marco Antonio e Lépido. Com a derrota dos “Libertadores“, Horácio teve as suas propriedades confiscadas pelos Triúnviros.
Apesar de ter escolhido o lado dos perdedores na Guerra do Segundo Triunvirato, Horácio, graças à sua esmerada educação, conseguiu um emprego como escrivão do Tesouro da República (Aerarium), cargo que lhe permitiu começar a sua produção literária sem ter que se preocupar com a própria subsistência.
Então, a sorte somou-se ao talento de Horácio, quando, em 38 A.C., ele foi apresentado pelo seu amigoVirgílio, que, então, já era um festejado poeta, ao rico Mecenas, um entusiasmado patrono das artes que, por sua vez, era amigo íntimo de Otaviano, o herdeiro de César, que se tornaria o futuro imperador Augusto.
Horácio caiu nas graças de Mecenas, que inclusive deu-lhe de presente uma villa em Tívoli, e ele foi introduzido no círculo de poetas protegidos de Otaviano. Consequentemente, Horácio começou a receber encomendas de odes e poemas alusivos a eventos importantes para a propaganda imperial. Ele compunha seus versos em hexâmetros (métrica poética) e iambos (unidade rítmica).
Mecenas e Otaviano gostavam tanto de Horácio que o segundo, já transformado no imperador Augusto, convidou-o para ser seu secretário particular, o que era uma honra incomensurável, mas que foi delicadamente recusada pelo Poeta.
Em uma de suas Epístolas, datada 21 A.C., Horácio descreve a si mesmo como:
“tendo 44 anos e sendo baixo, bronzeado, prematuramente grisalho, de pavio-curto, mas facilmente acalmado.
Em 27 de novembro de 8 A.C., Horácio faleceu, poucos meses depois de Mecenas, e, em obediência às instruções de Augusto, o Poeta foi sepultado no Mausoléu do seu falecido amigo e benfeitor, situado na colina do Esquilino, em Roma.
(Construção circular da época romana, chamada de “Auditório de Mecenas!”, ficava provavelmente nos famosos jardins do magnata romano, na colina do Esquilino, onde ele e Horácio foram sepultados).
As obras mais famosas de Horácio são as Sátiras e as Odes, além da Ars Poetica A poesia de Horácio, em muitas passagens, denota a influência da corrente filosófica do Epicurismo. Um dos versos mais famosos, de uma das “Odes”, é
“Carpe diem, quam minimum credula postero”(aproveite o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã)
O conhecido verso, vale notar, voltou a ficar célebre em nosso tempo na fala do Professor de Literatura Keating, personagem de Robin Williams, no filme “Sociedade dos Poetas Mortos“.
Já na Antiguidade, Horácio foi reconhecido como um dos maiores poetas latinos. O retórico Quintiliano considerava as Odes “os únicos versos latinos que mereciam ser lidos“.
A obra de Horácio atravessou os séculos e influenciou importantes poetas e pensadores como Montaigne, Garcilaso de la Vega, Milton e muitos escritores e poetas da língua inglesa, além do grande filósofo Immanuel Kant, que usou um verso de Horácio – “Sapere aude” (“Ouse saber!”) – como o lema para a Era do Iluminismo em um ensaio.
Segundo as palavras do próprio Horácio, o seu objetivo ao compor versos era o de dizer a verdade de um modo satírico:
“O que impede de dizer a verdade, rindo?”.
Os seguintes versos são um exemplo da refinada veia satírica do Poeta:
“Há um defeito comum a todos os cantores: entre os seus amigos, eles nunca cantam quando se pede; e jamais param de cantar quando não é“.
“Ajudar um homem contra a vontade dele é fazer o mesmo que matá-lo“.
Horácio provavelmente acharia graça na citação, uma vez que aquilo que o juiz chamou de “rato” terminou por mostrar-se ser animal muito maior e poderoso…
No dia 13 de novembro de 354 D.C., nasceu, na cidade de Taghaste (atual Souk Ahras, na Argélia), na província romana da Numídia, Aurelius Augustinus, filho de um pequeno proprietário rural e de sua esposa Mônica, cristã fervorosa e mãe possessiva (que, posteriormente, assim como o próprio filho, seria canonizada como Santa Mônica).
(Os locais acreditam que essa oliveira, na atual Souk Ahras foi plantada por Santo Agostinho)
Augustinus, que ficaria conhecido como Santo Agostinho, seria o principal filósofo cristão durante o Império Romano, e a influência do seu pensamento moldaria não só a doutrina da Igreja Católica até os nossos dias, mas a própria civilização ocidental.
Agostinho estudou em Cartago, o maior centro urbano do Norte da África (sem contar o Egito). Financiado a duras penas pelo pai, o jovem cursou retórica, visando obter um cargo público. Mas, embora ele se aprofundasse nos autores latinos, sobretudo Cícero(Inclusive, Agostinho foi muito influenciado pela obra de Cícero “Hortensius“, que não sobreviveu até os nossos dias), Agostinho detestava estudar grego, língua que ele não conseguiu aprender, e este fato prejudicou consideravelmente o seu desempenho acadêmico.
Mas Agostinho também se negava a ler a Bíblia, apesar de muita insistência da mãe. Tudo isso, somado às suas travessuras de jovem, suas dúvidas, paixões e ansiedades, e também a sua contínua aventura intelectual, é narrado magistralmente, de forma autobiográfica, em suas “Confissões“.
Após a morte do pai, Agostinho voltou para Thagaste, com o encargo de, agora na condição de chefe da família, administrar a propriedade paterna. Todavia, no lugar dessas tarefas mais mundanas, Agostinho resolveu abrir uma escola.
Primeiras influências
Enfim, depois de resolvidas as questões sucessórias, Agostinho voltou para Cartago para assumir um cargo de professor de retórica. Durante esse tempo, ele leu a obra de Aristóteles, traduzida para o latim.
(Vista atual de Souk Ahras, antiga Tagaste, foto de Omaislam)
Por volta dessa época, Agostinho teve contato com os ensinamentos do sábio persa Mani, que afirmava ser o universo governado pelo conflito entre dois princípios: a Luz ( o Bem) e a Escuridão (o Mal), uma doutrina que ficaria conhecida pelo nome de Maniqueísmo.
Em 384 D.C., sentindo-se limitado pela estreiteza da vida intelectual na província, Agostinho, contra a vontade da mãe, que fez de tudo para demovê-lo, decidiu ir para Roma. Porém, naquele tempo, as melhores oportunidades para jovens ambiciosos estavam em Milão, que era a capital do Império Romano do Ocidente e onde ficava a corte imperial. Ali, Agostinho conseguiu um cargo de professor de retórica.
No entanto, agora, Agostinho estava imerso em indagações intelectuais e à procura de um sentido para as questões existenciais. Ele flertou por algum tempo com o Ceticismo platônico, até conhecer o Neoplatonismo, através dos discípulos de Plotino, cuja doutrina era, então, popular entre os católicos em Milão, porque lhes parecia conferir uma base argumentativa racional para a fé cristã.
Agostinho tinha se aproximado dos católicos após conhecer (Santo) Ambrósio, o célebre bispo da cidade, uma pessoa que lhe causaria forte impressão e que já era idolatrado pela sua mãe.
Não obstante, Agostinho não escondeu o entusiasmo que ele teve ao ler a filosofia de Plotino, um filósofo de origem greco-egípcia, cujo cerne era a prática da ascensão da alma ao Uno – o princípio único, eterno, indivisível, imutável e transcendente que era a fonte de todas as coisas – pela contemplação interior. Segundo este filósofo, a partir do Uno a realidade fluiria constantemente, como a água de uma fonte, e as suas principais emanações seriam o Intelecto e a Alma. Consta que as últimas palavras de Plotino antes de morrer foram:
“Estou tentando devolver o Divino que há em mim para o Divino que há em Tudo“.
Coincidentemente ou não, o Uno de Plotino era bem parecido com o Deus Cristão descrito no Novo Testamento…
Conversão
Até que um dia, em agosto de 386 D.C., em um momento de grande angústia pessoal, para a qual certamente contribui o fato dele ter sido obrigado a se separar da mulher que ele amara desde a juventude na África, que lhe dera um filho, chamado Adeodato, e com a qual ele vivera em concubinato, Agostinho contou que ouviu uma voz infantil repetindo como um mantra as palavras:
“tolle, lege, telle lege” (“pega e lê, pega e lê”).
Assim, ele levantou-se e viu um livro caído aberto. Imediatamente, Agostinho pegou o volume e leu o seguinte texto da Carta de São Paulo aos Romanos:
“Andemos honestamente como de dia, não em orgias e bebedices, não em impudicícias e dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não vos preocupeis com a carne para não excitardes as suas cobiças”).
Livre da angústia e com o rosto iluminado, Agostinho foi contar a boa nova à sua mãe. Eu não tenho dúvidas que este deve ter sido o dia mais feliz da existência de Mônica: Após 32 anos de continuados esforços maternos, Agostinho tinha se convertido ao Cristianismo! Logo em seguida, Agostinho pediu demissão do cargo de professor e saiu de Milão para um retiro na fazenda do amigo Verecundo, junto com a mãe, o filho e os seus grandes amigos Nebrídio e Alípio.
Então, na páscoa de 387 D.C., o poderoso bispo de Milão, Ambrósio, batizou Agostinho e Adeodato, como era costume entre os cristãos. Poucos meses depois, Mônica, finalmente realizada por ter atingido o seu maior objetivo, a conversão do filho, faleceria em Óstia.
Em seguida, Agostinho decidiu voltar para Thagaste, vender as terras que herdara do pai e fundar uma comunidade religiosa, para viver em recolhimento e dedicar-se aos estudos teológicos na casa em que nascera.
Entretanto, a já famosa trajetória de Agostinho como religioso não lhe permitiria viver muito tempo em retiro e ele acabou sendo eleito assistente do Bispo de Hippo Regius (Hipona), cidade que ficava na atual Argélia. Quatro anos depois, em 395 D.C., Agostinho foi consagrado Bispo de Hipona, cargo que ele ocuparia pelos próximos 35 anos, até o fim de sua vida.
A função de bispo, no final do Império Romano, combinava a atuação pastoral, com atribuições administrativas, notadamente a gestão do crescente patrimônio das sés católicas, e também assistenciais e judiciárias, as quais vinham sendo atribuídas à Igreja Católica desde o reinado de Constantino I, o primeiro imperador cristão (Não é a toa que, até hoje, o organograma da Igreja Católica reproduz, em boa parte, a divisão do Baixo Império Romano, com as suas dioceses). Para Agostinho, porém, essas tarefas constituíam um fardo pesado, que competia com a sua atividade intelectual intensa e a produção literária. Não obstante, Agostinho foi um assíduo pregador no púlpito – sobreviveram, até os dias de hoje, cerca de 500 homilias ou sermões que ele ministrou em Hipona.
Foi como Bispo de Hipona que Agostinho escreveu as suas maiores obras: De Trinitate, Contra os Acadêmicos, Solilóquios, Do Livre-Arbítrio, De Magistro, Confissões, Espírito e Letra, A Cidade de Deus e Retratações.
Obra
Antes de Agostinho, o Cristianismo era uma religião revelada pela vida e pelos ensinamentos legados por Jesus Cristo, considerado pelos seus seguidores o Messias previsto pela Bíblia Judaica, que, contudo se apresentara e por eles fora percebido, não como o santo rei de Israel, mas como o filho do deus único, Jeová, adorado pelos hebreus. Agostinho, porém, pode ser considerado o fundador de uma filosofia cristã – um termo que ele mesmo criou – e, ainda que se discorde disso, de fato ele dotou o Cristianismo de uma coerência lógica que pela primeira vez foi sistematizada em bases racionais que poderiam inserir-se na especulação filosófica greco-romana. E embora esse fato talvez não significasse muito para o homem simples do campo, foi algo muito importante para atrair para a Igreja os membros da elite romana.
Entre as contribuições filosóficas de Agostinho ao Cristianismo, está o conceito de Beatitude, entendida como o estado de felicidade plena, somente encontrável em Deus. Agostinho tentou conciliar a fé e a razão, sendo a fé a forma de se atingir a verdade eterna, a qual, não sendo demonstrável pela razão, somente através da fé podemos demonstrar, a nós e aos outros, a certeza de acreditar:
“intellige ut credas, crede ut intelligas” (“É preciso compreender para crer, e crer para compreender“).
Contra os céticos, Agostinho afirmou que a percepção através dos sentidos não era falsa ou imperfeita (motivo pelo qual aqueles acreditavam que não era possível conhecer de forma absoluta ou indiscutível, sendo todo o conhecimento imperfeito e passível apenas de afirmar uma verdade provável). Para o Bispo de Hipona, a sensação sempre é verdadeira, o erro pode estar no juízo que se extrai das sensações. Assim, a sensação é absoluta. Ninguém pode dizer que o sujeito não sentiu, a sensação é uma verdade interna ao sujeito. Assim, em certo grau, na obra “Cidade de Deus“, Agostinho antecipou o pensamento de Descartes:
“Se eu me engano, eu sou, pois aquele que não é não pode ser enganado”.
O pensamento, assim, era uma realidade em si mesma e uma prova da existência – não só do homem, mas de Deus.
Não obstante, para ele, a inefável natureza divina não poderia ser compreendida pelo homem, transcendendo ao pensamento, como bem exemplifica a resposta de Jeová a Moisés: “Eu sou o que sou” (IHVH), assemelhando-se, assim, em sua imutabilidade, inamovibilidade, indivisibilidade e eternidade, ao Uno de Plotino.
Para Agostinho, Deus é perfeito e toda a criação é perfeita, pois tudo o que existe foi criado por Deus. O mal, portanto, somente pode consistir no oposto do bem, ou seja, no “não-ser“. Portanto, para o filósofo cristão, onde houver mal, não há Deus. O pecado, por via de consequência, é o afastar-se de Deus e é possibilitado pelo livre-arbítrio com que Ele dotou o Homem à Sua imagem e semelhança.
Nessa linha, Agostinho também elaborou sobre o insondável mistério da multiplicidade das 3 pessoas na unidade da Santíssima Trindade, iguais e consubstanciais, sendo o Pai, a essência divina; o Filho, o Verbo e a Razão, através da qual Deus se manifesta; e o Espírito Santo, de onde flui o amor que tudo criou:
“Onde existe o Amor existe a Trindade: Um que ama, Um que é amado e uma Fonte de Amor”.
Na concepção de Agostinho, a criação do universo coincide com a criação do tempo, antecipando intuitivamente o próprio Einstein, ao demonstrar que tempo e espaço são uma mesma dimensão. De fato, para Agostinho, tudo no universo teria sido criado simultaneamente, isto é, de uma só vez e não em 6 dias, como escrito na Bíblia, que. neste particular, para ele não deveria ser entendida em sentido literal. Da mesma forma, o conceito de Agostinho sobre o Pecado Original, a Graça e Predestinação influenciaram a Teologia desde o século V D.C. até o presente.
Com efeito, a concepção de Agostinho sobre o Pecado Original, por exemplo, influenciou posteriormente o Protestantismo. Ele o via como resultado da influência de Satã sobre os os sentidos e carne (“a semente do mal“), afetando a inteligência e o livre-arbítrio do homem, decorrente da concupiscência e libido.
Para rebater a acusação dos pagãos de que oSaque de Roma, ocorrido em 24 de agosto de 410 D.C, devia-se ao abandono pelos romanos dos deuses pagãos e à corrupção das virtudes romanas pelo Cristianismo, Agostinho escreveu a obra Civitas Dei (“A Cidade de Deus”), onde, desenvolvendo todos as suas ideias, ele elabora a história da Humanidade como sendo a da “Cidade dos Homens”, terrena e fadada à destruição pelos pecadores, que eram continuamente castigados através dos tempos, e da “Cidade de Deus”, a ser erguida pelos cristãos.
Porém, em 430 D.C, chegara a vez de Hipona ser destruída pelos bárbaros Vândalos, que cruzaram o Estreito de Gibraltar e invadiram a rica África romana, até então poupada dos saques e da destruição das incursões germânicas.
Assim, em 28 de agosto de 430 D.C., durante o primeiro cerco vândalo, Santo Agostinho morreu, aos 75 anos de idade.
(Afresco do século VI da Basílica de Laterano, em Roma, a mais antiga representação de Agostinho)
CONCLUSÃO
Santo Agostinho foi um dos intelectuais romanos mais importantes e influentes, cujas obras repercutem até o século XXI, e certamente ecoarão muito além. O seu pensamento representa uma ligação intelectual do mundo helenístico greco-romano, que agonizava, com a civilização cristã-ocidental que, da reciclagem das cinzas do primeiro, se desenvolveria na Idade Média. A obra dele também demonstra a força do Cristianismo em atrair não só os excluídos materiais da civilização greco-romana, mas também os exilados espirituais daquela sociedade, para quem a velho modo de vida pagão não oferecia mais respostas adequadas às inquietações existenciais.
Em 8 de novembro do ano 30 D.C. (ano estimado), nasceu, em Narni, na região italiana da Úmbria, Marcus Cocceius Nerva (Nerva), membro de uma tradicional família da nobreza italiana, sendo ele filho, neto e bisneto de ex-Cônsules.
Consta que o bisavô de Nerva foi partidário do Triúnviro Marco Antônio, mas em algum momento, durante as guerras do Segundo Triunvirato, ele passou a apoiar Otaviano, o futuro imperador Augusto, que, em recompensa, incluiu a família dos Cocceii Nerva no novo Patriciado, meramente honorífico, que começou a ser formado após as Guerras Civis. Por sua vez, o avô e o pai de Nerva tinham sido afamados juristas, sendo que o primeiro chegou a ser amigo pessoal do imperador Tibério.
2- Carreira Pública
Pouco se sabe acerca da carreira política de Nerva no serviço público. Na verdade, parece que o único campo em que ele se destacou em sua juventude foi a poesia, pela chegou a receber elogios do imperador Nero. E foi no reinado deste imperador que Nerva foi indicado para o cargo de Pretor, no ano de 65 D.C., ocasião em que ele recebeu os ornamentos triunfais. Vale observar, contudo, que a História não registra nenhuma campanha militar nesse período, sendo, então aceitável a crença deque Nerva recebeu aquela recompensa pelo fato dele ter ajudado a debelar a chamada Conspiração Pisoniana, que foi uma trama para assassinar Nero liderada por Calpúrnio Pisão, a qual envolveusenadores e integrantes da guarda pretoriana, que estavam fartos das excentricidades e do comportamento cada vez mais tirânico daquele imperador (Nero finalmente cometeria suicídio ao ser destronado, em 68 D.C.).
Tudo indica que Nerva, apesar de não ter se destacado como homem público ou na carreira militar, tinha um grande talento para atrair ou se aproximar de pessoas importantes, e há vários indícios de que ele, de fato, devia ser considerao um amigo ou conselheiro confiável, tanto é que, para o ano 71 D.C., Nerva foi escolhido para ocupar o consulado junto com o imperador Vespasiano (que, após os breves reinados de Galba, Oto eVitélio, tornou-se imperador romano em 69 D.C., inaugurando a dinastia dos Flávios).
Vale observar que ser escolhido pelo imperador para ser o seu colega de consulado era uma honra excepcional, somente conferida a pessoas muito importantes e próximas do imperador (dois cônsules eram escolhidos para cada ano, e a identificação dos anos do calendário romano era feita de acordo com o nome dos cônsules que serviram naquele ano (ex: “no consulado de Vespasiano e Nerva“, era como os romanos identificavam o que hoje classificamos como o ano 69).
Então, em 90 D.C., Nerva, agora já era um senador veterano, foi escolhido novamente para ser cônsul junto com o imperadorDomiciano, o filho de Vespasiano que sucedera o seu irmão mais velho, o adorado Tito, como Imperador, no ano de 81 D.C. Novamente, alguns historiadores acreditam que Nerva deve ter tido um papel importante ajudando o imperador a debelar outra séria revolta, agora capitaneada pelo governador da Germânia, o general Lúcio Antônio Saturnino e suas legiões. É possível que Nerva tenha atuado para assegurar o apoio do Senado, ou talvez ele tenha denunciado a trama, não se sabe ao certo.
Domiciano, embora não possa ser considerado, como governante do Império, um mau imperador, adotou, ao longo do seu reinado de 15 anos, um comportamento crescentemente despótico em relação à aristocracia senatorial, a quem, de acordo com a constituição não-escrita legada pelo primeiro imperador, Augusto, cabia um papel importante no governo imperial, inclusive administrando diretamente algumas províncias menos importantes, além de, reunida no Senado, funcionar de certa forma como um órgão consultivo, sendo, finalmente, destinatária de algumas honrarias e de uma deferência protocolar pelo imperador.
Assim, na História do Alto Império Romano, toda vez que um imperador não respeitava as aparências ligadas à essa fictícia permanência dos elementos de um regime republicano (que em verdade estava defunto), ele recebia a hostilidade dos senadores mais ciosos de suas prerrogativas, oposição que, em alguns casos, podia deflagrar uma conspiração, que, normalmente, era reprimida com rigor implacável.
Nesse particular, os historiadores antigos que escreveram sobre o reinado de Domiciano afirmam que ele teria abandonado o título de “Princeps” (que, originalmente, tinha o significado de primeiro senador ou primeiro cidadão do império) e, abandonando todos os escrúpulos, teria exigido ser tratado como “Dominus et Deus” (Senhor e Deus).
Os historiadores do reinado de Domiciano, a maioria oriundos da classe senatorial, caracterizam-no como um governante desconfiado e paranoico, tendo o seu reinado acarretado para a aristocracia romana uma época de perseguições, instauração de processos por traição e execuções de Senadores, sendo um período em que prosperaram os informantes e os delatores.
Afinal, com o passar do tempo, o comportamento de Domiciano acabou tornando-se insuportável para o seu próprio círculo íntimo, tendo ele sido finalmente assassinado em uma conspiração que foi arquitetada por seus cortesãos mais próximos, incluindo altos funcionários que eram seus escravos libertos domésticos, e até mesmo a sua própria esposa, Domícia Longina, em 96 D.C, o que pôs fim à dinastia dos Flávios.
3-Ascensão ao Trono
Se dermos crédito aos historiadores antigos, após o assassinato de Domiciano, ao contrário das conspirações e rebeliões que resultaram no suicídio de Nero, e acarretaram, sucessivamente, os reinados de Galba, Otão, Vitélio e Vespasiano, dessa vez não houve generais em revolta dirigindo-se à Roma para assumir o trono. Assim, ainda segundo os relatos oficiais, pela primeira vez, coube ao Senado assumir as rédeas da sucessão e nomear o novo imperador. E o escolhido foi o velho senador Marcus Cocceius Nerva.
Não obstante a supresa que deve ter sido para os habitantes do Império a sua escolha, existe praticamente um consenso entre os historiadores sobre os motivos pelos quais Nerva, entre vários possíveis pretendentes, foi aclamado imperador:
Em primeiro lugar, ele era um senador respeitado e membro de uma família ilustre o suficiente para estar à altura da dignidade máxima do Estado. Vale notar que Nerva conviveu com o imperadorTibério quando criança, e o seu tio era parente afim deste imperador. E quatro gerações da família dele já tinham exercido o consulado, a magistratura suprema na carreira do serviço público.
Considero que, de certa forma deve ter contado também o fato de que a figura de Nerva fazia um elo de ligação entre o final da República, o início do Principado e o final da dinastia Flaviana. Politicamente,por sua vez, Nerva não estava ligado a nenhuma facção que fosse inaceitável para os militares.
Porém, talvez mais relevante do motivo acima mencionado, era o fato de que Nerva era um homem velho, quase um ancião para os padrões antigos, tendo cerca de 65 anos de idade, e além disso, ele não gozava de boa saúde (a História conta que ele sofria de uma doença que o fazia vomitar com frequência).
E, mais importante ainda do que tudo isso, Nerva não tinha filhos…
Consequentemente, Nerva era um “imperador-tampão” ideal, pois não havia risco de que ele fundasse uma dinastia que reivindicasse, posteriormente, seu direito hereditário ao trono, caso a situação política presente naquele momento se modificasse e aparecesse algum general poderoso o suficiente para assumir o Império…E, com efeito, como muitos talvez esperassem, o reinado de Nerva seria curto: de setembro de 96 D.C. a janeiro de 98 D.C.
4-Reinado
Nerva, obviamente não desapontou quem esperava o fim da tirania de Domiciano: as suas primeiras medidas foram a anulação de todos os processos de traição, a devolução das propriedades confiscadas, a volta dos exilados e a libertação de todos os presos políticos. E as prerrogativas do Senado e dos seus membros voltaram a ser respeitadas.
O recém-aclamado imperador também reduziu alguns tributos, uma medida sempre bem vista em todos os tempos e lugares, reduziu gastos com espetáculos e também vendeu propriedades do Estado, promovendo o que pode ser considerado um verdadeiro “ajuste fiscal”.
No campo das obras públicas, procedeu-se à inauguração do chamado “Forum Transitorium“, que foi iniciado por Domiciano, mas concluído e inaugurado por Nerva, em 97 D.C., motivo pelo qual ficou conhecido como Fôro de Nerva. O nome Forum Transitorium, tudo indica, deve-se ao fato de que ele ficava adjunto aos Fôros de César e de Augusto, maiores e mais antigos, podendo passar-se de um ao outro através do Fôro de Nerva. Ainda subsistem, em Roma, alguns vestígios da colunata deste fórum (vide foto abaixo).
Ironicamente, o reinado de Nerva também seria caracterizado como “um reinado transitório”…
Em outubro de 97 D.C., estourou uma revolta da Guarda Pretoriano, liderada por seu comandante, Casperius Aelianus, exigindo a punição dos assassinos de Domiciano. Os pretorianos chegaram a cercar o palácio imperial, praticamente colocando o imperador na situação de refém. Acossado e humilhado, Nerva teve que ceder, e dois implicados na conspiração contra Domiciano foram executados.
Assim, indubitavelmente, foi a precariedade de sua situação como governante que obrigou Nerva a adotar o general mais prestigiado do Exército Romano, o hispânico Marcus Ulpius Trajanus (o futuro imperador Trajano), comandante das legiões romanas na Germânia, como filho e sucessor.
“Consequentemente, Nerva, vendo a si mesmo mergulhado em tal situação de desonra, em virtude da sua velhice, subiu ao Capitólio, e disse em voz alta: “Que possa a a boa Fortuna escutar o Povo e o Senado de Roma e a mim mesmo: Eu, neste ato, adoto Marcus Ulpius Nerva Traianus!”
Cassius Dio (Livro LXVIII 3, 4
Segundo a narrativa consagrada, esta adoção na ocasião representou a escolha do homem mais capaz para a sucessão imperial, em uma fórmula sucessória que seria a marca da dinastia dos Nerva-Antoninos. Porém, nos bastidores, não se sabe se Trajano pressionou Nerva a adotá-lo ou se esta foi uma decisão voluntária do imperador.
(Denário de Nerva, com a inscrição Concórdia no Exército, provavelmente cunhada para simbolizar o apoio do Exército Romano ao imperador, após a crise com os Pretorianos e a adoção do general Trajano como sucessor)
5- Morte
No primeiro dia do seu quarto consulado, no dia 1º de janeiro de 98 D.C. em uma audiência privada, Nerva sofreu um derrame. A sua saúde frágil certamente sucumbiu à tensão gerada pela revolta dos pretorianos.
Então, ainda no mesmo mês, em 27 de janeiro de 98 D.C, o imperador Nerva faleceu, aos 67 anos de idade, em sua casa situada nos Jardins de Salústio, em Roma, após uma prolongada febre, que surgiu depois do citado derrame. Trajano, o sucessor legal de Nerva, foi comunicado da morte na Germânia, mas, contrariando as expectativas, ele não se deslocou imediatamente para Roma, preferindo assegurar a lealdade das legiões do Reno antes de sua entrada triunfal na capital, o que somente ocorreria no ano seguinte.
CONCLUSÃO
A sucessão pacífica entre Nerva e Trajano seria o paradigma do principado até o fim do reinado do imperador Marco Aurélio (que escolheu como sucessor o próprio filho natural, Cômodo, em 177 D.C, antes de falecer, em 180 D.C), oficialmente deixando de lado o princípio dinástico baseado no nascimento, optando-se pela escolha do homem mais capaz como sucessor. Este pareceu ser um ideal caro à dinastia dos Nerva-Antoninos, apesar de, na realidade, as coisas serem um pouco diferentes: todos os chamados “Imperadores Antoninos” em geral tinham entre si algum laço de parentesco, fosse sanguíneo ou por afinidade, ainda que distante, com os herdeiros que adotaram.
Com efeito, os anos de governo de Nerva até Marco Aurélio seriam os mais prósperos e internamente pacíficos da História de Roma, sendo o período batizado de “Seculum Aureum” (O SÉCULO DE OURO).
Em 22 de março de 235 D.C., o imperador romano Severo Alexandre, encontrava-se na base militar romana de Castrum Moguntiatium (que deu origem à moderna cidade alemã de Mainz, ou Mogúncia, seu nome em português) quando um motim dos soldados da Legião XII Primigenia estourou.
As tropas recusaram-se a obedecer aos apelos do imperador para que combatessem as tropas lideradas pelo general Maximino Trácio, comandante da Legião IV Italica, as quais tinham aclamado Maximino imperador.
Reunidos no centro do Quartel, os soldados começaram a ficar muito agressivos, acusando Severo Alexandre de ser um covarde dominado pela mãe avarenta e comparando-o ao desprezível Elagábalo, seu primo e antecessor no trono.
Os amotinados, ato contínuo, demandaram que os demais soldados abandonassem “o tímido menininho amarrado à barra da saia da mãe“, fazendo com que toda a soldadesca lhe desse as costas, deixando o imperador sozinho no praetorium.
Severo Alexandre, aterrorizado, correu para a tenda de sua mãe, a imperatriz Júlia Maméia (Julia Mammaea), que o acompanhava, como sempre, naquela campanha contra os bárbaros Alamanos.
Tinha sido Júlia Maméia quem havia aconselhado Alexandre a oferecer aos bárbaros uma boa soma em dinheiro para que eles desistissem de guerrear contra os Romanos.
E esse foi justamente o estopim da revolta das legiões , pois os soldados alegavam que isso era uma grande desonra para o Império Romano (talvez eles esperassem que o dinheiro fosse dado a eles como donativo pela vitória).
No interior da tenda da mãe, Severo Alexandre chorou e recriminou a mãe pelos seus infortúnios. Ele sabia que estava acabado. Por isso, quando um grupo de soldados seguiu o imperador e invadiu a tenda de Júlia Maméia, Alexandre, resignadamente, ofereceu o pescoço para que eles o executassem. Ele morreu aos 26 anos de idade e treze de reinado. Na mesma ocasião, os soldados também mataram Júlia.
Marcus Julius Gessius Bassianus Alexianus(Severo Alexandre) nasceu em 1º de outubro de 208 D.C, na cidade de Arca Caesarea , na província romana da Síria Fenícia (atual Arqa, no Líbano), filho de Marcus Julius Gessius Marcianus e de Julia Avita Mammaea (Júlia Maméia).
O pai de Severo Alexandre era um cidadão romano de origem síria que pertencia à classe Equestre, o segundo nível da nobreza romana e parece ter exercido alguns cargos públicos.
Em algum momento depois do ano 200 D.C., Marcus Julius Gessius Marcianus casou-se com Júlia Maméia, que era sobrinha da poderosa imperatriz Júlia Domna, casada com o imperador Septímio Severo. Durante o reinado do marido, Júlia Domna receberia o título de “Mãe dos Quartéis, do Senado e da Pátria“.
(busto de Júlia Maméia)
Júlia Maméia e sua irmã, Júlia Soêmia, eram filhas de Júlia Maesa, irmã da imperatriz Júlia Domna, que por sua vez eram filhas de Julius Bassianus, sumo-sacerdote do Templo do deus Elagábalo (El-Gabal), situado em Emesa (a moderna Homs), na Província da Síria, e integrante da dinastia dos Sempseramidas, que havia séculos governavam a referida cidade, a qual, durante muito tempo, havia sido a próspera capital de um reino-cliente de Roma, até a sua anexação pelo Império Romano.
(Estátua de Júlia Soêmia)
Portanto, a família de Júlia Maméia era riquíssima e, quando o imperador Caracala, filho e sucessor de Septímio Severo morreu, assassinado por ordens de Macrino, sua mãe Júlia Maesa e sua irmã, Júlia Soêmia, valeram-se dessa fortuna e de seu poder e prestígio na importante província da Síria para fomentar a rebelião que em pouco tempo derrubou Macrino.
As tropas da Síria aclamaram o jovem filho de Júlia Soêmia, Elagábalo, de apenas 15 anos de idade, como imperador, em 16 de maio de 218 D.C. Macrino seria derrotado em junho de 218 D.C. e, assim, Elagábalo foi reconhecido imperador pelo Senado.
A mãe do novo imperador, Júlia Soêmia, e a sua tia, Júlia Maesa, foram declaradas “Augustas”. De forma ainda mais surpreendente, as duas seriam, um pouco mais tarde, as primeiras e únicas mulheres a serem admitidas no Senado Romano. E Júlia Maesa ainda receberia o título de “Mãe do Senado”.
O reinado de Elagábalo seria marcado pelos escândalos e pela repulsa que a sua condição de sumo-sacerdote de El-Gabal, a sua aparência andrógina e o seu comportamento desregrado provocaram não apenas na elite senatorial, mas nas próprias tropas.
Em algum momento, Júlia Maesa percebeu que a crescente rejeição a Elagábalo pela sociedade romana, e, sobretudo, pelos militares romanos, colocava em perigo a própria posição da família. Ela também percebeu que os reiterados excessos sexuais dele eram encorajados pelo fervor religioso com que Elagábalo e sua própria filha, Júlia Soêmia, a mãe do imperador, se dedicavam ao culto a El-Gabal.
Júlia Maesa então aproximou-se de sua outra filha, Júlia Maméia, que também tinha um filho, Marcus Julius Gessius Bassianus Alexianus (Severo Alexandre), então com 13 anos de idade, primo do imperador.
A influente Júlia Maesa conseguiu persuadir Elagábalo a nomear o seu primo como seu herdeiro, dando-lhe o título de “César”, passando a adotar o nome de Caesar Marcus Aurelius Alexander, em 221 D.C, Severo Alexandre seria Cônsul junto com Elagábalo. As duas mulheres também devem ter sido as responsáveis por espalhar o boato de que Alexandre seria também filho ilegítimo de Caracala, o que lhe granjearia a simpatia dos soldados.
(estátua de Júlia Maesa)
Contudo, percebendo o entusiasmo que a nomeação de Severo Alexandre provocou nos soldados da Guarda Pretoriana, já muito incomodados com os seus excessos, Elagábalo resolveu anular sua decisão e revogar os títulos concedidos ao seu primo. Contudo, essa decisão fez o público e as tropas se alvoraçarem temendo pela vida do menino.
Os Pretorianos demandaram a presença de Elagábalo e de Severo Alexandre no Castra Pretoria, devido aos rumores de que Alexandre pudesse ter sido assassinado. É possível até que o motim tenha sido instigado por Júlia Maesa e Júlia Maméia. Quando Elagábalo chegou, começou um tumulto que degenerou no assassinato dele e de sua mãe, Júlia Soêmia, que depois tiveram os corpos arrastados pelas ruas, em 11 de março de 222 D.C.
Em 13 de março de 222 D.C., Severo Alexandre foi aclamado oficialmente imperador romano, adotando o nome de Marcus Aurelius Severus Alexander Augustus, nome escolhido para enfatizar a conexão dinástica com Septímio Severo e Caracala.
Como o imperador Severo Alexandre tinha apenas 13 anos de idade, quem de fato detinha as rédeas do poder era sua mãe, Júlia Maméia.
Júlia Maesa e Júlia Maméia tinham testemunhado a catástrofe que a coroação de um imperador muito jovem, completamente despreparado e de comportamento indecoroso, como foi o seu seu sobrinho Elagábalo, representava, não só ao Império, mas, sobretudo, à própria sobrevivência da dinastia dos Severos.
Assim, as duas mulheres, que, naquele momento, eram as governantes de fato do Império Romano procuraram cercar o jovem Severo Alexandre dos mais ilustres e respeitáveis conselheiros, como foi o caso dos juristas Ulpiano, que foi nomeado para o importante cargo de Prefeito Pretoriano, e Paulus, e também do senador e, mais tarde, historiador, Cassius Dio (CássioDião). Vale citar que Júlia Maesa morreria logo em 224 D.C., portanto, Júlia Maméia foi quem deteve ascendência preponderante sobre o filho.
(Busto de Ulpiano)
Graças a esse Conselho de homens notáveis, os primeiros atos do governo de Severo Alexandre visaram a recuperação moral e econômica do governo romano, a melhoria das condições da plebe de Roma e implantar medidas em prol dos soldados.
Foram implementavas ações para diminuir os gastos da Corte, considerada excessivamente luxuosa e extravagante. Talvez daí tenha surgido a fama de avarenta que Júlia Maméia gozou até o fim da sua vida. Uma fonte chegou a narrar que ela teria determinado que os restos dos banquetes no Palácio fossem recolhidos e guardados para serem servidos em outra oportunidade…
O denário foi inicialmente desvalorizado, provavelmente para aumentar a circulação de moeda e ajudar a equilibrar o déficit do Tesouro, mas posteriormente, mediante o aumento do percentual de prata, a moeda foi revalorizada, o que demonstra que houve uma melhoria nas contas públicas. Isso inclusive permitiu que os impostos fossem diminuídos, o que sempre estimula a economia e satisfaz os contribuintes. Esse programa foi completado pela criação de um serviço para emprestar dinheiro a taxas de juros moderadas.
Durante o reinado de Severo Alexandre foi construído o Acqua Alexandrina, o último dos grandes aquedutos que abasteciam a cidade de Roma, em 226 D.C.. E as Termas de Nero, que se encontravam em péssimo estado, foram reconstruídas, passando o complexo a ser conhecido como “Banhos de Alexandre”.
(Um trecho do aqueduto Acqua Alexandrina, foto de Chris 73)
Severo Alexandre também estabeleceu medidas para beneficiar os militares no que se refere aos direitos sucessórios e pecúlios.
Todavia, já no início do reinado, Severo Alexandre sofreu com o problema da crescente indisciplina dos soldados.
Em 223 D.C., os Pretorianos, insatisfeitos com as medidas do Prefeito Pretoriano Ulpiano, a quem eles eram subordinados, assassinaram o famoso jurista na presença do próprio imperador. Ulpiano se tornaria célebre nas faculdades de direito por ter estabelecido o que seriam os preceitos principais do Direito: “Viver honestamente, não causar mal a ninguém e dar a cada um o que é seu” (Juris praecepta sunt haec: honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique tribuere)
Aliás, no período da dinastia dos Severos, apesar dos imperadores seguirem estritamente o conselho do seu fundador, Septímio Severo, de “dar dinheiro aos soldados e desprezar todos os outros“, aumentaram muito os episódios de indisciplina e insubordinação, chegando a um ponto que qualquer medida que visasse enrijecer a disciplina ou reduzir os donativos e gratificações, como ocorreu no reinado de Severo Alexandre, desencadeava rebeliões e motins entre a tropa, cuja efetividade em combate, também, parece ter sido comprometida.
Apesar das questões relativas à disciplina dos militares, o reinado de Severo Alexandre vinha tendo relativo sucesso em relação aos reinados anteriores de Elagábalo e Caracala, melhorando a economia e obtendo estabilidade política.
Contudo, eventos externos que ocorreram no reinado de Severo Alexandre, e em relação aos quais ele não teve qualquer responsabilidade, não só causariam problemas que levariam à sua derrubada, mas teriam graves consequências estratégicas, que, futuramente comprometeriam a própria sobrevivência do Império Romano…
O primeiro deles foi a ascensão de Ardashir I (Artaxerxes I), nobre persa da Casa de Sassan, em 227 D.C., derrotando a dinastia dos Arsácidas, que fazia séculos governava o Império dos Partas e instalando a dinastia dos Persas Sassânidas, criando o império do mesmo nome. Os Sassânidas eram, por assim dizer, mas “nacionalistas”, centralizadores e muito mais agressivos militarmente do que os seus antecessores. Ironicamente, o principal motivo para a ascensão dos Sassânidas foram as sucessivas invasões que os romanos promoveram na Mesopotâmia parta durante os reinados de Trajano, Septímio Severo e Caracala, saqueando a capital Ctesifonte.
(Relevo no Irã, retratando Ardashir e o deus Ahura-Mazda)
Em 230 D.C., Ardashir I lançou um ataque contra o sistema defensivo romano na fronteira da Mesopotâmia, sitiando a estratégica fortaleza de Nusaybin (Nísibis), sem, contudo conseguir tomá-la. Em seguida, as tropas persas invadiram as províncias da Síria e da Capadócia.
Os Romanos foram obrigados a reagir militarmente, e o imperador teve que atender aos reclamos dos governadores.
Para lidar com a agressão persa, Severo Alexandre mandou reunir um exército com soldados das legiões espalhadas pelo Império. O historiador Herodiano de Antióquia narra que a medida causou comoção no Império, provavelmente pelo fato de terem sido recrutados soldados em províncias onde há muito não se faziam conscrições, como, por exemplo, a Itália.
Herodiano também relata que Alexandre e sua comitiva integraram a expedição militar, sendo que, no momento da partida, o imperador pôde ser visto chorando e, repetidamente, olhando para trás enquanto deixava Roma.
Chegando no teatro de operações, o imperador ainda tentou apelar para a diplomacia, enviando embaixadores à Ctesifonte. Os embaixadores não foram recebidos, mas Ardashir mandou sua própria embaixada aos Romanos, com as seguintes exigências, segundo o historiador bizantino João Zonaras:
“O Grande Rei Artaxerxes ordena aos romanos que deixem a Síria e toda a Ásia adjacente à Europa e permitam ao Persas governar até o mar“.
Percebe-se, assim, que o objetivo dos Sassânidas era, como se extrai do referido ultimato, restaurar o Império Persa às fronteiras dos gloriosos tempos de Dario e Xerxes, o que implicaria na perda para os Romanos das importantes províncias da Síria, Ásia, Capadócia e Bitínia, entre outras. Logo, a paz obviamente era impossível.
Nessa ocasião, houve mais uma prova de que a disciplina militar do Exército Romano estava seriamente comprometida: Quando as tropas estavam se preparando para cruzar os rios Tigre e Eufrates, para invadir o território persa, vários motins explodiram entre os soldados, especialmente entre os soldados do Egito, e também na Síria, onde as tropas até tentaram proclamar imperador um certo Taurinus, no verão de 232 D.C., porém esta rebelião foi rapidamente debelada.
Os comandantes militares romanos decidiram dividir o exército em três. O primeiro destacamento invadiria ao norte a Armênia para atacar os Medos, súditos dos Sassânidas. O segundo atacaria a Mesopotâmia na confluência dos rios Tigre e Eufrates e o terceiro, sob o comando direto do imperador, atacaria os Persas no centro. Porém, na Armênia, os romanos tiveram muita dificuldade no terreno montanhoso, mas conseguiram chegar ao território dos Medos, devastando-o. Algumas tropas persas tentaram impedir o avanço, mas o terreno desfavorável à cavalaria impediu-os de engajar os Romanos.
Quando Artaxerxes I soube do avanço do segundo destacamento pelo Tigre e Eufrates, atacou aquele exército com suas tropas principais. Os Romanos avançavam sem muita cautela, pois até então não tinham enfrentado qualquer resistência. Assim, eles foram fragorosamente derrotados pelos Persas.
Para piorar, Alexandre foi aconselhado por Júlia Maméia, que acompanhava a comitiva, a não invadir a Pérsia com o seu exército, contribuindo para que as tropas do segundo destacamento fossem cercadas pelos arqueiros montados persas e aniquiladas.
Apesar do fracasso da expedição, os Romanos conseguiram infligir muitas baixas entre os Persas, e dois dos três segmentos da força expedicionária devem ter conseguido sobreviver, o que impediu os Persas de explorarem a vitória na Mesopotâmia.
De volta a Antióquia, Alexandre distribuiu grandes donativos para as tropas e informou ao Senado, em Roma, que ele tinha vencido os Persas. E ao chegar em Roma, em 233 D.C., o imperador ainda chegou a celebrar um Triunfo.
De fato, como nenhuma inscrição ou texto persa relata uma vitória na ocasião, Artaxerxes I deve der ficado decepcionado com o desfecho da guerra, sobretudo porque as fronteiras do Império Romano no Oriente permaneceram inalteradas.
Assim, o conflito pode ser considerado um empate e Artaxerxes I somente voltaria a atacar o território romano em 237 D.C, dois anos após a morte de Severo Alexandre.
O conflito entre o Império Romano e o Império Persa duraria, com alguns intervalos de paz e vitórias e derrotas para ambos os lados, até a vitória final dos Romanos na Batalha de Nínive, em 628 D.C., no reinado do imperador romano-bizantino Heraclius.
O segundo evento que assolaria o reinado de Severo Alexandre foi a aparição nas fronteiras romanas dos rios Reno e Danúbio, da poderosa confederação de tribos germânicas dos Alamanos, que atacaram as fortificações romanas na fronteira e devastaram as cidades das províncias fronteiriças, em 234 D.C., ameaçando a província da Ilíria e, consequentemente, a própria Itália.
Os Germanos, desde o final do século II A.C., vinham mostrando serem capazes de infligir grandes derrotas aos Romanos em batalhas isoladas, porém, os seus sucessos tinham duração efêmera, pois eles estavam organizados em inúmeras tribos pequenas, que não costumavam colaborar entre si, quando não guerreavam umas contra as outras. E, material e taticamente, em geral, os Germanos eram bem inferiores aos Romanos.
Todavia, assim como nós mencionamos acima com relação aos Persas e o Império Parta, foram os próprios Romanos que contribuíram para mudar a correlação de forças entre os Germanos.
Com efeito, de modo crescente, a partir de meados do século I A.C., os Romanos vinham empregando como soldados auxiliares tribos inteiras de Germanos. Muitos desses Germanos passavam 20 anos servindo no Exército Romano. Ao final do período, muitos adquiriam a cidadania romana, mas, ao contrário da maioria de outros povos que também forneciam tropas aos Romanos, muitos deles voltavam para as suas terras na Germânia, trazendo armamentos e táticas do exército romano. Com o tempo, os Germanos, que já eram tradicionalmente um povo de índole guerreira, foram adquirindo o conhecimento das táticas romanas e reunindo um grande arsenal de armas romanas, aprendendo também técnicas para o seu fabrico.
A partir do século II D.C, começou a se observar que os chefes militares germânicos, muitos, provavelmente, egressos do Exército Romano, foram dominando as tribos vizinhas, que começaram a se aglutinar em forma de confederações de tribos.
Os achados arqueológicos, notadamente os provenientes de enterros em pântanos de turfa, mostram que, na virada do século II para o século III D.C., os bandos de guerreiros germânicos já demonstravam um grau de especialização (cavalaria, infantaria e arqueiros) e dispunham de espadas, elmos, armaduras (ao menos os chefes) e lanças que não ficavam a dever a dos Romanos, ou até mesmo eram de fabricação romana. Por sua vez, a nobreza germânica consumia produtos de origem romana e entesourava moedas de ouro romanas. Parece, neste particular, que os Romanos incentivaram a formação de verdadeiros reinos-clientes entre os Germanos.
Feita essa pausa digressiva, com a invasão dos Alamanos, mais uma vez, Severo Alexandre foi obrigado a se deslocar para o front de batalha. As tropas, cuja disciplina, como vimos, era problemática, estavam reclamando, especialmente as oriundas das províncias atacadas, pelo fato de Severo Alexandre tê-las feito lutar a campanha na Pérsia, o que, no entender deles, provavelmente deve ter facilitado o ataque dos bárbaros germânicos.
Em Mogúncia, base das operações contra os Alamanos, Severo Alexandre, novamente, foi aconselhado por sua mãe a tentar conter a ameaça militar com a diplomacia. Nesse particular, não havia nada de absurdo naquele conselho, pois, há muito tempo, os Romanos costumavam pagar dinheiro aos Germanos para que estes ficassem sossegados e não atacassem o Império.
Não obstante, os militares tinham se acostumado com anos de condescendência, fraqueza e de mão-aberta dos imperadores em relação às suas demandas, e a insatisfação deles ao que parece, foi agravada pelos vexames de Elagábalo e pela falta de aptidão militar de Severo Alexandre, que, para piorar, parece que não era mesmo muito generoso nos donativos, em decorrência da sua política de austeridade fiscal, a qual era atribuída à mãe do imperador.
MaximinoTrácio
Assim, quando eles souberam que Severo Alexandre, seguindo as instruções de Júlia Maméia, estava disposto a dar dinheiro aos bárbaros Alamanos, as legiões aclamaram imperador o comandante da Legião IV Italica, Gaius Julius Verus Maximinus (MaximinoTrácio).
Maximino era um Trácio da Moesia que quando criança trabalhara como pastor, mas, após entrar no exército romano, foi galgando postos, destacando-se nas batalhas devido a sua incrível força física. Há relatos de que ele teria cerca de 2m 40cm de altura e, de fato, as suas estátuas apresentam caracteristicas físicas de acromegalia. Ironicamente, ele havia sido promovido a comandante pelo próprio Severo Alexandre.
Entretanto, não podia ser maior o contraste entre a figura frágil do imperador e a virilidade castrense de Maximino, que parecia aos soldados muito mais adequada para comandar o Exército naqueles tempos belicosos.
Assim, no dia 19 de março de 235 D.C, quando se avistou a coluna de poeira deslocada pelas legiões que aclamaram Maximino, que se aproximavam do quartel-general em Mogúncia, só restou a Severo Alexandre apelar, sem sucesso, à lealdade dos soldados da Legião XII Primigenia, que logo matariam ele e sua mãe. Era o fim da dinastia dos Severos, que governava Roma, com o breve intervalo de Macrino, desde 193 D.C.
Após saberem da execução de Severo Alexandre e Júlia Maméia, a Guarda Pretoriana também aclamou Maximino imperador e o Senado, constrangido, confirmou o nome dele, apesar dos senadores o considerarem pouco mais do que um camponês bárbaro.
Maximino, sem deixar a Germânia, partiu para enfrentar os Alamanos, os quais conseguiu derrotar, apesar do exército sofrer pesadas baixas, no território romano dos Agri Decumates.
O reinado de Maximino marcaria o início da chamada “Crise do Século III“, o período de grande instabilidade verificado entre 235 e 284 D.C quando 30 imperadores ocuparam o trono em 49 anos, ou seja, uma média de apenas 18 meses de reinado por imperador. Nesse período, vários imperadores foram assassinados, dois mortos no campo de batalha e um deles capturado vivo pelos Persas. Para se ter uma comparação, entre os reinados de Augusto e de Severo Alexandre, foram 28 imperadores para um período de 266 anos, com uma média de 9 anos e seis meses para cada reinado…
No ano de 238 D.C., ano que Maximino foi assassinado, houve cinco imperadores diferentes no trono, motivo pelo qual ficaria conhecido como “O Ano dos Cinco Imperadores“. E, em um futuro próximo, durante um bom período, a Gália e a Síria ficariam independentes, fazendo parte dos chamados “Império Gaulês” e “Império de Palmira“.
O principal motivo de tudo isso foi a duradoura incapacidade de Roma lidar com pesadelo estratégico da guerra em dois fronts naquele período. Embora haja também causas econômicas (especialmente déficit público causado pelos gastos militares e déficit comercial com a China) e demográficas (diminuição da população notadamente por epidemias).
Para terminar nossa narrativa, é interessante citar, com a devida cautela quanto à veracidade do relato, da frequentemente imprecisa HistóriaAugusta, e também do historiador cristão Eusébio, ambos os textos datando provavelmente do reinado do imperador Constantino, oGrande, as passagens abaixo, que afirmam que Severo Alexandre era simpático ao Cristianismo.
Segundo Eusébio, no período que passaram em Antióquia, Júlia Maméia, que era muito religiosa, mandou Severo Alexandre estudar com o afamado teólogo cristão Orígenes.
Já a História Augusta (Lampridius) relata que Severo Alexandre colocou em seu “lararium” (oratório doméstico) imagens do patriarca Abraão e de Jesus Cristo, entre outros místicos famosos, como Apolônio de Tiana.
Ainda segundo a HistóriaAugusta, Severo Alexandre chegou a pensar em erguer um Templo em honra a Cristo em Roma e teria mandado gravar no Palácio dos Césares “as famosas palavras de Cristo”:
“Não faças aos outros o que não gostarias que fizessem contigo.”
Em 18 de setembro de 96 D.C., em um suntuoso aposento da recém-completada Domus Flaviae, o grandioso complexo palaciano que os imperadores da dinastia flaviana haviam construído na colina do Palatino, descortinava-se um sangrento cenário: dois cadáveres sem vida jaziam no chão, junto com duas adagas ensanguentadas, em uma poça de sangue, no meio da luxuosa mobília revirada…Eram os corpos do imperador romano Domiciano e do liberto Stephanus, que em vida fora o secretário pessoal de Flávia Domitila, a irmã do imperador.
HISTÓRICO FAMILIAR, NASCIMENTO E INFÂNCIA
Nascido em 24 de outubro de 51 D.C., Titus Flavius Domitianus (Domiciano) era o filho mais novo do general Tito Flávio Vespasiano (que se tornaria o imperador Vespasiano) e de Flávia Domitila, a Velha. Os Flávios eram uma família de origem sabina, proveniente da cidade de Reate, os quais, no final da República, ingressaram na classe dos Equestres (ou Cavaleiros), que era o segundo nível hierárquico da nobreza romana.
Com efeito, o primeiro Flávio de que se tem notícia havia sido um mero centurião das tropas de Pompeu, na Batalha de Farsália, durante a guerra civil travada entre este e Júlio César, e que, depois deste conflito, estabeleceu-se como coletor de impostos. O filho dele, chamado Titus Flavius Sabinus, também foi coletor de impostos na Província romana da Ásia e além de banqueiro.
Já a família de Domitila, a Velha, a mãe de Vespasiano, havia se estabelecido na cidade de Sabratha, na colônia romana da África, durante o reinado do imperador Augusto, sendo que o pai dela era um simples secretário de um questor daquela província.
Vespasiano, junto com seu irmão, Tito Flávio Sabino, tiveram sucesso no serviço público e no Exército Romano, durante os reinados dos imperadores Calígula e Cláudio.
Ressalte-se que Vespasiano, inclusive, conseguiu ingressar no círculo mais íntimo da corte de Cláudio, muito em função da sua união amorosa com a liberta Antônia Caenis, que era secretária pessoal da mãe de Cláudio, Antônia, a Jovem, e da sua amizade com o poderoso liberto Narcissus, que era um dos principais assessores imperiais, com status de ministro.
Assim, durante o reinado de Cláudio, graças a essas privilegiadas ligações, Vespasiano conseguiu alcançar o cume da carreira das magistraturas romanas (Cursus Honorum), ao ser nomeado Cônsul, em 51 D.C, mesmo ano em que nasceu Domiciano, o seu filho caçula.
O primogênito de Vespasiano, Tito, nascido em 39 D.C. (doze anos antes de Domiciano), também se beneficiou da proximidade do pai com o palácio no reinado de Cláudio: ele teve o raro privilégio de ser educado junto com Britânico, o filho natural do referido imperador.
Tito e Domiciano também tinham uma irmã, chamada Flávia Domitila, a Jovem, também nascida em 39 D.C.
Curiosidade: a filha desta Flávia Domitila, que também se chamava Domitila, seria cristã e, muitos anos mais tarde, ela seria canonizada pela Igreja Católica como Santa Flávia Domitila e as chamadas Catacumbas de Domitila, em Roma, têm este nome porque as terras onde elas foram escavadas pertenceriam a ela, que as legou para a nascente comunidade cristã da Cidade, ainda no século I D.C. Vide abaixo: Afresco sobre um jazigo nas referidas Catacumbas.
Apesar dos tempos de fartura e glória vividos pelo pai, as fontes narram que quando Domiciano nasceu, a sua família estava de fato na pobreza. O motivo mais provável para isso, ao que tudo indica, é o fato de que o seu pai Vespasiano teria caído em desgraça quando Agripina, a Jovem, a última esposa do imperador Cláudio, foi, pouco a pouco, dominando o velho e influenciável imperador e aproveitou-se disso para afastar os desafetos dela, sobretudo, aqueles que ela julgava que ameaçavam a ascensão de seu filho Nero ao trono. E entre os piores desafetos da nova imperatriz encontrava-se Narcissus, o amigo e protetor de Vespasiano.
Entretanto, enquanto Domiciano era ainda uma criança pequena, a sua mãe, Domitila, a Jovem, morreu. Vespasiano então resolveu assumir o romance com Antônia Caenis e os dois passaram a viver em “Contubérnio“, uma forma de concubinato que era admitida pela lei romana.
Todavia, segundo as fontes, seja por apego à memória da mãe, seja por ciúme do pai, ou por outro motivo qualquer, Domiciano não gostava de Antônia Caenis e o historiador Suetônio, inclusive, relata que, certa vez, quando a “madrasta” tentou saudá-lo com um beijo, Domiciano a impediu, e em vez de oferecer a face, estendeu-lhe a mão…
Assim, quem parece ter cuidado mesmo do menino Domiciano foi Phyllis, a sua ama, que esteve próxima a ele durante toda a sua vida (e até mesmo depois, como veremos mais tarde)…
JUVENTUDE E FORMAÇÃO
Finalmente, quando Nero, passados os primeiros anos do seu reinado, conseguiu dar cabo de Agripina, em 59 D.C., Vespasiano, ainda um general respeitado, voltou a receber comandos importantes. Assim, em 60 ou 63 D.C, ele foi nomeado governador da África. Nesse período, Domiciano ficou aos cuidados de seu tio Sabino, enquanto seu irmão Tito, que já tinha idade militar, fazia carreira no Exército, servindo na Germânia e na Britânia.
Sabemos que Sabino não descurou da educação do sobrinho, pois Suetônio nos conta que, já adolescente, Domiciano estudou Retórica e Literatura, sendo capaz de declamar poetas importantes, como Homero e Virgílio, em público, e de manter uma elegante conversação em eventos sociais. Consta, além disso, que na juventude, Domiciano chegou a publicar poemas e até alguns escritos sobre Direito.
Suetônio descreve Domiciano como sendo um jovem alto e de boa aparência, mas que, na idade madura, ficaria barrigudo e calvo. Como curiosidade, com relação a esse último traço, consta que Domiciano escreveu um “Tratado sobre Cuidados com os Cabelos“, que, infelizmente, não sobreviveu.
Vespasianofoi nomeado pelo imperador Nero para comandar o grande exército que fora reunido para combater a Grande Revolta Judaica, em 66 D.C., ao qual se juntou, a seguir, Tito, que recebeu o comando da XV Legião.
Em 68 D.C., quando estourou a rebelião do governador Vindex, na Gália – o fato que iniciou a cadeia de eventos que resultaria na deposição e no suicídio de Nero – Tito foi enviado à Roma por Vespasiano para transmitir o reconhecimento das Legiões na Judéia ao novo imperador, Galba. Porém, antes de chegar à Roma, Tito recebeu a notícia de que Galba havia sido assassinado e de que, agora, Oto (Otão) era o novo imperador. Ele decidiu, então, retornar para a Judéia para ver o que o seu pai decidiria.
Entretanto, no conturbado ano de 69 D.C, que ficaria conhecido como o “Ano dos Quatro Imperadores“, Oto foi derrotado por Vitélio, que se tornou o novo imperador. Enquanto isso se desenrolava na Itália, Tito teve vital importância e participou diretamente das negociações que levaram Muciano, o Governador da Província da Síria, a jogar a cartada de reconhecer Vespasiano como imperador, desprezando o reconhecimento de Vitélio por Roma.
Assim, Vespasiano partiu para a capital para reclamar o trono e deixou sob o comando de Tito a campanha contra a Grande Revolta Judaica, que ficou com a tarefa de liderar a fase mais difícil da guerra: o cerco e captura de Jerusalém. Ao tomarem conhecimento da aclamação na Síria, as legiões do Danúbio, sob o comando de Antônio Primo, também escolheram apoiar Vespasiano e invadiram a Itália, derrotando as tropas de Vitélio na Batalha de Bedríaco, saqueando em seguida a cidade de Cremona.
A ASCENSÃO DE VESPASIANO E O PAPEL DESEMPENHADO POR DOMICIANO
Enquanto isso, em Roma, Vitélio informou a Tito Flávio Sabino, o irmão de Vespasiano, que ocupava, fazia onze anos, o cargo de Prefeito Urbano de Roma, a, sua intenção de renunciar. Porém, os soldados de Vitélio e o populacho da cidade, quando souberam disso, protestaram violentamente e cercaram Sabino e a sua família, incluindo o jovem Domiciano, os quais se refugiaram na colina do Capitólio, que chegou a ser incendiada pelos partidários de Vitélio no conflito. Domiciano conseguiu escapar dos perseguidores, mas Sabino foi capturado e executado.
Dois dias depois, as tropas de Antônio Primo tomaram Roma e depuseram Vitélio, que foi arrastado pelas ruas, torturado e morto. Em seguida, as tropas aclamaram Domiciano como “César” (um título que começava a adquirir o significado de “príncipe-herdeiro”).
Em dezembro de 69 D.C., o Senado Romano reconheceu Vespasiano como imperador – embora ele ainda estivesse no Oriente. Assim, o seu correligionário Muciano, que havia chegado à Roma um dia depois da morte de Vitélio, imediatamente assumiu o comando das tropas leais a Vespasiano que tinham tomado a capital e passou a administrar o Império em nome do novo imperador, contando com a ajuda de Domiciano, que, então, tinha apenas 18 anos de idade e foi nomeado pelo Senado para o cargo de Pretor com poderes consulares, de acordo com o historiador Tácito.
Narram as fontes que o jovem Domiciano, mostrando bastante audácia e uma indisfarçável ambição pelo poder, logo nomeou várias pessoas para diversos cargos importantes, tais como governos de províncias, prefeituras e, até mesmo, para o consulado. Por esse motivo, segundo o historiador Dião Cássio, o sempre bem-humorado Vespasiano teria chegado a mandar uma carta contendo a seguinte mensagem para o filho:
“Obrigado, meu filho, por me permitir manter o meu cargo e por não ter me destronado”.
Ainda duranteoAno dos Quatro Imperadores, havia estourado na Gália uma grave revolta dos auxiliares batavos, liderada porGaius Julius Civilis. Domiciano, embora não tivesse nenhuma experiência militar, tentou liderar a reação contra a rebelião, assumindo o comando de uma legião, mas acabou sendo dissuadido por Muciano.
Entretanto, Tito, o filho mais velho deVespasiano, que conduzia com brilho a guerra contra os judeus, enquanto ainda estava no Oriente foi, em70 D.C, nomeado Cônsul junto com o pai. Em seguida, em 71 D.C, Tito recebeu oPoder Tribunício, no que era um claro sinal de que ele seria o herdeiro e sucessor do pai e afastando qualquer pretensão que Domiciano pudesse ter).
Certamente, com essas medidas, o sábio Vespasiano quis evitar um dos principais fatores de instabilidade nos reinados dos seus antecessores da dinastia dosJúlios-Cláudios: a pouca clareza quanto à sucessão, pela existência de vários pretendentes dinásticos.
Tito também foi nomeado Prefeito da Guarda Pretoriana e, assim, agindo como comandante da guarnição militar da capital e da Guarda de Honra do Imperador, ele foi implacável na vigilância e repressão a potenciais ameaças ao reinado do pai, tendo de fato executado sumariamente vários supostos conspiradores.
Triunfo de Tito, óleo de Sir LawrenceAlma-Tadema 1885, mostrando Vespasiano, seguido por Tito e Domiciano, este de mãos dadas com Domícia Longina, que olha sugestivamente para Tito
Durante o reinadodeVespasiano, Domicianofoi designado seis vezes Cônsul Suffectus (um consulado honorário, menos importante do que o ordinário), mas manteve o título de César, sendo nomeado sacerdote de vários cultos, além de receber o título de “Príncipe da Juventude” (Princeps Juventutis). Mesmo assim, Vespasianosempre deixou evidente que a precedência seria do irmão mais velho.
Contudo, a primazia dada a Tito não quer dizer que Domiciano estivesse sido excluído da sucessão dinástica:Vespasiano tentou casarDomiciano com Júlia Flávia, que era a filha única deTito, e, portanto, sobrinha dele, quando esta era apenas uma criança, mas a iniciativa não teve sucesso porque, naquela época, Domiciano já estava apaixonado por Domícia Longina, filha do famoso general Cneu Domício Corbulão, que tinha se suicidado a mando de Nero por suspeita de haver participado de uma conspiração.
Domícia Longina era filha de Júnia Lépida, tataraneta do imperador Augusto e, portanto, junto com sua irmã, ela era uma das últimas descendentes da dinastia dos Júlios-Cláudios, que fundaram o Império Romano. Domícia era casada com o senador Lucius Aelius Lamia Plautius Aelianus, de quem ela se divorciou para se casar com Domiciano, por volta de 70 D.C.
CARREIRA PÚBLICA E CASAMENTO
Em 23 de junho de 79 D.C, Vespasiano morreu de causas naturais e Tito foi imediatamente aclamado como novo Imperador Romano, com a idade de 39 anos.
Tito não tinha herdeiros do sexo masculino e sua única filha, Júlia Flávia, tinha 14 anos de idade. Ele havia se divorciado, ainda durante o reinado de Nero, de sua esposa Márcia Furnilla.
Durante a Guerra Judaica, Tito se apaixonou pela rainha Berenice, filha de Herodes Agripa, que logo tornou-se sua amante e, depois da guerra, ela foi viver com ele em Roma. Esta era uma união politicamente inviável para Tito, e qualquer filho advindo desta relação estaria obviamente excluído da linha sucessória do trono. Com efeito, devido à pressão da opinião pública, Tito teve que despachar Berenice de volta para o Oriente. Portanto, agora, naquele momento, Domiciano era, de fato, o herdeiro natural do trono imperial.
Os autores antigos mencionam que a relação entre os irmãos Tito e Domiciano era, no mínimo, fria e distante. Isto provavelmente decorria da grande diferença de idade entre eles e do pouco contato que eles devem ter tido, já que, enquanto Domiciano crescia, Tito já tinha entrado no Exército, acompanhando Vespasiano em suas campanhas. Deve-se mencionar, todavia, que o historiador Flávio Josefo relata que, durante a Guerra Judaica, Tito comemorou o aniversário de Domiciano em uma cerimônia pública, em Cesaréia.
Em80 D.C., nasceu o único filho deDomiciano e Domícia Longina, cujo nome, entretanto, não foi preservado.
Em 13 de setembro de 81 D.C, Tito morreu de uma febre súbita, após reinar por apenas dois anos. Consta que as suas últimas palavras teriam sido:
“Cometi somente um erro”.
O real significado da frase derradeira de Tito sempre suscitou muita discussão entre os historiadores. Para alguns, ele se referia ao fato de não ter executado o irmão Domiciano, cujo caráter já há tempos já dava mostras de ser tirânico, ou pelo motivo dele teria conspirado para derrubar Tito, mas não há qualquer evidência de nenhum desses fatos. Alega-se, também, que Tito nunca reconheceu formalmente Domiciano como sucessor e herdeiro, mas vale notar que Domiciano já era o Cônsul designado para o ano de 80 D.C. e talvez as medidas destinadas a lidar com os efeitos da erupção do Vesúvio, ocorrida ainda em 79 D.C., e que consumiram muito do tempo do primeiro ano do reinado de Tito, tenham-no distraído da questão sucessória, ou então, ante à ausência de qualquer outro rival, a posição de Domiciano tenha parecido óbvia (na verdade, o mais provável é que Tito jamais tenha previsto que o seu reinado seria tão curto). No plano das fofocas, também argumentou-se que Tito poderia ter tido um caso com a cunhada, Domícia Longina.
ASCENSÃO AO TRONO E REINADO
Consta que no mesmo dia da morte do irmão,Domiciano correu para o quartel da Guarda Pretoriana, em Roma, onde ele foi aclamado imperador.
No dia seguinte, em 14 de setembro de 81 D.C., o Senado Romano reconheceu Domiciano, conferindo-lhe os títulos de Augusto, Pai da Pátria e Pontifex Maximus, além do Poder Tribunício. Mais do que uma possível demonstração de falta de apreço e de respeito pelo irmão falecido, a conduta de Domiciano de partir imediatamente para o quartel dos pretorianos, ao invés de velar o corpo de Tito, deve ser vista como uma cautela necessária, recomendada pelo histórico das sucessões imperiais.
Desde os primeiros dias de seu reinado, Domiciano mostrou-se um governante interessado por todos os detalhes da administração pública, como poucas vezes se tinha visto na História de Roma: Ele publicou leis detalhadas sobre vários assuntos e seu estilo de governo pode ser descrito como “microgerenciamento”. Ele também comparecia em pessoa às audiências no Tribunal do Fórum Romano, concedidas por ele mesmo aos que apelavam das decisões das Cortes.
Uma das primeiras medidas econômicas de Domiciano foi promover uma valorização do denário, aumentando o seu teor de prata em 12%. Embora , depois de 85 D.C., ele tenha sido obrigado a promover uma pequena desvalorização devido aos gastos com expedições militares e programas de reconstrução, ainda assim, a moeda ainda continuou mais valorizada do que durante o reinado de Vespasiano. Ele também deu especial atenção à taxação dos impostos, aprimorando a cobrança e aumentando as receitas do Estado.
Graças a outra medida de Domiciano, pela primeira vez na História de Roma, foi possível ter alguma previsão dos gastos e receitas futuras, estabelecendo-se uma espécie de orçamento público embrionário.
Devido ao grande incêndio no reinado de Nero, às devastações da guerra civil causadas durante o Ano dos Quatro Imperadores e a um outro incêndio, ocorrido em 80 D.C., Domiciano determinou que se executasse um grande projeto de reconstrução dos monumentos destruídos, incluindo o vetusto Templo de Júpiter Optimus Maximus, no Capitólio (foto abaixo), que foi coberto com um magnífico telhado de bronze dourado. No total, cerca de 50 edifícios importantes seriam reconstruídos ou reparados, caracterizando um recorde entre os imperadores romanos.
Mas novos edifícios também foram erguidos, como o Palácio de Domiciano, parte do complexo palaciano da Domus Flaviae, e o enorme Estádio de Domiciano, onde eram disputados os Jogos Agonais (Agone), e que cujo formato, preservado entre as arquibancadas substituídas por sobrados, daria origem, na Idade Média, à atual Praça Navona (cujo nome vem de “Piazza in Agone“).
Além de reformar a paisagem urbana de Roma, Domiciano, que se revelou um moralista, também pretendeu reformar os costumes romanos, os quais ele julgava degradados. Em 85 D.C., ele se autoproclamou “Censor Perpetuus“, ou seja, censor vitalício, com a atribuição de supervisionar a moral e os bons costumes. Isso incluía velar pela observância dos rituais da religião tradicional de Roma, cuja ortodoxia e pureza ele pretendia restaurar. Assim, Domiciano proibiu a castração de meninos e o comércio de eunucos em todo o Império Romano.
Fontes relatam queDomiciano era particularmente hostil ao Judaísmo e não é à toa que autores cristãos (religião que, para muitos romanos, aparentava ser apenas uma seita judaica), apontam aquele imperador como um dos grandes perseguidores do Cristianismo. Não há, contudo, nas fontes romanas, evidência de nenhuma perseguição oficial à religião cristã. Com relação aos Judeus, contudo, é certo que eles foram alvo de um aumento nas taxas e impostos cobrados.
Domiciano também estabeleceu os Jogos Capitolinos, em homenagem a Minerva, a deusa da sabedoria, que ele considerava ser a sua divindade protetora, e a Júpiter.
Uma medida que causou comoção na época (87 D.C.) foi a ressuscitação da arcaica punição às Virgens Vestais que quebrassem o voto de castidade – a de serem enterradas vivas – o que não ocorria havia séculos, mesmo durante a República.
O imperador também renovou aLex Iulia de Adulteriis Coercendis, que punia com exílio o adultério, e vários senadores foram processados por condutas consideradas imorais, incluindo homossexualismo.
Não obstante, Suetônio registra que, em 83 D.C., a imperatriz Domícia Longina teve um caso com um ator chamado Páris, que, por causa disso, teria sido morto pelo próprio imperador em pessoa.
Como punição, Domícia Longina foi exilada. Neste mesmo ano, também morreria o único filho do casal. Talvez corroído pelo remorso, Domiciano chamou de volta Longina, e os dois voltaram a viver juntos. Ou quem sabe, talvez a morte do menino tenha sido a causa do exílio e o adultério não tenha ocorrido.
O detalhismo da polícia de costumes de Domiciano chegou ao nível de exigência de que os cidadãos romanos usassem togas nos espetáculos públicos, muito embora essa vestimenta tradicional estivesse em desuso, pois era cara para os pobres e desconfortável para todos usarem. A orientação autocrática e moralista do reinado também ficou patente no agravamento da punição aos que escrevessem textos considerados ofensivos ao Imperador e na proibição de sátiras e comédias com teor crítico, chegando à completa proibição da apresentação de Mimes, uma espécie de teatro de comédia vulgar e grosseira, onde frequentemente as figuras públicas eram satirizadas.
No entanto, a corrupção no serviço público foi duramente combatida, havendo muitos casos de punições a juízes acusados de receberem propinas, uma queixa recorrente.
Nas províncias, Domiciano também aprimorou a taxação e majorou impostos, mas, em contrapartida, ele criou o cargo de “Curator” (Curador) para investigar casos de má administração nas cidades do Império. Domiciano também construiu várias estradas na Ásia Menor, Sardenha e Danúbio, e melhorou as instalações defensivas no Norte da África.
No serviço público, Domiciano privilegiou a nomeação de cidadãos da classe dos Equestres, e até mesmo de libertos, para os cargos mais importantes, em detrimento da classe senatorial. Para alguns autores, as más experiências que Domiciano deve ter tido no Senado, durante os eventos que resultaram na morte de seu tio Sabino e também durante os reinados de Vespasiano e Tito, predispuseram o imperador contra os senadores.
Assim, o imperador, seguindo a tendência inaugurada por Cláudio, administrava o Império auxiliado por um conselho privado que frequentemente se reunia na Vila de Domiciano, na cidade de Alba, a cerca de 20 km de Roma (ou seja, para os padrões antigos, a no mínimo uma hora de viagem de Roma, a todo galope ou mais de duas, de carruagem). Esse conselho era composto por amigos (amicii), libertos do imperador e altos funcionários, como os prefeitos urbano e da guarda pretoriana. Domiciano também manteve a política adotada pelo pai e de pelo irmão de reservar o exercício dos consulados majoritariamente para o imperador, seus filhos e parentes.
Criptopórtico, ou passagem subterrânea, da Villa de Domiciano, em Alba
Indubitavelmente, todas as medidas citadas caracterizavam uma guinada para um principado absolutista e centralizador. E tudo isso se coadunava com uma ênfase na sacralização da figura do monarca. Não é a toa de que uma das maiores críticas dos autores antigos é a mencionada predileção por parte de Domiciano do tratamento de “Dominus et Deos” (“Senhor e Deus”), o qual, contudo, até onde se averiguou, jamais constou de documentos oficiais.
Estátua de bronze dourado de Domiciano, retratado como Hércules
Como era de se esperar, essa forma de governar adotada por Domiciano em nada contribuiu para melhorar as relações do imperador com o Senado Romano. Os reinados de Tibério, Calígula e Nero, sem falar nos eventos que levaram ao assassinato de Júlio César, tinham já mostrado que os senadores viam a si mesmos como uma classe que tinha direito manifesto a prerrogativas, poderes, cargos e influência no Estado, cuja preterição gerava atritos entre o imperador e o Senado. Augusto havia entendido isso o suficiente para criar um sistema em que, ainda que de forma condescendente e não equânime, uma parcela do poder do Estado Romano era dividida entre o Imperador e o Senado, que continuou intitulado a governar certas Províncias, a poder ocupar as mais altas magistraturas e, não menos importante, a ser merecedor de tratamento deferente pelo Príncipe (“Princeps” –título que, sintomaticamente, tem em sua origem o significado de “primeiro senador”).
Com efeito, em várias passagens dos livros de história podemos inferir que, para os senadores, tão importantes quanto o poder de fato eram a deferência e as honrarias…E a personalidade arredia de Domiciano tornou as relações com o trono mais difíceis…Ele, segundo as fontes, gostava da solidão, possivelmente um traço adquirido pelo afastamento de seus pais na infância.
Há uma anedota, contada por Suetônio, de que, durante o tempo em que Domiciano passava trancado em seu gabinete, nos intervalos de trabalho, ele se distraía capturando moscas e traspassando-as com um fino estilete. Então, jocosamente, quando alguém chegava para despachar e perguntava se havia alguém com o Imperador, os porteiros respondiam:
“Nem uma mosca…“
As fontes descrevem Domiciano como sendo frio, distante, arrogante e, por vezes, insolente e cruel. Esses traços, somados às medidas autocráticas, desgastaram as relações com o Senado e, certamente, não lhe granjearam amizades nesta assembleia. Vale notar que: medidas como a punição dos maus administradores e juízes, o afastamento de homossexuais do Senado, e a execução das Virgens Vestais que violavam a sua castidade, atingiam, precipuamente, os membros da elite senatorial. Entretanto, nos oito primeiros anos do reinado de Domiciano aparentemente não houve conspirações…
Enquanto isso, Domiciano dedicou muita atenção à política exterior e aos assuntos militares e ele aumentou o pagamento do soldo dos militares de 300 para 400 denários.
Em 82 D.C., as legiões sob o comando de Cneu Júlio Agrícola derrotaram as tribos no norte da Britânia, chegando até a costa oposta à Irlanda. Há quem sustente que os romanos chegaram até a fazer uma expedição na referida ilha. Posteriormente, no verão de 84 D.C., Agrícola derrotou os Caledônios,, os quais se refugiaram nas Terras Altas da atual Escócia (Highlands). Depois, em 85 D.C., apesar do sucesso desta campanha, Agrícola foi chamado de volta à Roma.
Segundo o historiador Tácito, que era genro de Agrícola e escreveu uma obra sobre a vida do sogro, o motivo do retorno foi o ciúme de Domiciano de que as conquistas de Agrícola ofuscassem o duvidoso triunfo que Domiciano tinha celebrado pela vitória contra a tribo germânica dos Catos, que tinham atacado a Gália.
Porém, mesmo que Domiciano tivesse a intenção de promover uma grande campanha contra os Catos, visando obter uma vitória completa, a mesma foi por água abaixo devido a invasão da Província da Moésia pelos Dácios, em 85 D.C. os quais chegaram a matar o governador romano da província.
A campanha contra os Dácios, que no início chegou a contar com a presença de Domiciano, terminou com a vitória parcial dos romanos, comandados por Cornélio Fusco, em 86 D.C. Porém, pouco tempo depois, os Dácios novamente voltaram a atacar os romanos, ocasião em que a Legião V, comandada por Fusco, foi destruída, morrendo seu comandante. Os Dácios, posteriormente, foram derrotados pelo general Tettius Julianus (Segunda Guerra Contra os Dácios), sem que, contudo, a capital dácia, Sarmizegetusa, fosse tomada.
Provavelmente devido à crescente pressão na fronteira do Danúbio, devido a guerra contra os Dácios e incursões dos Suevos e Sármatas, somada à agressão dos Catos, Domiciano foi obrigado a ordenar uma retirada total das tropas romanas na Caledônia, recuando a fronteira romana uns 120 km para o sul da ilha da Grã-Bretanha.
O fato é que o Exército Romano não podia mais se dar ao luxo de luxo de se comprometer em uma guerra em dois fronts, sendo que a relação custo-benefício de manter a Caledônia não justificava a manutenção daquele território.
E Domiciano, realmente, deve ter avaliado que a situação estratégica no momento também não recomendava o comprometimento total do exército com uma campanha no Danúbio, pois, logo após a cessação dos combates contra os Dácios ele assinou com eles um tratado de paz no qual Roma concordava em pagar ao rei Decébalo um subsídio anual de oito milhões de sestércios, uma concessão que foi muito criticada pelos autores antigos.
Desse modo, os Dácios somente seriam conquistados pelos romanos em 106 D.C., pelo imperador Trajano, em uma campanha que de fato revelou-se duríssima.
CONSPIRAÇÃO CONTRA DOMICIANO
Como tantas vezes se veria na História do Império Romano, a combinação de insucessos militares com a impopularidade de um imperador entre os Senadores teve como resultado uma conspiração para assassinar o monarca. Assim, no início do ano de 89 D.C., o general Lúcio Antônio Saturnino, um senador que comandava duas legiões na Germânia Superior, foi proclamado imperador pelas suas tropas, na cidade de Moguntiacum (atual Mainz, na Alemanha).
Saturnino, muito provavelmente, fazia parte de um grupo de senadores insatisfeitos com o reinado de Domiciano. Ele esperava que o governador da Germânia Inferior, o também senador Aulus Lappius Maximus, se juntasse à rebelião, mas este comandante se manteve fiel ao imperador. Para piorar, os esperados reforços de tribos aliadas germânicas foram impedidos de cruzar o rio Reno devido a uma cheia.
Assim, as tropas rebeldes acabaram sendo derrotadas pelos soldados leais ao imperador na Batalha de Castellum, e Saturnino foi executado. Note-se que a conduta de Aulus Lappius de queimar as cartas apreendida em poder de Saturnino é um forte indício de que havia outros senadores envolvidos na trama, em Roma.
Todavia, a revolta de Saturnino exacerbou os já existentes traços de paranoia que já estavam sendo notados em Domiciano. De fato, embora possa ter havido algumas execuções de senadores anteriores a 89 D.C, considera-se que o “reinado de terror” atribuído a Domiciano efetivamente começou após à referida conspiração.
No ano seguinte, Domiciano dividiu o consulado com o veterano senador Marco Cocceio Nerva (o futuro imperador Nerva), um jurista que, mais de vinte anos antes, havia ajudado Nero a desbaratar a chamada Conspiração Pisoniana.
No chamado “reinado de terror” de Domiciano, cerca de onze senadores foram executados, por motivos variados. Para se ter uma comparação, o imperador Cláudio executou 35 senadores durante o seu reinado, e, mesmo assim, ele foi deificado pelo Senado após a sua morte. E o imperador Adriano, logo no primeiro ano de seu reinado, executou quatro, mas os historiadores não se referem a tais execuções como um período de “terror”..
A propósito, consta que Domiciano, certa vez, teria dito:
“Os imperadores são a gente mais desafortunada, pois, quando eles descobrem uma conspiração, ninguém lhes dá crédito, a não ser que eles sejam assassinados…”.
Mas o motivo alegado para essas execuções dos senadores nem sempre foi o envolvimento deles com conspirações: No caso do primo de Domiciano, Tito Flávio Clemente, um ex-Cônsul, a acusação era de sacrilégio contra a religião romana. Os historiadores acreditam que Clemente se converteu ao Judaísmo ou ao Cristianismo. Devido a essa acusação, a esposa dele, Flávia Domitila, que era sobrinha de Domiciano, foi banida para uma ilha remota. Essa Flávia Domitila, de quem já falamos acima, era filha da irmã de Domiciano e é mencionada na História Eclesiástica, do bispo cristão Eusébio de Cesaréia, escrita no século IV D.C., como sendo uma mártir cristã que morreu no exílio na ilha de PonzaI e filha da irmã do cônsul Flávio Clemente.
Curiosidade: Há quem associe Tito Flávio Clemente com o Papa Clemente,que depois passou a ser venerado como São Clemente pela Igreja Católica. De fato, uma inscrição teria sido encontrada, durante o Renascimento, nos subterrâneos da Basílica de São Clemente, em Roma, contendo a inscrição “T. Flavius Clemens, vir consularis”. Assim, 60 anos após a execução de Jesus Cristo e o início da pregação pelos seus apóstolos, a nascente religião já teria, ao menos, alguns adeptos nas mais altas esferas da sociedade romana.
Entrada lateral da Basílica de São Clemente, em Roma
ASSASSINATO DE DOMICIANO
Em 96 D.C., até os auxiliares mais próximos de Domiciano estavam apreensivos com o comportamento cada vez mais paranoico do imperador. E a insatisfação do Senado atingiu o limite e, assim, tudo estava pronto para uma nova conspiração com o objetivo de libertar Roma daquele que eles consideravam ser um odiado tirano.
Com efeito, Domiciano tinha mandado executar seu camareiro, Epafrodito e o substituto deste, Partênio, prevendo que não demoraria muito para que ele sofresse o mesmo destino, contactou um liberto do imperador, Maximus, e Stephanus, que era o secretário pessoal da imperatriz Flávia Domitila,
Já premeditando a execução do assassinato, Stephanus tinha simulado um ferimento no braço dias antes, com o objetivo de poder esconder embaixo da atadura uma adaga. Para ter um motivo para ser recebido, Stephanus fez chegar ao imperador a informação de que ele tinha descoberto uma trama para assassinar Domiciano, e lhe traria as provas.
Assim, quando Stephanus foi admitido no quarto do imperador, ele aproveitou o momento em que Domiciano estava distraído, lendo o documento que provaria a suposta conspiração, e cravou a adaga na virilha dele. Mesmo ferido, Domiciano conseguiu escapar e apanhar uma adaga. Seguiu-se uma luta feroz, em queStephanus e Domiciano rolaram pelo chão do aposento. Então, no meio do combate, Stephanus foi ajudado porMaximuse por Satur, um colega do camareiro Partênio, que tinham lhe acompanhado ao quarto imperial. Após levar sete golpes de adaga, Domiciano faleceu, mas não sem antes levar consigo o próprio Stephanus, que também havia sido golpeado pelo imperador.
Domiciano tinha 44 anos de idade quando morreu.
EPÍLOGO
O Senado Romano imediatamente aclamou o velho senador Marco Cocceio Nerva como imperador, que, por já ser bem idoso e não ter filhos, parecia o candidato mais capaz de ser aceito por todas as facções senatorias e, principalmente, pelo Exército. Aliás, é bem provável que esta solução já fosse apoiada pelos generais mais influentes, entre os quais se destacava Públio Élio Trajano.
O Senado também decretou que a memória de Domiciano devia ser banida (procedimento conhecido como “damnatio memoriae” e que implicava em apagar inscrições, destruir estátuas e qualquer referência oficial ao nome do imperador).
O cadáver de Domiciano foi levado embora do seu palácio e cremado por iniciativa de sua ex-babáPhyllis, que, tudo indica, nunca se afastou de Domiciano. As cinzas dele foram depositadas no Templo dos Flávios, situado na colina do Quirinal, em Roma.
Os historiadores modernos tendem a favorecer uma revisão do reinado de Domiciano, que foi um governante aplicado e que adotou várias medidas racionais. A imagem negativa dele hoje é considerada por muitos como fruto da antipatia do Senado Romano, valendo observar que os historiadores romanos que escreveram sobre Domiciano, tais como Suetônio, Tácito e Dião Cássio, ou eram todos senadores, como os dois últimos, ou auxiliares próximos à dinastia que sucedeu Domiciano, como é o caso de Suetônio.
O texto desses historiadores da classe senatorial costuma dividir os imperadores romanos entre “Bons” e “Maus“, sendo que, invariavelmente, os “Bons” são aqueles que mantiveram relações amistosas com o Senado Romano. Já os ‘Maus” são todos aqueles que desrespeitaram as prerrogativas dos senadores ou perseguiram os seus integrantes. Ironicamente, Tácito e Suetônio foram homens que começaram a sua carreira pública no reinado de Domiciano, mas que escreveram as suas histórias no reinado do sucessor de Nerva, o muito apreciado Trajano.
Assim, a nova dinastia tinha todo o interesse em se legitimar comparando-se com uma imagem necessariamente negativa do reinado de Domiciano, e para isso, ela contou com a pena solícita dos historiadores da classe senatorial.
Entretanto, o estudo do reinado de Trajano, considerado o “Melhor dos Príncipes” (Optimus Princeps) pelo Senado, nos mostra, que, em diversos setores, ele deu continuidade a muitas das iniciativas de Domiciano…
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