VALENTINIANO II

VALENTINIANO II

Em 15 de maio do ano de 392 D.C na cidade de Vienne, capital provincial da Prefeitura Pretoriana da Gália, os camareiros da residência imperial ocupavam-se como os preparativos para o desjejum matinal e para a “cura corporis” do Imperador (cuidados de asseio e higiene pessoal) quando escutaram um grito aterrorizado, vindo do “sacrum cubiculum” (como era chamado o aposento particular do imperador). Em seguida, uma escrava saiu correndo de lá, chorando copiosamente. O camareiro-mor, temendo que o alarido despertasse o Imperador, correu para o quarto e estranhou que não estavam à soleira da porta nenhum dos “scutarii”, que serviam como guarda-costas do imperador…

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(Templo de Augusto e Lívia, na cidade de Vienne, foto de Troyeseffigy )

Após relutar um pouco, o camareiro-chefe abriu a porta e ficou petrificado. De uma arquitrave no teto pendia o corpo enforcado de um jovem vestido em deslumbrante traje de seda púrpura com fios de ouro. Era Valentiniano II,  o Imperador Romano do Ocidente.

Flávio Valentiniano (Flavius Valentinianus) nasceu em 371 D.C, filho do imperador do Ocidente, Valentiniano I, e da imperatriz Justina, a segunda mulher do imperador, que também teve com este outras três filhas: Galla, Grata e Justa. Valentiniano I já tinha um filho, Graciano, nascido em 359 D.C., de seu primeiro casamento com Marina Severa. Graciano foi preparado para suceder Valentiniano I,  tendo acompanhado, ainda criança, o seu pai em diversas batalhas e sendo, proclamado, em 367 D.C, com apenas 8 anos de idade, Augusto, ou seja, co-imperador.

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Em 375 D.C, Valentiniano I, considerado por muitos o último grande imperador romano, faleceu após mais um dos seus temidos ataques de fúria, nesse caso causada pelo comportamento insolente de embaixadores da tribo dos Quados. que lhe causou um derrame em plena audiência. Enquanto isso, o imperador Valente, irmão de Valentiniano, reinava, na metade oriental do Império, em Constantinopla.

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O súbito falecimento do grande e temido Valentiniano I deixou um vácuo de poder e causou uma crise ligada à sucessão do imperador falecido, pois os senadores romanos e os generais do Ocidente provavelmente não confiavam nas virtudes militares de Graciano.

Com efeito, a História mostraria que os generais e políticos ocidentais tinham certa razão para não terem confiança em Graciano. Ele demonstrou fraqueza com relação à disciplina das tropas, chegando a concordar com uma petição em que os soldados pediam para serem dispensados de usarem armadura (tal fato, aliás, provavelmente denota que o grosso das tropas eram compostas já por soldados de origem germânica). Graciano também mostrava-se muito propenso a intervir nos conflitos religiosos em favor da ortodoxia católica, o que desagradava núcleos adeptos do cristianismo herético ariano e, sobretudo, a rica e influente facção pagã do Senado de Roma, a antiga capital, que continuava a ter muita influência política.

Assim, alguns generais do exército romano, notadamente o general de origem franca Merobaudes, aclamaram como imperador o menino Valentiniano II, com apenas 4 anos de idade, forçando Graciano, então com 16 anos de idade, a aceitar o irmão caçula como co-imperador do Ocidente (inaugurando, dessa forma, a tendência que dominaria as últimas décadas do império romano: a escolha de imperadores fantoches por comandantes militares de origem bárbara). Graciano efetivamente controlava a Gália, a Hispânia e a Britânia, enquanto que a Itália, a Iliria e a África ficaram subordinadas a Valentiniano II.

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Todavia, em 378 D.C, uma das maiores catástrofes militares sofridas pelos romanos, veio sacudir esse precário arranjo da situação: Cerca de 200 mil Godos, após cruzarem a fronteira romana do rio Danúbio, procurando asilo motivado pela sucessão de migrações causadas pelo avanço das tribos hunas em direção ao Ocidente, acabaram se revoltando, invadindo a província romana da Trácia.

Ao saber da invasão, Valente, o Imperador Romano do Oriente, comandando todo o seu exército e sem esperar pelo auxílio das tropas ocidentais de seu sobrinho Graciano, resolveu atacar sozinho os bárbaros, mas foi fragorosamente derrotado, na chamada Batalha de Adrianópolis, onde dois terços do exército romano, cerca de 40 mil soldados, morreram, incluindo o próprio imperador Valente, cujo corpo jamais foi encontrado em meio à montanha de cadáveres.

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A morte de Valente  tornaria seu sobrinho Graciano, que já era o Imperador Romano do Ocidente, juntamente com seu meio-irmão Valentiniano II, de apenas 7 anos de idade (que governa nominalmente a Itália, d África e parte da Ilíria), automaticamente também Imperador do Oriente.

Contudo, com os Godos à vontade para se locomoverem nos Bálcãs ( o que ameaçava a própria Itália), não dispondo de outras opções militares, tendo em vista que mal acabara de concluir uma campanha contra os Alamanos, poucos meses antes do desastre de Adrianópolis, e também pelo fato de não haver mais generais experientes no Oriente, Graciano resolveu chamar o respeitado general espanhol Flávio Teodósio(Teodósio I)de seu retiro na Espanha e, em um raro gesto de desprendimento, nascido, é verdade, da necessidade, nomeou-o Augusto, em 19 de janeiro de 379 D.C, entregando-lhe o trono da metade oriental do Império Romano.

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Entretanto, em 25 de agosto de 383 D.C, Graciano foi assassinado em Lyon, para onde teve que fugir após não conseguir debelar a revolta do general da Britânia, Magnus Maximus, um militar também de origem espanhola que havia servido como subordinado do Conde Teodósio, pai do imperador Teodósio I, e invadira a Gália para depor o imperador, supostamente devido ao fato das tropas estarem insatisfeitas com a preferência que Graciano dava às tropas compostas por bárbaros alanos.

Valentiniano II, que, como vimos, por influência dos generais francos, havia sido reconhecido por Graciano como co-imperador, seria o próximo alvo de Maximus. Teodósio I, então, pressionado pelas circunstâncias, acabou concordando em reconhecer Maximus como o novo imperador nas províncias governadas por Graciano, sob o compromisso de que Maximus, por sua vez, reconheceria Valentiniano II como co-imperador no Ocidente.

Esse acerto durou até 387 D.C, quando Maximusresolveu invadir a Itália para derrubar Valentiniano II e assumir ele mesmo o controle total do Ocidente. Um dos motivos principais foi a crescente influência de Teodósio nos assuntos da corte de Valentiniano II. Assim, o jovem imperador, acompanhado da mãe, resolveu fugir para Tessalônica, na parte oriental governada por Teodósio. Este resolveu intervir e, após combinar o seu exército com as forças remanescentes de Valentiniano II, comandados pelo general de origam franca, Flávio Arbogaste, bem como com as de seus aliados Visigodos e mercenários Hunos, conseguiu derrotar Maximusna Batalha de Siscia, no rio Sava, na atual Croácia, em 388 D.C.. Maximus conseguiu fugir, mas foi capturado e executado próximo a Aquileia.

Portanto, na prática, ainda que não de direito, Teodósio I tornou-se o virtual imperador de todo o Império Romano.

Considerando que Valentiniano II, na ocasião, somente tinha dezessete anos, Teodósio ainda ficou três anos na Itália, organizando o Império do Ocidente, somente voltando para Constantinopla em 391 D.C.  Embora, oficialmente, o novo imperador único do Ocidente passasse a ser Valentiniano II, contudo, o real poder no Ocidente estava nas mãos do general franco Flávio Arbogaste, que ocupava o cargo de Comandante-em-chefe da Infantaria (Magister Peditum Praesentalis).

Com efeito, durante todos esses eventos, Valentiniano II sempre havia sido um imperador-fantoche: Primeiro, na Ilíria, sob a proteção de Graciano, e, depois, nas mãos de sua mãe Justina, em Milão, a capital do Império do Ocidente, onde viveu por doze anos, até ter que fugir para Tessalônica.

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Nesses anos em Milão, Justina tornou-se a virtual regente do Império Romano do Ocidente. Ela era adepta do cristianismo segundo a doutrina do bispo Ário (Para os cristão “arianos”, Jesus Cristo, o Filho de Deus, era subordinado ao Pai, e, portanto, esse credo negava o dogma da “Santíssima Trindade”. Para os católicos, isto somente poderia ser uma heresia).

Para azar de Justina, a figura mais influente em Milão naquela época era o Bispo da cidade, Ambrósio, um homem carismático e eloquente, de personalidade forte e muito bem relacionado, pois antes de ser bispo, havia sido governador da Província. Ambrósio era inimigo implacável de tudo que se opusesse à ortodoxia do credo niceno-trinitário, fosse o paganismo ou as heresias cristãs.

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Ambrósio, apenas com a sua determinação e força de seus sermões, já havia conseguido persuadir Graciano a retirar o quase ancestral altar da deusa Vitória da Cúria do Senado, em Roma, sob protestos dos senadores pagãos. Quando estes apelaram a Valentiniano II para que o altar fosse restaurado, Ambrósio convenceu o jovem imperador a negar o pedido. Ele também conseguira exonerar os bispos arianos no Concílio de Aquileia, e nem o poderoso Teodósio escapou de sua influência, sentindo-se obrigado a tomar uma série de medidas contra os pagãos, incluindo a proibição de sacrifícios.

Quando Justina tentou, entre 385 e 386 D.C, que uma basílica fosse consagrada ao culto ariano, Ambrósio ocupou o edifício com uma milícia de cristãos-ortodoxos,  que lá se entrincheiraram, protegidos por barricadas, forçando a imperatriz-viúva a desistir da ideia.

Porém, uma das iniciativas de Justina que teve sucesso foi o casamento da sua bela filha Galla, irmã de Valentiniano II, com Teodósio.

Após o usurpador Maximus ser derrotado, Valentiniano II foi residir em Vienne, capital provincial da Gália. Justina havia recém-falecido e os seus ministros foram nomeados por Teodósio, que também nomeou o poderoso general Arbogaste para o cargo de Magister Peditum Praesentalis.

Valentiniano, agora já em seus vinte anos de idade, começou a se ressentir do fato de ser apenas uma figura decorativa, totalmente dominada por Arbogaste. Para se ter um ideia dessa situação, em um episódio sintomático, certa vez Arbogaste matou, na presença do próprio imperador, um amigo deste, Harmonius, que havia sido acusado de corrupção.

O fato é que a única coisa que impedia Arbogaste de se apropriar do trono e coroar-se a si mesmo era a sua origem bárbara. Apesar da proeminência dos bárbaros no exército, era inadmissível para a sociedade romana que um germânico se tornasse imperador. Era uma realidade tão evidente que, mesmo na fase terminal do Império, nenhum general bárbaro jamais reivindicou o trono para si. O próprio Odoacro, quando destronou o último imperador romano do Ocidente, Rômulo Augusto, não ousou nomear-se Imperador Romano, mas, apenas Rex (Rei) da Itália, devolvendo as insígnias imperiais do Império do Ocidente à Constantinopla.

Valentiniano II tentou se libertar do jugo de Arbogaste, escrevendo cartas secretas a Teodósio, pedindo auxílio. E também buscou o apoio de Ambrósio, inclusive manifestando o desejo de ser batizado pelo Bispo segundo os rituais do Credo Niceno.

A tensão entre Valentiniano II e o seu general aumentou quando o primeiro resolveu demitir Arbogaste do cargo de Marechal da Infantaria do Ocidente. Consta que ao receber do imperador a ordem escrita, Arbogaste foi à presença de Valentiniano e lhe disse, em pessoa: “Não foi você quem me deu o meu comando e não é você quem pode tirá-lo de mim”, após o que, jogou a carta no chão, deu as costas e foi embora!

Segundo Philostorgius, um historiador da igreja de Constantinopla, Valentiniano, como último recurso desesperado, tentou pessoalmente matar Arbogaste, apoderando-se de uma espada de um dos seus guarda-costas,  mas acabou sendo impedido pelo mesmo.

Pouco depois desse incidente, Valentiniano II foi encontrado morto em seus aposentos imperiais. Ele morreu com apenas 21 anos de idade.

Não há, contudo, certeza absoluta de que Valentiniano II tenha sido assassinado. Rufino de Aquileia, um historiador mais próximo dos fatos, tanto temporalmente como espacialmente, escreveu que “ninguém pode estar certo do que aconteceu com o imperador”. Já o historiador Zózimo e outros, consideram que Valentiniano II foi assassinado a mando de Arbogaste. Alguns historiadores modernos acreditam que a causa da morte dele foi suicídio, decorrente do quadro depressivo que Valentiniano II deveria estar enfrentando pela reiterada insolência de Arbogaste e por sua submissão ao general. Ambrósio, em sua eulogia ao imperador, não aborda o assunto, até porque se ele mencionasse o suicídio, isso teria sido um grave pecado de Valentiniano, à luz da doutrina católica.

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O fato é que Arbogaste conseguiu fazer o Senado Romano nomear o inexpressivo Eugênio, um político pouco influente e ex-professor de retórica, como Imperador do Ocidente, o que foi inicialmente reconhecido por Teodósio.

Porém, Eugênio e Arbogaste aproximaram-se da facção pagã do Senado Romano, autorizando, inclusive, a reabertura dos templos e a celebração de rituais pagãos em Roma, culminando com a restauração do Altar da Vitória na Cúria, o que enfureceu Ambrósio e deixou Teodósio em uma posição politicamente difícil na ortodoxa Constantinopla.

Assim, em 393 D.C, Teodósio elevou o seu próprio filho Honório à posição de Augusto no Ocidente, reconhecendo-o como Imperador, o que obviamente significou o seu rompimento definitivo com Arbogaste e Eugênio.

Em 394 D.C, Arbogaste e Eugênio, liderando tropas que lutavam sob a proteção de estandartes adornados com imagens de deuses pagãos, foram derrotados por Teodósio, na sangrenta Batalha do Rio Frígido. Após essa vitória, Teodósio I se tornou o último imperador a reinar sobre as duas metades do Império.

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GLICÉRIO – O ANTEPENÚLTIMO IMPERADOR ROMANO DO OCIDENTE

Glicerio_-_MNR_Palazzo_Massimo.jpg(moeda de Glicério, foto de TcfkaPanairjdde)

Em 3 de março de 473 D.C., em Ravena, Itália,  Flavius Glycerius (Glicério) foi escolhido como novo Imperador Romano do Ocidente, pelas tropas comandadas por Gundobado, o Burgúndio, que sucedera seu tio Ricimero na condição de Patrício (um título que no final do Império era dado ao comandante militar supremo do exército romano, ou Magister Militum, normalmente um chefe bárbaro germânico).

Glicério, quando de sua ascensão ao trono, ocupava o cargo de Comes Domesticorum (Conde dos Domésticos), ou seja, comandava o regimento de guardas imperiais do Palácio de Ravena. E antes deste posto, as fontes citam que Glicério ocupou um comando militar na Dalmácia.

As fontes nada mencionam sobre a origem de Glicério, mas, certamente, ele devia ser um cidadão romano e sem antepassados bárbaros recentes, pois,  para ser considerado um candidato aceitável para o Senado Romano e para a população italiana, era necessário ter este pedigree.

Com efeito, apesar de Ricimero  ser a eminência parda do Império do Ocidente desde 456 D.C. e o responsável pelas nomeações dos imperadores Majoriano, Líbio Severo e Olíbrio, ele mesmo jamais se atreveu a assumir o trono, uma vez que Ricimero era filho de Rechila, o rei dos Suevos, na Galícia e norte do atual Portugal e neto, por parte de mãe, de Wallia, rei dos Visigodos. E se Ricimero,  mesmo depois de quase vinte anos de poder, não foi um pretendente viável ao trono, muito menos o seria seu sucessor e sobrinho, Gundobado.

Contudo, apesar de ser um efetivo criador de imperadores, Ricimero preferiu não se opor à indicação de Antêmio (467/472 D.C.), feita pelo pelo Imperador Romano do Oriente, Leão I, para ser o novo imperador do Ocidente, devido ao fato de que Ricimero precisava do apoio de Constantinopla para contrabalançar a influência de Geiserico, rei dos Vândalos. Como retribuição à sua boa vontade e provável compensação, Ricimero recebeu a mão de Alypia, a filha de Antêmio, em casamento.

Como imperador, Antêmio procurou atacar os dois maiores problemas que ameaçavam a sobrevivência do Império do Ocidente:  a) a ocupação dos Vândalos na África, governados pelo astuto e competente rei Geiserico, que fazia incursões na Itália (entre as quais o Grande Saque de Roma, em 455 D.C) e no Mediterrâneo e intervinha constantemente nos assuntos do governo e, b) a expansão dos Visigodos  na Gália.

E, mais importante, Antêmio contava com o apoio de Leão I, o novo Imperador Romano do Oriente, que também estava comprometido com uma estratégia de enfraquecimento do poder dos bárbaros e, como visto, mostrava-se interessado nos assuntos ocidentais. Sem a participação de Constantinopla, contudo, nenhum plano nesse sentido seria possível, porque seus recursos materiais e humanos eram muitos superiores aos disponíveis ao imperador ocidental.

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Com efeito, o fato é que, após a perda da África, em  sua maior fonte de grãos, em 435 D.C., e de boa parte da Gália, a sua província mais rica, o Império do Ocidente mal tinha recursos para pagar o seu exército composto, majoritariamente, de mercenários bárbaros e tribos germânicas servindo como foederati.

Porém, a grande expedição conjunta contra Cartago, a capital dos Vândalos na África, em 468 D.C., foi um retumbante fracasso. E Antêmio não teve mais sorte contra os Visigodos, que derrotaram as tropas ocidentais próximo a Arles, inclusive matando seu filho, Anthemiolus.

Esses insucessos tornaram Antêmio muito mais dependente de seu general Ricimer, que, ostensivamente, já se mexia para colocar um novo fantoche no trono ocidental.

O estopim para  o conflito aberto entre Antêmio e o seu comandante-em-chefe Ricimer foi a execução do senador Romanus, amigo próximo e aliado do general bárbaro, acusado de conspiração, o que levou Ricimer a abandonar Roma acompanhado de 6 mil  guerreiros, em direção a Milão.

O bispo de Pavia intermediou uma trégua entre Antêmio e Ricimer que durou um ano. Quando as hostilidades recomeçaram, Antêmio julgou mais seguro ir se refugiar na Basílica de São Pedro, no Vaticano, que, desde o reinado de Constantino I era a sede do Bispado de Roma.

Leão I, preocupado com a crise, resolveu mandar à Roma o senador Olíbrio, que se encontrava em Constantinopla para intermediar um novo acordo entre os adversários, além de um emissário levando uma carta para Antêmio.

Segundo uma das fontes, porém, a verdadeira intenção de Leão I era se livrar de Olíbrio, já que este era suspeito de ser aliado de Geiserico, o rei dos Vândalos, que por duas vezes já tinha patrocinado a candidatura dele ao trono.

Contudo, os soldados de Ricimer controlavam o Porto de Roma e a carta do imperador foi interceptada. Ao ser aberta a carta, uma surpresa: Leão I dava instruções a Antêmio para executar Olíbrio assim que este chegasse à Roma.

Em abril de 472 D.C. (data provável), Ricimer proclamou Olíbrio como novo imperador do Ocidente. Porém, os nobres e a população de Roma ficaram do lado de Antêmio.

Seguiram-se cinco meses de combates urbanos nas ruas de Roma, com Antêmio e seus partidários entrincheirados no Palatino. Porém, quando Ricimer conseguiu  cortar a rota entre o Palácio e o Porto fluvial do Tibre, interrompendo o abastecimento de víveres, Antêmio foi obrigado a ir se refugiar novamente na Basílica de São Pedro (outra fonte menciona a Igreja de Santa Maria in Trastevere). Vale citar que, entre as tropas comandadas por Ricimer, estava Odoacro, chefe da tribo dos Scirii.

Em uma última tentativa desesperada, durante o conflito, Antêmio enviou um pedido de ajuda às tropas da Gália, também compostas de mercenários germânicos, sendo que Ricimer havia feito, concomitantemente, idêntica solicitação.

Ocorre que o primeiro a atender o pedido foi Gundobado, o sobrinho de Ricimer, que ocupava o cargo de Magister Militum per Gallias. O provável substituto de Gundobado, Bilimer, também veio em socorro de Antêmio, mas foi derrotado e morto nas proximidades de Roma.

Derrotado e sem reforços, Antêmio tentou fugir disfarçado de mendigo, mas foi decapitado por Gundobado, que não deu a mínima para o fato do imperador estar refugiado em uma igreja.

basilica são pedro 21.jpg(Antiga basílica de São Pedro,no Vaticano, construída pelo imperador Constantino, o Grande. Ela durou até a atual ser construída, no século XVI).

Assim, Olíbrio assumiu o trono, mas, novamente, quem governava de fato era Ricimer, secundado por Gundobado. O novo imperador era integrante de uma das famílias senatoriais mais ilustres e mais ricas do Baixo Império Romano, os Anícios, mas isso não lhe seria de muita serventia, pois o que contava agora era a capacidade de controlar tropas e recursos e isso ele não tinha. Para piorar, como não é de surpreender, ele não foi reconhecido pelo imperador do Oriente, Leão I, o único capaz de oferecer algum auxílio.

Uns 30 ou 40 dias após a ascensão de Olíbrio ao trono, Ricimer morreu, aparentemente de causas naturais, sendo sucedido por Gundobado, agora o novo Patrício.

O reinado de Olíbrio seria curto e insignificante. Não havia nada que ele pudesse fazer para reverter a situação terminal do Império do Ocidente, se é que ele tinha alguma disposição de tentar, assim, não espanta que os esparsos indícios de suas ações relacionem-se com a religião cristã.  Em outubro ou novembro de 472 D.C., Olíbrio morreu de alguma doença cujo sintoma era hidropsia.

Com a morte de Olíbrio, Gundobado tinha 3 alternativas: a) colocar um sucessor no trono ocidental; b) oferecer o trono ocidental a Leão I, que, afinal, ainda que apenas formalmente, tinha legitimidade para reunificar o Império Romano; ou c) proclamar-se ele mesmo o novo imperador romano.

Gundobado, como vimos, jamais seria um imperador aceito pela aristocracia senatorial romana. Esta podia não ter nenhum poder militar, mas o fato é que os senadores do Ocidente tinham, em regra, uma fortuna descomunal, proveniente de séculos de acumulação de patrimônio, e, além disso, a administração pública ocidental não conseguiria funcionar sem o concurso da classe senatorial.

Ironicamente, reunificar o Império também era uma opção indesejada pela aristocracia ocidental. Os senadores ocidentais gozavam de  privilégios e isenções muito maiores do que os seus colegas em Constantinopla, onde a autoridade do imperador era exercida de modo muito mais intenso e abrangente.

Assim, Gundobado optou por agir de modo convencional e escolher mais um fantoche para o trono do Império Romano do Ocidente. E, naquele  03 de março de 473 D.C. (uma fonte menciona o dia 05), o escolhido foi Glicério, que, além de ser aceitável para o Senado, como já mencionamos, era, ao menos tecnicamente, até aquele momento, um subordinado do Magister Militum,  ou seja, do próprio Gundobado.

Glicério e Gundobado, de início, tentaram ser conciliadores com Leão I, como foi demonstrado pelo fato de Glicério não haver escolhido, como era de seu direito, o segundo Cônsul para o ano de 474 D.C, deixando que o neto de Leão I, que era ainda uma criança pequena, servisse como único cônsul para aquele ano.

Mesmo assim, Leão I, que em breve morreria, em janeiro de 474 D.C., não reconheceu a escolha de Glicério como imperador pelo Senado Romano, designando Julius Nepos, o comandante do exército oriental na Dalmácia e parente da imperatriz Verina, como seu candidato ao trono do Ocidente, encarregando-o de uma expedição para depor Glicério. Com a morte de Leão I, seu neto, Leão II assumiu o Império Romano do Oriente, o qual  nomeou, como co-imperador, o próprio pai, e, então, o verdadeiro homem-forte em Constantinopla, Zenão I.

Ainda tentando ser reconhecido pelos colegas orientais, Glicério chegou a cunhar moedas com as efígies de Leão II e Zenão I, mas a corte de Constantinopla se manteve inflexível em considerá-lo apenas um usurpador.

A situação do Ocidente só piorava e Glicério, sem muitas alternativas, fez o melhor que podia para lidar com a ameaça de invasão dos Visigodos e dos Ostrogodos à Itália, que, na prática, era a única província que ele ainda governava de fato: Mandou as tropas que ainda restavam combater, com algum sucesso, os Visigodos (na verdade, era apenas um bando desses bárbaros, comandado por um subordinado do rei Eurico), e, após conseguir acumular algum ouro, pagou  2 mil moedas de ouro aos Ostrogodos para que eles fossem para algum outro lugar. Infelizmente, o lugar onde ambos os bandos foram parar foi a Gália, que já estava sendo avassalada por várias invasões.

Enquanto isso, a expedição de Julius Nepos, que estava aguardando o inverno passar para poder zarpar, finalmente, com a chegada da primavera, pôs-se a caminho de Ravena.

Glicério, que durante o seu reino residira em Ravena ou em Milão, foi para Roma, talvez porque essa cidade estivesse mais distante da Dalmácia, ou, também,  porque lá, contando com o apoio do Senado Romano e da população, ele tenha pensado que fosse mais fácil resistir.

Contudo, Julius Nepos certamente tinha ciência da manobra de Glicério, pois navegou em direção ao Mar Tirreno, desembarcou em Portus (porto de Roma, no litoral), sendo que Glicério não esboçou nenhuma resistência, sendo deposto sem esboçar qualquer luta, em junho de 474 D.C.

Ao contrário do desfecho mais corriqueiro na longa lista de imperadores romanos, Glicério não foi executado, mas apenas destituído do trono e nomeado Bispo de Salona, na Dalmácia (lugar onde Julius Nepos decerto tinha mais capacidade de controlar qualquer ação sua).

O Senado Romano imediatamente reconheceu Julius Nepos como o novo imperador do Ocidente.

Não há registro de qualquer medida tomada por Gundobado para defender Glicério ou atacar Julius Nepos. É bem possível que ele estivesse na Gália, lidando com os ataques de outras tribos germânicas ou tentando reunir tropas para  a defesa de Glicério, não se sabe ao certo. Outra possibilidade é que ele tenha ido reclamar a sua parte no reino dos Burgúndios, na Gália Lugdunense (que daria origem à atual região da Borgonha), após a morte de seu pai, Gundioc, e do irmão dele, Chilperico I, esta ocorrida justamente em 474 D.C. De qualquer forma, o seu comando militar na Itália não existia mais e de fato não  consta que ele tenha voltado à península.

A última notícia que se tem de Glicério data do ano de 480 D.C., quando ele ainda era Bispo de Salona e, segundo um autor antigo, teria participado de uma conspiração para assassinar, ironicamente,  ninguém menos do que o próprio Julius Nepos, que, após ser deposto pelo novo Magister Militum do Ocidente, Orestes, em 29 de agosto de 475 D.C., havia fugido para a Dalmácia.

JUSTINO I – DE CRIADOR DE PORCOS A IMPERADOR

JUSTINO I – DE CRIADOR DE PORCOS A IMPERADOR

Em 02 de fevereiro de 450 D.C, na Prefeitura romana de Illyricum, então sob a égide do Império Romano do Oriente , nasceu,  na região chamada de Dardania , um menino chamado Istok, um nome de origem trácia ou ilíria, que foi latinizado  como Justino. A criança nasceu em um vilarejo vizinho à fortaleza de Bederiana, provavelmente o vilarejo de Tauresium, por sua vez situado próximo à cidade de Scupi.

A cidade de Scupi, atual Skopje, capital da moderna República da Macedônia. foi fundada no reinado do imperador Domiciano (81-96 D.C) como uma colônia de veteranos militares. Apesar de estar em uma região sob influência cultural grega, o estabelecimento da colônia de soldados romanos veteranos naquela região contribuiu sobremaneira para a romanização da população local de etnicidade ilíria e trácia, cujo idioma predominante passou a ser o latim.

(Ponte Romana, em Skopje e vista atual da cidade)

 

Após a formalização da divisão do Império Romano em 2 metades, Ocidental e Oriental, esta com capital em Constantinopla, por Constantino I, no início do século IV, a região, devido ao paulatino enfraquecimento do Império Romano do Ocidente ocorrido no século seguinte, passou a ser governada por Constantinopla,  onde o grego era o idioma predominante.

Devido às devastações causadas pelos bárbaros hunos e ostrogodos na península dos Balcãs, entre 450 e 460 D.C, o humilde criador de porcos Justino, junto com seus parentes Zimarchus e Ditivistus, todos reduzidos à extrema pobreza, foi obrigado a abandonar o vilarejo e migrar para a capital Constantinopla. Consta que, em sua bagagem, os jovens levavam apenas roupas esfarrapadas e um saco contendo pedaços de pão, para se alimentarem durante a viagem.

Uns dez anos antes de Justino chegar à Constantinopla, o imperador Leão I criara uma guarda imperial de 300 homens, chamada de “Excubitores”, formada, majoritariamente por vigorosos camponeses da região da Isaúria,  com o objetivo de contrabalançar o poder do comandante do exército (Magister Militum), Áspar,  um chefe militar bárbaro, e de seus soldados Godos.

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(Os Excubitores deveriam se parecer com estes soldados na frente do imperador, em trajes cerimoniais e de campanha)

 

Leão conseguu se livrar de Áspar e seus Godos e, sem filhos, foi sucedido pelo comandante dos Excubitores, o Isáurio Tarasis Kodissa, marido de sua filha Ariadne, e o qual adotou o nome de Zeno, em 474 D.C. Após 17 anos de um reinado conturbado, Zeno foi sucedido por Anastácio, que também não tinha herdeiro vivo, e foi indicado por Ariadne, a imperatriz-viúva, com quem se casou.

Ainda durante o reinado de Leão I, a guarda dos Excubitores precisou de novos recrutas. Justino, que tinha um bom físico e provinha de uma região (Dardania), e de uma gente (Ilírios e Trácios), que durante muito tempo vinha fornecendo soldados para o Império, viu a oportunidade e se alistou,  e, junto com seus companheiros Zimarchus e Ditivistus,  conseguiu entrar para os Excubitores.

Justino foi subindo de posto na guarda imperial e , com o seu sucesso na carreira militar, sua irmã Vigilantia deixou a Dardania e veio morar em Constantinopla, acompanhada de outros parentes e conterrâneos, incluindo seu marido Sabbatius, com quem tinha dois filhos: Petrus Sabbatius (o futuro imperador Justiniano I) e Vigilantia Dulcissima (Sabemos que Justiniano nasceu por volta de 482 D.C, em Tauresium, na Dardânia, pois, quando sua cidade natal foi destruída por um terremoto, ele mandou reconstruir a cidade com o nome de Justiniana Prima).

No tempo em que seu sobrinho Justiniano ainda era criança, Justino já devia ocupar um posto importante na Guarda Imperial. Ele se casou com uma mulher chamada Lupicina. Segundo o historiador Procópio, em sua “História Secreta”, Lupicina seria uma escrava de origem bárbara e ex-concubina do antigo dono dela. Muitos historiadores, porém, veem com suspeita as informações depreciativas de Procópio relativas à origem da dinastia justiniana contidas na História Secreta, obra que, por vezes, parece mais um panfleto contra Justiniano.

Justino e Lupicina não tinham filhos.  Portanto, este foi o principal motivo pelo qual Justino, provavelmente antes de se tornar imperador, resolveu adotar seu sobrinho, Petrus Sabbatius, qu, então, passou a se chamar Flavius Petrus Sabbatius Justinianus. Isso pode ter acontecido até mesmo quando Justiniano ainda era adolescente, pois sabemos que ele foi educado com esmero em Constantinopla, recebendo ensinamentos de jurisprudência, história e teologia.

Durante o reinado de Anastácio, Justino foi nomeado Comandante dos Excubitores (Comes Excubitorum), sendo que o seu sobrinho Justiniano também começou sua carreira servindo nesta unidade da guarda imperial

Em 518 D.C,  o imperador Anastácio morreu,  também sem deixar filhos. Ele tinha sobrinhos, sendo que um destes era um provável pretendente. Os ministros do falecido imperador e o clero estavam indecisos e o povo demandava a escolha de um novo imperador, sem que houvesse uma definição. O fato, porém, é que Justino era o comandante da guarnição da capital e, provavelmente não precisou de muito esforço para se impor ou ser escolhido como o sucessor pelo Senado de Constantinopla, em 9 de julho de 518 D.C., com o nome de Flavius Justinus Augustus, aos 68 anos de idade. Sua esposa Lupicina foi coroada como imperatriz, adotando o nome Eufêmia.

 

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(Tremissis, moeda de ouro, de Justino I)

 

Segundo Procópio, Justino I era analfabeto e falava apenas um grego rudimentar (talvez ele fosse apenas incapaz de ler e escrever em grego). O historiador narra que, em decorrência, seus ministros foram obrigados a mandar fazer placas de madeira com o desenho das palavras habitualmente utilizadas para os despachos do imperador, para que Justino, segurando o estilete, apenas seguisse o contorno das letras pré traçadas com a sua mão, citando-se como exemplo o caso da palavra latina “Fiat” (cumpra-se)!

Entretanto, pouco a pouco, Justiniano, o ambicioso e preparado sobrinho e filho adotivo de Justino, foi se tornando o governante de fato do Império Romano. (O Império do Ocidente havia terminado em 476 D.C, durante o reinado de Zeno). Em 521 D.C, Justiniano foi nomeado Cônsul. Observe-se que Justino tinha outro sobrinho, chamado Germanus, que até se destacou como general, mas parece que este não tinha propensão ou vontade de entrar na política.

O reinado de Justino teve como fato marcante o retorno à ortodoxia do concílio católico de Calcedônia, o que por sua vez, teve consequências nas relações com o reino ostrogodo de Teodorico, na Itália, que então formalmente reinava na Itália em nome do Imperador. Conflitos com a Pérsia e o terremoto que destruiu Antióquia também são dignos de nota.

Porém, indubitavelmente, o maior significado do reinado de Justino foi o fato de ele ter sido sucedido por seu sobrinho Justiniano, cujo reinado foi um divisor de águas na História do Mundo Mediterrâneo, com repercussões até no presente, seja pela reconquista da Itália, do norte da África e do extremo sul da Espanha para o Império, seja pela promulgação do Corpus Juris Civilis, codificação de toda a legislação romana que influenciaria o Direito até os nossos dias.

Justino ficou doente em 527 D.C e o Senado pediu que ele nomeasse Justiniano como co-imperador, o que foi feito em 04 de abril de 527 D.C.

 

Justiniano.

(Justiniano I, mosaico da Igreja de San Vitale, em Ravenna)

 

Em 1º de agosto de 527 D.C, Justino morreu aos 77 anos de idade. Ele foi enterrado ao lado de Eufêmia, que falecera poucos anos antes.

DE OTAVIANO A AUGUSTO

Em 16 de janeiro de 27 A.C, o Senado Romano conferiu a Otaviano (Gaius Julius Caesar Otavianus), sobrinho-neto e herdeiro de César e vencedor da Guerra Civil contra Marco Antônio e Cleópatra, e, portanto, o homem mais poderoso da República Romana, os títulos de Augustus (Augusto), honraria de caráter religioso que significa “O Venerável”, e Princeps (Príncipe), significando “o Primeiro Cidadão”, marcando formalmente o início do Império Romano.

 

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Ao se tornar “Princeps” e passar a ser chamado de Augusto, Otaviano já ocupava o centro da vida política romana há mais de 30 anos. Na verdade, a partir de 43 A.C. ele dividiu com Marco Antônio (e por alguns anos, com o menos expressivo Lépido, durante o chamado 2º Triunvirato) o governo da República. Com a derrota do rival, em Actium, em 31 A.C., Augusto tornou-se tão poderoso quanto seu tio-avô fora até ser assassinado em 44 A.C.

Porque então, Augusto não adotou a posição e o título de Ditador Perpétuo como César havia recebido?

Nunca saberemos quais os reais propósitos de César: se pretendia tornar-se rei de Roma, como foi acusado pelos conspiradores: se pretendia fundar um Império helenístico mundial casando-se com Cleópatra e fundando uma dinastia (o que parece muito improvável), ou se apenas pretendia ser  um ditador, porém mantendo a República,  mas reformando-a,  mas sem deixar de se retirar um dia, como o fizera Sila. Mas o certo é que o assassinato de César demonstrou ao seu sucessor que os projetos de poder  explicitamente monárquicos e dinásticos eram violentamente repudiados pela sua classe, qual seja, a elite senatorial romana.

Após 18 anos de guerras civis ( De César contra o Partido Aristocrático, do Triunvirato contra os assassinos de César, que pertenciam à mesma facção supracitada e de Otávio contra Marco Antônio),  o fato é que Otaviano encontrava-se em uma posição de supremacia indisputada no Estado Romano, que precisava ser reconhecida oficialmente de alguma forma pelo Senado, porém sem ferir as suscetibilidades republicanas da classe senatorial, afinal, o próprio Otaviano se apresentara como o campeão da República contra o rótulo de pretenso futuro monarca oriental que a propaganda dos sus partidários colou em Antônio.

Desse modo, a Sessão do Senado Romano do dia 16 de janeiro de 27 A.C. caracterizou uma solução conciliatória bem ao gosto dos políticos. A criação de um título inédito, que reconhecia uma situação excepcional, mas que também  ao não sacramentar nenhuma forma nova permanente de governo, aplacava os pudores republicanos dos remanescentes da facção aristocrática do Senado.

Na verdade,  foi no decorrer do governo de Augusto, o qual manteve, formalmente e na aparência, todas as magistraturas republicanas, e sobretudo, na sua longa duração (ele ainda viveria e governaria mais 40 anos depois de receber o título de Princeps) que, pouco a pouco, todos foram percebendo que a República estava morta e que um novo regime, o Império, a substituíra.

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