VALENTINIANO II

VALENTINIANO II

Em 15 de maio do ano de 392 D.C na cidade de Vienne, capital provincial da Prefeitura Pretoriana da Gália, os camareiros da residência imperial ocupavam-se como os preparativos para o desjejum matinal e para a “cura corporis” do Imperador (cuidados de asseio e higiene pessoal) quando escutaram um grito aterrorizado, vindo do “sacrum cubiculum” (como era chamado o aposento particular do imperador). Em seguida, uma escrava saiu correndo de lá, chorando copiosamente. O camareiro-mor, temendo que o alarido despertasse o Imperador, correu para o quarto e estranhou que não estavam à soleira da porta nenhum dos “scutarii”, que serviam como guarda-costas do imperador…

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(Templo de Augusto e Lívia, na cidade de Vienne, foto de Troyeseffigy )

Após relutar um pouco, o camareiro-chefe abriu a porta e ficou petrificado. De uma arquitrave no teto pendia o corpo enforcado de um jovem vestido em deslumbrante traje de seda púrpura com fios de ouro. Era Valentiniano II,  o Imperador Romano do Ocidente.

Flávio Valentiniano (Flavius Valentinianus) nasceu em 371 D.C, filho do imperador do Ocidente, Valentiniano I, e da imperatriz Justina, a segunda mulher do imperador, que também teve com este outras três filhas: Galla, Grata e Justa. Valentiniano I já tinha um filho, Graciano, nascido em 359 D.C., de seu primeiro casamento com Marina Severa. Graciano foi preparado para suceder Valentiniano I,  tendo acompanhado, ainda criança, o seu pai em diversas batalhas e sendo, proclamado, em 367 D.C, com apenas 8 anos de idade, Augusto, ou seja, co-imperador.

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Em 375 D.C, Valentiniano I, considerado por muitos o último grande imperador romano, faleceu após mais um dos seus temidos ataques de fúria, nesse caso causada pelo comportamento insolente de embaixadores da tribo dos Quados. que lhe causou um derrame em plena audiência. Enquanto isso, o imperador Valente, irmão de Valentiniano, reinava, na metade oriental do Império, em Constantinopla.

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O súbito falecimento do grande e temido Valentiniano I deixou um vácuo de poder e causou uma crise ligada à sucessão do imperador falecido, pois os senadores romanos e os generais do Ocidente provavelmente não confiavam nas virtudes militares de Graciano.

Com efeito, a História mostraria que os generais e políticos ocidentais tinham certa razão para não terem confiança em Graciano. Ele demonstrou fraqueza com relação à disciplina das tropas, chegando a concordar com uma petição em que os soldados pediam para serem dispensados de usarem armadura (tal fato, aliás, provavelmente denota que o grosso das tropas eram compostas já por soldados de origem germânica). Graciano também mostrava-se muito propenso a intervir nos conflitos religiosos em favor da ortodoxia católica, o que desagradava núcleos adeptos do cristianismo herético ariano e, sobretudo, a rica e influente facção pagã do Senado de Roma, a antiga capital, que continuava a ter muita influência política.

Assim, alguns generais do exército romano, notadamente o general de origem franca Merobaudes, aclamaram como imperador o menino Valentiniano II, com apenas 4 anos de idade, forçando Graciano, então com 16 anos de idade, a aceitar o irmão caçula como co-imperador do Ocidente (inaugurando, dessa forma, a tendência que dominaria as últimas décadas do império romano: a escolha de imperadores fantoches por comandantes militares de origem bárbara). Graciano efetivamente controlava a Gália, a Hispânia e a Britânia, enquanto que a Itália, a Iliria e a África ficaram subordinadas a Valentiniano II.

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Todavia, em 378 D.C, uma das maiores catástrofes militares sofridas pelos romanos, veio sacudir esse precário arranjo da situação: Cerca de 200 mil Godos, após cruzarem a fronteira romana do rio Danúbio, procurando asilo motivado pela sucessão de migrações causadas pelo avanço das tribos hunas em direção ao Ocidente, acabaram se revoltando, invadindo a província romana da Trácia.

Ao saber da invasão, Valente, o Imperador Romano do Oriente, comandando todo o seu exército e sem esperar pelo auxílio das tropas ocidentais de seu sobrinho Graciano, resolveu atacar sozinho os bárbaros, mas foi fragorosamente derrotado, na chamada Batalha de Adrianópolis, onde dois terços do exército romano, cerca de 40 mil soldados, morreram, incluindo o próprio imperador Valente, cujo corpo jamais foi encontrado em meio à montanha de cadáveres.

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A morte de Valente  tornaria seu sobrinho Graciano, que já era o Imperador Romano do Ocidente, juntamente com seu meio-irmão Valentiniano II, de apenas 7 anos de idade (que governa nominalmente a Itália, d África e parte da Ilíria), automaticamente também Imperador do Oriente.

Contudo, com os Godos à vontade para se locomoverem nos Bálcãs ( o que ameaçava a própria Itália), não dispondo de outras opções militares, tendo em vista que mal acabara de concluir uma campanha contra os Alamanos, poucos meses antes do desastre de Adrianópolis, e também pelo fato de não haver mais generais experientes no Oriente, Graciano resolveu chamar o respeitado general espanhol Flávio Teodósio(Teodósio I)de seu retiro na Espanha e, em um raro gesto de desprendimento, nascido, é verdade, da necessidade, nomeou-o Augusto, em 19 de janeiro de 379 D.C, entregando-lhe o trono da metade oriental do Império Romano.

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Entretanto, em 25 de agosto de 383 D.C, Graciano foi assassinado em Lyon, para onde teve que fugir após não conseguir debelar a revolta do general da Britânia, Magnus Maximus, um militar também de origem espanhola que havia servido como subordinado do Conde Teodósio, pai do imperador Teodósio I, e invadira a Gália para depor o imperador, supostamente devido ao fato das tropas estarem insatisfeitas com a preferência que Graciano dava às tropas compostas por bárbaros alanos.

Valentiniano II, que, como vimos, por influência dos generais francos, havia sido reconhecido por Graciano como co-imperador, seria o próximo alvo de Maximus. Teodósio I, então, pressionado pelas circunstâncias, acabou concordando em reconhecer Maximus como o novo imperador nas províncias governadas por Graciano, sob o compromisso de que Maximus, por sua vez, reconheceria Valentiniano II como co-imperador no Ocidente.

Esse acerto durou até 387 D.C, quando Maximusresolveu invadir a Itália para derrubar Valentiniano II e assumir ele mesmo o controle total do Ocidente. Um dos motivos principais foi a crescente influência de Teodósio nos assuntos da corte de Valentiniano II. Assim, o jovem imperador, acompanhado da mãe, resolveu fugir para Tessalônica, na parte oriental governada por Teodósio. Este resolveu intervir e, após combinar o seu exército com as forças remanescentes de Valentiniano II, comandados pelo general de origam franca, Flávio Arbogaste, bem como com as de seus aliados Visigodos e mercenários Hunos, conseguiu derrotar Maximusna Batalha de Siscia, no rio Sava, na atual Croácia, em 388 D.C.. Maximus conseguiu fugir, mas foi capturado e executado próximo a Aquileia.

Portanto, na prática, ainda que não de direito, Teodósio I tornou-se o virtual imperador de todo o Império Romano.

Considerando que Valentiniano II, na ocasião, somente tinha dezessete anos, Teodósio ainda ficou três anos na Itália, organizando o Império do Ocidente, somente voltando para Constantinopla em 391 D.C.  Embora, oficialmente, o novo imperador único do Ocidente passasse a ser Valentiniano II, contudo, o real poder no Ocidente estava nas mãos do general franco Flávio Arbogaste, que ocupava o cargo de Comandante-em-chefe da Infantaria (Magister Peditum Praesentalis).

Com efeito, durante todos esses eventos, Valentiniano II sempre havia sido um imperador-fantoche: Primeiro, na Ilíria, sob a proteção de Graciano, e, depois, nas mãos de sua mãe Justina, em Milão, a capital do Império do Ocidente, onde viveu por doze anos, até ter que fugir para Tessalônica.

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Nesses anos em Milão, Justina tornou-se a virtual regente do Império Romano do Ocidente. Ela era adepta do cristianismo segundo a doutrina do bispo Ário (Para os cristão “arianos”, Jesus Cristo, o Filho de Deus, era subordinado ao Pai, e, portanto, esse credo negava o dogma da “Santíssima Trindade”. Para os católicos, isto somente poderia ser uma heresia).

Para azar de Justina, a figura mais influente em Milão naquela época era o Bispo da cidade, Ambrósio, um homem carismático e eloquente, de personalidade forte e muito bem relacionado, pois antes de ser bispo, havia sido governador da Província. Ambrósio era inimigo implacável de tudo que se opusesse à ortodoxia do credo niceno-trinitário, fosse o paganismo ou as heresias cristãs.

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Ambrósio, apenas com a sua determinação e força de seus sermões, já havia conseguido persuadir Graciano a retirar o quase ancestral altar da deusa Vitória da Cúria do Senado, em Roma, sob protestos dos senadores pagãos. Quando estes apelaram a Valentiniano II para que o altar fosse restaurado, Ambrósio convenceu o jovem imperador a negar o pedido. Ele também conseguira exonerar os bispos arianos no Concílio de Aquileia, e nem o poderoso Teodósio escapou de sua influência, sentindo-se obrigado a tomar uma série de medidas contra os pagãos, incluindo a proibição de sacrifícios.

Quando Justina tentou, entre 385 e 386 D.C, que uma basílica fosse consagrada ao culto ariano, Ambrósio ocupou o edifício com uma milícia de cristãos-ortodoxos,  que lá se entrincheiraram, protegidos por barricadas, forçando a imperatriz-viúva a desistir da ideia.

Porém, uma das iniciativas de Justina que teve sucesso foi o casamento da sua bela filha Galla, irmã de Valentiniano II, com Teodósio.

Após o usurpador Maximus ser derrotado, Valentiniano II foi residir em Vienne, capital provincial da Gália. Justina havia recém-falecido e os seus ministros foram nomeados por Teodósio, que também nomeou o poderoso general Arbogaste para o cargo de Magister Peditum Praesentalis.

Valentiniano, agora já em seus vinte anos de idade, começou a se ressentir do fato de ser apenas uma figura decorativa, totalmente dominada por Arbogaste. Para se ter um ideia dessa situação, em um episódio sintomático, certa vez Arbogaste matou, na presença do próprio imperador, um amigo deste, Harmonius, que havia sido acusado de corrupção.

O fato é que a única coisa que impedia Arbogaste de se apropriar do trono e coroar-se a si mesmo era a sua origem bárbara. Apesar da proeminência dos bárbaros no exército, era inadmissível para a sociedade romana que um germânico se tornasse imperador. Era uma realidade tão evidente que, mesmo na fase terminal do Império, nenhum general bárbaro jamais reivindicou o trono para si. O próprio Odoacro, quando destronou o último imperador romano do Ocidente, Rômulo Augusto, não ousou nomear-se Imperador Romano, mas, apenas Rex (Rei) da Itália, devolvendo as insígnias imperiais do Império do Ocidente à Constantinopla.

Valentiniano II tentou se libertar do jugo de Arbogaste, escrevendo cartas secretas a Teodósio, pedindo auxílio. E também buscou o apoio de Ambrósio, inclusive manifestando o desejo de ser batizado pelo Bispo segundo os rituais do Credo Niceno.

A tensão entre Valentiniano II e o seu general aumentou quando o primeiro resolveu demitir Arbogaste do cargo de Marechal da Infantaria do Ocidente. Consta que ao receber do imperador a ordem escrita, Arbogaste foi à presença de Valentiniano e lhe disse, em pessoa: “Não foi você quem me deu o meu comando e não é você quem pode tirá-lo de mim”, após o que, jogou a carta no chão, deu as costas e foi embora!

Segundo Philostorgius, um historiador da igreja de Constantinopla, Valentiniano, como último recurso desesperado, tentou pessoalmente matar Arbogaste, apoderando-se de uma espada de um dos seus guarda-costas,  mas acabou sendo impedido pelo mesmo.

Pouco depois desse incidente, Valentiniano II foi encontrado morto em seus aposentos imperiais. Ele morreu com apenas 21 anos de idade.

Não há, contudo, certeza absoluta de que Valentiniano II tenha sido assassinado. Rufino de Aquileia, um historiador mais próximo dos fatos, tanto temporalmente como espacialmente, escreveu que “ninguém pode estar certo do que aconteceu com o imperador”. Já o historiador Zózimo e outros, consideram que Valentiniano II foi assassinado a mando de Arbogaste. Alguns historiadores modernos acreditam que a causa da morte dele foi suicídio, decorrente do quadro depressivo que Valentiniano II deveria estar enfrentando pela reiterada insolência de Arbogaste e por sua submissão ao general. Ambrósio, em sua eulogia ao imperador, não aborda o assunto, até porque se ele mencionasse o suicídio, isso teria sido um grave pecado de Valentiniano, à luz da doutrina católica.

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O fato é que Arbogaste conseguiu fazer o Senado Romano nomear o inexpressivo Eugênio, um político pouco influente e ex-professor de retórica, como Imperador do Ocidente, o que foi inicialmente reconhecido por Teodósio.

Porém, Eugênio e Arbogaste aproximaram-se da facção pagã do Senado Romano, autorizando, inclusive, a reabertura dos templos e a celebração de rituais pagãos em Roma, culminando com a restauração do Altar da Vitória na Cúria, o que enfureceu Ambrósio e deixou Teodósio em uma posição politicamente difícil na ortodoxa Constantinopla.

Assim, em 393 D.C, Teodósio elevou o seu próprio filho Honório à posição de Augusto no Ocidente, reconhecendo-o como Imperador, o que obviamente significou o seu rompimento definitivo com Arbogaste e Eugênio.

Em 394 D.C, Arbogaste e Eugênio, liderando tropas que lutavam sob a proteção de estandartes adornados com imagens de deuses pagãos, foram derrotados por Teodósio, na sangrenta Batalha do Rio Frígido. Após essa vitória, Teodósio I se tornou o último imperador a reinar sobre as duas metades do Império.

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A Ponte de Trajano, um legado romano de 2 000 anos

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A Ponte Romana de Chaves é o legado mais importante do império romano “Aquae Flaviae” e quando passear em Chaves, é quase impossível não atravessar o ver este ponte que vai até ao centro medieval. Também chamada Ponte de Trajano, foi concluída no tempo do Imperador Trajano, durante o processo de romanização da região entre o fim do século I e o princípio do século II d.C, em sólido e duro granito transmontano. É uma obra notável de engenharia, com cerca de 150 metros de comprimento que ligava Bracara Augusta (Braga) e a cidade espanhola de Astorga, a antiga via Romana XVII.  Originalmente, a ponte tem ao menos 16 arcos mas hoje só 12 arcos são visíveis.

A meio da ponte estão implantados duas colunas, uma em cada lado, com inscrições latinas de carácter honorífico do Imperador em tributo das gentes flavienses que ajudaram na sua construção. Uma terceira coluna…

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Os marcos miliários de Chaves

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O período Romano deixou muitos vestígios desta época florescente na nossa região de Chaves, entre os quais se podem citar os marcos miliários.

Os marcos miliários eram colunas cilíndricas em pedra, colocadas ao lado das estradas, onde uma inscrição além de dizer quem as mandou traçar ou reparar marcava as distâncias em milhas (que corresponde a 1600 metros).

De fato, o Império Romano era vasto, e os Romanos construíram uma rede de estradas importante para que o exército circulasse rapidamente por todo o território e assim manter o domínio dos povos conquistados. Estas estradas também serviam para enviar as riquezas de cada região para Roma, a capital do Império. Os Romanos precisavam destes colunas em pedra, que chamamos marcos miliários para não se perder no meio desta encruzilhada de vias.

Havia também os marcos de divisão territorial, que tal como o nome indica serviam para dividir os territórios diferentes.

Vestígios de…

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FLORALIA

FLORALIA

Entre 28 de abril e 03 de maio, celebrava-se em Roma o festival em homenagem a Deusa Flora, a deusa das flores e da primavera.

Como não poderia deixar de ser, o festival era uma alegre celebração do milagre da renovação da natureza, após o frio e cinzento inverno.

Acredita-se que Flora fosse uma divindade de origem sabina, povo latino que desde os primórdios de Roma unira seu destino ao dos romanos,  os quais nunca esqueceram completamente suas raízes de povo agrícola e pastoril.

Embora Flora não fosse considerada das divindades mais importantes do Panteão Romano no período imperial, seu culto era antigo e a deusa teve seus “flâmines”, ou sacerdotes privados, instituídos pelo rei Numa.

Parece que as prostitutas podiam participar da Floralia e a História registra que, de fato, Flora era um nome comum entre as cortesãs romanas.

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ABRIL – O MUNDO SE ABRE

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No antigo calendário romanoABRIL era o segundo mês do ano. Mas posteriormente, ainda durante a República, o mês passou a ocupar a  mesma posição no calendário que ocupa hoje. Porém, o trigésimo dia do mês de abril somente foi adicionado com a reforma do calendário determinada  pelo Ditador Caio Júlio César, que por isso recebeu o nome de “Calendário Juliano” e foi utilizado no Ocidente até o século XVI.

Abril, ou Aprilis, vem do latim “aperio”, aperire“, do verbo latino que signfica “abrir“. Nos  Fasti Praenestini, um antigo calendário romano que sobreviveu em fragmentos até os nossos dias, é mencionado que no mês de abril “abrem-se as flores, os frutos e   os animais e  os mares e as terras”.

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(Os “Fasti Praenestini, foto de Marie-Lan Nguyen)

Entre os muitos festivais romanos  ancestrais celebrados no mês de abril, destacam-se a Fordicidia, um festival de fertilidade agrícola e criação de animais domesticados, celebrado no dia 15, a Parilia, uma festa dos pastores, no dia 21, a Vinalia,  no dia 23, um dos dois festivais do vinho celebrados no ano (o outro era em agosto) e a Robigalia, no dia 25, uma festa para proteger as colheitas das pragas. Além destes, do dia 4 ao dia 9 eram celebrados os Ludi Megalenses, em homenagem à Grande Mãe Cibele, uma divindade importada de Pessinus, na Frígia.

Na segunda metade do mês, em data incerta, era celebrada a Cerealia, em homenagem à Ceres, a deusa da agricultura e das colheitas. E no dia 27 ( e depois, no dia 28, já no Calendário Juliano) era celebrada a Floralia, em homenagem à deusa Flora, a deusa das flores.

Uma importante data que passou a ser comemorada a partir do reinado do imperador Cláudio foi a fundação de Roma (Roma Condita), no dia 21 de abril.

Nas calendas de abril (dia 1º),  ocorreu um fato marcante na História de Roma: o imperador Maximiano foi nomeado Augusto, e, na prática, Imperador Romano do Ocidente, pelo imperador Diocleciano.

OVÍDIO – O POETA SEDUTOR

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Em 20 de março de 43 A.C, nasce, na cidade de Sulmo (atual Sulmona, na região de Abruzzo, Itália), Publius Ovidius Naso (Ovídio), no seio de uma próspera família da classe Equestre.

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(Estátua de Ovídio, em Sulmona)

O pai de Ovídio queria que ele seguisse a carreira jurídica, o que lhe poderia abrir as portas para importantes cargos públicos. Por isso, Ovídio foi para Roma estudar Retórica com o famoso orador Aurellius Fuscus, que, dentre outros, foi professor de Plínio, o Velho.  Mas, como ele nos conta em seu poema que seria escrito no exílio, “Tristeza” (Tristia), desde jovem o que lhe encantava mesmo era fazer versos (Deixo aqui o link para a tradução, em inglês, do poema, no livro em que Ovídio conta a sua biografia, vide https://www.poetryintranslation.com/PITBR/Latin/OvidTristiaBkFour.php)

Após a morte do seu irmão, que tinha apenas 20 anos de idade, o abalado Ovídio viajou para Atenas e algumas cidades gregas da Ásia Menor, passando algum tempo também em uma região italiana de cultura grega, a Sicília, em um périplo comum aos jovens romanos que pretendiam fazer uma espécie de pós-graduação em Retórica e Oratória.

De volta a Roma, Ovídio chegou a exercer cargos de juiz nos tribunais de Centúnviros e Decênviros, que julgavam causas cíveis e criminais. Assim, em tese, Ovídio tinha abertas diante de si a possibilidade de, no futuro, aspirar entrar no Cursus Honorum, que dava acesso às magistraturas maiores, tais como Edil, Questor, Pretor e Cônsul.

Todavia, por volta do ano de 23 A.C., Ovídio decidiu largar a magistratura e se dedicar à poesia, decisão que, evidentemente, deve ter desagradado muito o seu pai. Por essa época, ele já tinha feito sua primeira récita em público e ingressado no círculo literário patrocinado por Marcus Valerius Messalla Corvinus, um general e aristocrata ilustre, que foi Cônsul Suffectus no ano de 31 A.C. Isso permitiu a Ovídio conhecer e fazer amizade com os poetas  Propércio e Horácio, este já consagrado como um dos maiores poetas latinos e patrocinado por Mecenas.

O estilo poético que Ovídio escolheu foi a Elegia, caracterizada por hexâmetros seguidos por pentâmetros, mas com um toque de paródia do estilo convencional de outros poetas.

Sua primeira série de poesias conhecidas foram “os Amores“, poemas dedicados ao amor, dedicados a uma namorada, Corinna (que não é o nome verdadeiro dela) com inspiração erótica, como por exemplo, na Elegia I, 5:

Calor intenso, já passara o meio-dia;
Deitei-me ao leito, os membros repousando.
Em parte aberta, em parte cerrada a janela;
Luz como a que costumam ter os bosques,
qual reluz o crepúsculo, ausente já Febo,
quando a noite foge e o dia hesita.
Tal luz é a que convém às moças tímidas,
nela o pudor espera achar abrigo.
Eis que Corina vem, com a túnica entreaberta,
em desalinho a cabeleira sobre a nuca…

 

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A série de poemas chamada “A Arte de Amar” (Ars Amatoria) continha instruções de como encontrar, conquistar e manter um amor, tanto para os homens como para as mulheres, uma espécie de manual, sarcástico, irônico e cheio de alusões ao ato sexual, mas sem ser jamais pornográfico.

Entre os conselhos de Ovídio aos amantes do sexo masculino, destacam-se:

não esquecer o aniversário dela“, “deixá-la com saudade de você, mas não por muito tempo“, e “jamais perguntar a idade dela“. Lições, como se vê, ainda bem atuais…Já às mulheres, Ovídio aconselha: “maquiar-se, mas nunca na presença dele” e “experimentar os amantes jovens e os maduros“. Ele assim introduz o livro contendo os conselhos para o público feminino: “Eu acabei de armar os Gregos contra as Amazonas, agora, Pentesiléia (Obs: rainha das Amazonas), resta-me  armar-te contra os Gregos“.

 Logo no início, Ovídio dá algumas instruções para se escolher uma amante  bonita:

“Nós frequentemente perdemos a cabeça por uma linda garota em um jantar. Sem dúvida, Juntar amor e vinho é  como colocar combustível na fogueira. Não avalie uma mulher à luz dos candelabros, é enganoso! Se você realmente quiser saber qual a aparência dela, olhe-a de dia e quando estiver sóbrio! Foi ao ar livre, e durante um dia claro, que Páris viu as três deusas e disse para Vênus: “você é mais bonita do que suas duas rivais”. A noite cobre um sem-número de defeitos e imperfeições. À noite, não há mulher feia! Quando você quer ver pedras preciosas ou roupas coloridas, você as leva para a luz do sol, e é de dia que você deve julgar o rosto e a aparência de uma mulher“.

 Depois, o Poeta nos ensina a conservá-la:

Então, quem quer que você seja, não ponha muita confiança no enganoso charme da formosura. Cuide de possuir algo mais do que mera beleza física. O que funciona espantosamente com as mulheres é um jeito insinuante. Brusquidão e palavras rudes só promovem desaprovação. Nós odiamos o falcão porque ele passa a sua vida brigando; e nós odiamos o lobo que se lança sobre os tímidos rebanhos, mas o Homem não captura a andorinha porque ela é mansa e atura o pombo fazer sua casa nas torres que ele construiu. Longe toda discórdia e amargura na fala. Palavras suaves são o alimento do amor. É pelas discussões que a mulher estranha o marido e o marido a sua esposa. Eles imaginam que agindo dessa forma , eles estão pagando um ao outro em sua própria moeda.  Deixe isso para os casados. Brigas são o dote que os casados dão um ao outro. Mas uma amante deve ouvir apenas palavras agradáveis. Não foram as Leis que colocaram vocês na cama. A SUA lei, a LEI para você e para ela, é o Amor. Nunca a aborde senão com carinhos suaves e palavras que acariciem o ouvido dela, de modo que ela sempre se alegre com a sua chegada.

As festejadas “Metamorfoses” estão contidas em 15 livros e são um épico sobre o tema das transformações da mitologia greco-romana, da Criação à deificação de Júlio César.

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Outras obras do poeta são as “Cartas das Heroínas“, os “Remédios para o Amor” e “Calendários” e uma tragédia, Medéia, que infelizmente não chegou até os nossos dias, mas que foi muito apreciada na Antiguidade.

Nos “Remédios para o Amor“, Ovídio escreveu esse verso, em resposta aos seus críticos:

Exploda, Inveja voraz: o meu nome já é bem conhecido; E será ainda mais, se meus pés viajarem pela estrada que eles iniciaram; Mas você está muito apressada – se eu viver, você ficará mais do que arrependida: Muitos poemas, de fato, estão se formando na minha mente.”

Em 8 D.C.,  o imperador Augusto determinou que Ovídio fosse exilado para a longínqua cidade de Tomis, que os romanos recém tinham conquistado do reino trácio dos Odrísios. A cidade ficava onde hoje é a cidade de Constança, na Romênia.

 

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(Ruínas de Tomis, foto de Postoiu Roxana )

 

O motivo real do exílio de Ovídio não é conhecido, embora ele mencione que foi devido a um “carmen” (poema) e a um “error” (deslize ou engano), na sua obra “Tristeza” (Tristis), escrita em Tomis.

 

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Muitos estudiosos acreditam que a poesia de Ovídio estava em choque com a política moralizante de Augusto, que estabelecia penas severas para o crime de adultério.

Porém esses poemas foram escritos bem antes do seu banimento. Sabe-se, entretanto, que Júlia, a Jovem, neta de Augusto, foi exilada por  trair o seu marido com o senador Décimo Júnio Silano, também em 8 D.C, o  mesmo ano do exílio de Ovídio. O marido de Júlia foi executado por envolvimento em uma conspiração contra Augusto, em data indeterminada, mas que pode ter sido também em 8 D.C.. É possível que o poeta ou sua obra tenha de alguma forma se relacionado com este incidente, não sabemos.

No poema Tristeza, Ovídio lamenta o exílio distante, extravasando sua saudade da esposa e da pátria, e apela ao senso de justiça do imperador, sem sucesso. Ele morreria em Tomis, já no reinado do sucessor de Augusto, Tibério, em 17 ou 18 D.C., com aproximadamente 60 anos de idade. Ele teve uma filha que lhe deu dois netos.

 

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VALENTINIANO III

Em 16 de março de 455 D.C, no Campo de Marte, em Roma,  o imperador  Valentiniano III estava  treinando com o arco e flecha,  quando foi morto por dois mercenários hunos, chamados Optelas e Thraustelas, que também mataram o eunuco Heraclius, que acompanhava seu mestre. Era o fim da dinastia teodosiana no Ocidente.

Nascido em 2 de julho de 419 D.C, em Ravena, capital do Império Romano do Ocidente, Flavius Placidius Valentinianus (Valentiniano III), era filho de Flávio Constâncio e de Galla Placídia.

O pai de Valentiniano foi um dos últimos de uma longa linha de generais nativos da Ilíria que assumiram o trono no período final do Império Romano do Ocidente. Nascido em Naissus, na atual Sérvia, ele derrotou uma série de usurpadores durante o reinado do Imperador do Ocidente, Honório, e conseguiu alguns sucessos contra os Godos, com os quais conseguiu entrar em acordo, assentando-os no sul da Gália.

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(Medalhão romano do século V que se acredita retratar Valentiniano III. Galla Placídia e Honória)

Outro item do tratado assinado por Flávio Constâncio com os Godos foi a devolução à Roma da irmã de Honório, Galla Placídia, que havia sido capturada pelos bárbaros quando do Saque de Roma, liderados pelo rei Alarico, em 410 D.C.

O poderoso Flávio Constâncio acabou se casando com Galla Placídia, em 417 D.C, e, em função disso, em 421 D.C, ele conseguiu ser nomeado Augusto, e, portanto, co-imperador junto com Honório, reinando com o nome de Constâncio III.

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Entretanto, Constâncio III somente reinaria por 7 meses, vindo a falecer de causas desconhecidas, em 2 de setembro daquele ano.

A mãe de Valentiniano III, Galla Placídia, além de irmã de Honório, era filha do imperador Teodósio, o Grande, e neta do imperador Valentiniano I, o último imperador do Ocidente que comandou um grande exército, e, consequentemente, ela era a mulher mais ilustre do Império Romano naquele tempo. Além disso, Galla Placídia, durante o cativeiro nas mãos dos Godos, havia se casado, aparentemente não contra a própria vontade, com o rei deles, Ataulfo, que depois seria assassinado em 415 D.C.

O sucessor de Ataulfo, Wallia, necessitando de alimentos para o seu povo, concordou em assinar o tratado proposto por Constâncio III e devolveu a viúva Galla Placídia aos romanos.

Como Honório era divorciado, Galla Placídia, após a elevação de seu marido Constâncio à posição de Augusto, passou a ser a única Augusta (imperatriz) no Ocidente. Após ela ter ficado viúva de Constâncio, intrigas da Corte e as suspeitas de um relacionamento incestuoso com o irmão Honório forçaram Galla Placídia e seu filho bebê, Valentiniano, a se exilarem em Constantinopla, sob a proteção do Imperador do Oriente, Teodósio II, em 423 D.C.

Naquele mesmo ano de 423, Honório morreu de edema e o trono do ocidente foi usurpado por João, colocado no trono pelo general Castino. Teodósio II obviamente não reconheceu João e nomeou seu parente Valentiniano, filho de Galla Placídia, como César, além de arranjar o futuro casamento deste com sua filha Licínia Eudóxia, sendo ambos ainda crianças.

Após a derrota de João, Valentiniano III foi, oficialmente, coroado como Imperador Romano do Ocidente, em 23 de outubro de 425 D.C, com apenas 6 anos de idade.

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Assim, no início do reinado de Valentiniano III, o governo do Império do Ocidente ficou de fato nas mãos de sua mãe, a Imperatriz Gala Placídia, regente de fato.

O reinado de Valentiniano III caracterizou-se pelo progressivo desmembramento do Império Romano do Ocidente, decorrente de uma série de invasões bárbaras. Com efeito, durante esse período, os bárbaros Vândalos, Suevos e Alanos consolidaram seus reinos na Espanha, e os Visigodos, inicialmente, no sul da Gália. Além disso, o noroeste da Gália encontrava-se virtualmente independente controlado por bandoleiros chamados de bagaudas. Para piorar, os Vândalos deixaram a Espanha e invadiram a rica província da África, que na época era a principal fonte de suprimento de grãos para Roma. (o Egito estava sob a jurisdição de Constantinopla).

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O Exército do Império do Ocidente, durante o reinado do antecessor de Valentiniano III, Honório,  praticamente havia desaparecido, e o Imperador dependia majoritariamente de tropas bárbaras, cujos chefes, cada vez, mais ansiavam o cargo de Comandante Supremo das Forças Armadas (Magister Utriusque Militiae), visando ter acesso aos ainda vastos recursos do Império.

Roma, apesar de tudo, durante esse período (400 a 450 D.C), ainda conseguia desdobrar algum poder militar, nas vezes em que o exército era comandado por um general de prestígio e dotado de orientação patriótica, como foi o caso do meio-romano, meio-vândalo Estilicão, que foi o comandante do Exército de Honório. Esses generais, enquanto o tesouro não se exauriu completamente, frequentemente conseguiam reunir tropas bárbaras que serviam ao Império como “federados” (foederati) e empregá-las no interesse de Roma.

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Foi o que ocorreu, quando, decorridos alguns anos do reinado de Valentiniano III, outro militar do quilate de Estilicão assumiu o comando do que restava do Exército: o general Flávio Aécio, um romano nascido na região do Danúbio. Aécio tinha sido, durante a juventude, entregue como refém aos Godos  que, por sua vez, o entregaram aos Hunos. Porém, Aécio, valendo-se de seu talento para a Diplomacia, conseguiu fazer  muitas amizades e contatos entre os Hunos, que eram os bárbaros mais temidos naqueles tempos.

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De fato, durante toda a sua carreira, Aécio se valeria dessa amizade com os Hunos, que lhe forneceriam as tropas que o Império do Ocidente tanto precisava para fazer frente aos Visigodos, Suevos, Francos, Burgúndios e outros tantos, os quais, já instalados na Gália e Espanha, ou, em reides partindo dos rios Reno e Danúbio, ameaçavam a própria Itália.

Aécio, que alcançara o posto de comandante militar da Gália, teve que combater Bonifácio, um rival pelo comando supremo do Exército, que gozava da predileção de Gala Placídia. Nessa luta entre romanos, Aécio, apesar de ter sido derrotado na Batalha de Rimini, em 432 D.C, conseguiu fugir e chegar até aos seus amigos Hunos, enquanto que Bonifácio morreu em decorrência dos ferimentos sofridos no combate.

Os Hunos forneceram a Aécio novas tropas, com as quais ele não teve dificuldade em “convencer” Gala Placídia a lhe nomear “Magister Utriusque Militae” e Conde (“Comes“).

Infelizmente, os Vândalos se aproveitaram desse conflito e aproveitaram para invadir a África, que era vital como fonte de fornecimento de grãos e de tributos para o Império do Ocidente, e onde os senadores romanos possuíam imensas propriedades.

A estratégia seguida por Aécio diante desse grave quadro é considerada pelos historiadores militares como inteligente e adequada para a delicadíssima situação em que o Império do Ocidente se encontrava.

Com efeito, Flávio Aécio,  procurou proteger, entre todos os domínios imperiais, a Gália, a maior e mais rica província do Ocidente, já bem devastada pelas invasões bárbaras. Ele conseguiu derrotar os Burgúndios e conter os bagaudas, na Gàlia e ,após algumas derrotas e vitórias contra os Visigodos, firmar com eles um tratado delimitando a área que seria destinada aos últimos. Sem ter tropas suficientes para subjugar todos os bárbaros, Aécio passou a se valer da tática de usar as tribos bárbaras que tinham sido recentemente derrotadas e assentadas para conter aquelas outras que fossem julgadas mais perigosas para Roma.

Por outro lado, embora a defesa da Gália, no plano militar, fosse a escolha mais adequada, no campo político essa estratégia colocou Aécio em choque com os interesses da nobreza senatorial italiana, que ainda era muito influente e achava que a Itália deveria ser defendida a qualquer preço.

Efetivamente, Aécio foi a pessoa mais poderosa do Império do Ocidente entre 433 e 450 D.C. Porém, em 451 D.C, Átila, que tinha se tornado rei dos Hunos em 435 D.C, resolveu atacar o Império do Ocidente, valendo-se de um pretexto surpreendente: a irmã de Valentiniano III, Honória, que havia sido presa por ter engravidado de um camareiro, tinha conseguido enviar a Átila um pedido de socorro, junto com um anel, razão pela qual o rei bárbaro considerou que a princesa romana era sua noiva, dando-lhe o direito de exigir o seu dote: Metade do Império do Ocidente!

O irresistível avanço da horda huna, acrescida por várias tribos germânicas súditas de Átila, rapidamente tomou Metz, Reims, Mogúncia, Estrasburgo, Colônia, Worms e Trier que foram saqueadas e incendiadas.

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Aécio, porém, conseguiu formar uma aliança com os Visigodos, Francos e Alanos, que se uniram a um pequeno contingente de tropas romanas tradicionais. Quando o exército aliado aproximou-se de Orleans, sitiada pelos Hunos, Átila teve que abandonar o cerco e rumou para o campo aberto em Châlons, na Champagne.

Ali, em 20 de junho de 451 D.C., travou-se uma sangrenta batalha onde os Visigodos e Alanos aguentaram a maior parte da carga dos guerreiros hunos. Os Romanos colaboraram ocupando uma importante elevação no terreno. Em posição desfavorável, Átila acabou ordenando uma retirada, sem que houvesse uma perseguição por parte dos aliados romanos.

A vitória na Batalha de Châlons foi certamente o auge da carreira de Aécio. Muitos historiadores consideram, para outros com algum exagero, que esta foi uma das batalhas mais importantes da História, e o historiador romano-bizantino Procópio apelidou Aécio de “O Último dos Romanos“. É difícil, no entanto, chegar a uma conclusão, pois Átila morreria dois anos depois e o seu império se esfumaçou tão rápido como surgira.

Todavia, o prestígio político de Aécio não duraria muito. No ano seguinte à Batalha de Chalons, Átila e seus Hunos invadiriam a Itália. Em seu avanço, a grande cidade de Aquiléia foi varrida do mapa.

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Valentiniano III, protegido pelos pântanos de Ravenna, foi obrigado a assistir impotente enquanto a horda se dirigia para Roma. Contudo, por razões até hoje misteriosas, mas provavelmente devido à peste que se alastrava pela Península, Átila, após receber uma embaixada do Papa Leão, resolveu se retirar da Itália e, no ano seguinte, ele morreria sufocado pelo próprio sangue, após a festa do seu casamento com uma nova esposa, quando teria tido uma hemorragia nasal.

Após Chalons, Aécio tinha conseguido a honra de casar seu filho Gaudentius com Eudóxia, filha de Valentiniano III, passando, assim, a ser oficialmente membro da família imperial e colocando seu filho como um sério candidato à sucessão do próprio Valentiniano III.

A ascensão de Aécio despertou muitos ciúmes, especialmente em Petrônio Máximo, então o senador mais poderoso e com mais distinções em cargos públicos. Segundo o historiador romano-bizantino do século VII, João de Antióquia, Máximo foi o maior responsável pelas intrigas contra Aécio, conseguindo envenenar o imperador  Valentiniano III contra o general, cujo prestígio junto aos senadores italianos estava muito abalado pela invasão da Itália.

Petrônio aliou-se a um secretário doméstico do imperador (“Primicerius Sacri Cubiculi“), um eunuco chamado Heraclius, que também era inimigo de Aécio e ambos conseguiram convencer Valentiniano III de que Aécio planejava matá-lo. Em decorrência persuadiram o imperador a convocar o general para um encontro no Palácio, onde seria recebido por Valentiniano III em pessoa,  no que foi provavelmente uma forma de afastar Aécio de seus guarda-costas hunos, sem despertar a suspeita deles.

Em 21 de setembro de 454 D.C., Valentiniano III convocou Aécio ao Palácio e, quando este lhe apresentava um relatório, o imperador acusou-o de traição. Ao tentar se explicar, Aécio foi atacado por Valentiniano III e por Heraclius, sendo morto por um golpe de espada desferido pelo próprio imperador. Não deve ter sido uma luta muito difícil, pois, enquanto Valentiniano tinha 34 anos e era dado a se exercitar, Aécio já tinha a avançada idade, para a época, de 63 anos.

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Dias depois, ao comentar que tinha agido corretamente ao matar Aécio, Valentiniano III ouviu de um cortesão:

Se foi bom ou ruim eu não sei, mas o que eu sei é que Vossa Majestade cortou vossa mão direita com a vossa esquerda“…

O ambicioso Petrônio conseguiu convencer dois guarda-costas de Aécio a vingarem a morte do seu amado chefe, prometendo ainda uma recompensa pela morte de Valentiniano III. Assim, no dia 16 de março de 455 D.C, em Roma, quando o imperador estava praticando com o arco e flecha, os dois bárbaros mataram Valentiniano III, bem como o eunuco Heraclius, que o acompanhava. Assim, terminava a dinastia inaugurada pelo imperador Teodósio, o Grande no Ocidente.

Naquele mesmo ano, Roma seria alvo de um devastador saque pelos Vândalos e, no espaço de apenas 21 anos, o Império Romano do Ocidente deixaria de existir.

                                                                      FIM

CUIDADO COM OS IDOS DE MARÇO!

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Adivinho:    —    César!!!!
César: —              Ei! Quem me chama?
Casca: —              Silêncio, novamente! Pare tudo!
César: —              Quem dentre a multidão disse meu nome?
                               Ouvi uma voz, mais alta do que a música, bradar por César…
                               Fala! César se acha disposto para ouvir-te!
Adivinho: —         Tem cui­da­do com os idos de março!
César: —              Que homem é esse?
Brutus: —            Um adivinho. Manda que tu tomes cuidado com os idos de março.

(Ato I, Cena II, Júlio César, de William Shakespeare)

Os idos de março, no antigo calendário romano, correspondiam ao dia 15 de março.

A passagem acima, ocorrida no dia 15 de março mais importante da História da Humanidade, aqui contada nos versos magistrais de Shakespeare, segundo o historiadores romanos, aconteceu realmente. Suetônio preservou até o nome do adivinho, Surinna, , e Plutarco e Cássio Dio também narram o mesmo fato.

No dia 15 de março de 44 A.C, Caio Júlio César, Ditador Perpétuo de Roma, o homem mais poderoso que governara a República Romana em seus 465 anos de existência, acordou e passou a manhã pensando se deveria ou não comparecer a uma sessão do Senado Romano.

Foi um momento em que o destino do Mundo se equilibrou à maneira de uma bola de tênis em cima de uma rede, como na célebre cena do filme Match Point, de Woody Allen…

Na semana dos idos de março, vamos republicar nossa série sobre o drama político que resultou no assassinato de César.

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(Cena do clássico “Julius Caesar” (1953) dirigido por Joseph L. Mankiewicz)

GLICÉRIO – O ANTEPENÚLTIMO IMPERADOR ROMANO DO OCIDENTE

Glicerio_-_MNR_Palazzo_Massimo.jpg(moeda de Glicério, foto de TcfkaPanairjdde)

Em 3 de março de 473 D.C., em Ravena, Itália,  Flavius Glycerius (Glicério) foi escolhido como novo Imperador Romano do Ocidente, pelas tropas comandadas por Gundobado, o Burgúndio, que sucedera seu tio Ricimero na condição de Patrício (um título que no final do Império era dado ao comandante militar supremo do exército romano, ou Magister Militum, normalmente um chefe bárbaro germânico).

Glicério, quando de sua ascensão ao trono, ocupava o cargo de Comes Domesticorum (Conde dos Domésticos), ou seja, comandava o regimento de guardas imperiais do Palácio de Ravena. E antes deste posto, as fontes citam que Glicério ocupou um comando militar na Dalmácia.

As fontes nada mencionam sobre a origem de Glicério, mas, certamente, ele devia ser um cidadão romano e sem antepassados bárbaros recentes, pois,  para ser considerado um candidato aceitável para o Senado Romano e para a população italiana, era necessário ter este pedigree.

Com efeito, apesar de Ricimero  ser a eminência parda do Império do Ocidente desde 456 D.C. e o responsável pelas nomeações dos imperadores Majoriano, Líbio Severo e Olíbrio, ele mesmo jamais se atreveu a assumir o trono, uma vez que Ricimero era filho de Rechila, o rei dos Suevos, na Galícia e norte do atual Portugal e neto, por parte de mãe, de Wallia, rei dos Visigodos. E se Ricimero,  mesmo depois de quase vinte anos de poder, não foi um pretendente viável ao trono, muito menos o seria seu sucessor e sobrinho, Gundobado.

Contudo, apesar de ser um efetivo criador de imperadores, Ricimero preferiu não se opor à indicação de Antêmio (467/472 D.C.), feita pelo pelo Imperador Romano do Oriente, Leão I, para ser o novo imperador do Ocidente, devido ao fato de que Ricimero precisava do apoio de Constantinopla para contrabalançar a influência de Geiserico, rei dos Vândalos. Como retribuição à sua boa vontade e provável compensação, Ricimero recebeu a mão de Alypia, a filha de Antêmio, em casamento.

Como imperador, Antêmio procurou atacar os dois maiores problemas que ameaçavam a sobrevivência do Império do Ocidente:  a) a ocupação dos Vândalos na África, governados pelo astuto e competente rei Geiserico, que fazia incursões na Itália (entre as quais o Grande Saque de Roma, em 455 D.C) e no Mediterrâneo e intervinha constantemente nos assuntos do governo e, b) a expansão dos Visigodos  na Gália.

E, mais importante, Antêmio contava com o apoio de Leão I, o novo Imperador Romano do Oriente, que também estava comprometido com uma estratégia de enfraquecimento do poder dos bárbaros e, como visto, mostrava-se interessado nos assuntos ocidentais. Sem a participação de Constantinopla, contudo, nenhum plano nesse sentido seria possível, porque seus recursos materiais e humanos eram muitos superiores aos disponíveis ao imperador ocidental.

Leo I Louvre Ma1012 n2 by Marie-Lan Nguyen

Com efeito, o fato é que, após a perda da África, em  sua maior fonte de grãos, em 435 D.C., e de boa parte da Gália, a sua província mais rica, o Império do Ocidente mal tinha recursos para pagar o seu exército composto, majoritariamente, de mercenários bárbaros e tribos germânicas servindo como foederati.

Porém, a grande expedição conjunta contra Cartago, a capital dos Vândalos na África, em 468 D.C., foi um retumbante fracasso. E Antêmio não teve mais sorte contra os Visigodos, que derrotaram as tropas ocidentais próximo a Arles, inclusive matando seu filho, Anthemiolus.

Esses insucessos tornaram Antêmio muito mais dependente de seu general Ricimer, que, ostensivamente, já se mexia para colocar um novo fantoche no trono ocidental.

O estopim para  o conflito aberto entre Antêmio e o seu comandante-em-chefe Ricimer foi a execução do senador Romanus, amigo próximo e aliado do general bárbaro, acusado de conspiração, o que levou Ricimer a abandonar Roma acompanhado de 6 mil  guerreiros, em direção a Milão.

O bispo de Pavia intermediou uma trégua entre Antêmio e Ricimer que durou um ano. Quando as hostilidades recomeçaram, Antêmio julgou mais seguro ir se refugiar na Basílica de São Pedro, no Vaticano, que, desde o reinado de Constantino I era a sede do Bispado de Roma.

Leão I, preocupado com a crise, resolveu mandar à Roma o senador Olíbrio, que se encontrava em Constantinopla para intermediar um novo acordo entre os adversários, além de um emissário levando uma carta para Antêmio.

Segundo uma das fontes, porém, a verdadeira intenção de Leão I era se livrar de Olíbrio, já que este era suspeito de ser aliado de Geiserico, o rei dos Vândalos, que por duas vezes já tinha patrocinado a candidatura dele ao trono.

Contudo, os soldados de Ricimer controlavam o Porto de Roma e a carta do imperador foi interceptada. Ao ser aberta a carta, uma surpresa: Leão I dava instruções a Antêmio para executar Olíbrio assim que este chegasse à Roma.

Em abril de 472 D.C. (data provável), Ricimer proclamou Olíbrio como novo imperador do Ocidente. Porém, os nobres e a população de Roma ficaram do lado de Antêmio.

Seguiram-se cinco meses de combates urbanos nas ruas de Roma, com Antêmio e seus partidários entrincheirados no Palatino. Porém, quando Ricimer conseguiu  cortar a rota entre o Palácio e o Porto fluvial do Tibre, interrompendo o abastecimento de víveres, Antêmio foi obrigado a ir se refugiar novamente na Basílica de São Pedro (outra fonte menciona a Igreja de Santa Maria in Trastevere). Vale citar que, entre as tropas comandadas por Ricimer, estava Odoacro, chefe da tribo dos Scirii.

Em uma última tentativa desesperada, durante o conflito, Antêmio enviou um pedido de ajuda às tropas da Gália, também compostas de mercenários germânicos, sendo que Ricimer havia feito, concomitantemente, idêntica solicitação.

Ocorre que o primeiro a atender o pedido foi Gundobado, o sobrinho de Ricimer, que ocupava o cargo de Magister Militum per Gallias. O provável substituto de Gundobado, Bilimer, também veio em socorro de Antêmio, mas foi derrotado e morto nas proximidades de Roma.

Derrotado e sem reforços, Antêmio tentou fugir disfarçado de mendigo, mas foi decapitado por Gundobado, que não deu a mínima para o fato do imperador estar refugiado em uma igreja.

basilica são pedro 21.jpg(Antiga basílica de São Pedro,no Vaticano, construída pelo imperador Constantino, o Grande. Ela durou até a atual ser construída, no século XVI).

Assim, Olíbrio assumiu o trono, mas, novamente, quem governava de fato era Ricimer, secundado por Gundobado. O novo imperador era integrante de uma das famílias senatoriais mais ilustres e mais ricas do Baixo Império Romano, os Anícios, mas isso não lhe seria de muita serventia, pois o que contava agora era a capacidade de controlar tropas e recursos e isso ele não tinha. Para piorar, como não é de surpreender, ele não foi reconhecido pelo imperador do Oriente, Leão I, o único capaz de oferecer algum auxílio.

Uns 30 ou 40 dias após a ascensão de Olíbrio ao trono, Ricimer morreu, aparentemente de causas naturais, sendo sucedido por Gundobado, agora o novo Patrício.

O reinado de Olíbrio seria curto e insignificante. Não havia nada que ele pudesse fazer para reverter a situação terminal do Império do Ocidente, se é que ele tinha alguma disposição de tentar, assim, não espanta que os esparsos indícios de suas ações relacionem-se com a religião cristã.  Em outubro ou novembro de 472 D.C., Olíbrio morreu de alguma doença cujo sintoma era hidropsia.

Com a morte de Olíbrio, Gundobado tinha 3 alternativas: a) colocar um sucessor no trono ocidental; b) oferecer o trono ocidental a Leão I, que, afinal, ainda que apenas formalmente, tinha legitimidade para reunificar o Império Romano; ou c) proclamar-se ele mesmo o novo imperador romano.

Gundobado, como vimos, jamais seria um imperador aceito pela aristocracia senatorial romana. Esta podia não ter nenhum poder militar, mas o fato é que os senadores do Ocidente tinham, em regra, uma fortuna descomunal, proveniente de séculos de acumulação de patrimônio, e, além disso, a administração pública ocidental não conseguiria funcionar sem o concurso da classe senatorial.

Ironicamente, reunificar o Império também era uma opção indesejada pela aristocracia ocidental. Os senadores ocidentais gozavam de  privilégios e isenções muito maiores do que os seus colegas em Constantinopla, onde a autoridade do imperador era exercida de modo muito mais intenso e abrangente.

Assim, Gundobado optou por agir de modo convencional e escolher mais um fantoche para o trono do Império Romano do Ocidente. E, naquele  03 de março de 473 D.C. (uma fonte menciona o dia 05), o escolhido foi Glicério, que, além de ser aceitável para o Senado, como já mencionamos, era, ao menos tecnicamente, até aquele momento, um subordinado do Magister Militum,  ou seja, do próprio Gundobado.

Glicério e Gundobado, de início, tentaram ser conciliadores com Leão I, como foi demonstrado pelo fato de Glicério não haver escolhido, como era de seu direito, o segundo Cônsul para o ano de 474 D.C, deixando que o neto de Leão I, que era ainda uma criança pequena, servisse como único cônsul para aquele ano.

Mesmo assim, Leão I, que em breve morreria, em janeiro de 474 D.C., não reconheceu a escolha de Glicério como imperador pelo Senado Romano, designando Julius Nepos, o comandante do exército oriental na Dalmácia e parente da imperatriz Verina, como seu candidato ao trono do Ocidente, encarregando-o de uma expedição para depor Glicério. Com a morte de Leão I, seu neto, Leão II assumiu o Império Romano do Oriente, o qual  nomeou, como co-imperador, o próprio pai, e, então, o verdadeiro homem-forte em Constantinopla, Zenão I.

Ainda tentando ser reconhecido pelos colegas orientais, Glicério chegou a cunhar moedas com as efígies de Leão II e Zenão I, mas a corte de Constantinopla se manteve inflexível em considerá-lo apenas um usurpador.

A situação do Ocidente só piorava e Glicério, sem muitas alternativas, fez o melhor que podia para lidar com a ameaça de invasão dos Visigodos e dos Ostrogodos à Itália, que, na prática, era a única província que ele ainda governava de fato: Mandou as tropas que ainda restavam combater, com algum sucesso, os Visigodos (na verdade, era apenas um bando desses bárbaros, comandado por um subordinado do rei Eurico), e, após conseguir acumular algum ouro, pagou  2 mil moedas de ouro aos Ostrogodos para que eles fossem para algum outro lugar. Infelizmente, o lugar onde ambos os bandos foram parar foi a Gália, que já estava sendo avassalada por várias invasões.

Enquanto isso, a expedição de Julius Nepos, que estava aguardando o inverno passar para poder zarpar, finalmente, com a chegada da primavera, pôs-se a caminho de Ravena.

Glicério, que durante o seu reino residira em Ravena ou em Milão, foi para Roma, talvez porque essa cidade estivesse mais distante da Dalmácia, ou, também,  porque lá, contando com o apoio do Senado Romano e da população, ele tenha pensado que fosse mais fácil resistir.

Contudo, Julius Nepos certamente tinha ciência da manobra de Glicério, pois navegou em direção ao Mar Tirreno, desembarcou em Portus (porto de Roma, no litoral), sendo que Glicério não esboçou nenhuma resistência, sendo deposto sem esboçar qualquer luta, em junho de 474 D.C.

Ao contrário do desfecho mais corriqueiro na longa lista de imperadores romanos, Glicério não foi executado, mas apenas destituído do trono e nomeado Bispo de Salona, na Dalmácia (lugar onde Julius Nepos decerto tinha mais capacidade de controlar qualquer ação sua).

O Senado Romano imediatamente reconheceu Julius Nepos como o novo imperador do Ocidente.

Não há registro de qualquer medida tomada por Gundobado para defender Glicério ou atacar Julius Nepos. É bem possível que ele estivesse na Gália, lidando com os ataques de outras tribos germânicas ou tentando reunir tropas para  a defesa de Glicério, não se sabe ao certo. Outra possibilidade é que ele tenha ido reclamar a sua parte no reino dos Burgúndios, na Gália Lugdunense (que daria origem à atual região da Borgonha), após a morte de seu pai, Gundioc, e do irmão dele, Chilperico I, esta ocorrida justamente em 474 D.C. De qualquer forma, o seu comando militar na Itália não existia mais e de fato não  consta que ele tenha voltado à península.

A última notícia que se tem de Glicério data do ano de 480 D.C., quando ele ainda era Bispo de Salona e, segundo um autor antigo, teria participado de uma conspiração para assassinar, ironicamente,  ninguém menos do que o próprio Julius Nepos, que, após ser deposto pelo novo Magister Militum do Ocidente, Orestes, em 29 de agosto de 475 D.C., havia fugido para a Dalmácia.

MARÇO – O MÊS DA GUERRA

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No antigo calendário romano, utilizado antes do calendário Juliano adotado por ordens do Ditador Caio Júlio César, março era o primeiro mês do ano. Assim, o ano romano começava nas calendas (1º dia de cada mês romano) de março.

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Março, ou Martius, em latim, recebeu esse nome em homenagem ao deus da Guerra, Marte, e, de fato, a temporada de guerra começava nesse mês, quando o inverno aproximava-se do seu fim e começava a primavera.

Entre os muitos festivais romanos celebrados no mês de março, destacam-se os célebres Bacanais (Bacchanalia), em honra a Baco, deus do Vinho,  no dia 17.

Nas calendas de março (dia 1º), ocorreram vários fatos marcantes na História de Roma, entre eles:

1 – Em 509 A.C. : foi celebrado a primeira procissão triunfal (Triunfo) em Roma, pela vitória na Batalha de Silva Arsia, onde os Romanos, liderados pelos dois primeiros Cônsules, Lúcio Júnio Bruto e Públio Valério Publícola, derrotaram os Etruscos das cidades de Veii e Tarquinia, liderados por Tarquínio, o Soberbo,  o antigo rei de Roma que havia sido destronado pela revolta liderada pelos dois cônsules, no episódio que levou à instauração da República Romana. Na Batalha, Lúcio Júnio Bruto foi morto.

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2 –  Em 86 A.C.: o general romano Lúcio Cornélio Sila, encarregado da guerra contra Mitridates VI, rei do Ponto e várias cidades gregas,  consegue invadir Atenas, após vários dias de cerco, e captura o tirano Aristion, aliado de Mitridates, que é executado.

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3- Em 293 D.C.: Os imperadores Diocleciano e Maximiano, respectivamente Augustos das metades oriental e ocidental do Império Romano, nomeiam como Césares os generais Constâncio Cloro e Galério, para ajudá-los a administrar o Império e serem os seus sucessores, instaurando formalmente o sistema de governo que ficaria conhecido como “Tetrarquia”.

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4- Em 317 D.C.: Crispo e Constantino II, filhos do imperador Constantino, o Grande, são nomeados Césares.

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