CONSTÂNCIO III – O ÚLTIMO IMPERADOR-SOLDADO DO OCIDENTE

Em 8 de fevereiro de 421 D.C., o Comandante em Chefe do Exército do Império Romano do Ocidente, Flávio Constâncio, foi coroado Augusto pelo Imperador Honório, tornando-se, assim, ele também, Imperador Romano do Ocidente, com o nome de Flavius Constantius Augustus, tendo passado à História como Constâncio III.

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(Solidus, moeda romana de Constâncio III, foto de http://www.cngcoins.com)

Flávio Constâncio foi um militar de carreira no Exército Romano, e, como tantos outros colegas seus que ingressaram na carreira militar na segunda metade do  século IV, ele nasceu nos Bálcãs, mais especificamente em Naissus (atual Nîs, na Sérvia), cidade natal do imperador Constantino, o Grande, em honra de quem, provavelmente, ele foi batizado. Constâncio devia ser de origem Trácia e/ou Ilíria.

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(Ruínas do Palácio de Constantino, nos arredores de Naissus, foto de J tomic m )

Não se sabe a data do nascimento de Flávio Constâncio, mas as fontes nos contam que, durante o reinado do Imperador Romano do Ocidente, Honório, ele alcançou o posto de Magister Militum (Marechal do Exército), por volta de 410 D.C (ou talvez até um pouco antes disso), ocasião em que ele deveria possuir uma idade entre 40 e 50 anos,  aproximadamente. Portanto, Flávio Constâncio deve ter nascido na década de 350/360 D.C., em uma época na qual, provavelmente pela última vez, o Império do Ocidente conseguiu reunir um exército composto de um núcleo principal de romanos,  e não de bárbaros, até a desastrosa Batalha de Adrianópolis, em 378 D.C,  que foi vencida pelos Godos.

Ele é descrito como sendo um homem de olhos grandes, cabeça larga e pescoço comprido, que, em público, mantinha uma expressão sisuda, mas em particular tinha um comportamento afável.

No início do seu longo (393 a 423 D.C), mas fraco, reinado, Honório (que aos 9 anos de idade, havia sido elevado a  co-imperador, cerca de dois anos antes da morte de seu pai, Teodósio), teve como tutor – e homem-forte do governo – o general de ascendência vândala (por parte de pai) Estilicão (Stilicho), o comandante-em-chefe do Exército Romano do Ocidente, e maior responsável pela estratégia defensiva da metade ocidental do Império, no período.

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(um dos dois painéis de um díptico de marfim, representando o general Estilicão)

O maior desafio enfrentado por Estilicão foi a crescente ameaça dos Godos, que após serem assentados em terras romanas e apaziguados por Teodósio, voltaram a agir militarmente contra o Império. Porém, para ser combater essa ameaça com eficiência, ele necessitava da cooperação entre as metades ocidental e oriental do Império Romano, o que Estilicão, que era visto com suspeitas em Constantinopla, não conseguiu lograr, tanto devido à rejeição de sua origem semi-bárbara, como também por causa das suas reiteradas tentativas de intervenção nos assuntos da corte oriental.

O fato é que Estilicão falhou nas duas oportunidades que teve para liquidar os Godos no campo de batalha, deixando –  intencionalmente ou não, ninguém pode afirmar –  o rei deles, Alarico, escapar.

Para piorar a situação, depois que os Godos invadiram a Itália, Estilicão, sabedor da precariedade da situação militar ocidental, defendeu que as vultosas exigências que os Godos estavam fazendo para deixarem a península italiana fossem atendidas. Daí, os adversários políticos de Estilicão no Senado, integrantes da tradicional nobreza romana, pretextando indignação, aproveitaram a contemporização defendida pelo general para estimular um motim do Exército da Itália, razão pela qual  Estilicão acabou sendo deposto e executado ordens de Honório, em 408 D.C.  Contudo, a execução de Estílicão teve como único resultado prático fazer minguar as fileiras do exército ocidental, majoritariamente compostas de mercenários bárbaros, que ele tinha reunido em razão do seu prestígio militar e político.

A situação militar do Ocidente se deteriorava rapidamente, valendo lembrar que, em 406 D.C., os bárbaros Vândalos, Alanos e Suevos aproveitaram o congelamento do Reno para invadir a Gália em grande número. O fato de Ravenna não ter sido capaz de organizar nenhuma ação militar em resposta, levou o governador da Britânia, Flavius Claudius Constantinus (Constantino III) a se autoproclamar imperador romano, para, em seguida, atravessar o Canal da Mancha, levando consigo todo o exército romano da Britânia e desembarcando na Gália, em 407 D.C., sendo que, no ano seguinte, ele conseguiu estabelecer a sua capital na cidade de Arles.

Flávio Constantino conseguiu guarnecer durante algum tempo a fronteira da Gália e exercer autoridade sobre a Hispânia,  mas ali teve que lidar com uma incursão de Visigodos liderados por Sarus,  agindo a serviço do imperador Honório, e, apesar de ter sido sitiado por Sarus em Valência, os bárbaros foram obrigados a se retirar ante a chegada de um contingente comandado por Gerontius e Edobichus, dois generais subordinados a Flávio Constantino. Não possuindo outras alternativas militares para combater o usurpador, Honório, ao receber os emissários enviados por Flávio Constantino, em 409 D.C. reconheceu-o como “Augusto” e, portanto, seu colega imperial,  ficando ele conhecido como Constantino III. Este, em seguida,  também elevou seu próprio filho à condição de Augusto, que reinou com ele adotando o nome de Constante II (não confundir com o imperador bizantino do mesmo nome)

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(Solidus de Constantino III, foto de Classical Numismatic Group)

Entretanto, Constantino III,  logo  em seguida, teve que enfrentar uma rebelião do seu próprio subordinado, o general Gerontius, que, provavelmente insatisfeito o envio de Constante II para a Hispânia, ali aclamou o usurpador Maximus como imperador. Desse modo, os reduzidos domínios de Constantino III ficaram sob ataque por todos os lados, pois, Gerontius, após derrotar as tropas de Constante II, na cidade de Vienne, em 410 D.C, matando este, sitiou o próprio Constantino, em Arles. Simultaneamente, uma nova horda de bárbaros cruzou o Reno, enquanto a Britânia, que havia ficado indefesa, estava sob ataque dos Saxões. A ilha nunca mais voltaria ao controle do Império e, em resposta a uma petição dos cidadãos romanos locais, suplicando por tropas para a sua defesa, Honório respondeu que eles deveriam procurar se defender valendo-se dos próprios meios…

Enquanto isso, depois de saquearem Roma, também em 410 D.C, os Godos permaneceram ao largo na Itália, levando com eles, como refém, a irmã de Honório, a princesa Gala Placídia, sem, contudo, serem capazes de tomar a capital ocidental, Ravenna.

Foi nesse quadro que Flávio Constâncio surgiu em cena como o Comandante em Chefe (Magister Militum) do Exército Romano do Ocidente e, liderando as tropas da Itália, em 411 D.C., ele entrou na Gália e alcançou Arles, onde, ao constatarem a sua chegada, a maior parte das tropas de Gerontius desertou e se juntou a ele, obrigando Gerontius a fugir para a Espanha, onde mais tarde ele seria cercado e cometeria suicídio. Contudo, Constantino III, não se beneficiou em nada da desgraça de Gerontius, pois, imediatamente, Flávio Constâncio passou a sitiar Constantino III, em Arles. Após Flávio Constâncio derrotar um contingente liderado por Edobichus, que tentou inutilmente levantar o cerco, Constantino III, constatando que era inútil a resistência, acabou se rendendo e, inicialmente, ele recebeu salvo-conduto para se retirar da cidade, sob a condição de se ordenar padre. Porém, pouco depois,  ele acabou sendo executado por ordens de Honório, quando já se encontrava próximo à Ravenna.

Os bárbaros Burgúndios e Alanos, aproveitando a divisão entre os Romanos, juntaram-se a alguns nobres galo-romanos que apoiaram Constantino III e aclamaram Jovinus, um senador da Gália, como imperador. Com isso, os Burgúndios, liderados pelo rei Gundahar (ou Gunther), conseguiram se estabelecer também na margem ocidental do rio Reno (eles já controlavam um trecho do outro lado do rio), na região onde ficavam as cidades de Vormatia (atual Worms), Noviomagus (atual Speyer) e Argentorarum (atual Estrasburgo), que posteriormente ficaria conhecida como Borgonha, em função do nome da tribo,  fundando o Reino da Borgonha, que seria incorporado pelo Reino dos Francos, em 534 D.C.

Enquanto isso, de volta à Itália, após derrotar Gerontius, Flávio Constâncio aumentou a pressão militar sobre os Godos, que foram obrigados a deixar a Itália, possivelmente com o incentivo de alguma quantidade de ouro, e foram se instalar no sul da Gália, em 412 D.C.

Não obstante, Jovinus seria derrotado pelos Visigodos liderados pelo rei Ataulfo,  que chegou na Gália, tencionando, a princípio, aliar-se a Jovinus. Porém, concomitantemente, seu inimigo mortal,  o Godo Sarus, que havia rompido com Honório, também ingressara na Gália, com o mesmo propósito.  Na primeira oportunidade que teve de alcançar o inimigo, Ataulfo atacou e matou Sarus.  Nâo se sabe ao certo, mas a ação de Ataulfo de alguma forma deve ter contribuído para atrapalhar sua aproximação com Jovinus. Quando este nomeou seu próprio irmão, Sebastianus, como Augusto, Ataulfo, que provavelmente estava de olho no posto para ali colocar algum fantoche, entrou em contato com Dardanus,  o Prefeito Pretoriano da Gàlia, que ainda se mantinha fiel a Honório, e este enviou uma mensagem ao seu imperador, informando que Ataulfo propunha uma aliança contra Jovinus, mediante certos termos. Aceita a proposta, Ataulfo atacou e derrotou Sebastianus e Jovinus fugiu para Valência, mas foi capturado e enviado a Dardanus, em Narbonne, onde foi executado e decapitado, em 413 D.C. As cabeças dele e de Sebastianus foram enviadas à Ravenna. Honório depois as mandou para Cartago, para advertir outros usurpadores, como veremos a seguir.

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(Relevo em marfim, retratando Flávio Constâncio (Constâncio III), como Cônsul)

Em recompensa aos seus bons serviços, Flávio Constâncio foi nomeado Cônsul para o ano de 413 D.C.

O motivo pelo qual Constâncio não enfrentou diretamente a rebelião de Jovinus foi devido ao fato de que, em 412 D.C, outro usurpador, Heraclianus, o Conde da África, insatisfeito com a nomeação de Flávio Constâncio como Magister Militum, revoltou-se e declarou-se imperador. Em seguida, ele suspendeu o envio de grãos da África para Roma (como o Egito fazia parte do Império Romano do Oriente, a província era a principal fonte de trigo para a cidade de Roma) e armou uma frota, com a qual desembarcou na Itália, no comando de seu exército.

Provavelmente, Heraclianus agiu dessa forma por acreditar que Honório não dispunha mais de tropas suficientes, pois as fontes relatam que ele ficou espantado quando percebeu o tamanho do exército comandado por Flávio Constâncio, que o interceptou em Utriculum, possivelmente na Úmbria. Seguiu-se uma encarniçada batalha, onde Heraclianus foi derrotado e fugiu de volta para a África, onde, no entanto, foi preso e executado no Templo da Memória, em Cartago.

Na Gália, após uma breve trégua com Honório, que foi selada pelo casamento do rei visigodo Ataulfo com Gala Placídia (aparentemente, não contra a sua vontade), em 414 D.C., Flávio Constâncio, inteligentemente, submeteu a costa da Gália a um bloqueio naval, causando a ocorrência de fome entre os Godos, que, enfraquecidos, foram obrigados a deixar a Gália e ir para a Espanha, onde o seu rei Ataulfo acabaria sendo assassinado por um desafeto, em 415 D.C.

Em função da inteligente estratégia de Constâncio, o sucessor de Ataulfo, Wallia, teve que celebrar uma paz em termos mais favoráveis ao Império Romano, assumindo o compromisso de, em troca de comida,  os Godos voltarem ao status de foederati, o que implicava na obrigação de prestar serviço militar ao Império, além de terem que devolver a princesa Gala Placídia  à Corte de Ravenna.

Em razão de mais este sucesso, Flávio Constâncio foi novamente recompensado, em 416 D.C., agora com o título de “Patrício”, distinção que, no Baixo Império Romano do Ocidente, significava algo parecido a “Grão-Vizir”, ou seja, uma espécie de misto entre primeiro-ministro e comandante supremo do Exército, e que era, sem dúvida, a pessoa mais importante depois do Imperador.

Selando a  ascensão de Flávio Constâncio, em 1º de janeiro de 417 D.C,  o general e Gala Placídia casaram-se, a princesa, tudo indica, contra a vontade dela.Provavelmente o motivo da insatisfação era o fato de Gala Placídia ser irmã de Honório, filha de Teodósio, o Grande, e neta de Valentiniano I – o último realmente grande imperador do Ocidente, e, portanto, naquele momento, a mulher de nobreza mais ilustre do Império Romano, obrigada a se casar com um general de origem obscura.

Ainda em 417 D.C. nasceu a primeira filha do casal, Grata Justa Honoria. Assim, Flávio Constâncio era, formalmente, um membro da família imperial, e da prestigiada Casa de Teodósio e ele foi, novamente, nomeado para um Consulado.

O sucesso da estratégia empregada contra os Godos, permitiu que Flávio Constâncio conseguisse, em 417 D.C.,  por fim à prolongada Revolta dos Bagaudas, a qual durava desde 409 D.C. Tratava-se de um conflito ocasionado pelo colapso da autoridade romana na Gália após a invasão bárbara de 406 D.C, em que uma grande quantidade de habitantes da província, forçados pela violência e miséria, tornaram-se foras-da-lei, formando verdadeiras milícias que, inicialmente orientadas para o combate aos bárbaros, reverteram ao banditismo, voltando-se contra as autoridades romanas.

Em 2 de julho de 419 D.C., nasceu, em Ravena, capital do Império Romano do Ocidente, Flavius Placidius Valentinianus, o primeiro filho varão de Flávio Constâncio e de Gala Placídia., que, futuramente se tornaria o imperador Valentiniano III.

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(Tradicionalmente, embora não haja evidências concretas, acredita-se que este medalhão de vidro pintado ostente os retratos de Gala Placídia e seus filhos Valentiniano III e Justa Honória)

Novamente, em 420 D.C, Constâncio foi nomeado Cônsul, pela terceira vez, juntamente com o imperador do Oriente, Teodósio II, no que parecia um testemunho de que sua pessoa, e, sobretudo, a sua política, deviam estar sendo aprovadas pela Corte de Constantinopla.

Finalmente, em 8 de fevereiro de 421 D.C, viria o justo reconhecimento do papel crucial que Flávio Constâncio vinha desempenhando no Ocidente: ele recebeu de Honório o título de “Augusto“, o que significa que ele reinaria junto com Honório, como co-imperador, passando à História como Constâncio III. Entretanto, Teodósio II, em Constantinopla não reconheceu a nomeação dele.

Narra uma fonte que Constâncio III, na época de sua aclamação, teria manifestado pesar pela perda de liberdade pessoal, entendendo que  aquilo era um dos fardos que o título de imperador acarretava.

Entretanto, Constâncio III somente reinaria por 7 meses, vindo a falecer de causas desconhecidas, em 2 de setembro daquele ano de 421. Ele, então,  já devia ter entre 50 e 60 anos, ou talvez até mais. Há um relato de que ele planejava uma expedição contra o Oriente para forçar o seu reconhecimento.

Gala Placídia e seu ainda bebê Valentiniano, inclusive, tiveram que se asilar em Constantinopla, devido aos tumultos que se seguiram à morte de Constâncio III. Uma fonte alega que o motivo teria sido o repúdio da massa de Ravenna ao boato de que ela e seu irmão Honório mantivessem uma suposta relação incestuosa. Vale citar, no entanto, que o historiador Edward Gibbon menciona que os soldados godos, nessa ocasião, ficaram do lado de Placídia.

Diante dessa informação de  que houve manifestações públicas contra a morte do imperador e hostilidade contra a imperatriz-viúva, pode-se especular que Placídia tenha tido alguma participação na morte de seu marido Constâncio III (não se olvidando que este foi um casamento forçado), ou, pelo menos,  o povo pode ter pensado assim, já que a massa realmente poderia ter motivos para suspeitar de uma imperatriz que, antes do casamento com Constâncio III, tinha  primeiro sido esposa de um rei Godo…

Seja como for, a verdade é  que, naquele momento, o que Roma mais precisava  era de um imperardor-soldado, e de um com talento militar. Por isso, a morte de Constâncio III veio se somar a uma série de infortúnios que se abateram sobre o Império Romano do Ocidente, em um momento decisivo para a sua sobrevivência.

FIM

Os 10+ Filmes sobre Roma

Desde os primórdios da arte cinematográfica, isto é, a partir da invenção do cinema pelos irmãos Lumiére, em 1895, histórias tendo como pano de fundo Roma e o Império Romano têm sido temas de roteiros de filmes.

Com efeito, já em 1899, o grande pioneiro francês da Sétima Arte, George Mélies, filmou “Cleópatra“; em 1907, os norte-americanos produziram a primeira versão de “Ben-Hur“; e, em 1910, os italianos lançaram o filme “Agripinna“, sobre a vida atribulada da célebre mãe do imperador Nero. Quatro anos depois, em 1914, o filme “Gaius Julius Caesar“, baseado na obra de Shakespeare foi produzido também na Itália.

Mas, indubitavelmente, os anos 50 e 60 foram o auge do tema “Roma”na telona, tendo a indústria cinematográfica vivido uma verdadeira “Romamania” (inserindo-se em uma moda, assim apelidada pela crítica especializada de sword-and-sandals, ou, em português, “espada e sandálias”) lançando películas que iam de grandes superproduções hollywoodianas, como “Ben-Hur” (versão de 1959), “Quo Vadis“, “Manto Sagrado“, “Spartacus” e “Cleópatra” (1963), e até mesmo uma febre de filmes sobre gladiadores, notadamente de produção italiana, abrindo um filão que foi aproveitado por atores musculosos e inclusive fisiculturistas que viraram atores (além de filmes sobre personagens mitológicos).

Não obstante, pesquisando os registros disponíveis na internet sobre filmes abordando a temática sobre Roma, podemos constatar que eles se dividem nos seguintes grandes grupos (devendo ser notado que frequentemente vários desses temas apareçam entrelaçados nos respectivos enredos):

1- Filmes sobre a vida de uma grande figura histórica romana ou ligada à História de Roma, sobressaindo, em indisputado primeiro lugar, Cleópatra, a rainha do Egito, seguida por Júlio César e por Espártaco (vale notar que filmes sobre este último também se incluem no tema “gladiadores”). Vindo bem mais atrás, aparecem Cipião, o Africano, Messalina, Agripina, a Jovem, e alguns poucos imperadores, como Calígula e Nero. Observe-se que alguns grandes inimigos de Roma também foram temas de filmes, como Aníbal e Átila, o Huno;

2- Filmes com temática central focada nos primórdios do Cristianismo, envolvendo passagens da vida de Jesus Cristo, dos Apóstolos ou de personagens fictícios, mas vivendo em ambiência romana, como “Ben Hur“, “Quo Vadis“, “O Manto Sagrado“, “Barrabás” (estes dois últimos também abarcam o tema “gladiadores”) e o “Cálice Sagrado“;

3- Filmes sobre a erupção do Vesúvio e a destruição de Pompéia, existindo vários exemplos, como “Os Últimos Dias de Pompéia“, que por si só já teve quatro refilmagens;

4- Filmes sobre gladiadores, sendo o exemplo mais famoso, o “Gladiador” (2000), de Riddley Scott, valendo citar “Demetrius e os Gladiadores“, de 1954, um precursor em Hollywood neste tema (o filme é uma continuação de “O Manto Sagrado“) e cuja temática também aborda o Cristianismo;

5- Filmes sobre a decadência e queda do Império Romano, cujo exemplo mais significativo é “A Queda do Império Romano” (1964), mas esta temática também abrange filmes mais recentes como “A Última Legião” (2007) e “Rei Arthur” (2004), com Clive Owen. Também podemos incluir o excelente “Alexandria” (2009), estrelando Rachel Weisz, nesta subcategoria.

Há também alguns filmes sobre batalhas importantes travadas pelos romanos (embora elas não estejam entre os temais mais recorrentes na telona), como por exemplo, sobre a Batalha da Floresta Teutoburgo, e o cerco à Masada. Aliás, um tema que vem tendo crescente interesse pela indústria cinematográfica, são os conflitos de romanos contra bárbaros, valendo como exemplo os dois filmes recentemente produzidos sobre o suposto desaparecimento da IX Legião na Britânia: ”Centurião” (2010) e ”A Legião Perdida” (2011) e a minissérie “Bárbaros“, da Netflix (embora a rigor, esta não seja uma produção cinematográfica, hoje em dia tal distinção está cada vez mais fluida).

Praticamente todos esses filmes (eu não me lembro de nenhum que não o tenha feito) repetem algumas idiossincrasias que são praticamente convenções na filmografia envolvendo Roma, embora sejam historicamente incorretas:

a) Soldados romanos envergando armaduras de placas articuladas (lorica segmentata) e escudos retangulares seja qual for a época: As primeiras começaram a ser usadas por volta de 9 D.C, e praticamente abandonadas por volta 250 D.C; já os segundos começaram a ser usados também por volta do início do reinado de Augusto e abandonados por volta de 250/300 D.C, no entanto, quase sempre se vê nos filmes os soldados romanos usando esses modelos em períodos anteriores ou posteriores aos mencionados (diga-se de passagem, os elmos quase sempre também são historicamente imprecisos).

b) Romanos usando uma espécie de munhequeira de couro ou de metal nos pulsos ou punhos: Não há sequer uma imagem ou estátua sobrevivente da Roma Antiga que mostre que os romanos envergassem tal ornamento nos pulsos, seja qual for o período (Alguns acham que o motivo disso seria esconder marcas deixadas pelo uso de relógio de pulso pelos atores, mas o mais provável é que seja apenas pura repetição de filmes anteriores)

c) Romanos em suas casas comendo sentados em cadeiras em torno de uma mesa: Os Romanos comiam reclinados ou mesmo deitados em triclínios, como era de costume, ao menos na elite e classes médias.

d) Gladiadores profissionais lutando até a morte sem a presença de um árbitro: Gladiadores profissionais podiam ocasionalmente morrer repentinamente em função de um golpe recebido, seja na arena ou posteriormente, mas, quando isso não ocorria, cabia ao patrocinador, ou à autoridade mais elevada presente, decidir se o perdedor seria morto (às vezes eles deixavam que o público decidisse) – algo que, no caso de lutadores profissionais não era comum. Essas lutas mais qualificadas não devem ser confundidas com aquelas travadas por condenados à morte obrigados a lutarem entre si. Na verdade, sabemos que os combates travados entre profissionais sempre tinham um árbitro que intervinha em determinadas situações, como um juiz de luta moderno.

e) Soldados romanos cavalgando cavalos com estribos: Os estribos só foram introduzidos na Europa e no Mediterrâneo entre os séculos VI e VII D.C, e somente no período do Império Romano do Oriente, chamado de Império Bizantino, quando o Império do Ocidente já havia caído. Os romanos antes disso utilizavam um tipo de sela com quatro protuberâncias, que ajudavam a dar um apoio melhor ao cavaleiro.

f) Templos e estátuas romanas de mármore imaculadamente brancos, sem qualquer pintura ornamental: As Estátuas e os detalhes arquitetônicos dos templos greco-romanos, como frisos, relevos, capitéis das colunas, entre outros, eram pintados, frequentemente, em cores vivas.

Assim, sem mais delongas, vamos aos dez filmes sobre Roma que eu considero (é uma avaliação pessoal e discricionária minha, mas claro que apreciaríamos sugestões nos comentários) os mais interessantes (atenção! contém “spoilers“):

1 – BEN-HUR (1959)

Baseado no livro de ficção “Ben-Hur, a Tale of Christ“, escrito por Lew Wallace, que já havia sido filmado em 1907 e 1925, e, no total, pelo que pude apurar na internet, teve cinco versões produzidas no total. A versão do filme dirigido por William Wyler, um dos maiores cineastas de todos os tempos (diretor de clássicos como “A Princesa e o Plebeu”, “Da Terra Nascem os Homens”, “Jezebel”, o “Morro dos Ventos Uivantes”, entre outros), foi durante muito tempo, com onze estatuetas, o longa-metragem recordista isolado em premiações do Oscar, que até hoje não foi superado (“Titanic” e o “Senhor dos Anéis, o Retorno do Rei”, posteriormente, o igualaram). Trata-se de um história em sua maior parte ambientada na Jerusalém da época do ministério público e martírio de Jesus Cristo, no início do século I D.C, durante o período romano e centrada no antagonismo entre o nobre judeu Judá Ben-Hur e o comandante da guarnição romana, Messala, que foram amigos durante a infância e adolescência de ambos, passada na aristocrática residência da família de Ben-Hur. O roteiro e a bela atuação de Charlton Heston no papel principal conseguem expressar bem a tensão existente entre uma elite judaica – já um tanto romanizada (ou, mais propriamente, helenizada) e relativamente submissa ao domínio romano, da qual faziam parte o protagonista do filme e sua família – e os anseios pela independência da Judéia, inspirados pelo patriotismo e sentimento nativista judaico, dois pólos entre os quais eles parecem oscilar. Um atentado ao novo governador da Judéia, ao qual Ben-Hur é injustamente vinculado, fazem com que ele e sua família caiam em desgraça e, em virtude disto, várias vicissitudes o fazem entrar em contato com Jesus Cristo e seus ensinamentos, afetando decisivamente a vida dele. Uma passagem não muito citada nas críticas, mas que me agrada muito, é a relação afetuosa criada entre Ben-Hur e o Comandante da Frota Romana, Cônsul Quintus Arrius, que Ben-Hur salva do naufrágio da galera onde ele havia sido condenado a servir como remador, terminando por ser adotado como filho pelo Romano, assumindo o seu nome e posição social, enquanto vivia na própria Roma. Embora haja algumas impropriedades um tanto irrelevantes no que se refere a uniformes militares, vestuário e estilos arquitetônicos, “Ben-Hur” é uma superprodução primorosa, e a trilha sonora (Miklos Rozsa), na minha opinião, é simplesmente fantástica. A cena mais eletrizante do filme é uma sensacional corrida de quadrigas, no que seria o Hipódromo de Jerusalém .

Trailer oficial de Ben-Hur

2- GLADIADOR (2000)

Dirigido pelo consagrado cineasta inglês Ridley Scott (“Alien, o 8º Passageiro”, “Blade Runner”, “Cruzada”, “Thelma & Louise”, “Napoleão”, etc), Gladiador pode ser considerado o filme que, após algumas décadas de ostracismo, ressuscitou a onda de filmes épicos com temática da Antiga Roma. Fizemos uma análise detalhada desta produção, sob o aspecto da historicidade, em nosso artigo MAXIMUS DECIMUS MERIDIUS-GLADIADOR-O QUE É FATO E O QUE É FICÇÃO?, onde apontamos algumas inconsistências e inverossimilhanças. Mesmo assim, Gladiador é seguramente um dos melhores filmes sobre Roma. O prezado leitor, caso os tenha assistido, perceberá que Ridley Scott sem sombra de dúvidas procurou inspiração em “A Queda do Império Romano“, “Spartacus” e “Ben-Hur” e, de certa forma, o filme pode ser considerado uma mistura bem-sucedida dos três filmes citados: A trama centrada no homem que cai em desgraça, tem sua família destruída e volta para se vingar no Circo ou na Arena é nitidamente inspirada em “Ben-Hur“; Já o contexto envolvendo o fim do reinado do imperador romano Marco Aurélio (Richard Harris), sua suposta preferência em entregar o poder a um general de caráter reto e confiável (Maximus, interpretado por Russell Crowe), com a finalidade de restaurar um governo republicano, em vez de ser sucedido pelo filho Cômodo (Joaquin Phoenix), que o assassina (passagem sem suporte histórico) e se torna o novo imperador, instaurando um governo inepto e corrupto, bem como o envolvimento amoroso de Lucilla (Connie Nielsen), irmã de Cômodo, com Maximus e o combate de gladiadores entre o imperador e o general foram extraídos diretamente de “A Queda do Império Romano“; E a trajetória da transformação e treinamento do general Maximus para virar gladiador ecoa claramente esta mesma parte do filme “Spartacus“. A reconstituição do Coliseu é de tirar o fôlego. O filme teve uma sequência lançada em 2024, “Gladiador 2”, que a crítica considerou bem inferior, mesma avaliação que eu tive ao assisti-lo.

Gladiador, Trailer oficial

3-A QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO (1964)

O enredo do filme, de 1964, foi, conforme declarou seu próprio diretor, Anthony Mann (“El Cid”, “O Homem do Oeste”, “Winchester ’73”, etc.), inspirado no clássico livro “A História do Declínio e Queda do Império Romano“, de Edward Gibbon, escrito no século XVIII e até hoje uma das obras mais influentes sobre o tema, fruto de uma copiosa leitura sobre praticamente todas as fontes antigas existentes sobre o Império Romano, e cuja tese central é que este caiu pela corrupção interna agravada pela ação conjunta dos bárbaros e do Cristianismo. Assim como no livro, a trama se inicia no final do reinado do imperador Marco Aurélio, quando, nas palavras do historiador romano Cássio Dião: o Império regrediu “de uma época de ouro para uma de ferro e ferrugem“. No filme, assistimos o velho imperador-filósofo (interpretado por Alec Guiness), após externar o seu desejo de entregar o trono a um fiel auxiliar, o honesto general Lívio, que também era amante de sua filha, Lucilla, esperando que este implante um bom governo em prol de todos os habitantes do Império, em detrimento de seu próprio filho Cômodo (Christopher Plummer), que, transtornado, assassina o pai. Como já dissemos, as cenas iniciais do filme, retratando a sombria fronteira do Danúbio, bem como a trama central, certamente inspiraram o “Gladiador“, de Ridley Scott, mais de 45 anos depois. O ponto alto do filme, além do bom desempenho dos atores, incluindo Sophia Loren, no auge da beleza, no papel de Lucilla, é a excelente reconstituição cênica de ambientes externos e internos, destacando-se o que talvez seja a mais exata reprodução do Fórum Romano já feita nas telas (veja vídeo abaixo). Um personagem importante do filme é o liberto de origem grega Timonides (James Mason), filósofo estoico e homem de confiança de Marco Aurélio, que, junto com Lívio e Lucilla, tentam, inutilmente, convencer Cômodo a acomodar e integrar os bárbaros derrotados na campanha como cidadãos do Império Romano.

4- QUO VADIS (1951)

Baseada no livro homônimo do escritor polônes Henryk Sienkiewicz, que já havia sido filmado três vezes anteriormente à versão que estamos comentando, sendo a primeira no remoto ano de 1901, ainda na infância da Sétima Arte, a versão dirigida por Mervyn LeRoy talvez seja o maior e melhor exemplo dos filmes de temática cristã em que o cerne é o antagonismo entre a nascente religião e o Império Romano, que tenta, inutilmente, sufocá-la. No enredo, vemos o laureado general Marcus Vinicius (Robert Taylor), retornando de campanha na Britânia, apaixonar-se por Lígia (Deborah Kerr), moça nativa da região da Lygia, na Europa Central, que foi enviada à Roma como refém do Império e acolhida como filha de criação por Aulus Plautius, ex-governador da província e também general aposentado. Lígia e seu pai de criação converteram-se ao Cristianismo e ela, inicialmente, embora sinta-se atraída por ele, reluta em aceitar as investidas de Marcus, que apela a seu tio, o famoso novelista Petronius, amigo do imperador Nero, para que este intervenha junto ao imperador e ordene que a refém lhe seja entregue como esposa. Lívia acaba se apaixonando por Marcus, mas tenta convertê-lo à fé cristã, com o auxílio do apóstolo Paulo, que frequentava a casa de Aulus, mas o romano resiste. Durante o romance, acontece o terrível Grande Incêndio de Roma (64 D.C.). Nero coloca a culpa nos cristãos e ordena que sejam presos para serem executados, o que acarreta a prisão de Lígia e de seu pai de criação, que também havia se convertido. Marcus tenta salvá-los, mas também é preso. Todos deverão ser executados no Circo. Na prisão, Lígia e Marcus, que começa a aceitar a fé da amada, casam-se, em uma cerimônia celebrada pelo apóstolo Pedro, preso com eles na mesma cela, e que havia retornado à Roma, de onde havia fugido da Perseguição movida por Nero, após ouvir a voz de Jesus Cristo, quando ele já estava na Via Ápia, perguntar: “Aonde vais” (Quo Vadis?), um episódio narrado nos Atos dos Apóstolos. A imperatriz Popéia, enciumada por ter tido suas investidas sexuais rejeitadas por Marcus em razão de seu amor por Lígia, arquiteta uma maneira de executá-los com requintes de crueldade no Circo, mas a Plebe se toma de simpatia por eles, os antigos soldados subordinados de Marcus aderem, e daí a trama se entrelaça com os eventos que culminaram no suicídio de Nero e sua sucessão por Galba, que se encontrava a caminho de Roma.

Sem dúvida, a atuação brilhante de Peter Ustinov como o imperador Nero contribuiu decisivamente para tornar “Quo Vadis” um dos melhores filmes sobre o Império Romano. Ele conseguiu incorporar e transmitir vários traços da personalidade de Nero que brotam das fontes antigas: mimado, vaidoso, dramático, licensioso, inseguro, etc. Outro ponto marcante é a cena inicial do filme, onde Nero, cercado de seus cortesãos, ensaia uma ode sobre a Queda de Tróia, que na verdade se aplicaria à destruição da própria Roma: embora a letra da canção seja fictícia, a melodia que a acompanha é da única música autêntica do período romano que chegou até os nossos dias – Trata-se do “Epitáfio de Seikilos“, que foi descoberto em um mausoléu aproximadamente do século I D.C, na Turquia, onde foram gravados os versos, acompanhados da notação musical que permitiu a reconstrução da música. O belíssimo texto em grego, que, aliás constitui uma perfeita expressão da filosofia epicurista, diz:

Enquanto viveres, brilha.

De tudo não te aflijas,

Pois curta é a vida

E o tempo cobra seu tributo

Acima, inserimos um link com o vídeo da execução da canção original. E abaixo, segue o vídeo com a cena do filme:

5- SPARTACUS (1960)

Dirigido pelo magistral Stanley Kubrick (“2001 – Uma Odisséia no Espaço”, “Laranja Mecânica”, “O Iluminado”, etc.), o filme conta a história de um escravo trácio que é treinado como gladiador e lidera uma revolta de escravos que põe em cheque a própria República Romana, constituindo um dos enredos sobre Roma preferidos pelos cineasta (tendo sido filmado duas vezes anteriormente e, no mínimo quatro vezes no total), dando também origem a uma série televisiva já na terceira temporada. Embora, por conveniência, tenhamos incluído o filme dentro do grupo “Gladiadores”, na verdade é um filme que ultrapassa essa temática, adentrando com relativa profundidade (para os padrões da indústria cinematográfica norte-americana) o campo da crítica social. Centrado na história real de Espártaco, o roteiro é consideravelmente baseado nas fontes originais romanas, notadamente Apiano e Plutarco, não obstante, com inclusões de alguns personagens fictícios, como o político Gracchus, a escrava Varínia e o escravo Antoninus. Assim, o filme começa com Espártaco (Kirk Douglas), um escravo trácio capturado em batalha e enviado para trabalhar nas minas, que é condenado à morte por insubmissão e chama a atenção do lanista (empresário dono de uma escola e de uma trupe de gladiadores) Lentulus Batiatus (personagem real mais uma vez brilhantemente interpretado por Peter Ustinov), que o compra e o leva para ser treinado em sua escola de gladiadores, em Cápua, de onde ele acaba fugindo, junto com seus companheiros e sua namorada, a escrava Varínia (Jean Simmons), liderando uma revolta à qual se juntam milhares de escravos da região, no decorrer da qual derrotam várias expedições militares romanas enviadas contra eles, até que o Estado resolve recorrer ao cruel e ambicioso general Marco Licínio Crasso (Sir Lawrence Olivier), que deseja o comando para subverter a democracia e assumir poderes ilimitados, fato que gera grande preocupação em seu inimigo político, Gracchus, um político defensor das liberdades públicas e dos direitos dos plebeus no Senado Romano e que simpatiza com as demandas dos revoltosos. Entre os senadores moderados que os dois rivais políticos tentam atrair para o seu lado está o jovem senador Caio Júlio César (John Gavin), também partidário da plebe, mas que teme o enfraquecimento ao poder romano decorrente da Revolta. Como se sabe, Espártaco e seus companheiros no final são derrotados militarmente, mas não sem antes fazerem um comovente libelo pela Liberdade e Justiça Social. Esta mensagem candente do roteiro escrito por Dalton Trumbo, roteirista perseguido no auge do Macarthismo nos EUA, levou a protestos da extrema-direita e de grupos anticomunistas contra a exibição do filme (Vale observar que a figura de Espártaco inspirou as Olimpíadas do bloco socialista, as chamadas “Espartaquíadas”). Outra polêmica foi causada pelas cenas que apontam a atração homossexual de Crasso pelo escravo Antoninus (Tony Curtis), sugestão também presente, de modo mais sutil, em uma cena entre Crasso e Júlio César nas termas. As cenas de batalha, com milhares de figurantes, são também muito boas (vide vídeo abaixo).

6- JÚLIO CÉSAR (1953)

Nenhuma relação de filmes sobre Roma pode estar completa sem uma película sobre o romano mais famoso que já existiu, e ninguém expressou com mais brilho os eventos dramáticos que culminaram no assassinato do Ditador Caio Júlio César do que o inglês William Shakespeare. Assim é que dos nove filmes que pesquisamos com o título “Júlio César”, pelo menos quatro são baseadas na peça homônima escrita pelo Bardo. E de todos eles, a versão de 1953 é considerada pelos críticos como a melhor. Dirigida pelo medalhão de Hollywood, Joseph L. Mankiewicz, diretor, produtor e roteirista de grandes filmes ( “A Malvada”, “A Condessa Descalça”, “Cleópatra”, etc), traz Marlon Brando, em grande atuação, como Marco Antônio, James Mason como Brutus e Sir John Gielgud como Cássio, e é, basicamente, uma encenação cinematográfica da célebre peça. Brando brilha no famoso discurso de Marco Antônio no funeral de César (vide abaixo).

7- CLEÓPATRA (1963)

A rainha egípcia figura em primeiro lugar entre os personagens da História de Roma levados às telas, com pelo menos 20 películas produzidas, inclusive um filme produzido no Brasil, em que Cleópatra foi interpretada por Alessandra Negrini. A superprodução de 1963, dirigida por Joseph L. Mankiewicz, custou tanto dinheiro que quase quebrou o estúdio Twentieth Century Fox, embora tenha sido um sucesso de público e sido indicada para nove Oscars, sendo vencedora de quatro estatuetas. O roteiro, baseado nos textos de Plutarco e Suetônio, inicia-se com a vitória de Júlio César (Rex Harrison) na Batalha de Farsália, após a qual, ele persegue seu rival Pompeu, o Grande até Alexandria, capital do Egito Ptolemaico. Ao desembarcar na cidade, César toma conhecimento que Pompeu havia sido morto pelos egípcios, e se vê obrigado a intervir na luta pelo trono travada entre o ainda menino Ptolomeu XIII e sua irmã Cleópatra (Elizabeth Taylor, deslumbrante), de quem César toma partido, após eles passarem a noite juntos. Boa parte do filme é centrada na relação amorosa entre Cleópatra e Marco Antônio (Richard Burton), até o trágico fim do casal. Na época, Elizabeth Taylor era a estrela máxima da Fox (ela recebeu pelo papel o maior cachê até então pago para uma atriz) e de certa forma ela se comportava no set quase como se fosse uma Cleópatra renascida (aliás, hoje, a escolha da superstar de pele alva como a neve e olhos azuis-violetas para interpretar Cleópatra certamente geraria polêmica nas redes sociais…), fazendo exigências e intervindo na produção do filme, e também tornou-se lendária a química entre ela e Richard Burton , e, de fato, os dois, apesar de ambos serem casados, iniciaram um tórrido romance durante as filmagens, fato que rendeu bastante publicidade. Mas seria Rex Harrison quem ganharia um Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo papel de Júlio César. Há grandes cenas no filme, como a entrada triunfal de Cleópatra em Roma, como hóspede de César, a barcaça real de Cleópatra, a Batalha de Actium e a cena final, retratando a morte da Rainha.

8- CALÍGULA (1979)

Admitimos que muitos não concordarão com a inclusão desta versão de “Calígula” na nossa lista. De fato, este filme tem uma história conturbada. Ele foi produzido por Bob Guccione, dono e editor da revista masculina “Penthouse” e, inicialmente, parecia que a intenção era realmente produzir um filme épico com atores e roteiristas consagrados. Por exemplo, o roteiro original do filme foi escrito pelo consagrado escritor Gore Vidal, autor de romances bem densos sobre personagens e acontecimentos do Mundo Antigo e da História Americana (“Juliano”, “Criação”, “Império”, “Lincoln”, etc), mas começou sendo dirigido pelo diretor italiano Tinto Brass, que já tinha em sua filmografia filmes com conteúdo erótico. Vários atores consagrados aceitaram o convite e atuaram no filme, tais como Peter O’ Toole (Tibério), Malcolm Mcdowell (Calígula), Helen Mirren (Cesônia) e Sir John Gielgud (Nerva). A grande maioria das cenas desenvolve-se em aposentos fechados, com poucas externas, e, por isso, também não há muitos figurantes (exceto nas cenas de orgias…), mas a cenografia e os figurinos em geral são de ótima qualidade. O enredo segue fielmente o relato da Vida de Calígula escrito pelo historiador romano Suetônio. Então, a nosso ver, os que leram o texto de Suetônio não deveriam se indignar tanto com a quantidade de pornografia presente no filme. O ambiente de medo e apreensão no qual Calígula viveu ainda na adolescência, as atrocidades e a depravação que ele assistiu enquanto morou com seu tio Tibério, em Capri, as circunstâncias que resultaram na sua elevação ao trono, seu envolvimento amoroso com a própria irmã, Drusila, o seu comportamento paranóico e sua progressiva perda de contato com a realidade, resultando em seu reinado tirânico, vida devassa e assassinato, e, finalmente, os episódios de depravação e devassidão, tudo foi descrito com detalhes no livro de Suetônio, e reproduzido no filme. Todavia, o grande problema da obra foi o fato de Bob Guccione, após as filmagens terem sido concluídas, e já em trabalho de pós-produção, ter filmado e incluído várias cenas de sexo explícito encenadas com a participação de algumas “Pets” da Penthouse (como eram chamadas as modelos que posavam nuas na revista), o que, de fato, constituiu, a nosso ver, um motivo justo para os profissionais da indústria cinematográfica “mainstream” terem se sentido enganados. Devido a isso, o filme foi rejeitado por alguns participantes: Gore Vidal já havia abandonado o time durante a produção por discordâncias com Tinto Brass e este proibiu também que seu nome figurasse como diretor, e, finalmente, de modo geral, os atores mostraram contrariados. Helen Mirren, ferina, descreveu o filme como “Uma mistura irresistível de arte e genitais“. O filme também foi alvo de processos em vários países devido ao conteúdo considerado impróprio. Não obstante todas essas polêmicas, eu considero a atuação de Mcdowell no papel principal muito boa (embora muitos possam achar que ele de certa forma reproduz sua interpretação do psicopata personagem central de “Laranja Mecânica”, mesmo assim, esta cai bem em um personagem como Calígula). Para mim, o filme tem uma atmosfera sombria e surrealista que também se amolda bem ao relato de Suetônio.

9-ALEXANDRIA (2004)

Escolhemos “Alexandria“, produção espanhola falada em inglês cujo nome original é “Ágora” porque é um dos poucos filmes que retrata com fidelidade o período do Império Romano Tardio e a ascensão do Cristianismo como religião oficial do Império Romano, em detrimento da civilização clássica greco-romana e do Paganismo, nas décadas que antecederam a Queda do Império do Ocidente. O filme, dirigido por Alejando Amenábar (“Mar Adentro”, “Os Outros”) é centrado na estória da personagem histórica Hipátia de Alexandria, uma filósofa neoplatônica e professora de Filosofia, Matemática e Astronomia na Escola Neoplatônica de Alexandria, que funcionava no Mouseion (Museu), considerado por alguns como uma instituição possivelmente sucessora da famigerada Biblioteca de Alexandria. Hipátia era filha do filósofo Téon, de quem ela herdou a inteligência e o amor pela ciência e cultura clássica greco-romana - que cada vez mais se viam cercadas e atacadas pelo fanatismo das lideranças cristãs – e ela trava uma luta inglória para tentar obter apoio das autoridades seculares romanas e impedir que a Escola seja engolfada pelas disputas entre cristãos e judeus, que assolam a cidade, no final do século IV D.C. Enquanto isso, seus alunos Orestes (Oscar Isaac), que se torna o Prefeito de Alexandria, e Davus (Max Minghella), escravo de Téon, debatem-se entre o amor que eles sentem pela Filósofa e as tensões provenientes da religião a qual se converteram. Hipátia é interpretada, com muita sensibilidade, pela ótima atriz inglesa de beleza suave, Rachel Weisz, e a reconstituição da antiga Alexandria é muito bem feita.

10- RESSURREIÇÃO (2016)

Produção mais recente da nossa lista, é mais um filme passado durante o período do Império Romano que aborda temas cristãos, notadamente a prisão, execução e alegada ressurreição de Jesus Cristo. Mas o interessante neste filme é que esses eventos são vistos pela ótica de um tribuno militar romano, Clavius (Joseph Fiennes), que é encarregado pelo governador romano Pôncio Pilatos (Peter Firth) de investigar o misterioso desaparecimento do corpo de Jesus da tumba onde foi sepultado, em Jerusalém. Clavius fora o encarregado de supervisionar a crucificação de Jesus e guardar o sepulcro, e, portanto, também está diretamente interessado em descobrir e punir os culpados. Entretanto, ao proceder a investigação, entrar em contato com os apóstolos e encontrar o próprio Jesus ressuscitado, Clavius acaba sendo profundamente mudado pelos acontecimentos. Reconhecemos que, de todos os filmes relacionados, este seja o que é menos representativo como obra cinematográfica, mas achamos muito original o enredo que faz torna parte do filme similar a um filme policial ou de detetive. Como curiosidade, observamos que nunca existiu, em Roma ou no Império Romano, uma instituição policial encarregada de investigar crimes comuns. Mas havia, no Exército Romano, tropas chamadas de “speculatores” que funcionavam como batedores e faziam trabalho de reconhecimento, e, ocasionalmente espionavam o território inimigo. Mais tarde, ainda durante o Império, foi criado um corpo de “Frumentarii“, que tinham o seu próprio quartel, em Roma (Castra Peregrina) e eram encarregados de tarefas de inteligência contra opositores internos, funcionando como uma polícia secreta ou polícia política, principalmente investigando indivíduos ou grupos internos considerados perigosos pelo regime imperial. Portanto, uma missão como a dada a Clavius no filme certamente seria executada pelos Frumentarii.

“ROMA” (SÉRIE – 2005/2007) – BÔNUS

Embora, a rigor, não seja uma produção cinematográfica, mas sim uma série televisiva, eu considero impossível para o leitor interessado no tema não mencionar a série da HBO, que, infelizmente, só conseguiu ser produzida para duas temporadas, devido aos custos astronômicos.

E esses custos decorrem, em sua maior parte, da primorosa produção, que, por exemplo, investiu milhões de dólares na construção de cenários grandiosos e muito historicamente acurados nos célebres estúdios Cinecittá, na própria Roma.

Entre os principais motivos que tornam “Roma” uma série imperdível é o fato de ser a única, na minha opinião, que conseguiu chegar mais perto de como seria a Antiga Roma real do século I A.C: Uma cidade enorme para os padrões da Antiguidade, com algumas construções grandiosas, mas que cresceu quase sem planejamento nenhum, onde as multidões se espremiam pelas ruas, frequentemente sujas. Uma cidade ruidosa e multicolorida. Uma cidade onde a maioria comia na rua, em tabernas (termopólios) comidas exóticas, onde ricos aristocratas circulavam em meio a multidão de proletários e escravos tentando ganhar a vida. A série retrata bem uma República estraçalhada por conflitos sociais, corrupção disseminada e disputas políticas resolvidas na base da intimidação e violência, de certa forma como se fosse uma mistura de Washington, Brasília e Mumbai transplantados para a Antiguidade, sendo que muitos estudiosos já disseram que a política no Império Romano seria bem semelhante a de alguns países do que já foi chamado de Terceiro Mundo.

O fio condutor dos episódios são os dois personagens principais, o centurião Lucius Vorenus (Kevin McKidd) e o legionário Titus Pullus (Ray Stevenson), que servem na mesma legião sob o comando de Júlio César, na Gália, sendo que esses dois militares de fato foram expressamente mencionados por César em seus “Comentários sobre as Guerras Gálicas“, em uma passagem. Durante as duas temporadas, os dois participam diretamente de vários episódios históricos no contexto da Guerra Civil do Primeiro (César x Pompeu) e do Segundo Triunvirato (Otávio x Marco Antônio). Realmente, alguns acontecimentos são bem romanceados e outros são simplesmente inventados, mas, no geral, a série retrata bem o contexto histórico em que eles ocorreram. Ciarán Hinds talvez tenha feito a melhor interpretação de Júlio César já filmada. Outros personagens marcantes são: Atia (Polly Walker), mãe de Otávio (Mark Pirkis e Simon Woods, nas fases adolescente e adulta), que era amante de Marco Antônio (James Purefoy) e inimiga figadal de Servília (Lindsay Duncan), que por sua vez, era amante de César e mãe de Brutus (Tobias Menzies), o enteado e assassino do Ditador; Marco Túlio Cícero (David Bamber); e também: Posca (Nicholas Woodeson), escravo de César; Níobe (Indira Varma), esposa de Vorenus; e Cleópatra (Lindsay Marshal).

Os 10+ (Arcos do Triunfo)

Os arcos do triunfo são uma criação romana*, um monumento normalmente isolado (isto é, que não está ligado a outros edifícios ou inserido em uma muralha ou parede), e cujo elemento principal é a existência de uma passagem sob uma ou mais arcadas, atravessadas por uma estrada ou via (quando o arco do triunfo é em formato cúbico e apresenta um arco em cada um dos seus lados, é chamado de “Tetrápilo“, do grego Tetrapylon).

Assim, basicamente, os arcos do triunfo são estruturas retangulares ou quadradas, com um ou mais arcos em suas fachadas, decoradas com relevos e ostentando uma inscrição comemorativa no ático (parte superior de uma construção, que fica acima das cornijas, na frente do telhado, ocultando este) erguidos sobre caminhos que os atravessavam, e em cujo topo havia um grupo de estátuas. A criação dos arcos do triunfo decorre do antigo costume romano de realizar uma procissão triunfal (Triunfo) pelas ruas da cidade de Roma, por ocasião das vitórias militares obtidas contra seus inimigos, onde desfilavam o general vitorioso e suas tropas vitoriosas, acompanhadas do produto do saque e dos chefes inimigos eventualmente capturados. Essa procissão também tinha um caráter religioso.

Mais tarde, durante o Império, arcos do triunfo também foram erguidos para homenagear a pessoa do imperador, não necessariamente em função do sucesso em alguma guerra (vale citar que, a partir de Augusto, os Triunfos eram exclusivos dos imperadores). Durante a República, os arcos do triunfo não eram erguidos para serem permanentes, e geralmente, no início, eram feitos de madeira (e eram então chamados de “fornices”, plural de “fornix“). Os arcos em alvenaria, revestidos de mármore, que chegaram aos dias de hoje, são do período imperial. 

A construção de arcos do triunfo espalhou-se por todo o Império e praticamente toda cidade que se prezasse construiu um. Após a Queda do Império Romano, a prática reviveu durante o período carolíngio e, principalmente, durante a Renascença. Depois disso, quase todos governantes que se propuseram a exaltar a sua própria grandeza ou a de seu país ergueram arcos do triunfo ao redor do mundo, sendo o mais famoso, o Arco do Triunfo de Paris, erguido por Napoleão, mas eles existem também, entre outros inúmeros lugares, como Moscou, Berlim, Londres, Nova York e até em Pyongyang, na Coréia do Norte.

*Nota: Os romanos não inventaram o arco e provavelmente o assimilaram da arquitetura etrusca, mas não há registro de algum povo que os tenha precedido ao construí-los do mesmo modo e com o mesmo propósito dos seus arcos triunfais.

Dito isso, sem mais delongas, vamos àqueles que eu considero os arcos do triunfo romanos sobreviventes mais bem preservados e/ou impressionantes (OBS: trata-se de uma seleção discricionária minha, e a posição na lista não indica primazia. Aceitamos outras sugestões nos comentários).

1- Arco de Tito, em Roma

Foto Jebulon, CC0, via Wikimedia Commons

Decidimos começar nossa relação pelos três arcos mais importantes sobreviventes na cidade de Roma, e destes, o Arco de Tito é o mais antigo.

O Arco de Tito foi erguido após a morte deste imperador, cujo reinado foi pelo seu irmão e sucessor, Domiciano, em 81 D.C, no Fórum Romano, para comemorar tanto a deificação do querido e finado Tito (que reinou por menos de dois anos e cuja morte foi muito pranteada pelo Senado e pelo povo), quanto a vitória que este obteve ao conquistar Jerusalém, ainda durante o reinado do pai de ambos, Vespasiano, na Guerra da Judéia, em 70 D.C.

Composto por um arco singelo, ladeado por quatro colunas coríntias, é uma construção elegante, com cerca de 15 m de altura e 13 metros de largura. Uma de suas características mais notáveis são os painéis de relevo nas paredes sob o arco, retratando a procissão triunfal com os despojos do Templo de Jerusalém, incluindo o célebre candelabro de sete braços (Menorá).

A inscrição original diz: 

“SENATVS POPVLVSQVE ROMANVS . DIVO TITO · DIVI · VESPASIANI · F(ILIO) VESPASIANO · AVGVSTO”

(“O Senado e o Povo de Roma (ao) Divino Tito Vespasiano Augusto, filho do divino Vespasiano Augusto”)

2- Arco de Septímio Severo, em Roma

Foto A. Hunter Wright, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons

Este arco foi construído no Fórum Romano, quase na frente à Cúria do Senado, em 203 D.C, e dedicado à vitória do imperador Septímio Severo, e seus filhos, Caracala e Geta, na campanha contra os Partas.

O Arco de Septímio Severo tem cerca de 23 m de altura e 25 m de largura, e é composto de um arco central maior ladeado por dois arcos laterais menores, entremeados por quatro colunas em estilo compósito, e tem sua fachada, bem como as paredes interiores dos arcos, ricamente decoradas por relevos retratando a campanha, sendo que nos ‘tímpanos” (espaços triangulares entre a moldura quadrada onde o arco se insere e este) foram esculpidas vitórias aladas carregando trófeus de despojos dos inimigos. Infelizmente, os relevos externos encontram-se bastante erodidos pelo tempo e pelas intempéries.

Como curiosidade, nota-se que as efígies retratando Geta, o filho mais novo de Septímio Severo, foram intencionalmente apagadas em função da “damnatio memoriae” (condenação de uma pessoa a ter sua imagem excluída dos registros e monumentos públicos) decretada pelo Senado Romano por ordem de seu irmão e assassino, Caracala.

A inscrição dedicatória existente no ático deste arco diz:

IMP · CAES · LVCIO · SEPTIMIO · M · FIL · SEVERO · PIO · PERTINACI · AVG · PATRI PATRIAE PARTHICO · ARABICO · ET PARTHICO · ADIABENICO · PONTIFIC · MAXIMO · TRIBUNIC · POTEST · XI · IMP · XI · COS · III · PROCOS · ET IMP · CAES · M · AVRELIO · L · FIL · ANTONINO · AVG · PIO · FELICI · TRIBUNIC · POTEST · VI · COS · PROCOS · (P · P · OPTIMIS · FORTISSIMISQVE · PRINCIPIBUS) OB · REM · PVBLICAM · RESTITVTAM · IMPERIVMQVE · POPVLI · ROMANI · PROPAGATVM · INSIGNIBVS · VIRTVTIBVS · EORVM · DOMI · FORISQVE · S · P · Q · R.

(“Ao Imperador César Lúcio Septímio Severo Pio Pertinax Augusto Pártico Arábico Adiabênico, filho de Marco, Pais da Pátria, Pontífice Máximo, no décimo-primeiro ano do seu Poder Tribunício, no décimo-primeiro ano de seu governo, Cônsul por três vezes, e Procônsul, e ao Imperador César Marco Aurélio Antonino Augusto Pio Feliz, filho de Lúcio, no sexto ano de seu Poder Tribunício, Cônsul e Procônsul, Pais da Pátria, melhores e mais fortes Príncipes, por conta da restauração da República e extensão do Império do Povo Romano propagados pela sua insigne virtude, em casa e no exterior, o Senado e Povo Romano (dedicam este monumento”).

3- Arco de Constantino, em Roma

Foto Paris Orlando, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Foi dedicado em 25 de julho de 315 D.C para comemorar a vitória do imperador Constantino sobre seu rival Maxêncio, na Batalha da Ponte Mílvio, em 312 D.C., entre o Coliseu, o sopé da colina do Palatino e o Templo de Vênus e Roma. Segue o estilo arquitetônico do Arco de Septímio Severo, com um arco principal ladeado por dois arcos menores, só que entremeados por quatro colunas em estilo coríntio. Alguns estudiosos sugerem que este arco teria sido construído por Adriano ou Maxêncio, e remodelado após a vitória de Constantino, para homenageá-lo. Embora seja um dos mais imponentes (e bem preservados) arcos do triunfo que sobreviveram, na verdade o Arco de Constantino foi decorado com relevos e estátuas retiradas de monumentos mais antigos, erguidos pelos imperadores Trajano, Adriano e Marco Aurélio, tendo algumas cabeças sido retrabalhadas para representar Constantino. Um elemento notável que foi reutilizado neste Arco, que já referimos em nosso artigo sobre Antínoo é o “tondo” (painel circular) retratando uma caçada a um leão realizada por Adriano e seu amante, um episódio real no qual Adriano salvou a vida de Antínoo. Para muitos estudiosos, a necessidade de retirar peças de monumentos antigos seria uma prova do declínio da arte da escultura ocorrida no período do Império Romano Tardio, dentro de um quadro geral de decadência técnica e artística, o que para outros seria um tanto discutível, já que grandes obras arquitetônicas e artísticas foram produzidas nesta época, ainda que abandonando os canônes da arte clássica.

O Arco de Constantino tem cerca de 21m de altura e 26 de largura.

A inscrição dedicatória existente no ático deste arco, originalmente feita com letras de bronze, está escrita assim:

“IMP(eratori) · CAES(ari) · FL(avio) · CONSTANTINO · MAXIMO · P(io) · F(elici) · AVGVSTO · S(enatus) · P(opulus) · Q(ue) · R(omanus) · QVOD · INSTINCTV · DIVINITATIS · MENTIS · MAGNITVDINE · CVM · EXERCITV · SVO · TAM · DE · TYRANNO · QVAM · DE · OMNI · EIVS · FACTIONE · VNO · TEMPORE · IVSTIS · REMPVBLICAM · VLTVS · EST · ARMIS · ARCVM · TRIVMPHIS · INSIGNEM · DICAVIT”

(“Ao imperador César Flávio Constantino, o maior, pio e bendito Augusto, porque ele, inspirado pelo Divino, e pela grandeza de sua mente, livrou o Estado do tirano e de todos os seus seguidores ao mesmo tempo, com seu Exército e pela força justa das armas, o Senado e o Povo de Roma dedicaram este Arco, decorado com triunfos”).

Muitos estudiosos acreditam que a incomum alusão à inspiração de Constantino pelo “Divino” constituiu já uma alusão sutil â sua devoção ao Cristianismo, ou ao menos, um prenúncio da sua conversão (que somente seria oficializada com seu batismo no leito de morte, em 337 D.C). Outros consideram que a expressão utilizada é propositadamente ambígua, de modo a não desagradar tanto os cristãos como os pagãos. Vale lembrar que as fontes relatam que, antes da Batalha da Ponte Mílvio, Constantino teria tido uma visão ou um sonho no qual uma cruz de luz apareceu no céu, acompanhada da inscrição “In hoc signus vinces” (“Neste sinal, vencerás”).

4- Arco de Trajano, em Benevento, Itália

Foto Decan, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Este arco, um dos mais bem preservados entre todos os arco romanos sobreviventes, foi construído entre 114 e 117 D.C., comemorando as vitórias do imperador Trajano contra os Dácios (provavelmente também adicionando-se posteriormente elementos relativos às suas vitórias contra os Partas), e tem 15,60 m de altura por 8,60 de largura. Podemos considerá-lo um tipo intermediário entre o Arco de Tito e o Arco de Septímio Severo, tendo apenas um grande arco central com a fachada coberta de relevos, dos quais os mais interessantes são os que retratam o imperador distribuindo pães para crianças pequenas nos ombros dos seus pais, uma alusão ao programa dos Alimenta, instituído por Trajano em favor da população pobre da Itália.

Consta de sua inscrição dedicatória o seguinte texto:

IMP(peratori) CAESARI DIVI NERVAE FILIO NERVAE TRAIANO OPTIMO AUG(usto) GERMANICO DACICO PONTIF(ici) MAX(imo) TRIB(unicia) POTEST(ate) XVIII IMP(eratori) VII CO(n)S(uli) VI P(atri) P(atriae) FORTISSIMO PRINCIPI SENATUS P(opulus) Q(uo) R(omanus)”.

(“Ao Imperador César filho do Divino Nerva, Nerva Trajano, o melhor Augusto, Germânico Dácico, Pontífice Máximo, no décimo oitavo ano de seu Poder Tribunício, sete vezes aclamado imperador, seis vezes escolhido Cônsul, Seis Vezes aclamado Pai da Pátria, Princípe mais forte, o Senado e Povo de Roma (dedicam este monumento”).

5- Arco de Germânico, Saintes, França

Foto By Propre travail – Own work, CC BY-SA 2.5, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1965184

Este é um arco dedicado não apenas a um imperador, mas a um integrante da família imperial, Germânico, o sobrinho-neto de Augusto, que, ao adotar seu enteado Tibério, obrigou este, por sua vez a adotar o primeiro como herdeiro. O arco também é dedicado a este imperador e ao filho deste, Druso, mas estas inscrições encontram-se bem erodidas.

O Arco de Germânico foi construído na cidade de Saintes, França, então conhecida como Mediolanum Santonum, na Província da Gália Aquitânia, entre os anos 18 e 19 D.C, por iniciativa e às custas de um provincial importante, Caius Julius Rufus, e, originalmente, ficava no término da estrada que ligava Saintes a Lugdunum (atual Lyon), às margens do rio Charente. Mede 15 m de altura por 15,9 m de largura e possui dois arcos do mesmo tamanho, lado a lado.

Há uma inscrição dedicatória do monumento e outra inscrição alusiva ao financiador do monumento:

GERMANICO [CAESA]R[I] TI(berii) AUG(usti) F(ilio)
DIVI AUG(usti) NEP(oti) DIVI IULI PRONEP(oti)
[AUGU]RI FLAM(ini) AUGUST(ali) CO(n)S(uli) II IMP(eratori) II

(“A Germânico César, filho de Tibério Augusto, neto do divino Augusto, bisneto do divino Júlio, áugure, sacerdote dos augustais, Duas vezes Cônsul, aclamado imperador duas vezes“).

C(aius) IVLI[us] C(aii) IVLI(i) OTUANEUNI F(ilius) RVFVS C(aii) IVLI(i) GEDOMONIS NEPOS, EPOTSOVIRIDI PRON(epos) [SACERDOS ROMAE ET AUG]USTI [AD A]RAM QU[A]E EST AD CONFLUENT[E]M, PRAEFECTUS [FAB]RUM, D(at).

(Dado por Caius Julius Rufus, filho de Caius Julius Otuaneunus, neto de Caius Julius Gedemonius, bisneto de Epotsovirid(i)us, sacerdote do Culto de Roma e Augusto no altar de Confluens, prefeito dos trabalhos)”.

Esta é uma inscrição muito interessante porque nela podemos ver uma expressão do processo de romanização da Gália iniciado com a conquista por Júlio César. O bisavô, Epotosvirid, é mencionado com seu nome unicamente gaulês, já o seu filho, provavelmente o primeiro integrante da família a receber a cidadania romana, e seus netos, assumem prenomes romanos e o “nomen” da gens Júlia, em homenagem ao conquistador da Gália, como era comum no Mundo Romano, ainda acompanhados de um gentílico gaulês. Já o bisneto, o doador do monumento, Gaius Julius Rufus é apresentado com os seus três nomes na forma tradicional romana (tri nomina) completamente romanizados. Era característico da colonização romana manter as lideranças locais que aderiam aos conquistadores na condição de magistrados governantes das cidades, por isso, a família de Rufus provavelmente já devia ser da nobreza gaulesa mesmo da Conquista da Gália por César, o que, implicitamente, é orgulhosamente afirmado pela menção ao bisavô. Observe-se que “Confluentem” refere-se à Lugdunum (Lyon), que fica na confluência dos rios Ródano e Saône.

6- Arco dos Sérgios, Pula, Croácia

Foto By Sailko – Own work, CC BY 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=68380995

Escolhemos este arco (que na verdade é um arco funerário), porque ele é um dos raríssimos arcos sobreviventes dedicados não a um imperador ou membro da família imperial, mas a integrantes de uma família da elite, no caso, da cidade de Pola (atual Pula, na Croácia), que foi elevada ao status de colônia entre 45 e 46 A.C., durante a ditadura de Júlio César. Com efeito, as inscrições existentes no arco contam que ele foi erguido às expensas de Sálvia Póstuma Sérgia, provavelmente esposa (ou mãe) de Lúcio Sérgio Lépido, filho de Lúcio, que foi Edil (magistrado da cidade) e Tribuno Militar da Legião XXIX, e que deve ter falecido na Batalha de Actium, em 31 A.C. Poucos anos depois, o imperador Augusto, em 27 A.C., dissolveu a XXIX Legião, dentro do seu projeto de manter apenas 28 legiões compondo o Exército Romano. Portanto, estudiosos estimam que o arco deve datar aproximadamente do ano da dissolução da referida legião. Além dos dois, o Arco dos Sérgios também ostenta inscrições em memória de Lúcio Sérgio e Cneu Sérgio, filhos de Caio Sérgio, sendo o primeiro o pai de Lúcio Sérgio Lépido, e o segundo, tio deste. As inscrições e as marcas existentes no topo do ático implicam que deveria haver estátuas dos quatro indivíduos mencionados dominando o monumento.

Devemos observar que é um fato muito raro a dedicação de um arco do triunfo a alguém que não fosse imperador ou seu familiar, entretanto, no início do reinado de Augusto, sabe-se que houve a construção de arcos dedicados a heróis militares caídos, sendo apontada a existência de um arco erigido em homenagem a Nero Cláudio Druso, morto em campanha contra os bárbaros em 9 A.C, na Germânia (em função da queda do cavalo). Druso era enteado de Augusto e irmão do seu futuro sucessor, Tibério. Neste mesmo ano, o Senado decretou a construção de um arco honorário em sua homenagem (o qual não chegou até os nossos dias). E, de fato, há elementos decorativos no Arco dos Sérgios que denotam que se trata de um monumento a um herói caído em uma batalha vitoriosa. Mais informações sobre este arco podem ser obtidas neste ótimo artigo na revista Histria Archeol., no link https://hrcak.srce.hr/file/390387.

As inscrições existentes no arco são:

Salvia Postuma Sergi (uxor) de sua pecunia

L(ucius) Sergius C(ai) f(ilius), aed(ilis), (duo)
vir (L).
L(ucius) Sergius L(uci) f(ilius) Lepidus, aed(ilis), tr(ibunus)
mil(itum) leg(ionis) XXIX (M).T

Cn(aeus) Sergius C(ai) f(ilius), aed(ilis),
(duo)vir quinq(uennalis) (N).

Salvia Postuma Sergi (uxor)

(Salvia Postuma Sérgia, esposa, com seu (próprio) dinheiro; Lúcio Sérgio, filho de Caio, edis, duúnviros; Lúcio Sérgio Lépido, filho de Lúcio, edis, tribuno militar da XXIX Legião; Cneu Sérgio, filho de Caio, edis, duúnviros quinquenais; Salvia Postuma Sérgia, esposa)

7- Arco de Septímio Severo, Leptis Magna, Líbia

Foto By Daviegunn – self-made by David Gunn, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2217905

Um exemplo de arco do tipo “tetrapylon“, isto é com quatro arcos, um em cada fachada da estrutura quadrada sobre duas passagens em ângulos retos, o Arco de Septímio Severo, com 16 m de altura, foi construído por este imperador (193-211 D.C) em Leptis Magna, sua cidade natal na Província da África, que foi especialmente agraciada por ele com a construção de diversas obras públicas grandiosas. Acredita-se que o arco deve ter sido inaugurado por ocasião da visita que o imperador fez à cidade, em 203 D.C. O monumento comemora a vitória obtida contra os Partas, o que se infere de alguns relevos retratando estes inimigos, mas também homenageia a própria família real. Somente em 1928 o Arco de Septímio Severo foi escavado, em ruínas e com parte de seus relevos dispersos pela cidade, sendo reconstituído com o auxílio dos arqueólogos. Praticamente toda a inscrição dedicatória deste arco se perdeu, remanescendo apenas as palavras “divo” (divino), certamente referente ao próprio imperador Severo, e “diva” (divina), provavelmente alusiva à imperatriz Júlia Domna, esposa dele.

8- Arco de Augusto, Susa, Itália

Foto By Duvilar (Lorenzo Rossetti) – photo taken by Duvilar (Lorenzo Rossetti), CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1138377

Trata-se de um arco do triunfo bem modesto, comparado com os outros de nossa relação, mas muito significativo, pelo motivo que explicaremos abaixo.

O Arco de Augusto foi erguido por Marcus Julius Cottius um líder de várias tribos ou povoados celto-lígures situados nos Alpes Cócios (assim batizados em razão do nome dele), na região do Piemonte, na atual província de Turim, no começo do reinado do imperador Augusto, no final do século I A.C, provavelmente por volta do ano 12 A.C. O Arco mede 11,93 m de altura por 7,3 m de largura.

A inscrição dedicatória do monumento relata:

IMP · CAESARI · AVGVSTO · DIVI · F · PONTIFICI · MAXVMO · TRIBVNIC · POTESTATE · XV · IMP · XIII · M · IVLIVS · REGIS · DONNI · F · COTTIVS · PRAEFECTVS · CEIVITATIVM · QVAE · SVBSCRIPTAE · SVNT · SEGOVIORVM · SEGVSINORVM · BELACORVM · CATVRIGVM · MEDVLLORVM · TEBAVIORVM · ADANATIVM · SAVINCATIVM · ECDINIORVM · VEAMINIORVM · VENISAMORVM · IEMERIORUM · VESVBIANIORVM · QVADIATIVM · ET · CEIVITATES · QVAE · SVB · EO · PRAEFECTO · FVERVNT

(“Ao Imperador Augusto, filho do Divino César, Pontífice Máximo, no exercício do Décimo Quinto Ano de seu Poder Tribunício, Treze Vezes Aclamado Imperador, (dedicado) por Marcus Julius Cottius, filho do rei Donnus, Governador das cidades dos Segovii, Segusini, Belaci, Caturiges, Medulli, Tebavii, Adanates, Savincates, Ecdinii, Veaminii, Venisamores, Iemerii, Vesubianii e Quadiates, e pelas cidades acima referidas, sob (a autoridade d)este Governador”)

Eu considero que esta inscrição é que torna o Arco de Augusto tão interessante, uma vez que ela demonstra como foi demorada e complexa a assimilação das tribos alpinas pelo Estado Romano. Sabemos quo rei Donnus,, pai de Marcus Julius Cottius, que dedicou este arco, fez um acordo com Júlio César, para permitir a passagem das tropas dele para a Gália. A inscrição contida no Arco de Augusto corrobora que Marcus Julius Cottius continuou sendo a autoridade na região, agora convertido em governador (Praefectus) romano. Inclusive, o filho dele, Gaius Julius Donnus II, e seu neto, Marcus Julius Cottius II foram seus sucessores (o cargo de governador romano não era hereditário), sendo que a região continuou a ser referida como “Reino dos Cócios” pelos historiadores romanos. E, para consagrar a surpreendente condição autônoma que esta região setentrional da atual Itália, tão próxima de Roma, conseguiu conservar, vale mencionar que, efetivamente, Marcus Julius Cotius II teve restaurado o título de rei, detido por seu mencionado bisavô, durante o reinado do imperador Cláudio.

9- Arco dos Gávios, Verona, Itália

Foto Andrea Bertozzi, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

É, junto com o Arco dos Sérgios, um raríssimo exemplar sobrevivente de um arco que comemora uma família privada. Os Gávios eram uma família proeminente de Verona, provavelmente conectados a gens Gavia, de Roma, que originalmente era de origem plebéia. Em algum momento durante a metade do século I D.C, algum membro da família dos Gávios comissionou a construção do Arco que leva o nome deles, em Verona, ou a Municipalidade o construiu em honra de quatro membros da família cujos nomes foram insculpidos no monumento, afinal, esta obra de fato obedece os 3 atributos que um edifício deveria possuir, segundo Vitrúvio: firmitas (força), utilitas (utilidade) e venustas (beleza)…

O Arco dos Gávios foi construído sobre a Via Postumia, estrada romana que ligava Gênova a Aquileia, passando por Verona, do lado de fora das muralhas da cidade, e mede 12,69 m de altura por 10,96 de largura.

O que torna tão interessante este arco é o fato de ser o único em que consta o nome do seu arquiteto: Lucius Vitruvius Cerdo, liberto de Lucius. Outro Vitrúvio, o célebre arquiteto romano Marcus Vitruvius Pollio escreveu o único tratado de arquitetura sobrevivente da Antiguidade (De architectura), entre 30 e 20 A.C., e é uma possibilidade instigante que Lucius Vitruvius Cerdo possa ter sido um liberto da família do grande arquiteto, que aprendeu com eles o ofício.

O Arco dos Gávios ostenta as seguintes inscrições sobreviventes:

CURATORES L[ARUM] V[ERONENSIUM IN HONOREM …] GAVI CA… DECURIONUM DECRETO.

(“Curadores dos L[ares] de V[erona] em honra…Gávios Ca… (Por) Decreto dos Decuriões”).

Nos pedestais dos nichos existentes no Arco, que originalmente continha estátuas dos homenageados, constam os nomes de quatro membros da família dos Gávios, sendo ainda legíveis os nomes de Caius Gavio Strabo e Marcus Gavio Macrone, filhos de Caius Gavio, e de Gavia, filha de Marcus Gavio.

A outra inscrição, já mencionada, menciona o arquiteto do monumento:

L(UCIUS) VITRUVIUS L(UCI) L(IBERTUS) CERDO ARCHITECTUS.

(“L(ucius) Vitruvius Cerdo, Liberto de Lucius, Arquiteto”)

10- Arco Triunfal de Orange, Orange, França

Foto: Carole Raddato from FRANKFURT, Germany, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

O Arco Triunfal de Orange foi construído provavelmente por ordem do imperador Augusto na cidade romana de Arausio (Colonia Julia Firma Secundanorum Arausio), fundada em 35 A.C para acomodar veteranos da Legião II Sabina, no lugar de um antigo povoado gaulês. Esta Legião teria sido recrutada por Pompeu, o Grande ou por Júlio César, e após o assassinato deste, lutou ao lado do Segundo Triunvirato, terminando por aderir à causa do herdeiro escolhido por César, seu sobrinho-neto Otaviano, o futuro imperador Augusto, que rebatizou-a como Legião II Augusta. Acredita-se que o Arco tenha sido erguido em meados do reinado de Augusto (27 A.C-14 D.C), e, posteriomente, sofrido uma remodelação no reinado de seu sucessor Tibério, em 27 D.C., provavelmente por ter sido danificado, embora não saibamos a causa. O Arco mede 19,22m de altura por 19,57 de largura, e por baixo dele passa a Via Agrippa, construída por Marco Vipsânio Agripa, braço-direito de Augusto, ligando várias cidades romanas da Gália, entre 39 A.C e 13 A.C (as estimativas variam).

Este monumento é caracterizado por elaborados relevos, retratando cenas de batalhas entre romanos e celtas e entre romanos e germanos, e troféus de armas e armaduras bárbaras, muito bem detalhados, obtidos pelos romanos nestes combates, além de elementos alusivos à batalhas navais. Os elementos relativos aos germânicos teriam sido acrescentados para homenagear as vitórias obtidas por Germânico, filho adotivo de Tibério, na Germânia, que morreu em 19 D.C., e os navais seriam originais da construção do monumento e fariam referência à Batalha de Actium, da qual teriam participado os veteranos da Legião II Augusta.

Somente a inscrição dedicatória do reparo ou reconstrução feitos por Tibério sobreviveu, e a mesma diz:

TI • CAESAR • DIVI • AVGVSTI • F • DIVI • IVLI • NEPOTI • AVGVSTO • PONTIFICI • MAXIPOTESTATE • XXVIII • IMPERATORI • IIX • COS • IIII • RESTITVIT • R • P • COLONIAE (or RESTITVTORI • COLONIAE) 

(A Tibério César, filho do Divino Augusto, neto do Divino Júlio, Augusto, Pontífice Máximo, exercendo o Poder Tribunício pela vigésima oitava vez, aclamado Imperador pela oitava vez, em seu quarto consulado, que o restaurou ao patrimônio da Colônia”)

Finalmente, devemos mencionar que o leiaute deste arco possivelmente inspirou o do Arco de Septímio Severo.

A BATALHA DE RUSPINA

Em 4 de janeiro de 46 A.C, as legiões comandadas por Caio Júlio César enfrentaram o exército da facção aristocrática do Senado Romano (Optimates) que vinham combatendo o Ditador da República Romana desde o início da Guerra Civil, em 49 A.C.

Altes Museum, Public domain, via Wikimedia Commons

Após a derrota na Batalha de Farsália e a fuga e assassinato do campeão dos Optimates, Pompeu, o Grande, no Egito, o sucessor deste no comando militar das forças aristocráticas, Cipião Metelo, reuniu um grande exército na África do Norte.

Quando soube dos preparativos de Cipião Metelo, o sempre resoluto César, como era de seu feitio, agiu imediatamente e resolveu desembarcar na costa da Tunísia, próximo ao porte de Sousse, com apenas 3150 soldados, em 28 de dezembro de 47 A.C, sem sequer aguardar que o restante da 10ª Legião, a unidade na qual ele mais confiava, tivesse chegado a Sicília para embarcar rumo à África.

Acredita-se que, naquele momento, César ainda não tivesse reunido o número de navios necessários para transportar todas as suas forças para a África, mas, de qualquer modo, ele entendeu que não valia a pena esperar e resolveu cruzar o Mediterrâneo para derrotar seus oponentes.

[[File:Caesar campaigns from Rome to Thapsus-fr.svg|Caesar_campaigns_from_Rome_to_Thapsus-fr]]

Assim, no dia 1º de janeiro de 46 A.C., o pequeno exército de César acampou próximo à cidade de Ruspina, que seria o seu quartel-general naquela campanha. Para melhorar um pouco a sua situação, em 4 de janeiro, César recebeu reforços (ele tinha agora cerca de 9000 homens) e ordenou que 30 coortes de infantaria (incompletas), apoiadas por 400 cavaleiros e 150 arqueiros saíssem para colher suprimento de trigo nos campos vizinhos.

Porém, enquanto estavam em campo aberto colhendo o cereal, as tropas de César foram engajadas por contingentes de cavalaria comandados por Tito Labieno, um general que, inicialmente, tinha sido um grande auxiliar de César, mas que, por motivos incertos, desertara em favor de Pompeu e que, a partir de então, tornou-se um dos inimigos mais extremados do Ditador. Em minoria, as tropas de César foram cercadas e ele teve que ordenar que formassem um “orbis”, ou seja, uma formação defensiva em formato de círculo.

A 2ª gravura mostra soldados romanos formando uma “tartaruga” e um “orbis”. Foto de Justus Lipsius (1547-1606), Public domain, via Wikimedia Commons

Cavalgando à frente da suas tropas, consta que Labieno chegou a uma certa distância e falou em altos brados para os legionários de César, fixando-se particularmente em um legionário. Travou-se, assim, à distância, um curioso diálogo:

Labieno: “-Recruta! O que você pensa que está fazendo? Você é apenas outro que foi enganado pelas belas palavras de César, não é? Vou ser sincero com você, ele te colocou nesta situação desesperadora e eu sinto muito por você.”

Recruta: “-Eu não sou um recruta inexperiente, Labieno. Eu sou um veterano da 10ª Legião!”

Labieno: “-Da Décima? Eu não estou vendo aqui os estandartes da Décima…Vamos ver do que você é feito!”

Recruta: “-Logo você vai ver do que eu sou feito…”

O recruta tirou o elmo e mostrou o rosto descoberto para Labieno, e completou:

“- Está vendo o meu rosto? Vai se lembrar dele….”

A distância era longa, mas o legionário lançou o seu dardo e, para a surpresa de todos, atingiu o cavalo de Labieno no peito, que caiu ao solo, jogando o general no chão, para delírio dos soldados de César, que vibraram ainda mais quando o legionário assim concluiu:

“-Quem sabe no futuro isso vai te ajudar a reconhecer um soldado da Décima, Labieno!”

A Guerra Africana, 16, Atribuído por muitos a Aulus Hirtius, em https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Caesar/African_War/B*.html

Apesar desse episódio, o ataque das tropas de Labieno, que estavam em maior número, chegou bem perto de subjugar completamente o menor exército de César, não fosse pelo tirocínio deste em ordenar que metade dos homens formasse uma linha voltada para um lado e outra metade voltada para a retaguarda, e, imediatamente, ordenado que ambas as linhas avançassem a toda força para romper o cerco.

A manobra de César conseguiu abrir uma lacuna nas tropas inimigas, que foi prontamente explorada por suas forças, que marcharam a toda velocidade em direção ao acampamento. Porém, antes que conseguissem chegar à segurança da sua paliçada, a coluna de César foi atacada novamente pelas forças de Labieno, reforçadas pela cavalaria númida comandada pelo general Marcus Petreius.

Mesmo assim, César conseguiu atingir uma pequena elevação, onde teve que se entrincheirar, sendo cercado por todos os lados. Em determinado ponto, a luta estava tão desesperada que um porta-estandarte (aquilifer) do exército dele tentou fugir, momento em que César, em pessoa, teve que agarrar o pobre soldado e empurrá-lo de volta para a linha de frente, enquanto gritava:

“-Veja, o inimigo fica para lá!”.

Um aquilifer da X Legião, por James William Edmund Doyle, Public domain, via Wikimedia Commons

As fontes não são unânimes, mas Cássio Dião e Apiano narram que a maior parte das tropas de César na Batalha de Ruspina foi morta, ferida ou capturada, mas César conseguiu escapar durante o entardecer com alguns sobreviventes e se juntar ao resto das tropas que ficaram no acampamento.

Segundo Apiano, foi o general Petreius que decidiu mandar parar a ofensiva com o cair da noite, tendo chegado a dizer que não queria roubar a vitória do comandante Cipião Metelo. Só então, os dois exércitos oponentes retiraram-se do campo de batalha. O recrudescimento do inverno interromperia por algum tempo as operações em larga escala, limitando-se ambos a partir de então a escaramuças.

O fato é que César teve sorte em escapar de uma derrota certa, sorte que foi ajudada pela sua indiscutível presença de espírito e capacidade de lidar com as adversidades no campo de batalha. No entanto, a sua legendária audácia e rapidez de movimento, que tanto tinham lhe sido valiosas antes da expedição à África, agora quase lhe custaram a vida.

Três meses mais tarde, César enfrentaria novamente os inimigos, agora já com os reforços enviados da Itália, na Batalha de Tapsos.

Fonte: “Ceasar’s Legion, The Epic Saga of Julius Caesar’s Elite Tenth Legiona and the Armies of Rome“, Stephen Dando-Collins.

DIOCLECIANO – O RECONSTRUTOR DO IMPÉRIO ROMANO

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(Cabeça de Diocleciano, foto de Giovanni Dall’Orto)

Origem

Em 22 de Dezembro de 244 D.C., nasceu, em Salona, na província romana da Dalmácia, próximo à atual cidade de Split, na Croácia, Gaius Aurelius Valerius Diocletianus (Diocleciano).

Salona,_Croatia
(Ruínas romanas de Salona)

O nome verdadeiro de nascença de Diocleciano era Diocles Valerius e ele era filho de um humilde escriba de um senador chamado Anulinnus. Com efeito, acredita-se que o pai de Diocleciano era provavelmente um escravo liberto ou então filho de um liberto.

Embora não saibamos nada sobre a infância e juventude de Diocleciano, é certo que ele alistou-se no Exército Romano e, como muitos conterrâneos de origem ilíria, foi sendo promovido até as mais altas patentes.

Assim, quando a História começa a mencionar a carreira de Diocleciano, ele já ocupava o importante posto militar de Duque da Moésia (Dux Moesiae), no baixo Danúbio.

Ascensão

Em 282 D.C., Diocleciano foi promovido pelo imperador Caro ao prestigioso posto de Comandante dos “Protectores Domestici”, o corpo de cavalaria de elite que funcionava como uma espécie de Guarda Imperial. Nesta condição, Diocleciano acompanhou Caro na guerra contra a Pérsia.

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Aclamação

Após a morte de Caro no Oriente, em 283 D.C. (segundo consta, ele foi atingido por um raio enquanto travava a bem sucedida campanha contra os Persas), os seus filhos Carino e Numeriano, assumiram o trono, sendo que o primeiro assumiu, informalmente, o governo da metade ocidental do Império, e o último, o do Oriente.

Porém, no decorrer do ano seguinte, Numeriano morreu, acometido de uma misteriosa inflamação nos olhos, quando voltava da Pérsia (algumas fontes levantem a suspeita de que ele foi assassinado pelo Prefeito Pretoriano, Lucius Flavius Aper (Áper).

Verdadeira ou não a participação de Áper na morte de Numeriano, o seu suposto crime não lhe trouxe o proveito esperado, pois, quando o exército imperial alcançou os subúrbios de Nicomédia (atual Izmir, na Turquia), um conselho de generais escolheu Diocleciano como sucessor, em 20 de novembro de 284 D.C.

Na presença das tropas reunidas para a sua aclamação, Diocleciano imediatamente acusou Áper de ter assassinado Numeriano e, em seguida, executou-o com a própria espada, na frente dos soldados estupefatos (há quem defenda que Diocleciano estava implicado na trama que assassinou o imperador e a morte de Áper teria sido na verdade uma “queima de arquivo”).

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Eliminando o rival

Ao assumir o seu primeiro consulado, Diocleciano escolheu como colega Lúcio Cesônio Basso, um experiente político de uma ilustre família romana, e, não, como seria natural, o outro imperador, Carino, o filho de Numeriano que reinava em Roma. Este ato representava uma na prática uma declaração de rompimento com Carino, prenunciando uma guerra civil.

Todavia, a disputa entre Carino e Diocleciano foi breve: Diocleciano avançou para o Oeste em direção à Itália e foi confrontado pelas forças de Carino na província da Moésia, no rio Margus, próximo a Viminacium, que ficava no território vizinho à atual Belgrado. No começo da batalha, Aristóbulo, o prefeito pretoriano de Carino desertou para o campo inimigo. Antecipando a derrota, os próprios soldados de Carino, mataram o seu imperador e aclamaram Diocleciano, em julho de 285 D.C.

Consolidando o poder

Contrariando o que se esperava de um imperador romano do século III D.C, o vitorioso Diocleciano não perseguiu os partidários de Carino, mantendo nos cargos muitos dos auxiliares deste, o que emulava, de certa forma a célebre clemência de Júlio César. Por sua vez, Aristóbulo foi mantido como Prefeito Pretoriano e Basso foi nomeado Prefeito Urbano de Roma.

Um dos primeiros atos de Diocleciano no trono foi escolher um colega para governar em conjunto com ele e o escolhido foi seu velho amigo e companheiro de armas, o general e conterrâneo de origem ilíria, Marcus Aurelius Valerius Maximianus (Maximiano). Embora os amigos compartilhassem a origem humilde, Maximiano, ao contrário de Diocleciano, era um homem muito mais áspero e implacável. Não obstante, Diocleciano mantinha sobre o amigo uma perceptível ascendência moral e intelectual. Assim,em 1º de abril de 286 D.C., Maximiano foi elevado do posto de “César” para  o de “Augusto”, que correspondia ao de Imperador.

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(Cabeça de Maximiano

Sintomaticamente, os dois Augustos concederam-se os títulos de “Júpiter” (Diocleciano) e de “Hércules”(Maximiano). Com efeito e não por acaso, os títulos e os atributos das divindades escolhidas visavam ilustrar o papel de ambos no Império Romano, onde Diocleciano aparecia como o sábio pai dos deuses e chefe do Olimpo e Maximiano como o guerreiro encarregado das tarefas militares. Desse modo, embora os dois fossem juridicamente iguais, Diocleciano mantinha para si, na prática, o status de “imperador sênior”.

Campanhas internas e externas

Diocleciano, desde logo o início do seu reinado, demonstrou uma certa rejeição à cidade de Roma. Muitos historiadores até acreditam que ele sequer chegou a visitar a velha capital quando de sua ascensão ao trono, ou, segundo outros, ele passou por lá tão brevemente que, em novembro de 285 D.C., ele já estava nos Bálcãs em campanha contra os Sármatas, os quais foram batidos, embora não esmagados.

Enquanto isso, Maximiano lidava com os bandos de fora-da-lei conhecidos como bagaudas, no norte da Gália. Submetidos estes, foi a vez dele combater a insurreição de seu subordinado Caráusio, o comandante da frota do Mar do Norte, que chegou a ser aclamado “Imperador da Britânia”. Porém, Caráusio estava firmemente estabelecido na Ilha e lá ele conseguiu resistir por sete anos, cunhando moedas em que ostentava o título de imperador e “irmão” de Diocleciano e Maximiano e louvava a concórdia (paz) entre eles.

Maximiano resolveu lutar contra os Alamanos, na fronteira do Reno, os quais ele combateu inicialmente sozinho, recebendo, posteriormente, a ajuda do colega Diocleciano. Essa campanha foi bem sucedida, e Diocleciano pode voltar sua atenção para o Oriente, onde os Persas criavam problemas crescentes.

Estabelecido em Nicomédia, as iniciativas de Diocleciano asseguraram a assinatura de um tratado de paz com os persas bastante favorável a Roma, que conseguiu instalar um rei-cliente no trono da Armênia. No Oriente, Diocleciano ainda combateu invasores árabes (sarracenos) na Palestina.

Na virada do ano de 290 D.C para 291 D.C, Diocleciano voltou para a Itália, onde encontrou com seu colega Maximiano em Milão, que tinha passado a ser a capital do Ocidente. 

Outras questões externas que ocupariam Diocleciano foram novos ataques dos Sármatas, um povo de origem iraniana, em 294 D.C., que foram derrotados de modo mais duradouro. O imperador decidiu reforçar a fronteira do Danúbio construindo uma cadeias de fortes abrangendo as cidades de Aquincum (atual Budapeste), Bononia (atual Vidin, na Bulgária), Ulcisia Vetera, Castra Florentium, Intercisa (atual Dunaújváros, na Hungria) e Onagrinum (atual, Begec, na Sérvia), que se tornaram parte de uma nova linha defensiva chamada de Ripa Sarmatica. Em 295 e 296 D.C., foi a vez dele dar combate à tribo bárbara dos Carpi, os quais também foram derrotados.

A Tetrarquia

A vivência da eclosão de crises simultâneas em diferentes partes do Império certamente contribuiu para estimular Diocleciano a idealizar a medida mais revolucionária do seu reinado: a chamada Tetrarquia, em 293 D.C.

Em 1º de março de 293 D.C., Diocleciano resolveu nomear o general Flávio Constâncio “Cloro”, genro de Maximiano e Prefeito Pretoriano da Gália, e recentemente encarregado da campanha contra Caráusio, como “César“, o que caracterizava, na prática, o posto de imperador “júnior”, e de herdeiro de Maximiano. Provavelmente, na mesma data ou um pouco depois, Diocleciano nomeou seu genro, o general Galério, marido de sua filha Valéria (Diocleciano não teve filhos homens), para o posto de César, passando a ser o seu herdeiro.

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Bloco de pórfiro entalhado com a representação dos Tetrarcas, trazido de Constantinopla pelos venezianos e colocado na lateral da Basílica de San Marco

Diocleciano considerava o Império Romano grande demais para ser governado por apenas um monarca, motivo pela qual instituiu a Tetrarquia, onde ele seria administrado por quatro governantes imperiais, sendo dois mais graduados, que teriam o título de “Augusto“, inicialmente com as respectivas capitais em Milão e Nicomédia, e dois, em plano um pouco inferior e subordinados a eles, nomeados “César“, instalados em Trier e Sirmium. A escolha dos “Césares”, pelos “Augustos”, visava assegurar uma sucessão tranquila e automática, teoricamente baseada no mérito, sendo que, quando o trono ficasse vago, o “César”, já previamente nomeado e experimentado na tarefa de governar, assumiria o posto vago de “Augusto” e, por sua vez,  este escolheria o novo “César”.

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(Embora a ilustração retrate Maxêncio, os trajes dele certamente são os mesmos que os tetrarcas deviam usar, incluindo o tradicional gorro ilírio,  costumeiramente utilizado pelos militares originários daquela região e que também foi retratado na escultura existente na Basílica de São Marcos).

Reformando o Império

Outra grande reforma administrativa promovida por Diocleciano foi a redivisão das cerca de 50 províncias romanas em 100 unidades menores, agrupadas em doze “Dioceses”, governadas por “Vigários”(Vicarii). Esses Vigários deixaram de ter funções militares, que foram transferidas para dezenas de “Duques” (Duces), mas retendo funções administrativas, judiciárias e fiscais. Dessa forma, Diocleciano tencionava diminuir a possibilidade de revoltas, tão frequentes durante o período imperial, dividindo e diminuindo o poder de que disporiam esses administradores.

Diocleciano também praticamente dobrou o número de funcionários públicos civis e também os efetivos do Exército Romano.

O consequente aumento da despesa pública gerado pelo aumento do tamanho do funcionalismo público e dos militares foi enfrentado com uma grande reforma no sistema tributário imperial. Após a realização de um abrangente e detalhado censo, foram estabelecidas duas unidades fiscais chamadas de “jugum” e de “caput”, a primeira levando em consideração uma determinada área de terra em função do tipo e da quantidade de produção agrícola que ela seria capaz de sustentar, num conceito um tanto parecido com o do módulo rural, e a segunda, o número de pessoas que neles viviam, podendo variar em função do sexo e idade. Em decorrência, os impostos passaram a serem calculados em função da quantidade de “jugera” e “capita” atribuídos a cada região ou cidade integrante do Império. E os impostos agora passavam a ser pagos não apenas em dinheiro, mas também em gêneros (conferir a esse respeito a obra The Later Roman Empire, de A.H.M. Jones)

Para combater a crescente inflação, Diocleciano determinou duas medidas:

1- Uma reforma monetária, estabelecendo três tipos de moeda: de ouro (aureus), de prata (argenteus) e de cobre (follis), fixando os percentuais de metais nas ligas com  as quais elas seriam cunhadas.

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(Um “Antoniniano” de Diocleciano, moeda anterior a reforma monetária, foto de Sosius11)

2- Entretanto, como a inflação não cedia, Diocleciano baixou o seu célebre “Édito de Preços Máximos”, em 301 D.C., que se tratava de uma verdadeira lei de congelamento de preços, bem similar às tão conhecidas dos brasileiros em tempos não tão distantes e que, da mesma maneira que as leis brasileiras, não deu certo, gerando desabastecimento…

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(lápide contendo parte do Édito de Preços Máximos, de Diocleciano)

Uma outra medida de Diocleciano, e que, para muitos historiadores, teria influência duradoura na Europa Medieval, foi a lei que obrigava aos camponeses e seus descendentes a trabalharem permanentemente nas terras agrícolas, tornando compulsória e hereditária esta atividade, além de outras profissões, entre as quais as de soldado, padeiro e até mesmo a função de membros das câmaras municipais, uma política que muitos veem como uma das origens do sistema feudal.

Diocleciano procurou assegurar a estabilidade política do trono promovendo uma verdadeira sacralização da pessoa do imperador, algo que ele fez, não por vaidade, mas para impedir as reiteradas conspirações para derrubar os imperadores romanos, tão comuns ao longo da história imperial. Assim, o cerimonial da corte tornou-se altamente ritualístico, estabelecendo-se como dever de todos que chegassem à presença do imperador prostrar-se no solo (“adoratio”), como se estivessem na presença de um deus. Do mesmo modo, somente o monarca poderia usar a cor púrpura. O título imperial de “Príncipe”, que tinha origem na expressão “primeiro senador”, foi substituído pelo de “Dominus” (Senhor).

O Conselho do Imperador (“Consilium”), que tradicionalmente tinha entre seus componentes algum senador ou figura pública, foi substituído pelo Consistório, um nome que denotava uma assembleia particular e privada.

A ênfase no culto ao imperador, decorrente da política acima citada, levou inevitavelmente à exigência de demonstrações públicas de devoção. Não surpreende, assim, que os Cristãos, que admitiam adorar apenas um Deus, tenham sido alvo de uma perseguição implacável por Diocleciano, decretada em 303 D.C, e que seria batizada pela Igreja Católica como “A Grande Perseguição”. Não obstante, não se pode afirmar que Diocleciano, pessoalmente, nutrisse ódio ou inimizade pelo Cristianismo.

Com efeito, as medidas de Diocleciano contra a fé cristã parecem decorrer mais de sua vontade dele ser o restaurador da velha grandeza do Império Romano, o que também incluía o fortalecimento da religião tradicional romana, do que a um ódio particular contra esta religião. Consta que o seu colega Galério é que era radicalmente avesso aos cristãos. Curiosamente, vale notar que, segundo algumas fontes, Valéria, filha de Diocleciano e esposa de Galério, era simpatizante do Cristianismo ou seria até mesmo cristã, o mesmo ocorrendo com sua mãe, Prisca.

Abdicação e aposentadoria

Em 20 de novembro de 303 D.C., Diocleciano finalmente visitou Roma para comemorar o vigésimo aniversário do seu reinado. Foi uma breve estadia, pois o imperador não gostou das maneiras pouco deferentes dos romanos. Um mês depois, ele viajou para Ravena, de onde partiu para uma campanha no Danúbio. Porém, a saúde de Diocleciano começou a piorar e ele resolveu voltar para Nicomédia, onde ficou recluso no palácio, o que fez circular o boato de que ele havia morrido.

Em março de 305 D.C., Diocleciano reapareceu em público. Poucos dias depois, Galério chegou à Nicomédia. Então, em 1º de maio do mesmo ano, Diocleciano reuniu os generais do Exército e anunciou que ele estava doente e que precisava descansar. E, num gesto inédito na história do Império Romano, o imperador comunicou que iria abdicar em favor de um herdeiro mais capaz: Com base no sistema da Tetrarquia, Galério o sucederia como Augusto e Maximiano também abdicaria, fiel e obedientemente, do trono, sendo sucedido por Constâncio Cloro.

A grande surpresa, porém,  foi quando se anunciaram quem seriam os novos Césares…Com efeito, todos pensavam que Maxêncio, filho de Maximiano, e Constantino, filho de Constâncio Cloro, seriam os novos Césares. Porém, os escolhidos foram Maximino Daia, sobrinho de Galério, e Severo, este um velho amigo de Galério. Portanto, a Tetrarquia, que mal começara, já nascia, assim, ameaçada em sua estabilidade pelo preterimento de dois candidatos naturais à sucessão. Tudo indica que isso decorreu da vontade de Galério, que era agora o verdadeiro homem-forte da Tetrarquia.

Diocleciano, após a abdicação, foi viver em seu espetacular palácio-fortaleza na cidade de Salona, em sua terra natal. Boa parte deste palácio ainda existe e, em seu vasto interior, nasceu a atual cidade de Split, na Croácia. De fato, Diocleciano parece ter encontrado a verdadeira felicidade cuidando de suas hortas e jardins. Assim, consta que, durante a guerra civil que logo eclodiu entre os seus sucessores e precipitou o fim da Tetrarquia, Diocleciano foi instado por populares a reassumir o trono, ao que ele teria respondido:

Se vocês pudessem mostrar ao imperador os repolhos que eu plantei com minhas próprias mãos, ele definitivamente jamais sugeriria que eu trocasse a paz e a felicidade deste lugar pelas tormentas de uma insaciável ambição”.

Morte

Diocleciano morreu em 03 de dezembro de 312 D.C., aos 67 anos de idade, em seu palácio em Split, sendo sepultado em um mausoléu octogonal que ele havia mandado construir no interior do mesmo.

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Reconstituição da aparência do Palácio de Diocleciano, em Split

Legado

O principal feito de Diocleciano foi conseguir dar estabilidade ao Império após um século de crises, guerras civis, derrotas militares e tumultos. Efetivamente, fazia mais de cem anos que um imperador não conseguia reinar 20 anos: A média no período tinha sido de cerca de três anos de reinado para cada imperador em 100 anos. Para isso contribuiu, certamente, a sacralização da imagem do Imperador, oficialmente estabelecida como “Dominus et Deos” (Senhor e Deus). Por isso, o reinado de Diocleciano é considerado um marco que divide a História do Império Romano entre os períodos do “Principado” ( a partir de Augusto, o primeiro imperador) e do “Dominado” (a partir de Diocleciano).

As linhas estabelecidas por Diocleciano, foram em grande parte mantidas por Constantino, que derrotou os demais contendores pelo espólio da Tetrarquia (sendo a mais notável exceção a política religiosa) e elas duraram até o final do Império do Ocidente, cerca de 200 anos mais tarde.

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MAXÊNCIO

Em 28 de outubro de 306 D.C, Maxêncio foi aclamado como imperador pela população romana e pelos remanescentes da Guarda Pretoriana.

Cabeça de Maxêncio, foto By shakko – Own work, CC BY 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=3273001

Nascido por volta de 278 D.C, em local ignorado, Marco Aurélio Valério Maxêncio era filho do ex-Imperador Maximiano e de sua esposa Eutrópia, que tinha origem síria.

Maximiano, era filho do dono de uma pequena venda próximo a Sirmium, na Panônia (atual Sérvia) e, como tantos outros compatriotas ilírios, fez uma brilhante carreira no Exército Romano, ascendendo aos mais altos postos da hierarquia.

O mais importante dos generais ilírios desse período foi Diocleciano, que reorganizou militar e administrativamente o Império Romano, a partir da sua coroação, em 284 D.C. Entre as inovações introduzidas por Diocleciano estava a divisão do poder imperial, antes centralizado na pessoa de um monarca que governava o Império a partir da cidade de Roma, entre quatro governantes, sendo dois mais graduados, com o título de “Augusto”, com as respectivas capitais em Milão e Nicomédia, e dois, em plano um pouco inferior e subordinados a eles, nomeados “César”, instalados em Trier e Sirmium.

Cabeça de Diocleciano

Esse novo regime de quatro governantes imperiais recebeu o nome de “Tetrarquia“. De acordo com o plano de Diocleciano, a sucessão se daria naturalmente entre os Augustos e os Césares que lhes eram subordinados, pela aposentadoria dos primeiros, após o que os novos Augustos nomeariam novos Césares.

Grupo de pórfiro representando os Tetrarcas, hoje inserido na lateral a Catedral de São Marcos, em Veneza

Diocleciano escolheu seu amigo e colega de generalato, Maximiano, como Augusto, ou co-imperador, em 286 D.C. Posteriormente, ele indicou, em 293 D.C, Galério e Constâncio Cloro como Césares. Garantida pela incansável energia e enorme prestígio de Diocleciano, a Tetrarquia, inicialmente, pareceu funcionar bem…

Em um matrimônio arranjado com finalidade política, Maxêncio casou-se com Valéria Maximila, fllha de Galério, também Tetrarca como o seu pai, por volta de 293 D.C. Eles teriam dois filhos, Valério Rômulo, nascido por volta de 295 D.C., e um outro, cujo nome não é conhecido.

Porém, em 305 D.C, Diocleciano, doente e cansado aos 60 anos de idade, resolveu se aposentar, abdicando em favor de Galério e partindo para viver em seu espetacular palácio-fortaleza na cidade de Salona, em sua terra natal. Boa parte do palácio ainda existe e em seu vasto interior nasceu a atual cidade de Split, na Croácia.

Reconstituição artística do Palácio de Diocleciano, em Split

Maximiano, obediente ao sistema criado por Diocleciano, também abdicou em prol de Constâncio Cloro.

Todos pensavam que Maxêncio, filho de Maximiano, e Constantino, filho de Constâncio Cloro, seriam os novos Césares. Porém, grande foi a surpresa quando Maximino Daia, sobrinho de Galério, e Flávio Valério Severo, este um velho amigo de Galério, foram nomeados. A Tetrarquia, que mal começara, já nascia, assim, ameaçada em sua estabilidade pelo preterimento dos dois candidatos naturais à sucessão.

Segundo o historiador antigo Lactâncio, o imperador Galério, já nessa época, teria passado a detestar Maxêncio, por motivos não muito bem esclarecidos.

Entrementes, em 25 de julho de 306 D.C.,na cidade de Eburacum (atual York), Constâncio Cloro morreu, e seu fiho Constantino foi aclamado Augusto pelas tropas comandadas por ambos, em campanha na Britânia, sendo reconhecido, entretanto, por Galério apenas para o posto menor de César.

Para suceder o falecido Constâncio, Galério nomeou seu amigo Severo como Augusto, tornando-o, assim, oficialmente coimperador, ainda durante o verão daquele ano de 306 D.C.

Quando o populacho de Roma soube que Galério planejava acabar com a isenção do imposto pessoal per capita (“capitatio“) de que gozavam os cidadãos da antiga capital, eles se revoltaram e aclamaram Maxêncio, um pretendente óbvio ao trono, Imperador, em 28 de outubro de 306 D.C.

A ascensão de Maxêncio na vetusta Roma foi relativamente pacífica: Apenas o Prefeito da Cidade, Abellius, que se opôs à aclamação, foi assassinado. Dois tribunos militares, Marcellianus e Marcellus, que provavelmente comandavam a Guarda Pretoriana, e, Lucianus, funcionário encarregado da distribuição de carne suína gratuita, apoiaram Maxêncio.

Maxêncio foi reconhecido como imperador pelas províncias da África e na parte central e meridional da Itália, além das ilhas da Córsega, Sardenha e Sicília, mas não no norte da Península, onde ficava Milão, uma das capitais do Império Romano no sistema da Tetrarquia, que era a sede do governo do imperador Severo, o Augusto do Ocidente.

Aureus de Maxêncio, foto By British Museum – British Museum, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=122653079

Todavia, Maxêncio inicialmente se absteve de usar os títulos de Augusto ou César e se autodenominou Princeps Invictus (“Príncipe Invicto”), na esperança de obter o reconhecimento de seu reinado pelo imperador sênior, Galério.

Enquanto isso, Galério ordenou que Severo deixasse a sua capital em Milão e fosse com seu exército até Roma para sufocar a rebelião. Ocorre que a maioria dos soldados que compunham este mesmo exército tinham sido comandados anteriormente pelo imperador-aposentado Maximiano, pai do revoltoso Maxêncio

Premido pelas circunstâncias, Maxêncio, pediu ajuda ao seu ilustre pai e propôs dividir com ele o trono. Então, quando Severo e seu exército chegaram às muralhas de Roma, com a intenção de sitiar a cidade, as tropas dele desertaram e se uniram ao seu antigo comandante e seu filho Maxêncio.

Cabeça de Maximiano

Frustrado, Severo acabou fugindo para Ravena, entregando-se, depois, a Maximiano, terminando por ser executado, segundo consta, por ordens de Maxêncio (Em outra versão, Severo teria sido forçado a cometer suicídio), em 16 de setembro de 307 D.C., na localidade de Tres Tabernae.

Com a morte de Severo, Maxêncio e Maximiano conseguiram estender seus domínios para o norte da Itália até o norte dos Alpes e a Ístria e Maxêncio sentiu-se confiante para reclamar o título de Augusto.

Enquanto isso, vendo o insucesso de seu amigo e colega Severo, Galério tentou intervir na Itália, invadindo a península à frente de seu exército, mas, após alguns de seus homens também desertarem devido ao prestígio de Maximiano, ele acabou sendo obrigado a se retirar da Itália.

Maximiano então, partiu para a Gália para obter o apoio de Constantino. Lá, na capital Trier, um pacto de amizade foi simbolizado pelo casamento de Constantino com Fausta, a filha de Maximiano e irmã de Maxêncio, no final de 307 D.C. Na mesma oportunidade, Maximiano também reconheceu Constantino como o Augusto do Ocidente. Este. contudo, manteria-se neutro no conflito entre Maxêncio e Galério.

Cabeça de Fausta, foto By anonymous – (User:Mbzt), 2012, CC BY 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=18368658

Entretanto, com o retorno de Maximiano à Roma, ele e o filho entraram em atrito. No início de 308 D.C, Maximiano atacou Maxêncio perante uma assembleia de soldados, denunciando seus maus atos no governo. Surpreendentemente, os soldados ficaram do lado de Maxêncio e, humilhado, Maximiano foi obrigado a fugir de Roma, indo procurar abrigo na corte de Constantino, em Trier (na atual Alemanha).

Por sua vez, ainda em 308 D.C., Galério, contando com a ajuda de Diocleciano, tendo em vista a situação caótica que a Tetrarquia se encontrava, convocou os rivais para uma conferência, em Carnuntum, no sudeste da atual Áustria.

A Conferência de Carnuntum resultou em um acordo um tanto precário: Maximiano, que formalmente ainda mantinha o título de Augusto, foi compelido a se aposentar novamente, e Maxêncio foi declarado um usurpador. Por sua vez, Constantino, que tinha se aliado com Maximiano e Maxêncio, foi confirmado, apenas com o título de “César”, o mesmo ocorrendo com Maximino Daia, no Oriente, para o desagrado de ambos, que reivindicavam o título de Augusto (que Constantino considerava já haver conseguido). Todavia, Galério nomeou outro amigo e companheiro de armas seu, Licínio, para ser o Augusto do Ocidente, o que, em vez de dirimir as controvérsias, acabaria aumentando a instabilidade. E somente em 310 D.C, Constantino e Maximino seriam “promovidos” a Augusto.

Para piorar a situação de Maxêncio, uma insurreição militar ocorreu na África, e as tropas aclamaram o vigário (governador) Domício Alexandre como imperador, também em 308 D.C. Esta usurpação, que chegou a controlar além das Dioceses da África, a ilha da Sardenha, durou até 310 D.C. e ameaçou consideravelmente o suprimento de cereais para a cidade de Roma. Ela somente foi debelada com a chegada de tropas comandadas pelo Prefeito Pretoriano Gaius Ceionius Rufius Volusianus, que derrotaram e capturaram Domício Alexandre, que foi estrangulado. A província foi impiedosamente pilhada pelas forças de Volusianus e as propriedades dos revoltosos foram confiscadas, propiciando a Maxêncio uma grande soma de recursos. Porém, em 310 D.C, ele perderia também a Ístria para seu rival Licínio.

Em 310 D.C, Maximiano tentou liderar uma rebelião contra seu anfitrião Constantino, que estava em campanha contra os Francos, espalhando a falsa notícia de que este teria morrido e oferecendo suborno aos soldados, que, no entanto, mantiveram-se, em sua maioria, leais. Constantino abandonou a campanha e retornou para a Gália, conseguindo capturar Maximiano. Contudo, devido ao grande prestígio de que Maximiano ainda gozava no Império, ao invés de executá-lo, Constantino perdoou-o publicamente, mas, em segredo, compeliu Maximiano a cometer suicídio, o que ele fez em julho daquele ano, enforcando-se.

Reinado de Maxêncio

Apesar das ameaças de seus rivais imperiais e da insurreição na África, Maxêncio conseguiu construir algumas obras monumentais na cidade de Roma. Ele construiu o Circo de Maxêncio, na Via Ápia, e a Basílica de Maxêncio, no Fórum Romano, que somente seria concluída e inaugurada por seu inimigo Constantino, o Grande.

Ruínas da Basílica de Maxêncio, no Fórum Romano

Um dos monumentos de Maxêncio que sobreviveram em melhor estado até os dias de hoje foi o Templo de Rômulo, no Fórum Romano, dedicado a seu filho Valério Rômulo, que morreu em 309 D.C, com cerca de 14 anos de idade e foi divinizado.

O Templo de Rômulo, no Fórum Romano

Inicialmente, as relações de Maxêncio com o Senado Romano pareciam boas. Mas, devido ao fato dele ter necessitado instituir tributos para financiar suas obras, inclusive na Itália, devido à perda de suas outras províncias, ele acabou ficando mal-visto na classe senatorial.

Parece que Maxêncio também procurou, ao menos inicialmente, ser tolerante com o crescente número de cristãos em Roma, permitindo até que eles elegessem um novo Bispo, o Papa Eusébio.

Quando Galério morreu, em 311 D.C, Maximino Daia, que já governava o Egito e a Síria, e Licínio, dividiram entre si as províncias do Oriente sobre as quais reinava o falecido. Este pacto contudo, teve vida curta, porque Licínio preferiu aliar-se a Constantino. Esta aliança entre Constantino e Licínio foi reforçada pelo casamento da irmã do primeiro, Constância, com o segundo. Em resposta, Maximino foi obrigado a enviar uma embaixada à Roma oferecendo o reconhecimento de Maxêncio como Augusto, em troca do apoio militar deste a Maximino.

O cenário agora estava armado para o início das guerras civis que colocariam em cheque a Tetrarquia.

Nominalmente, Maxêncio tinha a sua disposição, no Ocidente, um exército maior que o de seu oponente, Constantino, que não podia arregimentar todo o seu exército para uma expedição contra a Itália pelo fato de ter que deixar as fronteiras guarnecidas contra os bárbaros germânicos além do Reno.

Não obstante, Constantino resolveu atacar primeiro e se dirigiu para a Itália, comandando entre 25 mil e 40 mil homens, e atravessou os Alpes, na primavera de 312 D.C.

O primeiro combate sério ocorreu nas cercanias de Augusta Taurinorum (a atual Turim), quando a cavalaria couraçada (clibanários) de Maxêncio tentou cercar a infantaria de Constantino, que habilidosamente alongou sua linha para contê-los e contraatacou com a sua própria cavalaria que, armada de maças, aniquilou o inimigo com poderosos golpes. Ao constatar a derrota das tropas de Maxêncio, a cidade de Turim fechou seus portões, impedindo a entrada dos sobreviventes, e, após estes serem massacrados, recebeu os vitoriosos de portas abertas.

Porta Palatina, o Portão das muralhas romanas de Turim, foto By Godromil – Own work, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=7596252

O avanço rápido e bem-sucedido de Constantino fez com que outras cidades do norte italiano, incluindo a capital Milão, aderissem a sua causa. Assim, após passar parte do verão na cidade, Constantino resolveu atacar Maxêncio diretamente em Roma.

A estratégia de se entrincheirar atrás das formidáveis Muralhas Aurelianas havia funcionado para Maxêncio nos conflitos anteriores contra Severo e Galério, entretanto, desta vez, talvez estimulado porque o seu exército era mais numeroso, reforçado pelo fato de que a chegada do exército de Constantino às cercanias de Roma ocorria justamente na data em que ele celebraria o aniversário de seu reinado (dies imperii), Maxêncio resolveu enfrentar o rival em uma batalha campal fora da proteção dos Muros de Roma. Segundo um relato, ele também teria consultado os vetustos Livros Sibilinos, coleção de profecias oraculares da época da monarquia, e obtido um verso profético para o dia 28 do mês de outubro daquele ano, o qual lhe soou como um bom presságio (“O inimigo que atacar Roma morrerá uma morte miserável”).

Trecho das Muralhas Aurelianas, em Roma

Dias antes da Batalha, fontes cristãs relatam que Constantino teria visto um sinal de luz no céu, em forma de cruz, acompanhada dos dizeres : “In hoc signus vinces” (Neste sinal, vencerás) e, após, em um sonho, no dia seguinte, que pode ser o da véspera, o próprio Cristo terai aparecido para ele, em um sonho, e explicado que ele deveria usar aquele sinal contra os seus inimigos.

La Vision de Constantine, de Jacques Punel, séc. XVII, via Wikimedia Commons

A Batalha da Ponte Mílvio

No dia 28 de outubro de 312 D.C, que marcava o sexto aniversário do seu reinado, Maxêncio comandando suas forças deixou as Muralhas de Roma e marchou para enfrentar o exército de Constantino, que se encontrava acampado na Via Flamínia, nos arredores ao norte da Cidade, próximo à Ponte Mílvio. Esta ponte possibilitaria que os inimigos cruzassem o rio Tibre e se dirigissem à cidade, e por isso, havia sido previamente, nesta ou em oportunidades anteriores, construída tendo a parte central feita de madeira, para poder ser recolhida quando necessário, ou, segundo outras fontes, para poder ser preparada para ceder aos pés de um invasor.

A Ponte Mílvio, estado atual

O Exército liderado por Maxêncio cruzou a ponte em direção à margem norte, ficando com o rio às suas costas. O espaço entre as tropas e o rio era estreito, e portanto, em eventual necessidade de recuar, esta seria uma manobra problemática. Na verdade, Maxêncio era 11 anos mais novo que Constantino, que tinha bem mais experiência militar, e isto, mais do que tudo, deve ter influenciado o resultado.

Constantino ordenou que sua cavalaria atacasse a cavalaria de Maxêncio, obtendo sucesso em dispersá-la. A seguir, a infantaria avançou e um combate encarniçado seguiu-se. Maxêncio resolveu ordenar que seu exército recuasse para o lado sul do rio, em direção às muralhas. Porém, quando cruzavam a Ponte Mílvio, ela desabou, caindo todos que nela se encontravam no rio, morrendo muitos afogados, incluindo o próprio Maxêncio, sendo levados pela correnteza. O resto das tropas de Maxêncio, incluindo a Guarda Pretoriana, ainda tentaram resistir bravamente na margem norte, mas, em menor número, acabaram sendo dizimadas.

A Batalha da Ponte Mílvio, por Giulio Romano, c. 1520

Inicialmente, o povo e o senado se recusaram a acreditar nas noticias da derrota de Maxêncio, mas, no dia seguinte, o corpo dele foi encontrado e a sua cabeça exibida aos cidadãos na ponta de uma lança. Depois, ela seria enviada a Cartago, para que os locais tivessem certeza de que o reinado de seu monarca estava acabado. Toda a família de Maxêncio foi prontamente executada.

Ao entrar na Cúria do Senado Romano, Constantino, emulando um gesto que vários dos seus antecessores fizeram ao longo dos séculos anteriores, prometeu que as prerrogativas dos senadores seriam restauradas, e aquela assembleia, também repetindo um antigo costume, declarou a damnatio memoriae de Maxêncio. Com a vitória na Batalha da Ponte Mílvio, Constantino agora se tornara o indisputado Imperador do Ocidente.

As Insígnias Imperiais

Em 2006, arqueólogos italianos anunciaram a descoberta, na colina do Palatino, em Roma, de uma coleção de um cetro e lanças porta-estandarte imperiais, propositalmente depositadas em um buraco escavado no chão, sendo que a datação de carbono, o estilo e o contexto em que os artefatos foram encontrados permitem considerar que se tratam das insígnias imperiais do imperador romano Maxêncio, provavelmente escondidas por partidários fiéis do Imperador, talvez esperançosos de que ele tivesse sobrevivido à Batalha da Ponte Mílvio (leia nosso artigo sobre essa descoberta clicando no link),

Mas, talvez pior que a damnatio memoriae decretada pelo Senado Romano, para o nome de Maxêncio tenha sido a sua imagem como retratada pelos escritores cristãos que escreveram sobre ele estimulados pela conversão de seu rival e sucessor Constantino ao Cristianismo, pintando-o como um tirano sanguinário, brutal e incompetente, que perseguia a Igreja, algo que outras fontes sobreviventes não parecem dar suporte.

Os 10+ (Teatros)

O Teatro, em sua acepção como uma manifestação cultural envolvendo declamações de texto, interpretação de papéis e canções, execução de músicas e, às vezes, de danças coreografadas, normalmente seguindo um roteiro, realizadas em um espaço determinado (cena ou palco), frequentemente tendo como pano de fundo imagens pintadas, objetos e esculturas relacionados com a história contada, e performado na presença de espectadores, foi inventado na Grécia Antiga (embora manifestações semelhantes tenham surgido em outras regiões, como a Índia e a China).

“Importante observar, no entanto que a palavra grega “Theatron” não se refere à atividade artística em si, mas sim ao local onde ela era apresentada. Assim, teatro, em grego, significa “lugar de ver”. Portanto, a palavra teatro refere-se, especificamente, ao local onde os espectadores se sentavam, em arquibancadas geralmente escavadas, em formato semicircular, em uma encosta mais alta em relação ao espaço circular onde os artistas encenavam as tragédias gregas (chamado de “orchestra“, ou “orquestra”). Normalmente, atrás da orquestra, ficava uma parede onde se colocavam murais e objetos que ajudavam a contextualizar a ação que os artistas interpretavam, e que recebia o nome de skené, ou “cena”, de onde deriva a palavra “cenário”. E a parede da cena também servia para que os artistas se trocassem atrás dela, escondidos dos olhares do público. Mais tarde, com o aumento da complexidade das peças, os teatros gregos também passaram a ter um muro separando a orquestra da cena, que era chamado de “paraskenia“, normalmente decorado com imagens em relevo. Isso criou um espaço elevado elevado exatamente atrás da orquestra, que recebeu o nome de “proskenium” (proscênio, com o significado literal de “em frente à cena”). Esses, então, eram os componentes básicos da arquitetura de um teatro grego. Vale observar que havia construções similares, porém menores e geralmente fechadas, destinadas a recitais de poesia e exibições de canto ou de instrumentos musicais, chamadas de odeons””Importante observar, no entanto que a palavra grega “Theatron” não se refere à atividade artística em si, mas sim ao local onde ela era apresentada. Assim, teatro, em grego, significa “lugar de ver”. Portanto, a palavra teatro refere-se, especificamente, ao local onde os espectadores se sentavam, em arquibancadas geralmente escavadas, em formato semicircular, em uma encosta mais alta em relação ao espaço circular onde os artistas encenavam as tragédias gregas (chamado de “orchestra“, ou “orquestra”). Normalmente, atrás da orquestra, ficava uma parede onde se colocavam murais e objetos que ajudavam a contextualizar a ação que os artistas interpretavam, e que recebia o nome de skené, ou “cena”, de onde deriva a palavra “cenário”. E a parede da cena também servia para que os artistas se trocassem atrás dela, escondidos dos olhares do público. Mais tarde, com o aumento da complexidade das peças, os teatros gregos também passaram a ter um muro separando a orquestra da cena, que era chamado de “paraskenia“, normalmente decorado com imagens em relevo. Isso criou um espaço elevado elevado exatamente atrás da orquestra, que recebeu o nome de “proskenium” (proscênio, com o significado literal de “em frente à cena”). Esses, então, eram os componentes básicos da arquitetura de um teatro grego.

Vale observar que os gregos também erguiam construções similares, porém menores e geralmente fechadas, destinadas a recitais de poesia e exibições de canto ou de instrumentos musicais, chamadas de “odeons” (do grego, “aeido”, ou seja, canto, de onde surgiu a palavra “ode”).

Os Romanos, ao entrarem em contato com a cultura grega, introduziram o teatro ainda durante os primeiros séculos da República. Lívio Andrônico, um dramaturgo nascido em Tarento, cidade da chamada “Magna Grécia!, no sul da Itália, foi o maior expoente do teatro romano, no século III A.C. Nessa época, Plauto também destacou-se como autor de comédias, tendo algumas peças dele sobrevivido até os nossos dias.. E, já no Império, o filósofo Sêneca, o Jovem, escreveu várias tragédia, que influenciaram até mesmo dramaturgos europeus, como Shakespeare e Racine. Porém, ainda durante o Império, a popularidade de tragédias e comédias elaboradas diminuiu, e o público preferia assistir mimes (comédias burlescas escrachadas).

Após os Romanos conquistarem a maior parte da Grécia, durante os séculos II e I A.C, vários artistas e dramaturgos foram trazidos para Roma. Inicialmente, os teatros romanos eram de madeira e, de acordo com a lei romana, eles destinavam-se a serem estruturas temporárias, mas com o enriquecimento da República, surgiu a necessidade de edifícios permanentes, que foram construídos seguindo o modelo grego, mas adaptado a peculiaridades romanas.

A ausência de colinas com a topografia adequada para abrigar as arquibancadas na cidade de Roma, somada à maestria dos romanos em erguerem construções sobre arcos e à tecnologia do concreto romano permitiram que os engenheiros romanos preferissem construir os teatros romanos sobre uma estrutura apoiada em arcadas.

As arquibancadas, isto é, o setor semicircular elevado onde o público sentava em degraus, era chamado pelos romanos de “cavea“. O fato desta ser construída sobre arcadas favorecia que a cena (em latim, scaenae frons) fosse mais alta que nos teatros gregos, e formasse um espaço fechado com a cavea, resultando que os teatros romanos podiam ser inteiramente contidos dentro de um muro exterior contínuo. E essas são as duas principais características que distinguem os teatros romanos dos gregos, muito embora os romanos, algumas vezes continuassem construindo, quando o terreno permitia, arquibancadas apoiadas em encostas. O muro que separava a orquestra do palco, frequentemente decorado com elaborados relevos, era chamado de “pulpitum. Era comum que os espectadores sentados na cavea fossem protegidos do sol inclemente por uma estrutura retrátil que estendia uma cobertura de tecido ou lona (velarium), que também era utilizada nos anfiteatros. Outra característica encontrada nos teatros romanos, compartilhada com os anfiteatros, possibilitada pela sua estrutura construída em alvenaria, era que o acesso dos espectadores poderia se dar pelo interior da mesma, com a entrada e saída da cavea por meio de passagens e aberturas, chamadas de “vomitoria“.

Dito isso, sem mais delongas, vamos àqueles que eu considero os templos romanos sobreviventes mais bem preservados e/ou impressionantes (OBS: trata-se de uma seleção discricionária minha, e a posição na lista não indica primazia. Aceitamos outras sugestões nos comentários).

1- Teatro de Aspendos (Aspendos, Turquia)

Considerado por muitos o teatro romano em melhor estado de conservação, o Teatro de Aspendos foi construído durante o reinado do imperador romano Marco Aurélio (161-180 D.C), e a sua construção foi providenciada pelos irmãos Curtius Crispinus e Curtius Auspicatus, que provavelmente deviam ser magistrados integrantes do conselho municipal. O seu arquiteto foi Zenão. Infelizmente, não sabemos mais detalhes sobre os personagens citados. A capacidade do teatro é estimada entre 7 mil e 13 mil espectadores. Parte da cavea repousa sobre uma colina, seguindo o estilo grego, mas toda a construção está dentro de muros de alvenaria, como é característico dos teatros romanos. Sobreviveram alguns orificios onde ficavam os postes para o velarium.

patano, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons
Saffron Blaze, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

2- Teatro de Amã (Jordânia)

Na minha opinião, o Teatro de Amã disputa com o de Aspendos e o de Bosra o título de teatro romano melhor conservado. Durante o período romano, a cidade tinha o nome de Philadelphia. Ele foi construído durante o reinado do Imperador Antonino Pio (138-161 D.C), em nome de quem foi dedicado. Estima-se sua capacidade em 6 mil lugares. Este teatro foi construído seguindo o modelo grego, e toda a sua cavea assenta-se sobre a colina.

Bernard Gagnon, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons
Dosseman, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

3- Teatro de Bosra (Síria)

O Teatro de Bosra foi construído no século II D.C, provavelmente durante o reinado do imperador Trajano (98-117 D.C). Aliás, durante o reinado dele, a cidade recebeu o nome de Nova Traiana Bostra. Com capacidade estimada de 17 mil espectadores, é um dos maiores teatros construídos durante o Império Romano. Durante o período islâmico, o teatro foi convertido em uma fortaleza, razão pela qual o seu muro externo foi integrado e envolvido por muralhas e torres. No entanto, o primeiro andar da sua scaenae frons (com três andares) preserva quase que totalmente a colunata decorativa. Infelizmente, consta que o teatro sofreu alguns danos durante a Guerra Civil da Síria, ainda em andamento.

الشجاع المقداد, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

4- Teatro de Orange (França)

O Teatro de Orange foi construído durante o reinado do imperador Augusto (27 A.C – 14 D.C) e era um dos primeiros teatros romanos a serem construídos na província da Gália, quando a cidade era uma colônia romana de nome Arausio. Estima-se que a sua capacidade variava entre 5.800 e 7.300 espectadores. Vale notar que, em um nicho central em sua cena, uma estátua de Augusto sobreviveu até os nossos dias. O muro externo à cena é construído com uma bela estrutura de alvenaria, fato que levou o rei Luís XIV a considerá-la “O muro mais belo do meu Reino”. Note-se que esse muro preserva as bases onde os postes do velarium eram encravados.

Gromelle Grand Angle, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons
Suwannee.payne, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

5- Teatro de Mérida (Espanha)

Este teatro foi construído pelo Cônsul Marco Vipsânio Agripa, o braço-direito do imperador Augusto, em Emerita Augusta (atual Mérida), a capital da província da Lusitânia, entre os anos 15 e 15 A.C., mas foi renovado algumas vezes ainda durante o Império Romano. Abrigava cerca de 6 mil espectadores. É um dos teatros romanos sobreviventes cuja scaenae frons está mais bem preservada, com seus dois andares decorados com colunas.

Benjamín Núñez González, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons
Xosema, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

6- Teatro de Sabratha (Líbia)

Outro teatro cuja cena frontal está muito bem preservada, incluindo o terceiro andar. o Teatro de Sabratha provavelmente foi construído no período que compreende o reinado dos imperadores Cômodo (180-192 D.C) e Septímio Severo (193-211 D.C), época em que a província romana da África Proconsular desfrutou de sua maior prosperidade. Quando intacto, hospedava cerca de 5 mil espectadores. O pulpitum é um dos mais ricamente ornamentados e bem preservados dos teatros antigos que sobreviveram.

Franzfoto, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons
Ursus, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

7- Teatro de Hierapolis (Turquia)

A antiga cidade de Hierapolis é contígua a Pamukkale, destino turístico turco famoso pelos seus terraços de travertino, em intrincadas formações naturais que formam piscinas de águas termais. Acredita-se que o seu teatro romano tenha sido construído durante o reinado do imperador Adriano (117-138 D.C), e ganhado uma grande restauração no reinado do imperador Septímio Severo. Abrigava cerca de 15 mil espectadores. Uma curiosidade é o fato de ser um dos únicos que apresenta, no meio de sua cavea, um camarote imperial em formato semicircular. Há indícios de que foi adaptado, já no período do Baixo Império Romano, para ser palco de espetáculos de caçadas (venationes).

A.Savin, FAL, via Wikimedia Commons
Herbert Weber, Hildesheim, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

8- Teatro Sul e Teatro Norte de Jerash (Jordânia)

A antiga cidade de Gerasa passou a fazer parte do Império Romano como resultado das campanhas de Pompeu, o Grande, em 63 A.C, inicialmente como uma das dez cidades helenísticas integrantes da chamada Decapolis. Durante os séculos I e II D.C, Gerasa experimentou grande prosperidade, o que lhe possibilitou abrigar três teatros. Os mais notáveis são os assim denominados “Teatro Sul” e “Teatro Norte”. O Teatro Sul começou a ser construído durante o reinado do imperador Domiciano (81-96 D.C) a quem foi dedicado pelo governador Lappius Maximus. Tinha a capacidade de 4.700 lugares. O primeiro andar da sua scaenae frons está bem restaurado, mas resta apenas um pequeno trecho do segundo andar. Já o Teatro Norte data do período entre 135-140 D.C, sendo ampliado no reinado dos imperadores Lúcio Vero e Marco Aurélio (161-169 D.C), quando ele foi remodelado para funcionar como um odeon, com capacidade para 1.600 espectadores. Este odeon foi utilizado até o século VI D.C.

Teatro Sul de Gerasa, By Zairon – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=30354378
Teatro Norte de Gerasa, Zairon, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

9- Teatro de Termessos (Turquia)

Escolhemos o Teatro de Termessos principalmente pela sua localização fantástica. Termessos foi fundada pelos Pisídios, um povo que habitava a região da Pisídia, na Ásia Menor. A cidade foi construída a mais de 1.000 metros de altitude, encravada no meio de picos integrantes das Montanhas Taurus. Alexandre, o Grande tentou conquistá-la, sem sucesso, mas ela acabou se integrando aos reinos helenísticos que sucederam o conquistador macedônio. Mais tarde, Termessos se tornou aliada de Roma, que, em reconhecimento, concedeu-lhe o status de cidade autônoma. O Teatro de Termessos, em sua forma atual, deve ter sido construído por volta do século II D.C, tendo uma capacidade de 4 mil espectadores, que, das arquibancadas, podem apreciar uma vista maravilhosa da planície da Panfília, centenas de metros abaixo.

Dosseman, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons
Capyusuf, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

10- Teatro de Plovdviv (Bulgária)

A cidade búlgara de Plovdiv teve uma história conturbada, sendo destruída e reconstruída várias vezes. Durante a Antiguidade Clássica, Plovdiv chamava-se Philippopolis, uma vez que foi fundada pelo rei Filipe II, da Macedônia, pai de Alexandre, o Grande, no lugar de um assentamento trácio. Com a derrota da Macedônia pelos Romanos, na Terceira Guerra Macedônica, Philippopolis tornou-se a capital da Província Romana da Trácia. As ruínas soterradas do teatro somente foram descobertas na década de 1970, devido a um deslizamento de terra. Um cuidadoso trabalho arquitetônico usando a técnica da anastilose (na qual utilizam-se todos os elementos originais encontrados, suprindo-se as lacunas com reproduções modernas de partes idênticas às antigas), transformou o Teatro de Plovdiv em um dos mais bem preservados. Estima-se que tinha a capacidade de cerca de 7 mil lugares e que foi construído durante o reinado do imperador Domiciano.

By Plamen Agov • studiolemontree.com, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=13133568
By Dennis Jarvis from Halifax, Canada – Bulgaria-0785 – Roman Theatre of Philippopolis, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=45848615

Bônus: Teatros na antiga cidade de Roma

Mesmo após a introdução dos espetáculos teatrais em Roma, os teatros construídos para a sua encenação eram estruturas provisórias de madeira, ainda que elas pudessem acomodar milhares de espectadores. Porém, a construção de teatros permanentes dentro do Pomério (limites sagrados da cidade de Roma) era proibida, refletindo a controvérsia que havia no seio das elites em relação à importação de costumes gregos.

Foi somente em 55 A.C que Pompeu, o Grande inaugurou o primeiro teatro permanente construído em Roma, e que seria o modelo para os demais teatros construídos pelos romanos por todo o Império. Sabe-se que as peças encenadas foram “Clitemnestra“, escrita pelo poeta Ácio, e “O Cavalo de Tróia“, atribuída a Lívio Andrônico. O renomado ator trágico Clódio Esopo, que estava aposentado, foi chamado para atuar na inauguração.

O Teatro de Pompeu prenunciou a prática adotada por seus sucessores imediatos no poder supremo de Roma, Júlio César e Augusto, bem como os imperadores subsequentes, de erguer e dedicar obras monumentais na Cidade de Roma à glória de seu próprio nome. E de fato, podemos considerar que, quando ele começou a ser construído, em 61 A.C, nenhum edifício da Urbe podia ser comparado a ele em tamanho e magnificência. No alto e no centro da cavea foi construído um templo dedicado a Vênus Victrix, o que, inclusive, permitiu a Pompeu contornar a proibição legal acima citada. E o teatro fazia parte de um vasto complexo, estando conectado a um enorme quadripórtico, abrigando entre suas colunas, salas para a exibição dos troféus e obras de arte que Pompeu amealhara no Oriente Grego, o qual rodeava uma praça quadrada adornada por jardins. Na outra extremidade do quadripórtico, ficava um edifício construído para abrigar assembleias e reuniões políticas, denominado Cúria de Pompeu. Aliás, poucos anos depois da sua inauguração, a Cúria Hostília, o prédio do Senado Romano no Fórum Romano, foi incendiado nos tumultos que se seguiram ao assassinato do político demagogo Clódio. Então, o Senado passou a se reunir na Cúria de Pompeu e foi exatamente ali que, no ano de 44 A.C, Júlio César foi assassinado por seus adversários no Senado Romano, falecendo aos pés da estátua do próprio Pompeu, a quem havia derrotado anos antes.

A capacidade do Teatro de Pompeu foi estimada, ainda na Antiguidade, em 22.800 espectadores. A cavea, cujos bancos eram revestidos de mármore, apoiava-se em uma estrutura de concreto. Ao longo dos séculos, o Teatro de Pompeu sofreu incêndios e foi restaurado várias vezes. Após às Guerras Góticas, em meados do século VI, a população de Roma caiu consideravelmente, e o edifício foi abandonado, tornando-se fonte de materiais de construção e sendo transformado em fortaleza. Ao fim da Idade Média, o Teatro já se encontrava coberto por vários edifícios, entretanto, parte da forma semicircular do teatro foi preservada pela Via de Grottapinta e um conjunto de prédios erguidos nesta rua. O artista Piranesi, em meados do século XVIII ainda conseguiu retratar em uma gravura o que restava do Teatro, sob os edifícios.

Modelo do Teatro de Pompeu e seu complexo, com o Templo de Vênus Victrix em primeiro plano e, no extremo do quadripórtico, a Cúria de Pompeu. Foto: A derivative work of a 3D model by Lasha Tskhondia – L.VII.C., CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons
A Via de Grottapinta e prédios que preservam o traçado do semicírculo do Teatro. Foto: Lalupa, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons
Gravura de Piranesi com os vestígios do Teatro de Pompeu

O vencedor de Pompeu na Guerra Civil do Primeiro Triunvirato, Caio Júlio César, era um notório entusiasta da cultura grega e, por diversas vezes, usa citações de peças gregas em seu discurso. Uma de suas mais famosas frases : “A sorte está lançada“, na verdade foi retirada de uma comédia do autor grego Menandro, chamada “Arrhephoros“.

Por isso, não surpreende o fato de que César também planejou erguer um teatro em Roma. O Ditador inclusive chegou a escolher e mandar limpar o terreno onde seria construído o seu teatro, mas os Idos de Março de 44 A.C vieram e ele foi assassinado antes que pudesse executar o seu projeto.

Augusto, o herdeiro e sucessor de César, resolveu dar andamento à construção do teatro planejado por seu pai adotivo e, no ano de 17 A.C., as obras estavam suficientemente avançadas para que os Jogos Seculares fossem celebrados no teatro, que foi completado em 13 A.C. No ano seguinte, o teatro foi dedicado a Marco Cláudio Marcelo, sobrinho e, inicialmente, o herdeiro escolhido por Augusto, que, infelizmente, havia morrido de doença em 23 A.C., ficando conhecido como “Teatro de Marcelo”.

O Teatro de Marcelo, segundo uma fonte do século IV D.C, tinha capacidade para 17.580 espectadores, sendo o segundo maior de Roma. Deixou de ser utilizado no século IV D.C, e, ainda durante o Império Romano, teve parte de seus blocos de construção retirados para serem utilizados em outros edifícios. Durante a Idade Média, residências foram construídas dentro e acima de suas estruturas e ele foi convertido em uma fortaleza. Graças a isso, parte de sua fachada sobreviveu, podendo se observar dois andares de arcadas, sendo que no primeiro andar, os arcos são separados por colunas dóricas, e, no segundo, por colunas jônicas (e provavelmente o terceiro, desaparecido, tinha colunas coríntias, como ocorre no Coliseu, construído posteriormente).

By Geobia – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=18942534
O Teatro de Marcelo, em 1º plano, na Maquete de E. Gismondi, no Museu da Civilização Romana, Roma. Foto Alessandro57, Public domain, via Wikimedia Commons

Em 13 A.C, o terceiro teatro permanente da cidade de Roma foi inaugurado por Lúcio Cornélio Balbo, o Jovem, um político e general de origem púnica que havia sido partidário de Júlio César na juventude e que exerceu vários cargos importantes durante os primeiros anos do reinado de Augusto. Balbo escreveu um livro e uma peça teatral, e provavelmente era entusiasta de teatro, erguendo o edifício com recursos próprios. No dia da inauguração, as fontes relatam que o rio Tibre transbordou devido a uma enchente e Balbo teve que entrar no teatro de barco. O Teatro de Balbo foi construído próximo ao Teatro de Pompeu e podia abrigar cerca de 8 mil espectadores, sendo que o Teatro de Marcelo também não estava longe. Com isso, a área do Campo de Marte converteu-se em um verdadeiro “Theater District”. Em 1561, alguns restos do teatro ainda podiam ser vistos e foram retratados por Giovanni da Sangallo em uma gravura.

Teatro de Balbo, reconstrução na maquete de Roma de E. Gismondi.

Recentemente, foram descobertos em Roma os vestígios de um quarto teatro, citado pelas fontes como Teatro de Nero. Seria um teatro para o desfrute particular do imperador Nero (54-68 D.C) e seus amigos. Vide https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/teatro-do-imperador-nero-de-2-mil-anos-e-desenterrado-em-roma-apos-seculos-perdido/

ANTÍNOO – O FAVORITO DE ADRIANO QUE VIROU DEUS

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Segundo as fontes, Antínoo (Antinous) nasceu no mês de novembro (no dia 27, dia do festival em sua honra, segundo uma inscrição),  provavelmente por volta do ano de 111 ou 112 D.C., na cidade de Claudiopolis (atual Bolu no noroeste da Turquia), na província romana da Bitínia. Embora a cidade fosse bem antiga e tivesse feito parte do Império Hitita, ela foi helenizada e reconstruída por colonos gregos vindos da cidade de Mantinea (antes da conquista romana, a cidade chamava-se Bithynium).

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(Lago Abant, em Bolu, foto de Azplanlos)

Em junho de 123 D.C., o imperador Adriano, então com 47 anos de idade, que se notabilizou por viajar por todo o Império Romano, chegou à cidade de Claudiopolis e, em algum momento de sua estadia, notou o ainda pré-adolescente Antínoo, atraído pela beleza do menino.

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Deixando Claudiopolis, Adriano continuou seu tour pelas províncias orientais do Império, mas deve ter providenciado para que Antínoo fosse enviado para Roma, provavelmente para ser educado no Paedagogium, a escola existente no Palácio de Domiciano, no monte Palatino, destinada à instrução dos pajens imperiais.

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(Ruínas do Peadagogium, no Palatino, em Roma)

Adriano voltou para Roma em setembro de 125 D.C., e, em algum momento nos anos seguintes, ele reencontrou Antínoo e ambos tornaram-se amantes. Três anos depois, quando Adriano partiu para nova viagem para a Grécia, Antínoo acompanhou-o, integrando a comitiva imperial.

Os historiadores concordam que Adriano tinha nítida inclinação homossexual e que o casamento dele com a imperatriz Sabina seria apenas por conveniências políticas e manutenção de uma imagem pública.

De qualquer forma, os costumes gregos estavam disseminados pela elite romana e o fato do imperador ter como amante um garoto inseria-se dentro da prática helênica da “pederastia“, onde se admitia que o mestre, mais velho (erastes), iniciasse sexualmente o discípulo (eromenos), aceitando-se que mantivessem relações sexuais até que o segundo saísse da puberdade e entrasse na idade adulta. Portanto, a opinião pública não deve ter dado muita importância ao relacionamento sexual entre o imperador e seu jovem pajem.

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(Busto da imperatriz Sabina, cujo casamento com Adriano foi notoriamente infeliz)

Consta que Adriano elogiava a inteligência de Antínoo. Ele escreveu poemas em homenagem ao amante, que infelizmente, não chegaram até os nossos dias. Por sua vez, não há nenhum indício de que Antínoo tenha se valido de sua privilegiada posição para obter algum ganho pessoal ou influência política.

Não se sabem muitos detalhes do relacionamento entre Adriano e Antínoo, mas é certo que as caçadas eram um dos divertimentos que eles faziam juntos, de acordo com o relato de um incidente, ocorrido em setembro de 130 D.C., durante uma viagem pelo norte da África, na Líbia, no qual os dois decidiram caçar um leão que estava atacando a população da região. Nessa caçada, Adriano teria salvo a vida de Antínoo e o incidente foi também imortalizado em um relevo circular (tondo), que sobreviveu até nossos dias, por ter sido posteriormente afixado no Arco de Constantino, em Roma (à esquerda, abaixo,  foto de Radomil).

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No decorrer dessa viagem pela África, Adriano e Antínoo chegaram ao Egito, por volta do início de outubro de 130 D.C., parando na  antiquíssima cidade sagrada de Heliopolis, de onde eles partiram para um cruzeiro pelo Nilo, navegando até a cidade de Hermopolis Magna. Nas proximidades da referida cidade, as fontes, sem entrar em detalhes, contam que Antínoo caiu no Nilo e morreu, ao que tudo indica, afogado, no dia em que se celebravam antigos festivais em homenagem ao deus egípcio Osíris.

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(Vista das ruínas de Hermopolis, foto de Roland Unger)

 

As principais fontes antigas assim relatam a  morte de Antínoo:

 

Dião Cássio

“Antinous era de Bithynium, uma cidade da Bitínia, a qual nós também chamamos Claudiopolis; ele foi um favorito do imperador e morreu no Egito, seja por ter caído no Nilo, como escreve Adriano, ou,  mais verdadeiro, por ter sido oferecido em sacrifício. Pois Adriano, como eu sempre afirmei, sempre se interessou por adivinhações e encantamentos de todo o tipo.  Então, Adriano homenageou Antinous – seja devido ao amor que sentia por ele, ou porque o jovem voluntariamente aceitou morrer (sendo necessário que uma vida fosse livremente oferecida para atingir os fins que Adriano tinha em vista) -com a construção de uma cidade no local onde ele sofreu o seu destino, dando-lhe o seu nome; e Adriano também ergueu estátuas, ou  imagens sagradas, dele, praticamente por todo o mundo. Finalmente, Adriano declarou que ele tinha avistado uma estrela que ele entendeu ser de Antinous, e alegremente emprestou seus ouvidos a estórias fictícas tecidas por seus adeptos no sentido de que a estrela havia nascido do espírito de Antinous e, assim, tinha aparecido pela primeira vez. No que se refere a isso, então, ele se tornou objeto de certo ridículo, e também porque, quando a sua irmã Paulina morreu, ele, na oportunidade, não fizera nenhuma homenagem.”

 

 

História Augusta

“Ele (Adriano) perdeu Antinous, seu favorito, durante uma viagem pelo Nilo, e por este jovem ele chorou como uma mulher. Com relação a este incidente, houve vários rumores:  alguns defendem que ele teria se entregado à morte por Adriano, e outros,  aquilo que a sua própria beleza, e a sensualidade de Adriano, sugerem…”

 

Aurelius Victor

“Outros defendem que este sacrifício de Antinous foi pio e religioso, pois, quando Adriano estava desejoso de prolongar a sua vida, e os feiticeiros demandaram que uma vítima voluntária fosse dedicada, diz-se que, após todos recusarem, Antinous ofereceu a si próprio”

 

Obviamente que não podemos excluir a hipótese de que a morte de Antínoo tenha sido acidental, segundo a versão dada pelo próprio Adriano, nem provar que os outros motivos alegados pelos autores antigos são inverídicos, muito embora tenham se registrado muitos episódios nos quais o o referido imperador mostrou-se explicitamente contrário à prática de sacrifícios humanos. Também não é impossível que, conforme a última passagem da História Augusta acima transcrita alude, a morte do rapaz tenha involuntariamente resultado de algum ato sexual, ou que a queda no rio tenha sido decorrente da embriaguez de ambos os amantes.

Entretanto, é fato que Antínoo estava no limiar de atingir a idade em que o seu relacionamento amoroso com Adriano (que estava com 54 anos de idade) tornaria-se extremamente embaraçoso para o imperador, pois o mesmo não mais poderia se dar sob o manto da pederastia.  O relacionamento sexual entre homens adultos livres não era admissível segundo a moral romana, e a chegada da maturidade sexual de Antínoo, que já estava com 18 ou 19 anos de idade, poderia expor o imperador à execração por parte da sociedade romana, especialmente na Itália, e, mais importante, a perda do seu prestígio entre os militares.

Desse modo, ainda que não se possa acusar Adriano, ou seus cortesãos, pelo assassinato de Antínoo, o fato é que a morte dele foi muito conveniente para o trono.

O que ninguém contesta é que Adriano ficou devastado com a morte de Antínoo e ordenou que homenagens inauditas fossem conferidas ao seu falecido amante.

Assim, ainda em outubro de 130 D.C., Adriano proclamou que Antínoo era um deus. A “deificação” já tinha se tornado comum para os imperadores falecidos e até algumas imperatrizes ou pessoas da família imperial já tinha sido tornados divinos, mas era a primeira vez que um simples pajem recebia essa distinção.

Adriano também fundou, no local onde Antínoo morreu, a cidade de Antinopolis, em 30 de outubro de 130 D.C..

O imperador também ordenou a construção de um santuário dedicado a Antínoo no interior de sua fabulosa Villa Adriana, em Tívoli, onde é provável que o falecido amante tenha sido enterrado (talvez depois de ser mumificado no Egito), conforme sugere o texto em hieróglifos no obelisco que  foi erguido ali e hoje encontra-se no Monte Pinciano, em Roma (vide https://followinghadrian.com/2016/10/02/the-obelisk-of-antinous/)

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A deificação de Antínoo foi seguida pela organização formal de seu culto, patrocinado pelo Estado, em diversas cidades, construindo-se templos e nomeando-se sacerdotes.

Embora, inicialmente, a criação e a adesão ao culto a Antínoo decorresse amplamente do patrocínio imperial e do desejo de adular Adriano (ou, igualmente, do temor em desagradá-lo), certamente a extraordinária beleza do rapaz, bem como as circunstâncias trágicas de sua morte e, principalmente, a similitude da forma e do lugar onde ele morreu com o mito de Osíris (que também morreu afogado no Nilo e depois foi ressuscitado pela mulher, Ísis), contribuíram para a popularização do novo deus, que no Egito, passou a ser associado a Osíris, recebendo o nome de Osirantinous.

Em algumas outras regiões, Antínoo foi considerado um herói mítico, como Hércules, um humano que superou a morte e pode transitar entre o mundo dos mortos e o dos vivos.

 

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(Antínoo retratado como Osíris, foto de DS)

Estátuas de Antínoo foram espalhadas por todo o Império Romano, aparentemente baseadas em modelos produzidos em Roma, por ordem de Adriano, uma vez que todas observam os mesmos padrões e contribuíram para popularizar o seu culto..

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Foram identificados até hoje 28 templos dedicados a Antínoo e encontrados vestígios de seu culto em pelos menos 70 cidades ao longo do Império Romano. No mundo grego, Antínoo também foi associado aos deuses Hermes e Dionísio. Os centros do culto eram as cidades de Antinopolis, Claudiopolis (local de nascimento de Antínoo) e Mantinea (De onde os seus ancestrais, fundadores de Claudiopolis, teriam vindo). Nessas cidades, também eram celebrados jogos em homenagem ao novo deus, o que ocorreu pelo menos até o início do século III, que também ocorriam em Atenas e Eleusis, tendo estes durado pelo menos até  267 D.C.

De fato, o culto a Antínoo perdurou por séculos após a morte de Adriano. Um papiro do final do século III preserva um poema em homenagem a Antínoo, mencionado a famosa caçada,, o Nilo, sua apoteose e a fundação da cidade em sua honra.

Os bispos e doutores da nascente Igreja também sentiram a necessidade de fazer invectivas contra o culto a Antínoo, No final do século II, Clemente de Alexandria escreveu:

“Outra nova divindade foi criada no Egito – e muito próxima aos Gregos também – que foi solenemente elevada pelo imperador à categoria de deus – o seu favorito cuja beleza era inigualável, Antinous. Ele consagrou Antinous da mesma maneira que Zeus consagrou Ganimedes. Pois a luxúria não é facilmente contida, quando não há medo, e mesmo agora o povo observa as noites sagradas de Antinous, que são realmente vergonhosas, como o amante que as passava junto com ele bem sabia. Por que, eu pergunto, vocês consideram um deus alguém que foi homenageado pela fornicação? Por que vocês ordenaram que ele fosse pranteado como um filho? Por que, igualmente, vocês narram as estórias da beleza dele? A beleza é algo vergonhoso quando manchada pelo ultraje. Não sejam tiranos da beleza, nem ultrajem aquele que está na flor de sua juventude. Guarde-a na pureza, para que permaneça bela. Tornem-se reis da beleza, não tiranos. Deixem-na livre. Quando vocês deixarem a imagem dela pura, então eu reconhecerei a vossa beleza. Então eu irei reverenciar a beleza, quando for o verdadeiro arquétipo das coisas belas. Agora nós temos uma tumba do amante, um templo e uma cidade de Antinous. (Exortação ao Gregos, 4.49.1-3)

O supracitado texto de Clemente de Alexandria também sugere que o culto de Antínoo poderia incluir alguma celebração orgiástica.

Por volta do ano 250 D.C., outro doutor da Igreja, Orígenes, em sua obra “Contra Celso”, refuta os argumentos do filósofo Celso contra  a fé cristã (que comparou, entre outros, Jesus Cristo a Antínoo). Nesse texto, Orígenes chega a reconhecer a existência de prodígios atribuídos a Antínoo, mas considera-os obra de um daimon (espírito) ou de mágicos.

Somente com o triunfo do Cristianismo, após a proibição das cerimônias públicas pagãs por Teodósio e a destruição de incontáveis templos, o culto a Antínoo desaparece da História, tendo o culto durado pelo menos uns duzentos e cinquenta anos.

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LEGADO

No século XIX, a revalorização do classicismo elegeu as estátuas de Antínoo como o último suspiro da arte clássica greco-romana e símbolo de beleza masculina. Ele também acabou inspirando vários escritores como Oscar Wilde, Fernando Pessoa e Marguerite Yourcenar.

Para saber mais: Lambert, Royston (1984). Beloved and God: The Story of Hadrian and Antinous. George Weidenfeld & Nicolson

 

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ELAGÁBALO – MENINO TRAVESTIDO DE IMPERADOR

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(Busto de Elagábalo, foto de Giovanni Dall’orto)

Em 11 de março de 222 D.C, no Quartel da Guarda Pretoriana (Castra Pretoria) em Roma, os soldados da Guarda Pretoriana atacaram e mataram o Imperador Romano Elagábalo (Elagabalus, nome às vezes também grafado como Heliogábalo) e a mãe dele, Júlia Soêmia, aclamando o seu primo, Severo Alexandre, presente no local, como novo imperador. Em seguida, os assassinos decapitaram os cadáveres e jogaram os corpos de Elagábalo e de Júlia no rio Tibre.

Nascido com o nome de Varius Avitus Bassianus, na Síria, em 203 D.C, Elagábalo era filho de Sextus Varius Marcellus e de Julia Soemias Bassiana (Júlia Soêmia).

Julia_Soemias_2.jpg(Detalhe de estátua de Júlia Soêmia, mãe de Elagábalo, foto de Wolfgang Sauber )

O pai de Elagábalo era membro de uma família da classe Equestre, originária da cidade grega de Apamea, na Síria, e  que ascendeu durante o reinado do imperador Septímio Severo, período no qual Sextus Varius Marcellus ocupou vários cargos importantes, como Procurador dos Aquedutos em Roma, Procurador Romano da Britânia, Prefeito da Urbe e Prefeito Pretoriano.

Como evidência do seu status na corte de Severo, Sextus Varius Marcellus casou-se com Júlia Soêmia, sobrinha da poderosa imperatriz Júlia Domna, irmã da mãe dela, Júlia Maesa.

ulia_Domna_Glyptothek_Munich_354(A poderosa, bela e inteligente imperatriz Júlia Domna era tia-avó de Elagábalo)

As duas irmãs, a imperatriz Júlia Domna e a avó de Elagábalo, Júlia Maesa, eram filhas de Julius Bassianus, sumo-sacerdote do Templo do deus Elagábalo (El-Gabal ou Ilāh hag-Gabal, literalmente, “O Deus da Montanha”, em aramaico), situado em Emesa (a moderna Homs), na Síria, e membro da dinastia dos Sempseramidas, os governantes ancestrais daquela cidade, a qual, durante muito tempo, havia sido a capital de um reino-cliente de Roma, até aquela ser anexada pelo Imperador Caracala. O posto de sumo-sacerdote de El-Gabal era hereditário, e foi assumido por Elagábalo.

Emesa era uma cidade próspera e o culto ao Deus-sol se espalhava pelo império romano no século III. O Templo de Elagábalo guardava uma pedra negra cônica sagrada, que muitos acreditavam ter caído do céu,  a qual  atraía peregrinos e doações de toda a região, Consequentemente, os sumo-sacerdotes de El-Gabal eram riquíssimos.

homs03a(Homs, antiga Emesa, no início do século XX)

Vale observar que o culto a El-Gabal não seria primeira, e nem a última, religião oriental a cultuar uma pedra negra supostamente caída do céu…Com efeito, os muçulmanos veneram uma pedra negra chamada de al-Hajar al-Aswad, que se encontra no interior da Caaba, uma construção quadrada em pedra cuja construção é atribuída ao patriarca Abraão, em Meca.

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(A Pedra Negra e o Templo de El-Gabal são retratados nessa moeda cunhada por um governante Sempseramida de Emesa, em meados do século III D.C.),

Quando Septímio Severo morreu, em 211 D.C, ele foi imediatamente sucedido por seus dois filhos Caracala e Geta. Porém, no mesmo ano, Caracala matou o seu irmão Geta e assumiu o trono sozinho. A imperatriz viúva, Julia Domna, porém, continuou muito influente na Corte. Após seis anos de um reinado turbulento, Caracala foi assassinado, em 8 de abril de 217 D.C. por um guarda-costas, em uma estada próxima à Carras, na Turquia, onde ele se encontrava em preparativos para uma campanha contra a Pérsia, crime cometido provavelmente à mando do Prefeito Pretoriano Macrino, que, em seguida, assumiu o trono.

Abalada com o fratricídio, Júlia Domna, mãe do imperador assassinado e do assassino, que estava gravemente doente devido a um câncer de mama, suicidou-se, recusando-se a comer.

Então, Macrino exilou o restante da família de Caracala, agora chefiada por sua tia Júlia Maesa, para a sua nativa Emesa. Contudo, esta decisão revelou-se um grande equívoco de Macrino, pois, valendo-se de seu imenso poder e riqueza na região, a influente matriarca síria e suas parentes iniciaram uma conspiração para derrubar Macrino.

Inicialmente, Júlia Soêmia declarou publicamente que seu filho Varius Avitus Bassianus (Elagábalo) era filho ilegítimo de Caracala (consta que, de fato, ambos eram muito parecidos) e, portanto, o legítimo herdeiro do imperador falecido.

Depois, usando seus vastos recursos financeiros, Júlia Maesa conseguiu convencer a III Legião “Gallica, baseada na Jordânia, e o seu comandante, Publius Valerius Comazon, a aclamarem Elagábalo  imperador, em 16 de maio de 218 D.C.

Para piorar, o prestígio de Macrino já estava abalado pelo resultado desfavorável da guerra que ele vinha movendo contra a Pérsia, onde Roma teve que pagar uma indenização para terminar a guerra.

Macrino tentou combater a insurreição, mas as tropas enviadas para suprimi-la aderiram à revolta. Quando ele mesmo entrou em batalha, foi derrotado, em Antióquia, em 8 de junho de 218 D.C e tentou fugir para a Itália, sendo, por´me, interceptado e executado na Capadócia.

O Senado Romano, sem nenhuma alternativa viável, acabou reconhecendo formalmente Elagábalo e ele assumiu o nome oficial de Marco Aurélio Antonino Augusto,  nome que representou uma tentativa de legitimar a sua suposta condição de descendente de Caracala (que, por sua vez, também procurara difundir a crença, altamente improvável, de que ele era descendente do imperador Marco Aurélio).

Embora o fato não fosse inédito, tendo-se inaugurado,  com Trajano,  cidadão romano nativo da Espanha, a possibilidade de que cidadãos nativos de outras províncias que não a Itália assumissem o trono imperial, com certeza a ascensão de Elagábalo deve ter espantado Roma.

Afinal, Elagábalo era sacerdote de uma religião estrangeira de origem semítica (o povo de Emesa falava aramaico, a mesma língua falada por Jesus Cristo). Embora os romanos cultuassem vários deuses estrangeiros, tais como, por exemplo, a egípcia Ísis, estas eram divindades que não entravam em choque com as integrantes do Panteão Romano, não sendo difícil de serem assimiladas ou associadas aos deuses tradicionais.

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Antes mesmo que a comitiva de Elagábalo chegasse a Roma, a mãe dele, Júlia Soêmia, já havia mandado para a capital um grande retrato pintado de Elagábalo vestido com os trajes de sumo-sacerdote,  o qual foi pendurado em cima do Altar da deusa Vitória, na Cúria do Senado Romano (cujo prédio ainda existe, no Fórum Romano). para que os romanos fossem se acostumando com o fato de serem governados por um sacerdote estrangeiro…

Enquanto isso, a comitiva imperial parou em Nicomédia para passar o inverno. E lá, segundo as fontes, Elagábalo entregou-se à prática de vários rituais orgiásticos característicos de sua religião, os quais desagradaram às tropas, chegando a ocasionar início de uma revolta, que acabou suprimida.

Entretanto, o poder agora baseava-se na riqueza e influência dos sírios, que foram instalados nos postos chaves. Comazon,  o correligionário de primeira hora, recebeu o posto de Prefeito Pretoriano e ela ainda seria duas vezes cônsul. A mãe do novo imperador, Júlia Soêmia, e  a sua tia, Júlia Maesa, foram declaradas “Augustas”. Mais surpreendente, as duas seriam, um pouco mais tarde, as primeiras e únicas mulheres a serem admitidas no Senado Romano. E Júlia Maesa ainda receberia o título de “Mãe do Senado”.

Elagábalo também trouxe junto com ele da Síria a Pedra Negra do Templo de El-Gabal, transferida de Emesa para Roma, onde, para guardá-la, ele mandou construir um templo, chamado de “Elagabalium“, na colina do Palatino (foram cunhadas moedas mostrando a pedra). Ele também mandou retirar várias relíquias de templos ancestrais da Cidade Eterna e transferi-los para o Elagabalium.

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(Ruínas do terraço do Elagabalium, em Roma, e maquete mostrando sua provável aparência)

Para facilitar a sua aceitação pelos Romanos, o deus Elagábalo foi associado ao “Deus Solis Invictus“, identificando-o como o Deus-Sol, cujo culto vinha crescendo desde a virada do século III.

Todavia, em uma grande demonstração de falta de respeito para com a tradicional religião romana, Elagábalo se casou a virgem vestal Aquília Severa, o que muito escandalizou os romanos, já que essas sacerdotisas deveriam permanecer virgens durante os seus 30 anos de serviço. Mais grave ainda, a lei romana previa a pena de morte, tanto para aquele que tivesse deflorado uma virgem vestal, como para esta própria.

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(Denário cunhado durante o reinado de Elagábalo, com a efígie de Aquília Severa)

Pressionado pelo escândalo,  Elagábalo se divorciou de Aquília e se casou com Anna Aurelia Faustina, uma descendente do imperador Marco Aurélio. E ele teria cinco esposas no total, em sua curta vida (sua primeira esposa foi a aristocrata Júlia Cornélia Paula, um casamento arranjado por sua mãe, após a sua ascensão ao trono, tendo dela se divorciado para se casar com a vestal Aquília).

Entretanto, segundo as fontes,  a maior paixão de  Elagábalo foi o seu escravo Hierócles, um condutor de carruagens a quem ele chamava de marido. Consta que Elagábalo, certa vez, teria dito, a respeito do rapaz:

Embora alguns historiadores modernos sustentem que as fontes antigas exageraram os relatos acerca dos imperadores romanos, especialmente de Elagábalo, o fato é que Cassius Dio, a História Augusta e Herodiano (os dois últimos, de fato, fontes frequentemente não confiáveis), que são as três fontes principais sobre o seu reinado, convergem para afirmar a ocorrência desses comportamentos de Elagábalo.

Narra-se, por exemplo, que Elagábalo se apresentaria em público vestido de mulher, maquiado e com os olhos pintados. E ele teria também mandado depilar o seu corpo inteiro e até procurado um médico para fazer uma espécie de operação de mudança de sexo, visando fazer um órgão genital feminino em si mesmo, o que o tornaria, até onde se sabe, o primeiro governante transexual da História.

Outro companheiro de Elagábalo teria sido Aurelius Zoticus, no colo de quem, reclinado, o imperador chegava até a fazer as refeições. Todavia, consta que Hierócles, ciumento do rival, conseguiu, através de um médico, um tipo de medicamento que  causava impotência, fazendo com que, diluído em alguma bebida, fosse servido a Zoticus, que, sem poder mais satisfazer os desejos do imperador, foi mandado embora do Palácio.

E Elagábalo de fato, segundo as fontes, apreciava ser surpreendido por Hierócles enquanto mantinha relações sexuais com outros homens, ocasião em que se comprazia ao ser castigado fisicamente pelo seu companheiro traído.

Outra prática escandalosa de Elagábalo, relatada pelos historiadores antigos, era o seu costume de se prostituir no próprio Palácio, colocando-se nu atrás de uma cortina, cobrando para praticar sexo com os homens que se deitavam com ele (relato que talvez expresse uma errônea compreensão de um ritual da religião de El-Gabal, pois vários cultos semíticos incluíam a prostituição sagrada).

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(Representação artística do rosto de Elagábalo com base nos seus retratos que sobreviveram)

Em algum momento, Júlia Maesa percebeu que a crescente rejeição a Elagábalo pela sociedade romana, e, sobretudo, pelos militares romanos, colocava em perigo a própria posição da dinastia. A matriarca também concluiu que os reiterados excessos sexuais do neto eram encorajados pelo fervor religioso dele e de sua filha, Júlia Soêmia, a mãe do imperador, no culto a El-Gabal.

Júlia Maesa então aproximou-se de sua outra filha, Júlia Maméia, que também tinha um filho, Severo Alexandre, então com 13 anos de idade. A influente Júlia Maesa conseguiu persuadir Elagábalo a nomear seu primo Severo como seu herdeiro, dando-lhe o título de “César”. Naquele mesmo ano, 221 D.C, Elagábalo e Severo exerceram o consulado.

Contudo, percebendo o entusiasmo que a nomeação de  Severo Alexandre provocou nos soldados da Guarda Pretoriana, há muito incomodados com os seus excessos, Elagábalo resolveu anular sua decisão e revogar os títulos concedidos ao seu primo. Contudo, essa decisão fez o  público e as tropas se alvoraçarem temendo pela vida do menino.

Os Pretorianos demandaram a presença de Elagábalo e Severo no Castra Pretoria, devido aos rumores de que Severo pudesse ter sido assassinado. É possível que o motim tenha sido instigado por Júlia Maesa e Júlia Maméia.

Quando o imperador e seu primo apareceram, os guardas começaram a saudar Severo Alexandre, ignorando Elagábalo, que furioso, teria ordenado a prisão dos simpatizantes do primo. Essa ordem, por sua vez,  irritou ainda mais a tropa, que imediatamente atacou o palanque e perseguiu Elagábalo e sua mãe, os quais tentaram fugir. Júlia Soêmia tentou proteger o filho, abraçando-o, mas ambos acabaram mortos e decapitados.

Então, os corpos dos dois foram arrastados pelas ruas, tendo o de Elagábalo sido jogado no Rio Tibre. Nos dias seguintes, várias pessoas associadas a Elagábalo foram mortas, incluindo Hierócles. Seu primo, Severo Alexandre, que ainda não havia completado 14 anos de idade, foi oficialmente reconhecido como imperador em 13 de março de 222 D.C.

A Pedra Negra foi imediatamente mandada de volta para Emesa, e provavelmente ela só não foi destruída porque os romanos eram notadamente um povo supersticioso, e também para não causar desnecessário descontentamento entre os fiéis de El-Gabal e a população da cidade síria.

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(Severo Alexandre, primo de Elagábalo e seu sucessor no trono imperial)
CONCLUSÃO

Elagábalo morreu com a idade de dezoito anos. Com apenas cerca de quinze anos ele fora feito imperador pela mãe e pela avó. Ele é descrito pelos historiadores como travesti, transexual ou mesmo transgênero.

Entendemos que é difícil avaliar o comportamento sexual e a moral dos antigos pelos padrões modernos, e nem devemos utilizar exemplos da antiguidade para justificar ou condenar aspectos das sociedades atuais. Certamente, o que era considerado comportamento “normal” ou padrão socialmente aceito pelos romanos é diferente do vigente nos dias de hoje.

Heterossexualidade e homossexualidade para os romanos eram conceitos vagos comparados com as nossas definições atuais. Imperadores considerados “bons” pelos historiadores romanos, como Trajano e Adriano, notoriamente sentiam atração e tinham relações sexuais com jovens rapazes, sem que isso tenha comprometido a sua reputação. No máximo, como lemos em Cássio Dião sobre Trajano, o fato era mencionado de passagem, como uma curiosidade e uma ponta muito sutil de ironia.

A censura moral dos autores antigos aos imperadores sobre este tema, é feita muito mais ao desregramento ou à luxúria desenfreada, ou, ainda, à efeminação caricatural, pois eles esperavam de um imperador uma aparência marcial e um comportamento masculino, característica essa que não era manchada pelo fato deles fazerem sexo com rapazes, desde que eles assumissem a posição ativa.

É provável que muitas das passagens sexualmente escandalosas do reinado de Elagábalo,  mencionadas nas fontes antigas, estejam relacionadas ao culto de El-Gabal, divindade frequentemente associada à Baal, religião que parece ter incluído ritos de prostituição sagrada masculina (como os kadesh, citados na Bíblia Judaica) e também castração de sacerdotes. Note-se que isso se parece um pouco com os vícios aos quais os autores romanos aludem em suas obras e poderia explicar também a aparência feminina de Elagábalo.

O grande erro que poderia ser imputado a Elagábalo é não ter percebido o choque cultural que a reunião, em uma mesma pessoa, dos papéis de imperador e sumo-sacerdote de uma religião tão estranha aos costumes italianos como era a sua causou na sociedade romana. Convenhamos que esperar essa consciência de um menino sírio que foi feito imperador aos quinze anos pelas manobras da mãe e da avó seria demasiado,  mesmo nos tempos atuais.

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VALENTINIANO I – O ÚLTIMO GRANDE IMPERADOR

Em 17 de novembro de 375 D.C, ao receber uma delegação de emissários bárbaros, o imperador romano Valentiniano I, enfureceu-se com a insolência das demandas que lhe eram apresentadas, sofreu um derrame e morreu em seguida, na cidade de Brigetio, situada na atual Hungria.

(Solidus de Valentiniano I, foto de Siren-Com )

Flávio Valentiniano nasceu em 321 D.C, no sul da Província Romana da Panônia, na cidade de Cibalae (hoje Vinkovci, na atual Croácia), filho de um humilde camponês chamado Gratianus (não confundir com o imperador homônimo, filho do nosso Valentiniano).

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(Atual cidade de Vinkovci, foto: Frane Lovošević, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons)

O pai de Valentiniano entrou para o Exército Romano e foi galgando postos até ingressar na unidade de elite dos “Protectores domestici“, que eram os guarda-costas do Imperador Constantino I. A partir daí, Gratianus foi promovido a general e conseguiu ser nomeado Conde da África, local onde ele foi acusado de enriquecimento ilícito, sendo, por causa disso, afastado. Não obstante, algum tempo depois,  Gratianus foi reabilitado, chamado de volta e nomeado Conde da Britânia. Finalmente, depois de exercer esse cargo, Gratianus retirou-se da vida pública e voltou para suas propriedades em sua terra natal, na Panônia.

Entretanto, o tempo das boas graças de  Gratianus duraria pouco, pois o Imperador Constâncio II, alegando que  Gratianus teria hospedado o usurpador Magnêncio quando este esteve na região da Panônia, mandou confiscar as terras dele.

Durante os anos de serviço do pai, Valentiniano entrou para o exército, provavelmente também como “Protector domesticus” e, do mesmo modo que seu genitor foi sendo paulatinamente promovido.

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No reinado de Constâncio II, os bárbaros Alamanos ameaçaram seriamente a Gália, e, aproveitando-se da guerra civil então travada entre o imperador e Magnêncio, cruzaram o Reno e atacaram várias cidades. Valentiniano, agora servindo como tribuno, sob as ordens do César (príncipe-herdeiro) Juliano, foi encarregado de interceptar um bando de Alamanos que havia atacado Lyon, em 355 D.C.

Todavia, para poder cumprir aquela missão com eficiência, Valentiniano dependia do auxílio de Barbatio, um general que estava envolvido em uma conspiração para prejudicar Juliano. E, naturalmente, o conspirador não tinha nenhuma intenção em ajudar Juliano…Assim, sem o apoio de Barbatio, as tropas comandadas por Valentiniano acabaram sendo derrotadas pelos Alamanos, com grandes perdas.

Valentiniano foi, injustamente, considerado responsável pelo fracasso e afastado do Exército, acabando por ter que ir viver em suas terras em Sirmium, cerca de 55 km da atual Belgrado. Nesse período, nasceu seu filho, que recebeu o nome do avô, Graciano (e que também, futuramente, se tornaria imperador).

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(Mapa da Prefeitura de Illyricum, mostrando a localização da cidade de Sirmium)

Para piorar a sua situação, quando Juliano tornou-se imperador, a carreira de Valentiniano correu sério risco, pois o novo monarca, que até então vinha ocultando o seu apreço pelas religiões pagãs tradicionais, rapidamente colocou em prática medidas para enfraquecer o Cristianismo e recolocar o paganismo em proeminência no Estado Romano. Valentiniano, entretanto, era um notório católico devoto,

Não se mostra surpreendente, portanto, o relato de que Valentiniano, após se recusar a assistir ou fazer um sacrifício em uma cerimônia pagã da qual estava obrigado a participar, tenha sido exilado (ou, em uma versão mais branda do caso, ele tenha sido designado para servir numa província distante, talvez o Egito ou a Armênia).

Foi somente quando Juliano, o último integrante da dinastia inaugurada por Constantino I, morreu, dos ferimentos recebidos em um combate na retirada de mais uma campanha romana fracassada na Pérsia (363 D.C), e o novo imperador romano cristão Joviano assumiu, que a sorte voltou a sorrir para Valentiniano. Ele conseguiu ser nomeado comandante dos Scuttari e, consequentemente, agora chefiava uma das mais importantes unidades de elite da Guarda Imperial (Scholae Palatinae).

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(Um scutarii deveria se parecer com este soldado do Baixo Império Romano, em 1º plano)

Para salvar a própria pele e conseguir retirar o remanescente do Exército Romano da Pérsia, Joviano teve que assinar com os Persas um humilhante tratado de paz, entregando aos inimigos as cinco províncias orientais que haviam sido conquistadas pelo imperador Diocleciano, quase um século antes, além das estratégicas cidades de Nísibis e Síngara, duas praças-fortes que pertenciam a Roma desde o reinado de Septímio Severo, ainda no início do século III D.C.

Contudo, enquanto Joviano e sua comitiva deslocavam-se de Ancyra para Nicéia, seguindo a rota para levá-los até a capital Constantinopla, o recém-aclamado imperador faleceu subitamente.

A morte inesperada de Joviano, forçou a cúpula cívico-militar romana, pela primeira vez na História de Roma, a optar pela realização de um inusitado e inaudito conclave para se escolher o seu sucessor.

Assim, ao invés de se resolver a  sucessão pela forma mais usual – a vitória militar de um general contra os seus rivais – os chefes militares decidiram convocar uma reunião dos mais importantes funcionários civis e militares do Império. E, após a análise de várias opções, os participantes escolheram Flávio Valentiniano, o comandante do regimento de infantaria de elite dos “Scuttarii“, a tropa de elite que fazia parte do séquito pessoal do imperador.

Em 26 de fevereiro de 364 D.C, Flavius Valentinianus (Valentiniano I), que contava com 43 anos de idade, foi proclamado Augusto (Imperador) por uma assembléia da qual participaram os mais importantes ministros e governadores do Império Romano, reunidos em Nicéia, na Província Romana da Bitínia, na Ásia Menor.

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(“Il Colosso” de Barletta, estátua de bronze de um imperador romano, provavelmente trazida para a Itália pelos Cruzados proveniente do Saque de Constantinopla, e que se acredita retratar Valentiniano I). Foto: User:Marcok, CC BY-SA 2.5 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.5, via Wikimedia Commons

Porém, a situação do Império Romano naquele momento era nada menos do que dramática: No front militar, à derrota na Pérsia e à perda de territórios estratégicos, que colocavam pressão sobre as cruciais províncias da Síria e do Egito, no Oriente, somava-se a crescente ameaça das tribos germânicas no Reno e no Danúbio, no Ocidente, as quais, oportunisticamente, sempre aproveitavam qualquer insucesso militar romano para tentar incursões no território do Império, em busca de saques, ou, alternativamente, extorquir algum pagamento em troca de paz.

E o quadro político interno também não era animador. O breve reinado de Juliano contribuíra para aumentar a intolerância religiosa do Cristianismo triunfante. Começava, assim, a aumentar uma fenda entre a elite de Constantinopla, marcadamente cristã ortodoxa, e a elite tradicional romana pagã, ainda muito influente no Ocidente, sobretudo no Senado Romano.

Eram tempos conturbados,  que imploravam por um líder enérgico, resoluto e incansável, mas também consciencioso, e essas seriam justamente as características mais marcantes de Valentiniano I, em seu reinado.

Não obstante, logo em seguida à proclamação de Valentiniano I, o Exército Romano demandou que ele escolhesse um co-imperador. Tendo em vista que, desde Diocleciano, estabelecera-se um quase consenso de que o Império Romano era extenso e complexo demais para ser governado apenas por um imperador em Roma, e, ainda, a premência da situação militar no Ocidente e no Oriente, dificilmente este comportamento dos generais deve ser visto como uma rejeição a Valentiniano, e sim, mais como o requerimento por uma providência julgada indispensável.

Porém, eu também acredito que, provavelmente, essa reivindicação para que Valentiniano I escolhesse um colega deve ser entendida como uma pretensão daqueles que, em Constantinopla, temiam perder poder com uma reunificação administrativa do Império. O fato é que, um mês depois, Valentiniano I nomeou seu irmão, Valente, como Imperador Romano do Oriente.

Valens_medal,_375-78_ADmedalhão de ouro, de Valente, foto de Sandstein

Valente logo teve que lidar com a revolta de Procopius, um parente de Juliano, a qual, porém, foi rapidamente debelada. Depois, ele conduziu algumas campanhas no Danúbio contra os Visigodos, do rei Atanarico, obtendo uma paz em termos favoráveis aos romanos, inclusive parando de pagar o subsídio anual que o Império vinha pagando aos visigodos para não ser atacado.

Valentiniano foi dar combate aos Alamanos que, em 365 D.C,  invadiram novamente a Gália. Ele estabeleceu-se em Augusta Treverorum (atual Trier, na Alemanha) para conduzir a guerra. De lá, Valentiniano comandou a formação de um grande exército para guerrear contra os referidos bárbaros.

O Autor em frente à chamada “Porta Nigra”, em Trier, antiga Augusta Treverorum, em 2009, onde alguns imperadores do Baixo Império Romano estabeleceram-se para lutar contra os Germanos. Era o portão principal das muralhas da cidade e já tinha mais de 200 anos quando Valentiniano o cruzou

Em 367 D.C, Valentiniano e seu exército cruzaram os rios Meno e Reno e invadiram o território inimigo, inicialmente quase sem encontrar resistência, queimando tudo que encontraram em seu caminho. Os Alamanos então resolveram lutar e travou-se a Batalha de Solicinium, provavelmente ocorrida onde hoje fica a cidade de Hechingem (no atual Estado alemão de Baden-Wurttemburg). Essa região tinha sido abandonada pelos romanos fazia cerca de um século antes, tendo sido parte dos chamados “Agri Decumates” (ou, literalmente, “campos que pagam o dízimo”, um território germânico que havia sido anexado pelos romanos ainda no século I)

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(Provável lugar da Batalha de Solicinium. No reinado de Valentiniano I, os romanos ainda eram capazes de atacar os Germanos à leste do Reno)

A Batalha de Solicinium foi duríssima, com pesadas perdas romanas, mas os Alamanos foram derrotados. Foi a última vez que um imperador comandou um grande exército romano e conduziu com sucesso uma campanha além da margem direita do Reno.

Nesta campanha, Valentiniano fez-se acompanhar do filho Graciano, com apenas 8 anos de idade. Claramente, portanto, o imperador já demonstrava que o queria para sucessor, pois, naquele ano, o menino foi proclamado Augusto, ou seja, co-imperador.

Valentiniano, entrementes, ainda em 367 D.C, também teve que enfrentar uma grande rebelião na Britânia – um ataque combinado das tribos dos Pictos e Escotos, em conjunto com os invasores saxões que assolavam o litoral leste da Ilha (fato que já havia levado os próprios romanos a batizarem aquele trecho como “Costa Saxã“). Essa ameaça só foi derrotada com muito custo, após a chegada do Conde Teodósio, nomeado por Valentiniano para comandar as forças romanas.

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(Portus Adurni, atualmente Portchester Castle, no porto de Portsmouth, na costa oriental da Inglaterra, fortaleza integrante do sistema romano de fortificações da Saxon Shore (Costa Saxã), Foto: ale speeder, CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Commons

Valentiniano também conduziu um grande programa de reparo e construção de fortificações ao longo da fronteira Reno/Danúbio, o que irritou os bárbaros germanos, dando-lhes o pretexto para novas agressões.

Outra importante iniciativa de Valentiniano foi recompor os efetivos do Exército Romano, não só preenchendo as lacunas decorrentes das recentes derrotas sofridas, mas até aumentando o seu número, procurando cumprir estritamente o recrutamento anual.

Aliás, um fato notável, que demonstra a dificuldade que constituía o recrutamento naquele período turbulento do Império, bem como a medida da determinação de Valentiniano em restaurar o poderio militar romano, foi a redução da altura mínima exigida para os recrutas: de 1,77m para 1,70m, aumentando, deste modo, a massa da população recrutável.

A maior fonte sobre o reinado de Valentiniano I é o historiador Amiano Marcelino, ele mesmo um ex-militar dos Protectores Domestici, e considerado por muitos como o autor romano que melhor escreveu sobre o Baixo Império Romano.

Segundo Amiano, o imperador Valentiniano:

Realmente, diversas passagens atestam que Valentiniano era dado a acessos de fúria, sobretudo quando se deparava com erros ou irregularidades praticados pelos subordinados. Mas quanto ao ódio às pessoas cultas, ainda que a acusação de Amiano possa ser verdadeira, o fato é que essa alegada antipatia do imperador não se estendia à cultura em si, pois, consta que Valentiniano mandou abrir várias escolas pelo Império Romano.

Sendo ou não exagerada a observação de Amiano acerca do ódio de Valentiniano às classes altas romanas, o fato é que ele foi reconhecido por várias medidas em favor dos mais pobres e inclusive procurou proteger os humildes das arbitrariedades cometidas pelos poderosos.

Neste particular, uma de suas medidas mais meritórias foi instituir em todo o Império o cargo de “Defensor Civitatis“, cuja principal função era ser um advogado público, em prol dos plebeus contra as injustiças dos poderosos. Portanto, atrevemo-nos a dizer que Valentiniano pode ser considerado um dos patronos da moderna Defensoria Pública.

Coube a Valente  implementar essa política de Valentiniano no Oriente. As palavras dele acerca do cargo de Defensor foram preservadas no preâmbulo de um édito:

Ao contrário de seus predecessores cristãos da dinastia constantiniana, Valentiniano adotou uma postura tolerante com o paganismo e as heresias cristãs. Ele continuou permitindo, por exemplo, a prática de sacrifícios noturnos, a antiga prática de adivinhações pelos harúspices e os antigos mistérios pagãos.

A.H.M Jones cita as seguintes palavras, escritas a esse respeito pelo próprio Valentiniano, em uma carta:

Uma política sábia que, infelizmente,  não seria seguida por seus sucessores, e que muitos governos ainda contrariam nos dias atuais…

Porém, em 374 D.C, chegou a notícia de que os Quados, o povo germânico que era um velho inimigo de Roma e habitava ao longo do Danúbio,  após aliarem-se aos bárbaros sármatas,  tinham derrotado duas legiões romanas. A causa principal do conflito foram as fortalezas romanas que, seguindo a política de Valentiniano, estavam sendo construídas em território bárbaro.

Valentiniano cruzou o Danúbio em Aquincum (localizada dentro da área da atual Budapeste) e devastou o território dos Quados, voltando para Savaria para passar o inverno.

No ano seguinte, Valentiniano recomeçou a campanha e dirigiu-se a Brigetio, também situada na atual Hungria. Lá, em 17 de novembro de 375 D.C, ele recebeu em audiência uma delegação dos Quados.

Durante a audiência, os Quados reclamaram que os romanos eram culpados da guerra, devido à construção dos fortes. Às condições estipuladas para o fim das hostilidades, que previam que eles deveriam fornecer recrutas para o Exército Romano, os Quados retrucaram que os grupos aliados que não estivessem presentes na audiência não estavam obrigadas a respeitá-las, sendo livres para atacar os romanos quando quisessem.

Furioso com a insolência dos embaixadores quados, Valentiniano I ergueu-se de sua cadeira e começou a gritar, censurando duramente os bárbaros. De repente, o rosto rubro do Imperador congelou-se em uma máscara terrível e a voz tonitruante dele sumiu…Uma artéria no seu crânio acabara de arrebentar e ele tinha sofrido um derrame, tendo que ser retirado do recinto,  completamente imobilizado, falecendo pouco depois.

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Brigetio, atual Komárom/Szőny, na Hungria, não esqueceu que foi palco da morte de um grande imperador romano, como mostra essa placa moderna em homenagem a Valentiniano I

O filho de Valentiniano I, o jovem Graciano, de apenas 16 anos, foi aclamado imperador do Ocidente, permanecendo seu irmão, Valente, como monarca da parte oriental, em Constantinopla.

No ano seguinte, 376 D.C, chegaria ao Danúbio uma grande e perigosa migração dos Godos.

Essa era uma ameça tremenda, mas que poderia ser enfrentada por um líder capaz, e determinado. Infelizmente, nem Graciano e, menos ainda, Valente, mostrariam-se à altura do desafio.

Assim, em 378 D.C, os Godos derrotariam os romanos na Batalha de Adrianópolis e o Império Romano começaria a longa, mas inexorável, trajetória de sua derrocada. Talvez, se Valentiniano I não tivesse se enfurecido tanto com os Quados em Brigetio, e sobrevivido até Adrianópolis, podemos cogitar que ele não cometeria os erros de Valente. Certamente,  Valentiniano I não teria permitido aos Godos cruzarem o Danúbio, e ele teria jogado contra os bárbaros todo o poder combinado do Exército Romano.

Epílogo

Na cidade de Barletta, na Itália, existe uma enorme estátua de bronze, da época romana, datada do século IV D.C, retratando um imperador em tradicional traje romano de general, segurando um crucifixo. Ela é chamada de “Il Colosso“.

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Não se tem certeza absoluta de quem é o Imperador representado, mas o candidato considerado como o mais provável pelos especialistas é Valentiniano I. A expressão dura, fechada, resoluta e de ar implacável daquele rosto de bronze é um perfeito retrato da personalidade e dos tempos de Valentiniano I.

valentinian I

FIM

Fontes:

1- “Quem foi Quem na Roma Antiga“, Diana Bowder, 1980, Ed. Círculo do Livro

2- “Declínio e Queda do Império Romano“, Edward Gibbon, 1980, Ed. Círculo do Livro

3- “The Later Roman Empire (AD 354-378)“, Ammianus Marcellinus, 1986, Penguin Books

4- “The Later Roman Empire 284-602, vol. 1“, A.H.M. Jones, The John Hopkins Universitary Press, 1986