A BATALHA DA FLORESTA DE TEUTOBURGO – FINAL

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O DESASTRE DE VARO – CLADES VARIANA – VARUSSLACHT

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A ARMADILHA

O plano que Arminius concebeu consistia em atrair Varo para uma região desconhecida dos romanos, mas que ficava dentro das terras de sua tribo. Como pretexto, ele escolheu o único motivo que faria o governador romano marchar com toda o seu exército para um território ainda não desbravado: um levante armado! E para enfraquecer um pouco as legiões de Varo, alguns chefes que ele reputava confiáveis pediriam ao governador que lhes enviasse destacamentos de soldados romanos para garantir a segurança nas suas aldeias. A data da emboscada, concluiu Arminius, teria que ser no final do outono, pois, certamente, os Romanos iriam querer resolver rapidamente a questão para que eles pudessem passar o inverno no conforto de Moguntiacum (Mogúncia), no Reno. Além do mais, dificilmente os Romanos teriam como mandar reforços depois que a neve caísse, sobretudo com os quartéis de verão no interior da Germânia destruídos, como os Germanos pretendiam fazer assim que eles derrotassem Varo

A escolha do local deve ter sido sugestão dos chefes queruscos. De fato, bem ali na terra deles, ficava, em um raio de centenas de quilômetros, a única rota de passagem em terreno seco e plano ligando o leste e o oeste da Germânia, entre as montanhas Wiehengebierge e o grande pântano que se extendia até o Mar do Norte. Em um determinado ponto, a largura da passagem era de apenas 100 metros, entre a montanha e pântano. Aquela era a realmente a melhor opção de trajeto, para alguém que não quisesse ficar com os pés encharcados ou andar em terreno montanhoso dentro da floresta…

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Quando o mês de setembro chegou, os chefes da conspiração resolveram oferecer um festim no quartel de Varo, uma fingida homenagem à iminente partida do governador, em que foram consumidos muito vinho e cerveja, esta oferecida pelos germânicos. Durante a festa, Segestes, que já vinha alertando Varo para não confiar em Arminius, e como chefe que ele era, já tinha ouvido rumores acerca da conspiração, levantou-se e acusou Arminius de traição, chegando inclusive a pedir ao governador que prendesse, não apenas os conspiradores, mas também ele mesmo, Segestes, com o propósito de que Varo pudesse melhor investigar quais eram os chefes leais e quais seriam inimigos de Roma.

Varo, que já tinha notado o ódio que Segestes nutria por Arminius, devido ao romance que este havia iniciado com sua filha Thusnelda, não deu muita importância. Provavelmente, ele mal conseguia entender o arremedo de latim que Segestes falava, e além do mais, o inconsciente de Varo não queria acreditar naquilo, pois tudo o que ele costumava ouvir dos chefes germânicos, até então, eram bajulações e elogios à sua administração,  coisa que ele julgava muito natural diante dos seus evidentes méritos…

No dia seguinte, Arminius chegou galopando rápido à frente de um esquadrão de cavalaria (turmae), trazendo a trepidante notícia de que os Bructeros tinham se revoltado próximo ao território dos Queruscos, os quais pediam a ajuda dos Romanos.

Alvoroçado com a notícia, Varo mandou reunir as três legiões e as seis coortes de auliares que estavam com ele e ordenou que todos marchariam para combater os rebeldes. Entre as ordens, estava a determinação de que Arminius e os chefes germânicos guiassem as legiões até o local da suposta revolta, através do caminho mais rápido.

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Em seguida, Arminius e os chefes queruscos pediram autorização a Varo para que eles deixassem a comitiva e fossem até as aldeias amigas para reunir forças para se aliarem às legiões na repressão à revolta,  sugerindo que batedores germânicos da confiança deles guiassem o exército até o local exato.

Entretanto, isso era apenas um disfarce. Na verdade, Arminius saiu e foi ao encontro do exército germânico combinado composto por guerreiros queruscos, catos, bructeros, chaucos, marsos e até de alguns Suábios,  que aguardava, no local combinado, a chegada das legiões de Varo. Concomitantemente, Arminius despachou mensageiros às aldeias onde estavam estacionados pequenos destacamentos de soldados romanos, a pedido dos chefes envolvidos na conspiração anti-romana. Quando a mensagem de Arminius chegou aos destinatários, todos os soldados romanos espalhados pelas aldeias foram imediatamente mortos.

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(Ilustração de Arminius feita pelo artista Gambargin, http://fav.me/dai0tmm)

Enquanto isso, marchando através de território que eles acreditavam ser amistoso, as legiões não prosseguiam em ordem de batalha, como seria de costume, mas em blocos separados. A longa coluna devia se estender por vários quilômetros de comprimento. Tudo indica que os Romanos acreditavam que estavam indo resolver um assunto fácil: um levante dos Bructeri, os quais tinham sido facilmente derrotados por Tibério e Saturnino, apenas quatro anos antes…Os soldados confiavam que, antes do final de outubro, eles estariam no conforto dos quartéis do Reno. Assim, misturados à tropa, iam mulheres, crianças, escravos domésticos e toda a sua bagagem, transportadas em carros de boi e mulas…

A BATALHA DA FLORESTA DE TEUTOBURGO – PRIMEIRO DIA

O historiador romano Dião Cássio, a partir daí, é que nos dá o relato mais detalhado dos acontecimentos:

Os Romanos foram guiados para uma trilha que passava por dentro da Floresta de Teutoburgo. Os soldados, inclusive, tinham que derrubar árvores e ir aplainando os caminhos para as carroças transitarem. Nesse momento, começou a chover muito forte. Foi então que grupos de guerreiros germânicos escondidos entre as árvores despejaram dardos contra a retaguarda da coluna, matando muitos soldados romanos que tentaram, sem sucesso, defender-se com os seus escudos, os quais, encharcados da água que caía, começaram a ficar muito pesados. Além disso, os Germanos começaram a derrubar algumas árvores para que os troncos caíssem em cima dos Romanos.  Agora, as tropas estavam dispersas ao longo do caminho, já bem escorregadio, que se encontrava atravancado pelas carroças e pela correria desesperada dos civis. Sem dúvida, estava muito difícil organizar uma formação de batalha naquele momento. Assim, cada grupo de soldados combatia em minoria contra um número muito maior de bárbaros. Em pouco tempo, vários legionários já estavam caídos na floresta, mortos ou feridos. Para piorar, as tropas auxiliares começaram a desertar e fugir para o meio da floresta.

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Apesar de tudo, os oficias romanos conseguiram achar um local mais ou menos adequado para fazer um acampamento fortificado com uma paliçada e passar à noite. Eles, com pesar, decidiram queimar as carroças e abandonar tudo o que não fosse necessário para o combate.

A BATALHA DA FLORESTA DE TEUTOBURGO – SEGUNDO E TERCEIRO DIAS

No dia seguinte, os Romanos conseguiram avançar de forma mais ou menos ordenada para o oeste, conseguindo chegar até campo aberto, porém sem deixar de sofrerem contínuas perdas em emboscadas. Talvez Varo e os oficiais romanos ainda acreditassem que, em algum momento, Arminius chegaria com os reforços prometidos e aliviaria a situação. Neste ponto, Dião Cássio conta que as tropas teriam entrado de novo em outro trecho da floresta.

Foi neste dia que os Romanos, segundo Dião Cássio, sofreram as suas perdas mais pesadas. O historiador narra que os soldados tiveram que formar suas linhas em um espaço estreito. A ênfase nesses dois elementos: pesadas perdas e a largura do terreno, apontam para a estreita passagem situada ao pé da colina Kalkriese, 20 km ao norte da atual cidade de Osnabrück, como sendo o ponto focal da Batalha.  Foi ali que os Romanos ficaram imprensados entre o pântano e a floresta.

De fato, durante dois mil anos, o local exato onde ocorreu a Batalha da Floresta de Teutoburgo sumiu da História e da memória dos europeus.

Até que, em 1987, um militar inglês – que nas horas vagas tinha  como hobby ser arqueólogo amador – descobriu uma grande quantidade de moedas romanas, sendo que nenhuma das moedas encontradas era posterior a 9 D.C. Avisadas, as autoridade começaram uma escavação científica., encontrando fragmentos de equipamento militar romano e ossos humanos e de animais, na maior parte das vezes, misturados em buracos cavados propositalmente para enterrá-los.

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Os arqueólogos alemães também descobriram, neste sítio, vestígios de um longo muro de turfa encimado por troncos, o qual se estendia em zigue-zague, com passagens em intervalos periódicos. Embaixo de um trecho que parecia ter cedido, eles encontraram um crânio humano, ao lado um suporte de plumagem característico de um elmo romano, e o esqueleto de uma mula. Os arqueólogos calcularam que foram necessárias apenas algumas semanas para construir esse muro, encimado por uma paliçada, que ficava ao pé da montanha. Escavando o terreno, eles verificaram que, ao longo dos séculos, o mesmo foi modificado pelas sucessivas gerações de agricultores, tendo ficado bem diferente do que ele era em 9 D.C. Com efeito, originalmente, o local era uma faixa de terreno seco arenoso de cem metros de largura delimitado, em um lado, pela colina Kalkriese, então, como hoje, coberta de árvores, mas, do outro lado, por um pântano, que foi sendo aterrado ao longo dos séculos.

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Ali foram encontrados 6 mil itens arqueológicos (moedas, pedaços de sandálias militares, pontas de lança, e de dardos de catapultas, arreios de cavalos e mulas, etc.) relacionados ao Exército Romano. E o maior agrupamento de achados fica justamente no trecho onde foram construídos o muro de turfa e a paliçada pelos germânicos.

O sítio arqueológico de Kalkriese é uma prova irrefutável de que Arminius e os Germânicos planejaram e executaram uma emboscada magistralmente sofisticada. E eles não apenas atraíram os Romanos para um terreno desfavorável, mas ainda prepararam com antecedência este terreno. E eles fizeram isso em apenas algumas semanas.

A maioria dos soldados da XVII, XVIII e XIX Legiões comandadas por Varo deve ter sido morta no trecho murado, tentando, inclusive, tomar de assalto um destes trechos, sem sucesso (essa, inclusive, foi a parte do muro que desabou sobre os soldados); mas alguns grupos devem ter conseguido prosseguir. A trilha dos achados arqueológicos demonstra que, ultrapassada a paliçada germânica, houve uma bifurcação no avanço dos romanos. Um grupo um pouco maior ainda avançou um pouco mais para o norte, e outro, menor, para o sul.

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A BATALHA DA FLORESTA DE TEUTOBURGO – ÚLTIMO DIA

De fato, Dião Cássio conta que, quando raiou o quarto dia, o que restava das legiões ainda estava avançando, quando voltou a cair uma tempestade de chuva e vento, impedindo novamente os Romanos de usarem seus escudos e seus arcos (pois as cordas feitas de tendão ficam frouxas quando molhadas). Para piorar, outros bandos de Germanos se sentiram encorajados a se juntar aos que atacavam os Romanos, que ficaram em ainda maior inferioridade numérica.

Estava tudo acabado: Públio Quintílio Varo, que já tinha sido ferido nos dias anteriores, vendo-se na iminência de ser capturado, mostrou a bravura que tradicionalmente era esperada de um general romano e, repetindo o que seu pai e seu avô já tinham feito antes, ele tirou a própria vida, jogando-se sobre a sua espada. Por sua vez o Legado (general) Numonius Vala tentou fugir com suas unidades de cavalaria, mas ele acabou sendo alcançado pelos cavaleiros de Arminius e morto. Os historiadores romanos condenaram este ato como covardia, mas diante da situação, talvez fosse a única alternativa. Dos dois Prefecti Castrorum (Prefeitos do Acampamento), que eram os terceiros em comando na legião), Lucius Eggius pereceu combatendo, mas o outro, Ceionnius, rendeu-se, apenas para morrer torturado pelos bárbaros.

O corpo de Varo, segundo o historiador romano Veléio Patérculo, foi parcialmente cremado e enterrado às pressas, provavelmente pelos seus servos domésticos, mas logo o mesmo seria descoberto, desenterrado (o historiador Floro também narra isso) e decapitado pelos Germanos. Depois, Arminius enviou a cabeça de Varo para o rei dos Marcomanos, Marobóduo (Marbod), no Danúbio, com o objetivo de incentivá-lo a se unir à aliança dos Queruscos e povos vizinhos contra o Império. Contudo, o prudente rei preferiu não tomar partido e, como gesto de boa vontade, enviou de volta a cabeça de Varo para Augusto, em Roma, onde mais tarde ela foi depositada, com honras, no mausoléu da família.

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Dois dos estandartes-águia das legiões foram capturados por Arminius. Porém a terceira águia, segundo, Floro, foi escondida por um soldado porta-estandarte (aquilifer) dentro das próprias vestes,  que com ela mergulhou no pântano.

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O grande historiador Tácito narra que Arminius insultou as águias e os estandartes, discursando para a multidão de guerreiros em cima de uma tribuna improvisada. Os tribunos e oficiais sobreviventes foram sacrificados vivos em altares e tiveram suas cabeças cortadas e penduradas em árvores. Por sua vez, alguns soldados seriam poupados, para serem escravos dos Germanos e deve ter sido algum deles que, anos mais tarde relatou essas cenas. Um pequeno punhado de soldados teve mais sorte e eles conseguiram chegar até as guarnições romanas no Reno.

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Logo após a Batalha da Floresta de Teutoburgo, todos os quartéis romanos até o Reno foram atacados pelos Germanos. Somente o forte de Aliso resistiu heroicamente e foi somente essa resistência que impediu os bárbaros de cruzarem o Reno e atacarem a Gália.

A nascente cidade romana de Waldgirmes, que mencionamos na primeira parte de nossa história, foi prontamente evacuada. Sabemos que ela não foi destruída pelos Germanos, pois não há traços de incêndio, nem esqueletos de vítimas. Na verdade, a cidade foi propositalmente desmantelada pelos Romanos, provavelmente logo que eles receberam a notícia da derrota, naquele mesmo ano de 9 D.C.

Quando a notícia do Desastre de Varo (Clades Variana, como a derrota seria batizada em latim) chegou à Roma, houve uma comoção geral e muitos acreditaram que logo os Germanos atravessariam os Alpes e invadiriam a Itália. O imperador Augusto ficou muito abalado. Segundo o historiador romano Suetônio, o velho imperador, meses após a derrota, repetidas vezes foi visto batendo a cabeça contra uma parede e clamando:

“QUINCTILIUS VARUS, LEGIONES REDE!” (Quintílio Varo, devolva-me minhas legiões!).

Foi de fato a pior derrota que Augusto sofrera em 50 anos à frente do governo de Roma. Ele havia planejado minuciosamente que o número de legiões do Exército Romano, após as guerras civis do Triunvirato, seria de 28…Agora, restavam 25, e os números das legiões massacradas na Batalha da Floresta de Teutoburgo nunca mais seriam utilizados de novo pelos supersticiosos romano: Realmente, jamais houve quaisquer outras Legiões XVII, XVIII e XIX. Viraram números malditos…

Muitos historiadores incluem a Batalha da Floresta Teutoburgo entre as dez batalhas mais decisivas da História. Eu concordo. Hoje, não há dúvidas de que Augusto tinha um projeto de anexação e “romanização” da Germânia, o qual estava em andamento. Se os Romanos tivessem ganho a Batalha ou, mais provável, se Varo tivesse dado ouvidos a Segestes e desarticulado a conspiração, em poucos anos teria havido a fundação de novas cidades e consolidação e aumento das já existentes, como Waldgirmes. Em algumas décadas, a Germânia até o rio Elba ficaria cada vez mais e mais parecida com a Gália. E a leitura das fontes que citamos demonstra que realmente havia uma facção da nobreza germânica que apoiava essa “romanização” (o maior exemplo é o próprio Segestes). Uma derrota de Arminius certamente teria reforçado e promovido esses nobres pró Roma. Isso, obviamente, não quer dizer que as outras tribos germânicas além do rio Elba, incluindo as que viviam na Escandinávia, futuramente não atacariam as fronteiras romanas, e nem que o Império do Ocidente não viesse mais tarde a entrar em colapso. Porém, muito provavelmente, a fronteira linguística e cultural da Europa latinizada e católica seria no rio Elba. Como  disse o historiador militar britãnico J.F.C. Fuller, ainda que com algum exagero:

“Sem Teutoburgo, não haveria Carlos Magno, não haveria Sacro Império Romano-Germânico, não haveria Guerra dos Trinta Anos, não haveria Napoleão, não haveria Alemanha e não haveria Hitler

O IMPÉRIO CONTRA-ATACA

Demorou cinco anos para o Império Romano preparar uma revanche. O general Germanicus Julius Caesar (Germânico), que era filho adotivo do sucessor de Augusto, o Imperador Tibério (que conduziu inúmeras campanhas bem sucedidas na Germânia) entrou na Germânia comandando 6 legiões. Ele travou vários combates muito sangrentos, matou muitos bárbaros, e até conseguiu recuperar uma das águias capturadas na Batalha da Floresta de Teutoburgo. Germânico engajou vitoriosamente Armínius em combate algumas vezes, mas nunca sem conseguir derrotá-lo definitivamente. Contudo,  Segestes, que tinha sido cercado pelas tribos leais à Arminius, pediu ajuda a Germânico, que prontamente veio em seu socorro e conseguiu derrotá-los, em  15 de maio de 15 D.C. Em agradecimento, Segestes entregou à Germânico a sua própria filha Thusnelda, que então era esposa de Arminius e estava grávida do filho do libertador da Germânia.

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(Estátua romana de mulher germânica cativa, apelidada de “Thusnelda”)

Logo depois, naquele mesmo ano, Germânico e suas legiões alcançaram o local da Batalha da Floresta de Teutoburgo, visitando o campo de batalha em Kalkriese. A sombria , macabra e brilhante descrição que o historiador Tácito faz dessa visita traz à minha mente uma cena parecida com a que assisti no filme “Apocalipse Now”, quando o louco Coronel Kurtz é encontrado no Laos:

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De acordo com Tácito, havia ossos descarnados espalhados por todo local e, das árvores, pendiam crânios dos soldados romanos sacrificados. Tácito conta que o próprio Germânico cuidou de enterrar, juntamente com os soldados, os ossos dos companheiros mortos. E isso é confirmado pelas escavações modernas em Kalkriese, pois foram achadas as mesmas covas que o general romano mandou cavar. Inclusive, na pressa em fazer o sepultamento, já que os romanos estavam em terreno inimigo, foram enterrados ossos humanos junto com os das mulas e cavalos mortos, o que, em circunstâncias normais, jamais ocorreria.

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(Foto real dos ossos encontrados em uma dos oito poços escavados pelos soldados de Germânico, em Kalkriese)

O vívido relato de Tácito e a cena do filme vieram imediatamente à minha mente quando estive em Kalkriese, no final de 2008 (http://www.kalkriese-varusschlacht.de/en/).

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Há no sítio uma reconstrução da paliçada germânica e um trecho de terreno que foi escavado e reconstituído para mostrar como eram os alagados. Há também estandartes fincados com rostos humanos para lembrar os soldados romanos caídos, e um museu com os achados, onde se destacam uma máscara cerimonial de cavalaria romana e uma reconstituição facial do crânio de um soldado romano encontrado. Além de um pedaço de armadura do tipo lorica segmentata, que é o mais antigo jamais encontrado. Com efeito, acreditava-se que esse tipo de armadura tinha sido introduzido no reinado de Tibério, Calígula ou Cláudio, mas, graças a descoberta de Kalkriese, sabe-se que deve ter sido no reinado de Augusto.

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EPÍLOGO

Thusnelda foi levada para Roma e lá deu à luz ao filho de Arminius, que foi chamado de Thumelicus. Consta que Arminius lamentou muito a captura de sua esposa e de seu filho. Não se sabe qual foi o destino de Thusnelda, mas Tácito afirma que Thumelicus foi educado em Ravena e, anos mais tarde, ele sofreu uma grande humilhação, que o historiador nos alerta que iria contar em outro capítulo (infelizmente, o livro contendo essa passagem anunciada se perdeu). Alguns acreditam que o termo usado pelo historiador poderia inferir que Thumelicus pode ter virado gladiador, pois essa era considerada uma das mais baixas condições sociais em Roma.

Em 16 D.C, Germânico travou um grande batalha contra a coalizão de tribos liderada por Arminius em pessoa. Os Romanos venceram de forma arrasadora e teriam matado cerca de 20 mil Germanos, porém Arminius conseguiu escapar. Nesta ocasião, Germânico conseguiu recuperar a segunda águia perdida em Teutoburgo. Já a terceira águia, que deve ter sido encontrada escondida no pântano pelos bárbaros logo após a batalha, somente seria recapturada em 41 D.C., no reinado do imperador Cláudio.

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(Cabeça de Germânico)

Em 21 D.C, Arminius foi assassinado por rivais de sua própria tribo que, supostamente, temiam que ele quisesse virar rei (curiosamente, esse foi o mesmo pretexto para o assassinato de Júlio César). E Tácito  nos recorda que, 100 anos depois da Batalha da Floresta de Teutoburgo, o nome dele ainda era cantado nas sagas dos Germanos.

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(Lápide do túmulo do 1º centurião da XVIII Legião, Marcus Caelius, a inscrição diz:  “Para Marcus Caelius, filho de Titus, do distrito Lemoniano de Bolonha, primeiro centurião da 18ª Legião, 53 anos de idade. Ele morreu na Guerra de Varo.  Podendo também conter os ossos dos seus libertos. O seu irmão, Publius Caelius, filho de Titus, do Distrito Lemoniano, ergueu essa lápide“. Tudo indica que Publius, o irmão do centurião TItus, estava na expedição de Germânico e conseguiu reconhecer e resgatar os ossos do irmão falecido em Teutoburgo, dando-lhes um enterro digno, junto com os libertos que o acompanhavam).

                                                                               FIM

A BATALHA DA FLORESTA DE TEUTOBURGO – 2ª PARTE

O DESASTRE DE VARO – CLADES VARIANA – VARUSSLACHT

# Teutorburgo #Varo #Varusslacht #CladesVariana

PÚBLIO QUINTÍLIO VARO

Públio Quintílio Varo pertencia a uma família da classe senatorial, que, no entanto, encontrava-se em uma situação decadente no século final da República. Mas, a má situação familiar logo viria a progredir, pois o avô materno de Varo casou-se, em segundas núpcias, com a irmã de Caio Otávio, o sobrinho-neto de Júlio César que, em alguns anos, tornaria-se o primeiro imperador de Roma, com o nome de Augusto.

Embora o pai de Varo, Sexto Quintílio Varo, tenha escolhido o lado errado na guerra civil entre os partidários de César e a facção do Senado responsável pelo seu assassinato (Optimates), o filho dele, isto é, o nosso personagem Públio Quintílio Varo, quando ainda era bem jovem, tornou-se partidário de Otávio e, paulatinamente, foi ingressando no circulo íntimo de colaboradores do imperador,  e  ele acabou conseguindo casar-se com Vipsânia Marcela Agripina, que era filha de Marco Vipsânio Agrípa, o melhor amigo e o braço-direito de Augusto, e de Claudia Marcella, que, por sua vez, era sobrinha do próprio imperador (ela era filha da irmã mais nova de Augusto, Otávia, a Jovem).

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Assim, não é de espantar, diante dessa estreita conexão familiar com a casa imperial, que a carreira política de Varo tenha decolado. De fato, entre 8 e 7 A.C, ele governou a província da África ( que corresponde a uma boa parte da atual Tunísia e um pequeno pedaço da atual Líbia). Em seguida, Augusto nomeou Varo para governar a rica província da Síria, onde ele ficou de 7 a 4 A.C.

No que se refere à administração de Varo na Síria é importante dois traços que certamente teriam influência sobre os eventos que futuramente iriam ocorrer na Germânia:

Com efeito, na Síria, a conduta de Varo foi caracterizada: a) pela elevada e impiedosa taxação e, b) pela extrema severidade contra qualquer dissidência nativa.

Com relação à ganância de Varo (apesar de, nas províncias romanas admitir-se que o governador ficasse com uma parte dos tributos), é bastante esclarecedor o relato do historiador romano Veleio Patérculo sobre o governo dele na Síria:

“Ele entrou pobre em uma província rica e saiu rico de uma província pobre.”

A província da Síria englobava o reino cliente da Judeia, o qual era governado pelo rei Herodes, o Grande, nomeado pelo Senado Romano, em 37 A.C. Quando  Herodes morreu, em 4 A.C., houve disputas pela sucessão e uma facção judaica hostilizou os romanos.

A brutal resposta de Varo foi queimar algumas cidades, como Emaús, e crucificar dois mil judeus, como narrou Flávio Josefo, em sua obra “Antiguidades Judaicas”.

Curiosidade: Tendo em vista que Varo era o governador da Síria, em 4 A.C. , e que o rei Herodes morreu neste memso ano, é extremamente provável que Jesus Cristo tenha nascido durante a administração dele, pois, segundo a narrativa dos Evangelhos de São Lucas e de São Mateus, Jesus nasceu enquanto Herodes ainda estava vivo. Ocorre que, muito embora o primeiro evangelista citado expressamente afirme que o nascimento de Jesus ocorreu na época do censo ordenado pelo governador da Síria, Quirino, tudo indica que isso deve ser fruto de uma confusão de Lucas, pois Publius Sulpícius Quirinius foi governador da Sìria a partir de 6 D.C, ou seja, dez anos após a morte de Herodes. Por isso, alguns estudiosos realmente acreditam que o referido evangelista teria confundido “Publius Quinctilius”, o nome e sobrenome da gens de Varo, com “Publius Quirinius”. Além do mais, se o nascimento de Jesus tivesse ocorrido em 6 D.C., isto colocaria o ano de sua morte em 39 D.C, isto é, três anos após Pôncio Pilatos ter deixado o governo da Judeia, o que é incompatível com a narrativa evangélica e com as fontes romanas, tais como Tácito, Suetônio e Josefo.

Feita essa observação, o fato é que, em 6 ou 7 D.C., Públio Quintílio Varo assumiu o governo da Gália, tendo também autoridade sobre a Germânia. E os textos sobreviventes dos historiadores romanos que nos contam sobre a conduta de Varo na administração dos assuntos germânicos denotam que ele continuou agindo da mesma forma como na Síria: voraz quanto aos tributos e severo em relação aos nativos…

Com efeito, os historiadores romanos Veléio Patérculo, Floro e Dião Cássio, em uníssono, relatam que Varo procedia com desprezo pelos Germanos, que, apenas recentemente tinham sido derrotados, mas não inteiramente subjugados, pelos Romanos.

E todos os historiadores citados chamam a atenção para o comportamento de Varo dar a entender que ele acreditava piamente que a Germânia ao Leste do Reno já era uma província romana, uma vez que ele passou a expedir decretos e enviar litores (que eram funcionários que agiam como uma espécie de oficial de justiça, com o poder de compelir os administrados a cumprirem as ordens dos magistrado, poder esse que era expresso por um feixe de varas, para açoitar os recalcitrantes, e um machado) para garantir o seu cumprimento.

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Em um ponto muito destacado por Patérculo, Floro e Dião Cássio, Varo também passou a reunir os Germanos em assembleias, onde os conflitos de interesses envolvendo os bárbaros seriam julgados por ele, na condição de autoridade judiciária máxima. Esse foi um fato que desagradou aos Germanos, já que, em muitos casos, de acordo com os costumes deles, as disputas entre homens eram resolvidas em combate, sendo que as penas estabelecidas pelas suas leis orais, eram, em geral, bem mais leves do que as penas romanas. por exemplo, um assassinato entre eles não era punido com a morte, mas sancionado como a  obrigação de pagar uma soma em dinheiro ou bens. Cabia à família da vítima, caso não ficasse satisfeita, , buscar a reparação desafiando o ofensor para uma luta.

Outro elemento de descontentamento, obviamente, foi a cobrança de tributos sobre as tribos germânicas. Se hoje os tributos nos são desagradáveis, o que dirá para um povo que, até então, vivia da agricultura ou pecuária de subsistência, e não em cidades, mas em aldeias? Não podemos afirmar que Varo foi o primeiro governador romano a cobrar tributos dos Germanos, mas, considerando o que foi dito sobre sua passagem pela Síria, é bem provável que ele o tenha feito de modo mais ávido e duro do que o seu predecessor Saturnino...

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Assim, a semente da revolta germânica pode não ter começado a germinar durante o governo de Varo, mas, com certeza, por ele foi regada e se desenvolveu, incentivada, ainda, pelo fato de Augusto ter sido obrigado a transferira algumas legiões para debelar a Grande Revolta Ilíria, deixando Varo com somente três legiões para policiar a Germânia…

Essa era a situação da Germânia, quando, em setembro de 9 D.C, Varo marchava com seu exército de três legiões  e mais 6 coortes de auxiliares (unidades militares contendo cerca de 500 homens), incluindo destacamentos de cavalaria, que deixaram o seu quartel próximo ao Rio Weser, nas vizinhanças do território da tribo germãnica dos Cheruscos.

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Era a rotina dos romanos na Germânia Maior passar o verão nos quartéis ao leste do Reno, que ficavam bem no interior desta “proto-província”. Porém, como nesta região era mais frio e, considerando que, na Antiguidade,  todas as operações militares normalmente cessavam no inverno, os romanos, quando da chegada desta estação, deslocavam-se para os quartéis situados às margens do Reno, provavelmente em Mogúncia (Mainz), local em que o clima era mais ameno, e a distância para a Itália, menor.

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As fontes citam que alguns chefes germânicos recentemente tinham pedido a Varo que pequenos destacamentos de soldados romanos fossem enviados para algumas aldeias, com o objetivo de prender ladrões e guardar rotas de comércio, e que o governador, acreditando na veracidade do motivo, autorizou o envio

Enquanto isso, integrado à comitiva de Varo, estava um jovem germânico, comandante militar de tropas auxiliares romanas, com cerca de 21 anos de idade, filho do chefe querusco Segimerus, ou Segimer (Nota: somente cidadãos romanos poderiam ser legionários, mas os romanos costumavam alistar soldados de vários povos estrangeiros como tropas auxiliares, normalmente empregadas como unidades especializadas, tais como cavaleiros, arqueiros fundibulários, etc.). Não se sabe o seu nome em sua língua nativa, mas ele era chamado de Arminius pelos romanos (e muitos acreditam que este seria uma forma latinizada do nome “Hermann”) e ele é o segundo protagonista do drama que começava a se desenrolar…

ARMINIUS

Nenhuma fonte romana afirma isso, mas é quase certo que Arminius deve ter sido um dos reféns queruscos entregues ao general Druso, por volta de 9 A.C (ver a primeira parte dessa nossa história). Arminius teria, então, cerca de doze anos de idade e deve ter sido entregue aos Romanos provavelmente junto com seu irmão, chamado Flavus, para garantir que os Queruscos mantivessem a paz.

Não se sabe em que parte do Império Romano Arminius cresceu, mas o certo é que ele recebeu a oportunidade de prestar serviço militar à Roma, destacando-se a ponto de ter recebido a cidadania romana, bem como a grande distinção de ser arrolado entre a classe dos Cavaleiros (Equestres/ Equites), ascendendo, assim, ao segundo nível da aristocracia romana, em uma posição social somente inferior aos senadores e suas famílias (a classe senatorial era o cume da nova nobreza imperial romana).

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Segundo Veléio Patérculo, antes de 9 D.C, Arminius participou de algumas campanhas militares, que podem muito bem ter sido aquelas promovidas por Tibério e Saturnino, das quais já falamos, depois de 4 D.C, pois, então, ele já teria idade suficiente para ser soldado, e também contra os rebeldes na Grande Revolta Ilíria, que durou de 6 a 9 D.C.

É provável, assim, que Arminius deve ter retornado à Germânia quando Varo já governava a região. Com certeza ele rapidamente conseguiu impressionar o general romano, a ponto de Dião Cássio registrar que Arminius era uma companhia frequente de Varo, chegando até ao ponto deles comerem juntos na mesma mesa.

Enquanto isso, só podemos especular como deve ter sido o reencontro de Armínius com seu pai….

Eles provavelmente não se viam desde que Segimerus entregara o filho aos Romanos, cerca de quinze anos antes. Talvez Arminius esperasse que o pai ficasse orgulhoso de ver como ele havia prosperado em Roma, apresentando-se vestido em trajes de oficial romano. Mas é bem possível que, naquele intervalo de tempo, Segimerus tenha sofrido muitos desaforos por parte de seus compatriotas, pois, ao ter entregado o próprio filho aos romanos, para garantir o tratado de paz, ele praticara um ato humilhante de acordo com os costumes germânicos.  É possível que os líderes rivais tenham se aproveitado disso para diminuir a posição de liderança do velho na tribo. E agora, além de ter entregue o filho como refém, este ainda virara um soldado romano!

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Arminius, garbosamente vestido com sua cota de malha coberta de fáleras (discos de prata com figuras gravadas que podem ser equiparadas as modernas medalhas), elmo emplumado e manto escarlate pode ter percebido no olhar do velho, ao invés do esperado orgulho paterno, a decepção , a vergonha e a tristeza que a surpresa causara; quem sabe, a pungente cena se passara na mesma cabana de madeira e teto de palha onde o próprio Arminius nascera, ele, filho de um antes respeitado chefe.

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Mas, sem dúvida, eles deviam ter muita coisa para conversar. Segimerus deve ter contado como as coisas tinham mudado em quinze anos. Como a orgulhosa tribo tinha sido várias vezes humilhada pelos pretores romanos e seus litores. Deve ter se queixado da obrigação de ter que pagar o pesado tributo, de ter que se inclinar perante a efígie de César Augusto, e até da vez em que eles, como era de costume, iam atacar os vizinhos que haviam roubado o gado, mas foram impedidos pelos tribunos, sendo obrigados a levar o caso ao pretor…

Segimerus pode ter mostrado a Arminius o lugar onde as cinzas de sua mãe haviam sido enterradas com seus pertences mais preciosos, o pântano de turfa onde tantas vezes eles jogaram as armas e os corpos dos inimigos vencidos e até o levou até o ponto onde se descortinava a floresta sagrada onde ficava o grande tronco de carvalho esculpido, Irminsul (talvez uma das explicações para o nome que ele dera ao filho), o lugar dos sacrifícios a Wodan, Zyo e Frea, deuses ancestrais dos germânicos.

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Com o passar dos dias, circulando pela aldeia, Arminius deve ter visto como os orgulhosos oficiais de Varo tratavam com dureza e desdém aos seus compatriotas: a aspereza das ordens gritadas em latim, a arrogância dos gestos autoritários…E assim o prazeroso sentimento inicial de ocupar uma posição privilegiada em algo grandioso deve ter começado a se esvair do peito de Arminius como o ar de um balão…

Após o seu retorno a Germânia, que deve ter  ocorrido provavelmente no início daquele fatídico ano de 9 D.C., Arminius conheceu a bela Thusnelda, filha do nobre Segestes, que era um outro respeitado chefe querusco. Porém, Thusnelda, segundo nos conta o historiador romano Tácito, foi prometida para outro jovem. Como era costume entre os Germanos, as famílias aguardavam a chegada da idade adulta dos noivos para celebrar o casamento e consumar a união. Podemos crer que, neste momento, Armínius, tenha se apaixonado pela linda compatriota, de olhos claros e longos cabelos louros como ele jamais havia visto em todo o tempo que ele passara em Roma, e, ignorando os costumes ancestrais, ele tenha passado a cortejar a moça.

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Segestes, embora fosse ainda um altivo chefe guerreiro, à altura das melhores tradições germânicas, era um partidário dos Romanos, como registram as fontes. Inclusive, Augusto, em reconhecimento a sua amizade, tornou-o cidadão romano!  É possível que Segestes, ainda criança, tenha ouvido as estórias sobre as campanhas de Júlio César na Gália, e da grande matança que ele tinha feito entre os Gauleses e os Germanos que lutaram contra a conquista daquela província. E, de fato, ele mesmo, Segestes, experimentara o poder das legiões de Druso. É bem provável que, depois, ele tenha viajado à Gália para comercia e testemunhado como esta província vinha se desenvolvendo e, sobretudo, como a nobreza gaulesa que havia colaborado com Roma tinha prosperado: Vale lembrar que o próprio César inclusive havia nomeado nobres gauleses para o Senado Romano!

Todavia, embora Segestes se mostrasse solícito com o governador Varo, ele não poderia tolerar a investida de Arminius sobre Thusnelda. Ele a prometera para outro nobre e a sua honra seria seriamente comprometida caso ela não se casasse com o escolhido. Por isso, Segestes, segundo narra Tácito, passou a detestar Arminius.

Arminius, por sua vez, que agora tinha em Thusnelda  outro poderoso imã que o atraía para a sua pátria natal, possivelmente começou a visitar, no início de 9 D.C, outras aldeias e a viajar pela região entre os rios Lippe e Weser, para cumprir várias missões, tais como supervisionar rotas, escoltar suprimentos, distribuir sentinelas, etc. Em poucos meses, ele deve ter conhecido e estabelecido laços com chefes de vários povos vizinhos, notadamente Catos, Queruscos, Bructeros, Chaucos, Marsos e até alguns Suábios. Em todos esses lugares, Arminius perceberia que, embora vivessem separados e vez por outra até guerreassem, falavam todos eles a mesma língua e tinham os mesmos costumes, e, mais importante,  eles compartilhavam o mesmo sentimento de insatisfação com os Romanos.

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Mas como eles poderiam resistir aos Romanos? Varo tinha três legiões e várias coortes, cerca de 20 mil soldados no total. As tribos daquela parte da Germânia, quando muito, depois de tantas derrotas nos últimos anos, conseguiriam no máximo reunir o mesmo número. Desse modo, para vencerem os romanos, que tinham melhores armas e eram imbatíveis em campo aberto, somente através de uma emboscada. Porém, as legiões não dormiam um dia sequer fora do quartel fortificado com paliçadas e torres armadas com as temíveis catapultas e balistas. Já os Germanos não tinham a menor expertise em fazer guerra de cerco.

Voltando ao quartel-general romano, Arminius deve ter percebido como Varo estava seguro e confiante da completa submissão das terras germânicas, naquele início de 9 D.C… A disciplina no quartel de verão parecia estar relaxada e muitas mulheres e até crianças  conviviam entre os soldados. Enquanto isso, Varo  passava o dia no pretório, sentado em sua cadeira curul, resolvendo as disputas legais, rodeado pelos chefes das tribos.

Em algum momento, a ideia deve ter surgido na mente de Arminius. Após servir por cinco anos no Exército Romano e participar de várias campanhas, ele conhecia bem as táticas dos Romanos, as suas forças, mas também as suas fraquezas. Se os romanos pudessem ser atraídos para um terreno desfavorável, onde os soldados não pudessem entrar em formação e as legiões não conseguissem cooperar entre si, elas poderiam ser vencidas. E ele, que já gozava da confiança do governador, dificilmente seria suspeito de ser um rebelde. Assim, Arminius se sentiu encorajado a contar seus planos para o pai, que apoiou entusiasticamente a ideia. Seria a chance de seu povo vingar a humilhação de 15 anos atrás, e, sobretudo, livrar-se dos litores e dos publicanos.

Eles teriam apenas algumas semanas para colocar um plano em prática, pois, no final do outono, Varo voltaria para o quartel de inverno do Reno, onde ele poderia ter o suporte das outras legiões que ficaram ali estacionadas e onde as tribos eram realmente amistosas.

Arminius e Segimerus devem ter começado a falar com os chefes queruscos que eram mais próximos ao velho nobre, encontrando apoio imediato. Depois, nos meses seguintes, eles devem ter encontrado os chefes de outras tribos, em festivais religiosos ou em “things” (assembleias de homens livres ) de várias tribos vizinhas, e a conspiração foi tomando forma…

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(Este desenho de um relevo da Coluna de Marco Aurélio, em Roma, retrata um “thing”, a assembleia de germânicos, no caso, de Marcomanos)

CONTINUA

A BATALHA DE ACTIUM – O ATO FINAL DA GUERRA CIVIL E O FIM DA REPÚBLICA

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BATALHA DE ACTIUM – ATO FINAL DA GUERRA CIVIL E O FIM DA REPÚBLICA

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Em 02 de setembro de 31 A.C.,  ao largo do promontório e da cidade homônima de Actium, próxima ao Golfo de Corinto, na Grécia, duas frotas romanas  preparavam-se para entrar em combate, não contra um inimigo estrangeiro ou piratas, como de hábito, mas uma contra a outra.

Nos seis anos anteriores, o Segundo Triunvirato – pacto político que  os dois homens mais poderosos da República, Otaviano e Marco Antônio, juntamente com Lépido, herdeiros políticos do poder do falecido Júlio César celebraram, após o assassinato do Ditador para dominar a República – só fazia se esgarçar, mesmo após a tentativa de união familiar simbolizada pelo casamento de Marco Antônio com a irmã de Otaviano. Todavia, o misto de romance e aliança política entre Marco Antônio e Cleópatra, mãe do único filho natural de César, constituíram, além de uma afronta pessoal ao filho adotivo de César, Otaviano, uma tremenda ameaça política, enfraquecendo a posição deste último como herdeiro reconhecido em testamento pelo Ditador.

As chamadas “Doações de Alexandria” de 34 A.C, onde Antônio e Cleópatra reconheciam Caesarion como o único filho legítimo de César, Rei do Egito e “Rei dos Reis”, além de selarem a ruptura definitiva entre Otaviano e Antônio, foram habilmente aproveitadas pelo primeiro para atacar a popularidade de Antônio, visto agora como hostil aos interesses da República Romana e submisso à vontade de uma rainha estrangeira. Apesar disso, um terço do Senado Romano continuou apoiando Marco Antônio.

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Após várias tentativas dos rivais atraírem o outro para um conflito terrestre, incluindo a teatral proposta de Antônio de enfrentar Otaviano em combate individual para decidir quem deteria o poder supremo, Otaviano acabou conseguindo obter do Senado uma declaração de guerra contra Cleópatra, o que indiretamente significava que Antônio agora era inimigo de Roma. Nesse meio tempo, ambos os contendores se prepararam, ficando claro que a estratégia que prevalecia nas forças de Antônio seria a de uma batalha naval, sob a instigação de Cleópatra, que vinha coletando uma grande frota. Muitos acreditam que o objetivo da rainha era proteger o Egito, pela destruição da frota romana em águas gregas.

Marco Vipsânio Agripa, o fiel amigo e comandante naval supremo de Otaviano, sabendo que sua frota, composta de navios leves do tipo “liburna”,  era mais vulnerável às condições de tempo, esperou o verão chegar para se deslocar para a Grécia, onde se encontravam as principais forças de Antônio. Mesmo assim, a chegada da frota pegou Antônio de surpresa, pois ele ainda estava recrutando remadores para seus navios. Desse modo, a iniciativa estava com Agripa, que conseguiu desembarcar tropas que travaram algumas escaramuças com as forças terrestres de Antônio, nas quais estas levaram a pior.

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A longa inatividade já havia deteriorado o moral das tropas de Antônio, e, ele mesmo, também parece ter sido afetado. Porém, quando a frota de Otaviano avançou em direção ao seu quartel-general e ameaçou cercá-lo completamente no Golfo de Corinto, cortando os seus suprimentos vindos do Egito, Antônio resolveu agir.

No dia 02 de setembro de 31 A.C., Marco Antônio ordenou que os navios zarpassem e se colocassem de costas para o promontório de Actium, ao pé do qual sete legiões suas estavam acampadas, e de onde eles podiam assistir às manobras. A sua frota era composta de 230 grandes galeras, a maioria delas com oito bancadas de remadores (octores) e providas de torres armadas com catapultas, sendo que a sua nau-capitânia era uma espetacular “decere” (dez bancos de remadores), assim como a de seus outros almirantes. Os seus enormes navios eram pesadamente couraçados e muito difíceis de afundar por abalroamento com esporão, como era a tática comum nas batalhas navais da época. Porém, o tempo em que ficaram ancorados à espera de ação favoreceu o aparecimento de doenças entre os marinheiros e, por isso, poucas tinham o número ideal de remadores.

Segundo os relatos dos autores antigos, o navio de Antônio zarpou com as velas abertas, o que não era comum em ordem de batalha, levantando a suspeita que, desde o início, a intenção dele era chegar ao mar aberto e, aproveitando-se do vento noroeste que soprava, fugir em direção à Alexandria (os navios de guerra romanos não conseguiam navegar de través). Ele formou seus três esquadrões em duas linhas, à frente dos navios mercantes que levavam o enorme tesouro egípcio, e com os navios que escoltavam Cleópatra atrás.

A frota de Otaviano aproximou-se em duas linhas. Ela compunha-se de cerca de cerca de 250 quinquerremes, navios menores, porém mais rápidos e manobráveis do que os da frota de Antônio, os quais,  além disso, estavam subtripulados. Otaviano esperou, pois se avançasse mais ele corria o risco de ver seus navios ficarem perto de mais da costa e serem atacados pelas forças inimigas em terra. Vale citar que Otaviano tinha a vantagem de ter ciência prévia dos planos de Antônio, pois um importante partidário deste, Quintus Dellius, havia desertado pouco antes e se juntado às forças de Otaviano. Dellius era um notório vira-casaca, que já havia desertado duas vezes quando integrava o exército dos assassinos de César contra os triúnviros.

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Ao meio-dia, Antônio deu ordem de avançar. A sua ala esquerda deu a impressão de querer empurrar à ala direita da frota de Otaviano para o norte e abrir um caminho em direção ao sul (bombordo), que poderia levar ao Egito; porém, Otaviano, parecendo estar ciente desse propósito, mandou os seus  navios manterem distância, atraindo mais o inimigo para o alto-mar.

Quando ambas as frotas ficaram mais próximas, começaram os disparos de artilharia e flechas. Agripa ordenou que os navios de sua segunda linha se estendessem mais para o norte e para o sul, visando cercar o inimigo em menor número, sendo que Antônio, ao perceber isso, tirou alguns navios do seu centro e esticou a sua linha, deixando no centro os navios mais pesados, que estavam resistindo bem, e dirigindo-se à direita (estibordo) e ao norte para combater o esquadrão comandado por Agripa. Isso, entretanto, acabou abrindo espaços no centro da sua formação.

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Foi então que, em um movimento inesperado, os navios comandados por Cleópatra, aproveitando um buraco no centro da linha da frota comandada por Antônio e o súbito vento que soprava favoravelmente, ultrapassaram as suas linhas à toda velocidade, e, deixando para trás o resto da frota, rumaram em direção ao Egito, levando consigo todo o tesouro.

Não se sabem os motivos pelos quais Cleópatra tomou essa decisão…Alguns acreditam que ela, inexperiente na guerra, interpretou equivocadamente o fato de Antônio ter deixado o centro e rumado para o norte. É possível que ela tenha perdido contato visual com o navio do companheiro e pensado que ele tinha sido afundado ou fugido.

O fato é que Antônio, quando viu os navios de Cleópatra se afastando, resolveu ele também fugir, embarcando em outro navio mais veloz e deixando o restante da sua frota lutando acéfala. exceto cerca de 60 navios que conseguiram acompanhar a fuga. Os combates duraram até a noite, mas toda a frota remanescente de Antônio foi destruída por Otaviano. Isso prova que a fuga foi um momento crucial da Batalha, pois, mesmo sem o seu comandante, a frota de Antônio continuou lutando e vendeu caro a derrota.

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Nominalmente, mesmo com a derrota naval na Batalha de Actium, Antônio e Cleópatra ainda comandavam um numeroso exército, mas o custo moral da derrota foi muito alto. Uma semana após a derrota, 19 de suas legiões e 12 mil cavaleiros renderam-se à Otaviano.

Ainda assim, levaria quase um ano até Otaviano chegar até o Egito. Nesse meio tempo, Cleópatra e Antônio, separadamente, enviaram propostas de rendição, tentando assegurar para si termos mais favoráveis. Otaviano ainda tentou negociar com Cleópatra, mas Antônio foi repelido.

Quando o exército de Otaviano alcançou o Egito, Antônio com as forças de que dispunha tentou oferecer combate, mas a desproporção era enorme. Derrotado, ele conseguiu fugir, mas, pensando que Cleópatra havia sido capturada, tentou se matar com a própria espada, à tradicional maneira romana, Ferido mortalmente, mas ainda vivo, pediu para ser levado ao mausoléu de Cleópatra, onde ela estava escondida, A cena do trágico reencontro dos dois amantes foi dramaticamente descrita por Plutarco (ver nosso post CLEÓPATRA – RAINHA DE REIS). Antônio faleceu nos braços e no colo de Cleópatra, em 1º de agosto de 30 A.C.

As tropas de Otaviano já estavam em Alexandria e foi já como virtual prisioneira que Cleópatra voltou para o palácio, onde obteve a permissão de organizar o funeral de Marco Antônio. Ela ainda tentaria negociar alguma saída honrosa para si e para os seus filhos (consta, inclusive, que ela teria mandado Caesarion para a Índia). Percebendo, porém, que tudo que Otaviano queria era mantê-la viva para abrilhantar a sua iminente parada triunfal em Roma, a Rainha do Egito, após várias tentativas, conseguiu se suicidar, segundo uma das fontes, pela picada de uma serpente no braço., em 12 de agosto de 30 A.C.

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Otaviano era agora o senhor de Roma e do Egito. Caesarion, o último faraó do Egito desapareceu da História naquele mesmo mês, executado a mando de Otaviano. Três anos mais tarde, este receberia do Senado Romano o título de Augusto e Princeps, inaugurando oficialmente o período do Império Romano e pondo fim à Roma Republicana.

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Marco Antônio acabou passando para a História como um personagem romântico e heroico, muito em função do romance dele com Cleópatra e o fim trágico de ambos. Apesar disso, ele parece ter sido também um tipo um tanto grosseiro e bronco, como apontado por Cícero e foi muito bem retratado na minissérie “Roma”. De fato, desconsiderando as razões do coração, a sua decisão de se unir à Cleópatra em Alexandria foi praticamente um suicídio político. A fonte de todo o poder residia nos exércitos italianos e isso já tinha ficado cabalmente demonstrado durante a Guerra Civil de César contra Pompeu e, novamente, nas guerras do 2º Triunvirato contra os assassinos de César apoiados pela facção dos Optimates (nobres).

Roman male portrait bust, so-called Marcus Antonius. Fine-grained yellowish marble. Flavian age (69—96 A.D.). Rome, Vatican Museums, Chiaramonti Museum.
Roman male portrait bust, so-called Marcus Antonius. Fine-grained yellowish marble. Flavian age (69—96 A.D.). Rome, Vatican Museums, Chiaramonti Museum.

CURIOSIDADE – Vitória na “Batalha dos Genes”

Ironicamente, seria a descendência de Marco Antônio, e não a de Otaviano, que herdaria o Império.  Com efeito, a sua filha Antônia, a Velha, seria avó do futuro Imperador Nero; e a sua outra filha, Antônia, a Jovem, seria mãe do futuro imperador Cláudio, avó do Imperador Calígula e bisavó do Imperador Nero.

Os três filhos que  Marco Antônio teve com Cleópatra foram poupados por Otaviano e criados por sua irma, Otávia, a ex-esposa de Antônio. Uma das meninas, Cleópatra Selene, casou-se com o rei Juba II da Numídia, e dentre seus inúmeros prováveis descendentes que se tornaram reis da cidade síria de Emesa, estaria a célebre rainha Zenóbia, de Palmira, que no século III D.C chegou a conquistar a Síria e o Egito e ameaçar a própria sobrevivência do Império. Depois de derrotada e levada para Roma, Zenóbia teria se casado com um senador romano e tido muitos descendentes.

Outra Antônia, filha de Marco Antônio com sua prima, chamada Antônia Hybrida, casou-se com Phytodorus, um magnata grego, e a filha de ambos, Phytodorida casou-se com o rei do Ponto e da Capadócia, obtendo o título de rainha. Vários descendentes de Phytodorida tornariam-se reis também do Bósforo, da Armênia e da Iberia. Assim, é bem possível que haja por aí milhares, senão milhões, de descendentes de Marco Antônio, que, derrotado nos campos político e militar, pode se considerar vencedor na batalha dos genes…

BATALHA DE CANAS – O DIA MAIS SANGRENTO DA HISTÓRIA

BATALHA DE CANAS – O DIA MAIS SANGRENTO DA HISTÓRIA

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Em 02 de agosto de 216 A.C., quando o sol se pôs detrás do rio Aufidus, na fértil planície da região da Apúlia, próximo à cidadezinha de Canas (Cannae), no sul da península italiana, 80 mil cadáveres jaziam sem vida.

Eram os corpos de cerca de 70 mil soldados e aliados romanos, aos quais se somavam pouco mais de 6 mil soldados africanos, celtiberos e gauleses, estes integrantes da força expedicionária comandada pelo grande general cartaginês Aníbal Barca.

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(Acredita-se que este busto antigo, encontrado em Cápua, seja de Aníbal)

Para se ter uma ideia do tamanho dessa carnificina- talvez a maior jamais ocorrida em um único dia em qualquer guerra- estima-se, por exemplo, que 50 mil civis e soldados alemães morreram no Bombardeio de Dresden, em abril de 1945, realizado por mil bombardeiros ingleses. Já em 6 de agosto de 1945, em Hiroshima, a estimativa do número de mortos varia entre 22 mil e 80 mil vítimas, e o maior número de pessoas mortas proposto para Nagasaki, três dias depois também devastada por uma bomba atômica norte-americana, é de 70 mil vítimas. No primeiro dia da sangrenta Batalha do Somme, na 1ª Guerra Mundial, em 1916, o número estimado de soldados mortos é de 35 mil. E, por sua vez, na Batalha de Borodino, travada entre o exército de Napoleão e a Rússia Czarista, o maior número estimado de baixas é de 45 mil, entre mortos e feridos.

Prelúdio

Após a Primeira Guerra Púnica, que durou de 264 A.C a 241 A.C., Roma havia conseguido deter a expansão de Cartago pela Sicília e pelo sul da Itália, triunfo em boa parte conseguido após ela construir, pela primeira vez em sua história, uma marinha, derrotando a rival no mar. Os mais de 20 anos de conflito, e o tratado de paz assinado com os romanos, não impediram que Cartago continuasse a prosperar e expandir suas colônias e esfera de influência pela Península Ibérica, levando a atritos com aliados de Roma, especialmente a cidade ibérica de Sagunto, que, em 219 A.C., acabou sendo alvo de um ataque que deflagraria um novo conflito.

O grande general Aníbal Barca, filho de Amílcar Barca, o comandante cartaginês durante a Primeira Guerra Púnica, então, devisou a estratégia de atacar diretamente Roma no coração do território que ela controlava na Itália, ao invés de combater os exércitos romanos que se encontravam na Espanha, foco das presentes disputas.

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(Shekel, moeda cartaginesa, com a efígie de Amílcar Barca)

Em uma manobra surpreendente e ousada, Aníbal conseguiu evadir as tropas romanas que se dirigiam à Espanha, cruzando a França e, com seu exército de cartagineses e aliados celtiberos e celtas, incluindo uma unidade móvel “blindada” integrada por elefantes treinados para a guerra, cruzou as escarpadas montanhas dos Alpes, invadindo a Itália por terra, com uma rapidez inesperada, sendo que muitos supunham que o ataque se daria por via marítima.

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Mestre na Arte da Guerra, Aníbal derrotou os exércitos consulares que os romanos confiantemente enviaram para derrotá-lo no norte da Itália, na Batalha de Trébia e na Batalha do Lago Trasimeno,  sendo que esta foi uma emboscada terrível na qual os romanos sofreram 30 mil baixas, entre mortos e capturados.

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A gravidade da situação militar levou o Senado Romano a acionar um dispositivo constitucional que, em situações extremas, permitia a nomeação de um Ditador com poderes extraordinários, tendo sido designado o Cônsul Quinto Fábio Máximo.

O Ditador Fábio entendeu que o melhor para os romanos, em razão do quadro em que eles se encontravam, era adotar uma tática de guerrilha, evitando engajamentos decisivos em batalhas campais, com o objetivo de diminuir, paulatinamente, os efetivos de Aníbal, tendo em vista o contingente mais reduzido de que, então, os romanos dispunham na Itália, depois da perda de vários exércitos consulares, e, sobretudo, o fato de que Aníbal estava longe de suas bases de suprimentos na Espanha e na África. Essa estratégia, que, aliás, seria repetida com sucesso pelos russos contra Napoleão e contra Hitler, até hoje é chamada de “estratégia fabiana” e valeu a Fábio o cognome, isto é, o apelido, de Fábio Cuntator, ou seja, o “Contemporizador”.

Durante dois anos, a estratégia fabiana foi adotada com bons resultados pelos romanos. Porém, quando Aníbal chegou ao sul da Itália, algumas cidades aliadas começaram a desertar para o lado dos cartagineses, fato que, como ele tencionava, acabaria por obrigar os romanos a uma batalha campal.

A estratégia de Fábio era eficiente, mas não era popular…Os romanos se orgulhavam do seu exército, com o qual haviam anexado praticamente a Itália inteira, e a questão virou política. Nas eleições de 216 A.C., foram eleitos os cônsules Caio Terêncio Varrão (Varro) e Lúcio Emílio Paulo. Varrão era de uma família importante, mas de origem plebeia, e Emílio Paulo era um aristocrata da tradicional elite senatorial. O primeiro, era um ardoroso crítico da estratégia fabiana, e defendia um ataque direto ao exército de Aníbal; já o outro, um pouco mais cauteloso, propunha apenas um pouco mais de ousadia, sem abandonar o que vinha dando certo.

Por outro lado, Aníbal não conseguiu convencer as cidades mais importantes do sul, como Cápua, a abandonarem a aliança com Roma, como ele pretendia, visando deixar os romanos isolados e conseguir, ele mesmo, uma base mais estável na Península. Ele então, planejou uma ação mais contundente para atrair os romanos: tomar o importante depósito romano de suprimentos na cidade de Canas, algo que dificultaria muito as ações do exército romano no sul da Itália.

Quando a notícia da perda de Canas chegou a Roma, os Cônsules decidiram que era chegada a hora de um ataque combinado ao exército cartaginês. O Senado autorizou o recrutamento de forças que dobravam os exércitos consulares, totalizando uma força entre 90 e 100 mil homens, configurando, até então, o maior exército já reunido pelos romanos em toda a sua história!

Comandados por Varrão e Paulo, que se revezavam periodicamente no comando, o enorme exército, após uma marcha de 2 dias, chegou até as vizinhanças de Canas, acampando a uns 10 km do acampamento cartaginês (e, no final desta marcha, os romanos chegaram a derrotar em uma escaramuça alguns cartagineses). Consta que, admirado ao ver o tamanho do exército romano, Gisco, um oficial cartaginês, teria comentado com Aníbal que o exército romano era muito mais numeroso do que o cartaginês, ao que o general teria respondido:

“Outra coisa que você não notou, e essa é ainda mais impressionante, é que, embora haja entre eles tantos soldados, nenhum deles se chama Gisco”.

Paulo, nos dois dias em que ele foi o comandante-em-chefe do exército combinado, manteve-se acampado. Os romanos haviam decidido estabelecer um pequeno acampamento suplementar na outra margem do rio Aufidus, para assegurar o suprimento de água. No terceiro dia, 02 de agosto de 216 A.C., Varrão assumiu o comando e Aníbal, percebendo a oportunidade (parece que ele tinha sido informado da divergência de opiniões entre os dois romanos), mandou um destacamento de cavalaria atacar o acampamento menor.

A Batalha

Varrão mordeu a isca e ordenou que o exército saísse do acampamento para a planície, desdobrando-se em ordem de batalha. Ele certamente estava confiante, pois em suas vitórias anteriores, Aníbal tinha se aproveitado ou de emboscadas ou de um terreno difícil. Mas, desta vez, a batalha ocorreria em campo aberto, onde os romanos se julgavam imbatíveis…

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(Os soldados de uma legião romana, da esquerda para a direita: 1- Hastati, 2-Velites, 3-Triarii, 4- Principes)

Aníbal, como todo grande general, já tinha estudado completamente o terreno onde escolhera oferecer batalha. Ele escolheu uma posição na qual, ao longo da luta, os romanos ficariam de frente para o sol escaldante do verão italiano, e contra o vento, que poderia jogar poeira e atrapalhar o avanço inimigo. Além disso, ele sabia como os romanos lutavam, que, aliás, não diferia muito da tática padrão dos exércitos helenísticos: tentar quebrar a linha do adversário e, então, envolver as formações desconjuntadas.

Nota: As batalhas de infantaria da Antiguidade, sobretudo as dos gregos e macedônios, até então ( as quais influenciaram o resto do mundo mediterrâneo), caracterizavam-se pelo choque de linhas cerradas de infantaria, armadas com escudos e lanças, variando a profundidade e a extensão dessas linhas de soldados, sempre visando a empurrar o adversário para trás, até que essa linha cedesse em algum ponto, onde então se dava uma penetração que levaria ao esfacelamento dassa linha e ao consequente envolvimento dos pedaços cercados. Somente aí é que se começava a infligir as maiores baixas, já que, por si só, a pressão frontal contra centenas ou milhares soldados de capacete e armadura, protegidos por uma barreira de escudos, lado a lado, causava muito poucas mortes. Os massacres só ocorriam quando um exército era completamente cercado e, sobretudo, quando os soldados debandavam, dando as costas para o inimigo.

Percebendo que os romanos planejavam fazer uso do seu número muito maior de tropas, Aníbal escolheu um terreno onde o exército romano não poderia se espalhar muito, já que as suas linhas, caso inteiramente desdobradas, tinham a capacidade de ficar muito mais extensas do que as dos cartagineses. Por isso, ele colocou o exército cartaginês perto do rio, cobrindo o seu flanco esquerdo, sendo que, no lado direito, um terreno mais elevado dificultava que ele fosse atacado por ali.

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(O sítio da Batalha de Canas, com a coluna in memoriam que foi erguida já antiguidade. O rio Aufidus (atual Ofanto) mudou o seu curso ao longo de 2 milênios, mas a elevação é a mesma descrita pelos historiadores. Na coluna foi gravada uma citação de Tito Lívio sobre a Batalha: “Nenhuma outra nação poderia ter sofrido tamanhos desastres e não ter sido destruída.“)

Por outro lado, Aníbal optou por adelgaçar (tornar mais fina) a profundidade da sua linha, que era a única maneira pela qual ele poderia desdobrar a sua linha de frente em uma extensão igual dos romanos. Aníbal compreendia que os romanos também não esgarçariam demais a linha deles, já que, pela lógica das táticas vigentes, acima explicadas, eles deveriam concentrar o seu peso no centro da linha dos Cartagineses.

Além disso, Aníbal sabia que os romanos eram tradicionalmente fracos em cavalaria – enquanto que ele dispunha de dez mil cavaleiros africanos, ibéricos e gauleses, os romanos somente contavam com quatro mil cavaleiros. Assim, ele poderia proteger melhor os seus flancos com a sua cavalaria, e impedir que os romanos o envolvessem valendo-se de sua infantaria bem maior, ou, melhor ainda, ao dispersar a cavalaria romana, Aníbal poderia, com a sua própria, tentar atacar a infantaria romana pelos flancos e pela retaguarda. No comando da cavalaria númida, no flanco direito da linha cartaginesa, estava Asdrúbal, irmão de Aníbal, acompanhado de Maharbal, e, no esquerdo, o cartaginês Hanno.

Seguindo o plano, e, aí, mais do que em todo resto, reside o brilhantismo de Aníbal, ele planejou que o seu centro deveria ceder terreno aos atacantes inimigos, embora não a ponto de se dissolver com a pressão exercida pelo avanço romano. Para isso, Aníbal cuidadosamente escolheu a posição que cada grupo do seu exército multinacional deveria ocupar: na vanguarda, com a função de causar o máximo de estrago possível, antes do contato com o inimigo, ficaram os fundibulários das ilhas baleares, mestres no uso da funda. No centro da formação, ele colocou os ibéricos e os gauleses, teoricamente os integrantes menos confiáveis das tropas e, portanto, para melhor poder comandar e vigiar esse sensível setor, Aníbal escolheu para si mesmo esta posição na ordem de batalha. Já nas alas esquerda e direita do seu exército, Aníbal posicionou a leal infantaria recrutada no norte da África, território de Cartago, já experimentada em batalha,  e em quem ele tinha inteira confiança..

Era, portanto, um plano totalmente não-convencional para a época, em que as melhores tropas estavam nos flancos, e não no centro da formação.

O historiador grego Políbio assim descreve  o início da batalha:

“Depois de dispor assim todo o seu exército em uma linha reta, ele levou os regimentos de hispânicos e celtas e os avançou, deixando o resto deles em contato com estes, mas gradualmente recuando, de modo a produzir um formato de lua-crescente, a linha dos regimentos de flanco tornando-se mais delgada enquanto era esticada, sendo o seu propósito empregar os africanos como uma força de reserva e iniciar a ação com os espanhóis e celtas”.

Note-se que, para alguns estudiosos, que fazem uma ressalva à descrição de Políbio, inicialmente, a intenção de Aníbal seria apenas a de segurar o avanço dos romanos ao máximo, a fim de aguardar que sua cavalaria subjugasse a romana e viesse em seu auxílio. Por isso, os flancos de infantaria africana teriam sido dispostos diagonalmente, em formação de esquadrão.

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Seja como for, o fato é que Aníbal controlou magistralmente o desenvolvimento da luta no centro da linha cartaginesa, comandando os celtas e ibéricos em um recuo ordenado. Devido a isso, o centro romano começou a avançar mais e mais para o centro da meia-lua cartaginesa, sem que, provavelmente atrapalhados pelo sol e pelo vento que soprava a poeira no rosto dos romanos, estes percebessem que, na verdade estavam sendo cercados pelas alas esquerda e direita da infantaria africana de Aníbal. Na verdade, Varrão, vendo o recuo do centro cartaginês,  realmente acreditou que os inimigos estavam prestes a serem derrotados e ordenou que o avanço romano se intensificasse.

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Enquanto isso, a ala esquerda das cavalarias ibérica e celta cartaginesa conseguiu fazer a romana fugir e se dirigiu para apoiar a sua ala direita, númida, que ainda lutava contra sua contraparte inimiga romana. Em pouco tempo, a cavalaria romana inteira debandou, sendo perseguida pela cartaginesa.

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Agora, o avanço romano no centro tinha tal intensidade, que os soldados romanos da frente começaram a ser espremidos pelos de trás, faltando-lhes espaço até para desembainhar seus gládios. E os flancos romanos vulneráveis agora começavam a ser atacados pelas alas direita e esquerda da infantaria africana, obedecendo às ordens de Aníbal. Para piorar, algum tempo depois, a vitoriosa cavalaria cartaginesa retornou para o campo de batalha e começou a atacar os romanos pela retaguarda. Como resultado, os romanos ficaram completamente cercados, tendo a infantaria ibérica e celta pela frente, os africanos pelos lados e a cavalaria inimiga por trás…

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Foi um clássico movimento de pinças, também conhecido como “duplo envelopamento” que até hoje, dois mil e duzentos anos depois, é obrigatoriamente estudado em qualquer academia militar que se preze no planeta.

Ainda segundo a descrição de Políbio, assim os romanos foram derrotados:

“enquanto as suas fileiras eram continuamente eliminadas, e os sobreviventes eram forçados a recuar e se amontoar, todos eles foram, no final, mortos onde estavam”.

E foi assim que o historiador romano Tito Lívio descreveu o estado do campo de batalha, em seus momentos finais:

“Tantos milhares de romanos morriam…Alguns, incomodados pelos seus ferimentos,  e beliscados pelo frio da manhã, despertaram, e, enquanto eles se erguiam, cobertos de sangue, do meio das pilhas de mortos, foram liquidados pelo inimigo. Outros, foram encontrados com suas cabeças enfiadas na terra, que eles escavaram, tendo, assim, segundo parece, feito buracos para eles, nos quais se sufocaram”.

Dos cerca de 86 mil romanos, somente entre 10 mil e 14 mil romanos conseguiram escapar. Paulo morreu na batalha, mas Varrão conseguiu fugir. Do exército de Aníbal, estimado em cerca de 50 mil homens, entre 8 mil e 5700 morreram. Apesar dos historiadores romanos posteriormente terem acusado Varrão de ser o responsável pela tragédia romana, mesmo assim ele foi recebido com respeito pelo Senado, que inclusive renovou o seu comando.

Epílogo

Após a batalha, muitos esperavam que Aníbal iria imediatamente marchar contra Roma. Segundo Tito Lívio, Maharbal teria chegado a demandar que o general fizesse exatamente isso, tendo Aníbal dito que iria ponderar o assunto e, segundo consta, Maharbal teria afirmado:

“Em verdade, os deuses não conferem tudo a uma só pessoa… pois, Aníbal, você sabe como vencer, mas não sabe como fazer uso de sua vitória”.

Em verdade, contudo, fazendo-se uma análise fria, Aníbal tomou a decisão militarmente mais correta: Roma era uma cidade que na época deveria ter cerca de 250 mil habitantes, cercada de muralhas. E, ao contrário de Cartago, ela não era mais apenas uma cidade-estado, mas liderava o que, praticamente, era uma confederação de cidades italianas, cujo poder de recrutamento não estava esgotado. Além do mais, ainda havia um exército romano na Sicília, e outro na Espanha, além dos 12 mil romanos que haviam sobrevivido à batalha, o que correspondia a cerca de duas legiões. Portanto, um cerco a Roma não seria nada fácil, e o exército de Aníbal se veria na perigosa situação de atacar uma cidade murada com tropas inimigas às suas costas. Ele preferiu, assim, mandar uma embaixada à Roma,  que foi liderada por Carthalo, para negociar um tratado de paz com termos moderados.

Ao contrário do que Aníbal esperava, o Senado, apesar da consternação geral com a esmagadora derrota em Canas, recusou a paz e determinou medidas extremas para lidar com a catástrofe: decretou-se a mobilização total de todos os cidadãos, incluindo, excepcionalmente, o recrutamento de camponeses sem terra, e, em um ato extremo, até de milhares de escravos. Foi proibida a utilização da palavra “paz” e, segundo consta, temporariamente, até alguns sacrifícios humanos, que eram abominados pela opinião pública romana, teriam sido admitidos para obter a boa vontade dos deuses.

Na verdade, com a vitória em Canas, Aníbal efetivamente esteve muito perto de obter o seu maior ganho estratégico planejado: separar Roma de seus aliados italianos. Por exemplo, as importantes cidades de Cumas e Tarento mudaram de lado e aderiram aos cartagineses. E o importante reino de Siracusa, na Sicília, também aliou-se a Cartago. O resultado de Canas também encorajou o rei Filipe V, da Macedônia a atacar os romanos na Ilíria, abrindo um front que colocava Roma em uma péssima situação estratégica (Primeira Guerra Macedônica, da qual tratamos em nosso post sobre a Batalha de Pydna).

Concluindo, agora, somente a vontade férrea do Senado, o patriotismo dos romanos, e a futura emergência de uma nova liderança militar romana, – Públio Cornélio Cipião–  cujo gênio era comparável ao de Aníbal, salvariam Roma da derrota total.

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A BATALHA DE DIRRÁQUIO

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A BATALHA DE DIRRÁQUIO

 

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Em 10 de julho de 48 A.C.,  fazia cerca de um semestre que os exércitos dos rivais Caio Júlio César e Cneu Pompeu encontravam-se em um impasse, entrincheirados atrás de fortes posições defensivas, sem que um deles conseguisse atrair o outro para um engajamento decisivo.

A  Grande Guerra Civil de Roma havia começado em 16 de janeiro do ano anterior, quando César cruzou o Rio Rubicão com apenas uma legião.

Surpreendentemente, pouco tempo depois da célebre travessia, César tomou Roma sem precisar lutar, uma vez que Pompeu, o chefe dos exércitos senatoriais, junto com boa parte dos senadores integrantes da facção dos Optimates (nobres), perplexos com a rapidez e o sucesso da investida de César, concluiu que a melhor estratégia era deixar a capital e aglutinar suas forças.

Pompeu decidiu, então, partir para a Grécia, onde, explorando o seu prestígio e sua vasta clientela existente na região, poderia reunir um grande exército. Além disso, ele ainda tinha sob seu comando uma considerável frota romana, ao contrário de César, que tinha poucos navios disponíveis para perseguir Pompeu;

Acompanharam Pompeu, em sua retirada estratégica da Itália, a maior parte da facção dos Optimates. Assim, ao contrário de César, que era o comandante supremo de suas forças, Pompeu, por diversas vezes, tinha que escutar e levar em consideração os palpites militares dos senadores mais proeminentes, muitos deles sem experiência bélica.

César, devido à impossibilidade de perseguir Pompeu até a Grécia, decidiu, então, partir para enfrentar o grupo de exércitos do rival que se encontravam baseados na Hispânia. Chegando em Ilerda, após mais uma impressionante marcha forçada, César cercou o exército senatorial, que se rendeu em 02 de julho de 49 A.C.

Voltando para a Itália, César reuniu as 7 legiões que estavam disponíveis para serem transportadas, e embarcou em Brundisium (Brindisi), em 28 de novembro de 49 A.C, cruzando o mar Adriático em direção ào Épiro, na atual Albânia. Se o inverno era insatisfatório para transportar as tropas via marítima, o era muito mais para as instáveis galeras de patrulha da frota de Pompeu, assim, a cartada de César inicialmente foi um sucesso e ele desembarcou com metade de suas forças.

Porém o comandante da frota de Pompeu, ancorada em Corfu, Marco Calpúrnio Bíbulo, que tinha sido pego de surpresa pelo desembarque repentino de César, agora estav alerta, e decidiu bloquear a costa do Épiro, impedindo a chegada de reforços e de provisões para César. E o outro comandante naval fiel aos Optimates, Lúcio Escribônio Libo, chegou a capturar as ilhas que dominavam a entrada do porto de Brundisium, reforçando ainda mais o bloqueio das operações navais de César.

Agora, de fato parecia que a audácia de César o tinha levado longe demais. Pompeu tinha muito mais legiões do que ele no Épiro e, além da inferioridade numérica, o seu exército não poderia mais receber suprimentos. E, naquele momento, parecia que o Épiro, assim como toda a Grécia, estavam do lado de Pompeu

Pompeu, diante das notícias, resolveu que era hora de se mexer e marchar em Direção à Apolônia, na costa do Épiro. Porém, César, com a velocidade que lhe era característica, chegou lá antes, e a cidade grega, surpreendentemente, recebeu-o de braços abertos.

Quando ficou sabendo da perda de Apolônia, Pompeu decidiu fazer uma marcha forçada para a boa posição defensiva na cidade de Dirráquio (atual Durres, na Albânia, ou, ainda, Durazzo, em italiano), a qual ele alcançou em 3 de dezembro de 49 A.C. Essa marcha forçada não foi um bom prenúncio para os partidários de Pompeu. Nela ficou patente que o grande general já estava ficando velho, e que as tropas recrutadas estavam despreparadas e desanimadas.

Agora, os dois exércitos estavam separados pelo rio Apsus : o de Pompeu acampado nas cercanias de Dirráquio, e o de César, nos arredores de Apolônia. Apesar do exército de Pompeu ser muito mais numeroso, o veterano general, em uma demonstração de falta de combatividade, ou talvez por não confiar na capacidade do seu exército, ao invés de atacar César, ficou acampado por dois meses em atitude de espera…

Enquanto isso, César vinha requisitando o envio de reforços com urgência, tendo ele chegado a dizer, acerca do seu receio de que navios fossem perdidos devido ao rigoroso inverno:

Eu preciso de soldados, não de navios!”.

Para a sorte de César, Marco Antônio, o seu braço-direito, conseguiu despistar o bloqueio naval de Libo, que havia perdido um pouco da eficiência depois da morte de seu colega Bíbulo, e desembarcou mais quatro das legiões de César na cidade de Nympheum, em fevereiro de 48 A.C.

Quando a notícia do desembarque de Marco Antônio chegou, quase ao mesmo tempo, aos dois acampamentos, Pompeu decidiu interceptar os recém-chegados reforços e impedir que eles se unissem a César. Pompeu tinha a vantagem de não ter que cruzar o rio e, na verdade, ele começara a marcha um pouco antes. Assim, ele escolheu um ponto para tentar emboscar as legiões de Antônio que avançavam. Antônio, porém, foi avisado por simpatizantes gregos dessa armadilha e resolveu permanecer acampado, protegido de um ataque inimigo por paliçadas, fossos e torres.

Pompeu percebeu que, agora, era ele quem corria o risco de ficar entre uma posição fortificada inimiga e o exército de César, e achou mais prudente voltar para Dirráquio, onde ele se entrincheirou de vez, seguido por César, que também começou a construir uma cadeia de paliçadas, fossos e torres de fortificação, de modo que ambos os líderes foram tornando o campo de batalha, de certa forma, parecido com o que se veria, quase dois mil anos depois, na 1ª Guerra Mundial.

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Permitir a junção das reforços de Antônio com as legiões de César com certeza foi uma derrota tática de Pompeu. Se antes, quando ele tinha superioridade de 3 para 1, ele não atacara César, agora, então, isso seria muito mais difícil…

O plano de Pompeu, agora, era esperar que César ficasse sem suprimentos, já que ele mesmo poderia continuar a recebê-los da Grécia. César, por sua vez, como demonstram os trabalhos de fortificação que ordenou, também esperava proteger as únicas linhas que tinha de suprimentos por terra, no Épiro, província que estava longe de ser abundante em recursos, já bem exauridos pelos recentes combates, e, sobretudo, se proteger dos ataques do inimigo, muito mais numeroso.

Curiosamente, à medida que o tempo ia passando, o trigo dos campos que se encontravam dentro do perímetro fortificado de César começou a crescer, enquanto que Pompeu passou a ter problemas de escassez de água, e, assim,  este é que passou a ficar na condição de sitiado.

Essa aflitiva situação em breve obrigaria Pompeu a ter que atacar para romper as linhas de César. Mas, nessa premência, Pompeu seria beneficiado por um golpe de sorte: Dois comandantes de cavalaria da tribo gaulesa dos Allobroges, auxiliares no exército de César, acusados de desviarem o soldo dos seus soldados, desertaram, e foram se unir a Pompeu. Eles revelaram muitos detalhes acerca das posições defensivas de César, sobretudo  apontando algumas posições ao sul das linhas, que não tinham ficado prontas.

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Vislumbrando uma grande oportunidade, Pompeu ordenou, em 10 de julho de 48 A.C., um ataque de 6 legiões contra o ponto fraco do inimigo, em um local onde a paliçada de César chegava até o mar, inclusive utilizando tropas ligeiras, que desembarcaram diretamente da água, naquele ponto.

Contando com superioridade numérica esmagadora, as legiões de Pompeu conseguiram romper o perímetro defensivo, fazendo recuar a IX Legião inimiga, com pesadas perdas. César deslocou 4 mil homens para o ponto fraco, sob o comando de Marco Antônio e contra-atacou, fazendo as tropas de Pompeu se refugiarem em um pequeno forte que, anteriormente, havia sido abandonado pelos soldados de César, que, por sua vez, resolveu desalojá-los de lá enviando 33 Cohortes de infantaria, apesar desse número ser metade do das legiões que estavam sendo atacadas.

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Ao contrário do que se esperava, as tropas de Pompeu lutaram tenazmente e ainda foram auxiliadas por um destacamento misto de cavalaria e infantaria que seu comandante enviou no calor da batalha para flanquear a retaguarda da ala direita dos soldados de César. Este tentou organizar uma retirada ordenada, mas os soldados entraram em pânico e correram para se proteger atrás dos muros de seus próprios acampamentos. Como resultado, César perdeu mil homens no ataque fracassado.

Mais uma vez, contudo, Pompeu hesitou no momento oportuno, e deixou de ordenar um ataque generalizado ao exército de César,  o qual teria grande probabilidade de lhe dar a vitória completa. Parece que ele, erroneamente, suspeitou que a retirada de César era uma armadilha ou, ainda, que a parada já estava ganha, e, por conta disso, acabou não fazendo nada, o que motivaria impiedoso comentário de César:

“Hoje a vitória teria sido dos Inimigos, se houvesse entre eles alguém que soubesse ganhá-la…”.

César decidiu se retirar do campo de Dirráquio e marchar para a Tessália, para onde ele já tinha enviado umas legiões sob o comando de Cneu Domício Calvino para confrontar as tropas de Pompeu lideradas por Cipião Násica.

Pompeu, da mesma forma, deixou o campo de batalha e seguiu para a Tessália. Embora, cautelosamente,  ainda achasse que não chegara a hora de lutar uma batalha decisiva, ele acabou sendo convencido pelo seu séquito de influentes senadores Optimates a perseguir César e o seu exército para forçar uma batalha decisiva.

O novo encontro ocorreria um mês depois em Farsália, e seria a batalha decisiva da Guerra Civil, embora o conflito não terminasse com ela…

 

A BATALHA DE CHÂLONS

A BATALHA DE CHÂLONS

Em 20 de junho de 451 D.C, (data mais aceita), um exército composto de aliados romanos, visigodos e alanos enfrentou o exército comandado por Átila, o Huno, que vinha devastando a Gália.

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A batalha ocorreu próximo à cidade de Aurelianum (a moderna Orléans), no lugar então conhecido como “Campos Cataláunicos”, cuja exata localização ainda é objeto de controvérsias.

Átila, que, juntamente com o seu irmão Bleda,  tinha se tornado rei dos Hunos em 435 D.C, que tinham sido unificados pelo seu antecessor, Rugila. Este, aproveitando- se do enfraquecimento do Império Romano, a partir da derrota para os Visigodos na Batalha de Adrianópolis, conseguira extorquir dos Romanos o pagamento anual de um tributo de ouro aos  Hunos para que esses não atacassem o Império. Átila, conseguiu renovar esse tributo após um acordo com embaixadores romanos enviados pelo imperador TEODÓSIO II e resolveu atacar o Império Persa, porém sem sucesso.

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Assim, em 440 D.C., Átila decidiu voltar a fazer incursões contra o Império Romano do Oriente, sob o pretexto de que os romanos não vinham cumprindo suas obrigações estipuladas pelo Tratado, devastando as províncias fronteiriças ao Danúbio, e, em seguida, a Ilíria e os Bálcãs.

Porém, por volta de 445 D.C., a ofensiva huna foi detida pelas imponentes muralhas de Constantinopla, e Teodósio II resolveu negociar, aceitando pagar o triplo do tributo anteriormente previsto,  além de 6 mil libras de ouro como reparação ( quase duas toneladas).

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Momentaneamente saciados, Átila, Bleda e os seus hunos se retiraram para o seu território.

Antes de 450 D.C., Átila,  tornou-se o único rei dos Hunos, após a morte de Bleda (que, segundo uma versão, foi assassinado pelo irmão) e voltou a atacar o Império Romano do Oriente, mas, novamente,  ao entrar na Grécia, constatou que Constantinopla tinha sido reforçada e tinha condições de lhe resistir novamente. Ele, assim, preferiu garantir a continuidade do pagamento do tributo e exigiu terras.  Quanto a essa última exigência, o governo imperial adotou a estratégia de “fazer cera” e prolongou ao máximo as negociações.

Átila, entretanto, desviou a sua atenção para o Ocidente. A princípio, consta que ele foi instigado pelo rei Geiserico, dos Vândalos, a atacar a Gália, parcialmente ocupada pelos Visigodos, de quem os primeiros eram inimigos.

O fato é que, até então, os  Hunos haviam poupado o Ocidente de suas investidas muito em função das boas relações que o marechal Flávio Aécio, o comandante-em-chefe do Exército do Império Romano do Ocidente tinha com eles, pois havia passado a sua juventude como refém dos bárbaros.

Assim, foi grande a consternação na corte de Ravenna quando, na primavera de 450 D.C., eles  receberam  um ultimato de Átila para que a Gália fosse entregue aos Hunos por um motivo bem inusitado:   Justa Grata Honória, a irmã do imperador romano do Ocidente, Valentiniano III, que havia sido presa por ter engravidado de um camareiro, conseguiu enviar a Átila uma correspondência contendo um pedido de socorro, acompanhado de um anel,  mais provavelmente como prova de sua identidade. Contudo, o rei bárbaro aproveitou esse pretexto para anunciar aos Romanos que a princesa romana agora era sua noiva, o que lhe dava, segundo o costume bárbaro, o direito de exigir um dote: Metade do Império do Ocidente!

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Embora não se tenha razão para duvidar da existência da carta de Honória, que era reconhecidamente uma mulher voluntariosa e ambiciosa, o fato é que o verdadeiro motivo para Átila voltar sua atenção para o Império Romano do Ocidente era o simples fato de que ele já tinha saqueado o Oriente à exaustão, sem contudo, ser capaz de saquear a sua principal cidade, a capital Constantinopla. Portanto, ele concluiu que agora era chegada a hora de sugar as entranhas da rica Gália.

Em 451 D.C, sob o pretexto de atacar os visigodos, uma imensa horda huna, acrescida por várias tribos germânicas súditas de Átila, tais como os Ostrogodos, Hérulos, Sciri, Gépidas e alguns contingentes de Alanos e de Francos Ripuários dirigiu-se para a Gália e rapidamente tomou Metz, Reims, Mogúncia, Estrasburgo, Colônia, Worms e Trier que foram saqueadas e incendiadas.

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O comandante-em Chefe do Exército Romano do Ocidente, o marechal Flávio Aécio, porém, conseguiu formar uma aliança com os Visigodos, Francos Sálios e Alanos, que se uniram a um pequeno contingente de tropas romanas tradicionais. Quando se aproximaram de Orleans, sitiada pelos hunos, Átila prudentemente teve que abandonar o cerco e rumou para o campo aberto, ao norte da cidade, no local chamado de locus mauriacus ou Campos Cataláunicos (Châlons), na Champanha, onde montou seu acampamento (O real local da batalha ainda é debatido e alguns defendem que ela tenha ocorrido em Troyes),

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No dia 19 de junho de 451 D.C., o exército aliado chegou às proximidades do acampamento de Átila e houve uma escaramuça entre os francos aliados e as tropas gépidas de Átila.

No dia seguinte, 20 de junho de 451 D.C., Átila aguardou até cerca de 15h da tarde e ordenou um ataque ao exército aliado.

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Travou-se uma sangrenta batalha onde os contingentes aliados Visigodos e Alanos aguentaram a maior parte da carga dos guerreiros hunos. Os Romanos colaboraram ocupando uma importante elevação na planície, onde se postaram em tradicional formação cerrada, protegidos por escudos.

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A batalha entrou pela noite. Em posição desfavorável, Átila acabou ordenando uma retirada, sem que houvesse uma perseguição por parte dos aliados romanos. Teodorico I, rei dos Visigodos, também morreu no combate (Alguns estudiosos defendem que a tumba de um guerreiro germânico do século V D.C., encontrada em Pouan, seja de Teodorico.  Isso também reforçaria o argumento de que a batalha ocorreu próximo a Troyes).

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Foi certamente o auge da carreira de Aécio. Logo após a retirada de Átila, ele convenceu Thorismund, filho de Teodorico, a desistir de perseguir os Hunos a fim de vingar o seu pai morto e retornar para Toulouse, para evitar que os demais irmãos dele assumissem o trono visigodo. Para o historiador dos Godos, Jordanes, a real intenção de Aécio em impedir que os Hunos fossem completamente destruídos, era com isso evitar que os Visigodos rompessem a aliança com os Romanos e atacassem o Império.

Muitos historiadores consideram (para outros com algum exagero), que esta foi uma das batalhas mais importantes da História, e o historiador romano-bizantino Procópio chamou Aécio de “O Último dos Romanos“. Há até quem defenda que foi esta vitória que assegurou a continuidade da civilização ocidental na Europa (eu também considero isto um exagero). O fato é que é difícil chegar a uma conclusão, pois Átila morreria dois anos depois e o seu império se esfumaçou tão rápido como surgira.

Certamente Châlons não foi uma vitória esmagadora, pois, no ano seguinte os Hunos  invadiriam a Itália, destruiriam Aquileia, sem serem perturbados e somente se retiraram, por motivos até hoje ignorados, após uma conferência de Átila com uma embaixada do Papa Leão I. Acredita-se que Átila tinha problemas de suprimentos e temor de que seu exércitos contraísse a Peste que grassava na Península.

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Todas as fontes antigas, porém, são unânimes em relação ao grande número de mortos de todos os envolvidos na Batalha de Châlons (“cadavera vero innumera“).

De qualquer modo,é possível que a Batalha de Chalôns tenha deixado um outro legado permanente: Cerca de 3 mil nativos do Município de Anniviers, que fica em um vale quase inacessível no Cantão de língua francesa de Valais, na Suíça, alegam serem descendentes dos Hunos.

Efetivamente, muitos habitantes apresentam características morfológicas de povos asiáticos, e os nomes de muitos lugares não tem qualquer semelhança com o francês falado na região, nem com qualquer outra língua européia, t(tais como Penszék, Kuimez, Luk, Náva, Návaszék, Kalló, Barma), Eles parecem mais com nomes húngaros, uma língua que pertenceria ao mesmo tronco da língua falada pelos Hunos.

Além disso, há na localidade uma incidência muito grande de crianças que nascem com a chamada “mancha mongol”, uma mancha azulada temporária e inofensiva de nascença,prevalente entre os povos asiáticos.

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Uma corrente acredita que os habitantes de Anniviers seriam descendentes de Hunos sobreviventes da Batalha de Chalôns, deixados para trás pela retirada de Átila, e que foram se instalar no inacessível vale alpino…

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BATALHA DE POLLENTIA

 

Em 6 de abril de 402 D.C, em Pollentia, próximo à atual Asti, no norte da Itália, o exército visigodo do rei Alarico celebrava o domingo de Páscoa.  Os Visigodos eram cristãos que professavam a “heresia” ariana,  e, por conta disso, eles fizeram uma pausa na luta contra o exército romano do general Stilicho (Estilicão), para festejar o dia santo, e, certamente, acreditaram que os romanos fariam o mesmo…

Os Godos vinham sendo um espinho na carne do Império desde 378 D.C, quando, em uma das maiores catástrofes militares sofridas pelos romanos, um exército de cerca de 20 mil Godos, liderados pelo Chefe Fritigern, de um total de 200 mil que tinham cruzado o Danúbio e se refugiado no Império Romano do Oriente,entrincheiraram-se próximo à cidade de Adrianópolis e derrotaram o exército romano comandado pelo imperador Valente,  matando cerca de 40 mil soldados romanos, na chamada Batalha de Adrianópolis, incluindo o próprio imperador.

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A horda goda vagou pela Trácia e outras províncias orientais causando muito estrago, mas acabou sendo contida pelo imperador Teodósio I, que com eles celebrou um tratado de paz, em 382 D.C. Pela primeira vez, na História de Roma, um povo bárbaro inteiro foi admitido como foederati (aliados) dentro das fronteiras do Império Romano. Embora os Visigodos estivessem formalmente obrigados a prestar serviço militar à Roma, eles podiam fazê-lo sob o comando de seus próprios chefes. Os Godos, então, receberam autorização para se assentar na província da Mésia.

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Teodósio, dessa forma,  conseguira o seu objetivo de conter a ameaça goda, pois, durante o resto do seu reinado, os Godos respeitaram o tratado. Assim, quando, no final de seu reinado, em 394 D.C, na Batalha do Rio Frígido, Teodósio teve que combater o usurpador Eugênio, que havia sido colocado no trono como fantoche pelo general de origem franca Arbogaste, vinte mil visigodos combateram ao lado de Teodósio, e foram eles quem suportaram o maior castigo.

As derrotas militares sofridas na Pérsia, em 363 D.C, e nos confrontos com os Godos em Adrianópolis, em 378 D.C e no período logo a seguir, tinham destroçado boa parte do efetivo militar romano, e Teodósio preferiu, ou foi forçado pelas circunstâncias, a recrutar bárbaros para completar as fileiras desfalcadas do Exército.

Entretanto, logo após a Batalha do Rio Frígido, Teodósio morreu, deixando como sucessores, seus filhos Honório, na metade ocidental do Império, cuja capital era Milão, e Arcádio, na metade oriental, cuja capital era Constantinopla.

Os dois novos imperadores eram ainda crianças, e assim, Honório teve como tutor e virtual regente do Império do Ocidente o general Flávio Estilicão, filho de pai Vândalo e de mãe romana; já Arcádio, naquele momento, era controlado pelo ministro Rufino.

 

Com a morte de Teodósio, os Visigodos sentiram-se estimulados a exigir grandes recompensas pelo sacrifício que tinham feito no Rio Frígido. Seu rei agora era o astuto e competente Alarico, que ambicionava nada menos do que o cargo de Magister Militum per Illyricum, ou seja, marechal do exército da Ilíria, o que obteve após devastar a província da Grécia.

Alarico aproveitou o cargo, que lhe dava acesso aos arsenais romanos, para equipar o seu exército e saquear até a exaustão, durante cerca de cinco anos, as províncias da Dácia e da Macedônia.

Procurando novas regiões que oferecessem a perspectiva de mais e polpudos saques, mas, considerando que a capital do Oriente, Constantinopla, era inexpugnável para os bárbaros, Alarico voltou sua atenção para o Ocidente e dirigiu-se para a capital Milão.

A corte de Honório, julgando Milão vulnerável, resolveu se mudar para Arles, na Gália, contudo Alarico mandou ocupar os passos alpinos com sua cavalaria e ao mesmo tempo cercou Milão, obrigando Honório a se refugiar na cidade fortificada de Hasta (a moderna Asti, na Liguria).

Fazendo um movimento que denotava que ele visava capturar o próprio imperador, Alarico partiu para sitiar Hasta, iniciando o cerco em fevereiro de 402 D.C. Porém, mesmo após  terem se equipado com armas romanas, os visigodos ainda não dominavam a arte da guerra de sítio e Honório tinha uma boa expectativa de que os bárbaros suspenderiam o cerco devido à fome ou doenças.

O general Estilicão, enquanto isso, estava ocupado com a luta contra incursões bárbaras dos Vândalos e dos Alanos nas fronteiras da província da Récia. Quando a notícia do cerco chegou ao seu conhecimento, Estilicão conseguiu reunir tropas romanas do Reno e da Britânia e também recrutou os próprios guerreiros alanos e vândalos que ele estava combatendo, para vir em socorro do Imperador.

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Assim, quando Estilicão e seus homens chegaram, os Visigodos foram forçados a recuar para Pollentia (Polenza),

Estilicão chegou a Pollentia no dia 06 de abril e hesitou em lutar no domingo de páscoa, um dia sagrado para os soldados cristãos. Porém os homens, especialmente os aliados alanos, queriam lutar imediatamente e Estilicão resolveu aproveitar o élan deles para fazer um ataque da cavalaria alana sobre os desatentos visigodos.

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O ataque foi repelido, mas Estilicão acudiu com a infantaria e os Alanos se reanimaram. Na confusão, os Visigodos acabaram deixando o seu acampamento exposto e Estilicão conseguiu capturar a esposa de Alarico e seus filhos. Todavia, as indisciplinadas e barbarizadas tropas que agora constituíam agora o exército romano, ao invés de perseguirem os Visigodos, entregaram-se a pilhagem do acampamento inimigo, que estava repleto do produto dos saques que aqueles bárbaros haviam feito desde Adrianópolis, mais de 20 anos antes.

Após a Batalha de Pollentia, Alarico reagrupou suas forças e recuou para Verona, onde, em junho de 402 D.C, seria novamente derrotado, porém, mais uma vez, Estilicão falharia em destruir o rei visigodo e seu exército. Ele seria criticado duramente pelos historiadores por ter deixado Alarico escapar e, em vista disso, até a sua lealdade ao Império Romano seria questionada, o que parece duvidoso considerando toda a sua trajetória. Ele, por exemplo, não resistiu quando, anos mais tarde, foi preso em um motim fomentado por seus adversários na Corte e aceitou resignadamente a sua sentença de morte, executada em 22 de agosto de 408 D.C.

A principal consequência dos eventos narrados foi a mudança da capital do Império Romano do Ocidente de Milão para Ravenna, fato que facilitaria o posterior saque de Roma, em 410 D.C, por Alarico e seus visigodos. Essa mudança, segundo muitos historiadores, foi uma decisão errada, pois ocorreu em detrimento da defesa da fronteira do Reno, o que expôs a Gália, a maior e mais rica província do Ocidente, a mais ataques dos bárbaros. Para Arther Ferril (“A Queda do Império Romano, a Explicação Militar”), naquele momento, para o Império Romano do Ocidente o mais importante estrategicamente era a defesa da Gália, o que recomendaria até a instalação da capital em Arles).

A BATALHA DE MUNDA

No dia 17 de março de 45 A.C, na planície de Munda, próximo ao atual vilarejo de Lantejuela, na Andaluzia, os exércitos liderados pelo Ditador de Roma, Caio  Júlio César, e pelos líderes da facção senatorial dos Optimates, Cneu Pompeu e Publius Attius Varus, bem como pelo general ex-partidário de César, Tito  Labieno, se enfrentaram em uma terrível batalha, que seria a última travada no contexto da Guerra Civil.

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Após a morte de Pompeu Magno, no Egito, os Optimates (os defensores dos privilégios da aristocracia senatorial )resolveram continuar a guerra contra César. Assim, eles conseguiram reunir, na África, um exército de 40 mil soldados liderado pelos velhos inimigos de César: Catão, o Jovem e Metelo Cipião, e pelo inimigo mais recente, Tito Labieno, que, surpreendentemente, abandonara seu antigo líder e se bandeara para o lado dos Optimates. Foram se juntar a eles,  na atual Tunísia, os dois filhos de Pompeu, Cneu Pompeu e Sexto Pompeu. E os adversários de César ainda contariam com a ajuda do rei Juba, da Numídia.

César deixou Roma e partiu para a África, conseguindo sitiar os Optimates na cidade de Tapsos.  Na batalha que se seguiu, em 06 de abril de 46 A.C, os Optimates foram derrotados e, em decorrência, Catão, o Jovem e Metelo Cipião cometeram suicídio.

Enquanto isso, Cneu e Sexto Pompeu conseguiram fugir para a Espanha, para onde também escapou Labieno. Na Espanha, os três conseguiram formar um novo exército, incluindo duas legiões que tinham desertado do exército de César e eram formadas por veteranos das campanhas de Pompeu Magno. Vários outros veteranos de Pompeu tinham sido assentados na Espanha e, demonstrando fidelidade a seu falecido comandante, juntaram-se aos Optimates. Com esse exército, totalizando treze legiões, eles tomaram boa parte da Espanha, forçando os dois comandantes das forças leias a César, Quintus Pedius e Quintus Fabius Maximus, a se refugiarem na cidade de Oculbo (distante cerca de 50 km da atual Córdoba). De lá, os sitiados pediram ajuda a César.

César, cuja qualidade mais impressionante como general talvez fosse a velocidade com que conseguia que suas tropas se deslocassem, marchou os 2.400 km que separavam Roma de Oculbo em apenas 27 dias, e, com essa aparição súbita, conseguiu levantar o sítio.

A rapidez com que decidiu agir somente permitiu que César trouxesse consigo as legiões  nas quais ele mais confiava; a X Equestris e a V Alaudae (esta era uma legião formada por gauleses e é considerada a primeira legião romana formada por não-cidadãos), além de duas legiões recém formadas, a III Gallica e a VI Ferrata . Ele também recrutou, entre os cidadãos romanos que viviam na Espanha, mais quatro legiões.

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O exército de César tentou sitiar a importante cidade de Corduba (atual Córdoba) sem sucesso, e Cneu e Sexto Pompeu, aconselhados por Labieno, decidiram adotar uma estratégia defensiva, o que obrigou César a se preparar para passar o inverno na região, o que lhe obrigou a procurar os mantimentos necessários.

Porém, ainda durante o inverno, o exército de César conseguiu capturar a importante cidade de Ategua, obtendo suprimentos e infligindo uma derrota que enfraqueceu o moral do exército dos Optimates, que começou a experimentar deserções.

Assim, com a chegada do fim do inverno, pressionados pela queda do moral de suas tropas, os Optimates resolveram finalmente enfrentar o exército de César em uma batalha campal, em uma planície situada a uma milha das muralhas da cidade de Munda.

O exército dos dos Pompeianos tendo se desdobrado primeiro em ordem de batalha, escolheu uma elevação suave na planície, dando-lhe uma posição mais favorável. Eles comandavam uma força de treze legiões, mais seis mil auxiliares, além de seis mil cavaleiros, em um total de cerca de 70 mil homens.

César comandava oito legiões, com mais oito mil cavaleiros, totalizando cerca de 40 mil homens, sendo que no seu flanco direito, ele posicionou, como de costume, a sua estimada X Legião.

César ordenou que o seu exército parasse a uma certa distância da planície, tentando atrair o inimigo e fazê-lo descer a colina, sem sucesso, já que eles apenas avançaram um pouco, sem deixar a sua posição vantajosa. Suas próprias tropas não gostaram dessa pausa no seu avanço, achando que isso atrasaria a fácil vitória que eles pensavam que iriam obter.

Então, César deu o comando para o ataque, utilizando a senha “Vênus” (a deusa de quem a sua família julgava descender) e suas legiões avançaram soltando um grito de guerra.

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Dessa vez, os Pompeianos estavam dispostos a tudo para vencer, afinal muitos dos seus soldados já tinham sido perdoados por César e, por voltarem a combatê-lo, acreditavam que desta vez não teriam clemência.

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 No calor dos furiosos combates, César teve que desmontar e lutar ao lado da infantaria. Em dado momento, indo para um ponto onde as suas tropas começavam a fraquejar, ele retirou o seu elmo para que os soldados pudessem vê-lo e se sentirem encorajados ou envergonhados por ele ser obrigado a combater junto deles. Não surtindo muito efeito isso, consta que César tirou um escudo das mãos de um legionário e falou para os seus oficiais:

Isto será o fim da minha vida e também das suas carreiras militares“.

Então, César avançou para a frente de batalha, chegando a ficar a apenas três metros do inimigo, que atirou cerca de duzentas lanças em sua direção,  tendo César conseguido desviar da maioria e os outros cravando-se no seu escudo. Nesse momento, todos os tribunos correram para ele, colocando-se ao seu redor e todo o exército avançou.

Mais tarde,  César diria:

Inúmeras vezes, eu lutei pela vitória; em Munda, eu lutei pela minha vida !

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A encarniçada luta se estenderia por oito horas, até que a X Legião começou a prevalecer sobre a ala esquerda do exército dos Pompeianos. Cneu Pompeu, percebendo o perigo, retirou uma legião da sua ala direita para reforçar a sua ala esquerda ameaçada. Porém, o rei Bogud, da Mauritânia, que comandava a cavalaria de César, percebendo o consequente enfraquecimento da ala direita inimiga, ordenou uma carga contra a retaguarda de Pompeu.

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Labieno viu o ataque da cavalaria de César e deslocou várias unidades para contê-lo, todavia o movimento foi mal interpretado pelo seu exército, que pensou, equivocadamente, que se tratava de uma retirada. O exército pompeiano já estava sob forte pressão em ambos os flancos e quando eles viram várias da suas unidades recuando para fazer a manobra ordenada por Labieno, o pânico se instalou e as suas linhas começaram a se dissolver devido a debandada dos soldados pompeianos apavorados.

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Como era frequente nas batalhas da antiguidade, a grande matança se dava após uma debandada. Assim, morreram trinta mil soldados do exército pompeiano, contra apenas mil mortos das tropas de César.

Labieno tombou na Batalha de Munda, recebendo de César o devido funeral, mas Cneu e Sexto Pompeu conseguiram escapar. Porém, um mês depois, o primeiro  na Batalha de Lauro, onde lutou até a morte. Já Sexto Pompeu ainda lideraria, anos mais tarde, uma rebelião na Sicília,  depois do assassinato de César. Ele somente seria morto por Marco Antônio, em 35 A.C.

14 mil soldados pompeianos ainda conseguiram fugir para Munda, sendo sitiados pelo legado de César, Quintus Fabius Maximus. Córdoba já havia caído e Munda acabou se rendendo.

Este foi o último conflito da Guerra Civil iniciada quando César cruzou o rio Rubicão, quatro anos antes. Deve ter parecido a muitos que César e os Populares tinham derrotado completamente os Optimates e que uma nova era iria começar.

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Porém, havia, em Roma, um núcleo duro da facção dos Optimates que ainda estava disposto a resistir, mesmo sem exércitos…